Full text
49
VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010
Qualidade de ida
Cândida Pin o é p o esso a-coo denado a na Escola Supe io de
En e magem do Po o, licenciada em En e magem (á ea de Saúde
In an il e Pediá ica), e dou o ada em Psicologia á ea de especia-
lização Psicologia da Saúde pela Faculdade de Psicologia e Ciên-
cias de Educação da Uni e sidade do Po o.
José Luís Pais Ribei o é p o esso associado com ag egação da
Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da Uni e sidade
do Po o.
Subme ido à ap eciação: 9 de Ma ço de 2009
Acei e pa a publicação: 28 de Ab il de 2009
A aliação da espi i ualidade
dos sob e i en es de canc o:
implicações na qualidade de ida
CÂNDIDA PINTO
JOSÉ LUÍS PAIS RIBEIRO
A in e ace en e a dimensão espi i ual e a saúde em indo
a o na -se uma á ea c escen e na in es igação nos úl imos
anos. A dimensão espi i ual é desc i a como sendo ele-
an e na a ibuição de signi icado ao so imen o p o ocado
po uma doença c ónica, e ambém como um ecu so de
espe ança ace às mudanças no es ado de saúde. O canc o
é uma das doenças que ameaça o sen ido de in eg idade da
pessoa e, mesmo quando os sin omas ísicos se o nam
menos p eocupan es, as ques ões espi i uais que su gi am
no p ocesso da doença pe manecem.
Com o p esen e es udo p e endeu-se analisa as di e enças
da espi i ualidade de aco do com as a iá eis sócio-demo-
g á icas e clínicas num g upo de sob e i en es de canc o;
a alia a co elação en e as dimensões da espi i ualidade
e a qualidade de ida.
Ma e ial e mé odo: Pa icipa am nes e es udo 426 pessoas
que inham ido uma doença oncológica. Os pa icipan es
p eenche am um ques ioná io sócio-demog á ico, a escala
de espi i ualidade, e o QLQ-C30.
Resul ados: Fo am encon adas di e enças es a is icamen e
signi ica i as en e as dimensões da espi i ualidade e as
a iá eis sócio-demog á icas e clínicas. Ve i icou-se um
alo mode ado, embo a signi ica i o en e a espi i uali-
dade e a qualidade de ida. In e e-se que a espi i ualidade
é is a como um concei o único que es á elacionado com a
qualidade de ida, con udo pe manece concep ualmen e
dis in o.
Conclusão: Os esul ados des e es udo e o çam a ele ân-
cia de uma pe spec i a in eg al do sujei o, quando objec o
de cuidados de saúde. To na-se necessá ia o desen ol i-
men o de in es igação u u a no sen ido de alida es es
mesmos esul ados.
Pala as-cha e: espi i ualidade; sob e i en es de canc o;
qualidade de ida.
1. In odução
A p e alência das doenças c ónicas nos países di os
desen ol idos em e idencia a inope ância de uma
abo dagem cen ada exclusi amen e na doença, pois
há que pe cebe as consequências psicológicas,
sociais e cul u ais no p ocesso de ges ão da doença.
É nes e sen ido, que começam a su gi á ios es udos
que aba cam a dimensão espi i ual dos indi íduos
50 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Qualidade de ida
com doença c ónica, nomeadamen e o canc o
(Johnson, 2002; Laubmeie , Zakowski e Bai , 2004;
Me a iglia, 2006).
Apesa dos a anços no diagnós ico e a amen os das
doenças oncológicas e em pe mi ido um aumen o
conside á el de sob e i en es, es e ipo de doença
con inua associado a uma ep esen ação social nega-
i a (Powe e Finnie, 2003), o que le a a ques iona o
signi icado da ida, dado o con on o com a hipó ese
de ini ude.
É nes e âmbi o que eme ge a espi i ualidade, como
uma dimensão ele an e do se humano e que a di e-
encia de ou os se es i os.
2. Espi i ualidade/saúde
Apesa da espi i ualidade se mui as ezes usada
como sinónimo de eligiosidade, há a necessidade de
enca a a espi i ualidade de uma o ma no a e adap-
ada aos empos ac uais.
Assim, a eligião ou eligiosidade es á habi ualmen e
associada ao g au de pa icipação ou adesão às c en-
ças e p á icas de um sis ema eligioso (Muelle ,
Ple ak e Rummans, 2001). Po sua ez, a espi i ua-
lidade é um concei o mais amplo que a eligião,
sendo conside ada uma dimensão do se humano que
p ocu a a a ibuição de signi icados a a és do sen-
ido de elação com dimensões que anscendem o
p óp io, expe imen ada po in e conecções in apes-
soais, in e pessoais e anspessoais (Reed, 1992
ci ado po Taylo , 2003).
Nes e sen ido, a espi i ualidade é econhecida hoje
em dia como uma componen e essencial de uma p á-
ica holís ica, podendo e um impac o signi ica i o
na saúde. No en an o, apesa do c escen e in e esse
nes a á ea, a p e alência de um discu so posi i is a
agnós ico dos sabe es de endidos como «cien í icos»
alimen a ainda, no século XXI, a descon iança ace a
ou os pa adigmas que comp o am a sua ele ância
na comp eensão do se humano.
O Na ional Cance Ins i u e (2006) de ine espi i uali-
dade como os sen imen os e c enças p o undas, mui as
ezes eligiosas, incluindo um es ado de paz, conexão
aos ou os e as c enças sob e o signi icado e o p opó-
si o da ida. O canc o é uma das doenças que ameaça
o sen ido de in eg idade da pessoa e, mesmo quando
os sin omas ísicos se o nam menos p eocupan es, as
ques ões espi i uais que su gi am no p ocesso da
doença pe manecem. Segundo Taylo (2003), mesmo
quando é di o às pessoas que o canc o es á cu ado,
mui as ezes con inuam a ques iona Deus po que
pe mi iu que isso lhes i esse acon ecido.
Independen emen e do p ognós ico, após a ase
ac i a da doença há que aze ace a mudanças e
ans o mações capi ais desencadeadas pelo canc o e
a amen os, que de e minam como uma «pa agem
psíquica», cons a ando-se um «an es» e um «depois»
(Solana, 2005).
O « inal da linha» da expe iência de um canc o de e
se comp eendido endo em conside ação a dú ida
que deco e da ameaça de qualque diagnós ico
oncológico, a qual consequen emen e induz a ince -
eza sob e a possibilidade de es a e ec i amen e
cu ado (Clay on, Mishel e Belyea, 2006; Ronson e
Body, 2002).
Apesa de não se encon a em consensos sob e o
concei o de sob e i en e de canc o, uma das e e ên-
cias mais ac uais de e mina es e concei o como a
pessoa a quem oi diagnos icado um canc o, e que já
e minou os a amen os p e is os (Feue s ein, 2007).
Nes e âmbi o, as necessidades espi i uais de pessoas
com canc o, iden i icadas no es udo de Moadel e al.
(1999), são: espe ança; signi icado de ida; ecu sos
espi i uais; paz de espí i o e p oblemas elacionados
com a mo e e o mo e . Po sua ez, a espe ança é
assumida como pa icula men e ele an e pa a quem
en en a um canc o (Moadel e al., 1999;
Wonghongkul e al., 2000), pelo que os p óp ios
alo es e c enças ajudam a cons ui a espe ança, a
encon a signi icado na p óp ia ida. Nes e sen ido,
a espi i ualidade, assumida como a ibuição de signi-
icado à ida, media iza os e ei os do canc o
(Me a iglia, 2006).
Hoje exis e um consenso de que a dimensão espi i-
ual es á elacionada com a qualidade de ida dos
doen es em ge al, e os doen es do o o oncológico
em pa icula .
Assim, e no decu so do p ocesso de o mação (Pin o,
2008), oi desen ol ido um abalho de in es igação
com a inalidade de con ibui pa a o p ocesso de
iden i icação e comp eensão de a iá eis psicosso-
ciais associadas à op imização da saúde e qualidade
de ida das pessoas que i e am um canc o. Nes e
con ex o oi desen ol ida uma escala de a aliação da
espi i ualidade (Pin o e Ribei o, 2007).
Os i ens dessa escala deco e am da combinação da
análise do cons uc o eó ico, dos i ens da dimensão
espi i ual do Quali y o Li e — Cance su i o QOL
— CS (Fe ell, Dow e G an , 1995) e da subescala da
espi i ualidade do ins umen o da Wo ld Heal h
O ganiza ion Quali y o Li e Ques ionnai e
(WHOQOL) (Fleck e al., 2003). Resul am ainda, do
con ac o/en e is as com pessoas que i e am o can-
c o, endo-lhes solici ado que desc e essem como
pe spec i am a dimensão espi i ual da ida e como a
doença in e e iu nessa dimensão. De ac o, uma
g ande pa e das pessoas a ibuiu o concei o de espi-
i ualidade à ques ão elacionada com a é eligiosa,
azendo menção a p á icas ou de oções especí icas.
51
VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010
Qualidade de ida
Eme ge nes e sen ido, como impo an e a dimensão
e ical da espi i ualidade e e ida po S oll (1989)
ci ado po Tanyi (2002), que es á elacionada com a
elação com o anscenden e, com o di ino. No
en an o, in e c uzando o discu so das pessoas e o
e e encial eó ico, apa ece como igualmen e signi i-
ca i o uma pe spec i a posi i a da ida, pelo que
ca ac e ís icas como espe ança, op imismo, sa is a-
ção/ alo ização da ida, o am os p essupos os na
elabo ação das ques ões des a escala. Pode-se aqui
in e i a dimensão ho izon al e e ida po S oll
(1989) e ci ada po Tanyi (2002), na qual a elação
com os ou os, com o meio e consigo p óp io pode
e o ça a ligação e o sen ido de ida.
Ti emos ainda como in ui o a cons ução de uma
escala simples e pequena, sem edundâncias, que
pe mi isse uma boa acei ação/comp eensão das pes-
soas, que e idenciam alguma di iculdade bem
pa en e quando se p ocede à colhei a de dados em
amos as clínicas.
3. Mé odo
3.1. Pa icipan es
Fo am inqui idos 426 sujei os, a ando-se de uma
amos a de con eniência, sequencial, não p obabilís-
ica. A colhei a oi e ec uada em consul as de ollow-up.
Os c i é ios es abelecidos pa a a pa icipação no
es udo o am e idade igual ou supe io a 18 anos,
e em ido uma doença oncológica pa a a qual já
inham e minado os a amen os. A pa icipação no
es udo e a olun á ia, endo sido assegu ado a con i-
dencialidade dos dados.
A amos a é cons i uída po 31,9% de sujei os do
sexo masculino, e 68,1% eminino, sendo que a
idade ap esen a os seguin es alo es (M = 51,1;
DP = 15,3). Quan o aos dados clínicos, 38,9%
inham ido canc o da mama, 22,1% canc o hema o-
lógico, 16 % canc o do o o diges i o, 5,9% canc o
u ológico/ginecológico, e 17,1% ou o ipo de can-
c o. Tendo em con a a o alidade dos inqui idos,
e i icamos que 79,6% já inham e minado os a-
amen os há mais de um ano.
3.2. Ins umen os
A escala de espi i ualidade con ém cinco i ens que
quan i icam a conco dância do indi íduo com ques-
ões elacionadas com a dimensão da espi i ualidade.
As espos as podem a ia en e o «Não conco do» (1),
«Conco do um pouco» (2), «Conco do bas an e» (3),
«Plenamen e de aco do» (4).
Da análise ac o ial esul a am duas sub-escalas, uma
cons i uída po dois i ens que se e e em a uma
dimensão e ical da espi i ualidade, a que denomi-
namos «C enças» e ou a cons i uída po ês i ens
que se e e em a uma dimensão ho izon al da espi i-
ualidade, endo sido denominada «Espe ança/op i-
mismo» (Pin o e Ribei o, 2007).
A co ação de cada sub-escala é e ec uada a a és da
média dos i ens da mesma. Exemplo:
C enças = (Esp1+ Esp2)/2;
Espe ança/op imismo = (Esp3+ Esp4+ Esp5)/3.
Quan o maio o alo ob ido em cada i em, maio a
conco dância com a dimensão a aliada.
Pa a a a aliação da qualidade de ida eco emos ao
EORTC-QLQ-C30 «Eu opean O ganiza ion o
Resea ch and T ea men o Cance Co e Quali y o
Li e Ques ionnai e», que numa e isão bibliog á ica
e ec uada se e elou um dos ins umen os mais u iliza-
dos na população de doen es oncológicos independen-
emen e da ase da doença (Pin o e Ribei o, 2006).
4. Resul ados
Os esul ados es imados a pa i da análise de signi-
icância es a ís ica le am-nos a in e i que quan o ao
géne o (Quad o I), a espi i ualidade assume um alo
supe io pa a as mulhe es, que na dimensão das
c enças, como na da espe ança/op imismo.
Quad o I
Compa ação de médias em unção do géne o — escala da espi i ualidade
Géne o
Escalas Homens Mulhe es Di e ença Valo de p
n= 136 n= 290 de médias
C enças 3,02 3,42 –0,40 –4,28 p< 0,01
Espe ança/op imismo 2,71 2,95 –2,84 –2,38 p< 0,01
52 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Qualidade de ida
A isso não se á alheio ac o es de o dem cul u al, em
que a dimensão eligiosa/espi i ual é assumida como
mais ele an e pelas mulhe es. Também as pessoas
mais elhas assim como as pessoas que se encon am
na si uação de e o mados, a que es a á de algum
modo associada a mais idade, ap esen am médias
supe io es em elação às c enças, pelo que se pode
in e i que u ilizam mais equen emen e esses ecu -
sos. Es es esul ados são ambém e iden es em es udos
an e io es (Mcillmu ay e al., 2003; Neg ei os, 2003).
O es udo da co elação en e as dimensões da espi i-
ualidade e a idade e elou uma co elação baixa e
posi i a (p<0,05) en e a idade a dimensão das
c enças, e uma co elação baixa mas nega i a
(p<0,01) en e a idade e a dimensão da espe ança/
/op imismo (Quad o II).
Apesa de na maio ia das si uações a espi i ualidade
nos idosos es a acoplada à ideia de eligiosidade, é
na u al e salu a , que com o a ança da idade, se
en e olha a ida numa no a pe spec i a, p ocu ando
da -lhe um sen ido, uma in eg ação da ida passada,
longa, com o momen o ugaz do p esen e e com o
u u o ince o e p o a elmen e cu o (Neg ei os,
2003).
Realizando a compa ação de médias en e as compo-
nen es da escala da espi i ualidade e as habili ações
li e á ias dos sujei os inqui idos (Quad o III) e i i-
cam-se di e enças es a is icamen e signi ica i as,
ambas ao ní el de p< 0,01.
O es e pos -hoc Sche é si ua essa di e ença na
dimensão das c enças en e os indi íduos com o
1.o ciclo, que ap esen am médias supe io es es a is i-
camen e signi ica i as em elação aos indi íduos
com o secundá io e equência/ o mação supe io . Já
em elação à dimensão da espe ança/op imismo, os
indi íduos com o mação supe io (secundá io e
ensino supe io ) são os que ap esen am médias supe-
io es, es a is icamen e signi ica i as em elação aos
sujei os com o 1.o ciclo.
Tais esul ados podem es a elacionados com o ac o
de as pessoas com mais habili ações de e em mais
in o mação, o que lhes pe mi e pe cepciona um
maio con olo, o que é ci ado em ou os es udos
(Holland e al., 1999; Me a iglia, 2006). Po sua ez,
as pessoas com menos o mação e ugiam-se mais na
dimensão e ical, passando o con olo de algo que
lhes oge à p óp ia capacidade de con olo pa a uma
o ça anscenden e.
Quad o II
Coe icien e de Pea son en e os
esul ados ob idos na escala da
espi i ualidade e a idade
Idade
C enças 0,11*
Espe ança/op imismo –0,23**
*p< 0,05.
** p< 0,01.
Quad o III
Compa ação de médias em unção das habili ações li e á ias — escala da espi i ualidade
Habili ações li e á ias
Escalas 1.o Ciclo 2.o ciclo + 3.o ciclo Secundá io Ensino supe io Fp
n = 188 n = 87 n = 62 n = 89
C enças 3,45 3,29 3,07 3,11 4,39 p< 0,01
Espe ança/op imismo 2,71 2,98 3,06 2,98 4,64 p< 0,01
53
VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010
Qualidade de ida
Em elação ao ipo de doença (Quad o IV), os esul-
ados apon am pa a di e enças es a is icamen e signi-
ica i as, sendo que as pessoas que i e am canc o do
sis ema hema ológico são as que ap esen am médias
mais baixas a ní el das c enças, e médias mais al as
a ní el da espe ança, e po sua ez as pessoas sob e-
i en es de canc o da mama são as que ap esen am
médias supe io es em elação às c enças.
Pe an e es es esul ados podemos ques iona -nos se
pa a es e esul ado não con ibui ão mais ac o es
demog á icos como géne o e idade, do que o ipo
clínico de canc o. De ac o, o canc o da mama na
amos a dos inqui idos engloba só o géne o emi-
nino, que es ão mais associadas à dimensão espi i-
ual, nomeadamen e na sua componen e eligiosa, e
po sua ez os sob e i en es de canc o hema ológico
são gene icamen e os mais no os. Quan o ao empo
desde o im dos a amen os (Quad o V), cons a a-se
que a média e e en e às c enças diminui de uma
o ma es a is icamen e signi ica i a, o que pode le a
a in e i -se que o ecu so à dimensão espi i ual/ eli-
giosa dec esce ao longo do empo, al como é ci ado
em ou os es udos (Ca e e al., 1993; Moadel e al.,
1999).
Ve i ica-se que na maio ia das si uações oncológicas
há o ecu so a a ias modalidades e apêu icas,
podendo exis i combinações de a amen os mui o
di e sas. Cons a amos que a maio combinação de
modalidades e apêu icas le a a médias supe io es
es a is icamen e signi ica i as na dimensão da espe-
ança/op imismo, como se obse a no Quad o VI,
ap esen ando as pessoas que o am subme idas a a-
amen os mul imodais uma média es a is icamen e
supe io ( es e pos -hoc Sche é), em elação às pes-
soas subme idas a menos a amen os, pa ecendo
e o ça a ideia que a complexidade dos a amen os,
Quad o IV
Compa ação de médias em unção da doença — escala da espi i ualidade
G upo de doença
Escalas Mama SHREGL POD Tecidos moles Ou o ipo Fp
(n= 166) (n= 94) (n= 68) (n= 31) de canc o (n= 67)
C enças 3,45 3,06 3,33 3,17 3,23 2,90 p< 0,05
Espe ança/op imismo 2,94 3,08 2,80 2,59 2,64 4,33 p< 0,01
Legenda: SHREGL — Sis ema hema opoié ico, e ículo endo elial e gânglios lin á icos.
POD — Pe i oneu e ó gãos diges i os.
Quad o V
Compa ação de médias em unção do empo desde o im dos a amen os — escala da espi i ualidade
Fim dos a amen os
Escalas ≤≤
≤≤
≤12 meses > 12 e < 60 meses ≥≥
≥≥
≥60 meses Fp
(n= 87) (n= 178) (n= 161)
C enças 3,47 3,32 3,16 3,36 p< 0,05
Espe ança/op imismo 2,99 2,90 2,78 2,07 n.s.
n.s. — Di e ença não signi ica i a.
Quad o VI
Compa ação de médias em unção do núme o de a amen os e ec uados
Núme o de a amen os
Escalas 1 a amen o 2 a amen os 3 a amen os ≥≥
≥≥
≥4 a amen os Fp
n=91 n= 159 n= 115 n=61
C enças 3,19 3,34 3,26 3,36 0,65 n.s.
Espe ança/op imismo 2,70 2,88 2,84 3,18 4,42 p< 0,01
n.s. — Di e ença não signi ica i a.
54 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Qualidade de ida
e ine en e maio ag essi idade dos mesmos, po encia
uma maio segu ança sob e o con ole da doença.
E ec i amen e nos con ex os da p á ica, cons a a-se
mui as ezes que apesa de pe manece em « i as» as
memó ias do empo em que deco e am os a amen-
os, es es pa ecem p omo e uma maio segu ança
sob e o con ole da doença, logo associado a uma
maio espe ança.
Com o objec i o de analisa as elações en e as
múl iplas a iá eis ela i as às dimensões uncionais
da qualidade e as dimensões da espi i ualidade, e ec-
uamos uma análise de co elações (Quad o VII).
O es udo co elacional en e as dimensões da quali-
dade de ida e as da espi i ualidade pe mi iu iden-
i ica que as escalas uncionais da qualidade de
ida, e a escala da saúde/qualidade de ida, se asso-
ciam de o ma baixa mas signi ica i a com a dimen-
são da espe ança/op imismo. Pode -se-á in e i ,
pe an e es es esul ados, que uma pe spec i a de
ida posi i a, o sen i espe ança e sen ido de ida
conduz a uma maio bem-es a , logo uma maio
qualidade de ida (Büssing, Os e man e
Ma hiessen, 2005; Me a iglia 2006; Moadel e al.,
1999). E ec i amen e es e de e se conside ado o
objec i o majo nos cuidados de saúde p es ados às
pessoas com doença oncológica (Feue s ein, 2007;
Pimen el, 2006). Po sua ez, os sin omas, dispneia
e insónia, associam-se nega i amen e com o sen ido
da espe ança, o que ambém se comp eende dada a
linea elação en e a exis ência des es sin omas e o
mal-es a , que condiciona o encon a um sen ido
posi i o na exis ência.
A dimensão espi i ual associada à dimensão e ical,
c enças, apa ece com uma co elação nega i a,
embo a mui o baixa en e a unção ísica e a unção
emocional. Pode -se-á aqui in e i que a si uação de
doença que en en a am, e as suas epe cussões a
ní el uncional ( ísico e emocional), pode e agili-
zado o alo da é, le an ado ques ões sob e a na u-
eza de Deus, dú idas ace ca da e icácia da o ação,
al como é e e ido em ou os es udos (Taylo e al.,
1999; Thuné-Boyle e al., 2006). Es es esul ados
êm de algum modo co obo a o que é e e ido po
Manning-Walsh (2005) segundo o qual, a dimensão
eligiosa le a a uma adap ação emocional p ecá ia,
p o a elmen e associada a uma pe spec i a «puni-
i a» de um deus que cas iga.
5. Conclusão
Os es udos na á ea de oncologia êm-se ocalizado
nos p ocessos biomédicos e e en es ao diagnós ico e
a amen os, e no âmbi o das ciências sociais e huma-
nas no conhecimen o das eacções adap a i as ao
diagnós ico e a amen os assim como na ase inal
de ida, cons a ando-se um meno in es imen o na
ase pós- a amen o.
A is o es á ine en e o oco na pa ologia e no dé ice.
As pessoas que i e am um canc o, na maio ia das
si uações, não êm e apêu ica na ase pós-aguda da
doença. Mas, como nos e e e Ganz (2001), «wi h
some excep ions once a cance pa ien , always a
cance pa ien » (241). Es á associado a is o os e ei os
que deco em do p óp io canc o e dos a amen os
nas á ias dimensões da pessoa, que impõem a
necessidade de uma igilância especí ica nes a ase e
a é ao im da ida (Feue s ein, 2007). P econiza-se
uma igilância da saúde que, pa a além de o ien ada
pa a a iden i icação p ecoce da ecidi a (Bea e e
Luke , 2005), inclua in o mação, o ien ação e acon-
selhamen o sob e as mudanças de es ilo de ida e
Quad o VII
Coe icien e de Pea son en e os esul ados ob idos nas esca-
las do QLQ-C30 e as dimensões da escala da espi i uali-
dade
C enças Espe ança/op imismo
Função ísica –0,10**0,25**
Desempenho uncional n.s. 0,15**
Função emocional –0,13** 0,14**
Função cogni i a n.s. 0,19**
Função social n.s. 0,11**
Saúde/qualidade de ida n.s. 0,29**
*p< 0,05.
** p< 0,01.
n.s. — Não signi ica i o.
55
VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010
Qualidade de ida
compo amen os, apoio psicossocial e o ien ações
especí icas sob e os e ei os cola e ais eais e ou
po enciais, de o ma a p e eni ou minimiza os seus
e ei os ob endo «os ganhos em saúde». A pessoa que
e e um canc o em que de e in o mação sob e
como en en a e en uais mudanças que possam i a
su gi em consequência da si uação clínica que en-
en ou, e de e se o ien ada de que o ma pode con-
ibui pa a a sua p óp ia saúde e sob e ida
(Johansen, 2007).
Po ou o lado, há que e e i ambém o econheci-
men o c escen e da espi i ualidade na ges ão e adap-
ação de acon ecimen os ameaçado es, e como condi-
ção undamen al a uma abo dagem globalizan e do
indi íduo mesmo na á ea de saúde (Po ugal. Minis-
é io da Saúde. DGS, 2004).
A espi i ualidade en ol e sen imen os, signi icados e
p opósi os pa a a exis ência do homem ao longo do
seu ajec o de ida. Pode emos e e i que a espi i-
ualidade é uma dimensão impo an e do homem que,
a pa da dimensão biológica, in elec ual, emocional e
social, cons i ui aquilo que o di e encia na sua singu-
la idade e pessoalidade.
Pode emos em e mos de conclusão e e i que a
espi i ualidade é uma dimensão complexa e mul idi-
mensional da expe iência humana, incluindo aspec-
os cogni i os expe ienciais e compo amen ais. Os
aspec os cogni i os incluem a p ocu a de sen ido, e
signi icado na ida; os aspec os emocionais incluem
os sen imen os de espe ança, os a ec os, o con o o e
o apoio. Os aspec os compo amen ais incluem a
o ma com a pessoa mani es a as suas c enças espi-
i uais e a o ça do seu es ado de espí i o.
Mui as pessoas encon am a espi i ualidade na p á-
ica de uma eligião ou na sua elação com o di ino.
No en an o, ou as encon am a espi i ualidade na sua
ligação com os ou os, com a na u eza, na a e, ou
a a és de um conjun o de alo es e p incípios ou na
busca de uma e dade cien í ica, ou ainda no con-
on o com uma doença como o canc o que le a as
pessoas a en en a a p óp ia ini ude. No p esen e
es udo é es a dimensão ho izon al da espi i ualidade
que é p edi o a de uma melho qualidade de ida. Tal
como no es udo de Sawa zky, Ra ne e Chiu (2005),
um alo co elacional mode ado en e a espi i uali-
dade e a qualidade de ida. Pode -se-á in e i que a
espi i ualidade é is a como um concei o único que
es á elacionado com a qualidade de ida, con udo
pe manece concep ualmen e dis in o.
Apesa da e idência da dimensão espi i ual na saúde
das pessoas, de ido a cons angimen os de empo e
ambém em alguma di iculdade em ge i as necessi-
dades espi i uais, es es aspec os são habi ualmen e
negligenciados na abo dagem da pessoa que em ou
e e um canc o.
Re e ências bibliog á icas
BEAVER, K.; LUKER, K. A. — Follow-up in b eas cance
clinics : eassu ing o pa ien s a he han de ec ing ecu ence.
Psycho-Oncology. 14 : 2 (2005) 94-101.
BÜSSING, A.; OSTERMAN, T.; MATTHIESSEN, P. — Role o
eligion and spi i uali y in medical pa ien s : con i ma o y esul s
wi h he SpREUK ques ionnai e. Heal h Quali y o Li e Ou comes.
3 : 10 (2005). [Consul . 20 Jan. 2005]. Disponí el em h p://
www.hqlo.com/con en /3/1/10.
CARVER, C. S. e al. — How coping media es he e ec o
op imism on dis ess : a s udy o women wi h ea ly s age b eas
cance . Jou nal o Pe sonali y and Social Psychology. 65 : 2
(1993) 375-390.
CLAYTON, M. F.; MISHEL, M. H.; BELYEA, M. — Tes ing a
model o symp oms, communica ion, unce ain y, and well-being,
in olde b eas cance su i o s. Resea ch in Nu sing & Heal h.
29 : 1 (2006) 18-39.
FERRELL, B. R.; DOW, K. H.; GRANT, M. — Measu emen o
he quali y o li e in cance su i o s. Quali y o Li e Resea ch.
4 : 6 (1995) 523-531.
FEUERSTEIN, M. — De ining cance su i o ship. The Jou nal
o Cance Su i o ship : Resea ch and P ac ice. 1 : 1 (2007)
5-7.
FLECK, M. P. e al. — Desen ol imen o do WHOQOL, módulo
espi i ualidade, eligiosidade e c enças pessoais. Re is a de Saúde
Pública. 37 : 4 (2003) 446- 455.
GANZ, P. A. — La e e ec s o cance and i s ea men . Semina s
in Oncology Nu sing. 17 : 4 (2001) 241-248.
HOLLAND, J. C. e al. — The ole o eligious and spi i ual
belie s in coping wi h malignan melanoma. Psycho-Oncology.
8 : 1 (1999) 14-26.
JOHANSEN, C. — Rehabili a ion o cance pa ien s : esea ch
pe spec i es. Ac a Oncologica. 46 : 4 (2007) 441-445.
JOHNSON, P. G. — The use o humo and i s in luences on
spi i uali y and coping in b eas cance su i o s. Oncology
Nu sing Fo um. 29 : 4 (2002) 691-695.
LAUBMEIER, K. K.; ZAKOWSKI, S. G.; BAIR, J. P. — The
ole o spi i uali y in he psychological adjus men o cance : a
es o he ansac ional model o s ess e coping. In e na ional
Jou nal o Beha io al Medicine. 1 : 1 (2004) 48-55.
MANNING-WALSH, J. — Spi i ual s uggle : e ec on quali y o
li e and li e sa is ac ion in women wi h b eas cance . Jou nal o
Holis ic Nu sing. 23 : 2 (2005) 120-140.
McILLMURRAY, M. B. e al. — Psychosocial needs in cance
pa ien s ela ed o eligious belie . Pallia i e Medicine. 17 : 1
(2003) 49-54.
MERAVIGLIA, M. — E ec s o spi i uali y in b eas cance
su i o s. Oncology Nu sing Fo um. 33 : 1 (2006). Online
Exclusi e E1-E7. Disponí el em h p://www.ons.o g/publica ions/
jou nals/ONF/.
MOADEL, A. e al. — Seeking meaning and hope : sel - epo ed
spi i ual and exis en ial needs among an e hnically-di e se cance
pa ien popula ion. Psycho-Oncology. 8 : 5 (1999) 378-385.
MULLER, P. S.; PLEVAK, D. J.; RUMMANS, T. A. —
Religious in ol emen , spi i uali y, and medicine : implica ions
o clinical p ac ice. Mayo Clinic P oceedings. 76 : 12 (2001)
1225-1235.
NATIONAL CANCER INSTITUTE — Spi i uali y. 2006. [Em
linha] [Consul . 8 No . 2006]. Disponí el em h p://
www.cance .go /Templa es/db_alpha.aspx?Cd ID=441265.
56 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Qualidade de ida
NEGREIROS, T. C. G. — Espi i ualidade : desejo de e e nidade
ou sinal de ma u idade? Re is a Mal-Es a e Subje i idade. 3 : 2
(2003) 275 -291.
PIMENTEL, F. L. — Qualidade de ida e oncologia. Coimb a :
Almedina, 2006.
PINTO, C. — Jo ens e adul os sob e i en es de canc o : a iá eis
psicossociais associadas à op imização da saúde e qualidade de
ida após o canc o. Po o : Faculdade de Psicologia e Ciências da
Educação da Uni e sidade do Po o, 2008. Tese de Dou o amen o
(não publicada).
PINTO, C.; RIBEIRO, J. L. P. — A qualidade de ida dos sob e-
i en es de canc o. Re is a Nacional de Saúde Pública. 24 : 1
(2006) 37-56.
PINTO, C.; RIBEIRO, J. L. P. — Cons ução de uma escala de
a aliação da espi i ualidade em con ex os de saúde. A qui os de
Medicina. 21 : 2 (2007) 47-53.
PORTUGAL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. DGS — Plano Nacio-
nal de Saúde 2004-2010. Volume II — O ien ações es a égicas.
Lisboa : Di ecção-Ge al da Saúde, 2004.
POWE, B. D.; FINNIE, R. — Cance a alism : he s a e o
science. Cance Nu sing. 26 : 6 (2003) 454-467.
RONSON, A.; BODY, J. — Psychosocial ehabili a ion o cance
pa ien s a e cu a i e he apy. Suppo Ca e Cance . 10 : 4 (2002)
281-291.
SAWATZKY, R.; RATNER, P. A.; CHIU, L. — A me a-analysis
o he ela ionship be ween spi i uali y and quali y o li e. Social
Indica o s Resea ch. 72 : 2 (2005) 153-188.
SOLANA, C. A. — Aspec os psicológicos en el pacien e
supe i ien e. Oncologia. 28 : 3 (2005) 151-163.
TANYI, R. — Towa ds cla i ica ion o he meaning o spi i uali y.
Jou nal o Ad anced Nu sing. 39 : 5 (2002) 500–509.
TAYLOR, E. J. — Spi i ual quali y o li e. In KING, C. R.;
HINDS, P. S. ed. li . — Quali y o li e : om nu sing and pa ien
pe spec i es. 2nd ed., Bos on : Jones and Ba le Publishe s, 2003.
93-116.
TAYLOR, E. e al. — Spi i ual con lic s associa ed wi h p aying
abou cance . Psycho-Oncology. 8 : 5 (1999) 386-394.
THUNÉ-BOYLE, I. e al. — Do eligious/spi i ual coping
s a egies a ec illness adjus men in pa ien s wi h cance ? : a
sys ema ic e iew o he li e a u e. Social Science & Medicine.
63 : 1 (2006) 151-164.
WONGHONGKUL, T. e al. — The in luence o unce ain y in
illness, s ess app aisal and hope on coping in su i o s o b eas
cance . Cance Nu sing. 23 : 6 (2000) 422- 429.
Abs ac
EVALUATION OF CANCER SURVIVORS’
SPIRITUALITY: IMPLICATIONS ON QUALITY OF LIFE
The in e sec ion be ween spi i ual dimension and heal h has
become a esea ch a ea o inc easing in e es in he las yea s.
Spi i ual dimension is desc ibed as ele an in he meaning
a ibu ed o he su e ing ela ed o a ch onic disease, and also
as a hope esou ce. Cance is a li e h ea ening condi ion and
e en when physical symp oms become less impo an , spi i ual
issues aised du ing he disease p ocess emains.
This esea ch pape aims o analyse he spi i uali y di e ences
in a g oup o cance su i o pa ien s, acco ding o clinic and
socio-demog aphic a iables, and assesses he co ela ion
be ween spi i uali y and quali y o li e dimensions.
Ma e ial and Me hods: The pa icipan s we e 426 pa ien s who
had su e ed om an oncologic disease. They illed up a socio-
demog aphic ques ionnai e, a spi i uali y scale and he QLQ-
C30.
Resul s: We ound signi ican s a is ical di e ences be ween
spi i uali y dimensions and socio-demog aphic and clinic
a iables. We no iced a signi ica i e al hough mode a e alue,
be ween spi i uali y and quali y o li e. We can deduce ha
spi i uali y is aced as a no ion ela ed wi h quali y o li e,
al hough concep ually dis inc .
Conclusions: This esea ch esul s emphasise he ele ance o
a global pe spec i e o he pa ien . O he esea ch wo ks
de eloped in his a ea, will be needed in o de o alida e hese
esul s.
Keywo ds: spi i uali y; cance su i o s; quali y o li e.