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3 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Vigilância epidemiológica Paulo Jorge Nogueira é licenciado em Probabilidades e Estatística, mestre em Probabilidades e Estatística, estatista do Observatório Nacional de Saúde, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Eleonora de Jesus Paixão é licenciada em Matemáticas Aplicadas, no ramo de Estatística e Investigação Operacional, estatista do Observatório Nacional de Saúde, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. José Marinho Falcão é licenciado em Medicina, mestre em Epidemiologia, assistente graduado de Saúde Pública e responsável pelo Observatório Nacional de Saúde, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Submetido à apreciação: 5 de Maio de 2005. Aceite para publicação: 16 de Junho de 2005. Comportamentos das famílias portuguesas em épocas de calor e durante a onda de calor de Agosto de 2003* PAULO JORGE NOGUEIRA ELEONORA DE JESUS PAIXÃO JOSÉ MARINHO FALCÃO Este estudo teve como principal objectivo a caracterização das atitudes e da adopção de medidas de protecção em períodos de calor e em particular conhecer aquelas que efectivamente foram adoptadas durante a onda de calor de Agosto de 2003 (29 de Julho a 15 de Agosto). Foi realizado um inquérito por via postal, aplicando um questionário aos indivíduos de 18 e mais anos das unidades de alojamento (UA), que constituem a amostra ECOS (Em Casa Observamos Saúde) do Observatório Nacional de Saúde. Estudaram-se 769 indivíduos, o que correspondeu a 25,6% da totalidade dos indivíduos elegíveis nas UA. Uma vez que a amostra ECOS não é autoponderada, foram ponderados os resultados das unidades de alojamento pela variável do Instituto Nacional de Estatística (INE) «número de famílias clássicas» por região e pela «população residente segundo o nível de instrução» obtidas pelos censos de 2001. Os comportamentos referidos como adoptados em épocas de calor que apresentaram maiores percentagens foram «tomar duches ou banhos» (84,6%), «ingestão de líquidos» (79,6%), «uso de roupa leve, larga e clara» (73,2%) e «tomar refeições leves» (53,7%). Durante a onda de calor de 2003, a maior parte da população (92,5%) leu, ouviu ou viu informação sobre os cuidados a ter durante a onda de calor, tendo sido a televisão (95,2%), a rádio (56,3%) e os jornais (49,3%) os meios de comunicação social mais referidos. Cerca de metade da população (51,4%) informou alguém, fundamentalmente a família, sobre os cuidados a ter. Com efeito, durante esta onda de calor verificou-se um maior cuidado em relação a comportamentos mais prejudiciais em épocas de maior calor. Por um lado, a população portuguesa andou menos ao sol (49,4%), fez menos viagens de carro/transportes à hora do calor (39,8%), realizou menos actividades que exigiriam esforço físico (32,5%) e também houve alguma preocupação em beber menos bebidas alcoólicas (26,5%). Por outro lado, aumentaram os comportamentos que já são mais habituais durante o período de Verão, tais como abrir as janelas durante a noite (40,8%), tomar refeições leves (46,7%), tomar mais duches ou banhos (58,5%), o uso de roupas leves largas e claras (42,5%) e o uso de ventoinhas (37,8%). * Projecto aprovado pela FCT e pelo POCTI e comparticipado pelo fundo comunitário europeu FEDER
4REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Vigilância epidemiológica A alteração do comportamento andar ou estar ao sol sem restrições aumenta com o número de meios de comunicação onde se obteve informação. Abrir as janelas de casa durante a noite e tomar duches ou banhos apresentou uma associação com o número de meios de comunicação onde se obteve informação e com o número de pessoas que prestaram informação. Ingerir líquidos e usar roupa leve, larga e clara mostrou também uma dependência do número de meios de comunicação onde se obteve informação. Palavras-chave: calor; clima; meteorologia; mortalidade; vigilância epidemiológica; comportamentos de risco. 1. Introdução Temperaturas elevadas afectam a saúde humana e originam excesso de óbitos durante as ondas de calor. Estas ocorrem frequentemente na Europa e estão associadas a aumentos na mortalidade e morbilidade (Koppe et al., 2004). Em Portugal, a onda de calor de 1981 esteve associada positivamente a um excesso de cerca de 1900 óbitos registados em todo o país (Garcia, Nogueira e Falcão, 1999). Embora com intensidade menor do que a de 1981, Portugal esteve sujeito de novo a uma nova onda de calor entre 8 e 22 de Julho de 1991 (Paixão e Nogueira, 2003). Foi estimado que essa onda de calor teria estado associada a um excesso de cerca de 1000 óbitos. Entre 29 de Julho e 15 de Agosto de 2003 ocorreu uma onda de calor muito intensa que afectou todos os distritos de Portugal continental. Um estudo preliminar, que abrangeu apenas o período de 30 de Julho a 12 de Agosto, permitiu estimar a ocorrência de um excesso de 1316 óbitos (Falcão et al., 2003, e Nogueira, 2003). Em 25 hospitais verificou-se um aumento do número de atendimentos em urgências gerais e pediátricas de 12,0% (14 885 atendimentos em excesso), comparando o período da onda de calor entre 29 de Julho e 14 de Agosto de 2003 com o período imediatamente anterior de 11 a 17 de Julho (Paixão et al., 2003). Também num estudo realizado pela Direcção-Geral da Saúde, através de dados de 72 hospitais distribuídos por todos os distritos do país, verificou-se que houve um excesso de procura que se cifrou em 11% para ambos os sexos. No entanto, para o sexo feminino, os grupos etários superiores a 74 anos e o distrito de Santarém foram os que verificaram os maiores aumentos da procura de serviços de urgência durante a onda de calor (Catarino, Carreira e Calado, 2003). Reconhecida a magnitude do problema em Portugal, foi decidido estudar o efeito definitivo desta onda de calor sobre a mortalidade, usando uma base de dados preparada pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) a partir dos certificados de óbito ocorridos entre Junho e Setembro de 2003. A análise desses dados, realizada em conjunto pela Direcção de Serviços de Informação e Análise (DSIA) da DGS e pelo Observatório Nacional de Saúde (ONSA) do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), permitiu obter uma estimativa de 1953 óbitos em excesso (IC95%: 1866-2039) associados à onda de calor (Calado et al., 2004). Deste excesso, 636 óbitos (IC95%: 530-744) ocorreram no sexo masculino e 1317 (IC95%: 1202-1435) no sexo feminino. Esta onda de calor afectou também vários países europeus. Estimativas provisórias recentes (Kovats, Wolf e Menne, 2004) indicaram a ocorrência de elevados excessos de óbitos em França (14 802 óbitos), Itália (3134 óbitos), Inglaterra e País de Gales (2045 óbitos). Após a ocorrência da onda de calor de Agosto de 2003 foi realizado um inquérito cujo principal objectivo era a caracterização dos comportamentos populacionais perante a ocorrência de temperaturas elevadas e também saber onde foi obtida, procurada e prestada activamente informação sobre as medidas de protecção a adoptar durante a onda de calor de Agosto de 2003. 2. Participantes e métodos Este estudo foi realizado através de inquéritos enviados por via postal. O questionário foi aplicado à amostra ECOS (Em Casa Observamos Saúde), criada pelo Observatório Nacional de Saúde, como instrumento de observação (Contreiras, Nunes e Branco, 2003). 2.1 Amostra A amostra foi seleccionada a partir de um universo de famílias residentes em Portugal continental com telefone fixo da rede de assinantes das listas da Portugal Telecom. Trata-se de uma amostra aleatória de unidades de alojamento com telefone, estratificada por regiões de saúde, com distribuição homogénea. Foram enviados questionários a 1217 unidades de alojamento pertencentes ao painel permanente de famílias ECOS, que incluía 3006 indivíduos com idades superiores ou iguais a 18 anos ou cuja idade era desconhecida. Foram conseguidas 352 respostas dos agregados familiares, o que correspondeu a 28,9% da potencial amostra. O estudo foi baseado em 769 indivíduos respondentes, o que corresponde a 25,6% da totalidade dos indivíduos elegíveis nas unidades de alojamento.
5 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Vigilância epidemiológica 2.2. Colheita de dados 2.2.1. Instrumento Foi utilizado um questionário estruturado composto por 11 perguntas e por um espaço aberto reservado a observações relevantes que os inquiridos desejassem acrescentar. Foram omitidas questões de caracterização sócio-demográfica das famílias e das pessoas, uma vez que essa informação já era conhecida. 2.2.2. Método de inquirição Os inquéritos foram enviados por via postal a todos os indivíduos da unidade de alojamento com idade superior a 18 anos (2742 indivíduos) ou cuja idade não era conhecida (264 indivíduos). O trabalho de campo teve início no dia 9 de Outubro de 2003 com o envio dos questionários para o correio. No dia 14 de Janeiro de 2004 foi recebido o último questionário. 2.3. Tratamento dos dados e análise estatística A análise estatística foi realizada utilizando o pacote de software estatístico SPSS 12.0 (SPSS Inc., 2003) Foi realizada uma análise descritiva univariada dos dados, baseada principalmente em frequências absolutas e relativas para cada variável, assim como os respectivos intervalos de 95% de confiança. Para efeitos de análise foram construídas algumas variáveis a partir da informação recolhida: •Total de meios de comunicação onde se obteve informação, que representa o número de meios de comunicação onde os indivíduos obtiveram qualquer informação sobre os cuidados a ter durante a onda de calor. Consideraram-se 4 categorias: 0 meios de comunicação (equivale a não ter obtido informação de nenhum meio de comunicação); 1 meio de comunicação (obteve informação de apenas um meio de comunicação); 2 meios de comunicação (obteve informação de dois meios de comunicação); 3 ou mais meios de comunicação (obteve informação de três ou mais meios de comunicação). •Total de pessoas que prestaram informação, que representa o número de pessoas (familiares, amigos/conhecidos, profissionais de saúde, etc.) que prestaram informação sobre os cuidados a ter durante a onda de calor aos indivíduos inquiridos. Consideraram-se 4 categorias: 0 pessoas (equivale a não ter obtido informação de nenhuma pessoa); 1 pessoa (obteve informação de apenas uma pessoa); 2 pessoas (obteve informação de duas pessoas); 3 ou mais pessoas (obteve informação de três ou mais pessoas). •Alteração dos comportamentos adoptados usualmente durante o Verão: para cada um dos comportamentos inquiridos construiu-se uma variável indicadora de alteração do respectivo comportamento. Estas novas variáveis diferiram da informação original pela não identificação da direcção (para mais ou para menos) da alteração no respectivo comportamento. Foi realizada análise bivariada das variáveis do questionário com as variáveis sexo, região, grupos etários e grau de escolaridade. A análise bivariada baseou-se também em frequências absolutas e relativas para cada variável, assim como nos respectivos intervalos de 95% de confiança. Uma vez que a amostra ECOS não é autoponderada, foi feita a ponderação dos resultados das unidades de alojamento pela variável «número de famílias clássicas» por região e pela «população residente segundo o nível de instrução» (censos 2001, INE). Para estas estimativas ajustadas são também apresentados os intervalos de 95% de confiança. A análise estatística dos dados ponderados foi feita usando a aplicação estatística Wesvar 2.42 (Westat Copyright, 1997). Para testar a associação entre as variáveis utilizou-se o teste do quiquadrado com correcção de Rao-Scott (Rao e Scott, 1987). O nível de significância dos testes estatísticos foi estabelecido em 5%. 3. Resultados 3.1. Caracterização dos respondentes A amostra ECOS é estratificada por região de saúde. O Quadro I mostra que a amostra obtida não se afasta desse pressuposto, sendo o número de indivíduos entrevistados semelhante em todas as regiões (p= 0,813). Da caracterização dos indivíduos respondentes, pode notar-se que (Quadro II): • 54,0% dos respondentes foram mulheres; • A idade média dos indivíduos foi de 49 anos, com um desvio-padrão de 18,1 anos de idade; • A mediana, o 1.o quartil e o 3.o quartil foram de 49 anos, 35 anos e 63 anos, respectivamente, pelo que 25% dos respondentes têm idade superior a 63 anos;
6REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Vigilância epidemiológica Quadro II Distribuição percentual dos indivíduos respondentes por sexo, grupo etário, ocupação e nível de escolaridade Percentagem Percentagem sem informação não ponderada Sexo 769 0,0 Masculino 354 46,0 Feminino 415 54,0 Grupo etário 730 5,1 18-24 88 12,1 25-34 93 12,7 35-44 115 15,9 45-54 136 18,6 55-64 133 18,2 65-74 106 14,5 +75 58 7,9 Ocupação profissional 765 0,5 Activo 386 50,5 Doméstica(o) 86 11,2 Não activo 221 28,9 Estudante 72 9,4 Nível de escolaridade 764 0,7 Não sabe ler nem escrever 43 5,6 Só sabe ler e escrever ou ensino básico 253 33,1 Ensino médio ou equivalente 291 38,1 Ensino superior ou frequenta 177 23,2 nnúmero de respostas válidas. n Quadro I Distribuição percentual dos indivíduos respondentes por região de saúde Percentagem Percentagem sem informação não ponderada 769 0,0 0,813* Norte 160 20,8 Centro 153 19,9 Lisboa e Vale do Tejo 163 21,2 Alentejo 144 18,7 Algarve 149 19,4 pprobabilidade de significância do teste. * Teste de ajustamento do χ2. nnúmero de respostas válidas. np
7 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Vigilância epidemiológica • 18,6% dos indivíduos pertenciam ao grupo etário dos 45 aos 54 anos; • 50,5% foram indivíduos activos e 28,9% são inactivos; • 33,1% dos indivíduos só sabiam ler e escrever ou tinham o ensino básico; • 38,1% possuíam o ensino médio ou equivalente. 3.2. Caracterização dos comportamentos dos portugueses durante as épocas de calor «Tomar duches ou banhos» foi o comportamento referido pela maior percentagem de indivíduos (84,6%). Foi também registada uma percentagem elevada nos comportamentos «ingestão de líquidos» (79,6%), «usar roupa leve, larga e clara» (73,2%) e «tomar refeições leves» (53,7%) (Quadro III). De referir que a proporção de indivíduos que referiram ingerir com elevada frequência bebidas alcoólicas durante o período de Verão é estimada em 3,8%. 3.3. Origem da informação obtida pela população sobre a onda de calor de Agosto de 2003 3.3.1. Obtenção de informação sobre as medidas de protecção a adoptar durante a onda de calor de Agosto de 2003 Quase todos os indivíduos (92,5%) que responderam ao questionário leram, ouviram ou viram informação Quadro III Distribuição percentual* dos indivíduos por frequência de adopção dos vários comportamentos relacionados com o calor durante o Verão (Portugal continental, indivíduos com idade ≥≥ ≥≥ ≥18 anos) Percentagem ponderada* Muitas Raramente vezes ou nunca Anda ou está ao sol sem restrições 706 8,2 13,7 (11,7; 15,7) 43,1 (39,8; 46,4) 43,2 (39,2; 47,2) Faz viagens de carro/transportes à hora do calor 712 7,4 13,7 (10,9; 16,4) 51,3 (45,7; 56,9) 35,0 (30,7; 39,4) Faz actividades que exijam esforço físico 690 10,3 21,1 (17,6; 24,5) 33,4 (28,9; 37,8) 45,6 (42,7; 48,4) Abre as janelas de casa durante o dia 712 7,4 40,4 (37,6; 43,2) 32,2 (26,7; 37,7) 27,4 (21,8; 33,1) Abre as janelas de casa durante a noite 711 7,0 43,6 (36,7; 50,5) 30,2 (20,5; 39,8) 26,2 (22,8; 29,7) Toma refeições leves 733 4,7 53,7 (47,9; 59,4) 39,8 (32,6; 47,1) 6,5 (4,3; 8,1) Toma duches ou banhos 737 4,2 84,6 (80,0; 89,3) 14,9 (10,3; 19,4) 0,6 (0,0; 1,1) Toma bebidas alcoólicas 687 10,7 3,8 (1,5; 6,2) 34,3 (29,8; 38,7) 61,9 (55,6; 68,2) Ingere líquidos 745 3,1 79,6 (73,0; 86,2) 19,5 (13,1; 25,8) 1,0 (0,0; 2,0) Usa roupa leve, larga e clara 740 3,8 73,2 (65,5; 81,0) 22,2 (14,9; 29,6) 4,5 (3,5; 5,6) Usa ventoinhas 709 7,8 34,3 (30,9; 37,8) 24,9 (19,6; 30,2) 40,7 (37,5; 44,0) Está em locais com ar condicionado 695 9,6 14,3 (11,9; 16,7) 25,2 (18,9; 31,4) 60,5 (55,7; 65,4) nnúmero de respostas válidas. (,;,,) IC 95% da estimativa. * Percentagens para o continente ponderadas pela população residente com idade ≥18 anos, por região e por nível de escolaridade. IC 95% Às vezes IC 95% IC 95% nPercentagem s/inf.
8REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Vigilância epidemiológica sobre os cuidados a ter durante a onda de calor de Agosto de 2003 (Quadro IV). A televisão foi a origem de informação mais frequentemente citada pelos indivíduos que declararam ter obtido informação (95,2%), seguindo-se a rádio (56,3%) e os jornais (49,3%). Apenas 4,5% das pessoas obtiveram informação pela Internet. Cerca de 40% dos indivíduos que responderam obtiveram informação sobre a onda de calor através de pessoas de família e amigos ou conhecidos. A obtenção de informação sobre a onda de calor através da televisão associou-se com os grupos etários e com a região (p= 0,030 e p= 0,006) (Quadro V). O grupo etário dos 18 aos 24 anos teve a percentagem mais elevada de indivíduos que ouviram ou viram informação através da televisão sobre os cuidados a ter (99,1%). A percentagem mais baixa ocorreu no grupo dos 75 e mais anos (88,7%). A Região do Algarve teve a percentagem mais elevada de obtenção de informação através da televisão (97,5%), pertencendo o valor mais baixo à Região do Alentejo (88,3%). Não foi encontrada associação significativa com o grau de escolaridade. A percentagem de indivíduos que obtiveram informação através da rádio (Quadro V) teve uma associação estatisticamente significativa com o grupo etário (p< 0,001), sendo mais elevada no grupo 25-34 anos (66,6%) e mais baixa no grupo dos 75 e mais anos (36,3%), com a região de saúde (p= 0,015), sendo mais elevada na Região Norte (66,8%) e mais baixa na Região Centro (46,7%), e com o grau de escolaridade (p= 0,048), tendo os que completaram ou frequentaram o ensino superior o valor mais elevado (68,0%) e o grupo dos que não sabem ler nem escrever o valor mais baixo (42,9%). A informação obtida através dos jornais associou-se com a região (p< 0,001) (Quadro V), sendo a percentagem mais elevada na Região Norte (58,5%) e a mais baixa na Região Centro (36,1%); verificou-se também uma associação estatisticamente significa- Quadro IV Percentagens* de indivíduos que receberam informação sobre a onda de calor de Agosto de 2003, segundo a origem da informação (Portugal continental, indivíduos com idade ≥≥ ≥≥ ≥18 anos) Percentagem sem informação Leu, ouviu ou viu alguma informação sobre cuidados? 738 14,0 Sim 92,5 (90,8; 94,1) Onde obteve informação sobre cuidados? Televisão 680 11,6 95,2 (93,9; 96,5) Rádio 674 12,4 56,3 (51,3; 61,3) Jornais 667 13,3 49,3 (46,3; 52,2) Internet 669 13,0 14,5 (2,9; 6,2) Pessoa de família 671 12,7 22,8 (17,3; 28,3) Amigo ou conhecido 662 13,9 17,3 (14,1; 20,4) Profissional de saúde 674 12,4 11,5 (9,5; 13,4) Outra 638 17,0 11,1 (0,1; 2,1) nnúmero de respostas válidas. (,;,,) IC 95% da estimativa. * Percentagens para o continente ponderadas pela população residente com idade ≥18 anos, por região e por nível de escolaridade. nPercentagem IC 95%
9 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Vigilância epidemiológica Quadro V Percentagens* de indivíduos que obtiveram informação sobre a onda de calor de 2003 através da comunicação social e da Internet, segundo o grupo etário, região e o grau de escolaridade (Portugal continental, indivíduos com idade e ≥≥ ≥≥ ≥18 anos) Televisão Rádio Jornais Internet nPercentagem IC 95% pnPercentagem IC 95% pnPercentagem IC 95% pnPercentagem IC 95% p (% s/ inf.) (% s/ inf.) (% s/ inf.) (% s/ inf.) Grupos 0,030** < 0,001** 0,062** < 0,001** etários 651 (15,3) 645 (16,1) 638 (17,0) 640 (17,0) 18-24 177 99,1 (97,6; 100,0) 176 58,4 (45,2; 71,7) 173 52,7 (39,8; 65,7) 177 27,9 (14,7; 41,1) 25-34 186 98,2 (95,1; 100,0) 184 66,6 (57,0; 76,3) 181 53,3 (42,9; 63,6) 183 10,2 (2,1; 18,4) 35-44 106 92,5 (82,1; 100,0) 106 59,6 (51,2; 68,1) 105 64,2 (44,7; 83,6) 104 13,2 (0,9; 5,6) 45-54 128 98,8 (97,3; 100,0) 125 60,2 (52,4; 68,1) 128 48,6 (42,8; 54,5) 125 17,0 (0,3; 13,6) 55-64 110 90,6 (84,7; 96,4) 110 61,9 (53,9; 70,0) 109 50,4 (43,3; 57,5) 109 11,2 (0,0; 2,7) 65-74 195 98,6 (96,4; 100,0) 195 47,3 (35,9; 58,8) 193 46,8 (35,8; 57,9) 193 – – +75 149 88,7 (78,1; 99,2) 149 36,3 (21,4; 51,2) 149 32,2 (15,0; 49,4) 149 10,4 (0,0; 1,3) Região 680 (11,6) 0,006** 674 (12,4) 0,015** 667 (13,3) < 0,001** 669 (13,0) 0,300** Norte 144 96,6 (95,9; 97,3) 145 66,8 (61,1; 72,6) 141 58,5 (57,1; 59,9) 143 13,3 (0,0; 7,2) Centro 129 96,5 (92,5; 100,4) 126 46,7 (43,2; 50,3) 128 36,1 (26,5; 45,8) 127 14,5 (3,0; 6,0) LVT 145 93,7 (91,1; 96,3) 145 50,2 (34,9; 65,5) 142 45,6 (41,2; 50,0) 143 15,1 (3,2; 7,1) Alentejo 126 88,3 (83,1; 93,5) 124 54,0 (25,8; 82,1) 122 54,2 (35,5; 72,9) 125 18,2 (4,6; 11,8) Algarve 136 97,5 (94,9; 100,0) 134 52,6 (42,0; 63,1) 134 48,7 (36,0; 61,4) 131 15,5 (3,2; 7,8) Escolaridade 680 (11,6) 0,563** 674 (12,4) 0,048** 667 (13,3) < 0,001** 669 (13,0) < 0,001** Não sabe ler nem escrever 136 87,3 (68,5; 100,0) 136 42,9 (15,0; 70,7) 136 21,8 (12,1; 31,6) 136 11,9 (0,0; 6,0) Só sabe ler e escrever ou ensino básico 229 95,0 (93,6; 96,3) 227 54,7 (47,1; 62,5) 225 45,4 (41,8;49,1) 226 11,3 (0,0; 3,3) Ensino médio ou equivalente 264 96,1 (93,8; 98,4) 262 56,9 (53,6; 60,1) 262 56,3 (50,1;62,5) 262 19,1 (5,5; 12,6) Ensino superior ou frequenta 151 95,9 (89,0;100,0) 149 68,0 (61,2; 74,8) 144 64,8 (57,9;71,7) 145 17,2 (13,8; 20,6) nnúmero de respostas válidas. (,;,,) IC 95% da estimativa. prefere-se à comparação entre as classes da variável. * Percentagens para o continente ponderadas pela população residente com idade ≥18 anos, por região e por nível de escolaridade. ** teste χ2 com correcção de Rao-Scott.
10 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Vigilância epidemiológica tiva com a escolaridade (p< 0,001), tendo a percentagem mais elevada ocorrido nos que completaram ou frequentam o ensino superior (64,8%). Não foi encontrada associação significativa com o grupo etário. A obtenção de informação através da Internet associou-se com os grupos etários (p< 0,001) e com a escolaridade (p< 0,001). Não se verificou associação com a região. O grupo etário dos 18 aos 24 anos apresentou a percentagem mais elevada (27,9%), assim como os que frequentam ou completaram o ensino superior (17,2%). As pessoas de família e os amigos/conhecidos que deram informação sobre a onda de calor de 2003 associaram-se com o grau de escolaridade (p= 0,006 e p< 0,001, respectivamente). Estas pessoas foram predominantemente indivíduos que já concluíram ou frequentam o ensino superior (38,0% e 29,8%, respectivamente) (Paixão, Nogueira e Falcão, 2005). 3.3.2. Procura activa de informação sobre as medidas de protecção a adoptar durante a onda de calor de Agosto de 2003 Apenas 26,8% dos respondentes fizeram perguntas a alguém sobre as medidas de protecção a adoptar durante a onda de calor de Agosto de 2003, sendo a sua maioria a pessoas de família (64,9%) e a amigos ou conhecidos (43,0%) (Quadro VI). A percentagem de indivíduos que procuraram informação sobre a onda de calor associou-se com a região (p< 0,001) e com o grau de escolaridade (p< 0,001). A Região do Alentejo (38,0%) registou a percentagem mais elevada de indivíduos que fizeram perguntas sobre os cuidados a ter, estando a Região LVT (16,9%) no extremo oposto. Em relação à escolaridade, verifica-se uma tendência decrescente. Os indivíduos que não sabem ler nem escrever (50,9%) apresentaram a maior percentagem ao contrário dos que possuem ou frequentam o ensino superior (11,0%). A procura de informação junto dos profissionais de saúde associou-se com o sexo e com a região (p= 0,018 e p= 0,001, respectivamente). No que respeita à obtenção de informação junto de um profissional de saúde, ocorreram percentagens mais elevadas nos indivíduos do sexo masculino (47,1%) e nos indivíduos da Região Norte (56,8%), ao contrário dos indivíduos da Região Centro (21,9%). Não se verificaram associações significativas entre procura de informação junto de pessoas de família, dos amigos/conhecidos e de outras pessoas com os Quadro VI Percentagens* de indivíduos que procuraram informação sobre as medidas de protecção a adoptar durante a onda de calor de Agosto de 2003, segundo a pessoa consultada (Portugal continental, indivíduos com idade ≥≥ ≥≥ ≥18 anos) Percentagem Continente* nsem informação Percentagem IC 95% Fez perguntas sobre cuidados a ter? 718 16,6 Sim 26,8 (23,1; 30,4) A quem? Pessoa de família 182 76,3 64,9 (61,1; 68,8) Amigos ou conhecidos 178 76,9 43,0 (33,7; 52,3) Profissional de saúde 178 76,9 37,1 (24,8; 49,4) Outra pessoa 170 77,9 12,7 (0,0; 6,2) nnúmero de respostas válidas. (,;,,) IC 95% da estimativa. * Percentagens para o continente ponderadas pela população residente com idade ≥18 anos, por região e por nível de escolaridade.
11 VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005 Vigilância epidemiológica factores em estudo (sexo, região, grupos etários e grau de escolaridade). Para descrição mais detalhada dos factores que se associam com o perfil de procura de informação, v. Paixão, Nogueira e Falcão (2005). 3.3.3. Prestação activa de informação sobre as medidas de protecção a adoptar Apenas pouco mais de metade dos respondentes (51,4%) aconselharam ou informaram alguém sobre os cuidados a ter perante temperaturas extremas (Quadro VII). 90% dos indivíduos que prestaram activamente informação fizeram-no a pessoas de família e 65% a amigos/conhecidos. As pessoas de família e outras que prestaram informação sobre a onda de calor associaram-se com a região (p= 0,036) e com os grupos etários (p= 0,010). Os indivíduos que prestaram informação activa a pessoas de família pertenciam essencialmente à Região Norte (96,0%), ao contrário do Alentejo, que apresentou a menor percentagem (84%). Os indivíduos inquiridos que prestaram informação a outras pessoas pertenciam principalmente ao grupo etário dos 25 aos 34 anos (28,7%), ao contrário dos indivíduos dos 65 aos 74 anos (1,1%). A prestação de informação a amigos/conhecidos não apresentou associações estatisticamente significativas (Paixão, Nogueira e Falcão, 2005). 3.4. Descrição dos comportamentos dos portugueses durante a onda de calor de Agosto de 2003 De uma forma geral, observou-se que durante a onda de calor de 2003, na população portuguesa, ocorreu um reforço das medidas que são mais adequadas em períodos de temperaturas mais extremas. Andaram menos ao sol (49,4%), fizeram menos viagens de carro/transportes à hora do calor (39,8%), realizaram menos actividades que exigiriam esforço físico (32,5%) e em certa medida houve alguma preocupa- Quadro VII Percentagens* de indivíduos que prestaram informação sobre as medidas de protecção a adoptar durante a onda de calor de Agosto de 2003, segundo as pessoas a quem a informação foi prestada (Portugal continental, indivíduos com idade e ≥≥ ≥≥ ≥18 anos) Percentagem Continente* nsem informação Percentagem IC 95% Informou alguém sobre cuidados a ter? 697 19,4 Sim 51,4 (44,4; 58,4) Quem? Pessoa família 367 52,3 90,0 (87,2; 92,9) Amigos ou conhecidos 367 52,3 65,0 (56,5; 73,4) Outra pessoa 348 54,7 19,7 (4,9; 14,6) nnúmero de respostas válidas. (,;,,) IC 95% da estimativa. * Percentagens para o continente ponderadas pela população residente com idade ≥18 anos, por região e por nível de escolaridade.
18 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Vigilância epidemiológica CONTREIRAS, T.; NUNES, B.; BRANCO, M. J. — Em casa, pelo telefone, observamos saúde : descrição e avaliação de uma metodologia. Lisboa : Observatório Nacional de Saúde. Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 2003. FALCÃO, J. M., et al. — Onda de calor de Agosto de 2003 : efeito sobre a mortalidade da população : estimativas provisórias. Lisboa : Observatório Nacional de Saúde. Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, 2003. GARCIA, C. P.; NOGUEIRA, P. J.; FALCÃO, J. M. — Onda de calor de Junho de 1981 : efeitos na mortalidade. Revista Portuguesa de Saúde Pública. Volume temático: I (1999) 67-77. GOMES, M. H. — Controlo de qualidade : o problema das não- -respostas. Lisboa : Instituto Nacional de Estatística, 1995. INE — Inquérito aos orçamentos familiares de 2000. Lisboa : Instituto Nacional de Estatística, 2000. KOPPE, C. — Heat waves : risk and responses. 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The National Health Observatory made a postal survey in its health family panel ECOS (Em Casa Observamos Saúde). The questionnaire was sent to the 1217 households that form the ECOS panel, with a questionnaire copy for each member of the family (3006 individuals). Overall response rate was 28.9% (352 households) which corresponded to 25.6% of individuals (769 individual’s responses). Weighted data analysis was performed using national official data on classical family households and by school level. During summer periods the behaviour adopted more often were liquids ingestion and baths taking (79.6% and 84.6%), light, large and bright coloured clothing (73.2%) and light meals (53.7%). The population’s majority (92.5%) read, heard or saw information of the precaution measures that should be taken during a heat wave. The main means of dissemination of information were TV (95.2%), radio (56.3%) and newspapers (49.3%). 51.4% of the individuals informed someone else about precaution measures, mainly family members. During the 2003’s heat wave, population was less exposed to the heat (49.4%), made less travels by car at the hours of highest heat (39.8%), individuals made less physical demanding activities (32.5%) and alcohol drinks were taken less often (26.5%). However, the usual behaviour during summers increased: the windows during the night were opened more often (40.8%), liquids and baths were taken more often (69% and 58.5%), light meals were taken more often (46.7%), light, large and bright coloured clothes were used more often (42.5%) and fans were often used also more (37.8%) than in other summers. The alteration of the behaviour of liquids ingestion, use of light, large and bright coloured clothing and exposition to heat increased with the number of media means from which individual’s received information. Opening the windows during the night and taking more baths also presented an association with the number of media means from which information was received and with the numbers of individuals that informed someone else about precautionary measures. Keywords: heat; meteorology; mortality; epidemiological surveillance; risk behaviour.