Full text
As Raízes His o iog á icas das Relações In e nacionais:
Ranke enquan o P ecu so do Realismo
Rica do Pe ei a Ne es
Janei o, 2022
Disse ação em Ciência Polí ica e Relações In e nacionais
Especialização em Relações In e nacionais
i
Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de
Mes e em Ciência Polí ica e Relações In e nacionais, ealizada sob a o ien ação cien í ica da
P o esso a Dou o a Ana Isabel dos San os Figuei edo Pin o e do P o esso Mes e Rui Fe nando
Pi es Hen ique dos San os.
ii
À a ó Au o a, senho a mais ai osa
iii
AGRADECIMENTOS
Começa ia po ag adece a odos os p o esso es, dos mais emo os aos mais ecen es,
com quem i e o p aze de ap ende . Nomeadamen e, ag adeço a odo o co po docen e do
Depa amen o de Es udos Polí icos da FCSH, com quem não só ap endi, como me di e i a
azê-lo.
A ideia emb ioná ia da qual i ia a esul a es a disse ação mui o de e aos
escla ecimen os e ao enco ajamen o do P o esso Ca los Gaspa , a quem gos a ia de ag adece
pa icula men e.
À minha o ien ado a, a P o esso a Ana San os Pin o, po semp e e dado, a mim e a
odos os seus alunos, o maio alen o possí el. Quem é eliz a aze o que az, não pode e i a
p opaga essa elicidade a quem a es emunha.
Ao meu co-o ien ado , o P o esso Rui San os, com quem i e o p i ilégio de abalha
di e amen e ao longo de oda a disse ação. A sua eno me disponibilidade e incansá el bom-
humo , a pa de odos os seus pe inen es conselhos e obse ações, ga an i am que es e abalho
pudesse oma a sua o ma inal. Fica -lhe-ei pa a semp e ag adecido.
À minha amília. Em pa icula , aos meus pais, po oda a libe dade que me dão e po
odo o apoio que me ga an em. À minha i mã, po e is o e e is o algumas passagens,
simpli icando o que eu an as ezes complico. À ga a Mia, po se uma iel companhei a.
Aos meus iéis compinchas de longa da a, And é, Sé gio e Vidigal, numa o dem
pu amen e al abé ica. Aos amigos que i e a so e de conhece na aculdade e de quem, odos
os dias, sin o saudades: Felipe, Jone , A onso, Rod igo e Vicen e.
À Ana, a quem de o alguma da legibilidade des a disse ação, mas que se di e e mais
a le -me, como eu a ela. Que assim seja enquan o i e mos olhos pa a o aze e um amo pa a
o jus i ica .
A odos os acasos, is es e elizes, passados e indou os.
i
As Raízes His o iog á icas das Relações In e nacionais:
Ranke enquan o P ecu so do Realismo
Rica do Pe ei a Ne es
[RESUMO]
PALAVRAS-CHAVE: Realismo; Ranke; Es ado; Equilíb io de Pode
As Relações In e nacionais de inham, nas éspe as da sua consolidação académica em meados do séc.
XX, um ca á e p o undamen e eclé ico, com um co po eó ico de i ado de ou as á eas do
conhecimen o. En e es as, des aca am-se a His ó ia e, em pa icula , a His ó ia Diplomá ica, cujo
mode no undado ha ia sido o his o iado oi ocen is a Leopold on Ranke.
Es a disse ação isa p oblema iza Ranke enquan o p ecu so in elec ual do Realismo, não apenas da
sua a ian e clássica, como ambém da sua a ian e neo- ealis a. Po ia de um modelo de análise
explica i o e com ecu so a um mé odo de pesquisa quali a i o, p e endemos apu a a in luência da
his o iog a ia ankeana sob e es as duas a ian es ealis as, na o ma de ês dos seus p incipais
au o es: Mo gen hau, Niebuh e Wal z.
A a és de uma sé ie de diálogos indi iduais en e Ranke e cada um des es ealis as, es u u ados po
dois concei os-cha e que a ua ão enquan o desc i o es – o Es ado e o Equilíb io de Pode –,
p ocu amos e e ua um le an amen o das con inuidades e cli agens en e o his o iado e os eó icos.
Todos es es diálogos se alice çam sob e um con as e on ológico en e Ranke e cada ealis a:
eco emos à on ologia de cada au o enquan o um elemen o que os dis ingue e con as a
undamen almen e en e si.
A pa i des es diálogos, apu amos que con inuidades e cli agens são ans e sais a odos os au o es
ealis as analisados, pe mi indo-nos indaga a espei o da in luência de Ranke sob e o co pus eó ico
ealis a. Simul aneamen e, a seleção de Mo gen hau e Niebuh , enquan o ealis as clássicos, e de
Wal z, enquan o neo- ealis a, ambém nos pe mi e p onuncia a espei o do desen ol imen o in a-
eó ico en e es as duas a ian es, à luz do que o diálogo de cada au o com Ranke e ela .
Concluímos que exis em duas g andes linhas de in luência en e Ranke e os au o es ealis as: po um
lado, o ecu so a um modelo da polí ica in e nacional es a ocên ico, assen e numa hie a quização
dos Es ados com base no pode e p i ilegiando, anali icamen e, as ações e as in e ações das unidades
es a ais mais pode osas; po ou o lado, o ecu so a uma na a i a his ó ica da polí ica in e nacional
que a in e p e a e ep esen a como uncionando sob um Equilíb io de Pode . Em simul âneo,
concluímos que es as linhas de in luência de em se enquad adas num undamen al con ex o de
di e ença en e Ranke e os ês ealis as, di e amen e deco en e do seu espe i o con as e
on ológico.
The His o iog aphical Roo s o In e na ional Rela ions:
Ranke as a P ecu so o Realism
Rica do Pe ei a Ne es
[ABSTRACT]
KEYWORDS: Realism; Ranke; S a e; Balance o Powe
On he e e o i s academic consolida ion in he mid- wen ie h cen u y, In e na ional Rela ions had a
p o oundly eclec ic cha ac e , wi h a heo e ical body impo ed om o he ields o knowledge.
Among hese, one can highligh he ield o His o y and, pa icula ly, Diploma ic His o y, whose
mode n ounde had been he nine een h-cen u y his o ian Leopold on Ranke.
This disse a ion seeks o ques ion Ranke as an in ellec ual p ecu so o Realism, no only i s classical
a ian , bu also i s neo- ealis a ian . Th ough an explana o y model o analysis and by ollowing a
quali a i e esea ch me hod, we aim o highligh he in luence o ankean his o iog aphy o e hese
wo ealis heo e ical a ian s, ep esen ed by h ee o hei main au ho s: Mo gen hau, Niebuh ,
and Wal z.
By way o a se ies o indi idual dialogues be ween Ranke and each one o hese ealis s, s uc u ed by
wo key-concep s ac ing as media o s – he S a e and he Balance o Powe –, we seek o highligh he
con inui ies and clea ages be ween he his o ian and he heo is s. All hese dialogues a e ounded
upon an on ological con as be ween Ranke and each ealis : we eso o each au ho ’s on ology as
an elemen ha undamen ally dis inguishes hem om and con as s hem wi h each o he .
Based on hese dialogues, we unde line which con inui ies and clea ages a e common o all he ealis
schola s unde analysis, allowing us o inqui e abou Ranke’s in luence o e he ealis heo e ical
co pus. Simul aneously, bo h Mo gen hau and Niebuh ’s selec ion, as classical ealis s, and Wal z’s
selec ion, as a neo- ealis , will also allow us o add ess he in a heo e ical de elopmen be ween
hese wo a ian s, conside ing wha each au ho ’s dialogue wi h Ranke e eals.
We conclude ha he e a e wo majo lines o in luence be ween Ranke and he ealis au ho s: on
he one hand, he use o a s a e-cen ic model o in e na ional poli ics, ounded on a powe -based
hie a chiza ion o S a es and p i ileging, in analy ical e ms, he ac ions and in e ac ions o he mo e
powe ul s a e-uni s; on he o he hand, he use o a his o ical na a i e o in e na ional poli ics ha
in e p e s and ep esen s i as unc ioning unde a Balance o Powe . Simul aneously, we conclude
ha hese lines o in luence should be amed unde a undamen al con ex o di e ence be ween
Ranke and he h ee ealis s, ha a ises di ec ly om hei espec i e on ological con as .
i
Índice:
In odução
Iden i icação e Jus i icação do Tema …….…….……….……………………………………. 1
Enquad amen o Me odológico ……………………………………………………………..… 3
Es u u a da In es igação ………………………………………………………………...…... 8
Es ado da A e ………………………………………………………………………….....… 10
Pa e I: Leopold on Ranke
Capí ulo 1: A His o iog a ia Rankeana
• 1.1 – A On ologia P o idencial de Ranke …….………………….…..…..…...…. 13
• 1.2 – Ranke e o Es ado ……………………….………………….….….……….. 20
• 1.3 – Ranke e o Equilíb io de Pode ………….………………….….…....……... 25
Pa e II: Realismo Clássico
Capí ulo 2: O Realismo Polí ico de Hans Mo gen hau
• 2.1 – Uma Laicização Analí ica ………..….….….…….....….…..….…….......... 30
• 2.2 – Mo gen hau e o Es ado: As Unidades Cons i u i as do P esen e ……..….. 33
• 2.3 – Mo gen hau e o Equilíb io de Pode : Um Eco Associa i o .………......….. 38
Capí ulo 3: O Realismo Polí ico de Reinhold Niebuh
• 3.1 – Um Cisma C is ão …..………..…………….…….....….…..….…….......... 51
• 3.2 – Niebuh e o Es ado: A ogan es In imações ………………….....…......….. 56
• 3.3 – Niebuh e o Equilíb io de Pode : Da Humildade à Mu ualidade .……..…... 63
Capí ulo 4: O Ho izon e Polí ico-No ma i o do Realismo Clássico ……………….....…. 70
ii
Pa e III: Neo- ealismo
Capí ulo 5: O Neo-Realismo de Kenne h Wal z
• 5.1 – Pa cimónia Mic oeconómica ……………….…….....….…..….…….......... 79
• 5.2 – Wal z e o Es ado: The S a e Among S a es …………….…..….....…......….. 87
• 5.3 – Wal z e o Equilíb io de Pode : Uma Teo ia como Qualque Ou a .….…... 95
Capí ulo 6: Da Pa cimónia à Rigidez ………………………………………………….... 104
Conclusões …………………………………...………………………………..….….…… 113
Bibliog a ia .……………….….…………………………………………………………... 121
1
In odução
1 – Iden i icação e Jus i icação do Tema
As Relações In e nacionais (RI) cons i uem uma á ea disciplina pau ada po uma
plu alidade eó ica, com um he e ogéneo conjun o de escolas e abo dagens no seu seio. Ainda
assim, es a á ea não es á isen a de uma hie a quização das á ias eo ias que a compõem, já
que, ao longo do cen ená io desde a sua o malização académica, em indo a se
equen emen e e a ada como sendo es u u ada po uma íade undamen al de eo ias: o
Realismo, o Libe alismo e as “Teo ias Radicais” (de onde, a pa i de meados da década de 90,
se des aca o Cons u i ismo).
1
En e es as ês abo dagens eó icas, a nossa in es igação oca -
se-á na escola ealis a, cujo ad en o – em meados do séc. XX – é insepa á el da consolidação
académica das RI, sob e udo nos Es ados Unidos.
2
Em pa icula , es e abalho p ocu a á
p oblema iza a in luência de um his o iado alemão oi ocen is a sob e a escola ealis a e a é
que pon o es e pode á se conside ado um p ecu so des a; o his o iado a a-se de Leopold
on Ranke, cuja ob a con ibuiu pa a a cons i uição da mode na disciplina da His ó ia.
An es de da mos início a es e exe cício, cabe-nos, po ém, pe gun a qual a sua
pe inência e a sua ele ância pa a as RI. Como se pode jus i ica a ealização de uma
in es igação que oma como obje o de es udo a elação de um empo almen e dis an e
his o iado com a escola eó ica ealis a? A espos a a es a ques ão de e á começa po salien a
o que já mencionámos: es a escola eó ica, pa a além de ainda cons i ui uma das mais
signi ica i as abo dagens den o de oda a á ea disciplina , é indissociá el da p óp ia
consolidação académica des a úl ima. Pos o is o, é ao deb uça mo-nos sob e as éspe as des a
consolidação, no pós-Segunda Gue a Mundial, que nos ape cebemos do ecle icismo
in elec ual e disciplina que pau a a as RI nessa al u a; o seu ainda di uso núcleo de emá icas
deco ia de uma panóplia de ou as disciplinas, já mais ins i ucionalizadas: F ede ick Dunn
enume a a a Geog a ia Polí ica, o Di ei o In e nacional, a Economia In e nacional e a His ó ia
Diplomá ica enquan o algumas des as á eas, imp escindí eis pa a qualque in es igado que
isasse oma como obje o de es udo ques ões do o o in e nacional;
3
po sua ez, Waldema
Gu ian ac edi a a que qualque disciplina que p e endesse analisa as elações in e nacionais
1
Es a ipologia é ap esen ada e ad ogada po S ephen Wal : “The s udy o in e na ional a ai s is bes unde s ood
as a p o ac ed compe i ion be ween he ealis , libe al, and adical adi ions.” (WALT, S. M. – In e na ional
Rela ions: One Wo ld, Many Theo ies, p. 30).
2
Pa a um a igo que explo a es a elação mais ap o undadamen e, e GUILHOT, N. – The Realis Gambi :
Pos wa Ame ican Poli ical Science and he Bi h o IR Theo y.
3
DUNN, F. S. – The P esen Cou se o In e na ional Rela ions Resea ch, p. 86.
8
cons uído e sus en ado pa a o maio bene ício secu i á io de cada uma das pa es, po ia do
comp omisso e mú uo aco do.
23
Ac edi amos, pois, que es a dis inção en e dois modelos p opos a po Li le do a á um
dos nossos desc i o es, o Equilíb io de Pode , de um maio igo concep ual, colma ando a sua
apon ada ambiguidade.
3 – Es u u a da In es igação
Cada Capí ulo do nosso abalho (exce uando os Capí ulos 4 e 6) se á di ido em ês
secções, cada uma das quais dispondo de um pa ág a o in odu ó io no qual ap esen a emos,
em linhas ge ais, os p incipais ópicos a se em abo dados nessa secção.
O Capí ulo 1 se á des inado a uma análise da nossa a iá el independen e, a ob a
his o iog á ica de Ranke: a sua p imei a secção e á como obje i o explici a qual a base
on ológica do his o iado , enquan o a segunda e a e cei a secções se i ão pa a da mos con a
da sua in e p e ação pa icula do Es ado e do Equilíb io de Pode , à luz daquela base
on ológica. Tal análise se á assen e numa ipologia de pesquisa quali a i a (explo a ó ia-
desc i i a) com ecu so a on es bibliog á icas secundá ias – an o ob as do p óp io his o iado
aduzidas pa a inglês, como li e a u a c í ica de ou os au o es a espei o des a ob a.
Selecionámos um conjun o bibliog á ico que se oca, pa icula men e, nos p incípios eó icos
que subjazem a his o iog a ia de Ranke; al seleção pe mi i -nos-á ab i espaço pa a es a
his o iog a ia pode se discu ida em e mos eó icos, de modo a mais e icazmen e da mos
con a da sua base on ológica especí ica. Também selecionámos ou o conjun o de bibliog a ia,
ocado na in e p e ação pa icula ankeana dos nossos dois desc i o es – o Es ado e o
Equilíb io de Pode .
O Capí ulo 2 ocupa -se-á com a ob a de Mo gen hau, que se á colocada numa elação
de diálogo com a de Ranke: a sua p imei a secção p ocu a á explici a a base on ológica do
ealismo polí ico de Mo gen hau, pa a con as á-la com a de Ranke; à luz des e con as e
on ológico, a segunda e a e cei a secções p ocu a ão analisa , espe i amen e, a in e p e ação
23
“Wha he me apho implies is ha he po en ial exis s o es ablish a poli ical equilib ium on he basis o a
consensus whe eby he essen ial secu i y needs o all he majo powe s a e sa is ied. An ex ension o his posi ion
is ha any aspi ing hegemon will be me by an o e whelming collec i e esponse.” (LITTLE, R. – The Balance
o Powe in In e na ional Rela ions, p. 73).
9
de Mo gen hau do Es ado e do Equilíb io de Pode , em busca de cli agens e de simili udes
com as in e p e ações de Ranke. O Capí ulo 3 a á o mesmo, mas com a ob a de Niebuh . No
Capí ulo 4, o nosso p incipal in ui o se á ecupe a alguns pon os de discussão abo dados ao
longo dos Capí ulos 2 e 3, sob e udo elacionados com as consequências polí ico-no ma i as
da on ologia de Mo gen hau e de Niebuh , pa a as suas espe i as ob as. O nosso obje i o se á
coloca es es elemen os num diálogo di e o com a ob a de Ranke, em busca de con inuidades
e cli agens.
O Capí ulo 5 lida á com a ob a do neo- ealis a Wal z: a sua p imei a secção deb uça -
se-á sob e a base on ológica da eo ia de Wal z e con as á-la-á com a de Ranke; a segunda e a
e cei a secções, à luz des e con as e on ológico, p ocu a ão analisa , espe i amen e, a
in e p e ação wal ziana do Es ado e do Equilíb io de Pode , no sen ido de iden i ica cli agens
e simili udes com as in e p e ações de Ranke. O Capí ulo 6, po im, desempenha á pa a Wal z
a mesma unção que o Capí ulo 4 desempenhou pa a Mo gen hau e pa a Niebuh : analisa ,
sob e udo, as consequências polí ico-no ma i as da on ologia de Wal z pa a a sua ob a, com o
in ui o de as coloca em diálogo com a ob a de Ranke.
Pa a odos es es Capí ulos, selecionámos um conjun o de bibliog a ia p imá ia dos ês
au o es ealis as, não só com base no seu g au de ele ância pa a o en endimen o dos seus
espe i os ealismos, como na sua adequação à explo ação da sua on ologia e das suas
in e p e ações do Es ado e do Equilíb io de Pode .
24
Em e mos de bibliog a ia secundá ia,
eco emos a ob as que abo dam que a on ologia dos au o es ealis as, que a sua in e p e ação
especí ica de ambos os desc i o es.
No inal, com base nas conclusões ex aídas de cada diálogo en e Ranke e os ealis as,
p ocu a emos aze um le an amen o daquelas que o em iden i icadas como as simili udes e
as cli agens ans e sais a cada um des es au o es, pe mi indo-nos a ança conhecimen o a
espei o da elação de Ranke com o co pus eó ico ealis a das RI. Em simul âneo, a inclusão,
nes e exe cício, dos ealis as clássicos Mo gen hau e Niebuh , e do neo- ealis a Wal z, ambém
nos de e á pe mi i i a conclusões a espei o do p óp io desen ol imen o in a- eó ico en e
es as duas a ian es ealis as.
24
Des acamos, en e es as ob as, Poli ics Among Na ions de Mo gen hau, Mo al Man and Immo al Socie y de
Niebuh , bem como Man, he S a e, and Wa e Theo y o In e na ional Poli ics de Wal z. Apesa de e mos
eco ido a ou as ob as de cada um dos au o es, acaba am po se es as que se e ela am mais signi ica i as.
10
4 – Es ado da A e:
São á ias as in es igações que, no passado, aludi am a uma elação de in luência en e
a his o iog a ia de Ranke e o Realismo; podemos ag upá-las em dois conjun os dis in os: po
um lado, as que e e i am a exis ência des a elação de o ma episódica e, po an o, pouco
ap o undada, não cons i uindo es a o seu oco analí ico de aiz; po ou o lado, aquelas que,
apesa de e em explo ado es a elação de um modo mais in ensi o, alcança am o que a nosso
e são conclusões de escopo ela i amen e limi ado, ex ensí eis a apenas um ou ou o eó ico
ealis a, em ez de ao co pus eó ico ealis a mais as o, pa a além do ac o de ambém não
e em omado es a elação como o seu p incipal obje o de análise.
Olhando pa a o p imei o conjun o, ci emos o caso de Koliopoulos (2010), que, num
a igo onde se ques iona sob e a e olução das on ei as en e as disciplinas da His ó ia e das
RI, az uma b e e alusão à ob a de Ranke: como nos explica, o oco analí ico do his o iado
alemão sob e as G andes Po ências az eco no Realismo.
25
Também Lebow (2003) alude à
exis ência de uma elação en e Ranke e a eo ia ealis a, apesa de depois não a ap o unda :
limi a-se a dize que Ranke é um p ecu so de Kenne h Wal z po de ini , al como es e úl imo,
as G andes Po ências em e mos das suas capacidades – ou seja, num sen ido ma e ial.
26
Já Haslam (2002), num exe cício de His ó ia das Ideias que isa ab ange o pensamen o
ealis a no seu desen ol imen o desde Maquia el, az uma b e e alusão a Ranke e si ua-o
enquan o um dos p ecu so es in elec uais do Realismo do séc. XX. A análise de Haslam em a
pa icula idade de u iliza a igu a do his o iado F ied ich Meinecke como uma espécie de
mediado a en e o pensamen o de Ranke e igu as ealis as como Mo gen hau, Ca , Wol e s
ou Wal z; nes e sen ido, mais do que um an ecesso di e o, Ranke é e a ado pelo au o como
alguém cuja in luência sob e es es úl imos pensado es pode, acima de udo, se discu ida de
uma o ma indi e a, sendo Meinecke a igu a que os une numa mesma linhagem in elec ual
ealis a.
27
Embo a econheçamos que o escopo analí ico da in es igação de Haslam p e enda
ul apassa , espacial e empo almen e, uma igu a in elec ual como Ranke, não podemos deixa
de conside a demasiado sucin a a o ma como o au o eco e ao his o iado : em oda a ob a,
que ul apassa as 250 páginas, Ranke apenas igu a em duas, pa a além de se colocado, como
imos, enquan o me o an ecesso indi e o. A ques ão não é a de es a colocação se mais ou
25
KOLIOPOULOS, C. – In e na ional Rela ions and he S udy o His o y, p. 9.
26
LEBOW, R. N. – The T agic Vision o Poli ics: E hics, In e es s and O de s, p. 336.
27
HASLAM, J. – No Vi ue Like Necessi y, p. 184-185.
11
menos coe en e, mais ou menos c edí el, mas simplesmen e a de deixa em abe o a ques ão
de sabe se Ranke, em si mesmo, pode se coe en emen e e c edi elmen e si uado enquan o
an ecesso di e o dos ealis as do séc. XX.
Na sua ese de dou o amen o, Ca los Gaspa (2016) az uma e e ência ao ac o de
Ranke e sido um dos p imei os au o es a o nece uma na a i a his ó ica da polí ica
in e nacional sob a lógica de uncionamen o de uma balança do pode . Como indica, es a
na a i a acaba ia po i a in luencia di e amen e odo um cânone eó ico den o do Realismo
– compos o po au o es como Mo gen hau, A on, ou Wal z –, le ando-o a enquad a o
his o iado alemão como um an ecesso in elec ual des e cânone ealis a pa icula .
28
Longe de
cons i ui o obje o de es udo da in es igação de Gaspa , a in luência de Ranke sob e o Realismo
su ge apenas nes a menção passagei a, deixando espaço pa a (e a é mesmo aliciando) uma
in es igação que a ome como obje o, p oblema izando-a e desen ol endo-a.
No segundo conjun o de análises, nas quais a explo ação des a emá ica, apesa de mais
ex ensa, a inge conclusões que julgamos limi adas, comecemos po des aca o con ibu o de
Smi h (2017). Numa in es igação onde se deb uça sob e a exis ência de “dois ealismos” – um
conse ado e um c í ico – nos abalhos do ealis a clássico E. H. Ca , Smi h a ibui p imazia
ao papel de Ranke na o mação do pensamen o e da ob a des e au o ; mais especi icamen e,
Smi h e e e que a adição de “p imazia dos negócios es angei os”, o iginalmen e
desen ol ida po Ranke, in luenciou de uma o ma cla a o “ ealismo conse ado ” de Ca ,
implíci o em The Twen y Yea s’ C isis e explíci o nas suas ob as his o iog á icas do pós-
Segunda Gue a Mundial.
29
Apesa de a a es a elação de in luência de uma o ma mais
comple a ace às me as menções dos abalhos an e io men e ci ados, Smi h nunca em a
in enção de explo á-la mais ap o undadamen e, ao não p ocu a sabe se exis em ou as ideias
con e gen es en e a his o iog a ia de Ranke e a ob a de Ca pa a lá da “p imazia dos negócios
es angei os”. Po ou o lado, ao oca -se exclusi amen e em Ca , Smi h deixa po explo a a
ob a e o pensamen o de ou os au o es ealis as.
Fa enkop (1991) consegue desen ol e ainda mais ex ensamen e a elação en e
Ranke e o Realismo: isando con apo aquilo que, no seu en ende , é o supos o pessimismo
28
“Wal z, como Mo gen hau ou A on, econhecia-se na adição clássica dos es udos his ó icos que ep esen a
o sis ema de Es ados como uma sociedade in e nacional assen e na balança do pode , em que as unidades se
concen am na de esa da sua segu ança e do seu es a u o no conce o das po ências.” (GASPAR, C. –
Con inuidade e Mudança: O Sis ema in e nacional no Pos -Gue a F ia, p. 23-24).
29
SMITH, K. - The ealism ha did no speak i s name: E. H. Ca ’s diploma ic his o ies o he wen y
yea s’ c isis, p. 6.
12
das análises ealis as clássicas com um olha e dadei amen e pessimis a sob e as elações
in e nacionais como o de Oswald Spengle , Fa enkop a gumen a que o ealismo de au o es
como Mo gen hau e le e um ce o o imismo nas suas análises da polí ica in e nacional,
de endo-o, em g ande medida, a Ranke; a ideia de au onomia do Es ado enquan o a o
in e nacional e, uma ez mais, a “p imazia dos negócios es angei os” são igualmen e
ei e ados enquan o impo an es elemen os de in luência do his o iado sob e igu as ealis as
do séc. XX.
30
Julgamos, no en an o, que Fa enkop pode ia e ido mais longe com as suas
conclusões se o seu oco p incipal i esse sido, de ac o, ques iona -se sob e a in luência que
Ranke e e sob e o Realismo; pelo con á io, es a elação de in luência não só apa ece
subo dinada ao con as e en e o pessimismo de Spengle e o supos o pessimismo dos ealis as,
como – e jus amen e de ido a isso – é apenas p essupos a: Fa enkop pa e do p incípio que
uma elação de in luência en e Ranke e os ealis as exis e e se mani es a das o mas po si
indicadas, sem p ocu a p oblema izá-la de aiz.
É João Co eia Ma ques de Almeida (2000) quem mais sis ema icamen e ap esen a e
desen ol e es a elação de in luência, ocando-se em pa icula na ob a de Mo gen hau. A
“ eo ia in e nacional nacionalis a” desen ol ida na his o iog a ia ankeana é ap esen ada como
uma an ecesso a da eo ia ealis a clássica de Mo gen hau, com Ma ques de Almeida a inse i
an o uma, como ou a na adição de ealpoli ik. Des a o ma, o au o consegue iden i ica
á ias linhas de in luência en e ambas: um a aque às adições de pensamen o libe ais e
legalis as, o uso de uma mesma conceção do sis ema de Es ado – de inido em e mos de um
es ado de gue a – e a adoção, po pa e de Mo gen hau, da ca ego ia his ó ica do “sis ema
Ves e aliano” c iada po Ranke.
31
No en an o, apesa de se o abalho que mais sis ema iza
es a elação, ambém aqui, al como na análise de Smi h, é ab angido apenas um eó ico ealis a,
icando po explo a a elação que Ranke pode á ou não e com ou os eó icos e, des a o ma,
com o co pus ealis a mais as o. Po ou o lado, al como odas as in es igações a é ago a
ci adas, ambém a de Ma ques de Almeida não oma a in luência de Ranke sob e o Realismo
como a sua emá ica cen al, o que o na ainda mais impe a i a a ealização de um es udo que
o p ocu e aze .
No emos, de passagem, que a ealização de um es udo como es e se o na mais
p emen e na exa a medida em que podemos, com e ei o, encon a alusões di e as a Ranke e à
30
FARRENKOPF, J. – The challenge o Spengle ian pessimism o Ranke and poli ical ealism, p. 280-281.
31
MARQUES DE ALMEIDA, J. C. – Be ween Ana chy and Empi e (2000), p. 63-65.
13
sua his o iog a ia nas ob as dos mais canónicos au o es ealis as, o que nos e ela que es es,
no mínimo, se encon a am amilia izados com o abalho do his o iado alemão: não só
Mo gen hau se e e e di e amen e a Ranke,
32
como o neo- ealis a Wal z apa en a in eg á-lo
en e os p oponen es da “ e cei a imagem”, na ipologia que o mula em Man, he S a e, and
Wa .
33
Pe an e ais alusões, mais salien e se o na o ac o de, em odo o le an amen o
bibliog á ico ei o, nenhum es udo ocado nes a emá ica e sido encon ado. Podemos, nes e
sen ido, cons a a que se encon a po aze uma análise que se ocupe, exclusi amen e, com a
in luência de Ranke sob e o Realismo, ou seja, uma in es igação que ome es a úl ima enquan o
o seu obje o de es udo cen al e o e eça conclusões que possam, en ão, o nece espos as mais
igo osas a seu espei o.
Pa e I: Leopold on Ranke
Capí ulo 1: A His o iog a ia Rankeana
1.1 – A On ologia P o idencial de Ranke
Ao longo da p imei a secção des e Capí ulo, e emos como a his o iog a ia de Ranke
pode se al o de uma discussão sob e os seus p essupos os eó icos e on ológicos undacionais.
De seguida, explo a emos quais são es es p essupos os, des acando o ac o de es a
his o iog a ia se sus en a numa on ologia de ca á e di ino e P o idencial. Po im, da emos
con a de algumas consequências, pa a a ob a de Ranke, esul an es des a on ologia, em ês
planos: epis emológico, empe amen al/sen imen al e polí ico-no ma i o.
Não cons i ui um exage o dize que Leopold on Ranke oi um dos mais in luen es
his o iado es de odo o séc. XIX, numa al u a em que a His ó ia enquan o disciplina
academicamen e mode na se começa a a o ma e a consolida na Eu opa. A his o iog a ia que
desen ol eu não só se cons i uiu como a o ma canónica de aze his ó ia no séc. XIX –
sob e udo no que ao uso c í ico dos documen os dizia espei o
34
–, como ainda ep esen a a,
32
MORGENTHAU, H. J. – The In ellec ual and Poli ical Func ions o Theo y, p. 43.
33
WALTZ, K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 7; 225. Mencionemos, ambém, que Wal z ol a a e e encia
Ranke num dos seus a igos mais ecen es (WALTZ, K. N. – S uc u al Realism a e he Cold Wa , p. 8).
34
IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. xi.
14
pa a lá de meados do séc. XX, o modelo ao qual uma his o iog a ia esponsá el, em e mos
p o issionais e académicos, de e ia aspi a .
35
No âmago do pensamen o de Ranke encon a a-se, acima de udo, a ideia de que o
Homem só pode ia se comp eendido com e e ência à sua his ó ia; já as ciências que se
iessem a ocupa do es udo e en endimen o des a his ó ia e iam de se , especi icamen e,
ciências his ó icas, ou seja, equipadas com um conjun o de mé odos adicalmen e di e en es
daqueles aos quais as Ciências Na u ais e a Filoso ia de en ão eco iam.
36
Es a ideia de
oposição aos mé odos de ou as á eas do conhecimen o, bem como a uma sé ie de co en es
in elec uais em oga na p imei a me ade do séc. XIX, é imp escindí el pa a melho
comp eende mos a nascen e his o iog a ia de Ranke; a a a-se de uma oposição não apenas
aos mé odos da Filoso ia Idealis a (encabeçada po Hegel) e ao posi i ismo cien í ico, como
ambém aos impulsos omân icos do Roman ismo: “Wha he [Ranke] ega ded as an
app op ia ely ealis ic his o ical me hod was wha was le o consciousness o pe o m a e
i had ejec ed he me hods o he Roman ic a , Posi i is science, and Idealis ic philosophy o
his own ime.”
37
Pa a Ranke, odos es es mé odos cons i uíam impedimen os ao abalho do
his o iado na medida em que o deixa am míope, impedindo-o de e o passado em si mesmo,
de uma o ma imedia a e anspa en e, com oda a sua co e com udo o que inha de único;
impedindo-o, po an o, de comp eende e esc e e a His ó ia de uma manei a ealís ica e
obje i a.
Tais ejeições não signi icam, no en an o, que se de a equaciona a his o iog a ia de
Ranke e es a sua noção de obje i idade li e de cons angimen os com uma espécie de
“empi ismo ingénuo”,
38
desp o ido de odo e qualque elemen o ilosó ico e eó ico
p econcebido e en o mado . Como qualque ob a his o iog á ica (em oposição a um simples
ela o c onológico), ambém a de Ranke necessi a de uma base eó ica undacional, an i iã de
um conjun o de concei os e ca ego ias, que acaba não só po es u u a a análise p op iamen e
di a, como, mais p o undamen e e an es de udo o es o, po en o ma a len e com que o
his o iado olha pa a o passado e, subsequen emen e, o c ia, o az a é nós num co po na a i o.
Nem o p óp io Hans Mo gen hau em ilusões quan o ao “esquele o eó ico” que
ine i a elmen e subjaz qualque his o iog a ia, e e indo-se em especí ico à de Ranke: “Theo y
35
WHITE, H. – Me ahis o y, p. 164
36
IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. xx i.
37
WHITE, H. – Me ahis o y, p. 164.
38
WHITE, H. – Me ahis o y, p. 164.
15
is implici in all g ea his o iog aphy. In his o ians wi h a philosophic ben , such as Thucydides
and Ranke, he his o y o o eign policy appea s as a me e demons a ion o ce ain heo e ical
assump ions which a e always p esen benea h he su ace o his o ical e en s o p o ide he
s anda ds o hei selec ion and o gi e hem meaning. In such his o ians o in e na ional
poli ics, heo y is like he skele on”.
39
Nes e sen ido, não é pelo simples ac o de a his o iog a ia ankeana p i ilegia , em
e mos me odológicos, uma pesquisa e análise empí ica igo osas jun o dos a qui os e das
on es que ica isen a des e undo eó ico, mesmo que se encon e implíci o.
40
Ab e-se, assim,
espaço pa a es a his o iog a ia pode se , al como odas as es an es, al o de um deba e sob e
os seus pos ulados e p essupos os eó icos, bem como as suas aízes on ológicas p o undas,
econhecendo-a e a ando-a como a cons ução in elec ual que, no undo e an es de udo o
es o, é e nunca deixa de se .
Di o is o, que ia a inal o his o iado alemão com a sua len e pa icula , cada ez que
olha a pa a o campo his ó ico? Jus amen e uma cons elação de indi idualidades i as, que
mais não e am do que exp essões de ideias nelas con idas e que encon a am o ma em pessoas,
cul u as, ins i uições, ou Es ados, cada uma das quais do ada de signi icado e o iginalidade,
bem como de um ca á e único; daqui deco ia o ac o de não pode em se en endidas com
ecu so às gene alizações e às abs ações da Filoso ia, nem de pode em se eduzidas a me as
leis imu á eis como aquelas que às Ciências Na u ais cabia deci a na Na u eza. T a a a-se
de uma conceção undada numa eo ia de ideias neopla ónica, na qual o Mundo e a concebido
em e mos de mónadas au ossus en adas, go e nadas po um p incípio in e no de
desen ol imen o cuja o igem e execução se encon a a em ha monia com a undamen al
on ade de Deus: “The ideas ha e hei o igin in he will o God. The concep ion o indi iduals
as he exp ession o an idea inhe en wi hin hem limi s he applicabili y o he p inciple o
causa ion o he his o ical scene. Fo he idea i sel can ne e be subjec ed o he laws
go e ning na u e. I is go e ned by a law o i s own.”
41
Pa a Ranke, e a Deus, po an o, que
a ua a enquan o a on e de sen ido úl ima de oda a His ó ia, cabendo ao his o iado a a e a de
le os Seus hie ógli os di inos, p ocu a a Sua mão di ina a a ua sob e o cu so his ó ico e,
39
MORGENTHAU, H. J. – The In ellec ual and Poli ical Func ions o Theo y, p. 43.
40
Digamos que não pa ece seque se es e o caso: Igge s a gumen a que Ranke e a guiado po assunções eó icas
conscien es e explíci as, es ando longe de se hos il a oda e qualque discussão ao ní el da eo ia (IGGERS, G.
G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. xiii). No en an o, como o mesmo au o a gumen a, o his o iado
alemão ese ou ela i amen e pouco do seu es o ço in elec ual a es as discussões explíci as (IGGERS, G. G. –
The Ge man Concep ion o His o y, p. 70).
41
IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. xxx.
16
com udo is o, sen i a Sua di ina p esença no mundo do Homem, ao pon o de o p óp io o ício
his o iog á ico pode se enca ado como uma o ma de “ado ação” (“wo ship”).
42
A a és
des a len e inco up a sob e o passado, pode ia se ga an ido o es abelecimen o de um mé odo
his ó ico obje i o e ealís ico; um mé odo que pe mi isse comp eende as indi idualidades
au ossus en adas que compunham o campo his ó ico, bem como a on e P o idencial da qual
adqui iam o seu sen ido, e econs ui o passado “ al como ele oi” (“wie es eigen lich
gewesen”).
43
É impo an e, oda ia, salien a que a cons a ação de Deus enquan o es a on e
on ológica basila não p e endia, de modo algum, equi ale a qualque ipo de asse ção
acionalis a que p ocu asse in e p e a a on ade di ina de uma o ma especula i a e a p io i,
ou seja, an es de se p ocede a uma análise his ó ica e e i a. Theodo e Von Laue explica-nos
que Ranke desp eza a cons uções abs a as e eleológicas de ipo hegeliano, p ocu ando, pelo
con á io, começa po uma análise conc e a dos enómenos his ó icos (dos ac os e dos
ma e iais ao seu dispo ) e, somen e a pa i daí, pa i em busca da on e di ina po de ás da
apa ência his ó ica, num p ocesso de “ap oximação in ui i a”;
44
assim, o his o iado pode ia
p ocede indu i amen e do pa icula pa a o ge al, do indi idual pa a o o al, da pa e pa a o
odo.
45
Como no a Von Laue, podemos, po isso, conside a que di e en es ipos de causalidade
es a am em jogo na lei u a que Ranke azia da His ó ia, o mando en e si uma espécie de
“hie a quia de causas”, odas elas de i adas de uma mesma unidade on ológica P o idencial:
os ní eis mais baixos, onde igo a a uma causalidade imedia a e p agmá ica, e am englobados
pela causalidade dos ní eis mais al os, de ac escida gene alidade e abs ação, nos quais
in e agiam as indi idualidades ideais his ó icas di inamen e sancionadas. Do econhecimen o
não apenas dos ac os imedia os, mas ambém da ligação causal en e es es á ios ní eis, Ranke
pode ia a ingi a e dade obje i a.
46
42
FITZSIMONS, M. A. – Ranke: His o y as Wo ship, p. 555. Como o p óp io Ranke indica, o seu o ício de
his o iado acaba a po cons i ui uma o ma de “se i ” Deus: “In all o his o y God dwells, li es, can be
ecognized. E e y deed gi es es imony o Him, e e y momen p eaches His name, bu mos o all, i seems o me,
does so he connec edness o His o y. (…) No ma e how i goes and succeeds, le us do ou pa o un eil his
holy hie oglyph! In his way oo we se e God, in his way we a e also p ies s and eache s.” (RANKE, L. – The
Young Ranke’s Vision o His o y and God (Exce p s om a le e o his b o he Hein ich om
F ank u /Ode , end o Ma ch 1820), in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 4).
43
IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. xx ii.
44
VON LAUE, T. H. – Leopold Ranke: The Fo ma i e Yea s, p. 42-43.
45
RANKE, L. – On he Cha ac e o His o ical Science (A manusc ip o he 1830s), in IGGERS, G. G. –
The Theo y and P ac ice o His o y, p. 15.
46
VON LAUE, T. H. – Leopold Ranke: The Fo ma i e Yea s, p. 125.
17
Com base nes es aços on ológicos da his o iog a ia de Ranke, podemos des aca ês
impo an es consequências de si deco en es, si uadas a ês planos co ela i os: um plano
epis emológico, um empe amen al (ou sen imen al) e um polí ico-no ma i o. Em p imei o
luga , num plano epis emológico, es a on ologia P o idencial a ua a enquan o uma on e de
segu ança pa a o his o iado e a sua a i idade de in es igação: de ido ao seu ca á e espi i ual,
cada ideia his ó ica apenas pode ia se ap eendida indi idualmen e po ia de um p ocesso
ambém ele espi i ual (“spi i ual appe cep ion”), ou seja, um p ocesso conscien e an o do
ac o de de i a da mesma on e que aquelas ideias, como do ac o de se des a on e que es á
em busca, assegu ando, assim, uma “cong uência en e o indi íduo e a espécie” da qual
esul a ia a e dadei a obje i idade.
47
O alen o do his o iado consis ia, po an o, na sua
capacidade de se ex ingui enquan o um agen e e obse ado ex e no, deixando-se abso e
espi i ualmen e sob e os seus es udos em busca do la en e undo espi i ual dos enómenos
his ó icos, num pon o em que a obje i idade epis emológica e o conhecimen o des a base
espi i ual – o conhecimen o de Deus – coincidiam segu amen e: “Philosophy, uni e sal
his o y, eligion – all alike con e ged upon he knowledge o God in a dim in ini e ba ely
isible o man. A ha poin he knowledge o God and objec i i y coincided.”
48
Em segundo luga , num plano que designa emos como empe amen al, es a base
on ológica ambém pe mi ia a Ranke cul i a um p o undo o imismo ace ao desen ola de odo
o p ocesso his ó ico: o passado, o p esen e e o u u o da His ó ia e am do ados de uma
undamen al ha monia, ao es a em odos igualmen e sal agua dados po uma mesma
P o idência bene olen e. Digamos, aliás, que uma das ma cas mais ca ac e ís icas do
c is ianismo de Ranke e a, jus amen e, o p edominan e des aque des e elemen o de
bene olência, a despei o do econhecimen o de uma ce a componen e de maldade no Homem
e nas ins i uições humanas, ípica de ou as in e p e ações c is ãs que op am po pos ula ,
dualis icamen e, um con li o en e a “lei é ica” e a “ ealidade posi i a” e imedia a: “wha is
almos en i ely missing in Ranke, despi e his p onounced Ch is iani y (…) is he ecogni ion
o an elemen o e il in man and in human ins i u ions. The biblical p ophe s, as well as S oic,
Ch is ian, and Enligh enmen na u al law hinke s, ha e always seen a dualism be ween he
47
“as in he las analysis e e y uni y is a spi i ual one, i can only be g asped h ough spi i ual appe cep ion.
This appe cep ion es s on he ag eemen o he laws in acco dance wi h which he obse ing mind p oceeds wi h
hose which de e mine he eme gence o he objec unde obse a ion. (…) All genius es s on he cong uence o
he indi idual and he species. The p oduc i e p inciple which o med and c ea ed na u e con on s i sel in he
indi idual who ecognizes he and h ough him becomes clea o i sel and a ains sel -unde s anding.” (RANKE,
L. – On he Cha ac e o His o ical Science (A manusc ip o he 1830s), in IGGERS, G. G. – The Theo y
and P ac ice o His o y, p. 12).
48
VON LAUE, T. H. – Leopold Ranke: The Fo ma i e Yea s, p. 126.
24
Como nos diz Meinecke, Ranke já econhecia, com es a ideia, um ac o social que os
mode nos sociólogos do séc. XX en a am demons a po ia das mais “penosas” análises: o
ac o de a au o idade se basea , ambém, numa dimensão mo al.
74
Do mesmo modo, como
indica Von Laue, apidamen e cons a amos o p o undo o imismo que, uma ez mais, es á
implíci o nes a lei u a da ida in e na das comunidades es a ais: oda a con li ualidade in e na
en e g upos sociais é negligenciada, oda a icção en e indi íduo e Es ado é diluída e, em
pa icula , udo o que de coe ci o e de compulsi o es e úl imo u iliza na ga an ia da es abilidade
e coesão sociais é menosp ezado, a a o da componen e es i amen e mo al.
75
A pa des e empe amen o o imis a, uma análise ao Es ado na his o iog a ia de Ranke
ambém nos pe mi e des aca a o ma como a componen e polí ico-no ma i a conse ado a do
his o iado se e le e. Nes a ma é ia, sigamos a a gumen ação de Hayden Whi e e des aquemos
o ac o de Ranke e abe o a possibilidade de um sis ema de Es ados-Nação i a du a pa a
semp e, não con emplando o su gimen o de no as e di e en es o mas de comunidade que
iessem a anscende as es i as di isões nacionais. Tal sucede uma ez que a sua “ideia da
Nação”, undada na sua on ologia P o idencial e espi i ual, assume um alo absolu o e
p ees abelecido na sua eo ia da his ó ia e na sua his o iog a ia, deixando de se is a como o
que, no undo, é: uma me a ideia, his o icamen e si uada, a espei o da o ganização dos
humanos em comunidades, que omou o ma num pe íodo his ó ico especí ico e que pode ia,
no u u o, da luga a uma ou a ideia, a uma ou a o ganização social.
76
Po ou as pala as,
Ranke absolu iza his o icamen e o Es ado-Nação.
Em pa icula , o his o iado menciona que o ad en o de uma unidade polí ica mais
as a, de escopo global e humani á io, a é pode ia i a cons i ui um “p og esso mo al”,
e e indo ambém que a ciência his ó ica, em p incípio, não se opõe a es a ideia; no en an o,
não a de e á o na em nenhuma espécie de “p incípio da His ó ia”, ou seja, não a de e á
ans o ma numa supos a me a pa a a qual o cu so his ó ico de e á caminha . O obje i o des a
ciência – e dos his o iado es enquan o seus agen es –, é “ ese a -se aos ac os” (“keep o he
ac s”),
77
uma exp essão que de imedia o deno a a ace a con empla i a da his o iog a ia de
74
MEINECKE, F. – Machia ellism, p. 385.
75
VON LAUE, T. H. – Leopold Ranke: The Fo ma i e Yea s, p. 97.
76
WHITE, H. – Me ahis o y, p. 174.
77
RANKE, L. – On P og ess in His o y (F om he i s lec u e o King Maximillian II o Ba a ia, “On he
Epochs o Mode n His o y”, 1854), in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 23.
25
Ranke e a simul ânea a e são do his o iado alemão às in e e ências no cu so na u al dos
acon ecimen os, sancionado po Deus.
1.3 – Ranke e o Equilíb io de Pode
Ao longo da p esen e secção, p ocu a emos in e p e a a lei u a que Ranke az do
Equilíb io de Pode à luz da ipologia o e ecida po Li le, conside ando-a bas an e p óxima do
modelo associa i o p opos o po es e úl imo. Depois, analisa emos como es a lei u a
associa i a do Equilíb io de Pode é insepa á el da on ologia P o idencial que subjaz oda a
pe spe i a de Ranke.
É no seu amoso ensaio The G ea Powe s (Die g oßen Mäch e) que Ranke mais
e iden emen e nos ala sob e o Equilíb io de Pode en e as G andes Po ências eu opeias.
Como o his o iado alemão e e e, “Wo ld his o y does no p esen such a chao ic umul ,
wa ing, and planless succession o s a es and peoples as appea a i s sigh ”;
78
ha ia, com
e ei o, um Equilíb io de Pode em pe manen e ação, a uando enquan o o p incípio o denado
do ní el sis émico que es u u a a o amewo k de análise his ó ica de Ranke, acima dos
Es ados nacionais. Es e sis ema eu opeu ad inha daquilo que, aos olhos do his o iado alemão,
cons i uía a “unidade essencial” da Eu opa ociden al; Sche ill diz-nos que Ranke pode mesmo
se conside ado o p imei o au o secula a da con a, nas suas ob as, da exis ência des a
“unidade”, que o azia a ibui uma ac escida ên ase analí ica ao conjun o de in e ações mú uas
en e os di e sos Es ados eu opeus.
79
O p incípio que explica a es e conjun o de in e ações
e a, p ecisamen e, o Equilíb io de Pode ; os Es ados eu opeus in e agiam en e si segundo os
inescapá eis di ames e impe a i os des e p incípio.
Mas que p incípio e a es e, mais especi icamen e, e quais e am as suas consequências?
Que ipo de compo amen os induzia nos Es ados e segundo que impe a i os em conc e o? Em
suma, qual e a a in e p e ação pa icula que Ranke inha a espei o do Equilíb io de Pode , que
assumia es e luga ão signi ica i o na sua his o iog a ia? Reco demos que se á à luz da
dis inção p opos a po Richa d Li le en e um Equilíb io de Pode Ad e sa i o e um Equilíb io
de Pode Associa i o que an o a in e p e ação especí ica de Ranke, como as dos ês au o es
ealis as, se á ei a. Nes e caso, po an o, adap emos as pe gun as an e io es à imagem des a
dis inção: se á que Ranke ia as elações in e es a ais es i amen e em e mos hobbesianos,
78
RANKE, L. – The G ea Powe s, in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 52.
79
SCHEVILL, F. – Ranke: Rise, Decline, and Pe sis ence o a Repu a ion, p. 227.
26
onde só ha e ia espaço pa a powe poli ics egoís as e ad e sa i as le adas a cabo po Es ados
mu uamen e e pe manen emen e suspei os, com um esul an e en endimen o do Equilíb io de
Pode sob a imagem da ígida e in lexí el balança compe i i a? Ou se á a in e p e ação do
his o iado alemão mais p óxima do modelo associa i o, que ê no Equilíb io de Pode uma
en a i a po pa e dos Es ados de p ocu a em, em conjun o, a p ese ação de um equilíb io
jus o en e si, de modo a impedi em – ou pelo menos desincen i a em – o su gimen o de
e en uais c uzadas hegemónicas po pa e de qualque um deles?
À p imei a is a, e sob e udo após a exposição da secção an e io , somos le ados a c e
que a in e p e ação de Ranke se ap oxima mais do modelo ad e sa i o. Como oi indicado, a
o igem do Es ado é ida como o momen o em que es e ob ém a sua independência e au onomia
ace às o ças ex e nas, po ia da gue a; a pa i daí, odo o seu compo amen o e odas as
suas ações de e ão pa a semp e se no eados po es e p incípio undamen al de sob e i ência,
ele ado a “lei sup ema”, num mundo onde a escolha e a en e o egoísmo ou o desapa ecimen o;
um mundo onde impe a a uma simples ideia que Ranke desc e e de uma o ma b e e e exa a:
“ he idea o a comple ely independen S a e au ho i y, no ied by any o eign conside a ions,
and only ounded on i sel .”
80
O a, se o Es ado não es a a, de ac o, p eso po nenhuma
“conside ação ex e na” e se ealmen e só pode ia con a consigo p óp io pa a ga an i os seus
in e esses, que espaço ha e ia pa a con empla a possibilidade de exis i um equilíb io jus o
cole i amen e p ese ado po um conjun o de Es ados? Que hipó ese ha e ia, com base em
udo o que oi analisado a é aqui, de Ranke in e p e a o Equilíb io de Pode de qualque o ma
se não segundo o modelo ad e sa i o? Coloquemos, pa a já, a hipó ese de não se es e o caso
e di ecionemos o oco pa a algumas passagens de Ranke dedicadas, especi icamen e, à
emá ica do Equilíb io de Pode .
Como oi e e ido, é em The G ea Powe s que Ranke mais explici amen e expõe as
suas ideias a espei o do Equilíb io. Dando con a das oscilações de pode en e as G andes
Po ências eu opeias desde inais do séc. XVII a é meados do séc. XIX, Ranke alude à o ma
como oda e qualque en a i a de domínio p eponde an e po pa e de um único Es ado é
semp e con abalançada po uma aliança de Es ados opos a, de modo a es au a e con inua a
ape eiçoa o “sis ema de lei e o dem” eu opeu: “I is ue ha wo ld agi a ions now and again
des oy his sys em o law and o de . Bu a e hey ha e subsided, i is econs i u ed, and all
80
RANKE, L. – Re o ma ionsgeschich e, Ci ado em MEINECKE, F. – Machia ellism, p. 386.
27
exe ions aim only a pe ec ing i once mo e.”
81
Nes e exce o, obse amos a o ma como
Ranke en endia que es e ape eiçoamen o de e ia se u o de es o ços (“exe ions”) po pa e
dos Es ados, sendo, mais especi icamen e, as G andes Po ências eu opeias que, em i ude do
seu ac escido pode , es a iam enca egues des a a e a: “I has always been a ma e o balance
(…) i e G ea Powe s, each so e eign, each wi h pa icula in e es s, would consul oge he
on all impo an ma e s, so ha – a leas up o his day albei unde he mos di icul
ci cums ances – a solu ion has always been ound”.
82
Já ha íamos aludido ao ac o de Ranke ac edi a que a Eu opa se a a a de uma
“unidade”, mas só aqui, nes es exce os, é que nos ape cebemos dos p incipais aços e das
mais dis in as ca ac e ís icas que es e “sis ema de lei e o dem”, com e ei o, assumia pa a o
his o iado : a plu alidade, a descen alização e a mul ipola idade, co po izadas nas eme gen es
po ências eu opeias que se consolida am, a pa i de inais do séc. XVII, em espos a à
p edominância ancesa no con inen e eu opeu. Como explica Ranke, oi jus amen e con a
es a hegemonia que oi desen ol ido o concei o de Equilíb io de Pode : “agains such an
inc ease in s eng h and in poli ical p edominance he lesse powe s could band oge he . (…)
The concep o he Eu opean balance o powe was de eloped in o de ha he union o many
o he s a es migh esis he p e ensions o he ‘exo bi an ’ cou .”
83
E am es es aços de
plu alismo e de descen alização que dis inguiam es e sis ema de odos os Impé ios
cen alizados que ha iam su gido na His ó ia a é en ão
84
e, simul aneamen e, e am es es aços
que o Equilíb io, enquan o p incípio o denado do sis ema, isa a p ese a .
O Equilíb io de Pode e a, assim, e a ado po Ranke como algo que induzia os Es ados
a uni em es o ços ace a qualque ameaça hegemónica, cuja p e ensa uni e salidade coloca ia
em causa a independência de cada um e, como consequência, a ão es imada descen alização
eu opeia, p ecisamen e undada na au onomia de cada en idade es a al. Os Es ados – sob e udo
as G andes Po ências – e iam o papel de ela pela manu enção des e “sis ema de lei e o dem”,
o que não só azia com que a ambição de cada um acabasse po se limi ada,
85
como o seu
egoísmo acabasse po se e eado, con o me nos diz Meinecke: “he [Ranke] saw ce ain
81
RANKE, L. – The G ea Powe s, in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 33.
82
RANKE, L. – We k und Nachlass, ci ado em SCHULIN, E. – Ranke’s Uni e sal His o y and Na ional
His o y, p. 13.
83
RANKE, L. – The G ea Powe s, in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 34.
84
BOLDT, A. – Ranke and he idea o Eu ope, p. 9.
85
“In one impo an sense, Ranke’s s a e is limi ed in i s ambi ion: his ecogni ion o a Eu opean communi y and
o he ole o all he g ea powe s o main ain his communi y and con ibu e o he ullness and a ie y o he
Eu opean amily.” (IGGERS, G. G. – The Ge man Concep ion o His o y, p. 82).
28
cons an ly mode a ing and egula ing o ces a wo k, which se some bounds, no only o he
c ude u ge o conques , bu also o he exclusi e egoism o in e es shown by he sepa a e
S a es.”
86
De ce a o ma, al não é incompa í el com o que oi a gumen ado na secção an e io ,
a espei o do Es ado: ao p ese a em um equilíb io jus o con a ambições hegemónicas, os
di e en es Es ados acaba am po es a simplesmen e a sal agua da a sua espe i a au onomia
indi idual, a obedece , a inal, àquilo que e a a sua “lei sup ema”.
Nes e sen ido, podemos chega à conclusão de que o Equilíb io de Pode , na ó ica de
Ranke, pa ece ap oxima -se bas an e mais do modelo associa i o do que do ad e sa i o: apesa
de de ini a au op ese ação do Es ado como a sua “lei sup ema” e de salien a a o ma como
es e, no limi e, só pode ia con a consigo p óp io pa a ela pelos seus in e esses, Ranke não
excluía a exis ência de um sis ema eu opeu plu al e descen alizado no qual o Equilíb io de
Pode podia se cole i amen e p ese ado po uma associação de G andes Po ências, de modo
a p o ege de qualque ameaça hegemónica es a o dem eu opeia e o equilíb io jus o que a
undamen a a. Longe de se concebido segundo a imagem ad e sa i a da balança cujos p a os
isam incessan emen e supe a -se um ao ou o, o Equilíb io de Pode e a ido po Ranke como
um a co no qual se sus en a a oda a o dem mul ipola eu opeia; um a co cole i amen e
compos o e p ese ado pelas Po ências.
Aos olhos de Ranke, e a em o no des a o dem que a His ó ia Mode na se ha ia
desen ol ido, que o p esen e se con inua a a ege e que o u u o se i ia di a .
87
Os Es ados
eu opeus cons i uíam a “leading uni o ci iliza ion”
88
e, logo, o u u o da polí ica in e nacional
con inua ia a unda -se nes a Eu opa di e si icada, plu al, descen alizada e mul ipola ; al e a
o des ino de oda a His ó ia. Assim se o na e iden e, uma ez mais, não apenas o
conse ado ismo polí ico de Ranke – po ia da sua absolu ização his ó ica des a o dem
in e nacional especí ica –, como a sua c ença p o undamen e o imis a ace ao u u o das
elações in e nacionais, com o sis ema eu opeu num pe manen e p ocesso de consolidação e
ape eiçoamen o: “The capaci y o he Eu opean s a es o sa egua d hei poli ical
independence and cul u al indi iduali y h ough he main enance o a balance o powe sys em
86
MEINECKE, F. – Machia ellism, p. 389.
87
“I seemed cha ac e is ic o him, nex , ha Eu ope domina ed he wo ld no as a uni ied empi e (like Rome o
China) bu as a mul iple, mu ually condi ioning sys em o s a es” (SCHULIN, E. – Ranke’s Uni e sal His o y
and Na ional His o y, p. 12).
88
BOLDT, A. – Ranke and he idea o Eu ope, p. 22.
29
is hus glo i ied me aphysically, as an exp ession o a ascenden ‘genius’, consonan wi h he
‘des iny o he wo ld’.”
89
Com e ei o, es e “genius”, pa a Ranke, nada mais e a do que a p óp ia P o idência
on ológica de oda a ealidade his ó ica, e o seu papel, em ma é ia do uncionamen o do
Equilíb io de Pode , pode se in e p e ado à luz do que já oi di o na secção an e io , a espei o
da condu a dos Es ados: al como as ações indi iduais des es úl imos se subo dina am a uma
on ade P o idencial, que a ua a enquan o o ga an e da sua necessidade e ine i abilidade
his ó icas, ambém o p óp io uncionamen o do Equilíb io de Pode e a subo dinado a es a
mesma on ade. Assim, pode -se-ia semp e con a com a capacidade au omá ica de os Es ados
eu opeus sal agua da em, a a és do Equilíb io de Pode , a sua independência polí ica ace a
qualque ameaça hegemónica, pois bas a ia semp e con ia no di ino “espí i o gua dião” que
assim o di a a: “In g ea dange one can sa ely us in he gua dian spi i (Genius) which
always p o ec s Eu ope om domina ion by any one-sided and iolen endency, which always
mee s p essu e on he one side wi h esis ance on he o he , and, h ough a union o he whole
which g ows i me om decade o decade, has happily p ese ed he eedom and sepa a e
exis ence o each s a e.”
90
Assegu ado pela on ade di ina da qual emana a, o Equilíb io de Pode eu opeu e a
ido po Ranke como um p incípio da polí ica in e nacional ine en emen e au omá ico e
ha monioso que, mesmo pon ualmen e pos o em causa po es a ou aquela p e ensão
hegemónica, ine i a elmen e es abelece -se-ia, es abilizando-se uma ez mais. É assim que,
pa a Schulin, se o na pa en e como o en endimen o ankeano des e p incípio pa ilha ce as
a inidades com as eo ias económicas escocesas – c en es na exis ência de uma mão-in isí el
no p ocesso económico – que i iam a culmina no o imismo libe al do séc. XIX: “The e is a
good deal o simple ai h con ained in his in e p e a ion. I is his ai h ul us in he
ha monizing and inally s abilizing con luen e icacy o pa icula in e es s and opposi ional
o ces ha Ranke sha ed wi h he Sco ish a ional economic and social heo ies o he
eigh een h cen u y and, la e , o libe alism.”
91
Des a o ma, conside amos que a lei u a ankeana do Equilíb io de Pode eu opeu, em
e mos eminen emen e associa i os, é insepa á el da glo i icação me a ísica e P o idencial que
89
FARRENKOPF, J. – The challenge o Spengle ian pessimism o Ranke and poli ical ealism, p. 270.
90
RANKE, L. – The G ea Powe s, in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 34.
91
SCHULIN, E. – Ranke’s Uni e sal His o y and Na ional His o y, p. 14.
30
o his o iado alemão az des e p incípio, ou seja, do ac o de o seu uncionamen o se
deco en e da on e di ina que subjaz, on ologicamen e, a His ó ia. Po sua ez, é o ca á e
bene olen e des a mesma on e P o idencial que az com que es e Equilíb io seja, de aiz,
apon ado pa a a es abilidade in e nacional e pa a a p ocu a de um equilíb io jus o en e
Es ados-Nação, segundo a noção c is ã de que odas as populações do Mundo, i endo sob a
mão de um único Deus, de em p ocu a cul i a uma a inidade mú ua (“kinship”): “Religious
u h mus (…) keep he S a e con inually eminded o he o igin and aim o ea hly li e, o he
igh s o neighbou ing S a es and he kinship be ween all he na ions.”
92
Pa e II: Realismo Clássico
Capí ulo 2: O Realismo Polí ico de Hans Mo gen hau
2.1 – Uma Laicização Analí ica
Na p esen e secção, começa emos po explici a aquele que, a nosso e , cons i ui o
con as e on ológico en e a his o iog a ia de Ranke e o ealismo polí ico de Mo gen hau,
designando-o como uma laicização analí ica. Subsequen emen e, e emos a o ma como es e
con as e en e os au o es se e le e em e mos epis emológicos.
An es de da mos con a das mais imedia as e e iden es comunhões que podem se
es abelecidas en e a his o iog a ia ankeana e o ealismo polí ico de Mo gen hau – a espei o
que do Es ado, que do Equilíb io de Pode –, comecemos po segui as di e izes
me odológicas p opos as ao de ini aquele que pode se lido como o con as e on ológico en e
as ob as de ambos os au o es. Con o me e e imos, es e con as e a ua á como uma espécie de
undo sob e o qual o diálogo en e Ranke e cada um dos es an es eó icos ealis as se e e ua á;
subsequen emen e, se á a pa i de si que pa i emos em busca an o de cli agens, como de
simili udes en e os á ios au o es, a espei o das suas lei u as do Es ado e do Equilíb io de
Pode . P ocu emos, na p esen e secção, desc e e e desen ol e es e con as e en e Ranke e
Mo gen hau.
Como e e imos no Capí ulo an e io , a his o iog a ia ankeana alice ça a-se numa
on ologia de aiz neopla ónica, pe an e a qual a His ó ia su gia como um conjun o de
indi idualidades au ossus en adas, di e as exp essões de ideias cuja o igem e desen ol imen o
92
RANKE, L. – Re o ma ionsgeschich e, Ci ado em MEINECKE, F. – Machia ellism, p. 389.
31
se encon a am em consonância e ha monia com a on ade úl ima e o denado a de Deus, que
e a, assim, a on e de sen ido de odo o p ocesso his ó ico. O a, com o ealismo de Mo gen hau,
assis imos ao es abelecimen o de uma ou a base on ológica, bas an e dis in a da de Ranke:
deixando de eco e a uma on e di ina e P o idencial, o eó ico laiciza a sua on ologia e passa
a undá-la na noção biopsicológica de “na u eza humana” (“Poli ical ealism belie es ha
poli ics, like socie y in gene al, is go e ned by objec i e laws ha ha e hei oo s in human
na u e.”
93
). Passam, po ou as pala as, a se as “leis da na u eza humana”, imu á eis e
obje i as desde a An iguidade Clássica, que o e ecem a chance pa a c ia uma eo ia acional
da polí ica, cons i uindo a ma ca da sua obje i idade.
94
Nes e sen ido, ace a Ranke e à sua
his o iog a ia, ope a-se, po assim dize , uma laicização analí ica na passagem pa a o ealismo
de Mo gen hau, com a on ologia P o idencial daquele a da luga à on ológica “na u eza
humana” e às suas “leis obje i as” des e úl imo.
Eis o mo i o pelo qual, no e cei o qua el do séc. XX, Kenne h Wal z i ia a aze a
ca ego ização e aglome ação e ospe i as de Mo gen hau (e ambém de Niebuh , como
e emos) sob o desígnio de “ eó ico de p imei a imagem”, naquele que e a o seu es o ço
axonómico pa a dis ingui as ês o mas de localiza as causas dos con li os in e nacionais,
bem como os seus espe i os p oponen es: os eó icos de “p imei a imagem” localiza am es as
causas na cons i uição humana; os de “segunda imagem” na ins i uição do Es ado e os de
“ e cei a imagem” no sis ema in e nacional.
95
Se ia es a uma o ma de o ganiza a li e a u a
em ês ní eis de análise, com uma igu a como Mo gen hau a assumi um ób io luga de
des aque en e os p oponen es da an opocên ica “p imei a imagem”.
96
É sob e o undo de obje i idade o necido pela “na u eza humana” que se o na
ope a i o o concei o de “in e esse de inido em e mos de pode ”, na análise conc e a da polí ica
in e nacional: pa a Mo gen hau, o es adis a pensa e age nes es e mos, ou, pa a se mais
p eciso, pensa e agi nes es e mos é p ocede de uma o ma poli icamen e acional.
97
É es a
acionalidade que, segundo o eó ico ge mano-ame icano, ga an e a no á el con inuidade
his ó ica na polí ica ex e na dos mais a iados a o es es a ais, disciplinando as suas ações e os
seus compo amen os: “The concep o in e es de ined as powe (…) p o ides o a ional
discipline in ac ion and c ea es ha as ounding con inui y in o eign policy which makes
93
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 4.
94
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 4.
95
WALTZ, K. N. – Man, The S a e, and Wa .
96
WALTZ, K. N. – Man, The S a e, and Wa , Cap. 2.
97
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 5.
32
Ame ican, B i ish, o Russian o eign policy appea as an in elligible, a ional con inuum, by
and la ge consis en wi hin i sel , ega dless o he di e en mo i es, p e e ences, and
in ellec ual and mo al quali ies o successi e s a esmen.”
98
Do mesmo modo, al como
disciplina as ações des es a o es, impõe, em e mos epis emológicos, uma disciplina in elec ual
sob e o olha do obse ado , que já ai sabe p e iamen e do que es á à p ocu a na sua análise,
possibili ando a comp eensão eó ica dos enómenos polí icos.
99
No en an o, Mo gen hau assume, desde logo, que qualque análise da polí ica
in e nacional p ecisa á de e em con a aquilo que, na sua pe spe i a, cons i ui a undamen al
con ingência da ealidade, esponsá el an o po de le i a acionalidade na condu a de polí ica
ex e na, como po di icul a a cons ução de uma eo ia que p ocu e da con a des e elemen o
acional. Com e ei o, no seio da sua análise laicizada, é abe a a po a à con ingência e a odas
as suas consequências pa a o es adis a e pa a o eó ico: “The con ingen elemen s o pe sonali y,
p ejudice, and subjec i e p e e ence, and o all he weaknesses o in ellec and will which lesh
is hei o, a e bound o de lec o eign policies om hei a ional cou se.”
100
Não obs an e,
apesa das limi ações azidas po es a con ingência, Mo gen hau e e e, logo a segui , que uma
eo ia da polí ica in e nacional que p e enda da con a da acionalidade no seu obje o de es udo
de e á abs ai -se in elec ualmen e de odos os elemen os (de odas as “i acionalidades”) que
aquela az consigo, sendo com base nes e p elimina auspício que Mo gen hau se lança a uma
eo ização das elações in e nacionais.
101
Des e modo, começamos po e como a di e en e on ologia de Ranke e de Mo gen hau
le a-os a oma di e en es pe spe i as a espei o da segu ança epis emológica en ol ida nas
suas espe i as análises da polí ica in e nacional. Como e e imos, a on ologia P o idencial
subjacen e à his o iog a ia de Ranke pe mi ia ao his o iado p ocede àquilo que, na sua ó ica,
cons i uía uma análise epis emologicamen e segu a da polí ica in e nacional e do p ocesso
his ó ico mais as o: ao ex ingui -se enquan o agen e/obse ado ex e no e deixa -se abso e
espi i ualmen e sob e os enómenos his ó icos em in es igação, o his o iado pode ia chega
ao la en e undo espi i ual e di ino po de ás de cada um des es, assegu ando, assim, uma
plena obje i idade epis emológica em odo o seu o ício.
98
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 5.
99
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 5.
100
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 7.
101
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 7.
33
Já em Mo gen hau, es e sedimen o espi i ual dá luga , como imos, à omnip esença
on ológica da con ingência, que di icul a e limi a de aiz qualque aspi ação eó ica no âmbi o
da polí ica in e nacional; assumindo a ine en e di iculdade de p ocede a uma cons ução
eó ica nes e domínio, a a e a do in es igado e á de p incipia po uma necessá ia abs ação
dos elemen os “i acionais” que a ealidade em pa a o e ece , jamais se podendo julga
plenamen e segu a ou comple amen e obje i a. Nes e sen ido, as on ológicas “leis imu á eis
da na u eza humana” de e ão cons i ui um mínimo solo obje i o sob e o qual o
desen ol imen o de uma eo ia das elações in e nacionais b o a á, p ocu ando semp e e le i ,
mesmo que de uma o ma impe ei a, a obje i idade des as leis: “Realism, belie ing as i does
in he objec i i y o he laws o poli ics, mus also belie e in he possibili y o de eloping a
a ional heo y ha e lec s, howe e impe ec ly and one-sidedly, hese objec i e laws.”
102
2.2 – Mo gen hau e o Es ado: As Unidades Cons i u i as do P esen e
Nes a secção, começa emos po da con a de como o p ocesso de laicização analí ica
se e le e em e mos do en endimen o que Mo gen hau em a espei o do Es ado, a en ando, em
pa icula , sob e as noções de in e esse nacional e de Razão de Es ado. À luz des a análise,
iden i ica emos as cli agens exis en es en e Ranke e Mo gen hau em ma é ia do Es ado e, po
úl imo, apon a emos as semelhanças que podem se encon adas.
No Capí ulo an e io , cons a ámos que, pa a Ranke, o in e esse nacional (a “lei
sup ema” de condu a es a al) e a Razão de Es ado ad inham de um plano me a ísico
anscenden al, consequência da p óp ia conceção do Es ado enquan o uma ideia de o igem
di ina que pe mea a o mundo e es e. Ao es adis a – ao e dadei o es adis a, pelo menos –,
nada mais cabia que não a subo dinação da sua condu a indi idual a es a Razão e ao seguimen o
da “lei sup ema” de segu ança e sob e i ência do seu espe i o Es ado. E a, po an o,
dispensá el e desnecessá io ala de e os ou de negligência nos seus a os, uma ez que e a
simplesmen e necessá io que a sua condu a seguisse um cu so acional, P o idencialmen e
di ado.
O a, no ealismo polí ico de Mo gen hau, os di ames que ecaem sob e as ações dos
Es ados e as egula izam/do am de con inuidade pe manecem os mesmos: um es adis a de e á
p ocu a , na mesma, segui semp e o in e esse nacional e basea odas as suas decisões numa
102
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 4.
40
dinâmicas ad e sa i as das powe poli ics. P ocu ando, no en an o, desmis i ica ideias
p ees abelecidas a espei o do Realismo como es a, Li le indica que an o a adição
ad e sa i a, como a adição associa i a do Equilíb io de Pode es ão p esen es nas análises
dos ealis as clássicos.
120
No caso especí ico de Mo gen hau, Li le alude a uma endência ípica en e uma a ia
de eó icos a uais que consis e em pilha ci ações sol as de Poli ics Among Na ions, sem
qualque ipo de es o ço pa a p ocu a sis ema iza a eo ização p o undamen e eclé ica e
di usa – e, po an o, ambígua – imbuída na ob a. Es e ca á e eclé ico e le e-se di e amen e no
en endimen o que Mo gen hau em do Equilíb io de Pode , o que pe mi e a Li le iden i ica
em Poli ics Among Na ions an o uma lei u a ad e sa i a, como uma lei u a associa i a des e
enómeno: “a close eading o he ex e eals ha he model con la es wo e y di e en
dynamic p ocesses. One associa es he balance o powe wi h he unin ended ou come o g ea
powe s engaged in a mechanis ic d i e o hegemony. The o he dynamic is associa ed wi h a
complex se o social, idea ional and ma e ial ac o s ha amelio a e he e ec s o he i s
dynamic and assis s he g ea powe s in main aining an equilib ium ha p omo es hei
collec i e secu i y and common in e es s.”
121
O pon o de pa ida pa a es a lei u a associa i a
do Equilíb io de Pode , na ob a de Mo gen hau, é o seu econhecimen o de que a dinâmica
ad e sa i a de powe poli ics e elou se impo en e e au odes u i a, com o g ande legado da
adição polí ico-diplomá ica eu opeia a su gi , p ecisamen e, na o ma de en a i as
conscien es po pa e das po ências no sen ido de egula e es ingi a busca incessan e pelo
pode .
122
De ac o, pode se a gumen ado que Mo gen hau alude à exis ência des a dinâmica
associa i a quando e e e que, a pa i do séc. XVI, á ias e lexões eó icas p ocu a am
concebe o Equilíb io de Pode enquan o um mecanismo de p o eção dos Es ados con a
anseios hegemónicos e de dominação mundial: “While he balance o powe as a na u al and
ine i able ou g ow h o he s uggle o powe is as old as poli ical his o y i sel , sys ema ic
heo e ic e lexions, s a ing in he six een h cen u y and eaching hei culmina ion in he
eigh een h and nine een h cen u ies, ha e concei ed he balance o powe gene ally as a
p o ec i e de ice o an alliance o na ions, anxious o hei independence, agains ano he
120
LITTLE, R. – Decons uc ing he Balance o Powe : Two T adi ions o Though , p. 98.
121
LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 92.
122
LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 98.
41
na ion’s designs o wo ld domina ion”.
123
Mo gen hau e e e que an o a aliança eu opeia
con a a en a i a de domínio hegemónico po pa e de Luís XIV, como a coligação de nações
que se opôs a Napoleão cons i uem exemplos his ó icos des e p incípio em ação, com á ias
nações a uni em es o ços pa a sal agua da em a sua espe i a independência con a os p oje os
uni e salis as de ou a;
124
uma lei u a his ó ica que, como já se o nou e iden e, é bas an e
semelhan e à que Ranke o mula em The G ea Powe s.
Po um lado, o ac o de Mo gen hau e espaço na sua análise pa a es a dinâmica
associa i a, undada num conjun o de c enças, eg as e no mas sociais in e subje i as, az
Poli ics Among Na ions oma a apa ência de um ex o “p o o-cons u i is a”, jus amen e
de ido ao peso que a dimensão ideacional assume nes a dinâmica especí ica.
125
Po ou o lado,
e pa a os in e esses da p esen e in es igação, é a pa i des a lei u a de Mo gen hau que um
diálogo mais in e essan e com a his o iog a ia de Ranke pode se es abelecido.
Como indica Li le, o modelo do Equilíb io de Pode de Mo gen hau pa ece mesmo
p essupo que, em eo ia, se ia possí el a dinâmica ad e sa i a i a se suplan ada pela
dinâmica associa i a, com o consenso in e po ências sob e o qual es a se unda a a e o ça -se
de uma o ma p og essi a.
126
Tal acaba ia po do a a pe spe i a de Mo gen hau de um
o imismo equipa á el ao de Ranke, com ambos a ac edi a em nas i udes da o dem mul ipola
eu opeia e nas po encialidades de um Equilíb io de Pode Associa i o que a sus en ou,
sus en a a e sus en a ia ace a qualque ameaça hegemónica. No en an o, p essuposições e
apa ências à pa e, não é es a a his ó ia que Mo gen hau nos con a; pa a o eó ico, os úl imos
séculos da polí ica in e nacional eu opeia não e elam que uma dinâmica associa i a do
Equilíb io de Pode em indo a suplan a uma ad e sa i a, ou que um consenso in e es a al
em indo paula inamen e a e o ça -se, mas sim que a in luência ela i a an o da dinâmica
associa i a, como da ad e sa i a em indo a oscila ao longo do empo.
127
Pa a
comp eende mos melho es a oscilação, desc e amos a his ó ia do Equilíb io de Pode
123
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 207.
124
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 208.
125
LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 125. São á ias as ins âncias em que
Mo gen hau e ela indícios des e “p o o-cons u i ismo” apon ado po Li le, como, po exemplo, quando ala
sob e a o ma como o “p es ígio” dos Es ados deco e de um undo social: “The image in he mi o o ou ellows’
minds ( ha is, ou p es ige), a he han he o iginal, o which he image in he mi o may be bu he dis o ed
e lec ion, de e mines wha we a e as membe s o socie y. (…) This is exac ly wha he policy o p es ige is abou .”
(MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 87).
126
LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 100.
127
LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 100.
42
ap esen ada em Poli ics Among Na ions,
128
endo a é que pon o é compa í el com aquela
o e ecida po Ranke e em que medida de si di e e.
A his ó ia que Mo gen hau nos con a é a de uma o dem eu opeia p og essi amen e
consolidada en e o séc. XVI – sob e udo após 1648, com Ves e ália – e a Re olução F ancesa;
uma o dem sus en ada pelas dinas ias eu opeias, com a polí ica ex e na a assumi um ca á e
dinás ico e (ainda) não nacional. No seu conjun o, es as dinas ias o ma am uma “a is oc acia
in e nacional”, aquilo que Mo gen hau nos ap esen a como uma espécie de sociedade
in e nacional na qual igo a a um consenso mo al e é ico, a uando enquan o alice ce de um
Equilíb io de Pode que conseguia condiciona as ambições de pode desmedidas.
129
Segundo
a exp essão de Ch is B own, os s anda ds des e consenso mo al e am p ese ados enquan o
p odu o de de e minados “códigos ca alhei escos”: “S anda ds o in e na ional mo ali y we e
pa ly p ese ed as a by-p oduc o codes o gen lemanly beha iou – ce ain hings we e
simply ‘no done’.”
130
T a a a-se, esumidamen e, de um pe íodo em que igo a a (e em que
e a possí el igo a ) um Equilíb io de Pode Associa i o en e os Es ados eu opeus.
Após o in e lúdio ep esen ado pela Re olução F ancesa e pelas in asões napoleónicas
– que ouxe am, du an e alguns anos, as ambições hegemónicas pa a a polí ica in e nacional
– e ao longo de odo século XIX, Mo gen hau e e e que a es a he ança mo al oi adicionada a
eme gen e ideia do Es ado-Nação e o p incípio da au ode e minação nacional, sob os quais se
en ou e igi uma es u u a polí ica es á el.
131
Segundo Mo gen hau, es e ad en o do
nacionalismo e e duas g andes consequências di e as sob e o exe cício do Equilíb io de Pode :
a subs i uição da esponsabilidade dinás ica pela esponsabilidade democ á ica e a subs i uição
de s anda ds de ação uni e salis as po s anda ds nacionalis as, ambos a o es que p opicia am
a co osão da mo al sup anacional dos séculos an e io es.
132
Vejamos de que o ma.
Quan o à ques ão da esponsabilidade, os es adis as a is oc á icos de ou o a, em
ma é ia de polí ica ex e na, não inham de basea as suas ações ou os seus compo amen os em
qualque ipo de on ade elei o al nacionalmen e ci cunsc i a, uma ez que o seu ca go não
dependia da exis ência de uma. Em e mos legais e mo ais, e am esponsá eis apenas pe an e
128
Uma e são mais sucin a e ocada des a na a i a his ó ica pode se encon ada em MORGENTHAU, H. J. –
The Twiligh o In e na ional Mo ali y.
129
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 240.
130
BROWN, C. – ‘The Twiligh o In e na ional Mo ali y’? Hans J. Mo gen hau and Ca l Schmi on he
end o he Jus Publicum Eu opaeum, in WILLIAMS, M. C. – Realism Reconside ed, p. 53.
131
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 240.
132
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 260.
43
o seu espe i o mona ca – is o é, um indi íduo especí ico –, o que azia com que a mo al
sup anacional osse mais acilmen e de inida e mais es a elmen e seguida.
133
Já com a
p og essi a consolidação, ao longo do séc. XIX e pa a den o do séc. XX, de egimes
democ á icos nacionalmen e delimi ados, os es adis as passa am a es a esponsá eis pe an e
cole i idades – uma maio ia pa lamen a , ou o po o –, com in e esses di e sos e he e ogéneos,
o mando go e nos que podiam, ambém, se compos os po memb os com pe spe i as
di e gen es em ma é ia de polí ica ex e na. Como indica Mo gen hau, a e e ência a um código
mo al de condu a eque semp e uma consciência indi idual da qual possa emana – a
consciência indi idual de um es adis a, nes e caso; o a, numa nação democ á ica, es a
consciência indi idual deixa de pode se e e i amen e localizada.
134
Po ou o lado, a subs i uição de s anda ds de ação uni e salis as po s anda ds
nacionalis as ad eio da c iação e consolidação de di e en es mo ais nacionais, que
agmen a am o consenso sup anacional em o no do qual a “sociedade a is oc á ica” dos
úl imos séculos se ha ia eunido. Longe de se e ela uni e salis a e humanis a, o nacionalismo
assumiu um ca á e pa icula is a, co osi o pa a a exis ência de qualque código é ico
localizado acima das eme gen es e es i as di isões nacionais; cada Nação inha o seu p óp io
código, cada uma a sua p óp ia mo al, deixando um azio naquilo que, ou o a, ha ia sido o
amewo k comum eu opeu e a sua o ça mode ado a e es ingen e sob e a polí ica
in e nacional.
135
Resumidamen e, o séc. XIX, na his ó ia de Mo gen hau, oi palco de um complexo
p ocesso po ia do qual a polí ica in e -dinás ica oi, po assim dize , ab indo caminho pa a a
polí ica in e -nacional.
136
As consequências do nacionalismo pa a o Equilíb io de Pode
Associa i o eu opeu o am, nes e sen ido, p ejudiciais, já que ha ia sido o consenso mo al
sup anacional de ou o a o esponsá el po e ea os desejos ilimi ados pelo pode po pa e
dos á ios Es ados eu opeus, ga an indo que es e Equilíb io Associa i o pudesse se
ope acionalizado: “I is his consensus (…) ha kep in check he limi less desi e o powe
133
“The mo al s anda ds o conduc wi h which he in e na ional a is oc acy complied we e o necessi y o a
sup ana ional cha ac e . They applied no o all P ussians, Aus ians, o F enchmen, bu o all men who by i ue
o hei bi h and educa ion we e able o comp ehend hem and o ac in acco dance wi h hem. (…) The indi idual
membe s o his socie y, he e o e, el hemsel es o be pe sonally esponsible o compliance wi h hose mo al
ules o conduc ; o i was o hem as a ional human beings, as indi iduals, ha his mo al code was add essed.”
(MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 263).
134
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 265-266.
135
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 268.
136
LITTLE, R. – The Balance o Powe in Poli ics Among Na ions, in WILLIAMS, M. C. – Realism
Reconside ed, p. 150.
44
(…) Whe e such a consensus no longe exis s o has become weak and is no longe su e o
i sel (…), he balance o powe is incapable o ul illing i s unc ion o in e na ional s abili y
and na ional independence.”
137
Não obs an e, es e p o undamen e debili ado consenso mo al
conseguiu se o alecido, a é à P imei a Gue a Mundial, pelo “clima humani á io”
ca ac e ís ico do séc. XIX e pelos es o ços daquilo que Mo gen hau ca ac e iza como b ilhan es
ge ações de diploma as e es adis as.
138
Assim, só i iam a se desen ol imen os oco idos no pós-P imei a Gue a Mundial
que acaba iam po da o golpe inal ao Equilíb io de Pode Associa i o eu opeu e ao código
sup anacional no qual es e se sus en a a. Assis iu-se, nes e pe íodo, à eme gência do
“uni e salismo nacionalís ico”, uma ans o mação do nacionalismo a a és da qual os códigos
é icos e mo ais especí icos de uma nação passam a se po ela idos como uni e sais e,
consequen emen e, dignos de acei ação po pa e das es an es nações; um enómeno que,
segundo Mo gen hau, é inaugu ado no séc. XX po Wood ow Wilson, com a sua p e ensão de
“ o na o Mundo segu o pa a a democ acia”.
139
Es ados como a URSS, a Alemanha nazi e os
EUA passam a concebe -se como po a-es anda es de cosmo isões uni e salis as, o que le a
os con li os in e nacionais do séc. XX a assumi em o aspe o das c uzadas e das gue as
eligiosas de ou o a, com o mesmo ní el de e ocidade.
140
A dinâmica associa i a dos úl imos
ês séculos ab e caminho ao ad en o da dinâmica ad e sa i a e das es i as powe poli ics; o
Equilíb io de Pode Associa i o dá luga a um Equilíb io de Pode Ad e sa i o. Pa alelamen e,
a pos e io passagem de um sis ema mul ipola pa a um sis ema bipola ambém oi
signi ica i a: como Mo gen hau indica, a edução do núme o de G andes Po ências no palco
in e nacional, a segui à Segunda Gue a Mundial, e e e ei os ne as os pa a o exe cício do
Equilíb io de Pode , uma ez que, ao e i a -lhe mui a da sua ince eza e lexibilidade,
desp o iu-o do seu po encial mode ado sob e as ações dos Es ados.
141
Eis, en ão, o palco in e nacional com o qual Mo gen hau se depa a no início da Gue a
F ia, pau ado pela concen ação de pode em duas supe po ências com um alcance mundial e
um pode sem p eceden es na His ó ia Mode na, assim como p omo o as e po a-es anda es
137
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 239.
138
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 489.
139
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 272.
140
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 274.
141
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 361.
45
do seu espe i o sis ema é ico p e ensamen e uni e sal; eis a plena consolidação do Equilíb io
de Pode Ad e sa i o que pau a a polí ica in e nacional em meados do séc. XX.
Dois pon os imedia os e signi ica i os de discussão podem se le an ados a pa i des a
análise. Em p imei o luga , já nos podemos di igi especi icamen e ao luga ocupado pelo
nacionalismo na eo ização de Mo gen hau e compa á-lo ao papel que assume na his o iog a ia
de Ranke. Es e úl imo ia o espí i o nacionalis a do século XIX como algo que começou po
e igo a o Equilíb io de Pode eu opeu con a as ambições hegemónicas de Napoleão e que,
subsequen emen e, não se mos ou incompa í el com o seu pleno e e icaz desempenho
enquan o p incípio egulado das ações e do compo amen o dos Es ados; pelo con á io,
a o ecia-o na medida em que do a a os di e en es Es ados de um eno ado e e o çado
sen imen o de “indi idualidade”: “ou cen u y has p oduced he mos posi i e esul s. I has
achie ed a g ea libe a ion, no wholly in he sense o dissolu ion bu a he in a c ea i e,
uni ying sense. I is no enough o say ha i called he g ea powe s in o being. I has also (…)
gi en new li e o he p inciple o each indi idual s a e.”
142
Já Mo gen hau, pelo con á io,
in e p e a es e enómeno como uma p og essi a ameaça ao consenso mo al que pau ou as
elações in e es a ais eu opeias desde o séc. XVI, e que conseguia, mais e icazmen e, p ese a
o Equilíb io de Pode Associa i o en e os Es ados eu opeus. Pa a o eó ico, o nacionalismo –
sob e udo po ia da sua e en ual mu ação no séc. XX pa a o “uni e salismo nacionalís ico” –
oi udo menos e igo an e pa a a es abilidade da polí ica in e nacional eu opeia, endo an es
mo i ado a agmen ação do código é ico e mo al sup anacional de ou o a.
Acabamos, des a o ma, po es a pe an e um pon o no qual as lei u as de Ranke e de
Mo gen hau a espei o da polí ica in e nacional di e gem. Po ezes, chegam mesmo a se
implacá eis as c í icas que es e úl imo ece con a o nacionalismo,
143
sendo, de ac o, di ícil
julgá-lo mui o a esse espei o, já que ha ia sido es emunha e í ima das mais adicais
exp essões des e enómeno, bem como dos seus apogeus acis as – desde logo, na p óp ia
Alemanha do pe íodo en e-gue as, onde, enquan o judeu, i eu du an e á ios anos.
144
De
ac o, nes a ma é ia, o om c í ico de Mo gen hau di icilmen e pode ia es a mais dis an e
142
RANKE, L. – The G ea Powe s, in IGGERS, G. G. – The Theo y and P ac ice o His o y, p. 51.
143
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 180.
144
Como no a Mollo , a elação en e a expe iência i ida po Mo gen hau enquan o judeu na Alemanha en e-
gue as e o olha cé ico sob e a polí ica que subjazia o seu ealismo não de e se subes imada: “Mo gen hau, a
Ge man Jewish emig é o he U.S. om Hi le ’s Ge many, expe ienced he sea ing impac o an i-Semi ism while
g owing up in Ge many (…) Mo gen hau’s ejec ion o enligh enmen p inciples in he poli ical ealm was a
leas o some ex en a e lec ion o Ge man Jew y’s disillusionmen wi h he p omise o he enligh enmen as a
esul o Hi le ’s ise o powe .” (MOLLOV, M. B. – The Jewish Expe ience as an In luence on Hans J.
Mo gen hau’s Realism, p. 132).
46
daquele exp esso pelo seu con e âneo do século XIX, pa a quem o nacionalismo en igo a a
o sen imen o de comunidade e, longe de p essupo co olá ios acis as, se e ela a ha monioso
com a o dem in e nacional eu opeia e o Equilíb io de Pode .
Em segundo luga , salien emos que a dis ância que sepa a as lei u as de Mo gen hau e
de Ranke a espei o do Equilíb io de Pode ambém nos az de ol a ao con as e on ológico
en e ambos, ou seja, ao p ocesso de laicização analí ica ope ado en e a his o iog a ia des e
úl imo e o ealismo polí ico daquele. Como explici ámos no Capí ulo an e io , a lei u a
eminen emen e associa i a que Ranke azia do Equilíb io de Pode eu opeu é insepa á el da
glo i icação me a ísica à qual o his o iado sujei a a es e p incípio da polí ica in e nacional: al
como o in e esse nacional e as ações dos Es ados se subo dina am a uma on e P o idencial,
que a ua a enquan o o ga an e da sua necessidade e ine i abilidade his ó icas, o p óp io
uncionamen o do Equilíb io de Pode acaba a po se subo dinado a es a mesma on e
on ológica; se ia o di ino “espí i o gua dião” que ga an i ia a capacidade de os Es ados
eu opeus sal agua da em, a a és do Equilíb io de Pode , a sua independência polí ica ace a
qualque ameaça hegemónica.
O a, em Mo gen hau, al como o seguimen o de uma condu a acional po pa e do
Es ado é di o ciado de qualque necessidade his ó ica assegu ada po Deus, ambém o
uncionamen o do Equilíb io de Pode é um ine i á el al o do mesmo p ocesso: no luga da
ha monia au omá ica P o idencial, su ge uma lei u a mais cé ica des e p incípio das elações
in e es a ais, que en a iza a sua ince eza e a sua inadequação.
145
O cálculo acional do pode
ela i o dos Es ados é semp e al amen e elusi o,
146
u o da já mencionada omnip esença da
con ingência na ealidade, e o ecu so à p óp ia linguagem de equilíb io pode, mui as ezes,
mais não se do que uma achada ideológica, a dis a ça in e esses nacionais impe ialis as ou
de s a us-quo.
147
Pa a Mo gen hau, a es abilidade no sis ema de Es ados eu opeu que igo ou
ao longo de ês séculos não se de eu a um supos o exe cício au omá ico do Equilíb io de
Pode , assegu ado po uma on ade P o idencial, mas sim à e e i a e conc e a exis ência do
e e ido consenso é ico sup anacional, que acaba ia po se dissol e in ei amen e no séc. XX.
145
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 223.
146
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 224.
147
“A na ion seeking empi e has o en claimed ha all i wan ed was equilib ium. A na ion seeking only o
main ain he s a us quo has o en ied o gi e a change in he s a us quo he appea ance o an a ack upon he
balance o powe .” (MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 231).
47
Como no a Michael C. Williams, es e ce icismo de Mo gen hau pe an e lei u as que
pos ulam uma ine en e, au omá ica e “na u al” ha monia no uncionamen o do Equilíb io de
Pode di ige-se, em pa icula , con a o o imismo libe al do séc. XIX, p oponen e des a noção:
“As a echnique, a ac ic, he balance o powe can seek o p o ide a media ing con ex and
‘cul u e’ – a se o sha ed unde s andings based upon ma e ial in e es and ins umen al
calcula ion. In Mo gen hau’s iew, o example, he ise o he balance o powe wi hin
nine een h-cen u y hinking illus a es his p inciple. Bu nine een h-cen u y libe alism elied
upon an unde s anding o his balance as na u al, as ied o a pu po edly ‘objec i e’ o
e olu iona y iumphan libe al- a ionalis epis emology, cul u e, and poli ics in ways ha
wil ul Realism iews as unsus ainable and his o ically anach onis ic.”
148
Nes e con ex o,
o na-se in e essan e eco da a já ci ada ideia de Schulin, pa a quem a isão ha moniosa de
Ranke sob e o uncionamen o do Equilíb io de Pode pa ilha a ce as a inidades,
p ecisamen e, com es e o imismo libe al;
149
de ido a es as a inidades, conside amos que o
ce icismo da lei u a de Mo gen hau pode se di igido não apenas con a a e são libe al des e
o imismo, como ambém con a a sua exp essão pa icula na his o iog a ia de Ranke.
Des aquemos, po ém, que Mo gen hau não ence a a sua análise em Poli ics Among
Na ions numa no a in ei amen e cé ica ou pessimis a a espei o do u u o da polí ica
in e nacional.
150
Na sua ó ica, a única solução pa a e i a uma con lag ação in e po ências a
longo p azo se ia a e en ual cons ução de um Es ado Mundial, que só se o na ia numa
possibilidade e e i a pe an e o p é io es abelecimen o de uma comunidade mundial. Já es e
úl imo p ocesso, po sua ez, p essupo ia a mi igação e a minimização dos con li os
in e nacionais, pa a que os in e esses que unem os á ios Es ados pudessem se maio es do que
aqueles que os sepa am.
151
O umo a pe co e se ia, po an o, o da “paz po ia da
acomodação”, endo como ins umen o p i ilegiado a diplomacia: “I he wo ld s a e is
una ainable in ou wo ld, ye indispensable o he su i al o ha wo ld, i is necessa y o
c ea e he condi ions unde which i will no be impossible om he ou se o es ablish a wo ld
s a e. (…) This me hod o es ablishing he p econdi ions o pe manen peace we call peace
h ough accommoda ion. I s ins umen is diplomacy.”
152
Uma diplomacia que, na u almen e,
148
WILLIAMS, M. C. - The Realis T adi ion and he Limi s o In e na ional Rela ions, p. 194.
149
SCHULIN, E. – Ranke’s Uni e sal His o y and Na ional His o y, p. 14.
150
“Mo gen hau was clea ly uncom o able wi h he pessimis ic implica ions o his analysis, and sough o hold
ou a ay o hope o he u u e.” (LEBOW, R. N. – The T agic Vision o Poli ics, p. 234).
151
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 559.
152
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 563.
48
e ia como e e ência um ealismo polí ico como o de Mo gen hau, com o seu já indicado alo
p á ico enquan o guia.
Nes e umo, a diplomacia e ia de e e e a endência do “uni e salismo
nacionalís ico” e as aspi ações aná icas po si induzidas, p ocu ando en a iza o alo da
mode ação e da p udência na condu a do Es ado.
153
Já o in e esse nacional de e ia passa a se
de inido em e mos eminen emen e secu i á ios e es i i os, com a in eg idade do e i ó io
nacional e das ins i uições es a ais a cons i uí em o mínimo i edu í el des e in e esse e o seu
obje i o úl imo.
154
De ac o, como no a Mo gen hau, um Es ado só consegue conside a , de
uma o ma obje i a e acional, os in e esses nacionais dos es an es após es a segu o dos
seus.
155
O que Mo gen hau ad oga e aquilo ao qual apela é, em suma, uma polí ica de
mode ação sensa a po ia de uma diplomacia p uden e, elacionada com a p ocu a de um
equilíb io jus o en e os EUA e a URSS; um equilíb io undado numa p o unda c ença de que
nem as ambições uni e salis as das duas supe po ências, nem a compe ição i es i a e
ad e sa i a en e ambas e am comple amen e i e ogá eis: “The bipola sys em, as we ha e
seen, is mo e unsa e om he poin o iew o peace han any o he , when bo h blocs a e in
compe i i e con ac h oughou he wo ld and he ambi ion o bo h is i ed by he c usading
zeal o a uni e sal mission. (…) Ye once hey ha e de ined hei na ional in e es s in e ms o
na ional secu i y, hey can d aw back om hei ou lying posi ions, loca ed close o, o wi hin,
he sphe e o na ional secu i y o he o he side, and e ea in o hei espec i e sphe es, each
sel -con ained wi hin i s o bi .”
156
Com e ei o, Mo gen hau con inua a a ac edi a na possibilidade de o Equilíb io de
Pode Ad e sa i o da Gue a F ia i a ab i caminho, a a és des a diplomacia acional, a
dinâmicas associa i as en e as duas supe po ências mundiais, con ando que o seu apelo osse
le ado a sé io po pa e dos es adis as e diploma as de ambas; um apelo que, como se ai
o nando e iden e, é indissociá el de uma ce a nos algia, po pa e de Mo gen hau, daqueles
séculos da his ó ia eu opeia em que, segundo ac edi a a, ha ia sido ela i amen e possí el
e ea as ações e os compo amen os desmedidos po pa e dos Es ados.
157
T a a-se de uma
153
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 584-586.
154
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 586.
155
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 588.
156
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 587.
157
“Wha he con empo a y wo ld u gen ly needs, Mo gen hau asse s, is a e i al o eli e-domina ed diplomacy
and, o he ex en s ill possible, adi ional balance o powe hinking. These cons i u i e ea u es o he
49
nos algia que se e pa a ap esen a soluções conc e as pa a o p esen e e que, des a o ma, acaba
po deixa o u u o em abe o, podendo oma um de dois umos: um maligno, que consis i ia
na pe sis ência do Equilíb io de Pode Ad e sa i o, e um benigno, assen e no essu gimen o
de um Equilíb io de Pode Associa i o.
158
A passagem pa a um go e no sup anacional, conside ada po Mo gen hau como o ideal
úl imo da ida in e nacional, pode á, assim, i a se paula inamen e consolidada pelo
seguimen o des a diplomacia e pela esul an e subo dinação a um Equilíb io de Pode
Associa i o, po ela isado e a i amen e p omo ido. E eis que echamos um cí culo (um dos
mui os possí eis cí culos, ce amen e) na ob a de Mo gen hau, ol ando à ques ão da agência
do Es ado e ao ac o de es e ainda con inua a se , aos olhos do eó ico, o p incipal a o da
polí ica in e nacional, an o no p esen e como no u u o p óximo: po mui o anac ónica que
começasse a se a exis ência de uma o ganização polí ica como es a pe an e as po encialidades
écnicas e os equisi os mo ais do mundo a ómico, o su gimen o de qualque go e no
sup anacional con inua a a depende , ine i a elmen e, de um consenso en e os á ios
Es ados-Nação. O es abelecimen o de um Es ado-Mundial, pa a Mo gen hau, p ecisa á semp e
de pa i da on ade dos á ios Es ados e da exis ência de uma e e i a comunidade
in e nacional en e eles o mada, que, po sua ez, depende á semp e da p é ia minimização
dos con li os in e es a ais, a ca go de uma diplomacia mode ada e p uden e, acional e ealis a.
É a is o que Lebow se e e e quando ala sob e a combinação en e o “ elho” e o “no o”
na abo dagem de Mo gen hau: ao esc e e no seguimen o de des u i as gue as mundiais, o
eó ico ge mano-ame icano é depa ado com o p oblema de econcilia a an iga o dem com os
pe igosos elemen os da no a mode nidade – sob e udo na o ma do a mamen o nuclea –, de
um modo que acomodasse os maio es bene ícios des a úl ima e, simul aneamen e, limi asse o
seu po encial des u i o.
159
Os adicionais mé odos da diplomacia es a al (o “ elho”) undem-
Wes phalian sys em, i seems, p o ide he bes immedia e p o ec ion agains he spec e o nuclea wa .”
(SCHEUERMAN, W. E. – Ca l Schmi and Hans Mo gen hau: Realism and beyond, in WILLIAMS, M. C.
– Realism Reconside ed, p. 79).
158
“I ollows ha when Mo gen hau (…) conside s he p e ailing ‘simpli ied balance o powe , ope a ing
be ween wo in lexible blocks, o be he ha binge o g ea good o g ea e il’ he is e ec i ely iden i ying he
benign u u e wi h an associa ional balance o powe and he malign u u e wi h an ad e sa ial balance o
powe .” (LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 127).
159
LEBOW, R. N. – The T agic Vision o Poli ics, p. 293.
56
uma maldade in ínseca ao Homem, ce amen e um di ó cio essencial en e aquelas que são as
suas ine en es limi ações e es es, posi i as e imedia as, e o seu ambém ine en e po encial de
anscendência sob e o seu imedia o; des e di ó cio esul a um con li o de esoluções
ine i a elmen e us adas, que cons i ui a e dadei a on e dos p incipais desas es e maldades
que assolam o se humano, como demos con a.
Des e modo, sus en amos que qualque cli agem e qualque empa ia en e a
his o iog a ia de Ranke e o ealismo polí ico de Niebuh se ope a á sob e es e p o undo
con as e on ológico, esul an e das di e en es lei u as c is ãs de ambos os au o es. Se julgámos
ap op iado ala sob e a exis ência de uma laicização analí ica na passagem da ob a de Ranke
pa a o ealismo de Mo gen hau, conside amos que em elação ao ealismo de Niebuh , com as
suas especi icidades, es a passagem pode se mais ielmen e desc i a segundo a ideia de um
cisma c is ão, mani es o no p o undo con as e en e as in e p e ações c is ãs de ambos os
au o es, con o me acabou de se expos o.
Ao longo do es o do p esen e Capí ulo, e emos como es e con as e on ológico pode
se u ilizado pa a nos ajuda a explica as cisões en e a his o iog a ia de Ranke e o ealismo
de Niebuh , an o a espei o do Es ado, como do Equilíb io de Pode ; simul aneamen e, as
e en uais linhas de con inuidade en e ambos se ão in e p e adas como exis indo apesa des e
con as e, o que as o na á ainda mais salien es e, quiçá, anali icamen e ele an es.
3.2 – Niebuh e o Es ado: A ogan es In imações
Ao longo da p esen e secção, da emos con a de como Niebuh in e p e a o Es ado pa a,
a segui , explo a mos a dis ância en e es a in e p e ação e aquela encon ada na his o iog a ia
de Ranke, à luz do cisma c is ão en e ambos. De es o, a emos um le an amen o de linhas de
con inuidade que, apesa des e cisma, podem se encon adas en e ambos os au o es, a espei o
do Es ado.
Con o me indicámos, o ealismo polí ico de Niebuh unda-se, on ologicamen e, numa
in e p e ação pa icula da “na u eza humana” de i ada da dou ina c is ã: o Homem é um ilho
da ini ude e es e e, simul aneamen e, um aspi an e à condição de Deus, com a noção de
pecado a ad i do o gulho e da a ogância associadas ao ac o de acha que a chegada a essa
condição pode á alguma ez se ealizá el pa a si. Os con li os e calamidades humanos ad êm,
po an o, de uma ce a a ogância on ológica esul an e des a cons i uição dual do Homem,
57
mani es a nas suas cons an es pe seguições de ideais impossí eis que, no undo, mais não
cons i uem do que semp e us adas en a i as de aze do seu es ei o se o im absolu o da
exis ência. Tendo is o em con a, con o me indica Guilhe me Ma ques Ped o, a a e a da
Mode nidade pa a Niebuh de e ia se , p ecisamen e, c i ica e descons ui es as ingénuas,
p ecipi adas e pe igosas en a i as, numa a i ude de a i a esis ência.
174
É des a in e p e ação dualis a do Homem que deco e o en endimen o pa icula de
Niebuh ace às comunidades sociais, onde se inse e, na u almen e, o Es ado. Na ó ica do
eólogo, os impulsos egoís as e indi idualis as do Homem – ep imidos, como imos, pelo
pe ene elemen o coe ci o que an ecedia e en o ma a odas as comunidades polí icas –
acaba am po se apenas ans e idos pa a o p óp io o ganismo cole i o, nele icando
aglome ados e ins i uídos; di o de ou a o ma, o egoísmo nacional mais não e a do que a
exp essão úl ima do egoísmo indi idual, já que o Es ado se limi a a a canaliza pa a si mesmo
as ambições de pode indi iduais domes icamen e ep imidas, di ecionando-as depois pa a o
palco in e nacional aná quico: “Unques ionably he e is an alloy o p ojec ed sel -in e es in
pa io ic al uism. The man in he s ee , wi h his lus o powe and p es ige hwa ed by his
own limi a ions and he necessi ies o social li e, p ojec s his ego upon his na ion and indulges
his ana chic lus s ica iously. So he na ion is a one and he same ime a check upon, and a
inal en o , he exp ession o indi idual egoism.”
175
Pa a Niebuh , o p óp io “in e esse nacional” pouco mais e a do que o in e esse de uma
classe pa icula , de uma eli e que, em dado momen o, de inha as édeas do pode es a al e azia
174
PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and In e na ional Rela ions Theo y, p. 60. Podemos dize que es a
a i ude de esis ência, c í ica e descons ução po pa e de Niebuh deixa-o p óximo de eó icos c í icos das
Relações In e nacionais, especialmen e (e cu iosamen e) aqueles que oma am como al o o ealismo desde a
i agem posi i is a wal ziana, con o me no a Ma ques Ped o: “His limi ed decons uc ion o some o he mos
idealized images o na ions and communi ies, as much as o he ideals o he ‘ a ional man’, o he anscenden al
ego and o mode n subjec i i y in gene al, b ing him qui e close o c i ical heo is s wi hin he humani ies and he
social sciences, and e en close o hose who, wi hin IR, ha e a acked ealism o i s lack o on ological sel -
e lec ion, o a ce ain absence o epis emological discussion o o i s e hical and analy ical na owness. Mos
p obably, Niebuh would ha e ag eed wi h hese c i icisms, had he become amilia wi h he so o ealism ha
has u ned in o common p ac ice in IR since he Wal zian u n.” (PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and
In e na ional Rela ions Theo y, p. 25). É ambém com base nes a a i ude que, po sua ez, John Pa ick Diggins
p ocu a demons a algumas a inidades en e o pensamen o de Niebuh e as co en es pós-es u u alis as da
segunda me ade do séc. XX, sob e udo na elação en e o conhecimen o e o pode (DIGGINS, J. P. – Powe and
Suspicion: The Pe spec i es o Reinhold Niebuh ).
175
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 93. Também em Mo gen hau encon amos uma linha
a gumen a i a bas an e semelhan e a es a, com o Es ado-Nação a a ua enquan o algo que, de uma só ez, ep ime
in e namen e as ambições de pode indi iduais po pa e dos seus espe i os cidadãos e, concen ando-as em si,
di ige-as pa a o palco in e nacional, onde são ica iamen e saciadas. Assim di a am, segundo Mo gen hau, as
“ endências psicológicas” humanas, encon ando pos e io apoio nas p óp ias ins i uições sociais
(MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 119).
58
da sua on ade egoís a de classe a “ on ade nacional”, con ibuindo ainda mais pa a o egoísmo
dos Es ados e pa a a sua idola ia polí ica;
176
a o ganização das sociedades nacionais mode nas
em classes, com uma eno me desp opo ção de pode e p i ilégio in e no en e sim, se ia, en ão,
uma das p incipais causas da ganância dos Es ados e da consequen e ana quia no palco
in e nacional.
177
Simul aneamen e (e undamen almen e), as p óp ias alusões e apelos à
“ acionalidade” na condu a es a al mais não e am do que desones idades manipulado as, já que
es a am de uma o ma implíci a ao se iço do au oin e esse, do egoísmo e da sede de pode
nacionais, a ando-se de ins umen os que se iam pa a cob i es es in e esses com um éu
ideológico: “Poli ics a e gi en hei gene al di ec ion by he p essu e o in e es o he g oups
which con ol hem; he expe is qui e capable o gi ing any p e iously de e mined endency
bo h a ional jus i ica ion and e icien de ailed applica ion. Such is he inclina ion o he
human mind o beginning wi h assump ions which ha e been de e mined by o he han
a ional conside a ions, and building a supe s uc u e o a ionally accep able judgemen s
upon hem, ha all his can be done wi hou any conscious dishones y.”
178
Na ó ica do eólogo, o Es ado co ia o pe pé uo isco de se o na num ecipien e das
mais aná icas e ac í icas de oções po pa e da comunidade que ci cunsc e ia den o das suas
on ei as, uma p e ensa ma e ialização de um Deus na Te a, ap esen ando os seus alo es e
ideais comuni á ios especí icos, bem como os seus obje i os e in e esses egoís as, como
uni e sais e absolu os. Tal ana ismo e a pa icula men e po enciado em momen os de con li o
in e nacional, como explica Niebuh : nes as ocasiões, o Es ado-Nação a ingia uma plena
au oconsciência, ao se jus apo belicamen e com ou as nações; no en an o, e a ambém nes es
momen os de jus aposição que a ela i idade e o ca á e único dos alo es do Es ado-Nação se
acaba am po o na mais e iden es, chocando com a comum noção de que es e inca na a
alo es uni e sais. O a, pa a Niebuh , es e pa adoxo só podia se esol ido po ia da
hipoc isia, da desones idade e da manipulação, com as eli es polí icas, alendo-se do ins in o
eligioso dos seus cidadãos, a ap esen a em os obje i os e os in e esses egoís as do Es ado
como uni e salmen e álidos; des e modo, conseguiam assegu a uma ac í ica de oção e um
ana ismo da pa e da sua população.
179
176
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 89.
177
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 111.
178
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 214.
179
“The bes means o ha monising he claim o uni e sali y wi h he unique and ela i e li e o he na ion, as
e ealed in momen s o c isis, is o claim gene al and uni e sally alid objec i es o he na ion. I is alleged o
be igh ing o ci ilisa ion and o cul u e; and he whole en e p ise o humani y is supposedly in ol ed in i s
s uggles. In he li e o he simple ci izen his hypoc isy exis s as a naï e and uns udied sel -decep ion. The
59
Os in e esses do Es ado-Nação, en endido enquan o uma o ma especí ica de sel hood
cole i o, e am desones amen e ap esen ados, po pa e de eli es, como na u almen e
deco en es des a sua exis ência enquan o sel , pa a além de ac i icamen e acei es, po pa e da
sua comunidade, enquan o al. Na ó ica de Niebuh , independen emen e do que qualque
esquema acionalizan e p ocu asse masca a , an o es es supos os in e esses na u ais, bem
como – e em p imei o luga – a p óp ia in imação on ológica do Es ado enquan o um
de e minado sel cole i o, ad inham de a anjos de pode conc e os no plano domés ico, jamais
des es podendo se di o ciados.
180
Es a o ma ação de on ades e consciências indi iduais pa a os ins de uma supos a
on ade e consciência nacional cons i ui ia, en ão, mais uma ins ância da a ogância
on ológica humana. As de oções assim comandadas a ua iam enquan o um me o ins umen o
ao se iço de uma lógica nacional egocên ica que, cob indo com um éu uni e salis a os seus
in e esses e obje i os ex e nos, mais não azia do que p oje a e ex e naliza a ag essão, o ódio
e a iolência sob e as ou as nações (sob e os ou os sel es): “The cons i u ion o a collec i e
consciousness by na ion-s a es and social classes was he e o e lawed by compa ison wi h
indi idual consciousness: hei supposed sel - anscendence was ne e akin o sel -denial and
ul ima e lo e and was, om he s a , an ins umen o he egocen ic and opposi ional logic
o sel -lo e which he sin o p ide necessa ily en ails.”
181
Em suma, os Es ados co iam, pa a Niebuh , o pe manen e isco de se ans o ma em
em eposi ó ios secula es de de oções anscenden ais, obje os egocên icos do “amo úl imo”
das suas espe i as comunidades, in imações on ológicas cujos alo es, ideais, in e esses e
obje i os egoís as e am – o gulhosamen e e a ogan emen e – ap esen ados como uni e sais e
absolu os. Daí o ac o de qualque o ma de esis ência polí ica em Niebuh en ol e ,
ine i a elmen e, uma componen e de e isão das p óp ias p emissas on ológicas que subjazem
qualque o ma de sel hood.
182
poli ician p ac ices i consciously ( hough he may become he ic im o his own a s), in o de o secu e he highes
de o ion om he ci izen o his en e p ises.” (NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 97).
180
PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and In e na ional Rela ions Theo y, p. 39.
181
PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and In e na ional Rela ions Theo y, p. 97.
182
“Niebuh ’s ealism lay he e o e in his p o ound awa eness o he ex en o which collec i e iden i y elied on
he en a i e powe a angemen s a play in each socie y and o how, he e o e, any o m o esis ance o po en ial
powe imbalances necessa ily had o en ail a e ision o he on ological p emisses o Ame ica’s collec i e Sel –
indeed, o any o m o Sel hood.” (PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and In e na ional Rela ions Theo y, p.
40.)
60
Chegados a es e pon o, começamos a ape cebe -nos da dis ância que sepa a as lei u as
de Ranke e de Niebuh a espei o do Es ado. Com e ei o, cons a amos que se Ranke olha a
pa a os Es ados enquan o exp essões di e as de ideias di inas, Niebuh in e p e a-os, pelo
con á io, como po enciais ins âncias do o gulho e da a ogância egocên icas humanas – ou
seja, en a i as de uni e saliza e absolu iza aquilo que nunca podia deixa de se um sel
pa cial, es ei o e ini o. Po ou o lado, se pa a Ranke só pode ia esul a a es abilidade
in e nacional da di inamen e consonan e in e ação mú ua in e -es a al, pa a Niebuh es a
es abilidade co ia o pe pé uo isco de se colocada em causa po pa e dos p óp ios Es ados,
enquan o uma consequência di e a dos impulsos egocên icos sem e eios que os cons i uíam
de génese.
Julgamos que na o igem des as di e enças eside, en ão, o undamen al con as e
on ológico en e ambos os au o es, o seu cisma c is ão: o Deus c is ão de um, o denado de
uma His ó ia que descu a a maldade do Homem, colide com a eologia c is ã dualis a do ou o,
que ê essa maldade como uma de duas ace as undamen ais do se humano, de cujo con li o
esul am as en a i as des e úl imo de aze de si p óp io Deus, em p ejuízo do e dadei o e
inalcançá el plano uni e sal di ino. Em ma é ia do Es ado, as consequências des e cisma são
no ó ias: em Ranke os Es ados apenas e le iam o bene olen e desenho de Deus na Te a,
enquan o em Niebuh pode iam cons i ui alsos ídolos di inos, ou seja, p oje os humanos que,
numa lógica egocên ica e assen e no pode , cons i ui iam oscos subs i u os ao ínculo di e o,
e dadei amen e undamen al, en e o Homem e o semp e inalcançá el plano é ico e uni e sal
de Deus, um ínculo pa ilhado po oda a Humanidade.
Expos as as cli agens mais cla as que es e cisma c is ão põe em e idência nas ob as de
ambos os au o es em ma é ia do Es ado, es a-nos a e igua se exis em algumas linhas de
con inuidade, como o am possí eis de e a em Mo gen hau. Comecemos po e e i a mais
no ó ia: o ac o de, ambém em Niebuh , os Es ados con inua em a cons i ui as unidades de
análise p i ilegiadas. Com e ei o, independen emen e da pe spe i a c í ica sob a qual são
esc u inados, o no e-ame icano não em dú idas quan o ao ac o de os Es ados se a a em,
en e os mais a iados e possí eis g upos sociais, das p incipais unidades de associação do
mundo con empo âneo, não só com a maio coesão social, como ambém com a mais
indispu ada au o idade cen al.
183
183
“ om he s andpoin o analysing he e hics o g oup beha io , i is easible o s udy he e hical a i udes o
na ions i s ; because he mode n na ion is he human g oup o s onges social cohesion, o mos undispu ed
61
Como exemplo da o ça aglome ado a do nacionalismo e do sen imen o de pa io ismo,
Niebuh des aca o caso dos pa idos socialis as eu opeus aquando da P imei a Gue a Mundial:
de uma oposição e e icência iniciais ao con li o – sus en adas numa a i ude an imili a ís ica e
paci is a iel a in e esses polí icos socialis as sup anacionais –, acaba iam po se seduzidos
pa a uma gue a in e nacional, já que o seu elei o ado ope á io, embo a economicamen e
os acizado den o da Nação, con inua a lealmen e a esponde aos apelos des a úl ima.
184
Num
ou o exemplo, o eólogo ci a o caso da Alemanha do pe íodo en e-gue as pa a salien a
como, mesmo pe an e uma si uação domés ica de desin eg ação económica e con li o social,
um “ ago ins in o de au op ese ação”, aliado a um ainda po en e sen imen o de unidade
nacional, pe mi em que o pode es a al consiga se na mesma ap op iado pa a us a e ep imi
qualque ipo de es o ço e olucioná io in e no.
185
Nes e sen ido, uma análise ealis a da
polí ica in e nacional e ia de, ambém em Niebuh , assumi ealis icamen e a p edominância
dos Es ados, com os seus espe i os in e esses egoís as, enquan o a o es no seio do palco
in e nacional.
Podemos, ambém, conside a que ou a linha de con inuidade su ge na ques ão da
desigualdade de pode in e nacional e na co ela i a hie a quização dos Es ados com base no
pode : de ac o, se e am as classes mais pode osas que, in e namen e, o ganiza am a ida
polí ica da Nação, e am ambém as Nações mais pode osas que, no palco ex e no, de inham a
in luência mais ac escida, chegando mui as ezes ao pon o de consegui em o ganiza e
encabeça uma semp e ins á el e débil (pa a além de injus a) “sociedade in e nacional”.
186
Tal
como em Ranke, a desigualdade ela i a de pode in e nacional e a, assim, um ac o his ó ico
cons i u i o que um olha ealis a sob e a polí ica in e nacional p ecisa a de e em con a;
pe an e es e ac o, sob essaía a mani es a ingenuidade de qualque pe spe i a idealis a c en e
na possibilidade imedia a de dissol e es as desp opo ções de pode num a anjo cons i ucional
global: “The ela i e powe o pa icula na ions mus be accep ed as a e ul his o ic ac s
abou which li le can be done. The idealis s who imagine ha hese disp opo ions o powe
cen al au ho i y and o mos clea ly de ined membe ship. (…) i emains, as i has been since he se en een h
cen u y, he mos absolu e o all human associa ions.” (NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p.
83).
184
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 150-151.
185
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 187.
186
“Since some na ions a e mo e powe ul han o he s, hey will a imes p e en ana chy by e ec i e impe ialism
(…). Bu he peace is gained by o ce and is always an uneasy and an unjus one. As powe ul classes o ganise a
na ion, so powe ul na ions o ganize a c ude socie y o na ions. In each case he peace is a en a i e one because
i is unjus .” (NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 19).
62
would be dissol ed in a global cons i u ional sys em do no unde s and he eali ies o he
poli ical o de .”
187
Assim nos ape cebemos que, não obs an e o e e ido con as e on ológico en e os
au o es, bem como as imedia as di e enças de lei u a a espei o do Es ado que de si ad êm, é
possí el des aca , pelo menos, es as duas linhas de con inuidade en e a his o iog a ia de Ranke
e o ealismo polí ico de Niebuh , já iden i icadas ambém na ob a de Mo gen hau. Pa a o
eólogo, de ac o, os Es ados con inuam a cons i ui a unidade de análise p edominan e da
polí ica in e nacional, pa a além de se hie a quiza em en e si com base no pode e de os mais
pode osos des a hie a quia assumi em uma maio in luência no seio da ida in e nacional.
No en an o, al como em Mo gen hau e em oposição a Ranke, a assunção des a
p edominância não equi alia à cons a ação do Es ado enquan o a de ini i a unidade de
associação dos se es humanos. Longe disso: como p ocu ámos a gumen a , a conceção
eológica especí ica que subjaz o ealismo polí ico niebuh iano – munida de um a senal c í ico
e de descons ução – con e e ao eólogo um olha cé ico e suspei o sob e oda e qualque
p e ensa absolu ização de uma unidade associa i a como o Es ado, cuja p óp ia in imação
on ológica enquan o um sel cole i o pa ia de impulsos egocên icos humanos, cobe os sob
achadas ideológicas e acionalizações mis i icado as.
Con a qualque en a i a de absolu iza uma unidade de associação secula como o
Es ado-Nação, Niebuh ad oga a um en endimen o on ológico mais plu al da idelidade
polí ica e da p óp ia noção de comunidade, que p ocu asse mul iplica as possí eis ins âncias
secula es de lealdade e de oção humanas de modo a que nenhuma pudesse alguma ez se ida
como a de adei a, a absolu a, ou a úl ima.
188
Em pa icula , implíci a nes a ad ocacia es a a
a noção de que qualque ipo de sobe ania e qualque o ma de associação se iam apenas
possí eis ins âncias – e i o ialmen e e cul u almen e limi adas – no seio de uma pe manen e
busca po o mas cada ez mais uni e sais e inclusi as de comunidade,
189
iéis à igualdade
essencial en e odos os se es humanos pe an e Deus; po ou as pala as, uma pe manen e
187
NIEBUHR, R. – The I ony o Ame ican His o y, p. 135-136.
188
“Niebuh ad oca ed a mo e plu al unde s anding o poli ical allegiance, o communi y and o he e y no ions
o sel hood and subjec i i y which wi hs ood hem (…). Such communi y ough o be able o mul iplying, a he
han na owing down, he subjec ’s a ious possibili ies o loyal y o he a ious a ailable si es o de o ion so as
o dis ega d hem as uncondi ionally ul ima e and wo hy o e e y sac i ice” (PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh
and In e na ional Rela ions Theo y, p. 43).
189
PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and In e na ional Rela ions Theo y, p. 84.
63
busca po uma comunidade mundial, ida enquan o a de adei a mani es ação da aspi ação
humana de o dena , em e mos mo ais e polí icos, a ida social.
190
Nes a pe seguição, como ago a e emos, o Equilíb io de Pode e es e-se de uma
pa icula impo ância pa a Niebuh . Po isso, pa a já, deixemos de pa e es a noção de
comunidade mundial e i emos as nossas a enções pa a o luga ocupado po aquele concei o
na ob a do eólogo no e-ame icano.
3.3 – Niebuh e o Equilíb io de Pode : Da Humildade à Mu ualidade
Nes a secção, começa emos po inse i o en endimen o pa icula niebuh iano do
Equilíb io de Pode na ipologia de Li le, cons a ando que nele exis e espaço an o pa a uma
lei u a ad e sa i a, como pa a uma lei u a associa i a do enómeno. De seguida,
ap o unda emos a ace a c is ã do ealismo de Niebuh , in imamen e elacionada com a sua
lei u a associa i a do Equilíb io de Pode . Da emos con a de como es a ace a, longe de se
esgo a na ad ocacia de um Equilíb io associa i o, pe mi e ao eólogo an e e um ho izon e
é ico de possibilidades pa a a polí ica in e nacional, endo po co olá io úl imo a cons i uição
de uma comunidade mundial. Po im, explo a emos as cli agens en e es a in e p e ação e
aquela encon ada na his o iog a ia de Ranke.
Iniciemos a p esen e secção seguindo o mé odo a é ago a le ado e espondendo, assim,
à seguin e ques ão: es a á a lei u a que Niebuh az do Equilíb io de Pode mais p óxima de
um modelo ad e sa i o, ou de um modelo associa i o des e p incípio da polí ica in e nacional,
segundo os moldes da ipologia de Li le? Em p imei o luga , cons a emos que, segundo o
eólogo, o Equilíb io de Pode pode se in e p e ado como um co olá io lógico de odo o
ce icismo e de oda a descon iança subjacen es a uma pe spe i a exclusi amen e ealis a: com
um p o undo ce icismo ace a qualque po encialidade é ica e mo al na ida social, es a
pe spe i a a nada mais pode ia aspi a que não ao udimen a exe cício de con abalança o
pode com o pode , num pe manen e es o ço de equilíb io elusi o e longe de du adou o. Po
um lado, es e es o ço apenas se aduzia numa paz p a icamen e indis inguí el de um me o
a mis ício, semp e à me cê dos ine i á eis desequilíb ios que, a jusan e, espole a iam um no o
con li o; po ou o lado, nada mais azia pa a lá de c ia e acen ua animosidades e ensões,
190
PEDRO, G. M. – Reinhold Niebuh and In e na ional Rela ions Theo y, p. 141-142.
64
longe de as esol e de uma o ma de ini i a.
191
Aliás, es e exe cício de equilíb io e ia mesmo
sido esponsá el pelos medos e pelas ensões que conduzi am à P imei a Gue a Mundial: a
paz que a an ecede a ha ia sido um me o a mis ício ga an ido pelo Equilíb io de Pode , que
acaba ia des uído pelos p óp ios medos e animosidades que oi c iando en e os Es ados.
192
Desc i o, po an o, enquan o um p incípio de ca á e au odes u i o – já que o pode
que o sus en a a e a ambém o pode que ia aos poucos c iando os medos, as ensões e os
consequen es desequilíb ios que o des ui iam –, o Equilíb io de Pode apa en a, pa a Niebuh ,
es a echado num ciclo ad e sa i o incessan e e inqueb á el, u o da p óp ia na u eza
humana, con o me sublinha Vasco Ra o: “Cép ico ela i amen e à possibilidade de se
cons ui um equilíb io de pode ideal, Niebuh obse ou que, independen emen e da posição
ela i a ocupada nesse equilíb io, nenhum Es ado «pa icipan e no equilíb io es á alguma ez
sa is ei o com a sua p óp ia posição». Es a p ocu a implacá el da an agem, ine en e à
na u eza humana, e exp esso na descon iança en e es ados condenados a aze a ges ão do
dilema de segu ança, mos a que o equilíb io não é condição su icien e pa a se ob e a paz
du adou a.”
193
No en an o, es e Equilíb io, con o me acabámos de no a , e a pa a Niebuh um
co olá io de apenas um ipo pa icula de ealismo polí ico, demasiado cé ico pe an e a
exis ência de e e i as po encialidades mo ais ao ní el in e nacional e, po isso, comple amen e
alheio à possibilidade de se em c iados ins umen os pa a o ela i o con olo da polí ica
in e nacional; um con olo imp escindí el pa a e i a no os desequilíb ios e o eg esso a uma
“ana quia pe iódica”.
194
Na ó ica do no e-ame icano, es a in e p e ação pa icula do
Equilíb io de Pode não passa a, po an o, disso mesmo: uma me a in e p e ação especí ica,
de i ada de um ambém especí ico ealismo polí ico.
Ao seu lado, exis ia uma ou a in e p e ação, menos cé ica, que não excluía po
comple o uma dimensão no ma i a e mo al – uma dimensão de “amo ” – dos cálculos do
Equilíb io de Pode ; sem es a dimensão, as icções e as ensões esul an es de qualque es o ço
de equilíb io o na -se-iam in ole á eis, como sublinha Niebuh : “A balance o powe is
191
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 232.
192
“The las h ee decades o wo ld his o y would seem o be a pe ec and agic symbol o he consequences o
his kind o ealism, wi h i s abo i e e o s o esol e con lic by con lic . The peace be o e he Wa was an
a mis ice main ained by he balance o powe . I was des oyed by he spon aneous combus ion o he mu ual
ea s and animosi ies which i c ea ed.” (NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 232).
193
RATO, V. – Um Mapa pa a os Tempos: O Realismo No ma i o de Reinhold Niebuh , p. 29.
194
NIEBUHR, R. – Plans o Wo ld Reo ganiza ion, p. 5.
65
some hing di e en om, and in e io o, he ha mony o lo e. I is a basic condi ion o jus ice,
gi en he sin ulness o man. Such a balance does no exclude lo e. In ac , wi hou lo e he
ic ions and ensions o a balance o powe would become in ole able.”
195
Pa alelamen e à
lei u a ad e sa i a esul an e de um demasiado cé ico ealismo, eis que su ge uma lei u a
associa i a do Equilíb io de Pode na ob a de Niebuh , c en e na possibilidade de uma
dimensão mo al es abilizado a se in eg ada nos seus cálculos e no seu uncionamen o. Como
o eólogo indica, se e a e dade que jamais e ia ha ido na His ó ia um esquema de jus iça que
não i esse sido undado num Equilíb io de Pode , não e a po isso que es e não pode ia, po
ezes, se es abilizado e ape eiçoado po uma dose de conside ações pu amen e mo ais.
196
Des e modo, julgamos que, al como na ob a de Mo gen hau, ambém na de Niebuh há
espaço pa a uma lei u a ad e sa i a e uma associa i a do Equilíb io de Pode , com uma
impo an e nuance, no en an o: se, pa a o eó ico alemão, os modelos associa i o e ad e sa i o
do Equilíb io cons i uíam, con o me imos, ases pa icula es e oscilan es num eixo his ó ico,
em Niebuh a dis inção en e ambos é mais ielmen e aduzida pelo ipo de ealismo que, na
ó ica do eólogo, an ecede e p opicia cada um. Nes e sen ido, con o me acabámos de da con a,
uma lei u a ad e sa i a do enómeno se ia o co olá io de um ealismo polí ico in ansigen e e
demasiado cé ico, enquan o a assunção da possibilidade de um Equilíb io Associa i o, de
escopo no ma i o e mo al, deco e ia de uma ou a sensibilidade ealis a, menos in ansigen e.
O ealismo de Niebuh enquad a-se jus amen e nes a úl ima sensibilidade, que lhe pe mi e
lança c í icas an o con a idealismos ingénuos, como con a ealismos demasiado cé icos.
Mas que sensibilidade é es a, ao ce o? De que ealismo polí ico es amos exa amen e a
ala ? P ecisamen e aquele que i ia a ica conhecido como o ealismo pa icula niebuh iano:
o ealismo c is ão. Tal desígnio su ge em i ude das já mencionadas aízes eológicas que
subjazem o pensamen o de Niebuh e que, undamen almen e, a uam an o enquan o a o igem
do seu ce icismo (salien ado ao longo das duas p imei as secções des e Capí ulo), como a on e
da sua espe ança e quali icado o imismo, como ago a a gumen a emos.
O a, con o me imos, es as aízes eológicas con e em à pe spe i a de Niebuh um
en endimen o pa icula men e cé ico no que à “na u eza humana” diz espei o: a dualidade do
Homem o na es e num pe manen e aspi an e us ado à condição di ina, alheio ao ac o de
es a condição lhe es a on ologicamen e edada; é, assim, das suas en a i as egoís as de aze
195
NIEBUHR, R. – Ch is iani y and Powe Poli ics, p. 26-27.
196
NIEBUHR, R. – Ch is iani y and Powe Poli ics, p. 104.
72
a i amen e caminha , po um umo que eles mesmos ilumina ão e ajuda ão a ilha . É endo
em con a es e ho izon e que, po sua ez, a componen e empe amen al da ob a de ambos os
ealis as clássicos se o na e iden e: longe de uma pe spe i a pessimis a ou desespe ada ace
ao u u o da polí ica in e nacional, ambos os au o es e elam uma ce a ese a de o imismo
ace às suas po encialidades, bem como uma c ença de que es as ad i ão, com uma maio
p obabilidade, se os seus espe i os ealismos polí icos – an o na o ma dos seus p incípios,
como a a és dos seus apelos e exo ações – a ua em enquan o guias no ma i os na ei u a de
polí ica ex e na.
Michael C. Williams é um dos au o es que mais ealça e des aca es a ace a no ma i a,
pa icula men e no ealismo polí ico de Mo gen hau. Williams in eg a o eó ico ge mano-
ame icano numa linhagem de pensado es ealis as que emon a a Thomas Hobbes e à qual dá
o nome de “wil ul ealism”. Como nos diz, a c í ica de Mo gen hau ao pensamen o idealis a
libe al não implica a sua comple a ejeição do libe alismo, já que, pelo con á io, o p opósi o
des a c í ica se ia o de sus en a um en endimen o al e na i o (is o é, ealis a) da polí ica que
conseguisse, mais e icazmen e, supo a uma o dem libe al iá el, ec iada pa a o mundo
mode no. Di o de ou a o ma, o que Mo gen hau p e ende a a és da sua c í ica ao libe alismo
e da o mulação do seu ealismo polí ico é o nece uma ap eciação ealis a das condições
polí icas necessá ias pa a uma o dem libe al pode , e e i amen e, sing a .
214
No umo a es a o dem – con o me imos no Capí ulo 2 –, a es ipulação de um in e esse
nacional es i i o e o seu seguimen o acional, bem como a sal agua da de um Equilíb io de
Pode , eque e iam uma in e enção a i a po pa e dos agen es conc e os da polí ica, es ando
longe de cons i ui dados adqui idos e enómenos au omá icos: “sophis ica ed Realism does
no iew he a ional pu sui o he na ional in e es and he ope a ion o he balance o powe
as na u ally occu ing phenomena in any simple sense. The concep ion o he s a e as a a ional
ac o is he ou come o a p ocess o poli ical cons uc ion, and wil ul Realis hough is deeply
conce ned wi h he in ellec ual and sociological esou ces ha migh be mobilised in o de o
ha e his o m o s a e ac ion p e ail.”
215
O seguimen o de uma condu a es a al acional – sob
a égide do in e esse nacional – e a sal agua da de um Equilíb io de Pode de e iam, na
pe spe i a de Mo gen hau, se olun a iamen e escolhidos e “willed”; não sendo a
214
“Mo gen hau’s Realism ep esen s an a emp o p o ide a econs uc ed poli ical libe alism iable o and in
he mode n wo ld.” (WILLIAMS, M. C. – The Realis T adi ion and he Limi s o In e na ional Rela ions, p.
104).
215
WILLIAMS, M. C. – The Realis T adi ion and he Limi s o In e na ional Rela ions, p. 135.
73
acionalidade algo com que se pudesse au oma icamen e con a , não deixa a po isso de se
algo possí el e no ma i amen e desejá el de segui , po ia de um apelo à agência que, como
dissemos, de e ia e como e e ência e guia uma eo ia ealis a como a de Mo gen hau.
216
Po sua ez, ambém Niebuh nu e a semelhan e con icção de que um ealismo c is ão
como o seu, sob e udo no que diz espei o à lei u a que az da “na u eza humana”, de e á
semp e se in eg ado numa mais as a é ica de jus iça p og essi a, e i ando o na -se numa
espécie de “bas ião de conse ado ismo”, ou num apelo desespe ado à ina i idade e
passi idade polí icas: “a ealis concep ion o human na u e should be made he se an o an
e hic o p og essi e jus ice and should no be made in o a bas ion o conse a ism, pa icula ly
a conse a ism which de ends unjus p i ileges. I migh de ine his con ic ion as he guiding
p inciple h oughou my ma u e li e o he ela ion o eligious esponsibili y o poli ical
a ai s.”
217
Pe an e o ho izon e poli ico-no ma i o que acaba po ab i pa a si p óp io, o
ealismo c is ão de Niebuh inci a, po an o, a uma ida de ação e condu a polí ica
esponsá eis, li e não só de um desespe o ex emo – associado a um ealismo mais cé ico –,
como de excessi as expe a i as – ca ac e ís icas de um idealismo ingénuo.
218
Nes a ma é ia, os úl imos capí ulos de Mo al Man and Immo al Socie y e elam-se
elucida i os: “I he mind and he spi i o man does no a emp he impossible, i i does no
seek o conque o o elimina e na u e bu ies only o make he o ces o na u e he se an s
o he human spi i and he ins umen s o he mo al ideal, a p og essi ely highe jus ice and
mo e s able peace can be achie ed.”
219
O o imismo quali icado in imado nes a con icção
des ói ilusões ima u as e ingénuas que pos ulam “ha monias supe iciais” na ida polí ica,
inci ando o Homem a es o ços conc e os e a i os umo à cons ução de um Mundo melho ,
endo semp e como me a e aspi ação úl imas a (inalcançá el) cons i uição da e e ida
comunidade mundial.
220
216
Como diz B ian C. Schmid , a eo ia de Mo gen hau con inha um elemen o no ma i o na exa a medida em que
delega a a si mesma a a e a de guia , na p á ica, os es adis as nas suas ações, pa a que pudessem, assim, p ocede
de uma o ma poli icamen e acional (SCHMIDT, B. C. – The Rocke elle Founda ion Con e ence and he
Long Road o a Theo y o In e na ional Poli ics, in GUILHOT, N. – The In en ion o In e na ional Rela ions
Theo y, p. 92).
217
NIEBUHR, R. – Man’s Na u e and His Communi ies, ci ado em RICE, D. – Reinhold Niebuh and Hans
Mo gen hau: A F iendship wi h Con as ing Shades o Realism, p. 268.
218
“Con a y o a counsel o despai and passi i y, Niebuh ’s Ch is ian ealism ound he e a elease in o a li e
o esponsible ac ion, ee om bo h excessi e expec a ions and ex eme despai .” (RICE, D. – Reinhold Niebuh
and Hans Mo gen hau: A F iendship wi h Con as ing Shades o Realism, p. 270).
219
NIEBUHR, R. – Mo al Man and Immo al Socie y, p. 256.
220
NIEBUHR, R. – Ch is iani y and Powe Poli ics, p. 200-201.
74
Apesa de ad oga mos es a lei u a a espei o de Mo gen hau e de Niebuh – que acaba
po ealça uma ace a no ma i a e o mis a na ob a de cada um –, não deixemos de no a que
ce os au o es op am po des aca aquelas que, no seu en ende , cons i uem as implicações
conse ado as in imadas no ealismo clássico e nos seus á ios p oponen es. Daniel Bessne e
Nicolas Guilho , po exemplo, pe seguem es a linha a gumen a i a: embo a admi indo uma
componen e no ma i a nos ealis as clássicos e o seu co ela i o oco sob e a igu a do
es adis a/deciso polí ico, Bessne e Guilho a gumen am que es a componen e e es e oco
de i am – e não podem se sepa ados – da undamen al c í ica po pa e des es ealis as ao
o imismo libe al do pe íodo en e-gue as, que, segundo dizem, acaba po culmina na adoção
de uma isão “limi ada” e “quali icada”
221
da p óp ia democ acia po pa e des es pensado es.
Figu as e ins i uições ipicamen e democ á icas (como a opinião pública) ep esen a iam, pa a
os ealis as clássicos, obs áculos à acional condu a de polí ica ex e na, pelo que as suas eo ias
podem se lidas como es o ços in elec uais ope ados no sen ido de “insula ” os deciso es
polí ico-diplomá icos – ou seja, uma eli e pa icula – des a mesma ola ilidade democ á ica.
222
Em suma, pa a Bessne e Guilho , o ealismo clássico a ua num sen ido de es abelece uma
eno ada eli e diplomá ica imune a ce os elemen os democ á icos, ou, po ou as pala as,
num sen ido de eabili a uma diplomacia p é-libe al e eli is a adicionalmen e cono ada com
o pe íodo absolu is a eu opeu; daí o con eúdo ideológico essencialmen e conse ado do
ealismo clássico, segundo os au o es.
223
A espei o des a a gumen ação, comecemos po no a que julgamos o aciocínio de
Bessne e Guilho demasiado se e o sob e os au o es clássicos – pelo menos sob e os isados
da p esen e in es igação, Mo gen hau e Niebuh . Na linha de Michael C. Williams, não
pensamos que a c í ica de um au o como Mo gen hau ao idealismo libe al se esgo e numa
absolu a ejeição de p incípios libe ais: como no ámos, o p opósi o des a c í ica se ia, pelo
con á io, o de a anja um alice ce no qual uma o dem libe al, e icaz e o alecida, pudesse se
cons uída. Nes e sen ido, não julgamos que es a c í ica ad enha de um supos o
conse ado ismo do eó ico alemão, mas sim de uma sensibilidade libe al “desencan ada”
(“disenchan ed”), ou seja, cé ica pe an e ingénuos idealismos, mas i me na a e a de con ui
221
BESSNER, D.; GUILHOT, N. – How Realism Wal zed O , p. 94.
222
“A cen al elemen o Mo gen hau’s p oposal conce ned he insula ion o he diploma ic and policy eli e om
public opinion. (…) This amewo k compelled Mo gen hau and his ellow exiles o adop a quali ied and limi ed
ision o democ acy cen e ed upon ensu ing ha allegedly ola ile publics did no exe undue in luence on U.S.
o eign-policy making.” (BESSNER, D.; GUILHOT, N. – How Realism Wal zed O , p. 93-94).
223
BESSNER, D.; GUILHOT, N. – How Realism Wal zed O , p. 95.
75
uma o dem que consiga mais e icazmen e sal agua da p incípios libe ais.
224
Da mesma o ma,
ac edi amos que o ho izon e polí ico-no ma i o an e is o e p omo ido po Mo gen hau e
Niebuh , com odas as suas po encialidades e p omessas ans o ma i as pa a a polí ica
in e nacional, di icilmen e se pode conside a como p odu o de um ca á e poli icamen e
conse ado , mas sim – e no amen e – como e lexo des a sensibilidade libe al especí ica.
No en an o, se não emos es as po encialidades e es es ins ans o ma i os enquan o
de i ados de uma sensibilidade conse ado a, admi imos que, no limi e, o mesmo não possa
se di o em elação aos mé odos a ado a umo àqueles; com e ei o, o ipo de diplomacia
p opos a pelos au o es clássicos assume con o nos eli is as, apon ados po Bessne e Guilho ,
na exa a medida em que as suas exo ações e apelos se di igem, em pa icula , à eli e polí ico-
diplomá ica que conduz a polí ica ex e na de um Es ado.
Rei e emos, a es e espei o, a o ma como, pa a Mo gen hau e pa a Niebuh , a polí ica
cons i uía um domínio imune a uma acionalização absolu a, azendo com que de si não
pudessem se ex aídos p incípios cien í icos, mas apenas máximas de condu a p uden e; no
seio da con ingência e da ela i idade – assumidas, como imos, pelas on ologias de cada um
–, uma eo ia da polí ica in e nacional se ia semp e pau ada po “limi es” o necidos,
jus amen e, pela ealidade à qual isa a da o dem, azendo com que a condu a da polí ica, po
ex ensão, se esumisse semp e à omada de decisão conc e a pe an e um “mundo de
con ingências”.
225
Como al, mesmo as mais in o madas decisões e mesmo a mais ealis a
polí ica ex e na sujei a -se-iam ine i a elmen e à ince eza, eco endo, no ex emo, a
“guesses”.
226
É po es e mo i o que, pa a os clássicos, a condu a da polí ica ex e na de e ia
es a a ca go de “men o judgemen ”, ela i amen e impe meá eis às p essões e ola ilidades
da opinião pública e dispos os a oma decisões que não se iam acilmen e acei es po pa e de
uma o dem in e na democ á ica: “Because poli ics was ul ima ely impe ious o
224
“I is only a disenchan ed libe al eason ha has a chance o wil ully cons uc ing a wo ld based upon he
libe al p inciples he asc ibes o.” (WILLIAMS, M. C. – The Realis T adi ion and he Limi s o In e na ional
Rela ions, p. 127).
225
Falando sob e a discussão en e á ios p o agonis as des e cânone eó ico, ida aquando de uma con e ência
undada e o ganizada, em 1954, pela Fundação Rocke elle , Guilho des aca p ecisamen e a o ma como os
“limi es” ine en es ao exe cício eó ico cons i uí am um ema de deba e undamen al: “The i ems on he agenda
included a discussion no only o he ‘na u e’ o heo y bu also, mo e signi ican ly pe haps, o he ‘limi s’ o
heo y (…) In ac , IR [In e na ional Rela ions] heo y no only had limi s: i was essen ially de ined by hese
limi s. Niebuh insis ed on he necessi y o heo y o be open o he con ingen . A ‘p uden sel -in e es ’ was he
highes a ainable deg ee o a ionali y and mo ali y. Mo gen hau emphasized he incommensu abili y be ween
heo e ical s a emen s and poli ical p ac ice. Poli ics was always abou conc e e decisions engaging wi h a wo ld
o con ingencies” (GUILHOT, N. – The Realis Gambi , in GUILHOT, N. – The In en ion o In e na ional
Rela ions Theo y, p. 151).
226
MORGENTHAU, H. J. – Poli ics Among Na ions, p. 25.
76
a ionaliza ion, i s bes a ional endi ion was unde he o m o p uden ial maxims, no
scien i ic p inciples. (…) implici in his ision o poli ics was he idea ha policy making
should no be he p ese e o a ionalis expe s bu o men o judgemen : men b ea hing he
agic a mosphe e o in e na ional poli ics, able o na iga e he ‘mo al dilemmas’ o poli ics,
bu also awa e ha he u hs o in e na ional poli ics could no be easily accep ed by he public
o democ a ic poli ies.”
227
Des a o ma, mesmo an e endo e isando ins ans o ma i os pa a o u u o da polí ica
in e nacional, di icilmen e equacioná eis com uma sensibilidade conse ado a, podemos
admi i que ambos os ealis as clássicos acabam po sanciona mé odos e in é p e es eli is as
umo a es es ins. As suas p esc ições não são conse ado as em e mos do ho izon e que isam
pe segui , mas, quando mui o, em e mos do mé odo diplomá ico de cunho eli is a que
sancionam pa a es a pe seguição.
Em qualque um dos casos, ao ealça mos es e ho izon e polí ico-no ma i o pa en e nos
ealismos polí icos de Mo gen hau e de Niebuh , não só se o na cla a a o ma como ambos os
au o es se dis anciam, uma ez mais, de Ranke, como a possibilidade de o con as e on ológico
en e es e úl imo e aqueles o nece , no amen e, uma possí el explicação a espei o des a
dis ância: de uma pe spe i a his o iog á ica essencialmen e conse ado a, de i ada de uma
on ologia basila que absolu iza o Es ado-Nação e o exe cício do Equilíb io de Pode enquan o
ealidades me a ísicas, e que an e ê o u u o da polí ica in e nacional como uma me a imagem
do p esen e, dá-se o ad en o de uma pe spe i a eó ica que, longe de congela on ologicamen e
a polí ica in e nacional na sua p esen e condição, nu e um conjun o de po encialidades
ans o ma i as que isam, pelo con á io, ul apassa es a mesma condição.
Com e ei o, con o me p ocu ámos des aca , o Es ado-Nação não de e ia se omado
como alguma espécie de limi e ixo no ho izon e de ambos os ealis as clássicos, ou de um
impedimen o his ó ico à aspi ação e à cons i uição de no as o mas de o ganização polí ica,
mais as as e inclusi as. Longe de uma absolu a e incon es á el unidade polí ica, o Es ado é
a ado pelos au o es como um me o a e ac o his ó ico, cujo paula ino anac onismo ace a um
mundo nuclea pe mi e an e e e inci a modelos de o ganização polí ica sup anacionais, não
só mais inclusi os no seu alcance, como mais pací icos nas suas po encialidades.
227
GUILHOT, N. – The Realis Gambi , in GUILHOT, N. – The In en ion o In e na ional Rela ions Theo y,
p. 129-130.
77
Relemb emos, no en an o, que nem Mo gen hau nem Niebuh p e endiam, com es a
espécie de desmis i icação his ó ica da unidade es a al, menosp eza a e e i a impo ância do
Es ado no p esen e: como obse ámos nos Capí ulos 2 e 3, os Es ados con inua am a a a -se
dos p incipais a o es in e nacionais pa a ambos os au o es, ao pon o de qualque expe a i a
ealis a ace ao umo da polí ica in e nacional p ecisa de e em con a a sua agência. Como
e e e Williams, o Es ado, pa a Mo gen hau, ha e ia de pe manece du an e algum empo como
um limi e da comunidade polí ica, mas jamais o limi e, dado que o econhecimen o da sua
cen alidade no p esen e não p e endia exclui o desen ol imen o de o mas de o dem mais
as as e de ans o mações polí icas além- on ei as no u u o.
228
Já o Equilíb io de Pode , como imos, su ge nas eo ias de ambos os au o es como um
imp escindí el meio na pe seguição do ho izon e polí ico-no ma i o an e is o po ambos:
longe de um im his ó ico em si mesmo, como em Ranke, o Equilíb io de Pode (numa
conceção associa i a) cons i ui uma e amen a ao se iço dos es adis as an o no umo da “paz
po ia da acomodação” de Mo gen hau, como na aspi ação de Niebuh a o mas polí icas cada
ez mais inclusi as em e mos humani á ios.
Sublinhemos, igualmen e, a di e ença de lei u as, en e Ranke e os dois ealis as
clássicos, a espei o do escopo de agência ese ada aos deciso es polí icos no desen ola da
polí ica in e nacional. Se em Ranke e a con e ida uma eduzida ma gem de manob a aos
es adis as, que a ua am enquan o me os supo es da ep odução e paula ino ape eiçoamen o
da p esen e o dem in e nacional – plu al, descen alizada, mul ipola e sob a égide de um
Equilíb io de Pode –, em Mo gen hau e em Niebuh o escopo de ação do deciso polí ico
c esce em p opo ção com as po encialidades ans o ma i as da polí ica in e nacional,
passando a di igi -se di e amen e à pe seguição a i a des as úl imas.
De ac o, des aquemos que não se a a apenas de uma ques ão de escopo, mais ou
menos eduzido, mas sim da p óp ia capacidade de agência a ibuída aos deciso es polí icos
na condu a de polí ica ex e na. Em Ranke, como imos, o seguimen o da condu a ex e na po
pa e dos Es ados da a-se como uma necessidade his ó ica, is o e a sua de adei a on e
on ológica numa on ade P o idencial: aos es adis as, nada mais cabia do que a a e a de
econhece e segui , incondicionalmen e, a “lei sup ema” de segu ança e sob e i ência do seu
espe i o Es ado, anscenden almen e impos a, sendo a es e seguimen o que oda a sua agência
se acaba a po es ingi . Em suma, os es adis as não escolhiam ep oduzi a p esen e o dem,
228
WILLIAMS, M. C. – The Realis T adi ion and he Limi s o In e na ional Rela ions, p. 209.
78
já que es a ep odução es a a, à pa ida, sal agua dada pela p óp ia P o idência da qual
emana a. Já pa a os dois ealis as clássicos, isen os de uma on ologia que lhes pe mi a
pe spe i a a condu a do Es ado como algo anscenden almen e impos o – ou seja, como algo
au omá ico e ine i á el – e, pelo con á io, assumindo a basila con ingência da ealidade, os
es adis as o nam-se em di e os e a i os au o es do des ino da polí ica in e nacional, não
es ando e éns de nenhum ipo de condu a es a al p é-concebido, me amen e ep odu i o.
Assim, uma ez mais, emos como os espe i os con as es on ológicos en e Ranke e
cada um dos dois eó icos podem explica as suas di e en es lei u as a espei o da agência dos
deciso es polí icos: não podendo con a com uma di indade on ológica que elasse, po ia de
uma sanção au omá ica, pelo cu so his ó ico no u u o, e iam de se os p óp ios es adis as a
an e e em-no e a cons uí em-no po ia dos seus p óp ios es o ços, en egues a uma ealidade
desp o ida das esc upulosas ga an ias me a ísicas de ou o a e sujei a à omnip esença da
con ingência.
Reco demos, a es e p opósi o, a o ma como o ealismo polí ico de Mo gen hau e o de
Niebuh de e iam, ei a es a exo ação à agência dos a o es polí icos, a ua enquan o iéis guias
des a mesma agência, umo às po encialidades an e is as e isadas po ambos, num semp e
elusi o umo no seio da con ingência e da i acionalidade. Com e ei o, é po pos ula a
omnip esença des es úl imos elemen os que o ealismo clássico consegue a anja pa a si
mesmo a sua azão de se p á ica, enquan o um co po in elec ual que p e ende não só o nece
um ela o desc i i o e explica i o da polí ica in e nacional al como ela é, como suge i , de
o ma p esc i i a, um umo pa a o que ela de e ia se ,
229
a uando enquan o seu undamen al
guia pa a es e alcance. No ma i amen e munida e de âmbi o p esc i i o, al pos u a eó ica
con as a adicalmen e com a pos u a his o iog á ica con empla i a e passi a de Ranke,
p eocupada com a me a desc ição dos enómenos his ó icos.
Assim, des a passi idade his o iog á ica pa en e na ob a do his o iado alemão,
sob e udo ocada na desc ição, encon amos em Hans Mo gen hau e em Reinhold Niebuh uma
pos u a eó ica a i a e in e en i a, que não só p e ende desc e e e explica , como,
simul aneamen e, p esc e e e guia .
229
“[Classical] Realism did o e a desc ip i e wo ld iew – an accoun o he way in e na ional ela ions a e in
ac ca ied ou . Wi h equal po ency and o en simul aneously, ealism also sugges ed a p esc ip i e amewo k
o wo king owa d he ideal while li ing wi h he eal.” (ROSENTHAL, J. H. – Righ eous Realis s, p. x iii).
79
Pa e III: Neo- ealismo
Capí ulo 5: O Neo-Realismo de Kenne h Wal z
5.1 – Pa cimónia Mic oeconómica
Na p esen e secção, começa emos po explici a o en endimen o que Wal z az do
concei o de eo ia pa a, subsequen emen e, pa i mos pa a uma desc ição do modelo sis émico
wal ziano, com pa icula ên ase sob e a sua noção de “es u u a”. A gumen a emos que é
p ecisamen e es a noção de “es u u a” que eside no âmago on ológico da eo ia neo- ealis a
de Wal z, dando con a da sua inspi ação na Mic oeconomia e do seu explíci o ca á e
pa cimonioso. Po im, con as a emos es a pa cimónia mic oeconómica pa en e na eo ia de
Wal z com a on ologia P o idencial de Ranke, explo ando as suas consequências pa a o
diálogo en e ambos.
Poucos eó icos i e am amanha in luência sob e o pe cu so do pensamen o ealis a na
segunda me ade do séc. XX como Kenne h Wal z, o undado daquela que i ia a se designada
como a a ian e neo- ealis a (ou es u u alis a) des a escola de pensamen o. O p incipal
con ibu o do no e-ame icano pa a o pensamen o ealis a – e aquela que pode se lida como a
sua mais signi ica i a ino ação em elação aos ealis as clássicos –, consis e na sua aspi ação
à cons ução de uma eo ia e dadei amen e es u u al das RI, com is a a uma mais so is icada
e igo osa sis ema ização eó ica des a á ea do sabe . De ac o, como indica Wal z, oi
p ecisamen e a so is icação e o igo sis ema izado es que al a am à ge ação de ealis as que
o an ecedeu, le ando-o a decla a que os es o ços de au o es como Mo gen hau nunca se
chega am a ma e ializa numa eo ia das RI, p op iamen e di a.
230
P ecisamos, oda ia, de comp eende o que Wal z en ende, ao ce o, pelo concei o de
eo ia; comecemos en ão po explo a b e emen e es e en endimen o, pa a de seguida
passa mos a uma desc ição ge al do modelo sis émico wal ziano, que nos pe mi i á des aca
aquele que, no nosso en ende , é o g ande con as e on ológico en e a his o iog a ia ankeana
e o neo- ealismo do eó ico no e-ame icano. Como com os es an es au o es, se á sob e o
undo p o idenciado po es e con as e que as cli agens e as con inuidades en e Ranke e Wal z
se ão enquad adas ao longo de odo es e Capí ulo.
230
WALTZ, K. N. – Realis Though and Neo ealis Theo y, p. 26.
80
Segundo Wal z, uma eo ia é um quad o men al de es e a necessa iamen e limi ada,
de ido ao ac o de isola um domínio especí ico da ealidade (como o domínio polí ico) de
odos os es an es, pa a lida in elec ualmen e com o p óp io. O c i é io segundo o qual as
eo ias de em se julgadas, nes e sen ido, não é o seu ca á e mais ou menos ealís ico, mas sim
a sua u ilidade, julgada pelos pode es explica i os e p edi i os po si susci ados.
231
Longe de
uma desc ição iel da ealidade ou de uma lis a exaus i a de odos os seus ac os, as eo ias
isam cons ui uma ealidade especí ica, pos e io men e u ilizada pa a examina e in e p e a
ac os conc e os.
232
É com es e enquad amen o em men e que Wal z se lança à a e a de
elabo a uma eo ia sis émica das RI, ou seja, uma eo ia que consiga e e i amen e demons a
como o ní el sis émico (a es u u a) se di e encia do ní el das suas unidades em in e ação,
pe mi indo: aça a e olução espe ada de di e en es sis emas in e nacionais, ao indica , po
exemplo, a sua du ação p o á el ou o seu ca á e mais ou menos pací ico, e mos a como a
es u u a a e a as unidades, assim como es as úl imas a e am aquela.
233
Con o me indica John G. Ruggie, o p eceden e in ocado po Wal z pa a jus i ica a sua
elabo ação de uma eo ia especi icamen e sis émica das Relações In e nacionais emon a a
Man, he S a e, and Wa , ob a publicada pelo au o em 1959.
234
Nes a ob a – o iginalmen e a
ese de dou o amen o de Wal z –, o no e-ame icano elabo a, como já indicámos an e io men e,
uma axonomia que dis ingue en e aquelas que, no seu en ende , são as ês o mas de localiza
as causas dos con li os in e nacionais: os eó icos de “p imei a imagem” si uam es as causas
na cons i uição humana; os de “segunda imagem” na ins i uição do Es ado e os de “ e cei a
imagem” na p óp ia es u u a aná quica do sis ema in e nacional. En e es as ês, Wal z oma
um assumido luga no seio da “ e cei a imagem”, julgando os mé i os e, sob e udo, as
insu iciências dos ou os dois ní eis a pa i des a posição.
Pa a Wal z e os es an es p oponen es des a “imagem”, a eco ência his ó ica de
gue as não se de e a de e minadas ca ac e ís icas dos se es humanos, nem a a anjos
ins i ucionais especí icos dos Es ados, mas sim ao con ex o in e nacional no qual es es se
encon am. Tal con ex o é ma cado pela undamen al ausência de uma au o idade
sup anacional cuja sobe ania se sob eponha à dos di e en es Es ados, ou seja, pela exis ência
231
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 22-23.
232
WALTZ, K. N. – Realis Though and Neo ealis Theo y, p. 22.
233
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 63.
234
RUGGIE, J. G. – Con inui y and T ans o ma ion in he Wo ld Poli y: Towa d a Neo ealis Syn hesis,
p. 272.
81
de uma ana quia, na qual cada Es ado, no limi e, apenas pode con a consigo mesmo pa a
ga an i o mínimo sucesso em e en uais e ine i á eis con li os com os es an es.
235
Se á, assim, a es u u a aná quica do sis ema in e nacional que, ao o na possí el o
de lag a de con li os en e os Es ados, acaba po explica a pe enidade his ó ica da gue a,
independen emen e dos múl iplos e a iados humanos e Es ados que ão, em conc e o,
apa ecendo em cena. No en an o, Wal z é cla o quando sublinha que a es u u a do sis ema
in e nacional se a a de uma “pe missi e o unde lying cause o wa ”, o que signi ica que as
causas imedia as dos con li os in e nacionais de e ão con inua a se p ocu adas em a iações
nos a o es da “p imei a” e da “segunda imagem”.
236
Mais do que o mo i o imedia o que
p o ocou es e ou aquele con li o, a ana quia in e nacional de e á, assim, se lida como a causa
subjacen e que o na possí el o ecu so ocasional à gue a, explicando a sua cons ância no
passado, a sua e en ualidade no p esen e e a sua ine i abilidade no u u o, pelo menos enquan o
a es u u a do sis ema in e nacional pe manece aná quica. Em poucas pala as, a gue a se á
possí el enquan o pe sis i a ana quia.
É es a saliência do a o sis émico na explicação de um enómeno pa icula das RI que
le a Wal z, duas décadas mais a de, a elabo a uma eo ia que p ocu e da con a dos e ei os
es u u ais especí icos que o sis ema in e nacional em sob e os Es ados.
237
Como o au o ol a
a salien a , a ca ac e ís ica mais ma can e na ex u a da polí ica in e nacional é a sua p o unda
cons ância, com os mesmos pad ões a eapa ece em e os e en os e enómenos a epe i em-se
incessan emen e, em i ude do e ei o uni o mizado do seu milena ca á e aná quico: “As
elações que p e alecem in e nacionalmen e a as ezes se al e am no ipo ou na qualidade.
Em ez disso, são ma cadas po uma pe sis ência es on ean e, uma pe sis ência que de emos
espe a que du e enquan o nenhuma das unidades compe ido as o capaz de con e e a
a ena in e nacional aná quica numa a ena hie á quica.”
238
Em suma, a es u u a de um
sis ema in e nacional a ua como uma o ça cons angedo a, disciplinado a e, po consequência,
uni o mizado a sob e as suas unidades.
Po ém, como salien a Wal z, uma eo ia sis émica só pode á e qualque ipo de êxi o
se o ní el es u u al o , em p imei o luga , de idamen e de inido, de o ma que os seus e ei os
235
WALTZ, K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 159.
236
WALTZ, K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 232.
237
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais.
238
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 96.
88
es angei os de Ranke obedece, igualmen e, a uma lógica de “ e cei a imagem” e, po im,
explica emos como o con as e on ológico já iden i icado en e ambos os au o es nos ajuda a
in e p e a as cli agens encon adas em elação às suas espe i as lei u as do Es ado.
No seio de uma eo ia das Relações In e nacionais que se assume como sis émica, qual
é o luga que acaba po se deixado ao Es ado? Jus amen e o luga das unidades do sis ema, o
e e ido ní el uni á io ou p ocessual de odo o modelo. Apesa de não se a a em,
ealis icamen e, do único a o exis en e na polí ica in e nacional, não deixam po isso de
cons i ui os seus mais p eponde an es agen es: como indica Wal z, os Es ados desempenham
unções polí icas, sociais e económicas essenciais, não encon ando qualque ou o a o que os
consiga i aliza nes as ma é ias.
259
Em pa icula , são as G andes Po ências in e nacionais de uma dada e a que assumem
uma ac escida in luência na polí ica in e nacional: enquan o as unidades de maio capacidade,
es abelecem o cená io de ação pa a os ou os, assim como pa a si mesmas. Nes e sen ido, como
indica Wal z, in e p e a as elações in e nacionais como um sis ema eque , necessa iamen e,
uma ac escida concen ação sob e os Es ados mais pode osos, azendo com que uma eo ia das
Relações In e nacionais seja baseada nas G andes Po ências.
260
Aqui, uma ez mais, ope a o
e e ido aciocínio po analogia: o oco sob e as unidades de maio capacidade de i a da eo ia
de me cados oligopolís icos, na qual os economis as a gumen am, igualmen e, que as
in e ações en e um g ande núme o de unidades podem se comp eendidas se a ên ase analí ica
incidi sob e as mais p eeminen es de en e es as; os des inos de odas as i mas num me cado
– ou de odos os Es ados num sis ema in e nacional – são mui o mais a e ados pelas ações das
unidades maio es do que das meno es, pelo que a p imazia analí ica de e á si ua -se sob e
aquelas.
261
O modelo de Wal z é, des a o ma, eminen emen e es a ocên ico: não excluindo a
e e i a exis ência de pode osos a o es não-es a ais no sis ema in e nacional, ei e a que es es
ope am num amewo k es abelecido e de inido pelos Es ados, sob e udo pelas G andes
Po ências, segundo a ideia de que a polí ica in e nacional é “p incipalmen e sob e
desigualdades”.
262
Enquan o os Es ados mais impo an es o em os mais ele an es a o es, a
259
WALTZ, K. N. – Globaliza ion and Ame ican Powe , p. 51
260
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 105.
261
LITTLE, R. – The Balance o Powe in In e na ional Rela ions, p. 178.
262
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 134.
89
es u u a das elações in e nacionais se á de inida em unção deles, a ando-se es a de uma
cons a ação que du an e mui o empo se á eo icamen e álida e se con i ma á na p á ica.
263
Já no que diz espei o aos seus obje i os, Wal z ambém é bas an e cla o: os Es ados
p ocu am, an es de mais e acima de udo, assegu a a sua p óp ia sob e i ência e p ese ação;
na p á ica, os obje i os es a ais podem se ex emamen e a iados, mas, segundo Wal z, a
sob e i ência a a-se de um p é- equisi o pa a o seu e e i o alcance.
264
Nes e sen ido, dize
que um país a ua segundo o seu in e esse nacional signi ica que, endo examinado os seus
equisi os de segu ança, en a alcançá-los.
265
Pos o is o, apidamen e nos ape cebemos de como o a o da pa cimónia en a aqui em
jogo: pa indo de uma pe spe i a es a ocên ica e concebendo os Es ados como endo um único
obje i o p imo dial, o eó ico no e-ame icano o nece-nos um modelo despido e simpli icado
no que às suas unidades diz espei o. Ao mesmo empo, e uma ez mais, cons a amos que al
pa cimónia é assumida de início ao im: o es a ocen ismo, segundo Wal z, de e se en endido
como uma mani es a simpli icação em nome da elegância eó ica, assim como a mo i ação dos
Es ados, longe de uma desc ição ealís ica, não passa de uma assunção em p ol da cons ução
de uma eo ia, julgada pela sua sensibilidade e u ilidade no seio des a úl ima.
266
No emos, no
en an o, que ce as análises ao es a ocen ismo de Wal z apa en am não a ibui , segundo
julgamos, a de ida impo ância, ou o de ido sen ido, a es a assumida pa cimónia do no e-
ame icano. T a a-se do caso da análise de Richa d K. Ashley, a que ago a aludi emos de
passagem.
En e ou os elemen os, é con a o que designa de “s a ism”
267
na eo ia de Wal z que
Ashley dedica alguns pa ág a os em The Po e y o Neo ealism, de 1986. T a ando-se de uma
das p imei as e mais ex ensas c í icas ao en ão ecém-c iado ealismo es u u alis a das RI, uma
e dadei a polémica di igida à sua impu ada pob eza, Ashley escolhe o es a ocen ismo do
263
“uma eo ia que nega o papel cen al dos es ados só se á necessá ia se os ac o es não-es aduais se
desen ol e em ao pon o de i aliza em ou ul apassa em as g andes po ências, e não apenas alguns dos es ados
meno es. Não mos am nenhum sinal de o i a aze . (…) Os es ados são as unidades cujas in e acções o mam
a es u u a dos sis emas das elações in e nacionais. I ão man e -se assim du an e mui o empo.” (WALTZ, K.
N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 134-135).
264
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 130.
265
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 186.
266
“a mo i ação dos ac o es é assumida em ez de ealis icamen e desc i a. Eu assumo que os es ados p ocu am
assegu a a sua sob e i ência. A assunção é uma simpli icação adical ei a em nome da cons ução de uma
eo ia. A ques ão a coloca pela assunção, como semp e, não é se é e dadei a, mas se é a mais sensí el e ú il
que podemos aze .” (WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 129-130).
267
ASHLEY, R. K. – The Po e y o Neo ealism, p. 238.
90
modelo wal ziano como uma das ma cas mais no ó ias des a pob eza. Segundo o au o , o
Es ado é a ado po Wal z como uma en idade não-p oblemá ica, cuja exis ência, on ei as,
es u u as, in e esses, obje i os e demais ca ac e ís icas apa ecem – ou melho , p essupõem-se
– e são a adas como dados adqui idos, naquilo que pa a Ashley ep esen a um “comp omisso
me a ísico” an e io à p óp ia ciência e eo ia, isen o de qualque c í ica.
268
Com e ei o, apesa
de admi i que os neo- ealis as, po ezes, explici am es a endência e a econhecem como uma
dis o ção da ealidade,
269
Ashley in e p e a ais “cedências” como me as “cláusulas p o e i as”
le an adas pa a de le i possí eis c í icos do neo- ealismo, não deixando o es a ocen ismo de
cons i ui , undamen almen e, uma das assunções não-examinadas que subjaz odo o discu so
eó ico des a a ian e ealis a.
270
No en an o, endo em con a a análise ei a a é aqui, acabamos po di e gi da pe spe i a
de Ashley já que, a nosso e , as explíci as alusões de um au o como Wal z à ine i á el
pa cimónia en ol ida no seu es o ço eó ico, longe de “cedências” e de “cláusulas p o e i as”,
a am-se, acima de udo, do p óp io pon o de pa ida de oda a sua abo dagem; di o de ou o
modo, es as alusões deco em, como imos, das p óp ias ideias undacionais de Wal z a
espei o daquilo que um p oje o eó ico en ol e e daquilo que a eo ia, no undo, é: uma
ine i á el dis o ção da ealidade, na o ma de um conjun o de concei os e ca ego ias
es i amen e analí icos, po oposição a uma iel desc ição da mesma. Assim, conside amos que
es as explíci as alusões se em, acima de udo, pa a Wal z sinaliza e elemb a o ac o de se
es a a en ol e num es o ço eó ico que, po isso mesmo, se a a de um es o ço de dis o ção
e simpli icação.
Ac edi amos que o es a ocen ismo não se a a de uma assunção não-examinada do
neo- ealismo wal ziano, de i ado de uma espécie de implíci o “comp omisso me a ísico” do
au o , mas cons i ui sim uma assumida dis o ção eó ica, exp essa an o no ac o de os Es ados
su gi em como os “únicos” (ou os “mais impo an es”) a o es do sis ema in e nacional, como
no ac o de “apenas” e em como obje i o a sua p óp ia p ese ação: “ he s a e in TIP (Theo y
o In e na ional Poli ics) is no eal a all. (…) he uni s/s a es o Wal z’s in e na ional sys em
ep esen only one analy ical ace o an ac ual s a e. They a e, qui e simply, he ole
expec a ion o sel - ega ding beha io , and do no necessa ily ell us any hing abou he
268
ASHLEY, R. K. – The Po e y o Neo ealism, p. 238-239.
269
“T ue, indi idual neo ealis s some imes allow ha he heo e ical commi men o he s a e-as-ac o cons uc
in ol es a dis o ion o so s.” (ASHLEY, R. K. – The Po e y o Neo ealism, p. 238).
270
ASHLEY, R. K. – The Po e y o Neo ealism, p. 239.
91
quali ies o eal coun ies.”
271
Con a iamen e à pe spe i a de Ashley, pa a quem o
es a ocen ismo cons i ui um p incípio on ológico do neo- ealismo,
272
eco damos, com
Godda d e Nexon, que a eo ia de Wal z não se sus en a numa on ologia, e que o seu
es a ocen ismo mais não é do que um sin oma de simpli icação naquela que é, de início ao
im, uma eo ia simpli icado a. Em suma, o ecu so ao Es ado enquan o unidade po pa e de
Wal z não de i a de um implíci o e não-p oblema izado comp omisso ou, po assim dize , de
um mudo p econcei o, mas sim de uma explíci a e delibe ada assunção ei a (e nunca
escondida) pelo au o : “The s a e in ac is no a uni a y and pu posi e ac o . I assumed i o
be such only o he pu pose o cons uc ing a heo y.”
273
Vol ando, po ém, à nossa emá ica cen al, cons a amos que a análise es a ocên ica de
Wal z o inse e – ao lado de Mo gen hau e de Niebuh – na linha de Ranke, cuja análise
his o iog á ica, como imos, incidia igualmen e sob e as in e ações en e unidades es a ais,
sob e udo en e as G andes Po ências eu opeias. De ac o, quando Koliopoulos menciona, de
passagem, a in luência que o his o iado alemão e e sob e os ealis as do séc. XX, des aca
pa icula men e au o es neo- ealis as como Wal z e John Mea sheime .
274
As empa ias, po ém,
não icam po aqui, como ago a e emos.
Já demos con a, ao longo da secção an e io , do ac o de a eo ia de Wal z se a a de
uma eo ia es u u al da polí ica in e nacional, ou seja, uma abo dagem eó ica que em como
p incipal in ui o a elabo ação de um ní el analí ico especi icamen e es u u al, dis in o do ní el
uni á io, e a análise do seu impac o sob e es e úl imo. O a, pelo ac o de a es u u a aná quica
do sis ema in e nacional a ua , como imos, enquan o uma o ça cons angedo a,
condicionan e e uni o mizado a sob e as suas unidades, qualque análise ei a a es as úl imas
ica ia incomple a se não p ocu ássemos da con a dos compo amen os conc e os que a
ana quia in e nacional lhes induz. A es e espei o, Wal z diz-nos que, em condições aná quicas,
en e Es ados há uma cons an e possibilidade de gue a: na ausência de uma espécie de agen e
supe io pa a ge i ou manipula as pa es em con li o, ou seja, com cada Es ado a decidi po
si mesmo quando usa ou não usa a sua o ça con a os demais, a gue a pode desencadea a
271
GODDARD, S. E.; NEXON, D. H. – Pa adigm Los ? Reassessing Theo y o In e na ional Poli ics, p. 26.
272
ASHLEY, R. K. – The Po e y o Neo ealism, p. 239.
273
WALTZ, K. N. – Re lec ions on Theo y o In e na ional Poli ics, p. 339.
274
“Ranke ound i na u al o ocus on he g ea powe s, since g ea powe s a e he mos in luen ial in e na ional
ac o s; in his ocus, Ranke echoes many a p esen -day poli ical ealis (e.g., Wal z 1979; Mea sheime 2001).”
(KOLIOPOULOS, C. – In e na ional Rela ions and he S udy o His o y, p. 9).
92
qualque al u a.
275
Nes e ambien e, unidades que isam ela pela sua segu ança e
sob e i ência a ua ão no sen ido de p ese a a sua independência umas em elação às ou as,
po ia de es a égias que seguem um p incípio undamen al em qualque o dem aná quica: a
au oajuda.
276
Cada uma das unidades acaba, consequen emen e, po gas a uma po ção dos seus
es o ços a a anja os meios pa a se p o ege das es an es, isando alcança uma posição de
au ossu iciência, já que não pode con a com mais ninguém pa a o aze em seu luga .
277
Pos o is o, como indica Wal z, os impedimen os à colabo ação e à in e dependência
en e as unidades podem não esidi , necessa iamen e, no seu ca á e indi idual ou nas suas
in enções imedia as, já que ad êm da p óp ia condição undamen al de insegu ança na qual se
si uam e que assim as cons ange.
278
Um Es ado e á uma pe manen e e es u u almen e
induzida p eocupação com a di isão de ganhos possí eis, a en o à possibilidade de es es
pode em i a a o ece os ou os mais do que a si mesmo – is o é, i á sob epo ganhos ela i os
a ganhos absolu os –, ao mesmo empo que p ocu a á não se o na dependen e dos es an es.
279
Des e modo, emos como pa a Wal z o Es ado não a ua num ácuo, mas sim no seio de uma
condição es u u al aná quica que condiciona undamen almen e a sua condu a conc e a,
mui as ezes a as ando-o das suas imedia as in enções; as suas decisões in e nas são moldadas
– segundo uma lógica ou side-in – pela p esença de ou os, con a os quais p ocu a á
sal agua da a sua p óp ia segu ança e au onomia; o Es ado, em poucas pala as, é ido po
Wal z enquan o um Es ado en e ou os.
275
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 144. Wal z ambém chama a a enção pa a o ac o
de a ameaça de iolência e o uso eco en e da o ça não dis ingui em, em úl ima análise, os assun os
in e nacionais dos assun os domés icos: “Diz-se que a ameaça de iolência e o uso eco en e da o ça dis inguem
os assun os in e nacionais dos nacionais. Mas na his ó ia do mundo, ce amen e que a maio ia dos go e nan es
e e de e em men e que os seus súbdi os podiam usa a o ça pa a lhes esis i ou pa a os depo . Se a ausência
de go e no es á associada à ameaça de iolência, en ão ambém es á a sua exis ência.” (WALTZ, K. N. – Teo ia
das Relações In e nacionais, p. 144). Assim emos como em Wal z, po oposição a Ranke, não há luga pa a
uma pe spe i a que assuma uma ha monia social olun á ia e espon ânea den o de on ei as, como se a o ça aí
não a uasse enquan o um elemen o aglu inado . Con o me indica o no e-ame icano, nenhuma o dem humana é à
p o a de iolência, com a di e ença en e a polí ica nacional e a polí ica in e nacional a esidi não no uso da
o ça, mas nos di e en es modos de o ganização pa a aze algo em elação a esse uso: in e namen e, um go e no
de um Es ado a oga-se o di ei o de usa a (legí ima) o ça, enquan o ex e namen e, na ausência de um go e no
in e nacional, a o ça encon a-se descen alizada (WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p.
145).
276
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 155.
277
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 149-150.
278
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 147. Como e e e nou o luga : “ he sel -dependence
o s a es means ha each s a e mus de elop and main ain he powe upon which i s secu i y es s. Each s a e’s
ques o secu i y mus hen ende all s a es insecu e.” (WALTZ, K. N. – Con en ion and Managemen in
In e na ional Rela ions, p. 733).
279
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 148-149.
93
Já e e imos, na secção an e io , como es a pe spe i a acaba po si ua o no e-
ame icano bem no cen o da “ e cei a imagem”, segundo a axonomia po si p óp io o mulada
em Man, he S a e, and Wa . É p ecisamen e ao olha mos pa a as passagens que Wal z dedica
à análise des a “imagem” que nos ape cebemos da eno me p oximidade a que o eó ico acaba
po ica , aos seus p óp ios olhos, de Ranke e da sua his o iog a ia; al de e-se ao ac o de, pa a
Wal z, o his o iado alemão ambém pode se in eg ado no seio des a “imagem”, ao e
igualmen e ad ogado que a condição de um Es ado depende semp e das suas elações ex e nas
com os es an es: “While some belie e ha peace will ollow om he imp o emen o s a es,
o he s asse ha wha he s a e will be like depends on i s ela ion o o he s. The la e hesis
Leopold Ranke de i ed om, o applied o, he his o y o he s a es o mode n Eu ope.”
280
Em pa icula , Wal z es á-se aqui a di igi àquilo que já des acámos, no Capí ulo 1,
como a p imazia dos negócios es angei os,
281
uma componen e de análise undamen al na
his o iog a ia ankeana pa a explica e na a o su gimen o, as ações e o compo amen o dos
Es ados, an o no plano ex e no como, inclusi amen e, em ma é ia da sua polí ica in e na: ao
si ua os p incipais in e esses nacionais no domínio da polí ica ex e na – como imos, a
ga an ia da independência e segu ança nacionais –, Ranke assume que é p ecisamen e o palco
in e nacional que acaba, assim, po de ini as ações de odo e qualque Es ado, des acando,
ambém numa lógica ou side-in, a sua undamen al condição enquan o um en e ou os. Pa a
Wal z, é es a endência na his o iog a ia de Ranke que o na o aciocínio do his o iado
diame almen e opos o ao de eó icos das es an es duas “imagens”, pa a quem as condições
in e nas dos Es ados, ou as ca ac e ís icas dos indi íduos que os ocupam, é que de e minam as
suas elações ex e nas com os es an es.
282
Ambos iéis pensado es de “ e cei a imagem”, o his o iado alemão e o eó ico no e-
ame icano comungam, assim, em o no de uma pe spe i a sob e o uncionamen o das elações
280
WALTZ, K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 7.
281
Pa a Wal z, a p imazia dos negócios es angei os, apesa de e sido o nada amosa na Alemanha do séc. XIX,
a a-se de uma pe spe i a que emon a a A is ó eles e às suas conside ações sob e as es u u as polí icas do Es ado
e a sua o ganização mili a (WALTZ, K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 124).
282
“When Ranke a gued ha he ex e nal ela ions o s a es de e mine hei in e nal condi ions, his a gumen had
conside able cogency. So g ea was he impo ance o diplomacy in nine een h-cen u y Eu ope and so many we e
he s a esmen ained in i s ways ha e en in e nal go e nance a imes co esponded in me hod o he echniques
by which a ai s among s a es we e conduc ed. (…) Bu al eady by he dawn o he nine een h cen u y, ac o s
in e nal o s a es we e becoming mo e impo an in in e na ional ela ions. And wi h hei g ea e impo ance,
one inds a g owing endency o explain ela ions among s a es in e ms o hei in e nal condi ion.” (WALTZ,
K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 225). Wal z ol a a e e i -se a Ranke quando o in eg a no conjun o de
his o iado es alemães que, no séc. XIX, ponde a am se se ia ealmen e possí el Es ados pací icos se em c iados
sob a pe manen e ameaça de pe igos ex e nos, ealçando uma ez mais a lógica ou side-in que pau a o olha de
Ranke sob e a polí ica in e nacional (WALTZ, K. N. – S uc u al Realism a e he Cold Wa , p. 8).
94
in e nacionais que ealça a in luência de e minan e do con ex o in e nacional sob e a condu a
conc e a dos Es ados, a despei o de a o es como a sua cons i uição polí ica in e na, ou a
p edisposição psicológica dos seus líde es. Pa a Wal z, de ac o, não apenas a condu a ex e na
dos Es ados é in luenciada pela es u u a in e nacional, como o seu p óp io desen ol imen o
in e no ambém acaba po se a e ado, umo a uma p og essi a simili ude.
283
As es a égias e
ino ações mili a es, sob e udo, ão-se o nando nas mesmas um pouco po odos os Es ados,
em i ude das des an agens secu i á ias que su gem do acasso de a es as se i em
con o mando.
284
No en an o – e aqui, uma ez mais, ol amos à explíci a pa cimónia da abo dagem de
Wal z –, o no e-ame icano oma em conside ação o ac o de que, na espos a às p essões
es u u ais, nenhum Es ado a ua com conhecimen o e sabedo ia pe ei os, como se osse seque
possí el sabe o que es es e mos signi icam exa amen e.
285
Com e ei o, Wal z eco da-nos que
o cump imen o, po pa e de qualque unidade es a al, de uma supos a acionalidade
es u u almen e impos a jamais es á au oma icamen e assegu ado, jamais pode se in e p e ado
como ine i á el. Segundo indica, as es u u as ecompensam ou punem compo amen os que
se con o mam mais ou menos com o que é eque ido a quem quise se bem-sucedido no
sis ema in e nacional, mas os Es ados podem não e is o, ou, endo-o, podem na mesma não
consegui con o ma as suas ações a es es pad ões es u u almen e impos os.
286
Bem longe es á, po isso, um olha sob e o umo conc e o dos Es ados que o ê como
p ocedendo de uma o ma au omá ica e necessá ia, sob a égide de uma on ade P o idencial
o denado a que, de um modo ine i á el, o guia. De ac o, mesmo que Ranke e Wal z se
ap oximem um do ou o, como imos, ao salien a em o impac o undamen al do con ex o
in e nacional sob e as ações dos Es ados – eunindo-se, assim, na “ e cei a imagem” –, ambos
di e gem no que oca à o ma como es e impac o de e á se lido, com aquele a subsumi-lo a
uma on ologia di ina que o do a de uma esc upulosa necessidade e ine i abilidade, e es e
úl imo a in e p e á-lo à luz de uma explici amen e simpli icada eo ia, sob o undo de uma
ealidade con ingen e. Vemos, assim, como o con as e on ológico en e os au o es nos o e ece
uma possí el in e p e ação pa a explica es a cli agem na lei u a de ambos a espei o do
Es ado.
283
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 137.
284
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 177-178.
285
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 130.
286
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 131.
95
5.3 – Wal z e o Equilíb io de Pode : Uma Teo ia como Qualque Ou a
Na p esen e secção, da emos con a da in e p e ação especí ica que Wal z em do
Equilíb io de Pode e do luga que es e ocupa na sua eo ia das Relações In e nacionais. De
seguida, in eg a emos es a in e p e ação na linhagem do ealismo de ensi o e ad oga emos a
inclusão de Ranke enquan o um an ecesso de Wal z nes a linhagem. Depois, eco endo à
ipologia de Li le, e emos como ambém em Wal z exis e espaço pa a uma in e p e ação
associa i a e uma ad e sa i a do Equilíb io de Pode , con as ando a sua lei u a associa i a
com a de Ranke. Po im, da emos con a de como o con as e on ológico en e ambos os
au o es, uma ez mais, ajuda-nos a in e p e a as cli agens encon adas.
Apesa de já em Man, he S a e, and Wa es a plenamen e conscien e do ac o de o
Equilíb io de Pode se elaciona , de uma o ma ín ima, com a “ e cei a imagem”,
287
se á
apenas em Teo ia das Relações In e nacionais que Wal z i á a o nece a sua mais elabo ada
discussão a espei o des e enómeno na polí ica in e nacional. Segundo o au o , se são os
cons angimen os es u u ais que explicam po que mo i o de e minados mé odos e umos são
ado ados, ao longo dos empos, po pa e dos a o es in e nacionais, é a eo ia do Equilíb io de
Pode que en a explica o esul ado que es es mé odos p oduzem.
288
Ao mesmo empo, al
como qualque ou a eo ia, ambém es a espei a, pa a o no e-ame icano, um conjun o de
p oposições básicas, já e e idas ao longo das úl imas páginas: con ém, pelo menos, uma
assunção eó ica, ou seja, não- ac ual; de e se a aliada em e mos do que a i ma explica e,
a ando-se de um sis ema explana ó io ge al, não pode explici a pa icula idades.
289
Em e mos das suas assunções, a eo ia do Equilíb io de Pode in e p e a os Es ados
como a o es uni á ios que, no mínimo, p ocu am a sua sob e i ência e, no máximo, o domínio
uni e sal, a uando an o po ia de es o ços in e nos – in e nal balancing, a a és do
desen ol imen o in e no em e mos económicos, mili a es, e c. –, como de es o ços ex e nos
– ex e nal balacing, aduzido na o mação de alianças com ou os Es ados, po exemplo.
290
A
es as assunções básicas da eo ia é ac escen ada a condição pa a a sua ope ação: a coexis ência
de dois ou mais Es ados num sis ema aná quico, de au oajuda. O esul ado espe ado, com base
an o naquelas assunções como nos cons angimen os esul an es des a condição, é a o mação
de equilíb ios de pode in e es a ais, o nando a eo ia do Equilíb io de Pode numa mic o eo ia
287
WALTZ, K. N. – Man, he S a e, and Wa , p. 200.
288
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 163.
289
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 164.
290
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 164.
96
no p eciso sen ido económico: “O sis ema, como um me cado em economia, é ei o de acções
e in e acções das suas unidades, e a eo ia é baseada em assunções sob e o seu
compo amen o.”
291
Como nos diz Wal z, a ando-se a segu ança do obje i o p io i á io de qualque
unidade num ambien e aná quico, espe a-se que nas elações in e nacionais os Es ados se
p ocu em equilib a uns ace aos ou os (balancing), em ez de se jun a em ao mais o e
(bandwagoning). O pode cons i ui, des a o ma, um alioso meio e não um im, jamais
podendo se o nado em al; de ac o, como indica o no e-ame icano, a amen e os Es ados
podem da -se ao luxo de aze da maximização do pode – cujo co olá io úl imo se ia a
o mação de uma hegemonia mundial – o seu obje i o, já que as elações in e nacionais “são
um assun o demasiado sé io pa a isso”.
292
O obje i o que o sis ema in e nacional enco aja a
pe segui é a segu ança e o compo amen o especí ico po si induzido é, po an o, o es o ço de
equilíb io: os Es ados p ocu am, p imei amen e, não a maximização do seu pode , mas sim a
manu enção das suas espe i as posições no sis ema.
293
Po es e mo i o, Wal z pode se inse ido no denominado ealismo de ensi o, uma
a ian e eó ica especí ica den o do neo- ealismo pa a a qual o sis ema in e nacional p essiona
os Es ados a es o ços de equilíb io e não de maximização do pode . Po oposição, eó icos do
ealismo o ensi o como John Mea sheime
294
ou Randall L. Schwelle ad ogam que
compo amen os e isionis as e maximizado es, longe de pon uais anomalias explicadas com
ecu so a a o es in e nos especí icos de um Es ado ou ou o (com ecu so, po an o, ao ní el
uni á io), são esul an es da p óp ia es u u a aná quica do sis ema in e nacional, de i ando das
p essões po si mo i adas.
295
No emos que o pon o undamen al pa a Wal z e os es an es eó icos do ealismo
de ensi o não é o de que um Equilíb io de Pode in e nacional, uma ez alcançado, seja
inde inidamen e man ido, mas sim que, uma ez in e ompido, seja es au ado; a espos a dos
Es ados à ocasional p esença de uma po ência p eponde an e e po encialmen e hegemónica no
seu seio é a en a i a de a con abalança , algo que, como indica Wal z, é ácil de comp eende
291
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 165.
292
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 176.
293
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 176.
294
MEARSHEIMER, J. J. – The T agedy o G ea Powe Poli ics.
295
“‘de ensi e ealis s’ a e co ec o poin ou ha unlimi ed-aims expansion is ul ima ely sel -de ea ing. They
a e w ong o igno e he objec i es o agg esso s, which hey ea as domes ically-d i en excep ions o he
demands imposed by he sys em.” (SCHWELLER, R. L. – Neo ealism’s S a us-Quo Bias: Wha Secu i y
Dilemma?, p. 115).
97
em e mos eó icos e de obse a em e mos his ó icos.
296
Com e ei o, mais do que uma ques ão
em que Wal z in oca es e ou aquele p eceden e his ó ico sol o pa a undamen a es a asse ção,
encon amo-nos pe an e a in e p e ação pa icula que o no e-ame icano em do p óp io
desen ol imen o his ó ico no seu odo (da sua lógica, po assim dize ); pa a si, a His ó ia
consis e, p ecisamen e, na pe ene o mação de equilíb ios de pode in e nacionais: “As na u e
abho s a acuum, so in e na ional poli ics abho s unbalanced powe . Faced wi h unbalanced
powe , some s a es y o inc ease hei own s eng h o hey ally wi h o he s o b ing he
in e na ional dis ibu ion o powe in o balance. The eac ions o o he s a es o he d i e o
dominance o Cha les V, Hapsbu g ule o Spain, o Louis XIV and Napoleon I o F ance, o
Wilhelm II and Adolph Hi le o Ge many, illus a e he poin .”
297
Rapidamen e nos ape cebemos de como es a pe spe i a a espei o que do
uncionamen o do Equilíb io de Pode , que da sua pe enidade his ó ica, ap oxima a lei u a que
Wal z az do enómeno daquela que Ranke nos ap esen a na sua his o iog a ia. Tal como
Wal z, ambém pa a Ranke o desen ola da polí ica in e nacional se subo dina ao cons an e
uncionamen o de um Equilíb io de Pode , pon ualmen e pos o em causa po es e ou aquele
Es ado e isionis a, mas semp e es au ado pelas es an es po ências, en ol idas numa busca
pela sua espe i a sob e i ência, segu ança e independência. De ac o, olhando pa a a úl ima
ci ação que izemos de Wal z, emos como os exemplos his ó icos de o mações de equilíb ios
po si ci ados se ap oximam da na a i a his ó ica p opos a po Ranke em The G ea Powe s:
como imos, nes e ensaio o his o iado alemão dá-nos con a das oscilações de pode en e as
G andes Po ências eu opeias desde inais do séc. XVII a é meados do séc. XIX, ei e ando a
o ma como qualque ambição hegemónica po pa e de um Es ado é semp e con abalançada
po uma aliança opos a, segundo os di ames daquilo que Wal z designa ia como o impe a i o
de balancing e, po an o, sob uma lógica eminen emen e de ensi a.
Que Ranke possa, assim, se lido enquan o um an ecesso de Wal z na linhagem do
ealismo de ensi o não nos pa ece algo in ei amen e descabido; no emos, aliás, que já S ephen
Wal – não só aluno de Wal z, como seu he dei o nes a linhagem – ha ia dis o dado con a:
“Al hough s a esmen equen ly jus i y hei ac ions by in oking he bandwagoning hypo hesis,
his o y p o ides li le e idence o his asse ion. On he con a y, balance o powe heo is s
296
WALTZ, K. N. – The Eme ging S uc u e o In e na ional Poli ics, p. 77.
297
WALTZ, K. N. – S uc u al Realism a e he Cold Wa , p. 28.
104
Com e ei o, es e o imismo só é “cuidadoso” pelo ac o de a espos a a es as p essões
não se a a , como imos, de algo au omá ico e ine i á el, dado o acaso e a con ingência que
ca ac e izam a ealidade, bem como dada a imp e isibilidade que, po ex ensão, pau a a
condu a humana no ge al e a polí ica in e na no pa icula ; como indica Wal z, um sis ema
in e nacional pode semp e se queb ado “pelas acções de um Hi le e as eacções de um
Chambe lain”, pelas “excen icidades humanas” e pelas “ eacções imp e isí eis”.
318
Po ém,
como e e e logo a segui , é na mesma possí el encon a con o o na ideia de que nenhum
es adis a de uma po ência é, de manei a alguma, um “agen e li e”, em i ude das p essões
es u u ais que, enquan o o es endências, enco ajam-no a segui um umo sensa o.
319
Capí ulo 6: Da Pa cimónia à Rigidez
À semelhança do que oi ei o no Capí ulo 4 pa a os ealis as clássicos, o p esen e
Capí ulo e á o p opósi o de mapea e desen ol e alguns ópicos que o am su gindo ao longo
da análise da ob a de Wal z, sob e udo elacionados com a componen e polí ico-no ma i a da
sua eo ia das Relações In e nacionais; mais especi icamen e, deb uça -nos-emos sob e o
espaço que o neo- ealismo wal ziano deixa pa a a ques ão da mudança e da ans o mação
in e nacionais. Es a discussão pode se ence ada po ia de uma análise à espos a que Wal z
deu a uma mudança de pa icula ele ância pa a a polí ica in e nacional, na segunda me ade
do séc. XX: o im da Gue a F ia e a eme gência da unipola idade no e-ame icana. A que
desen ol imen os eó icos se en egou Wal z, pe an e al acon ecimen o?
Em p imei o luga , pa a o au o , e a impo an e salien a que o pode do Es ado não
ha ia sido í ima de um supos o declínio acen uado em elação a ou os a o es in e nacionais,
nes a ecém-nascida unipola idade: com uma eno me capacidade de ans o mação, adap ação
e esiliência, os Es ados con inua am a se os p incipais agen es da polí ica in e nacional, que,
po an o, in e -nacional pe manecia.
320
Do mesmo modo, as elações es abelecidas en e si
con inua am a pau a -se po uma p o unda e pe sis en e desigualdade, azendo com que, como
no passado, a desigual dis ibuição de capacidades cons i uísse a cha e pa a a comp eensão da
318
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 241.
319
“Dadas as excen icidades humanas e as eacções imp e isí eis dos indi íduos aos e en os, podemos sen i
que o único ecu so é me gulha na o ação. No en an o, podemos con o a -nos com a ideia de que, como ou os,
aqueles que di igem as ac i idades de g andes es ados não são, de o ma alguma, agen es li es. Pa a lá do
esíduo da espe ança necessá ia de que os líde es esponde ão sensa amen e, es á a possibilidade de a alia as
p essões que os enco ajam a azê-lo.” (WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 241-242).
320
WALTZ, K. N. – Globaliza ion and Ame ican Powe , p. 50.
105
polí ica in e nacional.
321
Po ou o lado, como e e e Walz, a unipola idade no e-ame icana
não e ia indo pa a ica , ao cons i ui uma me a ase de ansição a é à e en ual eeme gência
de ou as po ências in e nacionais, que – segundo os di ames de balancing – p ocu a iam
ni ela os p a os a seu a o , como as po ências do passado semp e ha iam ei o; segundo a
exp essão do eó ico, a p esen e condição da polí ica in e nacional e a “unna u al”.
322
Con a pe spe i as mais sonhado as, o im da Gue a F ia não ha ia ence ado, segundo
Wal z, nenhuma espécie de ans o mação do sis ema in e nacional, pa a lá da me a al e ação
em e mos de pola idade. Fundamen almen e, o p incípio de o ganização da polí ica
in e nacional – ou seja, a ana quia – não ha ia sido subs i uído; o Mundo, na mesma habi ado
po unidades que isa am ela pela sua p óp ia segu ança e sob e i ência, sem nenhum
agen e hie a quicamen e supe io a quem es as a e as pudessem delega , pe manecia
aná quico.
323
A e en ual eincidência do Equilíb io de Pode deco e ia, jus amen e, da
pe manência do ca á e aná quico da polí ica in e nacional: na p esença das mesmas
ci cuns âncias – duas ou mais sel - ega ding uni s, em con ex o de au oajuda –, equilíb ios de
pode in e es a ais con inua iam a o ma -se; pa a os e i a , ha e ia que elimina es as
ci cuns âncias, e al, pa a Wal z, não ha ia oco ido com o im da Gue a F ia.
É p ecisamen e sob e es a ques ão da mudança e da ans o mação do sis ema
in e nacional que nos que emos deb uça . Apesa de, na ó ica do no e-ame icano, nenhuma
ans o mação do p incípio o ganizado da polí ica in e nacional e oco ido na passagem do
sis ema bipola pa a a unipola idade, con empla á a sua eo ia, ealmen e, algum espaço pa a
es a ques ão, no seio das suas assunções e pos ulados? Consegue o neo- ealismo de Wal z
explica as ans o mações do sis ema in e nacional?
Pa a á ios au o es, a espos a é não, pelo ac o de, em Wal z, a ana quia se ep oduzi
e pe pe ua a a és dos seus p óp ios mecanismos, echada sob e si mesma: enquan o p incípio
o ganizado , induz os Es ados a pe segui em es a égias de au oajuda e, como esul ado, a
o ma em incessan emen e equilíb ios de pode en e si; po sua ez, são es es equilíb ios
cons an es que acabam po ga an i e pe pe ua a condição aná quica do sis ema. Assim, como
no a Ruggie, é a p óp ia es u u a aná quica do sis ema in e nacional que, ep oduzindo-se a si
321
WALTZ, K. N. – Globaliza ion and Ame ican Powe , p. 54. Aliás, a desigualdade de pode ao ní el
in e nacional ainda mais acen uada se o na a num mundo unipola , já que a po ência p edominan e,
concen ado a do pode , passa a a se apenas uma (WALTZ, K. N. – Globaliza ion and Ame ican Powe , p.
56).
322
WALTZ, K. N. – Globaliza ion and Ame ican Powe , p. 56.
323
WALTZ, K. N. – S uc u al Realism a e he Cold Wa , p. 39.
106
mesma, induz a impossibilidade (ou a al a imp obabilidade) de es e p incípio de o ganização
i a se ans o mado num p incípio hie á quico: “a change o sys em, would be p oduced i
he s uc u e o ana chy we e ans o med in o a hie a chy. In he his o y o he mode n s a e
sys em, his has ne e occu ed. Indeed, i s occu ence has been p e en ed by he e y s uc u e
o ana chy.”
324
Pa a Godda d e Nexon, al aciocínio acaba po se uma consequência do ac o
de Wal z pa i da assunção e p essupos o basila es de que a polí ica in e nacional é um sis ema
“o denado”; a pa i daí, odas as p eocupações eó icas do no e-ame icano se o ien am pa a a
explicação do equilíb io e da es abilidade – ou seja, da “o dem” – des e sis ema, que, echado
sob e si mesmo, se o dena a si p óp io.
325
Como os au o es concluem, a o dem, em Wal z, é
explicada pela o dem – a ana quia é explicada pela ana quia.
326
Rei e e-se, igualmen e, a o ma como a de inição pa cimoniosa de “es u u a
in e nacional”, p opos a e elabo ada po Wal z, ambém con ibui pa a a negligência des a
ques ão da mudança e da ans o mação in e nacionais. Como nos elemb a Ruggie – e o
p óp io Wal z sublinha
327
– a eo ia do no e-ame icano p ocu a eagi con a as “ endências
educionis as” das RI, le adas a cabo po pe spe i as eó icas que, ao in eg a em demasiados
a ibu os e p op iedades do ní el uni á io nas suas de inições de es u u a, acabam po não
consegui isola ap op iadamen e os e ei os especí icos des a úl ima.
328
De ac o, como imos,
a de inição do ní el es u u al de e semp e pa i , na ó ica de Wal z, de uma necessá ia
abs ação dos a ibu os, p op iedades e in e ações mú uas ao ní el uni á io, incidindo o oco
apenas sob e o posicionamen o que as unidades es abelecem en e si; a a és da omissão de
ques ões como o egime polí ico, a ideologia, a cul u a, ou a pe sonalidade dos es adis as,
Wal z p e ende a anja uma de inição pa cimoniosa de es u u a que pe mi a apu a os seus
e ei os especí icos, inco up os ace ao ní el das unidades.
329
324
RUGGIE, J. G. – Con inui y and T ans o ma ion in he Wo ld Poli y, p. 271.
325
“Because Wal z assumes ha he sel -help in e na ional sys em is o de ed, ha he sys em is p esupposed o
be in equilib ium, change, while possible, appea s bo h unnecessa y and unlikely. (…) once Wal z commi s o
concei ing o in e na ional poli ics as a sys em, wi h an o e a ching social s uc u e, hen all o his heo e ical
e ms become o ien ed owa ds s abili y. The d i ing ques ion o TIP [Theo y o In e na ional Poli ics], hus, is
how ana chy main ains i sel – how o de leads o o de ; i canno ask how ana chy o any o he o m o an
in e na ional sys em could eme ge o be sus ained wi hou assuming ha o de ’s exis ence.” (GODDARD, S. E.;
NEXON, D. H. – Pa adigm Los ? Reassessing Theo y o In e na ional Poli ics, p. 32).
326
GODDARD, S. E.; NEXON, D. H. – Pa adigm Los ? Reassessing Theo y o In e na ional Poli ics, p. 32.
327
Veja-se, em pa icula , os Capí ulos 2 e 4 de Teo ia das Relações In e nacionais.
328
RUGGIE, J. G. – Con inui y and T ans o ma ion in he Wo ld Poli y, p. 284.
329
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 117-118.
107
Toda ia, como explica Ruggie, Wal z acaba po i longe demais nes e aciocínio.
330
Com odo o seu igo delimi a i o na de inição da es u u a in e nacional, o eó ico isola-a do
ní el uni á io e das suas p op iedades especí icas, sendo que é, p ecisamen e, a pa i des e
ní el que qualque mudança ou ans o mação es u u ais su gem em p imei o luga : “In
Wal z’s model o he sys em (…) s uc u al ea u es a e sha ply di e en ia ed om uni -le el
p ocesses, and s uc u e is he p oduc i e agency ha ope a es a he le el o he sys em.
Acco dingly, only s uc u al change can p oduce sys emic change. (…) The p oblem wi h
Wal z’s pos u e is ha , in any social sys em, s uc u al change i sel ul ima ely has no sou ce
o he han uni -le el p ocesses. By banishing hese om he domain o sys emic heo y, Wal z
also exogenizes he ul ima e sou ce o sys emic change.”
331
O po encial ans o ma i o não
eside na es u u a in e nacional, que apenas se ep oduz a si mesma na sua con inuidade, mas
sim no ní el uni á io, cujas p op iedades especí icas Wal z deixa de o a do seu modelo
es u u al. Des a o ma, di o cia a sua eo ia das on es p ocessuais de mudança e
ans o mação in e nacionais, não sendo capaz de explica ou p e e es es enómenos.
Ao i a mos, po ém, as nossas a enções pa a as espos as dadas po Wal z a es as
c í icas, dep essa nos ape cebemos de que o au o assume, explici amen e, es as impu adas
limi ações da sua eo ia enquan o simples assunções eó icas, omadas em plena consciência.
Como Wal z sublinha – numa espos a di e a a Ruggie –, as insu iciências explica i as e
p edi i as da sua eo ia em ma é ia da ans o mação in e nacional nunca o am um mis é io,
endo es ado o p óp io plenamen e cien e das mesmas quando cons uiu o seu modelo. Com
e ei o, o no e-ame icano admi e que econhece o ac o de as po encialidades ans o ma i as
esidi em no ní el uni á io, eco dando que as unidades e a es u u a a e am-se mu uamen e:
as es u u as, po ia dos seus p ocessos de seleção – ecompensa de compo amen os
con o mado es, punição de compo amen os des ian es –, p omo em a con inuidade dos
sis emas, enquan o as o ças uni á ias, a a és da a iação – ou seja, do ac o de pode em
decidi se seguem, ou não, aqueles p ocessos –, con êm a possibilidade da mudança e
ans o mação sis émicas.
332
330
RUGGIE, J. G. – Con inui y and T ans o ma ion in he Wo ld Poli y, p. 284.
331
RUGGIE, J. G. – Con inui y and T ans o ma ion in he Wo ld Poli y, p. 285.
332
“By ewa ding beha io ha con o ms wi h sys emic equi emen s and punishing beha io ha does no , a
sys em’s s uc u e wo ks agains ans o ma ion. (…) Changes in, and ans o ma ion o , sys ems o igina e no
in he s uc u e o a sys em bu in i s pa s. Th ough selec ion, s uc u es p omo e he con inui y o sys ems in
o m; h ough a ia ion, uni -le el o ces con ain he possibili ies o sys emic change. (…) Sys ems change, o
a e ans o med, depending on he esou ces and aims o hei uni s and on he a es ha be all hem.” (WALTZ,
K. N. – Re lec ions on Theo y o In e na ional Poli ics, p. 342-343).
108
Assim sendo, a análise des as o ças uni á ias não é implici amen e ocul ada, mas sim
conscien emen e excluída po Wal z do âmbi o da sua eo ia. Dize que es a úl ima não
consegue explica ans o mações e mudanças in e nacionais, apesa de co e o, con a-nos
apenas me ade da his ó ia: a eo ia de Wal z não consegue, nem p e ende azê-lo, já que exclui
delibe adamen e do seu escopo analí ico a on e p ocessual da qual es as ans o mações
emanam, pa a se oca em dinâmicas e em e ei os especi icamen e es u u ais, que apenas dão
con a de con inuidades. Como indica o no e-ame icano, es e ipo de eo ia não p e ende, de
manei a alguma, subs i ui as análises ei as ao ní el uni á io, mas sim delimi a ,
pa cimoniosamen e, um ní el es u u al e a ibui -lhe p imazia de análise.
333
Uma eo ia que
p ocu e, pelo con á io, coloca os p ocessos uni á ios na sua mi a analí ica a a-se não de uma
eo ia das elações in e nacionais, como a de Wal z, mas sim de uma eo ia de polí ica
ex e na.
334
Ao ala mos, po isso, sob e a ca ência da eo ia de Wal z em ma é ia da ans o mação
e mudança in e nacionais, é impo an e ei e a que es a não se de e, segundo julgamos, à
p esença de uma ace a mis i icado a implíci a no pensamen o do no e-ame icano, de i ada
de supos os alo es polí icos conse ado es do p óp io; julgamos, sim, que es a ca ência
esul a de uma assumida exclusão des as mesmas ma é ias do âmbi o explica i o do p óp io
modelo al qual oi cons uído, com odas as suas explíci as assunções eó icas de aiz,
pa cimoniosas e delimi a i as. Po ou as pala as, a eo ia de Wal z isen a-se de conside ações
a espei o de e en uais mudanças no sis ema in e nacional po si uá-las, delibe adamen e, o a
do seu oco de análise.
Aliás, a p opósi o des e aciocínio, elemb emos que ambém a p óp ia assunção do
Es ado enquan o a o uni á io (como imos no Capí ulo an e io ) não se esumia a uma
mis i icação le ada a cabo po Wal z, já que de i a a, igualmen e, de uma assumida dis o ção
eó ica ei a pelo au o . A sua adoção não de e se lida como p o a de um p incípio polí ico
conse ado la en e em Wal z – que, assim, congela ia a-his o icamen e o Es ado enquan o a
unidade de ini i a da His ó ia –, mas sim como uma delibe ada assunção eó ica. Des a simples
assunção, como diz Wal z, não podem se de i adas quais as c enças pessoais do p óp io a
333
WALTZ, K. N. – Re lec ions on Theo y o In e na ional Poli ics, p. 344.
334
“Colin Elman asks whe he neo ealis heo ies o in e na ional poli ics can also un he o eign-policy cou se,
and i hey y, whe he o no hey will win. My old ho se canno un he cou se and will lose i i ies. Indeed,
any heo y o in e na ional poli ics can a bes limp along, able o explain some ma e s o o eign policy while
ha ing o lea e much o o eign policy aside.” (WALTZ, K. N. – In e na ional Poli ics is no Fo eign Policy,
p. 54).
109
espei o das o igens e do u u o dos Es ados, que, como chega ao pon o de admi i , di icilmen e
pe manece ão ixos na sua p esen e condição: “Ashley and Cox canno om a heo e ical
assump ion igh ly in e wha no ions I migh en e ain abou he his o ical o igins and
de elopmen o s a es and abou hei possible a es. I ind i ha d o belie e ha anyone would
hink ha s a es will emain ixed in hei p esen condi ion.”
335
Nes e sen ido, não ac edi amos que a exclusão do a o ans o ma i o na eo ia de
Wal z possa ad i de um mudo conse ado ismo do eó ico, implici amen e impo ado pa a a
sua análise. Mais adequado, a nosso e , se á ei e a no amen e o ac o de à eo ia wal ziana
subjaze não uma on ologia especí ica, mas apenas um conjun o de ca ego ias e concei os
analí icos en ol idos numa assumidamen e pa cimoniosa cons ução eó ica, que, po se
eo ia, ine i a elmen e en ol e á exclusões. O pon o undamen al é que, pa a Wal z, es as
exclusões são apenas eó icas e não on ológicas, ou seja, com o igem ou epe cussões no eal.
A nosso e , a discussão a espei o da ca ência de um elemen o ans o ma i o na eo ia
de Wal z não de e á, assim, pa i de uma ên ase sob e um supos o iés conse ado do seu
au o , mas sim des aca que é a p óp ia o ma como a eo ia es á cons uída, com base nas suas
assunções, que p opicia es a mesma ca ência: i endo, como imos, de um aciocínio ci cula
au o- ep odu i o e excluindo, em nome da pa cimónia, oda e qualque on e de mudança pa a
além da dis ibuição de pode , a eo ia de Wal z acaba po culmina num iés de s a us-quo; é,
pois, a o ma como es á cons uída que a le a a “o e p edic s asis”
336
(ou seja, a sob es ima
a igidez) no sis ema in e nacional. Pa a Wal z, a í ulo pessoal, o u u o da polí ica
in e nacional di icilmen e se esgo a á numa me a con inuidade da sua a ual condição, mas a
eo ia que o mula, com o in ui o de es a condição explica , apenas des a con inuidade
consegui á da con a. Fazendo-o, acaba po cingi o seu escopo polí ico-no ma i o ace ao
u u o a es a mesma con inuidade, na sua incessan e ep odução.
A ní el da agência p á ica po pa e dos deciso es polí icos conc e os, as consequências
são ób ias: abs aindo das p op iedades uni á ias e echando eo icamen e o escopo de
possibilidades ans o ma i as, o neo- ealismo de Wal z descu a da componen e p á ica po
pa e dos es adis as, ou, pelo menos, es inge a sua agência a um me o supo e da ep odução
– e consequen e con inuidade – do p esen e sis ema. É nes es e mos que podemos ecupe a
uma pa e da c í ica ei a po Ashley ( endo em con a, po ém, a essal a de que se de e á di igi
335
WALTZ, K. N. – Re lec ions on Theo y o In e na ional Poli ics, p. 339.
336
GODDARD, S. E.; NEXON, D. H. – Pa adigm Los ? Reassessing Theo y o In e na ional Poli ics, p. 32.
110
à o ma como a eo ia es á cons uída, em ez de a supos os alo es conse ado es do seu
au o ): “neo ealism joins all modes o his o icism in denying he his o ical signi icance o
p ac ice, he momen a which men and women en e wi h g ea e o lesse deg ees o
consciousness in o he making o hei wo ld. Fo he neo ealis in ellec ual, men and women,
s a esmen and en ep eneu s, appea as me e suppo s o he social p ocess ha p oduces
hei will and he logics by which hey se e i . In pa icula , people a e educed o some
idealized homo oeconomicus, able only o ca y ou , bu ne e o e lec c i ically on, he
limi ed a ional logic ha he sys em demands o hem.”
337
Des a o ma, a polí ica, no neo-
ealismo de Wal z, é desp o ida do seu elemen o “pe o ma i o”, ou seja, do seu ca á e
enquan o uma a i idade c ia i a e c í ica, a a és da qual sujei os podem e le i sob e as suas
me as e p ocu a molda a sua on ade cole i a de uma o ma li e, ao in és de se limi a em a
ep oduzi a p esen e o dem.
338
Também os já mencionados Daniel Bessne e Nicolas Guilho
des acam es e a o , embo a sem a dose c í ica de Ashley.
339
Segundo os au o es, o neo-
ealismo wal ziano, em oposição ao ealismo clássico, desca a a a i idade de
“decisionmaking” e o papel do “decisionmake ” do seu escopo in elec ual, ao desen ol e uma
eo ia que a a o esul ado ag egado de odas decisões como um “sel -con ained sys em”.
340
Aqui chegados, es a-nos coloca lado a lado es as conside ações a espei o da
componen e polí ico-no ma i a da eo ia de Wal z com a his o iog a ia de Ranke; azendo-o,
podemos de imedia o cons a a a o ma como, em ma é ia do espaço a ibuído à mudança e à
ans o mação in e nacionais, o neo- ealismo de Wal z e ela ce as p oximidades com a ob a
e o pensamen o do his o iado alemão. Tal como Ranke absolu iza his o icamen e a condição
in e nacional da sua con empo aneidade, ambém o neo- ealismo wal ziano, como acabámos
de cons a a , é cons uído pa a apenas pode explica es a condição, na sua con inuidade: um
palco in e nacional ho izon al e descen alizado – ou, numa pala a, aná quico – compos o po
Es ados-Nação, de cujas in e ações mú uas esul a um Equilíb io de Pode in e nacional que
sob odos incide e odos cons ange. Des e modo, an o a his o iog a ia de um, como a eo ia
das Relações In e nacionais de ou o excluem, da sua espe i a dou ina, um espaço pa a
337
ASHLEY, R. – The Po e y o Neo ealism, p. 258.
338
ASHLEY, R. – The Po e y o Neo ealism, p. 260.
339
Pa a os au o es, o mo i o pelo qual Wal z op a po desca a o “decisionmaking” da sua eo ia de i a do ac o
de o p óp io que e dema ca -se de conside ações a espei o de polí ica in e na e, com isso, dis ancia -se da c í ica
ao libe alismo ei a pelos ealis as clássicos (BESSNER, D.; GUILHOT, N. – How Realism Wal zed O , p. 88).
340
“The solu ion Wal z a i ed a consis ed o ci cum en ing en i ely he p oblem o decisionmaking by
de eloping a heo y ha ea ed he agg ega e ou come o decisions – ha is, in e na ional poli ics as a whole –
as a sel -con ained sys em whose logic o ope a ion could be desc ibed wi hou pos ula ing any decision.”
(BESSNER, D.; GUILHOT, N. – How Realism Wal zed O , p. 106).
111
e en uais mudanças e ans o mações que possam pô em causa es a condição in e nacional,
nes es seus elemen os undamen ais.
Quan o ao ní el de agência po pa e dos deciso es polí icos, julgamo-nos pe an e ou a
p oximidade: em Ranke, o escopo de a i idade dos es adis as não só se acaba a po es ingi ,
em úl ima análise, à ep odução da o dem in e nacional, como as suas p óp ias ações já
es a am, à pa ida, sal agua das e p essupos as pela di indade on ológica que lhes o necia o
sen ido e a di eção umo a es a mesma ep odução, an o ine i á el como necessá ia; já na
eo ia neo- ealis a de Wal z, como acabámos de da con a, a agência p á ica dos deciso es
polí icos é igualmen e ap esen ada como um me o supo e pa a a ep odução do p esen e
sis ema in e nacional, sendo que, aqui, é a es u u a in e nacional e as suas p essões sob e as
unidades que an ecedem e do am de ine i abilidade es a condu a ep odu i a, ao in és de uma
P o idência. Des a o ma, em ambos os au o es, os “decisionmake s” su gem como me os
supo es pa a a ep odução con ínua de um sis ema in e nacional aná quico; em ambos, a
condu a polí ica é, em úl ima ins ância, subo dinada a uma on e si uada acima dos p óp ios
es adis as, que a do a de necessidade; em ambos, po im, a polí ica in e nacional au o egula-
se, “ oma con a de si mesma”.
341
Toda ia, é impo an e não deixa mos de no a que es as p oximidades se si uam sob e
uma di e ença undamen al en e os au o es, di e amen e deco en e do con as e on ológico
en e ambos. Se a P o idência subjacen e à his o iog a ia de Ranke cons i uía, de ac o, uma
on ologia especí ica – ou seja, se cons i uía a ealidade al qual o his o iado a concebia –,
elemb emos que Wal z nunca esconde o ac o de apenas p e ende cons ui uma eo ia
simpli icada a pa i da ealidade, econhecendo a omnip esen e con ingência nes a úl ima.
Assim, julgamos que a ausência de um po encial ans o ma i o, o eduzido escopo de ação
a ibuído aos deciso es polí icos e a p óp ia de inição da polí ica in e nacional enquan o algo
au o egulado de em se lidos, em Ranke, como elemen os de i ados de uma on ologia
pa icula , de uma conceção especí ica do eal ida pelo his o iado ; já em Wal z, como á ias
ezes e e imos, odos apenas de i am e esgo am-se num me o exe cício eó ico conscien e
dos seus ine en es limi es, cien e do ac o de cons i ui uma me a simpli icação da ealidade e,
341
A exp essão é u ilizada po Bessne e Guilho : “Neo ealism p o ided a heo y o in e na ional poli ics ha did
no equi e a heo y o o eign-policy making o p onouncemen s on he o ganiza ion o powe s in socie y,
because i es ed on he assump ion ha ul ima ely he sys em would ake ca e o i sel .” (BESSNER, D.;
GUILHOT, N. – How Realism Wal zed O , p. 117).
112
po isso, sem a ambição de do a qualque um des es elemen os de um ca á e on ológico, pa a
lá do seu me o ca á e analí ico.
Pos o is o, e minemos es e Capí ulo com uma b e e e e ência ao empe amen o
especí ico de Wal z, sinalizado no inal do Capí ulo an e io : o seu “o imismo cuidadoso” ace
ao u u o da polí ica in e nacional. Como imos, es e o imismo – exp esso em Teo ia das
Relações In e nacionais, no inal da década de 70 – alice ça a-se na c ença de as p essões
es u u ais i em, enquan o o es endências, a enco aja uma condu a de polí ica ex e na
sensa a po pa e dos EUA e da URSS, no seio de um sis ema bipola que, ademais, acili a a
o seguimen o des e ipo de condu a. O a, com o ad en o da unipola idade e a e en ual
eeme gência de no as po ências in e nacionais – is o é, com o e en ual su gimen o de uma
no a mul ipola idade –, que espaço é deixado pa a es e o imismo na pe spe i a de Wal z?
Julgamos que a espos a a es a ques ão de e á salien a que, pa a o eó ico, a ana quia
mune-se de um conjun o de i udes especí icas, ex ensí eis (embo a em di e en es g aus) não
só a um sis ema bipola , como ambém a um sis ema mul ipola : desde logo, pe mi e aos
Es ados se em “li es pa a deixa em os ou os em paz”,
342
o nando-os mais capazes de se
concen a em na p ojeção de um aco do mínimo que pe mi i á a sua espe i a exis ência
independen e, ao in és de p ocu a em um aco do máximo que ga an a a sua p e ensa união
numa o ganização hie á quica sup anacional e hegemónica; po ou o lado, a cons an e
possibilidade, num ambien e aná quico, de a o ça i a se usada po pa e de qualque unidade
“limi a as manipulações, mode a as exigências, e se e como um incen i o pa a a esolução
das dispu as” en e si.
343
Nes e sen ido, ac edi amos que, pa a Wal z, o im da ansi ó ia unipola idade e a
e en ual consolidação de uma no a mul ipola idade podem se in e p e ados de uma o ma
o imis a, ao apon a mos aquelas que são, pa a o au o , as i udes especí icas das o dens
aná quicas, quando compa adas aos ícios hegemónicos da unipola idade.
344
Aliás, ei e emos
que mui a da ins abilidade apon ada po Wal z à mul ipola idade nos séculos de his ó ia
342
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 157.
343
WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 159.
344
“Não podemos assumi que os líde es de uma nação supe io em pode de ini ão semp e as es a égias com
sabedo ia, c ia ão ác icas com cálculos excelen es, e aplica ão a o ça com paciência. A possessão de mui o
pode en ou, mui as ezes, as nações ao emp ego desnecessá io e imp uden e da o ça, ícios pa a os quais não
es amos imunes.” (WALTZ, K. N. – Teo ia das Relações In e nacionais, p. 275).
113
eu opeia acaba, segundo o au o , po se dilui com a p óp ia p oli e ação nuclea no mundo
con empo âneo, es au ando mui as das qualidades es abilizado as da bipola idade.
345
Conclusões
À exceção do Capí ulo 4, no qual a ob a de Mo gen hau e a de Niebuh o am al os de
uma análise simul ânea, cada Capí ulo da nossa in es igação ocupou-se com a elação en e a
ob a de Leopold on Ranke e um au o ealis a em pa icula . Cabe-nos ago a a a e a de
sis ema iza as p incipais conclusões i adas des as elações indi iduais e, com isso,
p onuncia mo-nos a espei o da elação de Ranke com o co pus eó ico ealis a.
An es de mais, comecemos po sis ema iza as conclusões deco en es da u ilização do
con as e on ológico enquan o alice ce de análise en e Ranke e os au o es ealis as. Como
imos, cada au o eco e a uma on ologia pa icula que subjaz oda a sua ob a e que, como
ad ogámos, pode se u ilizada enquan o um undamen al a o de dis inção en e si. Cada
capí ulo p ocu ou, p imei amen e, da con a do con as e pa icula que esul a quando a
on ologia de Ranke é colocada lado a lado com a on ologia de um au o ealis a, u ilizando-o
depois pa a explica as di e enças mais supe iciais en e a ob a de um e a de ou o, a espei o
do Es ado e do Equilíb io de Pode . De modo a o na mos es es di e en es con as es mais
cla os, sis ema izemos ago a as p incipais consequências de cada uma des as on ologias pa a
as ob as dos seus espe i os au o es, em ês planos co elacionados: epis emológico,
empe amen al e polí ico-no ma i o.
Em Ranke, imos como a sua on ologia P o idencial a ua, num plano epis emológico,
enquan o uma on e de segu ança pa a o his o iado e pa a a sua a i idade de in es igação
sob e o passado, pe mi indo-lhe assegu a uma plena obje i idade em odo o seu o ício
his o iog á ico. Num plano empe amen al, es a base on ológica pe mi e a Ranke cul i a um
p o undo o imismo ace ao desen ola de odo o p ocesso his ó ico, com o passado, o p esen e
e o u u o da His ó ia a se em do ados de uma undamen al ha monia, ao es a em odos
igualmen e sal agua dados po uma mesma P o idência bene olen e. Já num plano polí ico-
345
“Nuclea weapons elimina e nei he he use o o ce no he impo ance o balancing beha io . They do limi
o ce a he s a egic le el o a de e en ole, make es ima ing he s a egic s eng h o na ions a simple ask, and
make balancing easy o do. Mul ipola i y abolishes he s a k symme y and pleasing simplici y o bipola i y, bu
nuclea weapons es o e bo h o hose quali ies o a conside able ex en .” (WALTZ, K. N. – The Eme ging
S uc u e o In e na ional Poli ics, p. 74).
120
mul iplicidade de ou os concei os que pode iam e sido usados em seu luga . De ac o, se o
c i é io que nos le ou a escolhe es es dois desc i o es oi a sua simul ânea ele ância na
his o iog a ia de Ranke e no Realismo, conseguimos acilmen e eco da -nos de ou os
concei os que e iam cump ido o mesmo c i é io e pelos quais pode íamos e op ado – como
o de pode , po exemplo. Assim, a nossa in es igação ambém acaba po ab i espaço pa a
e en uais abalhos que, pa indo de uma base me odológica semelhan e, op em po eco e a
ou os desc i o es enquan o mediado es na elação de Ranke com o Realismo, pa a assim
e ela em no as e ainda inexplo adas conclusões a espei o des a elação.
Po im, mencionemos uma limi ação que, en e odas, é al ez a mais isí el: a escolha
dos á ios au o es. É ce o que a p a icamen e cen ená ia escola ealis a das RI con a com uma
mul iplicidade de pensado es, pelo que a escolha de Mo gen hau, Niebuh e Wal z oi ei a em
plena consciência do ac o de oda uma a ia de in luen es eó icos ealis as e sido,
simplesmen e, deixada de o a. P ocu ámos sus en a es a escolha com base na ele ância de
cada au o , mas, apesa dis o, não nos pode ce amen e deixa de se apon ado que igu as como
E. H. Ca , John Mea sheime , ou Robe Gilpin acaba am po cons i ui ausências de ele o
em odo es e exe cício. Nes e sen ido, e en uais in es igações pode ão segui um de dois
umos: ou p ocu a ão adiciona , aos au o es po nós analisados, um conjun o de ou os
pensado es ealis as, apos ando assim na ex ensão quan i a i a ( al ez à cus a do igo
quali a i o, oda ia), ou p ocu a ão ealiza um exe cício com um mais eduzido núme o de
au o es, embo a di e en es daqueles po nós escolhidos.
121
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