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19 VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010 Infecções nosocomiais Elaine Pina é médica microbiologista. Coordenadora do Programa de Controlo de Infecção do Hospital dos Lusíadas, Lisboa. Maria Goreti Silva é enfermeira de controlo de infecção, Departamento da Qualidade na Saúde, Direcção Geral de Saúde, Lisboa. Eduardo Gomes da Silva é médico intensivista, Director Clínico do Centro Hospitalar Lisboa Central. António de Sousa Uva é médico do trabalho, Imunoalergologista e professor catedrático da Escola Nacional de Saúde Pública-UNL. CIESP — Centro de Investigação e Estudos em Saúde Pública. Submetido à apreciação: 18 de Março de 2009 Aceite para publicação: 11 de Setembro de 2009 Infecção relacionada com a prestação de cuidados de saúde: infecções da corrente sanguínea (septicemia) ELAINE PINA MARIA GORETI SILVA EDUARDO GOMES DA SILVA ANTÓNIO DE SOUSA UVA As infecções associadas aos cuidados de saúde constituem um importante problema de saúde pública ainda que, no nosso país, a prioridade que se lhes atribui não se pode considerar muito elevada. O presente estudo pretende descrever e quantificar a infecção hospitalar e mais especificamente as infecções nosocomiais da corrente sanguínea (septicémia) e a correspondente morbi-mortalidade através da informação obtida em estudos de prevalência e incidência promovidas pelo Projecto Controlo de Infecção/Programa Nacional de Controlo de Infecção. Da análise da informação obtida observa-se um aumento das taxas de infecção da corrente sanguínea associadas a um aumento no uso de dispositivos invasivos. O desenho dos estudos analisados não permite uma identificação dos factores de risco específicos nem a análise das estruturas e práticas utilizadas na prevenção da infecção. Embora a comparação dos dados nacionais com os outros países europeus não apresente diferenças significativas, estudos recentes indicam a possibilidade de se obter taxas de 0% nas infecções da corrente sanguínea associadas a cateter. Daí justificar- -se estudos de investigação que abordem o problema com maior profundidade a fim de se dar passos seguros para intervenções fundamentadas que objectivem essas taxas de 0% descritas nalgumas unidades de saúde. Palavras-chave: infecções associadas a cuidados de saúde; infecções da corrente sanguínea; incidência e prevalência. 1. Introdução As infecções associadas com a prestação de cuidados de saúde constituem um importante problema de Saúde Pública, ainda que o nível de prioridade que se lhes atribui não se possa considerar muito elevado, pelo menos, na perspectiva do planeamento, programação, implementação e avaliação de programas de prevenção. Esse insuficiente desenvolvimento de programas de prevenção no nosso país pode estar relacionado com diversos factores, destacando-se: • a insuficiente prioridade atribuída às actividades de um Programa Nacional que permita o funcionamento «em rede» com outros programas de vigilância europeus e nacionais, a nível local ou por sectores específicos;
20 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Infecções nosocomiais • o insuficiente interesse (ou mesmo relativo desinteresse) dos órgãos de gestão de unidades de saúde, pelo menos devido à insuficiente dotação de recursos humanos e técnicos necessários; • a insuficiente dotação de recursos humanos formados (e treinados) para pôr em prática tais programas nos hospitais (e em outras unidades de saúde), com a correspondente dificuldade na obtenção de informação válida que permita a definição de programas de gestão de risco(s) desenhados em função de avaliações mais rigorosas desse(s) mesmo risco(s). Para que sejam delineados programas de intervenção para a redução das Infecções Associadas aos Cuidados de Saúde — IACS — (também designadas infecções nosocomiais) torna-se, desde logo, necessário conhecer com o máximo de rigor a dimensão do problema e obter informação sobre a frequência dessas infecções, e a respectiva gravidade, bem como os factores de risco associados de forma a estabelecer as respectivas prioridades para a intervenção. O presente estudo pretende descrever e quantificar a infecção hospitalar em Portugal, mais especificamente as infecções da corrente sanguínea, e a correspondente morbi-mortalidade, através da exploração da informação obtida em estudos nacionais. Esses trabalhos foram desenvolvidos pelo Projecto Controlo de Infecção, criado em 1988, no âmbito das actividades do SIGSS (Sistemas de Informação para a Gestão dos Serviços de Saúde) da Secretaria de Estado da Administração e posteriormente no IGIF (Instituto de Gestão Informática e Financeira da Saúde) e que, por despacho do Director-Geral da Saúde, foi transformado em Programa Nacional de Controlo de Infecção (PNCI) em 14-05-1999. O PNCI foi transferido para o INSA (Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge) em 13-09-2000 por despacho do Secretário de Estado da Saúde. Na presente data está localizado na Direcção de Serviços de Qualidade Clínica da Direcção-Geral da Saúde. 2. Inquéritos de prevalência de infecção O primeiro estudo conhecido de prevalência de infecção nos hospitais em Portugal foi realizado em Novembro de 1988 (Pina, 1990). Foram objectivos desse estudo: (i) obter uma visão de conjunto do problema da infecção nosocomial (IN) nos hospitais do país através do conhecimento da taxa de prevalência da IN; (ii) obter informação relativamente a diferentes factores de risco, uso de antibióticos e de outros influenciadores da aquisição de IN; (iii) determinar as localizações mais frequentes da IN e suas prevalências; (iv) determinar os microrganismos mais comuns envolvidos na IN, identificando os seus padrões de resistência aos antibióticos e, finalmente, (v) estimular a vigilância epidemiológica nos hospitais portugueses fornecendo informação para o planeamento das actividades e dando visibilidade às Comissões de Controlo das Infecções (CCI). Para o estudo de Pina (1990), que abrangeu 71 hospitais (17 479 camas e 10 177 doentes), foi utilizado um protocolo da Organização Mundial da Saúde (Mayon-White et al., 1988). A taxa de prevalência então observada foi de 10% de infecções nosocomiais (mínimo — 4,08%; máximo — 34,4%) e 20,4% de infecções adquiridas na Comunidade. As IN atingiram uma taxa de prevalência de 11% nos indivíduos com idade superior a 85 anos. Em Junho de 1993 decorreu o segundo Inquérito Nacional de Prevalência de Infecção (Pina, 1994), com objectivos sobreponíveis ao anterior, e que abrangeu 65 hospitais. Foi utilizado um protocolo mais detalhado do EPINE (Estúdio de Prevalência de las Infecciones Nosocomiales en los Hospitales Españoles, da Sociedade Espanhola de Higiene e Medicina Preventiva) (España. Sociedad Española de Higiene y Medicina Preventiva Hospitalaria, 1993). Foram estudados 9331 doentes sendo encontradas taxas de prevalência de infecção nosocomial de 9,3% e 17,42% de infecções adquiridas na comunidade. Nas últimas décadas, foram realizados estudos nacionais de prevalência de infecção nosocomial (IN) em muitos países europeus (Figura 1). Contudo, a análise comparativa entre países encerra muitos obstáculos devido à existência de diferenças metodológicas importantes, como são os exemplos da selecção dos hospitais participantes, dos critérios de inclusão, dos métodos de recolha de dados ou das definições das diversas infecções. Essas diferenças também dificultam a extrapolação dos resultados entre países. De facto, é com base nas dificuldades de obter consensos, que se promoveram, na União Europeia, algumas iniciativas para padronizar as metodologias de estudo. O projecto europeu HELICS III (Hospitals in Europe Link for Infection Control through Surveillance) estabeleceu um grupo de trabalho com a missão de definir um protocolo de consenso que pudesse ser adoptado como método único em todos os países europeus, de forma a permitir a comparação entre países e instituições. O protocolo utilizado foi o resultado do trabalho daquele grupo e o estudo teve como objectivo geral avaliar a aplicabilidade, na prática, do protocolo proposto pelo HELICS III para além dos objectivos específicos atrás enumerados (Pina e Silva, 2005). Participaram no estudo 67 hospitais (incluindo dois hospitais privados), correspondendo a uma lotação global de 18 722 camas com valência de Psiquiatria
21 VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010 Infecções nosocomiais em 14 hospitais (num total de 585 camas). Cerca de metade dos hospitais referiram ter ensino pós-graduado e 3 hospitais caracterizam-se como hospitais universitários. No dia em que decorreu o estudo, cerca de 60% dos doentes estudados estavam internados há menos de 8 dias, 28,9% estavam internados entre 8 e 30 dias e 9,8% há mais de 30 dias. A prevalência das infecções nosocomiais atingiu valores de cerca de 10% (Figura 2), sendo mais elevada nos indivíduos com idade superior a 70 anos (13,3% de IN). Figura 1 Prevalência de infecção nosocomial em países europeus (HELICS, 2001) Fonte: Pina e Silva, 2005. 14 12 10 8 6 4 2 0 Prevalência de IN (%) Dinamarca Itália Bélgica R. Checa Espanha Alemanha Reino Unido Suiça França Noruega 1979 1983 1984 1988 1990 1994 1995 1996 1996 1997 1998 1993 2003 Figura 2 Prevalência de infecção nos estudos de 1988, 1993 e 2003 (critérios de inclusão diferentes não permitem uma comparação rigorosa) 10% 9,3% 9,9% 20% 17% 25,5% Infecção nosocomial Infecção adquirida na comunidade
22 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Infecções nosocomiais A comparação com os dois estudos anteriores (1988 e 1993) permitiu verificar a existência de uma diminuição da taxa de infecções urinárias (mais frequente nos primeiros estudos) sendo a IN mais frequente a das vias respiratórias (o que poderá estar relacionado com o predomínio de doentes com idade superior a 60 anos, sendo 27% com idade superior a 80 anos). A distribuição da prevalência por localização da IN é apresentada na Figura 3. A exposição a procedimentos invasivos, assim como a permanência de dispositivos invasivos, foram identificados como importantes factores de risco de natureza extrínseca. No que se refere às INCS (Infecções Nosocomiais da Corrente Sanguínea — septicemia) verificou-se o seu aumento, provavelmente associado ao aumento concomitante de uso de cateter vascular central (Quadro I). Tal facto poderá, eventualmente, estar relacionado com o envelhecimento da população. Como pode ser observado na Figura 4 verifica-se um aumento de prevalência de IN em função do número de factores de risco extrínseco presentes (cirurgia, CVC, alimentação parentérica, algaliação, ventilação mecânica). Foram identificadas prescrições de um total de 6971 antimicrobianos em 5639 doentes (34,4%). Nos dois estudos anteriores, 41% dos doentes tinha uma prescrição com antibióticos mas os dados não são comparáveis já que os critérios de inclusão foram diferentes (no estudo de 2003 foram incluídos todos os doentes internados mesmo admitidos há menos de 24 horas). A prescrição de antibióticos foi, naqueles estudos, empírica na maioria das situações sendo dirigida com Figura 3 Distribuição da prevalência por localização das infecções nosocomiais Quadro I Presença de CVC e prevalência de infecção nosocomial da corrente sanguínea 1988 1993 2003 INCS 3,24% 6,22% 9,11% Cateter central – 4,31% 7,96% Fonte: Pina, 1994; Pina e Silva, 2005. 35 30 25 20 15 10 5 0 1989 1994 2003 Urinária Respiratória Ferida cirúrgica Bacteriémia Outras
23 VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010 Infecções nosocomiais base no antibiograma em apenas 29,4% das IN. Note-se que cerca de 20% das prescrições de antibióticos foram feitas em doentes sem infecção (excluídas as prescrições para profilaxia cirúrgica). 3. Estudos de incidência de infecção O PNCI desenvolveu um sistema nacional de vigilância epidemiológica com o objectivo de criar uma política comum para o registo de infecção, promovendo a padronização dos protocolos de modo a permitir comparações entre o mesmo tipo de doentes (após estratificação por risco) e obter dados de referência consistentes da incidência de um número importante de infecções associadas aos cuidados de saúde, por categorias dos principais factores de risco. Foram desenvolvidos os seguintes programas de nível nacional sobre: • Infecções Nosocomiais da Corrente Sanguínea (INCS); • Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais; • Incidentes Infecciosos em doentes submetidos a Diálise. Também se adoptaram programas de nível europeu (Hospitals in Europe Link for Infection Control through Surveillance): • HELICS-UCI (nas unidades de cuidados intensivos); • HELICS-CIR (infecções do local cirúrgico). No contexto do presente estudo, dirigido às infecções da corrente sanguínea (septicémia), em adultos, as infecções nas UCI neonatais e as infecções do local cirúrgico não serão incluídas nesta análise. 3.1. Vigilância epidemiológica das infecções nosocomiais da corrente sanguínea Trata-se de um estudo cuja fase-piloto decorreu entre os anos 1999 e de 2001 e em que se foi verificando a diminuição do número de hospitais aderentes, Figura 4 Prevalência de infecção em função dos Factores de Risco Extrínseco (FRE) 30 25 20 15 10 5 0Nenhum 1 FRE 2-3 FRE > 3 FRE 25,4% 38,4% 32,3% 2,9%
24 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Infecções nosocomiais principalmente por razões referenciadas à insuficiência de recursos humanos: (i) 39 hospitais em 2002 e (ii) 25 hospitais em 2004 (Silva e Pina, 2005). É ainda essa mesma razão que justifica que apenas uma minoria de hospitais inclua toda a população internada, optando os restantes pela selecção de apenas alguns serviços considerados de maior risco. Uma das principais limitações deste sistema de vigilância epidemiológica consiste no facto de ter como ponto de partida um exame microbiológico positivo não permitindo, por isso, identificar os factores de risco em relação aos doentes que não tiveram infecção. A análise global da base de dados referentes ao período de 2002-2004 envolve 5385 episódios de INCS numa população internada de 706 392 doentes. A incidência cumulativa global de INCS foi de 0,76 por 100 doentes estudados correspondendo a uma densidade de incidência de 1,2 por 1000 dias de internamento (1,1 em 2002). A seguir ao Serviço de Hematologia (8,6 : 1000) é nas UCI que se observa a maior densidade de incidência de INCS (5,9 : 1000) seguindo-se as UCI Neonatais (4,5 : 1000). Existe um predomínio nos grupos etários acima dos 60 anos e a demora média dos doentes com INCS foi de 36,41 dias, enquanto que a demora média da população total (incluindo os doentes com INCS) foi de 8,4 dias. É importante salientar que, em 40,3% dos casos, a INCS foi secundária a outra infecção nomeadamente das vias respiratórias (11,1%), das vias urinárias (7,8%), da pele e tecidos moles (3,3%), do aparelho gastrointestinal (2,7%) e da ferida operatória (2,3%) (Quadro III). As INCS consideradas primárias estão em cerca de um terço relacionadas com o cateter venoso central. A taxa de INCS relacionada com o CVC foi de 3,08 por mil dias de cateterização vascular central. Quanto ao número de dias decorridos entre a admissão e a INCS, esta surge até 6 dias após a admissão Quadro II Proporção e densidade de incidência de INCS por grupos de serviços (dados de 2004) Grupos de serviços Episódios Doentes Proporção Dias Densidade de INCS admitidos INCS (‰) de internamento incidência INCS (‰) UCI polivalentes 1291 113 713 178,37 1129 787 19,76 Outras UCI 1212 110 597 120,011144 729 14,74 UCI pediátricas 1190 111 874 102,97 1110 027 18,97 Total UCI 1593 115 184 139,05 1184 543 17,01 Hematologia/oncologia adultos e pediátrica 1169 111 311 128,901114 170 11,92 Medicina interna 1412 135 555 111,58 1341 561 11,21 Especialidades médicas 1192 139 839 114,82 1236 596 10,81 Cirurgia geral 1136 133 479 114,06 1199 985 10,68 Especialidades cirúrgicas 1127 134 359 113,69 1210 256 10,60 Outros serviços pediátricos 1110 114 431 112,26 1120 143 10,49 Total 1639 164 158 119,98 1 107 254 11,48 Fonte: Silva e Pina, 2005. Quadro III Origem provável da INCS Classificação das INCS Frequência Percentagem Primária Desconhecida 1644 139,3 Relacionada com CVC 1335 120,4 Secundária 1660 140,3 Total 1639 100,0 CVC — cateter venoso central.
25 VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010 Infecções nosocomiais em 28,8% dos doentes, em 47,9% entre 7 e 15 dias e em 29,1% e nos restantes casos a partir dos 15 dias de internamento. A taxa bruta de mortalidade foi de 37,3%, sendo a distribuição etária da mortalidade nos doentes com INCS apresentada no Quadro IV. No que se refere aos agentes causais mais frequentes verificou-se um predomínio de microrganismos de Gram positivo: Staphylococcus coagulase negativo (22,0%) seguido de Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA — 12,2%) e Staphylococcus aureus sensível à meticilina (MSSA — 10,1%) e entre os microrganismos de Gram negativo observou-se um predomínio significativo de Escherichia coli (11,3%) seguido de Pseudomonas aeruginosa (7,9%). Os bacilos de Gram negativo do género Acinetobacter foram isolados em 2,3%. 3.2. HELICS-UCI Há mais de uma década que se vem tentando desenvolver, a nível europeu, um protocolo comum a fim de padronizar os métodos de vigilância epidemiológica utilizados em todos os países. Mais recentemente, para ultrapassar dificuldades surgidas devido à complexidade do sistema, foram propostos dois níveis de registo mantendo o método baseado no doente individual e oferecendo um sistema alternativo em que os denominadores referentes à exposição a dispositivos invasivos são colhidos a nível global da unidade, através de uma folha calendário que indica o número de doentes expostos em cada dia sem especificar doentes individuais. Este último sistema permite a obtenção de denominadores e de indicadores comparáveis embora não seja possível uma análise mais detalhada de factores de risco. No programa HELICS-UCI, define-se infecção da corrente sanguínea como: • hemocultura(s) positiva(s) de um agente patogénico reconhecido; ou • uma combinação de sintomas clínicos (febre superior a 38°C, arrepios, hipotensão) e duas hemoculturas positivas de um contaminante da pele em 2 amostras separadas obtidas num período inferior a 48 horas. Dessa forma, só são incluídas as infecções com comprovação microbiológica, não estando contemplados os casos de sepsis clínica. No início do projecto foi desenvolvida uma aplicação informática que permitiu a cada UCI a introdução dos seus dados e a obtenção de alguns relatórios que permitisse uma análise de dados apenas a nível local. Os dados aqui analisados reportam-se aos anos de 2001 e 2002 e abrangem 832 doentes de 14 UCI correspondendo a 11 560 dias de internamento (dados estes disponibilizados para a base de dados europeia (European Union. Directorate General Sanco. IPSE, 2005). Tratam-se, na sua maioria (75%), de UCI polivalentes. Os doentes são predominantemente (69,9%) do foro médico sendo os restantes, entre outros, do foro cirúrgico (10,6% de traumatologia) e apenas 1,8 % de doentes coronários. A média de idades foi de 59,2 anos com um predomínio do sexo feminino. O índice de risco avaliado pelo SAPSII — Simplified Acute Physiology Score (Le Gall, Lemeshow e Saulnier, 1993) foi de 41,3, sendo o correspondente valor médio a nível europeu de 35,9. O tempo médio de permanência na UCI foi de 12,6 dias (média europeia 10,7 dias) e a mortalidade global na UCI foi de 22,2% (média europeia 15,1%). Apenas 42,4% dos doentes foram admitidos directamente da comunidade (a média europeia foi de 49,1%), sendo a grande maioria de doentes oriundos de outros serviços do mesmo hospital (57%) ou transferidos de outros hospitais (10%). Os doentes tinham estado internados, em média, 5,5 dias antes da admissão na UCI (média europeia 4,5 dias). Outro aspecto a assinalar é que 59,7 % dos doentes apresentavam uma infecção na admissão na UCI, mais frequentemente das vias respiratórias (61%), Quadro IV Mortalidade por grupos etários < 1 ano 15% > 1 ano até 20 anos 15,2% 21-40 anos 23,3% 41-60 anos 40,0% 61-80 anos 50,3% > 80 anos 55,4%
26 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA Infecções nosocomiais seguindo-se as infecções do local cirúrgico. Seis por cento dos doentes apresentavam infecção da corrente sanguínea 80,8% dos doentes tinham tomado antibióticos até 48 horas antes da admissão na UCI (média europeia 44,7%). A razão de utilização de CVC (i.e o número de dias com CVC em relação ao número total de dias de internamento, que traduz a exposição ao risco devido ao dispositivo invasivo — CVC) foi de 0,98 nas UCI portuguesas o que significa que os doentes tiveram um CVC colocado durante 98% dos dias de internamento. A incidência de infecção nosocomial da corrente sanguínea (INCS) associada a CVC nas UCI foi de 2,9 por 1000 dias de presença de CVC (média europeia 3,00/00 (Quadro V). A maioria das INCS foi considerada primária (origem desconhecida ou associada a cateterização venosa central — CVC), sendo as restantes secundárias a infecção pulmonar e, menos frequentemente, a infecções urinárias e do local cirúrgico. Enquanto a mediana dos dias de internamento até ao aparecimento de INCS foi de 19 dias, a mediana europeia foi de 13 dias. Houve um predomínio de bactérias de Gram positivo nomeadamente Staphylococcus aureus e Staphylococcus coagulase negativos (24,2% de cada). Nos Gram-negativos houve um predomínio de não-enterobacteriáceas 19,7% (média europeia 11,6%) com 18,2% de Pseudomonas aeruginosa (média europeia 8,7%). No que respeita aos fungos, as UCI portuguesas identificaram 13,6% casos de fungémia (média europeia 7,9%). A análise de resistência foi feita em conjunto para as INCS e as pneumonias nosocomiais. Portugal apresentou a taxa mais elevada de MRSA — 73,0% (média europeia 34,7%). A resistência de Pseudomonas à ceftazidima foi de 28,8% (média europeia 21,3%). 3.3. Vigilância epidemiológica 3.3. de incidentes infecciosos em diálise As infecções em doentes submetidos à hemodiálise representam um aumento de morbilidade requerendo hospitalização e prescrições de antimicrobianos com o consequente risco de aparecimento de microrganismos multi-resistentes. Tratando-se de uma situação mantida em que os doentes são tratados várias vezes por semana, surgem alguns obstáculos em quantificar as infecções, designadamente na concepção de denominadores para o cálculo de taxas. Uma maneira de ultrapassar o problema é proceder ao registo dos doentes atendidos no centro durante a primeira semana de cada mês e utilizar o somatório desses doentes como o número de doentes atendidos naquele mês, sendo as taxas calculadas por cem doentes/mês. Essa taxa pode ser interpretada como a média de doentes em que se verificou o referido evento em cada mês. De 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2004, cinco centros de hemodiálise da região de Lisboa e Vale do Tejo participaram num estudo utilizando integralmente o protocolo do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) (Tokars, Miller e Stein, 2002). Os doentes foram categorizados conforme o tipo de acesso vascular que utilizavam. Para cada caso que requereu hospitalização (mesmo não estando relacionada com infecção), ou em que foram prescritos antibióticos por via parentérica sem hospitalização, foi preenchida uma ficha de incidente. Nessa ficha foram registadas as datas do início, se o antibiótico prescrito foi a Vancomicina e qual o tipo de acesso vascular. Também foram indicados os sinais clínicos de infecção mais frequente (no local de acesso; infecção de ferida; pneumonia ou infecção urinária) e ainda, se foi ou não efectuada hemocultura e, se realizada, o seu resultado (Pina, Silva e Ponce, 2005). Foram registados um total de 30 meses. A média de doentes/mês foi de 150 sendo a variação média de doentes de (–1,4 e +1,6). As fístulas foram usadas em 60,8% dos doentes, as próteses em 31,3%, o cateter permanente em 7,7% e o cateter provisório em 0,5%. A percentagem de doentes tratados com cateter foi de 8,3% (com uma variação de mais ou menos 3,6 entre os cinco centros). A distribuição dos doentes/mês por tipo de acesso vascular é apresentado no Quadro VI. Quadro V Razão de utilização de CVC e incidência de INCS associada a CVC Europa Portugal Razão de utilização de CVC (número de dias de cateter/número de dias de internamento) 0,64 (0,40-0,93) 0,98 Bacteriémia associada a CVC/1000 dias de cateter 3,0 (2,2-6,0) 2,9
27 VOL. 28, N.o 1 — JANEIRO/JUNHO 2010 Infecções nosocomiais Foram registados, na totalidade, 348 incidentes sendo 166 hospitalizações e 182 prescrições de antibióticos IV. A média mensal de incidentes foi de 58 (49-63). A maioria dos incidentes variou substancialmente conforme o tipo de acesso vascular presente. O Quadro VII apresenta a distribuição dos incidentes e outros problemas, por tipo de cateter. A taxa de hospitalização foi de 3,1 por 100 doentes/ /mês, sendo de 2,2 % para as fístulas, 4,0 % para as próteses, 9,9% para os cateteres permanentes e 19,0% para os cateteres provisórios. Registaram-se um total de 92 infecções relacionadas com o acesso vascular. A taxa de infecções da corrente sanguínea relacionadas com o acesso foi de 2,04 por 100 doentes/mês sendo de 0,7% para as fístulas, 1,4% para as próteses, 11,6% para os cateteres permanentes e de 42,8% para os cateteres provisórios. Foram referidos outros problemas relacionados com o acesso (mas não infecciosos) em 33 doentes. Dos 182 doentes (4,04%) que iniciaram antibióticos no centro, em cerca de 47,8%, o antibiótico prescrito foi a Vancomicina. Destes, 56 (30,8%) tinham Quadro VI Distribuição dos doentes por tipo de acesso vascular Mês Fístula Prótese C. permanente C. temporário Total de doentes Janeiro 447,1 232,1 59,1 5,1 743,1 Fevereiro 457,1 228,1 64,1 3,1 749,1 Março 455,1 232,1 58,1 0,1 746,1 Abril 458,1 239,1 51,1 1,1 751,1 Maio 455,1 239,1 54,1 5,1 754,1 Junho 453,1 239,1 59,1 7,1 758,1 Média 454,1 234,8 57,5 3,5 750,1 Quadro VII Distribuição dos incidentes e problemas por tipo de cateter Tipo de incidente Total Prótese Fístula C. temporário C. permanente Omissos Hospitalização 166 57 60 143411 Início de antibiótico na Unidade 182 41 52 10 64 13 Início de Vancomicina na Unidade 187 24 20 123318 Hemocultura positiva 130 1815121312 Infecções do local de acesso vascular Infecção de acesso vascular 192 20 19 194014 Problema do local de acesso sem infecção 133 11 18141410 Febre 116 16 15 121315 Infecções noutros locais Ferida (não relac./acesso) — pus/sinais inflam. 111 1119101011 Infecção respiratória s/critério de pneumonia 111 1612101112 Infecção urinária 1171212101112 Celulite 1161112101310 Pneumonia 1131111101110 Eventos cardiovasculares 116 1310111210 Outros eventos 112 35 46 122019