As Lacas Nanbam de exportação: encomenda e distribuição
Abstract
As lacas nanban de exportação são um conjunto de objectos caracterizados pela associação de formas e modelos decorativos que circulavam através das rotas marítimas asiáticas, com as artes do Japão. Esta produção aproximadamente balizada entre as últimas décadas do séc. XVI e meados do séc. XVII, surge das encomendas feitas pelos missionários e mercadores que estiveram presentes no Japão neste período, e evolui adaptando-se ao seu gosto. A diversidade de encomendadores envolvidos, com recursos financeiros e gostos diferenciados, imprimiram a estas peças um carácter heterogéneo e diversificado
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As Lacas Nanban de Exportação: Encomenda e Circulação Alexandra Patrício Santos Dissertação de Mestrado em Artes da Época Moderna e da Expansão Outubro 2017
I Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Artes da Época Moderna e da Expansão, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Alexandra Curvelo.
II Agradecimentos Os meus mais sinceros agradecimentos à Professora Doutora Alexandra Curvelo pela orientação atenta e conhecimentos transmitidos, sem os quais não teria sido possível concretizar esta dissertação. À família e amigos, pelo o apoio incondicional, obrigada.
III As Lacas Nanban de Exportação: Encomenda e Circulação Nanban export lacquer: Commission and Circulation Alexandra Patrício Santos Resumo As lacas nanban de exportação são um conjunto de objectos caracterizados pela associação de formas e modelos decorativos que circulavam através das rotas marítimas asiáticas, com as artes do Japão. Esta produção aproximadamente balizada entre as últimas décadas do séc. XVI e meados do séc. XVII, surge das encomendas feitas pelos missionários e mercadores que estiveram presentes no Japão neste período, e evolui adaptando-se ao seu gosto. A diversidade de encomendadores envolvidos, com recursos financeiros e gostos diferenciados, imprimiram a estas peças um carácter heterogéneo e diversificado. Abstract Nanban export lacquerware is a group of objects characterized by the merging of shapes and decorative models, which circulated through Asian maritime routes, and the arts of Japan. This production, loosely restricted to the last couple of decades of the 16th century and the first half of the 17th century, emerged from the commissions made by the missionaries and merchants who were in Japan at that time, and evolved to suit their taste. The variety of commissioners involved, with their own tastes and financial resources, made this a heterogenous and diverse group. PALAVRAS-CHAVE: nanban, Japão, encomenda, laca de exportação KEYWORDS: nanban, Japan, comission, export lacquer
IV Nota sobre grafia de termos japoneses: Quando necessário recorrer a vocábulos japoneses, fossem topónimos ou palavras do universo da laca, optámos pela sua redacção em concordância com o sistema Hepburn, geralmente adoptado para a fonetização dos caracteres japoneses para o alfabeto latino.
V Índice Introdução ..................................................................................................................... 1 Parte I ............................................................................................................................ 4 REVISÃO HISTORIOGRÁFICA ............................................................................ 5 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA ................................................................ 10 1. O Japão e a Ásia Oriental ......................................................................... 10 2. A Nau do Trato: Kurofune........................................................................ 12 3. O Projecto Missionário Jesuíta ................................................................. 15 4. O Galeão de Manila .................................................................................. 18 5. As Companhias Comerciais Norte-Europeias .......................................... 20 6. O Fim dos Contactos ................................................................................ 21 Parte II ......................................................................................................................... 23 ESPECIFICIDADES TÉCNICAS DA LACA ....................................................... 24 ENCOMENDA ....................................................................................................... 30 1. Mercadores Portugueses ........................................................................... 30 2. Companhia de Jesus ................................................................................. 33 3. Mercadores Espanhóis .............................................................................. 45 4. Ordens Mendicantes ................................................................................. 47 5. Companhias comerciais ............................................................................ 50 6. Japoneses .................................................................................................. 53 LACAS NANBAN .................................................................................................. 56 Conclusão .................................................................................................................... 72 Referências Bibliográficas .......................................................................................... 75
1 Introdução No início da década de 1540, um grupo de mercadores portugueses aportou na pequena ilha de Tanegashima, no sul do arquipélago japonês, a bordo de um junco chinês. Este evento, de contornos pouco claros 1 , marca o início das relações entre as potências marítimas europeias e o Japão, que se fez em duas vertentes: a mercantil e a missionária. Para os japoneses, estes estrangeiros ocidentais, ou gaijin, dividiam-se em dois grandes grupos, que os japoneses rapidamente distinguiram culturalmente: os nanban-jin 2 , que correspondem a uma presença sul europeia católica, interessada em tomar partido das rotas comerciais intra-asiáticas e com fortes intenções proselitistas, e os komo-jin 3 , norteeuropeus protestantes exclusivamente dedicados ao comércio. No contexto destes contactos, surgem as lacas nanban produzidas para exportação para os nanban-jin, um conjunto de objectos caracterizado pela junção de tipologias de matriz europeia ou luso-asiática, com o saber artístico e técnico da laca nipónica, marcado por uma profusa decoração com desenhos dourados e incrustações de madrepérola sobre um fundo negro. Nesta primeira fase, a presença predominantemente portuguesa associada à Carreira da Índia foi fundamental para introduzir no Japão a cultura material luso-asiática, cujo impacto é notório na identificação do gosto dos nanban-jin e construção do estilo que marcou a produção a eles direccionada, que surgiu como uma resposta aos modelos estrangeiros, distante da produção artística e do gosto japoneses. Embora dirigidas sobretudo para os mercados sul-europeus, de que fazem parte os assentamentos portugueses na Ásia e espanhóis no continente americano, estas lacas 1 Pouco se sabe acerca da identidade das personagens envolvidas, mas, embora também alvo de controvérsia, a cronologia para este evento é geralmente fixada em 1543, ano seguinte ao da autorização para aportar em Liampó na China. Costa, Portugal e o Japão: O século nanban, Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1993, p. 18 2 Nanban é um termo de origem chinesa, nesse contexto utilizado para designar os povos não chineses (han), e no Japão empregue para designar os povos do sudeste asiático – daí nanban ser traduzido como ‘bárbaros do Sul’ – que, a partir do séc. XVI, foi também aplicado aos povos do sul da europa – portugueses, espanhóis e italianos. Curvelo, “Arte Nanban” in Dicionário da Expansão Portuguesa, Lisboa: Circulo de Leitores, vol. 1, 2016, pp. 124-29 3 Significa ‘homens de cabelos ruivos’, dignação atribuída pelos japoneses aos holandeses e ingleses que visitaram o arquipélago a partir do séc. XVII. Idem, ibidem
2 também foram exportadas para os mercados norte-europeus, através das companhias comerciais que se estabeleceram no Japão, tendo sido igualmente encomendadas por japoneses. Antes de abordar o corpus artístico, dedicamos a primeira parte da dissertação à sua contextualização e definição. O primeiro capítulo é dedicado à revisão da historiografia da arte sobre o tema, procurando defini-lo de uma forma mais concisa. Não podendo dissociar a produção de lacas nanban do contexto dos contactos entre europeus e japoneses, dedicamos o segundo capítulo à contextualização histórica do Japão antes da sua chegada, e ao decorrer dos contactos até à expulsão dos mercadores ibéricos do território nipónico, que corresponde ao declínio da produção de lacas nanban. Na segunda parte, dedicamos o capitulo inaugural às especificidades técnicas implicadas na produção dos objectos nanban, procurando contextualiza-la nas dinâmicas de fabrico de objectos lacados no Japão na mesma época. De seguida analisamos as lacas nanban de acordo com os agentes envolvidos no processo, seguindo o discurso que tem sido privilegiado nos últimos anos, que nos parece fundamental para compreender as nuances desta produção. Procuramos reflectir sobre este corpus a partir de uma perspectiva de encomenda, que subdividimos em quatro grupos. Em primeiro lugar, O Kurofune 4 , que nos leva a centrar a análise na encomenda feita por mercadores e missionários, nomeadamente jesuítas, cuja presença no Japão está intimamente associada às rotas mercantis portuguesas e aos centros administrativos de Goa e Lisboa, bem como aos mercados asiáticos visitados a caminho do extremo oriental da Ásia. O segundo contexto, O Galeão de Manila, direcciona-nos para os contactos entre Espanha e o Japão, que abrangem os palcos do sudeste asiático, de que Manila é o centro espanhol, os vice-reinados espanhóis na América, particularmente a Nova Espanha, e Sevilha, último porto do sistema de rotas espanhol. A circulação de gentes associada a esta rota reflecte-se na presença de religiosos mendicantes no Japão, e – uma vez que não houve um porto espanhol fixo no Japão –, mercadores espanhóis noutras áreas geográficas e em menor número que os portugueses, bem como a circulação de japoneses pelo sudeste asiático e para a América. O terceiro grupo contempla as companhias comerciais norte-europeias, a East India Company (EIC) e a Verenigde Oostindische Compagnie (VOC), que tiveram um 4 Nome que os japoneses atribuíram à Nau do Trato. Significa literalmente barco negro.
3 papel bastante menos activo e com características distintas na encomenda nanban, mas que ainda assim deve merecer a nossa atenção. Por último, reflectimos sobre a encomenda japonesa de objectos nanban que se revela em modos distintos, seja na encomenda objectos de tipologia europeia, religiosos e laicos, com decoração de estilo nanban, ou na encomenda de objectos de tipologia japonesa decorados ao estilo nanban. Sempre que possível, procuramos relacionar estes agentes com os objectos que lhes podem ser directamente associados. Num terceiro momento, confrontados com a vastidão de objectos a que não se pode atribuir encomenda, procuramos mapear algumas características formais da produção de lacas nanban para exportação de tipologias e fórmulas decorativas que são comuns a várias encomendas, através de um conjunto de objectos que seleccionámos por constituírem diferentes versões estéticas e tipológicas que integram a exportação nanban.
10 externas ao Japão e recursos financeiros distintos, mas constitui-se como algo novo e autónomo. Uma última nota, sobre a designação de ‘nanban’ que é aplicada amiúde nesta dissertação para designar o corpus artístico em estudo, que optámos por usar pelo seu carácter prático, estando, contudo, conscientes da abrangência inerente a este conceito. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA 1. O Japão e a Ásia Oriental As relações entre a Europa e o Japão devem ser entendidas no quadro mais geral do contexto político, social e cultural da Ásia oriental e, particularmente, do Japão. É, pois, importante frisar que até à década de 1530, as relações internacionais na Ásia oriental eram dominadas pela China Ming, com o Japão e a Coreia a assumir uma posição tributária. No seguimento de conflitos diplomáticos com o Japão, a partir de 1547, os Ming suspenderam as relações comerciais previamente estabelecidas 24 , conjuntura que permitiu aos europeus na Ásia assumir um papel intermediário neste comércio de maior importância para as economias chinesa e japonesa 25 . Também os conflitos políticos que se faziam sentir no Japão à data da chegada dos portugueses tiveram implicações directas nos encontros entre as duas culturas. Sengoku jidai 26 , ou período dos estados em guerra, é o termo usado para designar o período balizado entre 1467, data do início da guerra Ōnin 27 , e a entrada de Oda Nobunaga na cidade xogunal de Kyoto, em 1568, que constituiu um momento de profundas reestruturações na organização social e política japonesa. Marcado pelo declínio do 24 Naohiro, “The sixteenth-century unification” in Hall, J. W., The Cambridge History of Japan. Vol. 4: Early Modern Japan. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, p. 66-67 25 Flynn; Giraldez, ‘Silk for Silver: Manila-Macao Trade in the 17th Century’in Philippine Studies, vol. 44, nº1, Ateneo de Manila University, 1996 p. 55 26 Sobre os eventos que despoletaram os conflitos pelo arquipélago consultar: Hall, “The Muromachi bakufu” in The Cambridge History of Japan. Vol. 3: Medieval Japan. Cambridge: Cambridge University Press, 1990, p. 226 - 28 27 A guerra Ōnin (1467-1477) emerge no seguimento das divergências entre as famílias Hosokawa e Yamana quanto à sucessão do xogum Ashikaga Yoshimasa (1435-1490). Os confrontos tiveram lugar em Kyoto e envolveram os daimyō do centro do Japão. Idem, ibidem
11 bakufu 28 vigente e conflitos militares permanentes entre os senhores das províncias 29 , emergiu deste período uma nova ordem militar, consolidada no período que ficou conhecido como a unificação do Japão, processo liderado pelas três figuras: Oda Nobunaga (1532-1584), Toyotomi Hideyoshi (1536-1598) e Tokugawa Ieyasu (15431616). O processo de unificação teve início na década de 1560, com o sengokudaimyō 30 Oda Nobunaga, uma das figuras mais importantes na revolução do paradigma bélico japonês no séc. XVI, responsável pela introdução do uso massificado de armas de fogo que adquiriu aos mercadores portugueses 31 , e lhe garantiram uma vantagem sobre os seus oponentes 32 . Oda Nobunaga conquistou cerca de um terço do território do arquipélago durante a sua vida, tendo a continuidade destas empresas militares sido assegurada por Toyotomi Hideyoshi, um dos seus generais. A hegemonia politica e militar do Japão ficou definitivamente consolidada a partir do séc. XVII com a ascensão de Tokugawa Ieyasu ao poder, cuja família deteve o controlo do Japão durante o período Edo (1603-1868). As políticas de Oda Nobunaga e do seu sucessor Toyotomi Hideyoshi para a estabilização da situação política do arquipélago facilitaram a comunicação e as trocas comerciais 33 . A devastação da guerra civil não extinguiu a procura por seda chinesa, ouro e outros produtos de luxo 34 , sendo de maior importância a acumulação de ouro no seu seguimento 35 , conjuntura que justifica a importância que o comércio sino-nipónico teve 28 Forma de governo feudal no Japão, liderado pelo xogum. 29 O arquipélago estava organizado em províncias, lideradas por um representante do xogum com poder para administrar localmente. Estes senhores feudais eram designados por daimyō. 30 Senhor feudal que adquiriu este título através da exerção de força militar, ao invés da tradicional nomeação pelo xogum (shugodaimyō). 31 Embora existam alguns registos anteriores do uso de armas de fogo no Japão, são os mercadores portugueses que as vendem em quantidades significativas para uso na guerra, por isso, as armas de fogo tiveram um papel determinante para impulsionar as relações entre os lideres militares japoneses e os mercadores portugueses. Varley, “Oda Nobunaga, Guns, and Early Modern Warfare in Japan” in Writing Histories in Japan Texts and Their Transformations from Ancient Times through the Meiji Era, Kyoto: International Research Center for Japanese Studies, 2007, p. 105-125 32 Idem, ibidem 33 Boxer, The Christian century in Japan 1549-1640. 1ª ed. Berkeley, CA: University of California Press, 1967, p. 103 34 Idem, ibidem, p. 91 35 Idem, ibidem, p. 111 - 112
12 no reino do Japão a partir de meados do séc. XVI, da qual os mercadores europeus tomaram partido. Direccionemos, então, o nosso olhar sobre os nanban-jin e as suas acções comerciais no Japão. 2. A Nau do Trato: Kurofune A presença comercial dos nanban-jin que deu os primeiros passos no inicio da década de 1540 foi, já nas últimas décadas do século, documentada pelos artistas da escola Kanō nas pinturas de biombos que se dedicam ao tema do desembarque do kurofune e ao nanban gyoretsu (cortejo nanban). Neles observam-se os objectos exóticos que desembarcam no Japão, tais como os pavões, os potes martabã, as cadeiras da China, ou as vestes dos nanban-jin, eles próprios também exóticos neste contexto. Outra dinâmica igualmente registada nestes biombos é o da troca de prata japonesa por seda chinesa, como se observa no biombo da direita do par que integra a colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, em que pode ver-se um mercador português a usar uma balança para pesar a prata, ou a venda das sedas chinesas em lojas japonesas. Elemento central desta composição é a nau do Trato ou o kurofune, que recebeu este nome pela sua cor negra. Na realidade, nem sempre era usada uma nau como a que os artistas japoneses procuram representar, estando documentado o uso de juncos alugados a marinheiros chineses 36 . Estas viagem tiveram destino a diversos portos 37 até 1571, ano em que se estabeleceu o porto de Nagasaki, garantindo a segurança da carga da embarcação, bem como facilidade de aceder aos mercados do interior. O comércio sino-nipónico tinha benefícios económicos significativos para os daimyō das províncias onde o kurofune aportasse, verificando-se, até à fixação em Nagasaki, uma atitude competitiva entre os senhores das províncias de Kyūshū para que os portugueses se estabelecessem nos seus domínios, procurando garantir o monopólio do comercio com os nanban-jin 38 . Uma das particularidades da presença portuguesa no Japão foi o facto de nunca ter existido um envolvimento directo da Coroa Portuguesa, sendo a ausência de um poder 36 Boxer, Op. Cit., 1967, p. 96 37 Entre os quais Yamagawa (Satsuma), Usuki (Bungo), Hirado (Hizen), ou numa fase posterior em Shiki (Amakusa) e Fukuda, (próximo de Nagasaki), para citar alguns exemplos. Idem, ibidem 38 Idem, ibidem
13 administrativo local preenchida pelos mercadores e missionários 39 . Não sendo este o caso da esmagadora maioria dos locais com presença portuguesa na Ásia, a presença portuguesa no Japão surge assim como uma excepção. O império português na Ásia organizava-se num sistema de feitorias e fortalezas, com algum tipo de autoridade local, distribuídas por zonas costeiras. Para os contactos com o Japão foram fundamentais: Goa, estabelecida em 1510, que foi o centro administrativo do da presença portuguesa na Ásia, a partir do qual que se fazia a ligação à metrópole; Malaca, conquistada em 1511, por garantir o acesso ao Mar da China, era já e manteve-se um importante porto comercial; e Macau, comprada em 1557, foi fundamental para as trocas comerciais com o Japão, por permitir o acesso à feira de Cantão 40 . Desenvolvida a partir das rotas pré-existentes nos mares asiáticos, a rota que ligava a Índia, a China, e o Japão, tinha como objectivo primário a troca de seda chinesa por prata japonesa 41 . A primeira fase do comércio sino-nipónico levado a cabo pelos portugueses a partir da década de 1540 é pautada por grande instabilidade, sem protocolos oficiais com o governo Chinês, que tinha banido as relações comerciais com o estrangeiro. Ainda que de forma ilegal, punível com pena de morte, o comércio com o estrangeiro resistia em pequenos portos como Liampó (Ningpo) ou Chincheo (Ch’uanchow). Em 1554, contudo, foi estabelecido um acordo semioficial entre o haitao 42 Wang Po e Leonel de Sousa que permitia aos portugueses comerciar na ilha de Lampacau, a Este de Amacao 43 . A península foi mais tarde adquirida pelos portugueses em 1557, o que desencadeou uma mudança gradual da presença portuguesa na China de Lampacau para 39 A viagem anual ao Japão, monopolizada pela coroa, ficava entregue a um capitão que podia ser nomeado ou adquirir esta posição. Para além de receber 10% dos lucros do carregamento de seda, o responsável pela Nau do Trato actuava como governador de Macau durante a sua estadia na cidade, que durava entre dez a onze meses, e agia como a autoridade superior do governo português tanto na China como no Japão, detendo o poder judicial e executivo sobre os seus compatriotas na costa e mar chineses. Boxer, Op. Cit., 1967, p. 92 - 106 40 Curvelo, “Os portugueses na Ásia dos séculos XVI-XVII: dinâmicas económicas e sociais e vivências artísticas e culturais” in Biombos Nanban, Lisboa: Museu Nacional de Soares dos Reis / IMC, 2009 a), pp.18-42; Gomes, "Portuguese settlements and trading centres" in 14,5 Ensaios de História e Arquitectura, Lisboa: Edições Almedina, 2007, pp. 187 – 199 (originalmente publicado no catálogo Encounters between Asia and Europe, Victoria & Albert Museum, Londres, 2004) 41 Flynn; Giraldez, Op. Cit., p. 55 42 Vice-comissário da defesa marítima. Sobre este assunto ver: Wills, Jr., J., “Relations with maritime Europeans, 1514–1662” in D. Twitchett & F. Mote, The Cambridge History of China, Volume 8: The Ming Dynasty, Part 2: 1368–1644, Cambridge: Cambridge University Press, 1998, pp. 333-375 43 Boxer, Op. Cit., 1967, p. 91
14 Macau, ainda pautada por alguma precariedade 44 . A partir de Macau desenvolveu-se, a par da viagem do Japão concedida pela Coroa lusa, uma rede comercial privada, motivada pelos portugueses que ali se haviam estabelecido 45 . Durante a segunda metade do séc. XVI os portugueses tiveram o domínio do comércio marítimo asiático graças à sua superioridade naval face aos povos indonésios, e ao facto de as nações asiáticas que tinham liderado em tempos o comércio marítimo, tais como a India, a China ou o Japão, se depararem com problemas internos que detiam a sua atenção e recursos. Na Nau do Trato circulavam uma série de bens, entre diferentes portos asiáticos. De acordo com o testemunho de Ralph Fitch, mercador inglês que viajou nas embarcações portuguesas na Ásia entre os anos de 1585 e 1591, registado por Charles Boxer, entre outros bens, circulavam na viagem de Goa para Macau moedas de prata, que eram trocadas na feira sazonal de Cantão 46 por bens que eram em parte redireccionados para Goa e depois para a Europa. Na viagem de Macau para Nagasaki, eram transportados seda crua e colorida, e ouro não refinado adquiridos na feira chinesa, que eram trocados maioritariamente por prata, a usar nas compras da feira de Cantão do ano seguinte. Na década de 1570, a diferença na proporção de valores de prata na China e ouro no Japão, motivada pelas reformas tributárias da China Ming, tornou estas trocas lucrativas 47 . Os valores registados por Fitch são indicadores de que a esmagadora maioria do lucro realizado nestas transacções era resultado da intermediação do comércio intra-asiático, sendo o mercado europeu secundário. 44 Loureiro, “Consolidação de um entreposto português” in Em busca das origens de Macau, Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1996, pp.27-31 45 Idem, ibidem 46 A feira de Cantão decorria semestralmente, entre Dezembro e Janeiro, e Maio e Junho 47 Todos os impostos passaram a ser pagos em prata, motivando a procura deste metal, que não é extraível na China. Boxer, Op. Cit.., 1967, p. 111; Flynn; Giraldez, Op. Cit.., p. 53
15 3. O Projecto Missionário Jesuíta A primazia do trabalho missionário no Japão foi desenvolvida pela Companhia de Jesus, presente no arquipélago a partir de 1549, quando Francisco Xavier aportou em Kagoshima. O projecto desenvolvido para a evangelização foi determinado pelas particularidades da sociedade japonesa, que os padres consideravam altamente sofisticada. A abordagem originalmente proposta por padres como Luís Fróis (1532-1597), Gaspar Vilela (1526-1572), Cosme de Torres (1551-1570), ou Organtino Gnechi Soldo (c. 15301609) foi em 1581 codificada por Alessandro Valignano (1539-1606), visitador da Companhia de Jesus das Índias Orientais e do Japão 48 , nos Advertimentos e avisos acerca dos costumes e catangues de Jappão. Este texto reunia directrizes para a conduta dos padres, que constituíam uma abordagem de aculturação ou acomodação, que deve ser entendida à luz da filosofia aristotélica, encontrada na base da formação da Sociedade de Jesus 49 . Com a marcada estratificação social japonesa em vista, os padres jesuítas concentraram os seus esforços na conversão das elites militares, estratégia que favoreceu o projecto missionário 50 . Também uso da língua nativa, a adaptação da liturgia e dos espaços cristãos aos ritos cerimoniais japoneses, ou a adaptação da arquitectura das igrejas ao cânone nativo, são exemplo desta política que não reunia unanimidade entre os elementos da missão, particularmente contestada pelos padres mais conservadores, apologistas das directrizes saídas do Concílio de Trento 51 . A missão jesuíta era constituída por pequenos núcleos espalhados pelas ilhas nipónicas que estavam à mercê das condições políticas locais: no contexto da sengokujidai, ou mais tarde após a emissão dos éditos anticristãos, o poder local estava em constante mutação, o que poderia favorecer os padres, caso as autoridades fossem 48 Alessandro Valignano visitou o Japão em três ocasiões: 1579 – 1582; 1590 – 1592; 1598 – 1603. 49 Correia, “Alessandro Valignano attitude towards Jesuit and Franciscan concepts of evangelization in Japan (1587-1597)”, in Bulletin of Portuguese - Japanese Studies, nº 2, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2001, p. 92-96 50 Fernandes Pinto, “Japanese elites as seen by Jesuit Missionaries. Perceptions of social and political inequality among the elites”, in Bulletin of Portuguese - Japanese Studies, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, Nº 1, 2000, pp. 29 - 43 51 Correia, Op. Cit., 2001, p. 92-96; Curvelo, “«Porque es en todo tan diferente y contrario» O método da acomodação na missão do Japão” in Henriques, Encompassing the Globe: Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII, Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga / IMC, 2009 b), pp.336-342.
16 receptivas à sua presença, e o mesmo se poderia verificar inversamente, obrigando os padres a fugir e abandonar igrejas e seminários 52 . Outra dificuldade significativa no decorrer da missão foi o seu financiamento. Durante a sua primeira estadia no Japão (1579 - 1582) Alessandro Valignano registou as despesas que advinham da manutenção das cerca de 200 igrejas, escolas e seminários, combinadas com a gestão de 85 irmãos, e cerca de 100 dojuku 53 , que resultavam num orçamento anual estimado entre 10,000 a 12,000 cruzados, valor que raramente estava à disposição dos padres 54 . A missão do Japão era patrocinada pela Coroa Portuguesa e pelo pontificado de Roma, e no seu decorrer os valores atribuídos foram renegociados várias vezes, mas foi constante o atraso ou mesmo a ausência do dinheiro que os patronos haviam concedido à missão 55 . O envolvimento da Companhia de Jesus em actividades comerciais no Japão foi motivado, em parte, pelas autoridades locais, que requisitavam aos padres que agissem como intermediários na troca de lingotes de prata por ouro da China. O desconforto que os padres expressaram junto de Ōmura Sumitada e Arima Harunobu relativamente à participação no comércio foi mal recebido pelos daimyō cristãos, o que levou a Companhia a ceder, temendo que lhes fossem impostas dificuldades ao desenvolvimento do trabalho missionário. De forma a satisfazer este pedido, Valignano estabeleceu um acordo com os mercadores de Macau, que permitia aos eclesiásticos negociar um valor máximo de 6000 ducados por ano 56 . Os acordos entre os padres e os mercadores foram sofrendo alterações ao longo dos anos, mas os jesuítas detiveram quase sempre alguma parte do comércio sino-nipónico 57 . O envolvimento no comércio foi, contudo, mais que uma forma de cair nas boas graças dos senhores locais, já que os lucros que dele advinham se tornaram fulcrais ao funcionamento da missão. 52 Arimura, “The Catholic Architecture of Early Modern Japan: Between Adaptation and Christian Identity”, in Japan Review, Nº. 27, 2014, p. 57 53 Acólito ou leigo; termo japonês para designar os jovens ajudantes dos bonzos nos templos budistas, apropriado pelos padres para designar os seus ajudantes, que desempenhavam também funções religiosas. 54 Boxer, Op. Cit., 1967, p.114 55 Idem, ibidem, p. 117 56 Idem, ibidem, p. 112 - 113 57 Boxer, Op. Cit., 1967, p. 117 - 120
17 Com a bula papal 58 que decretava a proibição da realização de actividades comerciais por parte de comunidades eclesiásticas, e a legislação portuguesa fixada nas Ordenações Manuelinas 59 para o mesmo efeito, o envolvimento da Companhia de Jesus no comércio sino-nipónico era desaconselhado pelas entidades financiadoras da missão e considerado imoral aos olhos de muitos europeus 60 , contudo as dificuldades referidas obrigaram os padres a recorrer a outros meios de subsistência, nunca dispensando o apoio vindo da Europa. A base da Companhia de Jesus no Japão foi, a partir de 1569, a pequena vila piscatória de Nagasaki, cedida à companhia pelo daimyō cristão Ōmura Sumitada na sequência de negociações com Alessandro Valignano 61 . Gaspar Vilela ficou responsável pela construção da igreja cristã de Todos os Santos, erigida sobre o antigo templo budista, então destruído, e pela evangelização dos gentios. A cessão de território a estrangeiros 62 foi um evento sem precedentes na história japonesa, e levou a que os mercadores portugueses passaram a aportar em Nagasaki, que se tornou também a base do comércio com os nanban-jin no Japão. A evolução desta cidade durante o período em que decorreram os contactos com os nanban-jin mostra a forma como a presença missionária e a presença mercantil estavam intimamente ligadas no Japão. Ōmura, mostrando sensibilidade a esta questão, assegurou a presença comercial dos nanban-jin no seu domínio feudal ao ceder o território à Companhia de Jesus 63 . A vila esteve na posse dos Jesuítas até 1587, quando Hideyoshi realizou uma campanha militar para a conquista de Kyūshū. Os jesuítas eram vistos pelo líder japonês como representantes de um senhor estrangeiro, o que se poderia revelar prejudicial à unidade que o kanpaku 64 tentava consolidar. Ao tomar conhecimento da situação, revogou os direitos outorgados aos jesuítas, apontando um novo representante local e 58 Emitida por Honório III no séc. XIII. 59 Compêndio de legislação portuguesa; impresso em dois volumes, em 1512 e 1513. 60 Costa, O Cristianismo no Japão e o Episcopado de D. Luís Cerqueira, tese de doutoramento em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, 2 vols. (texto policopiado) Lisboa, Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 1998, p. 107 61 Pacheco, A Fundação do porto de Nagasaki, Macau: Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1989, p.1619 62 Costa, Op. Cit., 1998, p. 111 63 Pacheco, Op. Cit., 1989, p. 17 64 Antigo título cortesão adoptado por Toyotomi Hideyoshi.
18 reclamando para si o domínio da vila 65 . Pouco tempo depois Hideyoshi promulgou o primeiro édito anticristão 66 , sem efeito à data e durante todo o período do seu governo, uma vez que os portugueses detinham o monopólio virtual do comércio sino-nipónico, o que levou o kanpaku a moderar a sua atitude anticristã, por recear que as relações comerciais pudessem sofrer à custa de um corte efectivo com a presença missionária. Contudo, o clima de desconforto com a presença missionária bem como a procura de preços mais competitivos para o comércio sino-nipónico, motivaram Hideyoshi a estabelecer relações comerciais com outras entidades, de modo a por fim ao monopólio detido pelos mercadores portugueses. 4. O Galeão de Manila Através do oceano Pacífico, a Coroa Espanhola procurou, à semelhança do que havia feito a Coroa de Portugal, aceder aos mercados asiáticos e ao comércio das especiarias. Dessa forma, os espanhóis instalaram-se nas ilhas Filipinas, cuja ocupação consolidaram definitivamente em 1565, com o estabelecimento de Manila. Nessa data, uma alteração na conjuntura política da Península Ibérica, com a subida do rei espanhol Filipe II ao trono luso em 1560, permitiu que nos anos seguintes houvesse uma maior permeabilidade das regras previamente estabelecidas no tratado de Tordesilhas (1494) ou de Zaragoza (1529). No Pacífico, a união das coroas ibéricas permitiu que marinheiros espanhóis passassem a circular por territórios que lhes estavam vedados anteriormente, como é o caso das ilhas nipónicas. Definiu-se uma rota que permitisse o transporte de mercadorias da Ásia, a partir do porto do Cavite, através do vice-reinado da Nova Espanha, com destino à Europa. Acapulco foi o local escolhido para o Galeão de Manila aportar na costa oeste americana, que ficava a cerca de quatro meses de viagem das Filipinas. A partir de Acapulco, as mercadorias seguiam em mulas até ao porto de Vera Cruz, no Atlântico, contando com uma paragem obrigatória na Cidade do México, onde uma quantidade significativa das 65 Costa, Op. Cit., 1998, p. 111 66 Idem, ibidem, 1998, p. 169
19 mercadorias vindas de Manila se dirigia. A carga restante seguia até à Europa através da Rota da Prata, com destino a Sevilha, ou Cádis, numa fase posterior 67 . Os espanhóis nunca estabeleceram uma feitoria ou outro tipo de presença comercial no Japão, e, de forma semelhante ao caso português, foram os missionários, neste caso dominicanos e franciscanos, que tiveram um papel preponderante no desenvolvimento das relações diplomáticas hispano-nipónicas 68 . Em 1593, o frade Pero Bautista Blasquez negociou com Hideyoshi a autorização para a circulação dos mendicantes no Japão, no contexto de uma missão diplomática enviada de Manila, terminando assim a exclusividade da Companhia de Jesus sobre a missão do Japão. O interesse de Manila no estabelecimento de relações diplomáticas com o Japão neste momento prendia-se com o receio de um possível ataque às ilhas Filipinas assim que terminasse a campanha militar na Coreia 69 ; o kanpaku procurava, em contrapartida, o estabelecimento de uma relação comercial de modo a extinguir o monopólio dos mercadores macaenses no acesso a mercadorias estrangeiras. Durante o período de missionação franciscana no Japão, foram construídos três conventos (em Miyako, actual Kyoto, em Nagasaki e Osaka) e três hospitais (dois em Miyako e um em Nagasaki) 70 . A sua abordagem missionária algo conservadora e pouco flexível, de base tomista, terá propiciado os eventos que se desencadearam no seguimento do episódio do navio San Felipe, que culminaram em 1597 com o grande martírio de Nagasaki, em que foram executados 26 religiosos 71 e decretada a expulsão dos frades mendicantes 72 . O palco do comércio entre Espanha e o Japão foi Manila, oficializado a partir de 1592, quando Toyotomi Hideyoshi atribuiu autorizações aos mercadores de Kyoto, Osaka e Sakai para o comércio com portos do sudoeste asiático, contudo, já a partir de 1585 se 67 Canepa, “Nanban Lacquer for the Portuguese and Spanish Missionaries” in Bulletin of Portuguese - Japanese Studies, vol. 18-19, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2009 a), p.260; Dennis, Op. Cit.., 2013, p. 30 68 Dennis, “Caminos y relaciones entre España y Japón en el Periodo Nanban” in Lacas Nanban: Huellas de Japón en España: IV Centenario de la Embajada Keishō, Madrid: Ministerio de Cultura,2013, p. 39 69 Correia, Op. Cit., 2001, p. 82 70 Idem, ibidem 71 Os homens executados pertenciam a diferentes quadrantes religiosos, entre os mártires havia franciscanos e jesuítas, alguns dos quais de origem japonesa. 72 Idem, ibidem; Curvelo, Op. Cit., 2009 b), pp.336-342.
26 superfície lisa, necessária para a aplicação de laca. Em peças de maiores dimensões, um reforço adicional das juntas pode ser obtido através da aplicação de uma tela de algodão embebida em laca 89 . Feita a estrutura de madeira, o artesão responsável pela aplicação da laca inicia o seu trabalho. Este divide-se em duas fases distintas, como é referido na fonte jesuíta supramencionada: Gi e Uruxide nuru. O primeiro termo corresponde ao japonês shitaji e diz respeito à aplicação camadas compostas por urushi e materiais orgânicos, como barro, que lhe conferem uma textura espessa. Nuri é o termo japonês correspondente à tradução jesuíta para designar a segunda parte do processo. Esta passa pela aplicação de camadas finas de urushi a que foi adicionado algum tipo de pigmento, que recebem também a designação de nuri 90 . Cada uma delas, que em peças excepcionais podem ascender às duas dezenas, deve ser consolidada através de um processo de oxidação em ambiente húmido. Para tal, as peças são depositadas numa câmara de madeira com humidade relativa de cerca de 80% durante alguns dias após cada aplicação. Após a aplicação e oxidação de cada camada é feito um polimento homogéneo da superfície com carvão vegetal, que é a chave para obter o brilho que caracteriza a laca 91 . Por último, é aplicada a decoração com a técnica maki-e que consiste em polvilhar um pó metálico sobre a superfície lacada ainda húmida 92 . Existem três variantes desta técnica que criam efeitos visuais distintos. Uma é a togidashi maki-e, que é a forma mais antiga de executar maki-e, mas também a mais complexa e mais durável. Após as decorações serem polvilhadas com ouro, todo o objecto é coberto com laca negra, que é depois polida com carvão de forma a revelar as decorações douradas. O hiramaki-e é o método mais simples, e por isso de uso mais comum. A fim de conservar a decoração élhe aplicada laca transparente, que resulta numa ligeira elevação da decoração em relação ao fundo lacado. O takamaki-e, desenvolvido durante o séc. XIV, resulta num efeito de 89 Abreu, Op. Cit., 2008, p. 55 90 Leiria, Op. Cit., 2001, p. 16 91 Kawamura, “Presencia e influencia del arte japonés en España y Nueva España”, in Lacas Nanban: Huellas de Japón en España: IV Centenario de la Embajada Keishō, Madrid: Ministerio de Cultura, 2013, pp. 251-52 92 Brennan Ford, “Japan” in East Asian Lacquer: The Florence and Herbert Irving Collection, New York: Metropolitan Museum of Art, 1991, p.153
27 baixo-relevo, criado através da aplicação da combinação de laca com carvão na superfície a polvilhar 93 . Durante o séc. XVI assiste-se à emergência de novas técnicas nas oficinas que resultaram em lacas com menor sofisticação técnica em favor da acessibilidade a uma clientela menos abastada, desenvolvidas em resposta ao aumento exponencial de encomendas no mercado interno e externo. Os padres jesuítas tomaram nota das variantes técnicas aplicadas para este efeito, fazendo referência a dois processos para obter a superfície reluzente que caracteriza a laca. O processo designado por roiro-nuri, que referimos acima, requer o polimento de cada camada com carvão vegetal; o hana-nuri é mais rápido uma vez que o polimento entre camadas é dispensado graças à mistura de óleo ao urushi 94 , informação que foi atestada por estudos do campo da conservação e restauro 95 . Também a aplicação de menos e mais grosseiras camadas de urushi, bem como a omissão do reforço da estrutura de madeira com uma tela de algodão, foram meios de acelerar o processo 96 . Naturalmente, estes são feitos em detrimento da qualidade das lacas, o que pode justificar o mau estado de conservação verificado em algumas lacas de exportação. A qualidade dos materiais empregues é, do mesmo modo, feita em função do mercado. A época de colheita da seiva é determinante na qualidade da laca, e como tal supõe-se que nas peças que se encontram um pior estado de conservação tenha sido aplicada laca colhida já no Outono 97 . Também a escolha do pigmento aplicado é visível a longo prazo. A cor negra da laca pode ser obtida através de adição do pigmento carbono preto ou de hidróxido de ferro. Este último é identificável através da tonalidade acastanhada que é adquirida com o passar do tempo, enquanto o carbono preto se mantém fiel à cor original 98 . 93 Idem, ibidem, p. 155 94 Leiria, Op. Cit., 2001, p. 18 95 Frade, et. al., Op. Cit., 2009, p. 2174 96 Pinto, Op. Cit., 1990, p. 59 97 Idem, ibidem 98 Leiria, Op. Cit., 2001, p. 17
28 Sabe-se também que nas oficinas de Kyoto era usada laca produzida através da seiva da espécie Melanorrhoea usitate, originária do Myanmar e da Tailândia 99 . Os registos da feitoria da VOC em Nagasaki referentes aos anos compreendidos entre 1636 e 1643 corroboram esta informação, em que há indicação de cerca de 50 a 100 toneladas de laca importadas da Tailândia por ano, contudo, pensa-se que a encomenda de laca tailandesa para o Japão possa remontar a cerca de 100 anos antes desta data 100 . Uma análise com Py-GC/MS 101 à laca do leito nanban apresentado pela primeira vez em 2010 no âmbito da exposição “Encomendas Nanban” no Museu do Oriente, permitiu comprovar que a laca de origem tailandesa era usada para o mercado de exportação 102 . Por outro lado, os estribos do MNAA, peças produzidas para o mercado japonês, confirmam que o tipo de laca usada é Rhus Vernicífera, que comprova que a laca de origem japonesa foi canalizada para encomendas de qualidade superior, mais dispendiosas, e tendencialmente para o mercado interno 103 . Uma situação semelhante verifica-se no mercado de laca chinês 104 . No prefácio adicionado à edição de 1625 do tratado sobre laca Xiushi lu 105 , um lacador de nome Yang Ming dá conta de um fenómeno que parece resultar de um aumento no volume de produção de lacas ou de outros objectos com a entrada de novos agentes no sistema económico asiático: o artesão refere as práticas de alguns dos seus pares que permitiam produzir objectos lacados mais rapidamente e com menos custos. Estas incluem a importação de laca do Vietnam (Toxicodendron succedaneum L.) para aplicar em nas 99 Honda; et. al., “Applied Analysis and Identification of Ancient Lacquer Based on Pyrolysis-Gas Chromatography/ Mass Spectrometry” in Journal of Applied Polymer Science, Volume 118, Issue 2, pp. 897901 100 Idem, ibidem 101 Pyrolysis–gas chromatography–mass spectrometry é uma ferramenta usada por conservadores e restauradores para analisar a composição das lacas. 102 Curvelo, “Leito”, in Curvelo; Martins, Encomendas Nanban: Os Portugueses no Japão da Idade Moderna, Lisboa: Fundação Oriente, 2010 a), pp. 155-161 103 Cavaco, “The nanban stirups of the Museu Nacional de Arte Antiga”, in Voyages: nanban and other lacquers, IMC/MNAA, 2011, p. 21 104 Körber; et. al., “Simplified Chinese lacquer techniques and Nanban style decoration on Luso-Asian objects from the late sixteenth or early seventeenth centuries”, in Studies in Conservation, vol. 61: sup3, 2016, pp. 68-84 105 Significa: registos sobre laca; dedicado aos procedimentos, técnicas e materiais envolvidos na produção de laca, foi escrito durante a era Longqing (1567 – 1572), por Hang Cheng, um lacador de Xinan. A informação presente, ao invés de constituir um manual para os artesãos, dirige-se às classes mais abastadas e educadas interessadas nesta produção. Idem, ibidem
29 encomendas para exportação nas oficinas chinesas, que está presente em alguns objectos lacados luso-asiáticos. Os pontos que acabamos de referir são sintomáticos da forma como o aumento significativo da procura por objectos lacados pelos europeus teve um impacto directo na sua produção. Não só no Japão, mas de uma forma generalizada pela Ásia, houve uma necessidade de aumentar rapidamente a produção de modo a responder às encomendas estrangeiras, que significou, por vezes, a terceirizar a produção de recursos naturais para nações próximas, ou reformular os processos técnicos tradicionais.
30 ENCOMENDA 1. Mercadores Portugueses É por via dos mercadores portugueses que se iniciam os contactos que estão na génese da produção das lacas nanban. A guarnição do kurofune era um espelho das rotas que ligavam locais física e culturalmente distantes, constituindo um grupo heterogéneo, como atestam as representações dos nanban gyoretsu (cortejo nanban) nos biombos da escola Kanō. Circulavam portugueses (europeus e luso-asiáticos), que detinham invariavelmente os cargos superiores, a par de indianos, normalmente originários da região do Guzarate, bem como dos ditos sarangues (pilotos locais) e jurubaças (interpretes), geralmente oriundos de Malaca, e escravos africanos e muçulmanos 106 . Os biombos evidenciam também o desembarque de uma série de bens de origem atribuída aos locais, independentemente de uma presença mais ou menos permanente de portugueses e luso-asiáticos nessas paragens, que integravam a rota para o Japão, havendo uma predominância acentuada das produções indianas, da China, e até das vizinhas Ryū Kyū. Importante é, também, aferir do papel que estes objectos deverão ter desempenhado na construção da identidade cultural da clientela sul-europeia para quem os artesãos produziam lacas 107 . Para o estabelecimento de uma rede de relações comerciais que permitisse fazer a exportação de bens japoneses, foi fundamental o estabelecimento de Macau. Só a partir de cerca de 1560, mais de uma década depois do primeiro desembarque em Tanegashima, foi possível assegurar definitivamente a intermediação do comércio sino-nipónico e fruir dessa estabilidade para exportar outros bens de luxo. A rota entre Macau e o Japão (Nagasaki a partir de 1571), estava sob alçada da coroa portuguesa, que tinha o poder de escolher o capitão-mor da viagem anual ao Japão. 106 Boxer, O Grande Navio de Amacau, Lisboa: Fundação Oriente, Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1989, p. 9 107 Moura Carvalho, “The Circulation of European and Asian works of art in Japan, circa 1600” in Portugal, Jesuits and Japan: Spiritual Beliefs and Earthly Goods, Chestnut Hill, MA: McMullen Museum of Art, Boston College, 2013pp. 37-43
31 Nunca tendo sendo estabelecida uma presença oficial em terras nipónicas, optou-se pela inserção desta via comercial no sistema de rotas oficiais pré-existentes. A carga adquirida no Japão era transportada de Macau para Goa, sendo organizada na primeira e vendida na segunda, onde decorria o leilão no mercado principal da cidade situado na Rua Direita. Uma parte dos objectos importados do Japão seguiam então, junto com outros bens da Ásia, para Lisboa através da Rota do Cabo 108 . Uma vez que as transacções comerciais feitas no Japão estavam fora do domínio do Estado da Índia, são raros os documentos associados aos bens transportados. Dos conhecimentos de embarque dos navios vindos de Goa para Lisboa não se recolhem também muitas informações, uma vez que lacas, porcelana, leques, jóias e outros, eram registados como miudezas, não havendo, portanto, distinção entre uma miríade vastíssima de objectos 109 . As lacas japonesas nunca foram exportadas em quantidades equivalentes aos têxteis e porcelanas asiáticos, mas estes bens de luxo chegavam com regularidade à Europa fosse na carga oficial dos navios, na sequência de encomendas específicas, ou, muitas vezes, através do comércio privado 110 . As informações que subsistem relacionam-se sobretudo com a encomenda referida na epistolária religiosa, particularmente da Companhia de Jesus, com descrições de ofertas diplomáticas, ou com os muito escassos inventários contemporâneos. É, no entanto, possível afirmar que um número considerável de lacas tenha chegado à Europa através do comercio privado 111 . Aqui, os tripulantes dos navios que ligavam a Ásia à Europa foram agentes preponderantes, ao fazerem uso do espaço pessoal que dispunham no navio ou das ditas “caixas de liberdades” em que podiam fazer circular bens para vender, com isenção de franquia 112 . 108 Leitão¸ Do Trato Português no Japão: Presenças que se cruzam (1543-1639), dissertação de mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa apresentada à Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, (texto fotocopiado), Lisboa, 1994, pp. 6-13 109 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 363 110 Jaffer, “Asia in Europe: Furniture for the West” in Jackson; Jaffer, Encounters: The Meeting of Asia and Europe 1500-1800. London: V&A publications, 2004, pp. p. 252 111 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 79 112 Leitão, Op. Cit., p. 75
32 Embora a historiografia feita em torno das lacas nanban se foque sobretudo numa encomenda direccionada à Europa, Curvelo tem vindo a alertar para o facto de este ser um mercado secundário para as lacas do Japão. Objectos como o leito nanban – que pertence a uma colecção privada de uma família que residiu em Goa até ao séc. XIX – são representativos das encomendas feitas por uma clientela predominantemente luso-asiática residente nos assentamentos portugueses estabelecidos na Ásia 113 . Ainda que incompleto, é possível relacionar este leito com os modelos ibéricos e luso-asiáticos contemporâneos guarnecidos de dossel 114 que apresentam a mesma configuração arquitectónica na cabeceira e formato dos pés. A sua ornamentação com motivos vegetalistas inseridos em cartelas polilobadas, padrões geométricos, e mon 115 , em maki-e e raden coaduna-se com os padrões decorativos encontrados nas lacas nanban exportadas para a Europa 116 . Em colecções europeias, uma parte substancial dos objectos encontrados actualmente estão associados a instituições religiosas, o que indica que o mercado para as lacas nanban na Europa era mais reduzido do que se tende a crer, e que o volume mais significativo desta produção seria destinado a uma clientela localizada na Ásia 117 . As encomendas eram realizadas pelos mercadores que visitavam o Japão anualmente e por outros que, entretanto, se fixaram na cidade de Nagasaki, alguns dos quais casaram com mulheres japonesas 118 . Estes actuavam como intermediários de outros 113 Curvelo, Op. Cit., 2010 a), pp. 155-61 114 Como Curvelo aponta, são comparáveis os leitos ilustrados em: Nascimento, J. F., Leitos e Camilhas Portugueses. Subsídios para o seu estudo. Lisboa. Edição do autor, 1950, Estampas XXV, Fig. 9 e XXVI, Fig. 9. Idem, ibidem 115 Símbolos heráldicos japoneses de forma circular. O seu uso nas lacas nanban terá sido, na esmagadora maioria dos casos, empregue apenas como motivo decorativo exótico e desprovido de sentido heráldico. 116 Idem, ibidem 117 Curvelo, Op. Cit., 2013, p. 76 118 Curvelo, “Nagasaki, an European artistic city in early modern Japan” in Bulletin of Portuguese - Japanese Studies, nº 2, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2001, p. 23 Fig. 1 Leito Colecção privada, Portugal 157 x 195 x 122 cm
33 indivíduos que residiam na Europa ou na Ásia, fazendo os pedidos aos artesãos 119 . As encomendas primordiais surgem, contudo, associadas a outra presença que sempre andou a par do comércio: a Companhia de Jesus. 2. Companhia de Jesus A missão do Japão foi profundamente influenciada pela geografia: a localização do arquipélago japonês no extremo oriental da Ásia, longe da Santa Sé o e do Padroado da India, que dificultava a comunicação com os superiores e o envio de fundos económicos ou materiais para a missão 120 . Estas particularidades manifestaram-se na inovadora orientação missionária tomada, no envolvimento nas dinâmicas comerciais entre Nagasaki e Macau, e na encomenda artística, particularmente de alfaias litúrgicas para usar na missão 121 . Os missionários europeus recorreram, portanto, à técnica da laca no Japão, de uso datável do período Jōmon (14.000 – 300 a.C.), que se aplicava em âmbitos distintos, como os objectos de uso comum, de cariz religioso ou para fins bélicos 122 . No séc. XVI, na sequência das políticas económicas estabelecidas por Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi em resposta à devastação causada pelo sengoku-jidai, ocorreu uma proliferação de actividade comercial e artística com particular expressão em Miyako, a capital, e em outras cidades geograficamente próximas de menores dimensões 123 . A estabilidade politica e económica propiciou as condições necessárias para a migração dos artesãos, que até aí dependiam do patronato dos senhores feudais da província em que residiam, para as cidades onde o comércio florescia 124 . 119 Canepa, Op. Cit., 2009 a), p. 259 120 Boxer, Op. Cit., 1967, p.114 121 Canepa, Op. Cit., 2009 a), p. 256-57 122 Para uma discussão sobre as origens da laca no Japão ver: Yoshiyuki Kuraku, “Origins of the Use of Urushi in Japan and Its Development” in Brommelle, N. S.; Smith, Perry, Urushi: Proceedings of the Urushi Study Group, June 10-27, 1985, Tokyo, CA: The Getty Conservation Institute, 1988, pp. 45-50 123 Boxer, Op. Cit., 1967, p. 103 124 Pekarik, Japanese lacquer, 1600-1900: selections from the Charles A. Greenfield collection, NY: Metropolitan Museum of Art, 1980, p. 12
34 Assim, no momento em que se dão os primeiros contactos com europeus, o universo das lacas caracteriza-se por dois principais tipos de produção, de que se destaca o tipo hon maki-e, de que as lacas da escola Kōami são exemplo, que consiste numa produção dirigida à elite militar que procura afirmar-se como mecenas artístico, em oposição ao poder imperial. Como tal é-lhe intrínseca uma qualidade técnica rigorosa com recurso a materiais e processos mais dispendiosos. Já o tipo machi maki-e é uma produção mais acessível, comprada sobretudo pelos chōnin, a classe de habitantes urbanos que emerge neste período, com maior poder de compra do que os agricultores 125 . Na História da Igreja do Japão, o padre João Rodrigues faz referência a esta distinção: “[...] porque hà entre estes officiaes certos q dourão de certa laya a mais prima obra deste genero q hà no descuberto pintado com ouro solido moido, varias couzas, e entre [...] rozas de laminas de ouro e prata, madreperola tão ricamente feita que não hà mais, mas de muito custo de que somente os Senhores podem uzar, e agente rica, posto que neste genero hà outra de menos custo semelhante na aparencia em parte, mas muito differente no feito, lustre, e custo, e desta segunda sorte se uza muito no Reyno entre gente limpa [...]”. 126 É plausível que se tenham feito encomendas antes, mas o estabelecimento de uma igreja jesuíta na capital – Kyoto –, importante centro produtor de laca, permitiu que em 1577 os padres da Companhia de Jesus pudessem ter uma presença permanente junto dos artesãos da laca e começar a encomendar objectos kirishitan em maior quantidade nas oficinas que ofereciam preços mais acessíveis. Data desse mesmo ano a referência feita por Luís Fróis a um caixão e uma cruz lacados, encomendados para o uso no Japão, que estariam próximos dos referentes artísticos nipónicos 127 . Importa ainda referir que, paralelamente à encomenda de lacas, a Companhia de Jesus encomendou uma miríade de objectos para realização dos ofícios religiosos no Japão, que incluem cerâmicas e vestes para uso da Companhia 128 . Estes objectos não 125 Leiria, Op. Cit., 2001, p. 11 126 Citado em: Leiria, Op. Cit., 2001, p. 11 127 Kawamura, Op. Cit., 2013, p. 257 128 Canepa, “Obras de Arte Nanban para os mercados Japonês, Português e Holandês” in Depois dos Bárbaros II, London: Jorge Welsh, 2008, p. 20
35 foram concebidos para exportação e, como tal, encontram-se actualmente sobretudo em colecções museológicas japonesas, e mais esporadicamente em colecções norteamericanas ou em raras colecções privadas 129 . É o caso das taças de cerâmica que seriam utilizadas na liturgia pelos padres no Japão, decoradas com uma cruz, como a taça pertencente a uma colecção privada do Porto 130 , ou da capa de lã preta que segue o modelo do hábito da Companhia de Jesus e que integra a colecção Gafu Izutsu 131 . Como estes objectos utilitários, as lacas encomendadas pelos jesuítas procuravam responder à carência de objectos de primeira necessidade para as celebrações litúrgicas, grupo de peças estas que incluem as píxides. Estes objectos eram usados para conservar as hóstias consagradas e foram produzidos a partir dos modelos europeus de forma cilíndrica em ouro ou prata trazidos pelos padres 132 . Um exemplo desta tipologia é a píxide conservada no Museu Nacional de Arte Antiga 133 . Decorada com flores e folhagem executadas em maki-e e raden na superfície lateral, a tampa é espaço quase exclusivo do monograma da Companhia: a inscrição IHS, encimada por uma cruz e o coração com cravos, encerrados num halo radiado, circundado por pétalas de raden dispostas em ziguezague em torno do limite da tampa, motivo frequente nas lacas de encomenda jesuíta. A laca era já usada em objectos de índole religiosa no Japão, de que são exemplo as caixas de pequenas dimensões de configuração semelhante à das píxides, usados para guardar incenso 134 , como tal, a aplicação da técnica nativa na produção de objectos litúrgicos cristãos foi um passo natural. Outra tipologia relacionada com a celebração eucarística é a das estantes de missal dobráveis (shokendai), usadas de uma forma generalizada nas missões asiáticas pela facilidade de transporte que lhes é intrínseca. As shokendai resultam de uma adaptação dos modelos importados de Goa, feitos em madeira talhada e policromados que, por sua vez, remetem para uma produção islâmica 135 . Um exemplo das estantes de missal goesas 129 Idem, ibidem 130 Bailey, “Religious Encounters: Christianity in Asia” in Jackson; Jaffer, Encounters: The Meeting of Asia and Europe 1500-1800. London: V&A publications, 2004, p. 113 131 Tanno, “Traje Nanban” in Traje Nanban, IPM, 1994, p. 24 132 Canepa, Op. Cit., 2009 a), p. 260 133 Borges de Sousa, “Píxide ou caixa para hóstias (seiheibako)” in Curvelo; Martins, Encomendas Nanban: Os Portugueses no Japão da Idade Moderna, Lisboa: Fundação Oriente, 2010, p. 81 134 Idem, ibidem 135 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 327
42 Nas oficinas dedicadas à produção nanban eram produzidas caixas de escrever baseadas nos modelos indo-portugueses de teca e ébano 172 , que certamente constituíam a maioria das encomendas de caixas de escrever feitas pelos padres, uma vez que lacas de requinte comparável ao da suzuribako seriam significativamente mais dispendiosas. Esta caixa poderá ter sido encomendada para uso pessoal de um padre ou para oferecer a um aliado da Companhia, cristão e detentor de uma alta posição militar 173 . A oferta de presentes, de profunda relevância para os códigos de conduta japoneses, era uma das despesas mais significativas no orçamento da Companhia 174 . Era indispensável que se apresentassem ofertas sempre que se visitavam indivíduos de estatuto elevado, fossem aliados ou, de importância acrescida, a daimyō que se mostrassem menos favoráveis à presença missionária; as lacas nanban, em particular com o monograma da S.J., terão sido encomendadas também para este efeito 175 . Presentes na génese da encomenda nanban, os jesuítas tiveram igualmente um papel preponderante na sua distribuição, que não pode ser dissociado das acções propagandísticas dirigidas à Europa 176 , que tiveram em Alessandro Valignano uma das figuras fundamentais, entre as quais teve particular expressão a embaixada Tenshō 177 . Esta contou com a participação de quatro noviços japoneses do Seminário de Arima, representantes dos daimyō cristãos de Arima, Bungo 178 e Ōmura, e o jesuíta Diogo Mesquita, que em 1582 embarcaram rumo a Lisboa 179 e a Roma 180 , regressando ao Japão em 1590. Interessa-nos reflectir aqui sobre as ofertas que seguiram com eles para a Europa no contexto da missão, que visavam demonstrar o sucesso da missão jesuíta no Japão e 172 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 361 173 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 335-338 174 Boxer, Op. Cit., p. 113 175 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 335-338 176 Dennis, Op. Cit., 2013, p. 40 177 Sobre a embaixada consultar: Moran, J.F., The japanese and the jesuits: Alessandro Valignano in sixteenth-century Japan, London: Routledge, 1993, pp. 6-19 178 Território que actualmente corresponde a Ōita. 179 Com a recente alteração politica na península Ibérica, a embaixada foi, ao invés do inicialmente planeado, recebida no Escorial por Filipe II em 1584. 180 Dirigida ao Papa Gregório XIII, que morreu no decorrer da embaixada, a 10 de Abril de 1585, e depois a Sisto V, que o sucedeu.
43 comprazer os seus patronos, a Coroa Ibérica e a Cúria de Roma, de modo a assegurar o seu financiamento e exclusividade. Entre os testemunhos dos encontros que decorreram no contexto da embaixada, algumas linhas são dedicadas aos objectos lacados enviados para ofertas. No relato feito em 1584 sobre o encontro dos noviços da embaixada com o Filipe II, Luís Fróis, que compilou este texto através de cartas do padre Mesquita, dos noviços japoneses e outros documentos, escreve: “Offereceraolhe algüas peças de Japao, sc. hum escritório feito de canas com seos escaninos (sic., escaninhos), ou gavetas lindamente consertadas, hum vazo de pao de lavar as mãos mui bem dourado cõ ouro moído, q lhe poem debaixo charão; um cesto delicado, q dentro de sy tinha muitas peças, (…); e hũa maneira de pipazinha muito bem uruxada…” 181 Os objectos oferecidos são, aparentemente de índole civil, para uso pessoal do monarca, como o escritório ou o jarro, que se crê ter uma bacia associada 182 . No texto, é frisado o espanto do rei, que aponta as diferenças entre a laca japonesa e a chinesa com que estava familiarizado. De facto, os inventários feitos entre 1598 e 1607 sugerem que maior parte dos objectos lacados que integravam o acervo do palácio de Madrid fossem de origem chinesa 183 . Podemos assumir que, por este aparentar ser o primeiro contacto de Filipe II com a laca japonesa, estas seriam relativamente recentes na Europa 184 . Este episódio não exclui, contudo, a possibilidade de algumas lacas japonesas estarem já disponíveis em Lisboa por via dos mercadores portugueses 185 . Além da embaixada de 1582-1590, a Companhia de Jesus foi igualmente responsável pela oferta de lacas nanban a instituições religiosas europeias. Referimos já o caso do cofre-relicário de S. Roque, inventariado em 1695 no altar de relíquias da Confraria de S. Roque, que poderá ser o cofre de madrepérola de pequenas dimensões 181 Fróis, et. al., La Premiére Ambasade du Japon en Europe, Tokyo: Sophia University, 1942, p. 88 182 Impey, Op. Cit., 2001, p. 109 183 Idem, ibidem 184 Impey, ‘Nanban lacquer for the portuguese market’ in Oriental Art Magazine, vol. XLVI, Nº 3, 2000, p. 43 185 Canepa, Op. Cit., 2016 p.365
44 que estava em 1588 no altar dos Santos Mártires 186 . Embora este caso se reporte ao envio para uma igreja jesuíta, outras peças encontram-se em casas religiosas europeias que não estão necessariamente associadas à Companhia de Jesus, podendo ou não resultar de uma oferta privada 187 . Veja-se, por exemplo, as duas estantes de missal conservadas no Convento de Santa Clara-a-Nova, de Coimbra, com uma decoração predominantemente geométrica e o monograma da Companhia de Jesus na variante iconográfica que inclui duas espigas de trigo e ramificações estilizadas que saem do coração com três espinhos, também patente na estante do Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra. Lacas kirishitan foram igualmente distribuídas para outras missões, como comprova o registo do envio de uma píxide de Japão para Goa entre as doações feitas pelo reverendo provincial frei António Morais para o irmão Agostinho Pedro dos Santos, para a missão do Gorgistão (Curdistão) em 1628 188 . Casos como este podem justificar o número reduzido de píxides que se conserva, em que a sua utilidade se sobrepôs muitas vezes à sua conservação. O envio de lacas japonesas para a Europa ter-se-á arrastado para uma cronologia posterior ao corte de relações com o Japão, como atesta o Livro da Razão, do mercador António Coelho, sobre o envio de “boçettas do Japam (...) dois de hostias” de Goa para Lisboa em 1707. Possivelmente estes objectos estariam conservados em Macau após a emissão do édito anticristão, quando uma parte considerável do material da missão foi para lá transferido 189 . Ao analisar este documento importa, contudo, não esquecer que alguns artistas lacadores integraram o movimento feito para Macau, a par do Seminário de Pintura, e produziram lacas estética e tecnicamente próximas das nanban em contexto macaense, como a arca de grande dimensão com gavetas conservada no Museu de S. Roque 190 . Não excluindo a possibilidade do envio de lacas nanban japonesas numa cronologia posterior, é bastante plausível que algumas lacas ditas do Japão correspondam a uma produção chinesa. 186 Curvelo, Op. Cit., 2010 b), pp. 132-133 187 Dias, Japão, Lisboa: Público, 2008, p.88 188 Pinto, Op. Cit.,1990, p. 32, nota 65; Canepa, Op. Cit., 2016, p. 326 189 Pinto, Op. Cit., 1990, p. 68 190 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 64
45 3. Mercadores Espanhóis A instalação de uma delegação espanhola nas ilhas Filipinas, sediada em Manila a partir de 1565, abriu caminho para que bens da Ásia oriental passassem a circular através do oceano Pacífico até à América, onde os espanhóis se tinham estabelecido militarmente em vice-reinados, e à Europa. Nunca foi estabelecida qualquer tipo presença comercial permanente como se verificava em Nagasaki, com os portugueses, ou em Hirado, com holandeses e ingleses, o que acarretou que a compra de lacas nanban e outros bens do Japão fossem feitos a mercadores de Kyoto, Osaka e Sakai, alguns dos quais cristãos, que navegavam e comerciavam pelo sudeste asiático, e particularmente Manila 191 . Do porto do Cavite partiam as embarcações rumo a Acapulco na Nova Espanha, a partir de onde eram transportadas lacas para abastecer os mercados americanos, particularmente da cidade do Novo México, capital da Nova Espanha, que ficava em caminho para Vera Cruz, de onde partiam os navios com destino a Sevilha, em Espanha 192 . Assim, é na Andaluzia que conservam lacas nanban em maior número 193 . Tal como se verificou no caso dos mercadores portugueses, uma parte significativa dos objectos terá sido adquirida, transportada, e comercializada de forma privada e, como tal, a documentação escasseia 194 . É em Espanha que se conserva um dos objectos com documentação associada de datação mais recuada: de acordo com a Relación historica de la Real fundación del Monasterio de las Descalças de S. Clara de la villa de Madrid, por Juan de Carrillo, publicada pela primeira vez em 1616, a arqueta conservada no mesmo mosteiro foi oferecido pela imperatriz Maria de Áustria, que o trouxe da Alemanha no ano de 1582 195 . O hiato de mais de trinta anos entre a suposta entrada do cofre nas Descalças e a publicação da obra não deve ser, contudo, ignorado, tendo sido defendido que este baú tivesse chegado ao convento poucos anos antes da morte da imperatriz, em 1603, já a servir função de relicário, contendo a relíquia de S. Valério 196 . Esta arqueta é decorada 191 Dennis, Op. Cit.., 2013, p. 39 192 Canepa, Op. Cit., 2009 a), p.260; Dennis, Op. Cit.., 2013, p. 30 193 Kawamura, Op. Cit., 2016, pp. 40 - 42 194 Idem, ibidem 195 Impey, Op. Cit., 2000, p. 42-47 196 Vassalo e Silva, “Cofre Relicário” in Pereira; Vassalo e Silva, Exotica: Os Descobrimentos Portugueses e as Câmaras de Maravilhas do Renascimento, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, pp. 229-31
46 com motivos vegetalistas e aves e um leão chinês, motivos que remetem para a pintura da escola Kanō 197 , compartimentadas por uma tarja colocada ao centro e por molduras que contornam as suas arestas, que ostentam motivos geométricos 198 . Na Nova-Espanha, a procura de objectos de tipologias que correspondessem às necessidades de uma sociedade de matriz europeia impulsionou a compra de lacas nanban, bem como de outros objectos de matriz asiática. As artes desenvolvidas no Vice-Reinado são reveladoras do impacto deste fluxo de objectos, de que são exemplo as lacas de Patzcuaro, as cerâmicas de Talavera, os rodaestrados 199 , ou as pinturas com embutidos de nácar sobre madeira, ditos enconchados relacionadas com a aplicação de raden nas lacas nanban 200 . Também no contexto do vice-reinado peruano é evidente a circulação de lacas nanban, reflectidas na produção de mobiliário decorado com verniz de Pasto 201 . Parte dos objectos nanban enviados para um contexto espanhol deve ser vista à luz do contexto da diáspora de cristãos japoneses que se verificou no seguimento das perseguições levadas a cabo pelo bakufu. Á semelhança do que se verificou em Macau, muitos estabeleceram-se em Manila, onde já existia um assentamento de mercadores japoneses cristãos, e outros, mais abastados, migraram para a Nova Espanha 202 . 197 Kawamura, Op. Cit., 2013, pp. 324-27 198 Idem, ibidem 199 Sanabrais, “From Byōbu to Biombo: The Transformation of the Japanese Folding Screen in Colonial Mexico”, in Art History, vol. 38, 2015, pp. 778–791 200 Curvelo, Op. Cit., 2007, p. 475 201 Kawamura, Op. Cit., p. 96-97 202 Sanabrais, ‘“The Spaniards of Asia”: The Japanese presence in colonial México’ in Bulletin of Portuguese - Japanese Studies, vol. 18-19, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2009, pp. 223-251
47 4. Ordens Mendicantes A presença mendicante no arquipélago japonês surge associada à presença espanhola nas Filipinas, sendo em 1593 iniciado o trabalho missionário da Ordem dos Frades Menores (OFM). De forma semelhante ao papel detido pelos padres jesuítas nas relações luso-nipónicas, os frades franciscanos foram impulsionadores das relações diplomáticas e comerciais entre Manila e o Japão 203 . A partir de 1602 também os padres da Ordem dos Pregadores (OP) e da Ordem de Santo Agostinho (OSA) iniciaram a missionação no Japão. Os padres que constituíam este grupo eram, na sua maioria, originários de Espanha, exceptuando dois casos de crioulos nascidos na América, ambos da Ordem dos Frades Menores 204 . Embora subsistam em maior número objectos kirishitan associados à Companhia de Jesus, as ordens mendicantes foram igualmente responsáveis pela sua encomenda, interagindo com artistas nipónicos associados à escola Kanō, e com um papel activo na circulação de modelos pictóricos a partir da Nova Espanha, usados no Seminário de Pintura jesuíta 205 . Quanto às lacas, subsistem alguns exemplares que podem ser atribuídos à sua encomenda. A estante de missal conservada no Convento de Santa Maria Magdalena, em Medina del Campo, Valladolid, é decorada com motivos vegetalistas outonais, neste caso camélias (tsubaki/ wabisuke). Embora não exista documentação relativa à doação deste atril, é plausível que resulte de uma encomenda feita por padres da OSA instalados em Manila, para o convento de freiras agostinhas em Espanha 206 . Os agostinhos desembarcaram no Japão, a par dos dominicanos, em 1602, pelo que que este atril resulta provavelmente de uma encomenda posterior a esta data. 203 Dennis, Op. Cit., 2013, p. 39 204 Costa, Op. Cit., 1998, p. 662 205 Curvelo, Op. Cit., 2007 206 Canepa, Op. Cit., 2009 a), pp. 274-75 Fig. 4 Estante de missal Santa Maria Magdalena, Medina del Campo
48 Os dominicanos são também responsáveis pela encomenda de algumas lacas nanban. Um exemplo é o da estante de missal que se encontra actualmente em San Esteban, um convento dominicano em Salamanca. Esta assemelha-se visualmente aos atris encomendados pela Companhia de Jesus, pautados pela profusa decoração vegetalista com alguns apontamentos geométricos, com recurso ao raden e ao maki-e para desenhar estes motivos. O espaço central, reservado ao monograma IHS nas estantes jesuítas, ostenta o monograma da OP inserido dentro de um rosário encimado por uma cruz, iconografia que está directamente associada à província de Nossa Senhora do Rosário, onde os dominicanos estavam instalados nas Filipinas 207 . Um crucifixo conservado no Museu de San Esteban, Salamanca, é o único exemplar que reúne a iconografia do cristo moribundo suportado por uma cruz de decoração nanban. A cruz apresenta motivos vegetalistas feitos em maki-e com alguns apontamentos de raden. Ao que tudo indica, a escultura suportada pela cruz é de origem hispano-filipina, o que revela que a cruz terá sido encomendada para exportação 208 . Por se encontrar actualmente num museu associado à OP, é possível que esta tenha sido adquirida por um frade dominicano que a levou para a Manila, onde a escultura da escola hispano-filipina, datável da primeira metade do séc. XVII, foi produzida especificamente para aplicar no crucifixo, e depois enviada para Espanha 209 . Outro objecto ilustrativo de uma encomenda religiosa de influência espanhola, é o sacrário conservado em Gáldar, Gran Canaria, em forma de templete com telhado de duas águas. Constitui-se por um paralelepípedo decorado com motivos vegetalistas em maki-e e raden com uma porta de abertura lateral, encimado pela estrutura do telhado similarmente ornada, com uma cruz de raden inserida no frontão triangular. Está documentada a sua chegada às Canárias junto com jóias de prata em 1626, enviados por Maria de Quintana, da Cidade do México, atestando assim a circulação de lacas pelas 207 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 341 208 Moura Carvalho, “Crucifixo” in O Mundo da Laca: 2000 Anos de História, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p. 115 209 Kawamura, Op. Cit., 2013, pp. 114-15 Fig. 5 Estante de missal Museu San Esteban, Salamanca 35 x 31 x 29.5 cm
49 rotas espanholas, e a dinâmica de ofertas a instituições religiosas por patronos hispanoamericanos, que estará na origem de várias peças conservadas em Espanha 210 . Esta tipologia parece corresponder a uma encomenda predominantemente mendicante, uma vez que não se registam exemplos com iconografia jesuíta associada. O uso dos sacrários num contexto espanhol pode explicar a transformação de um escritório nanban em sacrário, que se conserva em Madrid, no Convento das Clarissas de San Juan de la Penitencia. Esta é uma peça verdadeiramente excepcional que constitui um dos raros exemplos de reaproveitamento de lacas nanban. As gavetas foram removidas do interior, para adaptação às novas funções, e o painel traseiro substituído por outro pintado de negro. Destes foi removida a laca, decorada com motivos vegetalistas, geométricos, e nanban karakusa, posteriormente colada sobre a superfície dos elementos que adornam as laterais e da estrutura de aspecto barroco rematada por uma cruz que encima o escritório. A tampa original apresenta uma cena com aves, tigres e árvores, circundada por uma larga moldura estratificada a três níveis em maki-e e raden 211 , seguindo a estética de horror vacui, acentuada pelo acrescento de prata e pedraria, semelhantes à da produção vice-reinal da primeira metade do séc. XVIII 212 . Registam-se outros casos de acrescento de prata e pedraria associados à Nova Espanha, de que é exemplo a arqueta-relicário conservada na igreja paroquial da Assunção em Miranda de Arga, Navarra 213 . Aqui procedeu-.se à substituição das ferragens originais produzidas no Japão, uma das intervenções mais comuns feitas posteriormente às lacas nanban, por outras em filigrana de prata adequadas a um gosto barroco 214 . 210 Idem, ibidem, pp. 416-17 211 Idem, ibidem, pp. 382-87 212 Kawamura, “Obras de laca urushi de exportación en Navarra: sus llegadas y destinos” in Laca Nanban: Brillo de Navarra, Pamplona: Gobierno de Navarra, 2016, p. 47 213 Idem, ibidem, pp. 76-77 214 Idem, ibidem Fig. 6 Escritóriosacrário Clarissas de San Juan de la Penitencia 76.7 x 64 x 30.2 cm (estrutura original: 33.3 x 44.4 x 30.2 cm)
50 5. Companhias comerciais Embora as lacas nanban para exportação de destinassem maioritariamente a uma clientela de origem sul europeia, também as companhias comerciais norte europeias, a inglesa East India Company (EIC) e a holandesa Vereenigde Oost-Indische Compagnie (VOC) participaram nestas trocas. No caso da VOC, o estabelecimento de uma feitoria em Hirado (1609) permitiu o acesso ao já estabelecido mercado de lacas para exportação, direccionado aos mercados ibéricos. A primeira encomenda documentada fez-se em 1610, e nos anos que se seguiram objectos lacados foram enviados para os Países Baixos. Contudo, a chegada do primeiro carregamento em 1614, não teve a resposta comercial positiva que a VOC esperava, situação atestada pela quase automática ordem de cancelamento da encomenda em Hirado. Esta informação só foi recebida no Japão em 1616 quando o então opperhoofd 215 , Jacques Specx, tinha já feito várias encomendas para envio futuro. Em 1619 são enviadas novas ordens para o Japão no sentido de suprimir a encomenda, o que indica que pelo menos até esta data lacas japonesas continuaram a circular nas rotas de transporte da VOC até à Europa 216 . Em 1628 as relações comerciais entre a VOC e o Japão são suspensas, retomando cinco anos depois, em 1633. Para este período há, no entanto, algumas encomendas privadas e da VOC registadas, que incluíam mobiliário e utensílios de mesa 217 .No ano do regresso dos holandeses a Hirado é feita uma encomenda de lacas, a título privado, avaliada em 350 taels 218 e, a partir de 1634 regista-se nova encomenda oficial, a uma escala substancialmente maior, avaliada entre 3000 a 4000 taels 219 . Aí são dadas directrizes claras quanto às tipologias que não deviam ser encomendadas e que, portanto, teriam sido mais difíceis de vender na Europa: era expressamente proibida a encomenda 215 Chefe de feitoria da VOC. 216 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, pp. 242-45 217 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 392 218 Idem, ibidem, p. 369. O tael de prata é uma das moedas de peso usadas na Ásia, nome comercial da onça de prata chinesa (liang); de acordo com o padre João Rodrigues um tael é equivalente a dez momes japoneses ou a 400 reis do cruzado português. Boxer, Op. Cit., 1989, p. 316 219 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 81; Canepa, Op. Cit., 2016, p. 370
51 de caixas compartimentadas de guardar garrafas e utensílios de mesa 220 .Em 1638 há novas ordens para suprimir as encomendas, uma vez que existiam ainda muitas peças nos armazéns de Batávia, mostrando novamente dificuldade de escoamento das lacas. O nível de detalhe que se verifica na extensa comunicação entre Amesterdão, Batávia e Hirado não tem paralelo com os casos ibéricos. Os conhecimentos de embarque da VOC, parcialmente transcritos por Impey e Jörg 221 , são, por isso, uma ferramenta útil para o estudo da encomenda nanban uma vez que nos dão pistas quanto às tipologias mais frequentemente encomendadas, as quantidades, os preços, e por vezes indicações quanto à decoração. A questão do gosto foi muitas vezes apontada como motivo para o cancelamento das encomendas de laca nanban pela VOC, feito a partir da Europa em 1614. Na análise às fontes escritas da VOC, sobre esta ordem, Cynthia Vialle aponta um comentário referente ao preço elevado a que as lacas eram vendidas nos Países-Baixos 222 , indicando que a fraca recepção das lacas nanban no norte da europa não deve ser reduzida ao argumento do gosto. Face ao insucesso comercial, muitas das lacas excedentes que se encontravam nos armazéns da VOC em Amesterdão ou Batávia foram redireccionadas para ofertas diplomáticas, como é exemplo o baú que integra a colecção do Castelo de Gripsholm 223 , ou algumas lacas que foram oferecidas a Maria de Médicis (1575 – 1642) durante a sua visita a Amesterdão em 1638, cuja descrição registada por Kasper Van Bearle remete para cofres lacados com decorações de ouro e madrepérola 224 . Relativamente à encomenda da EIC, há registo de apenas uma encomenda oficial datada de 1613, durante o período decorrido entre 1612 e 1623, em que a companhia teve uma feitoria em Hirado. Embora se tenha registado o sucesso comercial destes objectos no mercado londrino, não houve continuidade e as encomendas registadas daí em diante na feitoria de Hirado tinham como destino o Sião. Outras encomendas poderiam ser feitas 220 Canepa, Op. Cit., 2016, p.392 221 Impey, Jörg, Op. Cit., 2005 222 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 368 223 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, pp. 242-45 224 Vialle, Cynthia, ‘“Fit for Kings and Princes”: A Gift of Japanese Lacquer’, in Nagazumi Yōko, Large and Broad. The Dutch Impact on Early Modern Asia. Essays in Honor of Leonard Blussé, Toyo Bunko Research Library 13, Tokyo, 2010, pp. 188–222 (apud Canepa, Op. Cit., 2016, p. 371)
58 de horror vacui, pouco comum na arte japonesa, mas associável às artes da China, da India e do islão 253 , está na origem dos termos nanban maki-e ou nanban shitsugei, cunhados no séc. XVI para descrever o estilo decorativo aplicado às lacas produzidas maioritariamente para o mercado externo com gosto concordante 254 . Um cofre 255 nanban de tampa abaulada conservado numa colecção particular no Japão 256 , guarda no seu interior várias caixas e um tabuleiro, cada um decorado com padrões vegetalistas distintos e nanban karakusa em maki-e e raden. Embora, do que nos foi possível verificar, não se conheçam outros cofres com arrumações interiores deste género, é plausível que mais exemplares deste género tenham sido produzidos, podendo mesmo ter sido enviados para a Europa. No exterior, o cofre é decorado por duas tarjas verticais com enxaquetados de raden que compartimentam motivos vegetalistas em maki-e. Os motivos geométricos introduzidos no Japão pelos europeus 257 surgem frequentemente como dispositivos para a compartimentação do espaço, como aqui se verifica, ou em molduras, como se observa no contador de Ambras, mas podem também ser os elementos dominantes da composição. 253 Hutt, Op. Cit., 2004, pp. 234-49 254 Curvelo; Martins, Op. Cit., 2010, p. 21 255 Cofres, arquetas e baús são tipologias de conter bastante semelhantes que se distinguem pelas dimensões e posição das ferragens. De um modo geral, as distinções fazem-se da seguinte forma: os cofres são mais pequenos, apresentando uma pega única em forma de argola achatada na tampa. As arquetas, de tamanho variável entre os 30 e 45 cm de comprimento possuem gualdras nas ilhargas. Os baús são os de maior dimensão, apresentando igualmente gualdras nas ilhargas, e podendo apresentar mais que um fecho, Pinto, Op. Cit., 1990, p. 71; esta tipologia deriva dos cassone italianos usados para guardar roupa, que de acordo com as fontes jesuítas foram levados para o Japão no terceiro quartel do séc. XVI, Canepa, Op. Cit., 2016, p. 351 256 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 107, il. 179 257 Haino, Op. Cit., 1991, p. 170 Fig. 10 Cofre com caixas e tabuleiro Coleccção privada, Japão 20.6 x 28.5 x 16.9 cm
59 A arca-escritório 258 adquirida pelo Metropolitan Museum of Art em 2008 259 , tem a sua tampa exteriormente decorada com um complexo esquema geométrico, composto por um losango intersectado por quatro quadriláteros irregulares alinhados com as esquinas do tampo, sendo decorados no interior com enrolamentos vegetalistas estilizados, coroados por um circulo e quatro quadriláteros irregulares mais pequenos, vagamente reminiscente de uma flor, preenchidos com partículas de madrepérola , todos delineados por uma faixa de raden criando múltiplos espaços decorativos. Neles predomina uma decoração geométrica, com enxaquetados quadrangular, triangular ou losangular e shippōtsunagi, em que abunda a aplicação de raden, e os dois espaços centrais são decorados com delicadas composições vegetalistas. Na frente reproduz-se o mesmo esquema decorativo cortado no eixo horizontal, de que se exclui a gaveta colocada no nível inferior que ocupa toda a largura da base, decorada com uma faixa de elementos vegetalistas e zoomórficos em maki-e com alguns apontamentos de raden, emoldurados por uma fina moldura de nanban karakusa. Pinto 260 remete a decoração geométrica para um segundo momento no desenvolvimento das lacas nanban, que se segue às decorações vegetalistas. Como estes elementos não integravam o repertório decorativo japonês e foram introduzidos pelos europeus 261 , surgiram primeiro em pequenos apontamentos, nas zonas laterais ou nas tarjas, tomando progressivamente mais espaço na composição, por vezes preenchendo quase todo o objecto, como nas estantes de missal da S.J. conservadas em Santa Clara-aNova. 258 As arcas ou arcas-escritório são uma tipologia de conter definida pela forma de paralelepípedo, tampa direita e pegas laterais, podendo ou não incluir gavetas de número variável na base. A sua forma deriva das pequenas arcas de estrado com uma gaveta frontal e uma tampa superior de levantar, usadas na Europa para guardar utensílios de escrita, como tinteiros, areeiros, canetas, nas gavetas e papel no espaço superior. Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 145; Abreu, Op. Cit., 2008, p. 60. 259 Welsh; Vinhais, Op. Cit., 2008, pp. 242-45 260 Pinto, Op. Cit., 1990, pp. 60-62 261 Haino, Op. Cit., 1991, p. 170 Fig. 11 Arca-escritório Metropolitan Museum of Art 24.4 x 33.5 x 49.4 cm
60 As fórmulas decorativas vegetalista ou zoomórfica compartimentadas por elementos geométricos, ou predominantemente geométricas, coexistem com outro tipo de composição, que se pode reportar a um terceiro momento, marcado pela inscrição das composições vegetalistas e zoomórficas em reservas de formas distintas 262 . Exemplo deste modelo é o já referido cofre do Museu de São Roque, cuja forma da cartela acusa a influência da arte safávida 263 . Outra variante das cartelas empregues na decoração nanban pode ser observada no ventó 264 de uma colecção privada em Lisboa, em que motivos vegetalistas e aves se restringem a uma cartela de forma losangular sobre um fundo de shippōtsunagi 265 . Enquadramento semelhante é aplicado no topo de um dos contadores expostos no Museu da Fundação Oriente 266 que ostenta uma cartela polilobada em que figuram uma ave e um leão, folhagem de árvores nativas da Ásia, em maki-e e alguns apontamentos de raden. A sua fábrica apresenta uma gaveta central, maior que as circundantes, que simula um escaninho com um pórtico de arco de volta inteira sem ordem arquitectónica, modelo que foi bastante reproduzido nos escritórios e contadores do Japão, com raiz nos cabinets da Flandres 267 . A popularidade deste modelo estará na origem da sua adaptação, pouco comum à tipologia da arca escritório, de que se conhece um único exemplo, conservado numa colecção privada em Lisboa 268 com cinco gavetas dispostas em dois níveis e um escaninho central que simula a forma de um pórtico. Este modelo estará também na base 262 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 352 263 Jordão Felgueiras, “Cofre-relicário” in Pereira; Vassalo e Silva, Exotica: Os Descobrimentos Portugueses e as Câmaras de Maravilhas do Renascimento, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, pp. 231-32 264 O ventó é uma tipologia semelhante aos contadores e escritórios, que se distingue pela forma de caixa paralelepipédica com uma porta única de abertura lateral, também portadora de gavetas de tamanhos distintos no interior, usadas para funções semelhantes. Não existe um consenso quanto à origem da tipologia, certamente asiática, mas os exemplos japoneses, que surgem no período Momoyama, parecem derivar dos modelos indo-portugueses. Abreu, Op. Cit., 2008, p. 67; Dias, Op. Cit., 2008, p. 101 265 Welsh, “Arca de Escritório [ventó] in Curvelo; Martins, Encomendas Nanban: Os Portugueses no Japão da Idade Moderna, Lisboa: Fundação Oriente, 2010 b), pp. 115-117 266 Curvelo, “Contador Nanban” in Presença portuguesa na Ásia: Testemunhos, Memória, Coleccionismo, Lisboa: Fundação Oriente, 2008, pp. 126-27; Curvelo; Martins, pp. 112-114 267 Pinto, Op. Cit., 1990, p. 81 268 Impey, Op. Cit., 2000, p. 117; Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 145, il. 300;
61 dos escritórios com gaveta central com ausência da microarquitectura 269 , como o exemplo de proporções cúbicas conservado no Museu Nacional Soares dos Reis 270 . A decoração empregue neste escritório aproxima-se técnica e formalmente da que preenche a arqueta conservada no Museu Nacional de Arte Antiga 271 , adornada com motivos vegetalistas de grandes dimensões em maki-e, e um uso moderado de elementos de raden recortados em formas aleatórias. Este tipo de decoração menos cuidada remete para uma produção posterior a 1600, quando, para responder a um crescente volume de encomendas, se tomou por vezes uma orientação decorativa menos laboriosa e cuidada 272 . Exemplos como este ilustram como os contornos gerais da produção nanban se adaptaram a mercados e recursos financeiros distintos, que coexistiram cronologicamente. Alguns objectos, aos quais está associado um maior rigor no processo decorativo ostentam, em planos secundários, representações mais próximas dos cânones decorativos japoneses, como o que se observa no interior da tampa da arca-escritório do Metropolitan Museum of Art. Um quarto e derradeiro momento no estilo nanban passa justamente pela introdução de paisagens com flora, fauna, e arquitectura representadas segundo uma matriz japonesa, por vezes alusivas à cultura literária nipónica 273 . A arca-escritório conservada numa colecção privada no Porto 274 constitui um dos raros exemplos do emprego uma forma decorativa ‘pictórica’ num objecto de estilo nanban. Com a tampa em forma almofadada e sem gavetas, tipologia pouco convencional, apresenta o topo decorado com uma reserva polilobada colocada sobre um padrão 269 Pinto, Op. Cit., 1990, p. 84-88. Um exemplo de formato, decoração e ferragens semelhantes encontrase no Museu Nacional de Cracóvia. 270 Pinto, Op. Cit., 1990, p. 84-88 271 Pinto, Arte Nanban: Os portugueses no Japão, Lisboa: Museu Nacional Arte Antiga: Fundação Oriente, 1990, p. 57 272 Kawamura, Op. Cit., 2013, pp. 346-47 273 Um exemplo da representação de episódios do Genji Monogatari pode ser visto no tabuleiro nanban do Metropolitan Museum of Art. Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 198 274 Curvelo, “Arqueta”, in Curvelo; Martins, Encomendas Nanban: Os Portugueses no Japão da Idade Moderna, Lisboa: Fundação Oriente, 2010, p. 121-23 Fig. 12 Arqueta Museu Nacional de Arte Antiga 29 x 43 x 25 cm
62 axadrezado de raden e motivos vegetalistas estilizados em maki-e. Dentro da cartela surge uma representação muito pouco comum entre as lacas nanban preenchida por veados, pássaros em voo, ramagens e flores, e uma cerca a ladear um torii 275 , composição de matriz japonesa, executada em raden, técnica privilegiada pela encomenda sul europeia. As semelhanças desta composição com a da escrivaninha conservada no Herzog Anton Ulrich Museum, em Braunschweig 276 são evidentes. Também no interior da arca é polvilhada uma composição mais próxima dos cânones japoneses, numa cena com três coelhos sob um chorão. As laterais do cofre apresentam uma decoração pautada pelo usual horror vacui, com cercaduras de shippōtsunagi em que se inserem representações vegetalistas de folhagens e pássaros mais associadas às nanban maki-e. Estes objectos de estilo nanban tardio reportam-se a uma cronologia compreendida entre 1630 e 1650 277 , que corresponde ao período de coexistência dos estilos nanban e pictórico, quando a encomenda holandesa suplantou a sul europeia, resultando numa reorientação estilística com o gosto predominante em vista. Embora o estilo nanban se defina essencialmente pelo emprego de maki-e e raden, outras técnicas japonesas foram adaptadas à produção de exportação, seguindo cânones estéticos semelhantes. Um ventó de uma colecção privada 278 , de forma rectangular com uma porta que abre lateralmente à direita e sete gavetas no interior, apresenta-se decorado com dentículos polvilhados que cobrem toda a superfície, exceptuando as molduras decoradas com shippōtsunagi e enxaquetados em raden e maki-e. A técnica dos dentículos polvilhados 279 obtém-se através da colagem de dentículos cutâneos de tubarões ou raias sobre a 275 Portão associado aos templos xintoístas, marca a passagem do profano para o sagrado. 276 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p.203, il. 492 277 Cronologia proposta por Impey e Jörg para o dito estilo ‘de transição’. Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, pp. 77-85 278 Vinhais; Welsh, Op. Cit., 2008, pp. 194-199 279 Idem, ibidem Fig. 13 Ventó Colecção privada 39.4 x 46.8 x 35.5 cm
63 superfície lacada, extraídos após o apodrecimento das partes moles dos peixes. É depois aplicada uma nova camada de laca, que é polida de modo a revelar os dentículos. Esta é mais uma das respostas dos artesãos da laca às transformações ocorridas no mercado interno, e ao aumento exponencial da procura por agentes externos. Este método procura reproduzir outro, que requeria um labor mais cuidado e demorado, que consistia na aplicação da pele de tubarão ou raia sobre a superfície de madeira, sobre as quais eram aplicadas camadas de laca, posteriormente polidas, revelando as escamas brancas dos peixes. Recorrendo ao processo dos dentículos polvilhados, criava-se um efeito visual semelhante, o que levou a que os dois fossem muitas vezes confundidos. A quantidade elevada de animais requeridos para extrair os dentículos em número significativo podia aumentar o custo de produção 280 , mas de acordo com a documentação da VOC, em que surgem várias referências à compra de objectos decorados com rochevellen 281 , é possível concluir que os preços dos objectos variavam de acordo com o tamanho, e não com as técnicas decorativas aplicadas 282 . A documentação da VOC indica que objectos decorados deste modo foram encomendados ao longo da década de 1630, sem continuidade após 1645 283 , cronologia que levou Impey e Jörg a remeter este tipo de produção para as lacas ‘de transição’ 284 . Contudo, como referimos previamente, parecenos mais apropriada a designação de nanban tardio, particularmente para o ventó que aqui analisamos, que não apresenta nenhum elemento decorativo que o possa circunscrever a um grupo de objectos de transição para o estilo ‘pictórico’. Outra vertente das nanban maki-e, claramente influenciada pela cultura material associada ao kurofune e às relações comerciais portuguesas e luso-asiáticas, é a das lacas revestidas com recortes de madrepérola que criam um efeito de semicírculos sobrepostos, fixadas com pequenos pregos, ao estilo das peças de madrepérola do Guzarate. O contador de uma colecção privada apresentado na exposição A Cidade Global 285 , apresenta uma fábrica de doze gavetas decoradas com recortes de madrepérola, 280 Idem, ibidem 281 Nome que surge na documentação da VOC para a técnica dos dentículos polvilhados. 282 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 370 283 Vinhais, Welsh, Op. Cit., 2008, pp. 194-199 284 Impey, Jörg, Op. Cit., 2005, pp. 77-85 285 Borges de Sousa, “Contador Nanban”, in Gschwend, A cidade Global: Lisboa no Renascimento, Lisboa: Museu Nacional de Arte Antiga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017, p. 173
64 individualmente emolduradas por shippōtsunagi, combinação que se repete nos painéis laterais e superior. O painel traseiro apresenta uma decoração distinta, com enrolamentos vegetalistas em maki-e com alguns apontamentos de raden, envoltos por uma moldura complexa composta por uma faixa de raden, nanban karakusa e um padrão enxaquetado. Também o baú patente no Victoria and Albert Museum 286 partilha da mesma decoração de madrepérola e shippōtsunagi no exterior, sendo o interior da tampa abaulada decorado com enrolamentos vegetalistas e duas aves em maki-e dourado sobre um fundo negro. Exemplos semelhantes são uma arqueta 287 com uma gaveta na base, dissimulada pela continuidade do padrão decorativo, pertencente a uma colecção privada em Lisboa, ou um baú 288 conservado numa colecção privada no Japão, com três gavetas na base, tendo o interior decorado com enrolamentos vegetalistas e figuras japonesas 289 em maki-e. O emprego desta decoração é representativo de como a circulação de bens de origem asiática, representada nos biombos alusivos ao comércio com os nanban-jin, foi determinante para a construção do repertório decorativo nanban. Os mercadores portugueses adquiriam os objectos que estão na base desta decoração no Guzarate e em Sinde 290 a partir da década de 1520, redireccionando-as para os mercados dos locais de influência portuguesa na Índia, costa oriental africana e Europa ocidental 291 , de que é exemplo o cofre da Sé Patriarcal de Lisboa 292 , de tampa troncopiramidal, revestido a madrepérola. 286 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 252 287 Pinto, Op. Cit., p. 89 288 Impey; Jörg, Op. Cit., p. 147 il. 358 289 Embora sejam comuns as representações dos nanban-jin, a representação de figuras japonesas é rara em objectos lacados e encontra-se sobretudo em objectos associados a colecções japonesas. A exportação de imagens que representassem japoneses, particularmente em cenas de contornos bélicos, foi, mais tarde proibida pelo bakufu em 1641. Canepa, “Cofre”, in Welsh; Vinhais, Op. Cit., 2003, pp. 92-95 290 Hutt, Op. Cit., 2004, pp. 234-49 291 Curvelo, Op. Cit., 2007, p. 200 292 Borges de Sousa, Op. Cit., 2017, p. 173 Fig. 14 Cofre do Guzarate (primeiro terço do séc. XVI) Museu do Tesouro da Sé de Lisboa 48 x 65 x 42cm
65 O gosto da clientela luso-asiática terá sido determinante na encomenda de objectos de feição semelhante aos do Guzarate no Japão, que por eles eram muito apreciados, como atesta o testemunho de Linschoten no seu Itinerário 293 sobre os objectos de madrepérola “… não haverá casa na Índia onde não se encontre um objecto feito de madrepérola” 294 . Aos cofres nanban é comum a tampa abaulada, tipologia predominante nas encomendas no Japão, mas não exclusiva. Dois cofres semelhantes conservados na Paróquia de San Pedro Apóstol de Mendigorría, Navarra 295 , e na Paroquia de San Miguel e San Nicolás, em Valladolid 296 , apresentam uma tampa tronco-piramidal com dois níveis de inclinação nas faces. Esta forma paralelepipédica com tampa troncopiramidal, de origem islâmica, era usada nos cofres do Guzarate antes da chegada dos portugueses 297 . A sua reprodução associada a este tipo de decoração evidência, uma vez mais, a rede de circulação de objectos do Guzarate para o Japão. Os cofres partilham a aplicação de placas de madrepérola ao modo de Guzarate, fixadas com pregos metálicos no primeiro exemplo, e com recurso à técnica togidashi raden 298 no segundo, que se estende a toda a superfície, com excepção de uma fiada de shippōtsunagi em maki-e e raden disposta na base e na tampa. O cofre de Valladolid, que 293 Originalmente publicado em 1596 com o título: “Itinerario: Voyage ofte schipvaert van Jan Huyghen van Linschoten naer Oost ofte Portugaels Indien, 1579-1592” 294 Borges de Sousa, “Cofre” in Presença portuguesa na Ásia: Testemunhos, Memória, Coleccionismo, Lisboa: Fundação Oriente, 2008, p. 71 295 Kawamura, Op. Cit., 2016, pp. 80-81 296 Kawamura, Op. Cit., 2013, p. 374-76 297 Jordão Felgueiras, Op. Cit., 2001, p. 111 298 Este processo consiste na aplicação dos recortes de madrepérola sobre a laca húmida, às quais é adicionada outra camada de laca, procedendo-se depois ao polimento de toda a superfície, revelando a madrepérola. Kawamura, Op. Cit.,2013, p. 374-76 Fig. 15 Cofre-relicário Paróquia de San Pedro Apóstol de Mendigorría, Navarra 22 x 33,5 x 20,5 cm.
66 acusa uma técnica mais laboriosa, é lacado e decorado no interior com motivos vegetalistas dispostos em enrolamentos estilizados 299 . É curioso que estes objectos, absolutamente excepcionais na sua tipologia, se conservem em Espanha, podendo indicar que resultam de uma encomenda espanhola que, não tendo acesso directo aos mercados do Guzarate, podia encomendar no Japão objectos de feição semelhante. Além dos objectos de conter outras tipologias como pratos, tabuleiros ou travessas, necessários à vivencia quotidiana, seriam também encomendados no Japão pelos padres e mercadores que lá residiam. Embora estes não fossem primariamente encomendados para exportação, mercado em que se nota uma clara preferência por objectos de conter, é sabido que também circulavam 300 . Os tabuleiros são um objecto de uso comum, usados como mesas transportáveis, em meios domésticos, e estariam entre os objectos lacados mais baratos 301 . Além de servirem funções práticas da esfera doméstica, em contexto japonês está documentado o uso de tabuleiros lacados nanban, para apresentar ofertas 302 . Esta é uma das tipologias que menos se conserva, conhecendo-se apenas um exemplo que pode ser atribuído com certeza a uma produção japonesa 303 . Referimo-nos ao tabuleiro conservado no 299 Idem, ibidem 300 Dias, Op. Cit., 2008, p. 113 301 Abreu, Op. Cit., 2008, p. 59 302 Entre as regras de protocolo japonesas documentadas pelos padres da Companhia, uma parte importante é dedicada às ofertas diplomáticas e aos códigos de conduta relacionados, profundamente distantes dos europeus. No Japão, no acto de entregar um presente, não se deve tocar o receptor, por isso, eram usados dispositivos como tabuleiros produzidos especificamente para este efeito ou outros, escolhidos consoante o estatuto social do ofertado. Leiria, Op. Cit., “Nanban Art. Packing and Transportation”, in Bulletin of Portuguese - Japanese Studies, nº 5, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa 2002, p. 60-64 303 Á semelhança do que se verifica com alguns oratórios, entre os tabuleiros encontram-se vários exemplos que, de acordo com estudos laboratoriais recentemente desenvolvidos por Ulrike Kōrber, resultam de uma confluência de intervenções em locais distintos. Objectos que remetem para um estilo decorativo nanban podem ser, na realidade, lacados na China ou nas Ryukyu, por vezes sobre uma estrutura de madeira talhada de proveniência indiana, de que é exemplo o tabuleiro conservado na colecção Fernando Távora, no Porto, de proveniência conventual. Polido, Neuza Cláudia Severino, Lacas de exportação no contexto lusoasiático e a sua circulação entre a Índia, China e ilhas Ryukyu, Dissertação de Mestrado em História da Arte, FCSH-UNL, 2017, p. 63 e p. 111 Fig. 16 Tabuleiro Metropolitan Museum of Art 76.3 x 40.7 cm
67 Metropolitan Museum of Art 304 , de configuração rectangular com o bordo rampado, profusamente decorado com raden e maki-e ilustrando três cenas do Genji Monogatari. A representação desta obra literária do séc. XI vê-se repopularizada durante o período Momoyama, sendo motivo recorrente nos biombos da escola Kanō 305 , associada à elite militar, ou da escola Tosa, pintores oficiais da corte imperial 306 . Dos pratos que se encomendaram, uma tipologia abundantemente referida nos inventários da VOC, conhecem-se três exemplares, de que se conserva um no L.A. County Museum, nos Estados Unidos, decorado com duas faixas de recortes losangulares de raden e ao centro motivos vegetalistas em maki-e e recortes de raden, e outros dois exemplos no Japão, na colecção Bunkacho, em Tokyo, e numa colecção privada, decorado com motivos geométricos e uma reserva em que se insere uma paisagem com um templo e animais em raden 307 . A sua localização actual indica que exportação para a Europa terá sido feita de forma residual, atestando, uma vez mais, a falta de procura por objectos de tipologias utilitárias na Europa. As garrafas lacadas ou tokkuri são produzidas a partir dos modelos de vidro usados na europa designados por ‘case gin’, mas que eram provavelmente usadas para transportar vinho ou brandy 308 . Os poucos exemplos conhecidos apresentam decorações vegetalistas em maki-e e raden, e conservam-se sobretudo em colecções museológicas japonesas 309 e colecções privadas, de que há um exemplo em Portugal 310 , decorado com motivos vegetalistas. É plausível que esta tipologia tenha inicialmente sido encomendada por europeus para seu uso e comercialização, e que tenha sido apropriada pelos japoneses para guardar sake 311 . 304 Impey, Jörg, Op. Cit. 2005, p. 198 305 Curvelo, Op. Cit., 2007, p. 171 306 Veja-se, por exemplo o biombo de Tosa Mitsuyoshi com cenas do Genji Monogatari conservado no Metropolitan Museum of Art. 307 Impey; Jörg, Op. Cit., 2005, p. 181 308 Vinhais, Welsh, Op. Cit., 2008, pp. 200-03 309 Ver, por exemplo, o conjunto de seis garrafas conservadas numa caixa igualmente lacada, adquirido pelo Museu Nacional de Quioto a uma colecção privada em Crewkerne, Dorset, ou um par do Nanban Bunkakan de Osaka. Vinhais, Welsh, Op. Cit., 2008, pp. 200-03 310 Canepa, Op. Cit., 2016, p. 376 311 Dias, Op. Cit., 2008, p. 113 Fig. 17 Tokkuri Colecção privada, Portugal 30.6cm x 11.8cm
74 lacas para uso civil de tipologias europeias, e de formas japonesas decoradas com o estilo associado ao gosto estrangeiro. Assim, as tipologias decoradas ao estilo nanban não se restringem às europeias, embora estas constituam a maioria, mas alargam-se a tipologias provenientes da Ásia de influência portuguesa, já por eles apropriadas, ou a tipologias japoneses, que evidenciam a participação de intervenientes distintos nesta encomenda. Em termos estilísticos podemos definir as lacas nanban pelo fundo de laca negra, em que, com o recurso às técnicas de maki-e e raden, se inserem motivos que remetem para a flora e fauna da ásia oriental, que fazia já parte do repertório decorativo nipónico, e os motivos geométricos de matriz europeia ou os padrões japoneses (shippōtsunagi ou ishitatami entre os mais comuns), organizados segundo uma estética que remete para produções asiáticas associadas ao mar arábico e à baia de bengala, ou à China, pautadas por uma estética de horror vacui que marcou o tom das composições decorativas das lacas japonesas para exportação produzidas sensivelmente entre as décadas de 1580 e 1640. Estes elementos primordiais desdobram-se em diferentes versões ao longo das cerca de seis décadas em que se desenvolveu a produção de lacas nanban, e surgem, por vezes, combinados com outros elementos adaptados ao gosto dos nanban-jin. É o caso das lacas que remetem para uma produção do Guzarate, reproduzindo a fixação de placas madrepérola que se fazia nessas paragens, que passam a integrar o estilo nanban. A par das influências externas, também no Japão se desenvolve uma nova técnica, a dos dentículos polvilhados, a partir de outra mais antiga, adaptada ao gosto estrangeiro, para satisfazer o crescente volume de encomendas para o mercado externo, que passa a integrar o estilo nanban. O mesmo se pode dizer das pequenas composições, mais fiéis à estética nipónica e relegados para planos secundários, como o interior dos cofres, que surgem esporadicamente, e em objectos com maior rigor decorativo. A dificuldade que se encontra ao tentar definir os limites do estilo nanban é reveladora do constante diálogo entre referências artísticas tão dispares, que se reuniram nesta produção hibrida e sincrética que são as lacas nanban.
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