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O corpo que nasce da improvisação e a sua potência no espaço público

Fonseca, Rodrigo Silva da

Abstract

Esta tese propõe relacionar o corpo que nasce das práticas de improvisação performativa com o espaço púbico. Analisa diversas coreografias e práticas de improvisação de modo a entender os seus mecanismos de produção, e as subjetividades individuais e colectivas que surgem das mesmas. Quais são as potencialidades deste corpo na arena pública? De que maneira o espaço público influencia e potencializa este corpo? Através do conceito da coreografia social procuramos entender como se jogam todas estas nuances, analisando a qualidade política e de transgressão da performance, do movimento e do corpo.

Full text

O co po que nasce da imp o isação e a sua po ência no espaço público Rod igo Sil a da Fonseca (JUNHO, 2021) Disse ação em A es Cénicas Rod igo Fonseca “O co po que nasce da imp o isação e a sua po ência no espaço público”, 2021 Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de Mes e em A es Cénicas, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a Dou o a Síl ia Tengne Ba os Pin o Coelho. pa a aseando a dedica ó ia do meu ca o amigo JA, a quem es e e em Ibiza, no mí ico ano de 1967 O co po que nasce da imp o isação e a sua po ência no espaço público Rod igo Fonseca Resumo Es a ese p opõe elaciona o co po que nasce das p á icas de imp o isação pe o ma i a com o espaço púbico. Analisa di e sas co eog a ias e p á icas de imp o isação de modo a en ende os seus mecanismos de p odução, e as subje i idades indi iduais e colec i as que su gem das mesmas. Quais são as po encialidades des e co po na a ena pública? De que manei a o espaço público in luencia e po encializa es e co po? A a és do concei o da co eog a ia social p ocu amos en ende como se jogam odas es as nuances, analisando a qualidade polí ica e de ansg essão da pe o mance, do mo imen o e do co po. PALAVRAS-CHAVE: co po, mo imen o, co eog a ia, espaço público, pe o mance. Abs ac This hesis p oposes o ela e he body ha bo ns om pe o ma i e imp o isa ion p ac ices wi h he public space. I analyzes di e en cho eog aphies and imp o isa ion p ac ices in o de o unde s and hei p oduc ion mechanisms and how indi idual and collec i e subjec i i ies ha s em om hem. Wha a e he po en ials o his body in he public a ena? How does he public space in luence and empowe his body? Th ough wha was concei ed by social cho eog aphy, we seek o unde s and how all hese nuances a e played, analyzing he poli ical and ansg essi e quali y o pe o mance, body and mo emen . KEY WORDS: body, mo emen , cho eog aphy, public space, pe o mance. ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO 4. GRAND UNION - PRÁTICAS DE IMPROVISAÇÃO E DE VIDA DISRUPTIVA 20. DANÇA-POLÍTICA, ESTÉTICA-IDEOLOGIA 36. O CORPO E O EXTERIOR 49. PERFORMANCE E PENSAMENTO 65. CONCLUSÃO 68. BIBLIOGRAFIA INTRODUÇÃO A p esen e disse ação começa po expo e e lec i sob e as p á icas de imp o isação e o modo de ida do g upo G and Union (GU). Es as e lexões su gem em boa pa e do exe cício do GU em coloca as suas on ades à me cê da alea o iedade e da usão a e- ida. As p á icas e os modos de se do GU dialogam com as p á icas e os modos de se que expe ienciei no c.e.m du an e os úl imos ês meses de 2020. Com base em Ba ba a Dilley, abo dámos o p ocesso c ia i o na sua elação com a espi i ualidade, e colocámo-la em jogo com a o dem do sensí el de Jacques Ranciè e (2010). Nes e capí ulo pensamos sob e o aze -nasce da subje i idades em colec i o, e de como i emos essa subjec i idade indi idualmen e. A pa i das expe iências da GU me gulhámos na imp o isação de modo a en ende de que manei a o co po que nasce daí c ia e habi a no os mundos. A elação en e co po e espaço é abo dada endo em con a o en endimen o de Lepecki sob e o u bano como luga onde «a ação polí ica se equipa a à dança», assim como a elação da small dance de Pax on com a quie ude como espos a ao enesim u bano (2012, 48). São elacionados os concei os de imanência e epe ição de Deleuze com o co po que nasce da imp o isação, e ainda, pa indo da co eog a ia social de Hewi , colocada em cima da mesa a ideia de que a imp o isação pode se is a como elemen o ans o mado de uma no a o ganização social. O segundo capí ulo concen a-se no concei o de co eog a ia social e nas possibilidades que su gem ao olha mos o espaço público a a és dele. Ao olha mos a co eog a ia social como mé odo c í ico, como suge e o Hewi , en endemos que ala da es é ico do eu é ala da es é ica do colec i o. Es e pon o de is a dá-nos a possibilidade de olha pa a as idiossinc asias do eu como pa e de um odo do qual não de e se sepa ado. A a és da co eog a ia social abo damos o modo como as a es pe o ma i as se mis u am com a ida, olhando pa a as suas especi icidades co po ais e e éme as, de modo a salien a e a a i ma a sua capacidade de ansg essão e po ência polí ica. O p esen e capí ulo p ocu a a i ma a dança como o meio es é ico que p ocu a en ende a a e como algo iminen emen e polí ico. Ao azê-lo, admi imos ambém que oda e qualque ação é ideológica, e sendo es e o nosso chão, podemos u iliza o concei o da co eog a ia social como o ma de desenha uma o dem social no eino da es é ica. Hewi demons a-nos que es uda dança como co eog a ia social 1 pe mi e-nos en ende de o ma es é ica p oblemas sociais especí icos. Coloca-se uma pe gun a: Qual se á a ele ância de olha , e de p ocu a en ende , os p oblemas sociais de o ma es é ica? Descon io que des a manei a pode emos encon a ou as e amen as de esis ência pa a jun a à lu a polí ica. No e cei o capí ulo Lepecki es á à p ocu a dos elemen os da co po alidade que o mam a sua capacidade discu si a. Pa a o au o b asilei o é na co po alidade que eside a capacidade colec i a de agi c i icamen e, es e icamen e, e poli icamen e (2017, 18-20). O olha de Lepecki pa a a co po alidade comunica com a on ade des a disse ação de pensa e imagina o co po na sua po ência polí ica, pensa o modo como a es é ica nos in luencia, e na u ilização do co po como ins umen o de elação com o mundo. É colocado em cima da mesa o concei o de co po eidade. A co po eidade exp essa a elação dos co pos com as o ças económicas e polí icas, assim como com as o ças cósmicas, as o ças a ec i as, as o ças da imaginação e do desejo. Conside amos que es e concei o é pe inen e nes a disse ação po que nos pe mi e olha a complexidade do co po e as suas possibilidades an o na es e a pe o ma i a, como na es e a pública. Jü gen Habe mas a i ma que o espaço público não é go e nado nem pelo Es ado, nem pelos in e esses come ciais (2017, 30). And é Lepecki e Ma a Dziewanska (2017, 85-89) êm da -nos pis as e exemplos de modo a ap o unda mos o ca ác e polí ico da pe o mance e das po encialidades do espaço público. Que co po nasce, ou pode nasce nesse espaço? É sublinhada a pa icipação de Bojana Kuns em Poin s o Con e gence po que a sua análise p ocu a descons ui a pe o mance pa a melho en ende os seus mecanismos de p odução e uncionamen o (2017, 85-143). No capí ulo III começam a se analisadas pe o mances conc e as, como a a e pe o ma i a b asilei a dos anos 60 e 70 do século XX, The A is is P esen de Ma ina Ab amo ic, Walking (1963) de Lygia Cla k, o casal Elżbie a e Emi Ciesla e o seu abalho na Gale ia Repassage, a eo ia da Fo ma Abe a de Oska Hansen e a cons elação de a is as da neo- angua da polaca que habi a a o seu es údio. Os nomes aqui mencionados, assim como as pe o mances aqui e e idas, o am abo dadas de ido à sua p o eniência. T a a-se de pe o mances e a is as que es ão o a dos cen os geog á icos e cul u ais da Eu opa Ociden al e dos EUA. Ao abo da os con ex os pe o ma i os da Polónia e do B asil dos anos 1960 e 1970, p e endemos da a conhece ou as e e ências menos habi uais nos li os de His ó ia da A e, e conhece ou os pon os de is a sob e o co po, que 2 conside amos que en am em diálogo com as ideias da G and Union sob e o espaço público e o ca ác e polí ico da pe o mance. No úl imo capí ulo da p esen e disse ação, a a és do olha de Bojana C ejić (2015) e do pensamen o de Deleuze (2007), p e endemos p oblema iza a de inição, e abo da a elação, dos e mos “pe o mance” e “ iloso ia”. As pe o mances aqui omadas como exemplo são expe imen ações e concep ualizações dos mé odos de abalho do co po que dança. Jus i ica-se o c uzamen o des es dois au o es uma ez que se conside a que o pensamen o de Deleuze é mui o in luen e no con ex o pe o ma i o, in elec ual, e académico dos p incipais “cen os” a ís icos eu opeus, onde é amplamen e ci ado e e e enciado. C ejić con ibui pa a o assun o des a ese na medida em que analisa os mecanismo de p odução e signi icado da co eog a ia e da dança. Fá-lo com ecu so aos co eóg a os e às ob as Sel Un inished e Un i led de Xa ie Le Roy, Weak Dance S ong Ques ions de Jona han Bu ows e Jan Ri sema, héâ e-élé ision, de Bo is Cha ma z, N sbl de Esz e Salamon, 50/50 de Me e Ing a sen, e I ’s in The Ai de Me e Ing a sen e Je a an Din he . A análise des as ob as pa ece-nos pe inen e po que es as co eog a ias azem-nos uma imagem do co po na dança di e en e da que nos habi uámos em espec áculos onde o co po que dança é apenas um ins umen o da ideia do co eóg a o: ala gam os modos de exp essão do p ocesso c ia i o não se limi ando à composição do mo imen o. A au o a salien a es a he e ogeneidade a i mando que a composição dos co pos e do mo imen o não se eme e exclusi amen e à exp essi idade a ís ica, que há ou as o mas de composição o a da a e (C ejić 2015: 11). Es e pensamen o ai ao encon o do assun o des a disse ação no que oca à p ocu a de ou as o mas de pensa o co po e as suas po encialidades polí icas. No capí ulo PERFORMANCE E PENSAMENTO p ocu amos en ende com S. Pax on de onde nasce a imp o isação e como se a icula no co po, dando con inuidade às e lexões ei as sob e imp o isação no p imei o capí ulo des a disse ação. 3 Numa ca a de amo e de admi ação aos seus baila inos, esc e e que po sua causa e e uma epi ania : 3 As pala as da baila ina ão no seguimen o do que aqui já oi alado: mescla a a e e a ida queb ando odas as on ei a en e es as. W. Pe on salien a que a baila ina es adunidense demos a aos seus baila inos que são abalhado es como quaisque ou os, abalhado es com o p opósi o de desmis i ica a dança, e po consequência o/a baila ino/a (o/a a is a). P omo e uma a i ude mais iguali á ia em elação às mulhe es de o ma a acaba com o na cisismo do e i ó io da pe o mance (das a es pe o ma i as; da a e em ge al). A imp o isação segundo Ba ba a Dilley é um p ocesso no qual o co po «ab e os seus ecep o es», um p ocesso que em que e com «a on ade de nada nas mesmas águas do ou o baila ino» (Pe on 2020: 75). Wendy Pe on sublinha que a baila ina es adunidense ensinou o g upo «a ou i com o co po odo e não apenas po in e médio dos ou idos e dos olhos» (Pe on 2020: 236). Lendo as pala as de Dilley en endemos que a dança é algo social que acon ece na ex ensão do ou o — a a-se de uma comunicação em ai-e- em. O que há de ma a ilhoso no nada nas mesmas águas é o ac o dos agen es dessa expe iência possuí em algo em comum: as águas. A pa ilha que ad ém des e luga é pode osíssima. Dilley semp e «enco ajou o g upo a con ia em si e nos seus ins in os» (Pe on 2020: 236). Daqui nasce a subje i idade, da oca de imp essões-sensações-emoções expe ienciadas de uma mesma coisa, imp essões-sensações-emoções essas que se ão ob iamen e di e en es en e si po que nascem em di e en es sujei os. Pa a B. Dilley a imp o isação é «es a cons an emen e a a a essa a pon e en e o conscien e e o inconscien e» (Dilley apud Pe on 2020: 81). A baila ina ac escen a ainda que a a e, ou qualque ac i idade c ia i a é uma “I go a glimpse o human beha io ha my d eams o a be e li e a e based on — eal, complex, 3 cons an ly in lux, ich, conc e e, unny, ocused, immedia e, speci ic, in ense, se ious a imes o he poin o eligiosi y, diaphanous [sic], silly, […]” 10 Ti e um islumb e do compo amen o humano no qual se baseiam os meus sonhos de uma ida melho , eal, complexa, em cons an e luxo, ica, conc e a, eng açada, ocada, imedia a, especí ica, in ensa, ao pon o de oca po ezes uma eligiosidade le e, diá ana, ola […] (Pe on 2020: 51). «descida» (descending), que algo «espi i ual desce a a és do co po du an e os p ocessos de c iação» (idem: 83). Re ejo-me na a i mação da baila ina e descon io que quem passa po p ocessos c ia i os seja sensí el à pala a espi i ualidade. Exis e, de ac o, algo não ma e ial que lu ua no espaço du an e esses p ocessos. Cla o que a singula idade de cada um/uma i á in e p e a es a o ça, es a ene gia, como bem en ende , mas pa ece-me cla o que es a “descida” é um p ocesso de up u a com uma ce a o dem do sensí el, uma omada de posição subje i a (es é ica) que o na o seu pon o de is a audí el, pe cep í el. Segundo Ranciè e, O comum, pa a Ranciè e «[…] não é apenas um a ibu o pa ilhado po uma comunidade, não é algo que nos é dado, mas de e se cons uído […]» (ibidem). A o mação do comum az-se com base no encon o dissensual das pe cepções indi iduais, sendo a pa ilha do sensí el o modo como se de e mina no sensí el a elação en e um conjun o comum pa ilhado e a di isão das pa es exclusi as. De aco do com es e aciocínio, a “descida” que desc e e B. Dilley (Dilley apud Pe on 2020: 81) ai ao encon o de uma pa ilha da sua pe ceção indi idual de modo a pa icipa na cons ução do comum, pegando nas pa es exclusi as (nes e caso, a sua pe ceção indi idual) não de o ma sec á ia, mas sim po meio da ins au ação de uma comunidade dissensual. Da id Go don diz que ap endeu a «es a no momen o» (being in he momen ) (Go don apud Pe on 2020: 94-95) du an e do pe íodo em que abalhou com o GU. Pegando nas suas pala as: «Não pensa apenas naquilo que eu que ia aze a segui , mas sim a obse a a sub e são daquilo que eu que ia aze a segui pela ação da ou a pessoa, e des a manei a, de e mina qual se á a p óxima-coisa-no-momen o a acon ece » (ibidem). A desc ição de Go don sob e «es a no momen o» é um legado que es á mui o p esen e nas p á icas de imp o isação con empo ânea, pelo menos no 11 a pa ilha do sensí el designa o sis ema de e idências sensí eis que dá a e , em simul âneo, a exis ência de um comum e os eco es que de inem, no seio desse comum, os luga es e as pa es espec i as. Uma pa ilha do sensí el ixa simul aneamen e o comum pa ilhado e as pa es exclusi as. Es a epa ição das pa es e dos luga es unda-se numa pa ilha dos espaços, dos empos e das o mas de ac i idade que de e minam o modo como um comum se p es a a se pa ilhado, e a o ma como uns e ou os omam pa e nessa pa ilha. (Ranciè e 2010: 13) que i emos acesso, nos úl imos dois anos, em Lisboa. Es a “p esen e no p esen e” é um ocabulá io ans e sal a odas as a es pe o ma i as? Não, não é. Segundo Wendy Pe on, o g ande con ibu o que T isha B own deu ao GU oi «a sua capacidade de da empo pa a me gulha no mo imen o» (Pe on 2020: 104). Ou seja, da empo ao nasce do mo imen o. Es a ideia p essupõe um espei o pela con inuidade empo al, uma escu a demo ada do espaço e do co po — algo mui o impo an e no modo de aze de algumas pessoas que dão ca ác e ao p ojec o do cem. As coisas seguem, en olam-se, desen olam-se, e seguem uma ez mais dando assim luga umas às ou as. Um mo imen o (ou acção) ansg esso (a), não é necessa iamen e uma up u a, pode á mui as ezes se um me gulho na con inuidade do empo como p ocu a de o mas de aze dis up i as. Se á? Semp e que se dá início a uma ação, ab e-se um no o campo de eações possí eis: cada eacção ab e alguma coisa, cada inal é ambém um começo. «Sen imos o desa io da espon aneidade, a a iedade caó ica de possibilidades al como o desa io da exis ência nas nossas p óp ias idas. Sabemos que não há um plano» (Pe on 2020: 127). E é po isso que 4 con inuamos, con inuando numa explo ação de o a, sem nenhum ipo de inalidade, apenas pelo p aze de b inca , de in e agi . A desc ição de T isha B own sob e uma sessão de imp o isação guiada po S e e Pax on pa ece-me ilus a i a do que pode á se um p ocesso de subjec i ação, um p ocesso de o mação de no os sujei os polí icos : 5 We eel he challenge o spon anei y, he chao ic asso men o possibili ies as we do in ou own li es. 4 We know ha he e is no plan. I’d slip in and ou o conscious in he ac i i y, in he da k, wi h S e e’s low, hypno ic oice guiding 5 ou a en ion o ou body’s sensa ion, he ligh in he oom beginning o a i e, un il by he end o he hou , he sun was s eaming h ough he windows and class would be o e . I was ouched by his expe ience in a way ha some imes made me wan o weep hough I didn’ know why. 12 A minha consciência ao longo da ação desliza a en e o den o e o o a, no escu o, guiada pela oz énue e hipnó ica de S e e que di eciona a a nossa a enção pa a as sensações do nosso co po. A luz começa a a en a pelas janelas da sala uma ho a an es da sessão e mina . Fiquei ocada po es a expe iência de uma o ma que às ezes me azia que e cho a , embo a não soubesse po quê» (B own apud Pe on 2020: 150). T isha B own ao não consegui jus i ica o seu cho o es á a o ma uma no a subjec i idade, es á a o na a sua pe spec i a pe cep í el, audí el. A on ade de cho a sem sabe po que se cho a demos a o su gimen o de um no o sujei o, um sujei o-ou o, anscenden e. Não signi ica a subs i uição de um pelo ou o, mas sim a sua complemen a idade, a co-habi ação das pa es que cons i uem a nossa complexidade. O exe cício da small dance consis e, essencialmen e, na pe manência de um co po em pé. Comp eende «a pequena ac i idade e lexi a do co po que o man ém equilib ado» (Ribei o 2020: 48-49). Ana Ribei o na sua disse ação de mes ado az a elação da small dance com o silêncio: «[…] exis e um silêncio in e mi en e que cla i ica a pe ceção daquilo que é is o e daquilo que ul apassa a isão — os dados sub is dos sen idos» (ibidem). S. Pax on: «Enquan o es ou em silêncio, dis ingo expe iências ou modos de expe iência e sou capaz de pe cepciona o não- isí el e o isí el. O que acon ece an es age sob e aquilo que acon ece depois» (Pax on 2016: 9). Es a elação pode á se essencial pa a habi a o «u bano» enunciado po Lepecki (Lepecki 2012, 48). Pa a And é Lepecki o espaço u bano é o «elemen o necessá io que p ecede a polí ica e lhe dá chão». É no u bano que o agi se ma e ializa, é nes e luga que «a ação polí ica se equipa a mais uma ez à dança» (ibidem). Ao elaciona o espaço u bano com a dança, Lepecki pe gun a se a acção nes as ci cuns âncias em a possibilidade de edi ica «algo mais do que o espec áculo ú il de uma ené ica e e e na agi ação u bana, espec áculo esse que não é mais do que uma cansa i a pe o mance sem im de uma espécie de passi idade hipe a i a, poluen e e iolen a […]» (Lepecki 2012, 49). O i mo da small dance e os seus silêncios pode ão se o con as e necessá io «à ené ica e e e na agi ação u bana», des e con as e pode á nasce o mo imen o «pa a uma ou a ida, mais aleg e, po en e, humanizada e menos ep odu o a de uma ciné ica 13 O co po es á de pé, e à medida que amos elaxando, amos en endendo os modos de aze do mesmo. De o ma não delibe ada, es ás a pe cepciona o aze do co po. Esse ipo de consciência é uma espécie de base do eino do Con ac o Imp o isação: de sen i as o ças de uma o ma mais ampla. (ibidem). insupo a elmen e cansa i a» (Lepecki 2012, 49). Co pos que a i mam a quie ude num mundo onde a elocidade e a acele ação dominam pode ão dize que exis e uma ou a manei a de habi a o espaço público e que po consequência, exis e uma ou a o ma de co- elação en e co pos e luga es, ab indo espaço à pe ceção senso ial- sensi i a conjun a. Des e modo cons uímos um «no o pisa […] que possibili a o chão galga o co po […] eo ien ando assim odo o mo imen o […]» pa a uma cidade, um espaço u bano, que se o ne «numa co eog a ia de ac ualização de po ências polí icas […] deixando a dança dança , ou seja, deixando a polí ica acon ece na sua e dadei a ace» (Lepecki 2012, 49-50). A esc i o a Jill Johns on ca ac e iza da seguin e manei a os a is as do Judson Dance Thea e : A ca ac e ização de J. Johns on in e essa-nos na medida em que a a és da dança (das a es pe o ma i as) podemos pensa uma no a o ganização social. Ao salien a mos a singula idade de cada co po, es amos ao mesmo empo a sublinha a igualdade que es á subjacen e em odos eles. Es a consciência do co po pode á le a -nos a no as manei as de cons ui comunidades. T isha B own con ibui pa a a discussão de no as o mas de co- elação en e o co po e o espaço ap esen ando as suas ideias sob e in e upção. A in e upção pode se is a como um mo imen o ansg esso , uma ez que queb a o luxo da elocidade e da acele ação cons an es do capi alismo. A co eóg a a e baila ina es adunidense ca ac e iza a in e upção como um «mo imen o ou momen o que p opo ciona con li o ou con as e, uma mudança de i mo e dinâmica» (B own apud Pe on 2020: 233-234). Podemos conclui que a in e upção é um espaço de espi ação necessá io ao nasce do mo imen o que em a segui : a acção que «[…] e i a que o ma e ial se 14 Os co eóg a os in alidam de o ma escandalosa a na u eza da au o idade. A linha de pensamen o do seu abalho caminha pa a uma consciência cada ez mais libe á ia em di ecção à ana quia. Nenhum co po é necessa iamen e mais boni o do que o ou o. Nenhum mo imen o é necessa iamen e mais impo an e ou elegan e do que o ou o. P e endem i além do gos o e dos condicionamen os subje i os alcançando assim uma comp eensão enomenológica do mundo. (Johns on apud Pe on 2020: 258) a unde na es agnação» (ibidem). Uma acção onde o empo não se subme e ao espaço, que pode du a ações de segundo, ou pelo con á io, ho as a io. O concei o de imp o isação le a-nos, no limi e, a pe o ma sem ensaia : «nada p ecisa de acon ece , al como udo pode acon ece » (Douglas Dunn apud Pe on 2020: 159). As pala as de Douglas Dunn le am-me a elaciona o concei o de imanência com o ac o de pe o ma sem ensaia . Imanência é algo que es á aqui, há supe ície, algo que não anscende. Segundo Deleuze e Gua a i, em ¿Qué es la iloso ía?, «o plano de imanência não é um concei o pensado nem pensá el, mas sim a imagem do pensamen o, a imagem que nos damos a nós mesmos do que signi ica pensa , aze uso do pensamen o, o ien a -se no pensamen o…» (Deleuze e Gua a i 6 1993: 41-46). Pa ece-me que o pensamen o unciona des a manei a du an e o ac o pe o ma i o imp o isado. Deleuze e Gua a i con inuam dizendo que o plano de imanência Pe o ma sem ensaia pa ece-me exac amen e is o: encadea acções na o dem dos sonhos, de expe iências eso é icas, es ados de emb iaguez e de excesso. Pe o ma «ac edi ando no po encial sine gé ico da in e secção em pe o mance» (Pe on 2020: 160). A imp o isação pode se is a como elemen o ans o mado de uma no a o ganização social. Es a ideia le a-nos à de inição de co eog a ia social de And ew Hewi (2005). Pa a o au o , a co eog a ia social não é apenas uma o ma de pensa sob e a o dem social: «é uma o ma de pensa sob e a elação en e es é ica e polí ica» (Hewi 2005: 11). A es é ica é undamen al pa a es a no a o ganização social po que é a a és dela que nos o namos agen es pa icipa i os, é pa i do desen ol imen o El plano de imanência no es un conce o pensado ni pensable, sino la imagen del pensamien o, loa 6 imagen que se da a sí mismo de lo que signi ica pensa , hace uso del pensamien o, o ien a se en el pensamien o… 15 é p é- ilosó ico, e não unciona com concei os, implica uma so e de expe imen ação hesi an e, e o seu ajec o eco e a meios escassamen e con essá eis, escassamen e acionais e acioná eis. T a a-se de meios da o dem do sonho, de p ocessos pa ológicos, de expe iências eso é icas, de emb iaguez ou de excesso. (ibidem). do «eu es é ico», ao ní el da co eog a ia, que o mamos pensamen o c í ico e ideológico. Pa a Hewi , desen ol e o «eu es é ico» é a mesma coisa que «es e iza o colec i o», uma az-se pela ou a e ice- e sa . 7 S e e Pax on ala da imp o isação como um campo de possibilidades onde « odos podem pa icipa de o ma igual» (Pax on apud Pe on 2020: 186). Nas suas pala as, a imp o isação é um modelo de expe iência que começa na in ância, logo nos p imei os anos de ida, quando ainda somos bebés. Du an e es e empo desen ol emos uma «consciência cumula i a» (cumula i e awa eness), somos esponjas abso endo o uni e so. Imp o isa eque con iança no ou o e em nós, e es a con iança ai nascendo à medida que acei amos a us ação de não consegui . A mu ualidade en e co pos e en e co po e espaço compõe-se acei ando a us ação como um con i e à explo ação de no as possibilidades, cons uindo o possí el sem «[…] expec a i as, sem desilusões, sem culpas: apenas esul ados» (Pax on apud Pe on 2020: 187). Cons uímos uma « o ma o gânica de comunicação» (o ganic o m o communica ion) endo como chão a con iança no ou o e em nós. Pa a isso de emos ab i os sen idos, ajus a a o ça do co po e a sua elas icidade, joga en e a ensão e o elaxamen o ge ando mudanças ápidas na nossa sensibilidade. Sally Banes menciona que os p ocesso de imp o isação e de dinâmica do g upo pe maneciam semp e abe os ao esc u ínio público du an e a pe o mance (Banes apud Pe on 2020: 243). Os baila inos e as baila inas da GU habi a am uma geog a ia po si desenhada, e es a am abe os a qualque coisa que pudesse acon ece . O c uzamen o de in enções e a causalidade ge a am um ecido que equen emen e p oduzia «[…] momen os espon âneos, su p eenden emen e boni os» (Banes apud Pe on 2020: 163). A GU ap endeu algo cen al expe imen ando odas es as me odologias de imp o isação: b inca (play) é a po a de en ada pa a o inconscien e (Banes apud Pe on 2020: 251). O neu ologis a Oli e Sacks, em The Ri e o Consciousness (To on o: Vin age Canada, 2017), diz que o inconscien e em um papel cen al na c ia i idade. De emos deixa o inconscien e assimila e inco po a as suas in luências pa a que possam eo ganizá-las e sin e izá-las em algo p óp io. Os elemen os ge ados pelo inconscien e I emos abo da com mais de alhe as ques ões da co eog a ia social e da es é ica como e amen a de 7 c í ica às ideologias, no segundo capí ulo des a disse ação. 16 p oduzem signi icados ou os, no as p o undidades, um maio en ol imen o ac i o e pessoal no p ocesso c ia i o (Sacks apud Pe on 2020: 270). A baila ina Dianne Mcin y e abo da a ques ão do mo imen o sublinhando a po encialidade de desen ol e a «consciência do empo de si» (inne ime consciousness) (Mcin y e apud Pe on 2020: 174-175) — con á io ao empo mé ico. A consciência do empo in e io pe mi e-nos expandi o espaço, p esencia a sua ampli ude e o modo como se expande, que luga es são c iados po essa expansão, quais as suas conca idades e con exidades. Es e empo não em uma c onologia linea . So ia Neupa h quando ques ionada sob e o empo no espaço, em sob e «o que di ia K onos a Júpi e de o Na al em con inamen o» , ealça que se a a de um empo 8 «não ap isioná el numa lei, numa banalidade, ou numa jaula especí ica pa a empos que se deixam apanha ». Pa ece-me que es e é o empo do imaginá io de Dianne Mcin y e quando se e e e à po encialidade de desen ol e a consciência da in inidade con ínua do empo da consciência de si. São á ios os empos iden i icados na G écia an iga: “o empo de K onos se ia um empo e alhan e, a ú ia da locomo i a que Wal e Benjamin que ia desacele a , o de o ado dos p óp ios ilhos, o consumido de ene gia; Kai os se ia o sabo do empo que não se pode nem que medi , a descomp essão das ondas de en ugamen o que di am compo amen os humanos em elocidade alheias à elocidade (ao i mo, à melodia) que o momen o con oca; Aion se ia o empo edondo, sem limi es, sem con o nos, sem o ma — odos ilhos de Caos.” Se dep eende mos que o mo imen o mo a em odos es es 9 empos, podemos sonha que o mo imen o ge ado pelo co po pe co e e nasce em odas es as camadas, que o mo imen o pode ambém ele se ilho de Caos. O mo imen o ao aguea po es as camadas ai «des apando oscilações como a du ação, o delay, a demo a…» 10 A qui ec a o co po segundo a in uição, cons ui mundos pa a depois os queima . Pa a Dilley, a in uição ans o ma-se numa «habilidade de sob e i ência» (su i al skill) (Dilley apud Pe on 2020: 198-199), e a a és dela Uma das pe gun as da p opos a do anspensa #5 elabo ada po Síl ia Pin o Coelho. O anspensa é 8 um ajun amen o ísico e i ual que ques iona e e lec e sob e o es ado ac ual das coisas. So ia Neupa h, anspensa #5. 9 So ia Neupa h, anspensa #5. 10 17 «me gulha no desconhecido» ( o wa d o he unknown) (ibidem), no não-sabe : p eenche o imaginá io de « an asias su ealis as» (su ealis images) (ibidem). De emos e a co agem de «acompanha os impulsos não pe dendo a noção daquilo que acon ece à nossa ol a. Sem hesi ação, sem julgamen os, sem medo de e i os sen imen os de alguém. E se as ações apa en a em se um acasso, con inue…» 11 (ibidem). Pelo meio da epe ição amos c iando co po, desejos, de i es, e po ências. Deleuze coloca a epe ição na o dem do milag e po se oposição à lei. Segundo o au o ancês, a epe ição De emos usa o pode de ansg essão da epe ição no aze do mo imen o pa a que es e c ie co pos capazes de ge a e de “ anspensa ” ou os uni e sos escu ando «as di e enças que ela in oduz no espí i o» e as «subje i idade o iginá ias» do seu modos ope andi (ibidem). Da id Go don ci ado em The G and Union diz que o co po-que-dança p ecisa de se «ap oxima ao co po-que- abalha» (be mo e wo kman-like) (Go don apud Pe on 2020: 233). T abalhado é pa a se en endido como aquele que em um o ício, aquele que, na demo a com a ma é ia do seu o ício, adqui e conhecimen o e uma sensação de mundo-palpá el. A GU oi capaz de amplia os limi es da dança «[…] ao engaja -se em diálogos espi i uais, concebendo no as o mas de o ganização com quem es i esse no espaço dançando em conjun o numa es u u a glo iosamen e li e» (Go don apud Pe on 2020: 235). Go don conside a a que a imaginação se ac i a en e a impulsi idade e a escu a a en a do que es á à nossa ol a. Tinha a You ha e o da e o ollow impulses and, a he same ime, keep an eye on he big pic u e. No 11 hesi a ion. No judgmen s. No ea o hu ing someone’s eelings. And i i seems o be a ailu e, s ay wi h i … 18 é con a a lei: con a a o ma semelhan e e o con eúdo equi alen e da lei. Se a epe ição pode se encon ada, mesmo na na u eza, é em nome de uma po ência que se a i ma con a a lei, que abalha sob as leis, al ez supe io às leis.» (…) a epe ição exp ime «uma singula idade con a o ge al, uma uni e salidade con a o pa icula , um no á el con a o o diná io, uma ins an aneidade con a a a iação, uma e e nidade con a a pe manência. Sob odos os aspec os, a epe ição é ansg essão. (Deleuze 2000: 43-44). sensibilidade de sabe quando la ga uma ideia e p ocu a a ansmi i-la ao g upo, «es imula a a pe cepção do empo com o objec i o de decidi se um de e minado empo e a o necessá io ao desen ol imen o de uma ideia, ou se po ou o lado e a ho a de o deixa i ». (Go don apud Pe on 2020: 237-238). No meu pon o de is a, o G and Union oi um g upo de ana quis as que nunca es e e em in e essado em p oduzi p odu os, p i ilegiou semp e o p ocesso. «Abalou ideias de espaço, de epe ó io» (Pe on 2020: 301), p oblema izou o que é, e o que pode ia se a pe o mance, «apos ou na espon aneidade», e segundo Pe on, «dissol eu a hie a quia en e co eóg a o e baila ino» (ibidem). 19 en e es é ica e polí ica». Ranciè e no capí ulo Da pa ilha do sensí el e das elações que es a es abelece en e polí ica e es é ica não e e e nunca a me á o a como um modelo pa a comp eende a elação en e es é ica e polí ica, ou seja, a a i mação de Hewi acompanha o pensamen o do eó ico ancês. A elação en e es é ica e polí ica, segundo Ranciè e, cons ói-se ao ní el das o mas da isibilidade do comum e da sua o ganização no espaço público. A poesia e/ou a subjec i idade es ão em jogo na cons ução do comum e do sensí el a se pa ilhado, mas o modo como a es é ica e a polí ica se elacionam é o mal. Menciona ês o mas em como as p á icas da pala a e do co po p opõe igu as de comunidade: «a supe ície dos signos mudos [pin u as], e o espaço do mo imen o dos co pos que se di ide em dois modelos an agónicos: po um lado, há o mo imen o dos simulac os do palco, o e ecido às iden i icações do público; po ou o, o mo imen o au ên ico, p óp io dos co pos comuni á ios» (ibidem). Hewi e e e que se p eocupa com a eme gência his ó ia da co eog a ia como o ma de desenha uma o dem social no eino da es é ica, indo no amen e ao encon o de Ranciè e: «Pla ão opõe ao ea o e à esc i a uma e cei a o ma, uma boa o ma de a e, a o ma co eog á ica da comunidade que can a e dança a sua p óp ia unidade» (ibidem). Ranciè e sublinha con udo as con igu ações pe igosas que es a unidade pode inco po a : Pa a Hewi o ca ác e sub e si o da dança es á na possibilidade de « anscendência “la e al” po meio da qual os baila inos são incluídos numa o ganização social» (Hewi 2005: 12). Schille no seu a ado Sob e a Educação Es é ica do Se Humano ca ac e iza o papel da sensualidade e da o dem da seguin e manei a: «a pulsão-dos-sen idos (sense- d i e) exige que haja uma mudança e que o empo enha um con eúdo; a pulsão-das- o mas ( o m-d i e) exige que o empo seja anulado e que não haja nenhuma mudança» (Schille apud Hewi 2005: 12). Segundo Schille , são nas pulsões-das- 26 […] os a a a es da esc i a do mo imen o, elabo ada po Laban num con ex o de libe ação dos co pos, pos e io men e ans o mada no modelo das g andes demons ações nazis, an es de eadqui i , no con ex o con es a á io das a es pe o ma i as, uma no a i gindade sub e si a. (Ranciè e 2010: 20). o mas que as pulsões-dos-sen idos abalham em conjun o, que «a pulsão-dos-sen idos e ia como desígnio anula o empo den o do empo» (ibidem). Hewi escla ece que o que o ilóso o alemão p e ende é «uma abolição empo al den o do empo ( empo al subla ion wi hin ime) que econs i ui, em ez de nega , a his ó ia. Des a manei a, a dança o e ece um modelo especi icamen e his ó ico e polí ico» (ibidem). Hewi menciona a insis ência de Paul de Man em econhece «o momen o es é ico no polí ico em si». Paul de Man, no seu ex o desc e e a es é ica como sendo 20 Pa a Hewi os «momen os polí icos e es é icos con undem-se e desenham-se um em elação ao ou o» (Hewi 2010: 13) a qui e ando um co po não como «a soma b u a que de e ia esis i ou con o ma -se a uma co eog a ia social, nem como uma cons ução pu amen e discu si a que pode ans o ma -se numa no a lei u a his ó ica excessi amen e zelosa» (Hewi 2010: 14). Pa a o au o o modos ope andi da co eog a ia nasce como uma «ca ac ese» (ibidem). Enquan o a me á o a a icula compa ações es abelecendo elações de semelhança sem usa exp essões que indiquem uma compa ação, a ca ac ese a icula essa mesma compa ação, mas as elações não são de semelhança, são assimé icas: compa ações a coisas que não êm nome, que não exis em. Podemos conclui que a co eog a ia não é apenas mais uma das coisas adminis adas aos co pos, mas é ambém uma e lexão e ep esen ação do modo como o co po adminis a essas coisas sem nome, “que não exis em”. Pa a Hewi a co eog a ia social «é uma lupa que coloca as es ições sociais isí eis» (Hewi 2010: 15). O au o desc e e a co eog a ia como «a iculação», como «uma zona cinzen a onde o discu so encon a a p á ica» (ibidem). À pe gun a: «quando é que o mo imen o se o na dança?», esponde dizendo que «em úl ima […] he aes he ic “is p ima ily a social and poli ical model e hically g ounded in an assumedly 20 Kan ian no ion o eedom… The ‘s a e’ ha is he e being ad oca ed is no jus a s a e o mind o o soul, bu a p inciple o poli ical alue and au ho i y ha has i s own claims on he shape and he limi s o ou eedom.” 27 essencialmen e um modelo social e polí ico en aizado e icamen e na noção kan iana de libe dade… O “es ado” que es á aqui a se ad ogado não é um es ado de espí i o ou d’alma, mas um p incípio de alo polí ico e de au o idade que em as suas ei indicações sob e a o ma e os limi es de nossa libe dade» (Hewi 2010: 13). ins ância, a dança é apenas mo imen o», mas que «a di e ença en e dança e mo imen o é «con igen e» (ibidem), ou seja, é aciden al: pode ou não acon ece . O au o p e ende demons a «o desígnio da expe iência co po i icada [da expe iência co eog á ica] como um indicado ope a i o da ideologia». A isão mode na pe an e o co po edi ica a a ideia de que es e não pode men i . Pa a o au o es adunidense es a é a de adei a essencência da ideologia. Hewi dá o exemplo da expe iência ísica da do : «é a expe iência ísica da do que nos dá a en ende que a pos u a do balle é “an ina u al”» (Hewi 2010: 15). Es a expe iência não passa necessa iamen e pela consciência, po an o não é ainda ideológica. A expe iência ísica do co po não é ainda ideológica po que habi a num ou o plano de exis ência/ pensamen o. Pa a Hewi a expe iência é uma ca ego ia de consciência. O au o desc e e a expe iência do co po como enómeno que em a capacidade de o na inconscien e e i acional a consciência, «semp e que o co po é celeb ado como múl iplo e e dade imanen e» (Hewi 2010: 19). A dança habi a dois planos di e en es de aze -nasce : «p oduz e ap esen a a o dem social; e a icula e dispõe os co pos no abalho e no laze » (ibidem). Hewi examina a co eog a ia em duas ajec ó ias: p imei o, açando as o mas pelas quais a expe iência quo idiana é es e izada, segundo, açando as o mas pelas quais «a es é ica» é, de ac o, sepa ada e delineada como um domínio dis in o de expe iência. Es e é o signi icado que o au o dá ao concei o de «aes he ic con inuum» quando o aplica como qualidade da co eog a ia social. O concei o de con inuidade es é ica (aes he ic con inuum) é-nos ú il pa a en ende quais são as ope ações a as mul iplicidades da es é ica, o modo como se encadeia, qual o seu nasce e de que manei a o p aze es é ico p oduz e ei os no nosso co po. Pa a Hewi a con inuidade es é ica «es ende-se de o mas ea ais cla amen e co eog á icas, a o mas de dança social» (Hewi 2010: 20). Schille a icula duas manei as de expe iencia a dança: 1. To alidade pe o ma i a — «pelo sujei o de pa icipan e, que deseja o mo imen o co po al e a necessidade de p esencia uma co eog a ia […] conhece a o alidade se ia abs ai - me da dança queb ando os luxos da expe imen ação»; 2. To alidade mimé ica — «quando ep esen amos pa a signi ica uma ou a coisa; aqui os baila inos são pa e de um símbolo de uma o dem social u ópica» (Hewi 2010: 21). A ideologia ope a de o ma di e en e em ambas as o alidades. Pa a Hewi a es é ica é o « eino no qual no as o dens sociais são elabo adas e no qual a in eg ação de odos os memb os 28 sociais é possí el» (ibidem). Hewi apon a um equí oco nas ca as de Schille : 21 de ini a dança em dois, «como espec áculo es é ico e como dança social (como expe iência)» O au o es adunidense econhece que Schille pos ula uma o dem social coope an e mas que nunca é ealmen e i enciada, apenas imaginada. As ca ego ias de Schille do que é a expe iência da dança são essenciais pa a a cons ução polí ica da co eog a ia social. Hewi exempli ica: «só quando se p ojec a a possibilidade de uma pe o mance “ideal” no quo idiano (como uma “co eog a ia”) é que nos depa amos com o enómeno de uma “es e ização da ida polí ica”» (Hewi 2010: 22-23). Ou seja, o desejo de p esencia a co eog a ia da o alidade pe o ma i a de Schille é o imaginá io que pe mi e a Hewi p ocu a en ende a elação en e es é ica e polí ica. Todas as o dens sociais p ocu a am ep esen a -se es e icamen e, como po exemplo o balle , «e em odas elas as elações de pode o am desenhadas ao longo do eixo da inclusão e da exclusão» (ibidem). A ca ego ia co eog a ia social pe mi e, segundo Hewi , es uda a ob a de a eem dois sen idos: A dança pa a A. Hewi não p oduz um «a e ac o que seja ep esen a i o do abalho ei o» sendo dessa manei a ins umen alizada pela «ideologia es é ica mode nis a que p ocu a a obscu ece a ma e ialidade dos modos de aze do abalho» (Hewi 2010: 26). Há aqui uma an asia em jogo, «uma an asia de pu a ene gia que se assemelha a uma an asia capi alis a de pu o luc o, pu a p odução» (Hewi 2010: 27). Segundo Hewi , a igu a do baila ino esol eu uma con adição undamen al do capi alismo: «exempli icou a mode nidade social como uma dependência de ene gia e p og esso, e a es é ica mode nis a como um jogo au ónomo» (ibidem). No mundo ideal do au o o abalho se ia ei o na-mesma- o ma que dançamos, «ge ando mais ene gia do que aquilo que se gas a» (ibidem). A Pa a uma Educação Es é ica do Se Humano (2016). 21 29 P imei o, como é que a co eog a ia esboça, em ez de simplesmen e e lec i , a o dem social? Que abalho social ealiza? Em segundo luga , qual é o signi icado do essu gimen o da dança no início do século XX como a aque de angua da à “ob a” de a e como a e ac o? (Hewi 2010: 25). his o iada Qui ey, no li o May I Ha e he Pleasu e? The S o y o Popula Dancing, abo da a alsa como sendo um i mo de abalho: «a alsa ma ca a mo e de ini i a da dança da co e como a o ma e modelo hegemónico de co eog a ia social» (Qui ey apud Hewi 2010: 27). Hewi conside a que as « an asias» c iadas pela dança mode na «do co po endido à imanência […] suge em uma analogia biológica em ez de polí ica» (Hewi 2010: 30). Tal como já aqui oi di o, a imanência é algo que es á à supe ície, que não anscende. A analogia biológica en e os co pos é biológica, em ez de polí ica, po causa do seu ca ác e imanen e. A imanência é algo que em de den o, po an o e e en e à biologia do co po, ao passo que a polí ica acon ece o a, no ex e io ou na ex ensão do co po. Segundo Deleuze e Gua a i, o plano de imanência é «p é- ilosó ico e não unciona com concei os» (Deleuze e Gua a i 1993: 41-46). Pos o is o, podemos conclui que as elações cines ésicas en e co pos são p é-polí icas, que habi am num plano biológico no sen ido em que os co pos se elacionam com aquilo que, em si, é biologicamen e elacioná el: sensações, pe cepções, a ec os, semelhanças. O au o pe gun a: «Não é possí el que as an asias polí icas enham li e almen e sido ensaiadas na a ena es é ica, an es de assumi em poli icamen e o mas conc e as no quo idiano?» (ibidem). O au o es adunidense a gumen a que hou e uma al e ação no in e esse cul u al pela dança no século XIX. O in e esse mig ou «das o mas cul u ais da “dança de eli e”, pa a as o mas eme gen es de en e enimen o público, po um lado, e pa a um discu so eme gen e da an opologia, po ou o» (Hewi 2010: 38). O concei o schille iano de joga /b inca (play) como «p é condição da libe dade humana se iu pa a e lec i sob e o abalho (nas dimensões de wo k e labo ), enquan o ealização ou alienação do po encial humano co po i icado» (ibidem). De ido à in luência de Schille , o modo de olha pa a ou as cul u as mudou. Segundo Hewi , o julgamen o mo al oi colocado de pa e ab indo caminho pa a a análise da dança dessas sociedades, um oco que pe mi iu analisa a «encenação i ual de coesão social» das mesmas (Hewi 2010: 38). Qual é o abalho que a dança p oduz? Pe gun a Hewi . A dança é «desin e essada po que não p oduz nenhum obje o, ou se á a sua ausência aquilo que pode se ca ac e izado como “obje o” da dança?» (Hewi 2010: 39). O au o salien a, no seu li o Social Cho eog aphy Ideology As Pe o mance In Dance And E e yday Mo emen que uma ampla a iedade de eó icos do abalho do inal do século XIX u ilizou «a dança 30 como exemplo de algo que pudesse egene a a o ça de abalho em ez de simplesmen e esgo á-la» (Hewi 2010: 40). P ocu a am «canaliza a ene gia lúdica da dança em acção pa a a pe o mance de um abalho social e económico mais legí imo» (ibidem). Em ez disso, na con empo aneidade, o au o salien a que a dança ep esen a a condição an opológica do abalho. Hewi e e e que a dança «pa ece indica a exis ência de uma necessidade ou um ins in o de ac i idade en e cul u as ances ais» (Hewi 2010: 42). In e essa-me aqui apenas a possibilidade de olha a dança como ac o undamen al da cons ução da nossa memó ia his ó ica e social. A dança mani es a ou o na isí el os impulso do co po. Uma pessoa dança po que sen e impulso pa a dança , p oduz ene gia, ene gia es a que pode se socialmen e con agian e e po enciado a de no as o mas de exis i e de agi com o mundo. Se en ende mos a dança como uma he ança de se es humanos, podemos conclui que a poé ica p oduzida po si é um desígnio a empo al que es á em pe manen e comunicação com aquele-aquela que dança. Pa indo do co po, dando empo à sua demo a e escu ando o seu i mo (a sua escu a), a dança pode á se um canal de acesso a um imaginá io- memó ia ances al. O concei o de «sublime isiológico» (physiological sublime) en a em diálogo com es e en endimen o da dança, uma ez que se a a de um concei o que pe mi e ao co po codi ica «em mo imen o, uma consciência da sua capacidade desconhecida» (Hewi 2010: 45-46). O co po lui com na u alidade de aco do com os seus impulsos e em ha monia com ou os co pos: «em ha monia, is o é, com algo maio que lui em odos nós» (Hewi 2010: 59). O en e enimen o, pa a John Ruskin, ep esen a a pe da do po encial c í ico da 22 a e. Pa a o au o de emos «pensá-la como uma ca ego ia cul u al da expe iência es é ica» (Ruskin apud Hewi 2010: 50). Cul u a e en e enimen o são, pa a Ruskin, epis emologias cul u ais pa alelas: «[…] em ez de lamen a mos o declínio da dança no século XIX, p ecisamos de pe gun a quais o am as possibilidades de co eog a ia social explo adas nes e submundo de “en e enimen o” não e lexi o» (ibidem). Con inua dizendo que p ecisamos pensa o en e enimen o « an o como uma condição cul u al pós-c í ica ( emida ou celeb ada), como um campo eme gen e especí ico das p á icas cul u ais», o au o p ocu a demons a «como no as o mas de cul u a C í ico de a e, mecenas, desenhis a e pin o de agua elas inglês. 22 31 popula não su gi am comple amen e independen es das es e as da al a cul u a igen e» (Ruskin apud Hewi 2010: 51). Ainda Ruskin, “en e enimen o” não se esume apenas a p opos as cul u ais e a ís icas p oduzidas com um p opósi o g a ui o, mas ambém a p oduções cul u ais e a ís icas que es ão o a das es e as da al a cul u a que su gi am em elação às mesmas. Es a de inição aplica-se an o a ac i idades adicionais olcló icas de uma dada egião, como ac i idades cul u ais de uma de e minada con a-cul u a. Em ambas as si uações a cul u a e a a e são p oduzidas o a das es e as de in luência da al a cul u a como espos a ou como p opos a de diálogo com as mesmas. A dança como o ma e obje o de e lexão es é ica «desmasca a o abalho con ínuo de in eg ação co po al necessá io pa a que a isão libe al de Schille seja ealizada» (Hewi 2010: 64). Hewi p e ende, a a és da co eog a ia social, chega a um mo imen o u ópico que ai «além do abalho alienado» (ibidem), um mo imen o u ópico que inclua no abalho a «possibilidade de con emplação e descanso» (Hewi 2010: 65). No inal do século XVIII a o alidade social lúdica de Schille e á sido subs i uída pela o alidade do abalho, e e e Hewi . O au o es adunidense explica como na iloso ia de Kan «o sublime eside no econhecimen o de sujei o sup a- sensí el (sup asensual subjec ) que ope a em si» (Hewi 2010: 77), ao passo que na iloso ia de Schille «o econhecimen o desse sujei o oi socializado: além do sujei o es á a co eog a ia social no qual dança» (ibidem). O concei o de sublime isiológico já aqui mencionado não inco po a «o co po na condição ilosó ica do sujei o», em ez disso «inco po a o im da igu a, a submissão do co po aos “en usiasmos” que ge a» (ibidem). O sublime isiológico o na-se um conjun o de expe iências ao não inco po a o co po na condição de sujei o. Hewi conclui que «a ideologia já não habi a mais nas ques ões da ep esen ação, mas sim nas ques ões de desempenho, expe iência e inco po ação» (Hewi 2010: 77). Hewi começa ago a a analisa a co eog a ia além da sua dimensão social. O au o analisa «a co eog a ia como o ma de educa o co po na expe iência de si e na linguagem de mo imen o como exp essão dessa mesma expe iência» (Hewi 2010: 78). Hewi pe gun a: Quando é que uma ação ísica unciona como um ges o? A ação ísica compo a algo que é ex e io a si. A nomencla u a “ação ísica” em do mé odo das ações ísicas, desen ol ido na úl ima ase da ida de S anisla ski. Em S anisla ski hou e uma e olução do mé odo das ações psico ísicas — que p ocu a a 32 ee oca emoções p ecisas — pa a o mé odos das ações ísicas. O abalho de G o owski dá con inuidade à pesquisa das ações ísicas de S anisla ski. As ações ísicas pa a G o owski são ope a i as, não pe encem ao plano dos sen imen os. Thomas Richa ds diz-nos que an es de uma ação ísica exis e um impulso no qual 23 « eside o seg edo de algo que é mui o di ícil de aga a po que o impulso é uma eação que em início den o do co po, e que só é isí el quando já se o nou uma pequena ação» (Richa ds 2014: 108). Pa a Richa ds o impulso é algo mui o complexo que não pe ence apenas «à es e a co po al», que es á in imamen e elacionado com a ação ísica, is o que segundo o au o as ações ísicas nascem dos impulsos. De ine o impulso da seguin e manei a: «é como se a ação ísica, ainda p a icamen e in isí el de o a, já i esse nascido no co po. É isso, o impulso» (ibidem). Vol ando à pe gun a de Hewi , G o owski esponde ia: nunca. Pa a G o owski o ges o é uma «ação pe i é ica do co po, não nasce do in e io do co po» (G upoTempo 1988). Pa a G o owski, ges os são mo imen os especí icos do quo idiano ou de uma de e minada unção. Dá o exemplo de um pad e e dos seus ges os sac amen ais. Os ges os são si uações de ensão, ao con á io das ações que são «si uações posi i as, de amo , po exemplo» (ibidem). Pa a exempli ica melho es a di e ença G o owski pega numa encenação hipo é ica do Romeu e Julie a: Podemos ambém exempli ica es a di e ença com o anda . Hewi esume o passeio como igu ação do ges o, e o ges o como o momen o «de passagem da comunicação di e a pa a a indi e a» (Hewi 2010: 86). Imaginemos que es amos a anda em jei o de passeio, anda nes e caso se ia um ges o; mas se es amos a anda em Ac o , esc i o , e di ec o a ís ico do Wo kcen e o Je zy G o owski. Richa ds abalhou oi o anos 23 com J. G o owski e é au o do li o T abalha com G o owski - sob e as ações ísicas. 33 «O a o que ep esen a Romeu de manei a banal a á um ges o amo oso, mas o e dadei o Romeu ai p ocu a ou a coisa; de o a pode da a imp essão de se a mesma coisa, mas é comple amen e di e en e. A a és da pesquisa dessa coisa quen e, exis e como que uma pon e, um canal en e dois se es, que não é mais ísico. Nes e momen o Julie a é aman e ou al ez uma mãe. Também is o, de o a, dá a imp essão de se qualque coisa de igual, pa ecida, mas a e dadei a eação é ação. O ges o do a o Romeu é a i icial, é uma banalidade, um clichê ou simplesmen e uma con enção» (ibidem). di ecção a uma pessoa que es á no ou o lado da ua a insul a -nos, nessa ajec ó ia do anda , es ão p esen es uma sé ie de pequenas ações ísicas. São ações ísicas po que es ão ligadas a um momen o especi ico e a algo que é ex e io a nós. A ele ância que S e e Pax on dá ao anda elaciona-se com a de inição de ges o aqui expos a. Já aqui oi mencionada a minha descon iança de que Pax on es a a à p ocu a dos elemen os es u u ais da dança (de uma emb iologia da dança) a a és de mo imen os a á icos. Ges os como o anda são impo an es na pesquisa do baila ino po que são mo imen os sem impulso, são mo imen os não di ecionados po desejos in e io es e que po isso são passí eis de se em dissecados de modo a encon a a sua especi icidade, a sua singula idade. Balzac ques iona-se sob e o anda : «É ex ao diná io no a que desde que o homem anda, ninguém pensou em pe gun a como anda, se pode ia anda melho , o que az quando caminha» (Balzac apud Hewi 2010: 87). Ques iona mo-nos sob e o anda (passea , caminha ) é, segundo Hewi , ques iona o modo como unciona a nossa sociedade. Balzac ê o ges o como e bo e não como nome: «mo imen o pa a mim inclui o pensamen o, a ação mais di ícil de um se humano; o e bo consis e numa adução do pensamen o; o anda e o ges o são a conclusão mais ou menos apaixonada do e bo» (Hewi 2010: 94). Coloca uma ques ão em jei o de poesia: «T ans o mações do pensamen o na oz, qual é o sen ido do ac o pelo qual a alma mais espon aneamen e deixa lui os milag es da eloquência e os encan os celes iais do caminha ocal?» (ibidem). Balzac ansmi e a ideia de que anda é a ma e ialização dos alo es (das po encialidades) me a ísicos da oz. A oz pe co e á ios caminhos no espaço pelo qual se p opaga. É a a és da oz que exp essamos um leque mui o amplo e complexo de sensações-emoções-imp essões. O anda é silencioso, demo ado, e em a capacidade de i ma e ializando as ozes que ecoam no in e io do nosso co po. No deco e do anda , começamos a p esencia as á ias ozes que pai am no nosso pensamen o. Descon io que seja is o que Balzac quei a dize quando a i ma que o anda é a ma e ialização dos alo es me a ísicos da oz. Aquilo que é mais ele an e na co eog a ia social como mé odo c í ico é o econhecimen o de que o abalho de es e iza «o indi íduo e o abalho de es e iza o cole i o são conside ados a mesma coisa» (Hewi 2010: 209). Hewi p i ilegia a es é ica como e amen a pa a a c í ica da ideologia po que «o senso es é ico do eu, uma ez desen ol ido em unção da co eog a ia, se e semp e pa a ma ca o limia 34 no qual opeçamos na en ada da sociedade» (ibidem). Ou seja, o namo-nos agen es sociais pa icipa i os na comunidade desen ol endo o eu es é ico ao ní el da co eog a ia, o mando pensamen o c í ico e ideológico no plano da co eog a ia social. A ideologia não é simplesmen e uma ep esen ação imaginá ia da ealidade, é sim «a p óp ia ealidade que se de e concebe “ideológica”» (Hewi 2010: 210). O au o con inua dizendo que es a ealidade ideológica é «uma ealidade social cuja p óp ia exis ência implica o desconhecimen o do seu se (social), mas que é ao mesmo empo sus en ado po uma “ alsa consciência”» (ibidem). A ecusa do plano anscenden al, já aqui e e ida, é uma c í ica ideológica: a ibui-se à expe iência co eog á ica alo e conhecimen o eal a um concei o que é abs ac o. Pa a o au o a co eog a ia social «não pode se en endida como uma ca ego ia de análise pa a odas as sociedades» (Hewi 2010: 211). A co eog a ia social mani es a-se em momen os his ó icos pa icula es como o ma de « epensa e ospec i amen e as es u u as sociais» (ibidem). O au o pe gun a: «Em que momen os his ó icos o concei o de co eog a ia social eme ge como modelo de “ elei u a” das es u u as sociais his ó icas?» (ibidem). A co eog a ia social ques iona como é que os di e en es elemen os se posicionam no espaço, em ez de en a in e p e a o que ep esen am. 35 mic opolí icos elacionados com a expe iência do co po e com a mobilização de o ças ma e iais du an e o e en o pe o ma i o» (ibidem). Podemos conclui que a pe o mance ao aumen a a in ensidade dos ges os mic opolí icos po encializa o ambien e no qual se desen ola, con udo, não é enquad ada po ele: é a pe o mance que semp e domina semp e o ambien e. Kuns oma como exemplo a pe o mance The A is is P esen de Ma ina Ab amo ic (2010) pa a dize que mui as pe o mances «pe sis em numa expe iência pu amen e ocula do ges o da subjec i idade obsessi a, na cisis a, indi idual» (Kuns apud Dziewanska e Lepecki 2017: 90-91). Os ges os e ações p oduzidos po es as pe o mances são des inculados da sua o ça ma e ial e colocados num plano de expe iência me a ísica. A pe o mance « o na-se uma conquis a da subjec i idade (a ís ica) na qual odas as hie a quias são dispos as como conquis as da p esença uni e sal compa ilhada» (ibidem). Kuns diz que a única ma e ialidade que sus en a a polí ica da pe o mance é o seu con ex o, que o con ex o unciona como «uma espécie» de au ologia ( edundância): «o con ex o polí ico é abo dado a a és do a is a polí ico e pela p odução de a e polí ica» (ibidem). A au o a eslo ena demons a como a polí ica da pe o mance se a icula a a és das p á icas de condensação empo al do p esen e: «a sua on e es á na in ensidade empo al do conglome ado de di e enças de o ças sensuais, ma e iais e pe cep i as […] é um ac o i o in e io que a ec a e é a ec ado pelo ambien e em que se inse e, no en an o, esse mesmo ambien e nunca limi a ou con ex ualiza a o ça da sua in enção» (Kuns apud Dziewanska e Lepecki 2017: 91). A pe o mance é um e en o empo al po que é uma up u a u o da «soma de con ingências, alianças humanas, endências a ec i as e desejos comuns […] é uma soma con igen e de di e en es ma e ialidades, alianças, ges os, e ac os», é uma mis u a de p á icas colabo a i as, comuns, senso iais, e subje i idades (Idem: 94-95). Segundo a au o a, a pe o mance es á cons an emen e a puxa os limi es do que pode se polí ico. Kuns desc e e o mecanismo de o mação da pe o mance como «uma p á ica da igualdade empo al dos ac os que, a a és da up u a e da condensação empo al das o ças, ai dando luga a i a se [ o become], a apa ece » (ibidem). Pa a a au o a a pe o mance é mui as ezes abo dada a pa i de uma pe spec i a mac opolí ica como exemplo de adições polí icas especí icas, e con ex os geopolí icos. Es a abo dagem é p oblemá ica po que não abo da as p á icas 42 de libe ação como sendo mui as ezes con adi ó ias e an agónicas: no maliza-as. O ges o pe o ma i o pa a Kuns de e se « elacionado com a con inência de di e en es ges os num de e minado momen o empo al» (ibidem). Kuns pega na análise de And é Lepecki sob e a ob a Walking de Lygia Cla k (1963). Es a pe o mance só se comple a com a pa icipação do espec ado . A au o a u iliza a pala a acili ado a pa a adjec i a o papel da a is a; o p ocesso c ia i o em Walking é acili ado pela a is a deposi ando no espec ado a possibilidade de da um im à pe o mance. Walking nasceu das seguin es ins uções: «Pegue numa i a de papel, gi e uma das pon as [180º ap oximadamen e] e jun e ambas as pon as como se osse um cí culo, azendo desse cí culo uma i a de Moebius. Pegue num pa de esou as e co e a i a ao longo do seu comp imen o sem a asga o almen e» (Kuns apud Dziewanska e Lepecki 2017: 143). And é Lepecki e e e que «pe o mance a , happenings, e body a » nunca o am e mos u ilizados po Cla k pa a desc e e o seu abalho. Segundo Lepecki, a a is a b asilei a dis ancia-se do co po pe o ma i o, ca ac e izando-o como o luga «onde o co po dos a is a e o co po da ob a se cos umam con undi » (ibidem). Walking passa de ob a a ação: o na-se « i ência» (ibidem). A a e pe o ma i a b asilei a dos anos 60 e 70 do século XX em como p emissas a expe imen ação e a in e enção di ec a. O co po que nasce no pe o me mani es a-se em á ias o mas, desde um «co po engajado (Manuel Pa en e), à ca ac e ização do co po do espec ado como des ina á io da expe iência senso ial (Hélio Oi icica, L. Cla k, Pope), passando pelo co po que explo a a ma e ialidade isce al dos obje os (A u Ba io) e a sua agilidade (Anna Ma ia Maiolino)» (Dziewanska e Lepecki 2017: 148). Lepecki menciona algumas p á icas conc e as como o «sac i ício de animais pa a denuncia um Es ado de o u a (Cildo Mei eles), o ques ionamen o sob e quem é “o ou o” na cul u a b asilei a (Anna Bella Geige ), a denúncia da iolência (A u Ba io)» (ibidem). Es es a is as ep esen a am uma o ça libe á ia que possibili ou a c iação de um chão es imulan e pa a a a e pe o ma i a b asilei a. Lepecki ci a uma a i mação de Oi icica daqueles empos: «Vi emos pela ad e sidade» (ibidem). A cu ado a Magda Lipska coloca em cima da mesa a aspi ação do his o iado da a e Hans Bel ing a es u u a a his ó ia da a e em duas ozes: a oz ociden al e a oz o ien al. Bel ing ac edi a a que «a a e ociden al e o ien al e am di e en es», que a 43 « a e a da his ó ia da a e e a encon a uma manei a pa a que es as duas na a i as, di e gen es e sis ema icamen e sec á ias en e si, coexis am ha moniosamen e» (Lipska apud Dziewanska e Lepecki 2017: 187). M. Lipska a gumen a que no início dos anos se en a do século passado lo esceu no campo da a qui ec u a e da me odologia didá ica de Oska Hansen uma «das co en es mais in e essan es» da a e pe o ma i a polaca (Idem: 189). Em pa icula , salien a a au o a, a eo ia da Fo ma Abe a (Open Fo m), que consis e numa «no a linguagem de comunicação a ís ica não hie á quica, baseada em colabo ações que se o na am es a égicas a ís icas cha e pa a algumas disciplinas de Hansen» (ibidem). A Fo ma Abe a co esponde às es a égias de neo- angua da dos anos 1960 e 1970. Lukasz Rondula esc e e que es a eo ia p io izou «o p ocesso, a in e ac i idade, […] ocou-se na subjec i ação da libe ação, […] na in e disciplina idade, […] a i mou que a expe imen ação p ecisa se le ada além da es e a da a e, […] e apela a a uma a i ude de a is a-cien is a» (Dziewanska e Lepecki 2017: 193). O es údio de Hansen oi escola pa a uma sé ie de a is as polacos como «Elzbie a e Emil Ciesla , G zego z Kowalski, P zemyslaw Kwiek, Zo ia Kulik, Jan S anislaw Wojciechowski, Win e Gu e Waldema Raniszewski» (ibidem). Es es a is as es a am simul aneamen e a ap ende e à p ocu a de ansg edi as p emissas mode nis as de Hansen. Elżbie a e Emil Cieśla o am um casal de e e ência pa a a angua da a ís ica dos anos 70 na Polónia quando em 1973 assumi am o comando da Gale ia Repassage. O seu abalho a ís ico, a é en ão, inha sido di ecionado pa a o design indus ial , 26 con udo, desde que assumi am a cu ado ia des a gale ia, o seu abalho deixou de es a «p eso ao campo de explo ação pu amen e a ís ico e o nou-se um elemen o pa a alcança o ou o» (Cul u e.pl 2012) . Du an e os ês anos que o casal es e e à 27 en e da gale ia, a ob a de a e começou a se abalhada do pon o de is a, ou da p ocu a da base das escolhas humanas. Po ou as pala as, qual se ia o chão comum no qual omamos decisões? P ocu a am esponde a es a pe gun a jogando jogos de abulei o (in en ados pa a o e ei o) com o público e amigos. Um des es jogos/ pe o mances icou conhecido como A Ca ousel o A i udes (1975-76). A o ma 28 Ambos undado es da Associação de Designe s Indus iais. 26 Si kowska, Ma yla. 2012. “Elżbie a and Emil Cieśla .” Adap ado e aduzido em Ou ub o de 2015. 27 h ps://cul u e.pl/en/a is /elzbie a-and-emil-ciesla Em polaco: Ka uzela Pos aw. 28 44 inal des e ca ossel eme giu «como um oc aed o, como um sólido pla ónico»; as suas diagonais « ep esen a am ês aculdades humanas: azão, in uição e os sen idos», e os seus é ices «seis de inições ex emas de a e: a e como a e, a e como unção, a e como ob a de a e, a e como negócio, a e como e iche e a e como u opia» (Dziewanska e Lepecki 2017: 198-99). Es as de inições su gem dos alo es da « e dade, u ilidade, p aze , azão, bondade e beleza» (ibidem). G zego z Kowalski desc e eu o casal Ciesla como «os c iado es mais adicais de uma no a u opia» (Dziewanska e Lepecki 2017: 200). M. Lipska salien a que essa u opia «de e ia eme gi na di ecção da negação da a e», uma ez que Kowalski menciona a a a e como «uma ba ei a signi ica i a na conquis a de men es c ia i as pa a essa u opia, [a a e] é o ópio dos a is as» (Lipska apud Dziewanska e Lepecki 2017: 200). Podemos conclui pelas pala as do a is a polaco que a des uição é uma o ça undamen al pa a a c ia i idade e consciência a ís ica. Lipska a i ma que a a e ins i ucionalizada « e o ça es e eó ipos no pensamen o», no en an o a i ma que ainda assim é necessá io econs uí-los, «sis ema izando oda a á ea das elações in e pessoais e das elações com o mundo» (ibidem). Es a no a isão do mundo ambiciona um no o pa adigma na o ma como colabo amos uns com os ou os, e um no o comp omisso pa a os a is as que es i e am con a a ciência ins i ucionalizada: «de co-c iado nas á eas que conec am in uição, empi ismo e lógica» (ibidem). O abalho dos Ciesla s no Repassage mos ou que a implemen ação da eo ia Fo ma Abe a na Polónia comunis a e a possí el, na medida em que não c i ica a ou in e inha di ec amen e no uncionamen o do Es ado. A eo ia de Oska Hansen es endeu o campo de libe dade indi idual e a ís ica em Va só ia «mas não conseguiu alcança uma abe u a comple a ao ní el a ís ico» (Dziewanska e Lepecki 2017: 200-01). Hansen en e is ado po Czeslaw Bielecki e e e que a «Fo ma Abe a não de e ia se a aliada do pon o de is a do p esen e. E a um p ojec o de u u o que sonha a com uma no a consciência e imaginação social, pa indo da cons ução de elações sociais sus en adas na coexis ência do se humano e da Na u eza» (Bielecki aopud Dziewanska e Lepecki 2017: 200-01). Segundo Hansen, a eo ia da Fo ma Abe a oi um «espaço de uma psicologia di e en e, uma ou a e no a mo alidade. Foi um p ojec o digno de uma no a consciência social e de uma no a sociedade […]» (ibidem). 45 Na Eu opa de Les e, a ideia de B uno La ou de que a polémica le a à es e a pública, a discussão de ques ões p eocupan es e p oblemá icas, es imulou á ios a is as a p oduzi ob as com es a ca ac e ís ica. Es es a is as, e e e a cu ado a polaca, lida am com a «sub e são, encenando compo amen os incomuns e p o oca ó ios — como nudez no espaço público — num ambien e o emen e igiado» (Dziewanska e Lepecki 2017: 214-15). Faze es e ipo de pe o mances em espaço público podia le a à desap o ação social, incluindo exílio, di ó cio, e ejeição dos seus pa es. M. Lipska ci a Maja Fowkes : «A exigência de libe dade 29 o na -se-ia a p eocupação p incipal dos a is as neo- angua dis as, e á ias ações encenadas nos espaços públicos de Budapes e no pe íodo pos e io à Re olução de 1968, abo da am a ques ão da libe dade de manei as di e en es» (Lipska apud Dziewanska e Lepecki 2017: 214-15). Lipska ac escen a que es a oi a ealidade não só da Hung ia mas de á ios países na Eu opa de Les e que i iam egimes o ali á ios. A au o a chama a es as ações «p á icas de esiliência e p á icas de a e o», que de i am segundo a au o a, da « e i a ol a a ec i a das ciências sociais e humanas e do signi icado do concei o de esiliência usado na psicologia, na ísica, e no campo do desen ol imen o sus en á el» (ibidem). Algumas pe gun as su gem sob e a ques ão da esiliência: Como é que a esiliência a a essa e se exp essa no co po? Qual é o impac o do co po esilien e no espaço e nos ou os? Lipska e e e que es e concei o su giu pela p imei a ez na década de 1970 den o do es udo da «ecologia de sis emas» (Dziewanska e Lepecki 2017: 215). Con inua dizendo que a esiliência «e oluiu pa a uma ciência que lida com sis emas adap a i os complexos, o nando-se a es a égia p edominan e adop ada na ges ão de iscos e ecu sos na u ais» (ibidem). Nas ciências na u ais ou na ísica, um co po esilien e é desc i o como « lexí el, du á el, capaz de ol a à sua o ma o iginal e ans o ma a ene gia ecebida na sua p óp ia econs ução» (ibidem). Em psicologia, esiliência « e e e-se à capacidade do sujei o de ecupe a o seu es ado o iginal de o ma ela i amen e ápida após s ess, ou algum ou o auma signi ica i o» (ibidem). A esiliência a a essa o nosso co po nos momen os em que nos sen imos ins á eis, desno eados. O modo como nos exp essamos ace às ad e sidades da exis ência adop a o mas de esiliência ou de esis ência. Descon io que não exis am pad ões nem de uma coisa nem de ou a, e His o iado a da a e, cu ado a e co-di ec o a Cen o A ís ico Pós-Socialis a do Ins i u o de Es udos 29 A ançados na UCL (Uni e si y Collage o London). 46 po an o é impo an e dis ingui o signi icado de ambas. O co po que abso e a ene gia que es á em ol a e que é capaz de a canaliza pa a a sua p óp ia ein enção é um co po em po ência. Po ou as pala as, é um co po cumula i o que ai sendo co po à medida que acumula camada sob e camada. Es as camadas são as conca idades e con exidades do espaço, as sub ilezas e p eenchimen os de cada um- uma. A au o a explica-nos que «o pensamen o esilien e concen a-se na di e sidade de soluções p á icas pa a o «aqui e ago a», na coope ação e c ia i idade de odos os en ol idos numa comunidade ou sociedade» (Lipska apud Dziewanska e Lepecki 2017: 215-16). A esiliência é incapaz de an ecipa ou adia o u u o, eage apenas adap ando-se às ci cuns âncias, ao passo que a esis ência não se adap a às ci cuns âncias, é uma o ça que se opõe, que não cede a sua posição, que p ocu a ou os pa adigmas negociando. A esiliência oi um concei o ap op iado pelo capi alismo, especi icamen e pela ideologia neo-libe al. Resiliência, sublinha Lipska, oca-se «em es abelece o s a us quo an e io , em ez de c ia mudanças» (Lipska apud Dziewanska e Lepecki 2017: 215-16). Ou seja, o ac o de esiliência pode se is o como um ac o despoli izado, uma ez que a esiliência igno a o que acon ece à sua ol a em p ol da sua sob e i ência. Lipska u iliza o concei o de « esiliência como lexibilidade» como «me á o a pa a a pesquisa da p odução a ís ica de uma ge ação que i eu em condições de op essão e hos ilidade» (ibidem). A p opos a da au o a polaca em nomea algumas pe o mances e acções como p á icas de a ec o «baseia-se na noção de a ec o que em sido pesquisada nas ciências sociais, eminismo, e a e» (Lipska apud Dziewanska e Lepecki 2017: 216). A noção de a e o nes as linhas de pensamen o e lec e «a capacidade de um co po a ec a e se a ec ado, de ge a signi icado e de coloca o co po humano e a expe iência pessoal no cen o do deba e» (ibidem). Sasha Obukho a, his o iado a da a e, ainda no ex o de Dziewanska e Lepecki (2017), coloca a ques ão que es á cons an emen e na cabeça do espec ado e daquele que ealiza a ação: «o que é a pe o mance?». A his o iado a da a e esponde colocando á ias hipó eses: Se á «uma p á ica a ís ica ino ado a […] esul ado de uma e olução es é ica? […] uma o ma a caica de ca na alea a ealidade, que exis iu em odas as épocas e que se conc e izou pela angua da a ís ica do início do século XX como o ma de subs i uição das o mas adicionais de a e? […] um sinal de c ise de ep esen ação ou o cânone da mode nidade?» (Obukho a apud 47 Dziewanska e Lepecki 2017: 233). A pe o mance, segundo Obukho a, demons ou de o ma adical «o desejo de ans o ma a linguagem da a e e os undamen os do discu so es é ico» a acando «os elemen os e p incípios es abelecidos da pin u a» (Idem: 234). O desejo de aze nasce uma no a exp essão cul u al ez da pe o mance «o p incipal co pus lexical de uma no a linguagem a ís ica» (ibidem). A pe o mance oi uma solução pa a o dilema do mode nismo em p ocu a “uma e dade” pela exaus ão e ques ionamen o de uma de e minada a e. A pe o mance p e ende i além da a e ompendo com as ca ego ias de géne o da mesma. A au o a ussa diz-nos que no ce ne de qualque mani es ação a ís ica «es á uma e e ência à ealidade e alguma acção em elação a ela, seja qual o a a e a mais impo an e da acção e as o mas em que é ealizada» (Obukho a apud Dziewanska e Lepecki 2017: 237-38). Obukho a ap esen a duas o mas de a ealidade e o pe o me in e agi em. A p imei a ca ac e iza como «des u i a- sin é ica: a ealidade é uma on e de elemen os p imá ios pa a o ges o a ís ico que es á sendo c iado»; a segunda é ca ac e izada como «c iação de ida: a ealidade o na-se o meio pa a a ação» (ibidem). A ealidade é, em ce o sen ido, ampliada em ambos os casos, no p imei o em busca dos elemen os p imá ios da ealidade pa a aze nasce o ges o a ís ico, no segundo me gulhando na ealidade, azendo dela o io condu o da ação. As acções que nascem des es p ocessos são u o do exe cício de descons ui a ealidade, e são depois colocadas em jogo (à semelhança de uma colagem) num con ex o comple amen e sub e ido. Po ém, acções o diná ias como «sen a , le an a , dei a , anda […] bebe de uma chá ena, la a as mãos, ab i a po a com a cha e» (ibidem) são selecionadas e o ganizadas numa composição que nos dá a sensação de que odos aqueles elemen os são pa e do mesmo con ex o. Sasha Obukho a quali ica odo o p ocesso de cons ução da pe o mance como «a modelagem de uma “escul u a” em que a ma é ia é a ida» (ibidem). Ac escen a ainda que a pe o mance ge a acções a a és da sín ese di ec a de episódios da ida, p o ocando no espec ado pe plexidade ao iden i ica semelhanças com a ealidade, pe cebendo no en an o que es á dian e de uma ealidade ou a. Na a e de angua da, «o a is a assume o di ei o de con ola [e po en u a deixa ao descon ole] odos os elemen os» (ibidem). 48 49 IV PERFORMANCE E PENSAMENTO Bojana C ejić no seu li o Cho eog aphing P oblems - Exp essi e Concep s in Eu opean Con empo a y Dance and Pe o mance (2015), p e ende p oblema iza a de inição dos e mos «pe o mance» e « iloso ia» abo dando a sua elação de di e en es o mas. Exempli ica os p oblemas le an ados com pe o mances que êm sendo ca ac e izadas pela «expe imen ação, pela concep ualização dos mé odos de abalho e do co po que dança» (C ejić 2015: 1). C ejić deb uça-se sob e a elação en e a iloso ia e a pe o mance a pa i de Gilles Deleuze. Pa a o ilóso o ancês, os p oblemas «em ez de iden idades», «são obje o das “Ideias”, uma ez que ca ac e izam a elação en e o mas de pensamen o e o mas de sensibilidade enquan o (uma) di e ença» (C ejić 2015: 2). Deleuze e e e que os p oblemas «pe encem ao plano dos e en os, a e os, ou aciden es e não ao plano das essências emá icas» (ibidem). C ejić ao a ibui às p á icas co eog á icas a capacidade de esboça pensamen o, con ibui pa a um « epensa ilosó ico da elação en e co po, mo imen o e empo, que consequen emen e dão o igem a concei os p óp ios dis in os» (ibidem). Jan Ri sema, encenado alemão, a i ma que «a co eog a ia é o pensamen o sob e a o ganização de obje os e sujei os no palco ao ní el espacial e empo al»; pa a Xa ie Le Roy, pe o me ancês, a co eog a ia é cons i uída po «acções e/ou si uações a i icialmen e encenadas»; e pa a Jona han Bu ows, co eóg a o inglês, a co eog a ia é «sob e aze escolhas, incluindo a escolha de não aze escolhas» (C ejić 2015: 8). Bu ows ao assumi a co eog a ia como uma omada de posição es á a des inculá-la do co po em mo imen o. As de inições de co eog a ia aqui ap esen adas êm da condição de «inde e minação da a e como um desen ol imen o pós-concei ual e pós- o dis a da “a e em ge al”, como suge iu S ewa Ma in» (ibidem). Segundo Ma in, a inde e minação da a e começou «como um mo imen o c í ico e emancipa ó io em elação à ins i uição e ao me cado de a e na década de 1960», oda ia, nos dias de hoje, es e concei o é já um dado adqui ido, é «consequência de uma me can ilização e in eg ação expandida da a e e da ida pelo capi alismo» (ibidem). Assumindo que o capi alismo ac ualmen e é “o meio de inde e minação da a e”, al como a gumen a Ma in, «o sen ido de abe u a da a e (a ’s open-endedness) es á en edado com a ideia de que qualque coisa pode se me can ilizada» (ibidem). C ejić aplica a condição da inde e minação da a e à co eog a ia. Compa ando com ou os uni e sos a ís icos, o mundo da dança, pa a a 50 au o a, não pa ilha uma «consciência e p eocupação em elação ao modelo económico capi alis a e de me cado li e, de ido ao ac o de que o alo da pe o mance, enquan o me cado ia [commodi y], se in e io , quando compa ado com as ob as de a e que são come cializadas como obje os» (ibidem). En endemos o a gumen o de C ejić pa a jus i ica uma desp eocupação polí ica po pa e dos agen es do mundo da dança. É ce o que qualque obje o a ís ico ma e ial (pin u a, escul u a) es á bas an e mais suscep í el à especulação capi alis a de me cado, do que obje os a ís icos que pouco, ou nada, deixam de ma e ial palpá el enquan o p op iedade p i ada (posse) depois da sua execução (pe o mance, co eog a ia). No en an o, o pano ama a ís ico da pe o mance é inspi ado po mui os pensado es, a is as, ilóso os e eó icos bas an e poli izados e com uma posições mui as ezes adicais. O que que o sublinha é que o campo da pe o mance oi, e espe a-se que seja, uma á ea a ís ica de desobediência. A dança e o ea o são duas disciplinas que c ia am ins i uições conse ado as al como a pin u a, a escul u a, e a a qui ec u a. A his o icidade da c í ica e da expe imen ação nes as co eog a ias podem se in e p e adas po meio da elação que Deleuze aça en e his ó ia e expe imen ação. C ejić ci a Deleuze em en e is a a An onio Neg i: «sem his ó ia, a expe imen ação pe manece ia inde e minada, não condicionada» (Neg i apud C ejić 2015: 11). Segundo Deleuze, a his ó ia não pode deixa de se is a como um «“conjun o de condições nega i as que pe mi em a expe imen ação”, como p odução de algo no o» (ibidem). C ejić salien a que de emos en ende “condições nega i as” como «um a as amen o c í ico do quad o ins i ucional dos discu sos da dança e do ea o con empo âneos» (C ejić 2015: 11). Os co eóg a os e as ob as a que a au o a se e e e são Sel Unsinished (SU) (1998), e Un i led (U) (2014) de Xa ie Le Roy, Weak Dance S ong Ques ions (WDSQ) (2001) de Jona han Bu ows e Jan Ri sema, héâ e- élé ision (h-é) (2002) de Bo is Cha ma z, N sbl (2006) de Esz e Salamon, 50/50 (2004) de Me e Ing a sen, e I ’s in The Ai (IITA) (2008) de Me e Ing a sen e Je a an Din he . C ejić conclui que es as se e ob as são conside adas co eog a ias po que «o seu ínculo com a dança é nominal e his ó ico: elas não sus en am a imagem do co po engajado na dança, mas nos casos mais adicais, eliminam o mo imen o ou os co pos humanos comple amen e» (ibidem). Con inua dizendo que es as co eog a ias não es ão incluídas exclusi amen e na composição do co po e/ou do mo imen o, mas 51 132-34). Fos e en a explica a dico omia men e-co po «a ibuindo ao co po que imp o isa uma “a enção especi ica”», conside ando o co po como «um ese a ó io do inconscien e cujo p opósi o é e ela o desconhecido», e ela o inconscien e como «uma ealidade mais e dadei a do que aquela onde os mo imen os são de e minados» (ibidem). Es a ideia do que é imp o isação es á mui o p óxima das ideias dadaís as da alea o iedade, da composição espon ânea ou o ien ada a a és de jogos de so e. C ejić ci a a e lexão de Simone Fo i sob e o ideal da espon aneidade na dança que es á em busca de um eu comple o e de um logos: «A “ on e comum” do pensamen o e do mo imen o eside no mo imen o cego do co po, onde o p ocesso de o na conscien e o inconscien e pelo mo imen o co po al, a i ma a au oconsciência no sen ido logocên ico e kan iano: como uma dada aculdade do pensamen o que acompanha espon aneamen e e uni ica odas as pe ceções sensí eis» (ibidem). Con inua dizendo que a mo i ação do co po que imp o isa es á na «“descobe a”»: a pe o mance «de e se cheia de descobe as. Ao mesmo empo que exije uma execução sol a pelo impulso, exige ambém um olha ex e no. […] É esco? Es á a i pa a algum luga ? É acessí el ao público? (Fo i 2003: 56)» (ibidem). Po an o, conclui C ejić, a “descobe a” mencionada po Fo i implica uma deslocação cons an e en e o conscien e e o inconscien e em busca do «“inespe ado”» e do «“desconhecido”» (ibidem). C ejić ol a a ci a João Fiadei o: «Embo a o “inespe ado” seja ex emamen e a o pa a um pe o me expe ien e, é p ecisamen e pa a esse momen o que se abalha […] Ac edi o since amen e que é exa amen e nes e azio que a ida pá a po b e es momen os, que a a e (como o jogo) se o na sublime (Fiadei o 2007: 108)» (ibidem). O «“momen o sublime”» desc i o pelo co eóg a o po uguês pa ece uma «in e posição do “inespe ado” e do “desconhecido”». O mo imen o sem um i mo e um empo p ede inidos o na-se em abe o e po an o «“imp e isí el”» (ibidem). A imp o isação supõe que o co po ge a mo imen o a pa i de si mesmo, «a pa i da expe iência do seu empo, is o é, o a da du ação» (ibidem). Po ou o lado, Pax on ad e e que «“ o a de”» de e se simul aneamen e in e p e ado como «“à pa e de”» (ibidem). Bojana C ejić apon a pa a o ac o de que ambas as e en es da imp o isação — a au o-exp essão como uma pe soni icação de um eu «onde o sujei o coincide com seu co po, e a objec i ação do mo imen o em e pa a si «pa a que o co po se subme a como um ins umen o» — são «in e nalis as» (in e nalis ic) (C ejić 2015: 137). Po 58 ou as pala as, es as e en es da imp o isação « ecusam es ições p esumidas ex e namen e e, em ez disso, ope am den o dos limi es dados in e namen e pelo co po, den o da sua expe iência de empo, espaço e con ac o com o ou o» (ibidem). Es a conclusão em «da pe spec i a neo- angua dis a da “dança como/na ida”, he dada da década de 1960, que pe meia a dança imp o isada como p incípio ideológico da enca nação da libe dade» (ibidem). A imp o isação o na-se assim o mé odo de descob i aquilo que é ine en e ao co po ou «o que é desencadeado pela si uação em que o co po se encon a» (ibidem). Os emas eco en es do inconscien e, inespe ado, e desconhecido, en ol em «manipulação e negociação de alsos opos os: o conhecido e o desconhecido que só o conhecido pode o na possí el» (ibidem). O desconhecido é supos o se uma possibilidade já exis en e, mas ocul a da consciência e do conhecimen o, o que pa a C ejić explica «a expe iência de uma “descobe a” em que o no o su p eende aquele que imp o isa como algo que a expe iência não sabia a é en ão […]» (ibidem). O baila ino e co eóg a o William Fo sy he em como p imei o objec i o «di icul a a lógica da ep esen ação de uma imagem como esul ado inal do mo imen o, pela qual os baila inos e as baila inas são di igidas» (C ejić 2015: 139-40). O segundo objec i o do seu mé odo de imp o isação é «complexi ica a composição além de uma es u u a echada e p é-de e minada concebida po uma au o idade» (ibidem). Fo sy he pa ilha com os baila inos e baila inas a composição do mo imen o, a gumen a que «“não que sabe o que ai acon ece ”», que que «“se a aiçoado pelos esul ados”» (ibidem). Ao analisa o mé odo de Fo sy he, a au o a se a az uma analogia com a polí ica da di isão do abalho: «o seu uso da imp o isação pode ambém se explicado po uma explo ação pós- o dis a da c ia i idade na colabo ação e no abalho em equipa, opondo-se à di isão hie á quica adicional de papéis no balé en e o co eóg a o e o pe o me » (ibidem). A p á ica de imp o isação de Fo sy he não é baseada na au o-exp essão ou na objec i ação do mo imen o uni e sal ine en e ao co po, e como al, «não ea i ma emocionalmen e o eu indi idual do pe o me como sujei o da dança, mas na e dade e o ça a iden idade do pe o me po meio de uma sín ese co po-mo imen o undada na unidade cogni i a e senso ial das aculdades — uma abo dagem que in eg a a men e e o co po». A posição de Fo sy he opõe-se à ideia libe al de espon aneidade cul i ada po a is as como Fo i ou Pax on po que a i ma que o «“pensamen o isce al” é 59 adqui ido a a és da p á ica de uma écnica co po al que en ol e um al o g au de con ole cogni i o» (ibidem). C ejić a i ma que o mé odo de Fosy he assemelha-se mais a uma écnica de composição do que de imp o isação. A unção da imp o isação no mé odo de Fosy he é « es au a a essência imp ecisa do mo imen o da dança […]» (ibidem). Des e modo as écnicas de imp o isação de Fo sy he p oduzem uma es é ica que em como pon o de pa ida o co po daquele que dança. C ejić e e e a p eocupação do co eóg a o em incula o co po a «múl iplos cen os de mo imen o, den o e o a do co po» dando o exemplo da pe o mance WDSQ, onde o co po é abalhado como on e ou pon o de o igem do mo imen o» (C ejić 2015: 141). Des a o ma, as écnicas de imp o isação de Fo sy he esul am «da ex ensão e ampli icação do conhecimen o de um co po au o al indi idual» (ibidem). Jona han Bu ows obse a que «“o p ocesso de ques ionamen o le ou a um empo ão cu o de pensamen o ou exp essão que es á amos quase exclusi amen e a lida com in e upções” (C ejic 2008: n.p.)» (C ejić 2015: 149). C ejic quali ica o mo imen o que nasce des e p ocesso de ques ionamen o como «enunciado», uma ez que aça uma «analogia en e dança e ala» (ibidem). A analogia, segundo a au o a se a, possibili a uma ca ac e ís ica: «o mo imen o começa pela ação olun á ia de se mo e , sem se necessa iamen e uma a i mação mo i ada po algo a exp essa » (ibidem). A on ade de nos mo e mos é uma in enção de dança em es ado de ques ionamen o. C ejic a i ma que es e p ocesso ope a «au oma icamen e», no en an o, não pode se sus en ado po mui o empo senão «implode» (ibidem). A in enção do mo imen o é con a iada pelo desejo de e nasce o mo imen o num plano mais amplo, «sob as ca ego ias de ges o, pedes e, baseado em a e as ou em mo imen os abs ac os o mais ( ask-based, o o mal abs ac mo emen )» (ibidem). Os desejos con á ios de mo imen o aqui ap esen ados de não p oduzi um mo imen o pe cep í el, cons i uem um pa adoxo, pa adoxo es e que a au o a ca ac e iza como «uma ques ão de desequilíb io en e, po um lado, as possibilidades que de em se eliminadas, ou “esquecidas”, e po ou o, a dança num es ado pe manen e de ques ionamen o» (ibidem). A pe o mance con ida-nos a ques iona o que az um dado mo imen o pa a . A au o a abo da ago a os enómenos do p ocesso, da pausa e da essonância, que acon ecem du an e e depois da pe o mance. Es es enómenos en ol em «a empo alização do de i -in enso (p esen e em I ’s in The Ai ), do de i -molecula 60 (p esen e em N sbl) e do de i -qua-mul iplicidade (p esen e em Sel Un inished)» (C ejić 2015: 196). C ejić demons a como es es de i es «sin e izam as dimensões do p esen e, passado e u u o no e en o da pe o mance» (ibidem). A sín ese do empo di e e pa a cada uma das ês ob as. A au o a de ine ês es a égias dis in as que ca ac e izam os p ocessos de de i onde os mo imen os e os co pos «subsis em e insis em»: «in ensi icando o passado e as dimensões u u as do p esen e i o; dila ando o p esen e que conse a o passado; es aziando e libe ando o “ empo lu uan e não planeado” [nonpulsed loa ing ime] em imobilidade e mo imen os conc e os» (ibidem). O p ocesso de abalho nas a es pe o ma i as ac ua «como um meio e mo en e o quo idiano e a es é ica, a empo alidade não quo idiana pa a as ob as pe o ma i as (ações, e en os, happenings)» (C ejić 2015: 197). C ejić ai busca o concei o de inde e minância ao abalho de John Cage pa a a i ma que as ob as de a e pe o ma i a « o am mui as ezes concebidas e conside adas como p ocessos em abe o» (ibidem). C ejić e e e que a junção en e ansi o iedade, p ocessualidade abe a da pe o mance, e as ei indicações neo- angua dis as da a e- ida « i e am um impac o nas p á icas ea ais da época, le ando-as a concebe e e le i sob e a c iação da pe o mance como um p ocesso de ida» (C ejić 2015: 197-98). C ejić sublinha dois concei os bas an e ele an es sob e o p ocesso de c iação pe o ma i a que o am dis inguidos na p á ica e na eo ia da an opologia do ea o. O p imei o oi p opos o na década de 1970 po Richa d Schechne , p opos a que oi bebe «às p á icas neo- angua dis as do Li ing Thea e e ao Tea o Labo a ó io de G o owsky» (ibidem). A p opos a de R. Schechne ei indica que a pe o mance «desen ol e-se e ans o ma-se num p ocesso con ínuo de c iação que começa com ensaios e wo kshops e ai a é à úl ima ase da pe o mance» (ibidem). Es a con inuidade é baseada «numa p á ica de “compo amen o es au ado” ( es o ed beha io ) pelo qual os ac o es ep oduzem ou eencenam “coisas” ma e iais “de maio du ação, ou coisas ão cu as quan o um” ges o (Schechne 1985: 35)» (ibidem). Ao con á io de Y. Raine , «que jus apôs á ios p ocessos de pe o mance a im de explo a a sua cons ução», Schechne p ocu ou «a con inuidade de um p ocesso linea de c iação no qual a pe o mance “ i e”, assemelhando-se a o mas i ualizadas de compo amen o humano» (ibidem). A iliado à “an opologia do ea o” de Schechne , es á a concepção de pe o mance de Eugenio Ba ba «como um p ocesso de “biog a ias cénicas” [scenic bios] (Ba ba 61 1995)» (ibidem). As biog a ias cénicas são «pe o mances cen alizadas na a uação dos seus in e enien es que combinam as écnicas de compo amen o quo idiano, e as écnicas “ex a-quo idianas” que mudam o uso do co po no palco» (ibidem). Não se limi am apenas «a e e encia a ida como um p ocesso ou como uma ap endizagem», p e endem ambém «“o ien á-la pela lógica do p ocesso numa unidade o gânica onde a ida é econs uída dos a i ícios da a e” (Ba ba 1995: 108)» (ibidem). A composição co eog á ica de I ’s In The Ai « ans o ma a ex ensa mul iplicidade de um loop biná io, num loop igo oso», e ao azê-lo, «dá-nos a expe iência in ensi a da sín ese do p esen e, ou de como o p esen e passa po mudanças» (C ejić 2015: 223). A du ação do empo do mo imen o dos co pos na pe o mance N sbl é, segundo a au o a, de uma «len idão desumana» (ibidem). O p ocesso molecula do de i «pa e de mic osensações e mic omo imen os do in e io do co po» (ibidem). Po ou as pala as, as sensibilidades que nascem do luga do den o e que depois se expandem no o a. Em Sel Un inished (1998), o p ocesso de ans o mação de um ou o não humano e mina em imobilidade. As pausas «suspendem o mo imen o de modo a libe a o empo da oscilação li e de pulsação, assim como suspendem o sujei o humano que passa po es a ans o mação» (ibidem). O gagueja na pe o mance WDSQ «ab ange uma sé ie de pausas que o ien am o mo imen o do p esen e pa a o u u o» (ibidem). Pa a C ejić, «queb a o mo imen o logo após o seu início az com que os baila inos sepa em do mo imen o o hábi o comum», colocando o mo imen o a a o de um « u u o inde e minado» que p ocu a «ques iona -se a si mesmo» (ibidem). O olha pa icula sob e a expe iência do empo de cada uma des as pe o mances « ai ao encon o das ei indicações da e eme idade do mo imen o e da aga empo alidade» (C ejić 2015: 224). Es e con on o « o na mais complexo o p esen e da pe o mance» (ibidem). C ejić exempli ica es a ideia de complexi icação do p esen e com as pe o mances N sbl e Sel Un inished ac escen ando «que o empo em ambas em uma qualidade ambígua, dila ada, ou con aída numa inclusão das dimensões empo ais de passado e u u o» (ibidem). A au o a con inua dizendo que «a o ma como o p esen e se con ai e dila a» é ambém di e en e en e si, «a o ma como o empo é i ido depende de como o mo imen o se jun a e sepa a do co po» (ibidem). Em suma, são p ocessos dis in os «de composição, […] de dessubje i ação» (ibidem). Os inas ab up os pa a C ejić põem à p o a a cons ução 62 dos p ocessos c ia i os das pe o mances: «o p ocesso pode subsis i apenas se essoa , se en ol e o espec ado com um p oblema, con udo não é abe o e não con inua além do plano ixo de composição» (ibidem). O desapa ecimen o epen ino do in e p e e de Sel Un inshed na cena inal da pe o mance «con on a os espec ado es com a ques ão “esse de i -ou o pode con inua depois do palco, pa a a ida?”» Os p ocessos de composição des as pe o mances não se assemelham à ida, pa a a au o a, «quan o mais a i iciais e i econhecí eis, do pon o de is a da expe iência humana os p ocessos de composição são, maio pode á se a o ça de essonância dos seus p oblemas no espec ado » (ibidem). As p oblemá icas le an as po C ejić êm como base as seguin es ideias: 1. «não iden idade do co po (Sel Un inished))»; 2. «agência de mo imen o p oduzida de co po e máquina (I ’s In The Ai )»; 3. «mo imen o impe cep í el (N sbl)»; 4. «indisce nibilidade en e imobilidade, mo imen o, e iné cia en e co pos i os ou obje os inanimados (Un i led)»; 5. «que o mo imen o e a sensação são mais ápida que o seu p óp io econhecimen o (50/50)»; «“mo imen o nem de, nem pa a” (Weak Dance S ong Ques ions)»; 6. «a ideia de ea o e dança men al na cabeça do espec ado (héâ e-élé isiosn)» (C ejić 2015: 226). Es es são os concei os cha e das composições das ob as pe o ma i as analisadas, e e em-se às qualidades do co po, mo imen o, empo e a enção: «Co pos pa ciais, máquinas pa ciais, sensações de mo imen o, caixa de en ada [head-box], assemblagens de a ame, gaguez, mo imen os de o ça, mo imen o de c ise, inal ab up o, e essonância» (C ejić 2015: 227). As pe o mances aqui analisadas ompem com a sín ese da dança mode na en e o co po e o mo imen o a a és de dois p incípios: «a au o-exp essão como um modo de subje i ação que liga o co po ao mo imen o, e a obje i ação do mo imen o a a és de uma a iculação exclusi amen e ísica do co po como seu ins umen o» (C ejić 2015: 227-228). A au o a conclui que a dança con empo ânea «di icilmen e pode se concebida como uma exp essão au o-e iden e do co po em mo imen o» (ibidem). Em ez de « e ichiza o co po-que-dança como uma espécie de obje o de con emplação», a au o a olha pa a a co eog a ia desse co po como «uma ope ação que le an a p oblemas e exp essões ou as de mo imen o que exigem a enção, empo e espos a po pa e dos espec ado es» (C ejić 2015: 230-231). As ideias co eog á icas deslocam «os seus obje os pa a o a do campo da dança», azendo com que ou os obje os sejam 63 analisados a pa i da co eog a ia, nomeadamen e a elação da a e- ida como a mesma coisa (ibidem). C ejić a i ma que a dança con empo ânea de e ia ambém se is a «como mé odo de análise do luga do mo imen o e do co po nas ac uais o mas au ónomas de abalho» (ibidem). Es a análise é «um passo em en e na p oblema ização da dança», uma ez que não se esume a eo ia à elação en e a es pe o ma i as e iloso ia, cons uindo des e modo ci cuns âncias que possibili em um pensamen o sob e «os p oblemas que es u u am, social e poli icamen e, a ida quo idiana» (ibidem). 64 CONCLUSÃO Ao longo des a disse ação são dados a conhece á ios a is as e eó icas que pensam e abalham sob e imp o isação. Fica cla o que exis em ou as o mas de pensa o co po, o mo imen o, e a elação des e no espaço público. Podemos conclui que o aze -nasce do co po pe o ma i o pelo meio da imp o isação pode se usado como a ma polí ica, uma ez que az sob essai sensibilidades e omadas de consciência que udo em que e com a e e na pe gun a sob e o nosso luga no mundo. Es e co po ab e-nos ou as possibilidades de cons ui comunidade e de habi a o colec i o. Pelo pensamen o de Habe mas en endemos que cons ui comunidade passa po imagina o espaço público como ealmen e público, ou seja, um espaço onde os bens-comuns são ge idos e adminis ados po aqueles que pa icipam na cons ução desse espaço, p essionando o pode polí ico a legi ima a au o idade daqueles-que-o- azem, em ez de impo uma ideia de espaço público legi imada pela au o idade ins i ucional, do Es ado ou de ou a en idade semelhan e. A a i mação da a e- ida como a mesma coisa possibili a-nos olha o mundo de uma ou a o ma, ab indo espaço ao não-sabe e à dú ida, duas coisas que suspei amos se em undamen ais pa a a cons ução de no as p esenças e modos de es a . Com Wendy Pe on en endemos que o mo imen o do co po se desen ol e na co agem e na in imidade dos in e enien es que ocupam o espaço en e si. O depoimen o da co eóg a a e baila ina Ba ba a Dilley demons ou-nos que alguma coisa espi i ual desce pelos nossos co pos du an e os p ocessos de c iação, e p ocu ámos elacioná-lo com a pa ilha do sensí el de Ranciè e, nomeadamen e com a ideia da cons ução do comum. A espi i ualidade de Dilley elaciona-se com a ca ac e ís ica holís ica do co po e e ida po Bojana C ejić, o que nos le a a coloca a ques ão: se á que a dança, a pe o mance, e a imp o isação celeb am o inconscien e? A a és do exemplo do GU, e das pala as de Joao Fiadei o, Ma a Dziewanska e And é Lepecki podemos conclui que a imp o isação passa pela p ocu a cons an e e pelo desa io de i na di ecção do não signi icado, que a po ência de ansg essão es á semp e disponí el pa a se ac i ada po mecanismos que não os do in elec o, mas sim de pe ceções, sensibilidades, e desejos que nos le am a luga es ou os que não os do signi icado. Sendo a imp o isação pa e cons i uin e da pe o mance, podemos conclui que ambas em um ca ác e ansg esso , uma po ência dis up i a de 65 ans o mação que ai além da a e e do signi icado. Com Bojana Kuns suspei amos que a pe o mance é um momen o de up u a empo al, um momen o onde é c iado um no o empo, uma implosão de di e en es o ças que não se ege pela linha empo al passado-p esen e- u u o. A pe o mance em po an o uma qualidade ine en emen e polí ica não apenas pelos emas que abo da, mas ambém de ido à up u a empo al que p o oca. Sasha Obukho a ajuda-nos a cons a a o desejo da pe o mance em ans o ma a linguagem da a e e os undamen os do discu so es é ico. A pe o mance p e ende i além da a e descons uindo as suas ca ego ias de géne o. É uma á ea a ís ica de desobediência que p ocu a i de encon o à economia de me cado libe al. Com A. Hewi en endemos que a co eog a ia social não é apenas uma o ma de pensa sob e a o dem social, é ambém uma o ma de pensa sob e a elação en e es é ica e polí ica. Es a elação a icula-se pela o ma, não é abs ac a, em que e com ma e ialidade. O concei o da co eog a ia social é ambém uma lupa que coloca as es ições sociais isí eis, ou seja, é uma o ma de e os e lexos dos nossos co pos e de udo aquilo que eles ep esen am no espaço. Os enómenos es é icos são nes a disse ação en endidos como con i e a ação, não se esumindo a simples de e minan es sociológicos. Po esse mo i o, a co eog a ia social de e ia se agen e na cons ução da ideologia do nosso pensamen o ma e ializando-o, quando necessá io, em ação polí ica. A a és de Schille , en endemos que a dança e as a es pe o ma i as êm a capacidade de p ojec a no as o mas de o ganização social. Analisando o concei o da co eog a ia social en endemos que a es é ica é uma e amen a pa a o en endimen o da a e como algo iminen emen e polí ico. Assim sendo, cola-se a ques ão: se á que os co pos signi icam uma panóplia imensa de coisas que es ão o a do campo da acionalidade, que pe encem a luga es não- empo ais onde habi am emoções, sensações, in ospecções, a e lexão e a con emplação? A dança mani es a e o na isí el os impulsos, o co po que dança á-lo po que sen e impulso pa a dança , p oduz ene gia, ene gia es a que é socialmen e con agian e e po enciado a de no as o mas de exis i e agi na supe ície do mundo. O co po que dança é aqui elacionado com o co po que su ge da co po eidade. T a a-se de um co po que é con á io ao co po indi idual, um co po onde o seu sujei o é lu uan e. Es a úl ima ca ac e ís ica pe mi e-nos a i ma que o co po é um luga ansi ó io, um 66 luga que es á em luxo en e esis ências, esiliências e na busca po no as o mas de exis ência. Concluímos com B. C ejić e Deleuze que a subje i ação do co po pelo mo imen o e a obje i ação do mo imen o pelo co po cons i uem o egime o gânico da dança. A subjec i ação do co po pelo mo imen o az-se pela au o-exp essão do mesmo, ao passo que a obje i icação do mo imen o pelo co po az-se a a és da a iculação do co po como ins umen o do mo imen o. Com B. C ejić supomos que o co po-que-dança não me ece se e ichizado como um obje o de con emplação, que a co eog a ia desse co po le an a p oblemas e exp essões ou as de mo imen o que me ecem a enção, empo e e lexão po pa e do espec ado . 67