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Pessoa no labirinto de Saramago

Maia, Luís Carlos Simões Carreira

Abstract

A presente dissertação, tendo como ponto de partida o romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, percorre algumas linhas de leitura desencadeadas pela obra, como sejam o aspecto deambulatório da presença do seu protagonista no tempo e no espaço do seu regresso do auto-exílio no Brasil, a presença da voz feminina na narrativa ou a intertextualidade. A intenção primordial do autor, diversas vezes enunciada, foi a de confrontar o heterónimo pessoano com a realidade, enfrentar o que se mostrava na sua poética como um transeunte alheado com o teatro do mundo que era representado no ano de 1936. Se num primeiro momento a dominância do que é uma ficção da ficção, a personagem Ricardo Reis, é objectiva, uma outra figura de «acontecimento irregular» vai ganhando a primazia no que pretende o autor, que o leitor leia o romancista, não o romance, e essa leitura efectua-se por interposta pessoa, neste caso Fernando Pessoa, que servirá, bastantes vezes, como o lugar do eco da voz saramaguiana.

Full text

Pessoa no labi in o de Sa amago Luís Ca los Simões Ca ei a Maia Disse ação de Mes ado em Es udos Po ugueses Agos o de 2018 Disse ação ap esen ada pa a cump imen o dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de Mes e em Es udos Po ugueses, ealizada sob a o ien ação cien í ica da P o esso a Dou o a Manuela Pa ei a da Sil a. Ag adecimen os Dois ag adecimen os mais um, cu os, mas não de passagem, sen idos. Em p imei o luga , à minha O ien ado a, Manuela Pa ei a da Sil a, pela mui a paciência, ole ância e, mais do que udo, con iança e amizade. Em segundo luga , à minha Família, com nomeação di ec a de mui as mulhe es, Ca a ina, Te esa, Leono , Inês, pelo incen i o e pelo que a u a am. Mais um, pa a quem ez companhia sem es a , Sil ia Pe ez C uz, Anoua B ahem, Cae ano Veloso. Pa a a Paula, po udo. Pessoa no labi in o de Sa amago Luís Ca los Simões Ca ei a Maia RESUMO PALAVRAS-CHAVE: Sa amago, Pessoa, labi in o, au o A p esen e disse ação, endo como pon o de pa ida o omance O Ano da Mo e de Rica do Reis, de José Sa amago, pe co e algumas linhas de lei u a desencadeadas pela ob a, como sejam o aspec o deambula ó io da p esença do seu p o agonis a no empo e no espaço do seu eg esso do au o-exílio no B asil, a p esença da oz eminina na na a i a ou a in e ex ualidade. A in enção p imo dial do au o , di e sas ezes enunciada, oi a de con on a o he e ónimo pessoano com a ealidade, en en a o que se mos a a na sua poé ica como um anseun e alheado com o ea o do mundo que e a ep esen ado no ano de 1936. Se num p imei o momen o a dominância do que é uma icção da icção, a pe sonagem Rica do Reis, é objec i a, uma ou a igu a de «acon ecimen o i egula » ai ganhando a p imazia no que p e ende o au o , que o lei o leia o omancis a, não o omance, e essa lei u a e ec ua-se po in e pos a pessoa, nes e caso Fe nando Pessoa, que se i á, bas an es ezes, como o luga do eco da oz sa amaguiana. Pessoa in Sa amago’s laby in h Luís Ca los Simões Ca ei a Maia ABSTRACT KEYWORDS: Sa amago, Pessoa, laby in h, au ho The ollowing disse a ion, ha ing as a s a ing poin José Sa amago’s O ano da mo e de Rica do Reis, a els along some eading pa hs igge ed by he no el i sel , as he wonde ing na u e in ime and space o i s p o agonis e u ned om his au o-exile in B azil, he eminine oice p esen h oughou he na a i e o he in e ex uali y. The au ho ’s p ime in en ion, e ealed se e al imes, was o con on Pessoa’s he e onym wi h eali y, ace wha was shown in i s poe y as a passe -by de ached om he wo ld’s hea e, played in 1936. I in a i s momen wha domina es is a ic ion o he ic ion, Rica do Reis’ objec i e cha ac e , along he wo k ano he au ho ’s in en ion is disco e ed – ha he eade eads he no elis and no he no el, h ough Fe nando Pessoa’s cha ac e . Pessoa will be, in nume ous occasions, a ehicle o Sa amago’s oice. ÍNDICE In odução 9 Pa e I: Alguns ópicos sob e O Ano da Mo e de Rica do Reis 14 1.1. Deambulação me eo ológico-geog á ica 15 1.2. O empo his ó ico 21 1.3. Viagem li e á ia. A onda das es á uas 33 Pa e II: O Ano da Mo e de Rica do Reis e The God o he Laby in h 52 2.1. A quad a u a de um cí culo: Bo ges, Sa amago, Quain, Reis 55 2.2. Bo ges e Sa amago e a água da mesma on e 59 Pa e III: Pessoa no labi in o de Sa amago 65 3.1. Es a Lisboa que se e isi a 71 3.2. O espec áculo do mundo 74 3.2.1. O bodo d’O Século 77 3.2.2. A ida a Fá ima 81 3.3. Pa a que se e Pessoa em O Ano da Mo e de Rica do Reis? 87 Conclusão 109 Bibliog a ia 113 A imaginação em a ocação de p oduzi o eal. José Gil. Caos e Ri mo 9 In odução A 30 de No emb o de 1935 mo e Fe nando Pessoa, no hospi al dos anceses em Lisboa, o Hospi al de Sain Louis. Tinha 47 anos e um lacónico eleg ama, como odos o de e iam se , de Ál a o de Campos pa a o Rio de Janei o, a anuncia es a mo e é, em O Ano da Mo e de Rica do Reis, de José Sa amago, o p imei o passo pa a o eg esso a Po ugal do he e ónimo pessoano adicado no B asil, ido como pe sonagem p incipal do omance. O seu í ulo pa ece anuncia a on ade do au o , a de mos a o ano de 1936, que se á o da mo e des e Rica do Reis sa amaguiano, p eâmbulo de b u ais i ências po que passou e so eu o mundo. É desse es ado de coisas, em pa icula na Eu opa, que José Sa amago deseja, mais do que ilus á-lo, aze da sua pe sonagem he e onímica uma es emunha que ai caminha da placidez da indi e ença a é um quase não con ido sen imen o de e ol a que esboça, mas não mais do que isso, logo o con ém e o az desapa ece consigo mesmo. Vol ando ao p imus c ea o de Rica do Reis, es amos a en ol ê-lo num labi in o de que o lei o se dá con a a a és do í ulo de uma ob a des iada po Reis, inconscien emen e, diz-nos, da biblio eca em que inha luga , a do apo Highland B igade, que o az de eg esso, do Rio de Janei o, a Lisboa, nos úl imos dias de 1935, o ano da mo e de Fe nando Pessoa. São no e os meses concedidos a Fe nando Pessoa após a sua mo e pa a ci cula à on ade, pala as da pe sonagem, uma ques ão de equilíb io, ac escen a, de sime ia en e os meses que andámos na ba iga das nossas mães, diz, e o quan o bas a pa a o o al ol ido de qualque mo o, sal o casos excepcionais. Se -lhe-ão dados alguns dias mais pa a além des e p azo de es aecimen o, des a dissipação da igu a pessoana. Vai se o empo dado pa a pe co e os labi in os azidos pa a es e omance: o mais ób io é o da na a i a de Jo ge Luis Bo ges, mas há ambém o da cidade cons uída na e ância do p o agonis a, o do empo his ó ico que é o ano da mo e de Rica do Reis, em Po ugal e na Eu opa, essencialmen e, um empo de chumbo que a oga pela chu a pe sis en e, com a me eo ológica e osimilhança que é azida pa a o omance, um país debaixo do domínio de um pode manso que, po ou o lado, o pode , não se coíbe de ges os 16 Pessoa, ou como o ca ac e iza Ál a o de Campos 8 . É com alguma ap eensão que desemba cam os passagei os 9 , naquele úl imo domingo de 1935, num cais de ped a (que se á saudade?) epassado pela água em que colidem e se pe dem as poucas eco dações, elididas de um passado al ez ão somb io e cinzen o como o hoje que se i e, apenas b anqueado pelas águas da memó ia. É elucida i a a passagem em que uma passagei a do Highland B igade ê pe didas no cais as memó ias azidas numa modes a caixa de olha, es a cidade não condescende com quem ainda nela possa e alguma espe ança: E uma mulhe idosa, que eima em ab i um gua da-chu a, deixa cai a pequena caixa de olha e de que azia debaixo do b aço, com o ma de baú, e con a as ped as do cais oi des aze -se o co e, sol a a ampa, eben ado o undo, não con inha nada de alo , só coisas de es imação, uns apos colo idos, umas ca as, e a os que oa am, umas con as que e am de id o e se pa i am, no elos b ancos ago a maculados, sumiu-se um deles en e o cais e o cos ado do ba co, é uma passagei a da e cei a classe. (13-14) É o axis a que conduz Rica do Reis ao ho el, a um qualque ho el, a única p e e ência enunciada é que ique pe o do io, que ab e os p imei os caminhos do p o agonis a na cidade, aden ando-o no labi in o que ela é 10 , dando azo a uma p imei a no ação do imobilismo da cidade, e e indo que uma ausência ão demo ada como o a a de Reis da á luga , o çosamen e, ao econhecidamen e mudado nes e Po ugal ago a eencon ado. P imei a imp essão que não é a do seu passagei o, que não encon a mo i o que al jus i ique: Ao iajan e não pa ecia que as mudanças ossem an as. A a enida po onde seguiam coincidia, no ge al, com a memó ia dela, só as á o es es a am mais al as, nem admi a, semp e inham sido dezasseis anos a c esce , e mesmo assim, 8 “o p óp io Fe nando Pessoa se ia um pagão, se não osse um no elo emb ulhado pa a o lado de den o.” Pessoa, s/d-a: 158-159. 9 “A al ândega é uma an ecâma a, um limbo de passagem, que se á lá o a.” Sa amago, 1984: 14. 10 “Es as on a ias são a mu alha que ocul a a cidade, e o áxi segue ao longo delas, sem p essa, como se andasse à p ocu a duma b echa, dum pos igo, duma po a da aição, a en ada pa a o labi in o.” Idem: 17-18. 17 se na opaca lemb ança gua da a ondes e des, ago a a nudez in e nal dos amos apouca a a dimensão dos enques, uma coisa da a pa a a ou a. (17) A en ada pa a o labi in o á-la Rica do Reis sem io algum que o guie, pois de A iadne anda ainda dis an e. Já ins alado no qua o 201 do Ho el B agança, qual oz de se eia chega-lhe o som da cidade que o ai a ai , embo a nele se não iden i ique doçu a, o que ou e é “o sussu o, o mu mú io da cidade, seiscen as mil pessoas suspi ando, g i ando longe” (22), o umo ejo de uma cidade empa edada que não em po onde deixa escapa os seus g i os. A chu a da chegada i á acompanhá-lo du an e á ios meses, Sa amago p eocupou-se em ex emo com a ep odução, no omance, de udo o que o ap oximasse da e osimilhança e a condição me eo ológica de 1936 es e e semp e p esen e 11 , po ém não julgo que o au o cuidasse em demasia da coisa me eo ológica, an es lhe se iu pa a i descascando, capa po capa, como cebola, uma cidade a ogada na op essão de um pode que se que ia c isma de no o, mas onde ondea a a p esença de seguidismos inspi ados além on ei as. É essa a azão que le a o na ado a a i ma que nem mesmo quando o sol, en im, consegue ompe a mu alha de nu ens a cidade consegue libe a -se da mo daça que so e: O sol b anqueado ba e nas elhas molhadas, desce sob e a cidade um silêncio, odos os sons são aba ados, em su dina, pa ece Lisboa que é ei a de algodão, ago a pingando (64) Se a adjec i ação de labi ín ica lhe não bas asse, é igualmen e e a ada como caó ica, sem umos, sejam os que nos le am à dis ância do ho izon e que se busca ou os que a é ela, cidade, se guiam. E o caos ad ém-lhe de não sabe já pa a onde a conduz a sua osa dos en os, desno eada é o e mo, uma u be que ainda exibe as penosas 11 Numa agenda de 1983, ago a pa e do espólio do au o deposi ado na Biblio eca Nacional, Sa amago al e ou a elação en e dias da semana e dias do mês pa a coincidi com o inal de 1935 e os no e p imei os meses de 1936. En e mui as ou as e e ências, são equen es as ei as às condições me eo ológicas de en ão, nomeadamen e as empe a u as mínima e máxima egis adas em Lisboa. 18 cica izes do passado e já no as e idas lhe ão asgando o co po sem e quem dela se condoa: a es a cidade bas a sabe que a osa-dos- en os exis e, ninguém é ob igado a pa i , es e não é o luga onde os umos se ab em, ambém não é o pon o magní ico pa a onde os umos con e gem, aqui p ecisamen e mudam eles de di ecção e sen ido, o no e chama-se sul, o sul é o no e, pa ou o sol en e les e e oes e, cidade como uma cica iz queimada, ce cada po um e amo o, lág ima que não seca nem em mão que a enxugue. (92) A impo ência pa ece se o que cau e iza as do es da cidade, e o sob e a ca ne e ida e não se ou e a sua oz na do sen ida, mas não lida, não em au opsicog á icas dig essões, an es em elogiosas encomendas do pode , que é o que se pe mi e le : es a “Lisboa é um g ande silêncio que umo eja, nada mais.” (221). É, en a icamen e, uma pequeníssima cidade, não na sua dimensão, mas na medida que lhe pe mi em e 12 . Deixa que a sua ida se a asque na do mência que lhe p o oca a mão de e o em lu a de eludo do pode pa a se acomoda a um inexis i que a con o ma, “é uma sossegada cidade com um io la go e his ó ico” (409), sendo azão mais do que su icien e pa a a alidade da epíg a e pessoana escolhida po Sa amago: Se me disse em que é absu do ala assim de quem nunca exis iu, espondo que ambém não enho p o as de que Lisboa enha alguma ez exis ido. (9), po que, nas pala as de Paula Mo ão, apesa da p e endida e osimilhança das pe sonagens e o om de econs i uição his ó ica que, po ezes pe co e a ob a, es a Lisboa é uma cidade que se cons ói como elemen o de icção: “A ocagem de Reis, como a do ano e da Lisboa em que se encon a, se á ei a de in e mi ências en e a lucidez e o le a go, a luz e a somb a; po isso há 12 Com um pisca de olhos a Ál a o de Campos: “Lisboa, com suas casas de á ias co es, é uma pequeníssima cidade” Sa amago, 1984: 259. 19 uma con aminação en e es e se de papel que Rica do Reis é e semp e oi e o se - eal que a cidade é, econhecí el pela exac idão dos ac os que a azem e de e minam. Habi ada, a inal, apenas po pe sonagens e osímeis, emanação de ipos, e animada po um quad o his ó ico e po cenas a que uma pe sonagem assis e, a cidade que ealmen e exis iu desliza pa a um es a u o de icção.” 13 Reis, Lisboa, 1936, ês é ices em lados o nados e que ago a se in e seccionam numa deambulação com p azo de alidade anunciado logo no í ulo, que se amalgamam numa es u u a labi ín ica de que são pa e ac i a: o ano e o es emunho do que nele oco a são o labi in o que Reis ai calco ea ; se Reis conhece o que se passa no ano da sua mo e é, em p imei o luga , po in e pos o olha , o da imp ensa, es emunho a que mais pa ece apega -se quan o mais insegu o se julga, quando a ealidade da cidade lhe ai demons ando que ou os podem se os ac o es a conside a : “Aliás, é jus amen e nessas suas “caminhadas e descobe as” (...) pelas uas de Lisboa que ele em opo unidade de con on a as no ícias dos pe iódicos e encon a ou os “guias e aços” pa a e es i o seu os o po uguês. No en an o, ele ecusa o con on o e p e e e, quase semp e, ia -se no que dizem os jo nais.” 14 . A sua descida à cidade, a sua dig essão pelo quad iculado da baixa lisboe a ou pelo labi ín ico Bai o Al o nem semp e con i mam o que le a, o que incomoda aquele que na sua poesia pe co e o passado à manei a de p íncipe, seguido que é de Baudelai e 15 , que a mais não aspi a que o se lâneu . Esse, po ém, é o papel que lhe des ina a o seu c iado p imei o, Fe nando Pessoa, não o que lhe ese a, nes a e- c iação, Sa amago, que o que con on a com o mundo, descob i o labi in o que o habi a e impo uná-lo, mos a -lhe que a e ec i a iagem des e se , iccionalização de uma icção, como lhe chamou Ma ia Alzi a Seixo 16 , não é a que emp eendeu no apo de amília que o ouxe de eg esso a Lisboa do seu au o-exílio, a 13 Mo ão, 1993: 141-142. 14 Bueno, 2002: p. 45. 15 “He who ollows Baudelai e, as Reis so ob iously does, walks h ough he pas in he manne o he p ince, and uly as ye ano he ype o 'obse e ' o ha pas , ha is, o lâneu ”. Buescu, 2017: 44. 16 Seixo, 1986: 179. 20 “ e dadei a iagem do pe sonagem de que o ex o dá con a é ei a pela labi ín ica Lisboa, pelo labi ín ico ano de 1936, cuja a alanche de acon ecimen os pa ece desno ea Rica do Reis, ex-poe a de musas a cádicas, de lau as e de pas o es.” 17 O que, en im, Sa amago az com Rica do Reis é o mesmo ges o que Ha old Bloom que e com as pe sonagens de Shakespea e: El a e de Shakespea e a la ho a de pone un pe sonaje en p ime plan es al que nos encan a aslada sus homb es y muje es a o os con ex os, especulando ace ca de cómo les i ía en o as ob as de ea o o en compañía de o os pe sonajes. ¿Cómo es eso posible? Cada uno de esos es es á compues o de palab as y habi a un espacio ijo. No obs an e la ilusión de i alismo esul a especialmen e ue e en ellos, aun cuando aya en con a de mis con icciones más p o undas u iliza la palab a ilusión. 18 A c iação pessoana é ão in ensa que Sa amago não esis e a desloca um dos seus pila es ei o de pala as e com um espaço p óp io pa a um espaço que não é, decididamen e, o dele. O p e ex o, já se sabe, é o de, num jogo de a acção e ejeição que joga desde mui o jo em com Rica do Reis, o aze enca a o mundo, como ele é, ou julga sabe se . É, com g au ele ado de p obabilidade, uma manei a de iludi a ques ão que Bloom coloca: “Si Fals a y Hamle son iluso ios, en onces ¿qué somos ú y yo?” 19 . Que mais não é do que um en endimen o p óximo do que o p óp io Sa amago e ela: “a é cos umo dize que nós p óp ios somos se es de icção.” 20 17 Ce dei a, 2000: 275. 18 Bloom, 2011: 48. 19 Idem. 20 Reis, 1998: 87. 21 1.2. O empo his ó ico De 11 de Julho de 1914, cinco anos an es da sua pa ida pa a o B asil, da a Rica do Reis uma ode, publicada dez anos depois, po inicia i a de Fe nando Pessoa e de Ruy Vaz, no p imei o núme o de A hena, pe iódico que se subin i ula a Re is a de A e, ei a pa a “o público que «comp eende» a a e”, que não é a maio ia, nem uma mino ia, apenas alguns indi íduos, escla ece Pessoa em en e is a ao Diá io de Lisboa 21 , o que p o a elmen e explica á a e eme idade da publicação, com cinco núme os saídos en e Ou ub o de 1924 e Fe e ei o de 1925. Cu iosamen e, o núme o de es eia indica a, po en u a p emoni o iamen e, como mo ada da di ecção e da adminis ação, a T a essa do Falla-Só em Lisboa. Es a ode e a a úl ima de um conjun o de in e que Pessoa o ganizou pa a o “Li o P imei o” da ob a poé ica de Reis e decla a, a ode, impe a i amen e, no p imei o e so, a in iabilidade do se humano a quem ins a o cump i “sem ilusão a ida” 22 e a libe a -se de odos os a dos que possam ca ega os omb os d’ “As somb as que se emos”. Em inal de ode, lemb a que se emos “[E] cada ez mais somb as” indo “Ao encon o a al”, o a e com “O ba co escu o no so u no io”. Vin e e um anos passados, um ba co en a no Tejo, “Um ba co escu o sobe o luxo so u no” (11). Nele eg essa o Rica do Reis sa amaguiano e a mais do que pa en e analogia en e o que lhe des ina, na ode an es ci ada, o seu homónimo pessoano e o aludido no í ulo do omance de Sa amago não pode se ol idada. Mais, o desígnio enunciado na ode a oja uma me a ó ica somb a sob e o empo his ó ico que, g osso modo, baliza a na a i a, o ano de 1936, palco, no caso eu opeu, de uma deg adação e iden e do clima polí ico, com a consolidação de pode es au oc á icos em Po ugal, Alemanha e I ália, con ulsões sociais em F ança e o início da gue a ci il em Espanha. Es a e cei a ase de O Ano da Mo e de Rica do Reis, cedo desilude a in enção que apa en a a p onuncia o incipi de camoniana pa ódia 23 , “Aqui o ma acaba e a e a 21 Diá io de Lisboa, 3 de No emb o de 1924. 22 Pessoa, 1981a: 35. As ci ações seguin es encon am-se ambém em Pessoa, 1981a. No que conce ne à ob a de Pessoa, seguiu-se, semp e que possí el, edições an e io es a 1984, ano da publicação de O Ano da Mo e de Rica do Reis, pois o am aquelas a que e e acesso Sa amago pa a o seu li o. 23 Os Lusíadas, III, 20: “Onde a e a se acaba e o ma começa,”. Aqui inicia-se uma iagem pa a a gló ia e a ama. Em O Ano da Mo e de Rica do Reis, amos eg essando sem gló ia nem ama e a e a não se cump i á. 22 p incipia. 24 ”, p e ex o, pode -se-ia julga , pa a mudança, não somen e pa a a pe sonagem eg essada de dezasseis anos de au o-exílio, mas ambém pa a uma e a que e i a a olha -se. E o ciclo é echado na ase inal, “Aqui, onde o ma se acabou e a e a espe a.” (415), com a e apa ma í ima conclusi amen e ence ada, passe o desp opósi o edundan e, e a es agnação do es ado de coisas naquele Po ugal que se dizia de Es ado No o, que o lei o oi pe co endo na companhia de Rica do Reis (e não só). O empo his ó ico, que mui o passa pela i onia na ado a que se dis ende ao longo da ob a, pode se balizado, no que espei a à si uação polí ica nacional, pela p opaganda do egime igen e, nomeadamen e no que conce ne à sua p esença na ac i idade a ís ica. Não esqueçamos, po ém, o con ibu o dado pela imp ensa, seja a a és dos jo nais nacionais, manie ados pela censu a, ou das encomiás icas encomendas na imp ensa in e nacional sob e a igu a, não longe do messianismo, do p esiden e do Conselho de Minis os, Oli ei a Salaza . São os jo nais que o e ecem a Rica do Reis uma p imei a lei u a do espec áculo do mundo a que ele assis e comodamen e sen ado no so á do Ho el B agança, já humanizado po que a eiçoado à moldu a dos co pos an e io es, um ninho, um e úgio a que elu an emen e Rica do Reis acede em deixa . O c édi o que dá às suas lei u as quo idianas não de e se conside ado demasiado ou ingénuo, po que não é maio do que o a ibuído pelas es an es pe sonagens à excepção de Lídia (que em ou as on es de in o mação que con on a com as de Reis, nomeadamen e as que lhe chegam da clandes inidade pelo seu i mão ma inhei o, Daniel) e, espo adicamen e, do mo o Fe nando Pessoa. Ten a -se-á esis i ao epí e o an asma, quase semp e indo à colação quando há e e ência a es a pe sonagem, de modo inadequado. Essa esis ência em dois mo i os: an es de mais, a o al incapacidade de de inição do que é an asma, inap idão que é pa ilhada pela mesma pe sonagem que, pe emp o iamen e assume a sua condição, a de mo o, e essa é a segunda azão pa a a anunciada esis ência: 24 Sa amago, 1984: 11. 23 E en a , como oi que en ou no meu qua o, Como qualque ou a pessoa en a ia, Não eio pelos a es, não a a essou as pa edes, Que absu da ideia, meu ca o, isso só acon ece nos li os de an asmas, os mo os se em-se dos caminhos dos i os, aliás nem há ou os. (28) Que azão e ia um ecém-chegado pa a du ida de uma imp ensa que conhece a dezasseis anos an es, nomeadamen e os jo nais mais ci ados, O Século e o Diá io de No ícias? A ecepção que az do que lê e ela, em p imei o luga , a ausência de espí i o c í ico, uma incapacidade de le nas en elinhas que e o ça a acei ação do que é, mui as ezes, mais uma ocupação ociosa do que uma in es igação sob e o eal es emunhado pela imp ensa. 25 Po ou o lado, a adopção que az do discu so jo nalís ico chega ambém pelo c édi o que es e lhe me ece e pela ausência de ozes con adi ó ias no meio social em que Reis pe manece: “Além disso a pala a imp essa gua da uma au a de c edibilidade a que não escapam mesmo ce os in elec uais como Rica do Reis que, na al a de in o mações mais p ecisas, adop am a mensagem de jo nal como exp essão da e dade, assumindo-a como discu so p óp io.” 26 Mas ou os discu sos uncionam como complemen o do olha sob e o país que ap esen am os jo nais: é no ea o, na li e a u a e no cinema que o olha i ónico do au o sob e o país se agudiza e incomoda es e Rica do Reis sa amaguiano. A p e ensa neu alidade da oz na ado a conduz-nos pela peça Tá-Ma , pelo li o Conspi ação e pela odagem do ilme, que es ea ia em 1937, A Re olução de Maio. São ão de edo es da ideologia do Es ado No o como o que é pe mi ido à imp ensa publica , ozes que silenciam udo o que não seja pensamen o o icial do egime: 25 “Não há nenhum es o ço p óp io da pa e de Rica do Reis pa a analisa os dados o necidos e descob i as suas con adições. O jo nal é mais um meio de p eenche o azio exis encial (ou de escapa a ele) do que um desejo de in es iga o empo pa a nele exe ce a sua opção de ida.” Ce dei a, 1989: 119. 26 Ce dei a, 1989: 127. 24 “Finalmen e, pode íamos ap esen a uma ou a espécie de ala que sob essai em ele o na ecedu a de O Ano da Mo e de Rica do Reis. São as dos ilmes, dos li os e dos ea os de gue a. Mas es as são desdob amen os de uma ou a aqui já ap esen ada. São apenas di e en es o mas de epe i um mesmo discu so. São (como o dos jo nais e do ádio) discu sos p oduzidos pela ideologia do Es ado No o. Eles silenciam po que in e em o sen ido do mundo. São alas que calam, po que p oduzem eco, imobilizando qualque ou a mani es ação do pensamen o, po que ob igam a dize as coisas de uma de e minada manei a.” 27 O espec ado p o agonis a do omance não descob e pe se as ob as e e idas, chega a é elas po mo i os mui o di e sos: no p imei o caso, pela aguda cu iosidade que nele se ai ins alando ace ca de Ma cenda, a jo em da mão esque da pa alisada, o que ambém unciona como ac o de a acção pa a Rica do Reis. A ob a de Tomé Viei a é- lhe aconselhada pelo pai da jo em, o dou o Sampaio. Quan o ao ilme, su ge quase como um sonho, em início de capí ulo, pa ece insinua -se como elacionado com Reis, embo a al não seja e dade. É po Sal ado , ge en e do Ho el B agança, que Reis sabe da ida de Ma cenda e do pai ao Tea o Nacional D. Ma ia, pa a assis i à peça Tá-Ma , de Al edo Co ez, o que o az decidi ambém i e aze -se encon a pelos seus colegas hóspedes. Há odo um conjun o de p epa a i os a se ei os e a b e e desc ição de como passou as ho as an e io es à ep esen ação da peça se em, pelo seu om i ónico, pa a a ap eciação do na ado , em simul âneo, do momen o polí ico e como e a e a ado na imp ensa pois se se e dos e mos equen emen e modelados nes a pa a a ap esen ação do p og esso lisboe a: Rica do Reis gas ou a a de po esses ca és, oi ap ecia as ob as do Eden Tea o, não a da que lhe i em os apumes, o Cha e de Ou o que es á pa a inaugu a , é pa en e a nacionais e es angei os que Lisboa i e ac ualmen e um su o de p og esso que em pouco empo a coloca á a pa das g andes capi ais eu opeias, nem é de mais que assim seja, sendo cabeça de impé io. (107-108) 27 Ma ga o, 2016: 37. 25 A peça, po si, não mo i a, da pa e do na ado ou da pe sonagem, ap eciação signi ica i a que jus i ique uma lei u a dep ecia i a de ca iz polí ico, po demasiado o ulada pela sua p oximidade ao ideá io do Es ado No o 28 . São pequenas no as, de alhes calculados de alguma c ispação que eme ge em Rica do Reis, que dão o om c í ico ao egime, quase semp e i ónicos. Sendo a peça sob e a ida dos pescado es da Naza é, de “cos umes popula es”, de “a en u as de paixão e ma ”, um conjun o dos seus ep esen an es oi con idado e es e e p esen e na p imei a ep esen ação. Quando en am na sala e se acomodam nos seus luga es são aplaudidos, o que exaspe a Reis po lhe soa em ais aplausos a condescendência: Há quem aplauda, mui os acompanham condescenden es, Rica do Reis i i ado ce a os punhos, melind e a is oc a a de quem não em sangue azul, di íamos nós, mas não é disso que se a a, apenas uma ques ão de sensibilidade e pudo , pa a Rica do Reis ais aplausos são, no mínimo, indecen es. (109) Se o om complacen e das palmas pode signi ica que a imagem a deixa é a de uma sociedade que se masca a de co dial, que não olha a classes, mais se acen ua esse olha nega i o, pelas pala as do na ado , i ónicas quan o bas e, que as após o es p esen es hipe bolizam, quando, no inal da peça, os con idados descem dos cama o es e se jun am em palco aos homens e mulhe es do ea o: os ac o es ag adeciam as palmas, aziam ges os de quem as eme ia pa a os cama o es de segunda o dem, onde es a am os eais he óis des as a en u as de paixão e ma , o público i a a-se pa a lá, ago a sem ese as, é is o a comunhão da a e, aplaudia os b a os pescado es e as suas co ajosas mulhe es, a é Rica do Reis ba e palmas, nes e ea o se es á obse ando como é ácil en ende em-se as classes e os o ícios, o pob e, o ico e o emediado, gozemos o p i ilégio a o des a g ande lição de a e nidade, e ago a con ida am os homens do ma a i ao palco, 28 É no inal des e “episódio” da ida ao ea o que su ge pela p imei a ez a exp essão Es ado No o. Te á ês no as p esenças, aquando do comício dos sindica os nacionais con a o comunismo. 32 Mais uma ez a no a pos u a c í ica de Rica do Reis [sob e o ilme Re olução de Maio], que não deixa de su p eende o lei o , indica o c escimen o do pe sonagem: das mulhe es abnegadas passa «às san as mulhe es, agen es de sal ação, eligiosas po uguesas, so o es ma ianas e piedosas» e aos «a a a es da Vi gem San íssima», num c escendo i ónico que desnuda o p ojec o do discu so da ideologia: «Rica do Reis so ia enquan o, men almen e, des ila a es as i e e ências is es» (RR, 244). Se o so iso é a a ma do pe sonagem, o adjec i o « is es» pe ence, al ez, mais ao na ado . Es e conse a, ao longo do omance, a coe ência de uma oz cujo conhecimen o é necessa iamen e maio que o do pe sonagem no que diz espei o ao empo e à dimensão daquele ac o his ó ico conc e o – o salaza ismo. 38 A lei u a do empo his ó ico que é ei a po Rica do Reis é-o po in e mediá io olha , po ozes que medeiam a sua elação com a ealidade. É, como diz O lando G ossegesse, um ou o labi in o em que se deso ien a Reis, mas é um labi in o que coloca uma ques ão, a de sabe qual o papel que cabe à li e a u a, à his o iog a ia e aos media na elação com a ealidade: Thus he no el does no o e simply a play ul (in e ) ex ual laby in h, bu a laby in h ha ha bou s an e hical ques ion abou he ole o li e a u e, his o iog aphy, and he media in he ace o he eali y. 39 Rica do Reis já adian a a pa e da espos a, quando, como an es se mencionou, ejei ou a imi ação da ealidade, que apenas pode e o seu luga omado po uma ou a ealidade. Te emos aqui, ambém, e eg essando ao p esenciado no Tea o D. Ma ia, uma a i mação cla a, po pa e do na ado e po in e pos a e lexão da pe sonagem, de que o a emedo de união en e público, ac o es e pescado es não de e se ido em con a senão como uma alsa imagem da ealidade polí ica e social do país: es e 1936 38 Ce dei a, 1989: 131. 39 G ossegesse, 2006: 62. 33 não é, de ini i amen e, segundo a oz na ado a, o plasmado nos jo nais, o des as palmas lançadas pa a os he óis do ma (que não os do hino) em cama o es de segunda classe, o das mulhe es isioná ias, escla ecidas e escla ecedo as sob e a bondade do egime, que ocupam o luga cen al em omances e ilmes. 1.3. Viagem li e á ia. A onda das es á uas De a iadas iagens se cons i ui O Ano da Mo e de Rica do Reis, desde a inaugu al, do Rio de Janei o a Lisboa, à de adei a, en e o Al o de San a Ca a ina e o Cemi é io dos P aze es. Há oda a espe ada deambulação de Rica do Reis pela cidade de Lisboa, há a cansada pe eg inação que Fe nando Pessoa ai cump indo pa a encon a o único io que o liga a uma ealidade que já não é sua, seja a é ao Ho el B agança, p imei amen e, ou pa a qualque ou o local onde possa encon a a sua c iação. Uma ou a se az nas páginas de O Ano da Mo e de Rica do Reis, a que pe co e os caminhos do ex o li e á io, sendei os ou ias ápidas sejam. Das dezenas de p esenças de ob as á ias, que passam pela ci ação, pela pa á ase, pela alusão, pela pa ódia ou mesmo pela sá i a, des acam-se as que ocam a Camões e as au o- e e ências de Rica do Reis. Po conside a que se ia exaus i o em demasia, e com oda a ce eza o ado ao acasso, en a o le an amen o de odas as e e ências p esen es no omance, sem p e ensão, como se disse, de um de alhe descomedido, cons a a-se, en e ou os, a p esença de, deixando de pa e os já nomeados, Pessoa e companhia he e onímica, Eça de Quei ós, Almeida Ga e , Camilo Cas elo B anco, João de Deus, An ónio Gedeão, Be na dim Ribei o, Camilo Pessanha, Nicolau Tolen ino de Almeida, Júlio Dan as, Pad e An ónio Viei a, Dom Dinis, Ca los Quei ós e, en e au o es não po ugueses, Dan e, Shakespea e, Lu e o, Alexand e Dumas, Ce an es, Home o, Ve laine, Calde ón de la Ba ca, Ca los D ummond de And ade, e ainda os di os popula es, o cancionei o de Se pa, o can e alen ejano, não esquecendo as mui as passagens pela Bíblia e o maio caso de in e ex ualidade no omance, Jo ge Luís Bo ges. 34 Com uma pe sonagem que é um jogo duplo de icção, uma e iccionalização concebida a pa i do ges o máximo de despe sonalização que é a he e onímia pessoana, que anspo a consigo uma na a i a de ca iz policial, The God o he Laby in h, que não em um es a u o meno de icção do que o seu po ado , com o despojamen o que az do eal das pe sonagens mais ele an es, Rica do Reis e Fe nando Pessoa, si uando-os num mundo de papel e de alsas apa ências 40 , e com o ges o canónico que o au o az a pa i das adequações ex uais indicadas, a in e ex ualidade assume pa icula ele ância na explicação do ano de 1936. Não se i á analisa a p esença do ex o eisiano no omance, a maio pa e das ezes su ge como ci ação, nomeando poemas an e io es à ida pa a o B asil, que Pessoa conhece, e elando-lhe alguns que o am esc i os no pe íodo b asilei o, que Pessoa igno a, ap o ei ando Sa amago o ac o de não es a em da ados, ou os se indo como ex os in aedi ica ionem. Es e desconhecimen o in oca, desde logo, a mui o p o á el incomunicabilidade en e Reis e Pessoa aquando do au o- exílio do p imei o. Na maio ia das ezes, a p esença de ex os alheios não ai além da alusão, equen emen e despe cebida, nou as usa Sa amago o agmen o sem con ex ualização, azendo-o pa e sequencial do no o ex o, so endo, assim, uma ac ualização de sen ido que, no en an o, ganha signi icado apenas como pa e do ex o de o igem 41 , is o é, a sua u ilização ob iga a lemb a o ex o p ecu so . Se oma mos como exemplo a p esença de Camões no omance, e a e e ência a Os Lusíadas na abe u a e no echo da na a i a são p o a imedia a disso, acilmen e se a e e de que é com a sua ob a que odo o in e ex o en abula diálogo po que “ odos os caminhos po ugueses ão da a Camões” 42 . Es a elação az di e sas signi icações à con ocação do ex o camoniano. Logo nas p imei as páginas (a é à 30) há ês momen os que se soco em de passagens da epopeia. O e ei o de pa ódia é no ó io no p imei o caso: a ap oximação dá-se en e a desc ição, no omance, da in épida ac i idade dos bagagei os do po o de Lisboa debaixo de chu a (“os bagagei os 40 “L’uni e s de L’Année de la mo de Rica do Reis es un uni e s de mo s e de papie , un déco de ca on- pâ e où ou n’es que aux-semblan s.” Amo im, 2010: 179. 41 “Es sólo como pa e de discu sos an e io es que cualquie ex o ob iene sen ido e impo ância.” Bueno, 2008: 146. 42 Sa amago, 1984: 180. 35 po ugueses mexem-se mais à ligei a, é o bonezinho de pala, a es e cu a, de oleado, assama ada, mas ão indi e en es à g ande molha que o uni e so espan am” (14)) e a alusão ao pode imenso do g ão Rei de Ma ocos que a e mosíssima Ma ia az a seu pai, D. A onso IV no poema: Pode amanho jun o não se iu Despois que o salso ma a e a banha; T azem e ocidade e u o an o Que a i os medo e a mo os az espan o! 43 O pa odiado não é an o o pode da mau a espada como a hipe bolização do ex o camoniano. Os ou os dois casos são dis in os: no p imei o, a ap oximação é ei a en e e sos que con am a mo e de Inês de Cas o (“Assi como a bonina, que co ada / An es do empo oi, cândida e bela”) 44 e o epo a da mo e de uma jo em que Rica do Reis encon a na sua p imei a lei u a de jo nais po ugueses no Ho el B agança (“mo eu de bexigas uma apa iga de dezasseis anos, pas o il lo inha, campes e, lí io ão cedo co ado c uelmen e” (29)). Se ágica é a mo e de Inês que a apa a de seus ilhos não menos o é a des a anónima p esença de no ícia de jo nal. No úl imo des es exemplos, encon amos de no o D. A onso IV e os ogos de Inês pa a que lhe poupe a ida (“Mo a- e a piedade sua e minha, / Pois e não mo e a culpa que não inha”.) 45 No ou o p a o da balança, o de O Ano da Mo e de Rica do Reis, é pos a a cadela Ugolina, assim chamada po associação a Ugolino, “conde macho que manjou ilhos e ne os” (30), com p esença no In e no da Di ina Comédia: chame-se pois Ugolina à mãe que come os seus p óp ios ilhos, ão desna u ada que não se lhe mo em as en anhas à piedade quando com as suas mesmas queixadas asga a mo na e macia pele dos inde esos, os ucida, azendo-lhes 43 Os Lusíadas: III, 103. 44 Idem, III, 134. 45 Idem, III, 127. 36 es ala os ossos en os, e os pob es cãezinhos, gemen es, es ão mo endo sem e em quem os de o a, a mãe que os pa iu, Ugolina não me ma es que sou eu ilho. (30) A de o mação do ex o p é-exis en e, a a és da compa ação en e a piedade que in oca Inês e a não espe ada de Ugolina em um e ei o de as ado sob e as igu as do pode , sejam elas o ei mandado da mo e de Inês ou o Es ado No o de 1935 e 1936. Se se ize uma lei u a me a ó ica des a Ugolina, de o ado a de quem pa iu, e da pá ia que não olha a meios ep essi os pa a silencia odo e qualque sinal de disco dância ou e ol a indo dos seus mesmos ilhos, podemos dize que não es amos a ou i a oz de Rica do Reis, em p imei o luga , alheio à si uação polí ica do país, em segundo, já ado mecido da lei u a pois es a não inha sido mais do que en o pecimen o pa a um co po cansado de dias e dias de ma . O na ado assenho eia-se das medi ações eisianas e conc e iza se e a c í ica ao pode op esso do salaza ismo e às jus i icações dadas pa a c imes come idos em nome de um bem maio , azões de Es ado, sejam elas de um ei eme oso do pode de uma mulhe ou de um egime que ai apequenando um país in ei o e que não sus ém o seu in ui o ep esso : Pelas uas e mas de Lisboa anda a cadela Ugolina a baba -se de sangue, osnando às po as, ui ando em p aças e ja dins, mo dendo u iosa o p óp io en e onde já es á a ge a -se a p óxima ninhada. (31) A p esença de Camões p olonga-se a é ao im da na a i a, como se disse, e ai cen a -se nas igu as de Rica do Reis e de Fe nando Pessoa, com uma b e e menção a Lídia e uma i ónica i ada sob e o es ado da nação. Nes a úl ima é con ocada a apagada e il is eza p esen e no dis ó ico lamen o p esen e nas úl imas e lexões do poe a quinhen is a, depois de en ada a a mada no Tejo, pa a se con apo um discu so o icialis a, po que de associações de pa io as, mas, ao mesmo empo, anónimo em O Ano da Mo e de Rica do Reis, que a iança 37 que não emos mais que e com a apagada e il is eza de que padecíamos no século dezasseis, hoje somos um po o mui o con en e, ac edi e, logo à noi e acende emos aqui na p aça uns p ojec o es, o senho Camões e á oda a sua igu a iluminada, que digo eu, ans igu ada pelo deslumb an e esplendo , bem sabemos que é cego do olho di ei o, deixe lá, ainda lhe icou o esque do pa a nos e , se acha que a luz é o e de mais pa a si, diga, não nos cus a nada baixá-la a é à penumb a, à escu idão o al, às e as o iginais, já es amos habi uados. (351) Uma i onia que passa pelo con en amen o do po o, pelo esplendo que Camões e á e que só lhe pode se concedido pelo egime, iluminado e ans igu ado do épico au o , o mesmo egime que não hesi a á num eg esso à escu idão o al a que já habi uou o país. Já o caso de Lídia é mui o di e en e e a analogia é ei a en e es a pe sonagem e a Vénus camoniana. Ins alado Rica do Reis na sua casa ao Al o de San a Ca a ina, ai Lídia pela p imei a ez aze a limpeza da no a mo ada do senho dou o que, no inal da a e a, a con ence a oma banho na sua casa. Saída da água, ai pa a o qua o, segu a ainda a oalha à sua en e, com ela se esconde, não delgado cendal, mas deixa-a cai ao chão quando se ap oxima da cama, en im apa ece co ajosamen e nua, hoje é dia de não e io, den o e o a odo o seu co po a de (255) A espessu a da oalha não é a mesma que a do éu ino e anspa en e que mal cob e a Vénus sedu o a de Júpi e 46 , não é seda o que a ela, mas a analogia é sumamen e elogiosa pa a Lídia, apesa do meno equin e do ecido, ambém ela, naquele momen o, deixa emen e quem que seduzi . Po duas ezes emos alusões a e sos de Camões pa a ilus a a pe sonagem Fe nando Pessoa, p imei o po oz p óp ia, quando discu e com Reis o concei o de 46 “Cum delgado cendal as pa es cob e / De quem e gonha é na u al epa o; / Po ém nem udo esconde nem descob e / O éu, dos oxos lí ios pouco a a o; / Mas, pe a que o desejo acenda e dob e, / Lhe põe dian e aquele objec o a o.” Os Lusíadas, II, 37. 38 sonho, que é, pa a Reis, o caminho pa a chega ao «ou o lado da ida», com a disco dância de Pessoa, pa a quem o ou o lado da ida é a mo e, ap o ei ando-se do seu “sabe ei o da expe iência” 47 pa a aze ale o seu pon o de is a. A alusão a “cum sabe só d’expe iências ei o” 48 é acilmen e pe cep í el, espe ando Pessoa, al ez, mais sucesso pa a as suas pala as do que o ob ido pelas do Velho do Res elo. Num segundo momen o, nou o diálogo com Reis, quando Pessoa en a de ini o que, pa a si, é solidão, Reis soco e-se de um dos sone os camonianos, do e so “soli á io anda po en e a gen e”, o que e o ça Pessoa a i mando: “Pio do que isso, soli á io es a onde nem nós p óp ios es amos,” 49 . Es as acomodações da poesia de Camões ap esen adas em p ol da de inição das ideias de Pessoa não assumem o ca ác e pa ódico de algumas an es aludidas po que não se p e ende a de o mação do ex o p ecu so nem as pe co e uma e ó ica i ónica. Aliás, a elação in e ex ual en e Pessoa e Camões es abelece-se po ou a ia, pelos poemas que Pessoa não esc e eu 50 , pelos seus sucessi os esquecimen os do econhecimen o da ob a camoniana: Quis Fe nando Pessoa, na ocasião, eci a men almen e aquele poema da Mensagem que es á dedicado a Camões, e le ou empo a pe cebe que não há na Mensagem nenhum poema dedicado a Camões, pa ece impossí el, só indo e se ac edi a (351) Pa a ca ac e iza Rica do Reis, pa odia o na ado um céleb e e so da exo ação inal de Os Lusíadas, “Pe a se i - os, b aço às a mas ei o,” 51 , com um “b aço não mais do que às se ingas ei o” 52 . Conseguiu, en im, Reis consul ó io onde abalha , uma subs i uição empo á ia, na P aça de Camões, em e dade se epe i á que odos os caminhos ão da a Camões, a é os das pe ícias da medicina. A dis ância é a que ai en e uma disposição pa a se i um ei, mesmo sendo ão mal a ado, Camões, pelo 47 Sa amago, 1984: 94. 48 Camões, II, 94. 49 Sa amago, 1984: 227. 50 “Impe doá el esquecimen o, disse, não e pos o o Adamas o na Mensagem, um gigan e ão ácil, de ão cla a lição simbólica,” Sa amago, 1984: 227. 51 Camões, XX, 155. 52 Sa amago, 1984: 257. 39 eino, e o alheamen o pa en eado po um médico poe a, ou poe a que ago a ol a á a exe ce no campo da medicina, apenas adado pa a o esg imi da se inga, não mos ando on ade ou ap idão pa a algo mais, nem pa a can a , ele ou as suas musas, um eino que já o não é, o que me ece, aliás, um encolhe de omb os do b ônzeo Camões, do al o da sua coluna no meio da p aça. Es a iagem li e á ia é complemen ada po uma singula onda de es á uas que mais alida o luga de Camões no cen o da li e a u a po uguesa po mais que o não desejasse um Pessoa que se ia como um sup a-Camões. São ês as es á uas que assumem alguma ele ância em O Ano da Mo e de Rica do Reis, a de Camões, a do Adamas o e a de Eça de Quei ós. É na p imei a saída pelas uas de Lisboa que Rica do Reis ê a es á ua de Camões, depois de passa jun o à do Chiado, a que eg essa á mais a de em con e sa com Fe nando Pessoa: En a na Rua Ga e , sobe ao Chiado, es ão qua o moços de e es encos ados ao plin o da es á ua, nem ligam à pouca chu a, é a ilha dos galegos, e adian e deixou de cho e mesmo, cho ia, já não cho e, há uma cla idade b anca po ás de Luís de Camões, um nimbo, (35) A p óxima e e ência a Camões em po objec i o cla o o de o aze desce do pedes al em que o coloca a o no o egime nascido do golpe de 1926, ap oximando-o do p o agonis a de Alexand e Dumas em Os T ês Mosque ei os. Mas o ap o ei amen o da igu a e ob a do poe a de Quinhen os não é exclusi o do salaza ismo, odos pa ecem que e dele aze o seu endimen o i alício: Rica do Reis a a essou o Bai o Al o, descendo pela Rua do No e chegou ao Camões, e a como se es i esse den o de um labi in o que o conduzisse semp e ao mesmo luga , a es e b onze a idalgado e espadachim, espécie de D'A agnan p emiado com uma co oa de lou os po e sub aído, no úl imo momen o, os diaman es da ainha às maquinações do ca deal, a quem, aliás, a iando os 40 empos e as polí icas, ainda acaba á po se i , mas es e aqui, se po es a mo o não pode ol a a alis a -se, se ia bom que soubesse que dele se se em, à ez ou em con usão, os p incipais, ca deais incluídos, assim lhes ap o ei e a con eniência. (70) Cinquen a anos an es, já as comemo ações do e cei o cen ená io da sua mo e inham sido p ódigas nos bene ícios que Camões pode ia ende pa a a classe polí ica. Po ele pugna am moná quicos e epublicanos, o que aleu ao poe a e a hon a de uma es á ua no co ação da capi al, inaugu ada em 1867. Em 1880, na publicação de um núme o especial do Jo nal de Viagens, do Po o, ei a no âmbi o das ci adas comemo ações, um poema de Cesá io é dado a conhece , “O Sen imen o dum Ociden al”, que de ce o modo, emodela o imaginá io épico pela sub e são da sua mesma ma é ia. Nes e que é um ma co da ob a cesa ina lê-se na sua segunda pa e: Mas, num ecin o público e ulga , Com bancos de namo o e exíguas pimen ei as, B ônzeo, monumen al, de p opo ções gue ei as, Um épico dou o a ascende, num pila ! 53 Vem o poe a de ememo a , p esume-se que no Chiado, a inquisição na “nódoa neg a e úneb e do cle o” 54 e de se sen i a on ado com as íng emes subidas e o ange dos sinos. É en ão que a is a a es á ua de Camões. Es e épico dou o a é monumen al, mas apenas nas suas p opo ções gue ei as. Já é, en ão, o D’A agnan d’O Ano da Mo e de Rica do Reis, da homenagem ao poe a nada se p esume, nem e sos insc i os em no pila , ale-lhe o público e ulga espaço a que oi con inado e a u ilidade que se lhe dá, como nos mos a Cesá io. Alguns anos mais a de, oi o pa a que se seja exac o, publica-se Os Maias, acompanhamos Ca los da Maia no seu eg esso a Lisboa e com ele sen imos um mis o 53 Ve de, 2006: 134. 54 Idem. 41 de amilia idade e es anheza enquan o agueia, jun amen e com João da Ega pelo pouco mudado cen o da capi al: Es a am no Lo e o; e Ca los pa a a, olhando, een ando na in imidade daquele elho co ação da capi al. Nada muda a. A mesma sen inela sonolen a onda a em o no à es á ua is e de Camões. 55 Depois de Cesá io Ve de é ago a Eça de Quei ós que enca a com a es á ua de Camões, nes a “Lisbon Re isi ed” de 1888. No meio de oda a “mesmice” que olhe a cidade, dos epos ei os das ig ejas às gen es que nela jazem, eis a es á ua de Camões, me onímia de u be is e e inú il, an o quan o o é o onda daquela sen inela sonolen a que, deseja-se, não es i esse lá no empo de Cesá io. Os anos passam e no o en en amen o se dá com aquela es á ua, ago a é Fe nando Pessoa que, semp e que en a ou sai da B asilei a do Chiado, e á di iculdade, pelo menos, em não p essen i à dis ância a somb a que aqueles qua o me os de b onze p ojec am. E não bas ando a u o ia que Sa amago o e ece a Camões sob e Pessoa no seu omance, ainda lhe inaugu a am, no cen ená io do seu nascimen o uma es á ua em en e da B asilei a. Valha-lhe que o não enca a am com o épico que pon ua o cen o da p aça com o seu nome, quase lhe i a as cos as, a es á ua de Pessoa, num sen a e c uza de pe nas desdenhoso da hi a pos u a que padece o gue ei o b onze camoniano. Re omando O Ano da Mo e de Rica do Reis, numa ou a saída deambula ó ia, Reis segue em ins u i o passeio, p imei o pelo La go do Ba ão de Quin ela e logo a segui , ine i a elmen e, pela P aça de Camões. Se de Lisboa não pa em es adas pa a Damasco e nem odas êm da a ela, Lisboa, se alguma o em, a isa-nos o na ado , há es es caminhos que ão semp e da a Camões, e não só os da li e a u a. Es e passeio eisiano pela es á uas de dois nomes incon o ná eis da li e a u a po uguesa não se conc e iza sem uma e lexão, em jei o de p o ocação, sob e o es a u o da e dade e da an asia, de quem a o ça, de quem a anspa ência, se a p imei a pa a a e dade e a 55 Quei ós, s/d: 697. 48 Adamas o não a emos n’Os Lusíadas, pa a lá do “espan oso e g ande b ado” 70 que dá an es de con a , com a sua oz p eenchida de ama gu a, as desdi as amo osas a que o sujei a Té is, nem, ão pouco, a ap esen a o conside ado sucedâneo des e gigan e ão ácil, como o adjec i a o Pessoa de O Ano da Mo e de Rica do Reis, que é o mos engo de Mensagem: nem em “O Mos engo”, onde se limi a a oda e a chia , nem em “An emanhã”, onde oda já sem chia , se ou e b ado que seja, cinge-se a i do dize ao quase sussu o, sem oz al eada, num p ocesso e ó ico i e a i o, na espe a da pe da da sua exclusi idade sob e os ma es que julga a senho ea . Aliás, en e 1918, ano de “O Mos engo”, e 1933, quando Pessoa esc e e “An emanhã”, a e olução que se a es a é que aquela igu a apenas alcança um ou o es a u o, o de se o de um senho ado mecido que não consegue aco da , al ez lhe peque po ausência o g i o po da do gigan e de que Camões se se e. E chega o Adamas o , a g i a , a ala que seja? Fica a possibilidade no inal da ob a, como an es se disse, mas o que anspa ece das p esenças des e gigan e ei o es á ua, na sua ausência de oz, é a simila idade a Rica do Reis: onda es e em o no da es á ua como numa ce imónia de ap esen ação, «eu sou Rica do Reis indo há meses de ma es que já o am eus, a i e conheço há mui o mas não es a ped a» e ela es á aqui desde mil no ecen os e in e e se e, Rica do Reis em um espí i o que semp e p ocu a encon a sime ias nas i egula idades do mundo, oi o anos depois da minha pa ida pa a o exílio oi aqui pos o Adamas o , oi o anos depois de aqui es a Adamas o eg esso eu à pá ia, ó pá ia, chamou-me a oz dos eus eg égios a ós (230) Es a colocação da ped a, ali, a meio do exílio de Reis, é mo i o su icien e pa a a empa ia en e ambos, ago a que se es á, sensi elmen e, a meio da na a i a. A pa i de ago a, na sua ânsia de sime ia que os anos en e pa ida, colocação da es á ua e chegada lhe dão, Reis es á capaz de pe cebe o ou o, ao menos a do que sen e, a que 70 Os Lusíadas, V, 49. 49 ad ém da ejeição amo osa, e logo se mos a es a comp eensão quando, espe ando em casa po Ma cenda, de adei o dia pa a a sua inda, se impacien a: Uma ez, dez ezes iu Rica do Reis as ho as, são qua o e meia, Ma cenda não eio e não i á, a casa escu ece, os mó eis escondem-se numa somb a émula, é possí el, ago a, comp eende o so imen o de Adamas o . E po que mais do que an o se ia c ueldade, soam no úl imo minu o as duas pancadas da ald aba da po a. O p édio pa eceu eme de al o a baixo como se uma onda sísmica lhe i esse a a essado os alice ces. (244) Sismicidade meno não e á sen ido Adamas o endo Té is banha -se, ou indo- a em p omessas des ei a. Mas a iden i icação en e ambos é le ada ao ex emo quando Um homem ecebe uma ca a de p ego ao la ga do po o, ab e-a no meio do oceano, só água e céu, e a ábua onde assen a os pés, e o que alguém esc e eu na ca a é que daí pa a dian e não ha e á mais po os aonde possa ecolhe -se, nem e as desconhecidas a encon a , nem ou o des ino que o do Holandês Voado , não mais que na ega , iça e a ea as elas, da à bomba, emenda e pon ea , aspa a e ugem, espe a . (296) A ca a inda é de Ma cenda e pede que não lhe esc e a mais, que não esponda àquela que ela que que seja a úl ima missi a. O desgos o subido dep essa é sen ido como encenação, um pouco como ingido es á na ped a aquele g i o de Adamas o nunca dado. Reis, como eacção ao pedido, decide ejei á-lo po que Ma cenda não sabe quem ele é, ai esc e e e pô aí udo o que não o a di o e encena uma hipo é ica con e sa com a jo em. Gos a a, sob e udo, de dize -lhe que é poe a e engend a odo o plano de esc i a da ca a que, a inal, não esc e e á, es a-lhe o silêncio e aze -se, ele, Adamas o : 50 a inal cob iu-se-lhe o olha de melancolia, suspi a, aqui es á Adamas o que não consegue a anca -se ao má mo e onde o p ende am engano e decepção, con e ida em penedo a ca ne e o osso, pe i icada a língua, Po que é que icou ão calado, pe gun a Ma cenda, e ele não esponde. (298) A as ada Ma cenda e ambém, ou quase, Lídia, cai Reis numa dec epi ude de que não consegue libe a -se e o Adamas o con inua a p epa a o seu g ande g i o, só não sabe ainda o mo i o, “de cóle a pela exp essão que lhe deu o escul o , de do pelas azões que sabemos desde o Camões.” 71 O indubi á el es ado dep essi o em que se a unda Reis é agi ado po uma p esença inespe ada de Lídia, que lhe em con a da e ol a que se p epa a en e os ma inhei os e do medo que sen e po seu i mão, o ma inhei o Daniel. O desespe o de Lídia in ade-o, um poe a é capaz de sen i a inquie ação que há nes as águas, Quando se á que eles saem, Um des es dias, espondeu Lídia, uma enaz de angús ia ape a a ga gan a de Rica do Reis, u am-se-lhe os olhos de lág imas, ambém oi assim que começou o g ande cho o de Adamas o . (406) Não é o úl imo momen o de iden i icação en e es e poe a e es e gigan e ei o es á ua. Quando Reis se ape cebe da al a p obabilidade de acasso do desígnio dos ma inhei os, algo o compele a en a con a a Lídia que, mui o p o a elmen e, a polícia polí ica conhece já o que se p epa a, não o az e a calma an es da empes ade desce sob e a cidade, “Lisboa é uma sossegada cidade com um io la go e his ó ico.” 72 Quan o ao Adamas o , com ele já não se podia con a , es a a concluída a sua pe i icação, a ga gan a que ia g i a não g i a á, a ca a me e ho o olhá-la. (409) 71 Sa amago, 1984: 346. 72 Sa amago, 1984: 409. 51 Há duas pe i icações concluídas, a do gigan e e a da pe sonagem. Apesa do es e o que a u bação do momen o lhe az, que o az sai em busca de Lídia, a iscando a ida ao Ho el B agança, e das lág imas, absu das, po uma e ol a que não e a a sua 73 , ence o es ado de alheamen o a que se subme e e que, na e dade, nunca abandona a. A sua oz já não se ou i á, a do Adamas o al ez: Vamos, disse Rica do Reis. O Adamas o não se ol ou pa a e , pa ecia-lhe que des a ez ia se capaz de da o g ande g i o. Aqui, onde o ma se acabou e a e a espe a. (415) 73 “escondeu os olhos com o an eb aço pa a pode cho a à on ade, lág imas absu das, que es a e ol a não oi sua, sábio é o que se con en a com o espec áculo do mundo, hei-de dizê-lo mil ezes, que impo a àquele a quem já nada impo a que um pe ca e ou o ença.” Sa amago, 1984: 411-412. 52 Pa e II O Ano da Mo e de Rica do Reis e The God o he Laby in h Rica do Reis desemba ca em Lisboa no dia 29 de Dezemb o de 1935. Viajou desde o Rio de Janei o num apo inglês, o Highland B igade, da Mala Real, usam-no pa a a a essa o A lân ico, en e Lond es e Buenos Ai es, como uma lançadei a nos caminhos do ma , pa a lá, pa a cá, escalando semp e os mesmos po os, La Pla a, Mon e ideo, San os, Rio de Janei o, Pe nambuco, Las Palmas, po es a ou in e sa o dem, e, se não nau aga na iagem, ainda oca á em Vigo e Boulogne-su -Me , en im en a á o Tamisa como ago a ai en ando o Tejo, (11) e dele az, po ób io esquecimen o, um li o que equisi a a na biblio eca do na io. De al se ape cebe quando já ins alado no Ho el B agança, ao des aze as malas, o encon a en e ou os, esses sim, seus. O li o é The God o he Laby in h e o seu au o um obscu o i landês, que i á a alece em 1941, He be Quain, al nos e ela o Suplemen o Li e á io do Times, que apenas le depa a media coluna de piedad nec ológica, en la que no hay epí e o lauda ó io que no es é co egido (o se iamen e amones ado) po un ad e bio. El Spec a o , en su núme o pe inen e, es sin duda menos lacónico y al ez más co dial, pe o equipa a el p ime lib o de Quain – The God o he Laby in h – a uno de M s. Aga ha Ch is ie (…) 74 . 74 Bo ges, 1985: 149. 53 Foi “deslemb ança, só, e nada mais” (23), o que p o ocou o equí oco do in olun á io u o. Rica do Reis deixa o li o na mesa-de-cabecei a, al ez lhe ape eça e mina a lei u a, ainda incipien e de um li o pa a que o a a aído pelo “ édio da iagem e a suges ão do í ulo” (23). A inal, a suges ão do í ulo e ela a-se um engano e Reis apenas encon a a um me o omance policial, um labi in o com um deus, que deus se ia, que labi in o e a, que deus labi ín ico, e a inal saí a-lhe um simples omance policial, uma ulga his ó ia de assassínio e in es igação, o c iminoso, a í ima, se pelo con á io não p eexis e a í ima ao c iminoso, e inalmen e o de ec i e, odos ês cúmplices da mo e, em e dade os di ei que o lei o de omances policiais é o único e eal sob e i en e da his ó ia que es i e lendo, se não é como sob e i en e único e eal que odo o lei o lê oda a his ó ia. (23) E daqui a anca um p imei o momen o de e lexão, de uma ulga his ó ia policial o na ado ap esen a uma o dem que logo sub e e: o c iminoso, a í ima, e a í ima a p eexis i ao c iminoso. A p imei a o mulação supõe uma in enção, a segunda uma p edisposição. Logo se jun a ao pa an e io o de ec i e e os ês são cúmplices da mo e, o que a p a ica, quem a so e e o deci ado . Mas, mais do que cúmplices da mo e, di emos que são cúmplices na mo e, na sua, pois da his ó ia apenas é sob e i en e o lei o , “o único e eal sob e i en e da his ó ia que es i e lendo”, de oda a his ó ia, a isca-se. Também podemos dize que a his ó ia somen e sob e i e po que há o lei o que, po im, é o deci ado des a mesma his ó ia (c iminoso, í ima, de ec i e, lei o ), seguindo a suges ão de Jo ge Luís Bo ges, a de uma elei u a, que em pe spicácia, ai mais além do que o que a his ó ia possa o e ece . A i ma-se, como já an es ci ado, em”Examen de la ob a de He be Quain”: Ya acla ado el enigma, hay un pá a o la go y e ospec i o que con iene es a ase: Todos c eye on que el encuen o de los dos jugado es de ajed ez habia sido casual. Esa ase deja en ende que la solución es e ónea. El lec o , inquie o, 54 e isa los capí ulos pe inen es y descub e o a solución, que es la e dadei a. El lec o de ese lib o singula es más pe spicaz que el de ec i e. 75 O lei o sob e i e ao c iminoso, à í ima (ou na o dem in e sa), ao de ec i e, mas ambém à his ó ia e, po me onímia, ao p óp io au o , como a i ma a lição de Bo ges, lei o de au o es, nem que pa a al os i esse de c ia : Des a io labo ioso y empob ecedo el de compone as os lib os; el explaya en quinien as páginas una idea cuya pe ec a exposición o al cabe en pocos minu os. Mejo p ocedimien o es simula que eses lib os ya exis en y o ece un esumen, un comen á io. Así p ocedió Ca lyle en Sa o Resa us; así Bu le en The Fai Ha en; ob as que ienen la impe ección de se lib os ambién, no menos au ológicos que los o os. Más azonable, más inep o, más ha agán, he p e e ido la esc i u a de no as sob e lib os imaginá ios. Es as son Tlön, Uqba , O bis Te ius y el Examen de la ob a de He be Quain. 76 Reg esse-se ao li o esquecido na bagagem de Reis. Insinua Bo ges que a aca ecepção de The God o he Laby in h se e á de ido ao simul âneo lançamen o de The Siamese Twin Mys e y, de Elle y Queen He decla ado que se a a de una no ela policial: The God o he Laby in h; puedo ag ega que el edi o la p opuso a la en a en los úl imos días de no iemb e de 1933. En los p ime os de diciemb e, las ag adables y a duas in oluciones del Siamese Twin Mys e y a aca on a Lond es y a Nue a Yo k; yo p e ie o a ibui a esa coincidencia uinosa el acaso de la no ela de nues o amigo. También (quie o se del odo since o) a su ejecución de icien e y a la ana y ígida pompa de cie as desc ipciones del ma . 77 75 Idem: 150. 76 Idem: 108. 77 Bo ges, 1985: 150. 55 Temos, assim, um Reis, dupla icção que é, que lê um li o, icção de uma ou a icção, Quain, e dois i e i ei os que, com maio ou meno dis anciamen o, com maio ou meno po meno desc i i o e na a i o, mo imen am os seus p ojec os de cons ução na a i a, Bo ges e Sa amago. 2.1. A quad a u a de um cí culo: Bo ges, Sa amago, Quain, Reis Se me disse em que é absu do ala assim de quem nunca exis iu, espondo que ambém não enho p o as de que Lisboa enha alguma ez exis ido, ou eu que esc e o, ou qualque coisa onde que que seja. (9) Es a é uma das epíg a es com que Sa amago inaugu a O Ano da Mo e de Rica do Reis, opo una pa a explica a p esença de Reis e de Pessoa no omance, como suge e, mas ambém ajuda a escla ece uma ou a p esença, a de He be Quain e o seu li o p imei o. No que a exis ência diz espei o, acompanhamos a dos passagei os do Highland B igade, as c ianças que ap endem ou elemb am Lisboa, o nome não a cidade, em a iações idiomá icas, Lisbonne, Lisbon, Lissabonn, ou ansmu ações p onuncia i as, do po uguês eu opeu ao b asilei o ou ao cas elhano. Tes emunhamos a pe da do supo e ísico da memó ia da mulhe idosa que e mina a sua iagem nes a cidade de chu a, ou imos as mos as de g a idão, pe an e a go je a que em so e lhe calhou, do bagagei o que alcança o p imei o áxi chegado ao cais pa a o seu clien e, de quem ainda não sabemos o nome, conhecemos as pe gun as do mo o is a ao seu passagei o e des e só sabe emos o nome lidas que es ão dez páginas, ago a sim, nome Rica do Reis, idade qua en a e oi o anos, na u al do Po o, es ado ci il sol ei o, p o issão médico, úl ima esidência Rio de Janei o, B asil, donde p ocede, iajou pelo Highland B igade (21) 56 Es á iden i icado aquele que den o de pouco mais de dois dias en a á no úl imo ano da sua ida. É o Rica do Reis pessoano a da os seus p imei os passos na es ei a do que pa a ele congemina Sa amago. É uma segunda opo unidade dada a Reis, depois da que lhe insu lou Pessoa, e az na mala um li o de um au o , ambém ele c iação de um ou o aspi an e a demiu go, Jo ge Luis Bo ges. A geome ia po que se a en u a Sa amago en ol e, des e modo, dois au o es que são icção, um po duas ezes, e um li o que, no seu es a u o de inexis ência, se compa a com um, es e sim, exis en e, po ém de um au o ambém ele inexis en e, Elle y Queen 78 . É in e essan e e i ica que o inespe ado inal de The God o he Laby in h, anunciado po Bo ges, o do lei o que, ale ado po uma enigmá ica ase que o az comp eende que a solução encon ada não é a co ec a, ol a a le capí ulos an e io es e descob i a e dadei a que escapa a ao de ec i e, ap esen a algumas semelhanças com o da no ela de Queen que ene oa o seu lançamen o: em The Siamese Twin Mys e y há duas soluções que são ap esen adas e que mais a de são e u adas, pa a p e alece uma e cei a que, inespe adamen e, e oma a p imei a e que se comp o a se a e dadei a. Se nes e mis é io o que se joga é a supe io pe spicácia, se pe ence ao de ec i e ou ao assassino, na ob a de Quain Bo ges az pa a es e jogo de a gúcia o lei o , que acaba po se e ela mais sagaz que o de ec i e. Se, pelo que esc e e, podemos a i ma que Bo ges e á lido o omance de Queen, al ez possamos dize o mesmo de Sa amago (passe oda a especulação que o que se esc e e ago a compo a), pois oi publicada uma edição po uguesa em 1951, com adução de Adol o Casais Mon ei o e in i ulada O Mis é io dos I mãos Siameses (que não oi aquela a que i e acesso, de 1984 e com uma deplo á el adução). De odo es e jogo de ilusão ou jogo de espelhos em que se empenha Sa amago (mas an es, Bo ges), di ícil é encon a a solução pa a es a geome ia de saída impossí el, es a quad a u a do cí culo, como a ma emá ica já demons ou desde o 78 Elle y Queen, é o pseudónimo com que assinam, desde 1929, os seus omances policiais F ede ic Dannay e Man ed Benning on Lee, pseudónimos, aliás, de Daniel Na han e Emanuel BenjaminLepo sky, espec i amen e, dois p imos no e-ame icanos. Queen é um dos expoen es do omance policial e o p ocesso de c iação em seu nome não icou pelos dois p imos, que cede am o pseudónimo pa a ou as ob as que não o am esc i as po eles, mas sob a sua supe isão. 57 século XIX 79 . O que es á em jogo é a exis ência de Rica do Reis, de He be Quain, sim, mas ambém a do au o de O Ano da Mo e de Rica do Reis e, sem a meno dú ida, a do au o de “Examen de la ob a de He be Quain”. No en an o, anos mais a de, é Sa amago quem encon a p o as da exis ência de Rica do Reis, de He be Quain, dele mesmo e, já ago a, pa a que se não c eia na inexis ência do au o a gen ino, ambém de Jo ge Luis Bo ges. De que modo se conclui po es as exis ências? Sabe-se que Bo ges possuiu um li o de Quain, The God o he Laby in h, que emp es ou e deu como pe dido; Reis encon ou um exempla desse mesmo li o na biblio eca do Highland B igade, que equisi ou, esquecendo-se de o de ol e quando desemba cou; es e mesmo senho , Reis, a á a 12 de Maio de 1936, uma iagem de comboio a é Fá ima, ai assis i à pe eg inação, en ol e -se na ealidade do seu país, de que pe de a o umo há dezasseis anos, e, do seu luga de p imei a classe, ê des ila os campos com ma cas e iden es das cheias que os êm assolado e ê, quando o comboio pá a no apeadei o de Ma o de Mi anda, pob e pa agem no meio do Riba ejo, às po as da Azinhaga, aldeia de nascimen o de José Sa amago que de e ia e sido Sousa, não o a a in e enção de ajudan e de no á io p openso a medie ais onomás icas; e ê, já se disse, desce um apaz a quem agua da a sua a ó. Esse apaz é es e mesmo José Sa amago que, po a es de uma b e e apa ição 80 (não con undi com as celeb adas em Fá ima, es a é a exp essão que, al ez com ce a in elicidade, me oco e) do au o na sua p óp ia ob a, um inusi ado egis o de uma Azinhaga e isi ada, con i ma odas es as exis ências: O a, po mais inc í el que os pa eça, aquele apaz de eze anos que desceu do comboio na es ação de Ma o de Mi anda em 1936, e a eu. É e dade que hoje, passados an os anos, me se á impossí el eco da se um senho com ca a de médico e de poe a es e e a olha pa a mim quando eu ab aça a a minha a ó, mas se Rica do Reis a i ma que me iu da janela do comboio, quem sou eu pa a 79 A explicação pa a al impossibilidade encon a-se demons ada no sí io da Faculdade de Ciências da Uni e sidade do Po o (e em mui os ou os, ce amen e): h ps://www. c.up.p /mp/jcsan os/quad a u a.h ml. 80 Cameo ole, cameo appea ance, ou apenas cameo, são exp essões em inglês pa a designa as b e es p esenças de alguém conhecido da á ea da ep esen ação, mas não só, num ilme. Al ed Hi chcock es á p esen e em mui os dos seus ilmes com cameo oles, en ando num comboio ou au oca o, comp ando um jo nal, en e ou as si uações. Pa a lá da de inição dada acima, o dicioná io de inglês de Ox o d em como p imei a acepção pa a a pala a a de pequeno pedaço de ped a du a esculpida em ele o com um undo de uma ped a de uma co di e en e, o que a ap oxima da exp essão po uguesa “cama eu” e ambas pa ecem e o igem no la im medie al. 64 Reis, o da possibilidade de g i o de Adamas o que o libe asse da ped a que é? O caminho em de se ei o pelo lei o e o des enda a ele pe ence. 65 Pa e III Pessoa no labi in o de Sa amago O labi in o não es á somen e no í ulo do li o que Reis não consegue le . Julgo que, p o a elmen e, se á di ícil quan i ica os labi in os exis en es em O Ano da Mo e de Rica do Reis: pode íamos começa com o das uas de Lisboa e passa pa a o dos acon ecimen os polí icos que ão des ilando na ob a, ou pa a um ou o, o u dido em ol a da li e a u a po uguesa, mas não só. E de an o labi in o, escolha-se um, o de Sa amago, alegado cons u o e deus da sua ob a. Pa a que cump a a sua cabal unção é necessá io que haja quem o pe co a e o elei o é Fe nando Pessoa. Que azão le a o au o a escolhe um mo o e como pode o mesmo mo o desb a a o que, a inal, pa ece já e oda a sinalé ica no de ido luga ? Pode -se-ia começa assim, com as pala as de Salman Rushdie em Os Ve sículos Sa ânicos: «Pa a se nasce de no o», en oou Gib eel Fa ish a, caindo dos céus, «é p eciso p imei o mo e . Ho ji! Ho ji! Pa a se poisa na e a acolhedo a, é p eciso p imei o oa . Ta aa! Taka hun! Como o na um dia a so i , sem se cho a p imei o? Como conquis a o amo da mais que ida, meu senho , sem um suspi o? Baba, se que es enasce ...» Pouco an es da al o ada, numa manhã de In e no, po al u as do Ano No o, dois homens adul os, i os, de ca ne e osso, caí am de uma g ande al i ude, in e e no e mil e dois pés, em di ecção ao canal da Mancha, sem o auxílio de asas ou pá a-quedas, a a essando um céu límpido. 95 O que de es anho possa e es a oco ência, a da descida e iginosa dos ac o es Gib eel Fa ish a e Saladin Chamcha após a explosão do a ião em que seguiam pa a Lond es, únicos sob e i en es do desas e, pode á equi ale ao que possa es a p esen e, já deco ido quase um quin o de O Ano da Mo e de Rica do Reis, quando Reis 95 Rushdie, 1989: 15. 66 depa a com o Fe nando Pessoa mo o no seu qua o no Ho el B agança e não julga ha e nes a si uação qualque «acon ecimen o i egula »: é en ão que Rica do Reis epa a que po baixo da sua po a passa uma és ia luminosa, e -se-ia esquecido, en im, são coisas que podem acon ece a qualque , me eu a cha e na echadu a, ab iu, sen ado na so á es a a um homem, econheceu-o imedia amen e apesa de não o e há an os anos, e não pensou que osse acon ecimen o i egula es a ali à sua espe a Fe nando Pessoa, disse Olá, embo a du idasse de que ele lhe esponde ia, nem semp e o absu do espei a a lógica, mas o caso é que espondeu, disse Vi a, e es endeu-lhe a mão, depois ab aça am-se. (79) Es amos já no p imei o dia de 1936, o ano da mo e de Rica do Reis; há dois dias em Lisboa, em o na- iagem do B asil, i e a já a opo unidade de isi a o jazigo 4371 do cemi é io dos P aze es, de D. Dionísia Seab a Pessoa, com ou o nome insc i o, Fe nando Pessoa, com da as de nascimen o e mo e, e o ul o dou ado duma u na dizendo, Es ou aqui, e em oz al a Rica do Reis epe e, não sabendo que ou iu, Es á aqui, é en ão que ecomeça a cho e . (40) Es i e a Reis, nas úl imas ho as, calco eando as uas de Lisboa, Rua do Alec im, Chiado, Rua do Ca mo, Rossio, pa a e o elógio da es ação cen al o icializa a passagem de ano, e depois de se ecusa a en a no no o ano numa iagem à oda do seu qua o do Ho el B agança, p onunciou-se e decidiu, po que ambém ele, como Ga e , não que se menos do que um qualque , seja ele, po exemplo, Xa ie de Mais e 96 : 96 Apenas como no a pa a uma b e e eco dação: “Que iaje à oda do seu qua o quem es á à bei a dos Alpes, de In e no, em Tu im, que é quase ão io como São Pe e sbu go – en ende-se. Mas com es e clima, com es e a que Deus nos deu, onde a la anjei a c esce na ho a, e o ma o é de mu a, o p óp io Xa ie de Mais e, que aqui esc e esse, ao menos ia a é o quin al.” Ga e , 2001: 19. 67 Que es ou eu pa a aqui a aze , oda a gen e a es eja e a di e i -se, em suas casas, nas uas, nos bailes, nos ea os e nos cinemas, nos casinos, nos caba és, ao menos que eu á ao Rossio e o elógio da es ação cen al, o olho do empo, o ciclope que não a i a com penedos mas com minu os e segundos, ão áspe os e pesados como eles, e que eu enho de i aguen ando, como aguen amos odos nós, a é que um úl imo e odos somados me eben em com as ábuas do ba co, mas assim não, a olha pa a o elógio, aqui, aqui sen ado, sob e mim p óp io dob ado, aqui sen ado (74-75) Es e p onunciamen o, aliás, em mui o do exp esso po Ga e no seu p o es o logo na página inicial de Viagens na Minha Te a, se aqui se há-de aze c ónica de udo “quan o i e ou i , de quan o eu pensa ou sen i ” 97 , ambém a c ónica de 1936 es a á p esen e em O Ano da Mo e de Rica do Reis. Reg essemos à p imei a apa ição de Pessoa a Reis. Aquela na u alização do encon o en e uma icção de uma icção e um mo o, es e jogo en e ealidade e insóli o, são explicados po Miguel Kole pela in luência do ealismo mágico da li e a u a la ino-ame icana da segunda me ade do século XX e que em es abelece uma linha dis in i a na esc i a sa amaguiana em elação às ob as an e io es: A pa i de 1994 [sic] con El año de la mue e de Rica do Reis pe o, sob e odo, dos años después, en 1986, con La balsa de pied a, José Sa amago comienza a iman a po un es ilo p opio que es di e en e del que se le había pau ado po su asociación con el ex o de 1980. También con o igen la inoame icano, la nue a imp on a a su icción la da el ealismo mágico y ma a illoso que se ex endió con el boom de la no ela la inoame icana. Aunque ue a de las e e encias empo o- espaciales que le esul an p ecisas (al modo del Macondo de Ga cía Má quez) la idea de una usión en e lo eal y lo insóli o desa iando las ca ego ías mismas de ealidad y an asía se conjugan en el diseño de un p oyec o esc i u al con sello p opio. T ae de la mue e a Fe nando Pessoa en El año de la mue e de Rica do Reis y hace lo i i en la ealidad de la Lisboa du an e la dic adu a es an eal e insóli o como supone que la Península Ibé ica pod ía desp ende se de F ancia 97 Idem: 19. 68 po una ac u a en Los Pi ineos y lanza se al ma como una gigan esca balsa de pied a. El desa io es aba allí. Y daba ono a un con ex o socio-polí ico a aigado que se exponía a a és de esa igu a: el Alen ejo, Lisboa, Ma a, e c. 98 Tomando po bom o p essupos o de Kole , pode -se-á ac escen a que es a in luência já es á ambém p esen e em Memo ial do Con en o, com os pode es de Blimunda e, pa icula men e, com a me á o a que sus en a o oo da passa ola. O que a p esença des e insóli o omado como eal p o oca no lei o é a p edisposição pa a uma lei u a semp e em sen ido polissémico de udo o que se ap esen e nas páginas que se seguem, chamada de a enção necessá ia, não á o lei o , desap o ei ando a lição de Quain julga que a sua solução p imei a não possa se e ónea, esquecendo o jogo da i onia semp e p esen e. Rushdie ou Sa amago, ale am en ão o lei o pa a a mul iplicidade cons u i a dos seus ex os, diga-se dois ac o es que descem de uma al i ude de quase no e mil me os, como pássa os chil ean es, ou diga-se c iado e c ia u a, um mo o o ou o não exis en e, que se encon am num qua o de ho el de uma capi al que se julga de impé io, podem não se acon ecimen o i egula mas ambos os acon ecimen os êm como im o ques iona oda a cons ução na a i a e o seu im, como az o na ado de Os Ve sículos Sa ânicos: Eu sei a e dade, ob iamen e. Assis i a udo. Em ma é ia de omnip esença e po ência, não que o, po ago a, a i ma quaisque p e ensões, mas espe o con encê-los ao menos do seguin e: Chamcha o denou e Fa ish a ez o que oi o denado. Qual deles ope ou o milag e? De que ipo – angélico, sa ânico – e a a canção de Fa ish a? Quem sou eu? Fo mulemos assim a ques ão: quem em as melho es canções? 99 98 Kole , 2008: 23-24. 99 Rushdie, 1989: 21. 69 Ou, anspondo as ques ões pa a Sa amago, ace ca do O Ano da Mo e de Rica do Reis, mas conside ando que elas já êm de Manual de Pin u a e Calig a ia, emos colocadas ou as ques ões, as que o au o julga pe inen es: “(...) o que é a e dade, quem é o ou o?” 100 Re ome-se, ago a, a pe gun a que se já se ez: po quê es e si ua Pessoa no labi in o de Sa amago? Em p imei o luga , é de escla ece que a de inição de labi in o, aqui, não es á exclusi amen e elacionada com o í ulo da no ela de Quain. Aliás, a e e ência p imei a à mo ada do Mino au o, em O Ano da Mo e de Rica do Reis, é an e io ao ab i das malas de Rica do Reis e à descobe a do seu oubo in olun á io: Es as on a ias são a mu alha que ocul a a cidade, e o áxi segue ao longo delas, sem p essa, como se andasse à p ocu a duma b echa, dum pos igo, duma po a da aição, a en ada pa a o labi in o. (17-18) Pa a de ini mos “labi in o” lemos em Dicioná io dos Símbolos as pala as emp es adas po Ma cel B ion: É um en ec uzamen o de caminhos, dos quais alguns não êm saída e o mando, po isso, becos, a a és dos quais se a a de descob i o caminho que conduz ao cen o dessa biza a eia de a anha. A compa ação com a eia de a anha não é, aliás, exac a, pois es a é simé ica e egula , enquan o que a p óp ia essência do labi in o é ci cunsc e e no meno espaço possí el o mais complexo ema anhamen o de e edas e e a da assim a chegada do iajan e ao cen o que ele que a ingi . 101 No o emp és imo, ago a de Mi cea Éliade, escla ece-nos que “Os i uais labi ín icos (...) êm jus amen e po objec i o ensina ao neó i o, no p óp io decu so da 100 Reis, 1998: 46. 101 Che alie , Ghee b an , 1994: 395. 70 sua ida na e a, a manei a de pene a , sem se pe de , nos e i ó ios da mo e (que é a po a duma ou a ida).” 102 T aze Pessoa pa a o labi in o pode e es i , en ão um ca ác e apa en emen e an agónico: se, po um lado, o ema anhamen o das e edas objec i a a demo a pa a quem nelas se a en u a, po ou o, os i uais a que o labi in o ob iga são lição pa a um pe cu so a aze nos e i ó ios da mo e. O senão que se le an a é que Pessoa já e e o seu p óp io decu so de ida na e a, já es á mo o, e Reis nunca es e e i o, o que nos aden a no jogo de não exis ência, que os en ol e e a mais um li o, The God o he Laby in h: “Mas aquilo que me ascinou oi in oduzi um jogo de não exis ência – o Fe nando Pessoa que já não exis e. O Rica do Reis que não em qualque espécie de exis ência, um li o que não exis e... e no en an o en a na his ó ia.” 103 Dize que Pessoa es á no labi in o de Sa amago p essupõe a ibui ao au o do omance o papel de Dédalo, o cons u o des e espaço que ese a um mino au o que pode mui o bem se a ep esen ação dos acon ecimen os daquele ano inal de Rica do Reis. Pode uma p imei a lei u a con igu a que o p e enso Teseu se ia o p o agonis a da na a i a, mas conside o que, mais do que Rica do Reis, é Fe nando Pessoa que i á se pos o à p o a. Po ou as pala as, pa a ambos pa ece es a des inado um labi in o e cada um o pe co e á, encon ando uma saída comum, a mo e, que o não é po que é onde já an es se encon a am. Reis é o espec ado do espec áculo do mundo, que eclode como o o o da se pen e, e a pa i do seu olha amos elabo ando uma pano âmica, mui as ezes à bei a do io, do empo his ó ico, dos acon ecimen os polí icos. Pessoa pa ece des inado, po ezes, a um papel quase de í e e nas mãos do au o , um cons uc o au o al pa a jus i ica uma isão dos acon ecimen os, que é a de Sa amago. No inal, po ém, quem unicamen e dele pode á sai , como an es se ci ou, é o lei o , como único e eal sob e i en e, al ez po que, como expõe G ossegesse, ealça o comp omisso com a “«his ó ia», en endida como expe iência his ó ica conc e a, que não de e se deci ada como se osse um ex o (acabado), mas i ida em ca ne e osso.” 104 Pessoa não sai po que es e já não é o seu labi in o, o seu empo; Reis ambém não po que, apesa de um mo imen o que se ai deixando pe cebe , em di ecção a uma 102 Idem: 396. 103 Sa amago, in Exp esso: 24/11/1984. 104 G ossegesse, 2003: 121. 71 omada de consciência quando con on ado com o espec áculo do mundo, esse mesmo mo imen o não é concluído e o caminho pa a a saída do labi in o não é pe co ido, apesa do esboço de on ade ep esen ado nas lág imas, po ém absu das, que e e pelos que so em o bomba deamen o na e ol a dos ma inhei os: en a em casa, a i a-se pa a cima da cama des ei a, escondeu os olhos com o an eb aço pa a pode cho a à on ade, lág imas absu das, que es a e ol a não oi sua (411) Ac escen a G ossegesse o que conside a se a iabilidade pa a uma saída com êxi o: “O caminho pa a sai do labi in o co esponde à despe i icação do sujei o. Es e e mo designa, me a o icamen e, a mudança do es ado passi o do obse ado , a as ado da ida comum e das ques ões da sociedade, pa a um es ado ac i o, po an o i o.” 105 Apesa de G ossegesse conside a que es e caminho é iniciado, que chega a su gi um Reis an í ese do he e ónimo pessoano, ele nunca se á concluído e Reis con o ma-se com o se uma c iação de Pessoa. 3.1. Es a Lisboa que se e isi a Fe nando Pessoa aleceu S op Pa o pa a Glasgow S op (80) Is o eleg a a o engenhei o na al Ál a o de Campos e, ecebido o eleg ama, Reis decide eg essa , sen iu que e a uma espécie de de e . Apesa do om ca egó ico e da espécie de sa is ação maligna que Pessoa en e ê nas pala as de Campos 106 , não é de odo inegá el que já i esse pa ido pa a a Escócia, aliás esc e e a an es que o con en a a 105 G ossegesse, 2003: 123-124. 106 “É mui o in e essan e e om da comunicação, é o Ál a o de Campos po uma pena, mesmo em ão poucas pala as no a-se uma espécie de sa is ação maligna, quase di ia um so iso, no undo da sua pessoa o Ál a o é assim,” Sa amago, 1984: 80-81. 72 e “Pequeno, neg o e cla o, um paque e en ando. / Vem mui o longe, ní ido, clássico à sua manei a.” 107 e esse longe pode mui o bem se in e anos, os que ão da esc i a de “Ode Ma í ima” à chegada do Higland B igade a Lisboa. Abandone-se a especulação sob e Ál a o de Campos e as suas hipo é icas pa idas e eg essos e ol emos a Reis que, es e sim, es á de eg esso a Po ugal e e isi a Lisboa e é o seu olha que ajuda a econs ui a capi al, po que é um olha de econhecimen o, não o de a diá io, que já pouco ê e nunca e ê, nem, ão pouco, o da o al no idade, que é o de quem apo a pela p imei a ez: “O olha de Rica do Reis em elação a Lisboa é o olha que ol a, que es á de ol a. Não se con unde, pois, com o olha co idiano e mui o menos com o su p eso olha es angei o.” 108 Ap oxima-se da cidade po ma num dia de In e no, igo oso, di -se-ia, e a p imei a imagem ida nes a e isi ação de mui os anos de ausência é a de uma u be asa sob e colinas, como se só de casas é eas cons uída, po acaso além um zimbó io al o, uma empena mais es o çada, um ul o que pa ece uína de cas elo (12) Ao longo das suas on a ias como mu alhas, p ocu a-se o que escondem, a po a da aição, a en ada pa a o labi in o, a ibu os de mo imen os an agónicos, de saída e de ap oximação, c iação de uma “sup a- ealidade” poli ónica, mul i-especula , que se es ende, se ap o unda. Pa ece se es a duplicidade elacional o que ão mos a os meses inais de ida de Rica do Reis em Lisboa, um jogo semp e p esen e en e a acção e ejeição. Pode -se-ia apon a uma elação en e es e eg esso de Reis e os inúme os de Ál a o de Campos nos dois “Lisbon Re isi ed”, embo a se possa op a pelo de 1926 como mais c edí el pa a es a izinhança, como salien a Da id F ie , a é po que, se i e mos em con a a adição biog á ica de Reis, a conhecida ao empo da esc i a de O Ano da Mo e de Rica do Reis, es e céu azul de Lisboa não oi o da sua in ância: “Vis o den o de es e con ex o, Reis ya no nos pa ece un caso singula , aunque el dolo que sien e en es a ob a ambién es pa ecido al de o o he e ónimo pessoano, Ál a o de 107 Pessoa, 1980: 162. 108 Ma ga o, 2016: 47. 73 Campos, en su «Lisbon Re isi ed (1926)».” 109 Es e desca a do poema homónimo de 1923 não impede, oda ia, que se possam es abelece algumas linhas coinciden es en e es e sujei o (o do poema) que busca o isolamen o e um Reis sa amaguiano que ambém o que , a pa i de dado momen o, mas sem a g i a do p imei o poema de Campos, quase não saindo da casa do Al o de San a Ca a ina, num abandono de si mesmo: Rica do Reis, um dia que es á do mi ando, na en e manhã, cedíssimo pa a os seus no os hábi os de indolência, ou e sal a em os na ios de gue a no Tejo, in e e um espaçados e solenes i os que aziam ib a as id aças, julgou que e a a no a gue a que começa a, mas depois lemb ou-se de no ícias que le a no dia an e io , es e é o Dez de Junho, a Fes a da Raça, pa a eco dação dos nossos maio es e consag ação des es que somos, em amanho e núme o, às a e as do u u o. Meio sonolen o consul ou as suas ene gias, se as e ia su icien es pa a de golpe se le an a dos lençóis mu chos, ab i de pa em pa as janelas pa a que pudessem en a sem peias os úl imos ecos da sal a e he oicamen e espa o issem as somb as da casa, os bolo es escondidos, o chei o insidioso do mo o (350-351) E ex ema es a sua on ade de nada numa i ada na linha do que mais dep essi o possa exis i na poesia de Camilo Pessanha: de udo o que lhe ape ecia e a ica dei ado, no mo no dos cobe o es, deixando c esce a ba ba, o na se musgo, (240) 110 À passagem de Reis não se echa am “ odas as po as abs ac as e necessá ias” 111 nem se “co e am co inas po den o”, po que Lisboa é já uma cidade 109 F ie , 2004: 120. 110 A lemb a , cla amen e, a quad a “Insc ição”, de Pessanha: Eu i a luz em um país pe dido. / A minha alma é lânguida e ine me. / Oh! Quem pudesse desliza sem uído! / No chão sumi -se, como az um e me... 111 Es a ci ação e as seguin es, nes e pa ág a o, sal o indicação em con á io, são de “Lisbon Re isi ed (1926)”. 80 pe sonagem e en a em cena a do na ado , se a i onia da e a iquíssima em pob es é o que pensa a pe sonagem, um pouco incomodado com o que ê, ou se já es amos a ou i o na ado sob e o que ainda espe a a mul idão; e des e é ce amen e a iolen a imagem o necida pela onalidade uni o me, pa dacen a, de oda a misé ia a is ada, numa negação das leis da ísica que pos ulam que a junção de odas as co es do espec o é o b anco e não a nódoa pa da, neg a que se ap esen a. Não se pode deixa de menciona , ambém, apesa de e oco ido enquan o Reis passa a po en e a mul idão, uma ou a mos a de incómodo, inconscien e, ce amen e, que é o ac o de e chegado ao pequeno la go on ei o ao palácio a sus e a espi ação: a mul idão ala ga-se, mais olgada, pela meia-la anja que com ele en es a, espi a-se melho , só ago a Rica do Reis deu po que inha a e e a espi ação pa a não sen i o mau chei o, ainda há quem diga que os p e os edem, o chei o do p e o é um chei o de animal sel agem, não es e odo de cebola, alho e suo ecozido, de oupas a o mudadas, de co pos sem banho ou só no dia de i ao médico, qualque pi ui á ia medianamen e delicada se e ia o endido na p o ação des e ânsi o. (69) A compa ação es á ei a, com um ce o sabo anac ónico e uma no ó ia in enção de co eja um p econcei o acial a eigado na sociedade dos anos in a do século passado e uma condição social com que Reis en a em con ac o pela p imei a ez. De um lado, o incómodo, po que longínquo e es anho, do di e en e, sel agem «chei o do p e o», do ou o lado o descon o o po que ab iu os olhos e as na inas pa a uma ealidade mais do que p óxima que odeia a pe sonagem, que a igno a no seu jogo de sons i ados pa a den o que é o ba e da pon ei a do gua da-chu a na ped a da calçada. Se ecua mos um pouco no ex o, há duas e e ências in e ex uais me ecedo as de a enção, são a da A ábia Feliz e a do cisne de Loheng in. A p imei a que pon ua , pelo seu alo an i é ico, a di e ença en e quem dá e quem ecebe, ag upando odos numa imagem de iqueza e gene osidade que não co esponde ao que i e aquela gen e que se amon oa à po a do palácio. Já a compa ação en e a passagem de Reis na mul idão e o a anço do cisne de Loheng in nas águas do Ma Neg o, eme e, 81 ni idamen e, pa a o dis anciamen o social en e Reis e quem o odeia, a g ande di e ença é que Reis, ao con á io de Loheng in não disponibiliza a sua ajuda ( ambém o não espe a a nenhuma ilha de duque ó ã) nem põe como condição o desconhecimen o do seu nome. A obse ação quase à ol d’oiseau da mul idão ence a es e dis anciamen o en e Reis e quem o odeia, iniciado mui o an es, quando de epen e se ape cebe, ele, dos seus p óp ios passos, como se desde que saiu do ho el não i esse encon ado i alma, e is o mesmo ju a ia, em consciência. (67) 3.2.2. A ida a Fá ima Amanhã ou a Fá ima. Ela julgou e pe cebido mal, pe gun ou, Vai aonde, A Fá ima, Pensa a que não osse dessas ideias de ig eja, Vou po cu iosidade, Eu nunca lá ui, na minha amília somos pouco de c enças, É pa a admi a , que ia Rica do Reis dize que pessoas de classe popula são p óp ias pa a e em ais de oções, e Lídia não espondeu sim nem não, (304) A decisão de Reis pa ece epen ina, a Lídia, e desajus ada da imagem que ha ia c iado do senho dou o . A Lídia e ao lei o . Es e é, p o a elmen e, o episódio que deno a uma maio a i icialidade na elação que es abelece com o es o da ob a. A azão apon ada po Reis pa a es a iagem, aqui nes e exce o, é a cu iosidade; a e dadei a em que julga ac edi a é a de en a encon a Ma cenda no meio de imensa mul idão, é um bodo dos pob es mul iplicado po duzen os, segundo ela a ão os jo nais. Ma cenda, já o sabemos, i á, não po que a sua é seja su icien e pa a ac edi a numa cu a pa a a pa alisia do seu b aço esque do, es a á em Fá ima po que essa é a on ade de seu pai, que que inclui no pé iplo que a jo em há-de aze o espaço do sag ado e a concomi an e possibilidade da in e enção di ina, esgo ados que o am os caminhos da ciência que pe co eu em busca do es abelecimen o da no malidade, no seu b aço e na sua ida, em Coimb a e em Lisboa. 82 Vol emos a Rica do Reis. O que o le a a aze es a iagem: a cu iosidade sob e um acon ecimen o ainda i ele an e quando pa iu pa a o B asil em 1919, a en a i a de eencon o com Ma cenda? Qualque das azões pa ece pouco azoá el. A pe sonagem c iada não p ima pela ime são nas águas do io, seja ele qual o , o seu luga con inua a se a ma gem, ele que é, não desme ecendo da c iação pessoana, um pagão o a de oda a p oblemá ica ca ólica. E o p ocu a Ma cenda? Desde o p imei o encon o a sós, no Al o de San a Ca a ina que Ma cenda coloca a hipó ese de i a Fá ima, que c esce como úl ima linha pa a a sua cu a, epe i-lo-á quando se encon a em em casa de Reis e esc e ê-lo-á em duas ca as, uma delas a de adei a em que anuncia a Reis a sua decisão, a de que nunca mais nos o na emos a e , mas ac edi e em mim, ica á pa a semp e na minha lemb ança po mui os anos que i a, (295) A eacção de Reis é, num p imei o momen o, de imenso desconsolo, não c ê no que lê, sen e o chão ugi -lhe debaixo dos pés, esqueça-se a imagem gas a; no en an o, e como an es icou explicado, ao p óp io Reis a sua eacção pa ece a de e as encenada, com uma a i icialidade pouco disc e a: a si mesmo pe gun a se es e desgos o não se á ep esen ação sua, mo imen o ea al, se em e dade alguma ez ac edi ou que amasse Ma cenda, se no seu ín imo obscu o que e ia, de ac o, casa com ela, e pa a quê, ou se não se á udo is o banal e ei o da solidão, (296) Com es a pe spec i a, mais se acen ua a ideia de que José Sa amago inha de a anja manei a de le a Rica do Reis a é Fá ima, inha de conc e iza es a iagem, de pô a sua pe sonagem a obse a aquela pe eg inação. Cump iam-se dezano e anos dos acon ecimen os da Co a de I ia, que já es a am alidados pela opinião pública, que acudia às suas celeb ações em núme o c escen e, e goza am dos a o es do pode polí ico, em coni ência com a es u u a eligiosa. Com Reis no meio daquela mole de 83 pe eg inos, e apesa da busca que az po uma Ma cenda que nunca sabe emos se e á ido a Fá ima, o que ganha al o ia na na a i a é a pos u a es emunhal da pe sonagem, no amen e, semp e acompanhada das obse ações c í icas do na ado . Mais uma ez, a oz de quem na a se e-se da p esença da pe sonagem naquele espaço, que não pa ece mui o inclinada pa a lei u as ei adas de subjec i ismo do que ê, apenas obse a, pa a o om c í ico es á lá a oz na ado a. Comecemos en ão, nes a p esença em Fá ima, pelo modo como se posiciona es a pe sonagem pe an e o que ai obse ando. Não endo, des a ez, possibilidade de usu ui de um sal o-condu o que o dis inga no meio da mul idão, como se passou aquando do bodo aos pob es, em en e da sede do jo nal O Século, Reis imagina o que se ia e o p i ilégio de que Bal aza e Blimunda usu uí am na sua iagem na passa ola em Memo ial do Con en o, a isão em ol d’oiseau sob e oda aquela mul idão que enche o e ei o das apa ições: Rica do Reis jun a-se ao luxo dos pe eg inos, põe-se a imagina como se á um al espec áculo is o do céu, os o miguei os de gen e a ançando de odos os pon os ca diais e cola e ais, como uma eno me es ela, es e pensamen o ê-lo le an a os olhos, ou o a o ba ulho de um mo o que o le a a a pensa em al u as e isões supe io es. Lá em cima, açando um as o cí culo, um a ião lança a p ospec os, se iam o ações pa a en oa em co o, se iam ecados de Deus Nosso Senho , (...) e os pe eg inos es ão de na iz no a , lançam mãos ansiosas aos p ospec os b ancos, ama elos, e des, azuis, al ez ali se indique o i ine á io pa a as po as do pa aíso, mui os des es homens e mulhe es icam com os p ospec os na mão e não sabem o que aze deles, são os anal abe os, em g ande maio ia nes e mís ico ajun amen o, um homem es ido de sa ubeco pe gun a a Rica do Reis, achou- lhe a de quem sabe le , Que é que diz aqui, ó senho , e Rica do Reis esponde, é um anúncio do Bo il, (312-313) É, ou a ez, a neu alidade de quem obse a que ai ac escen a dimensão c í ica ao que é obse ado, passamos de um desejo de pe spec i a num pa ama sob eele ado pa a um espaço ao és da gen e, que pe mi e conhece aquela mul idão 84 a u dida po uma ânsia eligiosa, que a julga passí el de lhe da as espos as que não encon a; passamos depois pa a a desc ição de uma g ossei a es a égia come cial que mis u a es e anelo do di ino com as necessidades básicas de uma população que as não em sa is ei as e que o pode iam se , diz-nos a i onia na ado a, com uns singelos ascos de um ex ac o de ca ne de aca, o que que que isso seja, o Bo il. Aliás, es a e e ência não é a p imei a, numa ou a passagem es e p esumí el empe o su ge: é um mês an es des a pe eg inação eisiana a Fá ima e se e de p e ex o pa a uma das mais sa cás icas a eme idas con a o Es ado No o p esen es no omance. Fala-se de no os bodos em empo de Páscoa, o que é ap o ei ado pelo na ado pa a uma c í ica desapiedada a um pode mais p eocupado com a ep essão dos seus c í icos do que com a gene alizada misé ia que g assa a pelo país: Lesse o go e no com a enção su icien e os jo nais sob e os quais odas as manhãs, a des e mad ugadas mandou passa zelosos olha es, penei ando ou os conselhos e opiniões, e e ia quão ácil é esol e o p oblema da ome po uguesa, an o a aguda como a c ónica, a solução es á aqui, no Bo il, um asco de Bo il a cada po uguês, pa a as amílias nume osas o ga a ão de cinco li os, p a o único, alimen o uni e sal, panc es o emédio, (263) Es a es ada em Fá ima mul iplica-se em exemplos que deno am es e pon o de is a i ónico do na ado , desde a desc ição das ins alações hospi ala es a é ao espaço que, de endo se dedicado ao sag ado, se p o aniza com os negócios e enos, num ap o ei amen o conscien e da c endice des a mul idão necessi ada. São os cau elei os, os endedo es de êx eis, os desemp egados, po im a pala a é usada, são os endilhões, o que e oca, inexo a elmen e a Bíblia e a expulsão dos endilhões do emplo po Jesus. Segundo os ela os do No o Tes amen o, nos e angelhos de Ma eus e de João, a ac uação de Jesus em po objec i o o libe a a casa de Deus do negócio 124 , que ela se não o ne num an o de lad ões 125 . Pa a al não se coíbe, po p imei a e única ez, de eco e à iolência ísica pa a esco aça cambis as e endedo es de animais, 124 Lou enço, 2016: 329. 125 Idem: 127. 85 ac i idades alheias às p á icas que idas pa a aquela casa. É ine i á el o encon o in e ex ual da Bíblia com O Ano da Mo e de Rica do Reis só que, nes a ida a Fá ima, o que se ê é que é a p óp ia eligião que alimen a, a a és da sua di e sa simbologia, odo es e exé ci o de opo unismo desc i o, é um emplo que a si mesmo se co ói, que assim o ende quem nele c ê, que pe u ba os que nele p ocu am sal ação: e ago a são os cau elei os ap egoando os núme os da so e, com an a algaza a que não nos admi emos que as ezas suspendam o oo a meio caminho do céu, há quem in e ompa o pad e-nosso pa a palpi a o ês mil seiscen os e no en a e qua o, e segu ando o e ço na mão dis aída apalpa a cau ela como se lhe es i esse a calcula o peso e a p omessa, desa ou do lenço os escudos eque idos, e o na à o ação no pon o em que a in e ompe a, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, com mais espe ança. (...) Mas o pio de udo, po que o ende a paz das almas e pe u ba a quie ude do luga , são os endilhões, pois são mui os e mui as, li e-se Rica do Reis de passa po ali, que num ápice lhe me e ão à ca a, em insupo á el g i a ia, Olhe que é ba a o, olhe que oi benzido, a imagem de Nossa Senho a em bandejas, em escul u as, e os osá ios são aos molhos, e os c uci ixos às g osas, e as medalhinhas aos milhei os, os co ações de jesus e os a den es de ma ia, as úl imas ceias, os nascimen os, as e ónicas, e, semp e que a c onologia o pe mi e, os ês pas o inhos de mãos pos as e joelhos pé- e a, um deles é apaz mas não cons a do egis o hagiológico nem do p ocesso de bea i icação que alguma ez se enha a e ido a le an a as saias às apa igas. (316-317) O clímax de oda aquela mani es ação de c ença e eligiosidade es á no momen o da saída da imagem da Vi gem Nossa Senho a da capelinha onde a gua dam, os olha es p endem-se naquela pequena igu a, os cân icos que êm indo a se en oados, po udimen a es que sejam, suspendem-se, quase se pode julga que oda a espi ação se ausen ou de odos aqueles co pos: de súbi o az-se um g ande silêncio, es á a sai a imagem da capelinha das apa ições, a epiam-se as ca nes e o cabelo da mul idão, o sob ena u al eio e sop ou sob e duzen as mil cabeças, alguma coisa ai e de acon ece . (318) 86 De no o são con ocados Camões e Os Lusíadas naquele a epia de ca nes e cabelo, ob a e au o são um io que pe co e odo o omance. Camões não se limi a a se um guia e a ol pa a Fe nando Pessoa pe sonagem de O Ano da Mo e de Rica do Reis, o mesmo Sa amago dele se se e, po en u a um modo de se abalança a e mos compa a i os que nunca p onuncia á. Ap oxima es e êx ase eligioso p o ocado pela p esença daquela pequena imagem de madei a da isão do gigan e Adamas o é o echo de uma lei u a que se p e ende do enómeno das apa ições em Fá ima. Não é só en ende um dos inimigos de Zeus como sob e-humano, já o sabíamos, an es de Camões. Es e a epia de ca nes e cabelo suge e que o caminho a aze ago a é di e so: o gigan e queixoso p o es ou da p o anação do seu espaço, a é en ão in iolado, po uma gen e desconhecida, á ida do i mais além; ago a é uma gen e c édula que espe a do além, que julga conhecido, a edenção que não i á, o milag e adiado. Es a gen e não ou i á p o ecias nem coi as amo osas na espe a adiada de que alguma coisa acon eça. São duzen as mil cabeças so edo as, p o a elmen e desespe adas, que apenas escu am o silêncio, um g ande silêncio po elas mesmas c iado. Saciada a cu iosidade de Reis? Não há espos a, há-a pa a o desejo do au o , o do con on o, quase cinquen a anos depois, com os passos já esolu os de uma mani es ação de massas semp e alimen ada po um egime ep esso , que nela encon ou um dos es eios pa a a imagem que quis aze passa do país. Es a ida da pe sonagem, que ão alheia de ia se a ais enómenos se i esse bem es udada a lição eisiana he e onímica (mas es e médico já não pe ence ao domínio pessoano), é, e o ce-se, a jus i icação omanesca que o au o cons ói pa a uma c í ica po demais asse i a a esse pila da sociedade po uguesa começado a alice ça nos p imei os anos do Es ado No o. Se a ele jun a mos dois an es e e idos, que se elacionam com a p opaganda salaza is a, o li o de Tomé Viei a e o ilme de An ónio Lopes Ribei o, acilmen e se es abelecem elações, odas po ia do pode eden o do eminino, seja e i ando conspi ações e maus caminhos seja a i mando pelo sag ado e pela é um pode que mais do que o benepláci o do eligioso que e uma pala a a dize sob e ele. A ida a Fá ima pe mi e-nos essa lei u a e, con as ei as, se o ac o de Reis i a é lá pa ece aze algum cons angimen o ao omance, uma 87 ez mais a o ça do seu olha neu o e es emunhal pe mi e um ela o inde o o, como se espe a ia do pagão que é. E de Fá ima eg essa Rica do Reis sem e encon ado Ma cenda. 3.3. Pa a que se e Pessoa em O Ano da Mo e de Rica do Reis? Depois de duas semanas de mau empo na iagem a é Lisboa e passada a p imei a noi e no Ho el B agança, sem no idade maio , apesa “duma noi e de a eba ada in e nia, de empo al des ei o” (p. 33), sai Rica do Reis pa a a cidade, a pe co e as suas uas; des a p imei a ez, os seus passos em di ecção de inida, p imei o o banco, pa a cambia as suas lib as inglesas po escudos, depois os jo nais, no Bai o Al o, que le o que se esc e eu, há quase um mês, sob e a mo e de Fe nando Pessoa: Causou dolo osa imp essão nos cí culos in elec uais a mo e inespe ada de Fe nando Pessoa, o poe a do O eu, espí i o admi á el que cul i a a não só a poesia em moldes o iginais mas ambém a c í ica in eligen e (33) É assim lacónica a esc i a do p imei o jo nal consul ado po Rica do Reis; nou os i á le no as mais gene osas na iden i icação des e poe a mo o há ão pouco empo: Realizou-se on em o une al do senho dou o Fe nando An ónio Noguei a Pessoa, sol ei o, de qua en a e se e anos de idade, qua en a e se e, no em bem, na u al de Lisboa, o mado em Le as pela Uni e sidade de Ingla e a, esc i o e poe a mui o conhecido no meio li e á io, sob e o a aúde o am depos os amos de lo es na u ais (36) 88 Ou os apon amen os nec ológicos há que não esquecem os á ios, mui os, caminhos da sua ob a, com especial a enção pa a a e en e nacionalis a de Mensagem e os he e ónimos: Fe nando Pessoa, o poe a ex ao diná io da Mensagem, poema de exal ação nacionalis a, dos mais belos que se êm esc i o, oi on em a en e a , su p eendeu-o a mo e num lei o c is ão do Hospi al de S. Luís, no sábado à noi e, na poesia não e a só ele, Fe nando Pessoa, ele e a ambém Ál a o de Campos, e Albe o Caei o, e Rica do Reis (35-36), o que é mo i o pa a o desag ado de Reis, o sa amaguiano, po e -se omado pela eia pessoana, ele que é i o e são e da negação des a con usão e da esc i a po desa enção des a no a az pon o de hon a pa a a a i mação des a sua ealidade em oposição àquela em que o que em olhe : p on o, já cá al a a o e o, a desa enção, o esc e e po ou i dize , quando mui o bem sabemos, nós, que Rica do Reis é sim es e homem que es á lendo o jo nal com os seus p óp ios olhos abe os e i os, médico, de qua en a e oi o anos de idade, mais um que a idade de Fe nando Pessoa quando lhe echa am os olhos, esses sim, mo os, não de iam se necessá ias ou as p o as ou ce i icados de que não se a a da mesma pessoa, e se ainda aí hou e quem du ide, esse á ao Ho el B agança e ale com o senho Sal ado , que é o ge en e, pe gun e se não es á lá hospedado um senho chamado Rica do Reis, médico, que eio do B asil (36) Lidas as no ícias do início des e mês de Dezemb o que ago a quase inda, como se Reis quisesse comp o a o que le a no eleg ama de Ál a o de Campos, di ige-se pa a o cemi é io dos P aze es pa a, ainda mais, pode ac escen a e acidade ao lido no B asil, e ao que le a pouco an es e ende uma b e e homenagem ao mo o que, pela p imei a ez, com ele ala embo a Reis, emb enhado nos seus pensamen os, não se ape ceba. 89 à al u a do gonzo in e io da po a, ou o nome, não mais, Fe nando Pessoa, com da as de nascimen o e mo e, e o ul o dou ado duma u na dizendo, Es ou aqui, e em oz al a Rica do Reis epe e, não sabendo que ou iu, Es á aqui. (40) Lemos em Muniz e Ba bosa 126 que Ad iano Schwa z a i ma, em ob a a que se não e e acesso di ec o, que a concepção undado a de O Ano da Mo e de Rica do Reis é “da ida a quem exis iu sem nunca e exis ido” 127 , com que se conco da com alguma ole ância se es ende mos a Pessoa o mo ejo da epíg a e pessoana que Sa amago escolhe e o comp eende mos nesse seu ges o i ónico; de ou o modo, é necessá io en ende , en ão, que a concepção undado a do omance não é, somen e, da ida a quem exis iu sem nunca e exis ido (e deixando de lado a no a que se lança ao Ulisses pessoano, embo a pudesse e ela algum in e esse), é ambém da ida a quem já não pode exis i . Sa amago insis iu, desde a p imei a edição des e omance, que, pa a a sua esc i a, o mo i ou o descon o o que azia Rica do Reis, aquele poe a que desde no o ap endeu a admi a e, em igual g au, a denega a ob a, a des e he e ónimo das odes e das Lídias, Nee as e Cloes, a acção e ejeição que se opõem num ímpe o semelhan e ao dos ca alos de Magdebu go 128 , mas com igual insucesso pois en e um e ou o sen imen o apenas es a o azio e a sepa ação dos hemis é ios unicamen e é possí el com a acei ação da ob a poé ica des e he e ónimo, adop ando a a acção e a ejeição. A i mou ei e adamen e que não lhe bas a a ou i a decla ação de Reis de p e ende se só es emunha do espec áculo do mundo, que deseja a con on á-lo com esse mesmo mundo, ob igá-lo a desce da sua e encos a sob ancei a ao io, com ou sem as suas e anescen es camenas, e azê-lo sen i , ísica e emocionalmen e, es e mundo, e nas mãos o co po de uma ou a Lídia e não somen e a mão, ão-só enlaçada, da sua musa. Mas, pa a a ingi al in ui o se ia necessá ia uma ou a igu a o e, que an o 126 Muniz e Ba bosa, 2013: 21. 127 SCHWARTZ, Ad iano. O abismo in e ido: Pessoa, Bo ges e a inquie ude do omance em O ano da mo e de Rica do Reis. 2004. São Paulo: Globo. 128 Em 1654, em Magdebu go, na Alemanha, O o on Gue icke conseguiu p o a a exis ência do ácuo, a a és de uma expe iência que consis iu em jun a dois hemis é ios de cob e unidos po anel de cou o. Da es e a ob ida des a união oi e i ado o a po uma bomba de ácuo, in enção do mesmo on Gue icke, e a cada hemis é io o am a elados oi o ca alos que não consegui am a sua sepa ação. 96 po se e exis i : a sinonímia que lhes a ibui Pessoa e a indi idualidade signi ica i a de cada pala a, na opinião de Reis, dep eendendo-se das suas pala as que a mo e não pode se o ou o lado da ida pois “limi a-se a se , a mo e é, não exis e, é” (94). O se que sonha exis e, é o sonho que lhe possibili a e consciência de si e da sua e eme idade, di ia Reis. Quando uma segunda ez se êem no Ho el B agança (páginas 117 a 119), de no o Reis se subme e à i onia pessoana quando é p oclamada a jus iça poé ica po que Reis já em a sua Lídia pa a lhe aze companhia na cama, não a das odes, que mais não é do que uma “(...) impossí el soma de passi idade, silêncio sábio e pu o espí i o (...)”. 136 Reis menciona o p imei o e so de “Au opsicog a ia”, de Pessoa, “O poe a é um ingido ”, mas o seu in e locu o escuda-se no ac o de conside a que mo eu sem e pe cebido “se é o poe a que se inge de homem ou o homem que se inge de poe a” (118). A dú ida de Pessoa es á po escla ece : se o homem inge enquan o poe a e oda a poesia é ingimen o, se o poe a se inge de homem e oda a sua ida mais não é do que uma c iação, um ingimen o, um puzzle de do es au opsicog á icas, da sen ida à lida, passando pela esc i a. E odo es e ema anhado de concei os ace ca do ingimen o é ambém esul ado da in e p e ação ei a po Sa amago da ida e ob a de Pessoa, na necessidade sen ida de ambém pô Pessoa de on e do mundo que o odeia. Já pa a Reis, segundo Pessoa, o caso se a igu a di e so: pa a ele não há emédio po que é ingimen o de si mesmo, po que não sabe quem é (e Pessoa sabê-lo-á, pe gun a Reis), al ez po que en edado en e a icção li e á ia que oi a é 30 de No emb o de 1935 e o encon o en e essa sua iden idade e o mundo que esqueceu na sua poesia, que se dá a pa i dessa da a. A dú ida de Reis é a dis inção en e ingi e ingi -se que pa a Pessoa não exis e em Reis, ele ingiu, Reis inge-se, é, ea i me-se, ingimen o de si mesmo, um se pe dido na igno ância de quem é. Ainda a isca, em om algo sen encioso, con á io ao uso do ad é bio inicial, “Tal ez que eu enha ol ado a Po ugal pa a sabe quem sou”, (119), o que é ejei ado limina men e po Pessoa, con apondo, 136 Sa amago, 1984: 118. 97 Tolice, meu ca o, c iancice, alumb amen os assim só em omances mís icos e es adas que ão a Damasco, nunca se esqueça de que es amos em Lisboa, daqui não pa em es adas, (119) Algum sa casmo se p esen i ica nes a espos a e se es ende à cidade, a uma Lisboa calco eada po ambos, Pessoa e Reis, e que o p imei o, com oda a dis ância que lhe dá a sua ecen e condição de mo o, não ê como espaço de mudança nem de espe ança pa a que ela acon eça. Nas páginas 153 e 154, Reis e Pessoa encon am-se num ca é não nomeado e, no comen á io aos esul ados das eleições em Espanha, explica Pessoa que é o comunismo, o que lhe dá o mo e pa a i onicamen e in e p e a a saída de Reis do B asil que segundo ele, e á esul ado de uma uga polí ica, pois não se con ence de que o eg esso i esse apenas sido consequência da sua mo e, e disco e sob e os desencon os com a ida, o d ama de e de i e em algum luga , de e que i e sem log a emba ca no “ba co da nossa iagem” (154). A ançamos algumas páginas mais (pa a as 181 a 183) e Reis agua da po Ma cenda no Al o de San a Ca a ina e de no o i oniza Pessoa sob e a demasiada ma e ialidade das elações do seu in e locu o com as mulhe es, amado de c iadas, co ejado de donzelas: B a o, ejo que ocê se cansou de idealidades emininas inco pó eas, ocou a Lídia e é ea po uma Lídia de enche as mãos, que eu bem a i lá no ho el, e ago a es á aqui à espe a dou a dama, ei o D. João nessa sua idade, duas em ão pouco empo, pa abéns, pa a mil e ês já não lhe al a udo (181) Tão g andes al e ações no e a ida eisiano p o ocam algum despei o em Pessoa que não se coíbe da censu a a es as mudanças: “(...) es ima a-o mais quando ocê ia a ida à dis ância a que es á (...)” (p. 183). Des e encon o é, ambém de sublinha a azão a ançada po Pessoa pa a a sua linguagem desbocada, pa a a al a de « en o na língua», acusação que lhe é ei a po 98 Reis, a de que o empo nunca é su icien e pa a que se diga udo o que se quis dize . Pessoa sabe-o po que o empo de dize , pa a ele, já passou: Tem azão, se calha é o desespe o de não e em di o o que que iam enquan o oi empo de lhes ap o ei a , Fico p e enido, Não adian a es a p e enido, po mais que ocê ale, po mais que odos alemos, ica á semp e uma pala inha po dize , Nem lhe pe gun o que pala a é essa, Faz mui o bem, enquan o calamos as pe gun as man emos a ilusão de que pode emos i a sabe as espos as, (182) O encon o seguin e é o sé imo e o p imei o em casa de Reis (páginas 225 a 228). Pessoa já não en a sem ba e à po a pois a casa de um homem é o seu cas elo e pe cebe-se uma al e ação nos mo i os de con e sa e ou as emá icas são abo dadas, como a solidão e a mo e. Pessoa de ine solidão como a incapacidade “(...) de aze companhia a alguém ou a alguma coisa que es á den o de nós” (226). Reis ainda chama pa a a con e sa Camões, eco dando o soli á io anda po en e a gen e, mas ema a Pessoa, elemb ando as úl imas ho as da sua ida, não me lemb o de me e sen ido e dadei amen e ú il, c eio mesmo que é essa a p imei a solidão, não nos sen i mos ú eis (227). A solidão não es á na elação com o ou o, habi a a elação de cada um consigo mesmo, i e na dis ância a que nos supomos de nós: a solidão, ainda ai e de ap ende mui o pa a sabe o que isso é, Semp e i i só, Também eu, mas a solidão não é i e só, a solidão é não se mos capazes de aze companhia a alguém ou a alguma coisa que es á den o de nós, a solidão não é uma á o e no meio duma planície onde só ela es eja, é a dis ância en e a sei a p o unda e a casca, en e a olha e a aiz (226) 99 Não esquece, Pessoa, ainda um pequeno emoque a Camões po se e se ido do Adamas o , que a is a, de ped a ei o, da janela de Reis, pa a queixumes de amo que p o a elmen e lhe es a am na alma, e pa a p o ecias menos do que ób ias (228) Na ua e em casa se desen ola o p óximo encon o (en e as páginas 273 e 283). O ema da mo e domina a p imei a pa e e a análise da si uação polí ica a segunda. Rica do Reis eg essa do jan a e ê Fe nando Pessoa sen ado num banco p óximo da es á ua do Adamas o . Começando pelas companhias emininas de Reis, cedo se es abelece o discu so na di e ença en e mo os e i os e na di iculdade que os segundos êm em en ende os p imei os, já “(...) o mo o em a an agem de já e sido i o (...)” (274). Pa a essa di iculdade con ibui, assegu a Pessoa, o ac o de os i os não sabe em que mo em, apenas sabem que os ou os mo em e ins i ui que essa igno ância é-a de si mesmo, i o, e do ou o: “(...), o mu o que sepa a os i os uns dos ou os não é menos opaco que o que sepa a os i os dos mo os (...) (275), pa a conclui que a mo e “(...) é uma espécie de consciência, um juiz que julga udo, a si mesmo e à ida (...) (275), o que ala ma Reis, que deno a nas pala as do seu amigo um isco que não conhecia nele, que assume (ap endizagem da mo e) a necessidade de dize odas as pala as, mesmo as mais absu das, como condição essencial pa a dize o necessá io (o e iden e?): “(...) Se não disse mos as pala as odas, mesmo absu damen e, nunca di emos as necessá ias (...) (275). Reis lemb a a Pessoa, pela segunda ez, um e so seu, “Neó i o, não há mo e”, mas Pessoa limi a-se a desdize o que an es p oclama a, como o já ize a pe an e a sua a i mação de que o poe a é um ingido , a mo e ouxe a-lhe uma di e en e pe spec i a da ida. Ana Ribei o conside a que a u ilização des as duas ci ações mais não é do que uma en a i a de Reis pa a aze à ona a incoe ência de Pessoa, o que não su e e ei o pois Pessoa admi e sem di iculdade o seu equí oco: Tan o nes e caso como no an e io , a ci ação al ez uncione mais como meio de con es ação do que como pon o de pa ida pa a o deba e. A a és das suas 100 ci ações de Pessoa, Reis pa ece que e pô-lo à p o a, de modo a mos a as suas incong uências. Mais uma ez, us a-se a polémica que a ci ação pode ia causa , pois o au o da Mensagem econhece que «Es a a enganado, há mo e» (275), ideia que e o ça na página seguin e. 137 Se Reis espe a a e espos a a es as, digamos, suas objecções, dep essa se desiludiu com a espos a à sua pequena p o ocação ina: “Neó i o, há mo e, Há.” (276). A segunda pa e des e diálogo deco e em casa de Reis, já depois de e em a is ado e con e sado com o agen e Vic o da polícia polí ica e após algumas pequenas p o ocações sob e a ida de Reis à sede da Polícia de Vigilância e De esa do Es ado e uma no a eclamação de Pessoa do seu es a u o de não an asma, apenas mo o, e lemb ando es e que esc e e a uns e sos sob e Salaza . Es á lançado o p e ex o pa a que se ap esen e a análise da si uação polí ica, que começa com a espos a à pe gun a de Reis, quem é Salaza : É o di ado po uguês, o p o ec o , o pai, o p o esso , o pode manso, um qua o de sac is ão, um qua o de sibila, um qua o de Sebas ião, um qua o de Sidónio, o mais ap op iado possí el aos nossos hábi os e índole (278) Con apõe Reis com os a igos elogiosos publicados na imp ensa es angei a, mas, pa a Pessoa, “(...) são a igos encomendados pela p opaganda, pagos com o dinhei o do con ibuin e, lemb o-me de ou i dize (...)” (278-279). Es e é o momen o ideal pa a um no o ajus a de posições das pe sonagens, des a ez sob e o c édi o que a imp ensa me ece. Reis ai busca os jo nais pois o seu companhei o de se ão deseja sabe as úl imas no ícias. O que se segue é a lei u a, neu a em ap eciação, mas não na escolha dos a igos lidos, de Reis e os comen á ios de Pessoa. E se neles, comen á ios, essoa po ezes a oz des e singula mo o, seja no om jocoso ou na i onia semp e p esen e, sob e ela es á a do au o e a da sua isão do mundo. O a i ma -se que em odo o comen á io da si uação polí ica se ou e apenas a oz de Sa amago, é na u almen e, 137 Ribei o, 1994: 244. 101 p ecipi ado. Mui os ex os há de Pessoa que não es ão a g ande dis ância das posições que oma sob e a si uação polí ica do país. Como exemplo, pode-se ci a , da edição de José Ba e o de ex os de Fe nando Pessoa, Sob e o Fascismo, a Di adu a Mili a e Salaza , a que Sa amago não e e acesso an es da esc i a de O Ano da Mo e de Rica do Reis: O P o . Salaza é mui o mais in eligen e e mui o mais cul o, ainda que a sua in eligência seja monocó dica e a sua cul u a unila e al. Tem uma in eligência do ipo cien í ico, mas sem se cép ica; em uma cul u a do ipo humanís ico, mas sem se li e á ia. Is o lhe dá aquela unidade psíquica de onde esul a a sua o midá el disciplina e ene gia; is o, ao mesmo empo, o desumaniza. 138 Os emas abo dados cen a -se-ão na elação en e o pode polí ico e a eligião e, p incipalmen e, pa a o ap o ei amen o da segunda que o p imei o az. O que lemos (ou imos) é o om neu o, po en u a monocó dico, da lei u a que Reis az dos jo nais, ele é a ligação de Pessoa ao mundo, mas a sua a i ude de anseun e alheado do que o odeia em g ande pa e da na a i a á-lo necessi a daquela oz in e p e a i a que Pessoa possui, as mais das ezes dominada pelo om i ónico do na ado , oz essa que é ambém o guia do lei o pelo con u bado ano de 1936, ajudando-o a desco ina as dissonâncias la en es no discu so o icial di undido pelos media, como explica Te esa C is ina Ce dei a: Se Reis é um me o lei o - ep odu o das no ícias do jo nal às quais o seu in e locu o não em mais acesso po e pe dido a capacidade de le , dado ulc al pa a a as á-lo da pala a que lhe se ia de pon e pa a pa icipa no mundo dos homens, Pessoa in e ém a a és de comen á ios c í icos que desnudam as incoe ências eiculadas pela on e in o mado a. 139 138 Ba e o, 2015: 233. 139 Ce dei a, 1989: 116. 102 Es e encon o e mina com mais uma no a capacidade pessoana azida pela sua condição de mo o, a do a icínio: En ão cá ou, a é um dia des es, e ob igado pela sua paciência, o mundo ainda es á pio do que quando o deixei, e essa Espanha, de ce eza, acaba em gue a ci il, Acha, Se os bons p o e as são os que já mo e am, pelo menos essa condição es á do meu lado, (283) A compa ação ób ia des a ap idão pessoana az-se com o Adamas o camoniano, an es apoucado pelos seus di ina ó ios dons de um u u o já conhecido. Se o gigan e da epopeia p essagia nau ágios já acon ecidos no empo da esc i a, Pessoa, pa a além des a p edição, ainda a á uma ou a, como se e á mais à en e, sob e as pala as de Miguel de Unamuno di as ao gene al anquis a Millán-As ay, no con on o en e ambos na Uni e sidade de Salamanca, a 12 de Ou ub o de 1936, já o a do empo da na a i a de O Ano da Mo e de Rica do Reis. Os p óximos encon os en e Reis e Pessoa ol a ão a e luga na casa do Al o de San a Ca a ina. O p imei o diálogo (329-334), depois de uma de i ação pela p og essi a incapacidade de o ien ação de Pessoa e de algumas suas pala as esca ninhas sob e a igilância a que pa ece subme ido Reis po pa e da polícia polí ica, espei a, momen aneamen e, à sua poesia e a um mani es o esgo amen o emá ico de que pa ece so e : Rica do Reis pegou na olha de papel em que es i e a a esc e e , Tenho aqui uns e sos, não sei no que is o i á da , Leia lá, É apenas o p incípio, ou pode se que enha a começa dou a manei a, Leia, Nós não emos as pa cas acaba em-nos, po isso as esqueçamos como se não hou essem, É boni o, mas ocê já o inha di o mil ezes de mil ou as manei as, que eu me lemb e, an es de pa i pa a o B asil, o ópico não lhe modi icou o es o, Não enho mais nada pa a dize , não sou como ocê, Há-de i a se , não se p eocupe, (331-332) 103 Fica a dú ida inal, se o «há-de i a se » é e e ência ao que Reis pode á e pa a dize ou se, não mais do que isso, se i á pa a que se não esqueça que a mo e do seu c iado de e mina i emedia elmen e o seu im, que es es meses de que usu ui não são mais do que uma dádi a que ajuda a jus i ica a p esença des e mo o na na a i a. Na pa e inal do diálogo, An ónio Fe o, ao empo di ec o do Sec e a iado de P opaganda Nacional e an igo amigo de Pessoa, é o isado, a p opósi o das lauda ó ias e e ências que az de Salaza . Pensa Reis, quando Pessoa lhe ba eu à po a (páginas 358 a 362), que ele “não apa ece semp e que é p eciso, mas es a a a se p eciso quando apa ece, a alguém” (358). A ausência inha sido g ande, Pessoa pe de-se acilmen e e o que lhe ale é consegui encon a ainda a es á ua de Camões, e depois de a con e sa con inua com ou as es á uas, as que ão sendo, em ac o de censu a, e i adas da A enida da Libe dade, com ên ase especial pa a a ep esen ação de um discóbolo, “aquele apazinho nu, a ingi de g ego” (359), o que le a Pessoa a pe gun a se “os po ugueses não e ão começado a enlouquece de aga inho,” (360). Reis anuncia que ai se pai. A dú ida que le an a Pessoa sob e quem se á a mãe se e pa a ap esen a um Reis pe ei amen e enquad ado com os alo es da sociedade em que, po ou o lado, pa ece não que e cabe : de Ma cenda só pode ia e ilho se com ela casasse, já com Lídia, c iada de ho el, não cabe al impedimen o, “uma c iada não em complicações” (360), i oniza Pessoa. As éplicas que dá a Reis não são do ag ado des e que ê a sua a i ude como mo alis a, conse ado a, e Pessoa conco da, pois “um mo o é, po de inição, ul aconse ado , não supo a al e ações da o dem” (360), numa mos a de incong uência, com o di o algumas ezes an es, apenas acessí el a um mo o. A des esponsabilização de Reis de oda a u ela da c iança, decidida po Lídia, é um p imei o passo pa a o encaminha de Reis no encalço de Pessoa, passados os no e meses que lhe o am concedidos e o úl imo encon o de ambos an es da ida inal pa a os P aze es augu a es e des echo, a inal anunciado desde o í ulo. É no cemi é io que se encon am (páginas 383 e 384) e al ad ém da necessidade de Reis pe cebe como um in elec ual de enso da segunda epública espanhola, Miguel de Unamuno, ei o da Uni e sidade de Salamanca, se bandeia com as hos es ascis as naqueles p imei os 104 empos da gue a ci il em Espanha, chegando ao limi e de suge i , limina men e, ao p esiden e da República o seu suicídio: um ce o homem, amado e espei ado po alguns de nós, e digo já o seu nome pa a os poupa ao es o ço da adi inhação, esse homem, que se chamou Miguel de Unamuno e e a en ão ei o da Uni e sidade de Salamanca, não um apazinho da nossa idade, ca o ze, quinze anos, mas um ene á el elho, sep uagená io, de longa exis ência e longa ob a, au o de li os ão celeb ados como Del sen imien o ágico de la ida, La agonia del c is ianismo, En o no al cas icismo, La dignidad humana, e an os ou os que me dispensa ão de dize , esse homem, a ol de in eligência, logo nos p imei os dias da gue a, deu a sua adesão à Jun a Go e na i a de Bu gos, exclamando, Sal emos a ci ilização ociden al, aqui me endes, homens de Espanha, es es homens de Espanha e am os mili a es e ol osos e os mou os de Ma ocos, e deu cinco mil pese as do seu bolso a a o do que já en ão e a chamado exé ci o nacionalis a espanhol, não me lemb ando eu dos p eços da época não sei quan os ca uchos se podiam comp a com cinco mil pese as, e come eu a c ueldade mo al de ecomenda ao p esiden e Azaña que se suicidasse (378) Es e exce o é pa e de um discu so de es u u a semelhan e ao do Velho do Res elo n’Os Lusíadas, já en ado an es em Memo ial do Con en o. Há uma passagem nes e omance, quando à o ça se aziam os homens pa a a cons ução do con en o em Ma a, que, pa a aseando o inal do can o IV d’Os Lusíadas, az subi a um alado um elho com um discu so con a o pode que lhe ale a mo e: “Ó gló ia de manda , ó ã cobiça, ó ei in ame, ó pá ia sem jus iça, e endo assim clamado, eio da -lhe o quad ilhei o uma cace ada na cabeça, que ali mesmo o deixou po mo o.” 140 Há ozes que es ão na cabeça de Reis e são de homens que em c ianças e jo ens ade i am à Mocidade Po uguesa, ozes que nos chegam da con empo aneidade do au o , pala as p o e idas cinquen a anos depois de Rica do Reis as ou i . Es a anac ónica solução é esul ado da necessidade que o au o em de julga o in elec ual 140 Sa amago, 1982: 293. 105 espanhol, de expo o seu caso, um pouco ao jei o do modelo do ea o épico b ech iano. Se es a p imei a impossibilidade, a de conhece as e lexões daqueles homens a egimen ados pa a a o ganização ju enil salaza is a (as pala as de Unamuno, no en an o, são e osímeis no empo deco en e da na a i a) é des e modo solucionada po Sa amago, há um ou o momen o, como an es e e i, que o au o que da a conhece , o do en en amen o en e Unamuno e Millán-As ay. Como esol ê-lo? Reis ou iu as pala as, sopesou-as, mas es á impossibili ado de ou i o que e á sido di o. As anac ónicas ozes que ou e sabem-no, oda ia, conhecem ambém a e eme idade de Reis: de Miguel de Unamuno, que nós admi á amos, ninguém ousa ala , é como uma e ida e gonhosa que se apa, dele só se gua da am pa a edi icação da pos e idade aquelas pala as quase de adei as suas com que espondeu ao gene al Milan d'As ay, o al que g i ou na mesma cidade de Salamanca, Vi a la mue e, o senho dou o Rica do Reis não chegou a sabe que pala as o am essas, paciência, a ida não pode chega a udo, a sua não chegou a an o, (378- 379) Quem oma a inicia i a do encon o é Reis, que se desloca ao cemi é io pa a ala com Pessoa. Sabe o que Unamuno disse a Millán-As ay é impe ioso. A espos a de Pessoa em como hipó ese que a pe sonagem coloca que co esponde à e são habi ualmen e acei e pa a o episódio: o seu ei o de Salamanca esponde á assim há ci cuns âncias em que cala -se é men i acabo de ou i um g i o mó bido e des i uído de sen ido i a a mo e es e pa adoxo bá ba o epugna-me o gene al Milan d'As ay é um aleijado não há desco esia nis o Ce an es ambém o e a in elizmen e há hoje em Espanha demasiados aleijados so o ao pensa que o gene al Milan d'As ay pode ia ixa as bases duma psicologia de massa um aleijado que não enha a g andeza espi i ual de Ce an es p ocu a habi ualmen e encon a consolo nas mu ilações que pode aze so e aos ou os, (384) 112 oda a his ó ia.” (23). A ci ação epe e-se, mas po mé i o p óp io pois p essupõe o que é a lo ado nas pala as de Bo ges, ace ca de The God o he Laby in h, o lei o é mais pe spicaz que o de ec i e e encon a á a solução e dadei a. Ou, dizendo de ou o modo: “É só o lei o que pode comple a a lei u a, em odos os sen idos, do li o e da ealidade, deixada incomple a po Rica do Reis. Des e modo, Ano ap oxima-se da ideia bo gesiana de um li o in ini o, igualmen e exp essa em «El ja dín de sende os que se bi u can»: «No conje u é ou o p ocedimen o que el de un olumen cíclico, ci cula . Un olumen cuya úl ima página ue a idén ica a la p ime a, con posibilidad de con inua inde inidamen e.»” 143 No im da lei u a do omance, nes a e a que espe a após a pa ida de Pessoa e de Reis, mais do que o enigma de que Reis que ali ia o mundo ao le a consigo The God o he Laby in h, mais do que a e igua da possibilidade do Adamas o se capaz de, inalmen e, libe a o g ande g i o com que o pe i ica am na es á ua que pon ua o Al o de San a Ca a ina, apesa da impo ância da ques ão au o al, do p oclamado domínio do au o sob e a sua ob a e do papel apa en emen e secundá io a que eme e as suas pe sonagens, o que subsis e é ou a pe gun a que ainda não oi ei a e que, ao sê-lo, pode pô em causa mui o do an es a gumen ado, ou apenas pe mi i ao lei o pe spicaz a busca de uma ou a solução: não de e ia o í ulo des e abalho se cons uído em o dem in e sa, mas não an i é ica: não pode íamos e no luga de Pessoa no labi in o de Sa amago, uma ou a lei u a, a que apon asse pa a Sa amago no labi in o de Pessoa? 143 G ossegesse, 2003: 120. 113 BIBLIOGRAFIA AAVV. 1985. 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