Full text
Tele abalho em empos de Pandemia:
Ressocialização ou Deg adação do P ocesso e Signi icado do
T abalho?
Um Caso de Es udo em duas Emp esas Mul inacionais em
Po ugal
Ma iana Ma ins Co eia
Disse ação pa a a ob enção de G au de Mes e em
An opologia, á ea de especialização em Cul u as Visuais
O ien ado : P o esso Dou o João Leal
No emb o de 2021
Ag adecimen os
An es de udo, gos a ia de ag adece a odos os memb os da Vi ac ess e da Logoplas e
que acei a am pa icipa nas en e is as p opos as e o na am es e abalho possí el. Fico
g a a pela simpa ia com que me acolhe am e me con ex ualiza am sob e as suas idas e
dinâmicas p o issionais e pessoais, apesa de odas as ba ei as que impedi am um
abalho de campo mais p esencial.
Ag adece ao P o esso João Leal que me em acompanhado desde o inal da minha
Licencia u a em His ó ia da A e e que, mais uma ez, ol ou a e uma p esença con ínua
no meu abalho. Um g ande ob igado po oda a pa ilha, paciência e en eajuda.
Aos meus pais e à minha i mã, que semp e me apoia am ao longo des a a en u a. E, po
úl imo, deixo aqui a minha eno me g a idão ao Hugo que, apesa de es a longe, conseguiu
se semp e o meu po o de ab igo.
A odos, um g ande ab aço.
Resumo
Es e abalho p e ende obse a a implemen ação do ele abalho enquan o medida
de segu ança ob iga ó ia du an e os á ios pe íodos de con inamen o em 2020 e 2021,
pa indo do caso de es udo de duas emp esas mul inacionais po uguesas, a Vi ac ess e a
Logoplas e, assen e num as o conjun o de en e is as ealizadas ia Teams. P e ende
pe cebe quais as in enções, opiniões, mudanças e i ências espe adas, daqui pa a a
en e, na expe iência do abalho subme ido a es e egime à dis ância. Mais
conc e amen e, es e es udo p e ende complexi ica as p o ecias de que a pandemia eio
aze uma ‘no a ealidade’ labo al e social, en ando pe cebe se a c escen e
implemen ação do ele abalho em empos de pandemia em, de ac o, p omo ido uma
‘ essocialização’ ou uma ‘deg adação’ do p ocesso e signi icado do abalho.
Pala as-Cha e: Tele abalho; C ise; Co id-19; Mul inacionais; Ressocialização;
Deg adação
Abs ac
This wo k aims o obse e he implemen a ion o elewo k as a manda o y secu i y
measu e du ing he a ious pe iods o con inemen in 2020 and 2021, aking as example
he case s udy o wo Po uguese mul ina ional companies, Vi ac ess and Logoplas e,
based on a wide ange o in e iews ca ied ou ia Teams. I in ends o unde s and he
in en ions, opinions, changes and expec ed expe iences, om now on, in he expe ience
o wo k submi ed o his dis ance egime. Mo e speci ically, his s udy in ends o
complexi y he p ophecies ha he pandemic has b ough a 'new eali y' o wo k and
socie y, ying o unde s and whe he he inc easing implemen a ion o elewo k in imes
o pandemic has, in ac , p omo ed a ' esocializa ion' o a 'deg ada ion ' o he p ocess and
meaning o he wo k.
Keywo ds: Telewo k; C isis; Co id-19; Mul ina ionals; Resocializa ion; Deg ada ion
Símbolos
Ө - Homem
▲- Mulhe
No a: Po uma ques ão de p i acidade e con idencialidade, não se ão pa ilhados os
nomes dos en e is ados. Se á apenas iden i icado o géne o - consoan e os símbolos
acima indicados - e a ibuído um núme o. A a ibuição do núme o co esponde
me amen e à o dem em que cada en e is ado apa ece ci ado ao longo do ex o.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 1
PLANO DE TESE ......................................................................................................................... 2
I. ENQUADRAMENTO ............................................................................................................... 4
I.I Con ex o Pandémico ............................................................................................................. 4
I.II Casos de es udo ................................................................................................................... 7
I.III Me odologia ..................................................................................................................... 11
II. REVISÃO DE LITERATURA .............................................................................................. 13
II.I Te mos, de inições e mensu ação .................................................................................. 13
II.II Deslocações casa- abalho e a malha u bana ............................................................. 19
II.III Cul u a o ganizacional e a ges ão dos ele abalhado es ........................................ 20
II.IV Sociabilidades no âmbi o do ele abalho e isolamen o ............................................ 23
II.V Pe meabilidade das on ei as en e ‘casa’ e ‘ abalho’: impac o indi idual e
amilia ................................................................................................................................... 29
II.VI Es udo do ele abalho em Po ugal .......................................................................... 31
II.VII Falhas eco en es no es udo do ema e di eções u u as ....................................... 35
III. TELETRABALHO E AS ORGANIZAÇÕES ................................................................. 39
III.I. Tele abalho enquan o eme gência sani á ia ............................................................ 39
III.II. No os Regimes de Mo imen ação, de Higiene e Polí icas de Apoio ....................... 41
III.III. No os Modos e Hábi os de Comunicação ............................................................... 44
III.IV. Dinâmica en e e den o das equipas ...................................................................... 50
III.V. Repensa Modos de Supe isão e o Dilema da ‘Con iança’ ................................... 52
III.VI. Rep esen ações do abalho e do abalhado po uguês ...................................... 54
III.VII. Telemig ação, au oma ização e obo ização ......................................................... 61
IV. TELETRABALHO, CASA E A FAMÍLIA ...................................................................... 65
IV.I. Renegociações e Adap ações dos Espaços da Casa .................................................... 65
IV.II. Diluição dos Ho á ios e uma P odu i idade Ambígua ............................................ 71
IV.III. Tele abalho e o Cuida dos Filhos: C ianças e Jo ens em Con inamen o ......... 74
IV.IV. Tele abalho e Géne o ............................................................................................... 81
V. TELETRABALHO E SOCIABILIDADES ....................................................................... 88
V.I Al e ação dos pad ões de mobilidade e implicações espaciais .................................... 88
V.II Local de abalho enquan o espaço de sociabilização e a in eg ação de no os
memb os na emp esa em egime de ele abalho ............................................................... 93
V.III Relações en e colegas: “esc i ó io como pa ada de compo amen os”? ............... 97
V.IV A impo ância social das con e sas in o mais - small alk: ma e ialidade da
linguagem e a expe iência do co po ................................................................................... 102
V.V Di e en es cul u as e di e en es es a égias de espos a às medidas sani á ias em
con ex o labo al – o caso da Logoplas e. ........................................................................... 106
V.VI Tele abalho e o isolamen o social ............................................................................ 109
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 114
ANEXOS .................................................................................................................................. 118
Anexo 1 ................................................................................................................................. 118
Anexo 2 ................................................................................................................................. 139
Anexo 3 ................................................................................................................................. 152
Anexo 4 ................................................................................................................................. 170
IMAGENS ................................................................................................................................ 183
BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................... 185
NOTAS ..................................................................................................................................... 197
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Resumindo, uma das p incipais ques ões que se em colocado é se o ele abalho
é, ou não, a maio e olução no mundo labo al das úl imas décadas? Se se de e ou não
legisla o ele abalho ago a? É indispensá el legisla o quan o an es, ou é pe igoso es a
a azê-lo ago a? De que modo se ia legislado? Como se á assegu ada a igilância e
con olo no e do abalho? A p i acidade do abalhado pode á se colocada em causa?
Como é que o ele abalhado ica á p o egido em caso de aciden e du an e o pe íodo de
abalho? As despesas de in e ne , luz, água, da alimen ação du an e o ho á io labo al
ica am a ca go da emp esa ou do abalhado ? De que modo é que os pad ões de
socialização se i ão ans o ma , caso o ele abalho seja p a icado a uma maio escala?
O ele abalho é uma an agem ou uma des an agem na en a i a de conciliação en e a
ida p o issional e pessoal? De que o ma o ele abalho impac a a conjugalidade? Es as
são algumas das mui as ques ões que se êm le an ado.
I.II Casos de es udo
Pa a a p esen e ese e e-se em a enção a escolha de duas emp esas pe encen es
ao sec o p imá io, uma ez que mesmo em empos de pandemia, as suas unções -
conside adas essenciais - i e am de con inua a se assegu adas. Nesse seguimen o, oi
de maio in e esse pe cebe de que o ma a es u u a adminis a i a de cada o ganização
e suas di e sas equipas e depa amen os se eadap a am a uma no a ealidade labo al e
social. Ou o aspe o que pesou na escolha des es dois casos de es udo, Logoplas e e
Vi ac ess, p ende-se com o ac o de se a a em de emp esas indus iais, onde a adoção
do ele abalho oi desde início bas an e segmen ada e condicionada.
Segue-se uma b e e con ex ualização his ó ica des as duas mul inacionais.
Logoplas e
A Logoplas e é uma emp esa mul inacional indus ial especializada no design e
p odução de embalagens de plás ico ijo, des inados a uma ampla gama de clien es, desde
o me cado alimen a e das bebidas, a é aos cuidados pessoais, domés icos, saúde, óleos e
lub i ican es. As embalagens são concebidas a pa i de ecnologias de injeção de molde,
assim como a a és de moldagem po sop o e moldagem po ex ensão.
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Sediada em Cascais, oi undada em 1976 po Ma cel de Bo on, u o de uma
eação à Re olução de 25 de Ab il de 1974. Duas décadas an es, em 1956, Ma cel de
Bo on jun amen e com ou os dois sócios, c iou a Fáb ica de Plás icos Ti an, que se i ia
a o na numa das maio es na Península Ibé ica. Após a e olução de 74, c ia-se uma
ensão en e as en idades adminis ado as e a comissão de abalhado es, le ando a que
um ano depois a emp esa osse omada pelos abalhado es. Ob igado a abandona a
áb ica, Ma cel de Bo on pensa em o mas de ecomeça a sua ida p o issional,
decidindo apos a des a ez num modelo de áb icas de plás ico de meno es dimensões
de modo que, na e en ualidade de eben a ou a e olução no país, conseguisse eduzi
as p obabilidades de pe de odo o seu negócio.
A 23 de julho de 1976, ainda an es da undação da Logoplas e, Ma cel c ia a
sociedade Vaso e mo jun amen e com a Gelgu e. O con a o ei o es ipula a a p odução
de copos de iogu e pa a a áb ica da Gua da, com o p incipal desa io de e i a a
con aminação des es mesmo du an e o anspo e. Com a sua sala de p odução na Gua da,
Ma cel de Bo on sen e a necessidade de c ia uma ou a base em Lisboa. O nome
Logoplas e su ge de uma con e sa en e amigos, e da mis u a dos e mos g egos logos e
plas ikós. Após os copos da Yoplai , seguiu-se a p odução de ecipien es pa a á ios
p odu os da Nes lé. Ainda nes e ano, Ma cel de Bo on lança as p imei as ga a as de
plás ico des inadas a se i de ecipien e pa a água, mais conc e amen e, nes e caso, pa a
a Água do Luso, e em 1983 pa a a conco en e Vi alis (República Po uguesa 2020a).
Em 1991, Filipe de Bo on comp ou as ações do pai Ma cel e das suas duas i mãs,
o nando-se di e o execu i o da Logoplas e. A en ada de Filipe de Bo on dis inguiu-se
pelos obje i os cla os de in e nacionalização da emp esa, p ocesso es e que e e início
em 1992/1993 e que le ou a que a Logoplas e hoje em dia es eja ep esen ada em 16
países di e en es, com ce ca de 65 áb icas e 2500 abalhado es de di e en es
nacionalidades. En e esses países con am-se o B asil, Espanha, Holanda, EUA, Bélgica,
República Checa, México, Canadá, F ança, I ália, Polónia, Po ugal, Rússia, Uc ânia,
Reino Unido e Vie nam.
A emp esa oi pionei a em ope ações ab is concebidas e desenhadas em o no do
modelo " h ough he wall", o necendo embalagens plás icas "jus -in- ime" ei as nas
áb icas inse idas nas ins alações do clien e. Coca-cola, Danone, Nes lé, Gallo, Heineken,
9
Johnson&Johnson, L’o éal, Sch eibe ou a Lac ogal são alguns dos seus p incipais
clien es.
Em 2016 o G upo Ca lyle
i
en ou no capi al da Logoplas e, e ainda es e ano
a ançou na enda de 60% da emp esa ao undo de pensão OTTP (On a io Teache s’
Pension Plan).
A Logoplas e az pa e da lis a de emp esas que assina am o p oje o New Plas ics
Economy Global Commi men , coo denado pela Fundação Ellen MacA hu , e que eúne
mais de 500 o ganizações, negócios e go e nos de odo o mundo em o no de obje i os e
es a égias mais sus en á eis. P e ende c ia um no o u u o pa a as embalagens de
plás ico, aumen ando o uso de plás ico eciclá el, eu ilizá el ou compos o (Ellen
MaCa hu Founda ion 2017).
Vi ac ess
A Vi ac ess é uma mul inacional po uguesa especializada na p odução,
empaco amen o e dis ibuição de olhas baby
ii
, saladas e e as a omá icas. Tem quin as
dis ibuídas po Po ugal – em Odemi a, Almancil e Azenha do Ma -, Reino Unido,
Alemanha e Espanha, onde são p oduzidas a iadíssimas espécies de olhas baby. A
emp esa dis ingue-se pelo ac o de es a in eg ada e icalmen e, sendo esponsá el po
odos os p ocessos desde o cul i o nas quin as, apanha dos alimen os, sua la agem,
empaco amen o e a é à sua pos e io dis ibuição pela sua cadeia de clien es. Em Po ugal,
é a única emp esa do sec o que ga an e a o al as eabilidade dos seus p odu os.
A emp esa nasce em 1951, em Hampshi e, numa plan ação de 0,4 hec a es de
ag ião de água. O nome da emp esa, Vi ac ess, su ge p ecisamen e do nome em inglês
des a a iedade de ag ião, ‘wa e c ess’. Em 1981 em início a p odução de ag ião de água
em Po ugal, na quin a de Almancil. Cinco anos mais a de é c iada em Odemi a a Ibe ian
Salads Ag icul u a Lda., o nando-se num impo an e pon o de p odução não só de ag ião
de água, mas de ou as olhas baby de di e en es espécies, como é o caso da úcula e do
espina e. Mas se ia só em 2003 que a ma ca Vi ac ess e a o icialmen e lançada em
Po ugal com come cialização de p odu o la ado e p on o a consumi . Em 2008 a emp esa
é comp ada pelo g upo po uguês RAR (Vi ac ess 2021, RAR 2021).
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Os ege ais são colhidos um dia an es de se em embalados, po ezes a é no
p óp io dia. Segue-se a ase de la agem das olhas em máquinas especí icas, onde são
emo idos odos os esíduos, desde a eias, inse os ou olhas pequeninas; po im, ealiza-
se a desin eção das saladas. Pos e io men e, as saladas passam pa a uma zona de al o
isco onde já não é pe mi ida a p esença de uncioná ios, e são p ocessadas em máquinas
de seleção ó ica que analisam odos os p odu os alimen a es que passam po baixo das
suas câma as ( odas as olhas que não se enquad em nas ca ac e ís icas p é-es abelecidas
pa a cada uma das espécies ege ais são ejei adas). Po úl imo, p ocede-se ao
embalamen o e dis ibuição. A Vi ac ess enca ega-se de o nece an o clien es mais
pequenos (me cea ias, es au an es, e c.), que exigem o acompanhamen o de equipas mais
pequenas p epa adas pa a p es a um abalho mais a e o ao dia-a-dia das lojas, como de
g andes clien es ligados a cadeias de supe me cados e hipe me cados (Con inen e, Pingo
Doce, Lidl, Auchan, El Co e Inglês, Ma ks&Spence , Ca e ou , e c.)
Nas ês quin as que a Vi ac ess em em Po ugal, é impo an e e em con a que
g ande pa e da emp esa e sua massa abalhado a se ca ac e iza pela sua componen e
local, sendo po isso bas an e comum encon a um ambien e amilia , especialmen e no
cul i o e a amen o dos campos, e no chão de áb ica.
Como indicado no si e o icial da emp esa, no que oca à esponsabilidade social e
sus en abilidade, a Vi ac ess assume p o ocolos de colabo ações com á ias ins i uições
nacionais. Es a colabo ação cen a-se: na doação de p odu os des inados a cabazes sociais
e à con eção de e eições; na in eg ação de pessoas po ado as de de iciência em con ex o
de abalho; na c iação de ho as pedagógicas; no apoio a e en os de desen ol imen o
local e a p oje os de p o eção ambien al; no apoio à o mação cu icula de jo ens em
idade escola e a p oje os de in es igação.
Ambas as emp esas eagi am de o ma quase imedia a aos p imei os anúncios do
alas a do í us SARS-CoV-2 em e i ó io eu opeu, endo como p imei a e p incipal
p o idência a p o eção sani á ia dos abalhado es, o que implicou desde logo a comp a
de p odu os de higiene e p o eção ( ais como másca as e gel desin e an e), e uma
eo ganização das equipas e espe i o pessoal den o de cada emp esa, de modo a
iden i ica que a e as e unções pode iam, ou não, se desempenhadas à dis ância. As
11
medidas omadas e o p ocesso de adap ação de cada emp esa se ão abo dados, mais
de alhadamen e, ao longo do p óximo capí ulo.
I.III Me odologia
A ase p é ia da in es igação, e ainda num pe íodo de p epa ação pa a a
elabo ação da ese, oi especialmen e dedicada à e isão de li e a u a exis en e sob e o
ema do ele abalho (nos con ex os nacional e in e nacional), à lei u a das p incipais
ob as de enquad amen o eó ico an opológico e sociológico sob e o abalho - enquan o
elemen o impo an e na ep odução social – e ao acompanhamen o cons an e das no ícias
di ulgadas pelos media sob e a si uação a ual da pandemia e dos di e en es
a igos/en e is as ou comen á ios c í icos sob e os desa ios que o ele abalho e
ele abalhado es êm en en ado desde Ma ço. Du an e es e pe íodo, oi es abelecido
con ac o com os depa amen os de Recu sos Humanos e de Comunicação das duas
emp esas, com o CTO da Logoplas e, Paulo Co eia, e com o Di ec o -Ge al da Vi ac ess,
Ca los Vicen e. Es e p imei o con ac o e e po im expo a minha in enção de le a a
cabo es e es udo de caso, a e igua quais as condições pa a al e acili a pos e io es
con ac os com di e en es memb os de cada uma das di e en es equipas.
Em e mos de abalho de campo s ic o sensu, es e oi ine i a elmen e
condicionada em g ande pa e pelo deco e da si uação pandémica e pelas medidas
omadas em cada uma das emp esas e as es ições a elas associadas. Em nenhuma das
duas emp esas oi possí el ealiza abalho de campo p esencial, ou qualque ipo de
isi a, o que acaba po se uma das p incipais limi ações, ela i amen e ine i á el, des a
in es igação. De ido às medidas em igo den o da áb ica, o es udo p esencial – mesmo
que com uso de másca a e cump imen o mínimo de dis âncias – não se e elou possí el,
endo sido dado uso p e e encial a en e is as indi iduais e à ealização de ques ioná ios.
Foi ealizado um o al de 51 en e is as a colabo ado es da Logoplas e e da
Vi ac ess. Cada en e is a demo ou uma média de 30 a 45 minu os, sob o o ma o de
ideochamada ia Teams; apenas po ês ocasiões as con e sas i e am de se ei as po
chamada ele ónica, po al a de equipamen o digi al po pa e do abalhado . Todas as
en e is as o am g a adas, com o de ido consen imen o, e pos e io men e passadas a
limpo pa a um ichei o Wo d. Pa a além des a pa e de ecolha de ma e ial mais
12
quali a i o, seguiu-se a dis ibuição e p eenchimen o dos ques ioná ios a a és do Google
Fo ms (Anexo 1). Es as duas ases de ecolha de ma e ial de in es igação segui am uma
o dem di e en e, po escolha dos p óp ios: no caso da Vi ac ess, op ou-se po di ulga o
ques ioná io digi al in e namen e e, mais a de, eu iquei enca egue de en a em con ac o
com cada um dos pa icipan es pa a ma ca en ão a en e is a ia Teams; no caso da
Logoplas e, oi pa ilhada uma lis a de colabo ado es e espe i os emails, endo-se
ealizado p imei o odas as en e is as e só depois se p ocedeu à dis ibuição in e na do
ques ioná io. No p eenchimen o des es ques ioná ios digi ais pa icipou um o al de 82
pessoas das duas emp esas.
Quan o ao modelo de análise, a minha abo dagem en a segui aquilo que John
C eswell ap esen a como “Explo a o y Sequen ial Mixed Me hods” na qual “ he
esea che i s begins wi h a quali a i e esea ch phase and explo es he iews o
pa icipan s. The da a a e hen analyzed, and he in o ma ion used o build an ins umen
ha bes i s he sample unde s udy, o iden i y app op ia e ins umen s o use in he
ollow-up quan i a i e phase, o o speci y a iables ha need o go in o a ollow-up
quan i a i e s udy” (C eswell, 2014: 16).
Resumidamen e, a in es igação seguiu as seguin es e apas p incipais:
1. Pesquisa bibliog á ica de modo a ga an i um quad o c í ico da e isão de
li e a u a já ei a. Es a ecolha de in o mação e e em pa icula con a es udos
an opológicos e sociológicos, an o eó icos como c í icos, idos como ú eis pa a a
in es igação;
2. Acesso aos documen os de cada uma das emp esas e e en es a odas as medidas
e es a égias que êm sido omadas desde o início da pandemia; 3. Realização de á ias
en e is as indi iduais e de um ques ioná io;
4. Análise dos dados ecolhidos, pa indo da sua o ganização, sis ema ização,
in e p e ação c í ica;
5. Esc i a da ese, com as de idas di isões de dados em di e en es secções
indexadas e delineamen o das p incipais conclusões;
13
II. REVISÃO DE LITERATURA
O co po da seguin e e isão de li e a u a i á se o ganizado de o ma emá ica,
uma ez que de e minados ópicos e discussões são eco en es ao longo de oda a
bibliog a ia consul ada em o no do ema do ‘Tele abalho’. A es u u ação de sub ópicos
segui á de pe o a sis ema ização da li e a u a e e en e ao ema, ei a po Nicole B.
Ellison, em ‘Social Impac s: New Pe spec i es on Telewo k’, independen emen e da á ea
de conhecimen o académica ou do mé odo usado pelo espe i o in es igado . De en e as
p incipais linhas emá icas des acam-se assim: a de inição do concei o de ‘Tele abalho’
e sua mensu ação; impac os nas deslocações iá ias e na malha u bana; a cul u a
o ganizacional e a ges ão dos ele abalhado es; sociabilidades no âmbi o do ele abalho
e isolamen o; a pe meabilidade das on ei as en e ‘casa- abalho’: o impac o do
ele abalho a ní el indi idual e amilia (Ellison 1999, 339). Se á ac escen ada uma b e e
análise c í ica sob e a in es igação cien í ica ei a em Po ugal sob e o ema.
II.I Te mos, de inições e mensu ação
A al a de consenso em elação ao concei o de ‘ ele abalho’ es á p esen e an o
na sua de inição, como no momen o da sua o igem enquan o ideia abs a a. Segundo
Raymond Lemesle e Jean-Claude Ma o , a noção de ‘ abalho à dis ância’ – an as ezes
associada ao ele abalho – su ge pela p imei a ez nos inais dos anos 40, com o
apa ecimen o da ciência cibe né ica, cujo e mo oi cunhado po No be Wiene em
1948, na ob a Cybe ne ics: o he Con ol and Communica ion in he Animal and he
Machine (Se a 1996). Wiene – e ou os colabo ado es des a ob a, como é o caso dos
an opólogos G ego y Ba eson e Ma ga e Mead – pa e da p emissa de que odos os
sis emas, sejam eles sociais, biológicos ou ecnológicos, espondem de modo semelhan e
às mensagens ex e nas, sendo po isso edu í eis a modelos ma emá icos (Be na do e
Cha es 2020). Num dos seus exemplos hipo é icos, o au o ala-nos de como um a qui e o
esiden e num país eu opeu, pode ia supe isiona à dis ância a cons ução de um edi ício
nos EUA. A oca de comunicação e in o mação não ica ia assim dependen e da
deslocação ísica dos in e enien es (Se a 1996).
O ele abalho, enquan o no a de o ma de o ganização labo al, su ge só nos anos
70 nos EUA, como consequência da escassez de gás. Aliás, oi es a c ise que se iu de
14
base de es udo pa a Jack Nilles c ia e desen ol e o concei o p imei o de elecommu ing
ne wo k. No a igo cien í ico de 1976, Telecommu ing – An Al e na i e o U ban
T anspo a ion Conges ion, podemos le em om de conclusão:
“On he basis o he esea ch desc ibe abo e, we ha e concluded ha 1)
elecommunica ions can ep esen an economically a ac i e al e na i e o commu ing,
bo h o he commu e and he company; 2) ha audio bandwid h channels a e gene ally
su icien o mos elecommu ing pu poses and ha almos all o he ou ine ope a ions
o he company s udied can be pe o med using o - he-shel compu e , e minal, and
elecommunica ions echnology; and 3) ha wo ke s can pe o m wo k e ec i ely using
elecommunica ions and ha e a high mo i a ion o do so.” (Nilles e al. 1976, 84).
Aqui, o e mo oca-se essencialmen e na edução signi ica i a do empo pe dido
em deslocações iá ias pa a o abalho, possí el apenas pela exis ência e aplicação das
elecomunicações. O local de abalho é ealocado, o al ou pa cialmen e, o a das
ins alações do emp egado , pe o ou den o da casa do uncioná io (Messenge and
Gschwing 2015).
Desde início, o concei o não oi de inido de o ma cla a e indubi á el po Nilles.
De al modo que, em es udos pos e io es, o au o passa a usa elewo k, e mo mais
ab angen e e ao qual subo dina o an e io elecommu ing, p ocu ando assim inclui odos
os ipos de a i idades elacionadas com o abalho ealizadas o a das ins alações
emp egado as. Alguns au o es azem a dis inção en e es es dois e mos, enquan o ou os
os usam de o ma pe mu á el, pa indo do p essupos o que ele abalho é mais usado
pelos eu opeus e elecommu ing pelos no e-ame icanos (Ellison 1999). Es a al a de
consenso na de inição do concei o le a a que g ande pa e da li e a u a sob e es e ema
seja bas an e agmen ada (Ellison 2004).
Não sendo o ele abalho uma p á ica ‘monodi ecional’ nem ‘monodimensional’
(U ze, Ba oso and Gomes 2003, 55), o seu concei o de e á e em con a,
simul aneamen e, o seu âmbi o ecnológico, o ganizacional, con a ual e a sua geog a ia.
A a és de uma pe spe i a his ó ica da e olução in e nacional do ele abalho nas úl imas
décadas, é possí el obse a a o ma como o seu p óp io quad o concep ual oi al e ando
ao longo nos empos.
15
A e olução do ele abalho pode se di idida em ês ge ações, se i e mos em
especial a enção o impac o do desen ol imen o das Tecnologias de In o mação e
Comunicação.
As décadas de 1970s e 1980s o am icas em es udos sob e o ema, a g ande
maio ia po in es igado es no e-ame icanos, impulsionados pelo abalho pionei o de
Nilles. Como e e ido a ás, numa p imei a ase o p incipal oco de in es igação incide
na edução do empo pe dido em deslocações iá ias, – e consequen es cus os - um
assun o de maio p eocupação nas g andes á eas me opoli anas dos EUA (Messenge
and Gschwing 2015). A a ual u ilidade de mui os des es es udos acaba po ica
comp ome ida, po se em an e io es à explosão da In e ne e da in odução de TICs ainda
mais ba a as e mó eis. Mais ainda, é impo an e e em con a a limi ação sec o ial e
geog á ica de alguns des es es udos da 1ª ge ação. Os p incipais casos de es udo gi am
em o no de indús ias in o má icas da cos a oes e dos EUA, zona onde as deslocações
e am mais ca as, onde o acesso às ecnologias de comunicação e a mais ácil e os p óp ios
abalhos pe mi iam uma maio lexibilidade (Messenge and Gschwing 2015).
O ele abalho pe mi ia en ão a ealocação do local de abalho o a das ins alações
do emp egado , que osse em casa do uncioná io ou pe o des a (Messenge and
Gschwing 2015). Tal oi possí el de ido a uma de e minada conjun u a de condições: a
c ise ene gé ica, as ideias ‘localis as’ esul an es de maio de 1968, a diminuição do p eço
das TICs e sua maio u ilização den o das o ganizações, e o apa ecimen o da ‘ elemá ica’
(Ellison 1999; Se a 1996). Numa p imei a ins ância su gem os cen os sa éli es
iii
,
esc i ó ios que pe encem à emp esa emp egado a, mas que se localizam em locais
di e en es da sede, ge almen e pe o da casa dos uncioná ios. A pa i daqui o abalho
o a das ins alações emp egado as começou, len amen e, a o na -se cada ez mais
so is icado, dando o igem a no as indús ias e espalhando-se po ou os países
(Messenge and Gschwing 2015; Se a 1996).
Do ma e ial cien í ico publicado ao longo dos anos 80, são eco en es as
abo dagens an o u u ís icas (po ezes u ópicas) como como pessimis as (po ezes
dis ópicas) do ele abalho (Ellison 2004). A ob a The Thi d Wa e, de Al in To le , é o
exemplo desses desejos de mudança e ilhan es e de um u u o melho . No capí ulo ‘The
Elec onic Co age’:
16
“Today i akes an ac o cou age o sugges ha ou bigges ac o ies and o ice
owe s may, wi hin ou li e imes, s and hal emp y, educed o use as ghos ly wa ehouses
o con e ed in o li ing space. Ye his is p ecisely wha he new mode o p oduc ion
makes possible: a e u n o co age indus y on a new, highe , elec onic basis, and wi h
i a new emphasis on he home as he cen e o socie y.” (To le 1980, 210)
Pa a To le , o po encial do ele abalho ai mui o mais além da me a edução dos
cus os e do empo em deslocações. Me e em cu so uma g ande ans o mação
sociocul u al, que p omo e ia uma maio es abilidade comuni á ia, uma diminuição da
poluição ambien al, o su gimen o de no as indús ias e uma ees u u ação das dinâmicas
amilia es (Messenge and Gschwing 2015).
Dado que es a li e a u a sob e a 1ª ge ação do ele abalho é cen ada na
modalidade ‘Home O ice’, su gem es udos pa alelos o emen e c í icos em elação aos
aspe os nega i os do abalho em casa. Ci ando Nicole Ellison, “nega i e po ayals ha
exposed he mundane and o en lonely eali y o elecommu ing” (Ellison 1996, 20).
Exemplo disso é o a igo “Wo king a Home: Is I F eedom o a Li e o Flabby
Loneliness”, de E ik La son.
A ge ação do ele abalho que se segue, ‘Mobile O ice’, dis ingue-se da p imei a
essencialmen e pelo ápido desen ol imen o ecnológico. Su gem disposi i os
ele ónicos wi eless, mais le es e mais pequenos, como os lap ops, ele ones celula es e
no e-books, pe mi indo uma pale e mui o mais ampla de luga es onde o abalhado podia
exe ce sem se a sua casa, ou os cen os-sa éli e (Messenge and Gschwing 2015). A
maio mobilidade passa a se assim um elemen o cen al. Vi o io Di Ma ino e Linda
Wi h e le em bas an e cedo, em compa ação com os es udos seus con empo âneos,
sob e es e p eciso aspe o, na in odução do a igo “Telewo k: a new way o wo king and
li ing”:
“Telewo k is only en yea s old. In his sho ime i s capaci y o ed awing he
geog aphical and o ganiza ional bounda ies o he adi ional, cen alised en e p ise has
been amply demons a ed. (…) The posi i e consequences o he decen alisa ion and
inc eased wo ke au onomy and mobili y b ough abou by elewo k can be seen in highe
le els o p oduc i i y, imp o ed wo king- ime a angemen s and new employmen
23
ges ão, mais assen es no acompanhamen o e a aliação de obje i os/ a e as comp idos/as
(Ellison 1999).
Nesse seguimen o, es a ese alinha-se com a posição de Nicole Ellison, segundo a
qual o p oblema não é an o um de ‘con iança’, mas an es o ac o de o ele abalho deixa
mais e iden e a necessidade de se desen ol e no os modelos de supe isão. Mais ainda,
a impo ância dada à con iança pode ambém se analisada de um pon o de is a cul u al:
“some cul u es a e mo e sui ed o he high le els o us elecommu ing migh seem o
demand due o hei ocus on g oup alues and a ional pe o mance-based app aisals”
(Ellison 2004, 25).
Exis em di e en es posições quan o a se a implemen ação do ele abalho de e
an ecede ou p ecede a aplicação de medidas ees u u as es den o das o ganizações, de
o ma a ga an i o seu sucesso. Alguns au o es de endem que exis e uma g ande
p obabilidade de o ele abalho aumen a os sis emas de con olo aylo ianos, in ensi ica
a o inização das a e as e impo uma maio disciplina. Ou os au o es, pelo con á io,
conside am que o ele abalho se á um a o na diluição de hie a quias e descen alização
do con olo (U ze, Ba oso and Gomes 2003). Independen emen e das posições, o que é
ealmen e impo an e e em con a é que “ ega dless o he ex en o implemen a ion (…)
he e y concep o elewo k has unc ioned o make hese no ms and p ac ices mo e
e iden and has o ced o open he deba e abou manage ial p ac ice and i s eliance on
line-o -sigh supe ision.” (Ellison 1999, 343).
II.IV Sociabilidades no âmbi o do ele abalho e isolamen o
Apesa de ha e uma la ga pe cen agem da bibliog a ia que desen ol e a undo
os aspe os bené icos da adoção do ele abalho - mui as ezes sem e em con a a ase de
‘lua de mel’ expe ienciada po alguns ele abalhado es num momen o inicial - o ema do
isolamen o é ambém uma a iá el equen e ao longo da li e a u a, po ezes apon ado
como uma das causas de uma maio e icência (Ellison 1999). De ac o, êm sido
obse adas as ambiguidades e os iscos que podem ad i do ele abalho, uma ez que
es e pode le a a uma agmen ação do abalho e, consequen emen e, a uma
‘ agmen ação dos espaços de socialização g egá ia, que mui as ezes cons i uem uma
24
das p incipais on es de ene gia pessoal e da consolidação de um sen ido de p opósi o’
(Cei il 2020, 40).
O a as amen o (pa cial ou o al) do indi íduo do adicional ambien e de esc i ó io
pode-se e ela um g ande desa io, não só a ní el psicológico, mas ambém no que diz
espei o à maio ou meno acilidade em p og edi na ca ei a p o issional. No a igo “The
My h o he Ele onic Co age”, Tom Fo es e no a a al a de a enção dada p e iamen e
po Al in To le (1980) às di iculdades que pode iam ad i da ans e ência do abalho
pa a o a do esc i ó io adicional. E ci a A kinson:
“I is e y di icul - psychologically - o wo k a home. Almos wi hou excep ion,
`co age indus ialis s' and ` elecommu e s' alike epo a hos o p oblems, including lack
o mo i a ion and discipline, inabili y o o ganize wo k and manage ime e ec i ely,
loneliness, amily ensions, ea o ailu e, bu nou , s ess and hypochond ia. Essen ially,
hese p oblems s em om an inabili y o be sel -manage s. In o he wo ds, he p oblems
mos o en associa ed wi h wo king a home a e igge ed no so much by economic, legal,
o echnological ac o s as by he ailu e o hese pionee s o manage hemsel es and hei
wo k” (A kinson, 1985 apud Fo es e 1988, 8).
É ambém suge ido que os ele abalhado es possam sen i uma maio di iculdade
em p og edi na ca ei a po e em uma meno isibilidade den o da o ganização, e/ou
em ecebe aumen os ou p omoções (Ellison 1999).
Sem pe de de is a as implicações mais di e as do maio dis anciamen o ísico
ine en e à p á ica do ele abalho, é possí el enquad a es e sen imen o de isolamen o num
con ex o mais ab angen e de acele ação da indi idualização dos p ocessos de ges ão. Es e
p ocesso de indi idualização ap esen a uma dinâmica como que ci cula , uma ez que é
an o uma consequência das mudanças económicas e de ges ão, como um equisi o pa a.
Taskin e De os explicam a o ma como, den o de uma o ganização emp esa ial, es e
enómeno se mani es a essencialmen e de dois modos: 1) elemen os do con a o en e
abalhado e emp egado (salá io, p og essão da ca ei a, e c.) depende em, em la ga
medida, de ca ac e ís icas indi iduais do abalhado , e a capacidade des e alinha os seus
in e esses e obje i os com os alo es da o ganização (mo i ação, alen o, pe o mance
25
indi idual, g ande pa icipação, capacidade de au oges ão, lexibilidade, e c.); 2) cada
indi íduo passa a assumi maio esponsabilidade das sua ações e consequências, da sua
si uação p esen e e u u a (Taskin and De os 2005, U ze, Ba oso and Gomes 2003).
Ob as como Liquid Times de Zygmun Bauman explo am bem a ambiguidade e o
pa adoxo des a maio indi idualização e da diluição do pode das p incipais es u u as
socializan es. No seu capí ulo in odu ó io, Bauman apon a aquilo que conside a se as
cinco p incipais o ças modelado as do que chama de ‘Mode nidade Líquida,’ sendo uma
delas:
“The esponsibili y o esol ing he quanda ies gene a ed by exingly ola ile
and cons an ly changing ci cums ances is shi ed on o he shoulde s o indi iduals – who
a e now expec ed o be ‘ ee choose s’ and o bea in ull he consequences o hei
choices. The isks in ol ed in e e y choice may be p oduced by o ces which anscend
he comp ehension and capaci y o ac o he indi idual, bu i is he indi idual’s lo and
du y o pay hei p ice, because he e a e no au ho i a i ely endo sed ecipes which would
allow e o s o be a oided i hey we e p ope ly lea ned and du i ully ollowed, o which
could be blamed in he case o ailu e. The i ue p oclaimed o se e he indi idual’s
in e es s bes is no con o mi y o ules (which a any a e a e ew and a be ween, and
o en mu ually con adic o y) bu lexibili y” (Bauman 2007, 3-4).
Pa a além de Bauman, nas úl imas ês décadas, á ios in es igado es enomados
se dedica am a es uda a ligação en e a c escen e endência de neolibe alização do
capi alismo e um con ex o de ans o mações sociais e cul u ais mais as as (Kjae ul
2015). Em The Condi ion o Pos mode ni y, Ha ey explo a a ‘p o ound shi in he
s uc u e o elling’ que sepa a a Mode nidade da Pós-Mode nidade, e a o al acei ação
a i ma i a de qualidades como a e eme idade, descon inuidade, caos ou agmen ação
(Ha ey 1989, 65). Ul ich Beck en a demons a como a des uição das o mas de
o ganização labo al es á eis le ou ao su gimen o daquilo que chama de ‘ isk socie y’,
uma sociedade o ganizada ‘pa ologicamen e’ em espos a ao isco (Beck 1992). Na ob a
The Co osion o Cha ac e , Senne de ende como a ên ase na lexibilidade,
ca ac e ís ica des a úl ima ase do capi alismo, al e a o p óp io signi icado do abalho e
mina o p óp io sen ido de iden idade indi idual (Senne 1999). Es es são exemplos de
26
alguns au o es pa a os quais a ideia de pe da e do papel es u u al do me cado são
cen ais pa a pensa a con empo aneidade e o mundo do abalho; “a sha ed lamen o
«loss», a lamen ha ‘ he kind o economy ha could p o ide a measu e o s abili y o
some h ough a «job o li e» is no longe possible” (S angleman 2007 apud Kjae ul
2015, 7).
Apesa de não exis i consenso quan o ao ipo de elação exis en e en e a p á ica
de ele abalho e um sen imen o de maio isolamen o indi idual, social e p o issional, é
um aspe o de de e con inua a se analisado caso a caso. Is o po que se de e e em con a
a unção cen al que o adicional ambien e de esc i ó io em ido na disseminação i al
de in o mação in o mal, e enquan o espaço p opício à c iação de elações de maio ou
meno amizade – ou mesmo amilia es e omân icas, em alguns casos (Ellison 1999). Ou
seja, é impo an e obse a de que modo é que as dinâmicas sociais e de pa ilha do
conhecimen o o ganizacional se al e am com a p á ica do ele abalho, - e consoan e a
p óp ia o ma como o ele abalho é p a icado (em empo pa cial ou o al? Com mediação
de que ecnologias? Em que local é le ado a cabo?) – que es as mudanças se mani es em
sob a o ma de um maio isolamen o, ou não.
O conhecimen o o ganizacional não se adqui e unicamen e de o ma explíci a.
Exis e semp e uma componen e mais dinâmica e di ícil de codi ica , ligada a um
conhecimen o não es u u ado, que po ezes só consegue se pa ilhada de modo e icaz
po meio de uma comunicação in o mal, ambém chamada de ‘small alk’ (Coupland
2000, Ellison 2004).
Do pon o de is a académico e popula , as con e sas de ‘small alk’ são
ge almen e is as como um modo pe i é ico e con encional de dialoga , pouco sé io e
sem g ande ele ância, mui as ezes usada de modo a ‘ocupa ’ os azios do silêncio e,
po es es mo i os, de meno impo ância. Em 1923, no seu ex o “The P oblem o
Meaning in P imi i e Languages”, Malinowsky in oduz o concei o de pha ic communion
(Coupland 2000), - a base p o ó ica da ‘small alk’ enquan o modo comunica i o –
p opondo que a linguagem osse ambém en endida enquan o modo de ação, que não pode
se sepa ado do con ex o da si uação em que su ge (Sen 2009): “(…) o a na u al man
ano he ’s man silence is no a eassu ing ac o , bu on he con a y, some hing ala ming
and dage ous. (…) The b eaking o silence, he communion o wo ds is he i s ac o
es ablish links o ellowship (…) The mode n English exp ession, ‘Nice day o-day’ o
27
he Melanesian ph ase ‘Whence comes hou?’ a e needed o ge o e he s ange
unpleasan ension which men eel when acing each o he in silence. A e he i s
o mula, he e comes a low o language, pu poseless exp essions o p e e ence o
a e sion, accoun s o i ele an happenings, commen s on wha is pe ec ly ob ious (…)
The e can be no doub we ha e a new ype o linguis ic use – pha ic communion I am
emp ed o call i (…) – a ype o speech in which ies o union a e c ea ed by a me e
exchange o wo ds (…). They ul ill pha ic communion wo ds a social unc ion and ha
is hei p incipal aim (…). (…) se es o es ablish bonds o pe sonal union be ween people
b ough oge he by he me e need o ela ionship (…).” (Malinowsky 1936 apud Sen
2009, 226-227).
Num con ex o p o issional e come cial, po exemplo, as unções da ‘small alk’
de em se analisadas com uma complexidade ainda maio , sem se limi a à sua unção
elacional en e p o issionais e clien es, mas ambém ao seu uso enquan o meio de
sa is aze os obje i os ins umen ais e ansacionais da ins i uição em causa (Coupland
2000).
Segundo Coupland, es e modo de comunicação dá-se sob e udo - mas não
exclusi amen e - nas ‘bounda ies o in e ac ions, as well as he bounda ies o he wo king
day’ (Coupland 200, 43). Na u almen e, pa a uma in e ação en e indi íduos exis i , não
é necessá io que oco a ob iga o iamen e em modo p esencial. Mas, no con ex o do
ele abalho, in e essa en ão pe cebe de que modo é que as in e ações sociais mediadas
po ecnologias digi ais al e am o es abelecimen o des e ipo de laços socio-emocionais
(Ellison 2004).
Es a ques ão em sido eco en emen e colocada em es udos sob e Comunicação
Mediada po Compu ado es (CMC), desde a década de 80 e 90. As p imei íssimas
in es igações cen a am-se sob e udo na dimensão ex ual e e bal das CMC; es as
p imei as comunicações consis iam em mensagens e bais digi ais ansmi idas po edes
de compu ado es, de o ma ápida (po ezes com de asagem empo al), sem
componen es imagé icas elacionadas à apa ência ísica dos seus u ilizado es, exp essões
aciais, linguagem, mo imen o co po al, ou mesmo in o mação sono a. Es e e a um
aspe o p eocupan e, mui o mencionado nes es p imei os abalhos, de ido à impo ância
social e psicológica da comunicação não- e bal e o impac o dessa ausência na
necessidade de os indi íduos consegui em exp imi e icazmen e exp essões socio-
28
emocionais, o seu s a us social ou aços ca ac e ís icos da sua pe sonalidade. Po ém,
simul aneamen e, começa am a su gi es udos empí icos que con a ia am es a pe spe i a
mais pessimis a (Wal he 2018).
A ualmen e, a li e a u a sob e ‘comunidades i uais’ suge e que comunicações
mediadas po compu ado es – incluindo já a componen e audio isual – são capazes de
man e e ge a elacionamen os sociais. Apesa disso, Ellison essal a pa a a necessidade
de se em ei os mais es udos, de modo a comp o a se o mesmo oco e em ambien e de
abalho e num âmbi o o ganizacional, e pe cebe quais as limi ações da comunicação
mediada po compu ado es (Ellison 1999). “The ques ion o whe he echnology can
eplica e in o mal communica ion in his sense is un esol ed. Fo ins ance, gossip
adi ionally communica es aluable o ganiza ional in o ma ion, bu mos people a e
uncom o able communica ing gossip ia e-mail. Howe e , be ween wo us ed iends,
e-mail migh be used o communica e a wide ange o opics and in o ma ion. (…)
echnical solu ions alone will no wo k in he absence o necessa y s uc u al and cul u al
elemen s” (Ellison 2004, 84).
Ainda que uma pa e conside á el da pa icipação de um ele abalhado numa
o ganização seja mediada po ecnologias digi ais, é imp eciso e a i icial es abelece uma
dico omia en e espaços i uais s espaços ísicos. Pa a Hakken, exis e semp e uma
componen e i ual nas meso- elações ( elações que se mani es am ao ní el de
comunidades, egiões ou o ganizações), no sen ido em que exis em po encialmen e e nem
semp e em ação di e a en e as pessoas:
“Being mos ly posi ed and no ac ually expe ienced, meso-social ela ionships
ha e a ‘ i ual’ quali y (and did so long be o e AIT). Ra he han ha ing he olun a y
‘ eel’ o close ela ions, meso-social ela ionships seem (…) o be ‘ h us upon us. A he
same ime, i is p ecisely hese ela ions, whe he in he neighbo hood o a wo k, which
a e mos likely o be ac i a ed when people choose o ac in conce wi h o he s.” (Hakken
1999, 96).
Em Cybo gs@Cybe space: An E hnog aphe Looks a he Fu u e, Hakken analisa
di e en es es udos que isam en ende a dinâmica das comunidades no cibe espaço e que
o mas de solida iedade é que e am c iadas ( an o no ‘local’ como no ‘espaço’). Nessa
29
análise pe cebeu exis i em duas p incipais linhas de pensamen o: po um lado, os au o es
que de endiam que pa a uma comunidade unciona de o ma e icaz, êm necessa iamen e
de exis i num local ísico conc e o; po ou o lado, aqueles au o es que de endem a
possibilidade de se anscende esses discu sos mais localis as (Hakken 1999). Uma das
manei as de Hakken pensa um meio e mo en e es as duas posições, é azendo alusão à
plas icidade do concei o de ‘comunidades imaginadas’ de Benedic Ande son: “In o de
o subs an ially new communi ies o coalesce a ound CMA and CMC, hese
communi ies mus (…) be ac i ely imagined” (Hakken 1999, 128).
II.V Pe meabilidade das on ei as en e ‘casa’ e ‘ abalho’: impac o
indi idual e amilia
Nas úl imas décadas, são cada ez mais as emp esas que êm ampliado e
p omo ido ho á ios de abalho o a do pad ão adicional, a a és de di e en es a anjos
labo ais (p á ica do ele abalho ou de um egime em pa - ime são alguns exemplos).
Es a maio lexibilidade na p á ica labo al oi sendo, em g ande medida, ainda mais
e o çada pelo su gimen o das ecnologias digi ais, o que pe mi iu que mais pessoas
conseguissem desempenha a e as elacionadas com o seu abalho a pa i de casa,
especialmen e de o ma olun á ia (Duxbu y, Higgins and Mills 1992). É cla o que o
sis ema domés ico de abalho não é uma no idade, mas an es um enómeno his ó ico que
emon a às sociedades p é-indus iais, e coexis iu inclusi e com o sis ema indus ial ao
longo do século XIX, na Eu opa e nos EUA. A é meados do século XVIII, ‘a casa’
unciona a como o p incipal cen o ísico da economia, aquilo que o an opologis a
Daniel De e chamou de economy o he domus (De e apud Senne 1999, 33). Ainda
que não á se analisado a undo nes a e isão de li e a u a, é impo an e man e em men e
que as di e enças en e di e en es ou as o mas an e io es de abalho domés ico
e o
egime de ele abalho (ou ou as o mas de lex ime) de em se conside adas a en amen e
e são de maio impo ância, não se p e endendo assim aze uma co espondência en e
um e ou o (Shami and Salomon 1985).
Sal o ce as exceções, o g osso da li e a u a an e io ende a es uda o impac o do
ele abalho em con ex o amilia du an e o ho á io adicional de esc i ó io, esquecendo
po ezes o abalho ex a ealizado pa a lá dessas ho as legalmen e exigidas. Jos ell e
30
Hemlin ano am a necessidade de se ealiza em mais es udos sob e o abalho ex a
olun á io le ado a cabo em casa, uma ez pa ece se consensual en e au o es a
exis ência de uma endência pa a um aumen o da ensão en e o con ex o amilia do
ele abalhado e a sua p á ica p o issional, uma ez que as on ei as endem a se
al e adas (Jos ell and Hemlin 2018).
A o ma como os abalhado es se ajus am à diluição en e es as duas es e as e as
suas possí eis implicações a ní el indi idual e amilia , em sido al o de bas an e a enção,
especialmen e no campo da Psicologia Social ou Sociologia. Como e e ido a ás, a
indus ialização e cen alização do local de abalho êm con ibuído pa a a noção de que
‘ abalho’ e ‘casa’ pe encem a duas es e as comple amen e di e en es (Ellison 1999). De
al modo que, se obse a mos, algumas das abo dagens cien í icas eco en es sob e es e
ema eco em ao uso de eo ias de con li o ou eo ias de segmen ação. Segundo as
p imei as, a sa is ação ou sucesso numa des as es e as, implica sac i ícios ei os na ou a,
uma ez que abalho e amília encon a -se-iam em es e as sepa adas e incompa í eis,
egidas po di e en es eg as e equisi os; segundo as eo ias de segmen ação a es e a do
abalho e a es e a amilia são ambém is as como dis in as e sepa adas uma da ou a,
pe mi indo po isso a agmen ação dos di e en es pe is do abalhado (Jos ell and
Hemlin 2018, Zedeck 1987).
Es a ese p e ende e i a pe spe i as mu uamen e exclusi as, indo ao encon o da
posição eó ico-me odológica semelhan e à de Sheldon Zedeck, em Wo k, Family and
O ganiza ions: An Un apped Resea ch T iangle: “we can see ha he basic ques ions a e:
Does wo k a ec amily o does amily a ec wo k? As I con inue, I’ll be a guing ha
he key ques ion should be: how do he di e en sphe es o li e expe ience (…)
in e pene a e and mu ually e ec one ano he ?” (Zedeck 1985, 6).
T adicionalmen e, exis e uma endência pa a os indi íduos iden i ica em
di e en es luga es geog á icos com di e en es papéis ou aspe os das suas iden idades.
Quando a on ei a en e luga es se o na di usa ou mais pe meá el, é equen e a
oco ência de con li os en e solici ações, ou si uações de maio ambiguidade sob e que
pos u a assumi . Es es con li os e ambiguidades en e modos de compo amen o êm sido
bas an e es udados, no que oca aos impac os psicológicos do ele abalho a ní el dos
indi íduos, e pa ece ha e pouco consenso sob e se o ele abalho em maio i a iamen e
31
um impac o nega i o ou posi i o an o a ní el indi idual, como a ní el das dinâmicas
amilia es (Ellison 1999).
Fo a es a ‘e e na’ in e ogação, exis em ou as discussões impo an es a
menciona den o des e sub ema. Uma delas diz espei o à o ma como homens e
mulhe es podem expe iencia o ele abalho de modo di e en e, e a sua ligação com
desigualdades de géne o es u u ais p é-exis en es. As desigualdades de géne o en e
ele abalhado es êm essencialmen e que e com o modo como são dis ibuídas as
esponsabilidades e e en es aos abalhos domés icos e ao cuidado dos ilhos (ou ou os
memb os amilia es que exijam um maio acompanhamen o). T adicional e
equen emen e, es as esponsabilidades êm ecaído mais sob e as mulhe es, e a maio
le eza na passagem de unções en e o abalho e casa em sido apon ada como um
p i ilégio maio i a iamen e masculino (Ellison 1999, 2004, Coop 1997).
Um ou o aspe o de maio in e esse pa a os in es igado es em sido a o ma como
os indi íduos c iam e ec iam ansições, que uncionem como i uais simbólicos de
dema cação en e a casa e o abalho num mesmo espaço ísico. Nippe -Egg chama a
es es delineamen os de ‘bounda y wo k’, que de ine como “«p ocess h ough which we
o ganize po en ial ealm-speci ic ma e s, people, objec s, and aspec s o he sel in o
‘home’ and ‘wo k’»” (Nippe -Egg 1996 apud Ellison 1999, 347). Exemplos disso podem
se o echa do compu ado usado pa a o abalho, ou usa uma peça de oupa especí ica
de modo a que os ou os memb os da amília consigam dis ingui quando a pessoa se
encon a a abalha ou não. Pa a algumas pessoas, es es i uais de dema cação são a
o ma mais e icaz de e i a uma endência mui as ezes mencionada po
ele abalhado es: a pe ca de noção do empo e, como esul ado, um maio núme o de
ho as de abalho (Ellison 2004). Es a endência pode se sen ida como um incen i o
indi e o a um acen ua de compo amen os wo kaholics e um maio desgas e psico-
emocional. É po isso equen e que o aumen o conside á el da p odu i idade epo ada
po mui os ele abalhado es, possa i a um cus o (Duxbu y, Higgins and Mills 1992).
II.VI Es udo do ele abalho em Po ugal
A pa i da década de 90, Po ugal em en ado acompanha o desen ol imen o
das TICs e a sua c escen e acessibilidade e uso em e mos in e nacionais, mas as
32
mudanças no ecido emp esa ial po uguês endem a se apon adas como len as e
es i i as. Um dos p incipais mo i os apon ados pa a al, é o ac o de es e se
essencialmen e cons i uído po pequenas e médias emp esas (PMEs), la gamen e
associadas a emp esas com um pe il mais clássico, bu oc á ico e hie á quico (Assunção,
Paulos and U ze 2008). É nos inais des a década que o ele abalho começa ambém a
se len amen e implemen ado em Po ugal, especialmen e no sec o dos se iços e
a i idades elacionadas com a In o má ica e TICs (Ba oso 2005). Con udo, se
analisa mos es udos mais ecen es, obse amos que, na úl ima década, a p á ica do
ele abalho em Po ugal aumen ou conside a elmen e. Segundo um ela ó io ecen e da
Eu o ound, - Telewo kabili y and he COVID-19 c isis: a new digi al di ide? – Po ugal
oi um dos países que, desde 2009, expe ienciou um maio c escimen o na p á ica de
ele abalho; a é há da a de 2019, an es da pandemia Co id-19, Po ugal já se encon a a
ligei amen e acima da média dos 27 países eu opeus (Sos e o e al. 2020).
Numa ase inicial, p oje os nacionais como o PORCIDE
i
(1997-2000),
CONFRATA
ii
(1999-2000) ou VICTORI@ (2000-2001), i e am uma impo an e
unção impulsionado a na p omoção e implemen ação expe imen al do ele abalho,
assim como a in eg ação no me cado de abalho de g upos ma ginalizados e
des a o ecidos. No que oca aos es udos de in es igação ei os em Po ugal, es es
p ocu am ca ac e iza a implemen ação e a p á ica eduzida do ele abalho no país, o seu
enquad amen o ju ídico, explo a as a i udes e ep esen ações dos ele abalhado es
(Melo 2011) e/ou iden i ica a o es de disseminação e possí eis endências u u as
(Assunção, Paulos and U ze 2008; Ba oso 2005, San ana and Rocha 2002).
Um dos p imei os es udos e p oje os em Po ugal oi desen ol ido pela Funde ec,
en e 1997 e 1998. Consis ia num p oje o de ação p á ica, que p ocu ou p omo e o
ele abalho a ní el egional, abalhando assim com um g upo de jo ens associados à
JADRC
iii
. A pa dos ciclos de con e ências ealizados, es e p oje o incluiu a c iação de
um cen o de ele abalho e um helpdesk egional. Dois anos depois, em 2000, a Funda ec
publica o es udo O Tele abalho em Po ugal, que conclui que o ele abalho em sido
aplicado em Po ugal de o ma in o mal, não-es u u ada e apenas em casos pon uais e
em sec o es es i os (á ea da in o má ica e come cial); apon a como p incipal ba ei a a
p óp ia esis ência dos ges o es, de ido à di iculdade mani es ada em con ola e
supe isiona os ele abalhado es. Ou o aspe o impo an e mencionado nes e es udo, é
a posição ‘cons u i a’ dos sindica os ace ao ele abalho, sendo que a p incipal
39
III. TELETRABALHO E AS ORGANIZAÇÕES
III.I. Tele abalho enquan o eme gência sani á ia
A implemen ação do ele abalho na Logoplas e e na Vi ac ess em con ex o de
pandemia oi um p ocesso semelhan e ao oco ido em mui as ou as emp esas, a ní el
nacional e in e nacional, no que oca à o ma como e e de se epen inamen e pos o em
p á ica, pa a que se conseguisse ga an i a segu ança sani á ia dos seus abalhado es, mas
ambém um ní el de a i idade mínima necessá ia pa a ga an i o no mal uncionamen o
da p odução. Es a u gen e imp o isação e elou a inexis ência de planeamen os p é ios
na e en ualidade da oco ência de ca ás o es do gêne o, indo ao encon o das conclusões
ob idas pelo ecen e es udo Telewo king in he Con ex o he Co id-19 C isis, de
Belzunegui-E aso e E o-Ga cés.
As expe iências de ele abalho ela adas ao longo do abalho de campo de em,
po isso, se en endidas num con ex o ex ao diná io de medidas de eme gência sani á ias
impos as pelo go e no po uguês, e não como expe iências ‘ ípicas’ de ele abalho al
como é p e is o na lei e na p óp ia de inição base do concei o.
▲1, Logoplas e: “Acho que de ia se epensado [o ele abalho], mas acho
que ninguém ez isso. Acho que de e íamos de epensa mui a coisa, mas
acho que es amos odos naquele pa ama em que es amos à espe a de que
is o passe, is o é p o isó io ainda (…) Lá es á, eu nes e momen o ambém
enho a sensação de que nós es amos odos p eocupados em anda com is o
pa a a en e e não mo e pelo caminho. E essas p eocupações já não são
uma ques ão de sob e i ência, são mais uma ques ão de de alhes.”
Ambas as emp esas ap esen am uma o ganização es u u al de base ab il o que,
desde logo, condicionou la gamen e a adoção do ele abalho po pa e de odos os
colabo ado es. Ce as unções-cha e, como a ope ação de máquina ou o abalho nos
campos de cul i o, exigem um egime p esencial que, de modo algum, pode se
assegu ado à dis ância, es ando delas dependen e odo o no mal uncionamen o da
o ganização. Po sua ez, as ‘ unções de esc i ó io’, ligadas a oda a es u u a de apoio
(Recu sos Humanos, Depa amen o de Vendas, Depa amen o de Comunicação e
40
Ma ke ing, e c.) à ope ação ab il, e ela am-se mani es amen e mais lexí eis e
adap á eis a um egime de abalho a pa i de casa.
Não obs an e ha e , desde ma ço de 2020, di e izes ge ais indas das che ias de
opo, a o ma como a adap ação ao egime à dis ância – mais especi icamen e, a pa i do
domicílio de cada abalhado - oi ei a de o ma cole i a dependeu, em la ga medida,
do modo de como cada depa amen o e suas che ias, pe ceciona am e lida am com es e
‘no o’ egime.
Em ce a medida, es e desempenha das unções labo ais o a das ins alações
emp egado as não oi uma p á ica no a pa a mui os dos colabo ado es, especialmen e
pa a aqueles com unções mais adminis a i as. Nas úl imas décadas, o sucessi o
desen ol imen o das ecnologias digi ais al e ou as noções de Tempo e de Espaço,
pe mi indo uma maio lexibilidade dos ho á ios e dos locais de abalho adicionais
(Duxbu y, Higgins and Mills 1992). Com um lap op ou elemó el, o abalhado pode
inclusi e abalha olun a iamen e em qualque luga , e essa lexibilidade e diluição de
on ei as é p ecisamen e mencionada po mui os abalhado es da Vi ac ess e da
Logoplas e, quando ques ionados se já es a am, ou não, habi uados a abalha o a da
emp esa. A pa disso, pa ece cla o que es a mesma lexibilidade acili ou bas an e a
adap ação ao egime de ele abalho ob iga ó io, po o ça da pandemia.
▲.2, Vi ac ess: “O que o meu che e me diz é que o meu abalho em sido
o mesmo, enho mos ado a mesma e iciência, po isso pa a mim não exis e
esse p oblema. Eu já abalha a em casa ao sábado e ao domingo. Há
mui os anos que nós abalhamos semp e ao im-de-semana, e abalhamos
em casa.”
ϴ.1, Logoplas e: “G ande pa e dos colegas aqui do esc i ó io cen al
iajam em abalho. En ão, bem ou mal, es amos odos p epa ados pa a um
ele abalho. A gen e abalha de um ae opo o, de áb icas, de casa às
ezes. (…) eu acho que não ha ia um plano B. O plano B oco eu po que
a maio ia das pessoas aqui abalham em deslocação, o que acili a as
coisas.”
41
III.II. No os Regimes de Mo imen ação, de Higiene e Polí icas de
Apoio
A es u u a ísica dos edi ícios das emp esas oi, desde logo, um dos p incipais
a o es que condicionou o ipo de medidas a oma pa a ga an i o dis anciamen o ísico
mínimo en e os uncioná ios. Os espaços de esc i ó io da Vi ac ess e da Logoplas e –
com exceção daqueles des inados aos elemen os adminis a i os - ap esen am uma
es u u a em open space, pa ilhada po di e en es equipas e depa amen os, aumen ando
assim a po encial exposição ao í us. Po essa azão, oi indispensá el pe cebe que
unções podiam se desempenhadas a pa i de casa, quem ica ia ou não a abalha na
emp esa e que eg as se ia p eciso impo a esses abalhado es.
No caso da Logoplas e, assim que alguns países eu opeus começa am a en a em
lockdown, oi c iada pelos memb os do ní el de opo a «Co id Task Fo ce», que desde
logo de iniu as eg as de segu ança e de higiene ge ais, que de e iam se aplicadas no
con ex o de cada áb ica, nos di e en es países. A aplicação e con olo das mesmas
oco eu de uma o ma mais localizada, is o é, coube a cada plan manage e ges o de
equipa es ipula a melho manei a de ge i a sua equipa, sabe aquilo que os seus
abalhado es p ecisam e a que es a égias espondem melho . Em Cascais, onde se
encon a a sede da emp esa, o Ilab
xi
e as o icinas LogoMould
xii
o am os depa amen os
que man i e am semp e alguns uncioná ios p esenciais, mesmo du an e os pe íodos de
con inamen o, de modo a ga an i a con inuidade da p odução. O mesmo acon eceu nas
suas áb icas espalhadas pelo país e no es angei o, onde o am desen ol idas ações de
o mação e sensibilização.
Na Vi ac ess, o am os Recu sos Humanos que assumi am a maio
esponsabilidade de coo denação da pandemia, no que oca à implemen ação de medidas
de higiene e segu ança, à sua mono o ização, ao acompanhamen o de casos suspei os e
ao es abelecimen o de pon es com os se iços médicos. Nas áb icas e nos campos, os
abalhado es man i e am o seu egime p esencial, endo sido essencialmen e o pessoal
do esc i ó io que conseguiu adap a as suas unções a um egime de ele abalho.
Em ambos os casos, é impo an e menciona que, po o ça das ci cuns âncias
a uais, não hou e uma aje ó ia linea . Quem es a a e quan os es a am em cada uma das
emp esas, oi algo que dependeu semp e da si uação pandémica i ida a ní el nacional e
egional, e os iscos ap esen ados em cada momen o. Pe íodos de descon inamen o o am,
42
quase semp e, acompanhados de um eg esso pa cial dos uncioná ios às ins alações
emp egado as, de aco do com as co as p é-es abelecidas e com a u gência das unções,
c iando-se assim uma espécie de sis ema p esencial o a i o – o que não signi ica que
odos enham ido a opo unidade de e o na à emp esa.
▲.3, Vi ac ess: “Começámos em inal de ma ço do ano passado. Po que
após o p imei o con inamen o, passámos uma semana nos esc i ó ios pa a
agiliza a si uação e e oda a equipa em casa. Depois quando oi o
descon inamen o, em maio, eg essámos ao esc i ó io, mas de uma o ma
aseada, ou seja, eu iz um mapa onde, dos qua o elemen os da equipa,
es á amos 15 dias em casa, depois 15 dias no esc i ó io. E depois, mais
pa a a en e, po ol a de se emb o, chegou a es a só uma pessoa po
semana no esc i ó io. Is o no meu depa amen o. Foi indo de aco do com a
e olução da pandemia. Ou seja, ele abalho iz desde o o al a é ao pa cial
(…). Mas depois, de aco do com cada depa amen o, ambém omos
ecebendo indicações di e en es.”
Foi p ecisamen e nes es pe íodos de descon inamen o egional e de e o no pa cial
à emp esa, que mais se ize am sen i as no as eg as, especialmen e nos espaços comuns
como nas casas de banho, pon os de ca é ou e ei ó io. Na sede da Logoplas e em Cascais,
es a si uação oi pa icula men e no ó ia e eco en emen e mencionada pelos
en e is ados: o am colocadas se as no chão pa a es ipula as o ien ações dos pe cu sos,
de modo a e i a que as pessoas se c uzassem; jun o das casas de banho passou a se
pe mi ida a p esença de uma só pessoa, e oi colocado um sinal luminoso que indica se
es a es á disponí el (luz e de) ou não (luz e melha); os ajun amen os pe o dos pon os
de ca é o am p oibidos; assim como o am c iados di e en es u nos de ho a de almoço,
de modo a e i a ilas de espe a pa a a can ina e ga an i o dis anciamen o ísico mínimo
en e as pessoas du an e a e eição. Apesa de pe cebe em a sua necessidade, alguns
en e is ados exp imi am o es o o que algumas des as eg as aziam no no mal lui da
dinâmica den o da emp esa.
43
▲.4, Logoplas e: “E es a ques ão dos co edo es, ens de da quase a ol a
ao edi ício pa a chega es onde que es, não podes encu a po que se e
c uzas com a pessoa em ques ão que es á a oma con a dis o, é logo um
puxão de o elhas. Sin o-me um bocado i esponsá el, pa ece que es amos
a chama a a enção de c ianças. Às ezes o que me dá on ade de dize é
«a gen e es e e aqui dois meses e meio e nós não i emos qualque ipo de
p oblema. Nós conseguimo-nos con ola sem e aqui uma pessoa a ás de
nós como se nós ossemos c iancinhas”.
À aquisição de ma e ial de higiene e segu ança, jun ou-se ambém a necessidade
de comp a e/ou emp es a ma e ial que pe mi isse o abalho à dis ância pa a aqueles que
não eg essa am pa cial ou o almen e à emp esa. Os ec ãs, o es de compu ado e as
cadei as de esc i ó io o am le adas pa a casa de cada uncioná io, semp e que
necessá io. Na Logoplas e, po exemplo, a emp esa p ocedeu à comp a de po á eis pa a
odos os emp egados, coisa que an es não e a polí ica: a é en ão, apenas os plan
manage s e elemen os com ca gos adminis a i os inham di ei o a es a benesse.
Os subsídios de alimen ação e de anspo e man i e am-se na Vi ac ess (exce o
o úl imo, nos casos em que o uncioná io icou em ele abalho). Na Logoplas e o am
c iados, no caso dos subsídios de alimen ação apenas, pa a aqueles em ele abalho -
dispondo de can ina, em condições no mais a e eição é o e ecida pela emp esa – e planos
de apoio inancei o aos amilia es dos abalhado es em si uação p ecá ia.
Ө.2, Logoplas e: “Den o do ag egado amilia olhámos pa a odas as
si uações dos memb os. Po que den o dos ag egados amilia es das
pessoas que abalham na Logoplas e, e e mui a gen e a e ada
inancei amen e pela c ise. Não se esqueça que na al u a, em ma ço/ab il,
(…), quando de epen e is o echa comple amen e, há mui a gen e que
con inua em layo a ecebe o denado, ou os ão pa a o desemp ego, mas
mesmo quem es á em layo passou a ecebe 66% do seu o denado.
Imagine uma pessoa que ganhe 1200 eu os po mês, líquidos, de epen e
começa a ecebe 750/800... esse di e encial é b u al em e mos das
necessidades básicas de uma amília.”
44
Sem a gumen a que enha sido a explicação ou causa des es apoios e a enção
ac escida, é impo an e menciona a si uação inancei a da Logoplas e, nes e con ex o
especí ico de pandemia. Em ambas as emp esas as despesas idas em ma e ial de higiene
e segu ança oi al íssimo. No ano de 2020, po exemplo, a Vi ac ess e e gas os na o dem
das cen enas de milha es. Con udo, no que diz espei o ao me cado de endas, a
Logoplas e so eu um aumen o mui o signi ica i o na p ocu a de embalagens de plás ico
pa a p odu os de higiene e limpeza desde que a pandemia começou, o que a ez e um
dos melho es anos de semp e em ecei as ge adas. Po sua ez, no caso da Vi ac ess, ainda
que se enha sen ido um aumen o azoá el (na o dem dos 5%) no canal de endas a e alho
e nas g andes supe ícies como a Sonae, Pingo Doce, en e ou as, hou e uma queda
b u al no canal das endas pa a es au ação e ho ela ia (ce ca de 40%).
III.III. No os Modos e Hábi os de Comunicação
De odas as en e is as e inqué i os ei os, é consensual que a in odução e
u ilização da pla a o ma de comunicação Mic oso Teams oi uma das p incipais
al e ações no modo de comunicação den o da emp esa. É impo an e, po ém, chama
no amen e a a enção pa a uma g ande limi ação des a in es igação, que consis e no ac o
do g osso do abalho de campo e sido ealizado com abalhado es que desempenham
unções mais adminis a i as, não es ando assim ep esen ado o uni e so dos
uncioná ios ligados ao chão de áb ica e ao abalho nas quin as. Signi ica is o, que
quando alamos da adoção des e no o ipo de e amen as digi ais, alamos no con ex o
dos abalhado es que desempenham unções com o mínimo g au de ‘ elewo kabili y’
(Sos e o e al. 2020).
O Teams é uma app de colabo ação, c iada em 2016 pela Mic oso , com o in ui o
de auxilia a o ganização e comunicação de equipas. Funciona como uma ep odução
i ual de um espaço de abalho e seus espe i os g upos. Cada canal de equipa pode se
cons uído po ópicos de abalho ou po depa amen os, e é nes es canais que se
es abelecem as con e sas en e memb os, a ealização de euniões em ideochamada ou
a pa ilha de documen os que podem se edi ados po odos. O agendamen o de euniões,
webina es ou e en os em di e o pode ambém se aqui ei o, uma ez que cada u ilizado
dispõe de um calendá io digi al plani icado, ao qual os es an es memb os da aplicação
êm a possibilidade de e acesso (se concedido).
45
Ө.3, Vi ac ess: “Do pon o de is a da ecnologia, hou e uma e olução
quase, que o nou is o mui o mais ácil. Po que há um ano, não usa a
Mic oso Teams, po exemplo. E a é ou as pla a o mas digi ais não
es a am disponí eis, como hoje são acili adas, c iam p oximidade en e as
pessoas.”
Es a « e olução» é, no undo, um eu emismo pa a a maio acessibilidade e
disponibilidade que mui os dos uncioná ios da Logoplas e e da Vi ac ess passa am a e
a di e en es canais de comunicação digi ais, dos quais se des aca o Teams.
Quase oda a comunicação en e os colabo ado es de cada emp esa passou a se
ei a po ideochamadas, chamadas ele ónicas e/ou emails. Aliás, um dos aspe os
nega i os do ele abalho du an e es e pe íodo de pandemia mais mencionado no
inqué i o ei o p ende-se p ecisamen e com o excesso de ideochamadas e euniões ei as
e o consequen e aumen o da ca ga e do empo de abalho. Es a sob eca ga de e-se,
sob e udo, a dois a o es in imamen e ligados en e si: p imei o, o ac o de o uso do Teams
e coincidido com a ase inicial de adap ação das emp esas a odas as mudanças exigidas
pela pandemia, o que implicou odo um conjun o de a e as adicionais não p e is as
(aquisição de ma e ial de higiene, seleção das unções p esenciais cha e, no os egimes
de mo imen ação, e-calenda ização de p oje os, e c.); em segundo luga , com g ande
pa e do pessoal em ele abalho, a ausência das pessoas em con ex o no mal de esc i ó io
despe ou uma necessidade ac escida de compensa a al a da p esença ísica do ou o
com a sua p esença essencialmen e isual, na qual a imagem passou a ganha um papel
p i ilegiado.
▲.5, Logoplas e: “Penso que com is o o pe íodo de abalho diá io
aumen ou e acaba po se mui o in enso. E is o não é só en e colegas, mas
ambém com os nossos p óp ios clien es e o necedo es. Eles de ac o
sen iam ambém a mesma necessidade de aze o seguimen o a a és de
con ac os isuais. Como deixou de se um con ac o p esencial, ago a é udo
46
con ac o isual, po que se o po email deixa am de sen i que ha ia
alguma ligação.”
O en e is ado que se segue (Ө.4) é o manage do depa amen o da Ino a ionLab
do Reino Unido, e comen a inclusi e como oi in e essan e obse a o modo di e en e de
como os seus colegas po ugueses se adap a am ao ele abalho. Ao con á io da sede da
Logoplas e em Cascais - onde se encon a ambém o depa amen o da Ino a ionLab - no
Reino Unido a emp esa não em um esc i ó io cen al, á ea de ensaios ou de labo a ó ios,
mas apenas áb icas de p odução em linha. Ө.4 e os memb os da sua equipa es i e am
semp e habi uados a abalha em iagem du an e g ande pa e da semana, nas suas
deslocações de apoio às áb icas e nos encon os com clien es, deixando um dos dias da
semana pa a abalho a pa i de casa. Is o signi ica que, apesa de desde o início da
pandemia, a equipa de Ө.4 e de abalha semp e a pa i de casa e e en ualmen e e
mais alguns momen os de eunião ia Teams, essa expe iência em si não e a uma
no idade, assim como o ac o de só se consegui em e uns aos ou os espo adicamen e.
Pelo con á io, Ө.4 explica-nos que desde cedo no ou um g ande aumen o de euniões
com os seus colegas em Po ugal.
Ө.4, Logoplas e: “Wha I big no iced was a hea y emphasis on mee ings
wi h ou po uguese collegues. We would ha e one mee ing a week wi h
he ull Ino a ionLab eam. And ha s a ed igh om he beginning, when
people s a ed wo king om home. Was a lo mo e emphasis in he
connec i i y o he eam. I was a nice way o you o knowing ha you
ha e a egula ime o asking ques ions and connec wi h you collegues.
We p obably speak mo e now hen we used o.”
Se o aumen o conside á el do empo gas o em ideochamadas de g upo é um ac o
ela i amen e consensual en e os abalhado es das duas emp esas, as opiniões quan o à
sua e icácia - e à de ou os modos de comunicação à dis ância - no bom uncionamen o
da o ganização di idem-se.
Exis em ês a gumen os p incipais no discu so daqueles que sublinham os
bene ícios e e e i idade de um maio uso de modos de comunicação à dis ância
( ideochamadas, emails, chamadas ele ónicas, sms), em de imen o de uma
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comunicação mais p esencial, com base na expe iência de ele abalho que êm ido ao
longo da pandemia: diminuição conside á el das deslocações e, consequen emen e, um
melho ap o ei amen o do empo de abalho disponí el; maio obje i idade e
especi icidade no modo de comunica ; e uma a i ude mais p o issional. Analisemos um
pouco melho cada um des es aspe os.
A ob iga o iedade do ele abalho le ou não só a uma queb a nas deslocações
casa- abalho, como eduziu signi ica i amen e as iagens ao es angei o o que, pa a além
de se uma mais- alia pa a o abalhado em e mos de empo e dinhei o poupado, pe mi e
ambém à emp esa uma poupança de despesas conside á el.
▲.6, Logoplas e: “As pessoas não pe dem empo em anspo es. A
Logoplas e é longe po que maio pa e das pessoas não i e em Cascais,
i e em Lisboa, e eu enho uma pessoa que es á a ado a o ele abalho
po que i e no Ba ei o. Ela ganhou uma qualidade de ida gigan e pelo
ac o de es a em casa. Ela a é já es a a a aze um ho á io di e enciado
pa a ugi um bocado ao ânsi o. O empo que pe dia nas deslocações, ou
na ho a de almoço, em que às ezes uma pessoa podia i da uma ol inha...
não ia ao ca é onde encon a os colegas e ocam umas pala inhas.”
Ө.3, Vi ac ess: “Mesmo ao ní el de euniões, pode o na -se mais e icien e
euni des a o ma do que p esencialmen e. Eu ou-lhe da um exemplo,
nas euniões de clien es, po no ma, se elas são p esenciais há semp e um
empo de espe a. Damos semp e 20/30 minu os a agua da . Po que po
no ma, o clien e na ho a da eunião é que ai p epa a a eunião, e, po an o,
chega semp e a asado. Nes as euniões [ i uais] elas oco em semp e à
ho a. Se hou e 2 minu os de a aso é o máximo.”
No caso especí ico das iagens ao es angei o com o obje i o de euni com
clien es da emp esa, queb ou-se a an e io ideia de ob iga o iedade. Já an es da pandemia,
e com odos os meios ecnológicos ao nosso dispo , se ia já possí el conc e iza es es
encon os e euniões à dis ância. Mas po mo i os de e ique a es e ‘con a o silencioso’,
que dá como adqui ido o con ac o ace- o- ace, oi-se man endo; a pe ceção e pa ece dos
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clien es sob e a emp esa bene icia ia des a o malidade. Com a inda do ele abalho
ob iga ó io, essa ideia oi desmis i icada em g ande pa e.
Ө.5, Logoplas e: “É um ano em que p a icamen e não se iajou. Eu iaja a
2/3 ezes po mês, no mínimo. A úl ima iagem que eu iz oi a 20 de
e e ei o. Depois disso nunca mais iajei, mas não oi po isso que se
deixou alguma coisa po aze . As coisas con inuam a acon ece . Aquilo
que an es e a quase que ob iga ó io, nós es a mos en e a en e e sen ados
na mesma mesa com o clien e pa a e mos uma eunião, hoje ninguém
ques iona. Fazemos uma con e ência, azemos o kick o e as coisas
acon ecem.”
Nou os casos, as solici ações de a e as ou p oje os po esc i o ( ia email ou sms)
passa am a eco e a uma linguagem mais cla a, obje i a e de alhada, como o ma de
compensa a al a de uma comunicação mais imedia a, à qual es a am habi uados em
con ex o de esc i ó io. Is o é um aspe o posi i o po que, em caso de dú idas, o abalhado
pode semp e ol a a ele a lis a de p ocedimen os e equisi os enunciada na mensagem
em causa, em ez de depende da p esença do seu supe io pa a o seu escla ecimen o e/ou
e isão.
Me ece ambém ele ância a co elação que alguns en e is ados ize am, de
o ma mais ou menos di e a, en e uma comunicação ia pla a o mas digi ais e uma ideia
de maio p o issionalismo. Mas se en ende mos «p o issionalismo» enquan o a qualidade
daquele que é p o issional, daquele que con e e b io e qualidade à sua p á ica labo al,
pe cebemos que não há necessa iamen e uma ligação lógica e simbió ica en e essa
qualidade e um maio uso de ecnologias digi ais na comunicação en e abalhado es. O
ac o de uma ideocon e ência ia Teams, po exemplo, eduzi a quan idade de
in e ações desnecessá ias em compa ação com uma in e ação p esencial, ou eduzi o
empo pe dido em deslocações, em nada signi ica po si só uma melho p á ica no
abalho. Em úl ima ins ância, es a con icção pode se con ex ualizada den o de um
discu so sob e o mundo do abalho ecnologicamen e mais o imis a.
Ademais, o am ambém apon ados aspe os menos posi i os da comunicação à
dis ância du an e es e pe íodo. O p imei o p ende-se com a maio len idão na
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no con o o do la são os p incipais a o es apon ados nas en e is as pa a jus i ica es a
pe ceção do ele abalho enquan o p i ilégio de alguns.
O cu ioso é que es e sen imen o de sepa ação e injus iça, que se mani es ou mais
desde que a pandemia su giu, pa ece se sob e udo um acen ua de dinâmicas já an e io es
e de di e enças es u u ais den o das emp esas. Is o oi especialmen e sen ido no caso da
Vi ac ess.
▲.9, Vi ac ess: “Mas a é mesmo com o ac o de abalha em na áb ica ou
na quin a, e nós es ando a abalha no esc i ó io, só po aí já acham que
nós somos supe io es, ou que es amos melho . Mas isso acho que é um
bocadinho gene alizado. Eu conheço aqui emp esas pe o, que ambém êm
o p ocesso ab il, e as pessoas como apanham io, es ão mui o empo de
pé e com a mão na massa, acabam po sen i que nós lá em cima,
sen adinhos numa cadei a com a condicionado ligado, que es amos mil
ezes melho do que eles lá em baixo com io.”
▲.3, Vi ac ess: “Eu no ei, mais po ha e algum ipo de con e sas ou
comen á ios. E ambém pe cebo isso da pa e das pessoas que ão odos os
dias à áb ica e passa am no openspace e não iam ninguém. Há pessoas
que en endem, po que o abalho delas é aquele; e ambém en endem que
quem es á no esc i ó io em ou o ipo de abalho que é possí el de aze
em casa, não é? Não é uma ope ação de áb ica ou de campo. Há pessoas
que en endem isso. Há ou as que não. Mas ambém é uma cul u a um
pouco das pessoas. Po que eu semp e sen i na emp esa que há um
sen imen o de sepa ação das pessoas que abalham na áb ica em elação
às pessoas que abalham no esc i ó io. E há um sen imen o, po pa e de
quem abalha nas áb icas, de acha que quem es á no esc i ó io são
pessoas bene iciadas. Mas is o é como udo, po que cada um em a sua
unção e as pessoas êm de pe cebe isso. Eu acho que pa a algumas já
ha e ia essa si uação e com es a ques ão do ele abalho, isso aumen ou
aqui um bocadinho.”
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No quad o analisado, penso que se ia o çado e inco e o a i ma que es amos
pe an e uma si uação de disc iminação, dado que oi a p óp ia na u eza das unções
exe cidas que acabou po de e mina se o abalhado podia ou não exe ce o seu abalho
o a das ins alações da emp esa. A é po que ou as opiniões o am igualmen e dadas.
Alguns abalhado es i am com bons olhos a sua p esença con ínua in loco: po um lado,
sen iam-se bas an e segu os den o da emp esa, endo em con a odas as medidas de
higiene e segu ança le adas a cabo desde o início da pandemia; po ou o lado, quan os
mais colegas conseguissem es a em ele abalho, melho , uma ez que is o signi ica ia
menos pessoas na emp esa e, po sua ez, menos possibilidades de con ai o í us. De
al modo que es a ensão oco eu mais no início da pandemia, quando udo e a ainda mais
ince o e isso acen ua a os eceios de alguns abalhado es. Com o passa do empo, e ao
pe cebe em que de ac o a áb ica e as quin as e am locais bas an e segu os em e mos
sani á ios, essa ensão oi-se a enuando. Po ém, es e sen imen o de desigualdade, que se
e i icou exis i já an es do início da a ual si uação pandémica, pode mui o bem se
obse ada num con ex o de desigualdades sociais es u u ais que ex a asam o me o
uni e so da Vi ac ess.
Ou a si uação mencionada, capaz de aze algum mau ambien e en e colegas a
médio-longo p azo, p ende-se com o pedido de a o es po pa e dos colegas em
ele abalho aos colegas que se encon am na emp esa. Si uações como es as são po ezes
is as como ‘abusado as’ ou e elado as de ‘ al a de espei o e bom-senso’, mesmo em
casos meno es, como o simples pedido pa a deixa algum documen o na sua habi ual
sec e á ia do esc i ó io, ou o ac o de não pe cebe em po que azão o colega que es á em
ele abalho e que e e de passa pela emp esa ica apenas pa e do dia e não o dia po
comple o já que ali es á.
▲.10, Logoplas e: “De ma ço a dezemb o, há pessoas que pedem
equen emen e coisas às colegas do sec e a iado pa a imp imi , pa a
assina , digi aliza ... as minhas colegas do sec e a iado azem. Eu, numa
si uação idên ica, não o a ia. Se calha pedia 1 ou 2 ezes, mas a é
dezemb o eu coloca a no mínimo os pés na sede. Po que essas pessoas êm
de e empa ia e sabe se as pessoas a quem pedem os a o es êm mui o
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abalho. E se odas as pessoas que es ão a abalha em casa o em aze o
mesmo, u acabas po não consegui aze o eu abalho.”
Ө.8, Logoplas e: “O local de abalho é na sede, é lá que é o abalho. Se a
emp esa e pe mi e, po exemplo, i a 1 dia po semana pa a abalha em
casa: p imei o, isso não signi ica que enhas necessa iamen e de i a
semp e esse dia. É só se i e es disponibilidade e se o abalho assim o
pe mi i . Se i e es de es a no esc i ó io, não podes dize «não, hoje é o
meu dia de es a em casa». (…) Quando empa a com o abalho de ou os,
eu não ou dize que é meu dia de es a em casa, po que não há dias de
es a em casa.”
Foi sob e udo nes es momen os de desaba o que su gi am mais posições
con á ias à ideia de o egime de ele abalho pode i a se , num u u o pós-pandémico,
uma escolha apenas po pa e do abalhado . Deixa ao c i é io de cada um que dias e
quan os dias po semana se p e ende ele abalha , pode da espaço a uma maio ma gem
de e o pa a compo amen os egoís as, algo que alguns en e is ados mani es a am
ac edi a se a na u eza abusado a do se humano a causa p incipal. Visões mais
pessimis as e a alis as como es a endem a se mais eco en es, quan o menos o
planeado o egime de ele abalho de modo uni icado pelos co pos execu i os e di igen es
de cada emp esa, e quan o mais as decisões des a na u eza es i e am dependen es das
che ias das á ias e di e sas equipas. Nes e cená io, a al a de uma polí ica mais
uni o mizada em elação ao ele abalho pode, de ac o, ge a con li os de in e esse en e
os abalhado es. Mais ainda, endo em con a a o e componen e ab il des as
mul inacionais, esse planeamen o pós-pandemia de e á se ainda mais c i e ioso, de
o ma que nos locais híb idos (ins alações da emp esa onde exis e pa e adminis a i a e
pa e de p odução, simul aneamen e) da Vi ac ess e da Logoplas e não haja uma cisão
en e abalhado es p esenciais e não-p esenciais.
Suma izando, não exis em ainda p e isões cla as quan o às polí icas de abalho
que a Logoplas e e a Vi ac ess es ão a pensa implemen a a médio-longo p azo, depois
ou mesmo du an e a pandemia, e se o ele abalho pode á i a se uma ealidade
legalmen e de inida pa a alguns abalhado es. É ambém g ande o desconhecimen o
sob e como se iam conciliá eis es as duas ealidades sob o e o de uma mesma emp esa.
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Mais ainda, é no ó io que ce os abalhado es, especialmen e aqueles com unções que
não lhes pe mi em o abalho a pa i de casa, endem a e o ele abalho como uma
o ma de abalho p i ilegiada, associada a uma melho qualidade de ida.
A ce o momen o, após e em sido já ealizadas algumas en e is as, su giu a
necessidade de adiciona uma no a pe gun a ao guião o iginalmen e de inido. Es a
necessidade su giu pelo simples ac o de, de o ma espon ânea e imp e isí el, os p óp ios
abalhado es en e is ados aze em à con e sa ce os comen á ios sob e ce os aços
psico-emocionais ca ac e ís icos da igu a ‘do po uguês’, e o modo como esses aços
iden i á ios se espelha am no modo dos po ugueses abalha em, po compa ação a
po os de ou os países. Foi nesse sen ido que a ques ão “Acha que a maio di iculdade
das emp esas, no nosso país, em se adap a em ao egime de ele abalho é consequência
de uma men alidade ‘mui o po uguesa’?” Su p eenden emen e, g ande pa e das pessoas
esponde am a i ma i a e en a icamen e.
En e os á ios aços mencionados da di a ‘men alidade po uguesa’, encon am-
se uma endência na u al pa a uma cons an e descon iança no ambien e de abalho; uma
maio necessidade de con olo po pa e dos supe iso es, u o da ausência de uma
cul u a de es imula a au onomia das pessoas; uma ce a mesquinhez e má disposição nas
pessoas; e a iden i icação com uma ideia de ‘cul u a la ina’, mais apegada ao con ac o
ísico, aos a e os e à amília.
Ө.3, Vi ac ess: “Eu acho que sim. Eu acei o como álido. E nós mui as
ezes con as amos aquilo que são os nossos compo amen os, com ou os
semelhan es no no e da Eu opa. Acho que a necessidade de con olo aqui
é maio . As pessoas sen em-se al ez a é mais con o á eis se es i e em a
se con oladas. Po an o em acho que sim, que há uma ques ão de
men alidade, cul u al, que o na mais di ícil.”
▲.7, Logoplas e: “Na Polónia u ens equipas que são se iços cen ais,
sejam inancei os ou ecu sos humanos (…) que mui o an es do Co id já
abalha am de casa e as coisas uncionam lindamen e. Ingla e a ens a
mesma coisa. (…) Nós na Polónia e na Ingla e a não emos um esc i ó io
p op iamen e di o, só emos as áb icas. Es a coisinha é mesmo ‘ uguesa’,
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a descon iança do pa ão. Aquela men alidadezinha pequenina. Em
Espanha são impecá eis, de uma esponsabilidade... especialmen e as
equipas cen ais, são 5 es elas. Não p ecisas de pedi uma coisa duas ezes.
São cul u as mais madu as. E são mui o mais bem dispos os do que nós.
Es ão-se semp e a i , nós aqui é o ado. E, no en an o, são al amen e
p o issionais. B asil en ão (…) a mal a do esc i ó io são odos umas
máquinas.”
A a aliação ei a des as especi icidades iden i á ias oi, na maio ia das ezes,
pessimis a e pejo a i a, indo bas an e ao encon o das p incipais conclusões ap esen adas
po João Leal no capí ulo «Se po uguês: um o gulho ela i o». Com base nos esul ados
ob idos no ISSP-2003, é no ó ia a elação con adi ó ia dos po ugueses ace à sua
nacionalidade: “se po uguês é algo que se assume com o gulho, mas com um o gulho
ambíguo, indeciso, acilan e. Um o gulho, em suma, con adi ó io” (Leal 2010, 75).
Exis e um sen imen o de alguma e gonha e descon en amen o pe an e o es ado social,
polí ico e económico do país que, ac i icamen e, é jus i icado em e mos de um
essencialismo iden i á io. Exis e semp e a somb a da imagem de Po ugal enquan o um
p oblema po esol e (Leal 2010), “na medida em que é u o de indagações
p eocupadas, con adi ó ias, ma cadas equen emen e po um ce o d ama ismo, no qual
se insc e e ia um sen imen o de « agilidade ôn ica» ou mesmo uma «es u u a de pânico
anímico»” (Lou enço 1978 apud Leal 2010, 77).
Se olha mos pa a es udos ecen es sob e o ele abalho no con ex o da União
Eu opeia, podemos obse a que os esul ados pa ecem, pelo con á io, con adize es a
pe spe i a nega i a. Desde 2009, Po ugal oi dos países eu opeus que mais sen iu um
aumen o conside á el na p á ica do ele abalho, jun amen e com ou os países como a
Es ónia e a I landa. Compa ando com odos os es an es es ados-memb os, no que oca à
p e alência des e egime de abalho en e 2009-2019, Po ugal encon a-se numa aixa
in e média en e os dois ex emos, ap esen ando uma axa de 13 a 19% (Sos e o e al.
2020) (Fig.1)
É impo an e e em con a o con ex o nacional, como a ás já e e ido, mas es as
ep esen ações iden i á ias e cul u ais de em se desmis i icadas, endo especial a enção
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às polí icas desen ol idas ao longo dos anos em Po ugal, que possam e con ibuído
pa a um maio ou meno desen ol imen o ecnológico:
“Because o he his o ically impo an he o ical connec ions be ween ‘ he na ion’
and ‘ he cul u e’, a subs an ial componen o an h opology’s cu en p oblem wi h
‘cul u e’ can be aced o ou con lic s o e mac o-social ela ions. (...) We mus con inue
alking abou na ions while a oiding hei misleading sel - ep esen a ions.” (Hakken
1999, 131).
Os sen imen os subje i os de iden idade nacional exp essos nas en e is as podem
se in e p e ados segundo uma abo dagem da iden idade nacional que associa a o es
sociocogni i os e mo i acionais, que êm como base um p incípio de ca ego ização social
(Sob al e Vala 2010). O que os abalhado es da Vi ac ess e da Logoplas e concebem
como sendo a essência e iden idade «do po uguês», sob e udo em con ex o labo al, de e
an es se en endida e analisada enquan o cons ução social, enquan o comunidade
imaginada no sen ido que Ande son lhe dá: “num espí i o an opológico, p oponho a
seguin e de inição de nação: é uma comunidade polí ica imaginada ao mesmo empo
como in insecamen e limi ada e sobe ana. É imaginada, po que a é os memb os da mais
pequena nação nunca conhece ão, nunca encon a ão e nunca ou i ão ala da maio ia
dos ou os memb os dessa mesma nação, mas, ainda assim, na men e de cada um exis e
a imagem da sua comunhão” (Ande son 2021 [1983], 25).
Nes e seguimen o, penso que al ez possa se in e essan e con ex ualiza e
menciona o Plano de Acção pa a a T ansição Digi al de Po ugal, ap o ado a 5 de
ma ço de 2020, que “se assume como o mo o de ans o mação do país, endo como
p opósi o acele a Po ugal, sem deixa ninguém pa a ás, e p oje a o país no mundo.
Pa a es e e ei o, o Plano de Ação pa a a T ansição Digi al em como p incipais á eas de
oco da capaci ação digi al das pessoas, a ans o mação digi al das emp esas e a
digi alização do Es ado” (Républica Po uguesa 2020, 4).
61
III.VII. Telemig ação, au oma ização e obo ização
Embo a o maio en oque des a in es igação seja essencialmen e ao ní el do
indi íduo, seu sen ido de iden idade e as elações sociais de g upo no con ex o das
o ganizações em causa, é impo an e chama ambém a a enção pa a a ealidade do
ele abalho num con ex o mac o-social. Especialmen e em con ex o de pandemia, onde
o po encial de mudança u u a no mundo do abalho pode se ealmen e g ande.
Um exemplo simples: a possibilidade de diluição de on ei as a ní el de me cado
de abalho in e nacional, azendo com que a geog a ia do emp ego possa muda . Es e
aspe o oi de ac o mencionado em algumas en e is as como algo po encialmen e
posi i o, especialmen e po pa e dos Recu sos Humanos da Vi ac ess.
▲.8, Vi ac ess: “E is o ambém nos eio mos a um leque mui o maio de
possibilidades em e mos de ec u amen o pa a ce as unções. Nós es amos
numa egião onde é um pouco complicado o ec u amen o de ce as
unções. Eu não sou da egião, sou do Alen ejo, mas do No e, e a Cos a
Alen ejana ainda es á mui o em desen ol imen o. Felizmen e o u ismo
em chamado mui as pessoas e e oluído a egião, mas ainda é complicado
pa a nós consegui mos a ingi algum público. E é complicado, quando es ás
à p ocu a de abalho, em p incípio p ocu as logo na g ande Lisboa e Po o.
(...). Mas ago a com o ele abalho u pe cebes que ens a possibilidade de
es ende a p ocu a de ecu sos. E não alo só a ní el nacional, mas ambém
a ní el in e nacional. E isso não só nos dá uma di e sidade mui o maio em
e mos cul u ais, den o da emp esa, como ambém em e mos de
conhecimen o. Semp e hou e esse desejo po pa e de quem e a des a á ea,
em aquele desejo que um dia is o se possa aze , e que eu possa es a a
abalha com uma pessoa que es á do ou o lado do mundo. Mas an es u
inhas o desejo, mas pe gun a as- e se ealmen e unciona ia. E ago a nes e
momen o ens a p o a de que as coisas uncionam.”
A ‘ elemig a ion’, ou ‘in e na ional elecommu ing’, em-se indo a acen ua nas
úl imas décadas e, especialmen e nos úl imos anos, esse p ocesso oi de al modo
62
signi ica i o que pa ece ma ca uma no a o ma de globalização, segundo Richa d
Baldwin. A é ce ca do ano de 2015, á ias ba ei as sec o iais e comunicacionais (em
e mos de linguagem) coloca am limi ação à mig ação do abalho emo o: os eelance s
inham de ap esen a quali icações boas o su icien e na comp eensão, lei u a e
comunicação do inglês, e podiam apenas exe ce a e as modula es (sob e udo em á eas
de desen ol imen o web e unções adminis a i as). Po ém, com o desen ol imen o
a ançado das aplicações de adução e com o p ocesso de au oma ização a alas a -se
ambém às no as unções nos se iços, a elemig ação em so ido um c escimen o mui o
acen uado a ní el mundial. Pequenas, médias e g andes emp esas, assim como pessoas a
í ulo indi idual, eco em cada ez mais a pla a o mas web especí icas pa a a con a ação
de eelance s (ex: Flexjobs, Upwo k, Zhubajie). Ci ando Richa d Baldwin, em The
Globo ics Uphea al:
“The web pla o ms a e a ec ing elemig a ion in he same way ail oads,
con aine s ships, and ai ca go a ec ed ade in goods. By adically lowe ing he cos o
mo ing goods in e na ionally, be e anspo a ion echnology allowed companies o
exploi in e na ional goods’ p ice di e ences. The esul was booming ade in goods. By
adically lowe ing he cos s o hi ing o eign se ices wo ke s, eelance pla o ms a e
allowing companies o exploi in e na ional wage di e ences. The esul will su ely be an
explosion in elemig a ion” (Baldwin 2019, 122).
Nem semp e as opções mais ba a as no me cado de abalho são as escolhidas,
mas é um ac o que ce ca de um qua o dos eelance s online es ão a abalha a pa i
de países em desen ol imen o, especialmen e da India, Bangladesh, Paquis ão e
Filipinas, onde os o denados chegam a se doze ezes in e io es aos salá ios p a icados
na União Eu opeia ou EUA. E apesa des a disc epância sala ial, na maio pa e dos casos
es a elação en e emp egado e emp egado acaba po se de ganho pa a os dois lados. O
pe il des es abalhado es ende a co esponde a uma aixa e á ia en e os 20 e 30 anos,
e mais de me ade em educação supe io (Baldwin 2019).
A Co id-19 ensinou as emp esas a ge i os esc i ó ios emo amen e, de ido à
expansão massi a e coo denada do ele abalho desde o início da pandemia, comba endo
assim a an e io iné cia. Há ecnologia que já es a a disponí el, jun a am-se ou os
63
aspe os undamen ais pa a que uma ans o mação pudesse ealmen e oco e : uma
mudança coo denada a ní el in e nacional na o ma como abalhamos, não ão
dependen e da p esença ísica; uma mudança na o ma como a in o mação é pa ilhada,
a mazenada e disponibilizada; uma mudança na o ma como os elemen os de equipas, e
en e equipas, coope am e in e agem en e si; uma mudança na o ma de ges ão dos
manage s e, mui o impo an e ambém, uma ap endizagem ap o undada, a i a e cole i a
das ecnologias digi ais disponí eis pa a o abalho à dis ância.
Mas no as mudanças azem ambém no as ques ões, e uma delas é p ecisamen e
a cons a ação de que, em e mos ecnológicos, não há p a icamen e di e ença en e um
ele abalhado que i a pe o da emp esa, ou de um ele abalhado eelance que
abalhe a pa i de ou o país qualque . Simul aneamen e, es a pandemia eio al e a a
elação en e o cus o dos abalhado es p esenciais, em compa ação com a au omação
so wa e de abalhado es o sho e.
“The e’s a big di e ence be ween i ing somebody and no hi ing hem. Once he
connec ion has been b oken, using so wa e au oma ion o eplace hem, o o sho ing, in
a si ua ion whe e lo s o companies a e going o need o cu cos s – hey ha e he pe ec
excuse.”,
diz Richa d Baldwin numa en e is a a Dylan Ma hews (Vox 2020, on-line).
Se es a é, ou pode á a i a se , a si uação da Logoplas e ou da Vi ac ess é ainda
mui o ince o pa a o ma qualque ipo de juízos. Nem a in o mação ecolhida ao longo
das en e is as é su icien e pa a e algum ipo de pe ceção mais cla a. Não signi ica isso,
po ém, que não sejam aspe os de maio ele ância a e em con a.
Ө.9, Logoplas e: “Uma coisa que não alámos e que em que e com is o
do mundo digi al, mas ambém da au omação e da obó ica. Eu acho que
ambém aí o mundo ai muda bas an e, po que pa a mui as des as g andes
emp esas, udo aquilo que eles pude em depende menos de pessoas...
Acho que is o ai da um push g ande nesse sen ido. Tudo aquilo que o
acilmen e au oma izá el ai começa a acon ece . (…) No nosso ipo de
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emp esa não sei se o impac o a esse ní el ai se ão g ande, mas à medida
que ão apa ecendo soluções - e acho que a pandemia acele ou alguns
desses p ocessos - as emp esas ão começando a e mais acesso a no as
ecnologias disponí eis. Na Logoplas e podia se ú il pa a a e as de
change o e , de o ma os. Já exis em algumas soluções, mas eu penso que
as soluções que exis em ão e de se melho adas. Si uações de con olo
de qualidade ambém, que hoje em dia já sabemos que são au oma izá eis.
Tal ez an es os cus os dessa au oma ização não compensa iam, mas num
cená io de pandemia se calha a o ma de aze as con as muda ia um
pouco.”
71
Ө.9, Logoplas e: “Há coisas que eu não consigo aze no esc i ó io. Tudo
o que exija um ní el de concen ação maio ... analisa , aze pesquisa,
p epa a o mações. Eu enho esse p oblema e quem ge e equipas em esse
p oblema. Mui os dos ges o es de equipa êm esse p oblema. Quando eles
que em aze eles o abalho, é di ícil. Po que a nossa emp esa exige
lexibilidade de nós se mos ges o es, mas emos de execu a ambém. Não
sou só ges o , ambém execu o.”
Ө.5, Logoplas e: “A pa e ‘posi i a’ é que enho mui o menos pessoas a
in e ompe em-me du an e o dia. Po que não es ão aqui. O núme o de
ezes que en am ala comigo é o mesmo, mas como é ia Teams eu posso
não es a sen ado, ou posso não consegui ala logo no momen o. An es
e a mais complicado pa a mim es a 30 minu os concen ado num
p oblema. Aquelas ho as que eu abalha a mais do que o meu ho á io
no mal, quase semp e e a pa a compensa isso. Ou chego mais cedo, ou
depois das pessoas saí em, é quando consigo aze esses abalhos de o ma
mais concen ada.”
IV.II. Diluição dos Ho á ios e uma P odu i idade Ambígua
De ac o, o ambien e domés ico oi apon ado como uma mais- alia pa a a
ealização de de e minados ipos de a e a, como a ás e e ido, con ibuindo assim pa a
uma maio capacidade de oco indi idual, um ap o ei amen o mais u í e o do empo
disponí el e uma maio capacidade de p odução que, po ezes, se ma e ializa a em
ní eis mais ele ados de endimen o labo al. Con udo, pa a além des e aumen o na
p odu i idade não se e i icado em odos os casos, quando acon ece é impo an e
pe cebe a que cus o, o que o na desde logo di ícil es abelece conclusões ão linea es
como se pode ia julga a uma p imei a is a.
Aqui e omamos a chamada de a enção deixada inicialmen e, pa a a al a de
p eocupação no es udo do ele abalho em con ex o amilia o a do ho á io adicional
do esc i ó io e às ho as de abalho ex a, ou seja, ho as de abalho não- adicionais
(Golden 2012, Jos ell and Hemlin 2018). P a icamen e quase odos os en e is ados
admi i am e ha ido uma diluição e um aumen o das suas ho as de abalho. A diluição
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dos ho á ios acon eceu na medida em que, es ando em casa, cada pessoa adap ou, à sua
manei a, as suas ho as de abalho às dinâmicas amilia es p e iamen e exis en es, ou
ecen emen e su gidas no con ex o de pandemia e con inamen o. Nessa medida, a
lexibilidade empo al que ca ac e iza o abalho à dis ância e elou-se um aspe o
ex emamen e posi i o, dando au onomia e libe dade a cada abalhado pa a ge i e
pe sonaliza os seus ho á ios à medida das suas necessidades pessoais e amilia es.
Con udo, sob e udo nos casos em que os ilhos i e am de ica e idos em casa com os
pais, nem semp e as adicionais 8 ho as diá ias e am su icien es. Com base nas
en e is as ei as e nos inqué i os online hou e um aumen o das ho as ex a, numa média
de 1 a 2 ho as de abalho po dia. A necessidade de cuida dos ilhos meno es de idade,
o excesso de empo gas o em ideochamadas de g upo e um ce o sen imen o de culpa
po não es a a abalha (sendo que o abalho es á semp e à mão), o am os mo i os mais
eco en emen e abo dados como jus i icação.
▲.12, Logoplas e: “Eu a amen e desliga a o compu ado , ele es a a
semp e ligado, a qualque ho a do dia eu abalha a, se me dis aísse a aze
alguma coisa mais domés ica, sen ia semp e a esponsabilidade de
compensa ês ezes mais. Eu enho alado com as pessoas e elas sen em
quase odas is o, como se es i éssemos a i a do nosso empo de abalho
pa a aze uma a i idade no a, e depois sen íssemos que ínhamos de
compensa á ias ezes esse empo. (…) Mas é uma coisa que é di ícil de
lida e acionaliza . «Is o é um dispa a e. Pe des e 15 minu os, não ens de
compensa 45 minu os ou 1 ho a».”
A con luência do espaço de abalho com o espaço domés ico diluiu os ho á ios
de abalho, o nando di ícil uma au oges ão mais igo osa. A sensação de ‘pe da da noção
de ho as’ oi bas an e sen ida, o que con ibuiu na u almen e pa a o aumen o e diluição
das ho as de abalho. Os po á eis de abalho passa am a es a ligados mais empo que
o no mal, e a qualque momen o as pessoas se podiam desloca e e i ica o no o email
ou chamada ecebida; Olson e Ellison mencionam p ecisamen e es e mesmo aspe o nos
seus abalhos, “ elewo k esea che s ha e long no ed ha he cons an a ailabili y o he
compu e makes i « emp ing (pa icula ly wi h elec onic mail) o jus sign and ‘check
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my mail’ o ‘see who else is on he sys em’” (Olson 1988 apud Ellison 2004, 115). As
pausas o am mui as ezes eduzidas ou eliminadas e, quando usu uídas, são dedicadas
a aze as p óp ias e eições ou a adian a alguma a e a domés ica. As a i idades
elacionadas com o abalho subs i uí am, mui o equen emen e, ou as a i idades de
laze que as pessoas es a am habi uadas a aze (despo o, passeios o a da cidade ao im-
de-semana, saídas com colegas, e en os no u nos, e c.)
▲.3, Vi ac ess: “Uma das coisas que acon eceu e que acaba po não se
ão posi i o, é o ac o de es a ligada ao abalho mais empo. Nós, ao dia
de hoje, an es das 8h já es amos odas ligadas. Pelas 16/17h oda a gen e
em as suas a e as ei as e eu p óp ia lhes digo «olha, ocês êm as coisas
o ien adas, desliguem e ão à ossa ida». Mas alo po mim, o ac o de
es a em casa, depois de jan a ainda enho o compu ado ligado e ejo
qualque coisa que ainda ou a a . Já an es às ezes azia is o a a és do
elemó el, an es do ele abalho.”
De uma ce a pe spe i a, a manu enção do ele abalho, conscien e des e ipo de
aumen o de ho as de abalho, pode se is a como um incen i o a compo amen os mais
obsessi os e a endências mais wo kaholic, especialmen e em colabo ado es com aços
de pe sonalidade mais pe ecionis as, p opícios a esse ipo de eações e compo amen os
(Ellison 2004). Não é po acaso que a exaus ão é uma das p incipais a ian es no es ado
da a e dos es udos ei os sob e es e ema, e con inua a se uma p eocupação c escen e.
Golden explo a inclusi e o concei o de ‘wo k exhaus ion’ enquan o “ he deple ion o
ene gy needed o mee job demands” (Golden 2012)
É com odos es es aspe os em men e que o ele abalho em empos de pandemia
pa ece se “a i icialmen e p odu i o” e se o na bas an e di ícil e uma pe ceção cla a de
qual a e iciência do ele abalho em casa em compa ação com o abalho a pa i do
esc i ó io (The Economis 2020b).
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IV.III. Tele abalho e o Cuida dos Filhos: C ianças e Jo ens em
Con inamen o
Os di e sos pe íodos de ence amen o das escolas e uni e sidades públicas e
p i adas em Po ugal em empos de con inamen o social oi um a o modi icado da
expe iência de ele abalho pa a mui os pais, an o pa a melho como pa a pio . No o al,
188 países es ipula am ence amen os a ní el nacional, a e ando mais de 1.5 biliões de
c ianças e jo ens, e em pelo menos 58 desses países e e i ó ios e i ica am-se
ema cações, adiamen os e cancelamen os de exames (Uni ed Na ions 2020).
O ence amen o de escolas e a suspensão das a i idades le i as não é uma
o iginalidade des a pandemia. Bas a eco da mo-nos da g ipe pneumónica, uma das mais
mo í e as de semp e, pa a e i ica mos que ambém aí as escolas o am ence adas e
hou e um adiamen o dos exames de acesso ao ensino uni e si á io. Po ém, a
o iginalidade na o ma como os sis emas educa i os êm espondido à si uação
epidemiológica su gida em 2019 p ende-se com ou os aspe os: p imei o, a
simul aneidade do echo das escolas a ní el in e nacional; em segundo, o ac o des e
ence amen o não se e aduzido numa in e upção o al do ano le i o e das suas
a i idades (Ma ins 2020); em e cei o luga , o echo dos es abelecimen os de ensino
oco eu an ecipada e p e en i amen e em 27 países (Uni ed Na ions 2020).
Apesa des e g upo e á io so e menos os e ei os de saúde di e os p o ocados
pelo Sa s-Co -2, ap esen ando uma baixa axa de incidência, sin oma ologia menos g a e
e um meno núme o de í imas mo ais, a pandemia em p o ocado ou as complicações
pa a as c ianças e jo ens, que pode ão i a e um p o undo impac o nos seus u u os
p ocessos de desen ol imen o social, económico, ísico, cogni i o e psico-emocional.
Segundo o es udo desen ol ido ecen emen e pelas Nações Unidas sob e o impac o des a
pandemia nos mais pequenos, exis em ês g andes g upos de consequências: as p óp ias
consequências di e as da in eção do o ganismo pelo í us; os impac os socioeconómicos
mais imedia os das medidas de con olo social aplicadas pelos di e en es go e nos, pa a
a a a disseminação in eciosa en e a população; e, po úl imo, os po enciais e ei os a
longo p azo que pode ão coloca em causa os obje i os es ipulados in e nacionalmen e
no aco do de 2015, – Sus ainable De elopmen Goals (SDGs) – cujas p incipais me as
passam pelo im da pob eza ex ema, melho a ibuição e dis ibuição de cuidados de
saúde e assegu a os di ei os de igualdade pa a odas as mulhe es (Uni ed Na ions 2020).
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Es es po enciais impac os nega i os de e ão i a se idos em con a e em linha de
p io idade, especialmen e quando alamos de c ianças e jo ens em países com baixos e
médios endimen os (Rajmil e al. 2021).
No con ex o especí ico po uguês, no dia 13 de ma ço de 2020, o Go e no
ap o ou á ias medidas excecionais e empo á ias ela i as à si uação epidemiológica,
en e as quais se in eg a a a suspensão das a i idades le i as e não-le i as p esenciais.
Do a an e, as aulas de ap endizagem ealiza -se-iam a pa i da modalidade de ensino
não p esencial, com possibilidade de exceção p e is a pa a os 11º e 12º anos nas
disciplinas cujos espe i os exames nacionais uncionassem como equisi o ob iga ó io
pa a o u u o ing esso no ensino supe io , assim como nos 2º e 3º anos dos cu sos de dupla
ce i icação de ensino secundá io (Dec e o-Lei nº 14-G/2020 de 13 de ab il, P esidência
do Conselho de Minis os, 2020). Es a si uação es endeu-se ao ano le i o seguin e, 2020-
2021, e em Janei o de 2021 o Go e no ol ou a dec e a a suspensão das a i idades le i as
e não-le i as po 15 dias e pe mi indo a sua e oma pos e io apenas a modalidade de
egime não p esencial, uma ez que a é en ão as a i idades le i as p esenciais inham
indo a se e omadas g adualmen e, consoan e a si uação epidemiológica assim o
pe mi isse (Despacho nº 3866/2021 de 16 de Ab il do Gabine e do Sec e á io de Es ado
Adjun o e da Educação).
As a i idades le i as em modalidade de egime à dis ância o am la gamen e
assegu adas a a és da In e ne , meio p i ilegiado a ní el mundial pa a ees abelece o
con ac o en e alunos e p o esso es. A ádio e a ele isão o am ambém disposi i os
u ilizados, sob e udo em países a icanos e asiá icos. Mas alguns países eu opeus
eco e am de ac o ao apa elho ele isi o enquan o modo complemen a , de o ma a
ga an i que mesmo aqueles alunos com poucos ou nenhuns ecu sos ecnológicos
conseguissem man e o ano le i o numa linha de con inuidade mínima, de o ma a ge a
o mínimo de dis upção possí el. Ci ando Susana da C uz Ma ins,
“c ia am-se modalidades lexí eis e di e si icadas de con inuação de
comunicação en e escolas e os seus alunos e possibilidades que a endem aos á ios
con ex os pa a a di usão de con eúdos cu icula es, onde o mais emblemá ico e com
in enções de uni e salidade oi a ansmissão de con eúdos pela ele isão, a aze lemb a
76
o modelo da « elescola», com uma designação de imagem ecnológica econ e ida
(#Es uda EmCasa).” (Ma ins 2020, 45).
O uni e so de amílias en e is adas ap esen ou, elizmen e, sinais de ela i a
es abilidade, não se endo ei o po isso sen i es e escala de po enciais impac os
nega i os. Quase odos os en e is ados se encon a am numa si uação económica es á el
ou acima da média, endo ido meios pa a ob e qualque ipo de ma e ial que se i esse
e elado necessá io pa a o pe íodo em que as suas c ianças es i e am echadas em casa
com os pais, especialmen e em pe íodo escola e com as aulas à dis ância. Quan o a
consequências ísicas di e as da doença, nada me oi ela ado. Con udo, apesa dos
cuidados que os pais en e is ados mani es a am oma , no a am-se al e ações nas
dinâmicas habi uais dos ilhos que me ecem se analisadas, sob e udo a ní el da saúde
men al e alimen a , e do p ocesso de ap endizagem.
Es e pe íodo oi especialmen e di ícil pa a os pais que i e am de ica em casa
em ele abalho e, simul aneamen e, oma con a dos seus ilhos. Sob e udo pa a os pais
com c ianças ainda mui o pequenas, mais dependen es dos p ogeni o es pa a o
desempenho das a e as mais básicas.
Ө.13, Logoplas e: “Foi mais ácil a pa i do início de se emb o, quando as
c ianças ol a am às aulas. A é lá hou e momen os bas an e complicados.
Te de olha pelas c ianças e e de aze o abalho. E a minha esposa oi a
mesma coisa. Ela ambém abalha em ele abalho, é p o esso a, e hou e
aqui cená ios em casa no início que e a, eu a e de es a a abalha e es a
em eunião, ela a da aulas à dis ância, o meu mais elho a e aulas à
dis ância ambém e depois o mais pequeno e que ica a ali meio pe dido.”
▲.13, Logoplas e: “Foi complicado, a jun a ao ac o de eu e duas
c ianças e quando es a a em casa a minha ilha mais no a em 5 anos e
com essa idade e a di ícil man ê-la ocupada de o ma a eu es a libe a pa a
abalha . Po que es a ques ão de eu aze meios-dias, meio-dia no
esc i ó io e meio-dia à a de, eu coo denei is o com o meu ma ido e ele
azia exa amen e o con á io. Fica a de manhã em casa com os miúdos, e
de a de ele já podia i abalha . (…) Ago a, desde que se ol ou a e
77
a i idades escola es, no caso da mais pequena oi em junho que ab iu o p é-
escola , p on o icou udo mais ácil.”
Is o exigiu dos pais ele abalhado es uma lexibilidade e uma capacidade de
adap ação ainda maio , mui as ezes endo mesmo de se le ada ao ex emo. Is o jus i ica,
em la ga medida, mui os dos aspe os nega i os apon ados ao longo des a expe iência de
ele abalho em con inamen o, como a aca capacidade de concen ação; os cons an es
elemen os de dis ação; a necessidade de desdob a a a enção dada aos es an es
elemen os com quem se di idia a casa; a comple a diluição dos ho á ios, po o ça da
adap ação que os pais êm de aze às o inas e necessidades dos ilhos a seu ca go; a
queb a de p odu i idade sen ida du an e o pe íodo de ence amen o dos es abelecimen os
de ensino; e a é mesmo o aumen o das ensões ma imoniais sen ido em alguns casos.
Es a adap ação – impo a sublinha mais uma ez – oi quase semp e unidi ecional, uma
ez que se á di ícil, senão mesmo impossí el, pedi es e ipo de es o ço a c ianças, mui as
delas bas an e pequenas. Na maio pa e dos casos, pais epo a am nas en e is as que os
seus ilhos nem seque inham bem pe ceção do que se es a a a passa , e que e a como se
os pais es i essem em casa de é ias com eles, o nando quase impossí el es ipula
on ei as en e o empo e o espaço de abalho s o empo e o espaço domés ico e de
con í io amilia .
▲.14, Logoplas e: “O meu ma ido é mili a e nos p imei os 15 dias de
con inamen o ele icou echado na base sem pode sai e a minha ilha e o
meu en eado acha am que es a am de é ias. O meu en eado já não inha
necessidade nenhuma de acha isso, po que ele já em 13 anos. A minha
ilha inha acabado de aze 5. Ela cla amen e acha a que ela es a a de
é ias e que eu ambém es a ia. Eles nunca es i e am nes a si uação, en ão
oi um ajus e mui o complicado em que eu inha de ajus a os meus ho á ios
de abalho pa a me adap a à no a o ina.”
Ө.5, Logopals e: “É di ícil po que eu enho dois ilhos, um com 5 e ou o
com 1 ano e meio. E é mui o complicado po que enho de anda semp e a
ugi deles. Eu no malmen e ia abalha pa a a cozinha po que e a o úl imo
78
sí io onde eles me p ocu a am, mas a dada al u a do dia eles passa am po
lá. Tinha de es a com eles 10/15 minu os, eles dis aíam-se e eu
ap o ei a a pa a i pa a ou o sí io qualque . (…) mas eles acabam semp e
po me encon a . “
Ө.10, Logopals e: “a pequenina enquan o não anda a, as coisas o am
calmas. Mas no im da qua en ena ela começou a aga a -se às coisas e a
anda po aí. Ela mui as ezes começa a a cho a pa a nós [lhe] ab i mos a
po a e ela pode anda pela casa. E ele [ ilho mais elho] mui as ezes
inha aqui e connosco e dize que es a a a da alguma coisa na ele isão,
ou às ezes nós me íamo-lo a aze alguma coisa e de epen e ele dizia «pai,
já es ou a o... Vamos aze ou a coisa».”
Ti e am de se encon adas, c iadas e ec iadas es a égias de adap ação
cons an es, numa ges ão ei a quase ao minu o pelos pais. O ecu so sucessi o à colocação
de ilmes ou sé ies ele isi as pa a c ianças ou jo ens oi uma das soluções encon adas
mais mencionadas, sob e udo a a és da Ne lix ou ou as pla a o mas semelhan es ao
ní el do s eaming. No episódio dedicado ao ele abalho da sé ie SIC G ande
Repo agem: Pandemia 2020, Gus a o Ca doso, in es igado do ISCTE, explica-nos que
uma das mudanças sen idas desde o início da pandemia oi p ecisamen e o aumen o do
consumo de ilmes e sé ies a a és de pla a o mas como a Ne lix, Amazon P ime ou
HBO, e i icando-se inclusi e um aumen o das subsc ições pagas des es se iços.
Nou as si uações, os pais en a am esp eme ao máximo a sua capacidade imagina i a,
como oi caso da en e is ada ▲.14, que decidiu c ia um ho á io pe sonalizado pa a cada
um dos seus ilhos, com bonecos e ícones pa a que es es conseguissem pe cebe melho
quando e a, ou não, o empo de abalho da mãe e que a i idades de e iam aze a
de e minadas ho as, sem e em assim de in e ompe cons an emen e. Nou as si uações
os en e is ados con essa am que acaba am po p e e i le an a em-se mais cedo ou
dei a em-se mais a de que o no mal, ap o ei ando essas ho as em que os ilhos es a am
dei ados pa a abalha com mais calma e concen ação. To nou-se igualmen e eco en e
o apa ecimen o, mais ou menos di e o, das c ianças ao longo das ideocon e ências de
abalho.
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Ө.7, Logoplas e: “Lemb o-me de es a a ala com um colega meu do IT,
po que es a a com um p oblema no compu ado , e de epen e o ilho dele
começou a ou i música aos al os be os. E ele i a-se e diz assim «Epá,
es a é a única o ma que eu enho de consegui abalha e consegui que
eles es ejam quie os».”
▲.2, Logoplas e: “Ainda na sex a- ei a iz a a de a pa i de casa e de o
dize que i e uma con e ência com uma colega com a minha ilha ao colo,
po que senão inha a miúda aos g i os. No caso de c ianças pequenas, pa a
aí a é um ano de idade, é p a icamen e impossí el e endimen o.”
Alguns pais admi i am um ce o sen imen o de culpa po não consegui em da um
melho acompanhamen o aos ilhos, ou seguimen o mais a en o às a i idades que os
p o esso es en ia am pa a casa, mas as cons an es solici ações de abalho nem semp e
o pe mi i am.
Ou o aspe o impo an e a menciona e e en e às c ianças, é o ac o de e em sido
no adas al e ações de compo amen o an o pelos pais, como pelos docen es e não-
docen es das escolas e c eches. Quad os de ansiedade, al e ações epen inas de humo ,
uma maio melancolia, sinais de ca ência a e i a e compo amen os mais ag essi os
(sob e udo da pa e dos apazes) e au ocen ados o am as mani es ações mais apon adas.
▲.13, Logoplas e: “A mais pequena (…) semp e oi mui o independen e
e mais ou menos a um mês de es a mos nes a si uação [con inamen o e
echo das escolas], ela começou a ... an o ia como cho a a, sem azão
apa en e. Começou a i pa a a nossa cama à noi e que e a uma coisa que
já não acon ecia. Ela do mia sozinha desde en a idade. (…) no caso do
Lucas [ ilho mais elho], ele é um apaz com 10 anos, al a a-lhe aquela
coisa dos miúdos que andam à lu a uns com os ou os. E ele acaba a po
aze isso com a i mã, o que e a uma desg aça po que ele não em noção da
o ça que em.”
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▲.15, Vi ac ess: “Eu acho que a é acabou po a e a mais o mais pequeno
do que o mais elho. Po que o mais pequeno é mui o de a e os, é mui o de
oque. Ele pede às educado as pa a i a em as másca as pa a lhes e os
so isos. Que -lhes da beijinhos. Ele ainda não se habi uou mui o a isso.
Ele ado a aga a as pessoas. Tan o que acon eceu uma si uação em que a
pessoa es a a com másca a, en ão ele le an ou a blusa e deu um beijinho
nas cos as da pessoa. (…) Ele en a en ia a mão den o das másca as das
educado as pa a lhes oca .”
▲.2, Logopals e: “No ou-se ambém na escola dos miúdos. Os apazes
quando eg essa am à escola iam ex emamen e iolen os. Nós i emos
ecen emen e uma eunião de escola à dis ância e os p o esso es dizem
odos o mesmo. De se emb o a ou ub o os apazes b inca am a ba e em-se
e ag edi em-se. Hou e mui as c ianças que es a am desno eadas.”
Dados e e en es a an e io es si uações de eme gência, como oi o caso do su o
de SARS em 2003 em cidades chinesas e canadianas, apon am ambém pa a sinais de
c escen e ansiedade, dep essão e sin omas pós- aumá icos em c ianças e jo ens. De
aco do com os es udos ei os ao ab igo da O ganização pa a a Coope ação e
Desen ol imen o Econômico, es es e ei os secundá ios pode ão i a se mais in ensos
na sequência da pandemia Co id-19, ainda que o aumen o das in e ações sociais ia
online ou ou as pla a o mas digi ais possa se uma ajuda na mi igação de alguns aspe os
mais nega i os. Os impac os nega i os se ão sob e udo sen idos nas amílias de camadas
socioeconómicas mais baixas, especialmen e nos países mais pob es, o que não oi o caso
da amos a de pessoas en e is adas nes es dois casos de es udo. Is o não signi ica que a
a enção a es e g upo e á io não de a se con inuada mesmo quando a si uação
epidemiológica se e e e , endo especialmen e em con a que as p imei as mani es ações
de uma saúde men al debili ada su gem p ecisamen e a pa i da pube dade (OCDE 2020).
Quan o ao p ocesso de ap endizagem du an e o echo das escolas, es as en e is as
o na am ainda mais ób ia a impo ância c í ica dos pais no p ocesso de ap endizagem
dos ilhos em casa, especialmen e a é aos 7 anos de idade. Sem as habi uais es u u as de
apoio e cuidado, a educação in an il ica comple amen e dependen e do ambien e amilia
de cada c iança ou jo em (das condições ísicas da cada, do acesso a ma e iais digi ais e
87
ela se sen e à on ade. En ão esse empo ela ai usa pa a aze as coisas
pessoais dela.”
Concluindo, exis e um o e isco de na Eu opa, e nos es an es países do mundo,
se aze sen i um e ocesso no que oca aos p og essos ei os pela lu a dos di ei os de
igualdade das mulhe es, a menos que sejam desde já omadas medidas polí icas que
p e endam in e e esse e ei o pe e so e que sejam idas e aplicadas como p io idade no
cen o dos di e en es planos de ecupe ação dos á ios países. A esse espei o, Ma iana
Viei a da Sil a, Minis a da P esidência e da Mode nização Adminis a i a, con i mou a
especial a enção que se p e ê da a es es emas no O çamen o de Es ado de 2021:
de e minou que se p ocedesse à desag egação possí el po sexo de odos os ins umen os
adminis a i os da adminis ação cen al; que se incluísse, pela p imei a ez, um conjun o
de indicado es com o in ui o de a alia , anualmen e, os p og essos de igualdade en e
géne os, e a alia o modo como polí icas públicas podem, de ac o, se uma mais alia
pa a esse p og esso; a c iação de um apoio ex ao diná io ao endimen o dos
abalhado es independen es e abalhado es po con a de ou em, onde se incluem
mui as mulhe es que p es am se iços domés icos, lemb ando ainda que a c iação des e
ipo de medidas que se ocam no apoio a abalhado es in o mais, são medidas que
in a ia elmen e endem a p o ege sob e udo mulhe es; ou o lançamen o de uma
p es ação adicional de apoio à amília com uma ab angência de 800 mil come cian es,
num o al de 26 milhões de eu os (Pe ei a 2021).
88
V. TELETRABALHO E SOCIABILIDADES
Es e capí ulo e á como p incipais obje i os cob i duas g andes p oblemá icas.
Uma p imei a que segui á de pe o os esul ados ob idos a a és dos ques ioná ios
subme idos aos en e is ados, en ando pe cebe de que modo as medidas de
con inamen o e dis anciamen o ísico al e a am o dia-a-dia das pessoas o a do seu
uni e so de abalho e, po conseguin e, as suas o inas e pad ões sociais. Es a p imei a
análise se á in eg ada nas di e sas e lexões que se êm desde semp e ei o sob e o
po encial impac o do ele abalho nas endências dominan es de mobilidade den o da
sociedade e, po sua ez, que consequências isso em e pode á i a e no p óp io desenho
e i ência dos espaços u banos.
Po ou o lado, es e capí ulo dedica á ambém espaço pa a e le i sob e a
impo ância do local de abalho comum p esencial enquan o um impo an e agen e de
socialização, pa indo, pa a al, dos mui os ela os dos en e is ados sob e a expe iência
da sua ausência, e que impac os essa mudança e e no seio das elações es abelecidas no
local de abalho e nas p óp ias idas pessoais dos abalhado es.
V.I Al e ação dos pad ões de mobilidade e implicações espaciais
Pe an e a possibilidade e opo unidade de pode abalha à dis ância e a pa i de
casa, á ios uncioná ios da Logoplas e e da Vi ac ess cujas unções pe mi iam essa
lexibilidade ap o ei a am pa a sai dos seus locais de esidência po di e sos mo i os.
Pa a alguns, oi a opo unidade de sai dos g andes cen os u banos e se e ugia em em
zonas menos conges ionadas e/ou mais u ais onde dispusessem de uma segunda casa;
ou os p e e i am ap o ei a es a opo unidade pa a iaja e conhece no as localidades
den o do país, ao mesmo empo que exe ciam as suas unções labo ais; em con ex os de
elacionamen os à dis ância, es a oi uma chance de eunião e de melho equilíb io en e
a ida pessoal e p o issional; nou os casos ainda, mui os abalhado es ap o ei a am
es es pe íodos de con inamen o pa a ol a pa a casa dos pais e cuida deles. Es as o am
as azões mais apon adas ao longo das en e is as.
89
Ө.15, Logoplas e: “Eu nes e momen o não es ou em Lisboa po que a
minha namo ada é de A ei o e es ou em A ei o. Po an o enho essa
acilidade de es a numa cidade di e en e e es ou como se es i esse em casa.
Es ou na casa dos pais dela po que es amos a emodela a casa. E como não
es ou na cidade g ande acabo po e uma o ma de i e mais anquila.
Eu quando alei de meia ho a pa a i às comp as e a aqui, em Lisboa não é
a mesma coisa. (…) Aqui nes a zona em que eu es ou esses momen os de
paz são mais. O que eu aço em Lisboa numa ho a, aqui aço em 10/15
minu os. Sin o-me ainda mais descon aído e anquilo po que es ou num
ambien e mais calmo.”
▲.3, Vi ac ess: “En ão eu op ei o ano passado, quando en ei em
ele abalho, po es a semp e em Lisboa. Es ou em casa dos meus pais;
ambém pa a da algum apoio.”
▲.16, Logoplas e: “I ha e some iends ha a e ice-p esiden s o wo k
in la ge companies and s a like ha , and do he wo k om home and some
spen 3 mon hs in A izona. They a e pe ec ly able o do all hei
con e ences calls and e e y hing by hemsel es. So, I’ e no known people
who ha e sold hei homes and mo ed ou o o he a eas, bu I know people
ha ha e said, «My b o he does business in communica ion en als, so
hey ha e people who ha e come and s ayed o a mon h. And hen hey
mo ed o ano he place o a mon h, and hen o ano he place o a mon h».
Di e en ci ies, di e en owns, and hey ha e he weekends o go explo e
o wha e e . The p ope y s a e ma ke is elly s ong igh now in he
USA.”
Ө.12, Logoplas e: “Po exemplo, o nosso desenhado , aquele apaz que
anda a semp e a pedi pa a abalha em casa. Ele oi pa a casa da mulhe ,
em Pombal. Ele an es inha de aluga uma casa em Cascais pa a es a
du an e a semana e depois ol a a pa a Pombal na sex a- ei a e ol a a
pa a Cascais na segunda. E aquilo e a cha o pa a ele.”
90
As a i idades mais pe meá eis a um egime de ele abalho - elewo kabili y –
endem a concen a -se nas cidades e g andes cen os u banos (44%), em compa ação
com ilas, cidades mais pequenas e subú bios (35%), ou mesmo zonas u ais (29%).
Con udo, o eben a do su o pandêmico pode á i a e epe cussões du adou as na
dis ibuição geog á ico-espacial do abalho, alas ando-se a zonas a é en ão conside adas
como mais pe i é icas, e p omo endo assim uma deslocação dos cen os de a i idade
económica, de negócios e imobiliá ia. Po ou o lado, a expe iência pandêmica êm indo
a incen i a a c iação de espaços co-wo king e a melho ia das in aes u u as de
elecomunicações em zonas onde es as se encon am em condições medíoc es ou
insu icien es. Con udo, impo a elemb a que “ he decision abou whe e o li e elies on
a nexus o in e ac ing ac s and no only employmen oppo uni ies” (Lodo ici e al. 2021,
78)
Em con e sa com o Di e o de Vendas da Vi ac ess, es e explicou que de ac o se
e i ica que, no caso po uguês, as g andes cidades de Lisboa e do Po o são os locais que
êm ap esen ado pio desempenho em e mos de me cado. Que is o dize que o
c escimen o das comp as das pessoas em-se desen ol ido mais apidamen e o a des es
dois cen os u banos: po um lado, po que mui as das comp as ei as nes es dois g andes
cen os e am ei as po abalhado es que não i iam nem em Lisboa, nem no Po o, mas
que aqui abalhando ap o ei a am o caminho de ol a pa a casa pa a se abas ece em do
necessá io. Po ou o lado, es ando a abalha em casa, mui as pessoas deixa am de
equen a os es au an es e ca és que a é en ão equen a am, ou inclusi e ap o ei a am
pa a muda de médico nou a zona mais acessí el, ou passa a p a ica despo o mais pe o
de casa, e c. Todas es as al e ações i e am um impac o económico nega i o nos g andes
cen os do pon o de is a imobiliá io, na o ganização das cidades e no in es imen o nas
ope ações de e alho, e isso pode á i a coloca eno mes desa ios.
Numa en e is a ao Exp esso, o u banis a e p o esso uni e si á io na So bonne,
explica que a p incipal azão pela qual as pessoas passam o equi alen e, em média, a um
dia de abalho semanal em deslocações, se de e essencialmen e ao ca á e segmen ado
das cidades e do modo de como mui os abalhado es as expe ienciam. “Vi e-se numa
zona, abalha-se nou a e azem-se as comp as algu es en e as duas” (Albuque que 2020,
24). Po esse mo i o se em alado an o na necessidade de se apos a em no os modelos
de u banismo, como o concei o das ‘cidades de 15 minu os’, segundo o qual cada á ea
u banizada se ia do ada de udo aquilo que osse conside ado bens e se iços essenciais
91
pa a os seus habi an es a uma dis ância de um qua o de ho a, pe mi indo inclusi e a
adoção de hábi os de deslocação mais sus en á eis, como se ia o caso de anda a pé ou
op a pelo uso de uma bicicle a. O ele abalho eio, de ac o, muda os pad ões de
mobilidade pa a algumas pessoas e, nesse seguimen o, pe mi iu uma desacele ação dos
i mos de ida quo idianos.
Reacende am-se ambém an igas discussões sob e o impac o que a adoção des e
egime de abalho à dis ância pode á i a e em e mos ambien ais. De ac o, os
impac os ambien ais que es a pandemia susci ou são eais e não podem – nem de em –
se igno ados ou menosp ezados, endo sido bas an e di ulgados pelos media e nas edes
sociais numa ase inicial. A diminuição de emissões de CO2 em sido ab up a, ce ca de
25%, sem dú ida a edução mais ápida e imedia a após odos es es anos de negociações
climá icas. As imagens cap adas pelos sa éli es da NASA mos am como a a mos e a
sob e a China pa ece es a conside a elmen e limpa de óxido ni oso. Em Wuhan o a
o nou a se espi á el, al como em Shanghai, Beijing e Changqing de ido à diminuição
ab up a no consumo e p odução de óleo e aço, assim como nos oos domés icos. Em
Veneza em ha ido uma melho ia da qualidade do a e da água nos canais e os habi an es
locais comen am que, pela p imei a ez, conseguem e os peixes a nada . Es es são
apenas alguns exemplos en e mui os ou os.
Re omando a ques ão acima mencionada e e en e à mobilidade, os abalhado es
na União Eu opeia com enquad amen o legal usam sob e udo ca os p i ados como
p incipal meio de anspo e (50%); apenas 16% azem uso dos anspo es públicos e
12% eco em a bicicle as. Num odo, as deslocações diá ias den o da UE são
esponsá eis po 25% do CO2 emi ido pa a a a mos e a. Vá ios es udos de endem o
impac o cen al da edução das deslocações diá ias. Um es udo de 2015 da Agence de la
T ansi ion Écologique de ende que uma média de 2,9 dias de ele abalho po semana i ia
eduzi em ce ca de 30% os impac os das deslocações diá ias, esponsá eis po 3,7% das
emissões de gases de e ei o es u a. Ou o a igo a gumen a que a ní el global se ia
possí el eduzi 1% do consumo global de pe óleo pa a anspo es odo iá ios po ano,
se odos aqueles que pudessem ele abalhassem pelo menos um dia po semana (Lodo ici
e al. 2021).
Con udo, no que diz espei o a es a ques ão ambien al, pa a além des es núme os
se em esiduais em compa ação com o odo do p oblema, a ealidade é bas an e mais
92
ambígua do que inicialmen e apa en ou se . Só em elação ao impac o ambien al do
ele abalho, de e-se e ambém em a enção que, na p á ica, ele depende de múl iplos
a o es, ais como a dis ância das deslocações, a quan idade e ipo de ene gia gas a em
casa, ou as possí eis deslocações que possam se ei as (que não pa a o abalho), ou
inclusi e os núme os e e en es ao uso de ecnologias digi ais e associados. Em úl ima
ins ância, o impac o do ele abalho se ia mui o mode ado e ques ioná el. Mui o
ecen emen e, An ónio Gu e es, sec e á io-ge al da ONU, eio con i ma que a queda de
CO2 e i icada no ano de 2020 oi me amen e empo á ia, e as emissões de combus í eis
ósseis o am já ecupe adas e con inuam numa aje ó ia ascenden e, o que se e i ica
nos g a es e en os climá icos que só es e ano se in ensi ica am em odo o mundo.
No caso especí ico da Logoplas e, es as ques ões o am ambém colocadas e
abo dadas com a esponsá el pelos assun os de sus en abilidade a ní el adminis a i o.
▲.12, Logoplas e: “Há uma sé ie de pessoas que êm ca o da emp esa. E
o ac o de es a es em ele abalho az com que u ilizes pouco o ca o. É
uma das nossas on es de emissões di e as. Logo aí hou e uma diminuição.
(…) Depois as emp esas que enham essa lexibilidade, não p ecisam de
edi ícios e esc i ó ios ão g andes. Cla o que a emp esa ai e sa ings em
ele icidade e água po e menos gen e aqui, mas depois esse gas o acaba
po e o abalhado em casa, po isso não acho que aí haja g andes
diminuições no odo. Há apenas uma ans e ência de emissões. (…) Se
o mos e , na nossa p odução não hou e impac o nenhum, po que
con inuamos a p oduzi o mesmo e a gas a ene gia, o mesmo com as
ma é ias-p imas. [Ques ão: E achas que essa ques ão das deslocações ai
pesa num possí el u u o modelo que a Logoplas e decida desen ol e
pa a o ele abalho?] Não acho que se á po causa des e ipo de emissões,
que algumas ez se á oma uma decisão. Acho que aí se á mais uma
ques ão de sa is ação do colabo ado , po que quan o mais au ónomos
somos e maio lexibilidade emos, isso acaba semp e po melho a a nossa
au oes ima e somos mais p odu i os.”
93
V.II Local de abalho enquan o espaço de sociabilização e a
in eg ação de no os memb os na emp esa em egime de ele abalho
En ende-se po socialização o conjun o de p ocessos a a és dos quais os
indi íduos são ensinados - de o ma áci a e/ou explíci a – e inco po am as compe ências
necessá ias, os pad ões de compo amen o, as mo i ações e os alo es p ecisos pa a uma
pa icipação, in eg ação e uncionamen o ido como adequado e uncional no seio de cada
cul u a. Es es p ocessos são ansmi idos de ge ação em ge ação, mas não de o ma
es á ica e in a iá el, uma ez que exis e ambém nas pessoas a capacidade de se em
socializadas pa a se adap a em às cons an es ans o mações das ci cuns âncias. Exis e
uma endência pa a as eo ias e in es igações sob e es es p ocessos de socialização se
deb uça em sob e as ases iniciais de desen ol imen o das c ianças e adolescen es a é se
o na em po enciais adul os. Nesse sen ido, a amília e as escolas são elemen os p edile os
enquan o agen e de socialização. Con udo, os p ocessos de socialização oco em ao longo
de oda a ida do indi íduo, semp e que es e se inicia em no os con ex os sociais, onde
no os pad ões de compo amen o social êm de lhe se ansmi idos (G usec and Has ings
2015).
O local de abalho é um dos espaços de socialização mais impo an es ao longo
da ida adul a, sendo a ins i uição emp esa conside ada um espaço p i ilegiado de
p odução e ep odução de elações sociais, assim como de sen idos simbólicos (F ei e
1993). John Sco e Go don Ma shall desc e em o concei o de socialização no abalho
enquan o
“p ocess o lea ning o labou in paid employmen and con o ming o he
associa ed ideological s uc u es: in e nalizing he no ms, alues and cul u e o he
wo kplace, employing o ganiza ion, p o ession, o occupa ional g oup; accommoda ing
o powe and au ho i y ela ions a he wo kplace; acqui ing he skills o seconda y
ela ionships; complying wi h he pa icula ole and unc ions alloca ed o he indi idual
wo ke ; and adop ing he beha iou s p e e ed by employe s (such as punc uali y, eam
spi i , and loyal y). Mo e gene ally, i in ol es lea ning o alue he a i udes ha
ein o ce he wo h o wo k in gene al and he skills in ol ed in doing pa icula jobs,
94
such as s eng h, dex e i y, nume acy, c ea i i y, analy ical abili ies, o pe suasi eness”
(Ox o d Re e ence 2009)
Uma das p incipais p eocupações p esen e ao longo das en e is as p endeu-se
p ecisamen e com a en a i a de pe cebe quais os desa ios encon ados pelos ecém-
chegados memb os da Vi ac ess e da Logoplas e, du an e um pe íodo em que o abalho
oi maio i a iamen e assegu ado à dis ância e a pa i de ecnologias digi ais. De que
modo es as no as ci cuns âncias al e a am o p ocesso de in eg ação de no os
abalhado es e como é a o ganização e as equipas p é-exis en es se molda am às no as
necessidades.
▲.6, Logoplas e: “Ti e duas pessoas da equipa que saí am du an e o
con inamen o, po isso i e de aze ec u amen os. Mas co eu bem e as
pessoas es ão pe ei amen e in eg adas hoje em dia. Uma delas já inha
abalhado na Logoplas e, o que ajudou. E a ou a pessoa ambém já inha
en e is ado a é pessoalmen e, po que já se inha candida ado numa ou a
opo unidade (…) oi um desa io aze ec u amen o po ideochamada,
mas co eu bem. Quando as pessoas en a am izemos euniões de
ap esen ação, pa a elas conhece em a equipa. Es as no as e amen as
ambém ajuda am bas an e. O Teams em ajudado bas an e. E es a
possibilidade de as pessoas pode em g a a e pa ilha ec ãs é mui o melho
do que e a an es o Skype. (…) Em e mos de o mação a é é bom po que as
pessoas conseguem es a mais concen adas do que se es i essem no
esc i ó io, e conseguem pa ilha bem a in o mação pelo Teams. Acabou
po se mui o p odu i o. E as pessoas a é acaba am po assimila as
o mações mui o mais ápido des a manei a, do que se calha se as i essem
ecebido p esencialmen e.”
▲.9, Vi ac ess: “Tínhamos de e semp e alguém do depa amen o a
ep esen a , mas nunca podíamos es a odas, po que o open space da
Vi ac ess não da a pa a es a mos lá odas em segu ança. (…). Depois is o
começou a pio a e a é a emp esa nos manda i odos pa a casa, omos pa a
95
um con en o . Po que, en e an o, en ou uma pessoa no a e ínhamos de
e semp e uma pessoa da equipa p esencialmen e com ela pa a a
consegui mos ensina . En e an o is o começou a pio a mais e iemos
odos pa a casa. [Ques ão: Esse pe íodo no con en o , em que es a a
semp e uma pessoa da ossa equipa a da o mação, du ou quan o empo?]
Um mês. [Ques ão: E ela conseguiu adap a -se bem?] Sim. Ti emos a
empu á-la [ isos]. Mas o Teams é uma g ande e amen a, po que
conseguimos pa ilha com ela as coisas, de o ma que ela conseguisse e
o que es á a acon ece e i omando no as.”
▲.8, Vi ac ess: “Ac edi o que não enha sido uma in eg ação como oi a
minha, não é? Po que é complicado. Nós ainda não conseguimos aze um
jan a ou almoço com ela [no a es agiá ia], como eu i e a opo unidade de
e logo no início quando cheguei. Nós e amos uma emp esa que azia
lanches, azíamos po co no espe o odos os anos. Aquilo e a eng açado (…)
e a um momen o em que jun á amos oda a gen e: pessoal da áb ica, do
campo, do esc i ó io. E lemb o-me que isso acon eceu um ou dois meses
depois de eu e chegado e é um ó imo momen o pa a u conhece es as
pessoas com quem não lidas di e amen e no abalho. A é o p óp io jan a
de Na al. Ela [no a es agiá ia], po exemplo, en ou depois do jan a e não
e e a opo unidade de pa icipa . E isso em e mos de socialização, oi
mui o di e en e. Em e mos de adap ação à unção, acho que emos en ado
da o apoio que ela p ecisa; ligamos e en amos in e agi com ela á ias
ezes, apesa de ela es a mais no esc i ó io do que nós. Po que as unções
que ela es á a desempenha , impossibili am o ele abalho. Ela em mui as
unções de e eno. Acabamos po ala com ela mais po Teams e quando
lá amos.”
Nos ês casos, o ecu so ao uso da pla a o ma Teams oi uma mais- alia an o
pa a os no os elemen os, como pa a os colegas de abalho que ica am enca egues do
seu p ocesso de o mação. A possibilidade de g a a as ideochamadas, de pa ilha e
gua da au oma icamen e documen os que sejam aqui colocados e o p óp io ac o de não
ha e as habi uais in e upções de esc i ó io pa ecem e o nado o p ocesso de
96
ap endizagem inicial mais e icaz e p odu i o. Es es bons esul ados elacionam-se com o
ac o de, em ele abalho, e exis ido uma endência pa a uma c escen e uncionalização
e o malização da comunicação en e abalhado es, como já mencionado no Capí ulo III.
Não deixa se cu ioso no a que o ac o de os dois memb os ecém-chegados à Logoplas e
já e em ido algum ipo de con ac o e expe iência p é ia com a emp esa, e acili ado a
sua in eg ação, pelo menos den o da sua espe i a equipa e depa amen o. Já no caso da
Vi ac ess, oi necessá io aze um es o ço de o ma a ga an i o mínimo de
acompanhamen o p esencial aos no os es agiá ios. Em qualque um dos casos, a
in e ação dos no os elemen os e e de se limi a a um núme o mui o mais eduzido de
colegas, endencialmen e do mesmo depa amen o, o que e idência a al possibilidade de
maio ap oximação en e pessoas den o da mesma equipa/g upo de abalho, mas um
a as amen o en e equipas/g upo den o da o ganização num odo.
Na e en ualidade do ele abalho i a se ado ado nes as duas emp esas, seja de
o ma pa cial ou o al, se á ulc al pensa em es a égias de in eg ação de no os
abalhado es, de o ma a ga an i uma in eg ação que inclua a componen e p esencial,
de o ma a mais acilmen e pe mi i a c iação de no as elações com os colegas e
supe iso es. O es o ço de in eg ação em de se bila e al, pa indo an o do indi íduo
como da o ganização (G usec and Has ings 2015). Po o ça das ci cuns âncias
pandémicas, a endência em sido pa a es e es o ço e ecaído mais pa a cima do
indi íduo ecém-chegado no sen ido em que, de ido ao dis anciamen o ísico e à al a de
con ac o di e o, em de depende mais das suas p óp ias ca ac e ís icas e compo amen os
(uma a i ude p oa i a e mo i ada, au o-e icácia, e c).
▲.17, Logoplas e: “Acho impo an e que as pessoas enham pelo menos
um ano de con ac o pessoal na sede, e as o inas, a dinâmica, pe cebe a
cul u a que se i e na emp esa. E depois sim, da essa opção de escolha,
não ob iga a aze ele abalho.”
103
Ө.1, Logoplas e: “As pessoas são mais ese adas. A é po que ocê ai
chega pe o de um colega, em de me e másca a. En ão aquelas con e sas
que não são impo an es, deixa am de se di as.”
▲.15, Vi ac ess: “Além de não gos a de es a em ele abalho, ou o dos
mo i os é que não ens ninguém ao eu lado pa a ala . Tu es ás no
esc i ó io e ens um p oblema qualque , le an as- e, ais e com o eu
colega e desaba as ‘epá, ogo, que po ca ia, acon eceu is o...’. Ou mesmo
que não ás e com ele, ele ape cebe-se que es ás com um p oblema
qualque e ap oxima-se de i e en a ajuda .”
▲.17, Logoplas e: “Sim, sen i que aquela con e sa do dia-a-dia...
acabá amos po sabe como é que a amília es á, os p oblemas que pode
ha e com os ilhos... odos esses emas que não são abalho, mas que ao
im ao cabo con ibuem pa a aquela elação. Isso sim, isso acabou po
desapa ece . Apesa de, quando se começa a ala com algum colega no
Teams, pe gun amos semp e se es á udo bem. Mas a amen e as pessoas
dizem que não es á udo bem, ou seja, é mais uma pe gun a de boa educação
do que p op iamen e um desaba o que ai acon ece . Mas ao i o isso já
acon ece.”
Os dados ecolhidos ie am mais uma ez e o ça a impo ância das con e sas
in o mais ( ambém conhecida pela exp essão small alk) na cons ução e consolidação de
elações sociais, especialmen e em con ex o de abalho, e a eno me in luência que a
dis ibuição dos co pos no empo e no espaço êm nes e ipo de in e ações. Como
an e io men e e e ido no Es ado da A e, do pon o de is a académico e popula , as
con e sas de small alk são inadequadas e equen emen e is as como um modo
pe i é ico e con encional de dialoga , pouco sé io e sem g ande ele ância, mui as ezes
usado de modo a ‘ocupa ’ os azios do silêncio e, po es es mo i os, de meno
impo ância.
A con e sa é um p ocesso mul i uncional. No caso da small alk, es a se e não
só o p opósi o de es abelece um con ac o inicial en e duas pessoas, mas ambém
desempenha impo an es unções e e enciais e a e i as. É ambém um dos meios a a és
104
dos quais negociamos as nossas elações in e pessoais, algo que Jus ine Coupland
conside a “a c ucial uc ion o alk wi h signi ican implica ions o on-going and u u e
in e ac ions” (Coupland 2000, 34). No con ex o de ambien e de abalho, a au o a suge e
pensa a small alk enquan o um espec o: num dos ex emos es a iam os diálogos
es i amen e in o ma i os e ocados em assun os es i amen e elacionados com as
unções e a e as desempenhadas, se indo di e amen e os obje i os e necessidades da
o ganização («co e business alk»); do ou o lado do espec o, encon am-se as con e sas
que são independen es do qualque local de abalho, com ela i amen e pouco ou
nenhuma con eúdo e e encial ou in o ma i o, i ele an e pa a o abalho em causa. Um
exemplo se ia a oca de cump imen os ma inais, ou um comen á io e e en e às
condições a mos é icas daquele dia («pha ic communion») (Fig.3). Con udo, Coupland
essal a que “such social o colegial alk may be e y impo an in e ms o i s a ec i e
componen s, and so se e he o ganiza ion’s goals indi ec ly by man aining good
ela ionship be ween employees” (Coupland 2000, 38).
A small alk ende a oco e com mais equência nas on ei as das in e ações,
assim como nos momen os de ansição na o ina diá ia do abalho. Um exemplo, são os
cump imen os e as despedidas que se cos umam da e deseja à en ada e à saída do local
de abalho, ou as con e sas que se êm en e colegas à ho a de almoço ou jun o do pon o
de ca é.
Ө.19, Logoplas e: “A ho a de almoço é uma ho a mui o impo an e pa a
socializa e eu di ia que é mesmo nessas al u as que u c ias uma maio
ligação com as pessoas. Alguns depa amen os com os quais nos não emos
de comunica , desapa ecem. Po exemplo eu inha pessoas com quem
almoça a odos os dias, e não alo com eles há quase um ano. Po quê?
Po que o nosso depa amen o não p ecisa de in e agi com o deles.”
Ө.9, Logoplas e: “Almoça mos com alguém e aquelas coisas que
descob imos sob e aquela pessoa, que nos azem en ende melho po que
é que aquela pessoa é como é. Tu se es i e es a en o às pessoas, às ezes
ais pe cebe que aquele indi íduo que em um ei io di ícil, há ali um bom
mo i o pa a isso e ele se calha em i ências mui o complicadas, ou há
qualque coisa na ida dele que não co eu bem. (…) Há mui os casos,
105
quase odos os que eu conheço de pessoas complicadas, que u ap endes e
mui o sob e eles mui as ezes em ambien e de abalho, mas o a da
discussão de abalho. Quando discu es p oblemas de acismo, ou quando
pe cebes qual é que é o ag egado amilia daquela pessoa. (…) Esse ipo de
expe iência eu acho mui o di ícil a a és de um ambien e pu amen e
i ual.”
Ө.2, Logoplas e: “Mas se ocê olha um bocadinho pa a es a no a o ma
de abalha ê que nada subs i ui a in e ação humana. A chamada
«discussão do ca é» é ex emamen e impo an e, po que mui as ezes
ideias e alguma cons ução de ino ação su ge da con e sa de ca é. Mui as
ezes quando es á no ca é com o colega ou com um amigo, mui as ezes
ai-se alando de ópicos p o issionais. Ou quando se ai uma um ciga o.
É es e ambien e mais elaxado que mui as ezes es imula o p ocesso
c ia i o.”
Aqui as noções de p ocesso c ia i o e da c ia i idade assen am bas an e numa
conceção longi udinal, assen e mais numa ideia de expe iência cole i a exis en e na
elação com as coisas e com/en e as pessoas, do que p op iamen e num ei o ou
‘genialidade’ indi idual como classicamen e conhecemos es a ideia do ´génio´; enquan o
qualidade in ínseca à p óp ia ida humana na sua capacidade gene a i a. Es a dis inção
é pensada po Tim Ingold, que dis ingue a c ia i idade cons uída da c ia i idade
expe ienciada, com base no abalho do eólogo ame icano Hen y Nelson Wieman. “Es a
es la c ea i idad de la ida social. Pues o que la ida social no es lo que la pe sona hace,
sino aquello que expe iencia: un p ocesso en el que los se es humanos no c ean
sociedades, sino que, i endo en sociedad, se c ean a si mismos y unos a o os” (Ingold
2016, n.p.).
De ac o, mui as ezes os canais in o mais são os ó imos meios de di usão e
c iação de conhecimen o. Po ‘canais in o mais’ en enda-se si uações em que os discu sos
e as a i idades acon ecem de o ma espon ânea, e que não são concebidas em o no de
um obje i o especí ico. O humo é ou o bom exemplo de in e ação in o mal, que acaba
po desempenha di e en es unções no local de abalho. Segundo Be nie Mak e Yiqi
Deneen, no p ocesso de socialização o ganizacional o humo pode se en endido e
106
expe ienciado enquan o mecanismo egulado e mecanismo pa a aze ace à ad e sidade:
“as an indica o o he app ecia ed o dep ecia ed, a p oo o membe ship, a o m o
en e ainmen , a ool o ge asks done, a s a egy o de la e s a us di e en ia ion, a ool
o challenge managemen and o m subcul u e, a means o sub e no ms wi hou
ouching he bo om line and a means o build up ela ionship wi h in eg a ed colleagues”
(Mak and Deneen 2012, 166)
Po úl imo, impo a menciona como (com base em odas as en e is as ei as) se
o nou no ó ia a impo ância do co po e da expe iência do co po enquan o elemen o a i o
– e não passi o – nas elações es abelecidas en e colegas de abalho, uma ez que a
linguagem em ma e ialidade, uma ez que exige um meio, e a mediação a ia no espaço
e no empo. As saudades do ambien e de esc i ó io e do eencon o com os colegas em
ambien e de abalho passa am, p ecisamen e, pela ausência da p esença ísica dos
indi íduos e pela sua subs i uição po uma p esença i ual.
Ө.20, Logoplas e: “Any ime we in e ac wi h people - pa icula ly ace-
o- ace- we een o ce us. We alue ou sel es om i . (…) And ha kind o
in o ma ion ha you can ge when you alk ace o ace, ha body
in o ma ion... ha is all een o cing o us, human beings. Reen o ce ha we
a e good, ha we’ e accep ed, ha we i in, ha we’ e pa o socie y. And
I hink elec onic comunica ion mu les ha , i mu es i . You can s ill ha e
he one o oice, you use cama as and can s ill ha e some isual eedback,
bu you don ge as ull on econ o ing who you a e as an human being.”
V.V Di e en es cul u as e di e en es es a égias de espos a às medidas
sani á ias em con ex o labo al – o caso da Logoplas e.
Fo mado po duas pessoas, o Depa amen o de Comunicação In e na da
Logoplas e é um ecu so in e no que se e odos os depa amen os, odas as áb icas,
odos os esc i ó ios e odas as á eas da emp esa nos di e en es países onde es a se
encon a. A ní el global a missão des a equipa consis e em ga an i que odos os 2.5000
colegas do mundo in ei o, com odas as suas di e sidades em e mos de idiomas, usos
ho á ios, cul u as e modos de ida, ecebam odos as mesmas mensagens ao mesmo
107
empo. E que essa sinc onia ajude a ece um sen imen o de união en e abalhado es da
Logoplas e de di e en es países.
Desde que a pandemia su giu e que no as medidas de segu ança sani á ia i e am
de se apidamen e implemen adas po pa e da emp esa, é in e essan e e i ica que a
o ma como a in o mação oi abalhada e pa ilhada pelo Depa amen o de Comunicação
a iou consoan e o público-al o, pelo ac o de e ido em a enção a necessidade da
comunicação se adap a aos di e en es con ex os nacionais e a di e en es es a égias p é-
exis en es (ou inexis en es) pa a comba e a disseminação do í us.
▲.7, Logoplas e: “Nós sabíamos exa amen e quais e am as eg as (...) e
ínhamos de adap a localmen e a in o mação. O que é ex emamen e
impo an e po que «one size does no i all» (…). Como u in e ages e
como u consegues le a as uas equipas a bom po o, nem que seja a la a
as mãos 2 ezes ao dia... eu es ou a ala nis o e pa ece piada, mas nós nas
áb icas emos es e p oblema. Pessoas que não la am an as ezes as mãos
como de iam, e coisas que pa ecem supe básicas pa a nós que emos um
bocadinho mais de educação e que lemos mais, que conseguimos e o big
pic u e, emos colegas que não. E emos de adap a a in o mação e ajus a
os plan manage s nas suas di e sas á eas. (…) Po exemplo, os EUA que
a anca am com as medidas de segu ança um bocado mais a de – não a
ní el da Logoplas e, mas a ní el nacional – o que nos izemos oi adap a
pos e s de dis anciamen o social. Esse oi um dos g andes p oblemas nos
EUA. Os pos e s e am di e en es po que a linguagem e a di e en e. (…) Os
pos e s de dis anciamen o social pa a os EUA, man inham as mesmas
imagens, mesmo le e ing e isso udo, mas a mensagem, a legenda de cada
imagem pa a aquilo que ens de aze é mui o mais uma ins ução do que
uma legenda, pa a se mais p e o no b anco. Usamos mais pala as de o ça
e de comando. (…) E imagina, os pos e s a ní el mundial são «Não e
esqueças de man e no mínimo 2 me os de dis ância en e i e os ou os»,
e nos EUA é «Man ém 2 me os de dis ância en e i e os ou os». Pe cebes
a di e ença? Coisas sub is, mas é mais impe a i o po que é p eciso.”
108
As limi ações que es e es udo ap esen a não pe mi em uma análise consis en e e
mais ap o undada das di e enças cul u ais nas di e en es plan as das Logoplas e
espalhadas pelo mundo. Con udo, a en e is a com a esponsá el pelo depa amen o
acima e e ido mos a como a cul u a in luencia não só as espos as às medidas de
segu ança sani á ia implemen adas, como o p óp io ipo de comunicação p e en i a. Os
di e en es g aus de ulne abilidade à COVID-19 são esul an es não apenas do ní el
expe ienciado e omado a ní el indi idual, mas ambém das p óp ias es u u as sociais
que ab angem as comunidades. Os e en uais aços p edominan es de uma cul u a
nacional, po exemplo, são pa e in eg an e dos “p og amas men ais” (Ho s ede 2003) das
pessoas, especialmen e se pensa mos o concei o de cul u a enquan o “a collec i e sense
o consciousness ha in luences and condi ions pe cep ion, beha io s and powe and how
hese a e sha ed and communica ed” (Ai hihenbuwa e . al 2020, 2).
Um dos aspe os que em sido bas an e apon ado pa a jus i ica di e en es ipos de
espos as nacionais às medidas de p e enção sani á ia p ende-se com o ní el de
indi idualismo ou cole i ismo p edominan e em cada lógica cul u al (Ai hihenbuwa e .
al 2020). Ou os au o es azem uso da dis inção en e igh cul u es e loose cul u es, as
p imei as mais associadas a desas es na u ais, in asões, su os pa ogénicos e a uma maio
densidade populacional, e as úl imas com uma endência pa a p io iza a p i acidade e
libe dade indi idual. Cada país eco e ambém a di e en es manei as de implemen a as
medidas de dis anciamen o ísico. Na Rússia, po exemplo, em ha ido ecu so à
penalização iscal pa a aqueles que não cump i em as no mas es ipuladas; na Índia e nas
Filipinas as sanções podem i ainda mais longe e chega a pena de p isão; ou os países,
como os EUA ou o g osso dos es ados-memb os da União Eu opeia, p i ilegiam o ecu so
aos media pa a e ei os de disseminação, coe ção e ins ução (Huynh 2020).
Em con e sa com o plan manage de uma das áb icas da Logoplas e nos Es ados
Unidos, Chicago, p ocu ei en a pe cebe qual a sua opinião, com base essencialmen e
na sua pe ceção apenas, sob e a o ma como os ame icanos se o am adap ando às
medidas impos as, que em e mos de es ições de mobilidade ou de imposições de
cuidados de higiene.
Ө.21, Logoplas e: “I don’ hink i ’s a ma e o being [mo e o less]
in o med. We a e a e y spoiled coun y. We ha e wha we wan . I you
don’ like whe e you en i onmen is, you pu you s u in he ca and you
109
d i e o ano he s a e and you can ha e wha e e you wan . (...) I hink we
all belie e ha , because we’ e been so ee o make choices o ou sel es,
ha we hink we a e sma e han his pandemic. So we a e gonna do wha
we wan o do and no we a e wa ned o do.”
Nes e comen á io, o impo an e a e em con a não é a alidade cien í ica dos
juízos ei os, uma ez que pa a uma dada in o mação sob e um dado g upo ou
comunidade se conside ado cien i icamen e álido, é necessá io que seja desc i i a e não
a alia i a, que seja e i icá el po mais do que uma on e independen e, que se aplique a
uma maio ia es a ís ica conside á el desse mesmo g upo, e que seja capaz de di e encia
e apon a ca ac e ís icas p óp ias desse mesmo g upo ou comunidade. Não se e i icando
a conjunção des es qua o equisi os, es amos pe an e uma conceção es e eo ipada – mais
especi icamen e um au o-es e eó ipo - daquilo que é expe iência e a eação «do
ame icano» às medidas impos as no seu Es ado. Po ém, es e comen á io mos a como a
pe ceção de ameaça à libe dade indi idual oi, sem dú ida, um a o omen ado de
esis ência ou sub alo ização.
“As p edic ed, g ea e eedom h ea owa d Co id-19 messaging was
p edic ed by lowe pe cep ion o Co id-19 as an impo an e issue and
g ea e message a igue (…) as eedom h ea inc eases, eac ance (i.e.
ange and nega i e cogni ions) also inc eases. Finally, we ound ha
inc eased eac ance owa d Co id-19 messaging is linked o lowe
adhe ence o bo h social and higiene ela ed Co id-19 p e en ion
beha iou ” (Ball and Wozniak 2021, 14).
V.VI Tele abalho e o isolamen o social
Uma das ques ões eco en es na bibliog a ia sob e o ele abalho p ende-se com
as possí eis consequências que, a médio/longo-p azo, pode ap esen a ao ní el do capi al
social, ou seja, a ní el do po encial dos indi íduos pa a bene icia em e ec ia em em
conjun o soluções pa a di e en es p oblemas que ão su gindo. Es es a o es e dinâmicas
que p omo em mobilidade social no seio de uma sociedade es a i icada podem se
110
obse ados em ês dimensões: as edes in e conec adas de elações en e os indi íduos e
os g upos (laços sociais ou pa icipação social); os ní eis de con iança que ecem es es
laços; e os meios e/ou os bene ícios que são an o ganhos como ans e idos de ido,
p ecisamen e, a es es laços sociais e pa icipação cole i a (Po eye a 2018).
No a igo “Telewo king and Pa icipa o y Capi al: Is Telewo king na Isola ing o
a Communi y-F iendly Fo m o Wo k?”, Daiga Kame ade e B endan Bu chell analisam
com pa icula de alhe a elação en e a p á ica de ele abalho e o capi al pa icipa i o.
Segundo os au o es, po capi al pa icipa i o en ende-se uma o ma de capi al social
de inido enquan o o en ol imen o em a i idades polí icas e olun á ias, sendo po isso
um impo an e indicado do en ol imen o comuni á io.
Sob e es e assun o, as duas p incipais pe spe i as endem a ecai pa a os ex emos
do espec o. Po um lado, as abo dagens mais u u is as e u ópicas, que de endem o
ele abalho enquan o uma o ma de abalho amiga de um en ol imen o em comunidade,
e e indo a poupança que o ele abalhado consegue aze em empo e em dinhei o ao
eduzi signi ica i amen e as suas deslocações en e casa e abalho e usando esse empo
pa a a i idades sociais ou, ou o a gumen o mencionado, o ac o de ha e menos
in e ações sociais no seu local de abalho (po compa ação a um ambien e de esc i ó io)
le a p ecisamen e as pessoas a p ocu a em compensa essa alha de ou as manei as. Po
ou o lado, eo ias ma cadas po um maio de e minismo ecnológico en endido de o ma
pessimis a êm o ele abalho como uma ameaça alegando, po exemplo, a edução da
necessidade de in e ações p esenciais e consequen e en aquecimen o da ligação do
ele abalhado com a sociedade, le ando à o mação de uma ‘sociedade au is a’ (Ba uch
2001 apud Kame ade and Bu chell 2004), onde os indi íduos es ão isolados uns dos
ou os.
A p incipal limi ação des as eo ias, po ém, de e-se ao ac o de epousa em
essencialmen e sob e gene alizações e p esunções eó icas, nem semp e acompanhadas
po ma e ial empí ico que as comp o e. Pa a se mais um con ibu o à discussão sob e
es e sub ema, es a in es igação necessi a ia de se p olonga ao longo de um maio pe íodo
de empo e de abalho de campo, o que não é possí el. Con udo, conscien e das eno mes
insu iciências p esen es, alguns aspe os me ecem ainda assim se mencionados.
Com base nos inqué i os e nas en e is as e i icou-se que a necessidade de
socializa é bas an e ele ada pa a os uncioná ios de ambas as emp esas. Con udo, endo
111
em con a as ci cuns âncias que en ol em o modo como o ele abalho oi p a icado pelos
uncioná ios da Vi ac ess e da Logoplas e, é mais co e o en ende es a necessidade de
in e ação com e cei os como consequência dos con inamen os e das medidas de
dis anciamen o ísico em igo , do que p op iamen e das ca ac e ís icas do egime de
abalho. Is o signi ica e mos em con a ou os espaços e o inas de socialização, pa a
além do esc i ó io, que o am ambém elas pe u badas. Desde o início da pandemia as
pessoas eduzi am as saídas pa a aze comp as, especialmen e de bens não-essenciais;
hou e uma queb a na pa icipação em e en os cul u ais; os almoços e jan a es com
amigos ou es as de ani e sá io o am signi ica i amen e sac i icados; a p á ica de
a i idades despo i as em g upo passou a se mui o mais espo ádica; ou as pessoas
deixa am de p a ica olun a iado. Es es são apenas alguns exemplos de a i idades
ealizadas o a do uni e so do abalho que implica am algum ipo de in e ação social e
que o am, em g ande medida, suspensas.
O sen imen o de solidão - enquan o es ado subje i o daquele que não es á a
expe iencia su icien es conexões sociais – e o sen imen o de isolamen o – uma al a
obje i a de in e ações sociais – o am-se con undindo, e ão con a a endência na u al
humana de in e agi com o ou o (Ba el e . al. 2020). A conexão social em um eno me
impac o na egulação emocional, na ansiedade e s ess, e na capacidade de esiliência em
empos di íceis. Não é de es anha po isso que po á ias ezes alguns en e is ados
enham mencionado a impo ância de e em a enção a saúde men al dos abalhado es
du an e es e pe íodo de empo em pa icula .
▲.2, Logoplas e: “E ele esponde-me que em epa ado em
compo amen os es anhos, pouco sociais, de pessoas que eg essam depois
de e em es ado mui os meses em casa. Po que há pessoas que es i e am
em casa desde ma ço e que ol a am um dia ou ou o pa a i à medicina no
abalho, ou aze qualque coisa p esencialmen e. E essas pessoas
e e i amen e não iam gen e há mui o empo. E no a-se a i udes um an o
es anhas. (…) Que dize , é di ícil dize «ah, a minha ida es á mui o
melho ». Po mui o que alguém gos e do ele abalho, há an as ou as
coisas que nos es ão aqui a limi a os mo imen os, que eu acho que
ninguém ai dize que é ma a ilhoso.”
112
Alguns en e is ados p ocu a am ec ia pequenos momen os de socialização,
que com os p óp ios colegas de abalho, como o a des a es e a p o issional. De odos
os exemplos mencionados ao longo das en e is as no ou-se que es as es a égias de
adap ação oco e am sob e udo no p imei o con inamen o, quando udo na expe iência
des a no a ealidade e a ainda no idade, mas com o passa do empo es es momen os
o am-se diluindo cada ez mais, po ezes deixando mesmo de exis i .
▲.15, Vi ac ess: “O ano passado, na p imei a ase que es i emos em casa,
nós ínhamos um g upo de amigos e c iámos um g upo no Wha sapp e
passá amos as sex as e os sábados à noi e em conjun o. Po que e a como
se es i éssemos a jan a o a, e icá amos a é às 2 ou 3 ho as da manhã a
ala . Des a ez não. Não sei se acabámos po nos habi ua mais a es a
sozinhos. Po que eu, inicialmen e azia-me con usão. E a ualmen e,
quando enho de abalha , epá, são 18h, ou es i o pijama. E es ou de
pijama desde sex a- ei a à a de a é segunda de manhã. E a é já me sin o
con o á el com isso.”
▲.12, Logoplas e: “Eu sei que ha ia equipas que uma ez po semana
azia um géne o de eunião po Teams, pa a ala e bebe um ca é. Mas
como eu abalho mais isolada, isso não acon ecia. Mas isso não implica a
que eu não hou esse pessoas mais chegadas no abalho com quem alasse
sob e ou as coisas sem se abalho. (…) Mas conheço pelo menos duas
equipas cá que i e am essa p eocupação, e uma espécie de co ee b eak
ia Teams.”
▲.6, Logoplas e: “Com a equipa hou e uma al u a em que p ocu ei aze ,
uma ez po mês ou de 15 em 15 dias. Não é pa a ala mos de abalho, é
só pa a nos e mos odos ao mesmo empo. (…) Sou capaz de ala com
eles quase odos os dias, ou po chamada ou ele one, mas há pessoas da
equipa com quem e e i amen e se ala menos. E quando não êm abalho
em comum acabam po deixa de ala com alguns dos colegas da equipa.
(..) Às ezes pedem-me pa a ma ca . (…) Ao p incípio eu lemb o-me que
cada um es a a a mos a as aízes do cabelo. E am assim dispa a es, mas
ambém pa a as pessoas descon aí em e não pe de em o con ac o. E acho
119
120
121
122
123
Legenda da Pe gun a 7 (seguindo a espe i a o dem descenden e): Aumen o da
concen ação; Maio au onomia e libe dade no abalho; Flexibilidade de ho á ios; Melho
ges ão do empo; Pe mi e dedica mais empo a possí eis hobbies; Maio sensação de con o o;
Menos deslocações de ca o ou anspo es públicos; Poupança nas despesas elacionadas com
alimen ação; Mais empo com a amília; Mais e icien e do que o abalho p esencial; Melho
qualidade de ida; Mais alia pa a os cuidado es in o mais; Menos con e sas in o mais en e
colegas e maio en oque em emas es i amen e elacionados com o abalho; Maio sensação
de segu ança; Possibilidade de muda de esidência; Pode ica com o meu ilho, de ido ao
ence amen o das escolas
Legenda da Pe gun a 8 (seguindo a espe i a o dem descenden e): Di iculdade de
concen ação; Maio au onomia e libe dade no abalho; Flexibilidade de ho á ios; Pio ges ão
do empo; Mais ho as de abalho; Sob eposição da ida pessoal e p o issional; In asão do
espaço pessoal; Ansiedade ac escida; Fal a de meios/ ecu sos; Aumen o das despesas mensais
(água, luz, p odu os alimen a es, gás, e c.); Mau acesso à In e ne ; Menos e icien e do que o
abalho p esencial; Pe da ou ausência do con ac o de p oximidade com os colegas; Menos
con e sas in o mais en e colegas e maio en oque em emas es i amen e elacionados com o
abalho; En aquecimen o do espí i o de equipa; Di iculdade em comunica de o ma e icaz
com os colegas; Excesso de chamadas/ ideochamadas; Sensação de isolamen o e/ou
dissociação; Meno qualidade de ida; Maio equência de con li os e ensões no seio amilia
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Anexo 2
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5. De ido a um equí oco na o ma ação des a ques ão e a consequen e ilegibilidade da espos a
o necida pelo/a memb o pa icipan e, a pe gun a núme o 5 encon a-se em al a na e são
inglesa do inqué i o subme ido à Vi ac ess.
141
Legenda da Pe gun a 7 (seguindo a espe i a o dem descenden e): Inc eased concen a ion;
G ea e au onomy and eedom a wo k; Schedule lexibili y; Be e ime managemen ; Allows
you o spend mo e ime in hobbies; G ea e sense o com o ; Less commu ing ime; Sa ings
on ood expenses; Mo e ime wi h amily; Mo e e icien e han o ice wo k; Be e quali y o
li e; Added alue o in o mal ca egi e s; Fewe in o mal con e sa ions be ween colleagues
and g ea e ocus on opics s ic ly ela ed o wo k; Possibili y o change esidence.
Legenda da Pe gun a 8 (seguindo a espe i a o dem descenden e): Di icul y concen a ing;
G ea e au onomy and eedom a wo k; Schedule lexibili y; Wo s ime managemen ; Mo e
wo king hou s; O e lapping p o essional and pe sonal li e;In asion o p i acy; Inc eased
anxie y; Lack o esou ces; Inc ease in mon hly expenses (e.g.:wa e , elec ici y, gas); Bad
In e ne access; Less e icien han o ice wo k; Loss o close con ac ; Fewe in o mal
con e sa ions be ween colleagues and g ea e ocus on opics s ic ly ela ed o wo k; Weakening
o eam spi i ; Di icul y communica ing e ec i ely wi h colleagues; Feeling o isola ion and/o
dissocia ion; Wo s quali y o li e; Mo e con lic s and ensions wi hin he amily.
142
143
144
A
B
C
D
E
F
G
H
I
J
K
L