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A confusão das coisas e o ponto de vista leibniziano

Ferro, Nuno Vieira da Rosa

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Nuno Ferro A CONFUSAO DAS COISAS E O PONTO DE VISTA LEIBNIZIANO Dissertagão de doutoramento em Filosofia apresentada å Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa Lisboa 1996 Suspeito de que em todas as dedicatôrias se compreende alguma presungão de qualidade. Ora eu estou certo de que os meus pais mereciam muito mais. É ôbvio (é costume dizê-lo, mas nem por isso deixa de ser verdade) que esta tese foi possivel pela contribuigão de muitas pessoas, umas já mcrtas, outras ainda não . Das vivas, algumas não suspeitam sequer de que xcá' estão. Outras poderiam talvez reconhecer a sua presenca, descontando a distorgão, de que não são evidentemente culpadas. 0 que aqui fica tem, portanto, muitos nomes. E ainda que, por não ser possivel indicá-los todos, na primeira página aparega apenas o meu, não queria deixar de manifestar o meu agradecimento ao Professor Doutor Fernando Gil por ter acoitado orientar esta tese. Não posso também esquecer que, ao longo de todo este tempo, soube sempre incutir entusiasmo por um trabaiho que persistia em consumi-lo. We have all read in scientific books, and, indeed, in all romances, the story of the man who has forgotten his name. This man walks about the streets and can see and appreciate everything; only he cannot remember who he is. Well, every man is that man in the story. Every man has forgotten who he is. One may understand the cosmos, but never the ego; the self is more distant than any star (...). We are all under the same mental calamity; we have all forgotten our names. We have all forgotten what we really are. All that we call common sense and rationality and practicality and positivism only means that for certain dead levels of our life we forget that we have forgotten. All that we call spirit and art and ecstacy only means that for one awful instant we remember that we forget. G. K. CHESTERTON, Orthodoxy, 1908. I ÍNDICE Abreviaturas Introducão PARTE I INTRODUgÃO AO PONTO DE VISTA LEIBNIZIANO 1. Consideracôes preliminares sobre o método. Aplicagao å "questão leibniziana" . Situacão, estratégias e problemas do comentário: o acesso ao ponto de vista leibniziano: acesso "histôrico-psicolôgico" e "instalagão imediata nos textos" . As possiveis pressuposigôes do comentário: consideracôes gerais sobre a natureza do texto filosôfico e sobre os sentidos disponiveis da "situacao em que se está". Determinagão do "principio" do acesso ao ponto de vista leibniziano. 2 . ASPECTOS DO MUNDO DA VI DA 2.1. Exigéncia de uma redugâo â descricão. Consideragôes introdutôrias sobre a descricão da situagão em que se está: necessidade de evitar "situagôes de laboratôrio" . Natureza não desmembrável da situagão e problemas relativos: descricão e discursividade; descricão e análise . 2.2. Naturalidade, proximidade e seguranca oos actos da vida. Análise esquemática de dois casos: o uso da lingua e do espago. Compreensão da "ciência" da lingua e do espago nos actos da vida: mera indicacão desse facto. 2.3. Naturalidade dos actos da vida e per- cepgão: passagem â análise da visão. A visâo como acontecimento natural e como "objecto construido". Facilidade e dificuldade da 2 identif icagão do "objecto" 'ver'. A visão como momento geral, forma do mundo que compreende o sujeito e a visão como "um dos cinco sentidos" do sujeito: visão como "véu" e ôrgão da visão. Carácter latente do primeiro aspecto. A "compreensão natural" da visão: a "neutralidade ideal" do sujeito: breve indicacão. 79 2.4. A compreensão natural da "neutralidade ideal" do sujeito: o sujeito tem "portas e janelas", tem um acesso natural âs "prôprias coisas". A liberdade das coisas relativamente å visão do sujeito. Compreensão natural do significado do "momento do sujeito" na visão. Ingenuidade da compreensão natural da visão como "acesso ås prôprias coisas": a visão objecto de análise: breves indicagoes. Carácter artificial da análise: anulagão do horizonte do acontecimento original da visão. Necessidade de reverter â vida quotidiana. 104 2.5. "Ver" como acto da vida: o sentido do "visto". Carácter pragmático da percepgão. Sentido instrumental do "visto" e "objec- tividade" . Natureza não especulativa da percepcâo como acto da vida. 120 2.6. Conclusão da análise anterior: indicacão de uma "lôgica da vida" como origem de sentido dos actos da vida. "Lôgica da vida" e determinacão pela possibilidade: determinacão do sentido da situagão em que se está pelas possibilidades reais que se configuram. 136 2.7. A compreensão do "homem" a partir da "lôgica da vida": o "homem" como um momento natural da histôria do mundo. Dimensão "subjectiva" do "homem": o "interior do homem" . 0 corpo como "espaco natural de ressonância interna" : momento natural e limite da "dimensão subjectiva". Breves indicagôes sobre o corpo. 146 2.8. A compreensão do "homem" a partir do mundo e a compreensão do humano a partir do reconhecimento de si mesmo nos seus actos. Natureza original e irredutivel desta forma de reconhecimento. Reconhecimento de si mesmo e actos da vida: atengão e distracgão. Instalagão do sujeito nos actos e possibilidades da vida. 163 2.9. Significado do reconhecimento que o sujeito tem de si mesmo nos actos da vida: reconhecimento original e pergunta "o que é o homem?". Sentido da inutilidade do reconheci- mento original do "eu" em ordem a uma investigagão sobre a "natureza do homem" . Esquecimento do "eu" como momento original. 175 "I 3. O CARÁCTER SONAMBULAR DO NOSSO PONTO DE VISTA E A REFORMA DA FILOSOFIA PRIMEIRA 3.1. Significado da compreensão da vida como "momento zero": breve análise da forma prôpria da "ciência da vida". Realizagão e representagão dos actos . Acto e conteúdo do acto. A certeza dos actos da vida como certeza de sonâmbulo. 185 3.2. Certeza sonâmbular e neutralidaoe do ponto de vista. Reflexão original do ponto de vista sobre si mesmo de modo a anular-se no seu significado prôprio. Exposigão da tese das "portas e janelas". As pressuposigôes da validade da experiência: o psitacismo crônico do nosso ponto de vista. 202 3.3. A formulagão ieibniziana dos fenômenos apurados. 0 estado actual da ciência humana: análise da proposicão "Ideas rerum non cogi- tamus nisi quatenus earum possibilitatem intuemur^ ã) sujeito ê predicados: indeter- minacao da "relagão" sujeito-predicados; b) indeterminagão dos axiomas. Conclusão: presenca do objecto em confusão. 217 3.4. Primeiras indicacôes da presenca em confusão. Formas de constituigão da presenga das coisas: "qualidades", notiones comunes pluribus sensibus, ideias. 0 que é uma ideia? Estado das ideias. Pensar por instinto. 239 3.5. A possibilidade da impossibilidade do nosso ponto de vista. 0 senso comum como forma geral de validagão do "saber natural". Algumas determinagôes do senso comum. Duas defesas do senso comum: Moore e Hamilton. 258 3.6. A pressuposicão de evidência como estado inconsciente de desorientacão. A necessidade de uma emendatio da Filosofia primeira. 0 que a emendatio nâo pode ser: Spinoza e Descartes. 0 método da dúvida. 284 3.7. Descartes como a "antecâmara da verdade". A regressão ao sujeito como "inspicere quid videatur" . A medigão do grau de evidência. A lôgica cio verosimil. 0 reconhecimento do ponto de vista como determinacão da forma de presenga das coisas. ^06 3.8. A compreensão leibniziana da modificacão do ponto de vista. Ultrapassagem da "reflexão 4 psicoiôgica" . A modif icacão da oposicao interior/cxtcrior . A deshuman i zacao do ponto de vista: a pergunUj pela poss.i b.i lidade do "homem" . A posigão do sujeito sem portas nem janelas: o mundo como aparigão. PARTE II PERCEPgÃO, MUNDO E INTERSUBJECTIVIDADE 4. SUJEITO E PERCEPgÃO 4.1. Sentido da modificacão que a emendatio pretende constituir. A nogâo de "existência" como primeira nocão a analisar. Necessidade mediacão pelo principio de razão suficiente em ordem å análise da nogão. 0 sentido do principio de lazão suficiente: revisão do reconhecimento do estado de confusão. A pressuposicão da verdade como o "ponto fixo" do nosso ponto de vista. "Conteúdo" da pressuposicâo da verdade. 4.2. Dificuldadc em encontrar o significado da íorma "existcncia" . "Existência" e formas de presenca das coisas: o "estado de presenga". Esse nihil aliud est quam percipi posse. 4.3. Formas do fenômeno: a) "multiplicidade na unidade"; análise do senr.ido lôgico e pré- lôgico das nogôes de "unidade" e "multi- plicidade"; a simplicidade da posicão "multiplicidade na unidade" . b) "em variacão conlinua"; "quelque chose change et quelque chose reste"; as rupturas áa continuidade perceptiva. A vida perceptiva. ''í . 4 . A experiêneia original do cogito . In::erpretacao leibniziana da íormuíacao cartesiana. A compreensão leibniziana do cogito: a porcepgão como sensus sui; identi- dade entre sujeito e percepcãc, vida percep- tiva: o "eu", conoxão original da variedade. 0 cogito como experiência confusa. 4.5. Formas de conexão das percepgôes: a percepcâo como "état passager". 0 tempo como conexão oriqinal: sujeito, identidade e objecto. 0 significado do senrido constituido "olV'ÍĨCÍ.O" 4.6. 0 cogito como âmbito da diferenca entre real e rmaginário. Indicios de realidade: a ordem: costume e lei. 453 4.7. 0 sentido original "realidade" como pressuposicâo. A impossibilidade da possibi- lidade do caos absoluto. Alcance da nocâo de "estado de confusão": revisão do sentido da redugão ao cogito. A possibilidade de sentido do nosso ponto de vista: a lôgica. Alcance negativo das leis lôgicas. 475 4.8. As estratégias do nosso ponto de vista: o diário de um louco, a hipôtese. A legitimidade pressuposta do procedimento hipotético. 0 termo "Mônada" . 50° 5. VIDA PERCEPTIVA E DETERMINAQÔES DA MONADA 5.1. Notas sobre o termo "substância" . Substância e cogito: a nogão de natureza representativa. Metáforas e determinagôes da substância. 5^3 5.2. As dcterminagôes da "passagem" de percepgão para percepgão: lei, série. A auto- -produgão da substância: forca e desejo de represenr.acão. 530 5.3. Realidade do desejo e "incompletude" da representacão: apresentagão em aspecto, inexistência de aspectos naturais ou prôprios e indefinigão do aspecto presente: a "inadequacão relativamente a si mesmo" . 5^8 5.4. Finitude da representagão e tempo. A interpretagão tradicional do tempo a partir da nocâo completa da substância. Significado perceptivo cie "le present esr gros de l'avenir". 557 5.5. A ídentidade do sujeito como Mundo . Mundo como soma e mundo como uma única identidade real: primeira formulacão da nocão de sistema. Substância-Sujeito-Mundo. 569 6. MUNDO, SUJEITO E INTERSUBJECTIVIDADE 6.1. Necessidade de completude da "emendatio" . 0 estado ainda indeterminado da Mônada : o mundo como sistema geral de f enômenos . Eu-anônimo e eu-priva(io. 585 6 6.2. Transcendência e "em si" íenoménico: insuí iciênci a das determ.i nacôes de 'inexis- tência dc aspectos naturais' , xIei' e ^tempo' . Mundo púbiico e forma privada. 0 sentido "intersubjectividade. 6.3. A conaturalidade do sujeito com as coisas que representa. 0 corpo do sujeito. Nogão de corpo: indicagôes sobre a extensão e a matéria. A maLéria do espirito. 6.4. Situagâo do sujeito no mundo: o excesso da compreensão do ponto de vista natural . A organizacão dada das percepcôes: os ôrgãos como simbolos da percepgão. Fungão dos ôrgãos: a organizacão privada do mundo . 0 sistema de ôrgãos: o corpo orgânico. 6.5. 0 corpo orgânico como "simbolo" da unidade do mundo, da ordern da natureza. 0 ponto dc vista dc sujeite nc mundo. A ccnfusão e o corpo. Corpo c alma. 6.6. Transcendência do mundo : o sentido da tese das portas e janelas. Corpo orgânico, intersubjectividade e inexistência de fenômeno da inlersubjectividade . Necessidade de uma revisâo do sentido da Mônada. 7 . INTERSUBJECTIVIDADE E DETERMINAgÔES DA MONADOLOGIA 7.1. A ficcão metaf isica . ^Existência' do sistema e realidade da percepgão: os fenômenos "bem fundados" e os requisitos dos fenômenos. Sistemas de possibilidades perceptivas e realidade dos sujeitos dessas possibilidades . 7.2. 0 sistema como sistema de sistemas. A presenca dc sistema total em cada sistema. A continuidade fenoménica do universo e o acordo do s s i s L e:ia s . 3 en t i dc s i s t emá t i co da representacão: determinacôes da expressão. 7.3. Dif iculdades da nogão de sistema. Variagão dc; forma e por manênoia do fundo. A individuagão e a participacão do nada . Sentido da substância composta. Sentido do corpo no sistema: a s ubs t ânc i a co rpôrea . 7.4. A impossibi lidade do sistema ser um facto. Natureza pré-estabelecida e ideal do sistema. SenLido da idealidade e da realidade do sist.ema: o sisLeina como causa ou requisito. 7.5. i i e r o t- it: i n a c ã o s i s t emá t i c: a de uma i d e n t i - ciade. A Ler.sâo interior ao sistem,:3. A conexão 7 como constituicao ca identicaoc. 0 sentiao ca revisão da Môriada na Monadologia. 0 sentido e o fenômeno da possibilidade da impossibilidade do sistema. 70 Conclusão ^23 Bibliografia 745 9 ABREVIATURAS UTILIZADAS Ak GoLLfried Wilhelm Leibniz. Sámtiiche Schriften und Briefe, hrsg. Deutschen Akademie der Wissenschaften zu Berlin, Berlin, Akademie Verlag; Hildesheim, Georq Olms Verlag, 1972, reimp. q G.W. Leibniz. Die philosophischen Schriften, Gerhardt (ed.), 7 vols., Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1978, reimp. -QIVj G. W. Leibniz. Die matemathischen Schriften, Gerhardt (ed. ) , 7 vols. , Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1971, reimp. Er(j G. W. Leibniz. Opera Philosophica Omnia, Erdmann (ed.), 2 vols., Aalen, Scientia, 1959, reimp. Bod Die Leibniz-Handschriften, Bodemann (ed.), Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1966, reimp. LQI Leibniz. Lettres et Opuscules ĩnédiLs, Foucher de CareiJ (ed.), Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1975, reimp. ]Síi O Leibniz. Nouvelles Lettres et Opuscules, Foucher de Careil (ed.), Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1971, r e i mp . Guhrauer.. G. W. Leibniz. Deutsche Schriften, G.E.Guhrauer (ed.), 2 vols., Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1966, reimp. q Opuscules et fragments inédits de Leibniz, L. Couturat (ed.), Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1961, reimp . Gr G. W. Leibniz. Textes inédits, G. Grua (ed.), 2 vols., Paris, PuF, 1948. jaí> Elementa Philosophiae arcanae de summa rerum, Jaqodinsky (ed.), Kazan, 1913. MoIIat Pechtsphi losophisches aus Leibniz' ungedruckten Sclirif'ten, G. Mo ] lat (ed.), Leipzig, J. H. Robolsky, 1885. r0{) Malebranche et Leibniz. Relations personnelles, A. Robinet (ed. ) , Paris, Vrin, 1975. Horizon.... De l'huiizun de la dueLiine humaine, M. Fichant (ed.), Paris, Vrin, 1991. INTRODUgÃO 13 "ie nombre des livres et la confusion des choses nous effraye" Leibniz 1. Por razôes de comodidade, pode dizer-se que, do ponto de vista formal, esta tese tem origem neste texto: "...l'Être ainsi découvert n'est pas le Dieu de Leibniz, la "monadologie" ainsi dévoilée n'est pas le systême des monades-substances, mais certaines descriptions leibniziennes, -que chacune des vues du monde est un monde å part, que pourtant "ce qui est particulier ã 1 ' un soit public â tous", que les monades soient entre elles et avec le monde dans un rapport d' expression, qu'elles se distinguent entre elles et de lui comme des perspectives, - sont â conserver entiêrement, â rependre dans l'Être brut, ã séparer de 1 ' élaboration substantialiste et ontothéologique que L. leui fait subir. L'expression de l'univers en nous, elle n'est certes pas l'harmonie entre notre monade et les autres, la présence en elle nes toutes les choses -mais elle est ce que nous constatons dans ia perception, â prendre tel quel au lieu de l'expliquer. Notre ãme n'a pas de fenêtres: cela veut dire Ln der Weir Sein-" (') . Assim, pretenae mostrar-se, em primeiro lugar, e contra uma certa tradigão do comentário (:) , que determinadas teses de Leibniz não såo, no sentido habitual do termo, teses -isto é, proposigôes que "inventam" uma determinada interpretagão dos (!) MERLEAU-PONTY, M., Le visible et l'invisible, Paris, Gallimard, 1964, pag. 276. (:) "EiLher, Lhen, what Leibniz writes is regarded as unintel ligible, or it is regarded as intelligible, but as a mere íabncation, a phi losophical fairy-tale", PARKINSON, G.H.R., Logic and Reality in Leibniz's Metaphysics, Oxford, Oxford University Press, 1965, pag. 1. 14 fenômenos-, mas pretendem ser, quando, de facto, não o são, descrigôes, isto é, tentativas de acompanhamento silencioso dos fenômenos, dotados de um determinado sentido precisamente enquanto fenômenos. 0 texto citado determinou, também em segundo lugar, a orientagão, o percurso da tese. Assim, pretendeu indicar-se que tais descrigôes não são "facilmente" separáveis de uma elaboragão "substancialista e onto-teolôgica" . E que a tentativa de realizagão de uma tal separagão "pode muito bem implicar" a perda de sentido das prôprias descrigôes. Na verdade, não é "fácil", no caso de ser possivel, tomar o que se "constata" na percepgão "tel quel", de tal forma que, sem elaboragão "substancialista e onto-teolôgica" , não será possivel identificar o que prôpriamente há . E o "prendre tel quel" não sô será um preceito ingénuo como perderá até toda a intcligibilidade . Do facto, um dos aspectos mais prôprios do ponto de vista leibniziano consiste em tentar mostrar que nâo é possivel permanecer na "simples verificagão das coisas", pois isso corresponde, em última análise, apenas å percin de referência do sentido da prôpria verificagão. De modo que a elaboragão "substancialista e onto-teolôgica" nâo é, como se verá, efeito da dependência ingénua de uma tradigão a ultrapassar, mas algo requerido como possibilidade de inLeligibilidade das prôprias descrigôes: a pura descrigão por si sô nâo assegura a inteligibilidade disso que tenta descrever. 0 que nâo significa, também, que a elaboragão leibniziana a assegure. 2. Os motivos formais referidos acabaram por gerar também o tema da tese. De facto, o esforgo por mostrar, quer a necessidade de uma descrigão dos fenômenos (ao qual corresponde a Parte I), quer a dificuldade da tentativa dessa descrigão (Parte II), revelaram, afinai, que se está perante uma "apresentagão de coisas" que exige, para se constituir 15 verdadeiramente como "a prôpria apresentagão que é", uma descrigão que, por outro lado, ela mesma parece "empenhada" em impossibilitar . A esta forma de apresentagâo das coisas corresponde precisamente a nogåo de confusão. De modo que aqui está mais um livro e sobre a confusão das co.i sas . 3. Esta tese consiste num trabalho de elucidagão histôrica: pretende mostrar-se, em última análise, a que fenômenos correspondem determinados textos de Leibniz, precisamente aqueles que dizem respeito â apresentagão em confusão, ainda que isso implique falar de muitos "outros" assuntos porque "on ne peut rien deguiser dans mon systeme, car tout y a une parfaite connexion" (3) . Por "elucidagão histôrica" não se entende, de forma nenhuma, o enquadramento dos textos de Leibniz no interior de um âmbito pretensamente mais "vasto e abrangente", âmbito constituido a partir de outros textos de e sobre o barroco. Há, no presente caso, elucidagão histôrica, antes de mais, porque a tarefa a realizar está determinada e limitada por um conjunto de textos, cuja unidade histôrica decorre da sua comum atribuigão a um mesmo individuo, que viveu entre os séculos XVII e XVIII, chamado Leibniz. Por "Leibniz" designa-se aqui, não o individuo, nem as eventuais ideias do individuo, mas o conjunto de textos, que é o que nos é acessivel . Assim, trata-se de uma elucidagão histôrica, não porque o esclarecimento desses textos viaje e se reporte ao séculos XVII-XVIII, mas porque, como se disse, se pretende expor os fenômenos que lhes correspondem. 0 que, ao dar inteligibilidade aos textos, ao permitir reconhecer o sentido que lhes é prôprio, permite também reconhecer os fenômenos que se pretendem indicar nos textos: a elucidagão de um texto filosôfico é sempre uma forma de aprender a ver . Ou C) Sem titulo, Bod, 58. 16 seja: não se trata de uma "mera" elucidagão dos texLos, dado que essa elucidagão sô pode fazer-se procurando elucidar aquilo a que eles se referem. Mas a tarefa de esclarecimento dos fenômenos é de natureza histôrica porque não é totalmente livre, porque está orientada e limitada por determinados textos . Em resumo: o carácter histôrico de tese corresponde ao facto de se tentar uma identif icagão das coisas numa forma determinada, forma que se cristalizou historicamente numa série de textos que dizemos serem de Leibniz. A essa forma determinada de identif icagâo das coisas chama-se aqui "ponto de vista leibniziano", que não coincide, como é fácil de ver, com "Leibniz". 4. Parece ser necessário, por último, fazer uma breve referência âs repetigôes que våo surgindo ao longo da tese, repetigôes que quase parecem obedecer a um preceito metodolôgico. A razão dessas repetigôes é "qu'une même verité peut avoir beaucoup de places selon les differens rapports qu'elle peut avoir" C) , que é um facto independente da prôpria estrutura do ponto de vista leibniziano, ainda que no seu caso a possibilidade de variagão de relagôes e referências seja multiplicada indef inidamente (s) . De facto, o sentido de uma proposigão está normalmente determinado pelo contexto no qual surge. E de tal forma que tal proposigão pode parecer ser desse coni exto, como se esse fosse o seu lugar prôprio, o lugar onde esqota o seu sentido. E mesmo que se reconhega a possibil idade ( A ) Nouveaux Essais . . . , G V , 50 6. ( ) É já um lugar comum reconhecer-se que a linguagem leibniziana possui, na sua extrema concisão, uma multiplicidade de referências dificil de expor totalmente. E haveria ainda que ter em conta o facto de ser, muitas vezes, uma linguagem destinada a convencer, o que acrescenta a pluralidade de sentidos uma espécie de astúcia e de dissimul agão, sem que, todavia, issu provoque perda de precisão. 17 dessa proposigão pode apresentar outros sentidos, eles ficarão como que em estado de disponibilidade, em confusão. Ora acontece com alguma frequência que o desenvolvimento das possibilidades internas de uma dada proposigão produz determinagôes que exigem a sua reconsideragão . A proposigão pode surgir, então, a uma nova luz; pode aparecer, por exemplo, com mais "violência", quer dizer, pode compreender determinagôes que não se suspeitavam, pode dominar outras proposigôes que inicialmente se julgavam soltas e livres, e serem independentes; pode, portanto, unificar contextos, reduzir â unidade determinagôes antes estranhas, etc. Pode acontecer também que a explicagão de uma "tese" qualquer faga aparecer, de repente e involuntariamente, uma outra que já se tinha abandonado como se estivesse já esgotada, revelando-se agora como indispensável para dar conta do assunto em causa. A escrita tem, de facto, as suas regras, os seus percursos prôprios, e normalmente a tarefa de quem escreve reduz-se a tentar introduzir alguma disciplina nessa vida selvagem. Não parece, portanto, possivel, "arrumar" as teses, de tal forma que se passe para a seguinte apenas quando a anterior estiver já esgotada, avangando por ordem. Não é possivel esgotar a anterior sem introduzir a seguinte. De tal modo que o processo de elucidagão das nogôes se faz por revisôes sucessivas, pois em caso algum se pode dizer que o esclarecimento de uma nogão está terminado. Tais revisoes ou repetigôes têm por fungåo, portanto, acrescentar ao já apurado uma nova signif icagão, que tanto pode dar-se como aumento de determinagôes como a modo de umia nova luz, de um outro contexto. 0 que, em muitos casos, exige recordar o que foi já apurado, também para que seja mais explicito o sentido novo que agora se avanga . A tese consiste, portanto, num sistema de revisôes: a Parte II revê a Parte I; os §§ 5 e 7 são revisôes dos §§ 4 e 6, respectivamente, etc; e seria fácil enumerar os 1S diferent.es iugares em que surgem as nogôes de conexio, evidência, idcntidade. . . PARTE I INTRODUgÃO AO PONTO DE VISTA LEIBNIZIANO 1 21 §1. Consideragôes preliminares sobre o método. Aplicagâo ã "questão leibniziana" . Situagão, estratéqias e problemas do comentário: o acesso ao ponto de vista leibniziano: acesso "histôrico-psicolôgico" e "instalagão imediata nos textos". As possiveis pressuposigôes do comentário: consideragôes gerais sobre a natureza do texto filosôfico e sobre os sentidos disponiveis da "situagão em que se está". Determinagão do "principio" do acesso ao ponto de vista leibniziano. 0 ponto de partida nunca é totalmente inocente ('), pois habitualmente é em fungão do que se pretende alcangar que se escolhe todo o inicio. 0 "principio" costuma ser fruto de uma orientagâo constituida já pela "tese" a "demonstrar" . Não é um verdadeiro inicio. Ora, na medida em que a posigão do inicio comprende já uma orientagâo, um vislumbre do que se lhe segue, tal orientagâo inclui em si, ainda que de maneira aparentemente formal, um modo prôprio -predeterminado e nâo fundado- de encarar e de apreender tudo o que a partii de ai se deriva. Neste caso, os momentos posteriores ao comego recoiherão o seu sentido da orientagão que de algum modo se esconde nele. É, então, possivel constituir um processo lôgico, num encadeamento perfeito de todas as suas partes, na forma como nascem e decorrem umas das outras. Mas, por outro lado, tal lôgica nåo assegurará necessariamente o acompanhamento disso mesmo que se pensa estar a percorrer: a inteligibilidade do percurso pode não ser mais do que uma ilusão que decorre do esquecimento -da manutengão em estado de nåo esclarecimento- do sentido do ponto de partida, das pressuposigôes que piesidiram ã sua escolha, das teses que esconde já no seu interior. E mesmo que esta ilusão de inteligibilidade confira uma certa imperturbabilidade (í) 0 modo como neste primeiro parágrafo serão tratados os problemas relacionados com o que vulgarmente se chama "introdugão" não pode ultrapassar o de um mero inventário superficial e tosco, informe: o núcleo da questão não será sequer aflorado. De facto, as dificuldades prôprias da discursividade de um pensamento filosôfico, da impossibilidade de colocar pedra sobre pedra sem pressupor o edificio todo, implicariam por si sô uma análise extensa demais para o que agora se pretende. 2 ~ ao pensamento -pois tudo pode aparecer, entåo, como "ôbvio", "lôgico", "demonstrado"-/ tal imperturbabilidade pode depender, no entanto, do adormecimento da tese inicial, do facto de se esquecer que a escolha do ponto de partida não é inocente nem neutra, mas sim determinada. Quer dizer, o carácter "lôgico" do percurso pode depender de sentidos e teses que náo se reconhecem como tal. A familiaridade com um determinado ponto de vista, o convivio com uma forma concreta de compreensão das coisas, podem, por outro lado, enraizar-se de tal modo no sujeito que acabam por fazer com que o movimento pelo qual essa mesma compreensão passou a existir surja como "natural". Pode, nesse caso, "reconhecer-se" com "evidência" que um dado qualquer é, "de facto", o dado original a partir do qual tudo o mais se compreende. E a coesão interna, o estilo do pensamento que se acompanha -que se diz acompanhar- serão, então, compreendidos como um acompanhamento real das coisas que são pensadas, como a "recuperagão" adequada do seu "ser assim"; e cada momento desse percurso será visto como uma verificagão que confere validade ao prôprio percurso em causa, como se todas as coisas e todos os factos que surgem fossem confirmagoes do ponto de vista em que se está. Ora é precisamente nesses casos -naqueles em que há, de facto, ramiliandade com uma determinada tentativa de compreender as coisas, no caso presente, a leibniziana- que é necessáno colocar, de modo mais agudo, a queståo do comego; de outra forma, tudo o que segue pocerá não passar de uma ingénua ilusão. Na verdade, na medida em que o que aqui se tenta pretende constituir-se como urr. percurso, e um percurso de acesso ã compreensão leibniziana das coisas, nessa mesma medida deve tentar-se que a compreensâo que se pretende alcangar não esteja já totalmente pressuposta no momento em que se inicia. Toda a queståo se joga, assim, na determinagao do horizonte ideal de acesso ao ponto de vista leibnizianc, do 23 horizonte onde isso a que se acede se apresentará "em prôprio", não adulterado pela presenga de teses escondidas, mas operantes . Naturalmente, o "ideal" seria alcangar um ponto de partida real: seria o ponto de partida, dôcil ao percurso que as prôprias coisas exigem como condigão para o seu adequado esclarecimento. 0 comego "ideal" seria o indicado pelas prôprias coisas. 0 "ideal" seria, assim, que as prôprias coisas fornecessem o modo no qual o seu esclarecimento se tornaria possivel. Seria então muito fácil seguir o tão conhecido preceito metodolôgico de Lewis Carroll: "Where shall I begin, please your Majesty?, he asked. Begin at the beginning, the King said, very gravely, and go on till you come to the end: then stop" (:) . Seria certamente o ideal; não seria, no entanto, o comego: seria precisamente o fim. De facto, como é ôbvio e até banal, este modo de descrever o método não passa de uma ilusão. Seria "ideal" que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. Mas isso implicaria a necessidade de pressupor primeiramente a identidade e a natureza do objecto, que é, afinal, o que o método pretende alcangar. A determinagão do método como momento primeiro pressupôe já a compreensão das coisas que se procuram, que é precisamente o que se quer evitar. "As prôprias coisas" não serão nunca, tomadas deste modo acritico, como o inicio de um percurso, como o momento que determina o método e que preside ao processo do seu esclarecimento . Serão, na melhor das hipôteses, o fim. Assim, "as prôprias coisas" não podem fornecer nenhuma indicagão apta quanto ao momento inicial de uma interpretagão, seja ela qual for. "As prôprias coisas" são o que está em causa, o que se trata de saber, a tarefa de todas as interpretagôes . E sô a sua compreensão como não tarefa (isto (:) LEWIS CARROLL, Alice's adventures in Wonderland, The Complete ĩllustrated Works of Lewis Carroll, Chancellor Press, London, 1982, pag. 109. 24 é, a sua total não compreensão) permitirá pensar que se trata de algo ôbvio, compreendendo já um conteúdo qualquer, passivel de fornecer algum tipo de indicagôes metodolôgicas ou doutrinais . As dificuldades até aqui apenas sumariadas de um modo evidentemente tosco exigem, no entanto, uma espécie de "alargamento" . Na verdade, â questão formal e genérica relativa â escolha de um ponto de partida parece acrescentar-se uma outra, de cariz mais histôrico e doutrinal, que diz respeito propriamente a Leibniz. De facto, a tentativa de encontrar nos comentadores de Leibniz um auxilio que fornega indicagôes quanto ao modo correcto de nos havermos com o seu ponto de vista -quanto ao método que ele exige- acaba por conduzir â indecisão e ã perplexidade. 0 comentário debruga-se normalmente sobretudo sobre as "teses" de Leibniz relativas a tal assunto, a teses sobre o método, e não tanto sobre o método real no qual tais teses terão tido a sua origem (3) . As eventuais consideragôes doutrinais sobre o método hipotético-dedutivo, sobre o método conjectural a priori, sobre as relagôes entre análise e sintese, ou ainda sobre a preferência do "formalismo" em detrimento da intuigão, encontrarão já o seu lugar no (3) Podem ler-se a este respeito, e somente a titulo de mero exemplo, os desinteressantes artigos de LOEMKER, L., Leibniz's Conception of Philosophical Method, Zeitschrift fur Phiiosophische Forschung, 20 (1966), pg. 507-524, ou de JOHNSON, A., Leibniz's Method and the Basis of his Metaphysics, Philosophy, 35 (1960), pg . 51-61, ou ainda de TYMIENIECKA, A.T., Leibniz's Metaphysics and his Theory of the Universal Science, ĩnternational Philosophical Quarterly, 3 (1963) , pg. 370-391. Há, todavia, e independentemente do bom sucesso das análises levadas a cabo, alguns artigos mais interessantes sobre o método de Leibniz, porque tentam acompanhar a prôpria "prática" do pensar; por exemplo, OLASO, E., Las reglas de la discusiôn filosôfica en Leibniz, Revista de Filosofia (La Plata), 22 (1970), pg . 7-20 e Leibniz et 1 ' art de disputer, Studia Leibniziana Supplementa, 15 (1975), pg. 207-228; PRENANT, L., Le "raisonnable" chez Leibniz: la revanche du jugement sur la forme, Revue Philosophique de la France et de l'Étranger, 136 (1946), pg. 4 8 6-512. 25 interior de um certo "estilo" de pensar que, de modo original e autêntico, constitui o prôprio método. 0 comentário usual acaba por identificar "método leibniziano" com "consideragôes leibnizianas sobre o método", o que não é a mesma coisa. Tais comentários, por mais correctos e textualmente fundados que possam ser -e normalmente são-no-í deixam escapar a vida de que os textos são resultado, o percurso de que as "teses" sao limite. 0 movimento real que constitui um certo estilo de se encarar com as coisas acaba por ser esquecido, substituido por teses, fôrmulas, textos e "instrugôes" . Desta forma, as eventuais análises que se levem a cabo sobre os textos de Leibniz relativos ao método acabam por nâo conseguir discernir com clareza o que constitui propriamente um percurso das formas em que finalmente se cristalizou. Ora isto significa, de facto, que este tipo de procedimento acaba por tomar o "ponto de vista leibniziano" como um facto, dado e acabado, que não exige senão a sua aceitagão imediata para se poder recuperar a sua inteligibilidade interna. Na verdade, a atitude que subjaz a tal forma de interpretagâo contém já, como tese fundamental e orientadora (ainda que de modo atemático e, por isso, passivel, não sô de esquecimento, mas até de recusa: quer dizer, esta atitude está inconsciente relativamente ao seu significado, o que lhe permite af irmar o contrário do que faz), a compreensão de que o acesso a um ponto de vista que se pretende filosôfico se torna possivel por meio de uma instalagâo imediata nas teses por tal ponto de vista "proferidas" . Na verdade, o que habitualmente se intitula "interpretagão de um pensamento filosôfico" vive-se como uma actividade que se legitima, sem demasiados escrúpulos, mediante uma análise dos prôprios textos nos quais tal pensamento se solidificou. 0 que sô pode ser feito se estiver já dada e pressuposta uma determinada compreensão (que é, de facto, uma não compreensão) daquilo que é tentado por um ponto de vista 7.r filosôfico. Assim, o comentador pode eventualmente afirmar, e honestamente, uma descontinuidade entre "o ponto de vista filosôfico" e aquele em que ele mesmo está; quer dizer,- pode afirmar que os textos produzidos por tal ponto de vista vivem de um sentido que nâo é "imediatamente acessivel" ao sujeito que comenta. Mas o comentário, pelo simples facto de existir, instalando-se imediatamente nos textos de Leibniz, toma-se pacificamente numa continuidade de pontos de vista. Na verdade, a "estratégia" habitual do comentário decide tranquilamente qual o seu ponto iniciai: se se quer elucidar realmente um ponto de vista filosôfico qualquer, o ponto de partida devem ser, não já "as prôpias coisas", mas sim "os prôprios textos". Em face de tal inicio, o comentário pode revestir várias formas, de entre as quais somente se esbogarão, e de modo rápido, algumas delas: - pode tentar esclarecer o ponto de vista leibniziano mediante um processo de "smonimia". Assim, perante um qualquer termo -por exemplo, "percepgão"- tratará de procurar outras ocorrências do mesmo termo, pensando transitivamente umas pelas outras, até conseguir alcangar o seu "núcleo" -ao estilo de um "denominador comum"-, que será, então, o sentido original e autêntico do termo -da nogâo ! - em estudo (1); - pode, também, seguindo uma outra via, aplicar aos textos o prôprio "método leibniziano" da conjectura a priori, da hipôtese. Desta forma, encontrando incongruências e "nôs" na argumentagåo, "ultrapassará" os textos mventando uma hioôtese C) Um exemplo perfeito deste tipo de comentário pode encontrar-se, por exemplo, em KULSTAD, M., Leibniz Conception of Expression, Studia Leibmtiana, 9 (1977), pg . 55-76. Oentro deste método entram análises que não podem deixar de surpreender. Por exemplo: "La nction de monade n'apparait qu'en 1696, tardivement chez Leibniz...", DUMAS, M.-M., La pensé de la vie chez Leibniz, Paris, Vrin, 1976, pag. 30. Tal assergâo deve querer dizer que a nogâo de mônada sô se introduz quando surge, em 1695, numa qualquer car^r.s a L'Hospital, a pslavra "mônada" .. . 27 a partir da qual se poderá alcangar um sentido, mediante a qual as dificuldades se desvanecerão e a argumentagão se tornará ôbvia (5) ; - pode, numa terceira possibilidade, emitir juizos sobre o valor e o sentido dos textos em análise. Tais decisoes e juizos, normalmente muito frequentes, reclamam-se de teses e critérios muito mal esclarecidos. As teses que, em última instância, permitem julgar acerca do sentido, inteligibilidade e legitimidade do pensamento de Leibniz (que é, volta a lembrar-se, apenas do que se trata aqui) são habitualmente as comuns "ao género humano"; noutros casos, as incongruências leibnizianas são tão ôbvias que nem sequer se torna necessário dizer porquê (6) . Em qualquer dos casos, e independentemente da multiplicidade de variagôes que se encontram ao dispôr dos comentadores, a estratégia do comentário permanece, não sô inalterada, mas até bem definida e segura do seu ponto inaugural: os textos. A estratégia toma-se -não pode deixar de se tomar- como ôbvia e aproblemática . Onde, de facto, se poderá colher informagão sobre um determinado ponto de vista senão nos textos que conf essadamente o compreendem? A pergunta contém (5) A demasiadamente bem conhecida obra de B. RUSSELL sobre Leibniz é um exemplo ôbvio deste método. (") Cfr., por exemplo, estas estranhas consideragôes, que dispensam qualquer comentário: "Ordinarly we want to say that at least some episodes in my life, such as my taking a certain journey on a particular date, are logically contingent situations; but given Leibniz's doctrine of the complete individual notion no episode in my actual history is logically contingent, so that whatever happens to me is outside the domain of omnipotence. Why, then, did Leibniz cling to a doctrine which is so obviously unacceptable?, KHAMARA, E.J., Leibniz and the Notion of Omnipotence, Studia Leibnitiana Supplementa, 21 (1980), pg. 244; outro texto no mesmo estiio de comentário: "But what is activity, and what ís perception? Leibniz gave sadly wrong answers to both of these questions", HARTSHORNE, Ch . , Psychicalism and the Leibnizian Principle, Studia Leibnitiana, 8 (1976), pg.156. 28 claramente a resposta, a resposta é ôbvia e não se requerem mais consideragôes . Mas, na verdade, tomando os textos como factos disponiveis, o comentário recusa a questão da acessibil idade aos prôprios textos. Tal atitude -pressuposigão inconsciente de si-, para além de se pensar na já referida continuidarle em relagão aos textos, e, portanto, âquilo que nos textos se tenta, significa ainda que o comentário se compreende a si mesmo como estando situado no ponto de vista ideal e adequado para "explicar" o que se diz num pensamento alheio; ou, mais correctamente, o comentário, tendo-se deste modo, vive-se numa posigão que se considera verdadeira, e é em fungåo da situagão descomprometida que os pontos de vista filosôficos devem ser compreendidos . 0 comentário, pelo simples facto de existir com pretensôes de alguma validade, assume-se "inconscientemente" (não se trata de modo nenhum, de um acto que se assume; pelo contrário: a assumpgão é sempre anterior "aos actcs de comentar") como estando fora de todos os pontos de vista, agindo numa posigao aberta e livre; e, pelo contrário, os pontos de vista filosôficos são determinadas tentativas cue se vêem como concentrando e restringindo qualquer coisa que, no espago em que o comentador habita, se aa a si mesmo como o que é. Tal espago vive-se como não estando preenchido senão pelas "prôprias coisas", pelo que realmente há. Ao comentar, o comentador -porque é ele que está em causa- postula, e sem precaugôes de relevo, pelo menos aparentes, a possibilidade de agarrar um pensamento filosôfico em estado puro, e tal sc pode ser postulado se ele mesmo se considerar como habitando numa posigâo de neutralidade, se se entender posicionado nas condigôes "devidas" . 0 pensamento filosôfico é visto como uma "aposta num particular", isto é, como um modo concreto de ver as coisas; o comentador, pelo contrário, tem um mocio não concret o de ãs ver. Por isso, c pensamento do filôsofo cabe no pensamento do comentador; de outra forma não comentaria . 29 Enquanto o filôsofo está preso e confinado a uma determinada perspectiva, precisamente a sua, o comentador, por seu lado, não tem preconceitos . "Os filôsofos têm também as suas preferências", estão "condicionados de muitas maneiras", e é a pretensa liberdade em relagão ao que se interpreta como "preferências e condicionamentos dos filôsofos" que tantas vezes cria no comentador a ilusão de compreender e de estar, de facto, a comentar. Na verdade, o comentador considera que a sua tarefa consiste em mostrar o que faz de um determinado ponto de vista filosôfico "um ponto de vista determinado e especifico"; considera que é fungão sua desenterrar as preferências e condicionamentos de que o prôprio filôsofo nâo se terá eventualmente dado conta, mas que não escapam ao olhar atento e agudo do comentador, dada a sua situagão privilegiada. Tal significa que o comentador não suspeita sequer da possibilidade dele prôprio se encontrar determinado por "preferências" ocultas, latentes, isto é, por teses que o comandam de modo atemático e que determinam o seu comentário. Esta situagão é, de facto, comum ãs variagôes das formas de comentar: a situagão do comentador é ôptima e privilegiada, o seu olhar "vê-se a si mesmo" numa limpidez e transparência, não motivado nem "inquinado" pelas teses que trata de comentar. Sô por isso o comentário existe no seu modo prôprio de existir: como um discurso sobre textos com pretensôes de validade, que esclarece o sentido e a "intengão" do filôsofo. Age-se, deste modo, por um lado, na pressuposigâo fundamental de que os sentido dos textos deve "decorrer naturalmente" -como a água mana de uma fonte- dos prôprios textos do filôsofo, mediando o olhar atento e cuidadoso - critico- do comentador. E, por outro, o comentário não suspeita de que o sentido que ele pensa "extrair" das proposigôes que pretensamente analisa pode não passar, afinal, de uma imposigâo oculta e inconsciente do seu prôprio olhar. De tal modo que, não sô os "nôs" e as eventuais aparentes contradigôes 30 do texto cstudado serão sempre atribuidas ao comentado e nunca ao comentador (7) , mas também a prôpria conf usão dos comentadores será culpa do filôsofo (8) . Em resumo: o que o comentário não pensa é precisamente aquilo que comenta: a natureza prôpria de um texto filosôfico. Aliás, o estudo prévio de tal questão anularia a tarefa de comentar, impedindo o seu desenrolar normal : ninguém se propôe dar um passo sem pressupôr que pode andar. 0 comentário tem por resolvidos tais problemas, ainda que ao seu modo prôprio: sâo questôes indubitavelmente relevantes e importantes, a tratar e estudar noutro comentário sobre outro ou sobre o mesmo autor. Todas estas questôes parecem dever ser aqui inventariadas porque, como se disse já, no caso de Leibniz, a situagão em que o comentário se encontra não pode deixar de produzir surpresa. Não se trata, o que seria normal, de um desacordo em relagâo a alguns aspectos do pensamento leibniziano; não se trata também, o que seria ainda normal, de um desacordo sobre todos os seus aspectos, tomados um a um. A situagåo é bastante mais (') "Leibniz makes assertions which, if their were valid at all, would be fatal to all relations. But in the rest of his system he pressuposes the reality of formal relations between different substances", BROAD, C.D., Leibniz. An Introduction, Cambridge, Cambridge University Press, 1975, pag. 39. Leia-se, também, por exemplo ISHIGURO, H., Leibniz's Philosophy of Logic and Language, London, Duckworth, 1972, pag. 114: "Side by side with this strong belief in the interconnection of multiple substances, we find a conflicting belief held by Leibniz in the logical possibility of there being only God and one created mind . (...). ĩn my view this is a strange inconsistency ♦ It contradicts Leibniz's previous assertion and is incompatible with his basic position." (Os sublinhados são meus) . Esta autora encontra bastantes contradigoes em Leibniz; veja-se outra, por exemplo, em Leibniz's Theory of the Ideality of Relations, (F) , pg. 211-212. (8) "Je pense que c'est en fait une fracture interne au systéme de Leibniz qui se manifeste â travers le désacord des commentateurs", BOUQUIAUX, L., L'harmonie et le chaos. Le rationalisme leibnizien et la "nouvelle science", Louvain- Paris, Peeters, 1994, pag. 190. cfr., no mesmo sentido, HAP.TZ, G. A., Leibniz's Phenomenalisms, The Philosophical Review, 10] (1992), pg. 511. 7\ desconcertante. Ela nâo versa sobre o sentido das teses de Leibniz; a questâo refere-se â prôpria "mesmidade" de "Leibniz". Determinados comentários, colocados lado a lado, tornam "impossivel" a existência de um sô e mesmo "Leibniz". Tal pluralidade de uma identidade única não se confunde, no caso presente, com a possivel pluralidade de interpretagôes de uma dada proposigão. A dúvida recai, antes de mais, não sobre o sentido das teses, mas sobre a sua prôpria literalidade (9) . Para dar somente alguns exemplos, poderá verif icar-se, sem requerer especiais investigagôes, que, para determinados comentadores, é "indiscutivel" que o pensamento leibniziano tem forma dedutiva (,0) . Outros, porém, apoiando-se igualmente em textos de Leibniz, mostrarâo precisamente o contrário (") ; Leibniz tanto pode compreender a existência como um predicado real (,:) , como compreendê-la de modo oposto (13) ; a inexistência (9) "The assertion that Leibniz never states a particular view is, of course, always perilous", KULSTAD, M., Leibniz on Apperception, Consci ousnoss, and Ref lection, Munchen, Philosophie, 1991, pag. 16. (10) "Leibniz considerô que toda su filosofia es dedutiva", OLASO, E., Una bancarrota de la razôn pura. La justif icaciôn leibniziana de los primeros principios, Revista Latinoamericana de Filosofia, 14 (1988), pg. 320. Do mesmo modo, RUSSELL, B. The Philosophy of Leibniz, Lrad. francesa Paris, Alcan, 1908. (") Por exemplo, DUMONCEL, J.-C, Le systême de Leibniz, sa structure et son centre, Revue Philosophigue de la France et de l'Étranger, 4 (1983), pg . 401-425 e SERRES, M. Le systéme de Leibniz et ses modéles mathématiques, Paris, PUF, 1982^ . (,2) Tese bastante comum: "Leibniz in fact believes that existence can be reduced to a predicate", ABRAHAM, W., Predicaton, Studia Leibnitiana, 8 (1975), pg. 5; mesma ideia em JALABERT, J., Le Dieu de Leibniz, Paris, PUF, 1960, pag. 90 e La théorie leibnizienne de la substance, Paris, PUF, 1947, pag. 65-66; PARKINSON, G.H.R., Logic and Reality in Leibniz's Metaphysics, Oxford, Oxford University Press, 1965. pag. 108. (,3) "Pour Leibniz (...) l'existence n'est pas une proprieté predicable de tel ou tel objet", KNECHT, H., Logique du concept et pensée formelle chez Leibniz, Studia Leibnitiana Sonderheft, 8 (1978), pg. 38. de relagôes é um trago peculiar do pensamento leibniziano (M) e, ao mesmo tempo, todo o seu pensamento tem como base a relagão C~) . . . Autor algum na histôria da Filosofia ocidental (M) Tese extraordinariamente comum. Leia-se, por exemplc : "He believed that there are no relations", EARMAN, J., Perceptions and Relations in the Monadology, Studia Leibnitiana, 9 (1977), pag. 229; mesma tese em BROAD, C.D., op . cit . , pag. 37. São somente dois exemplos; seria fácil encontrar bastantes mais. (15) Tese tão extraordinariamente comum como a anterior, o que não deixa de ser notável. "There are no non-relational properties in Leibniz's ontology", McCULLOUGH, L., Leibniz and Traditional Philosophy, Studia Leibnitiana, 10 (1978), pg. 263; "It is of the utmost importance to avoid misinterpreting Leibniz as meaning that pure relations are imaginary entĩties, that they do not have a role to play in the structure of reality. Just the opposite: they are precisely what keeps the monads or individual substances as members of one and the same world", CASTANEDA, H.-N., Leibniz and Plato's Phaedo Theory of Relations and Predication, (H) , pag. 148. Os exemplos sobre as diferentes opiniôes quanto ã literalidade das teses de Leibniz são quase tão numerosos quanto as prôprias teses. Por exemplo, Leibniz é mecanicista, mesmo em biologia (ROGER, J., Leibniz et les sciences de la vie, Studia Leibnitiana Supplementa, 2 (1969), pg . 211) e, por outro lado, "le problême de la vie peut se poser, grâce aux influences spirituelles qu'il (Leibniz) a subie, hors des cadres du mécanisme", DUMAS, M.-M., op. cit., pag. 18. Em Lôgica, o comentário pode também encont.rar divergências . Assim, para COUTURAT, La Logique de Leibniz, Paris, Felix Alcan, 1901; reimp., Hildesheim, Georg Olms Verlag, 1985, reimp., pag. 349, os termos universais têm um alcance existencial, enquanto que para W. ABRAHAM (op. cit., pg . 8) é precisamente o contrário: nenhum termo, nem mesmo os particulares, tem tal alcance. Sobre Deus, as opiniôes são as mais opostas possiveis. Assim, Deus é a prôpria ordem, como diz MOREAU (L'univers leibnizien, Paris, Vitte, 1956, pag. 78), mas poderia ter escoihido a desordem e o caos (BRUNNER, F., Études sur la signif ication historique de la philosophie de Leibniz, Paris, Vrin, 1950, pag. 110); e se para D. BLUMENFELD ( Superessent ial ism, Counterparts and Freedom, (H) , pg . 104), Ele escolhe necessariamente o melhor, para R. ADAMS (Leibniz's Theory of Contingency, (H) , pg. 243) é o contrário que se verifica; de tal modo assim é que a criagåo ou é contigente (C. SHIELDS, Leibniz's Doctrine of Striving Possibles, Journal of History of Philosophy, 24 (1986), pg. 356) ou então não é contingente (J. MOREAU, op.cit . , pag. 78). Aliás, Deus sô é bom porque quer (N. RESCHER, The Contribution of the Paris Period (1672-76) to Leibniz's Metaphysics, Studia Leibnitiana Supplementa, 18 (1978), pg. 51 e T. MEIJERING", On Contingency in Leibniz Philosophy, Studia Leibnitiana, 9 (1977), pg. 50 entre muitos outros: esta tese é banal . . . ) , ainda que não seja difícil encontrar quem pense que Deus é 33 tomou como "tema" central e fundamental do seu pensamento (como o seu tema) a lôgica, a metafisica, o tempo, a substância, a vida, Deus, o principio de razão suficiente, a fundagão da ciência universal, a apologética, as relagôes entre alma e corpo, a harmonia... (16) . Não se trata, assim, de tentar elucidar o sentido mais profundo de tais teses; procura-se, antes de mais, saber quais são as teses a elucidar. "Leibniz" é um problema, não somente no que se refere ao seu sentido, mas já no que se refere å sua existência fáctica. A dificuldade é tanto mais aguda quanto os textos que se reúnem sob um mesmo nome -precisamente Leibniz-, e contando já com a evolugão necessariamente bom, por exemplo, J. NASON (Leibniz and the Logical Argument for Individual Substances, Mind, 51 (1942), pg. 201-222) . E se se levasse a lôgica de Leibniz até âs últimas consequências seria necessário concluir que a existência do prôprio Deus é contingente, como afirma tranquilamente B. RUSSELL (op. cit., pag. 43) . 0 "Deus de Leibniz" é sem dúvida o mais suspeito de todos os deuses. (16) Sirvam como exemplos : "c'est (a vida) non seulement 1 ' une des questions du systéme de Leibniz, mais peut-être la question fondamentale", DUMAS, M.-M., op . cit., pag. 18; "Leibniz's metaphysics acquires a new meaning as the foudation of the universal science", TYMIENIECKA, A.T., op. cit., pag. 371; "Sa philosophie nait d'une reaction de la conscience religieuse â l'égard du mecanisme scientif ique; (...). II y a donc, â l'origine de la philosophie de Leibniz, un dessein apologetique", MOREAU, J., op. cit., pag. 13; "C'est l'opposition entre âme et corps, c'est 1 ' heterogeneité absolue des deux substances, étendue et pensante, qui est a I'origine de la doctrine leibnizienne", ROLLAND, E., Le determinisme monadique et le probléme de Dieu dans la philosophie de Leibniz, Paris, Vrin, 1935, pag . 50; "...seule l'analyse des rapports de la substance au temps pouvra nous fournir la clé du substantialisme leibnizien; en même temps nous aurons l'intuition ordonnatrice de son systême", JALABERT, J., La theorie leibnizienne de la substance, pag. 8; "... sa Logique était, non seulement le coeur et 1 ' âme de son systéme, mais le centre de son activité intellectuelle et la source de ses invenctions", COUTURAT, L., op . cit., pag. XII. Contra todas estas interpretagôes pode ler-se, para além da obra de M. SERRES já citada, MATES, B., The Philosophy of Leibniz. Metaphysics and Language, pag. 4: "... Leibniz's philosophy has no 'beginning' ", e GARBER, D., Leibniz and the Foundations of Physics: The Middle Years, (0), pag. 73: "Leibniz's philosophy doesn't derive from his logic because it doesn't derive, strictly speaking, from any source at all." 34 histôrica que eventualmente terão sofrido, parecem permitir "todas" as provas documentais que se requeiram. Leibniz dirá, num momento, que pensa terminar em teôlogo, para noutra ocorrência tomar a metafisica -eventualmente a lôgica- como seu fito principal (p) ; dirá depois que o seu método se baseia em axiomas e definigôes (18) -e recordará Spinoza- para, no momento seguinte, surgir defendendo a arbitrariedade da "dedugão" das suas teses (,9) , etc. Os textos, que pareciam ser o ponto de partida ôbvio, revelam-se possuidores de uma tão grande plasticidade que é possivel fundamentar-se neles para provar as mais variadas teses . É esta sobredeterminagão dos textos C ) "Je commence en philosophe, mais je finis en theolocien", Bod., pag. 58; "La veritable metaphysique est sans doute la plus importante des sciences", Carta a Mariotte, Ak., II, I, pag. 268; "je viens â la Metaphysique, et je puis dire que c'est pour amour d'elle que j'ay passé par tous ces degrés; car 3'ay reconnu que la vraye Metaphysique n'est guéres differente de la vraye Logique...", Carta a . . , G IV, 292, ainda que, em C, 556 (Lexto sem titulo) , escreva: Logica est Scientia generalis. (Theologia) Metaphysica est scientia rerum intellectualium" . (lb) "Je n'ecris jamais rien en philosophie que je ne le traite par definitions et par axiomes...", Carta a Burnett, GIII, 302. (,9) "Mea principia talia sunt, ut vix a se invicem divelli possint. Qui unum bene novit, omnia novit", Carta a Des Bosses, G II, 412; "... just to give a simple example, the mirroring principle sends you around to the notion of compossibility; which in turn sends you around to that of expression; which in turn sends you around to that of connection; which in turn sends you around to the mirroring principle; ... and so on . . . ; MONDADORl, F., Solipsistic Perception in a World of Mor.ads, (H) , pag. 23. Apesar de uma certa incorrecgão nos termos ("mirroring principle") e de deixar de lado a verdadeira questâo (o que é propriamente o "sends you around"?) o texto revela, de facto, o movimento prôprio do pensamento leibniziano: não tem um ponto "inamovivel" . Por outro lado, a "arbitrariedade da dedugão" não significa de modo algum que os principios podem ser desligados uns dos outros. Pelo contrário: tal "arbitrariedade" é sinal da sistematicidade perfeita do pensamento de Leibniz de tal forma que a modificagâo na compreensão de um principio influi na compreensão de todos os restantes: "On ne peut rien deguiser dans mon systeme, car tout y a une parfeite cormexion", Bod., pag. 58. "15 leibniziancs, a par de um carácter aparentemente "indeciso", que faz ccm que Leibniz seja considerado sobretudo como um percursor; e percursor de quase tudo, desde as mais modernas teorias sobre o inconsciente até, por exemplo, ao materialismo dialéctico (:o) . Há um espanto somente acessivel a quem estuda Leibniz (21) . Se necessário fosse uma prova real de que a instalagâo imediata nos textos não pode ser o inicio correcto da interpretagão de um pensamento filosôfico, os comentadores de Leibniz encarregar-se-iam de no-la dar. A mais superficial das leituras ensina já -independentemente das consideragôes que a seguir se farão- que os textos leibnizianos exigem uma "iniciagão" e um acesso; que não fornecem, de modo indiscutivel e pacifico, indicagôes acerca da sua natureza; que tal acesso permanece, por esta mesma razão, ainda indeterminado, num modo de indeterir.inagão que se mostra como desorientagão, pois não se vislumbram facilmente nem mesmo indicagôes de natureza formal que permitam suspeitar a via correcta: Leibniz, como se sabe, não estruturou, num todo organizado de modo formal, o seu prôprio pensamento (") . 0 "fracasso" a que o comentário, de certo modo, conduziu (abstraindc necessariamente, e como é ôbvio, de muitos contributos positivos para o esclarecimento de algumas das suas teses) , pode, no entanto, servir, ele mesmo, como despertador de um certo torpor em que å partida o seu leitor vive: tal (:o) "... Leibniz's philosophical ideas possesses the grains of the subsequent development of the contents of the systems principle on the dialectical-materialistic foundation, SADOVSKY, V.N., Leibniz and the Development of General System of Ideas, Studia Leibnitiana Suppiementa, 15 (1975), pg. 142. (:|) Pode encontrar-se um resumo da multiplicidade de possibilidades que o comentário leibniziano tem experimentado em HEINEKAMP, A., L'état actuel de la recherche leibnizienne, Les Études Philosophiques, 1898 (2), pag. 139-160. (::) "Mon Systeme (...) n'est pas un corps complete de Philosophie. . . ", Carta a des Billettes, G VII, 451; cfr também, por exemplo, Rob, 344. 36 "fracasso" exige, antes de mais, um enf rentamento com o problema da natureza de um texto filosôfico. Abreviando razôes -porque é necessário fazê-lo-, um texto filosôfico parece ter, em primeiro lugar, a forma de um desaf io. Para verificar que assim é basta ler, por exemplD, as primeiras linhas da Monadologia . Imediatamente se reconhece que se tenta nelas alguma coisa que não se deixa inscrever, de modo imediato, numa situagão que seja por nôs facilmente reconhecivel . Apontam numa direcgão que não encontra correlato ôbvio na exposigão das coisas em que estamos constituidos sempre. Para dizê-lo de modo relativamente metafôrico, os textos filosôficos apresentam-se como que escritos "em côdigo", por assim dizer, e, pela sua prôpria estrutura e linguagem, reclamam um esforgo de "descodif icagão" . Tal exigência significa que as proposigôes em causa apontam para um horizonte nâo imediatamente dado, ou melhor, nâo imediatamente reconheci do como dado, um horizonte que e preciso "descobrir". E é nessa medida que o texto filosôfico pode constituir um desafio. A possibilidade ou impossibilidade de aceder ã inteligibiiidade de tais textos decide-se, então, na concreta interpretagão do desafio que se tomar. A atitude "natural" e mais fácil -aquela que, de facto, é usual e ôbvia- toma o desafio de uma forma vaga, ainda que perfeitamente situada: por exemplo, um desafio ã "inteligência" . 0 texto é "dificil", exige "atengâo e concentragão" dado que a argumentagâo é eventualmente dificil de acompanhar. A "dif iculdade" está perf eitamente assegurada quanto å sua origem e, portanto, quanto ao seu sentido. Quer dizer, sabe-se onde nasce, de onde deriva: dos textos. Mas apesar disso, a dificuldade é vaga e informe, e não é pensada. Pressupôe-se que se sabe "mais cu menos" o que significa dizer que o "texto é dificil", e essa pressuposigão não examinada, ao localizar a dificuldade, liberta o sujeito da necessidade de reverter sobre a sua prôpria situagâo: ele comprcende-se, comc 37 se disse atrás, numa disposigão neutral e livre: o problema é do texto ou "das coisas" de que o texto fala, que não são coisas "ôbvias", imediatas, quotidianas, mas sim, elas mesmas, "dificeis"; as coisas de que fala o texto não são "imediatamente acessiveis"; são, pelo contrário coisas estranhas: entes irreconheciveis como, por exemplo, Mônadas, dominadas e dominantes, ou seres de natureza e existência duvidosa, como os vincula substantialia, ou percepgôes pequenas ou cegas e mundos em diminutivo. . . Ora, dado que "as coisas" de que fala o filôsofo não são imediatamente reconhecidas, e dado também que o filôsofo foi "um homem muito inteligente", torna- se necessário construir uma espécie de horizonte intelectual -um mundo- onde o que se aponta e se pressente no texto possa encontrar um lugar. Quer dizer, em face da estranheza que o texto provoca, o não reconhecimento da prôpria posigão como já dseterminada conduz, como que pela mão e de modo insuspeitado, â criagão de um "mundo substituto" onde as teses dos filôsofos possam encontrar, finalmente, um sentido que lhes seja adequado (^3) . Pensa-se estar, então, de posse de uma "interpretagão" de um determmado pensamento filosôfico. E "interpretar" um pensamento será criar um mundo para ele. Por esta mesma razâo, a interpretagão que se forjou em nada afecta -não toca sequer: essa possibilidade está aqui fora de questão- o mundo onde em cada caso se vive sempre, o mundo real, onde as orientagôes são naturais e as decisôes possiveis. Precisamente porque a situagão do leitor é vivida como não situagão -como espago ôbvio c natural, como neutralidade-, tal (23) "...autant de romans metaphysiques", diz C. PIAT (Leibniz, Paris, Félix Alcan, 1915, pag. 223) a propôsito da harmonia pre-estabelecida. Não deixa de ser irônico que o prôprio Leibniz tenha julgado do mesmo modo os pensamentos dos filôsofos: "II est vray que rien ne couste â Dieu, bien moins qu'â un Philosophe qui fait des hypotheses pour la fabrique de son monde imaginaire", Discours de Metaphysigue, §V, G IV, 4 30- 431. 38 situagão permanecerá impassiveJ e Lranquila. E, ao lado do mundo em que vivemos sempre, construiu-se outro, de natureza imaginária e com "fungôes" meramente intelectuais e culturais, de dificil acesso, leservado a privilegiados, como se as coisas de que Leibniz fala sô ele as tivesse visto, sô ele tenha tido conhecimento delas, permanecendo desconhecidas para qualquer outro mortal. Tal atitude, revela em última análise, que a "inteligibilidade" alcangada deste modo é a inteligibilidade de um sonho; bem urdido, eventualmente, mas sonho, porque o mundo real permaneceu aquém do desafio do texto. E o discurso filosôfico será entâo olhado como um conjunto de teses sobre qualidades ocultas de um mundo imaginário. Assim, a interpretagão de um ponto de vista filosôfico a partir da instalagão imediata nos textos, isto é, ex datis, acaba pcr se reduzir, de facto, ã justaposigão de fôrmulas, que se manuseiam com maior ou menor dificuldade, que se relacionam entre si de modo mais ou menos harmônico e claro, até poderem alcancar a estrutura a forma de um "todo orgânico"; um todo, todavia, simbôlico, porque sustentado por fôrmulas: um romance. Este mundo nâo dado dos filôsofos (24) -longe do real, do da vigilia- pode ainda ser interpretado de várias formas: ou de um modo teôrico-abstracto -como um sistema de proposigôes que, de algum modo, se sustentam por si mesmas-, ou de um modo aparentemente concreto e vivido. Nesta última forma, o mundo descrito e investido de uma pretensão ingénua -porque não pensada- de "historicidade" , e aloiado na "psicologia" do seu autor. Mas, ao apelar para a psicologia do filôsofo, opera-se precisamente o inverso do que se pretende: deixa, desse modo, de se dispôr do "concreto e vivido" que se procurava . Recorrer a determinadas disposigôes mentais ou existenciais -ou ainda a C'1) "Le monde de Leibniz est un monde infiniment varié, un monde inímiment riche", ROUQUIAUX, L . , op . cit., pag. 162. 39 circunstancialismos poiitico-econômico-sociais-estéticos- é o mesmo que valer-se de uma situagão longinqua, para nôs vedada e cega, å qual não se tem um acesso real, mas, uma vez mais, meramente simbôlico. Se, em relagão aos textos, pode ainda dizer-se que, de algum modo, sc possui um acesso "directo", tudo nos separa, pelo contrário, da "psicologia" do autor, pois é evidente que não temos possibilidade de "entrar" directamente nela. 0 encontro com os prôprios textos faz-se, neste caso, por meio de uma pseudo-introdugão misteriosa e mitica na "mente" do seu autor. A ilusão que aqui se constitui é dupla: por um lado, julga-se que a situagão histôrica concreta em que o autor se encontrou compreende a origem e a "chave" do seu pensamento. Tal juizo não reconhece que, se não é fácil reconhecer o sentido de um texto, tão dificil é (pelo menos tão dificil) reconhecer o sentido da inscrigão de um ponto de vista na historicidade (:5) . Ou seja, nâo se pensa em que possa consistir (:5) "Une philosophie, comme un oeuvre d'art, c'est un objet qui peut susciter plus de pensées que celles qui y sont contenus (...), qui garde un sens hors de son contexte historique, qui n'a même de sens que hors de ce ccntexte", MERLEAU-PONTY, M., Le visible et l'invisible, Paris, Gallimard, 1964, pag. 253. De modo nenhum se pretende afirmar que um pensamento filosôfico está livre de toda e qualquer inscrigão na Histôria. Pretende somente dizer-se que a "situagão histôrica" não pode ser tomada como uma panaceia para todo o tipo de interpretagôes, e que agindo de tal modo se recusa o encontro com a prôpria obra, por mais historicamente determinada que possa estar. A "situagão na Histôria" deverá ser pensada no contexto da historicidade que é prôpria do humano, o que implicará que a historicidade da obra pode ser recuperada pela assumpgão da nossa prôpria: "L'oeuvre dure en tant qu'elle est capable de paraĩtre tout autre que son auteur l'avait faite. Elle dure pour étre transformée, et pour autant qu'elle était capable de mille transformations et mterpiétations. Ou bien, c'est qu'elle comporte une qualité indépendante de son auteur, non créée par lui, mais par son époque ou sa nation, et qui prend valeur par le changement d'époque ou de nation", VALERY, P., Tel quei I, Paris, Gallimard, 1941, pag. 206. Desta forma, a inscrigão na Histôria nâo sô não significa que o sentido da obra se perdeu totalmente no tempo (o que nem poderia ser dito: se algo se perdeu absolutamente, não se possui nem noticia da sua perda) , como, pelo contrario, que a sua significagåo pode ser "restituida" na situagão que é a nossa. "En fait l'oeuvre d'art (mas a situagâo é a mesma) part d'un sol, d'un temps, d'une societé; elle en 4H a historicidade de um pensamento: a dependência da histôria é aqui um argumento e não uma questão. Além disso, o eventual esclarecimento que a "mente do autor" poderia conferir âs teses que de facto produziu teria precisamente o mesmo estatuto que estas, o que significa que nada se alcangaria. Dito de outro modo: não sô o que o autor "quis dizer" foi de facto o que disse (se tivesse querido dizer outra coisa, teria dito outra coisa) , como tudo o mais que ele tivesse dito sobre o que queria dizer não poderia introduzir nenhuma elucidagão, porque passaria a fazer parte do que ele disse. Nâo se percebe, portanto, o que significa "recorrer â mente do autor". Julga-se ingenuamente, sem se saber porquê, que "comipreender o que pensou" é passivel de uma apreensão especifica, diferente e "superior" â do "que efectivamente disse" . Por outro lado, apelar para tal horizonte é querer habitar uma "terra deserta", a que nada corresponde nos dados de que dispomos realmente. Cria-se somente uma ilusão de inteligibilidade porque se "localizou" um mundo onde um texto pode ter nascido, ainda que esse mundo seja rea Lmente desconhecido, isto é, não seja, evidentemente, habitadc por nôs. Mas tal localizagão significa, então, algo semelhante a uma "homogeneizagão" de um texto "dificil" com um mundo desabitado: o texto não esclareceu o mundo vivido, nem o mundo vivido esclareceu c texto, mas a um texto que nos é estranhq possibilitou- s e um mundo c u e nos é igualmente estranhc. D e facto, a compreensão "histôrico-psicolôgica" de um texto, quando é considerada como a "chave" do seu sentido, significa, part, mais elle ne va pas vers ce temps, ce sol; elle n'y retourne pas. II ne faut pas confondre le point de départ avec le point d'arrivé"; e "Chaque temps demande 1 ' introduction d ' un 'hors temps' incommunicable, dans le temps, dans le communicable. Tout moment est circonscrit dans l'histoire, bien sûr. Mais dans chaque moment est toute l'histoire", IONSSCO, E., Notes et contre-notes, Paris, Gallimard, 1966, pag. 214 e 54, respect.ivamente. 0 exame sério da questão nâo pode, no entantc, ser levado a cabo neste espago. 41 em última .málise, que esse texto não tem a ver connosco nem com o mundo em que se vive, porque depende de condigôes particularcs já mortas e inacessiveis (26) . 0 que transforma o texto em questão ou de curiosidade, de erudigão ou de "cultura geral": em qualquer coisa de radicalmente "desinteressante" e amorfo. Uma ot.tra atitude, porém, deve ser em principio possivel. Em face do desafio que se constitui num ponto de vista filosôfico, o sujeito que a ele tenta aceder pode suspeitar, não já da inteligibilidade do texto em que tal ponto de vista se formalizou, mas sim da inteligibilidade e sentido da posigão de neutralidade em que ele pensa estar. Tal desconfianga tomará a forma de um mero pressentimento . Não se trata, de modo algum, embora tal possa também acompanhar a suspeita, de desconfiar das "capacidades subjectivas" de "compreender" Leibniz. Trata- se sim de, revertendo â sua prôpria compreensâo das coisas, P) Como é fácil de perceber, pretendeu apenas dizer-se que tanto a compreensâo histôrica como a psicolôgica de um texto filosôfico possuem, pelo menos, um núcleo comum, indepentemente das possiveis diferengas de forma: ambas remetem para um mundo em que não se está. Mas não se tentou expôr o eventual significadc dessas formas de compreensão. Isso implicaria, por exemplo, fazer a análise do sentido de enunciados como "a tese de Leibniz sobre a harmonia pré-estabelecida depende da situagão cultural do barroco" (ou "depende da personalidade de Leibniz"). 0 que, como se sabe, é uma análise complexa, pois exige saber se a compreensâo dos enunciados depende do que nôs entendemos por "barroco" ou "personalidade de Leibniz" ou do modo como o "bairoco" ou a "peisonaiidade de Leibniz" foram vividos pelo individuo 'Leibniz' (assumindo que foi ele que proferiu a tese da harmonia pré-estabelecida) , o que "pode" não ser a mesma coisa. Se assim acontecer, é evidente que os enunciados possuirão sentidos diferentes e incomensuráveis, de tal modo que o sentido do texto será realmente indeterminado: no primeiro caso, o sentido de um texto proferido por um autor é inintelicivel para ele, porque depende da compreensão que nôs temos da sua situagão; no segundo, é absolutamente ininteligivel para nôs . Se não houver diferenga de sentido nos termos, será necessário prová-lo, o que não parece fácil. E se houver comensurabilidade entre os sentidos no autor e em nôs, será preciso determiná-la, o que parece igualmente dificil. De qualquer forma, em qualquer caso sempre remetem para um mundo em que não se está, que é o que estava em causa. Á 42 reconhecer, antes de mais, que se possui já -e se possui sempre- uma determinada compreensão das coisas, isto é, que se vive num espago que se compreende a si mesmo como sendc de "liberdade" e de "abertura". Ou seja, tal suspeita tem por conteúdo a possibilidade de se estar situado em "disposigôes" f undamentais . A tal pressentimento -que normalmente não é prévio å leitura do texto, mas, pelo contrário, fruto da estranheza que ele pode provocar- nada de concreto, ao principio, corresponde. Terá, no entanto, a vantagem de nada, ou quase nada, decidir acerca do modo como os textos deverâo ser encarados. A suspeita não sabe como proceder, e isso mesmo a liberta da tarefa de ter de construir um mundo para os textos. De um modo ainda meramente formal, possibilita-se desta forma que o mundo tentado nos textos a elucidar seja, de facto, o mundo em que se vive (e não o mundo onde se pensa viver) , o mundo onde de facto o sujeito se encontra inscrito, ainda que este parega ser fácil e ôbvio e aquele estranho e irreconhecivel . Tal pressentimento nâo pode ser, portanto, uma táctica ou uma simples estratégia, o que seria bem fácil, afinal. Pelo contrário, a atitude a que aqui se tenta aiudir vive (que não é o mesmo -muitas vezes é até o oposto- que "dizer que vive") na possibilidade da destituigão e denúncia do ôbvio, do pacifico. Em última análise, tal atitude não pretende "situar" os textos : pretende-se des-situar a si mesma. 0 desafio do texto não se compreende agora nos quadros de uma tarefa simplesmente "intelectual" ou especulativa; tal desafio invoca a prôpria inscrigão no mundo em que se está, o sentido que constitui o mundo da vida. Assim, a "dif iculdade" de que os textos estão investidos nâo se assume, â partida, como a impossibilidade do seu reconhecimento no mundo da vigilia, tomado como "o mundo real tal como é". Pelo contrário, tal dificuldade toma-se como a possibilidade de cegueira em relagão ao mundo mesmo em que se vive. 0 que impede a compreensão dos textos filosôficos pode 43 ser atribuivel a um modo determinado que há já de compreender as coisas -"discere non potest, qui sibi íam se scire persuasit" (r)-, modo que não se vê, que nâo se detecta, que é inaparente, mas que condiciona o nosso olhar, de tal modo que cria uma resistência e oposigão âs indicagôes que o texto em causa contém. De moco mais simples: o desafio que se vislumbra -quando se vislumbra- nos textos poderá ser interpretado como contendo a pretensao de ser um acordar. E a estranheza neles compreendida transfere-se, assim, ou pode transferir-se, para a posigão em que se está. 0 leitor interroga-se em primeiro lugar a si mesmo, e é a sua posigão e o seu mundo que poderão ser estranhos e dificeis: "Non, je ne vous conduirai point dans une terre étrangere: mais je vous apprendrai peut-être qui vous êtes étranger vous-même dans vôtre propre pais. Je vous apprendrai que ce monde que vous habitez n'est point tel que vous le cro'iez" í28) . Do mesmo modo, Leibniz escreve que "philosophi plebejis non semper in eo praestant, quod alias res sentiant, sed quod sentiant alio modo, id est oculo mentis, et cum reflexione seu attentione" (29) . Mas esta diferenga de modo introduz, no entanto, uma descontinuidade radical entre o modo de encarar as coisas tal como se dá na atitude de todos os dias e aquele que será fruto (2Î) AGOSTINHO, De Utilitate credendi, XI, 25 (não pode aprender quem se convenceu a si mesmo de já saber) . (^) MALEBR?VNCHE, Entretiens sur la Métaphysique et sur la Religion, I; Oeuvres Complétes de Malebranche, XII, Paris, Vrin, 1965, pg~ 30. O sentido do texto citado deve tomar-se, bem entendido, fora da sua compreensão malebranchiana. (29) Dissertatio praeliminaris De alienarum operum editione, de Scopô~ôpêrĩ.s, de philosophica dictione, de lapsibus Nizolii, G IV, 142-143 ("os filôsofos nem sempre são superiores ao comum dos homens pelo facto de que se apercebem de outras coisas, mas porque se apercebem de outro modo, isto é, com o olhar da mente e com reflexão ou atengão") . 44 da reflexâo ou atengâo; uma descontinuidade entre modos e não entre "coisas". Reflectir "cum oculo mentis" é, em primeiro lugar, reconhecer-se como estranho na terra que se habita: "... soleo enim et quaedam quandoque de natura rerum, quamquam velut peregrinum in orbem deleatus, ratiocinari" (30) . A estranheza do mundo que se desperta por meio da reflexão não pode, todavia, "deduzir-se" do texto. Este, na sua fixidez, é, de algum modo, mudo em relagão ao sentido que está nele, não se revela de uma forma imediata e clara. De facto, a tixidez das palavras apresenta sempre um grau de indeterminagão, ainda que vago: se, por um lado, ela impôe algum tipo de limites aos seus sentidos possiveis -não se pode dizer o que se quiser a propôsito de um texto dado-, por outro, tais limites não estão perfeitamente determinados : não sô o sentido nao se encontra em estado de disponibilidade imediata, como podem até encontrar-se vários sentidos para um mesmo texto, ãs vezes complementares, outras vezes contrários. 0 texto parece somente propor, de um modo formal -ainda que não absolutamente formal-, uma interpretagão, estabelecendo um enquadramento geral, constituindo indicagôes para o seu prôprio esclarecimento. Mas tal significa, também, que o sentido parece estar como que "solto" da literalidade do texto, não podendo deduzir-se dele (o que de modo nenhum significa que o sentido "paire" â volta do texto, ou atrás, ou debaixo dele -metáforas que, afinal, passam ao lado da sua natureza prôpria) . 0 texto apresenta-se como sendo um "corpo" de que se trata de descobrir -e nåo "adivinhar"- a alma que o habita (31) . E se a alma do textc não ( °) Carta a Hobbes, G VII, 573 ("pois também eu costumo de vez em quando pensar acerca da natureza das coisas, ainda que como se fosse langado ao mundo como um estrangeiro" ) . C' ) Ideia bastante antiga, de que se pode encontrar, por exemplo, em AGOSTINHO (De quantitate animae, XXXII, 66) a seguinte formulagão: "Cum ergo nomen ipsum sono et signif icatione constet, sonus autem ad aures, significatio ad mentem pertineat; nonne arbitraris in nomine, velut in aliquo 45 lhe pode ser "imposta" do exterior, não pode também agarrar-se e apreender-se com propriedade por meio da simples citagåo. As palavras sâo como gestos: comandam a indicam uma interpretagão que se lhes ajustará, mas sem "dizer" de qual se trata. A sua indeterminagão, não sendo a de uma "pura potência", é a de uma indicagão, de um apontar, em que aquilo para que se aponta é, de algum modo, "transcendente" ao acto de apontar, apesar deste possuir em si mesmo e sempre algum tipo de determinagão: todo o apontar é, de algum modo, determinado. Ora, por mais que essa determinagão não seja evidentemente idêntica å da prôpria coisa apontada, deve, no entanto, possuir alguma relagão com ela, pois de outro modo nada se apontaria e não haveria indicagão de natureza alguma: por rnais indeterminada que possa ser, uma indicagão deve, pelo menos, poder reconhecer-se como uma indicagão, caso contráric não tem significado nenhum. E, por outro lado, a determinagão da indicagão deve poder "desfazer- -se" na da coisa, pois é para esta que aquela intrmsecamente tende. Quer dizer, um gesto de apontar tem sentido em fungão daquilo para que aponta; fora desta relagão será considerado como "outra coisa". Desta forma, considerada como uma indicagâo que pretende resolver-se na coisa que indica, a linguagem filosôfica pode aspirar -e aspira, de facto- å transparência, a deixar passar através de si as prôprias coisas que designa: pode pretender equiparar-se â visão. Mas, nessa medida, a elucidagâo de um texto filosôfico mediante o processo da citagão submerge-se, se nâo interrogada, numa ilusâo total. De facto, sô a instalagão na linguagem corrente, habitual -aquela de que se pressupôe deter já uma compreensão- pode fazer "pensar" que a inteligibilidade de um texto se pode tornar possivel ir.ediante uma imediata inscrigão nele mesmo. Na verdade, o que se refere com o titulo "instalagâo imediata nos animante, sonum esse corpus, signif icationem autem quasi animam soni?" Cfr. tentativa de recuperagão da mesma ideia noutros moldes em BRUAIRE, C, Philosophie du corps, Paris, du Seuil, 1968, pag. 167 e ss. 4m textos" revela-se, na interpretagão habitual -isto é, na prática normal da análise-, precisamente como o contrário do que se pretende. Na medida em que o texto filosôfico tenta a transparência, a instalagão nele será a instalagâo nas coisas mesmas. A pretensão de um texto filosôfico é uma pretensáo de evanescência . 0 texto, tal como o diáfano, tenta impedir que o olhar se f ixe nele. Por esta razão, a "instalagåo imediata nos textos", no modo como se pratica correntemente, f az o contrário do que diz : pretendendo ser o método ôbvio para esclarecer o sentido do texto, aquilo de que ele fala, acaba por tcrnar impossivel isso mesmo que pretende fazer, pois substitui a coisa em que o texto pretende desaparecer pelo prôprio texto, como se este fosse "uma coisa em si". Esta "pseudo-instalagão" nos textos não pode, como é evidente, deixar de provocar confusão. Nåo pondo em causa a sua prôpria situagão e o ser.tido que se compreende já nela, o comentador, em face da "dificuldade do texto" , vé-se constrangido a produzir uma interpretagão, o que sô pode fazer "utilizando" os recursos de que dispôeia sua prôpria linguagem, a linguagem corrente. Quer dizer, o leitor pressupôe que os conceitos disponiveis que estão em jogo no acto mesmo de comentar (e não os que surgem no conteúdo do comentário) , aqueles que se utilizam ao "falar sobre o texto", não requerem esclarecimento, pois isso poria em causa a prôpria possibilidade de comentar e o comentador teria que esclarecer os seus prôprios conceitos antes de tentar esciarecer os do texto. Nesta medida, o comentário, pelo simples facto de existir, mostra que o sentido que vive nos conceitos do comentador é o ponto fixo e inamovivel a part.ir do qual o texto pode receber inteligibilidade . 0 que, corao se disse, não pode deixar de originar confusão. 0 sujeito pode comegar, então, a dispôr de uma interpretagão de um texto filosôfico, mas tal interpretagâo, por mais bem documentada que possa ser, baseia-se numa linguagem, em sentidos que ele prôprio nåo interroga e que se encontram em estado de 47 permanente disponibilidade, instrumentos adequados para qualquer análise. A maior parte das contradigôes do "pensamento de Leibniz" têm origem nesta confusão (32) . E deve ter sido por este motivc que Leibniz suspirava continuamente por definigôes (33) . É esta pressuposigão que impede o texto de se constituir em transparência. Constituido num sentido que não sô não é "seu" como, o que é mais grave, é totalmente pressuposto, a (3:) Para dar somente um simples exemplo, ainda que bem significativo, veja-se como a linguagem não leibniziana introduz um notável mal-entendido : " ' Perceptions ' is a somewhat misleading word since monads do not actually perceive each other nor interact with each other at all", LEVIN, M., Leibniz's Concept of Point of View, Studia Leibnitiana, 12 (1980), pag. 221. Ou seja: o pensamento de Leibniz toma-se, de modo não interrogado, como uma tentativa de esclarecer uma nogão de percepgão já disponivel. A Autora não pensa a sua prôpria compreensão de percepgão, como se ela fosse ôbvia. Aliás, a maior parte dos estudos sobre as relagôes entre contingência e analiticidade, sobre liberdade e principio de razão suficiente, sobre a nogão completa, sobre Deus, etc, procuram encontrar em Leibniz o que lá não parece estar. Leibniz procura um sentido possivel para esses termos, bem consciente de que eles são, na linguagem corrente, pensamentos cegos, enquanto que os comentadores pressupôem já um sentido e por isso tomam as "tentativas de definigão de Leibniz" como se fossem cor.clusôes de argumentos, como teses de natureza "metafisica". Veja-se, por exemplo: "II m'a tousjours paru que les questions sur la liberté et le destin et celles qui s'y rapportent sont toutes vuidées, et qu'on les fait plus difficiles qu'elles ne sont . <Pour le fait voir,> il importe de bien eclaircir les termes, et de faire des oppositions justes", Conversation sur la liberté et le destin, Gr 4 78. 0 comentário, de há uns anos para cá, vem-se conscencializando dos erros deste método: " . . . in large measure the strangeness commonly found with Leibniz's writings is due to wrong expectations about he was trying to do"; "Leibniz has, more than most of the great philosophers of the past, become something of a prisioner of his commentators", BROWN, S., Leibniz, Brighton, The Harvester Fress Ltd., 1984, pag. xi e xii respectivamente . C3) "Si on donnoit des definitions, les disputes cesseroient bientost", Carta a Malebranche, Rob., 344. Veja-se, a modo de exemplo, o que diz Leibniz acerca de um problema concreto: " La pluspart des questions du droit, mais surtout de celuy des souverains et des peuples sont embarassées, parce qu ' on ne convient pas d'une notion commune de la justice, ce qui fait qu'on n'entend pas la même chose sous le même nom, et c'est le moyen de disputer sans fin", Mollat, 67. 4S opacidade da nossa linguagem habitual, que "obviamente" se vive a si mesma como transparência, "transf ere-se" para o prôprio texto a analisar. Este processo escondido de transferéncia torna-se possivel pela prôpria natureza da palavra. Um corpo vivo pode sempre ser visto como um pedago de qualquer coisa; e se estiver imôvel -como as proposigôes sempre o estão- pode ser tomado, quer por um cadáver, quer por um manequim. Será, então, habitado somente pela alma de quem o vê. Se "os mortos sô dos vivos se alimentam", como se diz n' "A Sibila", tal significa, no caso presente, que a alma que vive nos textos dos filôsofos é uma alma que, ainda que pretensamente ôbvia e natural, é a da linguagem do leitor (e não a do leitor, tal como a alma que habita os textos dos filôsofos está nos textos e não no "interior" do filôsofo) . Assim, a possibilidade de instaurar um sentido novo -ou seja, de dar aos textos de Leibniz o "beneficio da dúvida"- exige, uma vez mais, como condigâo necessária, o trazer-se å luz na posigão em que se está já, num movimento que reverte sobre si mesmo e em que o sujeito se tenta arrancar ao estado de pressuposigão de si em que habitualmente vive. Todavia, esse "trazer-se â luz a si mesmo" pode ser, pela sua prôpria natureza, obstruido. Antecipando o que se procurará mostrar com mais detenimento, pode desde já dizer-se que esta obstrugão se indica mediante umas palavras que Leibniz, referindo-se a Hartsoeker, escreve a propôsito do principio de razão suficiente: "Probat ille, et non probat meum Rationis sufficientis principium; probat generatim, non probat exertim; diceret aliquis de schola, probare in signato, non in exercito actu" CA) . Nâo se trata, porém, e como seria fácil de pensar, C'1) Carta a Des Bosses, G II, 4.33 ("ele aceita e não aceita o meu principio de Razâo suficiente; aceita em geral, não aceita na prática; em linguagem escolástica, diria que aceita in signato, não in exercito actu"); cfr. ainda o que diz Leibniz, acerca do mesmo assunto, a Clarke (G VII, 364): "en semblant l'accorder, on le refuse". 49 de não levar até âs últimas consequências o movimento de reflexão. Felo contrário: trata-se de não se iniciar, de nem sonhar sequer as "primeiras consequências", de passar ao lado do que está em questão -de iludir o acto da reflexão pela sua aceitagão imediata. 0 leitor nâo recusa conscientemente o acto de se pôr em causa, o que seria patético. 0 leitor pensa que tal está em seu poder, que poderá levar a cabo tal reflexão quando quiser e sem especiais dif iculdades, que tal acto é "ôbvio", ou -o que é, de facto, o mesmo- que tal movimento está já realizaco. Brevemente: o leitor assume-se uma vez mais, e já, na atitude de suspeita. 0 leitor não é obviamente ingénuo . Ora é perfeitamente possivel -é até normal- que o sujeito julgue compreender em que consiste o estado de suspeita, deixando, no entanto, totalmente insuspeitado isso mesmo de que se diz suspeitar: Clarke estava perfeitamente convicto, não sô de ter percebido o principio de razão suficiente, como até de o ter aceitado. A natureza pressuposta da compreensão das coisas que se possui já permite facilmente tal ilusão: pode "conscientemente" requerer-se a alteragão de um ponto de vista -daquele em que se está-, pensar que a tal requerimento se deu seguimento, e nada se modificar realmente. Neste caso, a astúcia consiste em "recuar um passo", construir no interior do seu horizonte um duplo de si mesmo, operar depois sobre tal duplo as modificagôes que se acharem pertinentes, tê-lo finalmente por ultrapassado, mas sem nada, de facto, se ter alterado. 0 ponto de vista permaneceu imperturbável : superou somente um fantasma de si mesmo. Nesse estado, o sujeito possui, na sua compreensão das coisas, uma tese simbôlica que "fala" da sua anulagão. Criar-se-á, então, uma ilusão dificilmente erradicável porque o sujeito estará certo -poderá até argumentar correctamente a esse propôsito- de ter ultrapassado a sua ingenuidade. Mas a situagão a partir da qual algo se ultrapassou não foi nem sequer tocada. Mais ainda: 50 enraizou-se ainda mais profundamente no sujeito, e está agora mais camuflada. Este processo é inf initamente reiterável: isto mesmo que agora está a ser dito pode estar a ser detido na incompreensão de si mesmo; e assim sucessivamente . Platão, no Teeteto Cs) , por exemplo, refere precisamente esta situagão a propôsito da análise da nogão de saber . Refere, assim, que a localizagâo do que seja o saber nalguma forma do seu acontecimento é sempre ilegitima, porque não se sabe ainda o que seja o prôprio saber; nessa medida, a sua identif icagão numa forma pressupôe precisamente o que se procura. E quando Teeteto se dá conta da natureza ôbvia dessa objecgão, Sôcrates reverte sobre a prôpria aceitagâo da dificuldade, mostrando que essa mesma aceitagão da ignorância da natureza do saber pressupôe, mais escondidair.ente, a prôpria natureza do saber que se f ingia ignorar, que se dizia ignorar. Todavia, a prôpria dificuldade em constituir esse "reverter sobre si mesmo" -em reflectir efectivamente, afinal- aproxima-nos daquilo que, desde o primeiro momento, se prccura: o inicio. Comegar pelo inicio -como a boa metodologia persiste em exigir- significa habitualmente iniciar um processo numa situagão original a partir da qual não se pode recuar maic Ora tudo o que até aqui se escreveu pretende somente tentar mostrar que, quando nos encaramos com os textos (de Leibniz) podemos estar já numa posigão demasiado "avangada", num espago de não neutralidade, "parcial". 0 enfrentamento com os textos leibnizianos, e com a estranheza que eventualmente poderão provocar, pode fazer suspeitar da possibilidade de recuar. Assim, tal suspeita significa que, â partida, não se deve pressupor estar em condigôes ce legitimamente afirmar: aqui -seja qual for o aqui determinado que se proponha- é o principio, entendendo por principio a ausência de pressuposigôes; aqui está o momento original que permite a Cs) Teeteto, 196 e 51 compreensão do pensamento de Leibniz. Pelo contrário: tentou mostrar-se que há uma dificuldade objectiva em encontrar o inicio e cue o seu objecto (que não imediatamente o seu conteúdo) é a situagãc subjectiva: "Es ist so schwer den Anfang zu finden. Oder besser: Es ist schwer am Anfang anzufangen. Und nicht versuchen, weiter zuruckzugehen" C6) . Mas este "nô", dada precisamente a sua natureza, deixa-nos mais perto do inicio. A prôpria dificuldade em causa -ainda que de modo fragmentário e superficial- possui uma significagâo formal prôpria: a situagão em que se está. Na medida em que pode dever-se a esta situagão a origem da dificuldade objectiva de reconhecer um momento como inicial, nessa mesma medida o exame de tal situagão constitui um inicio. E isto por duas razôes: a) na situagão em que se está não se pode, sem mais, decidir acerca do que é e não é pressuposigão a afastar. Não se pode também escolher, de entre os vários dados "objectivos" que se nos oferecem, o dado correcto para iniciar a tarefa de interpretar Leibniz. Todo o comego desta natureza é voluntário, o que implica que pode, por isso mesmo, afundar-se paulatinamente na cegueira. De facto, o critério que eventualmente se usaria para decidir e escolher seria cego, fruto de uma "aposta"; estaria conduzido por nogôes de ciência, método, principio, evidência (ou de "Leibniz" ) .. . , cuja origem não pode ser encontrada em nenhum tipo de presenga em propriedade, em evidência. Por outro lado, a recusa dessa decisão nåo se pode constituir na base de um afastamento imediato de "todo o conhecimento" . Esse afastamento seria, como diz alguma vez Leibniz, uma "fiction ingenieuse" C') . Comegar um pensamento ab ovo não pode significar colocar-se numa C") WITTGENSTEIN, L., Uber Gewissheit, 471 ("é tâo dificil encontrar c comego. Ou melhor, é dificil comegar no comego. E não tentar recuar mais"); ed . bilingue português-alemão, Lisboa, Ed. 70. 1990. C') Addition â 1 ' Explication du systeme nouveau . . . , G IV, 585. å S2 hipôtese de ignorância total. Tal hipôtese, a ser possivel (3S) , viveria ou de uma nogåo de ciência prévia e não esclarecida ou de uma compreensâo do discurso filosôfico como um merc jogo arbitrário. Qs principios devem ser procurados e o mesmo é dizer, entre outras coisas bem mais graves, que essa procura sô se legitimará mediante uma motivagão, fora da qual tcdo o discurso será vazio e constituido numa esfera de irrealidade, pois o sentido do discurso depende também do "motivo" que o pôe em "movimento". No comego nåo pode, por exemplo, apelar-se para o cogito, porque a sua instauragâo sô recolherá sentido da exigência do cogito. A instauragâo imediata no cogito seria um artificio imaginário, sem significado real, que faria perder até, como é evidente, o sentidc do prôprio cogito . Apesar de Descartes pressupor, como se sabe, uma determinada compreensão prévia do que é saber, é claro que o cogito é procurado pcrque deve ser procurado: "Animadverti jam ante aliquot annos quam multa, ineuente aetate, falsa pro veris admiserim, & quam dubia sint quaecunque istis postea superextruxi , ac proinde funditus omnia semel in vita esse evertenda, atque a primis fundamentis denuo inchoandum, si quid aliquando firmum & mansurum cupiam in scientiis stabilire" C9) . CB) Veja-se, a este propôsito, a argumentagão de Aristôteles sobre a impossibilidade ce um comego absoluto, sem qualquer tipo de "posigôes" em que se possa apoiar: Metaf isica I, IX, 992 b 19-993 a 10. C9) DESCARTES, Meditationes de prima philosophia, A-T, VII, 17. A tradugâo francesa de 1647 (A-T, IX, 13) diz: "Tl y a dejã quelque temps que je me suis apergu que, dés mes preiriêres années, j'avais regu quantit.e de fausses opinions pour véritabies, et que ce que j'ai depuis fondé sur des principes si mal assurés, ne pouvoit être que fort douteux et incertain; de fagon qu'il me fallait entreprendre sérieusement une fcis en ma vie de me défaire de toutes les opinions que j'avais regues jusques alors en ma créance, et commencer tout de nouveau dês les fondements, si je voulais établir quelque chose de ferme et de costant dans les sciences". Deve fazer-se notar, ainda que, neste momento, sem mais indicagôes, que de modo nenhum fica esclarecida a natureza da motivagåo que é prôpria do pensamento filosôfico e a sua relagâo com o "desinteresse" . Como mera 53 b) mas; tudo isto implica também, e pela mesma razão, que não se trata, ao analisar a situagão em que se está, de levar a cabo algum tipo de introspecgão psicolôgica, ã maneira ce uma psicanálisc prévia ao encontro com os textos. Não se pretende, de nenhuma forma, que o enf rentamento com o "pensamento de Leibniz" seja precedido por uma actividade em forma de um "conhece-te a ti mesmo" psicolôgico, em si mesmo desconectado dos prôprios textos. A análise da situagão em que se está nâo se toma como uma condigão de possibilidade extrinseca a inteligibilidade dos textos. Se assim fosse, não se ganharia para eles nenhum tipo de solo onde se pudessem enraizar. Na verdade, a situagão que se tenta é bastante diferente. Se aos textos corresponde um sentido qualquer, tal sentido encontrará necessariamente o seu lugar numa determinada exposigão das coisas (e nâo num conjunto de qualidades ocultas) . Dar inteligibilidade aos textos é reconhecer neles a exposigão dada das coisas, e isto significa que eles ganham sentido na medida em que se revelam como indicagão das coisas tal como acontecem em e a partir da situagâo em que estamos de facto, porque não há outra. Ou seja: na medida era que conferir inteligibilidade a um texto é reconduzi-lo â exposigão das coisas que há, a tarefa de interpretar o pensamento de Leibniz (ou qualquer outro) consiste em recuperar o texto no enf rentamento com as coisas que há na situagão em que se vive. 0 pensamento de um autor alheio deve ser procurado no que nos é mais prôximo, naquilo que temos å mão, sob pena de não se encontrar em parte nenhuma . Sô por essa razão a análise da nossa situagão é condigão de inteligibilidade de um texto. 0 único solo que se pode "oferecer" a um pensamento qualquer, de modo a poder sustentar- -se, é aquele em que nôs prôprios nos sustentamos. Qualquer outro será sonhado. indicagão, pode ler-se FINK, E., Studien zur Phánomenologie (1930-1939!, trad. francesa Paris, de Minuit, 1974, pag. 13C. 54 Assim, recuar até encontrar um ponto inicial não sô não significa usar o artificio de um despojamento total e a priori de todas as pressupostas pressuposigôes, como, pelo contrário, implica reverter ã nossa prôpria situagão, eivada eventualmente de pressuposigôes, a fim de a analisar. Recuar ao inicio não é instalar-se num dado hipoteticamente "puro". É "instalar-se onde se está já" para, de ai, poder "saltar" para os principios que se procuram. 0 titulo do principio é: "De l'Horizon de la Doctrine Humaine (...) que les hommes tels que nous les connoissons peuvent ennoncer", "car il ne s'agit point icy de l' autre vie" C°) . C:) Horizon, pag. 39 e 38 respectivamente; o sublinhado é meu . Toda esta análise nåo toca o verdadeiro problema. A necessidade de comegar pela posigão em que se está, para de ai tentar alcangar os principios que dctarão essa mesma situagão de inteligibilidade, mostra que estamos numa posigão de cegueira em relagåo aquelas coisas que são mais manifestas em si, como os principios, pois é deles que tudo recebe inteligibilidade, tal como os olhos do morcego em relagâo â luz do dia; cfr., por exemplo, ARISTÔTELES, Metafisica, II, I, 993 b 9 - 11; mesma ideia em Metafisica, I, II, 982 a 30 - 982 b 8, De Anima, II, 2, 413 a 11-13 e as primeiras linhas da Fisica. Ora este problema é a Filosofia, como Aristôteles precisamente indica; e basta uma ligeira tentativa para tentar compreender, ainda que de modo meramente formal, a "lôgica" desta situagão para que surja imediatamente uma enorme perplexidade . Torna-se então muito claro que as indicagôes que neste primeiro parágrafo se deixam não dizem praticamente nada. ;o 2 . ASPECTOS DO MUNDO DA VIDA 2.1. Exigência de uma redugão â descrigão. Consideragôes introdutôrias sobre a descrigão da situagão em que se está: necessidade de evitar "situagôes de laboratôrio" . Natureza não desmembrável da situagão e problemas relativos: descrigão e discursiviciade; descrigão e análise. Peter STRAWSON abre ĩndividuals com estas (surpreendentes) palavras: "Metaphysics has been often revisionary, and less often descriptive. Descriptive metaphysics is content to describe the actual structure of our thought about the world, revisionary metaphysics is concerned to produce a better structure. The productions of revisionary metaphysics remain permanently interesting, and not only as key episodes in the history of thought . Because of their articulation, and the intensity of their partial vision, the best of them are both intrinsecally admirable and of enduring philosophical utility. But this last merit can be adscribed to them only because there is another kind of metaphysics which needs no justif ication at all beyond that of inquiry in general . Revisionary metaphysics is at the service of descriptive metaphysics. Perhaps no actual metaphysician has ever been, both in intention and effect, wholly one thing or the other. But we can distinguish broadly: Descartes, Leibniz, Berkeley are revisionary, Aristotle and Kant descrz.ptive. " ('). Não importa neste momento discutir esta tâo estranha compreensâo disso a que o autor chama "Metafisica", com as suas duas "possibilidades" . Interessa somente ver de que modo Leibniz é "localizado" no "campo" da histôria da Filosofia: a par de Descartes e Berkeley, Leibniz é classif icaclo como "revisionary" : não diz o que é, mas o que (1) STRAW30N, P., ĩndividuals. An Essay in Descriptive Metaphysic, Methuen: London, University Paperbacks, 1959, pg. 9. y devia ser, pretende produzir uma "melhor estrutura do pensamento". Independentemente da perplexidade que esta assergão pode provocar -uma metafisica que não teir. por "objecto" o id quod est- tal compreensão do pensamento de Leibniz reproduz fielmente a tradigão. Sendo esta a tese tradicional, certas declaragôes de Leibniz sobre a sua prôpria compreensão das coisas são tomadas imediatamente como declaragôes de intengão, mais ou menos "moralizantes", mas sem correspondência real com os textos . Declaragôes como :"J'aime mieux un Leeuwenhoek qui me dit ce qu'il voit qu'un cart.esien qui me dit ce qu'il pense" (2) , sâo interpretadas como dizendo respeito ao "sujeito-Leibniz", mas dificilmente reconheciveis nos seus textos. Nada haveria aqui de problemático não fora uma "teimosa" insistência de Leibniz a este respeito: "Voilá en peu de mots toute ma philosophie, bien populaire sans doute, puisque elle ne regoit rien que ne reponde á ce que nous experimentons. . ." (3) . E, uma vez mais: "Cette meme maxime de ne rien supposer sans necessité dans les creatures que ce qui repond â nos experiences, m'a encor mené å mon Systeme de l'Harmonie pre-etablie" C1) . Ou seja: a interpretagão de STRAWSON é dificilmente conciliável com as "declaragoes de intengâo" de Leibniz. Naturalmente, a resolugâo da contradigão não pode ser feita recorrendo a citagôes de qualquer dos autores: o que está em causa é a experiência, o que permite pressupôr que as descrigôes de Leibniz não se reconhecem nas "descrigôes" de Strawson. Pressupondo, então, como é lôgico pressupor, que ambas as descrigôes se dizem da experiência tal como é, o problema toma uma nova forma: a descrigão das coisas nâo é algo imediatamente dado, facilmente realizável: a (2) Carta a Oldenburg, GM I, 85. C) Carta á rainha Sophie Charlotte, G III, 348. C) Carta a Lady Masham, G III, 34 0. 57 possibilidade da "mera" descrigão não está assegurada com certeza. E este é, antes de mais, o primeiro aspecto a encarar. A "prlmeira" tentagâo a evitar é a de pensar que se pode descrever a situagão real e vivida em que se está mediante a análise d2 um modelo construido, que hipoteticamente a recupera, â maneira, por exemplo, dos modelos prôprios da Economia. Dada a complexidade da situagão vivida, tentar-se-ia a possibilidade de a substituir por uma construgão que a reassumisse nos seus "tragos gerais/essenciais" . Assim, por exemplo, é-se naturalmente levado a introduzir imediatamente consideragôes de ordem geral, e de cariz vago e abstracto, sobre o humano, sobre os seus "actos de conhecimento", sobre o modo como o "Homem" se tem entre as coisas, etc A modo de exemplo, pode ler-se o que HARTMANN leva a cabo sob o titulo "Fenomenologia do Conhecimento" (5) . A "descrigão" do fenômeno do conhecimento inicia-se imediatamente com teses desta ordem: todo o conhecimento se constitui na oposigão irredutivel entre "sujeito" e "objecto"; o conhecimento é essa mesma relagão; a relagão é dupla, mas não reversivel, etc Imediatamente depois, e ainda considerando estas indicagôes como descrigôes, Hartmann "define" c conhecimento como uma "saida" do sujeto da sua prôpria esfera, uma "incursão" na esfera do objecto e uma reintrodugao do sujeito no seu prôprio ámbito, ne posse já das determinagôes objectivas. Tudo isto -que ocupa pouco mais de uma página- compreende-se, como se disse, sob o titulo "Fenomenologia do Conhecimento" . Não há dúvidas de que tal "fenomenologia" muito dificilmente descreverá de modo adequado (a ser possivel tal modo) a situagão real, vivida e imediata em que se está. Ela vive não sô de pressuposigôes não analisadas que se tomam como dados imediatos e evidentes -por exemplo, a introdugão das nogôes "sujeito" e "objecto" não é alvo de C) Grundziige einer Metaphysik der Erkenntnis, I, IIa sec , cap. V, a) ,- trad. francesa Aubier, 1947, pag. 87 e ss. _^s inquérito, nem o modo de se terem "diante" um do outro-, mas, mais ainda, de certo tipo de "determinagôes" (que se tomam igualmente como descrigôes) -tais como "sair de si", "incursão na esfera do objecto", "voltar a si"- que não permitem perceber a que é que propriamente se referem. Parecem descrigôes de natureza clara e intencionalmente metafôrica, que produzem uma vaga "impressâo" de que se "sabe do que se está a falar", (é "mais ou menos" isso que acontece) , mas que, quando analisadas, não permitem um reconhecimento efectivo do que se passa realmente connosco; são, pelo contrário, construgôes, modelos simbôlicos para o que aqui e agora se passa. Tal tipo de consideragoes, por mais disponiveis e imediatas que possam parecer, anulam precisamente isso que se pretende descrever, a situagão imediata, para além de receberem a sua prôpria possibilidade do recurso a um "considerável número" de pressuposigôes . Este "modo de descrever" sofre ainda de outros "inconvementes" . Iniciar uma descrigão da situagão em que se está com a introdugão imediata da "simples" oposigão sujeito- -objecto, por mais ôbvio que este procedimento possa parecer, deixa escapar, por exemplo, o solo onde essa oposigão/encontro se dá. Da forma como habitualmente tal "relagåo" é apresentada, o sujeito e o objecto têm-se face a face num vazio, como se estivessem a sôs um com um outro num espago de nada, sem pano de fundo, sem horizonte, sem mundo: sujeito e objecto são posigôes absolutas -"a relagão entre eles é propriamente o conhecimento" . Se se pode falar desta forma, trata-se de algo semelhante e uma "f enomenologia de laboratôrio" : isola-se um determinado acontecimento e coloca-se sob a "ocular". Esse determinado fenômeno passará a ser -ou já era- o fenômeno fundamental, e todos os outros terâo a mesma estrutura: neste caso, a da ob iectividade . 0 isolamento pressupôe, na sua realizagão, a sua prôpria possibi 1 idade, isto é, todos os íenômenos cxternos aos isolados serâo dcsprezávei s, 59 secundários, explicáveis por eles, etc Assim, por exemplo, ou o mundo será explicado pela relagão sujeito-objecto, ou será um fenômeno secundário e, de algum modo, "desperdigável", ou nâo será fenômeno nenhum. A tentativa de descrever a situagão em que se está não pode, portanto, iniciar-se com algum tipo de "isolamento", dado que, precisamente porque é isolamento, abstrai da situagão a partir da qual algo se isola. 0 que exige, antes de mais, a necessidade de nâo introduzir já nogôes como "sujeito-objecto", pois estas instituem-se num plano que não é o da vida concreta e real. 0 processo da descrigão terá que seguir então um outro caminho: o de tentar recuperar a prôpria instalagão entre as coisas na multiplicidade dos momentos que parecem constitui-la . Ora, o que em primeiro lugar parece chamar a atengão na tentativa de descrever a instalagão nas coisas que nos é prôpria é a dificuldade de recuperar esta mesma situagão de modo discursivo. Toda a descrigão se constitui numa trajectôria em que certos momentos devem ser abandonados para que outros possara ser alcangados. Não se pode, de facto, descrever tudo num sô momento: é necessário "fechar" uma análise para "abrir" a "seguinte". Ora o carácter necessariamente discursivo da descrigão -nenhum outro está em nosso poder- colide com isso que se pretende descrever. De facto, o nosso estar com as coisas não se apresenta, isto é, não se vive como um conjunto de momentos acrescentados e justapostos uns aos outros. Os diversos estratos que "compôem" a vida não se acumulam nem se constituem como um amontoado de posigôes dispares e estranhas entre si. 0 modo como cada um vive o seu corpo, por exemplo, nâo é um momento autônomo, um âmbito fechado, ao qual se junta, como que vindo do exterior, um outro, como pode ser, por exemplo, a sua relagâo com as outras pessoas. 0 sujeito não alarga a compreensão que possui de si mesmo mediante um acrescent.o extrinseco de novas posigôes. Quer dizer, os diversos momentos que compôem a sua vida, e as múltiplas 60 determinagôes de cada um desses momentos, compreendem-se todos no interior de um âmbito, que é reconhecido como uma forma original de estar entre as coisa. Assim, e ainda a modo de um mero exemplo, alguém pode estar constituido num "estar a ver", passar depois insensivelmente dessa posigão para a de uma recordagâo qualquer, acomodar-se nessa instalagão, passar depois para outra posigão qualquer, etc , sem que tal passagem seja vivida como o exercicio de "cortes" entre os actos ou como a fixagâo de uns actos noutros. Não que o sujeito não se tenha apercebido -ou não se possa ter apercebido- da modificagao que se operou. Pelo contrário: na maior parte dos casos, qualquer pessoa em estado de vigilia distingue uma recordagão de uma percepgão actual e esta de uma imaginagão. A descontinuidade das posigôes é mais ou menos claramente reconhecida . Mas essa mesma descontinuidade -como qualquer outra- vive da sua inscrigão radical numa posigão mais original e una, da qual recebe precisamente o seu sentido, quer como descontinutdade, quer como essa mesma descontinuidade : a apercepgão da diferenga entre percepgâo e imaginagão recebe o seu sentido precisamente da forraa, do modo que constitui a instalagão onde estamos sempre. Assim, os diversos momentos da vida não sô não podem ser encarados como ilhas, separadas entre si por hiatos vazios de conteúdo, mas, o que é mais importante, não permitem que se reconstrua o prôprio "tecido" de que sâo feitos a partir da sua consideragåo em estado de isolaraento. A vida tem uma contextura prôpria que é a que dá iugar ãs suas diversas figuragôes possiveis. 0 probiema não é o da necessária imbricagão dos vários momentos do que chamamos vida . Não se trata de, era posse já das várias situagôes da vida, estabelecer conexôes "reais" entre elas, ligar "ísto" a "aquilo", o passado ao presente. Trata-se sira da impossibilidade de restabelecer o estado em que de facto estamos a partir das suas diferentes concretizagôes, a posteriori . Assim, por exemplc, não se pretende esclarecer primeiro a compreensão que se tem do ente natural, isto é, o 61 modo como vivemos a "natureza"; esclarecer seguidamente a compreensão que se tem do trabalho, isto é, o modo como o vivemos; e construir depois pontes, fios argumentativos, que liguem os dois núcleos já pretensamente esclarecidos . A dificuldade é bastante mais aguda, porque cada momento apela, na sua prôpria estrutura intrinseca, para todos os outros, dado que cada um é uma modalizagão da situagão real que se encontra -a mesma situagão, ainda que noutra modalizagão- em todos os outros. Ou seja: nâo sô as nossas diferentes possibilidades não podem ser eompreendidas como ilhas, como a sua compreensão como "não ilhas ' não pode ser feita recorrendo a pontes, isto é, a argumentos.. 0 estilo comura que pertence ås diferentes posigôes da vida não é recuperado por meio de uma qualquer construgão que se apote nelas. 0 que torna, portanto, especialmente dificil qualquer tarefa de descrigåo da nossa situagão real -do que chamamos vida- é o facto de ter que se operar um desmembramento de uma forma de compreensâo/instalagão que não se reconhece, isto é, que não se vive a si mesma como "conjunto". De facto, o modo como vivemos é tido como simples, imediato, possuidor de um estilo comura, e não algo construido ou adquirido progressivaraente . Assim, o sentido da diversidade dos momentos da nossa situagão -corao podem ser, por exemplo, ver, recordar, passear, trabalhar, desejar...- não é apenas compreendido sob uma forma unitária, como é constituido e criado por tal forma. A nossa vida nâo se vive como um conjunto de posigôes em que se passa de una para outra com o abandono da anterior; todas estas posigôes, pelo contrário, são da vida, e uma é tâo vivida como outra. Nâc há cortes, nem fissuras: é um todo que é uma unidade. Cada momento é uma formalizagão, uma instanciagão do mesmo, e essa "mesmidade" não sô não exclui a diversidade de momentos como, peio contrário, a pôe. Faga o que fizer, o humano faz sempre o mesmo : vive, ainda que faga coisas muito diferentes , A nossa situagâo original apresenta assim uma 02 diversidade e multiplicidade de posigôes numa unidade. Aigo de semelhante parece ter Leibniz querido mostrar cuanco, referindo-se a um aspecto particular da vida do espirito -a ciência-, o descreveu como ura oceano: "le corps entior des sciences peut estre consideré comrae l'ocean, qui est ccntinué partout, et sans interruption ou partage, bien que les hcmmes y congoivent des parties, et leur donnent des noms selon leur commodité" (6) . Obviamente, Leibniz nâo parece querer dizer que a biologia é o mesmo que a fisica e esta idêntica a tilosofia. Parece sim estar a dizer que, em qualquer dos casos, se trata de diferentes posigôes da mesraa actividade, do mesmo tipo de constituigão de sentido, cujo desmembramento em partes exteriores entre si, e a sua hipotética ligagão posterior, deixa escapar o sentido de cada uraa . Nesta medida, a tentativa de descrigão da vida deve procurar evitar o esquecimento desta dificuldade. É provavelmente por este motivo que se terá escrito que "il s'agit de décrire, et non pas d'expliquer ni d'anaiyser" (') . "Analisar" parece referir aqui a efectuagão de "cortes" na situagâo em que originalmente nos encontramos. De facto, por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser ãs nervuras da vida, a sua realizagão terminará na constituigão de um caleidoscôpio de posigôes que se dão em simultaneidade, até nalguma forma de justaposigâo ou interpenetragão, mas que deixam escapar precisamente a prôpria vida que as sustenta: ninguém conseguirá reconhecei a sua vida numa complicagão abstracta de momentos . Se a análise terminar na compreensão de um todo constituido por "par Les extra (6) Sem titulo, C 530. C) MERLEAU-PONTY, M., Phénomenologie de la perception, Yan.ís, Gallimard, 1945, pag. II. 63 partes", a análise deixa fugir por entre os dedos isso mesmo que analisa C) , a forma que confere unidade âs partes. Todavia, a prôpria descrigâo nâo pode evitar o desmembramento. E nessa medida toda a descrigão pode ser toraada como uma "análise". Se toda a descrigão se faz discursivamente, por momentos, pode sempre cair-se na ilusâo de pensar que o momento que se abandonou estará em condigôes de ser abandonado (necessitaria quanto muito de uraa análise mais profunda) e que o seguinte se acrescenta a ele. E mesmo que se tente agarrar a significagâo unitária de todos os momentos, essa mesma tentativa sô poderá ser descrita ao lado dos vários momentos que ela compreende, ainda que se tente, de alguma forma, anular esse "ao lado". A descrigão sô pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve, ainda que a prôpria descrigâo compreenda no seu interior, se quiser ser uma "boa descrigão", a tentativa de anular o acto de desfazer, que, por outro lado, é sua condigão de possibilidade: "c'est ã peu prés comme si, pour marcher, l'on devait se servir d'une jambe artificielle ã chaque pas , tout en le cachant " (9) . Importa, pelo raenos, tentar reter o cariz de unidade de todos os momentos da descrigåo; e reparar C) Ainda que que num âmbito completamente diferente, o procedimento por análise tem normalmente a seguinte forma: "In my hunt for the secret of life, I started my research in histology. Unsatisfied by the information that cellular morphology could give me about life, I turned to physiology. Finding physiology too complex, I t.oo>: up pharmaoology . Still finding the situation too complicated, I turned to bactereology. But bacteria were even too complex, so, I descend to the molecular level, studying chemistry and physical chemistry. After twenty years' work, I was led to conclude that to understand life we have to descend to the electronic level and to the world of wave mechanics. But electrons are just electrons and have no life at all. Evidently on the way I lost life; it had run out between my fingers", SZENT-GYÔRGYI, A., Personal Reminiscences, citado em FRAÚSTO DA SILVA, J.J.R., ĩntrodugão á Quimica da Vida, Lisboa, UNL, 1985, pag. 7. C) KIERKEGAARD, S., Stades sur le chemin de ia vie, Oeuvres Complétes de Søren Kierkegaard, trad. franccsa Paris, Ed. de L'Orante, 1978, vol, IX, pag . 188. 64 então que todos vivem da mesma vida, de tal modo que tomados por si são somente abstragôes; e que a multiplicidade dos momentos não constitui nenhum tipo de dispersão, nem um "puzzle", mas que, pelo contrário, cada um é uma expressão inadequada e confinada da mesma situagão que nos compreende. Importa retê-lo, entre outros motivos também porque é o nervo da compreensão leibniziana do mundo. 2.2. Naturalidade, proximidade e seguranga dos actos da vida. Análise esquemática de dois casos: o uso da lingua e do espago. Compreensão da "ciência" da lingua e do espago nos actos da vida: breve indicagão. Se se tentar acompanhar a corrente da vida no seu "relevo" prôprio, conformando o olhar, como uma luva å mão, ao seu estar simplesmente a acontecer de modo irreflectido e nåo tematicamente consciente de si mesraa -que é o raodo como de facto acontece-, entrevê-se então que os diversos momentos em que a vida se constitui não sô não se colocam lado a lado, mas nem mesmo se pode dizer que "encaixam" uns nos outros. Este aspecto torna-se particularmente dificil de descrever dada a sua natureza ôbvia: é-nos tão prôximo e imediato, tão imediatamente a vida ela mesma, que a distância que toda a descrigão exige deixa escapar precisamente o que lhe é prôprio: a proximidade. 0 que se pretende dizer é somente esta banalidade: um sujeito que esteja, por exemplo, a escrever "não sente qualquer dificuldade" em parar de o fazer, acender um cigarro, pousá-lo seguidamente no cinzeiro, e retoir.ar a escrita. Os sucessivos "passos" e movimentos que se realizam não exigem o "encerramento" dos anteriores. "Parar de escrever" e "acender um cigarro", que são actividades diferentes, não se vivem como dois momentos circunscritos em ârabitos diferenciados, exigindo uraa qualquer "ligagâo" entre eles. 0 65 sujeito não tem que fechar o acto da escrita, terminá-lo "formalmente", e abrir um outro acto que, no caso presente, é "acender um cigarro". Pelo contrário, ele passa naturalmente de um para outro, sem qualquer pressentimento de descontinuidade. Não se requer nenhura tipo de preparagão para parar de escrever, nem se exige nenhum tipo de aprendizagem para estender a raâo para o cigarro que está "diante dos olhos". Todos os actos era que a vida está decorrem naturalmente uns dos outros e o acto "seguinte" nasce do anterior e no anterior; não sô se apoia no anterior como "cresce" nele, de tal modo que se torna impossivel -a não ser por meio da violência da abstracgão- tragar uma linha que os demarque e opere entre eles um corte. Os diferentes actos da vida são como metamorfoses permanentes, para dizê-lo de algum modo. Mais tais metamorfoses não são efeitos de um esforgo, nem são intencionalmente procuradas ou queridas. A naturalidade com que ura acto nasce de outro é a naturalidade do imediato e do ôbvio. Para descrever tal naturalidade há que ter em conta, antes de mais, que o sujeito não tem os seus actos diante de si, corao se assistisse ao espectáculo de si raesmo, mas que, pelo contrário, habita nas operagôes que ele prôprio leva a cabo. 0 sujeito não "sente" -isto é, não vive- nenhum tipo de distância entre si mesmo e, por exemplo, o seu "acender um cigarro". No momento e no modo como realiza tal acto, ele é ai: entre o acto realizado e o sujeito que o realiza não há nenhum "espago" nem fissura -este está perfeitamente "acomodado" nas coisas que faz, vive na conformidade com os seus moviraentos . 0 sujeito vive de tal forraa nos seus actos que tera enorme dificuldade em perceber isso mesmo que acontece nele. Na verdade, dar-se conta desse "aconchego", dessa instalagão adequada de si nas coisas que faz, exige que o sujeito se encare com as suas acgôes, se distancie delas, e, nessa raesraa raedida, que já nåo as habite: perdeu a acomodagão com a prôpria vida. De facto, o sujeito pode ter-se com os seus actos de modos fundamentalmente 66 diferentes: ele pode simplesmente estender a mão para o cigarro, vivendo tal acto como o que é: movimento natural e imediato em que o brago imediatamente se move para alcangar o objecto que está ao seu alcance. Mas pode também, se quiser, colocar sob o seu olhar, de modo temático e objectivo, o movimento que o brago realiza. A apercepgão que surge é totalmente diferente: o brago parece agora animado por um movimento autônomo, como se fosse ele mesrao um animal coir. alma prôpria, descrevendo no espago raovimentos bastante estranhos, precisamente porque parecem autônomos. Assistir aos movimentos que a "prôpria mão" descreve é habitar fora desse mesmo movimento: a mâo move-se então "por conta prôpria", dirigindo- -se de aqui para ali com uma facilidade e seguranga surpreendentes e inexplicáveis, possuidora de uma intencionalidade que não é nossa e que parece imersa no interior da prôpria mão, escondida aos nossos olhos, vivendo uma vida que lhe pertence e que parece desligada de nôs : como se a mão "soubesse" o que está a fazer, mas nôs não. Ora o modo da vida não é o da assistência ao espectáculo de si mesma; o raodo da vida é, pelo contrário, o de se habitar nesse raesrao espectáculo, que, por isso mesrao, não se dá como espectáculo, mas como realizagão de acgôes: o sujeito está como actor e não como espectador. Entre os muitos aspectos que se compreendem neste tipo de "habitagão", interessa agora somente esclarecer um deles: no modo corao normalmente se vive, nåo se dá nunca a notificagão das possibilidades da vida como "problemas a resolver" . Assim, e para insistir na banalidade, se alguém quer acender um cigarro, "basta fazê-lo" para que tal fique feito. Do mesmo modo, a possibilidade "parar de escrever", que é uma possibilidade permanente do acto da escrita, não é pensada -vivida- por meio de alguma referência a quaisquer incôgnitas ou variáveis. A identif icagão de algo como probleraa não pertence -e nâo pertence de um modo essencial- a 67 este tipo de actos . Não se quer dizer, evidentemente, que o sujeito disponha já de informagão acerca do que deverá fazer se quiser parar de escrever. Pelo contrário: não há quelquer necessidade de informagão dessa natureza: o acto não requer informagão prévia: é ôbvio e fácil: "parar de escrever" é uma possibilidade que vive do prôprio acto de escrever -no qual se está-, que eventualmente se poderá constituir imediataraente. Seria relativamente fácil mostrar que esta estrutura -a não compreensão como tarefa, como trabalho- se encontra na base de todos os actos da vida. Para as necessidades presentes bastam dois exemplos. i) quando se está despreocupadamente a falar com alguém -e falar é uraa actividade normalmente despreocupada- as palavras que se proferem "saem sozinhas da nossa boca", brotam sem qualquer t.ipo de esforgo, como se estivessem já dentro de nôs . Na esmagadora maioria dos casos, são as prôprias palavras que vão aparecendo "por si sôs", apelando uraas para as outras de modo natural e espontâneo, construindo frases, discursos, interrogagôes, exclamagôes e silêncios. No falar habitual não há uma antecipagâo do que se dirá a seguir: fala-se simplesmente e é-se no acto de estar a falar com uma seguranga espantosa, sem hesitagôes de relevo. Aliás, alguém que, falando, esteja permanentemente a antecipar formalmente o que dirá depois, acabará por se confundir no que está a dizer: o que dirá "depois" sobrepôe-se ao que de facto diz, mistura-se com ele, e anula precisamente a facilidade e naturalidade do falar. Do mesmo modo, o esforgo de atengão ao que se está a dizer perturba igualmente o normal desenrolar do falar, de tal forma que a instalagão total na atengâo ao que se diz termina no silêncio. A atengão ao que se diz ou escuta não pode ser (não é) fruto de ura esforgo por alcangar o estado "psicolôgico" da atengâo -não se estaria atento a nada-, raas sim da "imersão" na frase falada ou escutada. Alguém que decorou um poema 68 qualquer, e o quer declamar correctamente, deve evitar "pensar" no que diz ou no que vai dizer. Se não o fizer -é experiência comura- perderá a seguranga que é prôpria do acto de declamar. Deve ser o prôprio poema a ditar o seu ritmo e a "dizer" quando deve surgir cada verso, e o orador deve esquecer-se de si mesmo na declamagão, deve ocultar-se. 0 sujeito nâo deve "interrogar" o poema, mas sim deixar que ele se vá dizendo. Nada disto depende, como é ôbvio, das regras da boa declamagão. 0 mesmo acontece se alguém quiser dizer por ordem as priraeiras 24 casas decimais do número n. A pessoa em causa procurará dizê-las de um "jacto", sem pensar nelas, sem querer "decidir" conscientemente se ao "16" se segue o "21". Se o tentar fazer, perderá a facilidade que adquiriu ao decorar. Não se deve pensar no que se diz ou dirá: deve dizer-se. 0 mesmo acontece com o normal acontecimento da linguagem: temo-la por decorada, e é por isso que é normal, espontânea e não exige reflexâo. As palavras sucedem-se umas âs outras sem "prévio aviso", sem ser necessário escolher ou decidir a que se dirá depois. As palavras motivam-se umas â outras de modo autônomo e não pedem habitualmente a colaboragão do prôprio sujeito que fala: falar- -se-á tanto melhor quanto menor esforgo se puser no acto de falar. 0 fenômeno não se modifica mesmo quando se procura a palavra adequada ou a estruturagão racional do discurso. Para além de que todo o esforgo necessário para encontrar a palavra adequada requere uma paragem, mesrao a procura do termo correcto em nada significa o encontro com a prôpria linguagem como tal : é já nela que os problemas devem ser resolvidos, o que equivale a dizer que ela prôpria nâo sô nâo é problema, como todos os problemas já a pressupôem, e devem ser resolvidos no seu ârabito e por ela mesma. Encontrar o stgnificado para uma palavra que se desconhece não é encontrar a lingua como problema -é precisamente o oposto. 0 sujeito habita já na lingua que fala com facilidade e de modo imediato, e é nesta facilidade que o termo desconhecido se deve integrar. Por outro lado, a prôpria 69 palavra desconhecida ou procurada é reconhecida já como palavra, isto é, tem um sentido que "está" nela, que é disponivel e prôprio: o termo desconhecido não tem que ser investido de sentido: ele já o constitui e basta incorporá-lo . Assim, entre nôs e a lingua nada se interpôe, não se vive qualquer distância: para qualquer pessoa a sua lingua é natural: é vivida habitualmente como a lingua. No raodo habitual da linguagera, não se repara que se está a falar uma lingua determinada: fala-se simplesmente. Não se vive a prôpria lingua como uma entre muitas outras possiveis: fala-se português como se respira, sem qualquer tipo de esforgo. Aliás, a prôpria compreensâc de algo como uma "lingua" é já abstracta e exige algum distanciamento em relagâo a si raesmo: exige a sua constituigão num horizonte habitualmente não vivido, mas teôrico. No modo natural de viver a lingua, o sujeito não vive neste horizonte teôrico. A "acgão" de falar nâo é vivida como sobreposta ou adquirida: é tâo natural como andar, desejar, etc Está-se na lingua como em casa prôpria, e por isso mesmo não se repara nela. 0 sujeito tem naturalmente, e em deterrainadas circunstâncias, capacidade para se dar conta do "estar ai" da lingua, mas habitualmente ela é vivida como conatural, em estado de transparência, sem necessidade de um acesso especial, sem exigências de "ir ter com a lingua" . A proximidade e a seguranga são tão imediatas que não são notificadas. A acomodagão do sujeito na lingua que fala, quando fala, nâo é por isso mesrao detectada, nada significa, não faz parte do seu "conteúdo" . E todos os discursos sobre a lingua - sobre o seu ensino, sobre as suas dif iculdades, sobre a sua estrutura, etc- falam de algo que se vive de modo totalmente diferente: fala-se sera qualquer dificuldade da dificuldade de falar . Nada disto depende ou iraplica uraa teoria sobre a génese da lingua (no caso de tal possuir alguma significagão mais que simbôlica) .. A questâo é totalmente diferente e independente de 70 todas as psicologias da aprendizagem (a crianga, por exemplo, nâo decora a lingua como quem decora ura poema, por exemplo) . A lingua que se aprende é uma lingua que "já ai está", e está ao modo como a lingua está, passe a expressao. 0 mesmo é di zer que a lingua se vive sempre como já dada, isto é, como um solo no qual se está a habitar, e em que não se atenta quase nunca . Náo interessa que se reconhega ou nâo o significado das palavras: a estrutura é idêntica. A relagâo habitual que se pode manter, por exemplo, com a palavra "escadote" é fundamentalraente a mesma conhega-se ou não o seu significado: é-se atirado para "fora" cessa palavra (eventualmente para cutras palavras/proposigôes) . Pode perguntar-se o que significa ou explicar o que significa; em qualquer dos casos, o que se pensa estar em causa é o "prôprio" escadote-instrumento. Sô em circunstâncias de "laboratôrio" a proposigão "'escadote' é uraa palavra" será uma boa resposta para uma pergunta. Tais circunstáncias não são as do modo habitual e corrente do falar. A palavra é de onde se olha para longe, qualquer coisa que se esconde na aparigão que realiza de um "outro" . A palavra é por isso natural: vive-se nela de um modo que equivale a viver como se não estivesse "lá", mas simi na "prôpria coisa" de que se fala. Falando, o sujeito tem-se com as coisas de que fala nura raodo era que não se reconhece o raeio onde esse encontro se dá e se possibilita. E de tal forma o meio é tåo intensamente vivido que se desvanece numa transparáncia que parece perfeita. Esse meio transparente pode tornar-se subitamente opaco se for "encarado de frente", se se deixar de agir nas palavras para passar a "focá-las" elas raesmas . Se alguéra se "fixar" na prôpria palavra "escadote" -nisso mesmo que então se dirá ser a "prôpria palavra"- ela transforraa-se totalraente e surge corao uma "pedra": não diz nada . Tal como no olhar a mão que se move, a palavra constitui-se numa aura de estranheza, guardando em si o seu segredo, opaca e informe. A estranheza pode até tornar-se mal-estar pelo reconhecimento da "impossibi 1 idade" de habitar 71 "isso". Desfaz-se então a acomodagão do sujeito nessa palavra. Ela não se reconhece como uma outra qualquer palavra estranha tal como poderia ser algum termo búlgaro ou árabe. A palavra é informe, "selvagem" : possui uma autonomia que nâo se domina, que escapa â familiaridade que havia no habitar nela; pode até duvidar-se do sentido de uma palavra que se "utilizava" sem qualquer problema. Tomada deste modo, a palavra abandonou o seu modo normal de acontecer: no raomento em que é focada, a palavra perde-se, larga a sua vida, que se alimentava do não se atentar nela. No modo como a vivemos despreocupadamente, a palavra é num certo esquecimento de si mesraa (que não é obviamente igual a um absoluto "não ter") . Tal como o solo que se pisa não pode estar nunca sob o olhar, o mesmo se dá com a lingua. Pode recuar-se para ver, mas o solo que se pisa já não será o mesmo. "Ver" a língua como tal implicaria uma tal des-situagão em relagâo a ela, que não concebemos mesrao o que isso possa querer dizer. De qualquer forma, nâo seria certamente "ver" uraa lingua, visto que se habitaria totalmente fora dela. Todavia, o esquecimento da palavra quando se fala não constitui nenhum tipo de atordoamento, hesitagão ou perplexidade. Pelo contrário: ese esquecimento é ele mesmo esquecido. Visto a posteriori, a seguranga que é prôpria do falar parece envolver algo de semelhante a um inconsciente processo de "doublethink", tal corao se descreve em "1984": o sujeito esquece que se está a esquecer da palavra no momento em que a vive . E esse esquecimento do esquecimento -que Orwell chama "lunatic dislocation in the mind" (10)- faz com que o sujeito nåo hesite e se deixe levar sem qualquer inquietagão pelo carácter espontâneo do acontecimento da lingua. Falar é assim, e como é evidente, um acontecimento total e perfeitamer te orientado -"sabe-se" onde se está, de onde se veio e para onde se vai-, em que se confunde a prôpria ■;'") ORWELL, G., 1984, London, Penguin Books, 1989, pag . 261. 7? orientagão na lingua com o seu siraples acontecer hic et nunc : fala-se facilmente, vivendo totalmente dentro das palavras, como se estas fossera tão naturais como a chuva ou como o vento, como se a orientagão num certo campo fosse imediatamente idêntica ao prôprio campo em que se está, como se estar orientado num carapo fosse o raesrao que estar siraplesraente num carapo : isso que se charaa orientagão -a facilidade em se mover nos meandros da lingua- não "existe", não se encontra, não se reconhece: é-se ai e já, sem que haja um qualquer problema a resolver . ii) o mesmo acontece no modo como se vive o espago. Se em qualquer momento "eu" quiser sair da sala ou agarrar o relôgio que está aqui "mesmo ã minha frenle", os actos que terei de levar a cabo serâo todos simples e imediatos -nâo exigem qualquer atengåo ou reflexão: estendo o brago ou levanto-me da cadeira em que estou sentado, e dirijo-me para o "fundo" da sala, onde está a porta que coraunica cora o corredor.. Não necessito de qualquer informagâo acerca da "natureza" do espago -nem me recordo de alguma vez me ter sido previamente explicada- para me deslocar de um sitio para outro. Nâo preciso, por exemplo, de "deduzir" ou de "descobrir" a existência de um "lado de trás" das coisas; não se requer nehuma aprendizagem para se "saber" que atrás da parede haverá sempre qualquer coisa e atrás desta outra e outra e... Nâo se requer a explicagåo da iôgica do "exterior/interior" para abrir uma caixa e ver o que contém dentro. A dialéctica exterior/inter ior pode provocar desespero na mente, mas a vida nada sabe desses desesperos: abre imediatamente a caixa, ou "sabe" que pode abrir e sabe que pode ser aberta. Do mesrao modo, para me deslocar para o "'fundo da sala" não ponho como requisito prévio a compreensão do acesso que disponho â "profundidade" do espago, nem do tipo de apreensão que possuo dessa mesma piof undidade . Não necessito sabei que o espago tem 73 três dimensôes. Falando cora propriedade, nâo sei mesrao o que são "dimensôes do espago" e muito menos que sejam três. Para me informar acerca de tal assunto, terei muito provavelmente que perguntar a alguéra que possua "conhecimentos sobre o espago", recorrer eventualmente a um exemplo ou a um desenho num papel onde me sejam tragadas, em esquema (e a duas dimensoes . . . ) , as três dimer.sôes do espago. Preciso que me expliquem e que me revelem as dimensôes deste espago, do "prôprio" espago em que com tanta facilidade me movo. De facto, em nenhuma apresentagão de que disponho reconhego "três dimensôes do espago". A profundidade do espago pode ser um problema, mas terei que aprender isso junto de alguém; a profundidade do espago pode tambéra, e afinal, não ser problema, mas terei que ier eventualmente Merleau-Ponty : saberei então que o problema anterior era afinal um mau problema. Em qualquer dos casos requere-se um certo esforgo para compreendec o que é "isso" do espago. Esforgo que, como se disse, implicará provavelmente a construgão de um modelo do espago, de um espago substituto -era que nâo estou- para poder perceber este em que estou e que me é imediato. As prôprias descrigôes do espago "real" não me são raais prôximas e de fácil acesso: exige-se trabalho para compreender que o espaco é uma forma que contém uma multiplicidade in sich e não um conceito que compreende uma multiplicidade unter sich. Terei que proceder a um complicado processo intelectual -se é que faz sentido falar assim- para me dar conta desta descrigão -porque o é- do espago em que vivo. Normalraente serei levado a me "concentrar em mim mesrao" para tentar "perceber" o espago em que eu prcprio estou; tenderei a fechar os olhos e comegar a pensar o que poderá ser -como será- uma forma que contém uma pluralidade in sich. Serei tentado a procurar o espago, que saberei então ser algo extraordinariamente dificil. Em última análise, vivo tranquila e facilmente num espago dificilmente compreensivel . Habito sem esforgo nem trabalho nessa forma 74 estranha, sem consideragôes prévias, e sem saber até que e estranha e que é assim. Por isso, o espago que entâo descrevo dessa maneira destaca-se e separa-se (penso-o como cutro espago) deste onde vivo quotidianamente . A "Exposigão transcendental do espago" não está ao alcance de qualquer um; parece até estar ao alcance de muito poucos . Mas qualquer pessoa se orienta imediata e seguramente, sem quaisquer tipo de hesitagôes, no espago, estendendo a mão de aqui para ali, movendo-se de um local para outro, com certeza, "sabendo" bera o que se deve fazer, e como se deve fazer, e que caminho se deve percorrer, etc Está-se certo do espago e a orientagão nele possui imediatamente um "grau de facilidade" "inf initarr.ente" superior ao da dificuldade em compreendê-lo. Habitar o espago nâo é nenhum problema para ninguém; torna-se até muito dificil pensar em que condigôes o poderia ser. Mas, por outro lado, se do espago se possuissem somente as descrigôes kantianas ou husserlianas, tê-lo-iamos certamente pelo mais inôspito dos lugares. A vida sabe "rauito raais" do espago do que nôs . Mais ainda: necessita-se ura grande esforgo para corapreender a "posigão" do espago como tal. Quando se percorre um caminho, nas condigôes prôprias da vida corrente, ninguém se compreende como um objecto que atravessa zonas homogéneas do espago. No dia-a-dia nada disso se oferece explici tamente â compreensão; anda-se. E no andar a "posigão" prôpria do espago nâo é objecto de nenhum tipo de "atengão" temática. 0 sujeito acede imediatamente ãs coisas, d:rige-se ímediataraente para elas, notifica imediatamente a distáncia que o separa delas, mas isso equivale, na vida corrente, a um conjunto de possibilidades do prôprio sujeito que lhe são disponibilizadas pelas coisas: pode ir para ali, agarrar tal coisa, etc Dizer que o espago é uma "ordem de coexistências" será eventuaimente correcto. Mas a vida acontece no âmbito da "coexistencialidade" já e sempre constituida e por isso mesmo há uma enorme di f iculdade em compreender o que isso possa querer dizer: nâo 75 temos meios para pensar -por comparagão- a ausência dessa coexistêncla. As coisas estão imediatamente "ã mão" -basta estender o brago ou ir lá ter; é neste modo que se está já, e não se consegue ver cora clareza em que medida tal estado de coisas requer "condigôes de possibilidade" . No modo como vivemos o espago, a coexistência é um dado primário e original -e é um dado de facto; a coexistência é-nos anterior e nôs somos introduzidos já nela: não necessita de qualquer tipo de justif icagão, nem de origem, dado que toda a origem a pressupôe. Precisamente por isso, a instalagão no espago não interroga o espago, nem deixa "espago" para tal interrogagão . Que o espago seja, tomado nele prôprio, uma ordem segundo a qual "les situations sont rangées" (") é algo que está fora da "compreensáo vital" que dele temos. 0 que possa ser um âmbito a partir do qual se ordena uma situagão é qualquer coisa de dificil conceptualizagão distinta. 0 espago nåo está obviamente diante de nôs, isto é, nâo está "em parte alguma", não se vê, não se reconhece: vive-se na ausência temática dele mesmo. Tal corao no exeraplo anterior, corresponde igualmente â forma como vivemos isso que charaaraos espago o seu estar como que "atrás de nôs". Todavia, esse "atrás de nôs" não é vivido como algo de que se tenha o pressentimento . É, pelo contrário, latente e insuspeitado . Por isso mesmo está "atrás de nôs". Esta expressão significa aqui somente o carácter evanescente de uma posigêo de que, no entanto, a vida está perf eitamente assegurada, certa. Mais: uma posigåo que se tem ao modo de não posigão, dado que "isso" não equivale a qualquer coisa com que nos encaramos, com que nos enfrentemos: o "espago" não é um dado com que se entre em consideragão temática na vida quotidiana: vive-se habitando ura espago. A vida, por isso, possui uma certa "ciência" do espago. Possui-o corao um hábito tão profundamente enraizado nela que se perde noticia da sua (") Carta a Clarke, G VII, 415. 76 posigão como tal. A vida "sabe" o que é o espago, porque nåo tera "dúvidas" nem hesitagôes nc modo de o habitar: o espago está nela como ela em si mesma : basta-lhe viver para que a "lôgica" do espago a acompanhe em todas as formas que possa adquirir. Tal como um sujeito que possui uma determinada capacidade adquirida prescinde de reverter tematicaraente a ela quando se trata de realizar os actos que lhe correspondem, e pode até chegar a tomar como imediata e natural -espontânea- essa mesma capacidade (isto é, "esquecer-se" dela) , do mesmo modo a vida compreende em si o "hábito" do espago. É neste hábito que nôs estamos já e sempre instalados e, nessa mesma medida, escapa-se ao nosso olhar. 0 espago nâo é uma posigâo estranha no interior da vida e por isso é-lhe insuspeitado; insuspeitado não sô como problema a resolver, mas tarabém como constituindo uma posigão prôpria e determinada. A vida contém a ciência do espago como que em segredo, num segredo que o é também para si mesma, de tal forma que a tentativa de o arrancar a esse estado de hábito consegue apenas trazê-lo â luz "em pedagos" truncados e incertos, desgarrados : se se quiser explicar o que é o espago, balbuciar-se-á, hesitar-se-á, dir- -se-á um aspecto ou outro, sempre inadequados e toscos : nâo se reconhece isso de que se está a tentar dar a explicagâo, não porque nos seja desconhecido, mas por nos ser deraasiadaraente familiar . Com a simples exposigão fragmentária e rápida destes dois exemplos -que forara expostos somente a titulo de exemplos e nâo como objecto de uma descrigåo que se tenha pretendido minimamente adequada- pretendeu-se indicar um trago da nossa situagão entre as coisas que é como que o seu "estilo": a seguranga e a certeza das coisas que se possui na orientagão na vida. Falando com propriedade, nera sequer se pode dizer que se "possui" seguranga. A vida é essa mesma certeza de orier. tagão entre as coisas, vive-se dessa forma, sem hesitagôes ou 77 necessidade de paragens para decidir. O termo "estilo" talvez seja mesmo o mais adequado: tal como o estilo de uma determinada forma nâo é aigo que ela "possua" ou adquira, do mesmo modo a seguranga das coisas parece ser como que uraa das determinagoes mais patentes da formalidade da forma "vida". De facto, o carácter naturalmente orientado das acgôes que se constituem na vida é algo que, evidentemente, não se esgota nos hábitos do espago e da língua. 0 carácter habi tual do comportamento cobre todo o acontecimento que se tera como natural . Basta pensar, por exemplo, no modo perfeitamente "natural" como se reconhece a pertinência e a propriedade das várias foi'mas do ente "natural" -inerte, vegetal, animal e humano. Não causa perplexidade que o ente se "divida" nestes "géneros". A legitimidade do ente inerte é da mesma "natureza" da do ente vivo. Do raesmo raodo, o acontecimento das coisas como acontecimento histôrico -o facto de haver um passado co mundo "localizado" algures e um futuro do mundo tarabéra já "localizado" algures- nâo requer, na vida quotidiana, um esforgo dc pensar: é assira e, por isso, é pertinente que o seja; o ente é "histôrico", sofre a acgâo do terapo corao os peixes sofrem a acgão do mar. 0 raesmo se verifica -é somente mais um exemplo- no campo das relagôes intersubjectivas : "ninguéra" "sabe" o que é o araor, mas não parece que tal ignorância desempenhe qualquer papel na vida corrente ou que paralise quem quer que seja. Há um hábito do inerte como há um hábito do vivente; há um hábito do espago como há um hábito da histôria. A investigagâo que se leva a cabo neste tipo de acontecimentos habituais inscreve-se já e totalmente no interior do reconhecimento da sua natureza pertinente: tal reconhecimento é prévio å investigagão e ao estudo, mas nâo porque se opere um acto "mundano" de reconhecimento : é prévio porque nâo se requer tal acto. De facto, os hábitos da vida não nos pertecem: pertencemos-lhes nôs a eles, e inscrevera-se numa 7S diraensão não pressentida da vida, sem nome nem rosto, que criam precisaraente o rosto prôxirao das coisas, o horizonte de f arailiaridade em que nos encontramos sempre. A nossa relagão com as coisas vive num dominio do ôbvio -do natural- dado que nos enraizamos num solo pré-dado, que "aguarda" por nôs e que não é constituido por nôs . 0 mundo é o nosso local prôprio, um âmbito que nos é conforme, o que quer dizer que a "propriedade" de todos os acontecimentos naturais é tão imediata que não se vislumbra sequer o que tal possa significar. Não percebemos em que pode consistir essa "propriedade do mundo" porque sai fora do nosso horizonte de possibilidades mundanas uma qualquer "impropriedade do mundo". Mas esta não é possivel porque o nosso encontro com as coisas se dá num hábito que se desconhece, que não se suspeita como "a mais", que é totalmente transparente. 0 âmbito em que estamos é de transparência porque a sua "fungão" consiste em nos apresentar as coisas, e fixar nelas o nosso olhar, escapando ã atengão esse mesrao ãrabito. No De Aniraa (,2) , Aristôteles descreve o estado natural da alma como o de quem possui a ciência em estado de hábito. A aquisigão de conheciraentos -o acto de aprender- não pode ser corapreendido corao uma alteragão, no sentido preciso do termo, quer dizer como um movimento ou modificagão cujo fito se^am as disposigôes privativas do sujeito. Pelo contrário, o termo do "moviraento" prôprio do acto de aprender sâo as disposigôes positivas ou natureza do sujeito. Não há, portanto, uma alteragão de contrario in contrarium. A aquisigão da ctência não é uma mutagão no sujeito, mas antes um progresso no nesrao : ele não passa a ser "outra coisa", raas aperfeigoa a sua prôpria natureza. No passo imediatamente seguinte, Aristôteles refere que, depois de gerado, o ente sensivel possui imediatamente a sensagâo a modo de ciência em hábito; ou seja: ter olhos é ter o hábito das cores. (,r) 417 b 1-17 79 Precisamente por esta razão, todo o conhecimento adquirido é-o num horizonte já reconhecido, familiar, prôprio. Dado que o estado original e natural da alma é o da ciência em estado de hábito, é já nesse hábito que toda a informagão posterior se "processa" como um progresso no mesmo sentido. A naturalidade do mundo é produto não da sua pura posigão -uma pura posigão não é natural nem não natural-, mas sim da posigâo das coisas num hábito que lhes confere å nascenga o carácter de naturalidade. As coisas são imediatamente naturais porque são originalmente num hábito da alraa. A relagão que manteraos com elas institui-se, assim, num espago de seguranga e orientagão -que se toma como puro e despido de determinagôes : neutro- porque o mundo é dado num hábito do mundo. Este hábito indica- -nos já o estilo da exposigão de coisas a vir, exposigão para que soraos langados -em que cairaos- e é ai que a nossa vida se joga. A tarefa da forma da nossa coexistência com as coisas é constituir-nos em coexistência com as coisas. E porque é essa a sua tarefa, oculta-se precisamente a forma como forma. 0 hábito do mundo ::az o mundo como o nosso local prôprio e, nessa medida, esconde-se atrás do mundo; melhor: atrás de nôs. De facto, se o hábito não se escondesse, a naturalidade das coisas seria estranha, não natural: uma naturalidade de que se reconhecesse a origem seria superveniente e, portanto, não ôbvia, nâo imediata. Desta forma, é prôprio do hábito do mundo dar como original o que é constituido. E por essa razão, o nosso enratzamento na terra é tão prôprio como o da planta no solo; e tão firme como ele. Tudo isto é, como se sabe, tão banal corao antigo: pode ler-se, por exemplo, na República. 2.3. Naturalidade dos actos da vida e percepgão: passagera â análise da visão. A visão como acontecimento natural e como "objecto construido". Facilidade e dificuldade da identif icagão 80 do "objecto" 'ver'. A visão corao momento geral, forraa do mundo que compreende o sujeito e a visão como "um dos cinco sentidos" do sujeito: visâo como "véu" e ôrgão da visão. Carácter latente do primeiro aspecto. A "compreensão natural" da visão: a "neutralidade ideal" do sujeito: primeiras indicagôes. A "naturalidade" do mundo reconhece-se também nisso cue se chama "visão". Torna-se, no entanto, necessário (apesar de se correr o risco de cair em repetigôes inúteis e cansativas) tentar afastar equivocos persistentes . De facto, o discurso filosôfico tradicional, na medida em que compreende a visâo como ura moraento particular do que chama "percepgâo" -que será o que propriamente interessa-, costuma criar, mediante essa compreensão, um objecto de estudo -precisamente a "percepgão"- localizada num mundo de ideias e, por essa razão, facilmente analisável. Sendo a "percepgão" uma nogão abstracta, o modo corrente de discorrer acerca de tal "tema" costuma implicer uma "descolagem" do acontecimento vivido "visão" e o seu consequente isolamento, isto é, a sua pertenga a um horizonte de abstracgôes. Poderá então pensar-se, de modo coerente e sério, o "objecto" ver: tal "ob^ecto" possui, nesse estaco, um era si ideal que lhe confere consistência e autonomia. A visão passa a ser uma "qualquer coisa", um objecto a ser estudado, analisado, explicado e até, eventualmente, "descritc''. A circunscrigão da visão -que equivale, neste processo, å sua pretensa "identif icagão- implica, por isso, a sua introdugão num âmbito desligado da vida, estático, meramente pensado. Assim, na medida em que, ã partida, o discurso filosôfico delimita desta forma o horizonte de identif icagão do objecto em causa, nessa mesma medida pensará encontrar-se nas concligôes ideais de acesso a isso que se chama "visão": procurou agarrar e prender a visão de tal forma que ela se possa manter como um ai, como que em estado de cativeiro. Mediante este artificio -o do isolamento-, o discurso pretende ultrapassar o carácter fugidio que a forma "visão" claramente possui. Pressupôe-se, então, que a natureza 81 "escorregadia" do ver (isto é: a dificuldade real de saber de que é que se está a falar) não pertence ao conteúdo disso de que se pretende falar. Por algum motivo "obscuro", a visão foge â tentativa de descrigâo. Mas esse raotivo "obscuro" pode ser desperdigado: a visão "deve ser o que é" e o facto de fugir ou nâo â descrigão será "certamente" acidental. Toma-se então o "ver" -já agarrado- como se se tratasse de uma coisa pensada, com uma estrutura semelhante â de um triângulo, por exeraplo. De facto, para se "saber" o que é ver costuma "pensar-se nisso", "constituir um mundo onde se vê", como se saber o que é o calor fosse acessivel mediante um "pensar em coisas quentes", fingidas, portanto. Descrever-se-á, assim, a visão "comme on decrit la faune d'un pais lointain" (,3) , ou como fazia aquele homem "born blind, who had several Apprentices in his own Condition: Their Employment was to mix Colours for Painters, which their Master taught them to distinguish by feeling and smelling" (") . Esta estratégia de fingimento, pretendendo f ixar o seu objecto -escapar, portanto, â natureza fugidia da visão-, é, no entanto, consequência imediata dessa mesraa natureza fugidia. E a visão foge tão completamente que o sujeito que acerca dela discorre pensa até tê-la agarrado, e não sonha sequer que está somente a sonhar a visão: a "pensar" nela. Na verdade, a maior parte das "análises da percepgâo" parecem toraá-la como ura aconteciraento perfeitamente localizado, ao dispôr, qualquer coisa que se conhece bem. A percepgâo surge desta forma como que desgarrada da vida, como se vivesse de si rnesma e por si mesma, em total autonomia, destacando-se do acontecimento imediato do prôprio sujeito que a "pensa", como se o "ver do (") MERLEAU-PONTY, M., Le visible et l'invisible, Paris, Gallimard, 1964, pag. 240. (14) SWIFT, J., Gulliver's Travels, III, cap. V, conforme ã edigão de 1735, Oxford, Oxford University Press, 1986, pag. 179. 82 sujeito" íosse qualquer coisa a que ele tivesse acesso como um visto, esquecendo assim que o acto de "ver" impregna o seu imediato "estar aqui" e como que se dilui nele. Esse "estar localizado" é, portanto, fruto de um artificio, para além de conter um bom número de pré-compreensôes latentes. Não interessa, agora, tentar dar conta do tipo de pré-compreensôes que aqui estão em causa. Interessa sim reter que o aconteciraento natural da visão não se "reconhece" de modo nenhum nesse tipo de discurso: na vida a visão não se vê, nem se toma por objecto, não se "agarra". No ponto de vista de quem vê, e não no de quem pensa nisso, a visão nâo se detecta imediatamente como um momento real fácilmente determinável nc horizonte dos aconteciirentos possiveis. Basta reparar, por exemplo, no embarago em que se cai quando se pretende dizer ou indicar o "que é ver". Não se sabe, de modo nenhum, o que se deve dizer, que tipo de proposigôes enunciar, a que "objectos" recorrer. 0 sujeito interrogado não encontra nada que corresponda a essa pergunta: não sabe a que se há-de ater. No entanto, ele "sabe perfeitamente" de que é que se trata, e não tem a minima c.úvida acerca do que seja ver. 0 embarago pode até tornar-se "desesperante" dada a irapossibilidade de encontrar raeio de dar conta de algo tão fácil e imediato, tão prôximo. 0 termo "ver" é de compreensão imediata e ôbvia e, todavia, a ele corresponde um vazio: é vivencialmente determinado e conceptualmente indetermmado. 0 embarago nâo decorre da dificuldade de reconhecer o "objecto": decorre precisamente da sua extrema facilidade, por um lado, e, por outro, de não haver objecto: é como que ura "nada que é ôbvio". A proxiraidade da visão é cle tal ordem, e possui tal natureza, que não permite a sua indicagão ou identif icagâo como um isto ou aquilo, possuindo esta ou aguela caracteristica . Não se pode explicar a um cego o que é uma cor, mas pode indicar-se a um vidente; mas o ver não se 83 pode "explicar" nem indicar a ninguém de modo que se reconhega como tal nessa explicagão. A atrapalhagão poderia ser suprimida se se apelasse para "alternativas da visão" ou "substitutos mecânicos": uma teoria cientifica (ou não cientif ica) , por exemplo. Se se possuir um minimo de cultura (mas esse minimo é necessário possui-lo) , poderia responder-se dizendo que "toda a gente sabe que a visão é um processo dificil e complexo", por exemplo. Ou, se se possuir mais cultura, que a visão tem "a ver" com nervos "ôpticos", neurônios, sinapses, etc Pode, de facto e com tranquilidade, responder-se â pergunta: o que é ver? com uma teoria; a visão passa a ser pensada como um momento, ou melhor, corao um resultado de uma argumentagão ou descrigão abstracta, baseada em processos invisiveis e irreconheciveis fora do contexto da teoria em causa. Todavia, a visão de modo nenhum se vive como um processo ou como termo de um processo: ver não é vivido nem como um resultado nem como uma conseguência. Não se "vê" que identidade possa haver entre uma sinapse (algo que deve ter lugar no cérebro, dentro da cabega, mediante um certo tipo de descargas de natureza fisica ou quiraica) e "ter å minha frente este cinzeiro". Uma sinapse é uma sinapse: um facto prôprio e autônomo; o cinzeiro é castanho, está cheio de cinza e atrás dele está um relôgio: outro "facto" igualmente prôprio a autônomo; e não se vislumbra que relagâo analitica ou que identidade conceptual pode haver entre os dois "factos". Pode saber-se cue sô é possivel ver a cinza no cinzeiro se no cérebro se realizarem tais e tais processos. Pode de facto saber-se, e é isso, aliás, que se diz acontecer. Mas tal "sabedoria" era nada aproxiraa a cor do cinzeiro das sinapses: sâo acontecimentos de ordem diferente: o segundo é uma "explicagão" do primeiro, mas este vive-se fora de toda e qualquer explicagão, como ura aconteciraento imediato e originário. 0 termo "visão" passa a usufruir de dois sentidos que se colocam esquizof renicamente "lado a lado", tomando-se S4 como "o mesmo": a visão-teoria-explicagåo-processo e o ver hic et nunc tal corao acontece. Pode saber-se que o segundo termo é, na realidade, o primeiro. Mas compete ã teoria dizer isso mesmo, ou seja, esse "ser na realidade" equivale a "ser na teoria", dado que, corao é ôbvio, a visâo "realraente real" -a única de que se dispôe- é a "visâo que vê" e nâo a "visão que explica". Pode parecer natural que a "visão do raundo da vida" não seja real, raas sira a "outra", a do raundo da neuro- fisiologia (ou do raundo da ôptica ou...). Tal "evidência" decorre, todavia, da substituigão do acontecimento imediato pela sua explicagão abstracta, como se a substituigão nâo fosse nada, quer dizer, corao se não tivesse havido, de facto substituigåo. Mas, por outro lado, todo o sentido da "visâo do mundo da neurof isiologia" recolhe a sua forga da "visáo do mundo da vida": o horizonte cientifico pretende "dar conta" do que "toda a gente" entende por visåo. Há assira corao que ura raovimento de vai-vem, de permuta de campos, que tenta atingir a confusåo-identidade entre os dois momentos: a realidade do mundo da vida é detida pela ciência, mas a realidade do raundo da ciéncia decorre do mundo da vida (|S) . 0 movimento de vai-vem sô pode, no entanto, constituir-se pela introdugão de um duplo da vida . Se se prescindir desse duplo -mundo substituto e abstracto-, isto é, se se ativer somente aquilo que é realmente dado e não construido, a visão toma-se, vive-se, corao momento originário e imediato, nåo decorrendo de nada, nada sabendc de processos e consequências : se em vez de se pensar em coisas quentes se atentar, se acompanhar o sentir calor no seu estar a acontecer, verificar- se-á que a "temperatura do termômetro" não tem calor: não é nera (,5) Sobre este assunto, cfr. PASCAL, De l'esprit géométrique (Oeuvres complêtes, Paris, Seuii, 1963, pag. 348-355) em que, depois de determinar a relagâo entre os conceitos e sentidos naturais e as definigôes livres da ciência, se indica tambéra a tentativa cie confundir os dois momentos. 85 fria nem qtente; o raesmo acontece com a visão: ver é ver, e com dificuldade se poderá dizer mais do que isso: tudo o mais que se diga acerca da visão nâo vê. Não se compreendendo, na vida, como um "objecto", a visão não se compreende também imediatamente como um "acto" que esteja ao dispôr, em poder do sujeito, como se se tratasse de uma possibtlidade mundana como qualquer outra. Assim, quando, por exemplo, se lê o jornal, este está evidentemente a ser visto. Mas o acto que se leva a cabo é o de "ler o jornal", que possui a estrutura de um fazer especifico e concreto. "Ver", pelo seu lado, constitui um âmbito, um espago aberto e indefinido -o do mundo visto- onde esse fazer acontece. 0 sujeito em causa pode até dar-se conta de estar a ver o jornal, mas a consciência de "ver o jornal" é interior ao moraento geral ver, como que um espago concentrado que não se identifica, de modo nenhum, com esse momento geral. A consciência de "estar a ver", na vida corrente, nâo se confunde com o horizonte que a visåo abarca. "Estar a ver", no dia a dia, delimita, no interior do espago total da visão, um campo mais restrito, que norraalmente corresponde a objectos determinados e concretos : o jornal, a paisagem, as estrelas do céu, etc Neste caso, ver toma-se como "reparar", "observar", ou seja, inclui dentro do momento visão o moraento "atengão ao visto" . "Ver" toma-se como um acto prôprio do sujeito somente quando investido por uma forma de "intencionalidade" apontada para um objecto concreto, intencionalidade essa que nâo se reconhece, de modo temático, na visâo como tal. As "intengôes da visâo" -que são passiveis de reconhecimento ímediato como um "fazer"-, tais como "ver televisâo", "ver bem", "ver com cuidado", etc , inscrevem-se já numa exposigão das coisas pré-constituida, nessa exposigão das coisas que é o horizonte pré-dado dos actos "conscientes" do sujeito. A visâo como momento geral é, por seu lado, inatendida, pois está per f eitamente adequada a essa exposigão pré-dada das coisas: o campo de coisas onde o sujeito realiza 86 os seus actos é um campo de coisas expostas, vistas, e por essa razão o sujeito não tem habitualmente consciência do "estar a ver" geral como de um acto inscrito no interior das coisas vistas. Quando se vé -no sentido "total" do ver que é conforme å totalidade das coisas vistas- o sujeito não faz nada: ele está simplesmente ai, como no seu lugar imediato e prôprio. A visão está como que "colada" ao acontecimento concreto do sujeito, e de tal forma que eie é habitualmente inconsciente do seu estar a ver: vê como quera está. 0 momento visão impregna, assim, o acontecer concreto do sujeito, localizando-o, e constitui uma indicagão da sua inscrigão imediata nas coisas, sem que ele tenha qualquer tipo de notificagão da visão como acrescento â sua posigão hic et nunc. De facto, na medida em que a visâo "cobre" a totalidade das coisas vistas e, de algum modo, a ver (incluindo o prôprio sujeito que também se vê) - isto é, "cobre" o mundo imediato onde o sujeito está- ela ajusta-se ã vivência que o sujeito tem de si, ao "ter-se aqui" . A visåo, no momento de ver, nâo se deixa ver como um acto do sujeito, porque ele mesmo e todos os seus actos são nura raundo visto. Para ura vidente, ver constitui ura modo da sua presenga no mundo, uma forma do prôprio facto de "estar aqui", e normalmente o sujeito nâo compreende a sua inscrigão no mundo como decorrendo de qualquer tipo de posigôes anteriores. A "descrigâo" do carácter imediato da visão -do seu estar como que "colada" ao sujeito e "írapregnar" a sua posigåo- é especialmente dificil de levar a cabo porcue o sujeito tende sempre a tomar a visão como "teoria", como momento abstracto, não atentando em que a sua posigão entre as coisas é imediatamente posigâo entre coisas vistas, isto é, não reparando em que a visão é uma forma do mundo, e não um objecto, uma coisa no meio do mundo. Por isso, a descrigão mais fácil do carácter imediato da visåo tende a realizar-se mediante a introdugâo do momento teôrico "visão" no acontecimento iraediato do sujeito, o que iraplica 87 necessariamente uma distorgão. Descrever desse modo a visão é como que tentar ver um moraento abstracto como concreto. 0 que normalmente acontece é precisamente o contrário do que se pretendia: acaba por ver-se o concreto como abstracto: constrôi-se a "imediatez" do sujeito: a descrigão toraa o lugar do descrito. E assim todo o discurso sobre a visão esquece o dado fundamental. De facto, o que se pensa estar a fazer quando se vê? Nada. Parece ser simplesmente "estar ai como está". E o modo "como'' se está é tão prôximo ao simplesraente estar, que a sua "fixagião teôrica"traz habitualmente consigo a perda da sua concretude, isto é, da sua realidade: passa a ser "outra coisa". Quando se está inconscientemente, isto é, normalmente no acto de ver, a visão é inaparente, não ocupa "espago" : não sendo um objecto, não se vive também como um acto especifico. Viver-se normalmente como vidente, para um vidente, é simplesmente viver-se como sujeito aqui e deste raodo, que é o modo como sempre se vive. Ver é "dizer": "estou aqui 'junto' destas coisas". Tal "dizer" não se toraa como um acto, isto é, não acrescenta nada nem se acrescenta a nada: "haver coisas ali e assim" nâo se coloca ao lado de "estar aqui" e de "ser assim desta forma". 0 sujeito não "sente necessidade" -nem compreende,. na vida, o que tal pode querer significar- de "ir ter com as coisas", de as descobrir . Não vive a visão como um meio de acesso as coisas: nada nos separa das coisas, e não se vislumbra, por isso, a necessidade de ura meio, de uma ligagão que ultrapasse a "distância" que nos separaria delas, corao se as coisas habitassem um horizonte era que nôs nâo estaraos e era que fosse necessário introduzir-se. 0 falar normal sobre o "acesso âs coisas" pensa curiosamente esse acesso no horizonte comum em cue se está já cora as coisas. Habitualmente fala-se deste acesso corao se se perguntasse "que acesso se tera âquela coisa ali?", o que equivale a perguntar por um acesso quando não há qualquer necessidade dele, dado que a indicagão da "coisa ali ' é a indicagão de se estar já "junto" dela. Ou seja: ss "estar ao lado das coisas", ver-se a si prôprio "e" ãs coisas não é vivido nunca como trabalho, como esforgo. O sujeito normal, no dia a dia, não compreende que tarefa terá de erapreender para se "encontrar ccra as coisas": falar de acesso é ininteligivel. Nem se pode dizer que tal seja "fácil": é, simplesraente : é assim. Estar "ao lado" das coisas é estar, dado que todo o estar é determinado de algum modo. A visão, na medida em que se compreende comc o "geral ver as coisas", não é um acto no mundo; desse ponto de vista ela é, como se disse, inaparente. 0 sujeito nâo se ten ao pé das co.isas como se elas o af ectassera, ou "causassem" a percepgão que tem delas", ou como se se "dirigisse" para elas; o sujeito não precisa de fazer nada disso (nem sabe o que pode corresponder a tais expressôes) , precisamente porque vê. Não se vive imediatamente a visåo como um "sair de si". Dito desta forma, a expressáo tem algo de mitolôgico. "Sair de si" é incompreensivel,- não significa nada, a nåo ser num mundo teôrico/abstracto em que se constrôi um sujeito simtbôlico e cego, se constrôi uraa caixa isolada contendo coisas e se pensa depois "de que raodo ele as pode ver". Na realidade, o sujeito não precisa de percorrer qualquer carainho para ir ter cora as coisas. E não precisa porque a visão é o seu imediato estar como elas. Não se percebe na visão nenhum movimento de saida de si. Ver é justamente a não necessidade de "ir ter com...". A visão não preenche o espago vazio que nos separa das coisas, porque nâo há necessidade de tal preenchimento, entre outros motivos porque nao há tal espago vazio. Afirmar mesrao que se está ao "lado das coisas" acaba por ser uraa má descrigåo e deixa escapar o que se pretende indicar. 0 sujeito não está "ao lado" como uma pedra o está de outra, em que as posigôes são exteriores entre si e se pode tragar entre as duas uma linha que as divide. O sujeito é ele mesmo um acontecimento do mundo visto, faz parte das coisas de que está "ao lado" . A visão compreende um espago no interior do qual o 89 prôprio sujeito habita: ele é visto, e é-o ao mesmo titulo que qualquer outra coisa vista. A visão como que inclui o prôprio sujeito de quem se diz ver. Qualquer sujeito se sente como que englobado no seu espago visual, no espago que a "sua" visão compreende: a visão limita um horizonte no meio do qual o vidente está. 0 ver do vidente abarca tudo, incluindo o prôprio vidente, como se este fosse, de alguma forma, um momento seu. E o acontecimento "visão" constitui-se corao a exposigão do mundo . É precisamente por esta razão que a visão "não existe": ela inicia, no caso do vidente, o seu estar no mundo desse modo; e o prôprio mundo é trazido assim â presenga no estar nele do vidente: o mundo surge em presenga como que "arrastado" pela especifica posigão imediata e concreta do sujeito que vê . De um ponto de vista meramente descritivo -isto é, independentemente de qualquer explicagão e de qualquer metafisica que verse sobre o ser em si das coisas: não é, de modo nenhum, isso que está em causa-, de um ponto de vista meramente descritivo não faz qualquer sentido falar da introdugâo do sujeito no mundo, como se o mundo estivesse, e já como mundo exposto, "a nossa espera", dado que não há mundo visto sem visão. 0 surgimento do mundo exposto é o surgimento do sujeito nele, não numa concomitância de posigôes lado a lado, mas na simplicidade da posigão desse modo prôprio do sujeito estar nele. 0 surgir do mundo acontece no trazer-se ã presenga do sujeito nele. A visão é apenas um modo, ainda que um modo privilegiado, desse acontecimento simples e único. Assim, a "inexistência" da visão equivale a vivência comum do mundo como momento zero, isto é, como o moraento inicial, antes do qual nada é pensável, e a partir do qual -isto é, no qual- tudo o mais é e acontece C") . (u') Como é eviciente, esta tentativa de "cescrigão" da visão é aqui muito incipiente e tosca. Procurar-se-á levar a cabo uma exposigâo um pouco mais completa quando se referir a "definigão*' leibniziana de "percepgâo" corao raultiplicidade na unidade sem portas nem janelas. 90 A "inexistência" da visão não significa, naturalmente, o "não se saber o que é"; significa sim a sua falta de "densidade", isto é, a impossibilidade de operar o seu reconhecimento mediante a indicagão de um objecto ou de um acto mundano . Da visão possui-se uma presenga prôxima e imediata, tão original que a sua identif icagão como "trabalho" não pode ser levada a cabo no ponto de vista em que se está habitualmente. De ai parece decorrer o "embarago" anteriormente referido. Se "faltam as palavras" quando se pretende dizer o que é "ver", tal parece dever-se â incapacidade de discernir o momento "visão" na coisa vista.4 Dispôe-se somente de objectos vistos, "sabe-se", de alguma forma, que a visão deve "estar" no objecto visto, mas não se consegne levar a cabo uma "cisãc" que separe o "prôprio objecto" do seu ser visto. Dado que "ver" é um modo de se ter em presenga de outra coisa, e dado que "a outra coisa" vista é vista precisamente como "outra coisa", e somente como isso, então aquela coisa vista e aquela coisa são a mesraa coisa: o momento visão na coisa vista é nulo. A visão é um raodo do acontecimento das coisas e, nessa medida, a presenga das coisas corao que "absorve" o raomento visão: "les choses visibles autour de nous reposent en elles-mêmes, et leur être naturel et si plein qu'il semble envellopper leur être pergu, comme si la perception que nous en avons se faisait en elles" (,7) . A visão toma-se então como um "véu" transparente que cai sobre as coisas, que se conforma totalmente a elas nas suas pregas prôprias, de tal forma que o "ver" desaparece na coisa vista, sem sequer lhe "tocar" (l8) . A visão é "qualquer coisa", mas não esconde nem revela: está "lá", na coisa, mas "deixa" a coisa ser ela mesma. Nessa medida, ela não se vive co.mo um momento consistente e prôprio, nem se sobrepôe âs coisas como se fosse necessário operar algo nela para as descobrir, corao se (1T) MERLEAU-PONTY, M., idera, pag. 163. (,8) Cfr. idera, pag. 25. 91 fosse preciso "escalpelizá-las" da visåo. 0 mundo em que se habita é irn mundo exposto. A visão não faz nada, porque todo o seu fazer prôprio teria como único efeito perturbar essa mesma exposigão. A visão é um nada que investe as coisas, um nada que se pressente, mas que não se detecta. Uma vez mais, a "ideia" de que a visão "altera" as coisas, e que, de algum modo as esconde no seu ser prôprio, sô pode ter lugar num mundo de coisas construidas "sem visão", que se colocam ao lado das coisas vistas, para possibilitar depois uma comparagão. No mundo da vida, tal comparagão é pensável unicamente de um raodo simbôlico 9 cego, sem que possa alguma vez possuir-se "disso" uma compreensão distinta (entre outros motivos, porque as "coisas não vistas" são imaginadas corao "vrstas sera a visão" ao lado das coisas "vistas cora a visâo") . Assira,- ofuscado pelo aconteciraento das coisas em exposigão, tixado e preso a elas, o sujeito deixa a visão permanecer em estado de latência: o que se detecta e impôe são "as prôprias coisas", sendo a visão como que o éter "onde" as coisas se destacam, algo assim como o diáfano. 0 que de modo nenhum implica, como se disse já, que não se possua uma certa "ciência" da visão: o momento "ver" é, de algum modo, reconhecido e reconhecido imediatamente: o sujeito sabe "opor" e distinguir a visão de outras formas do acontecimento das coisas, como sejam a audigão e o tacto, por exemplo. Todavia, a inclusåo da visão no elenco dos "cinco sentidos", todos a um mesmo tituio, deixa escapar o carácter preeminente da visão. No caso dos videntes, o mundo é essencialmente estruturado de forma visual: a instalagão no raundo, a localizagão das coisas e do sujeitc entre elas, a orientagão no espago, o campo de possibilidades que lhe são prôprias, etc são constituidos de um raodo mais fundamental pela visão. E é no "espago" dado pela visão que se integram e se compreendera os dados dos "sentidos". E por sua vez, o tacto e a audigão possuem uma natureza mais 7? fundamental que o olfacto e o gcsto C9) . 0 mundo não perderia a sua estruturagão fundamental se, por exemplo, dele estivessem ausentes os aromas e de certa forraa também os sabores, pelo menos para nôs. Mas a articulagão do mundo alterar-se-ia de um modo bem mais profundo se faltasse a visão. Sem ela, nogôes como por exemplo "ali" e "ao fundo" possuiriam um outro significado (20) ; e o carácter estático e f ixo, que é p.toprio dos objectos, possuiria igualmente uma outra conf iguragão. 0 mundo organizado auditivamente, por exemplo, é muito menos localizado: a orientagão que se teria nele apresentaria um maior grau de incerteza e indeterminagão. Um estruturagão táctil do espago apresenta-o como essencialmente percorrtdo ou a percorrer, de tal forma que a nogão visual de "ali" teria, para um cego de nascenga, algo de profecia: o saber ce uma coisa a que ainda não se teve acesso (21) . Para um vidente, (,9) Cfr., por exemplo, ARISTÔTELES, De Sensu, I, 436 b 10 - 437 a 17, onde se leva a cabo um hierarquizagão dos sentidos, por ordem de importância e a partir de vários critérios. (20) 0 mesmo aconteceria provavelmente se se possuisse somente a visão sem tacto: "the intelligence here spoken of (sem tacto, mas com visão) is supposed to have no experience of toucn. He would not, therefore, judge as we do, nor have any ideia of distance, outness, or profundity. . . ", BERKELEY, G., An Essay towards a New Theory of Vision, 148; Philosophicai Works, London, J. M. Dent & Sons, Ltd., 1975, pag . 53. Todavia,- nada de isto nega que a organizagão do mundo tal como a viveraos seja predominantemente visual . (21) "Suppose one who had always continued blind be told by his guide that after he was advanced so many steps he shall come to the brink of a precipice, or by stopped by a wall; must not this to him seem very admirable and surprising? He cannct conceive how it is possible for mortals to frame such predictions as these, which to him would seem as strange and unaccountable as prophesy doth to others", BERKELEY, G., idem, pag. 52; "Un aveugle-né qui aurait vécu parmi des aveugles-nés n'admettrait pas qu'il fût possible de percevoir un objet distant sans avoir passé par la perception de tous les objets intermédiaires . Pourtant la vision fait ce miracle", BERGSON, H., L'évolution créatrice, Paris, PUF, 19831S,S, pag. 169. 0 assunto é, todavia, mais complicado dado que a prôpria visâo possui tarabéra, de algum modo, o carácter de profecia. Na 93 torna-se dificil saber que tipo de "figuragâo" se tem de uma pedra se dela se possuissem somente determinagôes tácteis. Tais determinagôes estâo como que "agarradas â mão", são mais "da mão" que da prôpria coisa, e, por isso, quando se larga o objecto que se detinha, ele como que se perde e cai no escuro, como que se "apaga". Ainda que, provavelmente, o tacto seja a forma básica da "sensibilidade" -sem tacto nåo há corpo (22)-, todavia, a organizagâo táctil do mundo é ainda -por isso mesmo, aliás- informe e demasiado pouco objectiva, sem contornos definidos. Pense-se, por exemplo, na diferenga de aspectos que uma "mesma" mesa apresenta quando vista e quando somente percorrida pela mão. Enquanto que a visão da mesa expôe imediatamente a "totalidade" da mesa C3) : os contornos, os verdade, quando se vê um objecto ao longe está a ver-se um "objecto real", isto é, que se pode tocar, que tem peso, que resiste ao tacto, etc : não se trata de um fantasma. Ou seja: a detengão vtsual de uma coisa é também uma forma de antecipagão de uma percepgão táctil, que, portanto, ainda nâo se possui . 0 problema sô poderia ficar minimamente esclarecido se se elucidasse a sistematicidade das várias formas de exposigão da coisa, a validagão de umas peias outras; e tal elucidagão depende totalmente da compreensão da unidade e identidade da coisa prévta aos seus "acessos". Trata-se em última análise de compreender o que Leibniz descreve desta forma: "aliter (eadem civitas) apparet, si extrinsecus accedas, quod perinde est ac si corporis qualitates percipias; et ut ipse civitatis externus aspectus variat, prout a latere orientali aut occidentali dis- accedis, ita similiter pro varietate organorum variant qualitates", Carta a Thoraasius, G I, 19-20. Assim, a relagão e a mútua validagão de cor, som e resistência ao tacto, por exemplo, é resultado da focagem originária de uma mesraa coisa (eadera civitas), que permite "depois" "organizar" e "pensar" uma multiplicidade de acessos. (22) , Cfr, por exemplo, ARISTÔTELES, De Aniraa, III, 13, 435 a 11-15 e HUSSERL, E., Ideen zu einer reinen Phánoraenologie und phánomenologischen Philosophie, II, Phãnomenologische Unter- suchungen zur Konstitution, Haag, Martinus Nijhoff, 1952, (trad. francesa Paris, Gallimard, 1982), passim. í23) Não se trata, naturalmente, de uma "verdadeira totalidade" da mesa, dado que a sua apresentagão nâo cobre todos os aspectos clo que se "tenta": a parte de trás, os ângulos escondidos, o interior da mesa, etc Pode, todavia, falar-se de uma "totalidade" dado que as demais apresentagôes, as tácteis, neste caso, correspondem apenas a parte da superficie vista da 94 ângulos, as distâncias relativas, etc , a percepgão da "mesraa mesa" pelo tacto terá que sofrer uma espécie de articulagão a posteriori, dado que nenhum das sensagôes anuncia a seguinte e a presente perde continuamente a anterior. 0 que é simultaneamente apresentado na visâo sô pode ser recuperado pelo tacto numa sucessâo de momentos que, por isso mesmo, se "esquecem" continuamente. As sensagôes tácteis da mesa sâo vividas corao correspondendo a "partes" da mesa vista, de tal modo que a presenga de uma qualquer "parte" sô é possivel na anulagão, ou, pelo menos, numa descontinuidade em relagão a qualquer outra, no caso, por exemplo, de se aperceber uma "mesraa" extensão com diversas partes do corpo prôprio. Em qualquer dos casos, a extensão tactilmente percebida é muito mais restrita que a visualmente percebida: alcanga os limites do prôprio corpo enquanto que a visão atinge as raesmas estrelas. Mais ainda: é na apresentagão visual das coisas que se revela a "identidade" dessas mesmas coisas tactilmente apresentadas : o que se toca numa parte da mesa perm.anece informe e ambiguo enquanto não se "souber" -isto é, náo se estiver a ver- que "parte" da mesa se está a tocar (24) . Não há aqui lugar, naturalmente, para a suspeita da possibilidade de não correspondência entre dados visuais e tácteis, da sua irredutibilidade i25) ; mais ainda: uns "funcionam" corao mesa; ou seja: o campo visual parece ser mais vasto do que o campo do tacto, pressupondo sempre, evidentemente, a correlagâo entre as várias formas de apresentagão . C4) Veja-se, por exemplo, a modo de ilustragão, a descrigâo de Edgar Allan Poe (em The Pit and the Pendulum) das diferentes apercepgôes que se tem de uma sala pela visão e pelo tacto: as diferengas dizem respeito não sô ao espago da sala -forma e dimensôes-, mas também â prôpria "textura" dos materiais; The Complete Tales and Poems of Edgar Allan Poe, New York,, The Modern Library, 1938, pag. 251. C5) Se a visão é "a verdade" do tacto, este pode, todavia, "funcionar" tambéra como "a verdade" da visão, era casos de perturbagão notável desta, dado que ele se vive corao estando, de algum modo, "raais prôximo da coisa", a menor distância; o 95 confirmagãc eventual dos outros, numa sistematicidade que não deixa resto; e esta confirmagâo pode até adquirir um estatuto de identif icagão, dada a hierarquia de validagâo dos vários "sentidos" . Assim, a visão vive-se imediatamente, de modo atemático e irreflectido, como a apresentagão definida do mundo, apresentagão essa onde todas as demais exposigôes têm o seu lugar. E por essa razão ela é mais latente. De facto, a compreensâo da visão no elenco dos cinco sentidos não a toma como o "véu de todas as coisas expostas visualmente", raas inclui-se já no interior do raundo exposto, visto. Tal compreensão da visão como um sentido decorre de experiências determinadas, posteriores ao sentido do "raoraento geral ver", e parece provir quer das "def iciências da visâo", quer, mais imediatamente, da sua relagâo aos chamados movimentos sensdrio- motores, estando obviamente os dois aspectos intimamente relacionados entre si. Em qualquer dos casos, a compreensão da visão como ura dos cinco sentidos equivale a apreendê-la como um acontecimento especifico, de alguma forma isolado, no interior do espago geral de todos os acontecimentos, que é o mundo. Tal tipo de apreensão não iraplica necessariamente o abandono da sua compreensão como "véu". Iraplicará sira a notificagão do véu como véu, o que se torna possivel, por exemplo, no caso do "véu" não ser totalmente transparente, isto é, quando se "vê mal". De um modo "abscluto", ninguém "vê raal": vê o que vê . "Ver mal" parece indicar antes uma perturbagão do mundo público, ou seja, um desencontro de vários sujeitos a propôsito de uraa coisa já originalmente determinada como a "raesma" Ch) : alguém diz exemplo ôbvio é o da varinha quebrada que se sabe não estar quebrada porque o tacto não anuncia qualquer descontinuidade . C') A relagão entre a posigão de uma coisa como a "mesma coisa" e a posigão de vários sujeitos (entre a "mesma cidade" e os vários pontos de vista que se têm dela) terá evidentemente que ser elucidada. Neste moraento da exposigão, todavia, o problema pode ser deixado somente como "pano de fundo". 96 encontrar numa coisa algum aspecto que um outrc não consegue reconhecer, ou não consegue reconhecer do "mesmo modo" . Obviamente, o ver do outro é sempre inacessivel, nunca recuperável como tal. Mas dado que o ver se vive como "véu transparente" que cobre a coisa vista tal como é, se nuitos vêem o que outro diz não ver, isso nâo se deverá normalmente a uma capacidade extraordinária dos primeiros, mas antes a uma deficiência do segundo. Um sujeito que vê extraordinariamente bem pensa estar simplesmente mais adequado â "prôpria coisa que lá está". E assim "ver mal" implica, da parte de quem o sofre, uma irregularidade na habitagãc do mundo público exposto, como que uma desfocagera, nåo do mundo "subjectivo", mas da "publicicade do mundo", isto é, do "prôprio mundo". Em última análise, "ver mal" significa que o "meu mundo" nâo está perfeitamente adequado e conforme ao mundo . 0 mesmo é dizer que o fundamento da desfocagem, compreendida precisamente como desfocagem, é a posigão do mundo público como acontecimento original, do qual se pode destacar, em determinadas circunstâncias, ura mundo "subjectivo" , uma exposigão particular e privada das coisas (e não já a exposigão das coisas) , retida, portanto, na posigão empirica do sujeito. A experiência da desfocagem pode também ser facilmente levada a cabo mediante o simples uso de ôculos; neste caso, o sujeito dispôe de diversas "versôes" do raundo, raas nem todas com um mesmo estatuto de validade: há -no sentido prôprio de naver- um mundo público (que é o mundo) e diversas versôes dele, mais ou menos "aproximadas" . Ainda que nâo seja possivel determmar com exactidâo e de um modo distinto qual é -ou seja, como_é- o mundo público, é ccm base nessa posigâo que as diversas "versôes" são qualif ícadas, e podem surgir precisamente como versôes. "Há" um ver prôprio e adequado - idealmente constituido-, que, apesar da sua idealidade (ninguém vê absolutamente bem) , é o ver real e originário, aquele onde o prôprio mondo se expôe adequadamentc . Como é ôbvio, o prôprio 97 sujeito empirico sô pode ter acesso a diferentes versôes do mundo por comparagão, mediante a meraôria; raas não é, porém, pela memôria que se origina a compreensão das diferentes exposigôes como versôes do raesrao. A prôpria comparagão e a retengão das diferentes "imagens" do mundo como tais decorre já da interpretagão dessas diferentes exposigôes corao versôes, o que quer c.izer que a "nogão" e a posigâo do mundo público é anterior e comanda a compreensão das suas exposigôes. Assim, a nogão de "mesmo mundo" não é um produto de uraa comparagão de exposigôes, dado que cada uma delas é já variagão do mundo: o mundo "retido" no sujeito empirico -o mundo reconhecido como "subjectivo"- é posterior e vive no interior do mundo comum, sendo como que uma variagão "pessoal" dele; e este nâo pertence a ninguém, nem é a soma dos "subjectivos"; precisamente por isso, aliás, é que ele é comum: está ao dispôr de todos, em estado de disponibilidade . Algo de semelhante se revê no banal "fechar os olhos". Na medida em que fechar os olhos arrasta a perda do mundo visualmente exposto, tal acto não acontece, de facto, no interior do espago visto, pois é este mesmo que se perde. 0 mesmo é di^er que não há, nos olhos vistos , qualquer indicagão de serem olhos que veêra: os olhos que o sujeito vê ao espelho não vêera, precisamente porque são vistos, e não se vislumbra neles -isto é, não é possivel localizar neles- qualquer "capacidade" para ver. Enquanto vistos, os olhos são como que de pedra ou simplesmente desenhados C7) . Sem a sua alma, que é a visão (28) , o olho é somente um pedago de carne em exposigão. Assim, a experiência de fechar os olhos revela somente a dependência empirica da visão em relagão a uma sensagão cinestésica. Há obviamente mais experiências desta natureza - são até continuas: o facto de ter que rodar os olhos ou a (27) Cfr. ARISTÔTELES, De Anima, II|, 1, 412 b 20. C8) Ibidem. 98 cabega para ver a "parte de trás", o facto de não se ver o prôprio rosto e, em geral, o facto de qualquer "raoviraento dos olhos" corresponder a uraa alteragão do campc visual, ainda que a expressão "moviraento dos olhos" seja arabigua: tanto pode referir-se a uma alteragåo de natureza cinestésica como a uma deslocagão no espago de olhos vistos (o que, como se disse, não corresponde å mesraa descrigão) . Era qualquer dos casos, a experiênca da dependência da visâo era relagão âs sensagôes cinestésicas é de natureza empirica (é precisamente uma experiência) . Tal como é somente a experiência "qui nous apprend que la tête est plus necessaire que les pieds" C9) , do mesrao raodo sô pela experiência "saberaos" que a visão depende, por exemplo, de movimentos oculares. A "localizagão" do monento "ver" nos olhos -como que a sua introdugâo neles- é de ordem fáctica. 0 qual não significa, como é ôbvio, que se possa "libertar" a visâo dos olhos, como se, nalguns casos, se pudesse ver sem olhos ou de olhos fechados. Dizer que a dependência da visåo em relagao aos olhos é de natureza empirica significa somente dizer que "é assira", "acontece", ainda que, pelos vistos, acontega sempre: é um dado de facto. E é precisamente por ser um dado que é de ordem empirica. Se, por hipôtese provavelmente nâo verificável empiricaraente, fosse possivel apresentar a visão "em estado puro", não haveria meio para "deduzir" a sua dependência de qualquer tipo de dados de natureza cinestésica, visto serem aconteciraentos de ordens diferentes: "saberaos" que ura acontecimento determinado e constantemente acompanhado de outro acontecimento determinado. Podemos até Lentar "aproximar" tais tipos de acontecimentos . Mas permanecerá sempre um hiato entre eles, uma impossibilidade de encontrar um no outro. Independentemente deste hiato, a constante e universal "presenga" dos raovimentos sensor io-motores "no" acontecimento C9) PASCAL, Pensées, 111 (ed. Lafuma) . 99 da visâo permite radicá-la num sujeito empirico; permite, portanto, compreender a visão como um momento no interior do mundo e, assim, corao ura dos cinco sentidos. Desta forma, "todos" os "desvios" da visão em relagão ao mundo público deverão poder ser, em principio, "corrigidos" mediante determinadas operagôes nos seus "ôrgãos". No limite, a anulagão dos ôrgãos corresponderá å perda do acontecimento da visão: ser cego é como que a versão nula do mundo público visto. E aqui há, por agora, dois aspectos a distinguir. i) a radicagão da visâo no sujeito empirico -a sua compreensão na dependência dos movimentos sensorio-motores e no funcionamento dos ôrgãos-, permitindo, como se disse, a sua introdugão no número dos cinco sentidos, pode tambéra dar um sentido â nogâo de "acesso ao mundo". É de notar, porém, que tal "acesso ao mundo" é vivido habitualmente como um acontecimento no mundo; e é-o porque esse acesso não vale como constituigâo do mundo exposto, mas sim como um tipo de operagôes que encontram o seu lugar prôprio num mundo já dado, e dado "necessariamente" em forma de^ exposigão; isto é: o acesso ao mundo pode ou nâo estar em acto: em qualquer dos casos nåo afectará nunca o carácter público e exposto do "prôprio mundo" nem a presenga do sujeito nele. A compreensão do mundo que se possui é a compreensão de um mundo que é essencialmente mundo visto, constituido e figurado em si mesmo de forma visual. 0 facto de, nalgum caso, o sujeito não o estar a ver -por ser cego, por estar a dormir, por simplesmente ter fechado os olhos, etc- não modifica a corapreensão do prôprio raundo : há de facto uraa modificagão que se vive como se dissesse respeito somente ao sujeito erapirico. Uma pedra é, em si mesma, cinzenta, redonda, etc Fechando os olhos, a pedra permanece cinzenta e "tão cinzenta quanto sempre foi". Acontece apenas que o sujeito deixa de ter "acesso" ao cinzento que "está nela". Desta forma, a radicagão da visão no sujeito permite 100 "libertar" uma forma de natureza essencialmente vista -como é a cor- do acontecimento da visâo. A cor deixa de ser estruturalmente "algo que é na visão" para passar a ser compreendida como algo que é visivel, passivel, portanto da sua intrinseca realidade fora do acontecimento onde se dá em prôprio. Diz-se que a cor é visivel porque, apesar de não possuir como ser prôprio o estar ser vista, é recuperável sem modificagôes pela visão empirico-"subjectiva" ; isto é: dizer que a cor é visivel é dizer que a visão não lhe toca. E o mesmo acontece com os restantes sentidos e sensiveis. Nessa medida, a visão como "horizonte do raundo assim exposto em geral" permanece em completo esquecimento, e surge para ela um outro sentido, de natureza empirica. Em última análise, compreende-se a visão como um acontecimento especifico e particular, que surge no interior de um mundo de natureza essencialmente exposta de modo visual: a estrutura das coisas é essencialmente "pensada" como estrutura de um visto, independentemente da visão que as vê. E a prcpria "sede" da visão -os olhos e demais ôrgãos relacionados- é também compreendida dessa forma: os olhos sâo essencialmente "um visto", têm em si mesmos cor, forma visual, etc Não causa problema que a "origera da visão" seja ela mesraa essencialmente vista. E assim a visão vive-se habitualmente no interior do espago que ela prôpria "diz" constituir. 0 que não causa nenhum tipo de perpiexidade, dado que a experiéncia permite introduzir a visão no interior do visto, pela presenga das sensagôes cinestésicas . uuer dizer, a experiência permite "traduzir" ou fazer corresponder a "visão" a determinados acontecimentos do mundo.Estes, de facto, possuem de modo intrinseco uma localizagão no mundo, deterrainara ura sujeito empiricaraente constituido, coisa entre as coisas, criando assim um "espago mundano" onde se podem reconhecer -de alguma forraa- as percepgôes. Ou seja: o acesso ao mundo é vivido no interior do mundo já dado e ao qual se acede "depois", de tal modo que este é sempre e já pressuposto na sua 101 forma prcpria de acontecimento: visto. Na medida em que a visåo "pertence" ao sujeito erapi ricaraente constituido, este pode possuir um acesso ao mundo que, independentemente desse acesso, é já tal como se revelará no acesso: colorido, figurado, etc Há, assim, uraa correlagão entre os "dois momentos" da visão: um completamente latente, que cobre a totalidade do mundo e o configura -um véu insuspeitado-, e outro que se mstaura no interior daquele, que se destaca dele e que se vive como um acesso ao mundo. ii) estes "dois momentos" da visão estão naturalmente relacionados na compreensão atemática que possuimos de nôs raesraos. 0 momento empinco-subjectivo -um dos cinco sentidos- vive-se como a possibilidade de algo se revelar para um "sujeito" tal corao é, independentemente do ser para o sujeito. 0 facto de alguém estar a ver uma pedra não se refere ã estrutura intrinseca do prôprio acontecimento visto, da prôpria pedra "em si". "Estar a ver" possui como ârabito prôprio, pelo contrário, a "esfera autônoma do sujeito" em que ísso acontece e, por essa razão é, de certa forma, desperdigável e sem interesse de raaior. "Ver uraa pedra" não introduz nenhuma novidade no mundo: é algo mconsistente, de "pouco valor". "Ver" nâo é vivido como um "a mais", dado que as coisas sâo coisas vistas também fora da visão que se pode possuir delas, isto é, do seu ser para um suneito hic et nunc determinado. 0 sujeito empirico vive-se, assim, numa completa fidelidade ao prôprio mundo e a sua visão toma-se como algo que "irait surprende les choses au-delâ de toute experience" (30) . A experiéncia faz assim parte da histôria individual de cada sujeito, e está confinada a ele. Mas esta "histôria mdividual perceptiva" vive-se como a apropriagão empirica de um acontecimento, determinado em si mesmo precisamente do mesmo '") MERLEAU-PONTY, idem, pg . 19. 102 modo em que é apropriado: o sujeito vê o cinzento que a pedra "possui" "por sua conta"; o cinzento da pedra é público -prévio e independente de qualquer apropriagão- e o seu ser visto por este ou aquele sujeito é a aquisigâo de algo que é totalmente indiferente ao seu ser adquirido C' ) . A relagão entre os "dois acontecimentos" da visão possui, assim, uma estrutura determinada: o acontecimento subjectivo- erapirico é NEUTRO era relagão ao latente. No De Aniraa, Aristôteles descreve a estrutura desta compreensâo do acontecimento empirico da "percepgâo", precisamente com base na neutralidade dos ôrgãos; e de tal raodo que o nosso ponto de vista é identificado, no que tera de prôprio -o intelecto paciente, dado que Aristôteles nâo sabe se o agente corresponde ao nosso modo de "estar"- como matéria prima, capaz de todas as formas, nâo possuindo nenhuma, sem mistura; de facto, a introdugão de uma forma prôpria no nosso ponto de vista impediria a revelagão do prôprio mundo como tal, a fidelidade que é prôpria do modo de nos compreenderraos (3:) , isto é, o ser como um véu transparente . Assim, no momento do ver nada se interpôe entre nôs e um mundo pré-dado visualmente, acontecendo somente que ele se dá agora neste ou naquele sujeito, e de tal forma que os dois momentos da visâo são, como aiz ainda Aristôteles, um único acto com duas essências diferentes, dado que o visto em si é visto agora por um sujeito C') . 0 nosso (31) Cfr. ARISTÔTELES, De Sensu, I, 446 b 21-27. C2) Cfr. ARISTÔTELES, De Aniraa, III, 4, 429 a 20 e ss. C3) ĩdera, III, 2, 425 b 26 e 426 a 25 e ss. Deve ter-se em contãTTbdavia, que Aristôteles introduz alteragôes notáveis no que se poderia intitular "teoria do conhecimento do ponto de vista natural". Assim, a compreensão da percepgão como "progressão no mesrao" (a que já se aludiu) iraplica, por exeraplo, que a "cor vista" possui, enquanto vista, ura estatuto ontolôgico superior -que é o seu prôprio acto-, o que, portanto, exige que o momento do humano possua um significado ontolôgico e não meramente empirico. Isto mesmo se refere, ainda no De Anima (III, 2, 426 a 16-28), quando sc afirma que o 103 ponto de vista vive-se assim como uma caixa C') , onde podem entrar, como que através de uma brecha (35) , sem dano, as "prôprias coisas"; o mesmo é dizer que é prôprio da compreensão do nosso ponto de vista ignorar-se totalmente a si mesmo como posigão prôpria, pensar-se numa total passividade. De facto, a visão tomada como um dos cinco sentidos vive e alimenta-se totalmente da visão como horizonte geral do mundo exposto, de tal modo cue nada acrescenta, não faz nada : basta abrir os olhos e ver: deixar que as coisas entrem nas portas e janelas que são os olhos. A prôpria visåo do sujeito empirico é ela mesma, ainda que idealmente, como que um véu -as janelas têm vidros transparentes através dos quais se pode ver o que está lá fora- ainda que, em determinadas circunstâncias, o véu possa sensivel e o sentido perecem e subsistem simultaneamente, de tal forma que o sensivel não sentido está como que em potência em relagão a si raesrao. De algum modo, o sei visto pertence ã perfeigão intrinseca exigida pela prôpria coisa em si mesma, ainda que tal exigência intrinseca necessite da posigåo de um outro. Assim, a cor branca não vista está em potência de branco, e não era acto de cor branca era potência de scr vista. Parece ser por essa razâo que Aristôteles afirma que a percepgão é um acto com duas essências. Do mesmo modo, a nogâo da alma coiao tábua de estudante onde nada está escrito em acto (idem, III,. 4,430 a) deve ser pensada como o "lugar" de todas côlsãs (III, 8, 431 b 20-23). Aliás, se é certo que, de alguma forma, o intelecto paciente é pensado por Aristôteles como uma tábua, é necessário reparar que essa tábua é, em acto, as prôprias coisas escritas, e nâo uma caixa onde as coisas estâo como que num meio. Por outro lado, a relagão do intelecto paciente com o agente exigirá ainda uma nova revisão do problema, dado que este é pensado como luz (idem, III, 5, 430 a 15), como a mão (III, 8, 432 a 1), isto é, produzindo todos os inteligiveis (III, 5, 430 a 16) . Pode encontrar-se um bom resumo deste assunto em FABRO, C, Percezione e Pensiero, Brescia, Morcelliana, 1962, principalraente as Ia e IIa partes. CA) HUSSERL, E., Die Idee der Phánoraenologie, ed. Walter Bierael, pag. 12; trad. francesa Paris, PUF, 19782, pag. 113- 114. De aqni em diante, a citagâo das obras que se consultaram em tradugão será feita com a indicagão da página do texto original, quando tal for possivel, seguida, entre parêntesis, da da tradugão indicada. C5) HUSSERL, E., Formale und Transzendentale Logik. Versuch einer Krit.ik der logischen Vernunft, Halle, Max . Niemeyer, 1929, 206; (Paris, PUF, 19843, 312) . 104 notificar-se a si mesmo, precisamente pela dependência do corpo. Os orgãos são assim pensados como "faculdades", isto é, capacidades de acesso ao que não se é, ao que está "fora e longe" . E desta forma, a compreensão que deles se possui -e, portanto, tarabém do corpo, dado que o mesmo acontece com os restantes "sentidos"- depende precisamente da vivência de si mesrao como "caixa": os olhos sãc as "fissuras" por onde o mundo pode entrar para "dentro de nôs". 2.4. A compreensão natural da "neutralidade ideal" do sujeito: o sujeito tem "portas e janelas" tem um acesso natural ås "prôprias coisas". A liberdade das coisas relativamente â visâo do sujeito. Compreensão natural do significaclo do "momento do sujeito" na visâo. Ingenuidade da compreensâo natural da visão como "acesso âs prôprias coisas": a visão objecto de análise: breves indicagôes. Carácter artificial da análise: anulagâo do horizonte do acontecimento original da visão. Necessidade de reverter ã vida quotidiana. Como é evidente, na alinea anterior nao sc Lentou descrever a totalidade dos aspectos contidos na "concepgao" da visão prôpria do ponto de vista natural. Por maioria de razåo, não se pretendeu tarabém -de modo algum- descrever a prôpria visão como tal, a sua estrutura como aparece em si raesma. Pretendeu somente dar-se uma primeira e ainda vaga indicagão da interpretagão que o humano tem naturalmente de si mesmo. Esta interpretagão parece poder corapreender-se sob o titulo leibniziano "portas e janelas", e inclui pelo menos dois momentos essenciais: o humano possui "brechas" -janelas- por onde pode entrar, e de facto entra, o mundo, e o seu "interior" é, num certo aspecto, como uma "caixa", isto é, as coisas que penetram nele através dessas fissuras são retidas como o que são em si mesraas. 0 facto de "estarem no suieito" nada significa para as coisas, é algo que lhes é completamente indiferente, que não lhes toca, e de modo nenhura as constitui. 105 Tal corao o que é guardado numa caixa nâo adquire por isso nenhuma nova determinagão intrinseca -nem perde qualquer outra, em principio-, do mesmo modo o que um sujeito percebe visualmente nura raoraento determinado é vivido como sendo independente do seu estar a ser visto por ele. E esta interpretagão é a natural, prôpria da vida imediata, e, por isso, de algum raodo "umversal". Assim, neste preciso momento, uma folha de papel branco está "sob os meus olhos". Mas a prôpria folha não é mmiraaraente afectada pelo ver concreto que está em causa. A "prôpria" folha branca está presente em si mesraa, anuncia-se no seu siraples e "mtrinseco" estar aqui no raodo corao está. Não está corao "representagão" ; está "em prôprio", en "carne e osso'- . Por outro lado, corao já se lerabrou tarabém, no "acto" de ver a folha não se inclui a compreensão de que a coisa vista "cause" ou "afecte" o suDeito. É ôbvio que a "razão" do ver a folha branca é a folha branca, mas isso significa apenas que ela sô pode ser vista se estiver "ai". 0 "estar ai" da coisa é de facto condigão de possibilidade do ver concreto, mas é-o porque o ver apresenta a folha dessa forma, no seu estar prôprio, por assim dizer. "Ver" é tido corao ura dar-se conta de ura estado de coisas independente do sujeito que o vê. De alguma forma, o sujeito é somente causa ocasional do visto, não porque nâo seja ele mesrao quera vê, raas porque ele vê as coisas "corao se nâo estivesse lá" . 0 sujeito tera que ter os olhos abert.os ou estar na sala para a poder ver. Mas se se cumprem tais condigôes, a apercepgão que ele tem da prôpria sala não inclui o moraento subjectivo "ver": é a prôpria sala que se expce, de ura raodo "puro" e iraediato: a cadeira que se vê é a "prôpria cadeira" e a distância que a separa da mesa ê a "prôpria" distância. Se eventualmente esse mesmo sujeito sair da sala, a cadeira e a distância -e tudo o mais- permanecem retidas em si mesmas, "ficam lá". A realidade prôpria da cadeira não sofre o que quer que seja, nada ganha sendo vista, em si mesraa nada perde nâo sendo vista, muito menos se 106 constitui ou anula: ser ou não ser vista é-lhe indiferente. É nesta medida que o sujeito se vive como causa ocasional. 0 que não significa que ele possa ver a sala sem, de alguma forma, se ver a si mesmo dent.ro dela; por exemplo, sempre vê, ou pode ver, partes do seu corpo. Mas o facto de ele ter que se ver (ou ter que se poder ver) para ver a sala, não modifica o "estatuto" e a compreensâo da sala vista, o que corresponcle ã prôpria sala era si. A presenga do sujeito nâo constitui uraa determinagão real da sala vista, nâo a modifica na sua realidade intrinseca. Ele é uma "coisa especial" porque, ao contrário dos objectos inertes, ele "pode ver", possui essa "capacidade"; mas o que ele vê é o que é, e como e, estanco ou não estando, ainda que ele sô possa saber ísso estando de facto. A sala está, em si mesraa, iivre da visåo que, por acaso, agora a compreende e na qual ela surge. Esta liberdade do visto em relagâo ao vidente vive-se mesrao naqueles momentos era que poderia parecer raais dificil de constituir. Assira, o sujeito pode "saber" ou "reparar" que o aspecto concreto que a folha de papel branco apresenta "neste momento" depende da sua posigão relativamente a ela, da forma dos seus olhos, etc Ele tem por ôbvio que há uma parte de trás da folha, outros ângulos de apresentagão possivel, que não estão eventualmente a ser vistos "agora". E sabe também que operagôes terá ele prôprio de efectuar -em si mesrao ou era si mesmo e na folha- para possuir uma notificagão desses aspectos que, dada a sua posigão concreta, não lhe estão expostos. Assim, de certa forma o sujeito "sabe" que o aspecto concreto da folha depende dele. Todavia, quando ele realiza alguma das operagôes que permitera o reconhecimento de novos aspectos (virar a folha ao contrário, levantar-se, mudar o ângulo de incidência da luz, etc ) , de modo nenhum "pensa" que se t.enham perdido os anteriores ou que se tenham "esfumado no ai" ou que estejam somente na sua meraôria. Quando se vira ura relôgio ao contrário ou quando alguém se desloca no interior de uma sala, 107 o que se viu fica agora do outro lado, "está lá", retido na prôpria coisa, e retido precisamente da mesraa forraa era que estava quando se encontrava "sob os olhos". 0 relôgio possui era si todos os aspectos era que pode ser visto por um sujeito normal, ainda que ele não seja pensado como uma soma de aspectos, mas precisamente como ura objecto que pode apresentar todos eles. É certo -é aliás, uma vez mais, ôbvio- que o sujeito não os pode ver todos simultaneamente, mas nada disso depende do relôgio, do tempo ou do espago "em si mesraos". No prôprio relôgio a parte de dentro possui o raesrao titulo e a raesraa validade que a de fora: estão nele siraultanearaente; e precisamente por isso é que não é uraa soraa de dois aspectos. Ele sô pode ser visto era "aspectos descontinuos" por "culpa" do sujeito, e portanto pensar o relôgio como uma soraa de aspectos seria atribuir ao relôgio algo que sô é possivel pela presenga do sujeito. De facto, a siraultaneidade das posigôes no prôprio relôgio nâo pode ser acorapanhada dessa forma pelo sujeito, porque ele está confinado, na sua visão das coisas, a uma janela, isto é, ele possui uma visão que está nele limitada pela suas capacidades visuais: a posigão dos olhos na cabega, a prôpria estrutura orgânica dos olhos, etc 0 facto de se poder aceder somente a um aspecto "de cada vez" com a "necessária" exclusão dos outros não diz nada sobre o relôgio -sobre o visto; e tanto é assim que basta rodar o obDecto para que o sujeito possa encontrar a "parte" que lá estava; e é ôbvio que lá estava, pois é assim que se vê; se nâo estivesse lá como poderia ser vista?, dado que ela é vista precisamente corao estando lá. Se, por exeraplo, o horaera possuisse uns olhos diferentes -corao os que se diz que a raosca tera-, poderia ver ao raesrao terapo raais partes da coisa. Assira, o sujeito reconhece era si a incapacidade para se aperceber da totalidade dos aspectos (que são vividos corao partes do prôprio objecto) que a coisa possui era si. Tal reconheciraento é totalmente aproblemático, pois tem como base a compreensâo de si mesmo como possuindo 108 "portas e janelas". Sô seria probleraático se se pensassem os aspectos como representagôes; haveria entåo que pensar como c que um "conjunto" de representagôes representa um objecto único, dado haver representagôes diferentes. Mas nada disso acontece, nem faz sentido falar aqui em representagôes . Isso é "na filosofia". Tendo janelas (isto é: "vendo"), os aspectos que ele vê são partes da prôpria coisa: o aspecto da coisa não é de modo nenhum vivido como uma representagão : é a parte dela que está virada para mira. E não há qualquer probleraa no facto de as coisas terera várias partes: aliás, todas as coisas têra várias partes. A metáfora das "portas e janelas" é, por isso, muito precisa. Quando se vê a rua através de uma janeia, ninguém pensa que a rua se reduz ao que dela, de facto, se oferece â visão. A rua, naturalmente, não se circunscreve em si mesraa âs dimensôes que a janela permite reconhecer. Há ainca a parte de baixo da rua (o que está debaixo do chão) , a parte de cima (que vai até âs estrelas) e os lados, tudo com o mesmo estatuto de realidade e a mesma forma de acontecimento da parte efectivamente vista. Se se vê apenas uma parte, tal deve-se a forma especifica da janela. Outra janela, outra visão da raesma rua. Precisamente o mesmo acontece com os olhos. Quando alguém passeia o seu olhar por uma sala vai sucessivamente adquirindo e perdendo aspectos da sala; esses aspectos transformara-se continuamente uns nos outros, sem cortes sensiveis. Mas essa transformagão expôe uma sala fixa e absolutamente imôvel (por hipôtese; pode haver coisas que se raovera) , de tal forma que o sujeito não se apercebe até do movimento do olhar, da passagera de aspecto para aspecto. Ele vê, de facto, uma sala estática, e vê-a na continua transformagão de aspectos vistos. A sala não se move quando se vira a cabega, ainda que o que se via se tenha modificado no que se vê, de um modo que não interessa agora descrever. As várias percepgôes "môveis" da sala referera- se, por assim dizer, a aspectos fixos dela mesma, e são assira iraediatamente interpretados . Referem-se a aspectos fixos que a 109 prôpria sala possui, em si mesraa: sâo dela e estão para aléra do olhar e do moviraento dos olhos. 0 aspecto raôvel da visão é desperdigável, porque diz soraente respeito â "janela", que nada tera a ver cora o que se vê através dela. Assira, a visão do objecto fixo através da transforraagâo das suas "exposigôes" torna-se possivel pela presenga era tal visão de uma mterpretagâo do sujeito, relacionada com as sensagôes cinestésicas, corao se viu. A "raobilidade visual" é retirada do visto -e por isso, era condigôes norraais, nera se atenta nisso: e o "fixo" que iraediataraente se vê-, porque há um lugar para ela fora do visto: no corpo. Se eventualmente falharem as sensagôes cinestésicas habitualmente presentes nessa raobilidade, o que se vê é um obiecto môvel; pelo menos parece môvel, ainda que se possa proceder a algum tipo de correcgôes posteriores; é o caso banal do comboio que comega a andar e era que parece ser a estagão que se raove, ainda que tarabéra este facto necessitasse de uraa descrigão rauito raais cuidada C6) • Assim, o "moraento do sujeito" possui de certa forraa um valor negativo: constitui formas de constrangimento da visão. 0 sujeito tem poder para deixar de ver (fechar os olhos, etc ) , para impedir a "entrada" do raundo, nuraa forraa tal que se considera a capacidade de ver corao iraediata. Isto é, o facto de o sujeito nada ter que fazer para ver -e o correspondente anúncio imediato do mundo dessa forma- é o indice do visto como raoraento zero: o priraeiro a haver é o raundo dado, nesta forraa normal de ser dado, na visão que se possui das coisas. A capacidade para ver não se vive como se fosse uraa "sobreposigão" ao estado iraediato e puro, constitutivo das prôprias coisas, raas indica soraente o poder subjectivo de se aperceber disso. As coisas nâo sâo "mais", nem se encontram nura estado "superior" (ou diferente) ao seu puro "ser assira" quando são vistas. "Ver" não possui um significado C6) Vejam-se, por exemplo, as análises de HUSSERL, nas anotagôes a Dinq und Raum (Apêndices IX, aos §§ 82 e ss., e a, ao § 83, 365-370) (Pari¥7PUF, 1989, 420-428). 1 1(1 "humano": é puraraente objectivo. Mesmo que o humano saiba ou pense que o mundo contém mais coisas do que as vistas, e que pode haver mesmo coisas que não serâo nunca vistas, de facto ou de direito (as coisas invisiveis), tal significa somente que a sua capacidade para ver é limitada a determinado tipo de objectos. Se se possuissem outros dispositivos, ver-se-ia mais, o que de facto acontece com o raicroscôpio e com o telescôpio. Em qualquer dos casos, as coisas visiveis nâo vistas possuem em si mesmas a forma visual das visiveis-vistas, ainda que sejam possivelraente mais bizarras. A compreensão da visão como "acesso" ao moraento zero do mundo, como não trabalho, aponta assim para a passividade com que o sujeito se interpreta normalmente. Sendo passivo, íst.o é, neutro, o que se anuncia é isso mesmo que é. Desta forma, no ponto de vista natural, o "âs prôprias coisas!" é logo o momento inicial, e é-lhe totalmente impossivel tomá-lo como projecto. Não se percebe como é que ver se pode constituir em profissão. É certo que as coisas que vemos podem ser constituidas por coisas que não vemos, por átomos, poi exemplo; mas nada disso altera a significagão da visão. "Âs prôprias coisas!" poderia ser eventualmente interpretado como um projecto técnico, ísto é, incidiria sobre a construgão de mecanismos mais "avangados" da visão (ou sobre os processos teôricos de investigagão dos objectos correspondentes) ; mas nåo parece implicar uma alteragão do ver, nem das coisas vistas, mas da janela. A modificagâo da janela permitira chegar mais longe, mas, em todo o caso, as "prôprias coisas" ai estâo, "ã espera" de serem vistas, isto é, postas e constituidas em si mesmas, mas ainda nåo colocadas sob o olhar do sujeito. Esta compreensão imediata e natural da visão não resiste, todavia, â análise, e é por esta determinada como ingénua. 0 procedimento analitico toma o dado visâo como um pressupcsto e investiga-o nas suas condigôes de possibilidade, nos seus "requisitos" . Nesta medida, a vivência quotidiana áa visão -que 111 nada sabe de "condigôes de possibilidade"- é posta de lado e dela se retira somente o "facto bruto" ver: isso ai que se reconhece de modo imediato. Ver é uma forraa de acesso ao raundo, tal corao ouvir, tocar, etc A cada uma dessas formas corresponde uma capacidade prôpria do sujeito, e uma sô: um sentido. A estrutura especifica dos orgãos está, corao se poderia mostrar, adaptada, por assim dizer, e conforme ao seu sensivel correspondente -é como que da sua • natureza-, de tal modo que o mesrao sentido nâo pode perceber sensiveis diferentes, devido â materialidade, isto é, â fixidez da estrutura do orgão, capaz de uma única forraa: a estrutura do olho nâo lhe perraite captar os sons, tal corao a estrutura do ouvido é essencialmente cega: é um facto, de que não interessa agora dar as "razôes". Surge assira a nogão de "sensivel prôprio": os olhos sô podera ver cores e os ouvidos ouvir (sons). Na medida em que a organicidade da percepgão circunscreve árabitos irredutiveis, a informagão original que se recebe do mundo sô pode chegar ao sujeito numa multiplicidade de posigôes estranhas entre si: cores, sons, aromas, resistências, etc Correspondente å nogão de "sensivel prôprio" é a de "dados dos sentidos", que sâo, ainda que nâo haja consciência de tal facto, os momentos reais e priraeiros da percepgão. Ou seja: na vida quotidiana o sujeito vive iraerso na ingenuidade de pensar que vê coisas quando, de facto, o que ele vê, no sentido preciso e correcto de ver, são soraente cores, porque o olho sô pode ver cores e sô se pode ver pelos olhos. Dado que os sentidos possuera os seus objectos prôprios, acerca dos quais nulgara C') , e dado que o acesso ao raundo é raediado pelos sentidos, o encontro originário com o mundo faz-se nessas posigôes de natureza "atômica". Deve ser assim, pois logicamente não pode ser de outro raodo : não se consegue pensar r) ARISTÔTELES, De Aniraa, II, 6, 418 a 14 17. 112 corao é que o ouvidc pode ouvir mais do que sons, ou como é que nos sons pode haver mais do que som. No entanto, o mundo não se nos apresenta, de facto, como um caleidoscôpio desgarrado e anárquico de qualidades sensiveis; e, por isso, os dados dos sentidos devem organizar- se e estruturar-se, constituindo unidades de sentido que são os prôprios objectos com que lidamos; o que implica que os vários sentidos têm que se encontrar integrados num certo tipo de "sistema", que os "conjugue" e lhes confira consistência . Tal sistema não pode ter proveniência em nenhum dos senttdos, porque estes têra soraente ura objecto e reaiizam apenas um tipo de operagôes, enquanto que a tarefa de organizar não possui nenhum sensivel externo imediato. Torna-se necessário, pois, postular sentidos internos, que terão por objecto os externos. 0 número de sentidos internos dependerá das diferentes operagôes que será necessário realizar para se constituir o objecto total C") . As linhas anteriores poderão parecer infantis e, em certa medida, são-no de facto, dado que não ultrapassam a caricatura das análises que ao longo da histôria se levaram a cabo sobre a "constituigão orgânica" da percepgão C9) . Todavia, não se C8) Escusado será dizer que esta tosca apresentagão está aqui muito simplif icada . Prescinde-se, por exemplo, das dificeis consideragôes aristotélicas acerca dos sensiveis comuns (cfr., por exemplo, De Anima, II, 6, 418 a 17-20), que vêm perturoar o esquema fácil e imediato "sensivel-sentido" , dado que eles são propriamente sensiveis, mas não correspondem a um único sentido, podendo ser apreendidos por vários. Prescinde-se, também, por maioria de razão, das análises relativas aos sensiveis per accidens ("branco de Cálias", para usar o exemplo de Aristôteles) . Como é fácil de ver, é nestas consideragôes que se encontra o centro do problema da percepgão, e não tanto, ou pelo menos não imediataraente, na relagão abstracta sensivel- sentido. C9) Independentemente da "inf antilidade" referida, é assim que Aristôteles fala: no De Anima (II, 7, 418 a 26) comega, por exemplo, o estudo da visão afirmando que o objecto da vista é o visivel, e que este é em primeiro lugar a cor. E poder-se-iam multiplicar as citagôes. 113 pretende transcrever ou apresentar todos os problemas que este tipo de acesso á percepgão produziu ao longo da histôria, que foram muitos e subtis. Pense-se, por exemplo, e é apenas um, nas páginas que as consideragôes de Aristôteles sobre o sentido comum (-) provocaram. No entanto, independentemente de todas as consideragôes e de todas as análises que se podenam fazer, o tipo de compreensão da visão (percepgão) , acima meramente esbogado, possui uma estrutura bem vincada: o obDecto total que se percepcicna -isso ai com que lidamos imediatamente- é fruto de uma epigénese que se origina nas "gualidades primárias" e que termina na posigão de uma unidade objectiva. 0 processo epigenético efectua-se mediante operagôes, que o sujeito leva a cabo mediante os seus ôrgãos, e tal organrzagâo deverá alimentar-se dos dados imediatos dos sentidos: o objecto constituido "internamente" no sujeito (ou pelo suDeito; o problema teria que ser resolvldo) é o objecto real em si mesmc; de outro modo, nâo se via: sonhava-se. 0 fundamento de toda a actividade do sujeito é a sua passrvidade orrginária (a isso se chama sensibrlidade) , pela qual recebe notiíicagôes do mundo . Assim, e para além de todos os problemas e polémicas que este tipo de análise pode ter suscitado, parece legitimo afirmar-se que se trata de uma interpretagão da percepgão essencialmente construtiva: a percepgão toma-se como um processo latente de reconstrugão do obDecto. Há, então, lugar para a compreensão da visão como trabalho, mas como trabalh^rgãjĩi^o^ P°r assim d^zer. A percepgão possui as suas regras prôprias de constituigão, que sâo, para o sujeito normal que vê, totalmente desconhecidas e inaparentes: o sujeito vé, mas não sabe o que e ver, isto e, não sabe o que faz. Tal como o mesmo sujeito pode araumentar em forma sem saber discernir, na sua argumentagão, um Barbara de um Celarent ou de um Dirapti (nem sabe que isso existe) , do mesmo modo a visâo possui igualmente as suas fôrmas Cfr. De Anima, III, 1 e 2. 114 de construgão -as suas operagôes latent.es-, e corresponde a análise trazê-las â luz . Neste caso, a elucidagâo do acontecimento visão (percepgão) constitui-se como explicagão. No limite, este tipo de esclarecimento -corao epigénese real- poderá cair na confusão do explicado cora a explicagão, como se ver fosse o raesmo que realizar determinadas operagôes de natureza orgânica. Deve, porém, fazer-se notar, que esta explicagão explica tudo menos a forma prôpria do ver. Assirn, a diferenga entre, por exemplo, ver e ouvir é totalmente deixada em silêncio, dado que a explicagão é idêntica para os dois casos: os processos de constituigão do objecto visto e do objecto ouvido são essencialmente os mesmos . Ou seja: a compreensão da percepgão como explicagão aceita, de rr.odo imediato, a forma a explicar, pressupôe-a como ôbvia e iraediata -corao inexplicável, portanto- e recua depois para as suas condigôes de possibilidade, que são os seus orgâos. A diíerenga de estrutura entre ver e ouvir parece poder ser recuperada pela diferenga iraediata entre olhos e ouvidos, de tal forma que "analisar a estrutura da percepgão" se transforma em "analisar o funcionamento dos ôrgãos". Ora, em última análise, "funcionaraento" é idêntico Cl) , ainda que os sentidos não. A análise procurará então saber, por exemplo, qual é o meio desta percepgão e o daquela outra (seja o diáfano na visâo, seja o choque dos sôlidos ar no caso dc som, se]a o ar ou a água no caso dos aromas, seja, de algum modo, o húmido no gosto, seja qual for no tacto ... C2) ) . Ou seja: a análise da percepgão reduz-se â análise do processo que termina na propria percepgão, e inclui a diferenga dos sensiveis na diferenga dos sentidos e dos respectivos meios da sensagão. Utilizandc uraa linguagera aristotélica, poder-se-ia dizer que se trata ce um processo de explicagão mediante a causa material, eventualmente C') Cfr. De Aniraa, II, 11, 423 b 1 - 10. C2) Cfr. De Aniraa, II, 7-11. 115 a motriz, mas em que fica de fora a recuperagão da "verdadeira" causa: a forraal. E como 7\ristôteles chamou a atengão C3) , a explicagão pela causa matenal -isto é, pelo processo que terraina na constituigão de uma forma- é exterior â prôpria forma. Assim, por exemplo, a explicagão dos vários raoraentos fisicos que tornara possivel -de um ponto de vista orgânico- a visâo em nada contribuem para esclarecer a prôpria "lôgica" do visto como visto, a estrutura intrinseca desse "quadro", como diz Wittgenstein, estrutura pela qual se distingue essencialmente da posigão dos sons ou dos sabores, por exemplo. Analisar a percepgão é, neste caso, analisar os meios através dos quais um sujeito se pode dar conta do visto, por exemplo, mas o prôprio visto é totalmente pressuposto, como se fosse qualquer coisa de suf icienteraente esclarecido pela sua prôpria posigão imediata. Todo o visto possui um "lado de trás", o que não parece acontecer nem nos sons nem nos aromas, raas tal não exige maior elucidagão nem estudo: é simplesmente assim, e por isso é ôbvio. E qualquer análise que t.ais factos provoquem será imediatamente localizada no horizonte dos ôrgãos e, portanto, "resolvida" de modo imediato: a "sensiveis diferentes ôrgãos diferentes".. Trata-se de saber, então, "como se faz para ver", sendo o prôprio ver isso mesrao que ai está. A corapreensão da percepgão corao "trabalho orgânico" não constitui, tambéra ela, a prôpria visão -a prôpria forraa- corao trabalho. Esta perraanece imediata, dado que as "cores são vistas imediatamente" . A esta compreensão da percepgão -totalmente orientaaa para a organicidade- pode opor-se ainda uma outra que foca mais directamenta o dado visual, tal como se apresenta. Â "explicagão" de que o sujeito sô pode ver cores contrapôe-se a análise "experimental" do que é imediataraente visto, revelando- se entâo que o que originalraente se apresenta nâo é um puro C3) Veja-se, por exemplo, De Anima, I, 5, 11-lb e 24-27; amda que noutro contexto, a conclusão é essa mesma. 116 sentido -uma qualidade primária, mforme e desconexa-, mas já algo constituido numa significagâo imediata, uma forma. 0 dado visual original é já uma totalidade, e uma totalidade que é irredutivel âs suas "partes". Â psicologia das faculdades sucede uma psicologia das f orraas . Em relagão âquela, esta analisa a prôpria estrutura aparente do visto tal como é visto, sem entrar imediatamente em consideragåo com os condicionalismos orgânicos que eventualmente estarão em causa. Mais uma vez, não se pretende expor a(s) psicologia (s) da forma. Interessa somente fazer notar que as psicologias da percepgão, quer tratem o sujeito orgânico como momento fundamental, quer foquem o prôprio dado visual, são ambas análises de laboratôrio, isto é, psicologias cientificas. A visão e o visto são isolados, encarados directaraente corao objectos a apreender, descolados portanto da vida quotidiana, que é onde o momento "ver" tem originalmente o seu lugar. Tal implica que, nas suas várias formas, a visão tome por objecto um puro apresentado, exposigão enquanto tal, possuindo, por isso, um cariz essencialmente "especulat ívo" . E é esse o modo como as análises da percepgão a recebem. E o que importa antes de mais corapreender é o que está em causa no acto mesmo dessa recepgão. Qualquer análise da percepgâo se micia -não parece ser possivel de outro modo- pelo reconhecimento imediato disso mesmo que se pretende analisar, reconhecimento que tem lugar na vida quotidiana, e não primeiraraente na "psicologia" : ver nacia tem de "cient i f ico" , qualquer sujeito se reconhece vendo, incluindo o "psicôlogo" que, neste aspecto, em nada se diferencia de qualquer outra pessoa: também ele vê como se vê; o "psicôlogo" não "vé cientif icamente", como é ôbvio: encara-se com as coisas que o rodeiam -com as canetas, com as árvores, com as ruas, etc- como qualquer um. Para proceder ãs análises especificas da percepgão que são prôprias da sua profissão, o "psicôlogo" terá que operar -consciente ou inconscientemente- uma modificagão no seu "estar a ver normal": terá que arranear 117 o raomento ver da vida corrente, do estado de "inconsciência" em que habitualmente "age", e colocá-lo "diante dos olhos", forgá- lo a permanecer sob observagão, pressupondo ao mesmo tempo que a prôpria visão nâo ficou miniraaraente afectada por essa operagão: o que se revela na visâo em estado laboratorial é interpretadc å partida como o que já se encontrava nela era "estado selvagem", nada se perdendo na mutagão de planos, do natural para o cientifico: o que a visão possuia "escondido" é o que precisamente se expôe na análise; e se eventualmente algo houver "a mais" na vida corrente em relagâo â apercepgâo cientifica, esse "a mais" é desperdigável, não faz parte da "essência" da visão: é ingénuo, prôprio de uma compieensão a- cientifica. Assim, a compreensão analitica da percepgão tem necessariamente que pressupôr -é condigão necessária da sua validade- que a translagão que se efectuou na visão, pela qual ela se constitui de visão que vê em visão objecto de consideragão, não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa: é o mesrao. De tal modo assira é que o "analista", ao falar da visão, imediataraente se refere ã visão-ooiecto de estudo, tornando-se-lhe rauito dificil reter-se no seu estar a ver. Fala da visão corao se de raodo nenhum estivesse de facto coraproraetido nisso de que fala (ou raelhor: pressupondo totalraente esse "coraproraisso" ) : é qualquer coisa de perfeitaraente "objectivo", neutro, ura outro: isso. Nâo repara, poréra, que a análise científica é artificial (o que de raodo nenhura sigmfica que seja inválida) , propria de ura deterrainado horizonte de acesso possivel, fruto de uma especifica metodologia, etc. De tal modo pressupôe que é do mesrao que se trata, e que é nesse horizonte artificial onde esse raesrao é adequadaraerte apreendido, que é ai que ele pensa estar de facto: o seu discurso cai iraediata e naturalmente na constituigâo de conceitos especi alizados e técnicos, por outro lado claramente não originais, porque nâo são prôprios da vida corrente, que é onde origmalmente se vê . Pressupondo 11X totalraente que o seu ver natural está correcta e adequadaraente recuperado pela análise, termina por ser incapaz de se dar conta da prôpria mudanga de planos, o que faz com que deixe em latência o estado normal do ver. E, todavia, é do aconteciraento iraediato da visão que todo o discurso não imediato se pode basear. "Nem poderia ser de outra forma" : o único modo de focar -que é o que pretende a análise- um acontecimento imediato é retirar-lhe o seu carácter imediato; sô assim ele poderá ser focado, sô assim poderá haver discurso e explicagâo (o que, por outro lado, diz que o "ser imediato" não possui signif icagão, dado que c raesrao objecto pode ser apreendido fora desse seu ser assira) . Mas tal significa tarabém que o procedimento analitico aceita, sem mais, o acontecimento da prôpria visão "tal como é", o que aliás é ôbvio, como se disse já: o psicôlogo sabe o que é ver porque vê, e é sobre essa apercepgão directa que procederá posteriormente ås suas análises. Independentemente das operagôes -de natureza experimental ou abstracta- que ele efectuará, tais operagôes não provocam o prôprio ver: a visão não se inventa, nem se "procura", muito menos se define a priori: psicologia não é matemática. Há assim dois momentos que é preciso considerar: pcr um lado, o procedimento analitico vive do reconhecimento imediato da visão tal como se opera na vida quotidiana, e é este. que constitui a base do seu sentido e validade. De facto, o horizonte onde qualquer nogão pode receber um sigmficado real é aquele em que, para dizê-lo de algum modo, "as coisas aparecem pela primeira vez", em que originalmente "surgem como coisas"; e esse é o da vida, do ponto de vista natural, porque não há para nôs formas de acontecimento que sejarn prévias â vida: nåo se acede ã vida quotidiana, e é nela que se acede a tudo o mais. Para nôs, real é o que se vive, e a realidade do simbôlicc alimenta-se da do vivido. Por outro lado, a análise recebe o acontecimento percepcivo constituindo-o era facto 119 bruto, constituigão que sô é possivel, como se viu, mediante um processo de abstragão, de mutagão de planos. É essa mesma mutagão que confere â percepgão o seu estado puro, possuindo um conteúdo meramente "epistemolôgico" . 0 ver analisado é uma pura exposigão de coisas como exposigão, um anúncio disso mesmo nessa forma (cor ou figura ou...), uma notificagão primária e imediata da posigâo da coisa, do acontecimento, e de uma forma original: a percepgão reconhecida originalmente na vida imediata, surge depois, na sua compreensão analitica, corno pura revelagão das coisas, o acontecimento original da revelagâo das coisas como coisas. Ou seja: o isolamento que se operou para poder focar a prôpria visão constitui-a era forraa de uma posigão bruta, puro facto cujo sentido está incluido na sua prôpria estrutura fáctica isolada, e não na integragão imediata na vida corrente . Ora o que agora se trata de saber é se na transferência da visão do estado selvagem para o estado de cativeiro se perdeu alguma interpretagão da prôpria percepgão, o que não exige, naturalmente, que se tenha perdido algum "dado visual" ou alguma determinagão da estrutura "interna" do facto puro "visão": a percepgâo "em bruto" inclui-se também, evidentemente, na vida real, e sô por isso, aliás, pode ser isolada dessa forma. Mas inclui mais do que isso -de outra forma não seria necessário proceder a algum tipo de isolamento- e esse "mais" (o seu ser natural) pode ter valor. Ou seja: trata-se de saber se, por um lado, nôs vivemos a percepgâo como um "facto bruto e puro", como pura notificagão das coisas; e se o facto de ser ou não assim possui ou não algum tipo de significado para a prôpria visão, compreendida corao notificagão das coisas. Isto é, se nôs viveraos a apresentagão das coisas como a apresentagão de um puro exposto. Em qualquer dos casos, o procedimento analitico não perderá nada da sua validade prôpria, dado que o facto "visão" se inclui também na vida. Todavia, não perdendo validade, a 120 análise que se leva a cabo pode nâo recuperar o signiíicado real da visão e a eventual interpretagão do visto que nela está contida, ainda que recupere, eventualmente de modo adequaco, a estrutura da notificagão fáctica das coisas (ver cores, ou formas) . Em resumo: pergunta-se se o prôprio estado seivagem compreende um sentido da percepgão, sentido esse que, ao deslocar a visão para a análise objectiva, terá necessariaraente que se perder, pelos motivos que atrás se indicaram. Se assim for, a análise recupera a visão fora do seu sentido original, do seu valor real: será uma abstracgão, no sentido preciso do termo. Em última análise, quere-se saber se o que nôs, na vida real, entendemos por "coisas vistas" encontra na ar.álise psicolôgica o lugar adequado para o seu esclarecimento total, isto é, se o estado selvagem não é, de facto, nada, não diz nada, é desprezivel. Mas para "resolver" tal questâo exige-se, como é cbvio, reverter â vida quotidiana. 2.5. "Ver" como acto da vida : o sentido do "visto". Carácter pragmático da percepgão. Sentido instrumental do "visto" e "objectividade" . Natureza nâo especulativa da percepgão como acto da vida. Pela sua integragão na vida, os "actos perceptivos" não recebem somente um enquadramento geral e extrinseco, uma moldura de natureza acrescentada. Pelo contrário: corao actos da vida possuera corao "lôgica" prôpria a lôgica da vida. Assim, a presenga das coisas "junto de nôs" será considerada, nâo como "pura exposigão de coisa na visão", mas numa certa forrr.a de proximidade, caracterizada precisamente pela estrutura geral 121 dos actos cla vida. Mesmo que o momento ver possua alguma originalidade e possa constituir uma forma básica do anúncio e presenga das coisas, tal originalidade está "desde o pnncipio" investida de uma forma de sentido que deriva do horizonte da vida onde "ver" tem o seu lugar . Assrm, por exemplo, neste preciso momento, possui-se uma notifrcagão visual de um certo tipo de "formas", de tal modo que o sujeito que vive "este preciso momento" está (e não "tem") na pretensão de ter um acesso â "prôpria coisa que tem diante". 0 sujeito não diz "ver" uma conjunto de espagos e de formas determmados e diferenciados por cores e tonalidades, espago ou formas que, "depois", mediante um acto explicito de mterpretagão, considera como correspondendo a "um cinzeiro", ou a um "relôgio", etc , como se o sigmficado que investe e assume o que ele "vê" se acrescentasse ao que propriamente é "objecto da visão". Um sujeito normal vé cinzeiros e relôgios e não vive a sua percepgão visual das coisas como se ela requeresse uma sintese consciente, propositada, de "dados visuais" e conceitos. 0 sujeito pode "interpretar" um relôgio de varias maneiras, iras a base de todas as suas interpretagôes não são "sense data", mas coisas. Parece, assim, gue também na vida a visão se toma como "apresentagão em prôprio da prôpria coisa no que ela é em si mesma". Tocavia, essa "prôpria coisa" não é -e não é de forma nenhuma- um puro dado visual: o que se "vê" não são cores, ou puras formas, ou mesmo "objectos" como ob]ectos -um "puro isso" diante do olhar. A visão vive-se quotidianamente como um "acesso" não mediado -e, portanto, não realizado por interposigão de outras formas-, mas, no entanto, esse acesso imediato revela imediatamente, não cores, nem formas, nem "objectos", mas "coisas", isto é, um relôgio, um cinzeiro em cima da mesa, 3 canetas, várias folhas brancas, etc; e rsto é o que "orcoriamente se vé" . Requere-se um notável esforgo de abstracgão -que na vida raramente se leva a cabo- para ver um 122 "cinzeiro" fora da sua compreensão como cinzeiro, ou seja, para o ver como um puro "isso ai", desligado da sua "fungão objectiva", da sua integragâo na sala, da utilidade que imediataraente o recobre. Era qualquer dos casos, esse visto não será certamente um cinzeiro. E muito maior esforgo se exige ainda para ver cores ou puras formas aquém, portanto, não so do carácter imediato das coisas vividas por nôs, mas até do carácter especulativo de "isso ai", na sua unidade total. Nâo se vêem cores, nem objectos coloridos: vêem-se cinzeiros; nâo se vêem formas extensas de coi azulada e de configuragão aparentemente cilindrica; vêem-se canetas; não se vêem tragos negros em fundo branco; vê-se um folha de papel escrita. E assirn imediataraente CA) . Basta atentar, por exeraplo, na alteragão que se produz quando se tenta apreender uma coisa fora da sua "signif icagão vitai e imediata": apreender um cinzeiro fora do seu reconhecimento como cinzeiro é não saber o que se tem diante, o que despoleta a des-situagão do prôprio objecto visto: eie separa-se do modo imediato em que é dado, perde o seu sentido como momento da vida, adquirindo uraa estranheza que é inadequada ao seu ser cinzeiro, como que uma distância em relagâo ao lugar que ocupa no mundo da vida; torna-se, por assim dizer, informe, outra coisa. A visâo de um relôgio como um "puro isso ai" desliga-se da corrente da vida, constitui um estrangeiro, um intruso num mundo de coisas C'1) Mesmo dentro da análise abstracta da percepgão da cor, por exemplo, haveria que introduzir algum tipo de consideracoes, para que HUSSERL chamou a atengão, como é bem sabido: as que dizem respeito ao facto de que na visâo de uma extensâo de cor pretensamente homogénea e uniforme se prescindir habitualmente dos diversos tons da mesraa cor, que serapre se observara: o branco de uma folha de papel branco é apreendido imediatamente como "mesmo branco em toda a extensão" (se for esse o caso, naturalmente) sem que entrem em consideragão o brilho daquela zona da extensão branca ou a sombra que cobre outra, etc. As diferentes tonalidades são vistas corao da raesraa cor, o que pressupôe um momento "interpretativo" na "pura" visão de uma cor . 123 "normais", posigão bruta de um outro, fora portanto da sua significagão, da significagão dos actos nos guais é apreendido. E não é um relogio: está fora do horizonte normal do reconhecimento das coisas. Torna-se difícil descrever gue tipo de signifrcagão possuiria uma coisa apreendida dessa forma, gue não acontece na vida corrente. Essa notificagão das coisas implicana precisamente uma espécie de "aboligão" momentânea da forma da vida, tal como ela efectivamente se dá («) . Como é ôbvio, apreender un cinzeiro fora do seu "sentido cinzeiro" não é o mesmo gue apreender um objecto de que se desconhece a utilidade, ou a "lôgica". Não é de facto a mesma coisa, porgue a forma de apreensão desse obDecto de utilidade desconhecida e precisamente a mesma da do cinzeiro como cinzeiro. A presenga, na sala, de um objecto "bizarro", "inútxl" ou de "utilidade indeterminada" não é a presenga de um "puro ai". Não_há "puros ai" bizarros ou inúteis. Algo é estranho guando está deslocado da regra de normalidade, quando é como que a sua excepgão; e toda a excepgão confirma a existência de uma regra, pela gual ela é excepgão. A bizarria e a inutilidade -ou o desconhecimento da utilidade- possuem a forma geral da proximidade das corsas, gue é a de coisa útil: a forma do inútil é evidentemente a do útil, e é por ela gue ele é apreendido. A coisa não está menos determinada quando é vista como inútil ou como de utilidade mdeterminada; não está "mais perto" do seu ser "isso ai puro", não é mais "ela prôpria". Mesmo que o inútil seja ef ectivamente inútil (e nâo um pseudo- inútil, ccmo podem ser, por exemplo, todos os objectos puramente decorativos) , a sua compreensão como tal é a de um objecto que está de algum modo inadequado, que não é imediatamerte subsumivel numa regra de apreensão gue lhe é <") Cfr. somente a modo de exemplo, dado que a "tese" é banal, . i i_í_l. ai = T tt T <5?7 50 (Paris, Gallrmard, HUSSERL, E., Ideen ...I, II, "-, SZ', du u ____ , 1950, 90) e Ideen... II, I, I, §11« 27 (Paris, PUF, 1982, 53). 124 prôpria e que não é posta em causa. lnútil pode ser, por exemplo, um objecto quebrado ou estragado (inábil para cumprir as fungôes que são prôprias da sua "natureza"), um objecto "a mais" (nâo é necessário para o conjunto de tarefas possiveis) , desperdigável (outros cumprem melhor as suas fungôes) , velho ou fora de moda (ainda útil, mas ultrapassado por outros mais úteis ou mais correctamente inseridos na contexto actual dos objectos úteis), etc. Em qualquer caso, a presenga imediata das coisas na vida não é a de um puro objecto, mas compreende já uma estrutura de instrumentalidade : os objectos såo imediatamente objectos de lida. As linhas anteriores parecem totalmente inúteis dado que os objectos aludidos são objectos técnicos, construidos e determinados a priori pela sua utilidade: o que determina a identidade de um objecto técnico é naturalmente a sua fungão. De facto assim é, mas o facto de assim ser não modifica c que está em causa: nôs "vemos" objectos técnicos corao técnicos, ainda que a sua natureza intruraental seja de natureza ideal e não uma cor, como é lôgico. Ver ura objecto, e vê-lo imediataraente, sera interposigão de "interpretagôes acrescentadas", como "cadeira" significa qualquer coisa acerca do modo como se vive a visão. Significa, por exeraplo, cue a percepgão das coisas na vida corrente vive da sua pertenga a formas de apreensão que não reconhecem primeiraraente o seu objecto como cor ou forraa pura ou objecto puro . Uraa cadeira é uma "qualquer coisa" identif icada, por exemplo, como um objecto que serve para "se sentar" (ainda que possa ser apreendido de outras forraas; por exeraplo, como paradigma do mobiliário do sec. XVII, ou da arte chinesa, ou como manitestagão de "mau gosto", etc); e naturalmente a apreensão da cadeira como cadeira não é fruto de uma espécie de dedugão cujas premissas seriam os "dados visuais": tal dedugão nåo faz sentido, visto que a presenga de um "puro ai" não inclui em si qualquer indicio disso ser "uma cadeira". 125 Por outro lado, essa integragão da percepgåo em formas de apreensão prôprias da vida, permitindo, é certo, algumas variagôes r.o seu interior, é, todavia, de algum modo universal: uma árvore, que não é um objecto habitualmente tido corao técnico, não se encara tarabém como um "puro isso ai". É, pelo contrário, algo que é feito de madeira, que produz frutos desta ou daquela espécie, etc. E normalmente as nogôes de "madeira", de "fruto", etc, possuem um cariz igualmente não especulativo . A prôpria compreensão cientifica de "madeira", ainda que tente agarrar tal objecto fora da sua significagâo vital, origina-se tarabém no interior do horizonte da vida, sendo como que um retraimento ou limitagão desse horizonte. A compreensão não cientifica, imediata, de uma árvore, por exemplo, pode incluir um "sem número" de determinagôes de que não interessa fazer agora o "inventário corapleto" (no caso de tal ser possivel) : pode ser vista corao "bela", decorativa, no sentido vulgar do tiermo, como cumprindo uma fungâo ecolôgica qualquer, como impediraento ou possibilidade de um determinada acgão -pode ser um obstáculo no caminho ou fornecer matéria prima para as mãos ou "para os olhos", etc Em qualquer dos casos, a sua compreensãc inclui-a no âmbito da "Natureza", que não é imediatamente identif icável como "ente natural", tal como o entende a ciência. Fazer parte da "Natureza" indica um âmbito imediatamer.te "relacionado" com a vida do sujeito, com a sua vida imediata, e está preso a esse relacionamento : um ente da Natureza -um pássaro, uraa flor, ura rio, etc- é algo que é tido na relagão que raantém com o prôprio homem, entendido também como ente natural, fazendo parte das coisas que são. Nessa medida, a "Natureza" não parece indicar imediatamente o "prôprio ente era si mesmo", retido na sua estrutura interna, mas sim para o espago onde a nossa vida decorre naturalmente. A Natureza é, de alguma forma, o local original da nossa vida, e como tal ela não é objecto imediato de pura especulagão, mas sim do acontecimento de nôs mesraos na vida. A posigão de uma 126 árvore está iraediatamente apropriada pela vida quotidiana, integrando-se -era alguraa ou era várias das suas forraas- no conjunto de actos que a vida compreende. Essas formas podem ser mais ou menos técnicas (pode dar-se uma compreensão "industrial" da árvore, por exemplo) ou "quase nada técnica" (pode ser entendida como necessária para a sobrevivência da espécie humana ou de qualquer outra espécie) . É sempre, porém, apreendida na forma da vida. A interpretagão do ente natural na corrente da vida nâo implica, todavia, o esquecimento total do "prôprio ente" em si, como se exigisse uma redugão absoluta a uma simples posigâo subjectiva considerada como tal . 0 ente natural não perde a sua "natureza objectiva" pela sua assimilagão na vida; pelo contrário: a base dessa assimilagåo é entendida precisamente corao "objectividade", e sô por isso tal ente pode ser integrado na vida. Dito de outra f orraa : a posigão do ente natural (ou técnico; neste caso é indiferente) nâo é notificada apenas quando repousa nele uma intengão instrumental actual, caindo depois -quando tal intengão se desvanece- num desinteresse total e absoluto, num zero de signif icagão. As coisas "têm o seu lugar" na vida mesmo quando não encaradas numa significagâo funcional concreta e presente: uma escada assinala cl sua presenga mesmo quando nâo se necessita dela, e a apreensão da posigão de um rio não requer, por exemplo, sede, barragens, peixes, ou outra forma determinada de o compreender. Ou seja: a apercepgão das coisas na vida -e apercepgão delas com algum significado- não exige a sua constituigão como correlato de uma intengão instrumental actualmente determinada, como se deixassem de fazer parte da vida na ausência de uma intengão nessa forma. Assim, este modo da vida se apropriar das coisas permite, portanto, que de alguma forma as "prôprias coisas" sejam focadas de "mais perto". A sua não necessária inclusâo na intencionalidade funcional imediata e concreta possibilita ao 127 sujeito o encarar-se com uma espécie de "prôpria posigâo, " abstraindo portanto das várias formas de significagão instrumental que a coisa pode revestir, abstraindo tarabém do facto de revestir sempre uma instruraentalidade possivel qualquer . Dado que a apercepgâo de uma árvore não é necessariarnente uma "apercepgão industrial" ou "ecolôgica" ou "decorativa" ou qualquer outra, forgosamente fixa e determinada, podem visar-se as coisas enquanto jazem aquém dessas signif icagôes possiveis, e visá-las entâo na sua estrutura "interna", no seu "funcionamento" . Tal modo de focagem é, por isso, um retraimento no horizonte da vida, no modo como a árvore é habitualmente vivida. Mas é, de facto, um retraimento porque nâo se constitui fora ou ao lado do horizonte da vida, mas no seu interior. Assim, um sujeito normal que contempla o voo de um pássaro, pelo "puro prazer" que tal contemplagão lhe proporciona, "sabe" que o pássaro "contém", "no seu interior", uma série de determinagôes que desconhece,- que não doraina, e que são "misteriosas" para ele: como é que "funciona" o voo das aves, por exemplo? 0 sujeito "sabe", ou "pode saber" isso mesmo, isto é, o modo como vive a percepgão desse "ente" perraite que se constitua um acesso "mais especifico", pretensamente "menos humano", vivido como "mais perto da coisa mesma", acesso esse de que se prescinde totalmente -que não faz falta- para o "prazer de ver o voo", dado que esta apreensão do voo do pássaro em nada contribui -é desperdigável- para o esclarecimento do modo como voa . 0 pássaro não se dissolve, no entanto, no correlato do "prazer de ver", não se perde nele. Pelo contrário: é pressuposto na sua posigão autônoma e é essa pressuposigão que permite uma significagão instrumental concreta. Nâo interessa também tentar esclarecer se a apercepgão "nâo imediatamente instrumental" das coisas é uma "apercepgão pura do isso mesmo que ai está". Não parece sê-lo, dado que tarabém ela pressupôe a posigão da coisa, para tentar esclarecer 128 depois os processos que terminam na coisa que se pressupôs desde o inicio. A explicagâo não instrumental do ente tenta prendê-lo a uma legalidade, isto é, ser a posse das regras do seu "comportamento" interno (o processo, por exemplo, da formagâo dos tecidos celulares, ou, de um modo mais gerai, da formagão da coisa) , de tal forma que a coisa é o terrao de ura p r o c e s s o , ou o suporte desse mesmo processo. 0 ente é então como que o substrato de uma lei, de uma "forma activa e operante", e tenta-se recuperar a sua posigão pela apresentagão "explicativa" da sua génese (ou, no caso de tal não ser ainda possivel, numa descrigão dos momentos mais fundamentais que terminara na posigão da coisa) . Em qualquer dos casos, a pura posigâo prôpria da coisa é pressuposta, nåo é o objecto do olhar, pois trata-se da expiicagão de uma coisa dada e nao de uma dedugão a priori. E explicagão têm a vei com processos, processos dos quais a posigão da prôpria coisa é o sentido -é por ela que eles são processos reais -, ainda que se]a por eles que ela adquire também um sentido. Nåo se pretende, porém, tentar analisar o significado do "esclarecimento explicativo" . Pretende somente mostrar-se que na apercepgão imediata e quotidiar.a das coisas há lugar para que tal tipo de percepgão se liberte e possa surgir. As determinagôes do pássaro que a histologia, ou a anatomia ou... revelarão estão lá_, fazem parte do prôprio pássaro visto. Mas esse tipo de determinagôes perraanecera, na apercepgão imediata das coisas -naturais ou técnicas- em estado de total disponi bi lidade; latentes, portanto. As prôprias interrogagôes de carácter aparentemente especulativo que a vida naturalmente também corapreende (ou pode corapreender) , sobre as "maravilhas do mundo natural", etc , normalraente não pretendera despertar realraente o ponto de vista cientifico, mas, pelo contrário, pretenciem somente indicar um horizonte de que se apercebeu a "existência", e que se deixa estar como estava: escondido. Ou são então formas de curiosidade, que é uma forma muito prôpria da vida quotidiana 129 (•'") . Ou seja: as determinagôes "internas" da "prôpria coisa" -que se revelariam numa apercepgão mais cientifica- estão como que diluidas -e sem significagão distinta- na sua apercepgão imediata . Desta forma, a apreensão das coisas na vida encontra-as originalmente como momentos da prôpria vida, moraentos que libertara possibilidades, em estado mais ou menos indeterminado, do sujeito. Esta forraa de apreensão não iraplica, em primeiro lugar, que não haja diferenga entre as formas de produgâo de todos os "entes": há forraas de produgâo natural e formas de produgão artificial. Não implica, em segundo lugar e como já se disse, que cada coisa esteja preenchida por uma instrumentalidade distintamente reconhecida. Implica, sim, que cada coisa seja imediataraente tida corao possibilidade da vida, C6) Sobre a curiosidade como momento que integra a corrente da vida como corrente, ^omo passar sem parar", e não como uma forma de " um "olhar especulativo", veja-se, por exemplo, AGOSTINHO, De Vera Religione, 49, 96: "Itaque aliin Per innumerabiles mundos vaga cogitatione volutati sunt". A curiosidade é um modo do pensamento errante, que nåo se detém em nada e que impede, a um tempo, o encontrar as prôprias coisas e o entrar em si mesmo: "Sed diligendo talia (as bagatelas da curiosidade) excedimus a vero, et non íam invenimus cuarum rerum imitamenta sint, quibus tanquam primis pulchris inhiamus, et ab eis recedentes amplexaraur nostra phantasmata. Nam redeuntibus nobis ad investigandam veritatem, ipsa in itinere occurrunt, et nos transire non sinunt, nullis viribus, sed magnis insidiis latrocinantia, non intelligentibus quam late pateat quod dictum est : Cavete a simulacris." (ídem, 95) Este texto mereceria além disso uma análise mais cuidada; ele diz, por exemplo, que nåo se deve procurar o sentido da curiosidade imediatamente no âmbito do "mtelligere" , mas no do "diligere" prôprio da vontade, entendida nâo corao uma faculdade da alma, que não parece ser essa a forma corao AGOSTINHO a entende, mas como o pondus do huraano (cfr. a célebre frase das Confissôes, XII, 9, e De Vera Religione, 14, 28: "Quod autera affectibus contingit animae, hoc locis corpori"; deve ter-se era conta a compreensão antiga de "lugar do corpo"). Em resumo: a curiosidade é uma forma de estar na corrente da vida, a forma quotidiana, que, constituindo o humano langado âs coisas e preso ao seu passar, impede o "in teipsum reddi", o encontro consigo mesmo, que libertaria a possibilidade de ver o que as coisas propriamente são. Veja-se, tarabém, evidentemente, HEIDEGGER, M., Sem und Zeit, Max Niemeyer Verlag, Tubingen, 1976, I, Ia, V, § 36, 170- T73~" (Paris, Gallimard, 1986, 217-220). 130 ainda que essa possibilidade permanega em estado de disponibilidade . Não interessa, portanto, saber se ura objecto é originalraente apreendido desta ou daquela forraa concreta. Interessa reparar que é apreendido na forma de "funcionali dade possivel em geral", isto é, pode revestir formas de funcionalidade. Esta possibilidade não é estranha å posigão da prôpria coisa como se fosse posterior ã determinagão da sua identidade, superveniente, extrinseca. Pelo contrário, a "funcionalidade possivel em geral" é uma forma essencial do sentido da coisa tal corao se dá no raundo da vida. 0 raesmo é dizer que o que constitui a forma geral de apreensâo de um objecto é o seu "ter-se connosco", integrando um conjunto de possibilidades do sujeito. As coisas libertam possibilidades, a "mão", instrumento de instrumentos C') , encontra nelas o seu sentido, seja um sentido no raundo da "cultura", seja ura sentido mais "básico", prôprio de formas de sobrevivência. Era qualquer dos casos, sâo momentos da vida . Uma pedra é qualquer coisa de manipulável, pode ser tocada, oferece resistência, etc: a dureza da pedra possui normalmente uma significagão manual e não abstracta. Os objectos "fisicos" são tomados desta forraa, possuindo uma relagão å "mão", ao corpo, ainda que a apresentagão do objecto como "puramente resistente" seja relativamente rara. Normalmente, a apercepgão da dureza dos "materiais fisicos" está subordinada a formas de apreensão mais claramente funcionais, por exemplo, como "châo", "parede", etc Ura sujeito que agarre na sua raão um relôgio tem-no como resistente; mas a resistência que ele lhe oferece possui a estrutura de um "tido na mão", faz parte da sua vida, de tal modo que ela nâo surge como uma forma de natureza "fisica", mas como algo que se anuncia â raão na mão. Um objecto é habitualmente reconhecido quando a sua integragão na vida é feita de um modo pacifico, possuindo uma significagão imediata C7) Cfr. ARISTÔTLES, De Anima, III, 8, 432 a 1 - 3. 131 para ela em forma de uso possivel: "reconnaitre un objet usuel consiste sourtout ã savoir s ' en servir" (*) , e nesta raedida todos os objectos que se configuram na vida quotidiana são úteis, dado que a sua apresentagão compreende era si raesraa os modos possiveis como o sujeito se pode "orientar entre eles", tocando-os, por exemplo. 0 que não significa, evidenteraente, que a compreensâo que se possui de uraa pedra seja totalmente idêntica å que se possui de uma caneta. Não sô o modo de produgâo é diferente como tambéra o é a instruraentalidade especifica de cada um. 0 que lhes é comura é o "facto" de serera sedes de actos possiveis, ainda que perraanegam em estado indeterminado de possibilidades . De facto, o não reconhecimento de um objecto na vida equivale a uma certa forma de paralisagão, de perplexidade do comportamento que se pode-deve ter em relagão a ele, uma perplexidade quanto ao local disso no horizonte em que estamos. Mesmo aquelas coisas aparentemente adequadas â contemplagão, como sejara os objectos de natureza estética, possuera, no raodo corao a vida quotidiana os encara, algura tipo de significagâo funcional: caem facilmente na decoragão -ura quadro fica melhor "ali" do que "aqui"-, ou em "veiculos" de cultura ou de educagão, de formagão da personalidade, etc Cv) . Não se pretende, no entanto, negar a originalidade que a "pura visão" poderá compreender. Mas independentemente das formas originais de configuragão e estruturagão do mundo, o que é facto é que a visåo ocorre na vida, estando por ela determinada; e é esta que constitui o seu sentido e "local". Dito de um modo mais fácil: a percepgão das coisas é essencialmente percepgão de coisas do mundo da vida, do mundo (48) BERGSON, H., Matiére et Memoire, Paris, Alcan, 1929ZD, pag . 94. (49) Omite-se, totalmente, como se vê, uraa análise do que seria o ponto de vista propriaraente estético. 132 "real", e não percepgão de coisas desligadas dele, "em si". 0 que significa que a percepgão que temos normalmente das coisas inclui corao determinagôes do seu sentido a especifica compreensão que a vida "produz" a partir de si mesma : a visão das coisas na quotidianeidade está regulada, por assim dizer, pelo modo como o sujeito as tera, raodo que não se refere aqui â estrutura dos ôrgãos, raas sira ã estrutura da vida. Isto é: na percepgão das coisas está imediatamente presente o reconhecimento de possibilidades "ramhas", e e esse reconheciraento que constitui a forraa iraediata de notificagão das coisas, que informa e preenche de significado o prôprio "dado perceptivo". Aristôteles, no De Sensu C°) , por exemplo, indica já que os viventes possuem sensagôes porque estas são essencialmente meio de sobrevivência . Os sentidos são originalmente orgãos da vida, orientados primeiramente, no seu "grau mais básico", para a aliraentagâo e para a consecugåo do desejo em geral. Mas mesmo quando possuem, como no caso da visão, um cariz especulativo mais acentuado, inteqram-se também originalmente nos processos da vida, que podem estar já mais livres de constrangimentos biolôgicos, mas que fazem parte da corrente do viver. Assim, a pretensa natureza puramente especulativa dos sentidos deriva da sua consideragão abstracta, irreal: eles "ne nous sont point donnés pour connoitre la verité des choses en eiles-memes, mais seulement pour la conservation de notre corps" (M) . C°) De Sensu, I, 436 b 8 - 4 37 a 17; cfr. também De Anima, III, todo o capitulo 12. C1) MALEBRANCHE, Recherche de la Verité, I, V, §111; cfr. ainda, por exemplo, Entretiens sur la Metaphysique, XII, §11, in Oeuvres Complétes de Malebranche, Paris, Vrin, 1962, Torao I, pag. 77-78 e Torao II, 1965, pag. 280-281, respect i vamer t.e . A citagão é totalraente independente da metafisica de Malebranche; trata-se de facto de uma descrigâo, de que se pode encontrar eco numa multiplicidade de autores, para além dos já referidos. Cfr. somente a titulo de exemplo, BERKELEY, G., An Essay towards a New Theory of Vision, §§ 59, 83, 85 e 85; MERLEAU- 133 A inscrigâo da percepgão na vida revela, assim, que os sentidos são orqãos da vida e que, portanto, os objectos que nos apresentam são imediatamente detidos como objectos de lida possivel, oojectos que cumprera uma fungâo na vida; e é nesse cumpriraento actual ou possivel que recebera o seu sentido. A percepgão está investida de forraas de apreensâo de "natureza pragmática". 0 "pragmatismo do nosso ponto de vista", se se pode falar assim, não é ôbviamente fruto de uma "opgão ideolôgica", não é uma teoria moderna, mas é antes algo que se dá no prôprio acontecer da vida, no seu desenrolar fáctico, no ser assim como é. Em resumo: os critérios e indicios da posigão das coisas pertencera todos ao horizonte da vida na qual estão incorporados. As coisas são o que são na integragão de ura espago habitável por nôs, fazem parte do campo onde a vida pode acontecer. Possuem, nesta medida, um carácter doméstico, instituidas no mundo que reconhecemos como nosso mundo, e é já nesse reconhecimento do mundo que as prôprias coisas são reconhecidas como "nossas". De facto, o sujeito "entra" no mundo, "cai " nele como quera cai em casa prôpria. A queda na vida não é o langamento para um local vivido como irreconhecivel, possuidor de uma lôgica totalmente estranha, mas, pelo contrário, decifrável, isto é, prôxima. Perguntas como "o que é isto?" sâo indicio, na maior parte dos casos, não da estranheza disso, mas do seu reconhecimento como aigo que nos é essencialmente prôximo, e depois, da mdeterramagâo dos actos que se requerem, ísto é, que lhe são adequados; ou entâo são perguntas que não perguncam por nada, porque naoa aepende delas. Em qualquer dos casos, as coisas entre as quais se está são-nos prôximas -estão ai-, familiares, possuem a "qualidade", PONTY, La Sltructure du comportement, Paris, PUF, 1977 , pag . 84 e passi^- bem como' em muitas páginas de Phénoraénoloqie de la Perception; BERGSON, por exemplo em Matiére et Memoire, passira, e em muitas outras obras; ORTEGA Y GASSET, ĩdeas y Creencias, Madrid, Revista de Occidente, 1942, pag. 48-49, etc 134 que lhes é intrinseca, de fazerem parte do mundo que é nosso, de serem adequadas ao nosso estar prôximo delas. A sua prôpria "textura de aparecer" -isto é, de serem coisas expostas, que se deixam ver, tocar, etc- é totalmente subsumida no seu "ser acessiveis"; o seu "ser público" possui a estrutura de ura acontecimento que se proporciona, que se doa, como que a apresentagão de um "voluntário" que se oferece para o que for necessário, e sem quaisquer impedimentos, sempre â mão, sempre livre. 0 "estar ai" de uma pedra em pouco se refere (se se refere) ao acontecimento fisico de ocupar ura espago abstracto; diz, pelo contrário: há um acontecimento, uma posigão habicável por cada um, possuindo um significado para o "meu olhar", para a vida que se leva, sendo um momento pelo qual se pode passar de muitas formas, dado que a sua posigão -de coisa- é tida como a de um algo que está solto, isto é, de que "me" posso apropriar de muitos modos: tocar-lhe, langá-lo ao ar, medi-lo, pesá-lo, ou simplesmente vê-lo no seu ser livre, sem que algo ou alguém -muito menos a prôpria coisa- mo impegara de o fazer. 0 local "fisico" onde as coisas estão nâo e, portanto, objecto de determinagão geométrica. "Estar aqui" é imediatamente "estar å mâo", tal corao o "ser agora", ainda que de outra forma. As determinagôes espaciais e temporais -que parecem ser as mais abstractas e as mais prôprias da coisa- indicam o "ente", nâo na sua propriedade, mas na sua disponibilidade face ao sujeito. "Estar" é para as coisas encontrar-se no horizonte de "contacto possivel", de acgão possivel do sujeito, nas suas muitas formas, que, como ô bem de ver, cobre o mundo inteiro, cobre mesrao as estrelas. A posigão da coisa possui iraediatamente, portanto, um significado para a vida, é um significado da vida, que é o da possibilidade de apropriagão, do ter-se com isso de algum raodo . Desta forma, o estar entre as coisas, que é sempre onde se está, nâo é uma tese de natureza "metaf isica", mas tão somente a descrigão do ter-se em possibi 1 idades, que são 135 disponibilizadas pelas coisas. E "as prôprias coisas" reduzem- -se, por sua vez, elas mesraas, a meros moraentos era que as possibilidac.es da vida se despoletam. Ora isso significa também que "as coisas" pela sua apercepgão instrumental, estão como que em esquecimento, em adormecimento, dado que não são objecto de "enf rentamento directo", vistas em si mesmas (se isso fizer sentido) , mas moraentos do "passar público", ainda que este seja no passar por elas. Ou seja: a notificagão instrumental das coisas não equivale, como se disse, a um zero de notificagão, pois nesse caso não haveria instrumento. A notificagão das coisas é a de uma pressuposigão, a do passar por elas mesraas, como o solo era que não se atenta porque se anda sobre ele. As pedras que se pisara anunciam-se, não corao "entes", raas como pressuposigão sempre presente do percurso, a sua base. 0 mesmo acontece com todas as coisas "ao lado das quais se passa"; elas são precisaraente isso: "seres ao lado", e nâo o ser isso raesrao. Não há assira lugar para o "puro ser ai"; este dissolve-se no ser raomento pressuposto do andar, que é o que propriaraente é. As coisas estáo como posigôes "mudas", como que latentes; "em estado de anterioridade" ao que é directamente focado; estão antes do priraeiro que se tem, momento obliquo da apreensâo directa, pressuposigâo serapre pressuposta da corrente da vida 52 CV'Sunt enim istae imagines (as aparências) , quae consuetudine rerum corporalium per istos quibus ad necessaria huius vitae utimur sensus, nos etiam cum veritas tenetur et quasi habetur im manibus, decipere atque illudere raoliuntur", AGOSTINHO, Contra Academicos, III, VI, 13. 136 2.6. Conclusão da análise anterior: indicagåo de uma "lôgica da vida" como origem de sentido dos actos da vida . "Lôgica da vida" e determinagâo pela possibilidade : determinagão do sentido da situagão em que se está pelas possibilidades reais que se configuram. A corrente da vida quotidiana é essencialmente não especulativa. A expressão "corrente da vida", apesar de nâo conseguir fugir â metáfora, é relativamente fiel ao que pretende indicar. Ela diz, entre muitas outras coisas, que a vida é "algo" no qual nôs nos inserimos, no qual nôs entramos a fazer parte, que já "corria" -que já estava instituida- antes de nôs a habitarraos e que continuará o seu percurso depois de a desocuparmos. 0 sujeito vive os seus acontecimentos numa situagão que lhe é anterior, que o ultrapassa, e que se estende para além e para aquém dele; tal situagão possui uma estrutura prôpria, uma "lôgica", na qual ele se integra e que passa portanto a operar também nele. Cada um surge "inopinadamente" no meio de um estado de coisas, fazendo parte do mundo, a partir de um determinado "local" do mundo, que não escolheu, no qual se encontrou, integrando ura conjunto de acontecimentos -os que são prôprios dessa "parte do mundo", vivida portanto como ura raoraento do todo- que o envolve e que o localiza. Nesse "local" do raundo era que caiu e que é anterior a ele, iniciará entâo a sua "tarefa", a cumprir a parte que a situagão em que caiu lhe deixa e confere, como se o estado de coisas em que entrou se alargasse e passasse agora a contar consigo. Nasce-se sempre em algum sitio -em Bona ou em Hong-Kong, e nunca "em geral"-, sitio a partir do qual a vida se desenrola, a partir do qual "arranca". E nasce-se numa situagâo determinada, que possui uma lôgica determinada, å qual o sujeito se subordina e que não pode subverter. A lôgica da vida é tão inelutável como a do nascer e pôr do sol. Encontramo-nos nessa lôgica, e é ela que nos empurra -a partir de nôs mesmos- e nos comanda, e de tal modo nos envolve e coraanda, de tal modo está adaptada e conforme â nossa prôpria posigãc, de tal raodo nos é imediata e 137 nos integra, que não se repara até no facto de haver uma lôgica. Dito desta forma, parece deraasiadamente abstracto, sendo, todavia, o mais concreto (sô por isso, aliás, parece abstracto e dificil de "encontrar" ) . É pela lôgica do mundo que estamos sempre num determinado "sitio" do mundo, a partir do qual o vemos "todo", mtroduzidos numa rede de relagôes que já ai estava, e que nos diz qual será o nosso papel; é pela lôgica do mundo que nâo nos é permitido o isolamento em relagão a ele: a cada sujeito compete uma tarefa, tem que fazer ísto ou aquilo, decidir, agir, acontecer desta ou daquela forma, sem poder ficar "parado" "a ver o que há"; é pela lôgica da vida que cada um se encontra desejando, sem saber porquê: está simplesraente em estado de desejo; encontra-se apaixonado, sem poder dar uma razão suficiente para a sua paixão; encontra-se falando, na tão prôxima lôgica do falar que se torna evanescente; se deixa levar pela curiosidade, sendo ela que o raove e não ele a ela; é invadido pelo tédio, e precisamente no modo da invasão, etc Há uma lôgica da vida, que nos coloca aqui, que nos determina o que há a fazer aqui, que perscreve o campo e o modo das decisôes possiveis, que constitui o espago da nossa orientagão nas coisas. E é nesta lôgica que se está, que por isso mesmo, porque sempre se esteve nela, se assume como ôbvia, não vislumbrada. Esta lôgica é nâo sô a da vida, mas constitui a prôpria vida como "corrente", como ura raovimento de "avangar", isto é, em que o depois não tem natureza fisica colocado scmente "a seguir" e "ao lado" do agora pelo qual se passa, nura "tempo neutro e formal"-, mas possui carácter de crescimento: os moraentos seguintes são assirailados pelos anteriores, passam a fazer parte de nôs . 0 estado em que estamos nâo é "largado", como lastro ao mar do mundo, mas "engrossa" cora a incorporagâo do seguinte, a partir de dentro, como se fosse uma qravidez, como gosta de dizer Leibniz. A vida coloca-nos imediataraente em movimento, estar nela é crescer, necessidade de ter que ir por ali ou por ali ou por ali..., mas 138 nunca o poder finalmente estar : o campo de possibilidades que em cada raoraento se abre nãc pode perraanecer carapc de possibilidades neutras: tal carapo "apanha-nos", chega até nôs, ou raelhor, estaraos nôs nele, comprometidos nele como parte activa. Ou seja, o campo de possibilidades não é de natureza especulativa, e portanto abre-se diante de nôs connosco inseridos nele, abre-se em nôs, sendo o "eu mesmo nas possibilidades minhas", no poder (e, portanto, no ter que) constituir-me ali ou noutro "sitio". 0 sistema de possibilidades do "eu" não se estaciona diante dele, corao um acrescento â sua identidade -um bônus!-, um conjunto de coisas que ele pode "fazer", sem que esse fazer lhe "toque", ou o afecte; como se o sujeito aléra de ser tudo o que é, ainda pudesse fazer isto ou aquilo; corao se ele fosse "livre" das possibilidades que "possui". 0 "fazer possivel do sujeito" identifica-o no seu "conteúdo", diz-lhe onde está, o que é como actor dessas possibilidades (que é o que ele é) , e por isso, sendo ele mesrao nas possibilidades do seu fazer, constrange-o a andar. Ou seja: na medida em que as possibilidades do sujeito, precisaraente como possibilidades, não são, por um lado, possibilidades de "contemplagão", mas modos ou formas de estar no mundo, e, por outro, constituem o momento em que o sujeito está, quer dizer, são forraas que identificam e fazera o sujeito, nessa mesraa medida, tais possibilidades constrangem-no a andar. "Ter possibiiidades de acontecer de ura modo ou de outro", e estar "permanentemente" assim, é ser langado continuamente a agir, dado que o sujeito não pode de forraa alguma transformar o seu horizonte de possibilidades num écran, modificando a sua natureza essencial, isto é, como algo no qual não está de modo nenhum comprometido, que não lhe diz essencialmente respeito, em relagão ao qual é livre. Isso seria a vida de um anjo no raundo . 0 estar aqui no raundo, entre as coisas, é estar irapelido continuaraente "para a frente", langado permanentemente num conjunto de posigoes que se abrem permanenteraente diante dele e 139 de que não pode afastar o olhar sem morrer. É assim: "Ex quo nascimur, ímus . Quis enim stat? Quis non ex quo viam intravit, cogitur ambulare? Infans natus est, crescendo ambulat: mors finis est' (") . Por isso se fala de "corrente da vida", que "nada" te:n a ver com "temporalidade fisica", dado que a sucessão dos momentos "fisicos" é estranha a uma qualquer identidade, não é um crescimento. Deste ponto de vista, que é apenas um aspecto da forma da vida C4) , a corrente da vida é uma sequência de actos, uma (M) AGOSTINHO, Sermo 31, 4 (Desde que nascemos, andamos. Quem está parado? Quem, desde que entrou na vida, não está coagido a andar? A crianga nasceu, crescendo anda: e a raorte é o fim) . C4) Nesta decisåo de reter somente um aspecto joga-se não sô o sentido do prôprio aspecto retido, mas também o deste capitulo. Fica, assim, por examinar de que depende o significado de cada forma da corrente da vida, pressupondo-se que a sua apresentagão isolada é suficiente para dar conta dela. Reter somente um aspecto é sempre uma forma de abstragão, e corre-se o risco de que no acto de abstrair se perder precisamente o que interessa: a inteligibilidade. "Poderia perfeitamente acontecer" (é de facto o que acontece) que o sentido de uma forraa da vida dependesse, não sô da sua integragão no sisteraa da vida (e teria que se mostrar que a vida é um sisteraa) , raas ainda da dependência de outras formas de natureza mais fundamental (teria, então, que se mostrar depois que a sistematicidade da vida não é um conjunto de posigôes, todas com o mesmo valor, mas que há raoraentos mais essenciais que outros, e que terminam todos por se reduzir a uma forma unitária, que é propriamente a forma da vida; e teria que se saber qual é) . É este um tipo de investigagão que não será levada a cabo. E por duas ordens de razôes. a) em primeiro lugar porque a "determinagão" da situagão em gue se está tem neste parágrafo carácter introdutôrio, o que, por "outro lado, é bera problemático. De facto, apurada a situagão em que se está, nada mais haveria para fazer, porque é propriaraente isso que interessa apurar. Isto depende do facto de ser necessário pressupôr "isso" a que se introduz. Parece, todavia, que não há outra solugão: a instalagão num ponto de vista (no leibniziano, para o caso presente) não pode ser feita como se ele "caisse do céu" : exige-se um acesso, e este acesso não pode ser de natureza abstracta, mas deve encontrar um ponto de apoio nisto que há; e isto gue há é precisamente a corrente da vida, ê não um conjunto de teses abstractas. Se assim não se fizesse, o ponto de vista a que se acederia permaneceria totalmente simbôlico e irreal: não corresponderia a nada . Por outro lado, e pelas razôes que se tentarão elucidar, a determinagão da corrente da vida sô pode ser feita, de algum modo, mediante uma paragera da prôpria vida, e isso implica que 1-0 corrente de coisas que se fazera, que se fizeram e que se farâo. 0 sentido de cada um dos acontecimentos da vida é o de um f ieri, de um levar a cabo. E as "coisas" da vida corrente ou são actos ou sâo momentos de actos ou fungôes de actos, em que o sentido de cada um jaz nos que liberta ou anuncia, dos que o precedem "causalmente" ou dos que o enquadram. Uma coisa qualquer que se "execute" ou se faga -comprar o jornal, para já nâo se está totalmente na situagão era que se está, que já se operou uma modificagâo na corrente da vida. Há assim como que um circulo: é necessário partir de um momento que já se ultrapassou. Ou seja: a elucidagâo da situagão em que se está encontra-se já fora dessa situagão; ela constitui, por isso, uraa "falsa introdugão". E isto exige, então, que o horizonte a que tal introdugåo dá acesso seja, afinal, o raesmo do da prôpria introdugão. Dito de modo mais imediato: os capitulos seguintes terâo por finalidade examinar o que de modo informe se apresentou na sua prôpria introdugão. Nesta pretende-se somente apresentar -de modo disperso e solto- alguns "factos" que obriguem o sujeito e reencará-los, a procurar constituir formaJmente um novo ponto de vista. É certo que a prôpria introdugåo exige já uma paragem, uma modificagâo, como se disse, mas essa modificagão deve estar ainda inapercebida, "confusa". E por esta razâo se isola apenas um ou outro aspecto, e de raodo vago, aqueles que paregam suficientes para provocar a necessidade de uma modificagão mais "perfeita". Todo o problema está, no entanto, em que a "apercepgão confusa" da necessidade da modificagão do ponto de vista é, em última análise, uma não apercepgão, isto é, uma ilusão de modificacão. Nada de isto é novo : são os problemas clássicos relacionados com a introdugão a um discurso filosôfico. b) por outro lado, pretende-se aqui introduzir um porito de vista determinado, o leibniziano. A "análise" imediata da situagão em que se está deve fazer o levantamento das posigôes que foram descritas por Leibniz, que nâo foram todas (no caso de tal ser possivel, o que também exigiria inquérito) . 0 ponto de vista leibniziano leva a cabo uma descrigão de algumas Iormas dâ corrente da vida, e por isso, neste capitulo tirĩlFse somente fazer um levantamento daquelas que permitam uma via mais fácil para a sua compreensão. Prescinde-se, por isso, de todas as outras, e até daquelas que eventualmente se poceriam considerar mais fundamentais . Este trabalho pretende referir-se ao ponto de vista leibniziano, como uma tentativa determinada de dar conta "disto que há", com todas as limitagôes e "mgenuidades" que tal ponto de vista possa compreender . Ou seja: trata-se, em última análise, de uma tarefa de elucidagão historica (não no sentido do "ultrapassado", ou do "preso" aos sec. XVII-XVIII, como se disse) . Por esse motivo, não parece "logico" que entrera em consideragão formas da vida a que Leibniz não parece aludir, ainda que de um ponto de vista teôrico, tal devesse ser feito. 141 dar um exemplo banal- é o que é pelo lugar que ocupa na corrente da vida, isto é, pela insergão na sucessão dos actos que se realizam, e não, naturalmente, pelo "puro facto de ser feito": "em si mesrao", "comprar um jornal" nâo é nada, entre outros vários motivos porque "jornal" e "coraprar" não são puros factos, mas possuem já um sentido que os investe e determma. 0 sentido de "comprar o jornal" -é quase ridiculo dizê-lo- nâo é "fisico", nas dado numa lôgica que o envolve e que pode revestir várias forraas: hábito, curiosidade, recolha de informagôes úteis, estar a par do que acontece no mundo, etc É a lôgica da situagâo que o integra que diz o que é esse "facto". E tudo o mais na vida acontece assim: "ir trabalhar" é um acto que está inserido na lôgica da profissão, do progresso, da farailia, do bera estar ou siraplesmente da necessidade. A prôpria actividade cientifica -que em si mesmo se pretende desinteressada- é envolvida pela vida na sua mesraa lôgica: ou de um modo "tosco" em fungão da técnica, ou de um modo mais "nobre" era fungão do "progresso ou avango das ciências", por exemplo, nogão esta bastante vaga, indeterminada e informe é certo, mas que possui um valor operativo evidente, dado que o progresso :ião possui apenas um estatuto de facto mas pode possuir ainda a natureza de sentido da prôpria ciência (M) . Assim, o carácter de instruraentalidade da vida constitui- -se pela deterrainagão de cada acto como fungâo, determinando o sentido de ura por outro, era que nenhura está por si prôprio, mas é essenciaimente transitivo. A instalagão em cada momento da vida recolhe de outro o seu sentido, não especulativo, como se disse. Não se trata de "compreender" que o sentido de "ir trabalhar" é, por exemplo, o "enriquecer" . 0 "enriqueciraento" (55) Como é fácil de ver, o sentido da actividade cientifica não é necessar- amente o sentido da ciência como tal. A "ciência" e uma representagão morta e a actividade cientifica um acto da vida E também não é imediatamente ôbvio que todo o sentido da ciência se esgote no da actividade cientifica concretamente realizada . 142 não é uma tese, nem uma teoria. Trabalha-se, por exemplo, para ganhar dinheiro, ou para alcangar prazer nisso, quer dizer, o sentido da "profissão" não se reduz â pura execugâo de determinados actos (o que seria prôprio de uma máquina) , como se eles constituissem, por si sô, a identidade e o sentido do "trabalho". Os actos que em cada caso se realizam estâo determinados também, e de modo intrinseco, pelos actos que desse modo se possibilitam: está-se num momento da vida para ir ocupar outro (e não para "perceber"), nem mesmo no casc da curiosidade ou da distracgâo, que são forraas de tédio C6) . (56) Cfr., por exeraplo, as inumeráveis indicagôes e descrigôes do divertisseraent, nos Pensées de PASCAL. Por exemplo: "La seule chose qui nous console de nos raisêres est le divertisseraent, et cependant c'est la plus grande de nos misêres, Car c'est cela qui nous erapêche principalement de songer â nous, et qui nous fait perdre insensiblement . Sans cela, nous serions dans l'ennui, et cet ennui nous pousserrait â chercher um moyen plus solide d'en sortir. Mais le divertissement nous amuse, et nous fait arriver insensiblement â la mort" (414, da ed. Lafuma) . Os textos que "relacionam" tédio, divertissement e curiosidade são incontáveis: cfr., sempre segundo a mesraa edigão, nn. 47, 77, 136, 137, 138, 139, 620, 622, 773, etc Vejara-se também, por exemplo, as várias formas de tédio que TOMÁS DE AQUINO, seguindo Isidorc de Sevilha, enumera em S.Th., IIa-IIæ, q. 35, a. 4, ad. 3. Referindo-se âs formas da acedia, termo que, entre outros aspectos mais fundamentais, compreende também o sentido e a compreensão cristã do tédio, escreve TOMÁS DE AQUINO: "Omnia autem alia quinque quae ponit (5 das formas de tédio inventariadas pelo autor referido) ex acedia oriri pertinent ad evagationera raentis circa illicita. Quae quidera secundum quod in ipsa arce mentis residet volentis importune ad diversa se diffundere, vocatur ' importunitas mentis'; secundum autem quod pertinent ad cognitivam, dicitur ' curiositas ' ; quantum autem ad locutionem, dicitur ' verbositas ' ; quantum autem ad corpus in eodem loco non manens, dicitur ' inquietudo corporis', quando scilicet aliquis per inordinatus motus raerabrorura vagationem indicat mentis; quantum autem ad diversa loca, dicitur 1 instabilitas ' . Vel potest accipi instabilitas secundum mutabilitatem propositi". As restantes formas são a "amaritudo", que nasce da tristeza e é efeito do rancor, a "somnolentia" e "otiositas", que se reduzem ao torpor em relagâo ao que deve ser feito. Cada uma destas formas designa, de facto, um raodo de estar, que é identi f icável na corrente da vida . 143 Dizer que o sentido de uma posigão na vida é outra posigão significa que a instalagâo em cada uraa empurra para outra, em que já se está também, ou se está mais principalmente, dado que é o para onde se é arrastado que "puxa" o onde se está; e assim sucessivamente, e assim sempre, de tal forma que em moraento algum se está em "parte" alguma, ocupando fixamente um lugar - Quis stat?-, raas correndo, andando, fazendo, estando sempre, não propriamente aqui ou ali, mas como que "em suspenso". Cada um dos momentos que se vivem é trampolim e degrau para outro, e portanto não possui consistência, valor prôprio, para além de ser trampolim. Não se está parado em si mesmo, mas continuamente incitado, e pela prôpria vida. A posigão em que se está nâo possui, de facto, peso especifico, nâo constitui propriamente situagão habitada em prôprio, nem mesrao como solo fixo a partir do qual se se langa ou é langado; e não possui porque nâo é fixa, porque se é langado a partir de um aqui pela habitagão na possibilidade "futura", ainda em estado de possibilidade, e é isso o oue constitui esse aqui como aqui: estar aqui é habitar as possibilidades ao dispor " . 0 habitar o trabalho é o passar para novas possibilidades, mais ou menos iraediatas (tanto pode ser o imediato "estar a resolver" o problema do estudante, como o "passar" o ano ou...). A prôpria vida constrange-nos a andar, e constrange porque, coiro se disse, as possibilidades que se nos abrem não são possibilidades mortas, orientadas para a "contemplagão", mas estâo no coragão da coisa que se faz, aniraara-na, sâo a vida do raoraento que se ocupa. Assim, o "ter de adquirir novas determinagôes", ter de passar continuamente por qualquer coisa, revela como que um "atraso" era relagão a si raesrao", uraa forma de ter que atingir o local onde se está não estando. Quer dizer, o sentido do local "em que se está" é determinado pelas possibilidades futuras que nele se libertam, "de sorte qu'on est toujours en état de vivre ã l'avenir, et jamais de vivre 144 maintenant" Cl . Tais possibilidades futuras, precisamente enquanto futuras, são propriamente a identidade do local em que se está. De tal forma que o sujeito está em determinada situagão porque habita nas possibilidades futuras que nessa situagão se desprendera, que ai se configuram como possibilidades "reais" e não como meras possibilidades sonhadas ou irrealizáveis. 0 "conteúdo" de uma determinada situagão inclui, como raoraento essencial e determinante, os "caminhos que de ai arrancam", e é em fungão da habitagão desses "caminhos" como caminhos possiveis que uma determinada situagão na irreflectida vida quotidiana adquire sentido. De facto, a disposigão de quem ocupa uma situagão permanecendo fora das possibilidades que ai surgem ou nâo vislumbrando modos de ocupar tais possibilidades é a que chamamos desespero. Um sujeito que se reduz å "pura situagão em que está", de tal modo que as possibil idades futuras lhe surgem sempre como a perpetuagão da ausência de possibilidades habitáveis -quer dizer, um sujeito que está localizado na vida apenas pela determinagão formal "aqui"- está em desespero. É evidente que também para tal sujeito "há futuro": há a possibilidade "fisica" de haver "amanhã", de que o tempo mude, de perder o emprego, de morrer, etc Mas as possibilidades futuras estão todas como que corapreendidas num indiferenga que as torna homogéneas quanto ao sentido: sâo meras possibilidades "fisicas", "coisas que podera acontecer", mas relativamente âs quais o sujeito é indiferente: as possibilidades não têm significado porque não valem raais que as contrárias, nenhuma delas se destaca de modo a ser habitada. A situagão em que se está não recebe sentido de possibilidade alguma, quer dizer, o sujeito não espera por nada . 0 sujeito reduziu-se ao "puro facto de estar ai", está como que preso, totalmente fixo, pois C7) PASCAL, Carta Dezembro de 1656, aos Roannez, ed. cit., pag. 270. 145 tudo o que faz é em funcão de nada, corao uma máguina, e, portanto, tudo o gue faz é nada, visto gue aguilo gue possibilita é indiferente, tanto como o oposto. Ora há desespero, não apenas porgue isto acontece, mas porque, apesar disso, se raantéra a lôgica da vida. De outro raodo a situagâo de guera se reduz ao puro facto de viver seria somente um facto sem sentido. 0 desespero é uma determinagåo da situagão era gue se está porgue a loqica da vida exiqe o que a vida não cor.segue, não vê possibilidade de constituir. A logica da vida exije gue a determinagão e o sentido de qualquer acto da vida depanda, não do seu acontecer fáctico e raecãmco, mas das possibiiidades da vida que de ai arrancam. 0 local onde se está está determinado desde o principio pela impossibilidade de se "estar", pelo ter que se atravessar, ainda que ao mesmo tempo tenha que passar por isso. Assim, o "estar-se langado a", que na vida quotidiana pode receber determinadas formas de reconhecimento (prazer, descanso, qualidade de vida, "felicidade", etc, que, quando se atingem, se revelam também como raomentos por que necessariamente se tem que passar sem poder estar) mostra que o sentido de qualquer acto da vida é dado, não nela sua especif icidade concreta, por ser este ou aquele, mas pelo processo em que está; o sentido de cada acto é possibilitar a permanência do processo, da prôpria vida, que, de cada vez, a partir de cada acto, vai assumindo formas sempre diferentes. Mas o que importa nâo_é, era última análise, nenhuma das formas, raas «_prnnri.a corrente da vida como tal, ainda que o sujeito possa honestamente afirraar que "reconhece" sentido neste ou naquele acto. A corrente_da_vida mantém-se sempre como a pressuposigão de sentido último de cada uma das coisas que se fazera, pressuposigão que não se interroga nunca, gue não se examina, gue não se toca. De tal forma gue a possibilidade efectiva da morte «Hi_firi totalaente a compreensão dos actos da yjda: em face da possibil idade real, "habitada", da morte, quer dizer. dada a compreensão de que a morte é, não um facto 14(> que pode ou há-de vir, mas uma possibilidade real em_que^e está sempre, a figura das coisas muda completamente: elas d^ĩxam dTTstar animadas, porque deixara de ser possibilid_ades habitadas: estar na oossibilidade da raorte é deixar de poder considerar a permanência do processo da vida como sentido de cada acto que se faz. "Estar na possibilidade da morte" inclui a compreensão de que o mero acontecimento e processo da vida não pode ser um sentido real dado para os actos da vida, pois a raorte é a possibilidade da irapossibilidade do processo. Razão pela qual a lôgica da vida anula a possibilidade da raorte, langando essa possibilidade precisaraente para o "futuro": a prôpria possibilidade da impossibilidade do futuro há^de ocorrer no futuro (58) . Deste modo, o processo da vida pode permancer tranquilo, afirraar-se e pressupor-se corao sentido, precisaraente enquanto processo, sera exigir paragens ou reflexôes, diluindo tudo, coisas e sujeitos, na prôpria lôgica do processo. 2 7 A compreensão do "homem" a partir da "logica da vida": o "homem" como um momento natural da histôria do mundo. Dimensão "subjectiva" do "horaera" : o "interior do horaem 0 corpo como "espago natural de ressonância mterna : momento natural e liraite da "diraensão subjectiva". Breves mdicagoes sobre o corpc Ainda que a corapreensão instrumental das coisas seja passivel de reconhecimento mediante a descrigão do que está a acontecer no momento em que nos temos com elas, ela está, todavia, em estado de não apercepgão na instalagâo imediata na vida. De facto, como se viu, o carácter instrumental do "ente" dissolve-se e dilui-se totalmente na sua apresentagão em (») Como é evidente, a análise da morte como possibilioade e como facto nâo está feita, mas apenas indicada. 147 disponibilidade, vivida corao publicidade. 0 carácter público de uma cadeira, por exeraplo, nâo significa que ela seja iraediata e era si raesira ura valor para todos e cada um dos sujeitos possiveis. Significa antes que esse obDecto pode possuir tal valor e que, portanto, esse poder jaz, como poder, na prôpria coisa. Ou seja: se o estado de disponibilidade da cadeira é a sua liberdade era relagão a uraa qualquer detengão subjectiva, é tarabéra -por "extensão"- a sua liberdade era relagão â detengão no ârabito da intersubjectividade, entendida corao "acuraulagâo" de subjectividades: se a coisa não se reduz a ser ura "para mira", não se reduz igualraente a ser ura "para todos" ou "para qualquer ura" . Sendo condigão de possibilidade da apreensão por cada ura, a publicidade da cadeira é antenor -é vivida corao anterior- â sua inclusão na teia das relagôes intersubjectivas, considerando a intersubjectividade corao o conjunto das subjectividades: a publicidade "pertence" â prôpria coisa, é- -lhe corao que intrinseca e prôpria. As coisas são "em si mesraas" coisas raudas, isto é, não afectadas por qualquer indice de "persoralidade", alheias ao sigmficado subDectivo que revestera ou podera revestir em cada caso. Permitindo "qualquer" apropriagão, são vividas como "prévias" a toda a apropnagão. De facto, corao se disse, o carácter mstruraental das coisas reside nelas de forraa indeterrainada, era estado de possibilidade. E na raedida era que a coisa possibilita vários significados "subjectivos" -pode entrar na vida "pessoal" de rauitos raodos-, nessa raedida a sua prôpria posigão está livre de qualquer assurapgão subjectiva. Dito de modo mais imediato: a instrumentalidade possivel -que é uraa forraa geral da disponibilidade das coisas- é vivida, precisaraente porque é "raeraraente possivel", corao não mstruraentalidade, corao posigão em prôprio, e como autonoraia. Autônomas, as coisas não possuem "rosto", r.ão raamfestara disposigôes, estão aquéra de qualquer variabilidade interna, corapletaraente preenchidas por si raesraas, e, por isso, estáticas: são iraediata e corapletaraente o que são. 148 E o seu "coraportaraento" -porque o têra, regulado por leis que charaaraos naturais- não possui o ritrao mterno que reconhecemos em nôs: é puramente objectivo -sucessão de acontecimentos constituidos essencialraente nura ârabi to de extenor idade, de pura exposigão, virados "para f ora" . A exposigão das coisas é exterioridade sera interioridade. Assira, o espago das coisas que há é caracterizado, corao se disse, pela sua mudez, isto é, pelo facto de não se indicarem senão a si mesmas, na homogeneidade da sua exposigão. Estando, portanto, totalmente retidas no seu "estar ai" -como uraa pedra, por exemplo-, as coisas acabam no seu "estar ai" logo que "comegam". Posuem a estrutura do que se chama "objectividade" C9) . É neste espago de coisas objectivas, sem significagão subjectiva, que "nôs pensamos entrar". 0 mundo das coisas "está ai", com a sua histôria -a histôria natural-, com os seus factos, cora o seu coraportamento, com as suas vicissitudes . Num determinado momento "apareceu" o homera, e noutro determinado C9) Em rigor, seria ainda necessário analisar como se mtegram no mundo puramente objectivo essas outras formas de habitagao nele que sâo os entes vivos em geral, e, de raodo muito particular, os animais. No entanto, dado que nesta alinea se tenta uma indicagão sumária do modo como nos temos no mundo, parece, portanto, poder omitir-se essa análise, que seria imprescindivel se se pretendesse descrever com correcgao a especificidade do acontecimento do humano. Ou seja: em todas as linhas desta parágrafo se pressupôe a posigão do mundo, como se fosse algo imediatamente esclarecidc Ora a descngac^ do "comportaraento animal" inscreve-se na elucidagão da ' nogao da Urawelt que lhe é prôpria era contraposigâo â de raundo corao Í^Kdo: romo se prescinde da elucidagão do acontecimento do mundo, prescinde-se também da do dito "coraportamento . E este mais um motivo pelo qual se devera considerar corao totalraente ingénuas estas páginas. Para citar soraente alguraas obras, pode ler-se UEXKULL, J., Bausteine zu einer biologischen Weltanschaung, trad. espanhola Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1945; UEXKŨLL, J., e KRISZAT, G., Streifzuge durch die Urawelten von Tieren und Menschen, trad. portuguesa Lisboa, Livros do B'F^TV'^l^T (citam-se somcnte estas obras, porque foram as únicas a que se teve acesso) ; ou então SCHELER, M., Die Stellunq des Menschen ira Kosmos, trad. espanhola Buenos Aires, Losada, 1938. E haveria amda que referir DRIESCH, PORTMANN, etc 149 raoraento apareceraos nôs, cada ura de nôs no seu raomento. 0 moraento do aparecimento de cada ura é um raomento do raundo -não nosso, evidentemente-, determinado pela histôna do mundo, pela sua prôpria cronologia. Parece, de facto, pacifico que nôs vivemos no mundo como tendo entrado nele, não "de fora para dentro", ma.3 surgindo corao uraa novidade no "raeio dele", sendo "raais uraa" entre as coisas que há: corao ura acrescento, era últiraa análise. Não viveraos o raundo corao se ele tivesse nascido connosco. A nossa histôna é parte -e pequena parte- da histôria do raundo, que tudo abarca; e a histôria do Horaera ura ligeiro instante na cronologia da constituigão do raundo das coisas: chegáraos ontera. Nada disto exige qualquer justif icagão, rauito raenos "explicagão" : é assira, aconteceu de facto, e isso pode estudar-se cientif icaraente. 0 huraano surge, assira, e de repente, no raeio do raundc Deste ponto de vista, o seu apareciraento é ura facto objectivo, datado, exposto e de significagão natural : auraenta o núraero das coisas existentes: antes não havia horaens; depois passou a haver. Sabe-se até, de ura raodo raais ou raenos preciso, corao era o raundo antes de nôs o habitarmos, o que lhe terá acontecido então, que modificagôes sofreu, etc Obviamente, o mundo possuia já o carácter de publicidade que lhe é prôprio, independentemente de quaisquer espectadores huraanos: havia ar e terra, vento e chuva, e as estrelas erara siraplesraente raais novas. E foi este espago de publicidade e raudez que passáraos a integrar, corao uraa raais entre as forraagôes do raundo, terraos de ura processo natural . Isto é: a nossa posigão entre as coisas, pensada originalmente corao acrescento, é identificada no horizonte prévio e geral da histôna do mundo, e o seu significado recolhe-se dessa histôna. 0 sentido da presenga do homera é, nura priraeiro aspecto, natural: ele é ura raoraento particular e especifico do prôprio mundo, faz naturalmente parte dele, sendo uma forraagão da vida corao as montanhas são formagôes geolôgicas. Desta forma, o honzonte de compreensão 150 de nôs mesmos aqui é dado pelo agui prévio onde surgimos (onde surgimos neste caso como "homens":, o que implica que, de algum modo, nos corapreendemos a partir do raundo onde surgimos e em que estamos. 0 dominio original -o dominio real- é o das coisas que há, que nos é prévio, que vale por si, e que é público. Deve, todavia, ter-se em conta o que, por outro lado, é ôbvio: há uma diferenga de estatuto entre o "aparecimento do homera" e o "raeu" apareciraento, o que de raodo nenhum significa que se pense o "aparecimento do homem" como o apareciraento de outro homem: aquele possui o valor do "surgimento" da Humanidade no mundo e, nessa medida, não foi o apareciraento de "ninguém" (ainda que, naturalmente, alguém -nâo interessa quem- tenha surgido) . Não é o mesmo ter "surgido o homem" que ter "surgido Napoleão". A diferenga está no carácter definido do homem em relagão ao indefinido um homem: "hominizagão" r..ão é cresciraento. 0 surgiraento do horaem no mundo possui um yalor natural -é um acontecimento do mundo-, e é esse o seu sencido, enquanto que o nascimento de Dario "tem a ver" com a histôria da Pérsia. Era relagão âquele -isto é, quanto ao seu valor natural-, este é desinteressante e desperdigável, porque a "vida particular de cada ura", independentemente da importância histôrica que eventualmente possa ter tido, em nada contribui para o esclarecimento da "essência natural do humano": é-lhe totalmente acrescentada, localizada, de "signif icagão pessoal", e, nesta medida, superveniente "ao homera" : está a mais: a biografia é um género literário, eventualmente um género histôrico, e não uma mdicagão de natureza cientifica. Não há -não faz sentido haver- uma histôria naturai subjectiva. Para saber "quem somos", "o que fazemos aqui", de nada importa conhecer "a nossa vida": esta é uma variagâo possivel na base do humano que cada um "é" . Provavelmente por esta razão, o "aparecimento do homem sobre a Terra" é tambéra, de certo modo, vivido ou pensado como "parte" do "meu aparecimento" . Se o "homera" não tivesse surgido 151 no mundo, "eu" não poderia estar aqui, o que é ôbvio. Há como que um nexc causal entre o termo de um processo evolutivo natural e o "eu mesmo" que em cada caso cada um de nôs actualmente é. Ou se]a: o sentido dos momentos "humano- subjectivos", está logicamente compreendido no surgimento do momento "hunano-objectivo", constituindo este até a prôpria identidade do humano como humano, como se a "natureza humana" fosse prévia a "Adão", por assim dizer. 0 "eu" é, assim, ura momento variável do "homem". 0 humano não se esgota, poréra, na unicidade da sua histôria natural. Sendo esta a base do seu ser, sobre ela podem edificar-se -e de facto edificam-se- novas formagôes, de natureza variável. E ainda que haja, como há, uma especificidade do humano do ponto de vista natural (a estudar pela paleontologia, por exemplo, ou pela anatomia comparada) , há lugar para uma outra "diferenga antropolôgica" (M) : o "ser natural" do homem possibilita como que uma ruptura com a "natureza", com o mundo natural: o humano pode ser entendido como o "ente natural quase nada natural", e a sua inscrigão na terra pode possuir formas variáveis, não redutiveis ao enraizamento natural. A varrabilidade dessas formas de enraizamento no raundo -linguas, culturas, etc- corresponde a um "espago de indeterminagão" que o prôprio "ente natural homem" possui, um espago em aberto cujo preenchimento reguisita processos não absolutamente pré-determinados pela sua histôria natural: a indeterminagão natural da mão possibilita tanto a pintura como a agricultura. Não interessa agora, nem é possivel, fazer um levantamento das condicôes de possibrlidade naturais do surgimento da cultura e da técnica, ou das relagôes que estas mantêm com a (' Cfr TINLAND, F., La différence anthropoloqique ■ Essai sur rapports de la naũIĨ^F de l'artifice, Pans, Aubier- MontaTgne 1977, onde se pode encontrar um estudo znteressante sobre as relagôes do ente-natural homem com a natureza. 152 natureza. E não interessa porque, seja qual íor a conclusåo a que se chegue (no caso de tal acontecer) , o humano que está em causa será sempre focado a partir do mundo público, ainda que este possa ter "deixado de ser" natural para revestir uma nova forma: a cultural. 0 mundo público terá sofrido uma modificagão, tão profunda quanto se quiser. Não deixará por isso de ser o que é: público. 0 que, por outro lado, implica que o humano persista era ser interpretado e "reconhecido" sob forraas objectivas, sejam a lingua, o folciore, as relagôes sociais e de parentesco, a culinária ou o desporto, etc Nada disso retira, como é evidente, qualquer valor a todas as investigagôes que as "ciências humanas" possam levar a cabo . Pretende soraente dizer-se que, na medida em que o prôprio humano é o objecto de estudo, tal estudo possui como "pano de fundo", como horizonte de inteligibilidade e de apreensão, "figuragôes" já imediatamente reconhecidas como humanas, formas de aconteciraento do humano no mundo, realizagôes objectivas do "ser horaem" . De qualquer modo, é deixado de fora o reconhecimento imediato e subjectivo que cada um tem de si raesrao. Tarabéra era relagão ao raundo da cultura tais "dados" são supervenientes ou, então, reconhecidos através das prôprias formas objectivas, no raodo corao, por exemplo, se pode reconhecer a "mentalidade dos homens" através da literatura ou da psicologia. A "mentalidade dos homens" é, neste caso, igualmente do dominio do exposto, exposto precisamente nas formas que produziu, e são precisaraente estas, e precisamente como expostas, que constituem a "identidade cultural do homem" . 0 humanc permanece "um mais" entre os outros, numa nova deterrainagão do seu ser acrescentado. Ele não "pode" deixar de se considerar como um acrescento enquanto identificar a sua posigão corao um moraento do mundo, por mais modificagôes que a forraa do mundo possa sofrer. 0 reconhecimento de si mesmo surge, desta forma, no horizonte de um "estado de coisas" pré- -constituido e autônomo, "estado de coisas" que possui ura valor \57 e ura peso a_se, inoicando, a partir de si, o gue o humano propriamente é. A posigão concreta e imediata deste ou daquele homera recebe desse estado de coisas a sua sigmficagão humana, na formalidade que for prôpria do estado de coisas em causa (cultural, técnica, etc), passando cada um de nôs a ser investido por um sentido que nos é prévio, objectivo, e, por isso mesmo, real. 0 homem "singular" -o individuo- será o suporte concreto de um abstracto -de uma lingua ou cultura, por exeraplo-, sendo a sua "humanidade", também ela, de alguma forma muda, porque objectiva. A identif icagão do humano feita deste modo prescinde, portanto, do sigmficado que cada homem é para si mesmo, dado que tal significado se edificará "por cima" do seu "ser humano": ã identidade do homem como homem -nas múltiplas formas que tal identidade pode revestir- acrescenta- -se e sobrepôe-se, construida sobre ela, a identidade particular de cada um. 0 valor da identidade particular está retido e confinado no horizonte geral "homem", incluindo então uma "particularidade", um "tom pessoal", que é, portanto, secundáno. A propria assumpgâo vivida de uma lingua, por exemplo, será focada ainda de modo exposto, como "o modo de assumir a lingua", ou "o raodo corao se vive a cultura". Em qualquer dos casos, será uma forma humana que define o homem, sendo-lhe por isso anterior, e não interessa determinar, por isso mesmo, que forma concreta indica e expôe a "esséncia do homem": ele poderá ser -ou é- horao sapiens, homo faber, horao ludens, etc Cada uma destas forraas poderá ser tida como a fundamentai, a básica, ainda que corresponda, de facto, a um ponto de vista a partir do qual a "totalidade do homem" se descobre . Ora, independenteraente da validade que este tipo de identificagão-definigâo do horaera possa conter, não se pode abstrair do facto de "haver uraa diraensão" em que o homem nâo parece pensar-se como acrescento, um âmbito em que cada um "comega e acaba em si raesrao", ura raoraento cuja significagão se 154 recolhe totalmente em si mesma, que vive e se alimenta de si, ainda que de um raodo muito diferente do das "coisas". Esta dimensão é, como é ôbvio até pelas palavras com que é indicada, aquela em que cada um se tem a si mesmo como si mesmo, não integrando aparentemente um estado de coisas externas qualquer, por muito fundamental que possa ser, mas estando "dentro" de tal estado de coisas: o momento do seu interior. Apesar de -uma vez mais- se recusar agora proceder ã tentativa de descrigão da interioridade (pretende-se somente uma indicagão muito sumária do "modo corao nos entenderaos" ) , é necessário, todavia, precisar algumas diferengas. Assim, e em primeiro lugar, ainda que o interior do homem não se tenha como acrescento para o prôprio homem, vive-se como o interior de um acrescentado, de alguém que não deixa de se ter a partir do mundo era que está. De facto, o reconheciraento do "eu raesmo" não se coloca "ao lado" ou "por cima" da compreensão que cada um possui de si como sendo definido pelo mundo, como se fossem duas apercepgôes irredutiveis do raesmo. 0 "interior" de cada homera não é vivido corao ura "espago absoluto", totalmente desligado e solto do raundo real e objectivo. Pelo contrário: sendo o interior, vive-se como se estivesse "dentro" de um momento real, como um momento no seio do real-objectivo, não se constituindo, portanto, como um sonho, isto é, como um cutro mundo desligado deste, como se fossem dois mundos que se ignorassem. De alguma forma, o "interior" de cada um é também uma posigão real, precisamente por ser o "dentro de um ente da natureza", de um existente. Quer dizer: a interioridade de cada um é como que um espago irredutivel dentro do espago homogéneo e único do mundo, em que a sua prôpria irredutibilidade se inscreve e localiza no horizonte do espago do mundo, sem que se trace uma descontinuidade total, um hiato no mundo: o privado não é um espago vazio no público: o espago público está perfeitamente preenchido, ainda que compreenda momentos que abrem "espagos" para o interior. Ou se]a: o mundo compreende 155 uma cadeia de posigôes -de coisas puramente expostas- em gue alqumas delas, por sua vez, compreendem um sub-con^unto cie posigôes novas: há momentos da cadeia do mundo, que esta completa, que possuem eles prôprios uma cadeia de momentos: os "seus": o privado não altera o público, porque o público compreende privados, corao se o ritmo geral da vrda contrvesse ritmos particulares. Assim, por exemplo, o tempo do mundo é o tempo, o de todos, define o ritmo da sucessão objectiva dos factos. Mas dentro do tempo de todos, há "factos" -nôs- que possuem um "tempo prôprio", que, porque não se perdem totalmente no primeiro, possuem uma certa liberdade, ainda que, por outro lado, se definam em relagão ao tempo exposto: há horas curtas e horas longas, mas todas as horas duram 60 minutos. 0 mundo mudo e exposto contém, então, momentos que, fazendo parte deie ao mesmo tltulo que qualquer outra coisa -sendo, portanto, igualmente expostos e mudos- são como que "suspensôes" e "paragens" na passagem de coisa para coisa na cadeia do mundo, corao se na corrente h<^génea^continua das coisas se constituissem posigôes que se retêm a si mesmas, que insistem na sua posigão. Esta insisténcia na mesma posigão abre um espago no quai não se é atirado para outra posigão, mas para si mesmo, como se se adqurrrsse signifrcado reflexo, um espago em profundidade, onde há lugar para uma sucessão de outros acontecimentos que não perturbara, de modo nenhum, o seu estar ao iado das outras coisas. Do "interior" de uma coisa essencial e totalmente m.uda possui-se, pelo contrário, uma apercepgão muito diferente: trata-se de um "ainda não exposto", mas cuDo luoar prôprio é o do espago homogéneo e único. 0 mterror de uma pedra, por exemplo, compreende momentos cuna natureza é essencialmente idêntica ã do seu exterior, de tal forma que pode ser trazido á luz do mundo público "sem esforgo", isto é, medxante operagôes no prôprio mundo públrco, sem que haja qualquer modificagão intrinseca no que agora se torna exposto. 0 "interior" de uma coisa exposta é natural e intrinsecamente 1 56 exposto, ainda que, por alguraa razão, posa não estar num determinado momento em estado de exposigão: está, por exemplo, encoberto por outras posigôes. Mas o seu interior é um local do mundo público, ainda que, devido ao "meu" ser natural, "eu não me possa" constituir ai (está longe, é estreito de mais para conter o espago que eu ocupo, etc ) . Assim, a mostragâo do interior de uma pedra, para continuar com o mesmo exemplo, é como que o alargamento, o "aumento" de posigôes expostas, posigôes que, por outro lado, compôem ou constituem a coisa imediatamente acessivel ao olhar . Nesta medida, há tambéra ura interior do "exposto enquanto exposto", que equivale ã "desdobragem" da exposigão em exposigôes "suas", â possibilidade de reduplicagâo indefinida do exterior em exteriores, o que, como é fácil de ver, exige descrigôes e análises nada fáceis de ievar a cabo (apesar da sua "naturalidade", do seu ser ôbvio) . Todavia, no modo como o humano vive o seu interior, não sô se prescinde das dificuldades dessas análises, como, mais ainda, a diferenca dc interior é imediatamente reconhecida: há uma acessibilidade intrinseca ao interior da pedra: ele é essencialmente público, essencialmente visivel por qualquer um, pertencente ao espago do mundo, não se constituindo, por isso mesrao, como privado, como "paragem" no mesmo: nâo abre ura espago prôprio, dado que se apresenta na sua imediata e constitutiva nudez, nudez que, por essa mesma razão, não possui qualquer significado. Não faz de facto sentido dizer que "uma pedra está nua", e não o íaz porque ela é essencialmente pura exterioridade . É precisamente porque o interior de uma pedra é totalmente "reiativo ao exterior dado", isto é, porque um objecto mudo é um exterior sem interior, que a nogâo de nudez perde todo o signif icado; esta é, pelo contrário e no modo corao correctamente se diz em português, um descaramento, a perda de um rosto, de um significado de interioridade essencialmenre não exposto. 0 rosto é, de facto, a exposigão de ura não exposto -a [Document text truncated for crawler view.]