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Habitus: Deleuze e a Experiência Arquitectónica

Pereira, Marco António Neves de Abreu

Abstract

A presente dissertação pensa a experiência arquitectónica no campo do empirismo transcendental de Gilles Deleuze, tendo como conceito central a definição deleuziana de hábito. Pretende-se demonstrar que é no hábito que a recepção arquitectónica se revela completamente como vida. Deleuze na sua obra de 1968, Diferença e Repetição, define o hábito como presente vivo produtor de diferenças e de sensações; o que vai permitir, por um lado, desfazer a perspectiva normativa do hábito como repetição do Mesmo e, por outro lado, colocar o hábito no campo da estética e a vivência arquitectónica no hábito. O hábito como presente vivo é o conceito que articula a estética com a ontologia da univocidade do Ser de Deleuze; sendo a arquitectura, no domínio da arte, a expressão máxima da relação estética-ontológica deleuziana pela sua relação íntima e natural com a realidade da vida. As obras de arte arquitectónicas fazem coincidir na sua vivência a arte e a vida num único movimento estético-ontológico, elevando todo o quotidiano a arte. Isto vai ser compreendido através da filosofia empírico-transcendental de Deleuze pelo facto de esta ser atravessada por um vitalismo intempestivo e criativo que só pode ser sentido como sensação. Sensação que é sentida por um corpo e pensamento intensivos e sensuais, libertos de qualquer organização orgânica e representativa ao passarem a estar em modulação rítmica devido ao movimento de diferenciação da vida como devir. O devir é o que deve ser sentido na vivência arquitectónica assim como pelo arquitecto enquanto cria e projecta; é o lugar da heterogénese da vida e da arte ao qual o arquitecto deve aceder e habitar.

Full text

Habi us: Deleuze e a Expe iência A qui ec ónica Ma co An ónio Ne es de Ab eu Pe ei a Fe e ei o de 2018 Disse ação de Mes ado em Filoso ia Especialização em Es é ica Ma co An ónio Ne es de Ab eu Pe ei a, Habi us: Deleuze e a Expe iência A qui ec ónica, 2018 2 Disse ação ap esen ada pa a cump imen os dos equisi os necessá ios à ob enção do g au de Mes e em Filoso ia, especialização em Es é ica, ealizada sob a o ien ação cien í ica do P o esso Dou o João Manuel Pa dana Cons âncio. 3 Aos meus Pais, Ma ia Emília e An ónio, à Ana e ao Boni. 4 AGRADECIMENTOS Um ag adecimen o especial ao meu o ien ado , o P o esso Dou o João Cons âncio, po e acei ado a esponsabilidade assim como pelas c í icas e suges ões que o am essenciais no desen ol imen o da disse ação. Um ag adecimen o mui o especial aos meus pais pelo apoio incondicional. À Ana, pela paciência e o apoio du an e es a ase da nossa ida em conjun o. 5 NOTA INTRODUTÓRIA A p esen e disse ação oi edigida ao ab igo do an igo aco do o og á ico. SIGLAS E TRADUÇÕES 1. Siglas das ob as mais ci adas de Gilles Deleuze: ES: Empi isme e Subjec i i é: Essai su la na u e humaine selon Hume, P ess Uni e si ai es de F ance, Pa is, 1953. N: Nie zsche e la Philosophie, P esses Uni e si ai es de F ance. 1962. DR: Di e ença e Repe ição, adução de Luiz O landi e Robe o Machado, p e ácio de José Gil, Relógio D’Água, 2000. LS: Logique du Sens, Les Édi ions de Minui , Pa is, 1969. MP: Mil Planal os: Capi alismo e Esquizo enia 2, adução e p e ácio de Ra ael Godinho, Assí io & Al im, Lisboa, 2007. FB: F ancis Bacon: Lógica da Sensação, adução e in odução de José Mi anda Jus o, O eu Neg o, Lisboa, 2011. Qph: Qu’es -ce que la philosophie?, Les Édi ions de Minui , Pa is, 1991. IUV: “L’Immanence: Une Vie…”, en Deux Régimes de Fous, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2003, pp. 359-363. 2. Siglas de ou as ob as ci adas: T : Da id Hume, T a ado da Na u eza Humana, adução de Se a im da Sil a Fon es, p e ácio e e isão écnica da adução de João Paulo Mon ei o, Fundação Calous e de Gulbenkian. TES: Juhani Pallasmaa, The Eyes o he Skin: A chi ec u e and he Senses, p e ace by S e en Holl, John Wiley & Sons, 2005. 3. Todas as ci ações de ob as em língua es angei a ( ancês, inglês e cas elhano) são da esponsabilidade do au o . No caso de ob as aduzidas pa a po uguês ci a-se a adução. 6 RESUMO Habi us: Deleuze e a Expe iência A qui ec ónica Ma co An ónio Ne es de Ab eu Pe ei a PALAVRAS-CHAVE: Hábi o, Vida, De i , Sensação, Co po, Empi ismo T anscenden al. A p esen e disse ação pensa a expe iência a qui ec ónica no campo do empi ismo anscenden al de Gilles Deleuze, endo como concei o cen al a de inição deleuziana de hábi o. P e ende-se demons a que é no hábi o que a ecepção a qui ec ónica se e ela comple amen e como ida. Deleuze na sua ob a de 1968, Di e ença e Repe ição, de ine o hábi o como p esen e i o p odu o de di e enças e de sensações; o que ai pe mi i , po um lado, des aze a pe spec i a no ma i a do hábi o como epe ição do Mesmo e, po ou o lado, coloca o hábi o no campo da es é ica e a i ência a qui ec ónica no hábi o. O hábi o como p esen e i o é o concei o que a icula a es é ica com a on ologia da uni ocidade do Se de Deleuze; sendo a a qui ec u a, no domínio da a e, a exp essão máxima da elação es é ica-on ológica deleuziana pela sua elação ín ima e na u al com a ealidade da ida. As ob as de a e a qui ec ónicas azem coincidi na sua i ência a a e e a ida num único mo imen o es é ico-on ológico, ele ando odo o quo idiano a a e. Is o ai se comp eendido a a és da iloso ia empí ico- anscenden al de Deleuze pelo ac o de es a se a a essada po um i alismo in empes i o e c ia i o que só pode se sen ido como sensação. Sensação que é sen ida po um co po e pensamen o in ensi os e sensuais, libe os de qualque o ganização o gânica e ep esen a i a ao passa em a es a em modulação í mica de ido ao mo imen o de di e enciação da ida como de i . O de i é o que de e se sen ido na i ência a qui ec ónica assim como pelo a qui ec o enquan o c ia e p ojec a; é o luga da he e ogénese da ida e da a e ao qual o a qui ec o de e acede e habi a . 7 ABSTRACT Habi us: Deleuze and he A chi ec u al Expe ience Ma co An ónio Ne es de Ab eu Pe ei a KEYWORDS: Habi , Li e, Becoming, Sensa ion, Body, T anscenden al Empi icism. The p esen disse a ion hinks he a chi ec u al expe ience in he ield o Gilles Deleuze’s anscenden al empi icism, ha ing as main concep his de ini ion o habi . We p e end do demons a e ha he a chi ec u al ecep ion e eals i sel in habi as li e. Deleuze in his book o 1968, Di e ence and Repe i ion, de ines he habi as li ing p esen , p oduce o di e ences and sensa ions; which will allow, on he one hand, o dissol e he no ma i e pe spec i e o habi as epe i ion o he Same and, on he o he hand, place he habi in he ield o aes he ics and he a chi ec u al li ingness in he habi . The habi as li ing p esen is he concep ha a icula es Deleuze’s aes he ic wi h he his on ology o he uni oci y o Being; being he a chi ec u e, in he domain o a , he mos exp essi e example o his aes he ic-on ological ela ion because o he in ima e and na u al connec ion o a chi ec u e wi h he eali y o e e yday li e. A chi ec u al wo ks o a ma ch, in hei li ingness, a and li e in a single aes he ic-on ological mo emen , ele a ing e e yday li e o a . This is only comp ehensi e h ough Deleuze´s anscenden al empi icism philosophy because in i s co e he e is an un imely and u ious i alism ha can only be el as sensa ion. Sensa ion ha is el by an in ensi e and sensual body and hough , bo h ee o any o ganic and ep esen a i e o ganiza ion when hey become hy hmic modula ion which is p oduced by he di e en ia ion mo emen o li e as becoming. Becoming is wha mus be el in he a chi ec u al li ingness and by he a chi ec as he c ea es and p ojec s cons uc ions; i is he place o he he e ogenesis o li e and a o which he a chi ec mus ha e access and inhabi . 8 ÍNDICE INTRODUÇÃO 9 I – DO HÁBITO 12 1. Hume à luz de Deleuze 13 2. O hábi o como p esen e i o 24 3. Da memó ia, do e e no e o no e do pu o de i 40 II – DA EXPERIÊNCIA ARQUITECTÓNICA NO HÁBITO 54 1. Da unção e da a e 55 2. Da expe iência a qui ec ónica: o habi a 73 3. O ou o lado da expe iência a qui ec ónica: o a qui ec o 92 CONCLUSÃO 109 BIBLIOGRAFIA 110 LISTA DE IMAGENS 113 ANEXO I – IMAGENS 116 15 nem con eúdo p é-es abelecido; não é passí el de se conhecida senão como pe cepção, ou melho , como sucessão de pe cepções: imp essões e ideias14. É das pe cepções que a men e adqui e a sua iden idade, mais especi icamen e das ideias, que são dadas na imaginação como colecção inde e minada e deso ganizada, não como sis ema15. To na- se e iden e a elação de iden idade en e a men e, a imaginação e as ideias, con o me ealçado po Deleuze16. Es a noção é undamen al pa a se comp eende , po um lado, a in e p e ação deleuziana da iloso ia de Hume e, po ou o lado, o papel que a imaginação em na cons i uição do hábi o, an o em Hume como em Deleuze. Is o po que pa a Deleuze a iloso ia de Hume es á assen e na imaginação, com odas as ou as aculdades – memó ia, en endimen o, sensibilidade – a de i a em da imaginação e a ope a em com o ma e ial o necido po es a17; que em a capacidade de p oduzi espon aneamen e imagens, is o é, passi amen e. É nes e sen ido que Deleuze de e mina uma dupla unção na imaginação, que co esponde a dois ní eis: a imaginação sem se aculdade, que ecebe as ideias desconexas das imp essões (a omismo); a imaginação o nada aculdade, onde se elacionam as ideias dadas (associacionismo), que depois são objec o da acção das ou as aculdades. No p imei o ní el, no seu es ado b u o, a imaginação não se e e e a um sujei o, nem é uma ope ação lógica; é um ag egado ou uma amálgama de ideias, que apa ecem e passam na imaginação sem a sua in luência; p ecedendo e sendo independen es de qualque sujei o18. É um luxo caó ico de ideias, o “ undo da men e”19, diz Deleuze; o que e oca imedia amen e a noção deleuziana de um inconscien e p odu i o ou as suas análises sob e a elação o ma- undo em á ios domínios (on ologia, a e, polí ica, e c.). Se, em Hume, o undo é a imaginação des egulada, a imaginação o na-se aculdade e, consequen emen e, na u eza humana, quando ganha o ma a pa i do undo; 14 Da id Hume di e encia as imp essões das ideias pelo g au de o ça e de i acidade com que a ec am a men e. As imp essões a ec am com mais in ensidade a men e, po que são aquilo que p imei a e imedia amen e apa ecem nela, is o é, a sensação (sen idos e sen imen o, a es u u a da sensibilidade); que são os dados imedia os da men e e a sua o igem. A imp essão na men e impulsa um ac o e lexi o, uma imagem, uma ideia. As ideias são os dados mediados da men e; são imagens esba idas e énues copiadas das imp essões, e lexões do pensamen o que pe manecem depois das espec i as imp essões des anece em. Sob e a dis inção en e imp essões e ideias em Hume, c . T 1.1.1, pp. 29-35. 15 A es a colecção de ideias deso ganizadas na imaginação Da id Hume denomina de “ he ancy”, do g ego “phan asia”. 16 ES, p. 3. 17 Sob e a i acidade das ideias e a sua elação com o ac o de as aculdades da memó ia, dos sen idos e do en endimen o de i a em da imaginação, c . T 1.4.7.3, pp. 314-315. 18 Da id Hume a gumen a que as pe cepções pa icula es são independen es de qualque sujei o, não sendo necessá ia uma unidade sin é ica p é-es abelecida que as uni ique à pa ida. “Elas são odas di e en es, dis inguí eis e sepa á eis uma das ou as; podem conside a -se sepa adamen e e podem exis i sepa adamen e, não necessi am de nada pa a lhes sus en a a exis ência” (T 1.4.6.2, p. 300). 19 ES, p. 4. 16 ou seja, quando o mo imen o caó ico da imaginação é con olado e o ganizado sob a lógica dos p incípios na u ais, o nando-se a imaginação uma sucessão de ideias conca enadas. Dois aspec os são undamen ais nes a ope ação de ligação ou de sín ese: o e ei o dos p incípios na imaginação e a passi idade da imaginação. Os dois aspec os es ão in e elacionados. Sendo a imaginação na u almen e passi a e ecep i a, ela p ecisa de se ac i ada pa a a ligação pode ealiza -se; mas como os p incípios anscendem a imaginação, o dado, ela de e necessa iamen e pe manece passi a depois de ac i ada, pa a con inuamen e pode so e os e ei os dos p incípios na u ais e, assim, man e -se a unciona como aculdade. Mas o que signi ica es a passi idade ac i ada? Quando a imaginação é ac i ada, não se o na ob iga o iamen e ac i a, deixando de se passi a? Não começa ela a agi pela sua on ade, enquan o sujei o ac i o, agen e da acção? Como pode uma passi idade ac i ada pe manece passi a? A passi idade da imaginação é uma condição sine qua non pa a a sua ac i ação, al como e e e Deleuze: “a men e não pode se ac i ada pelos p incípios da na u eza sem pe manece passi a. Ela so e os e ei os”20. Po ou as pala as, a imaginação enquan o aculdade pe manece ob iga o iamen e numa passi idade ac i ada; não age sob e si mesma, não é o agen e causado da sua p óp ia acção ou mo imen o; pelo con á io, é objec o da acção de p incípios na u ais que a anscendem e cuja ac uação, que não pode con ola , a azem anscende -se, is o é, i além do dado, c e . A anscendência é p odu o de uma passi idade ac i ada, não de um ac o conscien e e in encional de um sujei o. Aliás, é no mo imen o de anscendência que me de e mino como sujei o ao mesmo empo que me ul apasso como anscendência21. “O sujei o de ine-se po e como um mo imen o, mo imen o de se desen ol e a si mesmo. O que se desen ol e é o sujei o. Aí es á o único con eúdo que se pode da à ideia de subjec i idade: a mediação, a anscendência”22. É nes e sen ido que Deleuze az da passi idade ac i ada o pa adoxo da iloso ia de Hume: “[o] pa adoxo coe en e da iloso ia de Hume é ap esen a uma subjec i idade que se ul apassa e que nem po isso é menos passi a”23. A passi idade ul apassada não é a de um sujei o, po que, como imos, não exis e num p imei o ní el; nem ele em essa capacidade quando cons i uído. A ul apassagem é dada, mas num sen ido comple amen e dis in o das ideias dadas na 20 ES, p. 7. 21 ES, p. 90. 22 ES, p. 90. 23 ES, p. 8. 17 imaginação; é dada como p á ica, como a ecção do espí i o, como imp essão de e lexão24. A anscendência é um ac o empí ico, não um concei o do en endimen o25. Ao mo imen o de au o-cons i uição do sujei o na men e, que dize , à anscendência, Deleuze chama de “de i sujei o”26. De i -sujei o é, p ecisamen e, se le ado a i além do dado, a a i ma mais do que se conhece, a anscende enquan o se con empla, não enquan o se age27; é o i da na u al passi idade a-subjec i a da men e à subjec i idade ac i a. “À medida que os p incípios me gulham o seu e ei o na p o undidade do espí i o, o sujei o, que é esse p óp io e ei o, o na-se cada ez mais ac i o, cada ez menos passi o”28. Mas mesmo no seu g au máximo de ac i idade, o sujei o nunca é o agen e da acção, mas aquele que so e os e ei os com maio in ensidade29; e sendo da na u eza dos e ei os p oduzi imp essões, en ão, “digamos que o sujei o é, p imei amen e, uma ma ca, uma imp essão deixada pelos p incípios, que se con e e p og essi amen e numa máquina capaz de u iliza essa imp essão”30. Que imp essão é es a que quali ica a men e como sujei o? “É p eciso começa pela imp essão pu a e pa i dos p incípios. Os p incípios, diz Hume, agem na men e. Qual é essa acção? A espos a é sem ambiguidade: o e ei o do p incípio é semp e uma imp essão de e lexão. A subjec i idade se á, po an o, imp essão de e lexão e nada mais”31. O que é uma imp essão de e lexão? Uma imp essão de e lexão é a sensação p oduzida na men e no p eciso momen o em que duas ideias são elacionadas32: uma paixão. A dis inção não se e ec ua en e as imp essões de sensação e as ideias, como manda a adição epis emológica, mas en e as imp essões de sensações e as imp essões de e lexão, ou di o de ou o modo, a “di e ença não se encon a, pois, en e ideias e imp essões, mas en e duas espécies de imp essões ou ideias, as imp essões ou ideias de e mos 24 ES, pp. 11-12. 25 ES, p. 125. 26 ES, p. 8. 27 ES, pp. 7-8. 28 ES, p. 127. 29 ES, p. 127. 30 ES, p. 127. 31 ES, p. 127. 32 Ci ação de pa e do ex o de Da id Hume, em o T a ado da Na u eza Humana, sob e a dis inção p ocessual en e as imp essões de sensação e as imp essões de e lexão: “As imp essões podem di idi -se em duas ca ego ias: as de sensação e as de e lexão. A p imei a ca ego ia su ge o igina iamen e na alma, a pa i de causas desconhecidas. A segunda é em g ande pa e de i ada das nossas ideias, na seguin e o dem: p imei o uma imp essão a inge os nossos sen idos e az-nos pe cebe calo ou io, sede ou ome, p aze ou do de qualque espécie. Des a imp essão a men e i a uma cópia, a qual pe manece depois de desapa ece a imp essão: é o que denominamos ideia. Es a ideia de p aze ou de do , quando eg essa à alma, p oduz no as imp essões de desejo e a e são, de espe ança e medo, que podem p op iamen e chama -se imp essões de e lexão, po que de i am dela” (T 1.1.2.1, p. 36). 18 [imp essões e ideias simples] e as imp essões ou ideias de elações [imp essões e ideias complexas]”33. Es a dis inção de i a do abalho dos p incípios sob e o dado. Enquan o as imp essões de sensação são dadas à men e pela expe iência, as imp essões de e lexão são o e ei o da acção dos p incípios na men e. Os p incípios ope am en e a men e e o sujei o, en e “ce as imp essões de sensação e as imp essões de e lexão, azendo com que es as p ocedem daquelas”34; e êm uma dupla unção: selec i a e cons i uin e. Seleccionam ce as imp essões de sensação de uma mul iplicidade delas ao mesmo empo que cons i uem imp essões de e lexão em elação com as imp essões de sensação seleccionadas35. Com is o as imp essões de e lexão quali icam de di e sos modos a men e como sujei o (desejo, espe ança, ansiedade, necessidade, e c.); imp essões, que pela sua na u eza imp essi a, só podem se sen idas, não ep esen adas; e, nes e sen ido, a subjec i idade eme ge como sensação36. Consequen emen e, as ideias de e lexão, de i adas das imp essões de e lexão, não são ep esen ações; são ap esen ações, são c enças. É a ideia de um u u o que an ecipo, que p essin o, de o ma no a e o iginal. Daí Deleuze e e i que o que é o iginal é o e ei o dos p incípios na men e37. E o que é o iginal ou p oduzido de no o na men e são as ideias de e lexão, hábi os e c enças, que ão além das ideias simples e a é das ideias complexas. Há, po an o, uma di e ença de na u eza en e as duas espécies de imp essões: “as imp essões de sensação são apenas a o igem da men e; as imp essões de e lexão são a quali icação da men e e os e ei os dos p incípios nela”38. Hume e a a bem es a di e ença ao mesmo empo que coloca a p odução do no o no plano da con emplação: “[p]o que is o é necessá io pa a p oduzi uma no a ideia de e lexão; jamais pode o espí i o, passando em e is a milha es de ezes odas as suas ideias de sensação, ex ai delas uma no a ideia o iginal, a não se que a na u eza enha o jado as suas aculdades de modo al que ele sin a su gi de al con emplação uma no a imp essão o iginal”39. Com base nes a ci ação, e do que já oi di o, o na-se e iden e a azão po que Deleuze, em Di e ença e Repe ição, az da con emplação o p ocesso de cons i uição do hábi o como sín ese do empo. Pa a Deleuze, Hume az do pensamen o con emplação, no 33 Gilles Deleuze, “Hume”, en L’Ille Dése e: Tex es e en e iens 1953-1974, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2002, pp. 227-228 (pa ên eses ec o nosso). 34 ES, p. 128. 35 ES, p. 128. 36 ES, pp. 13-14. 37 ES, pp. 6. 38 ES, p. 15. 39 T 1.2.3.10, pp. 68-69 (sublinhado nosso). 19 qual in oduz o elemen o di e encial, a no idade como o ça mo iz. Em Hume, a aculdade que pe mi e is o é a imaginação, mãe de odas as aculdades; mas só enquan o unciona como al, sob o e ei o dos p incípios, numa passi idade ac i ada, na con emplação. O concei o de passi idade ac i ada é undamen al pa a se comp eende , em Di e ença e Repe ição, a de inição deleuziana de sín ese passi a e sín ese ac i a do hábi o; assim como de sujei o passi o, sujei o ac i o e sujei o la a ; e ainda o p ocesso de con emplação ou de con acção do hábi o. Mais adian e, na segunda secção, e emos como a passi idade ac i ada sob a o ma do hábi o de e mina, em la ga medida, a expe iência a qui ec ónica. Is o po que es á a ica cla o que o hábi o ope a ao ní el da sensação, ou seja, da es é ica. Aliás, oda a iloso ia de Hume é uma es é ica, uma p á ica40, uma psicologia das a ecções da men e, não uma psicologia da men e41. O sensualismo de Hume mos a que o sujei o é paixão, que o hábi o é p essen imen o, que o pensamen o é sensação, que o Eu é con emplação. E a ques ão es á mesmo na con emplação, em “sabe se o eu, ele mesmo, não é uma con emplação, se não é em si mesmo uma con emplação – e se se pode ap ende , o ma um compo amen o e o ma a si p óp io a não se con emplando”42. Se al o o caso, como de ende Deleuze, en ão, sendo Eu hábi os, é con aindo hábi os na con emplação que me cons i uo como sujei o e me pe cepciono como Eu. Qual a na u eza des a con acção? Em Di e ença e Repe ição, Deleuze dis ingue dois ipos de con acção: (1) con acção de um dos elemen os ac i os de um caso, po exemplo A, seguido da dila ação do ou o elemen o, B, cons i uindo ambos dois empos opos os de uma sé ie do ipo AB, sís ole-diás ole; (2) con acção ou usão de sucessi os casos AB numa alma con empla i a43. Os dois não de em se con undidos. O p imei o ipo é uma con acção ac i a, onde cada um dos elemen os é is o como uma acção independen e, opondo-se ao ou o. O segundo ipo é uma con acção passi a que se cons i ui como hábi o, o nosso hábi o de i e , is o é, a espe ança ou c ença que o nosso caso con inue; c ença que esul a da ex acção de um sen ido da usão de casos sucessi os 40 ES, p. 117. 41 A men e quando omada como objec o de uma ciência da na u eza, dá o igem a uma psicologia da men e, que, na ealidade, não é possí el le a a cabo po que a men e não exis e o a das pe cepções nem sem pe cepções; sendo cons i uída, somen e, pelo mo imen o de passagem das pe cepções. Mas, como e e e Deleuze, se o objec o o a colecção de pe cepções e os e ei os que as suas combinações êm sob e a men e, e não a men e po si só, en ão, odo o espec o da expe iência humana se á englobada “numa psicologia das a ecções da men e” (ES, p. 1). 42 Gilles Deleuze, Di e ença e Repe ição, adução de Luiz O landi e Robe o Machado, p e ácio de José Gil, Relógio D’Água, 2000, p. 146 (do a an e se á usada a ab e ia u a DR). 43 DR, pp. 146-147. 20 numa alma con empla i a, em que cada caso implica, necessa iamen e, a con acção dos dois elemen os independen es e sucessi os que o compõem. Sem a ex acção de uma di e ença en e dois elemen os independen es que se seguem um ao ou o, apenas há epe ição ins an ânea ou descon inuada, sendo es a egida sob a condição do p imei o e mo e de desapa ece pa a o segundo apa ece ; o que o na impossí el a cons i uição de casos po que a epe ição se des az à medida que se az, não ha endo p og essão (es ado da ma é ia como mens momen anea44). E se, com base na expe iência, o u ilizado o en endimen o pa a liga os dois e mos e, assim, o ma casos, o único c i é io que se encon a pa a a epe ição é, de aco do com Deleuze, a sua sucessão empo al sob a eg a da semelhança ou da iden idade; eg as que o ien am a causalidade lógica do en endimen o, mas que não in e em uma no idade do dado45. Como diz Deleuze em Empi ismo e Subjec i idade, o en endimen o, po si só, não consegue ex ai conclusões do dado na expe iência po que “o aciocínio não é imedia amen e dado no en endimen o”; é “p eciso que o en endimen o eceba de um ou o p incípio, que não a expe iência, a aculdade de i a conclusões da p óp ia expe iência, de ul apassa a expe iência e de in e i ”46. Es e ou o p incípio é o hábi o, que p omo e a usão na imaginação de casos, dados como sepa ados na expe iência, e a p odução de c enças; ma é ia a pa i do qual o en endimen o pode aciocina sob e a expe iência47. De no a que as conclusões do en endimen o não são c enças, são aciocínios sob e as c enças. A c ença é um p odu o exclusi o do hábi o como esul ado da usão de casos na imaginação; ela é, p ecisamen e, anscendência: o mo imen o de i pa a além da expe iência, de ul apassa o dado, de a i ma mais do que se conhece, endência “que nos az passa de uma imp essão ou de uma ideia dadas à ideia de alguma coisa que não é ac ualmen e dada”48: uma elação, como designa sin e icamen e Deleuze. É a elação que az a epe ição p og edi e cons i ui -se hábi o, pelo ac o de p omo e a simples e na u al passagem de uma ideia a ou a na imaginação: quando A su ge, sus en ado na minha memó ia, agua do na u almen e o apa ecimen o de B. “A epe ição o na-se uma p og essão e mesmo uma p odução, quando não cessa de se conside ada ela i amen e aos objec os que ela epe e, nos quais ela nada muda, nada descob e e nada p oduz, pa a 44 DR, p. 141. 45 ES, p. 64. 46 ES, p. 64. 47 ES, pp. 64-65. 48 Gilles Deleuze, “Hume”, en L’Ille Dése e: Tex es e en e iens 1953-1974, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2002, p. 228 (sublinhado nosso). 21 a conside a , pelo con á io, na men e que a con empla e no qual ela p oduz uma no a imp essão, «uma de e minação a le a os nossos pensamen os de um objec o a ou o», «a ans e i o passado ao po i », uma espe a, uma endência”49. A mesma ideia é sin e izada po Deleuze logo no início do capí ulo II, Repe ição pa a si mesma, de Di e ença e Repe ição: “A epe ição nada muda no objec o que se epe e, mas muda alguma coisa no espí i o que a con empla”50. É o pa adoxo da epe ição: só há epe ição po que es a in oduz na alma que a con empla uma di e ença, uma no idade, uma mudança. Com es e pa adoxo, Deleuze p e ende desa icula o senso comum de de ini a epe ição como epe ição do Mesmo; a i mando, em oposição, que só há epe ição quando há di e ença ou mudança numa alma con empla i a. Repe ição que não é consumada no en endimen o, nem o hábi o aí cons i uído, mas na imaginação como con acção. Como unciona mecanicamen e a con acção do hábi o na imaginação? Mais do que mecânica, de emos ala de maquinismo, is o pa a não es ala mos pa a o campo da magia. É que há algo de mágico e de mis e ioso na o ma como se con aem hábi os. É es anho como nos habi uamos a ce as coisas. De epen e, sem da mos po isso, habi uamo-nos a algo, o nando-se o hábi o ão na u al como espi a ; como es emunha a linguagem quando diz que “o hábi o é uma segunda na u eza”, que ende a anula a p imei a ou a an e io . Daí pode mos a gumen a que somos hábi os e nada mais. Mas aqui si uamos a ques ão no campo da opinião comum, da gene alidade ou do eso é ico. Pa a e i a des ios des a na u eza, p imei o amos pe cebe como é cons i uído o hábi o em Hume sob a pe spec i a deleuziana; pa a de seguida analisa mos a undo como Deleuze se di e encia de Hume na o ma como concebe a con acção do hábi o. Já imos que em Hume, como e ei o dos p incípios de na u eza humana na imaginação, o hábi o é cons i uído pela passagem de uma ideia dada a ou a que não é ac ualmen e dada. Mas quais são es es p incípios e como uncionam? A ope ação de conca enação de ideias é o e ei o dos p incípios de associação, onde a causalidade em um es a u o especial em elação à con iguidade e à semelhança. Es a ope ação, de ido à já e e ida passi idade ac i ada da imaginação, não é ealizada pela imaginação, mas na imaginação51. Es a, po se numa p imei a ins ância um caos pe cep i o, ap esen a, segundo Deleuze, uma ac i idade na u al des egulada e deli an e, uma an asia. “Não há 49 ES, p. 65. 50 DR, p. 141. 51 ES, p. 4. 22 cons ância ou uni o midade nas ideias que enho. Nem há cons ância e uni o midade na o ma como as ideias são ligadas na imaginação: apenas o acaso az es a ligação”52. A cons ância e a uni o midade na conca enação de ideias é dada pelos p incípios de associação, que, ao a ec a am a imaginação, subs i uem o acaso pela lógica; eles o necem as eg as da ac i idade men al, sob as quais a mul iplicidade de ideias deso ganizadas o na-se uma ede con ínua de ideias, um sis ema. “Os p incípios de associação es abelecem en e as ideias elações na u ais. Na men e, elas o mam uma ede, como uma canalização; já não é o acaso que az passa de uma ideia a ou a, uma ideia in oduz na u almen e uma ou a segundo um p incípio; ela é acompanhada po ou a na u almen e”53. Po “na u almen e” ou po “ elações na u ais”, Deleuze que dize que cada ideia, pelo seu con eúdo, selecciona um dos p incípios ao mesmo empo que ou a ideia é con ocada segundo o p incípio seleccionado; e assim sucessi amen e. Es a sua e e na u al passagem de uma ideia a ou a, sob a lógica dos p incípios, é que az a men e adqui i uma endência54. Es a endência é a men e de i na u eza humana. Nes e sen ido, a na u eza humana não é a cons ância ou a uni o midade de uma ideia na men e, mas a cons ância e a uni o midade do mo imen o de passagem de uma ideia pa icula a ou a segundo uma elação de associação e de paixão55. O que a elação az é, pa adoxalmen e, ixa , ou sin e iza , o mo imen o num i mo inin e up o. Di o de ou o modo, a elação modela o mo imen o de passagem; e com isso man ém a imaginação cons an e e uni o me, ou seja, a unciona como aculdade, a se na u eza humana. A endência é cons i uição do hábi o; habi uamo-nos a associa ce as ideias pa icula es de uma de e minada o ma, endo como modelo a memó ia de expe iências passadas, o que nos pe mi i an ecipa , c e , num de e minado esul ado. O hábi o é, des e modo, compos o de dois momen os: in e i e c e . Mais p ecisamen e, o hábi o é o mo imen o en e os dois, que os cons i ui ao mesmo empo que os con ai num único mo imen o com dois empos. Daí Deleuze, em Di e ença e Repe ição, de ini a imaginação “como um pode de con adição: placa sensí el”56, po que ela e ém o p imei o elemen o de um caso quando o ou o apa ece. “Ela con ai os casos, os abalos, os ins an es homogéneos e unde-os numa imp essão quali a i a in e na de de e minando peso. Quando A apa ece, agua damos B com uma o ça co esponden e à imp essão 52 ES, p. 4. 53 ES, p. 139. 54 ES, p. 7. 55 DR, p. 142. 56 DR, p, 142. 23 quali a i a de odos os AB con aídos”57. O a, aqui es á uma ca ac e ís ica mui o especial do hábi o: ele é o mado p og essi amen e. Hume explica: “[ ]is o que o hábi o, que p oduz a associação, nasce da equen e conjunção de objec os, de e a ingi a sua pe eição g adualmen e, e de e adqui i no a o ça em cada caso que cai sob e a nossa obse ação”58. Conside ado como p incípio da na u eza po Hume – o hábi o de con ai hábi os –, Deleuze ealça que não deixa de se pa adoxal que o hábi o es eja em cons an e o mação, já que, supos amen e, um p incípio de e se imu á el. Não é o caso do hábi o. O hábi o é o p incípio da p obabilidade, sendo cada g au de e minado do hábi o uma p obabilidade; mas, p ecisamen e, po se um p incípio, e e e Deleuze, o hábi o não pode de i a da p obabilidade que de e mina, pois es a é uma conclusão lógica do en endimen o59. A elação que de ém do e ei o do p incípio do hábi o é de ou a na u eza; é uma causalidade na u al que p ecede e de e mina a causalidade lógica do en endimen o, a p obabilidade. É que a causalidade na u al não espe a esul ados com base em p obabilidades, como az o en endimen o; ela an ecipa esul ados com o g au máximo de in ensidade que a é àquele p esen e o hábi o sus en a. É uma imp essão quali a i a, uma sensação; não um aciocínio ou p obabilidade. É nes e sen ido que, segundo Deleuze, a causalidade em Hume ap esen a duas de inições que abalham em conjun o sob a o ien ação, espec i amen e, do p incípio da expe iência e do p incípio do hábi o: conjunção de objec os semelhan es no en endimen o e a passagem de um objec o a ou o na imaginação60. Deleuze sin e iza: “O p incípio do hábi o, enquan o usão de casos semelhan es na imaginação, e o p incípio da expe iência, enquan o obse ação de casos dis in os no en endimen o, combinam-se, po an o, pa a p oduzi ao mesmo empo a elação e a in e ência segundo a elação (c ença), em con o midade às quais unciona a causalidade”61. A causalidade em um es a u o especial, com Deleuze a des acá-la dos es an es p incípios, e com azão, po que a elação causal es á no cen o da ac i idade men al; a pa i da qual se o mam os hábi os e as c enças, que são a base e o p incípio do conhecimen o pa a Hume. A elação causal é especial, p ecisamen e, “po que não nos az apenas passa de um e mo dado à ideia de alguma coisa que não é ac ualmen e dada. A 57 DR, p, 142. 58 T 1.3.12.2, p. 169. 59 ES, p. 62. 60 ES, p. 65. 61 Gilles Deleuze, “Hume”, en L’Ille Dése e: Tex es e en e iens 1953-1974, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2002, pp. 229-230. C . T 1.4.7.3, pp. 314-315. 24 causalidade az-me passa de alguma coisa que me oi dada à ideia de alguma coisa que jamais me oi dada, ou mesmo que não é doá el na expe iência”62. É, po es a azão, que de inimos an e io men e a c ença como anscendência; po que ul apassamos o dado ao in oduzi algo no o no pensamen o que não é dado no p esen e (con iguidade e semelhança) ou que nunca se á nem pode á se (causalidade). Is o signi ica que as elações necessá ias não são dadas na expe iência, nem es ão nos e mos, são ac escen adas po um sujei o con empla i o63, que az as elações se em ex e io es e he e ogéneas aos seus e mos64. Es a é a essência do associacionismo de Hume pa a Deleuze: a ex e io idade das elações es ão num sujei o con empla i o que se au o- cons i ui enquan o se anscende. Deleuze não cessa de ealça a impo ância do concei o de elação no empi ismo de Hume. É a o ma como Hume a i ma a ex e io idade das elações que o di e encia, na opinião de Deleuze, dos es an es empi is as. As elações são ex e io es po que es ão no sujei o, e não nos e mos dados. Mais p ecisamen e, o sujei o é a elação. O sujei o como elação é a anscendência. Su ge, mais uma ez, uma co espondência de iden idade, nes e caso, en e o sujei o, a elação e a anscendência. Tudo acon ece ao mesmo empo, num só e único mo imen o de anscendência, cons uído enquan o in i o e c eio, e no qual me de e mino como sujei o e Eu65. Há, con udo, uma di e ença de na u eza en e o sujei o e o Eu. O sujei o in e e e c ê, ele é o e ei o da anscendência, quali icação da men e; o Eu é o sujei o mais a mul iplicidade de pe cepções deso ganizadas que são a p o undidade da men e, o inconscien e pe cep i o; an o colecção como endência66. O Eu é a e dadei a sín ese da men e, do sujei o, do empo: “sucessão de ideias e imp essões elacionadas, das quais emos eco dação e consciência ín imas”67, sob o qual um caos pe cep i o inconscien e subis e, insis e, pe sis e. Em suma, o Eu é de i hábi o. 2. O hábi o como p esen e i o O maquinismo de con acção em Deleuze é di e en e. Ele começa com Hume, dando ele o ao papel que a imaginação e o associacionismo êm na cons i uição da 62 Idem, p. 229 (sublinhado nosso). 63 ES, p. 8. 64 Gilles Deleuze, “Hume”, en L’Ille Dése e: Tex es e en e iens 1953-1974, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2002, p. 227. 65 ES, p. 90. 66 ES, p. 15. 67 T 2.1.2.2, pp. 329-330. 31 consis ência da alma é dada pela con acção; o seu con eúdo é o mo imen o in ensi o da di e ença i al. Nes e con ex o, o e mo “sín ese” pa ece se demasiado pesado pa a desc e e o p ocesso de con acção. Demasiado es á ico e his ó ico. É o concei o de de i que i á, pos e io e na u almen e, oma o luga da sín ese. Mas en e an o, “[é] essa a sín ese passi a que cons i ui o nosso hábi o de i e , is o é, a nossa expec a i a de que «is o» con inue, que um dos dois elemen os oco a após o ou o, assegu ando a pe pe uação do nosso caso”90. O hábi o é, des e modo, ligado à ida; à cons i uição da p óp ia ida. Vi emos po que con aímos hábi os; somos hábi o de con ai hábi os; somos milha es de hábi os espalhados pelo co po: “É p eciso a ibui uma alma ao co ação, aos músculos, aos ne os, às células, mas uma alma con empla i a cujo papel é con ai o hábi o. Não há nis o qualque hipó ese bá ba a ou mís ica: o hábi o aí mani es a, pelo con á io, a sua plena gene alidade, que não só diz espei o aos hábi os sensó ios-mo o es que emos (psicologicamen e), mas, em p imei o luga , aos hábi os p imá ios que somos, às milha es de sín eses passi as que nos compõem o ganicamen e. É con aindo que somos hábi os, mas é pela con emplação que con aímos. Somos con emplações, somos imaginações, somos gene alidades, somos p e ensões, somos sa is ações.”91 O i alismo de Deleuze é undamen al pa a as nossas p e ensões de liga o hábi o à expe iência a qui ec ónica. Nunca se á demais sublinha o liame ín imo e p o undo en e o hábi o e a ida; e de como es a ligação des ela a expe iência a qui ec ónica na sua o alidade e ulgo ; e de como, ambém, a con emplação isual de ob as a qui ec ónicas, mé odo adicional de uição es é ica, es á, na ealidade, subo dinada à con emplação con aen e impe cep í el do hábi o. A pe gun a a aze nes e momen o é: o que é con emplado na con acção? A espos a é cla a: “[n]ão nos con emplamos, mas só exis imos con emplando, is o é, con aindo aquilo de que p ocedemos”92. Es e con empla con aen e p oduz um p aze singula , uma bea i ude, que, de ce o modo, em algo de na císico; não no sen ido adicional do concei o, onde exis e uma au o-sa is ação na con emplação na nossa p óp ia imagem e lec ida, que a aga o Eu; mas no sen ido de uma con emplação da nossa p óp ia p o eniência, da nossa coe ência sec e a, cuja con acção o na sensí el e 90 DR, p. 147. 91 DR, p. 147. 92 DR, p. 147. 32 conse a na sensação, não numa imagem93. É, po an o, um p aze p oduzido po um exis i de di ei o que impele a con inuidade da ida na di e ença. Deleuze dá um belo exemplo de Samuel Bu le 94, que mos a que só há con inuidade no hábi o; que não é nada mais que o hábi o de con inua . Con inuamos po que milha es de hábi os em nós nos azem con inua , jun os, no hábi o: “Há uma con acção da e a e da humidade que se chama umen o, e es a con acção é uma con emplação e au o-sa is ação des a con emplação. Pela sua simples exis ência, o lí io can a a gló ia dos céus, das deusas e dos deuses, is o é, dos elemen os que ele con empla, con aindo. Que o ganismo não é ei o de elemen os e de casos de epe ição, de água, de azo o, de ca bono, de clo e os, de sul a os con emplados e con aídos, en elaçando, assim, odos os hábi os pelos quais ele se compõe? […] [T]udo é con emplação!”95. De emo-nos nes e pon o, da ida e do hábi o, po que é essencial sabe o que es á em jogo ao anspo es a isão da ida e do hábi o pa a a expe iência a qui ec ónica; e é, de ac o, de ida que se a a. Só há ida, de in ini as o mas. Ten ámos ugi da supe s ição e do eso é ico, e cá es amos nós, no mis é io da ida, nos seg edos do hábi o, me gulhados no espi i ual com Samuel Bu le . Mas, na ealidade, es amos no campo de uma sensibilidade a ís ica, onde a ida é sen ida no seu mo imen o de génese, uma es é ica i al. Tudo o es o em Deleuze deco e daqui. É po es a pe spec i a sob e a ida que Gilles Deleuze é ão ap eciado. E apesa des e seu lado espi i ual, em uma densidade e um igo concep ual assinalá el; combinação que me lança semp e no ealismo mágico de Gab iel Ga cia Má quez: a p ecisão da pala a, a magia da pala a. 93 As ques ões do p aze e do inconscien e azem imedia amen e eme e -nos à psicanálise e, especi icamen e, a Sigmund F eud. Deleuze não se esqui a a u iliza a psicanálise pa a undamen a um g ande núme o de a gumen os e de concei os em Di e ença e Repe ição. É segu o a i ma que Di e ença e Repe ição, assim como lógica do Sen ido, es ão imp egnados de psicanálise. Já An i-Édipo e Mil Planal os, mais o p imei o, são o esul ado da libe ação de Deleuze da in luência da psicanálise, endo a ob a como linha de o ien ação a ul apassagem do concei o psicanalí ico do complexo de édipo, inaugu ando uma segunda ase no pensamen o deleuziano. Sob a in luência da psicanálise, Deleuze eco e a Sigmund F eud pa a undamen a as ês sín eses do inconscien e, que êm co espondência com as ês sín eses do empo. Mas, embo a o inconscien e seja de i al impo ância pa a a nossa ese, a e en e psicanalí ica das análises de Deleuze sob e o ema não se á conside ada, po que le a -nos-ia po ou os caminhos que nos a as a iam da p oblemá ica do hábi o. Nes e sen ido, o inconscien e se á analisado somen e sob o aspec o ilosó ico do abalho de Gilles Deleuze, pa icula men e ligado ao es udo do hábi o. Das análises psicanalí icas de Deleuze, sob e a epe ição e o p incípio do p aze , c . DR, pp. 62-68; sob e as ês sín eses do inconscien e, c . DR, pp. 77-206; sob e a linguagem e o sen ido, c . Logique du Sens, sé ies 26-34; sob e a c í ica ao complexo de édipo e a up u a com a psicanálise, An i-Édipo e Mil Planal os, ambos esc i os com Félix Gua a i. De Sigmund F eud, c . de 1920, “Beyond he Pleasu e P inciple”, in F eud – Comple e Wo ks, ansla o I an Smi h, 2010, pp. 3713-3762. 94 DR, p. 148. 95 DR, p. 148. 33 Se somos uma mul iplicidade de con emplações con aen es, como agi ? Age-se con aindo, não epe indo. A acção é o esul ado da con acção de elemen os de epe ição, que é ealizada num pequeno Eu que con empla, ao ní el da sín ese ac i a psico-o gânica. Es as cons i uem acções p imá ias que uncionam como elemen os de epe ição de casos, que, po sua ez, o mam acções mais complexas con aídas na imaginação po “uma alma con empla i a subjacen e ao sujei o da acção compos a”96. Ou o Eu, ou a escala; a escala mola da sín ese ac i a da consciência. “Sob o eu que age há pequenos eus que con emplam e o nam possí eis a acção e o sujei o ac i o. Não dizemos «eu» a não se po es as mil es emunhas que con emplam em nós; é semp e um e cei o que diz eu”97. A ques ão inicialmen e colocada, “[q]ue somos nós? Nós somos hábi os, o hábi o de dize Eu”98, desdob a-se em odo o seu esplendo . A colecção de Eus passi os é o undo a pa i do qual as acções do Eu como sujei o se o mam; um sujei o que já não é agen e da acção, mas um ac o , um duplo. O Eu sin é ico da consciência e da ep esen ação em como unção sin e iza , ou se se quise , ac ualiza a acção que se o ma no inconscien e consoan e a combinação de sín eses passi as e ac i as; comple a o p ocesso de cons i uição da ealidade. Nes e p ocesso, ao ní el das sín eses ac i as, a imaginação desempenha um papel undamen al. Po um lado, é ela que ex ai da epe ição a di e ença numa alma con empla i a; po ou o lado, “a epe ição, na sua essência, é imaginá ia, pois só a imaginação o ma aqui o «momen o» da is epe i i a do pon o de is a da cons i uição, azendo com que exis a aquilo que ela con ai como elemen os ou casos de epe ição”99. A epe ição não é aqui uma sequência de elemen os e de casos undados numa memó ia ep esen a i a; em ez disso, oda a epe ição é con aída num só ins an e, epe ida de uma só ez pa a odas as ezes na di e ença. En e a epe ição em si cons an emen e abo ada e a epe ição desdob ada pa a nós na ep esen ação, mo e-se a di e ença, o pa a-si da epe ição, a epe ição imaginá ia. Nes e sen ido, Deleuze diz o seguin e: “[a] di e ença habi a a epe ição. Po um lado, como se osse em comp imen o, a di e ença az-nos passa de uma o dem pa a ou a da epe ição: da epe ição ins an ânea, que se des az em si, à epe ição ac i amen e ep esen ada po in e médio da sín ese passi a. Po ou o lado, em p o undidade, a 96 DR, p. 149. 97 DR, p. 149. 98 Gilles Deleuze, “P é ace Pou L’Édi ion Amé icaine de Empi ism e Subjec i i é”, en Deux Régimes de Fous: Tex es e En e iens 1975-1995, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2003, p. 342. 99 DR, p. 149. 34 di e ença az-nos passa de uma o dem de epe ição pa a ou a e de uma gene alidade pa a ou a nas p óp ias sín eses passi as”100. A di e ença es á, po an o, en e duas epe ições. O p imei o caso co esponde à con acção em elação com a gene alidade. Recupe emos a essência do mo imen o de con acção: quando A su ge, espe o o apa ecimen o imedia o de B. A espe a ou a expec a i a é a di e ença ex aída da epe ição numa alma con empla i a. A di e ença is a como gene alidade em uma ace ol ada pa a o passado pa icula , e a ou a ol ada pa a o u u o das p obabilidades, com base no qual a acção e a ep esen ação são ealizadas na sín ese ac i a da consciência. É a passagem da mul iplicidade caó ica de ins an es à acção e à ep esen ação. Es a di e enciação (“di é encia ion”) não deixa de se de e minada po sín eses passi as que ope am em p o undidade sob ês aspec os: (1) são a condição do su gimen o da di e ença como gene alidade ao p oduzi em in e io men e di e enças e epe ições mais complicadas, ou seja, a gene alidade da di e ença e da epe ição ac ualizam e ecob em di e enças e epe ições mais p o undas; (2) como condição, es as di e enças e epe ições in e nas es ão num p ocesso cons an e de de e minação ecíp oca que se ami ica no in e io das sín eses passi as, con acções implicam con acções, es ando as sín eses em cons an e modulação ou di e enciação (“di é en ia ion”); (3) a sín ese ac i a da consciência – a iden idade e a ep esen ação – é des ei a ou dissol ida numa mul iplicidade de Eus passi os, dando o igem a no as sín eses do empo; só assim o empo passa. To na-se e iden e que ambém a epe ição es á en e duas di e enças, já que a epe ição é o e ei o de dois p ocessos de di e enciação e, in e samen e, a di e ença é ei a pela epe ição, epe ição da di e ença, “a epe ição como di e enciado da di e ença”101. A p imei a sín ese do empo é, po an o, con acção que pe mi e a acção, sendo des ei a, po uma ou a sín ese passi a do empo que não a do p esen e i o, no momen o em que é ealizada a acção po um sujei o ac i o, dando imedia amen e luga a uma no a con acção, a um no o p esen e. Nes e sen ido, es a sín ese é in a empo al, já que é da na u eza do p esen e passa . Is o não signi ica que o p esen e passe ao sai de si, pa a o passado ou o u u o, de inidos como dimensões do empo e ex e io es ao p esen e, po que a única ealidade do empo é o p esen e. “A sín ese do empo cons i ui o p esen e no empo. Não que o p esen e seja uma dimensão do empo. Só o p esen e exis e”102. 100 DR, pp. 149-150. 101 DR, p. 150. 102 DR, p. 151. 35 Também não pode passa pa a o passado ou o u u o como dimensões in e io es do p esen e, senão a lecha do empo deixa ia de exis i . Po um lado, não é possí el eg essa a um passado já sin e izado po que ele es á em cons an e modi icação; se o osse, o sen ido da lecha do empo se ia in e ido. Po ou o lado, o u u o se ia con aminado com acon ecimen os pa icula es ainda an es de se e cons i uído como an ecipação na con acção; a lecha do empo nem se chega ia a o ma . O p ocesso da cons i uição do empo assen a sob e uma modulação cons an e das condições do seu su gimen o, que o na o p ocesso i e e sí el e assimé ico. Deleuze ap esen a a hipó ese de um p esen e e e no103. P esen e que se ia con emplado na sua in ini ude; mas a na u eza ísica da con acção impossibili a es a hipó ese. A con acção cons i ui semp e um p esen e com uma ce a du ação, um p esen e ini o, limi ado, singula ; mas ambém a iado, is o é, os p esen es podem se coex ensi o en e si, udo depende da du ação, es as são múl iplas e sob epos as. “Um o ganismo dispõe de uma du ação de p esen e, de di e sas du ações de p esen e, segundo o alcance na u al de con acção de suas almas con empla i as. Que dize que a adiga pe ence ealmen e à con emplação”104. A adiga ma ca o limi e do p esen e, o seu im, o seu des aze , quando a alma já não consegue con ai o que con empla. A adiga não é de na u eza psicológica, enomenológica ou empí ica; é o gânica, é o des aze da sín ese, da e enção do passado e o mo e pa a o u u o com o objec i o de ul apassa a adiga, pa a esol e uma necessidade. A necessidade é um concei o undamen al pa a comp eende a con inuidade do p esen e; mas ambém pa a o concei o de pu o de i e pa a a na u eza da a qui ec u a e da sua ecepção. A necessidade em, na sín ese passi a do hábi o, um duplo aspec o: a necessidade é en endida como al a sob a pe spec i a da acção e das sín eses ac i as; e é, nas sín eses passi as, sen ida como “ex ema «saciedade»”105: a con acção oi ao seu limi e máximo, e ul apassou-o. O que al a de um lado es á em demasia no ou o; um sis ema em pe pé uo desequilíb io. “P ecisamen e, a necessidade ma ca os limi es do p esen e a iá el”106. O p esen e du a o empo de uma con emplação que se cons i ui en e a eme gência de duas necessidades. “A epe ição da necessidade, e de udo o que disso depende, exp ime o empo p óp io da sín ese do empo, o ca ác e in a empo al des a sín ese”107. A con inuidade do empo depende da conca enação de p esen es, sendo que en e dois p esen es, es á a necessidade 103 DR, p. 151. 104 DR, p. 152. 105 DR, p. 152. 106 DR, p. 152. 107 DR, p. 152. 36 que exp essa uma espe a; assim como en e duas necessidades es á um p esen e. Pa a que um p esen e se ligue a si e a ou o p esen e é semp e p eciso uma espe a. Es a espe a não é subjec i a nem o gânica, mas apa ece na o ma o gânica enquan o necessidade. A espe a cons i ui-se como dimensão do possí el; az com que a ida o gânica seja uma alma con empla i a, in ensi a, espi i ual. A necessidade é o subs a o da espe a e a necessidade seg ega em si essa alma con empla i a, um Eu passi o, “sujei o la a ”108. A espe a é a essência do hábi o: eu espe o que o meu caso con inue, espe ança undada num passado i ual cons i uído no p esen e, pelo p esen e, no qual eu sin o-me e en endo- me habi ualmen e a se . “A eg a é que não se pode i mais dep essa que o seu p óp io p esen e ou, an es, que os seus p esen es”109. A ida é excesso, an o como al a e adiga. Ambas são sin omas da necessidade psicológica e o gânica, signos. Nes e sen ido, o p esen e é um signo, assim como são o passado e u u o como dimensões do p esen e. Mas enquan o o p esen e como sín ese passi a é um signo na u al, já que emen e o que signi ica ao p esen e, logo, o p esen e eme e-se a si mesmo; pelo con á io, o passado e o u u o, p odu o de sín eses ac i as (passagem da imaginação espon ânea às aculdades da memó ia e do en endimen o), são signos a i iciais po que eme em o seu signi icado pa a dimensões dis in as do p esen e110. No p esen e, “[s]ão os signos que «dão p oblema»”111; como signo do p esen e, ele ins au a um campo p oblemá ico ou simbólico, “em que se exp essam as condições do p oblema no seu mo imen o de imanência”112. A necessidade, sendo signo, coloca ques ões. O que se ques iona? Pe gun a-se pela di e ença na epe ição; di e ença essa que é ex aída da epe ição pela alma con empla i a. “Con empla é ques iona . […] As con emplações são ques ões e as con acções são que nela se azem e que êm p eenchê-la são a i mações ini as que se engend am como os p esen es se engend am a pa i do pe pé uo p esen e na sín ese passi a do empo”113. Sob e o undo de sín eses passi as, as sín eses ac i as cons oem campos p oblemá icos onde desen ol em a sua acção, e onde os compo amen os são o mados a pa i das combinações de ambos os ipos de signos. As necessidades e os p oblemas são semp e eno ados o que o na impossí eis espos as p é-es abelecidas bem como a cons ução de ca ego ias que 108 DR, p. 154. 109 DR, p. 152. 110 DR, p. 152-153. 111 DR, p. 276. 112 DR, p. 276. 113 DR, p. 153. 37 de e minem espos as pad ão pa a p oblemas eco en es. Po es a azão, cada p oblema de e se pensado no campo p oblemá ico que ele ins au a enquan o esul ado das sín eses passi as. É um campo simbólico, domínio ico em signos, onde es es ulgu am como hábi os, uma ez que “[o]s signos, ais como os de inimos como habi us ou con acções que se eme em umas às ou as, pe encem semp e ao p esen e”114. O hábi o, como p imei a sín ese do empo, cons i ui-se, assim, como “um p imei o complexo ques ão- p oblema al como ele apa ece no p esen e i o (u gência da ida). Es e p esen e i o, e com ele, oda a ida o gânica e psíquica epousam sob e o hábi o”115. Todos os enómenos o gânicos e psíquicos dependem do hábi o, nos mil hábi os que nos compõem de base no âmbi o das sín eses passi as. As sín eses passi as do empo cons i uem o mundo dos Eus passi os ou sujei os la a es. É o sis ema do Eu dissol ido. “Há eu desde que se es abeleça em alguma pa e uma con emplação u i a, desde que uncione em alguma pa e uma máquina de con ai , capaz, du an e um momen o, de ans asa uma di e ença à epe ição. O eu não em modi icações; ele p óp io é modi icação, sendo que es e e mo designa, p ecisamen e, a di e ença ans asada”116. O mundo do Eu desdob a- se em oda a sua ex ensão e p o undidade: o Eu ep esen a i o e conscien e é sin e izado, ao modo da química, onde liga é ambém p oduzi , sendo o p odu o e éme o da sín ese ac i a ealizada sob e um undo cons i uído po uma mul iplicidade de Eus passi os; es es, po sua ez, são o esul ado de sín eses passi as que dissol em o Eu ou o di e enciam numa mul iplicidade de Eus passi os, que não se de inem “simplesmen e pela ecep i idade, is o é, pela capacidade de e sensações, mas pela con emplação con aen e que cons i ui o p óp io o ganismo an es de lhe[s] cons i ui sensações”117. Já es á a is a que sob a ida psíquica e o gânica mo e-se uma ida ino gânica, o ça sec e a da ida. Depois des a análise ex ensa e de alhada sob e o hábi o, pe gun a-se: qual a ele ância do de alhe expos o pa a a comp eensão da ligação en e o hábi o e a expe iência a qui ec ónica? Como pode o hábi o o na -se uição es é ica de ob as a qui ec ónicas? Não es i emos a pe de empo e espaço? O a, pa a comp eende qualque coisa adequadamen e é p eciso i ao po meno do pa a uso, de o ma a não 114 DR, p. 152. 115 DR, pp. 153-154. 116 DR, p. 154. 117 DR, p. 154. 38 pe manece na gene alidade e, de ce a o ma, na igno ância. E no po meno encon amos a ideia que lhe deu o igem assim como odo o p ocesso da sua consubs anciação. No caso do hábi o, o p esen e es udo e ia ob iga o iamen e de começa com Da id Hume, dado que az do hábi o um dos concei os cha es da sua in es igação sob e a na u eza humana. Ainda mais quando Deleuze dedicou um li o à iloso ia de Hume, no qual, como e ia na u almen e de aze , coloca o hábi o no cen o da cons i uição da subjec i idade e do empi ismo como p á ica. A análise inicial, cen ada em Empi ismo e Subjec i idade, pe mi iu pe cebe melho ques ões que es ão implíci as ou que são p essupos as po Deleuze em Di e ença e Repe ição, quando es e expõe a p imei a sín ese do empo; nomeadamen e: o concei o de passi idade ac i ada; o papel da imaginação, da memó ia e do en endimen o na cons i uição do hábi o e da subjec i idade; a lógica do mo imen o associa i o; a ex e io idade das elações. São concei os impo an es que Deleuze u iliza sem, mui as das ezes, os e e encia ou passando po eles apidamen e. É com Hume que Deleuze começa a sua exposição da sín ese passi a do hábi o, cen ando a sua análise na cons i uição da ida psicológica do sujei o, cons i uída a pa i da epe ição que se o na hábi o. Deleuze ul apassa Hume ao p opo a exis ência de uma ida psico-o gânica e o gânica molecula , compos a de sujei os la a es e almas con empla i as, undo inconscien e e sub- ep esen a i o que ege a sín ese ac i a da consciência. De ex ema impo ância é a subdi isão das sín eses passi as, po que pe mi e que o inconscien e uncione em á ios ní eis de p o undidade ao mesmo empo que se elaciona com a supe ície conscien e. O ní el psico-o gânico, cons i uído po uma mul iplicidade de Eus passi os, é a cha nei a en e um inconscien e p o undo e inde e minado e uma consciência de e minada. É o luga da ap endizagem, da sensação, do p essen imen o, da in uição, das o ças sensí eis ou empí icas an es de se dissol e em no inde e minado ou de se em cap u ados na ep esen ação. Es a concepção do hábi o só é possí el de se o almen e comp eendida à luz do concei o de imanência. Sem isso, o na-se impossí el pe cebe como pode o o ganismo se compos o po uma mul iplicidade de almas con empla i as e de Eus passi os. A imanência es á em cada ín imo de ma é ia, em cada célula; ela é exp essão de uma ene gia i al p odu o a de mais ida, de mais imanência. O empo é o que pe mi e a p odução in ini a de ida a a és de um mo imen o di e enciado , onde cada dob a na alma e cada p ega da ma é ia é di e ença em di e enciação. O empo p oduz a imanência enquan o se cons i ui como imanência, que dize , como empo. Nes e sen ido, o concei o de imanência é o que pe mi e Deleuze a i ma a uni ocidade do se . 39 Em que é que is o se elaciona com a expe iência a qui ec ónica? O liame ín imo e p o undo en e o hábi o e a a qui ec u a é a ida. Ve emos, na segunda secção da disse ação, como desde o seu começo a a qui ec u a se liga com a ida sob a o ma do hábi o no quo idiano. O hábi o, po ém, é adicionalmen e is o como epe ição do Mesmo, e na a qui ec u a é igno ado em a o de ou as i ências. A concepção deleuziana do hábi o pe mi e ul apassa es a pe spec i a edu o a ao ins au a um no o campo de expe imen ação onde o hábi o se cons i ui como uma es é ica da ida: es é ico- on ológico. No âmbi o do hábi o, um no o conjun o de concei os e noções su gem enquan o ou os são modi icados adqui indo no os signi icados, aos quais a a qui ec u a de e eco e pa a a ança e e dadei amen e conhece -se a si p óp ia, no in ini o da sua ex ensão e p o undidade, sendo que mui os deles já se encon am nela, mas cuja de inição e u ilização es á es ingida às ca ego ias da ep esen ação. Dos concei os já analisados, des acam-se os seguin es pela impo ância que i ão e na elação da concepção deleuziano do hábi o com a a qui ec u a: (1) se igno ado é uma das p op iedades mais impo an es do hábi o, já que é undamen almen e no inconscien e que ele abalha e inconscien emen e, como mos a Deleuze, que ele nos molda quo idianamen e, a odo o ins an e; (2) a necessidade como exp essão ísica de uma necessidade p imá ia de a i mação de ida con e e ao concei o de necessidade p esen e na a qui ec u a uma p o undidade nunca an es pensada em oda a sua his ó ia; (3) ligada à necessidade es á a con emplação, concei o que se á undamen al, al como o inconscien e, pa a a dis inção en e a ecepção a qui ec ónica e a adicional uição es é ica assen e na con emplação isual; (4) o hábi o como di e enciação, não como epe ição do Mesmo, es á implicado numa con acção mais p o unda de na u eza on ológica (que se á explicada no capí ulo que se segue), colocando o hábi o, e como e emos, ambém a a qui ec u a, no campo da on ologia; (5) po sua ez, o hábi o como sensação coloca-o no campo da es é ica. Es es concei os podem ainda se mais ap o undados quando o es udo do hábi o é enquad ado na iloso ia do empo de Deleuze, em a iculação com as ou as duas sín eses do empo: da memó ia e do e e no e o no. Nes e sen ido, e embo a possa pa ece uma excu são que se des ia da p esen e linha de in es igação, segue-se uma b e e análise sob e as duas sín eses do empo e o concei o de pu o de i com o objec i o de da mais consis ência e p o undidade ao concei o de hábi o, que de ou o modo não e iam. Mais uma ez, o de alhe é impo an e; é essencial pe cebe como o hábi o unciona em p o undidade. É o de alhe ilosó ico e o po meno cons u i o da a gumen ação. 40 3. Da memó ia, do e e no e o no e do pu o de i O sen ido comple o da p imei a sín ese do empo só é de e minado em conjunção com as es an es duas sín eses do empo: a do passado ou da memó ia e a do u u o ou do e e no e o no. Uma lei u a conjun a das ês sín eses é undamen al pa a comp eende o papel do hábi o na dedução anscenden al das condições que pe mi em a acção do pensamen o. Mas como o in e esse do nosso es udo é o hábi o e a sua elação com a ecepção a qui ec ónica, no âmbi o da iloso ia de Deleuze, não a sua iloso ia do empo, a segunda e a e cei a sín eses se ão sucin amen e ap esen adas; com o objec i o, po um lado, de con ex ualiza de o ma minimalis a, mas essencial, o hábi o na iloso ia do empo de Deleuze; e de, po ou o lado, a icula dois emas impo an es pa a uma análise p o unda do hábi o e da sua elação com a a qui ec u a, nomeadamen e, as duas lei u as do empo p esen es em Lógica do Sen ido, C onos e Aion, e o concei o de pu o de i , que es á ligado ao i alismo de Deleuze, essencial na ecepção a qui ec ónica. Po que é necessá ia uma segunda sín ese do empo? Qual a elação en e ambas? No p esen e i o, passado e u u o são cons i uídos como i uais no p esen e; não exis em, o que signi ica, jun amen e com a adiga, que o p esen e sozinho não se sus en a e ende a dissol e -se. É o pa adoxo do p esen e: ele cons i ui o empo no qual em de passa enquan o p esen e118. Po um lado, o ins an e p esen e não passa po si p óp io; po ou o lado, mo e-se cons an emen e, sal a, imb icam-se uns nos ou os. É p eciso um segundo empo já cons i uído onde se conca ena um p esen e a ou o; um undamen o pa a a undação do empo no p esen e i o. O p esen e é a undação do empo, é o solo sob e o qual se mo e o empo, o que unda a passagem do empo não é o solo, mas o que az o solo desloca -se dando-lhe uma sucessão é o passado. O hábi o é a undação do empo enquan o a memó ia é o undamen o do empo. Mas que memó ia? Temos de dis ingui ês memó ias ou passados: o passado imedia o da e enção do hábi o que pe ence na u almen e ao p esen e ac ual (sín ese passi a do hábi o); o passado ep esen ado de um sujei o (sín ese ac i a da memó ia); o passado imemo ial ou pu o (sín ese passi a da memó ia que unda a an e io ). O passado imedia o de e enção do hábi o não az passa o p esen e po que pe ence a ele, é pa e in eg an e da con acção de ins an es que cons i ui o p esen e e o az e uma du ação, espessu a. A memó ia 118 DR, p. 155. 47 opõem, é que o e e no e o no “não exp ime de o ma nenhuma uma o dem que se opõe ao caos e que o subme e. Pelo con á io, ele não é nada além do que o caos, po ência de a i ma o caos”141. O e e no e o no é o mo o que az gi a o caos, o caosmos. O de i não é, po an o, objec o de qualque juízo ou lei ex e io , mas da a i mação do caos. Deleuze e i a es a noção de He acli o142, conside ando-o o p imei o ilóso o que “ ez do de i uma a i mação”143. O que signi ica aze do de i uma a i mação? É uma dupla a i mação: a i ma-se o de i , mas ambém o se do de i : “o de i a i ma o se ou o se se a i ma no de i ”144. Deleuze des aca dois pensamen os undamen ais de He ácli o, que se pa ecem con adize , mas que Deleuze az deles complemen a es e mu uamen e exclusi os: (1) “não há se , udo es á em de i ”; (2) “o se é o se do de i enquan o al”145. O seg edo pa a a in e p e ação de He acli o do concei o de de i es á, de aco do com Deleuze, na oposição en e a hyb is e o ins in o de jogo; is o, po que, He acli o “comp eende a exis ência a pa i de um ins in o de jogo, az da exis ência um enómeno es é ico, não um enómeno mo al ou eligioso”146. Es a ci ação ence a duas ideias impo an es de Deleuze. P imei o, a ligação do de i ao que Deleuze denomina de jogo ideal; es ando ambos os concei os elacionados com o e e no e o no de inido como c ença no u u o; sendo que, nes e con ex o, c ença designa uma apos a, onde o que é apos ado é a p óp ia ida, oda a ida, num único lance, epe ido a cada ins an e. Segundo, a ida como enómeno es é ico coloca a génese do pensamen o na sensação e na a i mação da Di e ença, não na e lexão ou na ep esen ação do Mesmo. Como es ão os concei os de de i , de jogo ideal e de e e no e o no elacionados? O e e no e o no consubs ancia em si a dupla a i mação do de i num jogo ideal como pensamen o selec i o. O e e no e o no ba alha e ol a a da , ad in ini um, mas o que ba alha e dá é a di e ença e somen e a di e ença em di e enciação. Mas is o não signi ica que a epe ição é p imei a em elação à di e ença, pelo con á io, a di e ença é o que põe essencial, o sin oma cons an e do único. O múl iplo é a a i mação do uno, o de i a a i mação do se . A a i mação do de i é ela p óp ia o se ; a a i mação do múl iplo é ela p óp ia o uno; a a i mação múl ipla é a manei a pela qual o uno se a i ma. «O uno é o múl iplo»”. 141 LS, p. 305. 142 Pa a He acli o, só exis e mudança, udo es á em cons an e mudança. He acli o u iliza a imagem do io pa a “sublinha a absolu a con inuidade da mudança em cada uma das coisas: udo es á num pe pé uo lui como um io” (G. S. KIRK, J. E. RAVEN & M. SCHOFIELD, Os Filóso os P é-Soc á icos, His ó ia C í ica com Selecção de Tex os, adução de Ca los Albe o Lou o Fonseca, Fundação Calous e de Gulbenkian, Se iço de Educação e Bolsas, Lisboa, 5º Edição, 2005, p. 202). 143 N, p. 27. 144 N, p. 27. 145 N, p. 27. 146 N, p. 27. 48 em mo imen o a di e enciação como e e no e o no. É a di e ença, como excesso, que queb a o cí culo me a ísico, desdob ando-o numa linha ec a que ins au a o e e no e o no. A di e ença é semp e p imei a, aquilo que p oduz o desequilíb io e a assime ia do sis ema di e encial de p odução de uma mul iplicidade de singula idades, pequenas di e enças in ensi as. Ela é o desigual em si, pu a di e ença (au o-di e ença ou di e ença em si mesma), que, pa adoxalmen e, p ecede de di ei o o que di e e en e e mos. Uma di e ença pu amen e o mal, um azio, uma cesu a, que az coexis i e comunica oda a di e ença, oda a ida, odo o empo num só e mesmo Acon ecimen o. De i e se , caos e ciclo, mul iplicidade e uno, o mam um jogo ideal de um só lance, onde odo o acaso é a i mado e a necessidade é p oduzida de uma só ez e pa a odas as ezes. O jogo ideal di e e dos jogos humanos, podendo es es se objec o de uma eo ia: (1) a p é-exis ência de um conjun o de eg as que se o nam necessa iamen e ca egó icas quando se joga; (2) as eg as di idem o acaso em p obabilidades cujo c i é io é a i ó ia ou de o a; (3) as p obabilidades são dis ibuídas po um conjun o de jogadas, em que cada uma ope a segundo uma p obabilidade ixa que ecai sob e um de e minado caso; (4) as jogadas êm como objec i o inal de e mina a i ó ia e a de o a147. São jogos undados na causalidade lógica e são pa ciais, is o é, só ocupam pa e da ac i idade humana; po oposição ao jogo ideal, que não em inalidade nem causas, excep o a con inuação do seu p óp io caso, do jogo em si: a ida. O jogo ideal unciona de aco do com os seguin es p incípios. P imei o, não há eg as p é-exis en es, is o é, cada lance p oduz e é acompanhado pela sua p óp ia eg a. Segundo, o acaso não é di idido em p obabilidades, mas a i mado na sua o alidade em cada lance, no qual é ami icado po oda a sé ie do empo. Deleuze, na ob a Nie zsche e a Filoso ia (1962), compa a o jogo ideal a um lança de dados; e, em cada lance, “os dados que são lançados uma ez são a a i mação do acaso, a combinação que eles o mam quando caem é a a i mação da necessidade” 148. O acaso e a necessidade são dois momen os de um só lance de dados: os dados lançados que a i mam o acaso e os que e ec i amen e caem, o mando combinações que a i mam a necessidade. Num só lance a i ma-se odo o acaso. Es e não é di idido em p obabilidades dis ibuídas po uma sucessão de lances cujo esul ado inal se ia uma combinação já an ecipada p obabilis icamen e; pelo con á io, cada lance de dados, de aco do com a combinação 147 LS, pp. 74-75. 148 N, p. 29. 49 p oduzida, az e o na , de no o, odo o acaso enquan o lance de dados. A combinação não é epe ida pelo esul ado combinado de um conjun o de lances, a combinação semp e i o iosa p oduz a epe ição do lance de dados. Se a necessidade é p oduzida pelo acaso, o acaso é epe ido pela necessidade. A necessidade o na-se, assim, a absolu a necessidade do acaso, po que ao se jogado odo o acaso num único lance, ele pe de -se- ia de ez caso não e o nasse pa a, de no o, ol a a se a i mado na sua o alidade. A necessidade assim o ob iga, assim o ça o pensamen o a p og edi . Só há necessidade se o acaso e o na pa a a p oduzi , e só há e o no do acaso pela necessidade. É o pa adoxo do E e no Re o no. “O que Nie zsche chama de necessidade (des ino) nunca é, po an o, a abolição, mas a combinação do acaso em si. A necessidade a i ma-se do acaso enquan o o acaso é em si a i mado”149. Acaso e necessidade a i mam-se mu uamen e, não se anulam nem se con adizem, são “duas ho as de um mesmo mundo, os dois momen os do mesmo mundo, meia-noi e e meio-dia, a ho a em que os dados são lançados, a ho a em que os dados caem”150. O lança de dados a i ma de uma só ez odo o acaso, os dados que caem a i mam a necessidade, o núme o ou o des ino que az e o na odo o acaso enquan o lance de dados. “É nes e sen ido que o segundo empo do jogo é ambém o conjun o dos dois empos ou do jogado [ou do a is a] que ale pa a o conjun o. O e e no e o no é o segundo empo, o esul ado do lance de dados, a a i mação da necessidade, o núme o que eúne odos os memb os do acaso, mas ambém o e o no do p imei o empo, a epe ição do lance de dados, a ep odução e a e- a i mação do p óp io acaso”151. Sabe a i ma o odo o acaso de uma só ez é sabe joga . O mau jogado joga com as p obabilidades dis ibuídas po um conjun o de lances com o objec i o de ob e um esul ado p é-de inido. Es a o ma de joga , acional, es á escondida po de ás da causalidade. “Aboli o acaso ao segu á-lo no ape o da causalidade e da inalidade; em luga de a i ma o acaso, con a com a epe ição dos lances; em luga de a i ma a necessidade, con a com uma inalidade; odas essas são ope ações do mau jogado . Elas êm a sua aiz na azão”152. Segundo Deleuze, a azão assen a numa lógica de inalidade que le a ao essen imen o na epe ição dos lances e à 149 N, p. 30. 150 N, p. 29. 151 N, pp. 32. 152 N, p. 31. 50 má consciência quando o esul ado não é o desejado. Os esul ados ob idos pelo mau jogado são ela i os, mais ou menos p o á eis153. Te cei o, os lances não são nume icamen e dis in os; são quali a i amen e dis in os, no sen ido que odos os lances “são o mas quali a i as de um só e mesmo lança , on ologicamen e uno. Cada lance é ele p óp io uma sé ie, mas num empo mais pequeno que o minimum de empo con ínuo pensá el; a es e mínimo se ial co esponde uma dis ibuição de singula idades”154. Cada lance libe a singula idades ou pon os singula es. O conjun o de odos os lances é complicado no pon o alea ó io semp e mó el (lance único), que não pa a de se desloca pela sé ie, “num empo maio que o maximum de empo con ínuo pensá el”155. Os lances são sucessi os en e si, mas simul âneos em elação a es e pon o mó el que em cada lance c ia eg as no as, ami icando-se po oda a sé ie e al e ando as suas coo denadas. O pon o mó el in ensi ica odo o acaso, dis ibuindo-o po oda a ex ensão da sé ie. “O único lança é um caos, em que cada lance é um agmen o. Cada lance ope a uma dis ibuição de singula idades, cons elação. Mas in és de pa ilha um espaço echado en e esul ados ixos con o me as hipó eses, são os esul ados mó eis que se epa em no espaço abe o do lança único e não epa ido: dis ibuição nómada e não seden á ia, em que cada sis ema de singula idades comunica e essoa, ao mesmo empo implicado pelos ou os, e implicando-os no maio lança . É o jogo dos p oblemas e da pe gun a, não mais o do ca egó ico e do hipo é ico”156. Is o só é possí el comp eende pelo ac o de cada lance se in ini amen e subdi isí el, embo a ini o. Num mesmo lance, as sé ies, compos as po singula idades, c iadas pelo pon o mó el, essoam e comunicam en e si po que o lance se ami ica in ini amen e. Qua o, a ealidade do jogo ideal é o pensamen o e não uma ealidade apa en e. Um jogo sem eg as, sem encedo es nem de o ados, sem esponsabilidade, sem des eza nem causalidade, em que a pe ícia e o acaso se con undem. O jogo ideal só pode se 153 N, p. 31:“[o] uni e so não em inalidade, não exis e inalidade a espe a , assim como não há causas a conhece , é es a a ce eza pa a joga bem. Pe de-se o lance de dados po que não se a i mou o bas an e de uma única ez. Ele não oi bas an e a i mado pa a que se p oduzisse o núme o a al que eúne necessa iamen e odos os agmen os e que, necessa iamen e, az de ol a o lance de dados. De emos concebe , po an o, maio impo ância à seguin e conclusão: o pa causalidade- inalidade, p obabilidade- inalidade, a oposição e a sín ese desses e mos, a eia desses e mos são subs i uídos po Nie zsche pela co elação acaso-necessidade, pelo pa dionisíaco acaso-des ino. Não uma p obabilidade epa ida em mui as ezes, mas odo o acaso numa só ez; não uma combinação inal desejada, que ida, aspi ada, mas a combinação a al, a al e amada, o amo a i; não o e o no de uma combinação pelo núme o de lances, mas a epe ição de um lance de dados pela na u eza do núme o ob ido a almen e”. 154 LS, p. 75. 155 LS, p. 75. 156 LS, pp. 75-76. 51 pensado, e não pode se jogado pelo homem nem po um deus. O empo do Aion é o jogado ideal. “Mas, p ecisamen e: ele é a ealidade do p óp io pensamen o. O inconscien e do pensamen o pu o”157. O inconscien e do pensamen o pu o é que consegue o ma uma sé ie in ensi a num empo meno do que o mínimo de empo con ínuo conscien emen e pensá el (o empo do Aion e as singula idades escapam à consciência acional do cogi o). Cada pensamen o emi e e dis ibui singula idades; e são odos os pensamen os que comunicam num “Longo pensamen o”, pon o mó el “que az co esponde ao seu deslocamen o odas as o mas ou igu as da dis ibuição nómada, insu lando po oda a pa e o acaso e ami icando cada pensamen o, eunindo «de uma ez» o «de cada ez» pa a « odas as ezes». Pois só o pensamen o pode a i ma odo o acaso, aze do acaso um objec o de a i mação. E, se en amos joga es e jogo o a do pensamen o, nada acon ece, e se en amos p oduzi um esul ado di e en e que a ob a de a e nada se p oduz. […] Es e jogo que não exis e a não se no pensamen o, e que não em ou o esul ado além da ob a de a e, é ambém aquilo pelo qual o pensamen o e a a e são eais e pe u bam a ealidade, a mo alidade e a economia do mundo”158. Os p incípios ideais do jogo ideal de inem a elação en e o pensamen o e o acon ecimen o que ans o ma oda a sé ie do empo, is o é, o que p ecede e o que sucede é al e ado. A escolha de exemplos li e á ios po Deleuze em Lógica do Sen ido se e pa a explica como acon ecem al e ações na na a i a nos dois sen idos, pa a ás e pa a a en e, pela in odução de pala as eso é icas que mudam o sen ido da na a i a como um odo. Elas essoam po oda a na a i a, comunicam po odas as sé ies con idas na na a i a. Os acon ecimen os al e am o sen ido de sé ies an e io es e pos e io es; cada acon ecimen o al e a o sen ido do odo e das pa es, essoa po odo o empo. Tudo no seu odo so e uma ans o mação de sen ido. Não se de e, po an o, con undi o absolu amen e no o com um no o começo do nada ou uma up u a his ó ica, ou ainda a c iação de no as en idades. Um acon ecimen o de e se concebido como uma no a selecção que oco e numa sé ie em cons an e al e ação de sen ido. Eu epi o no hábi o, mas a epe ição é de cada ez di e en e; hou e uma al e ação de sen ido que di e encia es a acção de odas as ou as e, simul aneamen e, po se al e a , modi ica odas as ou as, não po causalidade, mas po essonância. O Aion ab e oda a ex ensão do empo (passado e u u o) e, simul aneamen e, o con ai num p esen e que nunca chega a se , um pon o 157 LS, pp. 76. 158 LS, p. 76. 52 mó el. Toda a empo alidade coexis e num momen o in ensi o ou ins an e pu o que é enca nado, segundo um pon o-de- is a, num p esen e i o ansi ó io. Enquan o no C onos só há p esen e, com o passado e o u u o a se em memó ias ou possibilidades de ac o; no Aion só há a empo alidade absolu a, odo o passado e u u o coexis em sem p esen e num empo e e no que jamais é ac ualidade: acaba de oco e e ai oco e , nunca é algo que passa. C onos e Aion são duas lei u as do empo que são mu uamen e exclusi as ao mesmo empo que são complemen a es; mas ambém in ei as quando is as de cada um dos lados, es ando ambas numa elação de de e minação ecíp oca assimé ica: o C onos p ecisa do Aion pa a passa , o na -se passado ao mesmo empo que se di ige ao u u o; o Aion necessi a do C onos pa a pode sai do caos e ganha o ma ao se ixado um conjun o de e minado de elações. Exis e, po an o, um pa adoxo do empo que es á, p ecisamen e, na a i mação mú ua e na eunião des as duas lei u as do empo, apa en emen e i econciliá eis, numa es u u a empo al única que cons i ui a o alidade da ealidade; onde o C onos co esponde ao p esen e i o e ac ual que ca ega consigo o passado e o u u o como suas dimensões, enquan o o Aion é o empo i ual dos acon ecimen os ideais que es ão em cons an e di e enciação, que dize , em de i . Se, po um lado, só o p esen e exis e no empo, cons i uindo na con acção o passado e o u u o, po ou o lado, o passado e o u u o são o que subis e, insis e, pe sis e no empo, di idindo ao in ini o cada p esen e que passa. Em Deleuze, po an o, não há ês dimensões sucessi as, mas duas lei u as simul âneas do empo. Is o signi ica que as ês sín eses do empo que Deleuze ap esen a em Di e ença e Repe ição a iculam-se com as duas lei u as do empo de Lógica do Sen ido; a iculação que pode se expos a sin e icamen e da seguin e o ma, endo como base que só o p esen e exis e no empo: (1) o p esen e i o, empí ico, medido e ac ualizado do C onos, o p esen e do hábi o; (2) o p esen e louco, anscenden al, desmedido e i ual do C onos que ulgu a no undo dos co pos e na p o undidade inconscien e do passado azido ao p esen e como caos ou de i -louco, é o p esen e da sub e são que ende a de uba o p esen e i o; (3) o p esen e do Aion, do e e no e o no, o i ep esen á el que só pode se ep esen ado já que ele não exis e po que se esqui a a odo o p esen e; ele é o p esen e da me amo ose, da con a-ac ualização, do baila ino ou do mímico, que possibili a a exis ência de um p esen e i o da ac ualização, impedindo, po um lado, que es e seja dissol ido pelo p esen e louco e, po ou o lado, 53 que se con unda com o undo caó ico que o acompanha; ele “ em edob a a dob a”159. O Aion ex ai do C onos o sen ido que impede que udo se dissol a, que udo se con unda e pe maneça inde e minado. A con a-ac ualização é a ope ação pu a de sen ido, p ocesso de di e enciação do pensamen o que cons ói o campo do empi ismo- anscenden al onde se pode ope a iloso icamen e (c iação de concei os) ou a is icamen e (c iação de blocos de sensação). O p esen e ap esen a assim um sen ido ipa ido. Todos es es ês p esen es coexis em e es ão numa elação de de e minação ecíp oca que pe mi e a Deleuze a i ma a uni ocidade do Se “como epe ição no e e no e o no”160. O e e no e o no é a sín ese disjun i a, a cesu a que az comunica po essonância oda a mul iplicidade di e encial e odas as dimensões do empo ao mesmo empo que a i ma a disjunção, a mul iplicidade. Ele é o mínimo de se que subsis e, pe sis e, insis e em odo o eal, o possí el e o impossí el; o único Mesmo que e o na e que az gi a o caos como di e enciação, que dize , como p odução de di e ença, de ida. Um único lança pa a oda a mul iplicidade; epe ido incessan emen e, inin e up amen e. O Acon ecimen o que az coexis i e comunica odos os acon ecimen os. O e e no e o no é o ex a-se neu o, o sem sen ido, azio di e encial, o ma azia e pu a do empo do Aion161. Em suma, a uni ocidade signi ica pa a Deleuze o seguin e: “o que é uní oco é o p óp io se e o que é equí oco é aquilo que ele se diz. Jus amen e o con á io da analogia. O se diz-se segundo o mas que não ompem a unidade do seu sen ido a a és de odas as suas o mas […]. Mas aquilo de que ele se diz di e e, aquilo de que ele se diz é a p óp ia di e ença”162. A uni ocidade, po an o, não signi ica que exis e um só e mesmo Se , mas uma a i mação do caosmos de onde sai o cosmos; o caos a pa i do qual a ida é o ganizada sob a o dem do empo do e e no e o no. Mas do caosmos ambém sai a a e. O que que dize que a ma é ia de exp essão da a e é a p óp ia ida como de i . E o que in e essa em a e, e na a qui ec u a em pa icula , como se e á de seguida, é como ela se elaciona com a ida, azendo-nos i e de o ma di e en e e no a, sen i o in empes i o da ida no quo idiano em ez da banalidade. 159 LS, p. 197. 160 DR, p. 477. 161 Especi icamen e sob e a uni ocidade do Se , c . LS, 25º sé ie, “Da uni ocidade”, pp. 208-211. 162 DR, p. 477. 54 II – DA EXPERIÊNCIA ARQUITECTÓNICA NO HÁBITO Se ia de supo que a eo ia da a qui ec u a dedicasse uma pa e impo an e do seu es udo ao hábi o, como ambém se ia de espe a que a ques ão do hábi o es i esse conscien emen e p esen e no abalho do a qui ec o, dado que a ecepção a qui ec ónica é da o dem do hábi o. Mas nem uma coisa nem ou a acon ece. Semp e se discu iu mui o o ca ác e ú il da a qui ec u a, e iden e desde o seu começo, mas o uso não é o mesmo que o hábi o. Con aem-se hábi os pela epe ição do uso, o que não signi ica que o hábi o seja a me a epe ição do uso como cópia. Es a é a adicional isão do hábi o como epe ição do Mesmo, noção ligada à de inição do quo idiano como banalidade. Ambas as pe spec i as es ão p o undamen e en aizadas no e eno da a qui ec u a. A consequência é que a eo ia e a p á ica a qui ec ónica semp e ize am coincidi o uso com o hábi o, con undindo-os; nunca chegando, po isso, a oma consciência cla a de uma di e ença de na u eza en e ambos, nem da elação que exis e en e o uso e o hábi o, que dize , en e a epe ição e a di e ença ou o no o. Consequen emen e, a ligação do hábi o à expe iência a qui ec ónica ambém nunca oi p oblema izada. A iloso ia, po seu lado, semp e ez do hábi o um objec o de es udo, mas que nunca oi pensado em elação com a a e e, especi icamen e, com a a qui ec u a. Só Wal e Benjamin, num pequeno pa ág a o do ex o A Ob a de A e na Época da sua Possibilidade de Rep odução Técnica, elaciona di ec amen e o hábi o com a expe iência a qui ec ónica, endo, con udo, apenas pe manecido na supe ície da elação, sem pene a nos seus seg edos. Benjamin man e e a sua ápida análise cen ada na dualidade en e o uso e a pe cepção, eduzindo o hábi o a uma ques ão de pe cepção ác il-óp ica, sem explica qual a na u eza do hábi o e como es e se o na, e ec i amen e, o modo de se da ecepção a qui ec ónica. No en an o, o con ibu o de Wal e Benjamin não deixa de se ines imá el, já que ele le an a ês ques ões undamen ais sob e a na u eza da ecepção a qui ec ónica que nos o ien a ão no que se segue: (1) a cisão his ó ica en e unção e a e na a qui ec u a; (2) da an e io , deco e que as cons uções a qui ec ónicas são objec o de uma ecepção dupla: a ecepção ác il pelo uso (dis acção) e a ecepção óp ica pela pe cepção isual (concen ação); (3) a ecepção a qui ec ónica, de e minada como es ando assen e no hábi o, ans asa, em ce as ci cuns âncias, o campo da a qui ec u a, adqui indo um alo canónico, já que esol e p oblemas que não são ul apassá eis pela isão, mas que “[ ]ão sendo p og essi amen e ul apassados sob a o ien ação da ecepção ác il, a a és do 55 hábi o”163. A p imei a ques ão implica odas as ou as. A ecepção a qui ec ónica pa ece es a e ida de uma dualidade en e a unção e a a e que pe co e oda a sua his ó ia. Es a cisão, a analisa , é ul apassada no hábi o. O hábi o só se opõe à pe cepção óp ica quando en endido como uso, is o é, como acção ealizada po um sujei o; sob a de inição deleuziana de con acção p odu o a de pequenas di e enças ou de singula idades, do no o po an o, o hábi o su ge libe o do uso, deixando-se de opo à pe cepção óp ica e passando a euni em si an o o uso como a isão. Mais, e emos que o hábi o a qui ec ónico con ai em si a unção e a a e; cons i uindo-se como a passagem de uma a ou a. A ede inição do concei o de hábi o ealizada po Deleuze em undamen almen e duas consequências pa a a a qui ec u a: (1) a abe u a de uma no a á ea de in es igação no campo da eo ia da a qui ec u a, onde, po um lado, concei os sedimen ados possam se e o mulados e, po ou o lado, no os concei os possam su gi , c iados de aiz ou anspos os de ou os domínios; (2) mas, mais impo an e é a mudança adical que pode i a so e a p á ica a qui ec ónica (o p ojec a ) a odos os ní eis. Em e mos da ecepção a qui ec ónica, apenas ambicionamos e ela a o alidade da expe iência que o hábi o consubs ancia em si. É que o hábi o ope a po si mesmo, independen emen e de qualque eo ia ou p á ica a qui ec ónica, ele é con acção i al, ida. A espe ança que os a qui ec os êm é que as ob as a qui ec ónicas possam ajuda a molda a ida assim como ela as molda a a és da sua passagem, que dize , a a és do hábi o, no quo idiano. 1. Da unção e da a e Wal e Benjamin a i ma que as cons uções a qui ec ónicas são al o de uma ecepção dupla: “pelo seu uso e pela sua pe cepção”164. Es e dualismo que Benjamin expõe, en e o uso e a pe cepção, em aiz na elha e his ó ica cisão, associada à na u eza da a qui ec u a, en e a unção e a a e. O a qui ec o inlandês Juhani Pallasmaa de ende mesmo que a a qui ec u a e i a a sua o ça, p ecisamen e, da ensão en e a sua exis ência u ili á ia e a sua exis ência a ís ica ou poé ica165. Mas é necessá io, desde logo, pe gun a quan o an iga é es a cisão; ou melho , se ela é, de ac o, na u al ao modo de se da a qui ec u a. Is o po duas dú idas: (1) não e á sido a cisão en e a unção e a a e, no 163 Wal e Benjamin. “A Ob a de A e na Época da sua Possibilidade de Rep odução Técnica <3ª e são>”, em A Mode nidade. Edição e adução de João Ba en o. Assí io & Al im: 2006, p. 238. 164 Idem. 165 En e is a a Juhani Pallasmaa, “The essence o a chi ec u e wi h Juhani Pallasmaa”, disponí el em: h ps://www.you ube.com/wa ch? =-Yx1MmwdiMw. 56 deco e da his ó ia, in oduzida a i icialmen e na a qui ec u a?; (2) como pode es a cisão exis i , ou a ensão de que ala Pallasmaa, quando a esmagado a maio ia das cons uções a qui ec ónicas não são ob as de a e; mas que nem po isso deixam de se objec o de ecepção a qui ec ónica? Es a úl ima pe gun a implica uma e cei a, de ex ema di iculdade: o que az uma cons ução a qui ec ónica se ob a de a e? Sob e a p imei a ques ão, é p eciso ecua aos p imó dios da a qui ec u a, a é ao seu nascimen o. A a qui ec u a nasce como solução pa a a necessidade de p o ecção que o homem sen e ao es a no mundo, onde é con on ado com a ealidade de que sem um ec o o isco de ida aumen a, assim como o descon o o e o medo ace ao u u o. Dada a agilidade da ida, a necessidade de ab igo é pe manen e; e, como al, as cons uções a qui ec ónicas semp e acompanha am a humanidade. A u ilidade da a qui ec u a cons i ui-se, desde o início, e pa a semp e, como um dos seus aços undamen ais e incon es á eis. Mas a u ilidade da a qui ec u a ul apassa a me a unção de p o ecção e de con o o. Há odo um conjun o de necessidades, esul an es do es a no mundo, que a a qui ec u a en a esol e de o ma a melho a a qualidade e o sen ido da ida humana quo idiana. Des e modo, a a qui ec u a p oblema iza a exis ência; não só é ú il como ambém con ém em si um sen ido exis encial que é exp esso quo idianamen e, a a és do hábi o: nos a aze es diá ios, em cada ges o, em cada olha , em cada acção, como no co a o pão. A a qui ec u a es á impe cep i elmen e p esen e em odos es es momen os quo idianos, a odo o ins an e, no p esen e i o. No ec o que p o ege, na janela que ilumina e pe spe i a, na ua que se pe co e a pé e de ca o, na á o e que e esca com a sua somb a, e c. A o ça da a qui ec u a es á, p ecisamen e, no ac o de in luencia a o ma como a ida p á ica ai sendo dia iamen e cons uída enquan o expe iência es é ica. As cons uções a qui ec ónicas nascem semp e de p oblemas es é icos, o que é na u al, já que a exis ência é, de o igem e semp e, um p oblema es é ico. Nes e pon o, elemb amos Deleuze quando a i ma que o seg edo da iloso ia de He acli o es á no ac o de aze “da exis ência um enómeno es é ico, não um enómeno mo al ou eligioso”166. É pelo seu alo uncional, e ambém es e eo ómico167, que a his ó ia da a qui ec u a conside a a ca e na o p imei o exemplo de uma cons ução a qui ec ónica. 166 N, p. 27. 167 Em a qui ec u a, u iliza-se o e mo “es e eo ómico” em cons uções com o e ligação ao solo e à na u eza. São cons uções que nascem a pa i da e a, edi icadas com ma e iais na u ais e p o enien es do local de cons ução. Têm um sis ema es u u al con ínuo e sólido, sendo as pa edes o elemen o es u u al p incipal. De inem endencialmen e espaços echados e escu os, com poucas e pequenas abe u as pa a o ex e io . A sensação de g a idade e de in e io idade é o aspec o dominan e na i ência des es espaços. 63 Ambos os documen os e idenciam, po um lado, a o e in luência do uncionalismo nos CIAM e, po ou o lado, a ausência de pensamen o es é ico. Ao igno a os aspec os es é icos o uncionalismo elimina a cisão en e a unção e a a e na a qui ec u a. Quem melho exp essa es a ideia é Hans Meye , di ec o da Bauhaus en e 1928-1932, onde o uncionalismo e e um espaço de p opaganda e de disseminação p omo ido po Wal e G opius. Num ex o de 1928, Cons ui 186, Hans Meye de ende que a casa é uma máquina de habi a de e minada pelos aspec os uncionais e biológicos da ida: “Todas as coisas des e mundo são um p odu o da ó mula: ( unção po economia). Assim nenhuma des as coisas é uma ob a de a e: odas as a es são composição e, po an o, não es ão sujei as a uma inalidade pa icula . Toda a ida é unção e, po an o, não é a ís ica. A ideia de «composição de um po o» é absolu amen e idícula. Mas como se p ojec a o planeamen o de uma cidade? ou os planos de um edi ício?, composição ou unção?, a e ou ida? Cons ui é um p ocesso biológico. Cons ui não é um p ocesso es é ico. […] Pensa na cons ução em condições uncionais e biológicas, da o ma ao p ocesso da ida, le a logicamen e à pu a cons ução (…).”187 Hans Meye az co esponde a unção à ida e a composição (sem inalidade p á ica) à a e. Só que pa a ele, a a qui ec u a não é a e, mas somen e uncionalidade; e, nes e sen ido, a cisão ou a oposição en e a unção e a a e não se coloca po al a de compa ência de um dos e mos. Do que diz Meye , pode-se a é conclui que o seu pensamen o es á e ido de uma con adicção: po um lado, a i ma que odas as coisas do mundo são p odu o da “ unção po economia”, o que nos le a a deduzi que as ob as de a e, sendo p odu o da composição e não da unção, não podem exis i no mundo (a não se que enham o igem nou o mundo que não o nosso); e, po ou o lado, dá a en ende a exis ência de ob as de a e p oduzidas pela composição e que se opõem às coisas uncionais, o que ab e a possibilidade de que nem odas as coisas que exis em no mundo nascem da unção e pa a a unção, minando a sua a i mação inicial. Temos de pe gun a 186 C . Manuel José Rod igues (coo denação), “Cons ui ”, em Teo ia e C í ica da A qui ec u a – Século XX, Caleidoscópio, 2010, pp. 172-174, ( aduzido de: Hans Meye , El a qui ec o em la lucha de clases e o os esc i os, Edi o ial Gus a o Gil, Ba celona, 1972). 187 Idem, p. 172. 64 se Meye não dú ida da exis ência de ob as de a e. A is o ac esce algo que de e se comba ido e ozmen e: a ideia de que a ida esume-se a aspec os biológicos e uncionais, não endo nada de a ís ico. É nes e sen ido que Hans Meye a gumen a que a a qui ec u a é a exp essão da ida uncional e biológica, e nada mais. O a qui ec o é um écnico especializado e as cons uções uma ques ão biológica, uncional e ecnológica. Con a es e uncionalismo edu o es ão a qui ec os como Camillo Si e, Al a Aal o e F ank Lloyd W igh . Pa a Camillo Si e, a cons ução da cidade não é apenas uma ques ão écnica, mas sob e udo um p oblema de a e, que engloba em si a écnica188. Al a Aal o p opõe humaniza a a qui ec u a do mode nismo o nando aquilo que ele designa de uncionalismo écnico, esul ado de uma acionalização uncional exage ada da a qui ec u a do pon o de is a écnico e económico, num uncionalismo humano, onde a écnica é apenas uma ajuda pa a se chega a uma a qui ec u a comple a, is o é, que sa is aça as necessidades do homem em odos os campos da ida189. Já F ank Lloyd W igh de ende uma a qui ec u a o gânica e humana que não se subjugue ao desen ol imen o indus ial e ecnológico190. À casa máquina de Hans Meye e de Le Co busie , W igh opõe uma habi ação humana que osse “uma ob a de a e comple a, bela e exp essi a em si mesma, in imamen e ligada à ida mode na e ei a pa a i e , p es ando-se li emen e e de uma o ma mais adap ada às necessidades pessoais dos seus habi an es, […] como ealização mais ín ima da exp essão da ida no seu p óp io ambien e”191. W igh expõe de o ma cla a o mais al o objec i o da a qui ec u a: ele a o quo idiano a a e no seu p óp io ambien e, is o é, na ida. No que di e e F ank Lloyd W igh de Hans Meye quando es e de ine a a qui ec u a como cons ução que dá “ o ma ao p ocesso da ida”? A di e ença en e 188 C . Manuel José Rod igues (coo denação), “A Lição da His ó ia”, em Teo ia e C í ica da A qui ec u a – Século XX, Caleidoscópio, 2010, pp. 15-23, ( aduzido de: Camillo Si e, 1900, Viena, Áus ia (3ª edição): De S ad ebau nach seinen Huns le ischen G undsa zen, Ve lag on Ka l G aese & Kie. Edição i aliana, adução de Rena o Della To e, Edi o iale Jaca Book, Milão, 1980). 189 C . Manuel José Rod igues (coo denação), “A Humanização da A qui ec u a”, em Teo ia e C í ica da A qui ec u a – Século XX, Caleidoscópio, 2010, pp. 303-305, ( aduzido de: Al a Aal o, A qui ec u a, nº 35, Lisboa, 1950). 190 C . Manuel José Rod igues (coo denação), “Em De esa da A qui ec u a”, em Teo ia e C í ica da A qui ec u a – Século XX, Caleidoscópio, 2010, pp. 50-60, ( aduzido de: F ank Lloyd W igh , 1908, USA: In cause o A chi ec u e, “F ank Lloyd W igh Collec ed W i ings”, olume 1, Rizzoli in e na ional Publica ions. No a Io que, 1992). 191 Manuel José Rod igues (coo denação), “A A qui ec ónica O gânica”, em Teo ia e C í ica da A qui ec u a – Século XX, Caleidoscópio, 2010, p. 91, ( aduzido de: F ank Lloyd W igh , “L’a chi ec u e o ganique”, 1910, in Ul ich Con ads, P og ammes e Mani es es de l’A chi ec u e, Les Édi ions de La Ville e, 2ª edição, Pa is, 1996, pp. 32-33. Po sua ez aduzido do inglês po He é Denés, F ank Lloyd W igh , W i ings and Buildings, Ho izon P ess, No a Io que, 1960). 65 ambas as pe spec i as es á no que en endem po ida: enquan o Hans Meye de ende uma ida ina ís ica eduzida ao que é uncional, écnico, biológico, económico; F ank Lloyd W igh a i ma uma ida humana comple a, is o é, simul aneamen e u ili á ia e a ís ica; exp essa numa a qui ec u a que o ne o quo idiano a ís ico, que é o mesmo que dize , o na a ida a ís ica, já que a ida em o seu pon o de aplicação mó el no p esen e i o do quo idiano. De ambos os pon os de is a sob essai a ín ima e o iginá ia elação da a qui ec u a com a ida. Con udo, Hans Meye cai no g ande e o de sepa a da ida o insepa á el, a a e; aindo, des e modo, a na u eza da a qui ec u a. W igh , pelo con á io, az à luz a e dadei a o ça da a qui ec u a, que não es á, como pensa Pallasmaa, na ensão en e a exis ência ú il e a exis ência a ís ica, mas na passagem da p imei a à segunda como ida. Pe gun ou-se no início pela azão da cisão en e a unção e a a e na a qui ec u a. A espos a é simples: ao se de ini a a qui ec u a como o ma de a e (não exis e cisão pa a quem a a qui ec u a não é conside ada a e), aplicou-se à a qui ec u a a oposição en e a unção e a a e que ca ac e iza as es an es exp essões a ís icas; endo, pa a es e ac o, con ibuído bas an e o aspec o uncional da a qui ec u a. Es a noção p opagou-se e en aizou-se na opinião gene alizada e, mais p eocupan emen e, no campo eó ico-p á ico da a qui ec u a e na es é ica como disciplina. No momen o em que a ida é eduzida à unção, sendo sepa ada da a e e opondo-se a ela, dá-se a cisão en e a ida e a a e, que oma exp essão no dualismo unção-a e. Es e dualismo em uma co espondência com a cisão que Deleuze encon a na es é ica como disciplina, en e uma es é ica epis emológica/sensí el e uma es é ica a ís ica. Re e indo-se a es é ica à aculdade de sen i , à ecepção sensí el do mundo, que engloba necessa iamen e odas as coisas mundanas, incluindo as ob as de a e, embo a es as sejam objec o de uma ecepção especial, o na-se di ícil pe cebe como o es udo da es é ica cinde o acesso ao mundo em duas o mas dis in as de conhece : a expe iência possí el e a expe iência eal; a ep esen ação e a sensação. A ida é, assim, eduzida à expe iencia possí el, i emos na medida do possí el; a a e é a excepção que nos anspo a pa a expe iência eal, is o é, o que sen imos con igu a as condições da expe iência eal, libe ando-se da ep esen ação e da iden idade ao mesmo empo que e ela o des asamen o da es é ica em elação ao e dadei o uncionamen o da sensibilidade. Deleuze coloca a ques ão do seguin e modo: “A es é ica so e de uma dualidade dilace an e. Ela designa, po um lado, a eo ia da sensibilidade, como o ma da expe iência possí el; po ou o lado, a eo ia da a e como 66 e lexão da expe iência eal. Pa a que os dois sen idos se eúnam, é p eciso que as condições da expe iência em ge al se o nem, elas mesmas, condições da expe iência eal; a ob a de a e, po seu lado, apa ece en ão ealmen e como expe imen ação.”192 Pa a Deleuze, a o igem do duplo sen ido da es é ica es á no ac o de e sido undada, enquan o ciência do sensí el, “no que pode se ep esen ado no sensí el”193. O que “pode” se ep esen ado é, em Kan , de e minado pelos concei os pu os do en endimen o de inidos como as condições da expe iência possí el. Mas, segundo Deleuze, as ca ego ias da ep esen ação não conseguem cap a o se do sensí el po cons i uí em uma ede de concei os demasiada la ga pa a a expe iência eal. To na-se, en ão, cla a a azão, po um lado, pa a a di isão da es é ica em dois domínios i edu í eis, “o da eo ia do sensí el, que só e ém do eal a con o midade com a expe iência possí el, e o da eo ia do belo, que ecolhe a ealidade do eal na medida em que ela se e lec e nou a pa e”194; e, po ou o lado, pa a a necessidade de ou o campo de expe imen ação, de e minado pelas condições da expe iência eal deduzidas nas sín eses do empo, “que não são mais amplas que o condicionado e que, po na u eza, di e em das ca ego ias: os dois sen idos da es é ica con undem-se a pon o de o se do sensí el se e ela na ob a de a e ao mesmo empo em que a ob a de a e apa ece como expe imen ação”195. Aqui, “[a] ob a de a e abandona o domínio da ep esen ação pa a se o na «expe iência», empi ismo anscenden al ou ciência do sensí el”196. Com o exemplo da ob a de a e, Deleuze mos a que o empi ismo anscenden al, mais que uma expe iência, é uma expe imen ação, uma p á ica, de e minada pelas condições anscenden ais da expe iência eal. Es as condições são de base empí icas, o nando-se anscenden ais quando o empi ismo é ele ado ao anscenden al: “Na e dade, o empi ismo o na-se anscenden al e a es é ica o na-se uma disciplina apodíc ica quando ap eendemos di ec amen e no sensí el o que só pode se sen ido, o p óp io se do sensí el: a di e ença, a di e ença de po encial, a di e ença de in ensidade como azão do di e so quali a i o. É na di e ença que o enómeno ulgu a, que se explica como signo: e é nela que o mo imen o se p oduz como «e ei o». O mundo in enso das 192 LS, p. 300. 193 DR, p. 123. 194 DR, p. 138. 195 DR, pp. 138-139. 196 DR, p. 123. 67 di e enças, no qual as qualidades encon am a sua azão e o sensí el, o seu se , é p ecisamen e o objec o de um empi ismo supe io ”197. É comp eensí el que a es é ica enha o seu e eno é il no empi ismo. Como e e e Éliane Escoubas, no seu li o L’Es he ique, a es é ica, enquan o aculdade de sen i , cons i ui o campo da expe iência sensí el; campo que o empi ismo (p incipalmen e o empi ismo inglês com John Locke e Da id Hume) de ine, em eacção ao acionalismo, como o luga o iginá io do conhecimen o e da acção, in e endo, des e modo, o p i ilégio da noé ica sob e a es é ica, da ep esen ação sob e a sensação198. Deleuze, em Empi ismo e Subjec i idade, ai mais longe na de inição do empi ismo, em pa icula de Da id Hume, a ibuindo-lhe um dualismo. O empi ismo pode se a eo ia, segundo a adição kan iana, que de ende que odo o conhecimen o começa com a expe iência e só deco e dela; de inição que Deleuze conside a inadequada po duas azões: p imei o, o conhecimen o não é um im em si mesmo nem é uma dou ina epis emológica, “mas apenas o meio de uma p á ica”199; segundo, pa a Deleuze, o empi ismo não dá nenhum ca ac e uní oco e cons i uin e à expe iência200. É no que signi ica o e mo “expe iência” que es á o ce ne da de inição de empi ismo e o que di e encia a pe spec i a deleuziana da adicional. Deleuze, a as ando-se da adição kan iana, de ine a expe iência como o “dado” na passi idade da men e, sendo que o dado não é uma ep esen ação ou enómeno, como em Kan , mas sensação. O a, o dado em dois sen idos, daí o seu dualismo: a expe iência é o dado como colecção de pe cepções na men e; mas, nessa colecção, o sujei o ambém é dado ao ul apassa a expe iência, is o é, são dadas as elações que quali icam as ideias po p incípios que ans asam a men e201. A singula idade da de inição deleuziana de empi ismo es á, p ecisamen e, no ac o de a expe iência não se eduzi ao dado, mas se ambém aquilo que a anscende no dado, um sujei o p á ico que se cons i ui p og essi amen e no dado202. Do empi ismo, Deleuze usa es a qualidade 197 DR, p. 123. 198 Éliane Escoubas, L’Es hé ique, Pa is, Ellipses, 2004, pp. 5-6. 199 ES, p. 121. 200 ES, p. 121: “[a] expe iência em dois sen idos igo osamen e de inidos po Hume, e em nenhum deles a expe iência é cons i uin e. De aco do com o p imei o, se denomina mos de expe iência a colecção de pe cepções dis in as, de e emos econhece que as elações não de i am da expe iência; elas são o e ei o dos p incípios de associação, dos p incípios da na u eza humana que, na expe iência, cons i ui um sujei o capaz de ul apassa a expe iência. Se emp ega mos a pala a no seu segundo sen ido, pa a designa as di e sas conjunções de objec os no passado, de emos ainda econhece que os p incípios não êm da expe iência, pois, pelo con á io, a expe iência é que de e se comp eendida como um p incípio”. 201 ES, p. 122. 202 ES, p. 117: “[q]ue não haja subjec i idade eó ica e que não possa ha e , em a se a p oposição undamen al do empi ismo. E, endo bem, is o é ão-somen e uma ou a manei a de dize : o sujei o cons i ui-se no dado. Se o sujei o se cons i ui no dado, com e ei o, só há sujei o p á ico”. 68 p á ica consubs anciada na capacidade de ap eensão di ec a do sensí el, a sensação, ele ando-a ao seu exe cício anscenden al, onde se o na possí el expe imen a o se do sensí el: o insensí el, ins ância pa adoxal “que não pode se sen ida (do pon o de is a do exe cício empí ico) e que, ao mesmo empo, só pode se sen ida (do pon o de is a do exe cício anscenden e)”203 como di e ença de po encial (quan idade in ensi a), is o é, sen ida como mo imen o di e encial in ensi o p oduzido pela passagem de uma sensação (empi ismo simples) a ou a como de i . Como aquilo que só pode se sen ido, o de i “não pode se especi icado senão como sensação”204 (empi ismo anscenden al), que di e e em na u eza da simples sensação empí ica. Es a su ge semp e associada a um sujei o ou objec o, cla amen e de e minada pelo uso empí ico da sensibilidade no campo do ac ual. Pelo con á io, a sensação empí ico- anscenden al não em co espondência com um sujei o ou objec o senão com ela mesma, sen ida como mo imen o di e encial in ensi o e i ual da di e ença em si, que dize , como de i . É nes e sen ido que Deleuze de ine o campo anscenden al: “O que é um campo anscenden al? Ele dis ingue-se da expe iência, na medida que não eme e a um objec o nem pe ence a um sujei o ( ep esen ação empí ica). Assim, ele ap esen a-se como pu o luxo de consciência a-subjec i a, consciência p é- e lexi a impessoal, du ação quali a i a da consciência sem eu [moi]. Pode pa ece cu ioso que o anscenden al se de ina po ais dados imedia os: ala emos de empi ismo anscenden al em oposição a udo que az o mundo do sujei o e do objec o”205. Enquan o a sensação empí ica é um “co e no luxo da consciência absolu a”206, o de i é o mo imen o, sem início nem im, da pu a consciência imedia a a-subjec i a. Mo imen o do pensamen o pu o. Assim, o campo anscenden al deixa de se de inido po uma consciência uni icada po um Eu, onde o sujei o e o objec o são p oduzidos ao mesmo empo, sendo ex e io es ao campo e apa ecendo como “ anscenden es”207; passando a se de e minado pela elocidade in ini a a que a consciência a a essa o campo anscenden al, já dissol ida nele. Dissol ida, a consciência não pode se e elada ou exp essa excep o a a és de um sujei o que a eme e a objec os. Com a dissolução ou o esquecimen o da consciência, o campo anscenden al é de inido po Deleuze como pu o 203 DR, p. 382. 204 Qph, p. 164. 205 Gilles Deleuze, “L’Immanence: Une Vie…”, en Deux Régimes de Fous: Tex es e En e iens 1975-1995, Édi ion p épa ée pa Da id Lapoujade, Les Édi ions de Minui , Pa is, 2003, p. 359 (do a an e se á usada a ab e ia u a IUV). 206 IUV, p. 359. 207 IUV, p. 359. 69 “plano de imanência, já que ele escapa a oda a anscendência do sujei o como do objec o”208. Assim sendo, a imanência só exis e em si e pa a si. Não depende de um objec o nem pe ence a um sujei o. Di o de ou o modo, a pu a imanência não em sujei o nem objec o senão a si mesma. Nes e pon o, Deleuze e ela o seu i alismo ao a i ma que a pu a imanência é “UMA VIDA, e nada di e en e”209. Em suma, o campo anscenden al é de inido po um plano de imanência, o plano de imanência po uma ida: de i . O de i é ida, caos, caosmos, mul iplicidade p imo dial, mo o on ológico, con acção i al. Numa só pala a, “excesso”, como ão bem iu José Gil, e como não cessa de o a i ma Deleuze. A ida p oduz mais ida po excesso de ida. Não é uma ques ão de di e ença de quan idade, mas de di e ença na in ensidade. José Gil analisou a undo a noção de excesso em Deleuze a gumen ando a exis ência de uma lógica do excesso que a a essa oda a sua iloso ia da di e ença210. E, de ac o, exis e uma lógica do excesso, po que é somen e pelo excesso – que pela sua na u eza não cessa de es a em excesso – que os p ocessos de p odução ou de c iação são desencadeados cons i uindo ou as lógicas: lógica do de i , lógica do e e no e o no, lógica do plano de imanência, lógica do desejo, lógica do sen ido, lógica da sensação, e c. Po exemplo, é pelo excesso que o exe cício empí ico das aculdades é le ado ao seu limi e e o çado a ele a -se ao seu exe cício anscenden e, en ando, des e modo, no campo do empi ismo anscenden al211; mas, p incipalmen e, o excesso, como de i , a icula a on ologia e a es é ica (uni icada) deleuzianas ao ins au a um campo anscenden al onde é possí el sen i o pensamen o no Se como sensação, is o é, como di e ença na in ensidade. “É a in ensidade, é a di e ença na in ensidade que cons i ui o limi e p óp io da sensibilidade. Ela possui ambém o ca ác e pa adoxal des e limi e: ela é o insensí el, o que não pode se sen ido, po que es á semp e ecobe o po uma qualidade que a aliena ou que a «con a ia», dis ibuída numa ex ensão que a e e e e a anula. Mas, de ou a manei a, 208 IUV, p. 360. 209 IUV, p. 360 (maiúsculas do au o ). 210 Sob e o ema da lógica do excesso em Gilles Deleuze, c . José Gil, O Impe cep í el De i da Imanência: Sob e a iloso ia de Deleuze, Relógio D’Água Edi o es, 2008, pp. 70-91. 211 Sob e o papel do excesso na eo ia di e encial das aculdades, c . DR, pp. 238-252; onde o excesso é p oduzido po um encon o undamen al en e o exe cício empí ico das aculdades e o insensí el, o imemo ial, o impensá el. Es e excesso ou in ensidade é o que o ça as aculdades ao seu exe cício anscenden al e disjun o. Po exemplo, a sensibilidade a inge o seu exe cício anscenden e a a és do encon o iolen o com o insensí el (do pon o de is a do exe cício empí ico) que acompanha o sensí el conc e o, sensibilizando a alma ao mesmo empo que a lança na pe plexidade, o çando-a a coloca um p oblema. Na memó ia in olun á ia, o esquecido é espole ado po um encon o excessi o. Já o impensá el só se coloca ao pensamen o quando es e se ê em ace da igno ância. 70 ela é o que só pode se sen ido, aquilo que de ine o exe cício anscenden e da sensibilidade, na medida em que ela az sen i e, po isso, despe a a memó ia e o ça o pensamen o”212. A sensibilidade anscenden al di e e em na u eza da sensibilidade comum, no en an o, não deixa de se e dade que as in ensidades já es ão no empí ico, implicadas ou en ol idas nes e. A sensibilidade empí ica, ao se o çada a ele a -se ao seu exe cício anscenden al pela p o undidade in ensi a dos co pos e do inconscien e, muda de na u eza en ando no campo do empi ismo anscenden al, que ambém pode se de inido po plano de imanência, plano de consis ência, plano de composição, planóme o, co po sem ó gãos. To na-se cla o que, em Deleuze, é a sensação que o ça o pensamen o, é a es é ica que de ém anscenden al, uni icando-se e ab indo um espaço onde se pode pensa o Se , ou melho , onde o Se coincide com a sensação e o pensamen o, o mando um só e mesmo mo imen o ou plano es é ico-on ológico. O Se é o se do de i , a ida. Pensa o Se é pensa a ida, não como e lexão ou ep esen ação, mas como expe imen ação ou c iação, cuja ma é ia é a sensação. O pensamen o o na-se mo imen o i al e ambém a ís ico213. À semelhança de F ank Lloyd W igh , o objec i o de Deleuze é ambém o na a ida a ís ica no seu p óp io meio (“milieu”), ou seja, no de i . O de i não é a ingi uma o ma, não ans o ma uma sensação nou a, “não é um nem dois, nem elação de dois, mas en e-dois”214. É zona de indisce nibilidade, de izinhança, e a de ninguém, cons uído pelo p óp io mo imen o do de i , onde as sensações coexis em e comunicam en e si, mis u adas sem es a em mis u adas. “Só a ida c ia ais zonas onde u bilhonam os i os, e que só a a e pode a ingi e pene a na a e a de co-c iação”215. Vida e a e habi am es es espaços in e s iciais que são in e mezzos, bolsas e endas impe cep í eis à consciência, e num mo imen o de co- 212 DR, p. 383. 213 Sob e a elação en e a es é ica e a on ologia no pensamen o de Gilles Deleuze, José Gil diz o seguin e: “[p]o ou as pala as: o comen á io deleuziano não eme ia pa a o plano exclusi o da concep ualização « ilosó ica» de um ex o «li e á io». An es, um plano de imb icação da icção li e á ia com a ida, al como ela pode se pensada po um ilóso o cuja iloso ia em po objec i o axial pensa , p ecisamen e, essa imb icação, cap ando a ida com concei os no os. Mais: não só pensa esse plano de imb icação, mas si ua -se, enquan o discu so ilosó ico, nesse mesmo plano; não só pensa a ida mas, à manei a da a e (segundo P ous ) e com a a e, pensa iloso icamen e a ida. Pensa imb icando a a e e a ida, o que implica pensa (Filoso ia) imb icando-se como pensamen o da a e (Es é ica) que se con unde com a ida do (e no) pensamen o. O pensamen o do se singula (on ologia) se -nos-á dado pelo pensamen o da única p á ica que c ia esse se : a a e” (do p e ácio de José Gil em Ana Godinho, Linhas de Es ilo – Es é ica e On ologia em Gilles Deleuze, Relógio d’Água Edi o es, 2007, p. 14). 214 Gilles Deleuze & Félix Gua a i, Mil Planal os: Capi alismo e Esquizo enia 2, Assí io & Al im, Lisboa, 2007, p. 373 (do a an e se á usada a ab e ia u a MP). 215 Qph, p. 164. 71 c iação o mam blocos de sensações. Um bloco de sensações é um “compos o de pe cep os e de a ec os”216: “Os pe cep os não são mais pe cepções, e são independen es do es ado daqueles que os expe imen am; os a ec os não são mais sen imen os ou a ecções, ansbo dam a o ça daqueles que são a a essados po eles. As sensações, pe cep os e a ec os, são se es que alem po si mesmos e excedem qualque i ido. Na ausência do homem, podemos dize que exis em, po que o homem, al como ele é ixado na ped a, sob e a ela ou pelas pala as, é ele p óp io um compos o de pe cep os e de a ec os. A ob a de a e é um se de sensação, e nada mais: ela exis e em si”217. Nes e con ex o, não é de admi a que Deleuze nomeie a ob a de a e como acesso p i ilegiado ao campo do empi ismo anscenden al e, consequen emen e, ao Se ; ao mesmo empo que p opõe uma es é ica uni icada – um só sen ido pa a o se do sensí el – como possibilidade pa a a ealização de uma on ologia undada na uni ocidade do Se . O empi ismo anscenden al é o plano que possibili a a expe imen ação imedia a do mundo ou da ealidade num só e mesmo mo imen o es é ico-on ológico do pensamen o com um Eu dissol ido. A ob a de a e, como se de sensação au ónomo e independen e de qualque i ido, c ia esse plano onde o Se se e ela, sendo expe ienciado na sua o alidade. Os pe cep os e os a ec os – a sensação – só exis em no campo do empi ismo anscenden al po que são de inidos pelas mesmas condições que de e minam o campo: (1) a ausência de elação com um sujei o ou objec o; (2) o na sensí el o insensí el. Os pe cep os deixam de se pe cepções po que não eme em a objec os ou a um sujei o pe cep i o ao mesmo empo que o nam sensí el as o ças insensí eis do mundo. Os a ec os deixam de se sen imen os ou a ecções po que excedem aqueles que os so em como de i es. Como diz Deleuze, “os a ec os são p ecisamen e es es de i es não humanos do homem, al como os pe cep os (incluindo a cidade) são paisagens não humanas da na u eza”218. Os pe cep os co espondem a no as o mas de pe cepciona enquan o os a ec os (de i -ou o) co espondem a no as manei as de sen i po es a em libe os, espec i amen e, do decalque de pe cepções pessoais já es abelecidas e es a i icadas assim como do já-sen ido de um sujei o com uma ida sen imen al solidi icada sob e um Eu ou uma pe sonalidade; logo, pe cep os e a ec os escapam à 216 Qph, p. 154. 217 Qph, pp. 154-155. 218 Qph, p. 160 (i álico dos au o es). 72 epe ição do Mesmo219. Is o signi ica que a lógica da sensação é a lógica dos pe cep os e dos a ec os, que se cons i ui na lógica do de i , pa icula men e do de i -ou o, algo que es á pa en e na a i mação: “[n]a ausência do homem […] é ele p óp io um compos o de pe cep os e a ec os”, que só pode se en endida no âmbi o da eo ia da subjec i idade le ada a cabo po Deleuze. Também só nes e enquad amen o é possí el comp eende a noção de que a ob a de a e só exis e em si e pa a si. Ela é independen e, desde o início, do c iado , do espec ado ou de qualque modelo pela sua au o-posição, esul an e do ac o de conse a em si um bloco de sensações que excede e sob e i e qualque i ido220. “A a e conse a, e é a única coisa no mundo que se conse a”221. É um monumen o, diz Deleuze222, “mas aqui o monumen o não é algo comemo a i o do passado, é um bloco de sensações p esen e que só de em a si mesmas a sua p óp ia conse ação, e que dão ao acon ecimen o o compos o que o celeb a”223. Os blocos de sensação são conse ados nas zonas de de i , p ecisam de bolsas de a , de azios, po que “ oda a sensação é compos a com o azio, enquan o se compõe consigo p óp ia”224. O monumen o é a cons ução da sensação pela sensação com o azio c iado pelo de i , que dize , pela e na ida. A a qui ec u a é, po de inição, a a e da cons ução do azio, do espaço azio, do en e: en e in e io e ex e io , en e pa edes, en e edi ícios, en e chão e ec o; espaço onde a ida acon ece, cesu a onde udo coexis e numa sín ese disjun i a i al. Mas se a a qui ec u a é a a e da cons ução, nem oda a cons ução a qui ec ónica é ob a de a e; o que az essu gi o p oblema enunciado no começo do p esen e capí ulo. A é es e pon o, alámos semp e da dico omia ida-a e e da expe iência es é ica em elação à ob a de a e a qui ec ónica, mas a expe iência a qui ec ónica do hábi o a a essa odas as cons uções a qui ec ónicas, sendo que a esmagado a maio ia delas não são ob as de a e. Não de emos e eceio das consequências des a ealidade. A ecepção a qui ec ónica deco e de qualque ipo de ob a a qui ec ónica, que seja a e ou não. Es e é já um dos aspec os que sepa a o hábi o como i ência a qui ec ónica da adicional uição es é ica das es an es o mas de exp essão a ís ica, que deco em exclusi amen e da ecepção sensí el de ob as de a e. No en an o, nem oda a ecepção a qui ec ónica é igual, is o é, 219 Gilles Deleuze, Pou pa le s 1972-1990, Les Édi ions de Minui , Pa is, 1990, p. 224. 220 Qph, p. 154. 221 Qhp, p. 154. 222 Qph, p. 155. 223 Qph, p. 158. 224 Qph, p. 156. 79 sensação. A casa em si mesma (ou o seu equi alen e) é a junção ini a dos planos colo idos”237. A casa é a es u u a azia que ixa os agmen os de a e e de ida, as in ensidades, as singula idades, as hecceidades sol as ou des e i o ializadas, num bloco de sensações; é um não-luga e um en e- empo das possibilidades de ac o. Ou seja, os blocos não ac ualizam os acon ecimen os i uais, mas enca nam-nos, dão-lhes co po, uni e sos, que “não são i uais nem ac uais; são possibilidades, o possí el como ca ego ia es é ica («o possí el, ou eu su oca ei»), a exis ência do possí el, enquan o os acon ecimen os são a ealidade do i ual, o mas de um pensamen o-na u eza que sob e oa odos os uni e sos possí eis”238. Os blocos de de i in oduzem o u u o como sensação no pensamen o pu o ao mesmo empo que se cons i uem como expe imen ação c ia i a do absolu amen e no o como possibilidade. Ou seja, o no o só o é enquan o possibilidade u u a, de i , po que no de i a ma é ia exp essi a es á em cons an e a anjo e desa anjo. É a an ecipação, a expec a i a, a espe a do hábi o; azendo da ob a de a e algo inacabado, ob a abe a, que du a enquan o o ma e ial du a , enquan o o co po du a , na espe ança que o meu caso con inue. O hábi o es á, assim, en e o i ual e as possibilidades de ac o, en e a epe ição e o absolu amen e no o, con aindo ambos no p esen e i o, undação sob e a qual se cons ói o plano de composição ou a expe iência a qui ec ónica. O plano de composição é cons uído sob e o caos pelo mo imen o de ixação dos blocos de de i es e à medida que es es ão sendo cons i uídos sob a in luências de o ças endógenas e exógenas. As o ças endógenas êm do undo dos co pos e do inconscien e; as o ças exógenas são cosmológicas ou do uni e so, que se mo em sob o quo idiano e que lhe dão o ma. A casa aça um e i ó io no caos, de e mina uma zona de sen ido e de sensação, que il a as o ças do cosmos ou do uni e so e as combina com as o ças in e io es que ela ixa. É nes e sen ido que Deleuze a i ma que o se de sensação é “um compos o de o ças não-humanas do cosmos, dos de i es não-humanos do homem, e da casa ambígua que os pe mu a e os ajus a”239; cujo esul ado é o na sensí el ou isí el as o ças insensí eis ou in isí eis como sensação ou signo. To na-se e iden e que a o ça in isí el “encon a-se em elação es ei a com a sensação: pa a que haja sensação é p eciso que uma o ça se exe ça sob e um co po […]. Po ém, se a o ça é condição da sensação, não é con udo ela que é sen ida, já que a sensação «dá» algo de in ei amen e 237 Qph, p. 170. 238 Qph, p. 168. 239 Qph, p. 173. 80 di e en e a pa i das o ças que a condicionam”240. O que é dado na sensação é a ma é ia de exp essão, que pode se de na u eza sono a, colo ida, geomé ica, e c. Como exempli ica Deleuze, “a música es o ça-se pa a o na sono as o ças que o não são”241; a a qui ec u a, po sua ez, es o ça-se po as o na espaciais. Es as o ças in isí eis são comuns a odas as exp essões a ís icas, já que são o ças do uni e so, o ças i ais e cosmológicas: o empo, o mo imen o, a luz, a p essão, a iné cia, o peso, a a acção, a g a i ação, a ge minação, a dila ação, a con acção, e c. Mas, como a a e, e em pa icula a a qui ec u a, consegue cap a e o na isí eis as o ças in isí eis? Na pin u a de F ancis Bacon, Deleuze a i ma que é a Figu a242 que o na sensí el as o ças insensí eis. Na a qui ec u a, a Figu a não es á só na ob a a qui ec ónica, mas ambém somos nós e o nosso co po, ex aído da ida quo idiana, e não da igu ação como no caso das Figu as de Bacon, e o nado co po in ensi o, co po sem ó gãos, plano de composição, pu o hábi o, expec a i a. Nós so emos os e ei os das o ças que as ob as a qui ec ónicas ixam e exp essam; somos, em pa e e p og essi amen e, o mados pela i ência a qui ec ónica quo idiana, que se cons i ui como undo inconscien e que aba ca odos os nossos compo amen os e acções diá ias, en ando em combinações com os impe a i os in e io es que nos condicionam. Combinações ou a anjos que p oduzem a necessidade que nos impele a agi de uma de e minada o ma, num de e minado con ex o especí ico. Necessidade essa que é sen ida pelo sujei o de o ma nega i a como al a ou ca ência, mas que é de i ada de necessidades on ológicas mais p o undas e posi i as onde a ida é a i mada como excesso. As ob as de a e a qui ec ónicas colma am as necessidades sensí eis e ísicas ao mesmo empo que exp essam as necessidades i ais ao ele a ou in oduzi o quo idiano, já ans o mado em ma é ia de exp essão (pe cep os e a ec os), na sensação; nas es an es cons uções a qui ec ónicas, a ma é ia de exp essão, as pu as di e enças ou singula idades, pe dem-se no inde e minado, sendo que, na maio ia das ezes, nem as necessidades mais elemen a es são esol idas adequadamen e. A ob a de a e a qui ec ónica ans o ma a necessidade como al a numa necessidade como a i mação de ida, azendo de cada ges o habi ual um monumen o, de cada epe ição mecânica e es e eo ipada uma di e ença que essoa po odo o quo idiano e o modi ica de uma só ez pa a odas as ezes. A opinião en aizada e comum de um quo idiano que 240 Gilles Deleuze, F ancis Bacon: Lógica da Sensação, adução e in odução de José Mi anda Jus o, O eu Neg o, Lisboa, 2011, p. 111 (do a an e se á usada a ab e ia u a FB). 241 FB, p. 111. 242 Deleuze emp ega o e mo “Figu a”, com maiúscula, pa a ma ca a di e ença ou a oposição em elação à igu ação, à ilus ação, ao igu al, ao igu a i o. 81 banaliza a exis ência e que ecob e a e dadei a ida é ol ada do a esso pela expe iência a qui ec ónica, que a a essa odas as cons uções a qui ec ónicas, que cha u da no quo idiano, que em na i ência quo idiana a sua ma é ia de exp essão. O quo idiano nada em de banal, somen e a nossa ep esen ação dele, somen e o uso ágico-cómico que dele azemos. É só uma ida que es á em p ocesso cons an e de cons ução e demolição. O hábi o é a exp essão sensí el do quo idiano, a sua i ência, que ab e o sem- undo. Me gulha-nos no quo idiano ao mesmo empo que o con ai odo em nós num p esen e i o acompanhado de um passado e abe o a um u u o. No hábi o, a ecepção a qui ec ónica eúne e az coexis i em si o ú il e o a ís ico, ou melho , o quo idiano de ém a e; e depende da cons ução a qui ec ónica consegui ixa o mo imen o da ida pa a se o na ob a de a e. Nes e con ex o, a expe iência a qui ec ónica dis ingue-se da es abelecida o ma de uição a ís ica, assen e na con emplação isual e na concen ação conscien e do espec ado dian e da ob a de a e, ime gindo-se nela, como e e e Benjamin, ao, pelo con á io, aze me gulha a ob a a qui ec ónica, a e ou não, no habi an e (já não espec ado ), pela dis acção ou, mais p ecisamen e, pelo inconscien e, a a és do hábi o. O espec ado ende a esquece -se de si no in e io da ob a de a e ao se e i ado do quo idiano du an e um momen o excepcional e de excepção. A i mamos que o “esquecimen o de mim” é a condição sine qua non de qualque expe iência es é ica. É um ac o. Mas sob es a condição, o hábi o, como expe iência a qui ec ónica, ope a de manei a di e en e. Age impe cep i elmen e, não eque a enção nem concen ação. Eu já es ou, desde logo e semp e, esquecido de mim; é ou o que age po mim. O hábi o age subconscien emen e em mim, sob e mim e po mim; libe ando a consciência pa a ou as acções. Mas enquan o aciocino, o hábi o cap a pequenas di e enças e p oduz pequenas pe cepções e acções que me in luenciam impe ce i elmen e. Uma pequena mudança de onalidade na pele ou de empe a u a, um palpi a de um músculo, um som pe dido, um e lexo di uso… Hen i Ca ie -B esson pe cebia es as nuances e sub ilezas dos pe cep os e dos a ec os como poucos, conseguindo-as ixa em imagem como ninguém. No hábi o, a a qui ec u a en ol e-nos e a a essa-nos sem da mos po isso. A expe iência a qui ec ónica do hábi o não é um momen o excepcional e de excepção que nos e i a do quo idiano mediano e banal ao inse i -nos no in e io da ob a de a e. Pelo con á io, a ob a a qui ec ónica coloca-nos no âmago do quo idiano, po que o momen o excepcional e de excepção é quo idiano, diá io, epe ido, ago a mesmo, já passado e semp e po i . 82 A con emplação de ob as de a qui ec u a exclusi amen e a a és da pe cepção óp ica – p á ica no ma i a da uição a ís ica em ge al – deixa escapa a essência da i ência a qui ec ónica: o quo idiano no hábi o. A pe cepção isual de edi ícios coloca- nos numa elação sujei o-objec o que o hábi o não supo a po que nos e i a do quo idiano, a olha de o a sem sen i ou conhece as o ças i ais que es ão em jogo. É a isão do u is a dian e de edi ícios his ó icos e céleb es243. A minha isão quando isi ei o Pan eão de Roma, essa excepcional peça de a qui ec u a. O e mo “peça” indica logo a objec i icação da ob a. A p óp ia in enção de “i e ” ou “ isi a ” o Pan eão exp essa a consciência de um sujei o que ai e um objec o, nes e caso a qui ec ónico. Pa a cap a o modo de se comple o do Pan eão, pa a ele se imiscui comple amen e em mim, e ia de o na -me um habi an e da cidade de Roma, do p óp io bai o. Como u is a, oda a expe iência es á semp e limi ada àquele momen o excepcional e de excepção. Como c í ico, oda a análise es á con aminada po p essupos os, modelos e concei os p é- es abelecidos. O desejo ou a expec a i a é que a excepção não cesse de se epe i , semp e e de cada ez excepcional, na espe ança que o caso con inue. A ememo ação es á longe de se su icien e; só no hábi o enquan o epe ição como di e enciação da di e ença. A di e ença en e o u is a e o habi an e, que é a di e ença en e o espec ado e o u ilizado , es á p ecisamen e na o ma como é ealizada a ecepção das ob as a qui ec ónicas, espec i amen e, pela pe cepção óp ica conscien e e pela pe cepção ác il inconscien e, de inida mais pelo hábi o do que pela a enção. Aliás, na ecepção a qui ec ónica, como e e e Benjamin, “o hábi o de e mina mesmo em la ga medida a p óp ia ecepção óp ica. Pela sua essência, ela e ec ua-se mui o menos num es ado de concen ação ensa do que sob uma p essão o ui a”244. Mas amos mais longe que Benjamin, a i mando que na i ência a qui ec ónica a ecepção óp ica não só é de e minada pelo hábi o como es á necessa iamen e implicada nele. Na expe iência a qui ec ónica, o hábi o, po unciona pelo inconscien e e de aco do com as necessidades de ocasião, a e e ida “p essão o ui a” u o do encon o com o mundo, de e mina e o ien a, sob a acção do sen ido ác il, a pe cepção isual; pe dendo a sua in encionalidade conscien e e sendo, assim, colocada no campo do acaso e do o ui o ao mesmo empo que deixa de domina o espec o pe cep i o. Não há uma oposição en e o hábi o, como pe cepção ác il, e a con emplação isual. O hábi o é que con ai em si an o o ác il como 243 Wal e Benjamin. “A Ob a de A e na Época da sua Possibilidade de Rep odução Técnica <3ª e são>”, em A Mode nidade. Edição e adução de João Ba en o. Assí io & Al im: 2006, p. 238. 244 Idem. 83 o óp ico, assim como os es an es sen idos, de aco do com con emplações mais p o undas e inconscien es, as dos mil hábi os que nos cons i uem. Es as con emplações i ais, sem imagem, azem do hábi o uma expe imen ação exis encial e a ís ica, on ológica e es é ica, uni icadas no plano de composição a qui ec ónico, onde ida e ob a coincidem como de i . A submissão da isão ao ác il no hábi o p oduz uma mudança no usual uncionamen o do apa elho pe cep i o e, consequen emen e, al e ações na expe iência es é ica. His o icamen e, a hegemonia da isão é e iden e na de e minação da ecepção pe cep i a do mundo, secunda izando os ou os sen idos. A his ó ia da a e es á assen e na imagem (excep o a música, que po não e imagem ai além das es an es o mas de a e) e a expe iência es é ica es á assen e na pe cepção isual. Os demais sen idos su gem como no a de odapé, se an o. Na a qui ec u a, o domínio da isão deu o igem a p ojec os de g ande impac o isual, mas a edi ícios pob es pa a o co po. Há um des asamen o g ande en e a concepção a qui ec ónica, consubs anciada no p ojec o, e a expe iência eal do edi ício cons uído. O p ojec o a qui ec ónico é desen ol ido exclusi amen e sob a o ien ação da isão, que quando cons uído não se adequa à expe iência eal de es a no mundo, que em como pon o mó el de aplicação um co po, compos o po cinco sen idos, que quando combinados e sin e izados, de e minam a nossa expe iência do mundo. O a qui ec o inlandês Juhani Pallasmaa, no seu li o The Eyes o he Skin, de na u eza enomenológica, analisa, p ecisamen e, a elação da a qui ec u a com o co po de inido como o luga da pe cepção e do pensamen o enquad ada numa c í ica à hegemonia da isão, onde es a é des i uída como sen ido dominado em a o de uma maio equidade dos sen idos, descob indo em si uma ou a dimensão: a háp ica. É, po an o, pelo sen ido ác il que a isão é des onada: “[T]odos os sen idos, incluindo a isão, são ex ensão do sen ido ác il; os sen idos são uma especialização do ecido da pele, e odas as expe iências são modos do oca e assim elacionados com a ac ilidade. O nosso con ac o com o mundo em luga na linha de on ei a do eu a a és de pa es especializadas da nossa memb ana en ol en e”245. 245 Juhani Pallasmaa, The Eyes o he Skin: A chi ec u e and he Senses, p e ace by S e en Holl, John Wiley & Sons, 2005, p. 10 (do a an e se á usada a ab e ia u a TES). 84 A ideia essencial que Pallasmaa ansmi e na sua ob a é a seguin e: odos os sen idos – audição, palada , ol ac o, ac o, isão – de i am de uma especialização da pele – o ó gão do ac o –, memb ana co po al que a icula a consciência com o mundo ao de ini os modos pe cep i os que con igu am a nossa expe iência ísico-psicológica de es a no mundo. Ou seja, o ac o az coincidi o sen ido in e no com os sen idos ex e nos na expe iência. In eg a-nos no mundo po que podemos oca nos objec os, es amos em con ac o di ec o com o que nos odeia e ob emos, assim, uma co espondência ísica pa a a nossa pe cepção isual, que ende a sepa a -nos do mundo. Sabemos que o mundo exis e po que o sen imos, pelo ac o. A expe iência do u is a é limi ada p ecisamen e po que “do lado ác il não exis e qualque espécie de con apa ida pa a a con emplação na pe cepção óp ica”246. O mesmo se pode dize do espec ado que num museu, gale ia ou sala de cinema con empla uma pin u a, uma escul u a ou um ilme. Há uma componen e u ís ica nes as ac i idades, a é a ob a de a e nos cap u a e nos o na habi an es dela. O a, o habi an e i e undamen almen e com o co po, pelo ac o, a a és do hábi o. No hábi o, a isão conscien e e ocada de e mina menos a expe iência quo idiana que a isão pe i é ica, que é inconscien e e des ocada247. Nes e sen ido, Pallasmaa de ende que as pe cepções isuais inconscien es êm in luência decisi a na cons ução da iden idade e da expe iência pe cep i a. Enquan o a isão cen al coloca-nos em con on o com o mundo, a isão pe i é ica implica-nos na “ca ne do mundo”248. O sen ido enomenológico é e iden e, pa icula men e quando o au o a i ma que as pe cepções isuais são in eg adas no “con inuum háp ico do eu”249. O Eu é cons an emen e modelado po pe cepções inconscien es que ajudam a de e mina a pe sonalidade e os compo amen os. A c ise de iden idade po que passa a sociedade ac ual esul a, na pe spec i a do au o , da des alo ização e igno ância das pe cepções ác eis em a o da isão cen al e conscien e. Is o le a-o a conclui que a nossa al a de iden i icação com os edi ícios con empo âneos esul a da pob eza des es no campo da isão pe i é ica. Os a qui ec os esquecem-se que a “pe cepção pe i é ica inconscien e ans o ma as o mas e inais numa expe iência espacial e co po al. A isão pe i é ica in eg a-nos no espaço, 246 Wal e Benjamin, “A Ob a de A e na Época da sua Possibilidade de Rep odução Técnica <3ª e são>”, em A Mode nidade, Edição e adução de João Ba en o, Assí io & Al im, 2006, p. 238. 247 Juhani Pallasmaa e e e e idências médicas de que a isão pe i é ica em p io idade no nosso sis ema pe cep i o e men al. Con o me indicado na bibliog a ia de The Eyes o he Skin, c . An on Eh enzweig, The Psychoanalysis o A is ic Vision and Hea ing: An In oduc ion o a Theo y o Unconscious Pe cep ion, Sheldon P ess (London), 1975. 248 TES, p. 10. 249 TES, p. 11. 85 enquan o a isão cen al expulsa-nos do espaço, azendo-nos me os espec ado es”250. Ac ualmen e, as cons uções a qui ec ónicas são p ojec adas e edi icadas sob a o ien ação exclusi a da isão cen al, ou seja, pa a se em is as como espec áculo ou imagem, não pa a se em habi adas pelo co po. Pallasmaa e e e que em cul u as an igas, as cons uções e am o ien adas pelo co po “da mesma o ma que o pássa o cons ói o seu ninho a a és dos mo imen os do seu co po”251. Po exemplo, a a qui ec u a indígena de lama ou de ba o pa ece e su gido, p incipalmen e, sob a o ien ação háp ica e muscula , e e e o au o ; ac escen ando que é possí el “iden i ica a ansição da cons ução indígena do háp ico pa a o con olo da isão como pe da de plas icidade e in imidade”252. Es a pe da oi ambém sendo p og essi a ao longo da his ó ia da a qui ec u a, p incipalmen e com a disseminação eó ico-p á ica da noção de um obse ado sem co po, sem pon o de aplicação no mundo, desenca nado253. É, nes e sen ido, que os a qui ec os ac ualmen e desen ol em os p ojec os com a ajuda das no as ecnologias digi ais. P ocu am cons ui imagens, nada mais que imagens: imagem-p ojec o e imagem-edi ício. As consequências pa a a a qui ec u a são a pe da de plas icidade da cons ução, da elação ác il e ú il com o co po, de ma e ialidade e de sen ido espaço- empo al. Em suma, a a qui ec u a so e de uma al a de sensualismo e de e o ismo que impede uma elação ín ima e sensí el en e o cons uído e as pessoas. É a isão pe i é ica, na opinião de Pallasmaa, que esis e ao domínio da isão e ab e o caminho pa a uma expe iência sensí el comple a, is o é, compos a pelos cinco sen idos, o que signi ica, como imos, uma expe iência háp ica. Só uma a qui ec u a com o e qualidade háp ica – ex u as, o e sen ido de ma e ialidade e de peso, luz ma e ializada, densidade espacial, e c. – pode impedi que a ecepção a qui ec ónica caia sob o con ole da isão cen al. Mas é undamen al ealça que a isão só se o na um p oblema quando é e i ada da sua elação na u al com os es an es sen idos, silenciando- os, e com isso eduzindo a expe iência pe cep i a ao campo da isão conscien e. É, no en an o, da na u eza da isão colabo a com odos os sen idos; e odos en e si. Es a no mundo é uma expe iência mul issenso ial so ida pelo co po e uni icada num Eu [sel ]. Nes e sen ido, qualque expe iência a qui ec ónica signi ican e é mul issenso ial e 250 TES, p. 13. 251 TES, p. 26. 252 TES, p. 26. 253 Com o desen ol imen o das ecnologias digi ais, especialmen e da ealidade i ual, a eo ia e a p á ica a qui ec ónica em-se a as ado p og essi amen e das necessidades do co po, mais p eocupada com a imagem e com o Ego. 86 in ensi icado a da ida. “A a qui ec u a o alece a expe iência exis encial, o sen ido pessoal de es a no mundo, que é essencialmen e um o alecimen o da expe iência do Eu [sel ]. Em ez da me a isão, ou dos clássicos cinco sen idos, a a qui ec u a en ol e á ios campos de expe iência senso ial que in e agem e se undem en e si”254. Com a sua eia enomenológica, Pallasmaa liga a a qui ec u a à exis ência e ao o alecimen o da iden idade pessoal e colec i a, ou seja, do Eu e do Nós. Nes e sen ido, a a qui ec u a de e exp essa o mundo enquan o ex e io ização de nós. Mas o que Pallasmaa não no ou, ime so na pe spec i a enomenológica, é que é a consciência que cap u a a isão, desliga-a do seu ambien e na u al e o na-a hegemónica. A isão – in e io (ape cepção) e ex e io (pe cepção) – o na-se a p incipal e amen a pe cep i a da consciência. E embo a Pallasmaa e i a o ác il e as pequenas sensações que daí esul am, ele subme e-as à o ien ação da consciência e do Eu, à ep esen ação e à iden idade; logo, sem da con a e apesa dos seus es o ços, ele ol a a coloca sob a u ela da isão os es an es sen idos e o co po. Tal ez seja es a a azão po que não há qualque e e ência ao hábi o em The Eyes o he Skin, o que é incomp eensí el, já que oda a a gumen ação e desc ição de Pallasmaa conduz na u almen e ao domínio do hábi o, onde no inconscien e se dá a usão dos á ios domínios da expe iência sensí el que a a qui ec u a eúne. Mas, mais uma ez icamos ao ní el da consciência, do uso e do co po sensí el e enomenológico, a ca ne. É necessá io ou o co po, o co po in ensi o de Deleuze, o CsO. Gilles Deleuze, no âmbi o da sua inin e up a c í ica da ep esen ação, ul apassa a enomenologia po es a, po um lado, não se e conseguido libe a da o ma ge al do senso comum e do bom senso e, po ou o lado, ainda de ini o campo anscenden al po um Eu o iginá io e sin é ico. Pa a Deleuze, a enomenologia so e do p oblema de e uma imagem do pensamen o o iginá ia e anscenden al decalcada de uma imagem empí ica, subo dinando, des e modo, o condicionan e ao condicionado, a causa ao e ei o, o undamen o à undação, o anscenden al ao empí ico255. Deleuze desa icula es a 254 TES, p. 41. 255 Sob e a iloso ia de Edmund Husse l, Deleuze e e e que na eo ia husse liana da doxa, os “di e en es modos da c ença são engend ados em unção de uma U doxa que age como uma aculdade do senso comum em elação às aculdades especi icadas. O que apa ecia ão ni idamen e em Kan ale ambém pa a Husse l: a impo ência des a iloso ia ompe com a o ma do senso comum. Que dize , en ão, de uma iloso ia que sen e bem que não se ia iloso ia se não ompesse, pelo menos p o iso iamen e, com os con eúdos pa icula es e as modalidades da doxa, mas que conse a dela o essencial, is o é, a o ma, e que se con en a em ele a ao anscenden al um exe cício apenas empí ico numa imagem do pensamen o ap esen ada como «o iginá ia»?” (LS, p. 119). Consequen emen e, o sujei o anscenden al husse liano 87 elação ao de ini o seu campo anscenden al como espaço onde se mo e um pensamen o sem imagem, musical, des i uído de qualque subjec i idade, sem eu [Je], nem Eu [Moi]. Já não há isão in e na nem pon os de is a de um sujei o sob e o mundo. Apenas mo imen o in ensi o li e e sel agem. Consequen emen e, a isão – pe cepção e ape cepção – so e ine i a elmen e uma ede inição po pa e de Deleuze, especialmen e expos a em F ancis Bacon: Lógica da Sensação, onde é enquad ada numa análise à pin u a em ge al e à ob a de F ancis Bacon em pa icula ; e em Pin u a: O Concei o de Diag ama (2007)256. Deleuze, à semelhança de Pallasmaa, econhece a impo ância da unção ác il da isão. Pode-se a é a i ma que a noção de isão háp ica p esen e em Lógica da Sensação e em Pin u a: O Concei o de Diag ama pode se conside ada uma especialização da pele. Deleuze iden i ica na isão uma qualidade ác il in ínseca, e “quando a p óp ia isão descob e em si mesma uma unção de oque que lhe é p óp ia, que só a ela pe ence e que é dis in a da sua unção óp ica”257, ela o na-se háp ica. O háp ico, pa a Deleuze, e baseado em Aloïs Riegl, “não designa uma elação ex ínseca en e a isão e o ac o, mas an es uma «possibilidade do olha », um ipo de isão dis in o do óp ico”258. Mas embo a Deleuze e i a que na isão háp ica a unção ác il é in ínseca à isão, de emos, no en an o, pensa es a elação in e samen e, is o é, a isão como especialização da pele, como o az Pallasmaa. É es e úl imo sen ido que da emos à isão háp ica de Deleuze. À isão háp ica opõe-se a isão óp ica. En e uma e ou a, a isão es á numa cons an e modulação de aco do com a elação de ecip ocidade en e o olho e a mão, en e o isual e o manual. Deleuze pensa es a elação essencialmen e no campo da pin u a, azendo da mão a pon a mó el do sen ido ác il, mas a pele cob e odo o co po; e é o co po que es á em jogo na ida e na a e, an o na uição es é ica como na p odução a ís ica. Po an o, a edução do co po à isão e, pa icula men e, à mão, pa ece-nos cu o, mas comp eensí el, dado que Deleuze az uma análise à pin u a, onde o abalho isual e manual é p eponde an e, po ém, não exclusi o. Na a qui ec u a, ao con á io da pin u a, odo o co po es á cla amen e implicado na expe iência a qui ec ónica, sendo que no conse a a o ma da pessoa, a consciência pessoal e a iden idade subjec i a, con en ando-se Husse l “em decalca o anscenden al do ca ác e do empí ico. O que é e iden e em Kan , quando in e e di ec amen e as ês sín eses anscenden ais de sín eses psicológicas co esponden es, não o é menos em Husse l, quando in e e um «Ve » o iginá io e anscenden al a pa i da « isão» pe cep i a” (LS, p. 119). 256 Ob a que co esponde ao cu so leccionado na Uni e sidade de Vincennes en e 31 de Ma ço e 2 de Junho de 1981. 257 FB, p. 256. 258 FB, p. 204 (no a 119). 88 hábi o, como e e ido, a isão é de e minada sob a o ien ação do sen ido ác il. No en an o, o concei o de isão háp ica deleuziano em aspec os que me ecem a enção e que podem se anspo ados pa a a a qui ec u a, nomeadamen e, a elação com o inconscien e e com o complexo igu a- undo, onde o con o no é o elemen o decisi o na sua de e minação al como acon ece na de inição do espaço pic ó ico. Deleuze de e mina di e en es momen os da isão, e sendo es a uma especialização do sen ido do ac o, á-lo a a és do papel dos alo es manuais na elação en e o olho e a mão: o digi al, o ác il, o manual e o háp ico. O digi al co esponde ao máximo de subo dinação da mão ao olho. Quan o mais subo dinada es á a mão ao olho, “mais a isão desen ol e um espaço óp ico «ideal» e ende a cap a as suas o mas segundo um código óp ico”259, as leis da pe spec i a. Toda ia, e po que a isão é uma especialização da unção ác il do co po, não é possí el a exis ência de um espaço pu amen e óp ico; exis em semp e e e en es manuais aos quais a isão eme e, mesmo que inconscien emen e. O espaço igu a i o ou ep esen a i o é ine i a elmen e de na u eza ác il-óp ico, exp essão da i ência o gânica do homem. Quando a mão se insubo dina em elação ao olho, a isão ê dissol e à sua en e o espaço ác il-óp ico em a o de um espaço manual descoo denado, agmen ado e des igu ado, mas que ainda sus en a alguma coisa de isual. Só quando deixa de exis i uma subse iência en e o olho e a mão em ambos os sen idos é que a unção háp ica do olho se e ela o almen e e na sua independência como sensação, sem imagem; o nando-se o espaço igualmen e háp ico260. Cada um des es alo es manuais de ine um ipo especí ico de isão, que co esponde, po sua ez, a um ipo especí ico de espaço que é pe cepcionado pela elação en e o ma e undo, a a és do con o no. É de e minando á ios ipos de con o nos, de aco do com o ipo de isão e de espaço, que Deleuze ca ac e iza a is icamen e di e en es pe íodos his ó icos da pin u a261. Não nos amos de e em nenhum des es pe íodos, o que nos in e essa é como a elação o ma- undo é de inida pelo con o no no con ex o da isão 259 FB, pp. 255-256. 260 FB, pp. 255-256. 261 Nas duas ob as sob e pin u a an e io men e e e enciadas, Deleuze esboça uma b e e his ó ia da pin u a com base no con o no na elação igu a- undo, cuja análise ica de o a da p esen e disse ação, já que nos le a ia pa a o domínio da his ó ia e da eo ia da a e (e da a qui ec u a). No en an o, é de e e que se ia possí el e in e essan e aze uma his ó ia da a e, e da a qui ec u a, cen ada no papel do con o no na p odução e na ecepção a ís ica. Sin e icamen e, segundo Deleuze: (1) a e egípcia: isão háp ica – espaço bidimensional háp ico – con o no ísico; (2) a e clássica g eco- omana/ enascen is a: isão óp ica digi al – espaço ác il-óp ico – con o no o gânico; (3) a e bizan ina: isão óp ica pu a – espaço óp ico pu o – con o no óp ico; (4) a e bá ba a e gó ica: isão manual – espaço manual – con o no ác il; (5) a e ba oca: isão háp ica – espaço háp ico – con o no háp ico. 95 ligações ideais aos e mos ac uais e às co elações eais di e sas que, a cada momen o, cons i uem a ac ualidade do empo”283, o hábi o. Is o signi ica que as sín eses passi as do empo pe azem uma es u u a ideal que co esponde a uma génese es á ica que ope a o a da his o icidade, is o é, a cons an e modulação da es u u a ideal é a-his ó ica po que ela cons i ui o empo linea e, nesse sen ido, é uma he e ogénese. A he e ogénese pe ence ao empo descen ado do Aion, não ao empo linea do C onos. A cesu a do e e no e o no é o Acon ecimen o que az coexis i e comunica oda a ealidade, o i ual e o ac ual, odas as ideias-acon ecimen os. Ele é a absolu a coexis ência e simul aneidade, sendo que a cada ideia é em si mesma um “complexo de coexis ência”284, is o é, cada ideia é uma zona de cla idade e dis inção, di e enciando-se de odas as ou as ideias pelas bo das, pelo limi e que sepa a a cla idade do undo obscu o que a acompanha e que en ol e odas as ideias numa coexis ência. Cada ideia, na sua sín ese luen e, implica em si odas as ou as e es á en ol ida em odas as ou as. A es e mo imen o de implicação, de in e pene ação, de dob agem (“pli”), Deleuze denomina de “pe plicação”285. T a a-se “da iden idade da Ideia e do p oblema, do ca ác e exaus i amen e p oblemá ico da Ideia, is o é, do modo pelo qual os p oblemas são objec i amen e de e minados pelas suas condições a pa icipa uns dos ou os, de aco do com as exigências ci cuns anciais da sín ese das Ideias”286. A pe plicação da ideia só é possí el pelo mo imen o in e no incessan e de di e enciação que anima a ideia e a az elaciona com as es an es ao mesmo empo que a man ém a unciona como p oblemá ica. A ideia é, nes e sen ido, o mo o do pensamen o e a condição pa a a o mação de compo amen os e acções; o que le a Deleuze a a i ma que ela é o “di e encial do pensamen o”287, o ulgo do pensamen o. Pa a a a qui ec u a, há a e i a ês aspec os in e elacionados da de inição deleuziana de ideia como es u u a-gené ica: o ac o de se um uni e sal conc e o; a sua na u eza p oblemá ica; e, cla o, o concei o de de e minação ecíp oca. A noção de “uni e sal conc e o” pe mi e que a ideia es eja gene icamen e p esen e em odas as cons uções como es u u a abs ac a e inde e minada em si; ao mesmo empo que pode ecebe , em de e minadas ci cuns âncias, uma na u eza a qui ec ónica ac ualizada numa cons ução a qui ec ónica pa icula . Sendo abs ac a, sem o ma nem con eúdo, a ideia pode con ai , po encialmen e, qualque o ma e con eúdo; con udo, de no a que ela não 283 DR, p. 306. 284 DR, p. 310. 285 DR, p. 311. 286 DR. P. 311. 287 DR, p. 303. 96 é um uni e sal abs ac o ou uma gene alidade, o ca ác e abs ac o é só um momen o da es u u a ideal, na ealidade, a ideia é um acon ecimen o compos o po uma mul iplicidade de singula idades, sendo ela p óp ia uma singula idade. A ideia a qui ec ónica não é, po isso, uma essência bem de inida nem uma e dade uni e sal p é-es abelecida e imu á el, comum e anscenden e a odas as cons uções, mas um acon ecimen o, po aciden e, es ando o domínio da ideia do lado do inessencial288. Não sendo p é-de e minada, a ideia a qui ec ónica é, en ão, de inida pelas ci cuns âncias ou pelo acaso, que são de dois ipos: de na u eza empí ica – geog á icas, climá icas, sociais, económicas, psicológicas, p og amá icas, polí icas, ecnológicas, écnicas, e c. – ou de na u eza ideal. Em ambos os planos, o ac ual e o i ual, é o encon o o ui o com as ci cuns âncias que de e mina a o ma e o con eúdo da ideia a qui ec ónica (ou de qualque ideia), que em como unção da sen ido à cons ução que necessa iamen e a exp essa, cons i uindo-se a azão da sua exis ência. Pela sua na u eza p oblemá ica, ela é ao mesmo empo imanen e e anscenden e: imanen e e especí ico à cons ução, não exis indo senão nela, ou mais p ecisamen e, subsis indo nela e sem a qual es a não i ia a exis i ; e anscenden e à cons ução po que ab e um ho izon e i ual de sen ido que o ul apassa enquan o ac ual e a pa i do qual su gem ideias como que em baixo ele o sob e um undo di e encial inconscien e que as aba ca odas. Nes e con ex o da ideia, e da p esen e disse ação, o que que emos dize po “cons ução”? Qua o coisas: (1) a cons ução ideal no in e io da ideia; (2) a cons ução da ideia enquan o ac o de c iação de um a qui ec o; (3) a cons ução de hábi os, de compo amen o e de acções em elação com a ideia e a expe iência a qui ec ónica; (4) e, po úl imo, a cons ução ísica de ob as a qui ec ónicas, o edi ício. Todos es es signi icados coexis em e são de e minados em ecip ocidade. Já imos que a cons ução in e na da ideia equi ale a uma es u u ação ou modulação cons an e. Em elação ao ac o c ia i o a qui ec ónico, a ideia é consubs anciada ou ac ualizada no p ojec o e exp essa na ob a a qui ec ónica; mas o que signi ica e uma ideia e, especi icamen e, uma ideia a qui ec ónica? Te uma ideia é semp e uma cons ução cons an e, cujo au o não é o a qui ec o enquan o sujei o, mas a ida como mo imen o de c iação. O a qui ec o é um ac o , um mímico, um e i alis a, no sen ido mais ealis a possí el, como “do que de e as sen e”289. Ele não epe e a ideia como epe ição do Mesmo, mas epe e a ideia de 288 DR, p. 311. 289 Qua o e so da p imei a es o e do poema Au opsicog a ia de Fe nando Pessoa; poema que exp essa na pe eição a ideia de Deleuze de ice-dicção. 97 uma o ma di e en e, enca nando-a, exp essando-a de uma no a o ma. Deleuze chama a es e p ocedimen o de ice-dicção. A ice-dicção é o p ocesso de di e enciação- di e enciação de uma ideia pelo pensamen o no seu in e io ; consis indo em ex ai a di e ença e em dis ibui-la po casos de solução. “Os dois p ocedimen os da ice-dicção, p ocedimen os que in e êm ao mesmo empo na de e minação das condições do p oblema e na génese co ela a dos casos de solução, são, po um lado, a p ecisão dos co pos de adjunção e, po ou o lado, a condensação das singula idades”290. De um lado, a de e minação ideal p og essi a das condições, do ou o lado, a ixação de singula idades num objec o ac ual, onde a ideia ulgu a e subsis e. Mas o p ocesso de ice-dicção só es á comple o com um e cei o elemen o que o ça a ideia a ac ualiza -se, a enca na -se a a és dos dinamismos espaço- empo ais que são as condições pa a a d ama ização da ideia. Esse e cei o elemen o é o undo inde e minado, o caos. Dai que a noção comple a é a de “indi-di e enciação-di e enciação (indi-d ama-di e enciação-di e enciação)”291. Uma con a-ac ualização é necessá ia pa a se ex ai da ep esen ação a ideia que ope a sob o concei o. A ideia a qui ec ónica, po an o, não é um concei o, ep esen ação ou imagem, não é p odu o de um aciocínio do en endimen o; ela su ge do inconscien e p odu i o como pon o c í ico de usão, de condensação, de ebulição, de coagulação, de in lexão… como sensação, signo, que o ça o pensamen o, a o mação de compo amen os e a con acção de hábi os. Mais do que e lec i sob e um p oblema a qui ec ónico ou um p ojec o, é um ap eende , ap ende , sen i , con ai o que es á em jogo no p oblema, pene a na ideia e de i . “A Ideia e o «ap ende » exp imem, ao con á io, a ins ância p oblemá ica, ex ap oposicional ou sub- ep esen a i a: a ap esen ação do inconscien e, não a ep esen ação da consciência”292. É undamen al o papel do inconscien e em oda a iloso ia de Deleuze e, em pa icula , na concepção da ideia como mul iplicidade inconscien e, o impensado do pensamen o, que o ça as aculdades ao seu exe cício anscenden al disjun o – o pensamen o pu o –, já libe adas do uso empí ico e do jugo da ep esen ação e da iden idade, do senso comum e do bom senso. Is o az com que uma ideia, pela sua uni e salidade, a a esse odas as aculdades, não pe encendo a nenhuma, ao mesmo empo que, pela sua singula idade, diz-se de uma aculdade especí ica, que a ans asa e a des egula ao coloca um p oblema, o çando-a a um 290 DR, pp. 314-315. 291 DR, p. 398 ( adução al e ada po nós). 292 DR, p. 318. 98 exe cício disjun o ao mesmo empo que comunica es a iolência às ou as aculdades, di e gindo des as num “aco do disco dan e”293 e, des e modo, ixando o pensamen o pu o294. A ideia é um cla ão di e encial no pensamen o, e quan o mais cla a ela apa ece, mais obscu o é o undo inconscien e que a acompanha, a pa i do qual ela é e ei a e des ei a ad in ini um. Ela é o p odu o do inconscien e e epo a-se ao inconscien e, “não é de modo nenhum a um Cogi o, en endido como p oposição da consciência ou como undamen o, que as Ideias se epo am, mas ao Eu endido de um cogi o dissol ido, is o é, ao uni e sal a- undamen o que ca ac e iza o pensamen o como aculdade no seu exe cício anscenden e”295. O pensamen o pu o ab e o plano onde o Se é expe ienciado como Di e ença, pu o de i . Nes e sen ido, o p oblemá ico é o campo onde a ideia- p oblema implica a ques ão on ológica. Os nossos hábi os, compo amen os ou acções são de e minados, em úl ima análise, po uma ques ão on ológica, po um impe a i o on ológico ou a dupla a i mação do de i , diz Deleuze. Di o de ou o modo, as ideias são o esul ado do jogo ideal do e e no e o no, o cosmos saído do caosmos, que se elacionam com a cesu a do empo, o Eu endido, que é incessan emen e deslocado e econs i uído segundo a o dem do empo. “Os impe a i os o mam, po an o, os cogi anda do pensamen o pu o, as di e enciais do pensamen o, ao mesmo empo o que não pode se pensado, mas o que de e se e só pode se pensado do pon o de is a do exe cício anscenden e”296. O mé i o de Deleuze es á no ac o de e dado ao inconscien e um es a u o on ológico, que po se p é-indi idual e impessoal, um pu o de i in ensi o, es á libe o de e e en es psicológicos ou biológicos, cons i uindo-se como a o ça p imo dial, a necessidade o iginal e p odu o a do no o, da di e ença, da ideia. É da necessidade que nascem as ideias; é a necessidade que une a ideia a qui ec ónica às cons uções men ais, compo amen ais e ísicas; é po necessidade que se con aem hábi os; é po necessidade que o a qui ec o ou o a is a c ia. Se á que is o anspa ece na c iação a ís ica e, em pa icula , no abalho do a qui ec o? Não es á a ideia a qui ec ónica bloqueada pela ep esen ação e o p ocesso de p ojec a e ém do cliché? Com e ei o, sim, mas a ealidade é mais complicada. Mesmo me gulhados no cliché e no aciocínio da consciência, o inconscien e não cessa de ope a mudanças que escapam aos a qui ec os e que nos 293 DR, p. 249. 294 DR, p. 321. 295 DR, p. 321. 296 DR, p. 328. 99 moldam impe ce i elmen e, assim como ao nosso abalho, que quei amos ou não, que saibamos ou não. A sua in luência, po ém, ende a se anulada pela e lexão conscien e com a ideia a o na-se e ém de um Eu iden i á io que em a ilusão de se o au o da ideia, da linha que aça, da ob a que é cons uída. Pa a melho comp eende mos o papel da ideia na p á ica a qui ec ónica, omemos alguns exemplos de es emunhos na p imei a pessoa de a qui ec os sob e o papel da ideia no seu abalho no qual incluo a minha p óp ia expe iência. Em sequência su gi á o concei o de diag ama como mé odo de abalho ligado ao hábi o. O a qui ec o espanhol Albe o Campo Baeza em uma ob a in i ulada A Ideia Cons uída (2004), cujo í ulo signi ica “que a a qui ec u a, além das o mas que assume, é a ideia que se exp ime com essas o mas. É a ideia ma e ializada à medida do homem, o cen o da a qui ec u a”297; e e indo ainda que a his ó ia da a qui ec u a é a his ó ia das ideias cons uídas, já que as “ o mas des oem-se com o empo, mas as ideias pe manecem, são e e nas”298. Desde logo, sal a à is a a e e nidade das ideias em con as e com a e eme idade da ideia em Deleuze. É cla o que es amos a ala da ideia em dois planos dis in os: a ixação pa a a e e nidade da ideia num concei o pela ep esen ação e a modulação cons an e e inconscien e da ideia sub- ep esen a i a. Ambas ope am ao mesmo empo, só que à consciência do a qui ec o escapa a exis ência das ideias sub e âneas que modelam e modi icam cons an emen e a ideia mola ; logo, ambém escapa à sua a enção as modi icações que so e a ideia e e na. O concei o ende a anula a di e ença e a homogeneiza a nossa pe cepção. Não é de espan a , po an o, que Baeza de enda que “a a qui ec u a não esul a de «encon os casuais», mas de uma «p ocu a á dua»”299. Tem azão em elação à segunda, não à p imei a. Ambas andam de mão dada. Assim como a ida quo idiana é ei a de encon os casuais e o ui os, ambém as ideias es ão semp e em modulação po se em p odu o de encon os inconscien es com o sí io, com o desenho, com o p og ama, com o clien e, com odo um conjun o de ci cuns âncias que moldam o p ojec o e a ob a. E pa a e acesso a esse undo inconscien e e p odu i o é p eciso um abalho á duo, onde a ideia ai su gindo numa lu a cons an e con a o cliché. E sob cada aço, enca nada em cada medida, es á o desmedido, es á a ida, que de e se 297 Albe o Campo Baeza, A Ideia Cons uída, adução Anabela Cos a e Sil a, Caleidoscópio, 2004, p. 9. 298 Idem. 299 Idem. 100 libe a na ob a de o ma a ele a o quo idiano a a e. A minha p á ica, baseada na in uição, nos sen idos e nas sensações, e menos no aciocínio, diz-me que a ideia não é e e na nem é o esul ado do aciocínio, que bloqueia o p ocesso c ia i o e ende a es aga o ixado. A cla idade da ideia é-me semp e ugidia e pa ece semp e que e -me le a pa a o obscu o, pa a o undo neg o de onde su ge. Ela su ge-me ambém semp e complexa, complicada, mis u ada, cheia de ons queb ados e de camadas, dob ando-se in ini amen e, já semp e a de i ou a coisa. Ten o semp e que o desenho, e depois a ob a, ixe qualque coisa da ideia, ou de uma ideia. Mies an de Rohe p ocu a a semp e uma ideia cla a e simples pa a os seus p ojec os, não p e endia muda udo, apenas uma coisa, e com isso exp essa o seu empo300. Pois, em mim, a ideia nunca é cla a. O cla ão que ela p oduz no pensamen o é e éme o e o uscan e, es on ean e, in ensi o. O abalho á duo es á semp e em en a ixa qualque coisa des a luz in ensi a, e ambém da escu idão que a acompanha, pa a que algo da ideia não caia no inde e minado, mas que ambém não seja cap u ada po uma ep esen ação lácida e esba ida. E com an as ideias a oco e em, é di ícil não cai na con usão e no caos. Daí o aciocínio su gi como apa en e sal ado da cla eza e do igo da ideia. Mas o que ele az é o cliché, a ep esen ação, o igu a i o, a na ação, o Mesmo. Aliás, o aciocínio é o que apa ece em p imei o luga , cheio de clichés e de p econcei os, ideias ei as e mais que ba idas. O a, é p eciso elimina o cliché pa a que algo de no o possa eme gi , pa a que a ob a de a e possa su gi . Deleuze, em Lógica da Sensação, sob e a pin u a de F ancis Bacon, assim como na ob a O Concei o de Diag ama, u iliza o concei o de diag ama pa a explica como se elimina o cliché e, com isso, ins au a as condições pa a a eme gência de uma ob a de a e, nes e caso, pic ó ica. O diag ama é a ope ação manual e empo al que nos az i do cliché ao ac o pic ó ico passando pelo a-pic ó ico. Dizendo com p op iedade, o diag ama é sín ese do empo, que az coexis i e comunica os seguin es ês momen os que o cons i uem: o p é-pic ó ico, o a-pic ó ico e o ac o pic ó ico. O ac o pic ó ico do pin o ou o ac o do p ojec a do a qui ec o é a in odução da ca ás o e-ge me que elimina, des az, dissol e o cliché que es á já p esen e na ela ou na olha em b anco. É que a ela nunca es á azia, não é uma supe ície i gem e imaculada, assim como não o é a olha de papel b anca pa a o a qui ec o ou pa a o esc i o . Nes e b anco impu o es á p ojec ado udo o que es á p esen e enquan o ac ual e i ual na men e do pin o ou do a qui ec o, odo o ipo de clichés, mesmo an es do seu abalho e começado. Assim, pa a se c ia algo de absolu amen e 300 C . Moisés Puen e (edição), Con e sas com Mies an de Rohe, adução de Ma ia Luiza T is ão de A aújo, Gus a o Gili, Ba celona, 2006, pp. 9-26. 101 no o é necessá io um abalho p epa a ó io: limpa a ela, limpa a olha de odos os elemen os igu a i os, de odas as ideias e in enções p é-es abelecidas, de odos os modelos e imagens; e, em úl ima ins ância, de nós p óp ios, sai o a da ela e da olha, de i -ou o. De emos libe a -nos de odo o i ido e do já- is o. Libe a -nos da hegemonia da isão e aze apa ece a isão háp ica pa a o na sensí eis e isí eis as o ças i ais da exis ência. O luga das o ças é a ca ás o e diag amá ica, o caos que sobe à supe ície e que es á en e o p é-pic ó ico e o pic ó ico. É aqui que ulgu a o absolu amen e no o como possibilidades de ac o de onde i á sai a Figu a ou a Fo ma. F ancis Bacon, segundo Deleuze, elimina o cliché ao pin a sob e o igu a i o, in oduzindo aços a-signi ican es, conjun o de ma cas in olun á ias e aciden ais que não êm qualque alo igu a i o, na a i o ou ep esen a i o; assim como ambém az uma limpeza local, onde com uma esco a ou es egão espalha a espessu a da in a e as ex u as po uma pa e da ela, c iando uma zona não igu a i a, um pequeno caos-ge me, de onde algo pode su gi . Es e caos-ge me que é in oduzido é uma iolência que o ça o des aze da igu ação e a de o mação dos co pos. Eu abalho ambém na p ocu a de des aze o cliché e a igu ação na a qui ec u a, mas pela ia do hábi o: po um lado, como o ma de dissol e impe cep i elmen e o cliché no inconscien e, onde a sua na u eza é ans o mada, de indo ou a coisa; po ou o lado, pela epe ição como p ocesso de di e enciação. Eu habi uo-me ao sí io onde a ob a i á se cons uído, en o habi á-lo, me gulhá-lo em mim, no meu inconscien e, a a és do desenho e não an o da o og a ia, pa a as suas ene gias e o ças exógenas en a em em encon os e a anjos com as minhas o ças endógenas impessoais e p é-indi iduais; e do encon o su gi algo de no o que possa se ixado no desenho, no p ojec o e na ob a a qui ec ónica. Essa luz ideal in ensi a e e éme a. No desenha , a p imei a coisa que é desenhada na u almen e é o que es á na olha e no meu pensamen o como cliché e in enções. É um p imei o momen o igu a i o que é ine i á el e que, segundo Deleuze, não é possí el de se eliminado po comple o301. E é e dade, a consciência coloca-me logo a desenha as minhas in enções igu a i as, que não são mais que ep esen ações das ep esen ações da consciência; uma e- ep esen ação ou uma e cei a epe ição. O a, o objec i o é não ep oduzi o que a consciência ep oduz. E, nesse sen ido, aço um abalho p epa a ó io no esquiço e no desenho. Eu habi uo-me 301 FB, p. 166. 102 ao desenho enquan o epi o aços sob e aços po cima das p imei as igu as que são desenhadas (imagens 8-12). O objec i o é não ica na igu ação, mas en a ex ai algo de no o e de di e en e do desenho. A mão, a ce a al u a, já desenha sozinha, libe a da isão, sob a o ien ação do inconscien e, enquan o a isão es á na expec a i a, à espe a de oma consciência do su gimen o do no o que a a inge como sensação, já que a isão é uma especialização da pele, do ac o. A mão desenha e o olho espe a, não o Mesmo, mas o no o. É deixa o inconscien e ope a , p oduzi . Po exemplo, o conhecido a qui ec o inlandês Al a Aal o (1898-1976) a i ma a que pa a esol e ce os p oblemas, e quando a consciência bloquea a, desenha a li emen e sem qualque elação com o dilema a esol e a é que, de súbi o, a ideia su gia po ela p óp ia e desbloquea a o pensamen o. O que Aal o azia e a deixa o inconscien e ope a sob o bloqueio da consciência, des uindo-o. O meu p ocesso de abalho é epe i a é o inconscien e subi à supe ície do pensamen o e do desenho. Nes a epe ição di e enciado a, excessi a e inin e up a do aça que a consciência que semp e bloquea e es agna , o caos é in oduzido no desenho e no pensamen o. Es a modulação cons an e é a p ocu a de ex ai e ixa uma Ideia, uma Figu a, uma Fo ma, que se possa o na um ac o a qui ec ónico, is o é, ob a cons uída. O pe igo es á em que o caos ome con a do desenho e o o ne inin eligí el e inde e minado (imagens 13-25). Que os aços manuais sa u em de al modo o desenho que es e se o ne con uso e inu ilizá el. Quan o al não acon ece, há a possibilidade do caos-ge me sai uma Fo ma – bloco de sensações, de pe cep os e a ec os – que ixa as o ças e p oduz uma sensação, uma de o mação do desenho que é uma segunda igu ação que su ge como e ei o da Figu a. Embo a haja uma sua idade, e não uma iolência, no abalho do hábi o e do desenho sob a o ien ação de uma epe ição inconscien e e di e enciado a, não deixa de exis i um sal o di e encial in ensi o en e a p imei a igu ação p ojec ada (na men e do a qui ec o ou na olha em b anco) ou desenhada e a segunda igu ação. Sob a calma apa en e do hábi o exis e uma iolência la en e que é colocada em c escendo de in ensidade no desenha , pelo desenha , su gindo mesmo iolência no açado, de o mando a composição isual na espe ança que algo de no o su ja. T a a-se de uma p og essão de in ensidade que pode culmina no caos comple o ou no su gimen o de um bloco de sensações, uma Figu a ou uma Fo ma, que in oduz o no o no conjun o isual. “En e as duas p oduziu-se uma espécie de sal o no mesmo sí io, uma de o mação no mesmo luga , o su gimen o localizado da Figu a, o ac o pic u al. […] Um conjun o isual p o á el (p imei a igu ação) oi deso ganizado, de o mado, po aços manuais 103 li es que, uma ez einjec ados no conjun o, ão p oduzi a Figu a isual imp o á el (segunda igu ação).”302 O desenha , como o ac o de pin a , é a sín ese dos aços manuais que des azem a igu ação e azem su gi uma no a Fo ma. Mas se á melho ala mos não só no desenha como o ac o do a qui ec o, mas no p ojec a . O p ojec a engloba o desenha como ambém a p odução de maque es, de imagens idimensionais compu o izadas; mas, p incipalmen e, o p ojec a de ine-se como uma pe manen e in odução do u u o, do no o, nos di e en es elemen os que exp essam as ideias a qui ec ónicas que es ão em cons an e modulação. P ojec a é an ecipa , mas não pode se a p e isão p obabilís ica da consciência, em de se o u u o como possibilidades de ac o, como po encial do no o. P ojec a é es a no meio do caos, no seio da he e ogénese, de onde as ideias e as Fo mas su gem, mas co ando-o, con uindo um plano no caos, sob e o caos, onde se ixam de i es. P ojec a é a e cei a sín ese do empo, a do u u o, é a cesu a, o de i , o diag ama, que az coexis i passado e u u o num espaço sem p esen e, oscilando en e um an es e um depois, mas sem nunca se apanhado de um dos lados, e onde udo pode acon ece , libe dade c ia i a máxima. Deleuze a ibui ao diag ama cinco ca ac e ís icas303. A p imei a ca ac e ís ica é a elação necessá ia en e o caos e o ge me. A in odução do caos no desenho, ou na maque e, ou no quad o, é a ca ás o e pa a o igu a i o que o p ecede ao mesmo empo que é po ência pa a o que se lhe segue. Daí que o diag ama seja uma sín ese do empo. E do caos de e sai algo de no o, senão o desenha , o modela , o cons ui , alha; que po se cap u ado pela ep esen ação, que po oma con a do conjun o isual, dissol endo- o no inde e minado. O que de e sai do caos é uma Fo ma, uma Ideia. A ideia é o ge me. A ideia é o di e encial do pensamen o, da c iação, do p ojec o. E a ideia su ge da ma é ia igu a i a que é dissol ida e o nada ma é ia de exp essão ganhando o ma de ideia. A ideia a qui ec ónica su ge, p ecisamen e, da ma é ia de exp essão que é ans o mada a pa i do que é dado pelo sí io e pela men e do a qui ec o. E o que é dado são um conjun o de p oblemas que de em se esol idos de uma no a o ma. Como e e iu Ál a o Siza Vie a numa en e is a algu es, os p oblemas são o alimen o do p ojec o. É nes e sen ido 302 FB, p. 167. 303 Sob e as cinco ca ac e ís icas do diag ama, c . capí ulo III de Gilles Deleuze, Pin u a: El Concep o de Diag ama, Cac us, Buenos Ai es, 2007, pp. 89-106; e c . capí ulo 12 de FB, pp. 169-186. 104 que a ideia a qui ec ónica é uma ideia-p oblema, que é exp essa em p ojec o e, pos e io men e, onde in e essa, na ob a a qui ec ónica cons uída que é i enciada quo idianamen e. E os p oblemas não são somen e p á icos e quo idianos, mas ambém exis enciais, que dize , es é icos. A ob a a qui ec ónica de e ixa as o ças i ais e in isí eis do sí io e exp essa-las, assim como az com a ideia que a acompanha, es ando numa elação de de e minação ecíp oca com ela. É ao ixa e exp essa as o ças in isí eis e insensí eis de um sí io que a cons ução a qui ec ónica o na-se ob a de a e e a localização o na-se um luga i o. O concei o de luga é undamen al pa a a a qui ec u a. T adicionalmen e, na p á ica e na eo ia da a qui ec u a, um sí io o na-se luga quando a ob a a qui ec ónica exp essa a ida e a humanidade, a memó ia e a iden idade de um sí io e de um modo de ida, no âmbi o de uma enomenologia da a qui ec u a. Es a isão es á assen e na con e ência que Ma in Heidegge deu em 1951, em Da ms ad , Alemanha, com o í ulo Cons ui Habi a Pensa 304, onde pensa o habi a humano sob a p oblemá ica que semp e egeu o seu pensamen o ilosó ico: a pe gun a pelo sen ido do Se . Es e ensaio o nou-se amoso no meio a qui ec ónico e essencial na eo ia da a qui ec u a. Sob es a pe spec i a, o que os a qui ec os p ocu am é a iden idade do local, o seu Genius Locci, o “espí i o do luga ”305. O a, essa iden idade ão ap egoada nas uni e sidades e na eo ia, nunca a consegui encon a na p á ica. O que encon o ou sin o nos locais são luxos i ais em coexis ência e em de e minação ecíp oca; ou seja, uma mul iplicidade de ida, de memó ias, de almas con empla i as. Semp e me oi di ícil sin e iza o que se passa num sí io numa só iden idade que pe manece e e na, um espí i o uni icado ou sen ido único, que dá o igem a uma ideia a qui ec ónica pa a a ob a a con ui . Aliás, nunca descob i al coisa excep o po um es o ço da imaginação ou do en endimen o. Semp e es i e mais p eocupado com o que os acon ecimen os locais “pedem” pa a se esol ido. Quais os p oblemas que a ida pede pa a se em esol idos, a di e en es ní eis, naquele local especí ico. O que signi ica que habi a um edi ício, um espaço, um luga , es á pa a além, ou melho , es á sob a iden idade e a ep esen ação. Habi amos sub e aneamen e, inconscien emen e. No undo, o que há é mul iplicidade e es a de e se a i mada em odo o seu esplendo na ob a a qui ec ónica306. A ob a 304 C . Ma in Heidegge , “Building Dwelling Thinking”, om Poe y, Language, Though , ansla ed by Albe Ho s ad e , Ha pe Colophon Books, New Yo k, 1971. 305 Sob e o concei o de Genius Locci na a qui ec u a, c . Ch is ian, No be g-Schulz (1979), Genius Locci, Towa ds a Phenomenology o A chi ec u e, Rizzoli, New Yo k, 1980. 306 A elação do concei o do habi a na a qui ec u a com as iloso ias de Heidegge e de Deleuze da ia um es udo longo e complexo, mas que pode ia se in e essan e e p o ei oso pa a ambos os campos disciplina es. 111 DELEUZE, Gilles, Pin u a: El Concep o de Diag ama, Cac us, Buenos Ai es, 2007. 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Sequência de desenhos onde es ão p esen es zonas de caos, de exp essão e de ep esen ação. Imagem 8 Imagem 9 Imagem 10 Imagem 11 Imagem 12  P ojec o de eno ação de apa amen o T3, Ca naxide, Oei as, Lisboa, 2015. Sequência de desenhos onde es ão p esen es olhas nos quais o caos p oli e a, 114 o nando o desenho inu ilizá el e inde e minado, em con as e com momen os onde a ep esen ação cap u a o desenho. Imagem 13 Imagem 14 Imagem 15 Imagem 16 Imagem 17  Concu so de ideias pa a um a anha-céus sus en á el, 2013. A p oli e ação do caos de onde saem agmen os de sen ido. Imagem 18 Imagem 19  Concu so de ideias pa a o No o Museu de A e Con empo ânea de Buenos Ai es, A gen ina, 2012. Sequência de desenhos que mos am a lu a no caos: o colapso de desenhos ao mesmo empo que agmen os de desenho são ixados. Imagem 20 Imagem 21 Imagem 22 Imagem 23 Imagem 24 Imagem 25  Maque es pa a uma passagem pedonal e um apoio de p aia, Caxias, Lisboa, 2002. Imagem 26 Imagem 27  Maque es e e en es a um planeamen o u bano pa a Caxias, Lisboa, 2003, onde se inclui, en e ou os, um p ojec o de uma biblio eca pública. Imagem 28 Imagem 29 115 Imagem 30 Imagem 31  P ojec o de habi ação uni amilia , Viseu, 2005. Desenhos sob epos os em ege al. Imagem 32 Imagem 33 Imagem 34  Concu so de ideias pa a um Museu de A queologia em Tulum, México, 2006. Esboço da ideia. Imagem 35 Imagem 36 116 ANEXO I – IMAGENS Ca e na de Lascaux, F ança. Fon e: h p://www.ancien -wisdom.com/ ancelascaux.h m Imagem 1 – Salão p incipal Imagem 2 – Sala dos ou os Imagem 3 – De alhe dos ou os Foun ain de Ma cel Duchamp. Fo og a ia de Al ed S iegli z i ada na gale ia de a e 291 depois da exposição de 1917 na Sociedade de A is as Independen es. Fon e: h ps://en.wikipedia.o g/wiki/Foun ain_(Duchamp) Imagem 4 – Foun ain 117 Edi ício Wainw igh , Sain Louis, Missou i, Es ados Unidos da Amé ica, p ojec ado pela i ma de a qui ec u a Adle & Sulli an, sediada em Chicago. Fon e: h p://openbuildings.com/buildings/wainw igh -building-p o ile-3000 Imagem 5 – Edi ício Wainw igh Pa enon, A enas, G écia. Fon e: h p://www.mega imes.com.b /2015/01/pa enon- emplo-consag ado-deusa-a ena.h ml Imagens 6 – Pa enon 118 Casa Dupla em Weissenho siedlung, Es uga da, Alemanha, p ojec ada po Le Cobusie . Fon e: h ps://www.pin e es .p /ch is ophebodin/le-co busie / Imagem 7 – Ca o com a Casa Dupla em undo P ojec o de uma casa dupla pa a dois i mãos, Da undo, Algés, Lisboa, 2011. Sequência de desenhos onde es ão p esen es zonas de caos, de exp essão e de ep esen ação. Imagem 8 – Esboços e plan as Imagem 9 – Plan as e co es 119 Imagem 10 – Plan as, co es, alçados e de alhes a qui ec ónicos Imagem 11 – Plan as e pe spec i a Imagem 12 – Es udo de luz em plan a e co e 120 P ojec o de eno ação de apa amen o T3, Ca naxide, Oei as, Lisboa, 2015. Sequência de desenhos onde es ão p esen es olhas nos quais o caos p oli e a, o nando o desenho inu ilizá el e inde e minado, em con as e com momen os onde a ep esen ação cap u a o desenho. Imagem 13 – O caos oma con a do desenho Imagem 14 – P ocu a de cla idade ep esen a i a Imagem 15 – Zonas de caos e agmen os sol os