Um estudo semântico-enunciativo de predicados subjectivos do português
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Helena Topa Valentim UM ESTUDO SEMÂNTICO-ENUNCIATIVO DE PREDICADOS SUBJECTIVOS DO PORTUGUÊS Faculdade de Ciências Sociais e Humanas UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA Lisboa 2004
Helena Topa Valentim UM ESTUDO SEMÂNTICO-ENUNCIATIVO DE PREDICADOS SUBJECTIVOS DO PORTUGUÊS Dissertação para obtenção do grau de Doutor em Linguística realizada sob a orientação da Professora Doutora Maria Henriqueta Costa Campos Faculdade de Ciências Sociais e Humanas UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA Lisboa 2004
Agradecimentos O trabalho que aqui apresento beneficiou de múltiplas e, em alguns casos, insuspeitas, formas de apoio – pessoas que sempre estiveram presentes e a quem expresso a minha gratidão. Agradeço, limitada pela contingência do que as palavras me permitem, à Professora Maria Henriqueta Costa Campos. A orientação deste trabalho foi um capítulo importante na continuidade de uma relação que, desde há 15 anos, me tem permitido aprender muito. A sua exigência e rigor científicos, a sua disponibilidade e constante confiança manifestada, são, para mim, reveladoras, por um lado, de uma visão inspirada do que é hoje a construção do saber científico, e, por outro lado, de um sentido pedagógico do que deve ser o trabalho com e para as pessoas. Não só pelo interesse e estímulo, como pela solicitude quando necessário - para uma releitura, uma busca bibliográfica -, agradeço aos meus colegas do grupo de investigação: à Ana Bela Afonso, ao António Moreno, ao Benjamim Moreira, à Janete Bessa, ao Manuel Luís Costa, à Oana Raluca Csiszer, à Otília Sousa, ao Pierre Lejeune, à Sílvia Araújo e à Teresa Oliveira. Agradeço de forma particular, à Clara Nunes Correia, pela pertinência das sugestões e à Susana Pereira, pela leitura de uma versão prévia do capítulo 8. Também pelo interesse e estímulo, agradeço a todos os colegas do Departamento de Linguística - alguns deles, por terem sido meus professores, corresponsáveis no percurso que hoje trilho –, assim como à Laura Martins. A minha gratidão vai também para os meus amigos: para o João e para o Rui, pelo tempo e apoio que me deram; para a Ivete, para a Ilda e para a Francisca, pelos momentos de descontração; para todos os outros amigos e amigas, pelo ânimo e cuidado. À Junta Nacional da ACISJF, agradeço, reconhecida, o espaço que tão gentilmente me cedeu em Sintra, proporcionando-me, deste modo, a tranquilidade necessária para a elaboração de grande parte do presente estudo. Ao Paulo e ao Heitor, aos meus pais e ao Ricardo, para quem nenhuma palavra será suficiente, dedico este trabalho.
7 Índice 7 1. Introdução .......................................................................................................... 11 1.1 Delimitação do objecto de estudo e objectivos ........................................ 11 1.2 Organização do trabalho .............................................................................. 20 1.2.1 Estruturação .......................................................................................... 20 1.2.2 Aspectos formais ................................................................................... 23 1.3 Quadro teórico-metodológico ........................................................................ 25 2. Delimitação de uma subclasse verbal ........................................................ 27 2.1 Classificação lógico-filosófica: predicados de atitude proposicional .............. 27 2.2 Descrição sintáctica: verbos que seleccionam uma estrutura de complementação verbal ..................................................................................... 45 2.3 Perspectiva enunciativa: o problema da classificação das ocorrências linguísticas ......................................................................................................... 53 2.3.1 Discreto - Denso - Compacto, três modos de construção de valores referenciais ..................................................................................................... 59 2.3.2 Três estruturas predicativas: agentividade, localização e validação ...... 87 3. Da lógica modal à modalidade linguística ................................................. 91 3.1 Lógica modal ................................................................................................ 92 3.1.1 Lógica epistémica .................................................................................. 96 3.1.2 Factividade ............................................................................................ 99 3.2 Modalidade linguística ................................................................................ 114 3.3 Modalidade no quadro da Teoria Formal Enunciativa ................................. 116 3.3.1 Construção da categoria gramatical da modalidade ............................ 121 3.3.2 Os diferentes valores de modalidade ................................................... 126
8 4. Caracterização enunciativa da subordinação ........................................ 153 4.1 Subordinação como localização nocional ................................................... 157 4.2 Subordinação como instanciação de um lugar ao nível predicativo: uma relação de imbricação ...................................................................................... 159 4.3 A relação de imbricação como dispositivo de modalização ........................ 164 5. Verbos conceptuais em enunciados do tipo „V (1ª pessoa gramatical) que p‟. Predicados subjectivos e construção de um valor modal epistémico ............................................................................................................. 167 5.1 Heterogeneidade enunciativa e validação subjectiva .................................. 171 5.1.1 Primeira pessoa gramatical como índice de subjectividade ................. 179 5.2 O problema da modalidade no enunciado complexo .................................. 189 6. Relação entre modalidade e enunciação mediatizada ......................... 199 6.1 Força assertiva e construção de factos inferidos ........................................ 210 6.1.1 Inferência abdutiva e inferência dedutiva ............................................. 219 6.1.2 Construção de uma relação causal: localização do juízo modal ou da relação imbricada ......................................................................................... 227 6.2 Pseudoperformatividade e fórmulas de asserção ....................................... 232 7. Verbos conceptuais em enunciados do tipo „V (2ª e 3ª pessoas gramaticais) que p‟ ............................................................................................. 239 7.1 Enunciação relatada ou construção de “modalização do discurso em discurso segundo” .......................................................................................................... 239 7.2 Construção do valor polémico .................................................................... 257 8. Verbos conceptuais e construção transitiva-predicativa .................... 273 8.1 Natureza intensional e delimitação qualitativa do complemento transitivo-predicativo ......................................................................................... 277 8.2 Restrições aspectuais ao nível do complemento transitivo-predicativo e valor modal construído .............................................................................................. 284
9 9. Construção transitiva com objecto nominal. O problema da “polissemia” de alguns verbos conceptuais .............................................. 303 9.1 Valor modal e valor não modal de achar e de julgar ................................... 304 9.1.1 Outros valores modais de achar: valores apreciativo e intersubjectivo 312 9.2 Formas reflexas de verbos conceptuais. O caso de achar-se ..................... 325 9.3 Saber, um caso particular ........................................................................... 330 10. Complementação infinitiva. Configuração do sentido volitivo de „pensar Vinf‟ e do sentido de capacidade inerente a „saber Vinf‟ ............. 341 10.1 „Pensar Vinf‟: algumas restrições aspectuais ao nível do complemento ..... 350 10.1.1 Diferença entre „pensar Vinf‟ e „pensar em Vinf‟ ................................... 353 10.2 „Saber Vinf‟: ausência de restrições aspectuais ao nível do complemento . 361 11. Outras construções sintáctico-semânticas .......................................... 367 11.1 Complementação preposicional: os casos de „pensar em SN‟, „crer em SN,‟ „acreditar em SN‟ .............................................................................................. 367 11.2 Complementação em se. O caso das interrogativas indirectas ................. 371 11.3 Emprego de verbos conceptuais em posição final .................................... 385 12. Relação entre a negação e as propriedades específicas dos verbos conceptuais .......................................................................................................... 399 12.1 „Duvidar que p‟ e „não crer que p‟: duas formas de orientar negativamente o conhecimento construído.................................................................................. 415 13. Conclusão ...................................................................................................... 421 BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................... 425
16 Ainda por ser exclusivamente de natureza proposicional, o objecto destes verbos só pode ser retomado e pronominalizado através do recurso a um pronome e, naturalmente, não deíctico (por exemplo, o clítico o, os demonstrativos isso, isto), ou ainda através do recurso a expressões com pronomes indefinidos (como algo ou nada)11. Veja-se os seguintes enunciados, com o verbo pensar: 1.3 Penso que a qualidade de vida se mede pelo grau de confiança que se tem no futuro 1.3a Também o penso / *Também a penso 1.3b Penso isso desde que li um livro sobre a sociedade do século XXI 1.3c Penso isto desde que li um livro sobre a sociedade do século XXI 1.3d Penso algo semelhante 1.3e Não penso nada disso Outro aspecto sintáctico relevante para a caracterização do objecto que estes verbos permitem construir, dando origem a diferentes predicados, consiste na possibilidade, extensiva a todos eles, de coocorrerem com um complemento do tipo que sim ou que não. O emprego de um destes marcadores assertivos - positivo ou negativo (ou itens de polaridade afirmativa ou negativa) – tem lugar quando as condições discursivas dispensam a formulação explícita de um complemento proposicional: por exemplo, num diálogo, como resposta a uma interrogativa total (1.4 e 1.5)12, na 11 Genericamente, a pronominalização da subordinada, corrobora, do ponto de vista da gramática tradicional, a sua função de complemento de objecto directo. Por conseguinte, a pronominalização manifesta a regência transitiva do verbo introdutor. 12 Em português europeu mas também noutras variantes geográficas, como em português do Brasil (ver M. Oliveira, 2002), o emprego isolado da partícula assertiva positiva sim nas respostas a interrogativas totais apresenta algumas restrições (ver Martins, 1994). Na resposta a uma interrogativa, pode empregar-se sim, seguido do verbo introduzido na interrogativa, mas, normalmente, emprega-se exclusivamente o verbo (como, por exemplo, na sequência Foste à praia? Fui). O marcador assertivo positivo pode ser empregue como resposta a uma interrogativa total quando ocorre em vez de um complemento proposicional
17 réplica a uma afirmação (1.6), ou, sendo da responsabilidade de um mesmo enunciador, na retoma de uma relação predicativa pré-construída (1.7): 1.4 E estás resolvida a continuar a fugir-lhe a essa explicação? – Suponho que sim (Ref: L0233P0028X) 1.5 É estatuário de verdade? – Julgo que sim (Ref: L0513P228X) 1.6 O João está interessado na Ana – Eu penso que não 1.7 Diz-se que as gerações mais jovens se divertem mais, mas eu acho que não Por conseguinte, tendo presente a diversidade dos empregos destes verbos e dos consequentes valores de que as configurações resultantes são marcadoras, são vários os factos sintáctico-semânticos que podemos acrescentar aos acima referidos e que permitem particularizar o funcionamento desta subclasse verbal, e de cada um dos verbos individualmente: a) o facto de, a par com uma estrutura de complementação de natureza completiva com o complementador que, alguns destes verbos poderem apresentar o que, à primeira vista, corresponderá a um objecto directo acrescido de um elemento predicativo (ver § 8). Excluindo outros verbos não abrangidos por este estudo, é o caso dos verbos achar, julgar, acreditar, pensar, supor, crer e saber; b) a possibilidade de estes verbos apresentarem um complemento infinitivo que, com claras consequências sob o ponto de vista da significação construída, em certas condições se pode apresentar, quer seja no infinitivo flexionado, quer seja no infinitivo não flexionado. É o caso dos verbos pensar, acreditar, supor e saber (ver § 10); (em contextos linguísticos como os acima exemplificados), não sendo, no entanto, este o único recurso possível já que se pode igualmente recorrer ao verbo introduzido na interrogativa (por exemplo, sem mudança visível em termos da significação construída, no enunciado 1.4, suponho que sim poderia ser substituído por suponho que estou).
18 c) a forma como, combinada com a construção de certos valores modais, a oração substantiva, objecto directo de alguns destes verbos, pode corresponder a uma interrogativa indirecta, que pode, por sua vez, ser total (com o complementador se) ou, parcial (com um complementador como quando, como, porquê, onde, qual, quantos) (ver § 11.2); d) a possibilidade de, no caso particular de alguns destes verbos (por exemplo, pensar e achar, na forma reflexa, e acreditar e saber), o objecto construído ser de natureza preposicional, ainda que, entre outros aspectos adiante tratados, se registe uma diferença em termos dos valores construídos, consoante a preposição anteceda um grupo nominal (ver § 11.1) ou a forma nominal do infinitivo (ver § 10.1.1); e) o facto de a negação ao nível do um predicado subjectivo poder incidir ou não sobre a oração subordinada, decorrendo dos valores modais de que cada um dos verbos em análise é marcador (ver § 12); f) a, por vezes possível, alternância de modo do verbo ao nível da subordinada, quando esta tem como configuração sintáctica uma completiva flexionada. Motivado pela construção de determinados valores modais (como, por exemplo, a negação) ou não, este constitui um facto relevante para a caracterização semântico-enunciativa de todos os verbos em análise (ver, em particular, §§ 11.2 e 12.1); g) o facto de estes verbos, de forma diferenciada, poderem integrar a construção de uma expressão em posição final, que pode ser declarativa, interrogativa ou imperativa (ver § 11.3); h) a possibilidade de alguns dos verbos que são objecto deste estudo aparecerem, alternativamente, na forma não reflexa e na forma reflexa, com consequências em termos da configuração do seu sentido (ver § 9.2). É o caso, por exemplo, dos verbos achar, julgar, crer, supor, mas também de acreditar e de saber, cuja forma reflexa
19 (achar-se, julgar-se, crer-se, supor-se, acreditar-se e saber-se) pode ocorrer seguida de uma expressão adjectival, de um grupo nominal ou de um grupo preposicional, correspondendo todas estas formas a um termo predicativo. Pela diversidade dos comportamentos sintáctico-semânticos observados, a delimitação do âmbito das construções linguísticas em estudo coloca ainda a exigência de uma demonstração e de uma fundamentação da complementaridade destas formas linguísticas, enquanto integrantes de uma subclasse que procuraremos demonstrar delimitável, do ponto de vista semântico-enunciativo. Através do recurso pontual a diferentes propostas classificatórias de que a subclasse em causa é objecto e aos critérios que lhes são subjacentes, pretende-se rever e potenciar estes contributos naquilo que apresentam de enriquecedor das possibilidades de análise deste trabalho. Para tal, adoptar-se-á uma postura de questionamento que, alicerçada no recurso aos pressupostos teóricos e metodológicos da Teoria Formal Enunciativa13, nos conduzirá, idealmente, a propor o enriquecimento dos parâmetros teóricos da descrição. O interesse que este tema suscita deve-se, aliás, às possibilidades de análise abertas por várias propostas, nomeadamente pela abordagem lógico-filosófica (ver § 2.1) e, sobretudo, pelos trabalhos estritamente linguísticos em que, incidindo sobre formas correspondentes de várias línguas, se tecem obervações que, imediatamente, desafiam a questionar o funcionamento dos verbos “congéneres” do português, a propor sua caracterização. Outro dos desafios que, desde o início deste trabalho, constituiu um estímulo foi a inexistência de uma proposta de análise transcategorial destas formas linguísticas do português. É, pois, desta forma que este projecto ganha corpo: na convicção de que uma abordagem transcategorial, apoiada num modelo teórico-metodológico coerente e 13 Ao situarmo-nos no quadro da Teoria Formal Enunciativa, por coerência de opção e por convicção científica, sirvo-me de conceitos elaborados nesta teoria mas não excluo a hipótese, que não sigo, de este estudo ser recuperável noutros quadros de análise.
20 rigoroso, possa constituir um contributo para a caracterização semântico-enunciativa das formas em análise, assim como para uma melhor compreensão da construção da categoria da modalidade. 1.2 Organização do trabalho 1.2.1 Estruturação De acordo com o itinerário da reflexão que aqui propomos e que introduzimos ao definir os objectivos do presente trabalho, optámos por organizá-lo em 13 capítulos. Depois de, no primeiro capítulo, propormos uma delimitação do objecto de estudo, a identificação dos objectivos, assim como a apresentação sumária do quadro teórico-metodológico, os dois capítulos subsequentes, ainda introdutórios, são de natureza teórica. No capítulo 2, aborda-se o problema da delimitação da subclasse verbal que constitui objecto deste estudo. Com base nos textos de alguns filósofos, da antiguidade clássica aos nossos dias, enquadra-se o que, no âmbito das abordagens lógico-filosóficas, são atitudes proposicionais e caracteriza-se os predicados de atitude proposicional. Seguidamente, propõe-se uma breve referência a propostas que, de acordo com um critério sintáctico, classificam as formas linguísticas em causa enquanto verbos que seleccionam uma estrutura de complementação. A hipótese de classificação da subclasse verbal numa perspectiva enunciativa conduz-nos por um caminho de problematização que, pela recusa de um procedimento classificatório, conflui na identificação de três modos de construção de ocorrências linguísticas. No capítulo 3, tendo como base o levantamento da articulação entre algumas das categorias lógicas da modalidade e as formas linguísticas que nos ocupam,
21 apresentamos, já numa perspectiva semântica, várias propostas de tipologização dos valores modais, que contemplam, explicitamente, uma descrição destas formas em termos de modalidade. No capítulo 4, far-se-á uma caracterização enunciativa da subordinação que nos permitirá possibilidades de representação e de explicação metalinguísticas para uma “relação de dependência” com expressão nos diferentes níveis de derivação do enunciado: nocional, predicativo e enunciativo. Recuperando os conteúdos introduzidos no capítulo anterior, conclui-se que, para uma descrição dos valores de determinação do enunciado, não se deve ignorar a especificidade das relações gramaticais que se estabelecem quando se está perante uma estrutura de subordinação. Nos capítulos 5, 6 e 7, retoma-se e aprofunda-se a descrição e explicação, no quadro da Teoria Formal Enunciativa, dos valores modais epistémicos marcados pelo emprego dos predicados subjectivos (em enunciados do tipo „V que p‟). No capítulo 5, referem-se e ilustram-se as diferentes formas de construção de heterogeneidade enunciativa – através de uma disjunção abstracta (1ª pessoa) ou de uma dissociação referencial (2ª e 3ª pessoas) – e propõe-se a 1ª pessoa como índice de subjectividade. No capítulo 6, articula-se a categoria gramatical da modalidade com o que vem sendo definido em vários estudos enquanto fenómeno da enunciação mediatizada. O estabelecimento desta relação funda-se no recurso a vários conceitos, todos eles confluentes para a descrição dos enunciados: conceitos de força assertiva, inferência, indução e abdução, etc. Neste capítulo, discute-se ainda a hipótese de uma aproximação de enunciados do tipo „V (1ª pessoa, presente do indicativo) que p‟ ao performativo austiniano. No capítulo 7, analisa-se a forma como se organizam os suportes do valor modal construído em enunciados do tipo „V que p‟, quando, pelo emprego destes verbos na 2ª e 3ª pessoas, se constrói uma dissociação referencial entre os sujeitos, enunciador e modal. Pôe-se em causa o facto de termos, em exclusivo, enunciação relatada (quando na 3ª pessoa) e descreve-se a construção de um
22 valor polémico, relacionando a sua incidência sobre a subordinada ou sobre a totalidade do enunciado com o facto de o complemento apresentar ou não um funcionamento predicativo. Nos capítulos que se seguem, propõe-se uma abordagem semântico-enunciativa das configurações sintáctico-semânticas mais relevantes que o complemento objecto destes verbos pode apresentar. Com implicações óbvias do ponto de vista da construção da significação, uma descrição cruzada destes factos, ao longo dos capítulos 8 a 12, dará, necessariamente, conta dos diferentes valores referenciais construídos, sobretudo dos valores de determinação modal. No capítulo 8, propõe-se a descrição de enunciados que ilustram a possibilidade que alguns destes verbos apresentam de coocorrer com um complemento de natureza transitiva-predicativa. No capítulo 9, confronta-se as diferentes configurações de sentido, modais ou não modais, que alguns dos verbos em análise, inclusivé, na forma reflexa, registam quando coocorrem, quer com um objecto nominal, quer com um objecto proposicional. Esta constatação obriga a que se discuta o conceito de “polissemia” e enquadra, por contraposição, o estudo do caso particular de saber, verbo que apresenta uma estabilidade de sentido. No capítulo 10, contempla-se o facto de, ainda com consequências sob o ponto de vista da significação construída, os verbos em análise poderem apresentar um complemento infinitivo, seja flexionado, seja não flexionado. Impõem-se, assim, os casos particulares de „pensar Vinf‟ e de „saber Vinf‟, em que se configura, respectivamente, um sentido volitivo e um sentido de capacidade, valores que interagem com a (in)existência de restrições aspectuais ao nível do complemento. Uma explicação metalinguística do sentido volitivo inerente a „pensar Vinf‟ justifica, por contraste, a explicação do mesmo sentido volitivo inerente a „pensar em Vinf‟, orientado, respectivamente, para o sujeito ou para o objecto. No capítulo 11, propõe-se uma descrição e uma explicação metalinguísticas de outras três construções sintáctico-semânticas que identificámos como relevantes no estudo dos predicados subjectivos a estudar: ainda a complementação
23 preposicional, quando a preposição antecede um grupo nominal; o caso em que a oração substantiva, objecto directo de alguns destes verbos, pode corresponder a uma interrogativa indirecta, total ou parcial; o facto de estes verbos, de forma diferenciada, poderem integrar a construção de uma expressão em posição final - declarativa, interrogativa ou imperativa. No capítulo 12, relaciona-se com a caracterização de cada um dos verbos em análise o facto de a negação ao nível do predicado subjectivo poder incidir ou não sobre a oração subordinada. Abordada transversalmente nos capítulos 9 a 11, a possibilidade ou não de alternância de modo do verbo ao nível da oração subordinada é, de forma particular, objecto de estudo neste capítulo, a propósito das duas formas de orientar negativamente o conhecimento construído – „duvidar que p‟ e „não crer que p‟. Finalmente, em conclusão, no capítulo 13, reafirmaremos a unicidade e a diversidade do objecto de estudo, retomando, de forma sintética, os principais resultados alcançados com este trabalho. 1.2.2 Aspectos formais Para a elaboração deste trabalho, socorremo-nos de um corpus de referência que integra textos autênticos, orais e escritos, provenientes do Corpus de Referência do Português Contemporâneo (CRPC), cedidos pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa14. Recorre-se, nomeadamente a: a) um subcorpus oral de português europeu, com dimensão de 875.664 palavras, constituído por transcrições das entrevistas do projecto “Português Fundamental” (PF): sequências de oral espontâneo (em situação de aula), e de oral 14 Não podemos deixar de expressar a nossa gratidão à Professora Fernanda Bacelar do Nascimento, assim como à Sandra Amendoeira, pela forma deligente e pronta com que nos foram facultados os corpora solicitados.
24 mais formal (conferências, entrevistas, mesas redondas, etc), produzidas nas décadas de 70, 80 e 90; b) subcorpora escritos: discurso literário, com dimensão de 2 milhões de palavras (autores portugueses do século XIX e contemporâneos), e discurso jornalístico, também com a dimensão de 2 milhões de palavras (jornais Público, Jornal de Notícias e Diário de Notícias). São também objecto de atenção e, quando pertinente, de recurso, exemplos de outros autores, adaptados e, no caso dos exemplos em línguas estrangeiras, traduzidos para português. A estes dois recursos, acrescenta-se um conjunto de exemplos autênticos, recolhidos em situações diversas de comunicação, assim como um conjunto significativo de exemplos construídos, alguns dos quais resultantes da manipulação controlada das situações acima referidas. A numeração dos exemplos de cada capítulo, incluindo as glosas epilinguísticas, é autónoma: assinala-se cada exemplo segundo uma ordem numérica, antecedida pelo número do capítulo em que ocorre. Quando, por conveniência descritiva, um mesmo exemplo é retomado noutro capítulo, é renumerado de acordo com o capítulo e a ordem em que ocorre. Propostas ao longo deste estudo, as citações de diferentes autores aparecem na língua original da obra consultada. Se a obra consultada for uma tradução, a citação pode ser acompanhada, quando relevante do ponto de vista teórico, de uma nota que retome o original e problematize a tradução. Sempre que possível e tendo a finalidade de evitar repetições, propõe-se, através de remissões internas, uma relacionação entre os conteúdos, ou reflexões, propostos nos diferentes capítulos ou sub-capítulos. Para tal, recorre-se ao símbolo §, seguido do número do capítulo ou sub-capítulo para o qual se pretende remeter.
25 1.3 Quadro teórico-metodológico Com a adopção da Teoria Formal Enunciativa (TFE) como quadro teórico-metodológico em que fundamos o nosso estudo, pretendemos responder à exigência de um enquadramento teoricamente ajustado aos objectivos que nos colocamos. Efectivamente, propondo uma perspectiva teórica global do funcionamento da linguagem, o modelo formal enunciativo de Antoine Culioli, representa, no panorama actual dos estudos linguísticos - em particular enunciativos -, um enquadramento teórico consistente, quer do ponto de vista epistemológico quer do ponto de vista metodológico. A reflexão que se propõe no âmbito da TFE passa pela discussão dos conceitos consagrados na tradição gramatical e de outros que, entretanto, alargaram o horizonte dos estudos linguísticos. Cruza igualmente contributos de outras áreas de conhecimento, como a lógica, a matemática, a filosofia da linguagem, reflectindo, por isso, uma consciência clara sob o ponto de vista epistemológico: qualquer sistematização alcançada constitui uma construção teórica, uma representação metalinguística que visa, pela formulação e reformulação de hipóteses, simular um conjunto de operações abstractas, a partir da observação das representações linguísticas, enquanto formas marcadoras dessas operações. É assim que se propõe um aparelho teórico estável que, em simultâneo, se apresenta como intrinsecamente maleável. A TFE alicerça-se numa coerência e num rigor terminológicos, mas compreende um programa de trabalho, uma metodologia de análise que se baseia na observação do que é diverso e plural: a diversidade das línguas naturais e a complexidade das formas linguísticas. Baseado no que metodologicamente constitui uma teoria dos observáveis, este aparelho teórico revela-se permeável a tal diversidade e complexidade. Não deixa, no entanto, de permitir uma explicação unificadora, já que tem como horizonte a procura dos invariantes da linguagem. Os conceitos fundamentais da TFE a que recorremos serão apresentados e devidamente exemplificados em português à medida que, no decurso do nosso
32 por Russell, predicados de atitude proposicional (“propositions nominales abstraites introduites par „que‟” ou “propositions au style indirect” (Frege, ibidem: 112), em virtude da distinção que estabelece entre sentido (“Sinn”) e denotação (“Bedeutung”)26, distinção que se revela central para o tratamento deste problema27. Frege sustenta que cada expressão referencial (nome próprio ou descrição definida, isto é, expressão linguística que designa um só indivíduo) desempenha dois papéis semânticos distintos mas relacionados: “exprime” um sentido e “designa” uma denotação (Frege, ibidem: 107). A denotação de um nome próprio “est l‟objet même que nous désignons par ce nom; la représentation que nous y joignons est entièrement subjective; entre les deux gît le sens, qui n‟est pas 26 Dada a complexa série de problemas com que se prende qualquer opção de tradução dos termos que designam os conceitos fundamentais propostos por Frege, é importante apresentar uma justificação da tradução aqui adoptada de “Sinn” e “Bedeutung” por, respectivamente, “sentido” e “denotação”. Claude Imbert, tradutora para o francês dos textos de Frege ([1892] 1971), refere, na introdução, o facto de os termos em alemão designarem um par de noções solidárias. À semelhança do que entende Imbert quando opta por “sens”, a tradução portuguesa de “Sinn” por “sentido” é mais adequada, enquanto designação de uma noção que pertence especificamente “à la logique et à la théorie de la connaissance” (ibidem: 16). Já a opção por “denotação” para traduzir “Bedeutung” dá-se em detrimento de outras possibilidades de tradução - como, por exemplo, “referência”, atendendo à tradução para português (1978 “Sobre sentido e referência” Lógica e Filosofia da Linguagem, S. Paulo, Cultrix, tradução de P. Alcoforado), também “referencia”, em castelhano (1971 “Sobre sentido y referencia” Estudios sobre semántica, Barcelona, Ariel: 49-97, tradução de U. Molines), ou “significação”, tendo presente a tradução inglesa “Meaning” ([1952] 31980 “On Sense and Meaning” in P. T. Geach; M. Black (eds.) Translations from the Philosophical Writings of Gottlob Frege, Oxford, Blackwell). A ponderação destas possibilidades de tradução e a fixação no termo “denotação” não ignora a indicação de Benveniste (“La Forme et le Sens dans le langage” [1954] 1966), e dá-se em função do carácter inerentemente linguístico da noção “Bedeutung”. 27 O par fregeano “sentido” e “denotação” foi introduzido com a finalidade de eliminar a confusão, frequente na filosofia da matemática, entre signo, sentido do signo e objecto designado pelo signo. Aliás, pelo estabelecimento desta distinção e demais reflexões sobre a linguagem segundo uma disciplina científica até aí inexistente, o ano de 1892 - ano da publicação do artigo “Über Sinn und Bedeutung”, de Frege - é considerado um marco fundamental, precursor mesmo, dos estudos da filosofia da linguagem. Reconhece-se, aliás, que tanto a fenomenologia como a filosofia analítica (esta última, sobretudo por intermédio de Russell e Wittgenstein) terão definido as suas doutrinas em diálogo com os textos de Frege (ver Marconi, [1995] 1997: 9).
33 subjectif comme l‟est la représentation, mais qui n‟est pas non plus l‟object lui même” (idem, ibidem: 106). O sentido é o modo segundo o qual o objecto dado pelo nome pode ser concebido como o conteúdo cognitivo associado ao nome, em virtude do qual este tem uma determinada denotação. Defende ainda que duas expressões podem denotar o mesmo referente e simultaneamente expressar sentidos diferentes. Aliás, “on peut avoir que les mots, expressions, et propositions complètes, peuvent être comparés à trois niveaux. Ou bien ils diffèrent eu égard aux représentations associées, ou bien ils diffèrent eu égard au sens mais non à la dénotation, ou bien enfin ils diffèrent aussi par la dénotation” (idem, ibidem: 107). Segundo Frege, também ao que refere como “proposição” (“proposition”)28 se pode atribuir um sentido e uma denotação: o sentido de uma proposição é o pensamento (“Gedanke”)29 que este exprime, a sua denotação é o seu valor de verdade30. É no interior da sua argumentação para estabelecer o que sejam o sentido e a denotação de uma proposição que Frege faz apelo ao princípio de composicionalidade, de acordo com o qual o valor semântico (sentido e denotação) 28 No âmbito da filosofia da linguagem, fala-se em “proposição” sempre por referência a um enunciado declarativo, em virtude de, na perspectiva da abordagem em causa, só a este tipo de enunciado se poderem atribuir condições de verdade. 29 A adopção de uma tradução do termo fregeano original “Gedanke” por “pensamento” inspira-se na opção de tradução francesa deste termo por “pensée” (Frege, [1892] 1971). 30 No decurso da sua argumentação, Frege constata que uma proposição exprime um pensamento e interroga-se se o pensamento expresso pode ser a denotação da proposição: “la dénotation d‟une proposition affirmative prise comme un tout [...] est une pensée. Cette pensée est-elle le sens ou la dénotation de la proposition?” ([1892] 1971: 108). Afirma que, se assim for, quando se substitui uma expressão por outra com a mesma denotação, o pensamento expresso não deverá variar. No entanto, a denotação de um enunciado não respeita o princípio de composicionalidade, pelo que não pode corresponder ao pensamento expresso, mas sim a um valor de verdade. Isso mesmo é ilustrado pelo exemplo proposto por Frege: no enunciado L‟étoile du matin est un corps illuminé par le Soleil, quando a expressão referencial L‟étoile du matin é substituída pela expressão L‟étoile du soir, estamos perante uma mesma denotação – o referente “Vénus” – e diferentes pensamentos ([1892] 1971: 108ss).
34 de qualquer expressão complexa depende dos valores semânticos dos seus constituintes. Na sequência de Frege, a semântica lógica - que se debruça sobre o problema da “forma lógica” das proposições - tem como princípio básico o princípio da composicionalidade da significação, isto é, o facto de a denotação (e a referência) das proposições se calcular em função da significação (e da referência) das suas partes. Está-se, portanto, perante um raciocínio segundo o qual a significação das proposições - que, como já vimos, decorre das suas condições de verdade e de referência - difere consoante estas correspondam a enunciados declarativos simples ou exprimam atitudes proposicionais e introduzam, por isso, orações completivas. Como já referido, o valor semântico de um enunciado complexo depende dos valores semânticos dos seus constituintes, sendo o modo desta dependência determinado pela estrutura sintáctica desse enunciado complexo, isto é, pelo tipo de complexidade que está em causa em cada caso. Frege já havia, precursoramente, formulado que a especificidade dos enunciados que exprimem atitudes proposicionais (conforme os identifica Frege, contendo proposições subordinadas) resulta do problema da sua “forma lógica” – do modo como neles se manifesta o princípio de composicionalidade, portanto. Esta observação é acompanhada pela exemplificação do facto de nem sempre o valor semântico do enunciado decorrer dos valores semânticos dos seus constituintes. A excepção ao princípio de composicionalidade está patente no exemplo 2.1 (que inclui, como subordinada les orbites des planètes sont des cercles) em relação com o exemplo 2.2 (que inclui, como subordinada le mouvement apparent du soleil est produit par le mouvement de la terre) (idem, 1971: 113): 2.1 Copernic croyait que les orbites des planètes étaient des cercles 2.2 Copernic croyait que le mouvement apparent du soleil était produit par le mouvement de la terre
35 Sendo falsa a proposição subordinada de 2.1 - les orbites des planètes sont des cercles - (isto é, denotando o valor de verdade “Falso”), não é construindo outro enunciado 2.2, através da substituição desta proposição subordinada por outra sequência igualmente falsa (com uma denotação idêntica, portanto) - le mouvement apparent du soleil est produit par le mouvement de la terre -, que obteremos um enunciado com o mesmo valor de verdade que 2.1. Num contexto como 2.1, a proposição subordinada - Les orbites des planètes sont des cercles (proposição que é objecto da atitude proposicional), segundo Frege, não apresenta o que seria uma denotação habitual – um valor de verdade –, mas sim um pensamento: “la dénotation de la subordonnée est effectivement la pensée exprimée, au fait que la vérité ou fausseté de la pensée est sans importance pour la vérité de l‟ensemble” ([1892] 1971: 113). Uma proposição no estilo indirecto - enunciação relatada, portanto - tem uma denotação indirecta: “la proposition subordonnée a pour dénotation une pensée et non une valeur de vérité; son sens n‟est pas une pensée, c‟est le sens des mots «la pensée que...», et ce sens represente une partie seulement du sens de la proposition complexe tout entière” (idem, 1971: 112-3). Ao fazer corresponder aos objectos das atitudes proposicionais pensamentos, Frege atribui-lhes ainda características de vericondicionalidade, o que atesta que a sua proposta não pressupõe a renúncia do princípio mediante o qual a significação se define em termos de condições de verdade. Esta excepção ao princípio de composicionalidade poderia ter levado Frege a rever os conceitos de sentido e denotação dos enunciados. Porém, Frege limita-se a corrigir estes conceitos no caso dos contextos indirectos, sem deixar que, mesmo neste caso particular, o princípio de composicionalidade seja posto em causa. De facto, se num contexto indirecto se substituir a proposição subordinada por outra com o mesmo sentido, o valor de verdade do enunciado permanece inalterado31. 31 Marconi comenta a forma como Frege trata esta questão das excepções ao princípio de composicionalidade: “Le prix à payer pour sauver la compositionalité est [...] très élevé: les mêmes mots se trouvent avoir des dénotations différentes dans des contextes différents. En outre, le caractère nébuleux des indications de Frege à propos des conditions
36 Depois de um período referencialista da filosofia da linguagem e de uma marcada ruptura com as preocupações de Frege, a teoria proposta em Carnap (1947) pressupõe um interesse renovado pelas propostas daquele filósofo32, ao introduzir na análise semântica uma dimensão suplementar (a propósito dos contextos de atitude proposicional, aliás), que corresponde aproximadamente ao conceito fregeano de sentido. Em virtude de Frege nunca haver especificado as condições de identidade para o sentido (isto é, nunca ter dito quando é que duas expressões referenciais distintas têm o mesmo sentido), em Carnap, baseando-se no par sentido / denotação, propõe-se substituí-los pelos conceitos que designa com recurso aos termos leibnizianos de intensão e extensão33. Definidos estes conceitos, é-lhe permitido definir as suas condições de identidade, ou seja, as circunstâncias mediante as quais duas expressões têm a mesma intensão ou a mesma extensão. Contudo, a eficácia da proposta de Carnap não se estende a todos os contextos não extensionais, isto é, a todos os enunciados cuja extensão não depende da extensão dos seus constituintes, como é o caso dos contextos de atitudes proposicionais. Deparando-se com a dificuldade que se prende com o facto de, mesmo em relação à intensão, os contextos de atitude proposicional não serem composicionais, Carnap introduz um novo conceito: o conceito de estrutura intensional (1947: §§ 14-15). Sustenta, assim, a ideia de que os contextos de d‟identité du sens (quand deux expressions différentes ont-elles le même sens?) rend sa proposition difficile à vérifier. On comprend donc porquoi la recherche sémantique qui a suivi n‟a pu se satisfaire de cette solution de Frege, et a cherché d‟autres voies [...]” ([1995] 1997: 30). 32 O facto de Carnap retomar a reflexão de Frege deve-se à sua consciência da insuficiência analítica da semântica referencial (da semântica de Tarski, por exemplo) (ver Marconi, [1995] 1997: 53ss). 33 Por intensão e por extensão Leibniz entende, respectivamente, a “descrição de estado” e o conjunto de “constantes individuais” para que um enunciado remete (ver Marconi [1995] 1997: 56).
37 atitude proposicional, apesar de não serem composicionais em relação à intensão, são-no em relação à estrutura intensional. Parece não ser, no entanto, construindo representações sempre mais finas do valor semântico de uma expressão linguística – conforme pretenderia Carnap, com os conceitos de intensão e extensão - que se resolve o problema da especificidade do funcionamento dos contextos de atitude proposicional34. Outro filósofo da linguagem que propõe uma reflexão com base na proposta de Frege acerca do valor semântico (sentido e denotação) dos enunciados subordinados das atitudes proposicionais é Quine. Entre outros autores (como, por exemplo, Kripke e Stuart Mill), Quine ([1956] 1990) contesta a coerência da proposta de Frege, de acordo com a relevância do que identifica como sendo a especificidade da forma lógica das atitudes proposicionais. Este filósofo argumenta que as frases que exprimem uma atitude proposicional são referencialmente opacas e que, portanto, neste contexto, não se está perante a construção de referentes. Segundo Quine, os verbos de atitude proposicional funcionam como operadores intensionais (tal como os operadores modais é possível que, é necessário que), que operam sobre proposições. A violação da substituibilidade salva veritate em frases que exprimem atitudes proposicionais explica-se pelo facto de estas frases serem intensionais e não, como as frases declarativas simples, extensionais. Por exemplo, a propósito da atitude proposicional de crença35, Quine afirma: “belief [...], let us think of this at first as a relation between the believer and a certain intension, named by the „that‟-clause” (idem, ibidem: 354-355), 34 Em Marconi ([1995] 1997: 58), comenta-se a proposta de Carnap como sendo totalmente inadequada: “des exemples d‟énoncés qui ne sont pas compositionnels, pas même par rapport à la structure intensionnelle, ont été avancés [...], et d‟autre part, l‟identité de structure intensionnelle (que Carnap appelle isomorphisme intensionnel) est probablement une condition trop restrictive pour rassembler nos intuitions sur l‟équivalence sémantique, ou synonymie, entre énoncés. En réalité, le paradigme dominant n‟est pas parvenu, pas même par la suíte, à venir à bout du problème de la compositionnalité des énoncés d‟attitude propositionnelle”. 35 No seu estudo das atitudes proposicionais, Quine privilegia a crença: “of all examples of propositional attitudes, the first and foremost is belief [...]” ([1956] 1990: 353).
38 estabelecendo, assim, uma correspondência directa entre “intension” e “‟that‟-clause”36. Radicando ainda na forma lógica das atitudes proposicionais, outro problema que se coloca no domínio da lógica é o da natureza das “attitudes attribuées, c‟est-à-dire des états psychologiques du sujet à propos duquel on les rapporte” (Engel, 1984: 85). Trata-se do problema formulado também por Quine ([1956] 1990) da distinção entre dois tipos de atribuições de atitudes: de dicto (“opaque reading”) e de re (“relational or referentially transparent reading” (ibidem, 356)). Das frases que exprimem atribuições de crença, diz Quine poderem ter uma leitura ou uma interpretação nocional (ou de dicto) ou, por oposição, uma leitura ou interpretação relacional (ou de re). Quine ([1956] 1990) sugere, ainda relativamente à atitude proposicional de crença, que a origem desta dualidade residirá na ambiguidade “lexical” do verbo believe (crer ou acreditar), que terá um sentido nocional assim como um sentido relacional37. No caso da interpretação nocional (atribuição de dicto), constrói-se o 36 Nesta linha, em Quine ([1960] 1994) distinguem-se os contextos de atitudes proposicionais dos contextos de citação, em que, segundo este autor, se estabelece uma relação entre um sujeito e uma sequência citada e não uma relação entre um sujeito e uma proposição que é de natureza intensional, e que, só por isso, pode ser objecto de dúvida. 37 Esta distinção é introduzida por intermédio do exemplo célebre a propósito de Ralph, que viu um homem com um chapéu castanho que crê ser um espião. Ralph viu um outro homem, noutras circunstâncias, chamado “Orcutt”, relativamente ao qual não tem qualquer razão para crer que seja um espião. Sabendo, entretanto, que o homem de chapéu castanho e Ortcutt são uma e a mesma pessoa, é natural dizer-se que Ralph tem duas crenças distintas, que assumem as formas lógicas assinaladas por (i) e (ii): (i) Ralph believes that (Эx) (x is a spy) - interpretação nocional e, portanto, atribuição de dicto; (ii) (Эx) (Ralph believes that x is a spy) - interpretação relacional e, portanto, atribuição de re. A propósito das duas leituras, de dicto e de re, em Jaszczolt (2000: 3) defende-se que estas não correspondem directamente aos dois escopos do quantificador existencial (Э). A distinção entre as interpretações (i) e (ii) ultrapassa aquilo que as respectivas formas lógicas revelam, pelo facto de ambas terem um alcance pragmático: “if attitude contexts are
39 conteúdo das crenças como sendo o conteúdo das proposições introduzidas por believe that. Não é possível a substituição salva veritate. Believe é um predicado de dois lugares tendo como argumentos um sujeito (“the believer”) e uma proposição ou intensão: “a dyadic relation between a believer and a proposition” (idem, ibidem: 355). No caso da interpretação relacional (atribuição de re), remete-se para aquilo em que o sujeito crê, especificando o objecto da sua crença como exterior à incidência de believe that. É possível a substituição salva veritate. Believe será um predicado de três lugares tendo como argumentos um sujeito (o crente), uma entidade individual (o referente do termo singular encaixado) e o atributo que a sequência encaixada diz aplicar-se ao termo singular: “we may [...] recognize a triadic relation of belief among a believer, an object and an attribute” (idem, ibidem)38. at all ambiguous, they are either semantically or pragmatically ambiguous. [...] Semantic ambiguity is the duality of logical form strengthened by a requirement of the logical independence of these forms, whereas pragmatic ambiguity is a built-in ambiguity of use” (idem, ibidem: 6). Este autor preconiza, assim, a necessidade da inclusão da informação pragmática numa teoria das atitudes proposicionais, admitindo que a distinção de dicto/de re, seja, em si mesma, de natureza pragmática, da mesma forma que em Donnellan (1966) se provou que a distinção por si proposta entre atributivo/referencial (aplicável às descrições definidas) é uma dualidade dependente do seu uso e, portanto, uma ambiguidade pragmática. 38 Tendo presente as extensões desta reflexão lógica, refira-se a sua aplicação no domínio da psicologia cognitiva. Por exemplo, a noção de interpretação de dicto da atitude proposicional de crença contribui, no âmbito desta perspectiva, para a análise não vericondicional do seu conteúdo psicológico. São, aliás, numerosas as generalizações da psicologia formuladas em termos de atitudes proposicionais, que pressupõem a atribuição de um conteúdo aos estados mentais. Para ilustrar esta realidade, em Jacob (1984: 65) faz-se particular referência às propostas de J. A. Fodor (1981 Representations, Cambridge, Mass., MIT Press). Segundo a abordagem da psicologia cognitiva, os conteúdos das atitudes proposicionais são especificados ainda em termos de condições de verdade e de referência das sequências. Uma crença, nomeadamente, é uma representação: quando se expressa o conteúdo de uma crença, constrói-se uma representação (linguística, semântica) de uma outra representação (psicológica), daí que, de acordo com o ponto de vista vericondicional da psicologia, não haja possibilidade de uma representação fiel. No âmbito da psicologia cognitiva, fala-se, além de conteúdo semântico, de conteúdo psicológico das atitudes proposicionais, determinado por uma teoria dos estados psicológicos dos indivíduos (ver Engel, 1984: 99ss): as sequências que expressam atitudes proposicionais têm a dupla função de atribuir a um sujeito certos estados psicológicos (crenças, desejos, pensamentos) e de especificar os conteúdos de tais estados psicológicos por meio de sequências
40 Todas estas considerações parecem dever ser postas em causa quando vários filósofos expressam dúvidas acerca do conceito - basilar para a identificação dos predicados de atitude proposicional – de atitudes proposicionais. Refira-se, a título de exemplo, o próprio Quine, Churchland e Stich39, que chegam a pôr em causa o estabelecimento desta classificação. Negam a existência de atitudes proposicionais, do ponto de vista da filosofia da linguagem - questionando a natureza intensional destes contextos - e do ponto de vista metafísico - por não haver evidência de uma estrutura física com que estes contextos se possam identificar. Defende-se, genericamente, que o conceito de atitude proposicional é um instrumento útil que permite predizer um comportamento mas não corresponde a uma conceptualização séria do ponto de vista científico. Tem, por isso, segundo estes autores, um estatuto meramente instrumental. Entre os filósofos que aceitam que há atitudes proposicionais, alguns negam a possibilidade de as sujeitar a uma análise relacional: negam que as atitudes proposicionais se definam em relação com proposições e propõem uma análise adverbial, de acordo com a qual, “one‟s belief that p is a matter of one‟s believing p-ly”40 (Oppy, 1998: 785ss). Contrariando o paradigma dominante dos estudos lógico-filosóficos – segundo o qual se pretenderia determinar, de forma sistemática, as condições de verdade dos enunciados - nos anos setenta, surgem estudos de semântica que passam a equacionar critérios de natureza cognitiva (por exemplo, Putnam, 1975). Se o objectivo da semântica visava unicamente as condições de verdade dos enunciados, excluindo o conhecimento a propósito da forma como estes são introduzidas pelos verbos de atitude proposicional. A perspectiva lógico-filosófica difere da da psicologia cognitiva por não fazer corresponder à significação das expressões linguísticas imagens, representações ou outras entidades mentais que, eventualmente, lhe estão associadas. Considerações de carácter psicológico não intervêm na teoria lógico-filosófica da significação. 39 Em Oppy (idem: 785) referem-se os textos de Quine ([1960] 1994), P. Churchland (1981 “Eliminative Materialism and the Propositional Attitudes” Journal of Philosophy 78: 67- 90) e S. Stich (1983 From Folk Psychology to Cognitive Science: The Case Against Belief, Cambridge, Mass., MIT Press). 40 Trata-se de uma proposta que se enquadra na “Adverbial Theory of Mental States”.
41 determinados por um sujeito enunciador e ainda independentemente do problema da acessibilidade das condições de verdade, a perspectiva cognitiva da semântica preconiza a introdução de noções como elaboração mental e representação mental das significações. Além da crítica à questão das condições de verdade, o problema das atitudes proposicionais é alvo de um interesse particular por parte desta abordagem. Diante do limite que as atitudes proposicionais representam em termos de adequação descritiva da semântica entendida no quadro da filosofia da linguagem, parte-se da assunção de que é muito difícil, senão impossível, identificar os valores semânticos das expressões linguísticas, de maneira que os contextos “X crê que p”, “X sabe que p”, “X duvida que p”, etc. sejam composicionais. Perante dois enunciados como, por exemplo 2.3 e 2.4, em que q coincida com p, não se pode nunca inferir 2.4 de 2.3. 2.3 X crê que p 2.4 X crê que q Mas se, por exemplo, se acrescentar a estas sequências a sequência 2.5, a inferência de 2.4 passa a justificar-se plenamente (ver Partee, 1979). 2.5 X sabe que p e q são sinónimos Segundo a perspectiva da semântica cognitiva, o tratamento das atitudes proposicionais parece necessitar do recurso ao que seja a “bagagem” cognitiva dos sujeitos a quem são atribuídas as atitudes proposicionais, isto é o postulado do “speaker‟s background knowledge”. Ainda segundo esta perspectiva, haverá, pois, uma relação entre a incapacidade do paradigma dominante da filosofia da linguagem de fornecer as condições de verdade correctas para enunciados como 2.3 e 2.4 e a indiferença a que vota o domínio de conhecimento dos sujeitos a quem são atribuídas as atitudes proposicionais.
48 Independentemente da classificação específica que, pelo seu semantismo, recebem, verbos como pensar, julgar, crer, achar, supor, acreditar, duvidar, saber, ignorar têm em comum a característica, já referida, de seleccionarem uma estrutura de complementação que desempenha a função sintáctica de objecto do verbo da frase matriz. Um dos testes sintácticos mais comummente apresentados que confirma o comportamento do complemento proposicional como objecto é a possibilidade que este apresenta de ser convertido em sujeito de uma passiva. Considere-se, para o caso de saber, por exemplo, a frase Eles sabiam [que a Ana era a favorita ao título] - [Que a Ana era a favorita ao título] era sabido (por eles) ou, sendo o sujeito da passiva deslocado para o fim da frase, Era sabido (por eles) [que a Ana era a favorita ao título]. A possibilidade de o complemento proposicional ser convertido em sujeito de uma passiva não parece passar de uma verificação empírica susceptível de aplicação em frases complexas do inglês cujo predicado matriz seja, por exemplo, to expect, e, no caso do português, cujo predicado matriz seja, de entre os predicados em análise, supor (só na forma impessoal), saber e ignorar. Em construções análogas do português, contrariamente ao que sucede com outras situações de construção de objecto e sobretudo quando a estrutura de complementação comporta uma subordinada de natureza infinitiva, esta transposição para a passiva não resulta gramatical, senão quando se exclui a referência ao agente da passiva e, consequentemente, se obtém uma passiva impessoal (veja-se, acima, a preferencial supressão da sequência por eles). Indiscutível é o facto de todos os tipos de estruturas de complementação terem a estrutura interna de uma frase (daí a sua natureza proposicional): o verbo do complemento frásico realiza todos os seus argumentos e a estrutura no seu conjunto pode registar a adjunção de um advérbio. Para a generalidade dos sintacticistas, é ainda consensual que, em virtude da sua natureza sintáctica, as construções de complementação consistem no estabelecimento de uma relação semântica entre o verbo introdutor e um complemento proposicional. A natureza assimétrica da relação estabelecida entre as duas estruturas está patente no
49 igualmente consensual conceito de subordinação, que, proveniente da gramática tradicional, se encontra amplamente estabilizado para designar o processo sintáctico em causa47. Bastante consensual também é relação entre a estrutura de subordinação e o emprego dos modos indicativo e conjuntivo. Segundo a gramática tradicional, atribui-se a dependência em causa à natureza do predicado da estrutura matriz (verbo ou adjectivo modal) o que permite o estabelecimento de um esquema de correspondência sistemática entre cada predicado susceptível de ocorrer na estrutura matriz e o modo por este seleccionado (ou os modos seleccionados, nos casos em que seja possível o contraste). É em função desta correspondência que se estabelecem classes semânticas de verbos que admitem uma alternância entre o indicativo e o conjuntivo ou que ocorrem apenas com o indicativo ou apenas com o conjuntivo. O modo dos predicados verbais das subordinadas surge, assim, na generalidade dos estudos, como uma consequência sintáctica da regência exercida pela estrutura subordinante sobre a subordinada, mais precisamente como uma consequência sintáctica das restrições impostas pelos predicados introdutores das diferentes classes semânticas. É corrente uma concepção da subordinação – aliás, da estrutura de qualquer frase complexa – como forma de associação entre duas estruturas de frase, neste caso, com base num processo de encaixe. Por sua vez, este encaixe institui uma 47 Na generalidade das gramáticas, as subordinadas podem corresponder a completivas-nominais, a completivas-relativas, a circunstanciais temporais, causais, etc. Em Cunha; Cintra (1984), por exemplo, diz-se das “orações subordinadas” que “funcionam sempre como termos essenciais, integrantes ou acessórios, de outra oração” (idem, ibidem: 594), pelo que se podem classificar em “substantivas, adjectivais (relativas em geral) e adverbiais, porque as funções que desempenham são comparáveis às exercidas por substantivos, adjectivos e advérbios” (ibidem: 596). Já segundo a gramática de Mateus et aliae (21989), apresentam uma estrutura de subordinação apenas as construções de complementação e as construções de relativização, ficando de fora todas as construções de adjunção. Como construções de complementação, são identificadas a complementação verbal (em SV, portanto), a complementação adjectival e a complementação nominal (ibidem: 264).
50 relação dissimétrica de dependência entre os dois segmentos assim postos em relação. Nesta perspectiva, o emprego do conjuntivo e do indicativo na proposição subordinada é explicado, como dizíamos, enquanto seleccionado por um elemento do contexto (predicado verbal ou adjectival), anterior à proposição em que ocorre. Existem várias propostas de classificação dos verbos passíveis de ocorrer numa estrutura matriz, em função do que é considerado ser o seu semantismo e do subsequente tipo de complementos por si seleccionados, incluindo, a esse nível, as restrições de modo. Em Rochette (1988, 1990)48, por exemplo, desenvolve-se uma análise no domínio da complementação frásica das línguas românicas, em que se distinguem diferentes tipos de completivas com base no conceito de selecção semântica. Começa-se por propor a distinção de três grandes classes semânticas de predicados matrizes: predicados efectivos, predicados emotivos e predicados proposicionais, que seleccionam, respectivamente, as categorias semânticas acção49, evento e proposição. Esta classificação de predicados matrizes tem como critério o conjunto das restrições de selecção que estes impõem e é subsidiária do estudo que em Long (1974) se dedica à complementação em francês, em que se propõe uma primeira distinção entre predicados efectivos e predicados reflexivos: os predicados efectivos “décrivent la relation d‟un sujet par rapport à la performance d‟une action”50; os predicados reflexivos “expriment le jugement d‟un sujet par rapport à 48 As conclusões destes estudos são retomadas e sintetizadas em Rochette (1993). 49 “À l‟origine, le choix du terme action visait à rendre compte du fait que de façon générale les prédicats effectifs n‟admettent pas facilement des verbes d‟état comme compléments” (Rochette, 1993: 70). A categoria acção opõe-se assim à classe aspectual “states” (estados) e compreende as restantes três das quatro classes aspectuais distinguidas em Vendler ([1957] 1967), isto é, “activities” (actividades), “accomplishments” (eventos prolongados) e “achievements” (eventos instantâneos). 50 Integram esta classe os verbos aspectuais (por exemplo, “commencer”) mas também verbos como “oser” e “daigner” – todos eles tendo como restrição o facto de só poderem ocorrer com complementos infinitivos . No caso particular de “oser” e de “daigner”,
51 une proposition ou un événement” (Rochette, 1993: 68-9). Uma outra distinção importante neste estudo é aquela que opõe dois tipos de predicados reflexivos: os predicados de tipo emotivo, “qui expriment des jugements d‟ordre personnel” (por exemplo, “souhaiter”) e os predicados de tipo proposicional, “qui expriment des jugements de valeur de vérité” (por exemplo, “croire”) (ibidem). À presente tripartição das classes semânticas de predicados corresponde uma divisão também tripartida das completivas seleccionadas por estes predicados, de acordo com as diferenças do seu comportamento sintáctico e com as suas subsequentes diferenças semânticas: os predicados de tipo efectivo só podem introduzir complementos infinitivos (categoria semântica acção), os predicados de tipo reflexivo podem introduzir complementos infinitivos assim como complementos flexionados, seleccionando os predicados de tipo emotivo completivas no conjuntivo (da categoria semântica evento) e os predicados de tipo proposicional completivas no indicativo (da categoria semântica proposição). Esta classificação dos predicados de tipo proposicional coincide, genericamente, com a caracterização sintáctica que é comum fundamentar a especificidade destes verbos matrizes enquanto predicados que seleccionam a categoria proposição, cuja realização estrutural canónica é uma projecção da categoria C, realizável por meio de uma completiva em que ou de uma completiva infinitiva. Mas a atribuição indiscriminada a estes predicados da possibilidade de ocorrerem com complementos infinitivos não corresponde ao que se passa com os predicados do português com um semantismo análogo. Da mesma forma, as restrições de modo da completiva que Rochette refere para caracterizar os predicados de tipo proposicional do francês podem constituir um ponto de partida para reconhecermos, desde logo, que, no que diz respeito aos predicados de tipo proposicional do português, não há, necessariamente, uma exclusividade de selecção de completivas no indicativo (ver §§ 11.2 e 12.1). o sujeito “devra cumuler les rôles thématiques assignés [pelo verbo] ainsi que par le prédicat enchâssé puisque les complétives infinitives de ces verbes se réalisent comme une simple projection verbale” (Rochette, 1993: 75).
52 No quadro de uma teoria da complementação frásica, articulada em termos de selecção semântica, não é, portanto, possível proceder-se a uma análise descritivo-explicativa que dê conta da estabilidade assim como da deformabilidade das formas em presença. Numa perspectiva de semântica lexical e com especial referência para o inglês, um autor como, por exemplo, Dixon (1991, 1995) integra o conjunto dos verbos que ocorrem como verbos principais de uma frase matriz numa classe mais vasta, que tem uma componente de sentido comum e cujos elementos partilham algumas propriedades gramaticais. Começa por considerar que todas as línguas integram uma classe aberta de verbos primários: “Primary verbs, which can make up a complete sentence by choosing appropriate NPs (with noun or pronoun as head) to fill subject, object, etc. slots” (1995: 176). Em inglês, como na maioria das línguas (incluindo as românicas), há duas subclasses de verbos primários, integrando-se os verbos que ocorrem como verbos principais de uma frase matriz na segunda subclasse (ou “primary-B verbs”): “primary-A verbs describe actions or states that relate only to things [...], covers semantic types such as motion, rest [...], affect, giving [...] and corporeal […]; primary-B verbs describe actions and states that can relate to things or to other actions or states […], include attention, speaking and thinking (“think”, “know”, “believe”) and/or linking (“love”, “hate”)” (idem, ibidem). Os verbos que compõem a vasta classe de verbos primários-B apresentam a possibilidade de um complemento nominal ou, como alternativa, permitem um complemento frásico. Distinguem-se do conjunto dos verbos primários os conceitos secundários: “Secondary concepts, which modify the meaning of verbs and typically include all or most of “not”, “can”, “must”, “begin”, “finish”, “try”, “want”, “make (do)” and “seem” (idem, ibidem). Por ser eminentemente lexical, o critério que preside a esta classificação em verbos primários (nas suas duas subclasses) e conceitos secundários radica no pressuposto de uma codificação de significados estabilizados, no caso dos verbos primários, por parte de cada lexema verbal e, no caso dos conceitos secundários, por parte dos modificadores verbais ou partículas frásicas. Esta classificação não parece ser um instrumento teórico suficiente no estudo destes verbos, uma vez
53 que, ignorando a contrução da determinação em relação a um sistema referencial, opera uma distinção difícil de sustentar entre o que se reconhece como “modificação” marcada pelos “secondary concepts” (o operador negativo e os verbos modais, por exemplo), e o valor também de “modificador” que, em particular os “thinking primary-B verbs” marcam relativamente ao conteúdo proposicional (“things [...], actions or states”) que introduzem. Sem apresentarem entre si nenhum traço em comum, nem do ponto de vista teórico, nem do ponto de vista metodológico, estas duas propostas aqui brevemente apresentadas51 – por um lado a de Rochette (1988, 1990, 1993), para o francês, e por outro a de Dixon (1991, 1995), para o inglês – ilustram, a título de exemplo, a dificuldade inerente a qualquer abordagem classificatória dos verbos passíveis de ocorrer numa estrutura matriz, em função do que é considerado ser o seu semantismo e, com base no seu comportamento sintáctico, do tipo de complementos por si seleccionados. 2.3 Perspectiva enunciativa: o problema da classificação das ocorrências linguísticas A dificuldade de que se reveste a classificação das unidades linguísticas prende-se directamente com certas propriedades específicas da linguagem. É porque a linguagem é um sistema de representação e não obedece a um princípio de mera designação ostensiva (ver Culioli, 1986b) que uma classificação das unidades linguísticas, baseada em critérios formais52 ou em critérios 51 Pela brevidade e pelo carácter sintético da referência a estas, como a outras propostas ao longo deste trabalho, pode incorrer-se numa certa superficialidade e na elisão de aspectos que, com certeza, as ajudariam a esclarecer enquanto opções enquadradas teoricamente (neste caso, em modelos distintos daquele que preside a este trabalho) e, portanto, perfeitamente justificadas pelos fins que pretendem alcançar. 52 Por critérios formais que estejam na base de uma classificação entende-se os procedimentos da análise distribucional e da inventariação do conjunto de contextos
54 semântico-interpretativos53, constitui necessariamente um procedimento simplificador. A complexidade, como a heterogeneidade, que a observação dos fenómenos linguísticos nos revela não é passível de ser descrita, e muito menos explicável, através da atribuição às unidades linguísticas de propriedades classificatórias, com base, por exemplo, numa etiquetagem e no estabelecimento de uma hierarquia rígida. A construção do que em Culioli (ibidem: 4) se postula como “une théorie unifiée” permite, de uma forma unificada, dar conta da pluralidade, e até mesmo da disparidade, dos valores associados a um marcador54, isto é, visa “l‟articulation de phénomènes appartenant à des ordres hétérogènes et leur traitement grace à un système de représentation et de calcul homogène ou, en tout cas, congruent” (idem, ibidem). Em virtude da natureza complexa e heterogénea dos fenómenos linguísticos, concebe-se em Culioli (ibidem: 5), como aspecto central da actividade linguística possíveis de ocorrência de uma dada unidade. Esta sistematização visa o estabelecimento de compatibilidades e incompatibilidades e das regras que permitem distinguir unidades distintas e variantes flexionais de uma mesma unidade. Em Franckel; Paillard (1991), comenta-se que “Les classifications purement formelles ne posent que des problèmes méthodologiques et techniques dont la maîtrise a considérablement progressé depuis le recours à l‟ordinateur. [...] ce raffinement dans les procedures classificatoires conduit rapidement à un point où chaque unité peut se distinguer des autres par des comportements qui, localement, lui sont irréductiblement spécifiques. Le risque est d‟aboutir finalement à une multiplication des catégories et des sous-catégories dont le nombre équivaut bientôt à celui des unités classées.” (idem, ibidem: 103). 53 Uma unidade linguística corresponde a uma abstracção de difícil inserção numa qualquer classificação de natureza semântica. Fazer corresponder um ou mais sentidos a um termo - procedimento próprio de um dicionário comum, por exemplo – constitui uma forma de estabilização que é necessariamente limitativa, por não contemplar o facto de o valor desse termo poder variar quando se introduza uma determinada mudança ao nível do enunciado em que ocorre. 54 O conceito de marcador, de natureza relacional, implica um sistema de operações concatenadas que se fazem marcar por formas gramaticais. Tais formas gramaticais mais não são que as representações linguísticas da constituição das diferentes operações, por outras palavras, os traços visíveis das operações em que consiste a actividade da linguagem.
55 em geral, uma operação de ajustamento (“opération d‟ajustement”) que implica, por sua vez, dois princípios, ou movimentos, constitutivos da linguagem: por um lado, a estabilidade (“la stabilité”), por outro, a deformabilidade (“la déformabilité”). Afirma Culioli que “Les phénomènes linguistiques forment des systèmes dynamiques qui sont réguliers, mais avec une marge de variation due à des facteurs d‟une grande diversité: on a affaire à des phénomènes qui sont à la fois stables et plastiques” (idem, ibidem). Os conceitos de estabilidade e de deformabilidade justificam-se, por conseguinte, no quadro das relações dinâmicas que as unidades linguísticas entretecem, da construção de domínios - isto é, de configurações de domínios situados num sistema de localização - e também na medida em que, através da actividade dupla de produção e reconhecimento de formas, se perfilam sujeitos e se estabelece um “jeu de forces intersujets” (idem, ibidem). É óbvia a importância do conceito de estabilidade para a coerência da actividade linguística e, em última análise, para a comunicação: “Sans stabilité, il n‟y aurait pas d‟ajustement régulier, pas de communication [...]” (idem, ibidem). Já o conceito de deformabilidade, por ter a ver com a variação a que uma configuração pode estar sujeita, quando, simultaneamente, certas propriedades se mantêm inalteráveis (constituindo assim invariantes), exige a construção de formas abstractas. É a observação das propriedades distribucionais que uma forma regista – forma empírica, portanto – que viabiliza a construção de formas abstractas, enquanto resultado de um trabalho metalinguístico, visando a reconstrução das operações e do encadeamento de operações de que essa forma empírica é marcadora55. 55 O trabalho metalinguístico consiste numa construção teórica que pressupõe, no quadro dos três níveis de representação descritos em Culioli, a observação e a manipulação controlada dos elementos do nível II (sequências textuais), para, radicando no nível III, se proceder à construção de um sistema de representações metalinguísticas mediante o qual se procura representar e explicar (ou, noutros termos, simular) as operações do nível I (noções e operações, de natureza mental). A tal trabalho metalinguístico – ressalve-se ainda – preside uma concepção construtivista (“approche construtiviste”, segundo Franckel (2002), baseado em Kleiber (1999)), e não uma concepção mentalista (“approche mentaliste” (Franckel, ibidem)), da relação entre o sentido e os termos linguísticos, isto é, do que será a relação, em termos clássicos, entre linguagem e pensamento. Considera-se, de acordo com uma abordagem construtivista, que o sentido é determinado e construído em e pelas formas linguísticas que
56 Estreitamente relacionado com o conceito de deformabilidade, mas também com o conceito de estabilidade, está o conceito de forma esquemática (“forme schématique”), conforme definição proposta em Culioli (1987: 7): “représentation formelle”, ou, mais precisamente, “la représentation métalinguistique associée, par construction, à une forme empirique”, que fornece, portanto, “une configuration abstraite qui, selon les transformations qu‟on lui fait subir [...], va modifier sa forme [...], sa valeur, sa latitude de cooccurrence” (idem, 1986b: 5-6). Em Culioli (2002b), retoma-se a caracterização de forma esquemática clarificando a sua articulação com o conceito de invariância. A forma esquemática, como forma abstracta, integra-se naquilo que é, no quadro teórico culioliano, a identificação e descrição de invariantes, mostrando como a variação do sentido (a singularidade de cada unidade e a multiplicidade) se opera em diferentes planos de variação, regidos por uma organização regular56: “[...] par delà cette singularité et la multiplicité des phénomènes empiriques, se dégage une activité auto-regulée de mise en relation et d‟interaction, qui organise et structure des entités hétérogènes. Ceci engendre une prolifération de possibles, mais de ces possibles se dégagent des invariants. La forme schématique est cette forme abstraite (métalinguistique) qui permet de simuler par le raisonnement ce qui reste, en soi, inaccessible, toujours entr‟aperçu à travers le matériau textuel, à la fois obstacle par son apparente solidité qui s‟interpose, et trace où se dessine le travail d‟une intelligence de l‟adaptation, du conjectural et du détour” (idem, ibidem: 27). assim o veiculam, ou seja, de que são marcadoras. Ao sentido não cabe, portanto, um estatuto independente das representações (formas linguísticas) que permitem a sua apreensão, nem cabe à linguagem, ainda de acordo com o que seria uma abordagem de tipo mentalista-cognitivista, uma espécie de tradução do pensamento. Sobre uma teoria construtivista do léxico, em oposição a uma teoria mentalista, ver Franckel (2002). 56 Em Franckel (2002), sublinha-se esta hipótese de a variação se organizar de acordo com mecanismos gerais e regulares e, no sentido de esclarecer o conceito de forma esquemática, acrescenta-se, que esta, integrada num modelo da identidade lexical – como propõe -, “[...] n‟est pas le sens du mot, l‟identité qu‟elle pose n‟est pas une substance autonome, elle n‟est pas le plus petit dénominateur sémantique commun des emplois du mot” (idem, ibidem: 12).
57 Assumindo contornos algo diversos do proposto por Culioli (1986b, 1987, 2002b), o conceito teórico de forma esquemática é retomado e aplicado especialmente no âmbito dos trabalhos de J.-J. Franckel, D. Lebaud e também D. Paillard, S. Oriez, entre outros, sobre a questão da identidade das unidades morfo-lexicais apreendida através da variação dos seus sentidos (isto é, como “un modèle de l‟identité lexicale” (Franckel, 2002: 11)), pelo que viabiliza uma nova visão do fenómeno da polissemia57. De acordo com uma abordagem que conduz à “elaboração de um modelo da identidade lexical” em termos de forma esquemática, pretende-se, através da variação a que um dado item linguístico é sujeito (de acordo com o enunciado em que ocorra), apreender a sua identidade, tendo evidentemente presente que a variação é um aspecto intrínseco e que, portanto, faz parte do que se diz ser a sua identidade. De acordo com a proposta de Franckel e outros autores, a forma esquemática reúne, esquematicamente (daí a sua natureza abstracta e metalinguística) as propriedades que um item linguístico pode registar através da variação, obedecendo essa variação, consequentemente, a princípios regulares. Mais precisamente, “Ce concept [forme schématique] marque que l‟unité s‟inscrit dans un doublé processus interactif de schématisation (ou de configuration) du co-texte d‟une part, d‟instanciation de ce schéma par les éléments de ce co-texte d‟autre part” (Franckel, 2002: 11). Pelo recurso a uma formalização, a forma esquemática de um item é susceptível de se realizar diversamente, em função do enunciado em que esse item se inscreve. Este conceito reveste-se, assim, de alguma importância teórica no domínio da identidade lexical, cujo campo empírico é bastante amplo por, teoricamente, se pretender dar conta do comportamento de qualquer item ou unidade morfo-lexical, incluindo, além das unidades simples e com estatuto lexical pleno, por exemplo, as unidades compostas, as preposições, os afixos lexicais, os “mots du discours” (Paillard, 1998, 2001)58 57 Ver por exemplo, Franckel; Lebaud (1992), Franckel (1992 e 2002), Paillard (2000), Oriez (2001), Honeste (2003). 58 Comenta-se em de Vogüé (1998) que, relativamente a unidades como as preposições e afixos lexicais, “[...] il n‟y a pas de sens à envisager la construction d‟occurrences [...], et qui de fait ne sont vraisemblablement pas associés à des notions”,
64 instable” (Culioli, 1991: 12)) e só é susceptível de enumeração ou de pluralização com o recurso a um suporte situacional. Apesar de os determinantes que coocorrem com nominais densos serem morfologicamete iguais aos que verificamos poderem ocorrer com os nominais discretos, apresentam diferenças do ponto de vista dos valores referenciais construídos (ver Correia, ibidem). Por exemplo, a delimitação de uma ocorrência da noção /leite/ passa por uma formatação extrínseca, pelo emprego de um discretizador ou classificador como, por exemplo, um litro ou um pacote em comprei um litro / um pacote de leite. Os discretizadores, ou classificadores, permitem, assim, a determinação de uma noção através de uma operação de “prélèvement”. A delimitação de uma ocorrência da noção /leite/ é possível, ainda, pela atribuição de uma qualificação secundária como, por exemplo, pasteurizado ou fresco, em bebi o leite pasteurizado/ fresco. Neste último caso, podemos ter um determinante definido mas também um determinante indefinido (bebi um leite pasteurizado / fresco)66. De facto, apesar de não formatados intrinsecamente, os nominais densos são secáveis, podendo ser “decompostos” em zonas diferenciáveis67. Dá-se, num caso como este, uma recategorização de um nominal denso como discreto (ou discretização de um denso), pelo que pode admitir a coocorrência com um determinante indefinido. 66 Embora a atribuição de uma qualificação secundária seja uma condição para o emprego de um determinante indefinido com um denso, é também possível a determinação indefinida de um denso, sem a construção dessa qualificação secundária, como, por exemplo, em comi um bolo e bebi um leite. Diremos, porém, que, neste caso, um leite corresponde a uma discretização: está em causa uma porção de /leite/, formatada extrinsecamente através de um discretizador (ou classificador), aqui subentendido, que pode ser um copo de ou um pacote de ou qualquer outra unidade. 67 A natureza da estabilidade aqui em causa não se deve a uma operação de validação: “elle reste en deça de l‟homogénéisation qualitative qui en découlerait. Elle procède simplement de l‟existence d‟un certain nombre de critères minimaux (ces propriétés caractéristiques) qui se trouvent être satisfaits” (de Vogüé, 1989: 14). Por conseguinte, estamos perante uma estabilidade qualitativa, não perante uma estabilização homogénea.
65 Os nominais compactos não são compatíveis com qualquer formatação, no sentido em que as noções de tipo compacto não são susceptíveis de ser singularizados nem de ser pluralizados, seja de forma directa (como os discretos) seja através de discretizadores (como os densos). Como veremos, a única singularização possível é de ordem qualitativa. Diz-se que não há construção de ocorrências, na medida em que não há fragmentação, isto é, na medida em que se está perante um homogéneo, definido topologicamente como uma zona fechada. Pode, no entanto e sem contradição, falar-se da construção de ocorrências, uma vez que os compactos não recusam todo o género de formatação. É muito comum, por exemplo, a coocorrência destes nominais com o artigo definido como determinante (por exemplo, em: a alegria da Ana, o ódio dos soldados, etc)68, funcionando como um discretizador - como um falso discretizador, aliás, uma vez que o seu valor é preponderantemente qualitativo, por marcar o grau e não a quantidade. Não se trata de identificar, delimitando, uma parcela de /alegria/, de /ódio/, etc, tendo como localizador a Ana, os soldados, etc. Não estamos, neste sentido, perante uma ocorrência de /alegria/, de /ódio/, mas sim perante propriedades cujo suporte é o sujeito a Ana (a Ana é/está alegre), os soldados (os soldados são/estão odiosos). Para encarnar69, os nominais compactos tendem, assim, a precisar do recurso a um suporte da predicação. As possibilidades de quantificação que estes nominais apresentam evidenciam, de forma particular, que a sua estabilidade provém do atractor. A alteridade só pode ser qualitativa, o contraste entre termos só se dá no interior da noção, por referência ao centro atractor. Veja-se, pois, a associação de quantificadores como um pouco de, muita/o, etc (em, por exemplo, um pouco de 68 Recorde-se, aliás, que, dependendo embora dos valores de determinação verbal construídos, do emprego do artigo definido com nominais discretos ou com nominais densos pode resultar uma compactização destes nominais. Nesta possibilidade residirá uma pista para se descrever e explicar o valor genérico do definido, claramente distinto do do indefinido (ver de Vogüé, 1989: 8). 69 O termo “encarnação” (“incarnation”, segundo de Vogüé (1989: 2)) e também a forma verbal “encarnar”, visa, metaforicamente, designar “l‟ensemble d‟opérations complexes et [...] diverses, par lesquelles au sein d‟un énoncé on passe d‟une notion à ce qui sera la valeur référentielle qui lui sera associée dans cet énoncé” (idem, ibidem).
66 paz ou muita paz), que apresentam como particularidade o facto de corresponderem a gradações: interpretam-se como graus de intensidade, e, por determinarem um grau, não determinam qualquer formato. Esta realidade resulta, em termos da estruturação do domínio nocional, da construção de um gradiente, enquanto escala de medida orientada, mediante a qual se determinam graus, isto é, diferentes zonas de intensidade. Quando se dá o caso de um nominal deste tipo encarnar com recurso a um termo como, por exemplo, acesso (em ele teve dois acessos de raiva) ou um momento (em foi um momento de angústia), entre outros, não estamos ainda perante uma quantificação. Acesso ou momento são pseudo-discretizadores, pois, longe de remeter para um formato, ou seja, de marcar a formatação de uma ocorrência, marcam “une sorte de „mise en scène‟ du compact” (de Vogüé, 1989: 10). Também o indefinido, podendo coocorrer com um compacto, desde que com a predicação de uma segunda propriedade (como, por exemplo, em um entusiasmo incontrolável, um entusiasmo incontrolado ou em uma imaginação fértil), opera uma singularização que se prende com intensidade, isto é, com a construção de valores intensivos e não com a diversidade de ocorrências70. Por consequência, o determinante um / uma é, nestes contextos, um pseudo-discretizador. Veja-se a impossibilidade do plural quantificado em, por exemplo, *dois entusiasmos incontroláveis ou *cem imaginações férteis71. 70 Conforme se propõe em Culioli (1981), está em causa a operação de validação de uma propriedade, enquanto processo de identificação com o tipo que define a propriedade em questão. Por conseguinte, está-se perante uma estabilização homogénea: constrói-se o que se designa como “um ponto dilatado” (“point dilaté”), que, por definição, não regista qualquer operação de diferenciação. A singularização, construída com auxílio de um gradiente (escala de medida orientada), resulta da introdução de uma distância no seio do ponto dilatado para que remete o compacto (ver de Vogüé, 1989: 12). Tal distância relaciona-se, aliás, com o facto de os nominais compactos se poderem organizar em pares antonímicos (paciência / impaciência, alegria / tristeza, etc). No caso dos discretos e dos densos, esta possibilidade de fundar relações de antonímia está ausente (o que seria o contrário de cão, de leite, etc?). 71 Não é excluível, porém, o plural não quantificado, pelo que será outro o seu valor. No caso de, por exemplo, entusiasmos incontroláveis ou imaginações férteis, além da distância estabelecida por intermédio do gradiente, opera-se uma diferenciação entre ocorrências que, longe de ser efectiva, é apenas potencial.
67 Atendendo a que a problemática da construção de ocorrências, na base desta “tipologia operatória” (“typologie opératoire”, segundo Franckel; Paillard; de Vogüé, 1988), está em causa – como referíamos acima - tanto na determinação nominal como na determinação verbal, num segundo momento, a aplicação desta organização topológica de ocorrências estende-se ao domínio verbal72. Esta aproximação não põe em causa a discernibilidade destas duas categorias lexicais, funda-se no facto de a determinação de ocorrências envolver invariavelmente uma articulação entre formatação Qnt e estabilização Qlt. No domínio da determinação de valores aspectuais, está em causa uma caracterização aspectual, enquanto forma de estruturação, baseada, tal como toda a determinação, na construção de ocorrências. Em comparação com outras propostas de carácter mais estritamente descritivo e classificatório, aplicáveis às situações, esta é uma proposta que tem como objectivo determinar os diversos modos de “encarnação” de uma situação numa ocorrência, com base – como dizíamos - na dupla distinção entre os critérios qualitativo e quantitativo que intervêm, de forma indissociável, na delimitação de uma noção. É porque permite dar conta das diferenças observadas a partir deste princípio geral, que tem a vantagem de ser uma conceptualização unificada e, portanto, bastante económica. É ainda porque esta proposta se define em termos de operações, que permite inclusivamente prever a significação de um enunciado, através de um cálculo dos valores referenciais de que as formas em presença são marcadoras. Do mesmo modo que os critérios fundadores de outras tipologias aplicadas aos nominais se apoiam, seja em critérios formais, seja em critérios semântico-interpretativos (caso da tipologia contável / não contável ou contável / massivo), também as tipologias clássicas aplicadas às situações, ou se baseiam em procedimentos de análise distribucional e de inventariação do conjunto de contextos em que uma dada unidade pode ocorrer, ou correspondem à projecção imediata, no plano linguístico, de distinções de natureza extralinguística. É exemplo 72 Ver, em particular, D. Paillard (1988), mas também Franckel; Paillard; de Vogüé (1988), de Vogüé (1989, 1998), Franckel; Paillard (1991, 1992), entre outros.
68 desta segunda hipótese o recurso a critérios associados às distinções aspectuo-temporais entre processos e estados. O tratamento da categoria aspecto com recurso a esta oposição é gerador de uma multiplicidade de subclasses, nem sempre claramente distintas entre si, e trata este fenómeno de maneira excessivamente empírica, desviando-se de uma concepção da linguagem como actividade simbólica de representação73. No entanto, a consciência de uma afinidade entre os valores aspectuais dos predicados e os valores de determinação nominal está presente na definição das várias tipologias que procuram dar conta de características aspectuo-temporais. Encontramos, desde logo, uma aproximação destas duas ordens de fenómenos na tipologia aspectual para os predicados do inglês, proposta em Vendler (1967), mediante a qual se distinguem formas que, pelas suas propriedades, se categorizam como “states” (estados), como “activities” (actividades), como “accomplishments” (eventos prolongados) ou ainda como “achievements” (eventos instantâneos). Os critérios que subjazem a esta categorização são de ordem sintáctica74, sendo posta em evidência a importância de outros factores, como seja a forma como se constrói ou não o complemento objecto (ou argumento interno), mais especificamente, “the presence or absence of an object, conditions, intended states of affairs” (idem, ibidem: 97). 73 Por exemplo, a ideia de “acção em decurso” que está associada à classificação de processo (por oposição a estado) decorre da evidência empírica da diferença existente entre movimento e não movimento, entre transformação e situação estabilizada (ver Franckel; Paillard, 1991: 111). Portanto, “faire de la notion de processus [...] une donnée primitive de la catégorie linguistique de l‟aspect, c‟est en fait substituer un résultat aux paramètres et aux procédures qui conduisent à ce résultat. Considérer qu‟une interprétation de type processus s‟obtient à l‟aide de termes dont le rôle propre serait de marquer la transformation (par exemple être en train de), admettre qu‟il existe des termes spécifiquement affectés à une opposition par ailleurs aussi prégnante pour le bon sens que processus / état, c‟est concevoir, une fois encore, le langage comme une forme de codage, comme une nomenclature” (idem, ibidem). 74 É, por exemplo, “a possibilidade de ocorrência de um predicado numa estrutura sintáctica definida que postula a sua inserção numa determinada classe aspectual. Duas das estruturas sintácticas consideradas, que funcionam como testes, envolvem a coocorrência com adverbiais aspectuais e a combinação com a forma progressiva be+ing (em português, estar a)” (Pereira, 1997: 115).
69 Uma redefinição e aprofundamento da tipologia de Vendler (ibidem) encontra-se, entre outros, em Mourelatos (1978)75, compreendendo quatro categorias em oposição: “states” (estados), “processes” (actividades), “developments” (eventos prolongados) e “punctual occurrences” (eventos instantâneos). Na base da categorização e da recategorização do valor aspectual do verbo, à importância da existência ou não de um argumento interno e da sua natureza, acrescenta-se, em Mourelatos, a igual relevância do valor de todo e qualquer termo em ocorrência no enunciado, como, por exemplo, dos adverbiais e dos adjectivos. A proximidade da relação que existe entre determinação verbal e determinação nominal confirma-se ainda pela equivalência existente entre o valor aspectual do verbo e a categorização da sua nominalização76. Afirma-se em Mourelatos que “Corresponding to an event predication there is a nominalization equivalent in which the original verb appears as a gerund or a deverbative noun [...] that governs an existential construction of the verb to be”. (idem, ibidem: 425). Em Borillo (1988 e 1991), retoma-se a tipologia aspectual que combina os contributos de Vendler (ibidem) e de Mourelatos (ibidem), para se propor a 75 Ver, em Campos (1998a: 198), a referência que se faz, além de Mourelatos (1978), a Borillo (1988, 1991), B. Comrie (1976 Aspect, Cambridge, Cambridge University Press), M. Bennett; B. Partee (1978 Towards the Logic of Tense and Aspect in English, Bloomington, Indiana University Linguistics Club), D. R. Dowty (1979 Word Meaning and Montague Grammar, Dordrecht, D. Reidel Publishing Company), F. Nef (1980 “Les verbes aspectuels du français: remarques sémantiques et esquisse d‟un traitement formel” Semantikos 4 (1): 11-46), C. Vet (1980 Temps, aspects et adverbes de temps en français contemporain, Genève, Librairrie Droz) e a E. Bach (1981 “On Time, Tense, and Aspect: An Essay in English Metaphysics” in P. Cole (ed.), Radical Pragmatics, New York, Academic Press: 63-82). 76 Veja-se, em Correia (2002: 325-336), um estudo que, a partir da definição dos valores de determinação verbal, dá conta do funcionamento das nominalizações deverbais do português europeu, incluindo a descrição e a explicação das várias restrições de coocorrência encontradas. Aliás, tal como se demonstra em de Vogüé (1989), também em Correia (ibidem), se fundamenta o alargamento da aplicação da tipologia discreto – denso – compacto ao domínio da determinação verbal. Em de Vogüé fundamenta-se esta possibilidade, entre outras razões, pela observação da existência de “[...] corrélations entre les comportements des procès et ceux des nominaux qui vont pouvoir servir à nominaliser ces procès” (idem, ibidem: 25).
70 introdução de um critério que permite agrupar, por um lado, os eventos (prolongados e instantâneos), por outro, os estados e as actividades. Trata-se do critério de telicidade, mediante o qual se opõem, respectivamente, situações télicas (segundo a autora, [+ télicas]) a situações atélicas (segundo a autora, [- télicas])77 78. Este critério tem como fundamento o valor temporal de uma situação que pode apresentar-se como ”limitée dans le temps”, isto é, [+ télica], “ou non limitée, c‟est-à-dire susceptible de se prolonger sans tendre vers une fin ou un résultat” (Borillo, 1988: 222), isto é, [- télica]. Ora, a definição destas duas classes aspectuais decorre da coocorrência ou não dos predicados com um argumento interno, bem como da sua natureza quando presente. Correspondendo ao nominal em posição de tal argumento uma categorização em termos de determinação nominal, volta a estar pressuposta, nesta proposta de categorização aspectual, a estreita e necessária relação entre a determinação verbal e a determinação nominal79. Ainda na sequência de Vendler (ibidem), deve-se a Moens; Steedman (1988) uma outra proposta de categorização do que estes autores identificam como “propositions conveyed by English sentences uttered in context” (idem, ibidem: 16). Das cinco categorias (“temporal and aspectual types” (idem, ibidem)) que esta proposta compreende, quatro correspondem ao que genericamente os autores 77 O termo “situação” é empregue por Borillo, entre outros, como hiperónimo das diferentes classes aspectuais. 78 Recuperado em Borillo (1988, 1991), o conceito de telicidade foi introduzido por H. B. Garey (1957 “Verbal aspect in French” Language 33: 91-110): “[...] a telic situation is one which necessarily includes a goal, aim or conclusion” (apud Bouscaren et alii, 1993: 18). É de acordo com este critério, que, como dizíamos, em Borillo (ibidem) se afirma que as relações predicativas subjacentes aos enunciados podem ser situações télicas (no caso das categorias vendlerianas de eventos instantâneos e eventos prolongados) ou situações atélicas (no caso das categorias vendlerianas actividades e estados). 79 Em Campos (1997a: 183), num comentário às conclusões sistematizadas em Borillo (1991), sintetiza-se que “o valor aspectual de uma situação só pode ser estabelecido pela integração progressiva de todos os constituintes que participam na sua definição, a saber, verbo lexical, predicado (SV), sujeito, tempo verbal, adverbial temporal-aspectual, contexto discursivo”.
71 designam por “events” (eventos): “happenings with defined beginnings and ends” (idem, ibidem: 17). De acordo com dois critérios – “contrast between punctuality and temporal extension” e “association with a consequent state” (idem, ibidem) -, distinguem-se, assim, as categorias “culmination”, “point expression”, “(ordinary) process” e “culminated process”. A quinta categoria, “a class of indefinitely extending states of affairs” (idem, ibidem), corresponde ao que os autores designam por “states” (estados). Nesta proposta reconhece-se, de forma muito clara, a importância das possibilidades de recategorização, que se dão sob a influência dos valores das expressões que coocorrem “in context”: “The phenomenon of change in the aspectual type of a proposition under the influence of modifiers like tenses, temporal adverbials, and aspectual auxiliaries is of central importance [...]” (idem, ibidem). Por conseguinte, também na proposta de categorização temporal-aspectual de Moens; Steedman (ibidem), está subjacente uma consciência da relevância dos valores inerentes a todas as expressões em coocorrência, para a determinação do que aí se propõe como “[...] the ontology80 of propositions associated with linguistic expressions denoting events and states” (idem, ibidem: 16) e para a sua representação formal. Como vimos demonstrando, estas propostas não se apresentam como tipologias de verbos: o facto de reconhecerem a importância dos argumentos internos dos verbos e do seu tipo de determinação na alteração da classe a que o predicado pertence81 obriga, desde logo, o seu alargamento ao grupo verbal e até ao próprio enunciado. 80 Defende-se, neste estudo de Moens; Steedman (1988), que uma semântica unificada (“unified semantics” (idem, ibidem: 26)) das categorias da linguagem natural - como o tempo gramatical, o aspecto e os adverbiais aspectuo-temporais - requer “an ontology based on contingency rather than temporality” (idem, ibidem). De acordo com a proposta destes autores, “contingency” (contingência) constitui, assim, um conceito central na representação mental (“in episodic memory” (idem, ibidem: 16)) dos eventos e estados, que se encontram, portanto, estruturados segundo outro princípio que não o de sequencialidade temporal ou de causalidade. 81 Ver, a este propósito, o comentário e a exemplificação a partir da manipulação de enunciados com os verbos correr, comer, chegar e pintar, que se propõe em Campos (1998a: 198ss).
72 Partindo do pressuposto de que o valor de determinada situação não constitui um dado a priori, mas que corresponde ao resultado de um encadeamento de operações de que são marcadoras outras formas linguísticas que não só o verbo, para a definição de uma tipologia que dê conta da configuração das ocorrências de uma noção, é pertinente - como veremos - ter presente as propriedades semânticas e a determinação, quer do argumento objecto, quer do argumento em posição de sujeito. É indiscutível que, a um nível lexical, como verificaremos, existem restrições que condicionam de forma diferente como se podem construir ocorrências da noções lexicalizadas, por exemplo, /ler/ ou /saber/. Há, portanto, que considerar que aquelas são intrinsecamente discretas, densas ou compactas, no sentido em que – como, aliás, se passa com os lexemas nominais - funcionam como um filtro, ao condicionarem, em graus diferentes, o cálculo de operações. No entanto, as determinações internas recebem determinações externas, diferentes configurações, pela sua localização situacional, isto é, como resultado de um encadeamento de operações no seio de um enunciado, e em virtude de determinações contextuais82. Afirma-se a este propósito, em Franckel; Paillard; de Vogüé (1988: 240), que as relações complexas de articulação entre “qualitatif / instanciel d‟une part, 82 As expressões “determinações internas” e “determinações externas”, a que recorremos para designar estas realidades, encontram-se em Franckel; Paillard (1991): “Par déterminations internes nous entendons celles qui organisent, de façon propre au lexème, une partie des rapports entre délimitation Qnt et Qlt. La structuration plus ou moins forte de ces rapports se traduit par une indépendance plus ou moins grande par rapport aux déterminations externes [...].Par déterminations externes, il faut entendre l‟ensemble des déterminations situationnelles qui relèvent du repèrage aux paramètres origins de l‟énonciation: S (sujet) et T (temps), et contextuelles, issues d‟autres termes de la relation” (idem, ibidem: 117). Num texto posterior, Franckel (2002) refere-se a esta dinâmica como “[...] une articulation entre signification et contextualisation, dans laquelle le contexte s‟inscrit, par rapport à une unité ou à une séquence (une suite de mots interprétable) donnée, dans une dialectique complexe de „l‟interne‟ et de „l‟externe‟ [...]” (idem, ibidem: 10). A propósito desta abordagem dinâmica da contextualização, segundo a qual cada sequência determina os tipos de contextualização possíveis, acrescenta Franckel que “[...] le contexte n‟est pas (ou pas seulement) externe à l‟énoncé: une séquence donnée n‟est interprétable que eu égard à un contexte, mais en même temps la séquence déclenche les types de contextualisations avec lesquels elle est compatible” (idem, ibidem).
73 manifestation / découpe d‟autre part [...] sont partiellement filtrés par l‟organisation lexicale: ce filtrage est interprétable en terme de prédétermination de contraintes [...]”83. A organização tipológica de ocorrências discreto – denso – compacto permite, por conseguinte, dar conta desta plasticidade, em virtude da sua natureza operatória e, como já sublinhámos atrás, não classificatória84, contribuindo, por isso, para um melhor conhecimento do funcionamento da língua. Dado que uma noção só ganha determinação ao nível da construção do enunciado, ou seja, pela sua estruturação predicativa e enunciativa, é ao nível da determinação de ocorrências nocionais que se esboçam os valores de determinação nominal e verbal. Veja-se este facto confirmado nas possibilidades de recategorização, já brevemente referidas e exemplificadas para os nominais e ainda por exemplificar para o domínio verbal, recategorização esta tida não como um a priori mas sim como um resultado analisável na e pela enunciação85. Aliás, o estabelecimento de uma caracterização que contemple uma determinação nocional dos items lexicais não invalida, pela natureza operatória dos fenómenos em presença, uma descrição da recategorização ao nível dos enunciados. Como se afirma em de Vogüé (1989: 3), 83 Expresso noutros termos, em Bouscaren; Chuquet (1987), afirma-se o mesmo princípio de organização lexical enquanto filtro que viabiliza e condiciona diferentes configurações: “[...] la forme grammaticale du verbe apporte d‟information sur l‟aspect [...]. Mais, moyennant certaines óperations, des recatégorisations sont possibles. L‟essentiel, en chaque cas, est de prendre en compte l‟existence de la répartition lexicale en la considérant comme un matériau sur lequel va porter le travail de l‟énonciateur” (idem, ibidem: 11). 84 Dependendo embora do enquadramento teórico, numa perspectiva classificatória, está fora de questão a relação de um item lexical com uma variedade de determinações externas. Como vimos atrás, o objectivo de qualquer abordagem classificatória é muito mais o de inscrever cada item lexical numa caracterização a que se chega pela definição de um conjunto de traços, que se manifestam em contextos tidos como típicos para tal item lexical. 85 Salientando a relevância da descrição da recategorização através desta tipologia, em Franckel; Paillard (1991) estabelece-se um nexo entre este fenómeno e as determinações externas: “La notion de recatégorisation supposait [...] la prise en compte du rôle des déterminations externes” (idem, ibidem: 116).
80 Consequentemente, no caso das configurações de tipo denso, a relação predicativa é tratada “em bloco”, o que é confirmado pelas glosas houve leitura e houve passeio99. Poder-se-á estabelecer uma aproximação entre o que aqui se passa e a formulação de Benveniste (1966: 241) mediante a qual “les événements semblent se raconter eux-mêmes”, sem que haja intervenção exterior de um sujeito100. Isto é, há uma validação da predicação, sem que haja um sujeito “validador”. No quadro da TFE, diremos que o sujeito corresponde simplesmente a uma das coordenadas que definem a situação de enunciação e que servem de localizadores à ocorrência da situação construída como densa, daí a possibilidade de se glosar estes enunciados omitindo o sujeito, conforme acima proposto (houve donc des descontinuités, et l‟on voit que, ce faisant, on effectue une operation de coupure sur la classe d‟occurrences construite par Qt ([…] quantification / qualification, c‟est-à-dire Qnt/Qlt)” (idem, ibidem: 140-141). 98 Portanto, o pretérito perfeito simples pode integrar qualquer um dos modos de determinação discreto, denso ou compacto. Vemos que, no caso particular de uma configuração de tipo discreto, em virtude da existência de um telos nocional (ou limiar semântico inerente), o pretérito perfeito simples marca a construção de um estado resultante e que, no caso de uma configuração de tipo denso, em virtude da inexistência de um telos nocional, o pretérito perfeito simples marca a construção de um valor aorístico. 99 A possibilidade destas glosas confirma a relação entre determinação aspectual dos predicados e a determinação nominal, atestada pelo funcionamento das nominalizações deverbais: ler e passear apresentam o mesmo funcionamento denso que os respectivas nominalizações (leitura e passeio). 100 Esta configuração inscreve-se no plano que Benveniste (1966) designa como “histórico” (“le plan historique de l‟énonciation” ou “récit historique” (idem, ibidem: 239)), que se opõe ao “discurso” (“le discours”). A “história” põe em cena os acontecimentos sem a intervenção de um sujeito, pelo que “dans celui-ci, le narrateur n‟intervenant pas, la 3e personne ne s‟oppose à aucune autre, elle est au vrai une absence de personne” (idem, ibidem: 242). Ainda segundo este autor, o tempo gramatical aoristo (de entre a diversidade de aoristos – búlgaro, albanês, georgiano, turco,... - Benveniste teria presente o aoristo grego) é uma das formas particulares de manifestação da relação temporal que caracteriza a “história”.
81 leitura, houve passeio)101. De acordo com o que se propõe em de Vogüé (1987: 55ss), temos, neste caso, a localização de uma ocorrência situacional (“occurrence situationnelle”) “qui se trouve par elle-même transformée en occurrence notionnelle” (idem, ibidem: 56)102. Uma configuração de tipo compacto compreende uma delimitação Qlt da ocorrência que instancia o lugar de operador de predicação, sem que haja uma qualquer delimitação Qnt103. Por não resultar de uma delimitação quantitativa, a actualização da situação em causa não passa pela construção de ocorrências, mas sim pela sua relação com um suporte externo. São tipicamente compactos os predicados em ser (seguido de adjectivo), predicados comummente classificados como estativos (ver Franckel; Paillard; de Vogüé, 1992), como, por exemplo, /ser simpático/ no enunciado 2.9, 2.9 O Luís é simpático 101 Esta possibilidade regista-se em português, por ser uma língua de sujeito nulo: o lugar argumental sujeito pode não ser lexicalmente instanciado, mas existe com todas as suas propriedades. 102 Definida como “simplement construction d‟occurrence de parole”, em de Vogüé (1987), propõe-se o conceito de “occurrence situationnelle”: “[...] dans une situation donnée [...], de la parole a eu lieu. Il n‟y a pas là de qualification d‟un état (i.e. de validation d‟une propriété), mais simplement vérification du procès en un lieu et un instant donnés” (idem, ibidem: 48). Quanto ao conceito de “occurrence notionnelle”: “il y a certes constructions d‟une occurrence situationnelle [...], mais celle-ci se voit requalifiée comme concordant avec un attendu préconstruit” (idem, ibidem: 49). 103 Deve-se à delimitação exclusivamente qualitativa dos compactos a afinidade comummente estabelecida entre estes e as situações classificadas como estados. Apesar de a natureza operatória da caracterização como compacto divergir do pendor mais marcadamente classificatório do estado, em ambos os casos está em causa a predicação de uma propriedade e, consequentemente, a característica homogeneidade ou estabilidade destas situações.
82 em que o Luís é o suporte através do qual se apreende a propriedade /ser simpático/. A localização espácio-temporal da noção /ser simpático/ deve-se, pois, a tal suporte. Incidindo sobre o sujeito (o Luís), /ser simpático/ corresponde a uma propriedade definitória. A especificidade do compacto reside, assim, na construção de um centro organizador a partir do sujeito e não a partir do objecto (ver idem, ibidem: 240). A ocorrência da noção /ser simpático/ é delimitada apenas qualitativamente104 e predica sobre um suporte que, por sua vez, corresponde a uma ocorrência quantificada. Do facto de a localização situacional de uma noção do tipo compacto supor a mediatização de um suporte (que é o sujeito sintáctico) decorre, conforme se expõe em Franckel; Paillard; de Vogüé (ibidem: 243), que “Il y a [...] dans ce cas une articulation intra-énoncé de type thème-prédicat [...]”, correspondendo o sujeito ao tema. Desprovido de qualquer função agentiva (contrariamente ao que sucede no caso das situações de tipo discreto), o sujeito de um compacto desempenha apenas a função de suporte. Além destas construções prototipicamente compactas, com ser + adjectivo, uma ocorrência nocional de /ler/, por exemplo, pode apresentar um funcionamento compacto (enunciado 2.10), consoante as operações de que resulta a sua determinação. 2.10 A Sílvia lê imenso Em 2.10, a Sílvia lê corresponde a “a Sílvia é uma leitora”, isto é, atribui-se a um sujeito (a Sílvia) uma propriedade (ser leitor). Ler comporta-se, deste modo, como um compacto, sem, neste caso (tal como no enunciado 2.9), corresponder à 104 No caso de, por exemplo, O Luís foi simpático durante uns minutos, a delimitação temporal construída não põe em causa o valor qualitativo da delimitação intrínseca à noção /ser simpático/. O pretérito perfeito simples e o adverbial (cuja presença é opcional, aliás) marcam, a par de o Luís, a atribuição de um suporte espácio-temporal a uma propriedade que não perde, portanto, o seu valor qualitativo. Está em causa o mesmo fenómeno de pseudo-discretização de nominais compactos que atrás exemplificámos pelas expressões dois acessos de raiva e um momento de angústia.
83 descrição de uma actividade delimitada espácio-temporalmente. Observamos, assim, haver uma correlação entre o funcionamento de ler como compacto e o seu funcionamento intransitivo (ver Franckel; Paillard; de Vogüé, 1992: 246). O adverbial imenso ilustra as possibilidades de quantificação das ocorrências nocionais construídas como compactas. A associação de quantificadores como pouco, muito, imenso, bastante, etc, determina um grau de intensidade105. Existem outras noções lexicalizadas por verbos (por exemplo, gostar, saber, etc.), comummente classificados como estados, cujas ocorrências só podem ser delimitadas qualitativamente pela predicação de um suporte, apresentando, portanto, um funcionamento compacto (enunciados 2.11 e 2.12). 2.11 O Luís sabe falar alemão 2.12 O Luís soube a lição Em ambos os enunciados, C1 corresponde a um objecto externo, uma vez que o predicado saber não tem objecto interno, isto é, não há quaisquer restrições sobre o que possa constituir o seu argumento objecto. Assim, não sendo o objecto externo construtor nem especificador de uma ocorrência do predicado saber, C1 não o delimita nocionalmente (ver Campos, 1997a: 195). Não há, por isso, nestes enunciados, quantificação nocional nem quantificação construída situacionalmente da noção /saber/. No enunciado 2.11, C1 remete para a própria noção: a forma não finita do complemento (falar alemão), por ser neutra quanto à referência temporal106, atesta que C1 não contribui para a construção de uma ocorrência do predicado verbal. A independência de C1 em relação à enunciação em curso volta a estar patente no enunciado 2.12, uma vez que C1 corresponde a um pré-construído. 105 Também o enunciado 2.9 se prestaria a semelhante tipo de quantificação intensiva: por exemplo, O Luís é bastante simpático. 106 Deve-se à neutralidade do valor temporal marcado pelo infinitivo o facto de a propriedade predicada sobre o sujeito ser interpretável como uma competência, como uma aptidão – como veremos adiante (ver §§ 10 e 10.2).
84 A única ocorrência construída situacionalmente é, em ambos os casos, a ocorrência de um suporte que é o sujeito, sobre o qual se predica, em 2.11, a propriedade saber alemão, ou que, em 2.12, é localizado, através do predicado saber, relativamente a C1 (ver idem, ibidem). Como referimos acima, esta mediatização está também relacionada com a estrutura dos enunciados cujos predicados apresentam um funcionamento compacto. Como se observa em de Vogüé (1989: 30) e em Franckel; Paillard; de Vogüé (1992: 241, 243), estes enunciados obedecem ao esquema proposicional clássico em que o sujeito é o suporte – o hypokeimenon – da predicação, isto é, a uma estrutura em que se articulam dois termos de uma relação: um sujeito e uma predicação. Está em causa, portanto, uma validação, isto é, a predicação de uma propriedade a propósito de um sujeito, que serve de tema ao enunciado, e não a construção, “em bloco”, de uma ocorrência de uma situação, conforme se verifica no funcionamento denso. Em termos de configuração enunciativa, esta realidade inscreve-se no que Benveniste (1966) designa como discurso (“Discours” (idem, ibidem: 242))107, entendido como predicação de uma propriedade, que, enquanto tal, “compromete” um sujeito: “[...] un énonciateur predique la propriété en jeu à propos de ce qui sert de thème à son discours. Ce faisant, il se porte garant de son dire; et par là-même il s‟expose face à un interlocuteur: tout l‟univers du discours est là mis en oeuvre” (de Vogüé, 1989: 35). Como procuramos demonstrar, pelo facto de ter como critério a construção de ocorrências, a definição dos três tipos de configuração das ocorrências de uma noção ultrapassa o domínio estritamente lexical108. Antes de mais, não é possível 107 Conforme referido atrás, contrariamente ao que se verifica com os densos. 108 Sem se pretender pôr em causa o papel do léxico na organização das operações predicativas e enunciativas, com esta afirmação tem-se presente uma nova compreensão desta questão. Genericamente, esta proposta vai no mesmo sentido de outras propostas. Apesar de diferente (por ser de natureza operatória e transcategorial), vem, por exemplo, na sequência do caminho já percorrido, no quadro da Gramática Generativa, ao reconhecer que o léxico, pelo mecanismo regular do princípio de projecção, está na origem da organização da gramática. Na perspectiva da TFE, é ao nível lexical que se definem as bases do cálculo das operações predicativas e enunciativas, no sentido em que a determinação ao nível nocional é o factor regulador da construção dos enunciados: “Le
85 estabelecer uma classificação rígida em três tipos bem delimitados, nos quais se inscreveria univocamente cada item ou unidade lexical. Uma unidade particular pode registar modulações, ou recategorizações, assumindo configurações diversas. Além disso e estritamente relacionado, está em causa a constituição, sintáctica e semântica, do enunciado, como constructo cujos valores são calculáveis a partir do encadeamento das operações de que as formas linguísticas são marcadoras. Assim, os efeitos da oposição discreto – denso – compacto, aplicável ao nível das determinações nominal e aspectual, fazem-se sentir também na estrutura predicativa e na estrutura enunciativa dos enunciados109. Este princípio de transversalidade é indissociável do princípio de transcategorialidade, mediante o qual um dado valor decorre de operações que atravessam, implicando, diferentes categorias. Esta perspectiva transcategorial conduz, assim, a hipóteses interessantes sobre o estatuto do objecto e a questão da transitividade em geral110. Inter-relacionadas, a problemática da construção de ocorrências e a ausência de uma identidade definitiva para cada unidade lexical, afectam a forma como se perspectiva o conceito de transitividade. O estatuto do argumento objecto, pelas propriedades que lhe estão associadas, constitui um parâmetro decisivo a partir do qual se pode proceder à caracterização de funcionamentos diferenciados. Por conseguinte, entendida como propriedade dos argumentos objecto, a transitividade diz respeito à forma como vai ser construída uma ocorrência do processo (ver de Vogüé, 1991: 50) e é, nessa medida, concebível como um fenómeno de natureza lexique est [...] appréhendé, dans la théorie culiolienne, comme un schème de régulation des constructions syntaxiques et énonciatives” (de Vogüé, 1991: 45). 109 Em de Vogüé (1989: 35; 1998: 18), referindo-se os efeitos da oposição discreto - denso – compacto, não só sobre as determinações aspectual e nominal, mas também ao nível da da estrutura sintáctica dos enunciados, faz-se corresponder uma estrutura tripartida ao funcionamento discreto, uma estrutura monopartida ao funcionamento denso e uma estrutura bipartida ao funcionamento compacto (ver § 2.3.2). 110 Sobre a questão da construção do objecto e da transitividade em geral, veja-se de Vogüé (1991), Franckel; Paillard (1989, 1992). Para o português, veja-se o estudo de Pereira (1997), sobre a predicação secundária.
86 não só sintáctica, mas também semântica e enunciativa111. Como se conclui em de Vogüé (ibidem: 60), a transitividade constitui, antes de mais, uma questão teórica: “[...] elle ne peut se poser hors théorie, comme un simples problème descriptif [...]” (ver § 9.). Além das questões levantadas a propósito do argumento objecto e da transitividade em geral, o já velho debate sobre o estatuto gramatical do sujeito parece poder ser redimensionado neste âmbito da definição de uma tipologia de configurações das ocorrências de uma noção. Como vimos, o sujeito do enunciado - tido como tema para uns, como agente ou paciente para outros, ou constituindo ainda um simples localizador para alguns - pode, de acordo com o tipo de configuração construída, variar de estatuto (ver de Vogüé, 1989). O valor da configuração de uma situação não constitui um a priori; corresponde, sim, e no limite, ao resultado de uma operação de localização situacional que “[...] articule d‟une façon particulière deux modes de repérage d‟un procès, relativement à un repère subjectif d‟une part, temporel de l‟autre” (Franckel; Paillard, 1991: 114). A articulação deste modo duplo de construção de valores referenciais está na base da construção dos valores aspectuais. Porém, não sendo um exclusivo da construção da categoria aspecto ou da determinação nominal, como veremos, está também na base da construção da categoria modalidade (ver § 2.3.2). Relacionado com todos estes aspectos, sublinhe-se o facto (já atrás referido) de, contrariamente às outras classificações, esta definição dos três modos de construção de ocorrências de uma noção se fundar numa problemática claramente linguística. A natureza dos parâmetros equacionáveis no cálculo dos valores construídos comprova isso mesmo: as definições de objecto interno, objecto externo, sujeito do enunciado, estrutura predicativa, estrutura enunciativa, decorrem 111 À pergunta que pretende apurar, distinguindo, o que, no fenómeno da transitividade, é semântico e o que é enunciativo responde-se, no quadro da Teoria Formal Enunciativa, que “[...] le sémantique est énonciatif [...], en soutenant non pas que la transitivité serait déterminée (ou influée) par des paramètres énonciatifs, mais qu‟elle-même determine les paramètres énonciatifs de structuration de l‟énoncé [...]” (de Vogüé, 1991: 46).
87 exclusivamente da dinâmica linguística (mesmo havendo correlatos no universo de referência). 2.3.2 Três estruturas predicativas: agentividade, localização e validação Conforme vimos no capítulo precedente, aos três modos de construção de ocorrências de uma noção correspondem três estratégias112, três modos de construir referência e, portanto, de enunciar. Tendo presente, de modo particular, as várias observações a propósito do sujeito gramatical, ou sujeito do enunciado, que pode variar de estatuto, de acordo com o tipo de configuração construída, pode fazer-se corresponder à tipologia discreto – denso – compacto três diferentes processos enunciativos. A pertinência do paralelismo, atrás referido, entre dois destes três tipos de construção de ocorrências e as categorias propostas por Benveniste (1966) - “Histoire” e “Discours” – comprova isso mesmo. Também o, atrás referido, estabelecimento de uma correspondência, em de Vogüé (1989; 1998), entre os três tipos discreto, denso e compacto e, diferentes estruturas sintácticas - tripartida, no caso do funcionamento discreto, monopartida, no caso do funcionamento denso e bipartida, no caso do funcionamento compacto - constitui uma evidência das implicações desta tipologia ao nível da descrição das estruturas predicativa e enunciativa dos enunciados. A estrutura tripartida que, em de Vogüé (1989; 1998), se considera estar associada ao funcionamento discreto, compreende um agente, o processo em causa e a operação de mira. Enquanto localizador da ocorrência construída e 112 O recurso ao termo “estratégia” não tem, neste contexto, como noutros subsequentes, qualquer afinidade com o conceito consagrado pelos estudos pragmáticos e discursivos de “estratégia ilocutória” ou de “estratégia discursiva”. Fala-se em estratégia enquanto modo de construir referência, enquanto possibilidade de estrutura enunciativa, definida em termos de operações ao nível nocional, como ao nível predicativo e enunciativo.
88 localizada situacionalmente, cabe ao argumento em posição de sujeito (C0) um estatuto de agente ou de paciente, isto é, uma característica definida em termos de agentividade, que decorre de uma operação de mira. Devendo-se ao argumento em posição de objecto (C1), e não a uma localização espácio-temporal, a fixação dos limites quantitativos e qualitativos da situação em causa, este (C1) corresponde a um objecto interno, em função do qual a validação da formatação intrínseca às ocorrências nocionais de tipo discreto se constitui como mira. É à formatação extrínseca característica do funcionamento denso que se deve a estrutura monopartida que lhe está associada. Neste caso, dá-se a verificação, pura e simples (isto é, sem preponderância de uma delimitação qualitativa), de uma situação, através da sua especificação espácio-temporal, ou seja, através da sua especificação operada em relação a localizadores situacionais. A estrutura enunciativa característica do funcionamento denso compreende, assim, a localização do processo em causa em relação aos termos localizadores situacionais. Neste caso, o predicado não define um objecto interno, nocionalmente determinado. Por conseguinte, tratando-se de um objecto externo, o argumento em posição de objecto (C1) não contribui para a construção e quantificação da ocorrência. A possibilidade de se omitir o sujeito quando se glosa um enunciado em que a ocorrência de uma situação é construída como densa atesta que este corresponde simplesmente a uma das coordenadas que definem a situação de enunciação e que servem de localizadores. Finalmente, a estrutura bipartida a que corresponde o funcionamento compacto define-se pela atribuição de uma propriedade a um suporte. Os dois termos desta estrutura são, portanto, o sujeito gramatical e uma propriedade que lhe é atribuída. Quando ocorra, o argumento em posição de objecto (C1) corresponde a um objecto externo, portanto, não construtor nem especificador de uma ocorrência (daí a correlação existente entre o funcionamento compacto e o funcionamento intransitivo do predicado). Neste caso, a localização espácio-temporal da noção deve-se, pois, ao suporte através do qual se apreende a propriedade - suporte que, por conseguinte, corresponde a uma ocorrência quantificada, por oposição à propriedade, delimitada apenas qualitativamente.
89 A predicação de uma propriedade sobre um sujeito que, não tendo qualquer função agentiva, é o suporte mediador da localização situacional de uma noção, condiciona, como vimos, a estrutura do enunciado, cujo predicado apresenta, assim, um funcionamento compacto. Com a predicação de uma propriedade sobre um sujeito, como em toda a actividade enunciativa, está em causa uma operação de validação que é, por excelência, uma operação modal. A atribuição de uma propriedade é, pois, uma operação modal, cujo localizador, o sujeito enunciador enquanto fonte de um juízo, se compromete, portanto, com a validação, em diferentes graus, ou com a não-validação da relação predicativa113. Mais propriamente, dir-se-á que os valores modais construídos correspondem às diferentes “avaliações” (ou juízos modais) possíveis que a atribuição de uma propriedade a um sujeito pode assumir. A validação - que, enquanto estratégia enunciativa (ou modo de construção de ocorrências) característica das situações de tipo compacto, corresponde a uma estrutura sintáctica bipartida (ver de Vogüé, 1989; 1998) – define-se, pois, ao nível enunciativo. Focando a nossa atenção nos predicados cujos verbos pretendemos estudar neste trabalho - pensar, julgar, crer, achar, supor, acreditar, duvidar, saber, ignorar -, a localização do seu complemento predicativo114 faz-se directamente 113 A partir da observação do facto de a atribuição de uma propriedade ser a operação modal por excelência, em de Vogüé (1989: 36), retira-se, como consequência importante, a hipótese de a categoria modalidade ter uma dimensão pré-enunciativa, por via da qual “le modal [...] est déjà intégré dans le lexique” (idem, ibidem). Esta hipótese está perfeitamente consonante com a forma como, no quadro da Teoria Formal Enunciativa, se concebe o léxico: conforme atrás referido, enquanto um esquema de regulação das construções sintácticas e enunciativas, uma vez que, pelas suas determinações internas, condiciona parcialmente os planos sintáctico e enunciativo. Os termos lexicais são, assim, concebidos não como dados, mas como entidades construídas, não sendo evidente a destrinça entre os níveis lexical, sintáctico e enunciativo. 114 O funcionamento predicativo de um complemento, implica – como veremos adiante, mais detalhadamente (ver, em particular, § 7.2) – uma dissociação entre a construção da propriedade predicada e a construção do termo sobre o qual recái essa propriedade e que constitui o seu suporte. Se, por um lado, o complemento é objecto de uma determinação quantitativa (Qnt) independentemente do enunciado em curso, por outro, a operação que consiste na atribuição de uma propriedade a um suporte é de natureza qualitativa (Qlt) (ver Franckel; Lebaud, 1990; Valentim, 1998).
96 is” (idem, ibidem: 791). A modalidade deôntica definir-se-ia como uma necessidade conforme à regra social, moral, etc; a modalidade epistémica marcaria o domínio do certo e do duvidoso, do saber ou do conhecimento e da crença. Aquela a que, segundo Kant (inspirado em Aristóteles), corresponderia a designação de (juízo de) modalidade assertórica terá sido tendencialmente tida, pelos lógicos modernos, como uma modalidade zero. 3.1.1 Lógica epistémica Como vimos atrás (ver § 2.1), numa perspectiva lógico-filosófica, o conhecimento relativo ao significado de uma proposição implica o conhecimento das condições mediante as quais essa proposição é verdadeira, podendo tais condições de verdade e de referência ser especificadas em relação a entidades reais do mundo ou em relação a mundos possíveis. Também um enunciado que expressa uma atitude proposicional, como um conhecimento ou uma crença, visa sempre, como objecto dessa mesma atitude, uma proposição cujo conteúdo semântico é especificado em termos de condições de verdade e de referência. A distinção entre aquilo que constitui um conhecimento e aquilo que constitui uma crença (ainda sem a teorização do que sejam atitudes proposicionais) é, desde Platão, objecto de interesse por parte da filosofia ocidental. A epistemologia, nomeadamente, definiu-se enquanto disciplina filosófica que se ocupava da natureza e da fonte do conhecimento. Da mesma origem etimológica do termo “epistemologia”, o termo “epistémico/a”125 começou por ser usado pelos filósofos, com um sentido muito diferente, aliás, daquele que lhe é atribuído pela semântica linguística (ver § 3.3.2). “Epistémico/a” dizia respeito à estrutura lógica das frases que asserem ou que implicam que uma proposição ou uma sequência de proposições é objecto de conhecimento ou objecto de crença. Na opinião de alguns autores (por exemplo, Martin, 1983), a lógica epistémica contribuiu para uma 125 Ambos os termos, “epistemologia” e “epistémico/a”, derivam do termo grego επιστήμη, que significa conhecimento, saber, ciência.
97 formalização em termos de mundos possíveis, conceito subordinado ao de universo de crença126. É segundo este ponto de vista que os lógicos modernos procuram estabelecer as condições de verdade e de referência apropriadas para o uso dos verbos saber e crer, e de outros verbos que expressam o que comummente designam como atitudes proposicionais127. É também segundo o ponto de vista da lógica epistémica que é consensual o facto de uma asserção do tipo “X sabe que p” implicar que o sujeito responsável pela produção desta sequência acredita que p é verdadeiro, enquanto que uma asserção como “X crê que p” não apresenta a mesma implicação. Já se X é o sujeito responsável pela produção das sequências “X saber que p” e “X crer que p”, este compromete-se, nos dois casos, com o carácter verdadeiro de p, com a diferença de, na primeira sequência (empregando saber), o compromisso ser mais forte do que na segunda sequência (empregando crer). Sem aprofundar os princípios da lógica epistémica, a proposição “X sabe que p” pode ser formalizada através da representação (I) Kx(p). Sendo Kx o operador de necessidade epistémica, (I) relaciona-se com p em termos de necessidade epistémica. Se Kx(p) é verdadeiro, então p é verdadeiro. Não sendo uma simples implicação, a relação entre Kx(p) e p é designada, por muitos filósofos, como pressuposição, uma vez que a verdade de p é uma condição necessária, não só para a verdade de “X sabe que p”, mas também para a verdade da sua negação “X não sabe que p” (ver Lyons, [1977] 21978: 793ss). 126 Martin define universo de crença como “l‟ensemble indéfini des propositions que le locuteur, au moment où il s‟exprime, tient pour vraies ou qu‟il veut accréditer comme telles” (1983: 143). 127 Ressalve-se que o interesse que os lógicos manifestem pelo funcionamento dos verbos saber e crer, e de outros verbos que expressam o que comummente designam como atitudes proposicionais considera esses verbos, não como formas linguísticas, mas sim como operadores modais num sistema, em que os valores de verdade da proposições são tidos como factuais e objectivos (isto é, em que uma proposição é verdadeira por si mesma, em absoluto, e não relativamente a um sujeito). Sobre a classificação de verbos de atitude proposicional, ver § 2.1.
98 A definição da necessidade epistémica, como a definição lógica da modalidade em geral e de cada um dos seus outros tipos, não se funda numa qualquer referência ao sujeito enquanto responsável pela modalidade exibida em determinada sequência (proposição, para os lógicos). Baseia-se, isso sim, na evidência (“evidence”, em inglês) que determina a necessidade epistémica em questão numa determinada proposição, ou qualquer um dos diversos tipos de modalidade que caracterizam as proposições. Esta evidência corresponde a algo objectivo, pelo que, sob o ponto de vista lógico, a modalidade epistémica (como todos os outros tipos de modalidade) é descrita como uma modalidade objectiva. Como contraponto a esta descrição objectiva, a proposta de uma descrição subjectiva da modalidade epistémica128, surgida no domínio da linguística, representa o critério fundamental da diferença entre a lógica modal e a modalidade linguística129. Segundo uma perspectiva linguística – veremos adiante -, não se pode atribuir a um conteúdo proposicional um “valor de verdade” senão (para utilizar esta expressão) se um sujeito enunciador lhe atribui tal valor ou, mais precisamente, se um sujeito enunciador se constitui como origem desse mesmo valor. 128 Em Lyons ([1977] 21978: 792), faz-se referência a J. Kurylowicz (1964, The Inflexional Categories of Indo-European, Heidelberg, Winter) em virtude do critério que propõe para distinguir a modalidade epistémica da modalidade deôntica. Propõe Kurylowicz que se descreva a modalidade epistémica como subjectiva (por implicar a expressão da atitude do locutor) e a modalidade deôntica como menos subjectiva do que a anterior, uma vez que implica, mais do que modalidade, aquilo que designa por modulação. 129 Em Gilbert (1987), refere-se a existência de “[...] linguistes qui, s‟inspirant en cela des logiciens, ont avancé que les modaux déterminaient la “valeur de vérité” d‟une proposition, comme si une proposition pouvait être vraie, fausse, contingente, probable,..., en elle-même ou par adéquation à la réalité extérieure.” (idem, ibidem: 12).
99 3.1.2 Factividade Com o objectivo de explorar a relação entre a sintaxe e a semântica no sistema de complementação em inglês e, portanto, apresentando já preocupações de ordem linguística, no estudo de Kiparsky; Kiparsky (1970) destaca-se a pressuposição como um dos factores semânticos fundamentais na determinação do tipo de complemento proposicional: “whether the speaker presupposes the truth of a complement contributes in several important ways to determining the syntactic form in which the complement can appear in the surface structure” (idem, ibidem: 143). É, pois, com a finalidade de demonstrar que a pressuposição tem repercussões sintácticas em inglês que estes autores introduzem no domínio dos estudos linguísticos o conceito de factividade, enquanto propriedade que, quando presente, caracteriza uma vasta série de predicados do inglês, designados, por isso, de predicados factivos, e que, quando ausente, permite identificar os predicados ditos não factivos. Assim, por exemplo, cada um dos pares de enunciados 3.1 e 3.2, 3.3 e 3.4 ilustram, respectivamente, as duas situações possíveis, de factividade e de não factividade, em português: 3.1 É surpreendente que ele venha 3.2 É possível que ele venha 3.3 Lamento que não tenhas gostado da viagem 3.4 Suponho que tenhas gostado da viagem Segundo Kiparsky; Kiparsky (ibidem), ao produzir as sequências 3.1 e 3.3, os sujeitos responsáveis por tal produção assumir-se-ão responsáveis pela verdade das proposições “ele vem” (3.1) e “tu não gostaste da viagem” (3.3), tornadas, assim, pressuposições e sendo, por isso, os predicados (ser) surpreendente e
100 lamentar exemplos de predicados factivos130: “the speaker presupposes that the embedded clause expresses a true proposition, and makes some assertion about that proposition” (idem, ibidem: 147)131. Já no que diz respeito às sequências 3.2 e 3.4, os sujeitos responsáveis pela sua produção não se comprometem nem com a verdade nem com a falsidade das proposição expressas pelos complementos. Os predicados (ser) possível e supor são, assim, exemplos de predicados não factivos132. Em Kiparsky; Kiparsky (ibidem) admite-se ainda a possibilidade de situações de contra-factividade, quando o sujeito responsável pela sequência se compromete, não com a verdade, mas sim com a falsidade da proposição expressa pelo complemento. Um exemplo de um enunciado contra-factivo é a sequência 3.5: 3.5 Eu gostava que ele tivesse trazido a família 130 Ressalve-se que o tempo gramatical em que ocorrem os verbos em causa não é irrelevante para a construção de um valor factivo. Se, por um lado, ambas estas sequências, em que o verbo ocorre no presente gramatical, ilustram uma situação de factividade, por outro, quando no condicional (seria surpreendente que ele tivesse vindo e lamentaria que não tivesses gostado da viagem), o mesmo não se regista. Já no pretérito perfeito simples (foi surpreendente que ele tivesse vindo e lamentei que não tivesses gostado da viagem), como noutros tempos pretéritos, continua a registar-se a factividade acima descrita. Em termos linguísticos, situando teoricamente a descrição no quadro da Teoria Forma Enunciativa, diríamos que a factividade pode ser descrita em termos de pré-construído, isto é, pela construção de valores referenciais numa situação de enunciação distinta da situação de enunciação origem. 131 São apontados, em Kiparsky; Kiparsky (1970: 143, 145), como exemplos de predicados factivos do inglês os predicados “significant, odd, tragic, exciting, relevant, matters, counts, makes sense, suffices, amuses, bothers […], regret, be aware (of), grasp, comprehend, take into consideration, take into account, bear in mind, ignore, make clear, mind, forget (about), deplore, resent, care (about)”. 132 Como exemplos de predicados não factivos do inglês, são apontados, em Kiparsky; Kiparsky (1970: 143, 145), os predicados “likely, sure, possible, true, false, seems, appears, happens, chances, turns out [...], suppose, assert, allege, assume, claim, charge, maintain, believe, conclude, conjecture, intimate, deem, fancy, figure”.
101 Enquanto enunciado que expressa um desejo, 3.5 é um caso de contra-factividade133. Têm a mesma característica as construções condicionais também chamadas construções contra-factuais ou irreais134. Tendo em vista uma caracterização dos predicados factivos e, por oposição, dos predicados não factivos do inglês, em Kiparsky; Kiparsky (ibidem) propõem-se, entre outros, quatro critérios sintácticos fundamentais: “Only factive predicates allow the noun fact with a sentential complement consisting of a that-clause or a gerund to replace the simple that-clause. […]” Por exemplo, The fact that the dog barked during the night ou The fact of the dog‟s barking during the night. “Only factive predicates allow the full range of gerundial constructions, and adjectival nominalizations in –ness, to stand in place of the that-clause. […]” Por exemplo, His being found guilty, John‟s having died of cancer last week, Their suddenly insisting on very detailed reports, The whiteness of the whale. 133 Mais uma vez, se verifica que o tempo gramatical em que ocorre o verbo em causa não é irrelevante para a construção de um valor, neste caso, contra-factivo. Com o verbo no presente (gosto que ele tenha trazido a família), esta sequência é, segundo o critério proposto por Kiparsky; Kiparsky (1970), factiva: ao produzir esta sequência, o sujeito responsável por tal produção assume-se responsável pela verdade da proposição “ele traz a família”. 134 As construções condicionais irreais (por exemplo, Se ele tivesse trazido a família, a surpresa teria sido maior) contrastam com as condicionais reais (por exemplo, Se ele trouxe a família, a surpresa vai ser maior), na medida em que estas últimas são não factivas. Nos termos propostos por Kiparsky; Kiparsky (1970), o sujeito responsável por uma condicional real não se compromete com a verdade nem com a falsidade da proposição. Traduzido em termos de uma descrição linguística teoricamente situada no quadro da Teoria Forma Enunciativa, diríamos que as condicionais reais apresentam uma relação predicativa pré-construída (neste caso, ele trouxe a família), que, enquanto tal (isto é, validada numa outra situação de enunciação), apresenta valores de determinação a que o enunciador origem é alheio. Temos um caso de enunciação relatada, construção de um outro sujeito enunciador, referencialmente distinto do sujeito enunciador origem (ver § 7.1).
102 “There are constructions which are permissible only with non-factive predicates. One such construction is obtained by turning the initial noun phrase of the subordinate clause into the subject of the main clause, and converting the remainder of the subordinate clause into an infinitive phrase. […]” Por exemplo, It is likely that he will accomplish even more é convertível em He is likely to accomplish even more; It seems that there has been a snowstorm é convertível em There seems to have been a snowstorm, já It is possible that he will accomplish even more não é convertível em *He is possible to accomplish even more. “For the verbs in the factive group, extraposition is optional, whereas it is obligatory for the verbs in the non-factive group. […]” Por exemplo, It makes sense to me that there are porcupines in our basement ou That there are porcupines in our basement seems to me; It seems to me that there are porcupines in our basement, mas não *That there are porcupines in our basement seems to me (idem, ibidem: 144ss). À excepção do primeiro, os três restantes critérios opontados para o inglês não se aplicam ao português, em virtude de, nesta língua, não serem possíveis as estruturas sintácticas propostas. Já a possibilidade, de acordo com o primeiro critério, de enunciados como 3.1 e 3.3, sem que haja qualquer alteração na sua significação, admitirem integrar a expressão “o facto de”, seguido de uma construção completiva com que (mas sem a hipótese da alternativa com o gerúndio, como no inglês), atesta, em português, a natureza factiva dos predicados em causa. Veja-se os enunciados 3.1a e 3.3a135: 135 A possibilidade destas construções confirma a possibilidade de descrição do mecanismo que está subjacente ao conceito de factividade em termos de pré-construído, ou seja, em termos de construção de valores referenciais numa situação de enunciação distinta da situação de enunciação origem.
103 3.1a É surpreendente o facto de que ele venha 3.3a Lamento o facto de que não tenhas gostado da viagem Às diferenças sintácticas apontadas de 3.1 a 3.4136 corresponde uma diferença semântica entre enunciados factivos e enunciados não factivos que se reflecte ao nível do complemento: “the force of the that-clause is not the same in the two sentences [...]: I regret that it is raining (factive); I suppose that it is raining (non-factive)” (idem, ibidem: 147). Retomando os pares de enunciados 3.1 e 3.2, 3.3 e 3.4, que exemplificam, respectivamente, as duas situações de factividade e de não factividade no português, de acordo com Kiparsky; Kiparsky, 3.1 e 3.3, e não 3.2 e 3.4, integrarão, respectivamente, as pressuposições “ele vem” e “tu não gostaste da viagem”, factos acerca dos quais os sujeitos responsáveis por estes enunciados constroem asserções expressas pelos predicados factivos (ser) surpreendente e lamentar. A diferença básica entre os dois tipos de predicados, factivos e não factivos, reside, assim, no facto de os predicados factivos dependerem de uma pressuposição, característica que não está presente no caso dos predicados não factivos. Os complementos dos predicados factivos correspondem a “propositions the speaker presupposes to be true”; os complementos dos predicados não factivos correspondem a “propositions the speaker asserts, directly or indirectly, to be true” (idem, ibidem). As pressuposições são, aliás, constantes mesmo em enunciados negativos (Kiparsky; Kiparsky, ibidem: 150). Em 3.6 e 3.7, a negação ao nível da subordinante não implica a negação da pressuposição; a negação recai exclusivamente sobre a 136 Uma excepção a estas generalizações é o funcionamento do verbo saber (também o funcionamento de to know, em inglês). Sintacticamente, este predicado factivo comporta-se como um predicado não factivo: não admite a transformação do complemento com a introdução da expressão o facto de (*Eu sei o facto de que ele está aqui), aceitando, pelo contrário, uma construção proposicional (Eu sei-o aqui). Este dado apresenta algum interesse para a descrição e a explicação do funcionamento de saber (ver § 9.3).
104 proposição subordinante (sobre a asserção (“assertion”), segundo Kiparsky; Kiparsky137): 3.6 Não é surpreendente que ele venha 3.7 Não lamento que não tenhas gostado da viagem Para negar uma pressuposição, há que o fazer explicitamente (Kiparsky; Kiparsky, idem: 151), como se exemplifica em 3.8 e 3.9: 3.8 Não é surpreendente que ele venha; ele simplesmente não vem 3.9 Não lamento que não tenhas gostado da viagem; tu até gostaste Por contraste, no caso dos enunciados com predicados não factivos, a negação ao nível da subordinante implica a negação do segundo termo do enunciado. Veja-se os enunciados 3.10 e 3.11: 3.10 Não é possível que ele venha 3.11 Não suponho que tenhas gostado da viagem Em Kiparsky; Kiparsky observa-se, assim, que o fenómeno de transformação e movimento sintácticos designado por subida da negação (“NEG-rasing”)138 é 137 O emprego que em Kiparsky; Kiparsky (ibidem: 150) se faz do termo asserção (“assertion”) permite designar as frases mais altas (“higher sentences”) que são proposições subordinantes (“dominating propositions”), em oposição com o termo pressuposição (“presupposition”) e a realidade designada. 138 Deve-se a Edward S. Klima (1966 “Negation in English” in Fodor; Katz (eds.), The Structure of Language, Englewood Cliffs, N. J., Prentice-Hall) a definição da subida da negação (“NEG-raising”) como “a rule which optionally moves the element NEG(ATIVE) from an embedded sentence into the containing sentence” (Kiparsky; Kiparsky, idem: 161-2).
105 bloqueado no caso das estruturas factivas, por oposição ao que se passa no caso da estruturas não factivas, em que este fenómeno se verifica139. Da mesma forma que para os enunciados 3.6 e 3.7, as interrogativas totais, conforme se propõe em 3.12 e 3.13, não comprometem as pressuposições inerentes aos complementos, pois incidem unicamente sobre a asserção: 3.12 É surpreendente que ele venha? 3.13 Lamentas que ele não tenha gostado da viagem?140 139 A proposta apresentada em Kiparsky; Kiparsky (ibidem) a propósito do diferente comportamento de predicados classificados como factivos e como não factivos, quando afectados por um operador negativo, antecede o estudo que, mais tarde, Horn (1975, 1978, 1989) virá a desenvolver, relacionando a ocorrência do fenómeno sintáctico do transporte da negação com o grau dos valores assertivos construídos pelos predicados introdutores (ver § 12). 140 É precisamente com recurso a exemplos apresentando uma estrutura interrogativa que em Kartunnen (1971) se demonstra que alguns dos predicados ditos por Kiparsky; Kiparsky factivos se podem construir com complementos que não correspondem a pressuposições. Assim, por exemplo, a sequência Mr. Nixon, did you discover / notice / realize that you hadn‟t told the truth?, será, segundo Kartunnen, ambígua por se prestar a duas leituras: uma factiva, mediante a qual o enunciador pressupõe que o Sr. Nixon não disse a verdade; outra não factiva, mediante a qual o enunciador não sabe se o Sr. Nixon disse a verdade e, por isso, pergunta. Este autor propõe, assim, a introdução da categoria dos predicados semifactivos: predicados factivos cujos complementos podem ter uma leitura não factiva. É na sequência desta proposta que Hooper; Thompson (1973) demonstram que alguns complementos dos semifactivos se comportam sintacticamente como os complementos dos predicados não factivos, mais do que como os complementos dos predicados factivos. Contrariamente aos complementos dos factivos, que não podem ser antepostos (*It‟s late, I regret), os complementos dos semifactivos podem, como os dos não factivos (It‟s late, it seems to me), ser antepostos (It‟s late, I notice). Encontra-se também em Terrell; Hooper (1974), um enfoque no comportamento de uma classe de predicados semifactivos. Segundo estes autores, o facto de os complementos dos semifactivos apresentarem um comportamento similar ao dos complementos dos não factivos apoia-se no facto de, em espanhol – observam -, ambos se construírem com o verbo no modo indicativo (Es tarde, me doy coenta, es tarde, me parece).
112 Merece ser salientado, do texto de Kiparsky; Kiparsky (ibidem), o facto de ser reconhecida uma estrutura de natureza simultaneamente sintáctica e semântica, em que se articulam a existência de um sujeito e o conteúdo proposicional por si construído (juízo), esboçando-se, deste modo, uma percepção do que se define em linguística como sendo uma das categorias de determinação: a modalidade. Além deste aspecto, outros há que, do nosso ponto de vista, denunciam o mérito deste texto, ao propor uma reflexão que aborda problemas fundamentais para a descrição e explicação dos valores construídos nos enunciados que se apresentam sintacticamente como frases complexas. Particularmente, pela atenção dedicada à natureza semântica (e não só sintáctica) do complemento e tendo como objectivo explorar a relação entre a sintaxe e a semântica no sistema de complementação em inglês, estes autores propõem-se enriquecer a análise definida no quadro da Sintaxe Transformacional. Ao demonstrar que, apesar de possuírem uma mesma estrutura profunda, diferentes tipos de complementos não são semanticamente equivalentes, em Kiparsky; Kiparsky pretende-se construir uma teoria da complementação que conjuga uma descrição sintáctica com um ponto de vista semântico, que se revela fundamental para dar conta da irregularidade e da imprevisibilidade do fenómeno da complementação: “This approach to a theory of complementation is not only more adequate from a semantic point of view. Its purely syntactic advantages are equally significant [...] for treating complementation as basically irregular and unpredictable” (ibidem: 172). Posto em destaque como um dos factores semânticos fundamentais na determinação do tipo de complemento proposicional, o conceito de pressuposição, embora se baseie no princípio segundo o qual o conteúdo semântico de uma proposição é especificado em termos de condições de verdade e de referência, aponta, desde já, para a existência de vários planos da enunciação, isto é, para o que, na Teoria Formal Enunciativa, é descrito em termos teóricos como pré-construído, conceito metalinguístico decorrente da concepção de um encadeamento de situações de enunciação (portanto, de coordenadas temporais e subjectivas), distintas entre si, que incluem, como localizador último, a situação de enunciação origem (ver § 3.3.1).
113 A introdução do conceito de factividade, ao ter como finalidade a demonstração de que a pressuposição tem repercussões sintácticas em inglês, permite caracterizar os diferentes predicados, deixando clara a relevância do seu significado (“the meaning of each predicate” (idem, ibidem)) para a descrição do tipo de complemento por si seleccionado, ao ponto de, conforme procurámos pôr em relevo com esta exposição, facilmente os autores transitarem de uma classificação dos verbos como factivos e não factivos, para uma classificação análoga dos predicados e até dos enunciados. Articulado com as duas dimensões constitutivas dos enunciados factivos e não factivos – seu conteúdo proposicional e juízo que sobre este se constrói – surge, com igual pertinência, um olhar sobre o funcionamento dos enunciados em que se constrói uma negação ao nível da subordinante. Daí se conclui haver uma constância da negação no caso dos predicados factivos o que contrasta com o caso dos predicados não factivos, em que, de acordo com uma perspectiva sintáctica, se dá o transporte ou deslocação da negação (ver § 12). Como atestam trabalhos de explicação - mas sobretudo de descrição - de autores posteriores, esta observação incide sobre um facto relevante no estudo de um qualquer predicado susceptível de ocorrer numa estrutura matriz. Mas do estudo de Kiparsky; Kiparsky (ibidem) pode igualmente dizer-se que, pela ausência de uma qualquer manipulação das formas e de uma consequente observação das mudanças ocorridas ao nível dos valores construídos, incorre num certo simplismo ao estabelecer um sistema de correspondência entre os valores por si descritos (factividade, não factividade e contra-factividade) e um conjunto de predicados. Afigura-se, no entanto, como digno de nota o facto de estes autores constatarem a existência de uma relação entre a factividade e, nos casos do inglês e do francês, a selecção do tempo gramatical, e, no caso do alemão, a selecção do modo do predicado da subordinada, assim como da correspondência sintáctica e semântica entre Verdade (“Truth”) e Referência Específica (“Specific Reference”). Esta reflexão confirma, antecipadamente, a pertinência do estudo do que, no quadro da Teoria Formal Enunciativa, constitui o âmbito da determinação verbal e da determinação nominal. Todos estes aspectos postos em destaque são importantes por, como pretendemos demonstrar, ajudarem a definir um programa de trabalho sobre
114 questões relativas à construção da modalidade linguística, que, apesar de situado num quadro teórico específico (Teoria Formal Enunciativa), não pode deixar de reflectir propostas anteriores. 3.2 Modalidade linguística Privilegiado no domínio da lógica, a modalidade é dos temas menos conclusivamente tratados nos estudos linguísticos. Muitas (a generalidade mesmo) das teorias linguísticas da modalidade, herdeiras da lógica modal clássica (ver §§ 3 e 3.1), excluem, nas tipologias que propõem, os enunciados declarativos em que não ocorra qualquer uma das “fórmulas” por si consideradas modalizantes146. Está, pois, subjacente uma concepção da modalidade enquanto propriedade inerente a sequências lexicalizadas. Esta concepção da modalidade enquanto subsidiária da lexicalização é devedora, em parte, das primeiras versões da Teoria Generativa (ver, entre outros, Chomsky, 1965), da ideia central, então veiculada, de que a descrição semântica de uma frase se rege por regras de interpretação semântica, baseadas, por um lado, no significado dos items lexicais, conforme especificado no léxico, e, por outro, nas suas relações gramaticais na frase, conforme especificado pelas regras de estruturação frásica. É assim que a tentativa de se dar conta de valores de modalidade - por exemplo, nas estruturas de complementação - se traduz numa 146 Por exemplo, quando não completamente omissas em relação à categoria da modalidade, as gramáticas explícitas apresentam, regra geral, esta concepção restrita da modalidade. Além das descrições gramaticais, refira-se, ainda a título de exemplo, o trabalho relativamente recente de le Querler (1996) em que, depois de se percorrer e caracterizar globalmente as definições de modalidade como “étroites”, “larges” e “médianes” (ver idem, ibidem: 50-54), se propõe uma definição de modalidade “étroite” – “expression de l‟attitude du locuteur par rapport au contenu propositionnel de son énoncé” (ibidem: 61) – que, no entanto, exclui “l‟assertion simple [porque] ne contient aucun marqueur de l‟attitude du locuteur: le contenu propositionnel est posé, l‟attitude du locuteur est constative ou informative, sans aucun marqueur explicite de modalisation [...]” (idem, ibidem).
115 identificação das formas lexicais a que esses valores possam estar associados (ver § 2.2). Na generalidade das propostas de descrição gramatical (não estritamente sintácticas), entre os fenómenos habitualmente etiquetados de “modais”, a que se recorre para uma definição extensional da modalidade, encontram-se as formas susceptíveis de ocupar uma posição “mais alta” na hierarquia sintáctica, verbos que ocorrem como verbos principais de uma frase matriz e introduzem uma estrutura de complementação verbal, certos adverbiais (como certamente, felizmente, lamentavelmente, sem dúvida, talvez), assim como certas construções sintácticas (como os adjuntos modais na minha opinião, do meu ponto de vista, etc). É neste âmbito que surge, consensual, a referência a alguns de entre os verbos de atitude proposicional, como achar, pensar ou qualquer um dos outros visados por este estudo, por constituírem também “fórmulas” modais, formas que – diz-se, por exemplo, numa gramática destinada ao Ensino Secundário – “assinalam uma dada atitude do locutor”147. Não é, portanto, só com recurso ao significado lexical dos predicados “mais altos” que se procura representar as modalidades148. Também se associa a modalidade a formas inscritas no interior do complemento, como os verbos ditos “auxiliares de modalidade” ou “verbos modais” (como poder, dever, ter de e parecer), e até os complementadores ou, de forma discutível, o modo gramatical. Propondo-se uma análise não-lexical149, e desenhando uma tendência menos distante no tempo do modelo generativista150, faz-se corresponder à modalidade 147 M. B. Florido; M. E. Duarte da Silva 1996 Gramática Básica da Língua Portuguesa, Porto, Porto Editora. 148 São representantes desta tendência linguistas que estudam os actos de fala com recurso à semântica generativa, como J. R. Ross (1970 “On Declarative Sentences” in R. Jacobs; P. Rosenbaum (eds.), Readings in Transformational Grammar, Ginn), Lakoff (1968), J. Sadock (1969 “Hypersentences” Papers in Linguistics 1/2: 283-270) e Searle (1970). 149 A designação e uma definição deste tipo de análise encontra-se em Ransom (1986): “[...] a nonlexical approach which [...] can represent the modality meanings of complements as a part of the complement, separate from the higher sentence, and as a property of the sentence rather than a property of a lexical form” (idem, ibidem: 198).
116 marcadores abstractos associados às frases ao nível da estrutura profunda Isto é, aborda-se a modalidade como um certo tipo de relação gramatical que – como, por exemplo, o conceito de “sujeito” - se deve representar na estrutura profunda. No entanto, em virtude de representar a modalidade sempre em termos das restrições de selecção associadas aos predicados “mais altos”, este tipo de análise não contempla outros complementos senão os que ocupam estruturalmente a posição de sujeito ou de objecto, assim como não permite reconhecer a modalidade em frases simples ou em expressões adjectivais e adverbiais. Assim, da mesma forma que, de um modo geral, estas propostas linguísticas de abordagem da modalidade não associam a construção de valores de modalidade a uma descrição metalinguística dos valores de que são marcadores os modos indicativo e conjuntivo, não se referem à modalidade susceptível de ocorrer (não só, mas também) numa “frase simples” - o valor modal adiante descrito como asserção estrita151 -, por a este não corresponderem marcadores lexicais, morfológicos ou sintácticos. 3.3 Modalidade no quadro da Teoria Formal Enunciativa No âmbito da TFE, a descrição da construção da categoria gramatical da modalidade prevê que a todo e qualquer enunciado corresponde um valor modal152. 150 Na sequência de J. Katz; P. Postal (1964 An Integrated Theory of Linguistic Descriptions, MIT Press) e de Grimshaw (1979), é representante desta tendência o linguista atrás citado, Ransom (1986). 151 O conceito de asserção estrita corresponde a um valor modal, proposto no quadro da Teoria Formal Enunciativa, que descreveremos adiante (ver § 3.3.2). 152 Por conseguinte, esta concepção de modalidade mais facilmente se filia no critério epistemológico que preside à definição kantiana da modalidade do que a qualquer um dos critérios, lógico ou ontológico, em que se baseia a lógica modal clássica e até a lógica moderna (ver § 3.1). De igual modo, enquanto categoria construída com base num
117 A concepção lata da modalidade, como categoria que caracteriza qualquer enunciado, está, desde logo, expressa em Bally ([1932] 41965: § 28), onde, apesar de não se propor qualquer classificação das modalidades, se afirma que a modalidade é “[...] la pièce maîtresse de la phrase, celle sans laquelle il n‟y a pas de phrase” e se analisa como modais um longo inventário de marcadores como a entoação, a mímica, os modos verbais, os advérbios ou os adjectivos (ver idem, ibidem: § 36-50). Segundo Culioli, os valores modais - que, com os valores temporais-aspectuais, confluem para a determinação de qualquer enunciado - resultam da localização da relação predicativa em relação ao sujeito enunciador ou a uma classe de sujeitos enunciadores. Benveniste, afirmando, embora e de forma precursora, que “C‟est dans et par le langage que l‟homme se constitue comme sujet” (1966: 259), reduz a expressão da modalidade aos verbos modais aller, vouloir, désirer, espérer e sobretudo devoir e pouvoir (ver 1974: 177-193). A modalidade é apresentada por este linguista como “une assertion complémentaire portant sur l‟énoncé d‟une relation” (ibidem: 187) ficando assim esta categoria inteiramente subordinada ao fenómeno da auxiliarização153. Daí que Benveniste refira devoir e pouvoir como “modalisants par excellence” (ibidem: 188), enquanto que os outros verbos por si apresentados são “modalisants par occasion” (idem, ibidem). Conforme atestam afirmações como a acima transcrita - “C‟est dans et par le langage que l‟homme se constitue comme sujet” (1966: 259) -, este linguista introduz, de forma – dizíamos – precursora, o sujeito como coordenada encadeamento de operações de localização cujo localizador último é a situação de enunciação origem (particularmente o seu parâmetro subjectivo) – como veremos adiante -, a modalidade apresenta ainda uma certa filiação no cartesianismo, doutrina filosófica que se baseia na concepção de sujeito enquanto sujeito pensante, suporte de uma actividade intelectual e sujeito de conhecimento. 153 Nos Problèmes de linguistique générale, as únicas referências explícitas à modalidade ocorrem no capítulo que Benveniste dedica aos auxiliares (“Structure des relations d‟auxiliarité”, 1974: 177-193).
118 fundamental na descrição da actividade linguística, o que, além de outras propostas por si avançadas, se revelará fundamental na definição teórico-metodológica da Teoria Formal Enunciativa154. Assim sintetizada, a exposição da concepção de sujeito (“sujet”) ocorre precisamente no capítulo intitulado “De la subjectivité dans le langage” (ibidem: 258-266), onde Benveniste define “subjectivité” (subjectividade) como o facto de, por via da apropriação da língua, um sujeito “s‟énoncer” (se construir) diante de outros sujeitos, seus interlocutores. Subjectividade será, assim, “[...] la capacité du locuteur à se poser comme „sujet‟ [...]. Cette „subjectivité‟ [...] n‟est que l‟émergence dans l‟être d‟une propriété fondamentale du langage. Est „ego‟ qui dit „ego‟. Nous trouvons là le fondement de la „subjectivité‟, qui se détermine par le statut linguistique de la „personne‟” (ibidem: 259-260)155. A concepção de sujeito proposta por Benveniste radica, genericamente, no conceito de enunciação, definido conforme propõe, enquanto acto de apropriação da língua por um sujeito, isto é, enquanto acto individual de um sujeito que produz um enunciado: “L‟énonciation est cette mise en fonctionnement de la langue par un acte individuel d‟utilisation” (ibidem: 80). Conceito decisivo para a concepção da modalidade em Culioli, a enunciação não é, por este linguista, concebível como um acto, mas antes como um processo que se insere numa necessidade teórica, não numa prática efectiva: “[...] énoncer c‟est construire un espace, orienter, déterminer, établir un réseau de valeurs 154 Apesar de poder ser considerado um continuador – mais propriamente, o teorizador – das propostas de Benveniste, a novidade que a formalização culioliana representa relativamente ao pensamento de Benveniste (ateste-se isso mesmo em Culioli (1983b)), não confirma esta possibilidade (entre outros, refiram-se Auroux (1992), de Vogüé (1992) e Correia (2002), textos em que se sistematizam quer os pontos de contacto, quer os pontos de ruptura entre as propostas de ambos os linguistas). 155 É no reconhecimento da relevância do estatuto linguístico da categoria pessoa que, neste mesmo capítulo, Benveniste propõe uma reflexão em torno do funcionamento das formas je crois, je presume, je suppose, entre outras, concluindo que a manifestação da subjectividade, conforme por si definida, “ne prend son relief qu‟à la première personne” (1966: 264). Adiante (ver § 5.1.1), retomaremos as observações a este propósito propostas por Benveniste.
119 référentielles, bref un système de repérage” (Culioli, 1973: 87). Por conseguinte, se, por um lado, Benveniste esboça os fundamentos de uma teoria do sujeito, por outro, Culioli propõe uma teoria da determinação156. De acordo com este enquadramento, Culioli define o enunciado como um agenciamento de marcadores de operações abstractas: “Tout énoncé est repéré par rapport à une situation d‟énonciation, qui est définie par rapport à un sujet énonciateur (S0) [...] et à un temps d‟énonciation (T0) [...]” (idem, 1977: 44)157. Conforme propõe Culioli, o conceito de sujeito (S) inscreve-se no sistema linguístico, como um parâmetro teórico, metalinguístico, sendo da localização da relação predicativa em relação a este primitivo teórico subjectivo que se estabelece uma classe de sujeitos, localizados entre si, e se constroem, como dizíamos acima, valores referenciais da categoria modalidade. O sujeito assim compreendido é um dos dois parâmetros que compõem a situação de enunciação (Sit), funcionando em bloco, de forma indissociável do outro parâmetro – o parâmetro espácio-temporal (T)158. A dissociação destes dois parâmetros não se deve senão à necessidade metodológica da descrição. 156 Conforme se sintetiza em de Vogüé (1992), pondo em contraste os dois movimentos epistemológicos inerentes às diferentes concepções de enunciação, “[...] d‟un coté [Benveniste] on thématise la façon dont un sujet s‟énonce; de l‟autre coté [Culioli] la façon dont un énoncé s‟énonce” (idem, ibidem: 80). 157 Na Teoria Formal Enunciativa, o conceito de enunciado, de estatuto eminentemente abstracto e teórico como aqui sublinhamos, define-se, simultaneamente enquanto objecto empírico, isto é, enquanto unidade de observação com uma delimitação material. Este duplo estatuto do conceito de enunciado permite articular o domínio das observações e o domínio teórico, isto é, o nível das representações linguísticas e o nível das representações metalinguísticas. 158 Analogamente ao que descrevemos relativamente ao “funcionamento” teórico da coordenada subjectiva da situação de enunciação, é também da localização da relação predicativa em relação a este primitivo teórico espacio-temporal que se estabelece uma classe de tempos, localizados entre si, e se constroem valores referenciais temporais-aspectuais. A opção que fazemos de privilegiar a localização da relação predicativa em relação ao parâmetro S da situação de enunciação permite-nos focalizar os valores de determinação referencial de natureza modal, que, conforme procuramos provar, têm especial relevo na descrição do funcionamento das formas em análise. É, pois, apenas por conveniência metodológica que o fazemos.
120 O próprio Culioli, num artigo sobre Benveniste (Culioli, 1983b), depois de reconhecer a convergência entre ambos por, em comum, terem como preocupação central a análise da linguagem159, sublinha o carácter pouco preciso das considerações de Benveniste a propósito do conceito de sujeito assim como o seu alcance teórico. A este propósito, constata Culioli: “[...] on rencontre une prolifération de désignations, et un concept manquant. Pour les désignations, que l‟on considère je, „sujet‟ (avec ou sans guillemets), locuteur, EGO (majuscule ou minuscule; avec ou sans guillemets)” (idem, ibidem: 83). Esta multiplicação de termos que parecem ser empregues aleatoriamente, assim como algumas afirmações de Benveniste, reflectem o que seria já - verifica Culioli - a consciência do “problème que pose la relation entre des instances discontinues [...] et la construction d‟un centre qui transcende les instances discrètes, assurant ainsi l‟ajustement transindividuel (locuteur-auditeur) et l‟inter-subjectivité” (idem, ibidem)160. 159 “Je soulignerai le rôle de Benveniste dans la transformation de la linguistique qui, de classificatoire, va devenir théorie des procès et des actes (pour reprendre les termes même de notre auteur) à l‟oeuvre dans l‟activité de langage” (Culioli, 1983b: 78). 160 Confirmando o comentário de Culioli, considerem-se as seguintes citações de Benveniste: “[...] l‟instance de discours est ainsi constitutive de toutes les coordonnées qui définissent le sujet” (Benveniste, 1966: 263, apud Culioli, 1983b: 83); ”Le système des coordonnées spatiales se prête ainsi à localiser tout objet en n‟importe quel champ, une fois que celui qui l‟ordonne s‟est lui-même désigné comme centre et repère” (1974: 69, apud idem, ibidem): “La „subjectivité‟ dont nous traitons ici est la capacité du locuteur à se poser comme „sujet‟. Elle se définit, non par le sentiment que chacun éprouve d‟être lui-même [...], mais comme l‟unité psychique qui transcende la totalité des expériences vécues qu‟elle assemble, et qui assure la permanence de la conscience. Or nous tenons que cette „subjectivité‟, qu‟on la pose en phénoménologie ou en psychologie, comme on voudra, n‟est que l‟émergence dans l‟être d‟une propriété fondamentale du langage. Est „ego‟ qui dit „ego‟” (1966: 259-260, apud idem, ibidem).
121 Propondo para o termo je a notação S2 e para designar o locutor a notação S1161, Culioli propõe-se desfazer a ambiguidade teórica que reconhece em Benveniste e, pela sistematização de algumas ideias propostas por este linguista, define a existência teórica de um centro, de um localizador-origem que assegura a estabilidade do sistema de localização – o conceito de sujeito enunciador (S0) - “ma seule incursion personnelle” (idem, ibidem), afirma -, apto a ultrapassar “[...] ce discours brouillé et [...] ces glissements incontrôllés, [e] le recours à la notion d‟‟être‟ [...]” (idem, ibidem). 3.3.1 Construção da categoria gramatical da modalidade Como já referido (ver § 3.3), espaço-tempo (T) e sujeito (S) são parâmetros enunciativos de natureza teórica, decorrem de uma necessidade teórica, pelo que não correspondem a dados fenomenológicos, isto é, a um tempo ou a um sujeito historicamente determinados, participantes do universo extralinguístico162. Estes primitivos teóricos constituem, em bloco, a situação de enunciação (Sit), parâmetro também de natureza teórica163. 161 Conforme referimos já, a atribuição de índices na notação proposta por Culioli permite distinguir os estatutos, neste caso, do parâmetro S, mas também do parâmetro T e, naturalmente, da classe de Sit assim parametrizadas. 162 De natureza híbrida, os parâmetros da enunciação constituem uma articulação entre o linguístico e o extralinguístico o que, por vezes, à semelhança do que se passa a respeito da noção, justifica a utilização de “majuscules bouclées” (ver § 3.3). Conforme se comenta em Bouscaren; Chuquet (1987) a propósito do conceito de sujeito enunciador: “ Le sujet énonciateur [...] se situe à la croisée du linguistique et de l‟extralinguistique” (idem, ibidem: 180), por ser o reflexo construído (pelo próprio enunciador) deste dado extralinguístico. 163 Como os conceitos de sujeito e tempo-espaço da enunciação, seus parâmetros constitutivos, o conceito de situação de enunciação – notada Sit (S,T) ou, simplificando, apenas Sit – não é, na TFE, um elemento do “mundo real”, uma situação de enunciação empírica (não se confunde com o conceito de contexto, conforme definido em diversos estudos enunciativos e pragmáticos). Corresponde a um primitivo teórico, a uma abstracção operatória, a um conceito metalinguístico.
128 “Valider, c‟est [...] mesurer et choisir une valeur parmi les valeurs possibles. Ce faisant, on induit une orientation liée à la typologie de l‟espace de validation: vers l‟Intérieur, „ce qui est le cas‟, par rapport à l‟Extérieur (ici, le complémentaire linguistique, c‟est-à-dire tout le reste, que ce soit le vide, l‟absence, l‟artérité), sans tenir compte [...] la Frontière. Bref, on a ordonné le chemin qui va de la lexis à l‟Intérieur, puis à l‟Extérieur” (idem, ibidem: 280-281). Culioli propõe uma definição de asserção, na Encyclopédie Alpha, num artigo dedicado a este conceito: “Au sens strict, assertion s‟emploiera chaque fois que l‟énonciation porte sur une certitude, c‟est-à-dire chaque fois que l‟on est en mesure de déclarer vraie une proposition, que celle-ci soit de forme affirmative ou négative, à l‟exclusion des autres modalités.” (idem, 1971b). Conforme descreve Bouscaren; Chuquet (1987) – tal como Culioli, numa tentativa de tradução do critério lógico-filosófico dos valores de verdade -, ao nível deste tipo de modalidade, “[...] l‟énonciateur définit son contenu propositionnel (représenté par la relation prédicative) comme validé, c‟est-à-dire soit vrai, soit faux” (idem, ibidem). Em Culioli (1975-1976), é proposta uma definição de asserção em que se demarca claramente do critério lógico segundo o qual estará em causa a construção de valores de verdade, referindo a validação como operação subjacente à construção dos valores assertivos positivo e negativo: “Ce qu‟on appelle assertion qui est la prise en charge, implique nécessairement qu‟on croit que „est‟, „sera‟, „a été‟, etc est validable (terme préférable à “vrai”) dans l‟énoncé [...]. Au lieu de parler de „valeurs de vérité‟ [...] on parle de validation et ce qui est important c‟est de voir si є est positif, négatif ou tel qu‟on ne puísse pas trancher et qu‟il faille recourir à autrui” (idem, ibidem: 243-244174). Insere-se neste tipo de modalidade a interrogação (ver Bouscaren; Chuquet, ibidem; Vignaux, ibidem). A interrogação caracteriza-se, genericamente, pela construção de uma operação de percurso e por um valor intersubjectivo (ver, entre 174 Culioli, A. 1975-1976 Transcription du Séminaire de DEA: “Recherche en linguistique; Théorie des opérations énonciatives”, Paris, Université ParisVII, apud Fuchs, 1984: 50.
129 outros, Culioli, 1987 e Afonso, 2000). O enunciador constrói um enunciado com valor modal de interrogação se, crendo que a relação predicativa pode ser validada mas não estando em condições ou não a querendo validar - isto é, situando-se ou simulando posicionar-se num grau zero do conhecimento - recorre ao seu co-enunciador para que seja ele, co-enunciador, a construir essa validação (ou não-validação). Em Deschamps (1998: 132 e também 1999: 271), onde se desenvolve uma descrição das quatro modalidades culiolianas em termos da construção dos dois valores ponderáveis na construção de um domínio, permitindo um cálculo dos valores modais construídos175, caracteriza-se a modalidade assertiva pela construção de apenas um valor: num instante preciso (Ti) em relação ao instante origem (T0), o sujeito enunciador situa a relação predicativa em I (interior do domínio nocional) ou em E (exterior do domínio nocional)176, em alternativa. A asserção (estrita) pode ser, assim, positiva – situa-se <r> no I do domínio - ou negativa – situa-se <r> no E do domínio -, mas correspondendo sempre ao domínio modal do certo. Por corresponder à construção de apenas um valor, associa-se à asserção a eliminação da alteridade. De acordo com este critério, a negação será descrita como um valor modal de tipo 1, uma asserção estrita negativa: a não-validação da relação predicativa corresponde à escolha do exterior (E) do domínio. De igual modo, pela interrogação, apenas um valor é visado: no caso da interrogativa total, o sujeito enunciador constrói antecipadamente o espaço enunciativo do seu co-enunciador (tornado assim segundo enunciador) e a classe 175 Apresentando o seu programa de abordagem das quatro modalidades culiolianas, diz Deschamps: “Il va [...] s‟agir à partir du système de représentation fourni par la théorie des opérations énonciatives de mettre en place une certaine forme de calculabilité” (1998: 132). 176 Ao incidirem sobre as noções, as diferentes operações de localização abstracta constroem um domínio nocional (isto é, a classe de ocorrências que as torna quantificáveis) cuja estruturação se descreve topologicamente. É desta forma que o domínio nocional permite distinguir, topologicamente, o que lhe é interno (o que lhe pertence) (I), o que lhe é externo (o que não lhe pertence) (E) e o que está na fronteira desse domínio (F).
130 fechada dos valores possíveis, de validação (I) ou não-validação (E) da relação predicativa177; no caso da interrogativa parcial, o sujeito enunciador constrói antecipadamente, não só o espaço enunciativo do seu co-enunciador, como a classe aberta de ocorrências abstractas que podem ocupar o lugar por preencher na relação predicativa e, portanto, saturar a relação predicativa, operação de que resultará a sua validação (I) ou não-validação (E). A modalidade identificada por Culioli como sendo de tipo (2) (“certain, probable, nécessaire, etc.” (idem, 1968: 112)) é comummente designada “modalité épistémique” (modalidade epistémica) (entre outros, Bouscaren; Chuquet, ibidem e Deschamps, ibidem) ou “modalité de l‟événement” (modalidade do acontecimento linguístico) (Groussier; Riviére, ibidem e Deschamps, ibidem). Os valores modais deste tipo correspondem à expressão, por parte da fonte enunciativa, de uma falta de certeza, em diversos graus, quanto à validação da relação predicativa178. O sujeito não constrói, nem antecipa (ou pré-constrói) a validação ou a não-validação da relação predicativa; avalia, isso sim, as hipóteses de validação, isto é, a validabilidade da relação predicativa. Assim concebida, a modalidade epistémica corresponde ao domínio modal do não-certo, valor que pode, eventualmente, assumir diferentes graus, indo do incerto ao quase certo ou provável. Por conseguinte, estando em causa a avaliação da validabilidade da relação predicativa, não se constrói um valor definitivo: como se afirma a este propósito em Gilbert (1987), “[...] la mise en avant d‟une valeur n‟implique nullement 177 No caso da interrogativa total - directa, indirecta e interrogativa “tag” – são, efectivamente, dois os valores que o co-enunciador pode atribuir à relação predicativa: sim ou não, a classe fechada dos valores que permitem a sua validação ou não-validação (ver Campos; Xavier, 1991 e Afonso, 2000). 178 O emprego do termo “epistémico” para designar um valor modal a que corresponde uma expressão de incerteza do sujeito enunciador quanto à validação (ou não-validação) da relação predicativa, não tem, neste quadro teórico, paralelismo com o sentido que lhe é atribuído no âmbito da lógica modal (ver § 3.1.1). Nesta disciplina filosófica, modalidades epistémicas correspondem, genericamente, às modalidades do saber. Querendo aproximar o uso que é feito deste termo, designador da modalidade culiliana de tipo 2, do seu uso em lógica, poder-se-á falar de “não-saber”.
131 l‟exclusion de l‟autre, c‟est-à-dire de sa valeur complémentaire stricte” (idem, ibidem: 13). Participando a construção da categoria da modalidade das operações de determinação quantificação (Qnt) e qualificação (Qlt), a avaliação da validabilidade da relação predicativa corresponde a uma operação de determinação preponderantemente quantitativa – Qnt (Qlt) -, operação que se prende com a construção de ocorrências situacionais: “L‟accent est mis sur une occurrence située pour laquelle on ne peut asserter aucune des deux valeurs” (Deschamps, 1998: 137). Em termos da construção dos dois valores ponderáveis na construção de um domínio (ver Deschamps, 1998: 132), inversamente ao que sucede na modalidade de tipo (1), nesta modalidade, o enunciador não situa a relação predicativa em I (interior) nem em E (exterior), uma vez que não constrói qualquer uma das operações de validação ou de não-validação da relação predicativa. Na impossibilidade de escolher apenas um valor, o enunciador não exclui qualquer um dos valores (I ou E) de forma definitiva. Ao oscilar entre os valores quase certo ou provável (tendendo para a validação), improvável (tendendo para a não-validação), contingente (equidistante da validação e da não-validação e perspectivando ambas as operações como possíveis), o enunciador situa a relação predicativa em IE, numa posição fora (“décrochée”) do domínio nocional179. É assim que desta operação não resulta uma expressão neutra, mas sim uma expressão de dúvida, um pôr em questão, num certo sentido – como se propõe em (Franckel, 1981) - uma “désassertion du certain”180. 179 Na construção do valor modal não-certo, estando embora em causa uma relação predicativa saturada, onde todos os lugares se encontram instanciados, – afirma-se em Gilbert (1987) – contrariamente ao que se passa com a asserção (modalidade de tipo 1), “[...] la relation conserve des caractéristiques de construit notionnel puisque, étant dans le non-certain, aucune des deux valeurs complémentaires du domaine notionnel defini à partir de celle-ci ne peut être évacuée” (idem, ibidem: 17). Citando Gauthier, este autor atribui, assim, ao valor epistémico não-certo, um carácter inerte, estável, quase-estativo: estar-se-á perante “un sujet (C0) inerte, même lorsqu‟il renvoie à un animé” (Gauthier : 331, apud Gilbert (ibidem). 180 É com reticências (apenas “num certo sentido” - dizíamos) que aqui se subscreve esta definição de modalidade epistémica, proposta em Franckel (1981) como “désassertion du certain”, uma vez que esta parece pressupor a asserção como uma espécie de
132 A avaliação da validabilidade, descrita como a oscilação entre vários valores situados em IE, prende-se com a construção de um gradiente. Temos, portanto, um domínio constituído pelos valores (p, p‟)181, com um centro atractor, construído pelo enunciador como sendo, segundo ele, “[...] la vraie valeur par rapport à laquelle l‟evaluation se situe” (Bouscaren; Chuquet, 1987: 167). O domínio constituído pelos valores (p, p‟) apresenta ainda – como vimos atrás - uma fronteira (“o não verdadeiramente p”) (F) e um exterior (“o verdadeiramente não p”) (E). No caso da modalidade identificada por Culioli como sendo de tipo (3) (“appréciative [...]” (idem, 1968: 112)) - concensualmente designada “modalité appréciative” (Bouscaren; Chuquet, 1987; Deschamps, 1998 e Campos, 2001) (modalidade apreciativa) – constrói-se “[...] um juízo de valor, [...] uma apreciação sobre uma relação predicativa já constituída e validada (ou validável)” (Campos; Xavier, ibidem: 341). Afirma-se em Bouscaren; Chuquet (ibidem) que, com a construção de valores modais de tipo apreciativo, não está em causa a validação da relação predicativa182. Uma asserção apreciativa, positiva ou negativa (isto é, de aprovação ou de reprovação), pode, efectivamente, corresponder apenas à construção, por parte do enunciador, de uma apreciação sobre o carácter bom, mau, favorável, desfavorável, modalidade primeira, como ponto de passagem obrigatório para a modalidade do domínio do não-certo. A modalidade epistémica do domínio do não-certo não se define enquanto “afectando” uma asserção, recaindo, conforme a terminologia adoptada, sobre um dictum ou sobre uma proposição (ver § 3.1). Em coerência com o modelo explicativo da actividade linguística proposto no quadro da Teoria Formal Enunciativa, parece-nos inadequada uma definição da modalidade com base num princípio de hierarquização dos valores modais, concebidos uns como secundários, ou subsidiários, em relação a outro(s), tido(s) como primário(s). Em Gilbert (1987), faz-se referência, aliás, aos problemas teóricos que advêm de tal hierarquização, ao conceber-se, por exemplo, a negação de uma afirmação ou a passiva como uma simples conversão de uma activa, etc (ver idem, ibidem: 15). 181 Partindo de uma representação da noção como /P/, o domínio nocional é (p, p‟): p representa o que é /P/; p‟ representa o que não é /P/ ou é /não-P/. 182 Como se comenta em Bouscaren; Chuquet (1987), “On est hors de la problématique du vrai et du faux” (ibidem: 37).
133 etc. do conteúdo proposicional de uma relação predicativa construída como validada (ou como não validada) noutra situação de enunciação (Sit) que não na situação de enunciação em curso (Sit0). Por exemplo, nos enunciados que se seguem, as asserções modalizadas apreciativamente correspondem a pré-construídos183: 3.22 Foi bom que o Gil tenha plantado / plantasse uma árvore (Campos; Xavier, ibidem: 341) 3.23 Acho mal que a Luisa não estude de manhã A construção e a validação da relação predicativa <o Gil, plantar, árvore> e a não-validação da relação predicativa <Luisa, estudar, de manhã> dão-se numa Sit distinta de Sit0, facto de que é marcador o modo conjuntivo do predicado da subordinada, num e noutro enunciados (tenha plantado / plantasse, estude) (ver § 9.1.1). Além disso, em virtude de a validação / não-validação das relações predicativas em causa se darem noutra Sit e de constituírem pré-construídos, com a construção de uma modalidade de tipo apreciativo está em causa uma operação de determinação preponderantemente qualitativa – (Qnt) Qlt -, operação que releva das relações intersubjectivas e da posição do enunciador: “Il s‟agit de valuations d‟une propriété donc de prise en compte du lien à un sujet énonciateur” (Deschamps, 1998: 137). Estes dois enunciados (3.22 e 3.23) correspondem, segundo proposta de Kiparski; Kiparski (1970) (ver § 3.1.2), a construções factivas, que, susceptíveis de ser descritas em termos de pré-construído, constituem, como vimos, um exemplo de modalidade apreciativa184 (ver Campos, 2001: 171). Consideremos ainda os enunciados 3.24 e 3.25 (no § 3.1.2, identificados como 3.1 e 3.2): 183 O conceito de pré-construído é bastante importante (operatório) na descrição metalinguística destes enunciados com valor modal apreciativo: correspondendo a uma “[...] estrutura verbalizada ou não, [é] assumida como validada pelos participantes da enunciação numa situação de enunciação Sit1, disjunta de Sit0“ (Campos, 2001: 171). 184 O conceito de pré-construído permite explicar os enunciados classificados, por Kiparski; Kiparski (1970), como factivos (ver § 3.1.2) e que estes autores descrevem com
134 3.24 É surpreendente que ele venha 3.25 Lamento que não tenhas gostado da viagem Nestes exemplos, são marcadores do valor modal apreciativo, por um lado, a relação de subordinação (ver § 4.3), comum aos dois casos, em que os predicados factivos da relação imbricante (ser surpreendente e lamentar) são também apreciativos, por outro, “o estatuto metalinguístico de pré-construído, isto é, de uma asserção construída como validada numa situação de enunciação distinta de Sit0” (idem, ibidem) de cada uma das relações imbricadas (ele vem e não gostaste da viagem), sobre a qual incide a operação modal apreciativa. Contrariando a afirmação de que, com a construção de valores modais de tipo apreciativo, não está em causa a validação da relação predicativa (Bouscaren; Chuquet, ibidem), também é possível que, conforme se observa em Campos e Xavier (1991: 341), a modalização apreciativa incida sobre uma relação predicativa que é construída e validada (ou não validada) na mesma situação de enunciação (Sit0). São exemplo desta situação os seguintes enunciados: 3.26 Felizmente, o Gil plantou / está a plantar / vai plantar uma árvore (Campos; Xavier, ibidem) 3.27 Desgraçadamente, a Ana não foi / vai ao cinema Se, por um lado, a construção exclusiva da modalidade apreciativa (sem que se dê na mesma Sit a construção e validação / não-validação da relação predicativa) é marcada, ora por uma estrutura de tipo impessoal (foi bom que, é surpreendente que), ora por uma estrutura pessoal (acho mal que, lamento que) recurso ao conceito de pressuposição e em termos de verdade da preposição, assumida por parte do sujeito. Aliás, entre os verbos assinalados como factivos, incluem-se vários (sobretudo predicados adjectivais) que diríamos, de acordo com a definição culioliana de modalidade, marcadores de modalidade apreciativa (por exemplo: “significant, odd, tragic, exciting, relevant, counts, makes sense, suffices, amuses, bothers [...]” (idem, ibidem: 143)).
135 mas sempre com um complemento frásico no modo conjuntivo, por outro lado, a modalização apreciativa associada à construção, em Sit0, da relação predicativa e da sua asserção (positiva ou negativa) é marcada pelo modo indicativo (no pretérito, no presente ou no futuro) que se combina com o predicado verbal (ver idem, ibidem). Conforme se observa em Campos (2001 e no prelo b), também “certas exclamativas podem [...] ser marcadoras de modalidade apreciativa” (idem, 2001: 171), particularmente, quando se constrói um valor de alto grau, marcado pela especificidade da ordem das palavras e da curva melódica (ver § 9.1). Da mesma forma, conforme proposto em Campos (no prelo b), o adjectivo, quando anteposto relativamente ao nome é uma possível marca lexical de um valor modal apreciativo - caso em que o mesmo valor não deixa de ser marcado também, quer prosodicamente, quer pela ordem das palavras. A modalidade identificada por Culioli como sendo de tipo (4) (“pragmatique, en particulaire mode allocutoire, causative, bref, ce qui implique une relation entresujets” (idem, 1968: 112)) - também designada “modalité du sujet de l‟énoncé” (modalidade do sujeito do enunciado) (Deschamps, 1998) ou “modalidade intersujeitos” (Campos, 2001) - é próxima da modalidade radical e marca uma relação intersujeitos, mais especificamente, interagentes185, isto é, entre enunciador e co-enunciador (identificado ou não com S2), enquanto desencadeadores de processos. No domínio da modalidade intersujeitos (designação por que optamos), não está em causa a validação ou a não-validação da relação predicativa. Explicitam-se, isso sim, relações de vontade, de permissão, de obrigação, de restrição, que emanam de uma fonte deôntica, explícita ou implícita (enunciador-locutor, que notaremos com o índice 1 – S1)186, e que recaem sobre o 185 A interagentividade está relacionada com a natureza necessariamente dinâmica da situação representada pela relação predicativa. 186 Na análise dos valores de modalidade intersujeitos, como de modalidade apreciativa, de modalidade assertiva, ou, de forma mais evidente, de modalidade epistémica (conforme tipologia culioliana), é fundamental ter em conta, não apenas a situação de
136 co-enunciador, directa ou indirectamente, pressionando-o ou coagindo-o a realizar a situação (necessariamente dinâmica) descrita pela relação predicativa. Por outras palavras, o enunciador-locutor age sobre o co-enunciador (sujeito do enunciado ou não) a fim de que este realize agentivamente o conteúdo da relação predicativa modalizada. Por conseguinte, com a construção de uma modalidade de tipo intersujeitos, está em causa uma operação de determinação em que há equiponderação de Qnt e Qlt. Está-se no domínio do validável, havendo, conforme se afirma em Deschamps (1998), “[...] un va et vient entre propriétés et occurrences” (idem, ibidem: 137). São marcadores privilegiados deste valor modal o modo imperativo, seus substitutos (formas de cortesia, etc) e os modais deônticos (dever e poder), enquanto expressão do sub-tipo específico da modalidade intersujeitos que é a modalidade deôntica. Considerem-se os seguintes exemplos de enunciados com valor deôntico: 3.28 Deves praticar judo 3.29 Podes praticar judo Nestes enunciados, o sujeito enunciador-locutor constitui o sujeito do enunciado (S2 e co-enunciador) como alvo deôntico de um valor modal deôntico de permissão no segundo caso, de obrigação no primeiro, cuja origem é ele mesmo (o sujeito enunciador-locutor). Não está aqui em causa a validação, por uma modalização com valor de asserção estrita, da relação entre o sujeito do enunciado (o co-enunciador) e a relação predicativa não saturada (<( ) praticar judo>). Está em causa, no enunciado 3.28, a validação, por parte do enunciador-locutor, da necessidade da enunciação origem (Sit0), mas a classe de situações de enunciação construídas a partir desta, e que inclui a situação de locução (Sit1) (ver § 3.3.1), assim como – retomaremos adiante - outras origens derivadas (“des origines dérivées de l‟origine absolue soit par translation [...] soit par rupture [...]” (Culioli, 1993: 167)).
137 relação de instanciação, por S2, do lugar argumental vazio da relação predicativa. O verbo dever marca, assim, esse “carácter necessário [como] consequência do juízo avaliativo que caracteriza o valor deôntico” (Campos, 1998a: 160)187. Numa das interpretações possíveis do enunciado 3.29, está em causa um valor de permissão188 a que está subjacente, em virtude da operação de percurso de que poder é marcador, a construção, na sua totalidade, do domínio das ocorrências abstractas da relação predicativa modalizada. O valor de permissão é descrito por Campos (ibidem: 280) enquanto valor “[...] representável por uma bifurcação cujo vértice se situa em Sit1, dirigindo-se os ramos, respectivamente, para o interior e para o exterior do domínio nocional” (idem, ibidem). O enunciador-locutor, origem da permissão, constitui o co-enunciador como alvo deôntico, concedendo-lhe “[...] a possibilidade de escolher o ramo que se dirige para o interior, onde se situam as ocorrências que validam <p>, ou o ramo que se dirige para E, onde se situam as ocorrências que validam <não-p>” (idem, ibidem)189. 187 Este enunciado pode igualmente ser interpretado com valor modal epistémico, em que dever, enquanto marcador desse valor epistémico, é expressão de um processo cognitivo, ou inferencial do tipo “atendendo à tua boa forma física, deves praticar judo”, parafraseável por “atendendo à tua boa forma física, acho / penso / julgo que praticas judo”. Sobre restrições ao nível das ocorrências dos valores epistémico e deôntico marcados por dever, ver Campos (1998a e 1998b). 188 O valor de permissão é, segundo Campos (1998a: 260), um dos valores não epistémicos (além dos valores de capacidade e de possibilidade) de que poder pode ser marcador. Segundo a mesma autora, este valor modal partilha de muitas das características do valor de obrigação marcado por dever, nomeadamente, “[...] a coexistência de duas interpretações, uma performativa – o acto de permissão -, e outra constativa – a asserção dessa permissão” (idem, ibidem: 280). Sobre restrições ao nível das ocorrências dos valores epistémico, não epistémico e outros valores complexos marcados por poder, ver Campos (1998a e 1998b). 189 O que aqui se propõe como descrição metalinguística do valor de permissão está na base – ainda segundo Campos (1998a : 280) – da substituição frequente de dever por poder em enunciados que exprimem obrigação: “Ao dizer „Podes sair agora‟ e não „Deves sair agora‟, o enunciador-locutor está a construir, ainda que ilusoriamente, a possibilidade de o seu co-enunciador fazer uma escolha. Está, portanto, a diminuir a tensão modal intersujeitos que resulta da imposição de um caminho. Compete ao co-enunciador, de acordo com um contexto situacional em que não lhe é permitida a escolha entre sair e não
144 mesmo impossível representação na tipologia de modalidades proposta por Culioli (1968). Mas este valor permite-se, mediante a proposta de Campos, a uma representação na escala de valores assertivos – conforme referimos já - como valor situado no pólo negativo da escala, o que ilustra a maior abrangência desta proposta de classificação. Nos enunciados que se seguem, S0 constrói, igualmente, uma nova origem enunciativa, como responsável pelo valor modal de que se reveste a relação predicativa <a Joana, estar, em casa>: 3.33 A Joana pode estar em casa 3.34 A Joana deve estar em casa 3.35 A Joana talvez esteja em casa Nestes casos, em que o enunciador constrói, como em 3.32, a recusa em assumir a validação (ou não-validação) da relação predicativa, a nova origem enunciativa (S1) não é referencialmente distinta de S0. Está-se sim, conforme se propõe em Campos (2001: 170), perante uma “disjunção abstracta”, de que são marcadores os modais poder e dever e o advérbio talvez, diferindo, entre si, os mecanismos que subjazem à distanciação que o enunciador constrói em relação à validação da relação predicativa. Por conseguinte, contrariamente ao que se dá em 3.32, desta recusa em assumir a validação da relação predicativa resulta um valor modal epistémico do domínio do não-certo, com graus diferentes de acordo com os diferentes marcadores de modalidade. O enunciado 3.33, pode, em virtude da ocorrência do modal poder, ser parafraseável, ora por “A Joana pode estar em casa ou não. Não sei.”, isto é, “Pode ser que a Joana esteja em casa, mas também pode ser que esteja na escola” (valor equidistante dos pólos positivo e negativo), ora por “É provável que a Joana esteja em casa” (valor mais próximo do pólo positivo da escala). Na base de cada uma destas duas interpretações de poder estão valores epistémicos diferentes. No primeiro caso, em face da ausência de qualquer tipo de conhecimento, directo ou indirecto, por parte do enunciador que lhe permita validar
145 a relação predicativa, ou por via de um processo de inferência que permite as diversas hipóteses possíveis, constrói-se um valor de plausibilidade, uma equiponderação: sem excluir a validação ou a não-validação, as duas ocorrências validáveis (a Joana estar em casa e a Joana não estar em casa) são complementares. No segundo caso, o valor epistémico marcado por poder aproxima-se do valor de dever epistémico: constrói-se, por via de um raciocínio por inferência, um certo grau de plausibilidade, mais próximo do pólo positivo da escala de valores assertivos (ver Campos, 2001b: 170 e 2001a: 334). Dever, no enunciado 3.34, como poder, na segunda interpretação proposta do enunciado 3.32, têm um valor modal de suputação - designação adoptada por Campos (1998a), na sequência de Culioli. Na construção deste valor modal epistémico estão implicados, como vimos, processos de inferência baseados na interpretação de indícios fornecidos por conhecimento indirecto do acontecimento que está a ser construído linguisticamente, daí que o valor modal construído esteja – como dizíamos - mais próximo do pólo positivo da escala de valores assertivos197. Reconhece-se o valor modal epistémico de suputação quando T1 é anterior a T0 ou, como é o caso do enunciado 3.34, quando T1 é simultâneo de T0. Quando T1 é posterior a T0, está-se perante um valor modal epistémico que em Campos se propõe de predição (ver Campos, ibidem: 137-157). Construídos a partir de um conhecimento indirecto do acontecimento linguístico e independentemente do valor de determinação temporal construído, os valores epistémicos do domínio do não-certo onde se constrói uma assunção parcial da validação / não-validação da relação predicativa, equivalem – 197 Subjacente ao valor inferencial construído estão “operações cognitivas [...], com base em indícios, [levando] à construção de um percurso de caminhos plausíveis concorrentes e não à escolha de uma única hipótese [...]” (Campos, 2001a: 334). Porque o juízo construído é “mediado” por uma interpretação, necessária ou subjectiva, de indícios, encontramos neste valor de dever e de poder o fenómeno da enunciação mediatizada (ver Dendale, 1994 e Tasmovski; Dendale, 1994). Aliás, conforme se propõe em Campos (2001a), dever e poder integram-se no conjunto de formas que permitem, em português, a expressão desta categoria, designada por Guentchéva (1994, 1995 e 1996) (na sequência de Lazard (1956)) por “mediativo”, mais especificamente ao valor decorrente da construção de factos inferidos (ver § 6).
146 recuperando uma expressão de Benveniste (“assertion mitiguée”) e o sentido que este lhe atribui (1966: 264) – a uma asserção mitigada198. A modalidade epistémica - compreendendo, conforme se propõe em Campos, três valores possíveis, que correspondem a diferentes graus de validação da relação predicativa (assunção total, assunção nula e assunção parcial) - define-se como um processo operatório, podendo, portanto, corresponder a cada valor construído um tipo de relação específico entre os dois parâmetros, quantitativo (Qnt) e qualitativo (Qlt), que subjazem à construção da determinação enunciativa199. Genericamente, aliás, a construção da categoria gramatical da modalidade participa das operações de determinação quantificação (Qnt) e qualificação (Qlt), sendo graças a estes parâmetros metalinguísticos que se pode dar conta desta categoria como processo inerente à produção / reconhecimento de formas linguísticas, e da sua dimensão operatória. Caracterizando-se pela construção de apenas um valor, a asserção estrita - assunção total da validação (valor I) / não-validação (valor E) da relação predicativa - supõe uma estabilização total da relação Qnt / Qlt. Mais precisamente, a asserção define-se por uma identificação das duas dimensões: a ocorrência quantitativa define-se, simultaneamente, como sendo, qualitativamente, uma verdadeira ocorrência da noção em causa. Por conseguinte, a validação como a não-validação 198 Como veremos adiante (ver § 5), às formas linguísticas marcadoras da construção de um valor epistémico do domínio do não-certo, incluindo a maioria dos verbos que nos ocupam, é reconhecida a função argumentativa de enfraquecer, ou suavizar, a força da asserção. Será com base nesta característica que Benveniste atribui a estes casos a construção de uma “assertion mitiguée”: “En disant je crois (que...), je convertis en une énonciation subjective le fait asserté impersonnellement [...], qui est la véritable proposition” (1966: 264). Segundo este autor, confere-se, assim, à asserção um contexto subjectivo que caracteriza a atitude do locutor em face do enunciado que enuncia. 199 O recurso aos parâmetros Qnt e Qlt para uma descrição metalinguística da modalidade não é um exclusivo da modalidade epistémica. Conforme já referido e ilustrado, as dimensões quantitativa e qualitativa prestam-se a ser aplicados a todo o domínio modal, e, portanto aos restantes domínios da modalidade, apreciativa e intersujeitos.
147 da relação predicativa correspondem a uma operação de determinação equiponderante – Qnt Qlt. Os enunciados 3.30 e 3.31, a que atrás recorremos para ilustrar o caso em que o sujeito enunciador-locutor assume, respectivamente, a validação e a não-validação da relação predicativa 3.30 A Joana está em casa 3.31 A Joana não está em casa descrevem-se pela delimitação quantitativa de uma ocorrência que tem, qualitativamente, todas as propriedades da noção complexa subjacente à relação predicativa <a Joana, estar, em casa>. Conforme nos afastamos do pólo positivo da escala de valores assertivos, isto é, da assunção total da validação / não-validação da relação predicativa e, portanto, do domínio do certo, começa a instaurar-se uma distância entre Qnt e Qlt200. Dir-se-á que, em virtude de não se construir um valor definitivo (I ou E), a relação estabelecida entre estes dois parâmetros tende a desestabilizar-se, num grau proporcional ao grau de aproximação ao domínio do não-certo. Deste modo, a avaliação da validabilidade da relação predicativa corresponde – como já atrás referido - a uma operação de determinação preponderantemente quantitativa – Qnt (Qlt) -, operação que se prende com a construção de ocorrências situacionais. A fonte enunciativa expressa uma falta de certeza, em diversos graus, quanto à validação da relação predicativa, limita-se a avaliar as hipóteses de validação, isto é, a validabilidade da relação predicativa. Situando-se sempre no domínio do não-certo, com um maior ou menor grau de certeza (ou seja, indo do incerto ao quase certo ou provável), por um lado, pela avaliação da validabilidade 200 Também o valor modal deôntico (sub-tipo da modalidade intersujeitos) se caracteriza essencialmente por uma dissociação entre Qnt e Qlt, na medida em que estão em causa dois sujeitos diferentes, uma fonte deôntica e um alvo deôntico. Ao valor deôntico marcado pelo modal dever, por exemplo, corresponde uma representação Qlt (Qnt): constrói-se uma selecção qualitativa da ocorrência e, portanto, eliminam-se todas as alternativas (ver Gilbert, 2001a: 63).
148 da relação predicativa, a fonte enunciativa avalia a existência espacio-temporal desta ou, por outras palavras, a sua dimensão quantitativa. Por outro lado e para se pronunciar sobre a probabilidade de ocorrência da relação predicativa em causa – portanto, de um ponto de vista de ordem Qnt (uma vez que se prende com a existência da relação) -, a mesma fonte enunciativa tem que dispor de um localizador (ou ponto de localização) que lhe permita avaliar a validabilidade dessa relação predicativa. Por corresponderem a uma forma de juízo subjectivo, que envolve representações mentais (isto é, que envolve o conhecimento do sujeito enunciador), os valores modais epistémicos do domínio do não-certo constroem-se tendo como localizador (ou ponto de localização) o valor de referência em relação ao qual a fonte enunciativa avalia a validabilidade da relação predicativa. Tal valor de referência corresponde à representação nocional - definida intensionalmente, isto é qualitativamente - que a fonte enunciativa tem da relação predicativa em causa. Assim se explica, com recurso a conceitos metalinguísticos, a afirmação de que é o grau de conhecimento do sujeito enunciador relativamente ao conteúdo da relação predicativa o que está na origem da construção de qualquer valor modal epistémico, e, em particular, do valor modal epistémico do domínio do não-certo. Retomemos os enunciados atrás propostos para ilustrar os valores de assunção parcial da validação ou não-validação da relação predicativa (mais próximos do pólo positivo, do pólo negativo ou ainda equidistantes): 3.33 A Joana pode estar em casa 3.34 A Joana deve estar em casa 3.35 A Joana talvez esteja em casa Nestes enunciados, o valor epistémico de que os modais poder e dever, assim como o adverbial talvez, são marcadores constrói-se com base no facto de a fonte enunciativa dispor de um ou mais elementos tidos por si como qualitativamente característicos da relação predicativa <a Joana, estar, em casa>. São estes elementos constitutivos da representação nocional que a fonte
149 enunciativa tem da relação predicativa em causa que lhe permitem construir como “possível” ou como “provável” a sua ocorrência espacio-temporal, isto é, a sua ocorrência de ordem quantitativa. Dito por outras palavras, no caso do valor epistémico correspondente à assunção parcial da validação ou não-validação da relação predicativa, a fonte enunciativa constrói, através de um processo de inferência (isto é, a partir de indícios), o percurso dos valores possíveis, isto é, a possibilidade, ou ainda a plausibilidade ou probabilidade201. É, portanto, em função da representação qualitativa que tem da relação predicativa que a fonte enunciativa perspectiva a eventualidade da sua manifestação quantitativa, isto é, que a fonte enunciativa avalia a sua validabilidade. Por conseguinte, está em causa, na construção de um valor epistémico do domínio do não-certo, a adequação a um centro organizador, isto é, a conformidade da ocorrência abstracta ideal (ocorrência tipo) em relação à ocorrência que estrutura o domínio nocional associado à relação predicativa. Propostas em termos de ponderação dos parâmetros metalinguísticos que definem as operações de determinação Qnt e Qlt, estas considerações a propósito da modalidade epistémica não são incompatíveis com uma representação dos valores modais através de uma bifurcação que relaciona dois planos disjuntos: por um lado, o plano onde se situa o sujeito modal, por outro, o plano do domínio nocional, correspondente à classe de ocorrências de uma relação predicativa. Isto mesmo referimo-lo atrás, com referência ao proposto em Deschamps (1998). Tendo, portanto, como princípio teórico a forma como se estrutura o domínio nocional, em Campos (1998a: 127) propõe-se uma representação diagramática para os verbos modais poder, dever e ter de, através, precisamente, de uma 201 Definidos, respectivamente, em termos de equiponderância e de construção de um único caminho (de validação ou de não-validação) (ver § 3.3.2), plausibilidade e possibilidade correspondem, enquanto diferentes valores de modalidade epistémica do domínio do não-certo, a diferentes valores de construção de enunciação mediatizada ou mediativo (ver § 6).
150 bifurcação202. Destes verbos, é dever que, com possibilidades de marcar a construção de um valor deôntico, pode igualmente, em certos contextos linguísticos, marcar um valor epistémico do domínio não-certo equiparável ao valor epistémico de que - como veremos mais detalhadamente (ver § 5) -, também em certos contextos, a generalidade dos verbos objecto deste estudo (achar, pensar, julgar, supor, crer, acreditar) são marcadores203. Retome-se, nomeadamente, o enunciado acima proposto, 3.34. Neste enunciado, dever – tal como poder, numa das duas interpretações propostas do enunciado 3.32 - tem um valor modal de suputação, em virtude de, como vimos atrás, T1 ser simultâneo a T0. Além disso - dizíamo-lo, também -, como consequência dos processos de inferência implicados na construção do valor modal construído, este está mais próximo do pólo positivo da escala de valores assertivos, não estando, portanto, equidistante dos dois pólos, positivo e negativo. Por conseguinte, dever associa a distância modal a uma operação de mira. Ou seja, a partir de IE, posição onde se situa o sujeito modal, este sujeito visa uma zona do domínio nocional que permite localizar, através de uma validação ou de uma não-validação, uma ocorrência da relação predicativa. Consequentemente, constrói-se uma ponderação de uma zona do domínio nocional, sem que, no entanto, se dê a exclusão ou eliminação da zona alternativa ou complementar. 202 Fala-se de bifurcação uma vez que o sujeito modal parte de IE (“E reforçado”), posição a partir da qual se podem perspectivar as duas zonas do domínio nocional, I e E, viabilizando diferentes relações de ponderação entre ambas e, decorrentemente, diferentes valores modais que vão da validação à não validação da relação predicativa, passando pela assunção parcial da validação / não validação da relação predicativa. Assim, partindo de IE, podem verificar-se as seguintes hipóteses: a) equiponderação, ou seja, ambas as zonas do domínio nocional são consideradas (por exemplo, pode p ou não tem de p); b) ponderação de uma zona do domínio, podendo a zona alternativa ser eliminada (tem de p ou não pode p) ou não (deve p ou não deve p). 203 Esta equivalência ou paralelismo entre o verbo modal dever e verbos como achar, pensar, julgar, supor, crer, acreditar, mas também parecer, dar a impressão, ser provável, ser desejável, ser aconselhável, querer, desejar, é sugerida, aliás, por outros autores como Campos (1998) e Moreno (2003).
151 No caso do enunciado 3.34, uma vez que se está perante uma forma afirmativa (deve p), a mira recai sobre o interior do domínio (I), sem que o exterior do domínio (E) seja excluído. Vejamos, pois, as representações gráficas de dever p (do enunciado 3.34, por exemplo) (esquema A) e de não dever p (esquema B), conforme são propostas em Campos (ibidem): (esquema A) (esquema B) I / p E / ~p I / p E / ~p IE IE deve p não deve p Em termos de representação através de uma bifurcação, aquela aqui notada como esquema A é a representação adequada ao valor epistémico do domínio do não-certo de que são marcadores os verbos achar, pensar, julgar, supor, crer, acreditar, em enunciados afirmativos do tipo „V que p‟. Quanto aos seus correlatos negativos não achar, não pensar, não julgar, não supor, não crer, não acreditar, no mesmo contexto linguístico („não V que p‟), ver § 12. Esta possibilidade de representação será sustentada pela reflexão proposta no capítulo 5 e revelar-se-á fundamental na descrição e explicação, propostas no capítulo 12, da relação entre a negação e as propriedades específicas dos predicados subjectivos em análise.
152
153 4. Caracterização enunciativa da subordinação Numa perspectiva da construção da referência, a centralidade (estrutural) do verbo introdutor no estabelecimento de uma relação de subordinação é teoricamente inadequada, pelo que é fundamental contemplar parâmetros metalinguísticos que permitem a ancoragem situacional dos valores de que todas as formas linguísticas no enunciado - e não só o verbo introdutor - são marcadoras. Deste modo, o processo de subordinação, tradicionalmente tido como sintáctico, corresponde a um marcador complexo de uma operação de determinação, considerada ao nível nocional (isto é, ao nível do estabelecimento de relações primitivas), ao nível da construção da relação predicativa associada à proposição principal e ao nível da sua determinação enunciativa (ver Deschamps, 1997). Por conseguinte, para uma abordagem enunciativa da subordinação, isto é, com vista à concepção de um modelo enunciativo da subordinação, é fundamental que nos situemos numa perspectiva transcategorial, em que o sintáctico e o semântico são descritos numa mesma sequência de operações, integrando, portanto, os vários níveis da construção do enunciado num todo descritivo e sem descontinuidade (senão por conveniência metodológica e de explicação metalinguística)204. Para o estudo da subordinação no quadro da Teoria Formal Enunciativa, aponta-se em Culioli (1982) uma orientação geral, ao afirmar que “une lexis205 peut être composée avec une autre lexis et [...] on peut construire une relation de repérage entre lexis” (1982 [também in 1999a: 101]). 204 Recorde-se, aliás, que Culioli recusa a oposição entre sintaxe, semântica e pragmática, em detrimento de uma problemática das operações predicativas e enunciativas: “[...] no basic discrimination between syntax, semantics and pragmatics is called for and I purpose [...] to put forward an attempt to model the operations which allow us to establish a verifiable relation between representations on one hand, and on the other, the traces of these operations which implement the transition from representations to textual phenomena” (Culioli, 1994: 21). 205 Uma lexis corresponde a um conteúdo proposicional, representando, como tal, uma entidade de um grau elevado de abstracção.
256 alternando, nos primeiros romances deste autor, de forma indiferenciada, com o verbo dire, regista uma gradual diferenciação para o final da sua obra, pelo que – conclui Gougenheim – a obra de Victor Hugo regista uma diferenciação gradual entre o “dizer” e o “pensar”. Veja-se também o facto de uma actividade cognitiva (o “pensar”) ser, generalizadamente nos autores romanescos, apresentada através do emprego de verbos como murmurar, resmungar, etc. enquanto expressão de juízos que, não supondo uma verbalização, emergem das personagens. Comentando as observações de Gougenheim, mas sobretudo de Moignet, em Rosier (1999) defende-se que a dissociação entre o “dizer” e o “pensar”, historicamente baseada num critério linguístico, não é posta em causa pelo facto de, no estado de língua actual, dire e penser apresentarem funcionamentos idênticos, podendo introduzir, indiferentemente, os tradicionalmente designados discurso directo e discurso indirecto, relatando quer actos enunciativos (“paroles”), quer processos cognitivos (“pensées”). Acrescenta este autor que tal oposição, no estado de língua actual, é, por conseguinte, mais filosófica do que linguística: “La pratique moderne de l‟intériorité joue davantage sur l‟absence de marqueurs spécifiques, pour mimer l‟expression spontanée et discontinue de la pensée” (idem, ibidem: 276). Sem pretender centrar o nosso estudo nas categorias assim consideradas – do “dizer” e do “pensar” –, e privilegiando, isso sim, a observação das formas linguísticas, estas considerações não deixam de apresentar algum interesse. Como veremos (§§ 11.2 e 12.1), além de outros factores, a possibilidade de os verbos conceptuais ocorrerem com o modo conjuntivo e os valores de determinação assim marcados atestam uma especificidade destes verbos relativamente ao conjunto dos verbos declarativos. Esta especificidade dos verbos conceptuais, comprovável com base em critérios linguísticos, encontra reflexo na caracterização que, por exemplo, ainda em Rosier (1999), se faz do “monólogo interior” como “um modo de enunciação particular”: “un mode d‟énonciation particulier, c‟est-à-dire [...] un mode de narration [...] qui dépasse le cadre du DR [discours rapporté]” (idem, ibidem: 277). A
257 problematização do “monólogo interior” enquanto forma relatada não se resolve – diz este autor – na distinção entre o “pensar” e o “dizer”, nem na sua oposição ao diálogo pois, afirma: “parler à autrui, c‟est toujours d‟une certaine manière se parler à soi-même [...] et, a contrario, se parler à soi est encore et toujours un acte dialogique” (idem, ibidem: 277). E acrescenta: “la forme „réfléchie‟ qui est la sienne [do monólogo interior] implique un fonctionnement énonciatif global qui dépasse le DR et sa problématique du „dire l‟autre‟. Le monologue intérieur se situerait lui entre je dit un autre et je est un autre" (idem, ibidem). 7.2 Construção do valor polémico Veja-se, seguidamente o enunciado 7.24, igualmente fundado na heterogeneidade do sujeito do enunciado (S2=S1) em relação ao enunciador (S0), na segunda pessoa, dando-se, portanto, uma dissociação referencial entre locutor e enunciador, cuja relação assume um valor de diferenciação, em virtude da introdução explícita do interlocutor. 7.24 ?Tu pensas que o Luís foi à praia339 Só apresentando contornos prosódicos específicos, esta sequência pode ser enunciativamente bem formada. Enquanto predicado subjectivo, pensar, como cada um dos verbos conceptuais marcadores de uma asserção fraca já referidos, só pode ser empregue na primeira pessoa (ver § 6.1) ou na terceira pessoa, podendo dar lugar, neste caso, a uma forma de enunciação relatada não estrita (“modalização do discurso em discurso segundo”) (ver § 7.1). A segunda pessoa 339 Neste exemplo, como nos que se seguem, o verbo pensar e outros verbos assertivos fracos como julgar e achar podem ser intersubstituídos, sem que haja variação em termos de formação eunciativa: ?Tu julgas que o Luís foi à praia; ?Tu achas que o Luis foi à praia.
258 introduz explicitamente o co-enunciador, tornado interlocutor, e a combinação com os verbos conceptuais ou de pensamento em análise apresenta várias restrições. Por exemplo, sem os contornos prosódicos marcadores de intersubjectividade, o interlocutor apresenta um estatuto instável e esta sequência deixa de ser enunciativamente bem formada (ver Culioli, 1978: 151). Assim, esta sequência, desde que afectada, em toda a sua extensão, por marcadores de entoação específicos, nomeadamente por marcadores de uma operação intersubjectiva, recupera a sua boa formação. Pode, por exemplo, corresponder a uma interrogação total: 7.25 (Tu) pensas que o Luís foi à praia? Pode igualmente corresponder à construção de uma suputação, a um raciocínio inferencial abdutivo construído com base numa relação de localização relativamente a um termo externo à relação de imbricação (assinalado como (a) e a itálico): 7.26 (Tu) pensas que o Luís foi à praia (a) querendo encontrar-te com ele, insistes na hipótese de irmos agora à praia Como quando o verbo conceptual ocorre na terceira pessoa (ver § 7.1), neste caso, a natureza da inferência que caracteriza este enunciado, com o verbo na segunda pessoa, só pode ser abdutiva - parafraseável, portanto, por Ouvindo-te, percebo que tu pensas que o Luis foi à praia. Da mesma forma, no âmbito relação de localização que define o valor mediativo de natureza inferencial, o termo localizado é o juízo modal, não a relação imbricada. Veja-se, à semelhança do atrás proposto (ver §§ 6.1.2 e 7.1), a possibilidade de explicitação da relação causal entre o termo localizador (externo à relação de imbricação) e o termo localizado, através do recurso ao operador causal porque:
259 7.26a (Tu) pensas que o Luís foi à praia porque, querendo encontrar-te com ele, insistes na hipótese de irmos agora à praia Marcada por uma curva entonacional cujo acento recai sobre o verbo, enquanto enunciado bem formado, 7.24 pode ainda definir um contexto polémico, mediante o qual o enunciador (S0) refuta, total ou parcialmente, a validação, por parte do sujeito do enunciado-locutor, da relação predicativa imbricada <o Luís ir à praia>, e não o juízo modal construído. Veja-se a possibilidade de 7.24 ser glosado por Pensas que sim, mas o Luís não foi à praia, ou ainda Pensas que sim, mas talvez o Luís não tenha ido à praia. Neste caso, o enunciador refuta a validação da relação predicativa <o Luís ir à praia>, não o facto de o seu co-enunciador (enunciador da enunciação precedente) a validar (ver § 6.1.2). Podendo enquadrar a sequência 7.24, esta tensão polémica traduz-se no estabelecimento de um campo de forças intersubjectivas: o enunciador-locutor, ao validar uma relação predicativa complexa, constrói uma asserção modalizada, pelo reenvio a uma outra situação de enunciação, definida, por conseguinte, através de outra coordenada subjectiva e espácio-temporal ((tu) pensas, mas também (tu) julgas ou (tu) achas) que define, não só um espaço enunciativo - mais propriamente coenunciativo, por se tratar da segunda pessoa -, como também um espaço explicitamente cognitivo. A construção, ao nível da relação imbricante, de uma outra fonte enunciativa referencialmente distinta de S0 (localização entre S1 e S0 com valor de diferenciação) e a consequente não assunção da validação da relação predicativa <o Luís ir à praia> por parte do enunciador origem, permite, no caso de um enunciado correspondente a uma interrogativa total (7.25), que este pré-construa o espaço de validação do seu co-enunciador, e permite, no caso do enunciado que defina um contexto polémico (7.24), que o enunciador pré-construa a não-validação (glosada como Pensas que sim, mas o Luís não foi à praia) ou a hipótese de
260 não-validação (Pensas que sim, mas talvez o Luís não tenha ido à praia) da relação predicativa imbricada340. Neste último caso – definição de um contexto polémico -, num instante Ti, definido em relação a um instante origem, S0 ou se situa no exterior (E), ou visa o exterior (E). S0 manifesta uma discordância ou uma relutância face à validação da relação predicativa <p>, discordância ou relutância que se fundam na pré-construção, para S0, do valor complementar <p‟>, sobrepondo-se e, portanto, invalidando <p>, ou coexistindo, embora de forma preponderante, com <p>. A construção de uma outra fonte enunciativa referencialmente distinta pode, assim, ter como consequência a não-validação (não assunção que pode ser total ou parcial) da relação predicativa <o Luís ir à praia>, por parte de S0. Dá-se, portanto, em função da discordância introduzida entre o valor validado pelo sujeito do enunciado-locutor e o valor validado pelo enunciador, a construção de um ponto de vista modal duplo. Verifica-se a construção de um mesmo ponto de vista modal duplo ou de um mesmo valor polémico no enunciado que se segue, necessariamente afectado por marcadores de entoação específicos: 7.24a O Luís, pensas tu, terá ido à praia Também o enunciado 7.1, como 7.1a e 7.1b (enunciados já introduzidos no sub-capítulo anterior e aqui retomados), desde que realizados com uma entoação específica, permitem definir um contexto polémico. Se a descrição proposta no sub-capítulo anterior pressupunha que o sujeito enunciador não se encontrava numa relação de alteridade com o sujeito do enunciado-locutor ao ponto de 340 Em Doro-Mégy (2003), refere-se este facto, não em termos de construção de um contexto polémico mas sim como um desdobramento do suporte modal, isto é, como possibilidade de se distinguirem várias instâncias subjectivas no domínio de validação: “[...] l‟énonciateur prend parfois également position par rapport à ce même contenu propositionnel” (idem, ibidem: 215).
261 introduzir uma discordância, parece-nos possível, considerar, na sequência das considerações acima feitas, a permeabilidade destes enunciados a uma interpretação mediante a qual teríamos como glosa Ela pensa que sim, mas o Luís não foi à praia, ou ainda Ela pensa que sim, mas talvez o Luís não tenha ido à praia: 7.1 Ela pensa que o Luís foi à praia 7.1a De acordo com ela, o Luís terá ido à praia 7.1b O Luís, pensa ela, terá ido à praia É a construção de uma outra fonte enunciativa referencialmente distinta de S0 (localização entre S1 e S0, neste caso, com valor de ruptura) e a consequente não assunção, total ou parcial, por parte de S0, da validação da relação predicativa imbricada <o Luís ir à praia> que permite a hipótese de, nos enunciados 7.1a e 7.1b como em 7.1, S0 pré-construir a não-validação desta relação predicativa, introduzindo uma discordância, ou seja, uma alteridade forte. Tal pré-construção da não-validação da relação predicativa institui o sujeito enunciador – mas, em função da intersubjectividade enunciativa, também o co-enunciador –, como fonte modal em posição de alteridade em relação ao sujeito do enunciado-locutor, rejeitando o valor de validação assumido por este último. Assim se funda o que alguns autores referem como sendo uma interpretação contrafactual (ver, por exemplo, Wyld, 2001 e Doro-Mégy, 2003). Uma enunciação mediatizada de factos relatados, como é o caso destes três enunciados, presta-se, aliás, a veicular valores polémicos, manifestações de discordância e, segundo Guentchéva et alii (1994), também de indignação: “Les faits rapportés sont des situations [...] fondées sur les paroles d‟autrui d‟où des nuances de doute, de méfiance, d‟ironie, d‟indignation ou de rejet” (idem, ibidem: 140). Assim se explica, pois, que o mediativo não se identifique com a enunciação relatada (ver § 7.1). De acordo com estes autores, “[...] le médiatif occupe une position intermédiaire entre l‟assertion et le discours rapporté, ce qui explique la
262 possibilité de valeurs ironiques, polémiques, d‟indignation, de rejet...” (idem, ibidem: 148)341. Em sequências como as que se seguem, constrói-se um valor polémico que se traduz na pré-construção da não-validação da relação predicativa imbricada, como o que pode caracterizar os enunciados 7.24 e 7.24a e os enunciados 7.1, 7.1a e 7.1b. Está excluída, nestas sequências, a possibilidade de construção de um valor polémico fundado numa refutação parcial da validação da relação predicativa imbricada, que verificámos ser possível nos enunciados acima referidos: 7.27 O Luís foi à praia? Isso é o que tu pensas! 7.28 O Luís foi à praia? Isso é o que ela pensa! 7.29 O Luís foi à praia? Isso é o que tu achas! 7.30 O Luís foi à praia? Isso é o que ela acha! 7.31 O Luís foi à praia? Isso é o que tu julgas! 7.32 O Luís foi à praia? Isso é o que ela julga!342 341 Conforme já referido em relação aos valores escalares intermédios (do domínio do não certo, incluindo o quase-certo) (ver § 5.1.1), o conceito de comentário (“commentaire” ou “commentatif”), definido, em termos de localização de uma relação predicativa em relação a um ponto de vista (ver, entre outros, Danon-Boileau; Bouscaren, 1984 e Bouscaren; Chuquet, 1987) permite enquadrar qualquer dos predicados subjectivos em causa, quando conjugados na segunda como na terceira pessoas, uma vez que, não correspondendo a simples constatações, tais construções podem corresponder, isso sim, a uma espécie de conjectura por parte do enunciador, fundada em raciocínios por inferência, a partir da interpretação de indícios. 342 A segunda parte destes enunciados equivalerá, em termos de valores construídos, a Isso pensas tu! e Isso pensa ela! (7.27, 7.28), Isso julgas tu! e Isso julga ela! (7.31, 7.32). Mais dificilmente, por razões adiante expostas, teríamos ?Isso achas tu! e ?Isso acha ela! (7.29, 7.30).
263 Consistindo em refutações relativamente a uma asserção pré-construída (O Luis foi à praia) - que é da responsabilidade do co-enunciador (7.27, 7.29, 7.31) ou de S1 (7.28, 7.30, 7.32) -, estes enunciados compreendem uma sequência inicial (o Luís foi à praia?), com a forma de uma interrogativa total343. Simplesmente, em cada um destes casos, pela construção da sequência que se segue (Isso é o que tu pensas / achas / julgas! e Isso é o que ela pensa / acha / julga!), o enunciador trunca a recorrência ao co-enunciador, característica de qualquer interrogativa, pré-construindo a não-validação da relação predicativa em causa. Essa localização da relação predicativa no exterior (E), correspondente à validação do complementar linguístico, é concebida intersubjectivamente, daí tratar-se da manifestação de uma discordância que define um contexto polémico, tendo a sequência O Luis foi à praia?, em ambos os casos, um valor exclamativo, mais concretamente, um valor exclamativo negativo. Este valor exclamativo negativo que a sequência na forma interrogativa assume resulta de um processo de remodalização (ver § 3.3.2) de que passamos a apresentar uma descrição metalinguística mais detalhada344. O termo de partida da segunda parte destes enunciados (isso) remete anaforicamente para a relação predicativa da primeira sequência: <o Luís ir à praia>. Por via deste processo de retoma, é construída uma estabilização que permite a selecção do valor positivo (sim, o Luís foi à praia) da classe fechada (sim / não) que se pré-constrói através da interrogativa total, forma linguística da primeira sequência. Concomitante a este 343 Uma interrogativa total caracteriza-se - recorde-se (ver § 3.3.2) - pela construção de uma operação de percurso que incide numa classe fechada de dois valores – positivo (ou de validação) e negativo (ou de não-validação) - e por um valor intersubjectivo. É, por conseguinte, mediante estes factos que o sujeito enunciador constrói antecipadamente a validação (I) ou a não-validação (E) da relação predicativa e, não estando em condições ou não a querendo validar - isto é, situando-se ou simulando posicionar-se num grau zero do conhecimento -, recorre ao seu co-enunciador para que seja ele, co-enunciador, a construir essa validação (ou não-validação). 344 Agradecemos à Ana Bela Afonso a contribuição que deu para a reflexão que aqui se propõe a propósito deste e de outros tipos de enunciados interrogativos, analisados ao longo deste trabalho.
264 percurso pela classe e selecção de um valor, há a construção de uma remodalização, marcada pelo recurso ao verbo pensar numa pessoa referencialmente distinta do enunciador (tu pensas / achas / julgas, ela pensa / acha / julga), na segunda sequência dos enunciados. Constrói-se, assim, um valor de discordância, mais especificamente um valor de refutação forte, correspondente a um distanciamento total do enunciador relativamente à validação positiva da relação predicativa <o Luís ir à praia>, pelo que os enunciados 7.27 a 7.32 são parafraseáveis, respectivamente, por Tenho razões para dizer que o Luís não foi à praia, contrariamente ao que pensas / achas / julgas e Tenho razões para dizer que o Luís não foi à praia, contrariamente ao que ela pensa / acha / julga. De acordo com o que estas paráfrases põem em evidência, poder-se-á dizer que a remodalização em causa nos enunciados que definem um contexto polémico participa das características de construção de factos de surpresa, um dos valores do mediativo, de acordo com Guentchéva (1994, 1995 e 1996) (ver § 6). Não tendo a generalidade das línguas, inclusivamente o português, desenvolvido marcadores específicos do valor admirativo, afirma-se em Campos (2001a) e na sequência de Guentchéva (1994), que “geralmente, uma forma mediativa que codifica a inferência é capaz de exprimir o valor de surpresa” (idem, ibidem: 337). Este princípio poderá ajudar a descrever o valor de refutação forte que caracteriza estes enunciados. A partir de indícios observados em T0 (tenho razões), é possível a S0 reconstruir, por inferência abdutiva, um outro facto que constitui a negação do facto esperado, nestes casos, pelo co-enunciador ou por S1, contrariando as respectivas expectativas (ver Campos, ibidem e Guentchéva, 1994: 20-21)345. A definição do valor de surpresa a partir da sobreposição de um facto constatado ou inferido relativamente a um facto esperado (ou previsto) significa que há pré-construção. Assim se explica a expectativa, do co-enunciador ou de S1, que 345 Outra paráfrase que estes enunciados nos sugerem seria O Luís não foi nada à praia. A dupla negação aqui construída (não foi nada) marca exactamente uma oposição entre o que será o facto previsto (O Luís foi à praia) e o facto constatado (O Luís não foi à praia), oposição esta subjacente ao valor de surpresa.
265 é defraudada por via de uma refutação forte, construída pelo enunciador-locutor: como um pré-construído, uma relação predicativa localizada no interior (I). A caracterização que começámos por propor dos enunciados 7.27 a 7.32, como refutações relativamente a uma asserção pré-construída (O Luis foi à praia), radica ainda no facto de a sequência inicial de ambos - com a forma interrogativa mas com um valor exclamativo negativo - incidir sobre um valor modal construído numa enunciação anterior – uma asserção positiva – e não sobre uma relação predicativa. Segundo Campos (1998a), estaremos, neste caso, perante uma “enunciação interrogativa [...] „eco‟ (com entoação interrogativa-exclamativa) da enunciação anterior sendo retomadas, nesse eco, as próprias formas linguísticas [...]” (idem, ibidem: 94). De qualquer maneira, se, na construção dos factos inferidos, a abdução reconstrói uma hipótese provável a partir de conhecimentos gerais, na construção dos factos de surpresa, a abdução reconstrói uma hipótese necessária à explicação dos factos constatados, mas em contradição com os factos previstos, no caso dos enunciados 7.27 e 7.28, respectivamente, pelo co-enunciador (7.27) e pelo S1 (7.28) (ver Guenchéva, 1994: 21). Pode igualmente dar-se a construção já não de um valor polémico mas sim de um valor de contraposição num enunciado complexo cujo sujeito do enunciado-locutor seja construído como abstractamente disjunto do sujeito enunciador, isto é, na primeira pessoa, desde que o verbo da imbricante ocorra no pretérito imperfeito. 7.33 Eu pensava que o Luís tinha ido à praia Na origem do valor temporal e, em virtude da relação de imbricação em causa, simultaneamente modal, que caracteriza o pretérito imperfeito do verbo da imbricante (pensava) deste enunciado, está uma operação de translação346. 346 Sobre a operação de translação, ver Culioli (1993).
272 conseguinte, a constatação deste facto contribuirá para delimitar o espaço semântico que o mediativo ocupa no português europeu contemporâneo350. 350 Além dos verbos conceptuais ou de pensamento, os processos mediante os quais se podem manifestar valores de mediativo são de natureza prosódica e, sobretudo, de natureza lexical e gramatical. Inscrevem-se como exemplos destes últimos meios o uso dos verbos modais poder e dever (ver Campos, 2001a, 2003); o uso de advérbios, processo lexical que permite construir valores de modalidade aparentados com os valores marcados pelas formas aqui em estudo (ver §§ 3.3.2 e 10); o emprego de uma locução conjuntiva causal como já que; as formas definidas de determinação nominal; o modo conjuntivo (ver, em particular, §§ 11.2 e 12.1); o recurso a certos tempos verbais como, por exemplo, o imperfeito (ver Hassler, 2003), as conjugações verbais em -r-: condicional, futuro simples, futuro composto (ver T. Oliveira, 2002a). Estes processos ilustram a existência de relações complexas entre o mediativo e outras categorias gramaticais como a determinação nominal, o tempo, o aspecto e, como já referimos (ver § 6), a pessoa. Todos relativos ao português, estes processos podem coincidir, de acordo com o ponto de vista que adoptamos, com os processos, por exemplo, do castelhano ou do francês, línguas em que a literatura respeitante à expressão do mediativo fora de um sistema gramatical preciso é mais abundante (ver, por exemplo, Reyes, 1993, 1994, Hassler, 2003 e Guentchéva, 1994, 1995; Guentchéva (ed.), 1996; Guentchéva et alii, 1994). Ainda relativamente aos processos que permitem exprimir valores de mediativo em francês, ressalve-se a forma clara como, em Guentchéva (1994) - contrariamente ao que se reconhece em Campos relativamente a este fenómeno linguístico em português -, se excluem os verbos modais (devoir e pouvoir, assim como croire), processos lexicais (por exemplo, advérbios frásicos como manifestement, apparemment, visiblement, certainemment, etc.) e construções impessoais (como il semble que, il paraît que), justificando-se tal posição teórica pelo facto de, em línguas em que a gramaticalização da noção de mediativo resultou na construção de uma categoria gramatical, estes processos coexistirem, sem se confundir, com esta categoria (ver Guentchéva, 1994: 22).
273 8. Verbos conceptuais e construção transitiva-predicativa351 A par com uma estrutura de complementação de natureza completiva com o complementador que e sem consequências quanto ao valor de modalidade epistémica construído, alguns destes verbos podem apresentar o que, segundo alguns autores352, é um objecto directo acrescido de um elemento ou termo predicativo. Vejamos os enunciados 8.1 a 8.7, que ilustram esta possibilidade: 8.1a Acha o amor um assunto escabroso? (Ref:L0379P0398X) 8.2a Eu julgava-os amigos (Ref: L0494P0141X) 8.3a Ninguém o acreditaria inocente (Ref: L0016P0378X) 8.4a Pensava-a capaz de resolver o problema 8.5a Imaginava coisas, supunha-a assassinada (Ref: L0501P0031X) 8.6a O Pedro crê o fim do mundo próximo 8.7a Sabia-a manchada de um grande pecado (Ref: L0003P0395X)353 351 Este sub-capítulo beneficiou da leitura atenta da Susana Pereira, a quem renovadamente agradecemos as observações e sugestões feitas. 352 Por exemplo, em Riegel (1981) – retomá-lo-emos adiante -, fala-se sempre de “construção com atributo de objecto”: quer quando o, por si denominado, “verbo atributo de objecto” é “ocasionalmente atributivo” (“verbes occasionnellement attributifs”), quer quando é “essencialmente atributivo” (“verbes essentiellement attributifs”) (como verificaremos ser o caso da maioria dos casos aqui estudados). Apesar dessa denominação comum, note-se, porém, que este autor salienta, na descrição destes últimos, o carácter proposicional do seu complemento. 353 Duvidar e ignorar, verbos conceptuais de orientação negativa - isto é, que, na forma assertiva positiva marcam que a avaliação da validabilidade da relação predicativa corresponde a um valor do domínio modal do não-certo (ver § 5.3.1) -, estão excluídos desta possibilidade de apresentar como complemento, a par de uma completiva (com o complementador que ou se), uma construção transitiva-predicativa: (i) Duvido que o Luís e o Rui sejam amigos (i‟) *Duvido-os amigos
274 De acordo com uma descrição proposta em Mateus et aliae (2003: 279) a propósito de construções sintácticas da natureza das acima propostas, em cada um destes enunciados existirão dois domínios de predicação. Antes de mais, existirá uma predicação primária, cujo predicador é um verbo classificado como “transitivo-predicativo” (nas formas acha, julgava, acreditaria, pensava, supunha, crê, sabia). Por sua vez, este predicador seleccionará como objecto um domínio de predicação ([o amor] um assunto escabroso, [-os] amigos, [o] inocente, [-a] capaz de resolver o problema, [-a] assassinada, [o fim do mundo] próximo, [-a] manchada de um grande pecado), predicação esta cujo predicador, sintacticamente secundário, pode corresponder, seja a um grupo nominal (um assunto escabroso), seja a um grupo adjectival (amigos, inocente, capaz de resolver o problema, assassinada, próximo, manchada de um grande pecado), e cujo sujeito corresponde – acrescentemo-lo - a expressões nominais ou pronominais (o amor, -os, o, -a, o fim do mundo)354. (ii) Duvido que o Luís esteja inocente (ii‟) *Duvido-o inocente (iii) Ignoro se ela é capaz de resolver o problema (iii‟) *Ignoro-a capaz de resolver o problema 354 No seio desta predicação, o predicador (termo predicativo) sucede normalmente o sujeito. Mas a ordem sujeito-predicador pode inverter-se. Apesar de algumas restrições que se prenderão, entre outros aspectos, com a maior extensão do termo predicativo, os enunciados em baixo permitem atestar que este pode, em certas circunstâncias, preceder o sujeito: Acha um assunto escabroso o amor? Eu julgava amigos o Luís e o Rui Ninguém acreditaria inocente o João ?Pensava capaz de resolver o problema a Ana Imaginava coisas, supunha assassinada a vizinha O Pedro crê próximo o fim do mundo ?Sabia manchada de um grande pecado a irmã
275 Como se reitera ainda em Mateus et aliae (ibidem), a relação gramatical dos “predicadores (sintácticos) secundários” em frases transitivas-predicativas, como as aqui exemplificadas, é a de predicativo do objecto directo355. Assim, certos verbos conceptuais, como achar, julgar, acreditar, pensar, supor, crer, saber, apresentam, a par da construção de um estrutura completiva, a possibilidade de construção do que em Quirk et alii (1985: §§ 16.43-45) e também em H. Campos ([1999] 32000: § 24.2.3), se designa como “complementação transitiva complexa”, isto é, a possibilidade de construção de um “complemento transitivo seleccionado”356. 355 Este tipo de relação gramatical – predicativo do objecto directo – não caracteriza só os termos predicativos seleccionados por um verbo pertencente à subclasse sintáctica dos verbos transitivo-predicativos. Propõe-se, ainda em Mateus et aliae (2003: 290), que a relação gramatical de predicativo do objecto directo caracteriza também os termos predicativos quando se trata de construções descritivas e de construções resultativas, como exemplificado, respectivamente, em A Ana mastigou a carne crua e A Ana mastigou a carne em pedacinhos (exemplos traduzidos e adaptados de Demonte, 1991: 136). Sobre a distinção – adiante retomada - entre construções com predicados descritivos e construções com predicados resultativos ver, além de Demonte (1991), Marrafa (1993), que, reconhecendo a relevância das propriedades sintáctico-semânticas do predicado principal, recupera as designações alternativas, propostas em Tenny (1987), de “verbos de transformação do objecto” e “verbos de criação do objecto” (Marrafa, 1993: 231), e Pereira (1997). 356 Além dos verbos conceptuais ou de pensamento, que aqui mais nos interessam, certos verbos pertencentes a outras classes admitem, igualmente embora não obrigatoriamente, uma “complementação transitiva complexa”. É o caso de alguns verbos designativos (ver Demonte, 1991) (i), performativos (ver Quirk et alii, 1985: § 16.44) (ii), de desejo (ver H. Campos [1999] 32000: § 24.2.3 e Demonte; Masullo [1999] 32000: § 38.2.2.1) (iii) e de resultado ou causativos (ver H. Campos, ibidem e Demonte; Masullo, ibidem) (iv): (i) Elegeram o Rui director do departamento (ou elegeram director do departamento o Rui) (ii) Os revoltosos proclamaram o país independente (ou os revoltosos proclamaram independente o país) (iii) O João prefere as mulheres morenas (ou o João prefere morenas as mulheres) (iv) O ruído das obras pôs a Ana louca (ou o ruído das obras pôs louca a Ana) (alguns destes exemplos são adaptados, ora de Quirk et alii, 1985, ora de H. Campos, ibidem e Demonte; Masullo, ibidem)
276 Porém, contrariamente a outras construções em que se está perante um objecto directo que é acrescido de um elemento predicativo opcional - porque não indispensável à boa formação gramatical (por exemplo, em a Ana viu o João (embriagado))357 – nos enunciados 8.1a a 8.7a, cada um dos termos predicativos (um assunto escabroso, amigos, inocente, capaz de resolver o problema, assassinada, próximo, manchada de um grande pecado) é seleccionado pelos verbos conceptuais em causa, sendo, por conseguinte, indispensável. Mais propriamente, no caso em que o termo predicativo é obrigatório, o verbo selecciona uma relação predicativa (grupo nominal + termo predicativo), formando com esta uma unidade sintáctico-semântica, em que se funda a sua natureza como predicado complexo358. 357 Estas construções são abrangidas quer pela designação “construção predicativa complexa”, proposta como generalizável em Mateus et aliae (2003), quer pela designação “complementação transitiva complexa”, proposta em Quirk et alii (1985: §§ 16.43-45) e também em H. Campos ([1999] 32000: § 24.2.3), ambas acima referidas. 358 Atestando o facto de os verbos presentes nos enunciados 8.1a a 8.7a seleccionarem uma relação predicativa, refira-se que não é com o mesmo grau de aceitabilidade que se podem formular interrogações sobre os termos predicativos aí presentes (obrigatórios, portanto) (i) e termos predicativos opcionais (ii): (i) ?- Como acha o amor? - Um assunto escabroso ?- Como os julgavas? - Amigos ?- Como o acreditas? - Inocente ?- Como a pensavas? - Capaz de resolver o problema ?- Como a supunhas? - Assassinada ?- Como crê o Pedro o fim do mundo? - Próximo ?- Como a sabia ele? - Manchada de um grande pecado (ii) - Como viu a Ana o João? - Embriagado - Como preferes o bife? – Bem passado
277 8.1 Natureza intensional e delimitação qualitativa do complemento transitivo-predicativo A concepção segundo a qual um enunciado que apresenta uma construção transitiva-predicativa, como qualquer um dos propostos (8.1a a 8.7a), corresponde a um enunciado complexo revela-se perfeitamente compatível com a ideia de que, sendo de natureza proposicional, o objecto dos verbos em estudo é um objecto puramente intensional. É, aliás, na sequência das possibilidades sintácticas que os verbos conceptuais apresentam que se poderá tecer tal consideração a propósito da natureza do seu objecto359. É com base na psicologia de Brentano que, em Meinong ([1960] 1972), se propõe que um dos traços característicos dos fenómenos mentais é a “intencionalidade”, isto é, o facto de os fenómenos mentais serem dirigidos para um objecto. Inspirado nesta correspondência entre actos mentais e actos intencionais, este autor propõe uma teoria dos objectos que, entre outros, em Linsky ([1967] 1974), se comenta e amplia. As ideias, juízos e suposições correspondem a “objectos ideais”, objectos que, afirma-se em Linsky (idem, ibidem), subsistem (“bestehen”) mas não existem (“existieren”). É com base na concepção de “objectos ideais” que este autor propõe uma distinção importante entre “objecto”, no sentido estrito, e “objectivo” (“objektive”) (ver idem, ibidem: 34ss). Defende-se que, apesar de qualquer acto mental se dirigir para um objecto (e da sua consequente intencionalidade), os objectos dos actos cognitivos pertencem a um tipo de objecto particular, designado “objectivo”. Quando Linsky exemplifica aquilo que, por oposição a objecto, é um objectivo, fica clara a correspondência entre este último conceito e o de proposição: diz-se 359 Em Vendler (1967 e 1970), propõe-se precisamente que, por oposição a objectos e eventos, o objecto puramente intensional que estes verbos constroem corresponde a uma proposição. De acordo com a recuperação que, em Lyons ([1977] 21978), se propõe da distinção lógica entre entidades de primeira, de segunda e de terceira ordem, o complemento proposicional corresponde, enquanto objecto, a uma entidade de terceira ordem (ver idem, ibidem: 160), à qual se podem apenas atribuir juízos de verdade, isto é, da qual se pode apenas dizer que é verdadeira ou que é falsa.
278 que un chat ou le chat corresponde a um objecto no sentido estrito e que le chat est sur le paillasson - isto é, o être-sur-le-paillasson-du-chat - é objecto de um acto mental e, portanto, um objectivo. Acrescenta-se, ainda, que se de un chat ou de le chat se pode dizer existirem, do objectivo être-sur-le-paillasson-du-chat não se pode dizer que existe senão que subsiste (idem, ibidem: 34)360. A natureza intensional do objecto de um acto cognitivo - “objectivo”, segundo Linsky ([1967] 1974) - presta-se, pois, a uma aproximação ao valor preponderantemente qualitativo que se constrói das ocorrências das noções /achar/, /pensar/, /supor/, /acreditar/, /julgar/, /crer/ e /saber/. De facto – veremos adiante -, sem que se dê verdadeiramente a construção de uma ocorrência das noções em causa, está-se perante uma delimitação qualitativa, determinada pela predicação sobre um suporte, o parâmetro subjectivo da situação de enunciação. Por outras palavras e como procuraremos demonstrar neste capítulo, a única delimitação do objecto proposicional é determinada pelo sujeito enunciador, localizador dos valores modais construídos. Por conseguinte e de forma mais evidente, além de não se confundir com um objecto directo acrescido de um elemento predicativo, um termo predicativo, conforme ocorre nos enunciados 8.1a a 8.7a, não se confunde com o caso de construção de um modificador do nome361. 360 Ao afirmar-se que qualquer acto cognitivo tem, por objecto, um objectivo, algo que necessariamente “não existe”, postula-se um princípio importante para o desenvolvimento do estudo da referência: o princípio de que as características do objecto linguisticamente construído são independentes da sua existência ontológica. Esta é, aliás, uma das teses fundamentais da doutrina de Meinong ([1960] 1972) sobre o “Aussersein do objecto puro”: o princípio de independência do “ser-assim” (“Sosein”) em relação ao “ser” (“Sein”). Com esta reflexão de Meinong e, seguidamente, de Linsky, ter-se-á pretendido resolver um dos principais problemas da referencialidade do objecto dos verbos conceptuais. Mas, espoletado pelo que possa ser específico do objecto dos verbos conceptuais, dá-se, simultaneamente, um passo importante na reflexão sobre o problema da referência em geral, problema esse a que Culioli responde com o conceito de valor referencial, em completa ruptura com qualquer critério ontológico. 361 Sob o ponto de vista sintáctico, podemos verificar e comprovar a exterioridade sintagmática do termo predicativo em relação ao grupo nominal objecto directo através da aplicação de alguns testes empíricos clássicos, respectivamente, os teste de focalização e de tematização, (ora do termo predicativo, ora do grupo nominal objecto directo), o teste de pronominalização (do grupo nominal objecto directo) e o teste de passivação (ver, por
279 Recuperável, para maior fundamentação ao longo deste sub-capítulo e sempre com a finalidade de identificar a especificidade do objecto dos verbos conceptuais, esta dupla demarcação da natureza sintáctico-semântica dos termos predicativos seleccionados pelos verbos em análise - relativamente, por um lado, a outras construções em que se está perante um objecto directo acrescido de um elemento predicativo opcional e, por outro, em relação ao caso em que haja a construção de um modificador do nome – é susceptível de traduzir, por outras palavras, a descrição, proposta em J. Fonseca (1993), da relação entre os verbos também por si designados “transitivos predicativos” e o termo predicativo: “Sendo consignificado por V como complementador específico em resposta a uma insuficiência semântica de índole diversa da que suscita o complemento directo, o TP [termo predicativo] mantém em face deste complemento uma autonomia semântico-funcional e também sintagmática. Quer dizer: o TP, embora estreitamente ligado [...] ao seu suporte nominal complemento directo, é exterior ao SN em que este se molda, e, logo, ao papel semântico-funcional que este assume no EN [enunciado]. Noutros termos: o TP é um complementador de V do mesmo nível de estruturação do complemento directo, não uma adjectivação que expande o SN em que se actualiza o complemento directo” (idem, ibidem: 59). Passemos, pois, à exposição do raciocínio que, apoiado nas propostas de diferentes autores, nos conduz a uma tentativa de definição da especificidade do objecto dos verbos conceptuais, quando coocorrem com uma construção transitiva-predicativa. Conforme se conclui em Pereira (1997), uma condição para que haja uma construção transitiva-predicativa é, genericamente (isto é, com o termo predicativo seleccionado ou não pelo verbo), a preponderância, já atrás referida, de uma exemplo, J. Fonseca, 1993: 61-62). As possibilidades de isolamento, ou de deslocação, que o termo predicativo evidencia contrastam com o comportamento sintáctico de um termo modificador do nome.
280 determinação qualitativa, isto é, uma estabilidade existencial, marcada, por excelência, pela definitude mas também por outros valores362. No caso das construções transitivas-predicativas que nos propomos descrever, constatamos a exigência de uma determinação preponderantemente qualitativa nos enunciados 8.1a a 8.7a, aqui retomados. Em 8.1a e 8.6a, a determinação preponderantemente qualitativa é marcada pelo emprego do artigo definido, e nos enunciados 8.2a, 8.3a, 8.4a, 8.5a e 8.7a, pela pronominalização acusativa: 8.1a Acha o amor um assunto escabroso? (Ref:L0379P0398X) 8.2a Eu julgava-os amigos (Ref: L0494P0141X) 8.3a Ninguém o acreditaria inocente (Ref: L0016P0378X) 8.4a Pensava-a capaz de resolver o problema 8.5a Imaginava coisas, supunha-a assassinada (Ref: L0501P0031X) 8.6a O Pedro crê o fim do mundo próximo 8.7a Sabia-a manchada de um grande pecado (Ref: L0003P0395X)363 362 Na sequência de, em Marrafa (1993), se expor a complexidade inerente à questão do efeito de indefinitude (aí - comenta-se em Pereira (1997) – “[...] se amplia o leque de factores responsáveis pelas restrições impostas ao SN „sujeito‟ de uma predicação secundária” (idem, ibidem: 79), em Pereira (ibidem), perspectiva-se esta questão como um problema de construção de referência. Propõe-se, mais concretamente, um estudo do fenómeno assim designado com base numa “[...] descrição formal e rigorosa da construção da referência e das suas implicações no contexto da construção da significação em geral” (idem, ibidem: 142). Em virtude de, como veremos, o valor de determinação nominal qualitativa não ser marcado exclusivamente por uma determinação definida - isto é, porque a questão do efeito de indefinitude “[...] parece ultrapassar largamente os limites da exigência de um SN „definido‟, por oposição a um SN „indefinido‟” (idem, ibidem: 79) -, é, mais do que compreensível, absolutamente pertinente a proposta de revisão deste conceito apresentada por Pereira. 363 Duvidar e ignorar, verbos conceptuais de orientação negativa - isto é, que, na forma assertiva positiva marcam que a avaliação da validabilidade da relação predicativa corresponde a um valor do domínio modal do não-certo (ver § 5.3.1) -, estão excluídos
281 Ambas estas formas linguísticas são marcadoras da exterioridade, ou independência, do argumento C0 da relação predicativa imbricada relativamente aos processos de que os verbos da imbricante são expressão364. Considere-se, porém, o caso em que a preponderância qualitativa da determinação construída não é marcada pelo emprego do artigo definido. Nos exemplos que se seguem, o facto de os nomes argumentos C0 das relações predicativas imbricadas ocorrerem com uma determinação indefinida não invalida que a exigência de um valor qualitativo preponderante seja satisfeita: 8.8 Acho uma flor sempre bonita 8.9 Acho um rapaz daqueles um génio O valor de genericidade atribuível ao enunciado 8.8 – enunciado proposto em Marrafa (1983) e retomado em Pereira (ibidem: 28) - deve-se à construção, marcada pelo emprego do artigo indefinido, de uma ocorrência abstracta, representativa da classe das ocorrências abstractas da noção /flor/. É extraída uma ocorrência qualquer da noção, ocorrência esta que é localizada em relação a uma classe de situações, e que, não sendo qualitativamente distinguível - ou seja, sendo desta possibilidade de apresentar como complemento, a par de uma completiva (com o complementador que ou se), uma construção transitiva-predicativa: (i) Duvido que o Luís e o Rui sejam amigos (i‟) *Duvido-os amigos (ii) Duvido que o Luís esteja inocente (ii‟) *Duvido-o inocente (iii) Ignoro se ela é capaz de resolver o problema (iii‟) *Ignoro-a capaz de resolver o problema 364 Veja-se como um objecto directo nominal não apresenta o mesmo tipo de restrições ao nível da sua determinação: A Maria sugeriu assuntos escabrosos, A Maria sugeriu um assunto escabroso. Sobre restrições de determinação nominal, ver Correia (2002).
288 propriedades semânticas dos itens lexicais: por exemplo, as características aspectuais do predicado da relação predicativa imbricada (termo predicativo) e do verbo da imbricante, assim como os valores de determinação do argumento C0 da relação predicativa imbricada. Outro contributo relevante no sentido de especificar a natureza do objecto dos verbos conceptuais quando estes integram uma construção transitiva-predicativa parece-nos ser o de Riegel (1981, 1994), que, descrevendo a natureza da relação que o verbo instaura entre o sujeito e o objecto, reconhece a pertinência do “traço de modalidade” que caracteriza certos verbos, identificados como “verbos de representação mental” (“verbes de représentation mentale”) (ver idem, 1994: 183). Tendo presente a distinção, proposta em Riegel (1981) – atrás referida -, entre o que se designa como “verbos essencialmente atributivos” (“verbes essentiellement attributifs”) e “verbos ocasionalmente atributivos” (“verbes occasionnellement attributifs”), de entre os verbos conceptuais em análise, alguns classificar-se-ão como essencialmente atributivos. Segundo o critério proposto por este autor, quando, em alternativa a uma subordinada completiva introduzida por que, ocorrem com um adjectivo – designado “atributo do complemento objecto directo” (“attribut du c.o.d.”) -, não permitindo o seu apagamento (“l‟effacement”): “A l‟effacement de l‟adjectif attribut correspond, au niveau sémantique, l‟effacement de la prédication attributive [...] puisque la prédication attributive est un élément obligatoire de la configuration sémantique [...] sous-jacente à ce type de constructions” (idem, ibidem: 26). Excluindo os restantes, apenas dos verbos achar, julgar, pensar e saber se dirá não serem “essencialmente atributivos”, uma vez que podem ocorrer, a par com uma construção atributiva, igualmente com um objecto nominal (não proposicional, isto é, sem o termo predicativo), o que acarreta, nos casos de achar e julgar, evidente mudança em termos do sentido construído376. Refira-se, porém, 376 O tipo de construções em que a ausência do termo predicativo actualiza um outro sentido explicar-se-á pelo facto de se passar a estar perante uma outra estrutura argumental (ou estrutura actancial) do mesmo significante lexical: se no caso da construção transitiva-predicativa, para além de um actante1 e de um actante2, o verbo selecciona um
289 que, em virtude da mudança de sentido que registam no seu emprego transitivo, os verbos achar e julgar não se enquadrarão, com precisão, na classe, proposta em Riegel (ibidem), dos “verbos ocasionalmente atributivos”. Os verbos conceptuais não apresentam “construções transitivas de alargamento atributivo” (“constructions transitives à élargissement attributif”), como será o caso do enunciado proposto On n‟a pas retrouvé la boîte noire intacte, cujo verbo (retrouver), contrariamente a achar e a julgar, apresenta um sentido constante, no emprego transitivo com objecto nominal, como no emprego transitivo-predicativo (em que o atributo – intacte - é, portanto, um atributo “élargie”) (Riegel, 1994: 177ss, 187). O problema da possibilidade de uma dupla configuração do sentido de alguns dos verbos conceptuais será objecto de estudo mais adiante (ver § 9). Tendo ainda presente a reflexão proposta em Riegel (1981), no caso de coocorrência destes verbos com o que designa como “construção atributiva”, a “função atributiva”377 de qualquer um dos termos predicativos (por exemplo, nos enunciados 8.1a a 8.7a, um assunto escabroso, amigos, inocente, capaz de resolver o problema, assassinada, próximo, manchada de um grande pecado), recai sobre o argumento C0 da relação predicativa imbricada, - segundo Riegel, o complemento de objecto directo. Por conseguinte, os verbos conceptuais serão, segundo este autor, “verbos de atributo do complemento de objecto directo” termo predicativo, no caso da construção transitiva, o verbo selecciona apenas um actante1 e um actante2 (ver, por exemplo, J. Fonseca, 1993: 36, 57). Retomaremos adiante este tipo de construções, dando conta, quer da especificidade do tipo de objecto nominal que cada um destes verbos admite, quer dos sentidos construídos (ver §§ 9 e 9.1). 377 Riegel (1981) reflecte sobre a “função atributiva” dos adjectivos (por oposição à sua função como modificador), excluindo a referência a grupos nominais com a mesma função atributiva. O termo “atributo” (“attribut”), na base desta reflexão, procede directamente da gramática (lógica) de Port-Royal (ver Arnauld; Lancelot, [1660] 1969), segundo a qual a unidade frásica corresponde à expressão de um juízo. De acordo com esta concepção, o atributo desempenha a função de predicado e é geralmente representado por um adjectivo: “[...] Le jugement que nous faisons des choses, comme quand je dis la terre est ronde, s‟appelle proposition; et ainsi toute proposition enferme nécessairement deux termes; l‟un appelé sujet, qui est ce dont on affirme, comme terre; et l‟autre appelé attribut, qui est ce qu‟on affirme, comme ronde" (idem, ibidem).
290 (“verbes à attribut du c.o.d.” (idem, ibidem: 23))378. Por outras palavras, os verbos conceptuais só permitem a construção de “orações pequenas orientadas para o objecto”379. Em Riegel (1994), numa proposta de inventariação das classes de verbos de atributo de objecto que admitem - segundo o autor, sem diferença semântica considerável – a dupla construção (subordinada completiva ou a sequência pós-verbal correspondente, na sua óptica, a uma predicação secundária, para a qual propõe Riegel a notação [objecto + atributo de objecto]), refere-se o facto de o semantismo destes verbos ser adequado a um complemento proposicional e inclui-se, por conseguinte, uma referência especial aos “verbos de representação mental” (“verbes de représentation mentale”) (ver idem, ibidem: 183). Considera-se, na linha das propostas de descrição sintáctica já referidas, que os atributos (adjectivais) provêm de “[...] la réduction d‟une subordonnée complétive attributive dont le sujet est devenu l‟objet du verbe principal” (idem, ibidem). Consequentemente, ambos os enunciados acima, 8.6 e 8.6a, compreenderão a construção de uma relação predicativa, nos termos deste autor, entre o “atributo” (próximo), por um lado, e o “sujeito da completiva” (o fim do mundo), por outro. A haver uma diferença entre as duas estruturas de complementação será, segundo Riegel (ibidem), “d‟ordre iconique”: “[...] dans les constructions complétives, c‟est la prédication attributive subordonnée qui se situe globalement dans le champ du 378 Ainda segundo Riegel (1981), conforme a função atributiva do adjectivo recaia sobre o grupo nominal sujeito (Il devient vieux) ou sobre o complemento de objecto directo (Ses parents le croyent malade), assim se obtêm as estruturas SN1 – V – Adj ou SN1 – V – SN2 – Adj e se identificam, respectivamente, os “verbos de atributo do sujeito” (“verbes à attribut du sujet”) e os “verbos de atributo do complemento de objecto directo” (“verbes à attribut du c.o.d.”), podendo, uns como outros, ser verbos essencialmente ou ocasionalmente atributivos (ver idem, ibidem: 23ss). 379 Em Marrafa (1983: 94), como, aliás, em Demonte; Masullo ([1999] 32000: § 38.3.1), para se referir este facto, adoptam-se as designações geralmente utilizadas na literatura: “predicado orientado para o sujeito” e “predicado orientado para o objecto”. Atente-se que, em Riegel (1981), a estrutura de complementação dos verbos em análise num enunciado como 8.6a, compreenderá um objecto directo acrescido de um elemento ou termo predicativo, descrição esta que não coincide com a que aqui propomos.
291 verbe. Dans les constructions à a.o. [atributo de objecto], l‟objet se trouve syntaxiquement en rapport direct avec le verbe, et son référent apparaît ainsi directement affecté par le processus verbal" (idem, ibidem: 186). Por outras palavras, segundo Riegel, nas “construções com atributo de objecto”, o verbo, de natureza transitiva, mediatiza uma relação predicativa entre o seu objecto e o atributo de objecto: este tipo de construção permite “[...] de combiner la caractérisation prédicative de l‟objet et de „mimer‟ syntaxiquement le rapport direct que le procès verbal instaure entre le sujet et l‟objet [...]” (idem, ibidem). Ainda que, como em Riegel (1994), se insista na atribuição da função sintáctica de “complemento directo” ao, por nós designado, argumento C0 da relação imbricada, em J. Fonseca (1993), tecem-se algumas considerações, em particular, no que respeita os verbos transitivos predicativos “afectados por um traço de modalidade”, que vão no sentido de reconhecer a especificidade do seu funcionamento. Com base no princípio aí sugerido de que “[...] a conveniência semântica complemento directo/TP [termo predicativo] se projecta tomando em conta a afinidade entre V e o complemento directo” (idem, ibidem: 59), não só se afirma a ideia (atrás referida e que preconizamos) de que os verbos transitivos predicativos (“afectados por um traço de modalidade”) formam uma unidade com o termo predicativo (fala-se de “compatibilidade” entre ambos), como se sugere o facto de o termo predicativo incidir sobre o (por este autor considerado) “complemento directo”. Propõe-se, mais concretamente, que “[...] a grande maioria dos verbos transitivos predicativos (e particularmente os que são afectados por traço de modalidade) manifestam uma larga abertura no que tange à compatibilidade semântica com o TP [termo predicativo] que endossam ao seu complemento directo” (idem, ibidem).
292 A natureza desta relação – que, segundo Riegel, o verbo instaura entre o sujeito (lugar do processo cognitivo no caso dos verbos conceptuais) e o objecto, e que dita o “traço de modalidade” que, segundo J. Fonseca, afecta, particularizando, os verbos em análise -, permite, entre outras coisas, explicar a impossibilidade de certos verbos - como, por exemplo, os verbos admitir, lamentar - coocorrerem com uma construção com um atributo de objecto380. Permite, igualmente, explicar as características aspectuais das relações predicativas imbricadas que ocorrem em enunciados cujo verbo principal é um verbo conceptual. Mais propriamente, permite explicar o facto de a construção predicativa transitiva, no caso dos verbos conceptuais, não indicar o resultado de uma transformação do objecto. Efectivamente, embora não imponham restrições categoriais e semânticas aos elementos atributivos que com eles ocorrem (veja-se a possibilidade de estes corresponderem a um grupo nominal - um assunto escabroso - ou a um adjectivo - inocente381), os verbos conceptuais impõem restrições aspectuais. Em virtude da natureza estativa que caracteriza estes verbos, não é, nomeadamente, possível que a construção transitiva-predicativa, seu complemento proposicional, apresente uma interpretação resultativa. Apresenta, necessariamente, isso sim, uma interpretação descritiva (ver Marrafa, 1993; Pereira, 1997)382 383. 380 A natureza factiva do complemento proposicional (ver § 3.1.2) exclui qualquer relação directa entre o sujeito e um predicado complexo: O João admitiu que a Ana é bonita / *O João admitiu a Ana bonita; Lamento que estejas cansada / *Lamento-te cansada. 381 Conforme já referido e exemplificado, à possibilidade de o termo predicativo corresponder a um grupo nominal ou a um grupo adjectival (casos ilustrados nos enunciados 8.1a a 8.7a), acrescente-se o caso em que este corresponde a um grupo preposicional. 382 Já atrás referida, a distinção entre predicados descritivos e resultativos revela-se mais operatória na descrição das características aspectuais dos predicadores secundários e na explicação das restrições de ocorrência que estes registam com os diferentes tipos de predicados primários, do que a distinção [+ perfectivo] / [- perfectivo], mediante a qual se pretende dar conta do valor aspectual dos adjectivos (ver Pereira, 1997: §§ 2.2 a 2.2.4, mas também Demonte, 1991 e Marrafa, 1993). A nossa opção, neste trabalho, por uma referência a esta realidade em termos de “interpretação resultativa” vs “interpretação descritiva” segue de perto a mesma opção em Pereira (ibidem) e deve-se ao facto de esta classificação não se aplicar, de forma estanque, aos predicadores secundários, dependendo, isso sim, dos verbos com que estes
293 A determinação definida (ou outras formas de determinação preponderantemente qualitativa) do argumento C0 da relação imbricada pode constituir, noutros contextos (com verbos de natureza não estativa, ou eventiva), um marcador da quantidade do processo em causa - definindo, por conseguinte, um estado resultante, com reflexo na interpretação resultativa de um eventual termo predicativo. Mas nos enunciados em estudo, a natureza estativa do processo em causa não assenta numa qualquer centralidade do objecto enquanto elemento que define a quantidade do processo, isto é, enquanto termo localizador. Contrariamente ao que se daria noutros contextos (com verbos de natureza não estativa, ou eventiva), o argumento C0 da relação imbricada não é, nestes casos, afectado pelo valor temporal do processo, pelo que não se constrói, apesar do tempo pretérito que caracteriza os verbos das relações imbricantes, um estado resultante a partir de um objecto384. coocorrem. Aliás, o facto - reconhecido mas não subscrito em Pereira (ibidem: 54) – de, em Marrafa (ibidem: 230), se propor que os resultativos não são predicados secundários (em virtude de constituírem, juntamente com o verbo, uma unidade léxico-conceptual) aponta exactamente para esta perspectiva de classificação de funcionamentos mais do que de formas. 383 Ver, a este propósito, Pereira (1997) onde, de acordo com Hoekstra (1988), se afirma que “A distribuição das construções resultativas é determinada pela noção aspectual de não-estatividade, i.e., apenas verbos não-estativos podem combinar-se com uma estrutura de complementação que denote resultado” (Pereira, ibidem: 63); por outras palavras, apenas os predicados eventivos implicam um resultado, sendo esse resultado expresso pelo termo predicativo. Também em J. Fonseca (1993), com base na concepção de uma “subestrutura predicativa” integrada nos enunciados que apresentam uma configuração transitiva-predicativa ou completiva, se afirma, na linha do que aqui expomos, que “[...] o TP [termo predicativo] realiza as funções semânticas de descrição ou de descrição-identificação” (idem, ibidem: 39). 384 Com o verbo num tempo pretérito, seriam, mais naturalmente, os enunciados 8.2a, 8.4a, 8.5a e 8.7a aqueles que, não fosse a sua natureza estativa, remeteriam para um estado resultante como forma de estabilização do processo, uma vez que o estatuto do objecto, quando determinado por referência a um objecto interno, é subsidiário, não exclusivamente mas também, da temporalização do processo: “[...] la temporalisation affecte le C1 dans la mesure où la notion prédicative associée au procès contient elle-même un objet interne définissable comme le –able du procès” (Franckel; Paillard, 1989: 117).
294 Ou seja, como teremos oportunidade de descrever adiante, não se constrói qualquer delimitação do processo a partir de um objecto, nem se dá qualquer transformação de um objecto pelo processo, o que tem um reflexo na natureza aspectual do termo predicativo. Veja-se, assim, nos enunciados 8.1a a 8.7a, aqui retomados, a forma como os termos predicativos são, invariavelmente, de natureza descritiva: 8.1a Acha o amor um assunto escabroso? (Ref:L0379P0398X) 8.2a Eu julgava-os amigos (Ref: L0494P0141X) 8.3a Ninguém o acreditaria inocente (Ref: L0016P0378X) 8.4a Pensava-a capaz de resolver o problema 8.5a Imaginava coisas, supunha-a assassinada (Ref: L0501P0031X) 8.6a O Pedro crê o fim do mundo próximo 8.7a Sabia-a manchada de um grande pecado (Ref: L0003P0395X) Os predicadores adjectivais assassinada (8.5a) e acabada (8.10) 8.10 A casa que comprei? Creio-a acabada podem, no entanto, suscitar dúvidas quanto à sua natureza aspectual, atendendo a que se está perante adjectivos deverbais. Mas, referindo-se os resultativos a estados finais, a sua natureza não é independente da natureza eventiva do predicado principal (ver Demonte, 1991 e Pereira, 1997). O estado final para que remete um termo predicativo com uma interpretação resultativa corresponde ao estado que tem lugar quando se completa determinado processo, expresso pelo predicado principal: o termo predicativo “[...] spécifie l‟état résultatif de l‟objet à l‟issue du procès qui le constitue (le verbe [principal] s‟interprète alors comme créateur ou modificateur de l‟objet)” (Riegel, 1994: 188). Em consequência da natureza aspectual não eventiva (estativa, aliás)
295 de qualquer dos predicados principais em análise, confirma-se a interpretação descritiva atribuível a cada um destes termos predicativos, assim como a impossibilidade de estes apresentarem uma interpretação resultativa385. Aliás, a natureza da relação que, em virtude dos valores modais de que é marcador (ver § 5), um qualquer verbo conceptual instaura entre o sujeito - lugar do processo cognitivo - e o seu objecto - por definição, de natureza intensional e, portanto, não afectado pelo processo inerente a crer, pensar, achar, julgar (ver § 8.1) - não é compatível senão com a construção de um predicado descritivo. Mas o facto de, no âmbito desta relação, o objecto dos verbos conceptuais não ser um objecto afectado e a consequente natureza descritiva (não resultativa) da interpretação atribuível ao termo predicativo, não são dados consensualmente aceites. Em Marrafa (1993), por exemplo, reconhecendo-se a relevância das propriedades sintáctico-semânticas do predicado principal na definição das propriedades do predicado secundário, recupera-se – conforme referimos atrás, a 385 Do facto de os verbos conceptuais apenas permitirem a construção transitiva-predicativa de natureza descritiva decorre igualmente mais um factor que confirma a diferença de funcionamento entre estes verbos e os verbos performativos (ver § 6.2). Por exemplo, em Declaro o João vencedor ou Nomeio-te oficial da legião de honra, os verbos performativos declarar e nomear são seguidos de um termo predicativo (vencedor, oficial da legião de honra) que especifica o estado resultativo do objecto (o João, -te) à saída do processo de transformação de que os verbos performativos são expressão. A enunciação da fórmula declarativa performativa tem como efeito conferir ao objecto o estatuto expresso pelo termo predicativo, pelo que a predicação construída é de natureza resultativa. Daí que dos predicados performativos se diga serem, simultaneamente, enunciativos e causativos (ver Riegel, 1994: 185). Em J. Fonseca (1993), referem-se outros verbos, não exclusivamente performativos, cujo semantismo é marcado por causatividade. É o caso dos verbos, também transitivos predicativos, eleger, manter, destituir. Em cada um dos casos exemplificados por este autor – Os colegas elegeram o Zé chefe da turma, Os colegas mantiveram o Zé como chefe da turma, Os colegas destituíram o Zé de chefe da turma -, se dá o que refere como “uma condensação em solução léxica – integração léxica – de uma expressão analítica [da causalidade], respectivamente, fazer passar a ser, fazer continuar a ser, fazer deixar de ser” (idem, ibidem: 41ss). A reflexão proposta em J. Fonseca (ibidem), em particular, acerca dos verbos transitivos predicativos causativos corrobora a relevância das características aspectuais dos termos predicativos na descrição das construções transitivas predicativas em geral.
296 partir da proposta de Tenny (1987) - as designações de “verbos de criação do objecto” e de “verbos de transformação do objecto” (idem, ibidem: 231), como alternativa às designações, atrás introduzidas, de predicados descritivos (predicados secundários, por excelência) e resultativos (que não integram uma segunda predicação). Ora, a designação de “verbos de transformação do objecto” cobre, segundo a autora, os verbos conceptuais aqui estudados, o que implica que, contrariamente ao que possa ser sugerido através do que vimos afirmando, haverá, em enunciados como 8.1a a 8.7a, – afirma – “[...] uma espécie de transformação conceptual do objecto em consequência da actividade mental do sujeito” (idem, ibidem). Em Pereira (1997), comenta-se esta afirmação de Marrafa sugerindo-se que “[...] a haver uma transformação, ela incidirá sobretudo sobre o sujeito, na medida em que afecta a sua representação mental do objecto” (idem, ibidem: 61). Tendo em linha de conta um Critério Temático, a posição veiculada em Marrafa justifica-se na medida em que o sujeito é concebido de acordo com a função temática que recebe do verbo (ver Marrafa, ibidem: § 6)386. Porém, numa perspectiva enunciativa, o facto de este tipo de enunciados se caracterizar por um valor modal epistémico implica uma centralidade do sujeito, enquanto parâmetro enunciativo abstracto (ver § 3.3.1), facto que, por si só, invalida a construção de ocorrências espácio-temporalmente definidas e, portanto, a 386 Mesmo de acordo com o Critério Temático, não é consensual a natureza da função temática atribuível ao sujeito sintáctico dos verbos conceptuais. Há, entre as diferentes propostas - entre outros, em Marrafa (1993) -, hesitações quanto à interpretação temática ou agentiva atribuída ao sujeito destes verbos. Em H. Campos ([1999] 32000: § 24.2.2), reconhece-se ao sujeito dos verbos de atitude proposicional ou de percepção intelectual - assim como aos verbos de percepção física - o papel semântico de experienciador (“experimentante”). Relativamente ao objecto destes verbos, afirma-se a impossibilidade de, contrariamente ao proposto em Demonte (1991) e Marrafa (1993), os classificar simplesmente como objectos “afectados, efectuados o desplazados”. Tratar-se-á, assim, de “objectos percebidos” (“objetos percibidos”), rótulo que integra o papel semântico geral de “paciente” (H. Campos (ibidem: § 24.2.32: 1537) e que – acrescenta este autor – é um subtipo de um “objeto efectuado o un tema” (idem, ibidem: § 24.2.3: 1539). Em J. Fonseca (1993), referindo-se a “transitividade forte” que caracteriza os verbos transitivos predicativos, reconhece-se que “[...] o seu complemento objecto directo (CD) surge como affectum (paciente), como effectum (efeito, resultado) ou como mero pólo de aplicação do processo que eles denotam [...]” (idem, ibidem: 33).
297 construção de determinados valores aspectuais, nomeadamente, de estados resultativos. Não há, pois, a construção de ocorrências quantitativas; há apenas a construção de um juízo qualitativo. A relação predicativa imbricada é localizada, globalmente, em relação ao sujeito (S2) da relação predicativa imbricante, definido por referência ao parâmetro subjectivo que define uma situação enunciativa (ver § 5.1). Por outras palavras, a construção de uma “representação mental de um objecto”, de um juízo ou, mais concretamente, de um valor modal epistémico ou mesmo apreciativo, implica que o sujeito seja o seu suporte, isto é, implica que o sujeito seja o localizador do valor modal de uma relação predicativa tomada no seu conjunto. A relação predicativa imbricada é, assim, globalmente, o “objecto” dos verbos conceptuais, objecto intensional que, assumindo diferentes configurações sintácticas – isto é, correspondendo, por exemplo, a uma completiva (com complementador que) ou a uma construção transitiva-predicativa (não rejeitando, porém a designação de “oração pequena”) - é sempre um objecto proposicional. Não pode, pois, considerar-se que, no caso dos enunciados propostos, haja a saída de um processo (ou “achèvement”), nem a consequente afectação do objecto pelo processo (ou estado resultante) – daí a impossibilidade de uma interpretação resultativa do termo predicativo. Não pode, ainda, considerar-se que haja apenas uma localização de um evento no tempo (centrado na actividade do sujeito S2 dos verbos conceptuais) sem que se possa estabelecer uma relação entre a cessação do processo e o estado do objecto387. Nos enunciados 8.1a a 8.7a, não há construção de ocorrências no âmbito do que seria a articulação entre um processo e um objecto (C1). Como se afirma em Campos (1996) relativamente ao predicado gostar, os predicados expressos por verbos conceptuais não têm, nocionalmente, um objecto interno, “uma vez que não há restrições sobre o complemento que ocorre em posição de objecto” (idem, ibidem: 195), isto é, uma vez que não definem uma classe de instanciáveis em relação ao segundo lugar argumental (C1). Nos enunciados 8.1a a 8.7a, cada um dos argumentos C1 – objecto preposicional, de natureza intensional – realiza um 387 A localização de um evento no tempo dar-se-á, por exemplo, num enunciado como O João leu livros.
304 9.1 Valor modal e valor não modal de achar e de julgar Conforme atrás referido (ver § 8.2), de entre os verbos aqui estudados, achar, julgar, pensar, acreditar e saber podem ocorrer com uma construção transitiva com um objecto nominal, que passamos a exemplificar391 392: 9.1 O João achou as chaves 9.2 O juiz julgou o réu 9.3 O João pensou a vida393 9.4 Então ele haverá quem acredite patranhas de semelhante traste, diga-me só? Nem o próprio, quanto mais (Ref: L0015P0047X) 391 Refira-se que, subjacente ao problema do estatuto do objecto dos verbos conceptuais, o conceito de transitividade não se caracteriza segundo o princípio intuitivo de que existem propriedades que transitam para o argumento objecto, ou de que há uma mudança de estado ao nível do objecto. Conforme se descreve e explica em de Vogüé (1991), interferem com o fenómeno da transitividade os diversos tipos de funcionamento que, regulados pelo léxico, os processos construídos apresentam (ver § 2.3.1). Consequentemente, tal como defende esta autora, no tratamento deste fenómeno, impõe-se uma lógica de funcionamentos em detrimento de uma lógica de classes. É esta a perspectiva que preside ao estudo por nós proposto quando se fala de construções transitivas ou de construções intransitivas. Sobre o problema teórico que a transitividade representa ver, além de de Vogüé (1991), Guillemin-Flescher (1994), entre outros. 392 Questionável sob o ponto de vista da TFE, em Lebaud (1990), referindo-se às propriedades distribucionais de diferentes verbos, entende-se que, quando um verbo é susceptível de ter como complemento objecto uma proposição completiva ou infinitiva, se trata de um verbo operador (“verbe opérateur”). Quando o complemento é de natureza nominal, está-se perante um verbo simples. 393 Relativamente ao verbo pensar, coexiste com esta possibilidade de construção de um objecto nominal (O João pensou a vida), a possibilidade de o objecto construído ser de natureza preposicional: O João pensou na vida (ver § 11.1). A ocorrência desta construção com objecto preposicional é, no corpus de que dispomos para este estudo, mais frequente do que a construção com objecto nominal.
305 9.5 O João sabe a lição Note-se que se, por um lado, quando com um objecto nominal, o sentido dos verbos pensar, acreditar e saber – enunciados 9.3, 9.4 e 9.5 - se mantém inalterável relativamente a quando têm como objecto um complemento proposicional – sempre com um sentido associado à construção de um valor de modalidade epistémica -, por outro lado, o sentido dos verbos achar e julgar é, nos enunciados 9.1 e 9.2, diverso daquele que assumem quando têm como objecto uma proposição (ver § 8.2)394. Quando com um complemento proposicional, o objecto de achar e de julgar é de natureza intensional, dando-se a construção de um valor modal (epistémico, nos exemplos até agora tratados). Do ponto de vista aspectual, com um objecto nominal, achar (enunciado 9.1) corresponde a um evento instantâneo, de natureza télica, parafraseável por encontrar395 396. Julgar (enunciado 9.2) passa a referir uma actividade performativa, em que, por definição e segundo Austin ([1962] 21975), o acontecimento enunciativo e o acontecimento fenomenal coincidem. Não se está, 394 Recorde-se que, tendo presente o que se propõe em Riegel (1994), os verbos achar e julgar não se enquadrarão na classe dos “verbos ocasionalmente atributivos”, pois, em virtude da mudança de sentido que registam no seu emprego transitivo, não apresentam “construções transitivas de alargamento atributivo” (“constructions transitives à élargissement attributif”) (ver Riegel, 1994: 177ss, 187) (ver § 8.2). 395 Deve-se à natureza télica de achar (= encontrar) a impossibilidade de ocorrência do presente gramatical para dar conta de um valor estativo, simultâneo ao tempo da enunciação. Podemos, no entanto, ter o presente gramatical de achar (= encontrar), em coocorrência com um adverbial marcador de um valor temporal de posterioridade, (Mais tarde, acho as chaves), ou com um adverbial de natureza proposicional, marcador de um valor de ruptura (Quando precisar, acho as chaves). 396 Esta configuração de sentido que achar pode assumir quando com um objecto nominal tem raízes na sua etimologia. Etimologicamente, achar advem do latim, AFFLĀRE (por ADFLĀRE), cujo sentido seria “soprar sobre; acção do que é levado pelo sopro”, verbo que também era usado no desporto venatório, quando o cão cheirava a caça (“canis leporem afflat”). Daí – propõe-se em Machado ([1952] 51995) –, o sentido de encontrar, que – diz – parece datar de época relativamente recuada. Este facto serve, segundo este autor, para admitir a hipótese de que AFFLĀRE teria sido o mais antigo substituto de INVENIRE.
306 portanto, num caso como no outro, perante a construção de um valor de determinação modal. Note-se igualmente a forma variável como se interpretam os grupos adjectivais que se lhes associe, em função da dupla configuração de sentido que achar e julgar apresentam: 9.1a O João achou as chaves espalhadas pelo chão 9.2a O juiz julgou o réu imperturbável No enunciado 9.1a, espalhadas pelo chão corresponde, inequivocamente, a um termo predicativo opcional (ou adjunto) orientado para o objecto directo (as chaves), correspondendo, assim, a um predicado secundário (ver § 8). Achar não assume, por conseguinte, um valor modal. No enunciado 9.2a, imperturbável presta-se a ser interpretado, quer como adjectivo epíteto, modificador do nome (réu)397, quer, de acordo com uma interpretação preferencial, como termo predicativo que pode, por sua vez, estar orientado ou para o grupo nominal o juiz ou para o grupo nominal o réu398. Só no caso de, de acordo com a segunda hipótese interpretativa, o termo predicativo estar 397 A interpretação deste enunciado basear-se-ia, inequivocamente, no funcionamento do adjectivo imperturbável como modificador subjectivo caso este adjectivo antepusesse o N. Contrariamente ao que se dá no enunciado 9.2a, quando o adjectivo imperturbável se interprete como modificador e em que, posposto, qualifica o grupo nominal, neste outro caso – O juiz julgou o imperturbável réu – o adjectivo, anteposto, predica uma propriedade sobre o grupo nominal. Sobre o diferente valor de determinação dos grupos nominais, em função da posição, anteposta ou posposta, dos adjectivos em relação ao nome, ver, entre outros, Correia (2002). 398 A concordância, neste caso apenas em número, exclusivamente com o grupo nominal o juiz ou com o grupo nominal objecto directo o réu, invalidaria qualquer ambiguidade. Imperturbável seria, num caso (O juiz julgou os réus imperturbável), um termo predicativo orientado para o grupo nominal o juiz, e, no outro caso (Os juizes julgaram o réu imperturbável), um termo predicativo orientado para o grupo nominal o réu.
307 orientado para o grupo nominal o réu, se pode reconhecer a associação de um valor modal a julgar. Parecer-nos-á que os termos predicativos destes enunciados – respectivamente espalhadas pelo chão e imperturbável – são ambos opcionais, isto é, predicativos adjuntos. Porém, só no caso do enunciado 9.1a estamos perante um termo predicativo adjunto (ou opcional), em virtude de, só neste caso, a sua presença não alterar o sentido do verbo relativamente ao caso em que esteja ausente (ver enunciado 9.1). Pelo contrário, em 9.2a, a presença do termo predicativo imperturbável, se interpretável – como atrás referíamos - enquanto orientado para o grupo nominal o réu, faz com que o verbo possua um sentido distinto daquele que tem quando não se regista a presença de qualquer termo predicativo (ver enunciado 9.2), pelo que este termo predicativo não é adjunto (ou opcional) mas sim obrigatório399 400. Procedamos à manipulação dos enunciados 9.3, 9.4 e 9.5, associando aos respectivos complementos objecto grupos adjectivais: 9.3a O João pensou a vida interessante e estimulante 399 Este facto – a diferença de sentido que se reconhece no verbo julgar consoante este se emprega com construções transitivas com objecto nominal ou com construções transitivas predicativas – e as considerações daí decorrentes são extensivos a um verbo como considerar. Quando coocorre com um termo predicativo, o verbo considerar tem outro sentido: O Comité Olímpico considerou as candidaturas; O Comité Olímpico considerou as candidaturas válidas e igualmente elegíveis. 400 Em Demonte; Masullo ([1999] 32000: § 38.3: 2499), propõe-se, como teste que permite identificar a natureza obrigatória ou optativa de um termo predicativo, a determinação das implicações lógicas da oração (“los entrañamientos o implicaciones lógicas de la oración”). Assim, O João achou as chaves espalhadas pelo chão implicará O João achou as chaves e uma predicação secundária, As chaves estavam espalhadas pelo chão. O juiz julgou o réu imperturbável (sendo imperturbável interpretado como termo predicativo orientado para o grupo nominal o réu) não implica senão que O réu, o juiz julgou-o imperturbável, sem que, portanto, imperturbável seja um predicativo adjunto a que corresponda a construção de uma predicação secundária.
308 9.4a Então ele haverá quem acredite patranhas de semelhante traste bem sucedidas, diga-me só? 9.5a O João sabe a lição aprendida por todos A associação de grupos adjectivais ao complemento objecto destes enunciados prestar-se-á a ser interpretado de forma variável. Preservando o sentido modal epistémico destes verbos quando em coocorrência com um complemento proposicional, estes enunciados suscitam-nos diferentes considerações. No enunciado 9.3a, o grupo adjectival interessante e estimulante pode ter, de acordo com os informantes, uma interpretação preferencial como modificador do nome ou pode corresponder, menos preferencialmente, a um termo predicativo adjunto, orientado para o objecto. No enunciado 9.4a, bem sucedidas interpretar-se-á como um termo predicativo que, em função da boa formação de 9.4, é adjunto, e igualmente orientado para o objecto. No enunciado 9.5a, o grupo adjectival aprendida por todos é preferencialmente interpretável como modificador do nome, e não tanto (como também será possível) como termo predicativo401. Em todos estes casos, porém, pensar, acreditar e saber preservam o seu valor modal, sendo os casos de ambiguidade aqui ilustrados de natureza estrutural. Só no caso do enunciado 9.2a se pode falar de uma ambiguidade de tipo lexical (com obvias consequências estruturais). O enunciado 9.2a é um caso de ambiguidade lexical, isto é, de ambiguidade motivada pela mudança de sentido, neste caso, do verbo julgar402. 401 Veja-se como a substituição, nestes enunciados, dos grupos nominais a vida, patranhas de semelhante traste e a lição por pronomes - à semelhança do que se verifica nos enunciados 8.2a a 8.5a e 8.7a (ver § 8.2) - acarreta uma interpretação inequivocamente transitiva-predicativa dos enunciados daí resultantes: (i) O João pensa-a interessante e estimulante (ii) Então ele haverá quem as acredite bem sucedidas? (iii) O João sabe-a aprendida por todos 402 Sem se precisar a distinção aqui proposta, também em J. Fonseca (1993) se refere o fenómeno da ambiguidade ao nível dos verbos de dupla configuração: “[...] a coexistência sob o mesmo significante léxico de uma dupla configuração modular que dê lugar à oposição V transitivo / V predicativo transitivo ocasiona momentos de ambiguidade imediata
309 A possibilidade de mudança de sentido do verbo achar quando com um complemento nominal também pode - como verificamos dar-se com julgar - originar casos de ambiguidade. O enunciado 9.1 escapa a este tipo de ambiguidade, em virtude da natureza aspectual resultativa do termo predicativo espalhadas pelo chão, incompatível com o sentido de achar epistémico, de natureza estativa (ver § 8.2). Consequentemente, o sentido do verbo achar é aqui eventivo (parafraseável por encontrar) e o termo predicativo é, inequivocamente, um termo predicativo adjunto orientado para o objecto directo (as chaves), correspondendo, como dizíamos, a um predicado secundário. Vejamos, porém, a que interpretações se presta um enunciado como 9.6: 9.6 Achámo-lo cansado O termo predicativo cansado pode corresponder, seja a um termo predicativo adjunto orientado para o objecto directo do verbo, seja a um termo predicativo obrigatório ou seleccionado, integrando o objecto proposicional do verbo. Desde que enquadrado contextualmente - conforme se propõe com os enunciados 9.6a e 9.6b - a relação predicativa complexa achámo-lo cansado pode, assim, ser interpretada em função, respectivamente, do sentido de achar não modal (= encontrar) ou do sentido de achar modal, neste caso, com valor epistémico. 9.6a Procurámos o Luís por toda a parte e achámo-lo cansado 9.6b Cruzámo-nos com o Luís e achámo-lo cansado (em tempo desfeita pelos contextos), sempre que [como se dá nos enunciados 9.3a e 9.5a], projectando-se o verbo como transitivo predicativo, o TP [termo predicativo] surja realizado em SA” (idem, ibidem: 56).
310 Só o enunciado 9.6b se pode parafrasear com recurso a uma completiva flexionada (9.6b‟), pelo que só neste enunciado, a sequência achámo-lo cansado corresponde a uma oração pequena: 9.6a‟ ??Procurámos o Luís por toda a parte e achámos que ele estava cansado 9.6b‟ Cruzamo-nos com o Luís e achámos que ele estava cansado No enunciado 9.6a - naturalmente não parafraseável com recurso a uma completiva flexionada (9.6a‟) -, o termo predicativo cansado é um adjunto (opcional, portanto) orientado para o objecto directo (-lo), correspondendo a um predicado secundário. Vejamos como, contrariamente ao verificável com o enunciado 9.6b, a predicação secundária do enunciado 9.6a pode ser passivável: 9.6a‟‟ O Luís foi achado por nós cansado A atribuição de um sentido modal a achar, assim como a julgar, dever-se-á, portanto, à natureza do objecto que se lhe associa. Quando ocorrem com um objecto de natureza proposicional, isto é, com um objecto intensional, atribui-se-lhes um valor modal. Quando construídos com um objecto nominal, com possibilidade, portanto, de ocorrência de uma predicação secundária sobre o objecto, o sentido de achar e de julgar é não modal. Veja-se, por conseguinte, que nem o tipo de determinação dos grupos nominais objecto dos verbos achar e julgar é critério para a sua alteração de sentido. Se os grupos nominais objecto dos verbos achar e julgar apresentam, respectivamente, nos enunciados 9.1, 9.2 (e enunciados resultantes da sua manipulação, 9.1a, 9.2a), um valor de determinação marcado pelo artigo definido (as chaves, o réu) – mais concretamente, um valor de reidentificação, ou identificação qualitativa em relação a um pré-construído -, admitindo a hipótese de estes grupos nominais objecto apresentarem uma determinação indefinida –
311 marcadora de uma operação de extracção -, nos casos de 9.1b, 9.2b, o sentido dos verbos não se altera, permanece associado a um valor não modal: 9.1b O João achou uma chave 9.2b O juiz julgou um réu Sendo a preponderância de uma determinação qualitativa (marcada pela definitude e não só) uma condição para que haja uma construção transitiva-predicativa (ver § 8.1), uma determinação indefinida do nome réu, conforme ocorre no enunciado que se segue (9.2c), invalidaria uma interpretação mediante a qual imperturbável correspondesse a um termo predicativo seleccionado, orientado para o nominal réu (interpretação esta – vimo-lo – associada à mudança de sentido do verbo julgar, relativamente àquele que tem quando não se regista a presença de qualquer termo predicativo): 9.2c O juiz julgou um réu imperturbável O enunciado 9.2c permite constatar, aliás, que a determinação indefinida do grupo nominal (neste caso, objecto directo), invalidando a hipótese de o sentido de julgar obedecer a uma configuração de sentido com valor modal epistémico, é compatível apenas com ambas as descrições estruturais que dele podemos propor. Destas resulta o sentido não modal de julgar e, correlativamente, duas hipóteses interpretativas: uma interpretação de acordo com a qual imperturbável é um modificador do nome, e outra interpretação de acordo com a qual imperturbável corresponde a um termo predicativo adjunto orientado para o sujeito (o juiz).
312 9.1.1 Outros valores modais de achar: valores apreciativo e intersubjectivo Tendo em vista uma sistematização dos valores modais apreciativo e intersubjectivo de que achar pode ser marcador, partamos de uma série de enunciados cujos verbos conceptuais introdutores contrastam, como veremos, em termos de funcionamento, com achar. Retomemos, para tal, o enunciado 9.4 – atrás introduzido (ver § 9.1) -, em que o grupo nominal (patranhas de semelhante traste) apresenta uma determinação zero (Ø), estando-se, neste caso, perante um “bare plural”, ou “plural não quantificado”403. Como este enunciado (aqui recuperado e renumerado como 9.7), vejamos outros em que, ocorrendo os verbos marcadores de um valor modal acreditar, julgar e supor, se verifica a coocorrência de grupos nominais assim determinados: 9.7 Então ele haverá quem acredite patranhas de semelhante traste, diga-me só? Nem o próprio, quanto mais (Ref: L0015P0047X) 9.8 Eles julgam coisas incríveis a teu respeito 9.9 Supomos horrores a teu respeito Os enunciados acima só são gramaticais se os grupos nominais com a função de objecto, assim determinados (com determinante Ø), forem plurais. Estando em causa, aliás, uma construção „V Ø N‟ cujos Ns apresentam um funcionamento discreto, nestes enunciados, está ilustrado o facto, sintetizado em Correia (2002), de que “Com Ns discretos a possibilidade de ocorrência de determinante Ø, em português, só é possível numa posição de OD, quando os Ns são [+ plural]” (idem, ibidem: 209). 403 Embora em Mateus et aliae (2003), se designe os “bare plural” como “expressões plurais indefinidas determinadas quantitativamente” (idem, ibidem: 229), a tradução para português do termo linguístico “bare plural” não se encontra estabilizada num termo que permita dar conta deste conceito de forma sucinta e fiel. Consequentemente, optamos, no decurso deste trabalho, ora pela manutenção da designação original, “bare plural”, ora pela designação “plural não quantificado”.
313 Mas, se estes enunciados só admitem a pluralização dos grupos nominais, outros há em que a pluralização dos grupos nominais não é possível sem que a introdução de qualquer mudança em termos de determinação nominal acarrete uma alteração de sentido dos verbos e dos valores de determinação modal por si marcados. É o caso, precisamente, dos seguintes enunciados com achar, verbo com o qual é muito produtiva uma complementação nominal com determinante Ø. 9.10 Papá! Ganhaste um prémio de literatura! Pela minha parte, não achei graça: - É para me dizer isso que telefonas? (Ref: L0749P0126X) 9.11 Maria achou graça diante de Deus 9.12 [...] imitando os outros, [...] achavam sabor em comentar a clássica e pitoresca ovelha tresmalhada de todos os burgos (Ref: L0023P0135X) 9.13 [...] todos acharam abrigo no cristianíssimo peito de D. Constantino (Ref: L0520P0181X) 9.14 Depois, quando veio acima, o seu sorriso achou espelho no rosto de cada camarada (Ref: L0281P0282X) 9.15 Quem vinha ganhar dinheiro tinha de dar a sua conta, ou então sucedia-lhe como ao tocador dos Cadafais, que só fizera um baile em Porto de Muge e nunca mais achara ganho em festa de avieiro (Ref: L0281P0078X) 9.16 Na proa, um alçava a candeia para achar caminho, enquanto o outro não largava os remos, sempre atento às indicações do camarada (Ref: L0281P0294X) 9.17 Nada mais diferente de um francês do que um português; nem eu compreendo que satisfação, que gozo possa achar o espírito português em se nutrir, em se banhar nas criações do espírito francês (Ref: L0299P0405X) 9.18 Ora essa! Então parece-lhe que se pode achar gosto em lê-los? (Ref: L0016P0035X)
320 A asserção apreciativa, positiva ou negativa (isto é, de aprovação ou de reprovação)411, corresponde, nestes enunciados, apenas à construção, por parte do enunciador, de uma apreciação sobre o carácter interessante, engraçado, bom, mau, etc. do conteúdo proposicional de uma relação predicativa construída como validada (ou como não validada, no caso de 9.26) noutra situação de enunciação (Sit) que não na situação de enunciação em curso (Sit0). Conforme se propõe em Campos (no prelo b), “o valor apreciativo corresponde à apreciação sobre um estado de coisas como desejável ou indesejável [sublinhados do autor]. Em T tempo da enunciação, o sujeito modal emite um juízo intelectual ou emotivo, positivo ou negativo, [...] sobre uma ocorrência de uma relação predicativa cuja validação ou não-validação foi construída numa situação de enunciação distinta daquela em que é construído o valor modal em análise” (idem, ibidem: 6). Nos enunciados 9.23 a 9.26, as asserções modalizadas apreciativamente correspondem, efectivamente, a pré-construídos. A construção e a validação das relações predicativas <as tuas redes neuronais, configurar-se, desse jeito> (9.23), <tu, mascarares-te, de fantasma> (9.24), <tu, visitares, tio> (9.25) e a não-validação da relação predicativa <Luisa, estudar, de manhã> (9.26) dão-se numa situação de enunciação (Sit) distinta de Sit0. Pelo facto de a validação / não-validação das relações predicativas em causa se dar noutra Sit e de constituir um pré-construído, com a construção de uma modalidade de tipo apreciativo está em causa uma 410 Ver atrás (§ 3.1.1) referência – conforme proposto em Campos e Xavier (1991) - à também possível construção de um valor modal apreciativo incidente sobre uma relação predicativa que é construída e validada (ou não validada) na mesma situação de enunciação (Sit0). 411 Afirma-se, aliás, em J. Fonseca (1993), que, contrariamente ao que se verifica com outros verbos (por exemplo, infamar), “O verbo achar surge como amplamente aberto a apreciações diversas, realizadas em TP [termos predicativos], que respeitem ao seu complemento directo” (idem, ibidem: 58). Nos termos propostos por este autor, não comportará no seu semema, exclusivamente, o traço /+ apreciação negativa/ ou o traço /+ apreciação positiva/ (idem, ibidem).
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