O Impacto do Investimento Direto Estrangeiro no Exterior no País de Origem do Investimento
Full text
O IMPACTO DO INVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO NO EXTERIOR NO PAÍS DE ORIGEM DO INVESTIMENTO por Luísa Manuela Soares Duarte Tese de Mestrado em Economia Orientada por Professora Ana Teresa Tavares Lehmann 2014
i Nota biográfica Luísa Duarte, nascida a 28 de Março de 1990, natural de Oliveira de Azeméis. Licenciada em Economia pela Faculdade de Economia do Porto em 2012. Após conclusão da licenciatura, ainda no ano de 2012, iniciou a frequência do Mestrado em Economia. No ano seguinte concluiu a componente lectiva do mestrado, encontrando-se neste momento a apresentar a sua dissertação, sobre os efeitos do Investimento Direto Estrangeiro nos países de origem do investimento, para obter o grau de Mestre.
ii Agradecimentos Quero deixar um agradecimento a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para este trabalho. De forma especial à Professora Ana Teresa Tavares Lehmann por ter aceite me orientar, pelo alento determinante que sempre me transmitiu, sem si isto não teria sido possível. Obrigada. À Professora Aurora Teixeira, quero agradecer o tempo despendido e a partilha de conhecimentos que sem dúvida enriqueceram esta dissertação. À Professora Joana Resende, que me acompanhou numa fase inicial da dissertação na unidade curricular Plano de Dissertação, obrigada pelos comentários construtivos. Aos meus pais, que tornaram todo o meu percurso académico possível até hoje. À Rita Duarte e ao Paulo Faria, porque sei que nunca deixaram de acreditar. Ao meu afilhado, Martinho, por ser uma pequena, grande fonte de inspiração em momentos menos prósperos. E de uma forma geral, à família e amigos por me encorajarem sempre.
iii Resumo As empresas multinacionais e a globalização das suas atividades constituem temas de inegável relevância económica. Em particular, os fluxos crescentes de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) têm merecido atenção acrescida, na vertente científica e de política pública. Um tema deveras investigado é o do impacto do IDE. Contudo, a literatura neste âmbito tem-se focado no impacto do IDE no país recetor. O impacto no país emissor tem sido objeto de investigação mais escassa e mais recente. No entanto, têm-se gradualmente vindo a publicar mais trabalhos nesta vertente, e cada vez mais diversificados em termos de áreas de impacto. Em todo o caso, a literatura é dispersa e não existe, no nosso conhecimento, uma sistematização da mesma. É essa lacuna que esta dissertação pretende preencher, constituindo, assim, um contributo tangível para o estado da arte da discussão dos impactos do IDE no país de origem. Será realizada uma análise o mais exaustiva possível da literatura pertinente, confrontando estudos empíricos e respetivos resultados ao nível de diversas variáveis (emprego, output doméstico, produtividade, investimento doméstico, exportações/comércio internacional, inovação). O recurso a técnicas bibliométricas traz uma nova dinâmica e profundidade à revisão de literatura tornando possível a recolha e a classificação, segundo um conjunto de critérios, de um número considerável de artigos existentes sobre a temática e, assim, permitindo extrair algumas conclusões. Dos resultados da classificação é de destacar que não existe, em geral, um número significativo de artigos cujos os resultados tenham obtido somente efeitos negativos. No entanto, há a necessidade de um estudo específico para cada país de forma a constituir uma base de formulação de políticas que permita que as políticas públicas implementadas sejam as mais adequadas e ampliem os efeitos positivos do IDE no exterior. Códigos JEL: C89, F21 Palavras-chave: Investimento Direto Estrangeiro (IDE), país de origem, efeitos, impacto, bibliometria.
iv Abstract Multinational enterprises and their globalization are topics of undeniable economic importance. In particular, the increasing flows of Foreign Direct Investment (FDI) have received a growing deal of attention, in the academic literature and regarding public policy. A topic frequently investigated is the impact of FDI. However, the literature in this area has focused on the impact of inward FDI in the host country. The impact of outward FDI in the home country has been the subject of little research and only most recently. However, there has gradually been more research about this theme, with an increased diversity in terms of the impact areas. In any case, the literature is scattered and, to the best of our knowledge, a systematization of this literature does not exist. It is this gap that this dissertation aims to fill, thus constituting a significant contribution for the state of the art of the discussion of the impacts of outward FDI in the home country. An exhaustive analysis will be performed, comparing comparing a variety of studies and their results on variables (employment, domestic output, productivity, domestic investment, exports/international trade, innovation). The application of bibliometric techniques brings a new dynamic and an increased depth and rigor to the literature review making it possible to extract well grounded conclusions based on a considerable number of existing articles. The results of our classification highlight that does not exist, in general, a substantial number of articles whose results have obtained only negative effects. However, there is a need for a specific study for each country in order to design the most appropriate public policies, so that the policies implemented may amplify the positive effects of outward FDI. JEL Codes: C89, F21 Keywords: Outward Foreign Direct Investment (OFDI), home-country, effects, impact, bibliometric methodologies.
v Índice Agradecimentos ................................................................................................... ii Resumo ................................................................................................................ iii Índice .................................................................................................................... v Índice de figuras ................................................................................................. vi Índice de tabelas ................................................................................................ vii Introdução ........................................................................................................... 1 1. Revisão de literatura .................................................................................... 4 1.1. Emprego ............................................................................................................. 5 1.2. Output Doméstico e Crescimento Económico ................................................. 10 1.3. Produtividade ................................................................................................... 12 1.4. Comércio internacional/Exportações ............................................................... 16 1.5. Investimento doméstico ................................................................................... 21 1.6. Investigação e Desenvolvimento (I&D) .......................................................... 23 1.7. Outras áreas de impacto ................................................................................... 25 2. Metodologia ................................................................................................ 27 3. Aplicação das técnicas bibliométricas ...................................................... 29 3.1. Análise geral .................................................................................................... 33 3.2. Classificação e respectivos resultados ............................................................. 38 4. Conclusão .................................................................................................... 49 Referências bibliográficas ................................................................................ 51
vi Índice de figuras Figura 1 - Esquema do processamento dos resultados ........................................ 32! Figura 2 - Cronologia dos artigos obtidos (nº de artigos por ano) ...................... 33! Figura 3 - Revistas científicas (nº de artigos por revista) ................................... 35! Figura 4 - Natureza dos artigos ........................................................................... 39! Figura 5 - Unidades de análise ............................................................................ 40! Figura 6 - Método ............................................................................................... 41! Figura 7 - Subcategoria do método/modelo ........................................................ 41! Figura 8 - Proxies para a variável independente ................................................. 42! Figura 9 - Repartição da proxy dummy ............................................................... 43! Figura 10 - Repartição da proxy IDE .................................................................. 43! Figura 11 - Proxies para os efeitos ..................................................................... 45! Figura 12 - Resultados obtidos por área de impacto ........................................... 46!
vii Índice de tabelas Tabela 1 - Efeitos no emprego doméstico ............................................................. 8! Tabela 2 - Efeitos no output doméstico e no crescimento económico ................ 11! Tabela 3 - Efeitos na produtividade doméstica ................................................... 15! Tabela 4 - Efeitos no Comércio Internacional .................................................... 19! Tabela 5 - Efeitos no investimento doméstico .................................................... 22! Tabela 6 - Efeitos na Investigação e Desenvolvimento (I&D) ........................... 24! Tabela 7 - Evolução do nº de artigos .................................................................. 32! Tabela 8 - Artigos mais citados .......................................................................... 36!
1 Introdução O Investimento Direto Estrangeiro (IDE) tem potencialmente grande importância nas economias, sendo argumentado que promove o desenvolvimento e o crescimento económicos, contribui para o avanço tecnológico, assim como impulsiona o aumento da competitividade dos países (Blomstrom e Kokko, 1998; OCDE, 2008; Caves, 1974). Os países competem agressivamente para atrair IDE, havendo um relativo consenso que o seu impacto tende a ser positivo, isto é, que os seus benefícios tendem a suplantar os custos e impactos negativos associados (UNCTAD, 2003). No entanto, o relativo consenso quanto ao suposto impacto positivo do IDE no exterior (“outward”) não tem existido. O debate sobre a possível exportação de emprego e o impacto no investimento doméstico tem causado alguma reserva e ceticismo quanto aos efeitos do IDE no exterior na economia de origem (Debaere, Lee e Lee, 2010). Contudo, mais recentemente, tem-se afirmado uma expectativa mais positiva sobre o impacto deste investimento (Mariotti, Mutinelli e Piscitello, 2003; Castellani, Mariotti e Piscitello, 2008; Federico e Minerva, 2008). Autores como Imbriani, Pittiglio e Reganati (2011) e Lee (2010) referem que a literatura relacionada com a receção de IDE (“inward”) já se encontra bastante explorada, e que por sua vez a literatura sobre o IDE no exterior (“outward”) tem aumentado. Hsu, Gao, Zhang e Lin (2011) referem inclusivamente que “Inward FDI is, however, only half of the story”. Em diversos países houve um processo de mudança, de acordo com o qual começaram por ser países recetores de IDE e, posteriormente, tornaram-se, em distintos graus, países emissores. Dunning e Narula (1996), na teoria conhecida como “Investment Development Path” falam em cinco fases no desenvolvimento do investimento, numa primeira fase as vantagens de competitividade são insuficientes para atrair o IDE, e o IDE recebido é reduzido, nas fases seguintes o IDE recebido aumenta, sendo a receção de IDE superior
8 Tabela 1 - Efeitos no emprego doméstico Autores Ano Amostra Tipo de dados Efeitos encontrados Cuyers e Soeng 2011 254 empresas-mãe belgas com 548 filiais estrangeiras em outros países europeus com baixos salários e outros com salários altos 1999-2007 Painel (+) quando investimento é para outros países europeus com salários elevados Mariotti, Mutinelli e Piscitello 2003 9 sectores industriais, 20 regiões administrativas (180 indústrias regionais) 1985-1995 Painel (+) quando investimento é direcionado para países desenvolvidos (-) quando investimento é direcionado para países menos desenvolvidos Federico e Minerva 2008 103 províncias administrativas, 12 indústrias transformadoras 1996 e 2001 Painel (+) Imbriani, Pittiglio e Reganati 2011 1 658 switching firms1 (sector dos serviços e indústria) 2003-2006 Painel (+) no setor industrial (-) no setor dos serviços Castellani, Mariotti e Piscitello 2008 108 empresas industriais italianas que se tornaram multinacionais no período de 1998-2004 e 2500 empresas que permaneceram nacionais 1998-2004 Painel (+) Masso, Verblane e Vahter 2008 Empresas da Estónia (até 41 mil por ano, incluindo o sector primário, indústria, construção e serviços) 1995-2002 Painel (+) Onaran 2012 Subsectores dos sectores da indústria e dos serviços 1996-2005 Painel (-) 1 Switching firms são definidas pelos autores como empresas que passaram de ser nacionais a multinacionais, ou seja, abriram a sua primeira filial no estrangeiro no período observado (p. 374).
9 Debaere, Lee e Lee 2010 526 multinacionais 1980-1996 Painel (-) quando investimento é para países menos desenvolvidos (0) quando investimento é para países mais avançados Driffield, Love e Taylor 2009 13 países, 11sectores industriais 1987-1996 Painel (-)
10 1.2. Output Doméstico e Crescimento Económico Uma das áreas de impacto é o output doméstico, que tem sido alvo de um amplo debate público uma vez que se argumenta que o Investimento Direto Estrangeiro no Exterior pode levar a uma deslocalização da produção das empresas multinacionais diminuindo assim produção doméstica (Herzer, 2008; Braunerhjelm, Oxelheim e Thulin, 2005; Goedegebuure, 2006; Herzer e Schrooten, 2008). Por outro lado, argumenta-se que as empresas aproveitam as suas produções no exterior para diminuírem alguns custos de produção de forma a combinar a sua produção doméstica com a externa e assim aumentar a sua competitividade no mercado nacional e internacional (Herzer, 2008). Posto isto, são diversos os estudos empíricos levados a cabo para investigar os efeitos do IDE no exterior no output do país de origem do investimento. Herzer é um dos autores que mais tem estudado o impacto do IDE no exterior no output doméstico do país de origem do investimento. Em vários dos seus estudos Herzer (2008), Herzer (2011a), Herzer (2012) chega sempre aos mesmos resultados, que apontam para um efeito positivo do IDE no exterior sobre o output doméstico no longo prazo. Sendo que os resultados em Herzer (2011a) dizem respeito a países em vias de desenvolvimento. Em Herzer (2008), o autor conclui que o IDE no exterior é causa e consequência do aumento do output interno. A resultados semelhantes chegou o estudo de Chen e Zulkifli (2012) para a economia da Malásia. Lee (2010) afirma que o IDE no exterior tem efeitos positivos no PIB per capita, mas refere que também é apenas no longo prazo, tendo em consideração que as atividades relacionadas com o investimento no exterior beneficiam a economia emissora (neste caso, o Japão). No entanto, o autor contrasta um resultado com Herzer (2008) e Chen e Zulkifli (2012), dizendo que o aumento do IDE no exterior é apenas uma causa do aumento do rendimento, e não causa e efeito como afirma o outro autor. No caso do crescimento económico, Herzer (2010) conclui que os efeitos do IDE no exterior são favoráveis ao crescimento. Também afirma que os resultados sugerem que as empresas investem no exterior de forma a combinar produção interna com produção externa e dessa forma reduzir custos e aumentar a sua competitividade a nível internacional e no mercado interno, beneficiando assim toda a economia nacional
11 devido ao aumento de empresas investidoras, e das potenciais repercussões de ganhos de produtividade nas empresas locais. Chen e Zulkifli (2012) também analisaram a relação entre o Investimento Direto Estrangeiro da Malásia e os seus efeitos no crescimento económico, concluindo que a saída de IDE afecta de forma significativa e positiva o PIB da Malásia no longo prazo. Para além da relação de causalidade a longo prazo ser bidirecional, ou seja, o IDE para o exterior beneficia a economia da Malásia como um todo, aumenta o PIB, que por sua vez irá aumentar o IDE para o exterior, na forma de transferências de conhecimento e tecnologias entre as multinacionais e as empresas locais. A tabela 2 permite concluir que com base nos artigos abordados nesta seção, para o output doméstico e o crescimento doméstico, os efeitos encontrados são sempre positivos mas dizem essencialmente respeito ao longo prazo. Tabela 2 - Efeitos no output doméstico e no crescimento económico Autores Ano Amostra Tipo de dados Efeitos encontrados Herzer 2008 14 países industrializados 1971-2005 Painel (+) no longo prazo Herzer 2011 43 países em desenvolvimentos 1981-2008 Painel (+) no longo prazo Herzer 2012 Alemanha 1980-2008 Time-series (+) no longo prazo Chen e Zulkifli 2012 Malásia 1980-2010 Time-series (+) no longo prazo Lee 2010 Japão 1977-2006 Time-series (+) no longo prazo Herzer 2010 50 países 1980-2000 E.U.A. 1980-2004 Time-series (+)
12 1.3. Produtividade A produtividade também é uma das variáveis mais investigadas quando estudados os efeitos do Investimento Direto Estrangeiro no exterior, sendo importante perceber se as empresas conseguem melhorias na produtividade e na eficiência internas, e consequentemente aumentar a sua competitividade. Na maioria dos estudos os resultados obtidos são positivos, vejamos Yang, Chen e Huang (2013) em que os resultados sugerem que avanços tecnológicos e de eficiência técnica das empresas taiwanesas estão positivamente correlacionados com a sua atividade de investimento no exterior. Existe uma melhoria na competitividade das empresas depois de investirem no exterior, sendo o principal objetivo desses investimentos conseguir custos de trabalho mais baixos no país de acolhimento. Outro exemplo é o estudo de Herzer (2011b) para países em vias de desenvolvimento. Os resultados obtidos indicam que o IDE no exterior tem, em média, um efeito positivo a longo prazo na produtividade total dos factores doméstica. Isto acontece para a amostra de países como um todo. Contudo, o autor ressalva que estes resultados não implicam que os efeitos sejam positivos para cada país individualmente. Para alguns casos, o efeito de longo prazo na produtividade total dos factores até é negativo (exemplo da Coreia do Sul). O autor refere ainda que se pode concluir que os países em vias de desenvolvimento tendem a beneficiar do IDE no exterior, devido a um aumento da produtividade das empresas que investem, assim como de spillovers de produtividade associados às empresas locais. Conclui, também, que o aumento da produtividade total dos factores é causa e consequência do aumento do IDE no exterior. Vahter e Masso (2005) também obtêm resultados que mostram que o IDE no exterior está positivamente relacionado com a produtividade da empresa. No entanto, acrescentam que parece existir um efeito de auto-seleção significativo no sentido em que as empresas com maior produtividade atraem IDE ou estão mais propensas ao Investimento Direto Estrangeiro no exterior, isto é, as empresas com maior produtividade tendem a estar envolvidas no IDE no exterior, enquanto as que têm menor produtividade pendem a permanecer no país de origem.
13 Num estudo com dados italianos, também foram encontrados efeitos positivos do Investimento Direto Estrangeiro na produtividade total dos factores no país de origem para o setor industrial (Imbriani et al., 2011). No caso do IDE chinês no exterior, apesar de se encontrar numa fase inicial e ser difícil encontrar estimativas precisas, Zhao, Liu e Zhao (2010) na sua investigação sobre o contributo do IDE no exterior para alterações na produtividade no período de 1991 a 2007 encontram dados que sugerem que o IDE no exterior é muito benéfico para ganhos na produtividade, especialmente mudanças na eficiência. Autores como Hsu et al. (2011) obtêm conclusões diferentes conforme o país de destino do investimento, isto é, o IDE de Taiwan no exterior aumenta a produtividade, mas se o país anfitrião do IDE for a China já não existem efeitos positivos na produtividade das empresas de Taiwan. Concluem ainda que as empresas mais orientadas para a exportação retiram mais benefícios do IDE no exterior do que as empresas que se encontram mais direcionadas para o mercado doméstico. No trabalho de Driffield et al. (2009), os autores deparam-se com resultados em que parece não haver nenhum efeito significativo do IDE do Reino Unido no exterior na sua produtividade doméstica. Contudo, com a distinção entre os diferentes tipos de IDE, os resultados já apresentam alguma evidência de que o IDE do Reino Unido para abastecimento de tecnologia, para locais com custos elevados (intensivos em Investigação e Desenvolvimento) gera um aumento da produtividade doméstica (no Reino Unido). O IDE do Reino Unido no exterior para locais de baixo custo, segundo Driffield et al. (2009), também pode levar ao aumento da produtividade doméstica. Neste caso, os autores argumentam que o mais provável é que esse resultado se deva à transferência de atividades de baixo valor acrescentado para outras regiões. O impacto pode também depender do horizonte temporal. Caso em que no longo prazo existe um impacto positivo na produtividade total dos fatores, embora no curto prazo os efeitos sejam estatisticamente insignificativos, o que Herzer (2012) justifica como sendo resultado de um equilíbrio entre efeitos negativos e efeitos positivos no curto prazo. As empresas que investem no exterior procuram combinar produção interna com produção estrangeira de forma a diminuir os custos e aumentar a competitividade tanto a nível internacional como no mercado interno. Este processo traz benefícios à
14 economia nacional no seu conjunto, devido ao aumento da produtividade das empresas que investem e as repercussões de produtividade nas empresas locais. Numa análise à produtividade das empresas de capital nacional (tanto as que são direcionadas para o mercado doméstico, como das que servem mercados externos por via de exportações e, ainda, das que estão orientadas para os mercados externos através da saída de IDE), Foster-McGregor, Isakssonb e Kaulich (2014) retiraram diferentes conclusões para as empresas de serviços e para as empresas industriais. Nos serviços, os resultados apontam que as empresas direcionadas para o mercado interno apresentam menor produtividade relativamente às empresas exportadoras e às empresas que realizam IDE, não havendo diferença significativa entre as duas últimas. No caso das empresas industriais, as empresas orientadas para os mercados externos que investem no exterior têm melhor desempenho, seguidas pelas empresas direcionadas para os mercados externos por via de exportações e, por último, as empresas orientadas para a economia doméstica. Os resultados obtidos parecem, no geral, positivos, o que leva acreditar que o IDE no exterior pode ter benefícios para a produtividade/eficiência de um setor de empresas ou para a economia como um todo. Contudo, os efeitos positivos podem depender de alguns fatores (horizonte temporal, país de acolhimento) o que leva a crer que é necessária atenção política para que, sempre que possível, sejam tomadas medidas que minimizem os efeitos negativos e ampliem os efeitos positivos. É possível ver os efeitos obtidos nos trabalhos supracitados de uma forma geral e sintética na tabela que se segue (Tabela 3).
15 Tabela 3 - Efeitos na produtividade doméstica Autores Ano Amostra Tipo de dados Efeitos encontrados Yang, Chen e Huang 2013 13 059 empresas (que nunca tinham investido no exterior antes de 1992, sector industrial) 1987-2000 Painel (+) Herzer 2011 33 países em desenvolvimento 1980-2005 Painel (+) no longo prazo Vahter e Masso 2005 Empresas da Estónia (até 41 mil por ano) 1995-2002 Painel (+) Imbriani, Pittiglio e Reganati 2011 1 658 switching firms2 (sector dos serviços e indústria) 2003-2006 Painel (+) na PTF para o setor industrial Zhao, Liu e Zhao 2010 China e 8 países desenvolvidos (principais destinos do investimento chinês) 1991-2007 Painel (+) Hsu, Gao, Zhang e Lin 2011 15 indústrias transformadoras 1991-2007 Painel (-) quando investimento é direcionado para a China (+) quando investimento é direcionado para outros países Driffield, Love e Taylor 2009 13 países, 11sectores industriais 1987-1996 Painel (+) Herzer 2012 Alemanha 1980-2008 Timeseries (+) na PTF no longo prazo (0) na PTF no curto prazo FosterMcGregor, Isakssonb e Kaulich 2014 3254 empresas nacionais (domestically owned firms), 1817 empresas industriais e 1437 empresas de serviços 2010/2011 Crosssection (+) 2 Switching firms são definidas pelos autores como empresas que passaram de ser nacionais a multinacionais, ou seja, abriram a sua primeira filial no estrangeiro no período observado (p. 374).
16 1.4. Comércio internacional/Exportações Com o aumento do número de empresas multinacionais e, de forma mais geral, um elevado número de empresas a internacionalizarem as suas atividades, surge o receio de haver uma substituição entre o IDE no exterior e as exportações do país de origem do investimento. Existe uma vasta literatura conceptual e empírica sobre a complementaridade/substituibilidade entre o IDE e as exportações.3 No entanto, existem também outras justificações para aquilo que acontece com as exportações domésticas que aparentam não ser tão negativas ou até mesmo terem aspectos positivos. Veja-se um estudo “clássico” acerca deste tema, Blomstrom e Kokko (1994), em que os autores concluem, depois de resumirem algumas pesquisas, que o efeito líquido (“net effect”) do IDE nas exportações domésticas aparenta ser de complementaridade. Isto porque, embora a produção estrangeira substitua algumas exportações domésticas de produtos acabados, pode haver vantagens, como a proximidade do mercado (que permite às filiais estrangeiras capturar uma maior quota de mercado do que aquela que a empresa doméstica exportadora conseguiria), assim como um aumento das exportações de produtos intermédios que permita compensar as exportações perdidas de produtos acabados. Uma relação de complementaridade foi encontrada por Alguacil e Orts (2002) entre o IDE de Espanha no exterior e as exportações domésticas. O impacto de uma alteração no IDE no exterior é negativo no curto prazo no entanto, no longo prazo a relação causal positiva (do IDE no exterior para as exportações) mais do que compensa o efeito negativo inicial. Estes autores acrescentam, nas suas conclusões, que (p.130): “(...)the complementarity between outward FDI and exports makes it difficult to believe in negative impacts of these investment projects over the domestic production activity, employment level and/or the quality of jobs.” 3 Esta literatura encontra-se maioritariamente centrada do lado do “inward”, ou seja, efeitos nos países de destino (Goh, Wong e Tham, 2013; Zhan e Song, 2000; Liu, Wang e Wei, 2001; Lin e Lin, 2010). No entanto para o presente trabalho apenas será analisada literatura do lado do “outward”, ou seja, com referências aos efeitos nas exportações da economia de origem.
17 A relação de complementaridade pode depender dos países. Em Kang (2012), num estudo sobre a Coreia do Sul, os resultados indicam que as saídas de IDE complementam o comércio somente com países em vias de desenvolvimento, não tendo esse efeito no comércio com os países desenvolvidos. O autor conclui (p.152): “It is, therefore, inappropriate to assume that FDI flows to different categories of countries have the same effect on trade. As a consequence, policy recommendations should be different.”. Para o caso concreto de Portugal, Fonseca, Mendonça, e Passos (2010) concluem que o IDE português no exterior está negativamente correlacionado com as exportações, sugerindo um efeito de substituição e, consequentemente, um efeito negativo na balança comercial para a maioria dos países da amostra, em especial um efeito de substituição muito significativo quando o IDE se destina ao Japão e à China. No entanto, existem exceções, nomeadamente, Espanha e Angola, que têm contributos positivos para a balança comercial de Portugal com estes países. Num estudo sobre os efeitos do IDE no exterior no comércio da Coreia do Sul, Seo e Suh (2006) também encontram um efeito de substituição das exportações em atividades do IDE no exterior coreano. Tal como estes autores, também Head e Ries (2001) abordam na sua investigação o caso dos grandes fabricantes de automóveis como a Toyota, a Nissan e a Honda, percecionando que apresentam substituição líquida entre investimento direto estrangeiro e exportações. No entanto, o IDE da Coreia do Sul no exterior e o IDE do Japão no exterior não substituem as exportações dos países de origem dos investimentos de acordo com os dados analisados por Kim e Kang (1996). Ellingsen, Likumahuwa e Nunnenkamp (2006), também não encontraram no seu estudo provas de que o IDE de Singapura no exterior tem substituído as exportações, pelo contrário. Chow (2012) conclui no seu estudo para Taiwan, que o Investimento Direto Estrangeiro no exterior é mais propenso a efeitos de complementaridade do que de substitutuição nas exportações do país de origem (Taiwan). O IDE no exterior tem um efeito complementar significativo nas exportações do país de origem para os países de acolhimento como um grupo. No entanto, o autor ressalva que a integração gradual das
24 De uma forma geral, todos os trabalhos abordados nesta área de impacto chegaram a efeitos positivos do IDE para o exterior na Investigação e Desenvolvimento domésticos, veja-se a tabela 6. Tabela 6 - Efeitos na Investigação e Desenvolvimento (I&D) Autores Ano Amostra Tipo de dados Efeitos encontrados Chen e Yang 2013 57 470 empresas industrias taiwanesas que não investiam no exterior antes de 1992 1992-1998 56 812 empresas industriais taiwanesas que não investiam no exterior antes de 1999 1999-2005 Painel (+) Goedegebuure 2006 Holanda, 23 807 empresas 1996-2000 Painel (+) Chang, Chen e McAleer 2013 37 países 1994-2005 Painel (+) Huang e Wang 2009 China 1985-2007 Timeseries (+)
25 1.7. Outras áreas de impacto No decorrer das pesquisas bibliográficas para a presente revisão de literatura foi possível ter acesso a alguns trabalhos que abordam variáveis mais específicas. Por este motivo, julgou-se oportuno criar esta secção (1.7.) abrangendo outras áreas de impacto, no sentido de abordar alguns trabalhos de cariz mais próprio e específico mas que não deixam de ser interessantes de analisar. Podem encontrar-se estudo sobre a desigualdade de rendimentos ou mesmo sobre a qualidade dos produtos domésticos, por exemplo. De uma forma geral, Fors e Kokko (2001) num estudo sobre os efeitos do IDE no exterior no país de origem relacionados com produção e a mudança estrutural, com dados de multinacionais suecas, concluem que o impacto agregado do IDE no exterior no país de origem pode ter benefícios casos os processos de produção com elevados lucros e externalidades positivas sejam mantidos na economia doméstica. Caso estas operações estejam entre as atividades que são deslocalizadas para as filiais estrangeiras os efeitos tendem a ser menos benéficos, ou até mesmo negativos. Herzer e Nunnenkamp (2013), analisaram os efeitos do IDE e do IDE no exterior na desigualdade de rendimentos na Europa. Tendo em conta apenas os resultados obtidos para o IDE no exterior, que é o foco desta dissertação, os autores concluíram que o efeito do IDE no exterior na desigualdade de rendimentos no curto prazo é positivo e no longo prazo negativo, ou seja, no curto prazo aumenta a desigualdade e no longo os rendimentos tornam-se menos assimétricos, respetivamente. No longo prazo a relação de causalidade entre o IDE no exterior e a desigualdade de rendimentos é bidirecional, isto é, um aumento do IDE no exterior reduz a desigualdade e, por sua vez, uma desigualdade elevada leva à diminuição do IDE no exterior. Fica no entanto a ressalva de que os efeitos são heterogéneos entre os diversos países da amostra. Um estudo curioso é o de Weng, Yang e Tu (2010) que analisa a relação entre o IDE no exterior e a qualidade dos produtos nacionais. O “expansionary FDI” (ou seja, o IDE nos países avançados, segundo estes autores) tende a ter uma maior probabilidade de melhorar a qualidade dos produtos domésticos enquanto, o impacto do “defensive
26 FDI” na probabilidade de melhorar a qualidade dos produtos é limitado.6 Os autores consideram o resultado “economicamente intuitivo, porque um dos principais objectivos para o “expansionary FDI” é a aquisição de tecnologia avançada e conhecimento de gestão dos países desenvolvidos” (p. 406), beneficiando as empresas que investem na melhoria da sua capacidade tecnológica e na qualidade dos seus produtos. Como é possível verificar, existem diversos estudos recentes, e sobre temáticas menos esperadas, como o estudo supracitado de Weng et al. (2010), o que comprova que estamos perante uma área emergente e com crescente importância na investigação. Terminada uma revisão de literatura tão exaustiva quanto possível (face à novidade do tema e à relativa escassez de estudos, comparada com o impacto inward do IDE), segue-se o capítulo onde é explicada a metodologia a utilizar, com base nas técnicas bibliométricas. 6 Os autores explicam que “FDI can be roughly separated into two categories, expansionary and defensive (Chen and Yang 1999; Chen and Ku 2000). Defensive FDI, called labor-oriented FDI by Kojima (1973), seeks cheap labor in the host country to reduce the cost of production, while expansionary FDI, what Kojima (1973) called market-oriented FDI, refers to investment toward those countries with a higher per capita GNP than that of the host country.” (Weng et al., 2010, p. 397).
27 2. Metodologia Com o objetivo de acrescentar valor à revisão de literatura, tornando-a mais rigorosa, sistemática e dinâmica, decidiu-se recorrer a métodos bibliométricos por forma a obter resultados de ordem mais quantitativa e que tragam uma maior profundidade e cientificidade à dissertação. Assim, será possível extrair conclusões que não seriam possíveis com a simples análise descritiva dos diversos estudos, tal como a apresentação de análises gráficas que não seria possível, de outro modo, realizar para uma quantidade relevante de artigos, nem apenas com abordagem concetual/descritiva dos mesmos. A aplicação destas técnicas faz desta abordagem uma abordagem inovadora como não existe nenhuma até ao momento, de acordo com o nosso melhor conhecimento. Segundo a OCDE (2002, p. 204), “Bibliometric analysis uses data on numbers and authors of scientific publications and on articles and the citations therein (as well as the citations in patents) to measure the “output” of individuals/research teams, institutions, and countries, to identify national and international networks, and to map the development of new (multidisciplinary) fields of science and technology”. Por sua vez, Pritchard (1969) (cfr Lievrouw, 1989, p. 615) define bibliometria como “the application of mathematics and statistical methods to books and other media of communication”. Desta forma, a aplicação de técnicas bibliométricas viabiliza uma análise detalhada das principais áreas relacionadas com o tema, dos autores mais influentes, das revistas académicas que mais publicam ou citam artigos relacionados com o tema, dos estudos e autores mais citados. São expectáveis ainda resultados quanto às variáveis e metodologias mais utilizadas na literatura e quanto às unidades de análise estudadas, entre outros.
28 O presente estudo recorre a técnicas bibliométricas, na linha das que têm sido utilizadas em outras áreas da literatura como clusters (Cruz e Teixeira, 2010), empreendorismo (Teixeira, 2011), inovação (Teixeira, 2013), “open innovation” (Wang e Tang, 2013), que nos permitem a obtenção sistemática e classificação rigorosa dos artigos que estudam a temática. No entanto, esta dissertação pretende fazer uma revisão de literatura extensiva, na linha do trabalho de Berning e Holtbrügge (2012) para o “Chinese outward foreign direct investment”, e não tanto uma análise específica do campo e das raízes do tema, como tem sido feito por alguns dos autores supracitados (Cruz e Teixeira, 2010; Wang e Tang, 2013). Até ao momento não é conhecida nenhuma revisão de literatura abrangente nesta área, nomeadamente com recurso à bibliometria. Deste modo, a aplicação desta metodologia pode ser considerada inovadora, assim como os resultados que dela se obtiveram para avaliar o impacto do IDE emitido para o exterior no país de origem. No próximo capítulo explica-se de forma meticulosa todos os procedimentos adoptados, as palavras-chave selecionadas, as bases de dados elegidas, o processo de pesquisa, a exportação e tratamento de dados, assim como os procedimentos adoptados na classificação dos artigos e a sequente apresentação dos resultados obtidos.
29 3. Aplicação das técnicas bibliométricas Sendo este tema um tema emergente, o recurso a técnicas bibliométricas permite-nos tirar algumas conclusões sobre os estudos já realizados. O objectivo desta análise foi investigar a extensão de estudos efectuados nesta área, autores e estudos mais citados, as revistas científicas que mais publicam sobre o tema, assim como perceber a evolução (cronológica) do número de estudos efectuados sobre a temática em questão, aferindo se a área realmente tem vindo a ganhar importância no debate internacional e se existem novos autores a realizar investigação. No caso concreto desta dissertação, começou-se por estabelecer as bases de dados bibliográficas a utilizar nas pesquisas, isto é, a Scopus (Elsevier) e a Web of KnowledgeTM (Thomson Reuters). A escolha das bases de dados teve em conta o facto de serem bases de dados multidisciplinares, um factor importante na medida em que as pesquisas são cada vez mais globais e inter-relacionadas, assim como o número de revistas científicas e algumas características específicas. A Scopus é uma base de dados com mais de 21 000 títulos de mais de 5 000 editores, com uma assinalável diversidade de revistas científicas, livros, atas de conferências e patentes, sendo uma base de dados multidisciplinar abrangendo áreas como a tecnologia, ciências, medicina, ciências sociais, entre outras. Na área das ciências sociais, da qual fazem parte a economia e os negócios, e na qual recai o nosso interesse no âmbito desta dissertação, são disponibilizados 7 000 journals (Scopus content, 2013). A Web of KnowledgeTM também é uma base multidisciplinar que abrange as ciências, ciências sociais e artes e humanidades, contém revistas científicas, livros e atas de conferências. Com um conteúdo de qualidade e mais 5 000 publicações das ciências em 55 disciplinas, esta base é, no entanto, uma base mais seletiva. Um factor determinante para a sua escolha é a sua antiguidade, “100 years of abstracts” (Web of Science, 2014), podendo encontrar nesta base de dados mais remotos. Desta forma, decidiu-se recorrer também a esta base de dados, por forma a assegurar a inclusão de artigos mais “clássicos”. Posteriormente, foi realizada uma infinidade de pesquisas com inúmeras palavras-chave (keywords), por forma a selecionar as que conseguiam obter o número
30 mais significativo de artigos possível. Para isso, foram utilizadas algumas palavraschave que dizem respeito ao IDE no exterior de um modo geral e não aos seus efeitos ou impactos no país de origem em específico, isto para evitar que a pesquisa fosse demasiado restrita e que artigos relevantes escapassem a este exercício. No decorrer destas pesquisas, foi possível perceber que a utilização de palavraschave mais específicas ou relacionadas somente com o IDE no exterior (“outward”) resultavam num número diminuto de artigos face ao número que se podia potencialmente obter. Assim sendo, considerou-se que seria importante utilizar keywords mais abrangentes, mesmo sendo necessário, a posteriori, fazer uma triagem muito rigorosa (com base na leitura dos abstracts e, frequentemente, da totalidade do texto dos artigos) para ficarem apenas os artigos que realmente dizem respeito à temática dos efeitos e impacto do IDE no país de origem. Posto isto, foram conjugadas, tanto na base de dados Web of KnowledgeTM como na Scopus, as seguintes keywords: − “OFDI”, − “outward FDI”, − “outward foreign direct investment”, − “outward direct investment”, − “outflows fdi”, − “outflows of fdi”, − “outflows of fdi”, − “outflows foreign direct investment”, − “outflows of foreign direct investment”, − “FDI outflows”, − “foreign direct investment outflows”, − “outbound fdi”, − “outbound foreign direct investment”, − “home country effect*1 of foreign direct investment”. 1 A utilização do símbolo * permite que as pesquisas sejam feitas para o singular e para o plural da palavra em que está colocado
31 Com estas palavras-chave foi possível obter 3762 e 4493 resultados nas bases de dados Web of KnowledgeTM e Scopus, respectivamente.4 Para todos estes resultados foi retirada informação quanto aos autores, ano, título e abstract, assim como para o número de citações, a revista científica e o tipo de documento. A grande vantagem destas bases de dados é que tornam relativamente simples a sua exportação, o que se torna uma mais-valia para o trabalho, tornando-o menos oneroso. Posteriormente, juntaram-se os resultados obtidos nas duas bases como um todo (um total de 825 obras) de modo a eliminar os títulos que se encontravam duplicados, ou seja, aqueles que foram obtidos em ambas as bases. Depois de efectuado este passo, ficaram 577 títulos entre artigos, atas de conferências, revisões de literatura e livros. A gestão e análise dos resultados obtidos foi feita com recurso ao Microsoft Excel. Numa fase seguinte foi necessário apurar, de entre os 577 ficheiros, quais diziam de facto respeito a efeitos na economia de origem do Investimento Direto Estrangeiro (no exterior), para isso foi utilizada a informação disponível acerca de cada artigo (título e abstract), e, quando necessário foi analisado o texto integral, pois nem sempre foi possível aferir apenas pelo título e o abstract se o artigo correspondia à temática em causa. Esta fase foi deveras morosa e implicou um trabalho de grande rigor e minúcia. O número de títulos que abordavam o impacto do IDE no país de origem, depois de retirar todos os outros que diziam a respeito a outras categorias como por exemplo determinantes do IDE no exterior (outward), efeitos do IDE no país anfitrião (inward), entre outras, foi de 113. No entanto, infelizmente, mesmo com todos os esforços realizados, bem como através de démarches suplementares de diverso tipo, não foi possível ter acesso ao texto integral de 16 dos títulos da lista dos 113. Posto isto, o número final de ficheiros a classificar foi 97. A figura 1 demonstra as diferentes fases percorridas desde a seleção das palavras-chave à classificação dos artigos, enquanto a tabela 7 faz uma síntese dos número de resultados obtidos nas distintas etapas, desde da exportação dos dados das bases de dados bibliográficas, até ao número final de artigos a classificar. 2 Com os resultados da pesquisa da base de dados limitados às ciências sociais. 3 Pesquisa da base de dados restrita à opção ciências sociais & humanidades. 4 Estes resultados foram obtidos à data de 26 de Maio de 2014.
32 Este capítulo continua com dois subtópicos (3.1. e 3.2.). No primeiro é feita uma análise a nível geral dos artigos e no segundo explica-se de forma clara como foi efetuada a classificação e os respectivos resultados. Figura 1 - Esquema do processamento dos resultados Tabela 7 - Evolução do nº de artigos Web of KnowledgeTM Scopus Nº inicial de artigos 376 449 Total de artigos 825 Total de artigos sem artigos duplicados 577 Total de artigos sobre efeitos/impacto do IDE no país de origem 113 Total de artigos classificados 97
33 3.1. Análise geral Antes de descrever pormenorizadamente em que consistiu a classificação dos artigos, é possível extrair e sintetizar alguma informação sobre todos os artigos (os 113) que foram selecionados por abordarem a temática dos efeitos do IDE no exterior no país de origem. Uma análise anual do número de artigos permite ver que o artigo mais antigo remonta a 1993 e os mais recentes são do presente ano, 2014. O número de artigos de 1993 a 2005 é reduzido e aumenta drasticamente após 2006, chegando aos 19 artigos em 2013. Não é de estranhar que o número de artigos no ano de 2014 seja baixo uma vez que todo o processo foi realizado no decorrer deste ano e podia ainda não existir um número considerável de trabalhos publicados, nada impede que esse número seja mais elevado ao fecho do ano de 2014 (Figura 2). Tal como foi dito ao longo desta dissertação, estamos perante uma área emergente, e os resultados obtidos demonstram isso mesmo. Na figura é possível ver, através de uma evolução cronológica dos nossos resultados, como tem existido um crescente interesse no tema e um maior número de artigos publicados, pelo menos no que aos resultados obtidos diz respeito. Figura 2 - Cronologia dos artigos obtidos (nº de artigos por ano)
40 Figura 5 - Unidades de análise O método, dos dois categorizados (descritivo e de causalidade), que ocorre com maior frequência nos estudos é o de causalidade. No decurso de todo o processo de conhecimento e classificação dos artigos foi possível concluir que uma parcela volumosa dos estudos sobre este tema tem como principal objectivo estimar a causalidade de uma variável sobre outra, ou a relação entre várias variáveis. Parte dos estudos que estimam a relação entre diversas variáveis, como por exemplo entre as exportações domésticas e o Investimento Direto Estrangeiro no exterior, pretendem saber se essa relação é unidirecional ou bidirecional, negativa ou positiva; no entanto, para a nossa questão, somente nos interessou o efeito do IDE no exterior nas variáveis domésticas. O número de estudos com recurso ao método descritivo é deveras reduzido (6). É necessário ressalvar que esta classificação quanto ao método não foi aplicável em dois casos uma vez que não têm conteúdo quantitativo, sendo estes casos uma revisão de literatura e um modelo teórico/analítico. Quanto ao tipo de modelo e método aplicados, nos estudos de causalidade são essencialmente painel e time-series, com uma pequena percentagem de estudos com modelos cross-section. Por sua vez, as investigações com método descritivo, apresentam fundamentalmente análises temporais (time-series). Posto isto, os resultados apresentados nas figuras 6 e 7 não são surpreendentes.9 9 Os casos considerados como “nao aplicável” na figura 6 dizem respeito a uma revisão de literatura e a um modelo teórico/analítico.
41 Figura 6 - Método Figura 7 - Subcategoria do método/modelo As categorias seguintes abordaram as proxies da variável independente e dos efeitos. Foram classificados 18 tipos de proxies diferentes, esses resultados são apresentados na figura 8, tendo em conta o número de artigos em que foram utilizadas, isto porque em alguns estudos foram consideradas diversas variáveis diferentes como proxies.
42 Figura 8 - Proxies para a variável independente No entanto, na figura aparecem apenas 12, pois tanto as dummies como o IDE estão agrupados. Considerou-se benéfico apresentar separadamente os resultados para as duas proxies mais usuais: as dummies e o IDE. As dummies foram agrupadas em quatro grandes grupos (figura 9) e o IDE por sua vez repartido em quatro, igualmente, pois existem estudos que referem explicitamente se utilizam flows10, stocks11 ou ambos. Existe autores que defendem que a utilização dos stocks de IDE permite capturar efeitos de médio e longo prazo (Bitzer e Görg, 2009; Herzer, 2011a; Ren e Li, 2010). Para os casos em que não foi especificado se eram flows ou stocks optou-se por colocar como IDE (NE) (não especificado) – ver figura 10. 10 “Flows of FDI comprise capital provided (either directly or through other related enterprises) by a foreign direct investor to an FDI enterprise, or capital received from an FDI enterprise by a foreign direct investor.” (UNCTAD, 2009, p. 243). 11 “FDI stock is the value of the share of their capital and reserves (including retained profits) attributable to the parent enterprise, plus the net indebtedness of affiliates to the parent enterprise.” (UNCTAD, 2009, p. 243).
43 Figura 9 - Repartição da proxy dummy Figura 10 - Repartição da proxy IDE Resumindo, a proxy da variável independente diz fundamentalmente respeito a valores do Investimento Direto Estrangeiro no exterior e a dummies (se a empresa realiza investimento; quanto à propriedade das empresas; se passou a investir nesse ano; se tem estabelecimentos no exterior; quanto ao tipo de investimento). São também utilizadas outras proxies, como o emprego nas filiais estrangeiras, a despesa em I&D, as vendas das filiais assim como, o output das empresas (doméstica e filiais estrangeiras). Quanto à proxy dos efeitos, os estudos obtidos procuraram resultados para uma multiplicidade de áreas de impacto. Mais de um terço dos artigos científicos analisados estudam os resultados do IDE no exterior sobre mais do que uma variável doméstica, ou seja, existem artigos que estudam simultaneamente os efeitos nas exportações e
44 importações domésticas, ou então, no output doméstico, nos salários e no emprego, por exemplo. No capítulo 1, na revisão de literatura referimos que existem algumas variáveis já mais aprofundadas nesta linhagem de trabalhos, essencialmente aquelas em que os efeitos têm levantado maior cepticismo como o emprego, o comércio internacional (exportações e/ou importações), o investimento, a produtividade, o output e o crescimento domésticos. Contudo, os resultados obtidos demonstram que o leque de áreas de impacto em estudo é bem mais extenso. Existem estudos para os efeitos do IDE no exterior em variáveis domésticas bastante específicas como, por exemplo, a pobreza, a sobrevivência das empresas, o retorno das ações, a qualidade, os conhecimentos de gestão, entre muitas outras. Neste caso em concreto, as proxies agrupam-se principalmente em 25 áreas de impacto, tendo sido agrupadas algumas mais específicas de um modo mais geral. A produtividade é um desses casos em que existem estudos que estudam a produtividade doméstica, ou de forma mais específica a produtividade total de fatores (PTF). Nesse caso foram classificados todos como produtividade. Assim como o emprego, pois alguns estudos recaem especificamente sobre o crescimento do emprego, a procura de trabalho, o desemprego, alguns sob a “skill composition”, etc. Nos nossos resultados foram estabelecidas 25 proxies principais, umas mais abordadas do que outras (ver figura 11). Esta diversidade manifesta o crescente interesse sob esta temática e como estão a ser alargadas as suas pesquisas às mais distintas variáveis.
45 Figura 11 - Proxies para os efeitos A última categoria a classificar foram os efeitos estimados para os diversos trabalhos nas distintas áreas de impacto. Ao realizar esta classificação, foi possível perceber que os resultados estimados muitas vezes não são absolutos, isto é, variam conforme o país de destino do investimento, se é desenvolvido ou em vias de desenvolvimento, divergem entre setores diferentes, diferem conforme o horizonte temporal (curto prazo/longo prazo). Posto isto, optou-se por identificar uma categoria como “Condicionado” para os resultados que não sejam somente positivos/negativos/não significativos para a mesma área de impacto, de maneira a ser perceptível que nesses estudos os resultados diferem entre países, setores ou outra unidade de análise. Os resultados são apresentados para as 25 áreas de impacto (figura 12).
46 Figura 12 - Resultados obtidos por área de impacto As temáticas mais investigadas, emprego, exportações, importações, produtividade, investimento e output domésticos, assim como o crescimento económico, obtiveram maioritariamente resultados positivos. O facto de serem mais investigadas faz com que os resultados obtidos digam respeito às conclusões de diversos estudos diferentes para a mesma área de impacto, o que constitui inequivocamente uma mais-valia para validade dos resultados obtidos. No caso do emprego, os resultados obtidos são superiores aos negativos, os resultados condicionados dizem principalmente respeito a diferenças dos resultados quanto à tipologia do país de destino do investimento, isto é, são encontrados resultados negativos para o IDE direcionado aos países menos desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, por contraponto ao efeitos positivos obtidos para os países mais avançados/desenvolvidos. Para a produtividade, os efeitos positivos superam os negativos, mas é necessário analisar os resultados condicionados. Isto porque uma parte dos estudos chegaram a resultados diferentes consoante o setor ou a longevidade temporal. No caso dos setores, são por vezes encontrados efeitos positivos na produtividade doméstica na
47 indústria, ao contrário dos serviços, que obtém efeitos negativos. Outros estudos encontram um impacto positivo no longo prazo, mas não significativos para o curto prazo. Para o comércio internacional, conclui-se que há um impacto positivo, tanto para as exportações como para as importações sendo obtidos resultados essencialmente positivos. O impacto na balança de pagamentos da economia que investe no exterior vai depender se as consequências são mais fortes nas exportações ou nas importações, e essa análise deve ser feita país a país. No caso do investimento doméstico, os resultados obtidos são muito heterogéneos, para além de serem diferenciados consoante a longevidade temporal (curto/longo prazo), o país de destino do investimento e o setor, existem diferenças para a mesma referência mesmo entre estudos, por exemplo, estudos diferentes chegam a resultados divergentes para os efeitos de longo prazo. Neste caso, são necessárias mais investigações para demonstrarem as tendências do impacto do IDE no exterior no investimento doméstico. Outro caso em que ainda não se encontra uma tendência clara em termos de efeitos é no output doméstico. Dos artigos analisados, três chegaram a resultados positivos e outros três a resultados negativos, existindo um estudo em que os efeitos diferem consoante o horizonte temporal, apresentando efeitos positivos no longo prazo e não significativos no curto prazo. Os efeitos do IDE no exterior sobre o crescimento económico do país emissor do investimento dividem-se entre positivos, não significativos e condicionados. Os últimos, dizem essencialmente respeito a diferenças encontradas consoante o horizonte temporal. Existe uma tendência para efeitos positivos no longo prazo, enquanto no curto os resultados são díspares, entre positivos, negativos e não significativos. Para as áreas mais particulares, e nas quais recaem menos estudos sobre os efeitos do IDE, sejam elas: os conhecimentos de gestão, os custos, o grau de abertura, o retorno das ações e do capital, a performance doméstica, a sobrevivência das empresas e a transferência de conhecimentos, os resultados são excecionalmente positivos. No entanto, há que ressalvar que, para estas áreas, os resultados dizem respeito apenas aos resultados de um artigo. Assim sendo, nada impede que em estudos posteriores para as
48 mesmas temáticas não sejam obtidos resultados diferentes, ou mesmo opostos. É caso para postular a necessidade de mais investigação. Um caso peculiar é o da produtividade doméstica, pois exibe resultados muito díspares. A parcela de efeitos apresentados como condicionados deve-se à diferença consoante o horizonte temporal (positivos no longo prazo, negativos no curto prazo) e segundo as características do país que investe (efeitos não significativos na desigualdade para países de rendimento elevado ou baixo, e impacto negativo em países com rendimento médio com baixos níveis de capital humano). De uma forma global, os resultados obtidos podem ser interpretados como positivos e trazem alguma consistência a uma visão mais optimista dos efeitos do Investimento Direto Estrangeiro no exterior no país de origem. Com os resultados obtidos apreende-se que cada país pode ser um caso particular e obter resultados específicos. Quanto aos efeito negativos, apenas se destacaram em três áreas de impacto, competitividade, I&D e pobreza. Nestas, metade dos artigos obtém resultados negativos, mas o número de artigos que as analisa é ínfimo (dois no caso da desigualdade e da pobreza, três acerca da competitividade).
49 4. Conclusão Depois de realizada uma extensa e profunda revisão de literatura, assim como a aplicação de técnicas bibliométricas, para, a posteriori, se categorizarem os artigos obtidos, conclui-se que existe evidência que apoia, em geral, uma expectativa mais positiva quanto aos efeitos no país de origem do Investimento Direto Estrangeiro no exterior. Os trabalhos analisados na revisão de literatura chegam a resultados positivos para as áreas de impacto sobre as quais existe maior ceticismo sobre o impacto do IDE no exterior no país de origem. São elas: o emprego, o output doméstico e o crescimento económico, assim como a produtividade. Para o comércio internacional e o investimento doméstico não existe uma tendência clara, isto é, os resultados obtidos são mais heterogéneos, variando conforme o país para o qual é direcionado o investimento ou o horizonte temporal. Posto isto, seria interessante que houvesse mais investigação nestas áreas, sobre as quais ainda subsistem muitas dúvidas. Quanto aos artigos que foram classificados, os efeitos obtidos foram, de uma forma geral, positivos. As áreas mais exploradas obtêm resultados maioritariamente positivos, o que vai de encontro ao que foi analisado na revisão de literatura mais descritiva (capítulo 1). No entanto, nessa revisão o comércio internacional apresentava efeitos díspares conforme os estudos, enquanto na análise dos artigos classificados, o IDE no exterior tem tendencialmente um impacto positivo tanto nas exportações, como nas importações, individualmente. A análise também demonstrou efeitos positivos do IDE em variáveis menos abordadas, como por exemplo, o retorno do capital e os conhecimentos de gestão. No entanto, é importante ressalvar o diminuto número de investigações para estas áreas (pelo menos na lista de artigos obtidos com as técnicas bibliométricas). Pode haver alguma fragilidade nos efeitos encontrados e seria uma de grande relevância que no futuro fossem realizadas mais investigações neste sentido. Apesar de os efeitos negativos encontrados não se destacarem face ao positivos como seria expectável numa visão mais cética sobre os efeitos do IDE no exterior, é necessário dizer que, ainda assim, existem muitos resultados em que os efeitos obtidos foram classificados como condicionados, isto porque divergem consoante o país de
56 UNCTAD (2009), “World Investment Report 2009: Transnational Corporations, Agricultural Production, and Development”, United Nations Publication, http://unctad.org/en/docs/wir2009_en.pdf [acedido em 11.08.2014]. Vahter, P. e Masso, J. (2005), "Home versus Host Country Effects of FDI: Searching for New Evidence of Productivity Spillovers", Working Papers of Eesti Pank, 13, pp. 1-47. Wang, W. e Tang, J. (2013), "Mapping Development of Open Innovation Visually and Quantitatively: A Method of Bibliometrics Analysis", Asian Social Science, 9(11), pp. 254-269. Web of Science (2014), http://wokinfo.com/citationconnection/ [acedido em 20.04.2014]. Weng, Y., Yang, C.-H. e Tu, F.-C. (2010), “Outward foreign direct investment and product quality of domestic productions: An empirical investigation”, Journal of Business Economics and Management, 11(3), pp. 396-414. Wong, K. N. e Goh, S. K. (2013), “Outward FDI, merchandise and services trade: evidence from Singapore”, Journal of Business Economics and Management, 14(2), pp. 276-291. Yang, S.-F., Chen, K.-M. e Huang, T.-H. (2013), "Outward foreign direct investment and technical efficiency: Evidence from Taiwan's manufacturing firms", Journal of Asian Economics, 27, pp. 7-17. Zhang, K. H. e Song, S. (2000), “Promoting exports The role of inward FDI in China”, China Economic Review, 11, pp. 385-396. Zhao, W., Liu, L. e Zhao, T. (2010), "The contribution of outward direct investment to productivity changes within China, 1991–2007", Journal of International Management, 16(2), pp. 121-130.