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O stress ocupacional na docência universitária: modos de gestão da fronteira trabalho/família

Ana Catarina Alves Moreira de Carvalho

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Ana Catarina Alves Moreira de Carvalho O STRESS OCUPACIONAL NA DOCÊNCIA UNIVERSITÁRIA: MODOS DE GESTÃO DA FRONTEIRA TRABALHO/FAMÍLIA Tese de Mestrado 2009 O STRESS OCUPACIONAL NA DOCENCIA UNIVERSITÁRIA: MODOS DE GESTÃO DA FRONTEIRA TRABALHO/FAMÍLIA Ana Catarina Alves Moreira de Carvalho Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de MESTRE EM PSICOLOGIA – ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES, SOCIAL E DO TRABALHO Orientadora: Professora Doutora Filomena Jordão OUTUBRO DE 2009 ii Resumo No trabalho, as pessoas enfrentam problemas psicossociais cada vez mais graves, que têm origem na precariedade em que desenvolvem as suas funções e nas exigências que estas prescrevem, pelo que pode acarretar alterações comportamentais e psicofisiológicas. O docente universitário possui uma carreira profissional exigente que, para além dos desafios e oportunidades, traz obstáculos e dificuldades. Ora, as exigências advindas do seu estatuto de docente, bem como das solicitações que chegam do papel que desempenha no seio familiar, a incapacidade de estabelecer um equilíbrio entre o trabalho e a família acarretam situações de stress que se podem prolongar no tempo, pelo que dificultam em muito o desempenho dos dois papéis. Neste estudo de caso múltiplo, de cariz exploratório e descritivo, pretendemos compreender de que forma os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família. Para tal, foi utilizada a entrevista, como técnica de recolha de dados, realizada a seis docentes universitários de uma Universidade Portuguesa. Os dados das entrevistas foram sujeitos à técnica de análise de conteúdo com recurso ao Nvivo7. Os resultados obtidos permitem-nos concluir que estes docentes vivem a relação trabalho/família através do Extravasamento, da Segmentação, da Compensação e do Conflito Trabalho/Família. As estratégias utilizadas por estes docentes para gerir a fronteira entre o trabalho e a família passam pelo recurso a apoios, pela alteração das regras de funcionamento e pela organização das tarefas de casa. Em termos futuros, seria pertinente explorar os resultados obtidos, alargando o número de casos em análise, quiçá realizar um estudo longitudinal, no sentido de compreender o modo como os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família. Palavras-chave: stress ocupacional, articulação trabalho/família, docência universitária, estudo de caso múltiplo, Nvivo7. iii Abstract At work, people face psychosocial problems which are becoming more serious. These problems are generated by the instability felt when developing their functions and by the demands related with them. Thus, these problems may lead to behaviour and psicophisiologic changes. A university teacher has a very demanding professional career which, beside challenges and opportunities, brings obstacles and difficulties. Thus, the requests associated to teacher’s statute, as well to those related with the role played in the family context, and the inability to establish a balance between work and family result in stress situations which may endure through time, hardening the performance of both roles. In this exploratory and descriptive multiple-case study we intend to understand the way university teachers manage the relationship between work and family. To do so, we made use of interviews to collect data, interviewing six university teachers who lecture in a Portuguese University. The collected data was subjected to a content analysis in which we used Nvivo7. The obtained results allow us to conclude that these teachers live their work/family relationship through Extravasation, Segmentation, Compensation and Conflict Work/Family. The strategies used by these teachers to manage the border between work and family include supports, functioning rules changing and home tasks organization. In the future, it will be important to explore the achieved results, enlarging the number of cases of the study, and maybe carrying out a longitudinal study, in order to understand the way university teachers manage the border between work and family. Key-words: occupational stress, work/family articulation, university teaching, multiple-case study, Nvivo7. iv Résumé Au travail, les personnes affrontent des problèmes psychosociaux de plus en plus graves, qui ont origine dans la précarité où ils développent leurs fonctions et dans les exigences que celles-ci prescrivent, par qu’ils peuvent causer des modifications comportementaux et psichofisiologiques. Le professeur universitaire a une carrière professionnelle exigeante qui, outre les défis et les occasions, apporte des obstacles et des difficultés. Néanmoins, les exigences propres de son statut de professeur, ainsi que les sollicitations qui arrivent du papier lequel il joue dans le sein familier, l'incapacité d'établir un équilibre entre le travail et la famille causent des situations de stress qui se peuvent prolonger dans le temps, rendent très difficile la performance des deux papiers. Dans cette étude de cas multiple, de visage exploratoire et descriptive, nous prétendons comprendre de qu'elle forme les professeurs universitaires ont gérée la frontière entre le travail et la famille. Pour cela, on est utilisée l'entrevue, comme technique de collecte de data, réalisée à six professeurs universitaires d'une université Portugaise. Le data des entrevues a été sujet à la technique d'analyse de contenu sous ressource à Nvivo7. Les résultats obtenus nous permettre de conclure que ces professeurs vivent la relation travail/famille à travers de l'Extravasation, de la Segmentation, de la Compensation et de le Conflicte Travail/Famille. Les stratégies utilisées par ces professeurs pour gérer la frontière entre le travail et la famille passent par la ressource à des aides, par la modification des règles de fonctionnement et par l'organisation des tâches de la maison. Dans des termes futurs, ce serait pertinent d'explorer les résultats obtenus, en élargissant le nombre de cas en analyse, quiçá réaliser une étude longitudinale, dans le but de comprendre la manière comme les professeurs universitaires gèrent la frontière entre le travail et la famille. Mots-clés: stress professionnel, articulation travail/famille, enseignement universitaire, étude de cas multiple, Nvivo7. v Agradecimentos Ao longo de todo o percurso efectuado muitos foram aqueles que estiveram presentes no meu caminho, que me ensinaram e apoiaram, por isso gostava de deixar a todos o meu sincero agradecimento. À minha orientadora, Professora Doutora Filomena Jordão, por todos os saberes transmitidos, pela dedicação e empenho com que me orientou neste projecto. À Dr.ª Catarina Brandão, pela disponibilidade e ajuda dispensadas com o programa Nvivo. A todos os docentes, que aceitaram fazer parte deste estudo, sem os quais não o seria possível concretizar. Ao meu tio Paulo, que desde o início da Licenciatura tem sido um apoio constante e um amigo. Aos meus pais, que sempre apostaram e se dedicaram à minha formação, que me apoiaram em todos os momentos e que são a minha referência de vida. vi Índice Introdução ............................................................................................................................................... 1 Cap. I – Enquadramento Teórico ............................................................................................................. 5 1 Stress ........................................................................................................................................... 6 1.1 O conceito de stress ............................................................................................................ 6 1.2 Stress Ocupacional .............................................................................................................. 7 1.2.1 Definição ...................................................................................................................... 7 1.2.2 Factores indutores de stress ocupacional ................................................................... 8 1.2.2.1 Articulação trabalho/família ................................................................................. 10 1.2.2.1.1 Modelos da articulação trabalho/família ........................................................... 14 2 O stress na Docência ................................................................................................................. 18 2.1 O stress na docência universitária .................................................................................... 19 2.2 Estudos e seus resultados ................................................................................................. 20 Cap. II – Estudo Empírico ....................................................................................................................... 23 1 Metodologia .............................................................................................................................. 24 2 Questão de investigação e objectivos do estudo ...................................................................... 24 3 Casos ......................................................................................................................................... 24 4 Técnica de recolha de dados ..................................................................................................... 25 5 Procedimento ............................................................................................................................ 29 6 Técnica de análise dos dados .................................................................................................... 29 7 Resultados ................................................................................................................................. 29 7.1 Sistema de Categorias ....................................................................................................... 29 7.2 Resultados descritivos ....................................................................................................... 31 7.2.1 Eu e o meu trabalho .................................................................................................. 31 7.2.1.1 Eu e o meu trabalho: Actividades do docente ...................................................... 31 7.2.1.2 Eu e o meu trabalho: Prioridades na carreira ....................................................... 32 7.2.2 Eu e a minha família: Prioridades pessoais ............................................................... 34 7.2.3 A gestão da fronteira Trabalho/Família .................................................................... 35 7.2.3.1 A gestão da fronteira Trabalho/Família: Factores indutores de stress ..................... 36 7.2.3.2 A gestão da fronteira Trabalho/Família: Articulação Trabalho/Família .................... 37 7.2.3.3 A gestão da fronteira Trabalho/Família: Estratégias de Articulação Trabalho/Família ............................................................................................................................................... 39 7.3 Resultados Analíticos ........................................................................................................ 42 7.3.1 Factores indutores de stress ..................................................................................... 42 vii 7.3.2 Articulação Trabalho/Família .................................................................................... 43 7.3.3 Estratégias de Articulação Trabalho/Família ............................................................. 45 Cap. III – Discussão dos resultados ........................................................................................................ 47 1 Actividades do docente ............................................................................................................. 48 2 Prioridades na carreira e prioridades pessoais ......................................................................... 49 3 Factores indutores de stress na docência universitária ............................................................ 50 4 O Trabalho e a Família: a vivência da relação e estratégias de articulação .............................. 52 5 Síntese ....................................................................................................................................... 55 Cap. IV – Reflexões finais ...................................................................................................................... 60 Bibliografia ............................................................................................................................................ 66 ANEXOS ................................................................................................................................................. 70 Cap. I – Enquadramento Teórico 6 1 Stress 1.1 O conceito de stress Stress é uma palavra inglesa que quer dizer “pressão” ou “tensão”. Uma pessoa que considera estar sob stress sente pressão para agir. Partindo daqui, podemos dizer que o stress é o nosso motor de acção, pelo que o podemos considerar positivo e agradável (eustress) ou negativo (distress), quando é desagradável e não promove o desenvolvimento e o crescimento individual (Ramos, 2001). O modo como o sujeito classifica o evento desencadeador de stress é importante, na medida em que é essencial a interpretação deste por parte do indivíduo. Daí a avaliação do acontecimento de vida variar de sujeito para sujeito, de acordo com: a) a conveniência do evento, ou seja, se este é considerado pelo indivíduo como positivo ou negativo; b) o controlo da situação, isto é, se o sujeito foi capaz de controlar o acontecimento ou se foram outros a fazê-lo e c) o grau de adaptação necessária após o acontecimento (Odgen, 2004). Em 1914, Walter Cannon (cit. in Ramos, 2001), utilizou o conceito de stress para se referir a um elenco de estados emocionais que acarretavam alterações nocivas para o organismo. Mais tarde, Selye (1978-1980, cit. in Ramos, 2001) refere-se ao stress como uma síndroma geral de adaptação: o sujeito possui um conjunto de meios provenientes do organismo que de tudo fazem para este se adaptar ao meio envolvente. Na verdade, existem várias formas de definir o conceito de stress, todavia, as mais comuns e prevalecentes, consideram stressor tudo aquilo que é causado pelo ambiente externo, ocorrendo uma transacção entre o sujeito e o meio ambiente. E o stress como a resposta ao stressor, que envolve mudanças bioquímicas, fisiológicas, comportamentais e psicológicas. (Odgen, 2004). O stress pode também ser considerado como um processo complexo e multivariado, que resulta de um sistema de variáveis que envolvem entradas, saídas e actividades de mediação, avaliação e coping (Lazarus, 1990; Lázaro, DeLongis, Folkman, e Gruen, 1985, cit in Gillespie, Walsh, Winefield, Dua & Stough, 2001). Esta abordagem transaccional do stress faz com que seja encarado como um processo dinâmico resultado da interacção do indivíduo com o meio ambiente. Lazarus (1990, cit in Gillespie, Walsh, Winefield, Dua & Stough, 2001) considera que, para compreendermos o stress, é importante avaliar um conjunto de variáveis que influenciam este processo, destacamos as variáveis ambientais e os antecedentes do sujeito, como os seus recursos, crenças e objectivos; as estratégias de coping e a personalidade; os indicadores de resposta imediata ao stress como as emoções e os comportamentos; e, por fim, as 7 consequências do stress a longo prazo, quer para o sujeito quer para a sua actividade laboral como o bem-estar psicológico, a funcionalidade social e a saúde do indivíduo. 1.2 Stress Ocupacional 1.2.1 Definição Se pensarmos que o trabalho é, actualmente, um meio social “regulador da vida da sociedade” que permite ao ser humano lutar pelo seu bem-estar a nível pessoal e social, é necessário considerar todos os factores de risco que levam o sujeito a viver o stress ocupacional, advindo de condições laborais que nem sempre é capaz de controlar (Ramos, 2001). Podemos considerar que o facto da pessoa se sentir sob stress se prende, nomeadamente, com o estilo de vida profissional adoptado pela nossa actual sociedade, designadamente, no que concerne ao ritmo de vida a que os sujeitos estão habituados, às inúmeras solicitações em vários períodos do dia e à competitividade em que vivem para garantir o emprego (Jesus, 2002). Na verdade, o stress ocupacional é um problema da sociedade de hoje, dado que muitos são os factores indutores de stress que têm origem no contexto de trabalho. A luminosidade do local, o ruído de uma máquina ou do telefone, a temperatura, a sobrecarga e a subcarga de trabalho, as incongruências e ambiguidades da tarefa, os problemas com os superiores, conduzem a situações de mal-estar no sujeito. Porém, existem outros factores que, apesar de não serem inerentes à organização, afectam o desempenho do indivíduo na mesma proporção. Falamos dos acontecimentos de vida, na articulação trabalho/família, em stressores crónicos e até mesmo em traumas (Ramos, 2001). O stress ocupacional pode ser definido como um desajuste entre os sujeitos e o ambiente em que vivem e pode ser relativo à vida ocupacional (exigências de papel) e às competências do indivíduo, que oscilam entre a motivação e as potencialidades advindas do trabalho (French et al., 1974, cit. in, Mota-Cardoso, Araújo, Ramos, Gonçalves & Ramos, 2000). Deste modo, é essencial conhecer as fontes de stress ocupacional que afectam o desempenho do indivíduo no exercício da sua actividade laboral e, neste sentido, realçamos o modelo da gestão da prevenção do stress que identifica como exigências organizacionais associadas ao stress as exigências psicológicas, as interpessoais, as da tarefa e as do papel, e protagoniza como respostas ao stress as respostas individuais e organizacionais, considerando um conjunto de hipóteses que moderam a resposta ao stress. Assim, indaga acerca do excesso das exigências organizacionais como promotoras do aumento da resposta ao stress por parte dos 8 sujeitos, coloca a hipótese de que a intensificação, a frequência e o prolongamento das respostas ao stress provocam o aumento das consequências deste para a saúde dos indivíduos, do mesmo modo, que os sujeitos com maior vulnerabilidade à modificação tendem a sofrer mais do que os indivíduos que aceitam melhor a mudança. O distress advindo destas situações pode reflectir-se a nível individual, principalmente, no que respeita a problemas comportamentais e psicológicos e/ou ao nível organizacional com custos directos ou indirectos para a organização. O modelo reproduz também hipóteses relativas à prevenção, considerando a prevenção primária que actua directamente nos factores stressores, neste caso são as exigências da organização, procurando diminuir a resposta ao stress, através de estratégias organizacionais como o redesenho das tarefas, a gestão participativa, o desenvolvimento da carreira e a análise do papel, entre outros, bem como, estratégias individuais como a gestão do estilo de vida, do ambiente de trabalho e da percepção de stress. A prevenção secundária, age ao nível da resposta ao stress, ou seja procura reduzir a resposta ao stress quando a prevenção primária não foi possível. Assim, no âmbito organizacional aponta como estratégias o team building e a diversidade de programas, e no âmbito pessoal o relaxamento, o exercício físico e a alimentação cuidada. Por fim, a prevenção terciária que actua directamente nos sintomas advindos do stress ocupacional, através de terapia comportamental e psicológica, aconselhamento, debriefing, entre outros (Quick, Quinck & Nelson, 2000 cit in Cooper, 2000). Deste modo, é fundamental que os investigadores da área explorem a situação, nomeadamente, na identificação das causas organizacionais de stress e a sua relação com a produtividade e com a saúde dos trabalhadores (Ramos, 2001). 1.2.2 Factores indutores de stress ocupacional Existem nos contextos de trabalho factores indutores de stress que vão constranger em muito as acções dos sujeitos no desenvolvimento da sua actividade laboral. Estes factores têm vindo a ser sistematizados, por vários autores (Cartwright & Cooper, 1997; Quick et al., 1997; Cartwright e tal., 1995; Ross & Altmaier, 1994; Sauter et al., 1990; Baker, 1988; Burke, 1988, cit in Ramos, 2001) e são basicamente: as condições físicas do trabalho (iluminação, temperatura e ventilação, barulho e espaço), as características do trabalho (características das tarefas, sobrecarga/subcarga de trabalho, horários de trabalho alargados, ritmo de trabalho, repetitividade do trabalho, trabalho por turnos, novas tecnologias), o papel na organização (ambiguidade e conflito de papel e responsabilidade), o clima e estrutura da organização 9 (estrutura organizacional, downsizing, trabalho de equipa, competição, fusões e aquisições, exigências organizacionais de interacção, clima organizacional e violência no trabalho), o relacionamento interpessoal (relação com colegas, subordinados e superiores), a carreira profissional (inicio da carreira, avaliação do desempenho, formação insuficiente, insegurança, manutenção, transições e fim da carreira) e os factores extrínsecos ao trabalho (articulação trabalho/família, acontecimentos importantes de vida, traumas, stressores crónicos, micro e macro stressores). Importa destacar que, na maioria das vezes, estas causas do stress ocupacional estão intimamente relacionadas e que é necessário e importante que o sujeito as avalie como fontes de stress ocupacional (Ramos, 2001). Da panóplia de factores de stress ocupacional mencionados anteriormente, aquele que se destaca como relevante para o presente estudo é a relação trabalho/família, porém estaremos também atentos ao desenvolvimento da carreira, como factor promotor da alteração das prioridades pessoais e profissionais dos indivíduos desde o início da sua carreira até à actualidade. Digamos que o stress no trabalho afecta a família, na medida em que reduz o potencial de interacções positivas, à custa do prejuízo de recursos pessoais dos membros da família na ajuda ao sujeito que vive sob stress, do mesmo modo, que a família, principalmente, as responsabilidades familiares, são muitas vezes consideradas como a causa do absentismo, da falta de pontualidade e da ineficácia no desempenho laboral dos indivíduos (Zedeck & Mosier, 1990, cit in Ramos, 2001). Assim, torna-se essencial compreender esta articulação muitas vezes pautada pelo desajustamento, sendo que, a vivência desta situação é um dos objectivos a explorar neste estudo. Já o desenvolvimento da carreira, é considerado dado que, se pretendemos estudar o modo como os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família, o percurso laboral do sujeito é pertinente, uma vez que o “peso” do trabalho, à partida, sofrerá oscilações ao longo da vida do indivíduo, nomeadamente, no que respeita às mudanças na carreira. De facto, a história da carreira profissional é, no fundo, a história de trabalho de um indivíduo e, como tudo, tem um início e um fim, o que acaba por acompanhar o ciclo de vida da pessoa (Ramos, 2001). Se pensarmos no período que decorre desde o início da carreira profissional até ao seu término, ao longo deste período de vida, o sujeito muda e, em consequência, os aspectos a que irá dar maior importância e significado também. Segundo Ross e Altmaier (1994; cit. in Ramos, 2001), no início da carreira, os sujeitos preocupam-se com o trabalho e formulam as primeiras expectativas. Posteriormente e até aos quarenta anos, centram-se na família, na comunidade e nas actividades de lazer. Depois dos quarenta e até aos cinquenta 10 anos os seus interesses podem divergir: ou são capazes de integrar harmoniosamente a esfera familiar com a laboral ou vivem estes dois mundos de forma isolada. Assim, explorar o desenvolvimento da carreira do sujeito, no sentido de compreender se é causa da modificação das prioridades pessoais e laborais, perceber o lugar que ocupa a família ao longo deste percurso poderá tornar-se útil na procura da explicação do modo como o docente gere actualmente a fronteira entre o trabalho e a família. Isto porque, a carreira não se traduz num aglomerado de momentos de trabalho, mas sim num objecto de acção do sujeito, pelo que deve agir de forma a enriquecer, planear e desenvolver activamente a sua carreira. Além disso, é comum que ao longo da vida o indivíduo por um lado, tenha experienciado outros contextos laborais que não o actual, e por outro, actue simultaneamente em diferentes contextos de trabalho, do mesmo modo, que a carreira não é só um interesse do sujeito mas também do contexto laboral onde desempenha as suas funções, logo a organização espera que os seus colaboradores realizem uma boa gestão da sua carreira. Com efeito, a incerteza, a mudança e a flexibilidade da panorâmica do trabalho actual, são factores indutores de stress nos sujeitos, dada a importância que o trabalho representa para eles (Ramos, 2001). Todas estas situações se traduzem em exigências às quais o indivíduo sente que deve dar resposta, consequentemente são situações geradoras de stress na vida familiar, pois as pressões e tensões emocionais, bem como as condições do papel laboral abalam o clima emocional da família, da mesma forma que a incompatibilidade de papéis, traduzida no antagonismo entre as obrigações e expectativas do papel profissional com o familiar (Pearlin & Turner, 1987, cit in Ramos, 2001). 1.2.2.1 Articulação trabalho/família Para a maioria dos sujeitos da sociedade actual o trabalho e a família constituem-se como as instituições primordiais da sua vida (Zedeck & Mosier, 1990; cit in Ramos, 2001). Na verdade é na família que o indivíduo encontra refúgio emocional, mas também é nela que define e reforça a sua identidade, pelo que o trabalho será uma forma de reestruturação, desenvolvimento ou confirmação da identidade construída no seio familiar (Ramos, 2001). A relação que actualmente percepcionamos entre o trabalho e a família deve as suas transformações, em grande parte, à revolução industrial (Clark, 2000). Na verdade, as mudanças que estão a surgir a nível familiar advêm de todas as transformações que ocorrem nos sistemas de trabalho, do mesmo modo que as alterações nos sistemas e dinâmicas da família modificam a vida laboral. Assim, há que contextualizar as transformações e mudanças 11 nos domínios social e histórico, para que melhor sejam compreendidas (Shellenberger & Hoffman, 1995). Com efeito, o conceito de trabalho que hoje conhecemos nem sempre foi encarado com tal importância e essência. Na realidade, sofreu inúmeras modificações até chegar ao significado que para nós tem hoje e, muito possivelmente, irá continuar a sofrer alterações com a evolução social e económica das sociedades, que constantemente se verificam. Para tal, contribuíram não só as consequências da revolução industrial, mas também do cristianismo, da intervenção de autores que se interessaram pelo tema, bem como todas as mutações sociais ocorridas até ao século XX, o que promoveu o crescimento do trabalho em termos de significado e importância para a sociedade (Ramos, 2001). Relativamente ao cristianismo, podemos referir Santo Agostinho, que nos fala da reinterpretação da criação divina como obra de Deus, que durante seis dias retira de Si a matéria com que faz o Mundo, o que servia para provar aos Homens que Deus trabalha. O trabalho de Deus institui-se, assim, como modelo de referência para o Homem, passa a ser central na vida das pessoas, primeiro, por imitação do trabalho divino, depois, como protecção das más tentações da alma e forma de assegurar e manter a virtude do espírito. Torna-se, assim, um bonum arduum (um bem difícil), através do qual o Homem se aproxima de Deus. Quanto à revolução industrial, esta evolução socioeconómica, ao promover o desenvolvimento económico, incrementou mudanças a nível do trabalho e, logo, ao nível familiar. Com efeito, no período anterior à revolução industrial, eram as famílias que detinham a produção para seu próprio usufruto (Googins, 1991, cit. in Clark, 2000). Porém, com a revolução da indústria, o mercado económico cresceu significativamente e começam a ser criados novos locais de trabalho não familiares, o que fez com que o conceito de trabalho passasse a ser sinónimo de emprego e uma panóplia de transformações na família surge a distintos níveis. Com efeito, há a concepção de uma diversidade de empregos e situações familiares (Coontz, 1992, cit. in Clark, 2000), para todas as classes sociais, figurando a mudança de comportamentos e de expressão de emoções, reflectindo-se na modificação cultural e nas expectativas de cada um (Morf, 1989; cit. in Clark, 2000). Adam Smith (1776, cit in Ramos, 2001) defende que as nações devem empenhar-se na busca da riqueza, uma vez que só com abundância e prosperidade se alcança o bem-estar geral. Assim, o trabalho passa a ser defendido como factor de produção de riqueza, por ser a garantia de autonomia individual, começando a participar no ordenamento das relações sociais. Por outras palavras, o trabalho é a actividade que produz riqueza, o elemento que valoriza cada indivíduo e que se torna no factor que sustenta a organização social. Já no Século XIX, por influências de Hegel e Marx, 12 o trabalho é visto como a essência do Homem, como um motor privilegiado da progressão com vista ao bem-estar da Humanidade. Posteriormente, a II Guerra Mundial favoreceu o enriquecimento do conceito de trabalho, dando maior valorização a um dos seus aspectos centrais: o salário. Neste período, o trabalho torna-se um direito fundamental do cidadão, na medida em que lhe garante a adesão à esfera económica pública, a sua autonomia e a possibilidade de escolher a forma de vida que quiser (Ramos, 2001). Na verdade a família e o trabalho são duas esferas fulcrais na vida da pessoa e a sua articulação assume um papel de destaque ao longo do quotidiano do sujeito, porque será uma das formas deste ser capaz de alcançar o bem-estar a nível laboral e familiar. Apesar de ter sido nos anos 60 que ocorreu um aumento dos estudos e do interesse pelo tema da relação entre o trabalho e a família (Marshall, 1997), os estudos realizados até 1990 foram escassos relativamente à articulação trabalho/família, sendo até aqui a família encarada como um local de refúgio e de suporte emocional. Todavia, surgiram estudos cujos resultados contradizem os enunciados anteriormente, uma vez que a dimensão feminina foi negligenciada, o que revela que a relação trabalho/família é um factor de stress sobretudo para as mulheres e os acontecimentos diários, quer sejam a nível da vida familiar quer individual, têm pouco relevo na vida profissional. Todavia, outros estudos da mesma época vêm dizer que tais acontecimentos provocam depressão e angústia, afectando a prestação dos sujeitos no seu local de trabalho (Stora, 1990). Na verdade, os papéis assumidos no seio familiar podem, por um lado, ser factores indutores de stress, mas por outro, serem uma forma que o sujeito encontra para reduzir o stress sentido no local de trabalho. Isto, devido às expectativas criadas pelo sujeito relativamente ao trabalho e aos papéis familiares. Expectativas essas, que podem ser indutoras de tensão, quer física quer psicológica, dado que o sujeito define objectivos e formas de actuação na família e no trabalho, que podem levar a um desajuste na relação, quando as pressões de um ou outro papel são de tal modo elevadas que dominam o tempo que a pessoa tem disponível para dar resposta às expectativas associadas ao outro papel (Katz & Kahn, 1978, cit in Cooke & Rouseau, 1984). Por outro lado, o facto de os indivíduos criarem dois tipos de expectativas, quanto à família e quanto ao trabalho, podem levar a situações de aumento de trabalho, a sentimentos de sobrecarga no trabalho ou então ao nonwork (Hall & Hall, 1982; Szalai, 1972, cit in Cooke & Rouseau, 1984). Numa situação assim, é muito provável que surja um conflito, motivado pelas exigências advindas do trabalho e da família, e em consequência deste conflito o sujeito pode sentir-se pressionado a prolongar as suas actividades laborais para além do tempo destinado às mesmas (Beutell & Greenhaus, 1983, cit in Cooke & Rouseau, 1984). Contudo, esta sobrecarga de 13 trabalho, apesar de estar directamente relacionada com o conflito entre o trabalho e a família, que se trata de uma das formas do sujeito viver a relação entre estas duas esferas, e que será descrito na próxima secção, deve ser considerada apenas como resultado directo das expectativas desenvolvidas pelo sujeito face ao trabalho e não aos papéis familiares, uma vez que o conflito pode incrementar esta sobrecarga. Caso o indivíduo destine mais tempo para as actividades laborais, talvez a pressão para com o trabalho diminua. Porém, o tamanho da família tem uma forte influência, dado que, quanto maior for a família, maiores são as expectativas em relação a ela e maior a pressão sentida no trabalho para lhes dar resposta (Cooke & Rouseau, 1984). Rego, Pina e Cunha (2009) desenvolveram um estudo que procurava compreender o modo como a percepção por parte do sujeito de que existe na sua vida uma conciliação entre o trabalho e a família modera ou favorece a percepção de oportunidade de aprendizagem e do desenvolvimento pessoal, nomeadamente ao nível do bem-estar afectivo, caracterizado pelo AWB: pleasure (prazer), comfort (conforto), placidity (tranquilidade), enthusiasm (entusiasmo) e vigor (vigor). No final do mesmo, concluíram que a percepção de oportunidades de aprendizagem, de desenvolvimento pessoal e de conciliação trabalho/família predizem o bem-estar afectivo, do mesmo modo que a percepção de oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal diminuem caso a conciliação trabalho/família for percebida, pelo sujeito, como baixa. Com efeito, a conciliação entre o trabalho e a família é, neste caso, caracterizada através do grau em que a organização onde o sujeito desempenha as suas funções cria condições para os indivíduos serem capazes de conciliar a esfera profissional com a familiar. Por outro lado, as oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal remetem para o grau em que o sujeito sente que pode estar continuamente em aprendizagem e a realizar tarefas que contribuam para o desenvolvimento das suas potencialidades, sendo que cada um destes factores auxilia na organização das tarefas do indivíduo (Wilson e tal., 2004, cit in Rego & Pinha e Cunha, 2009). O bem-estar dos sujeitos está associado às questões da conciliação trabalho/família (Spector et al., 2004, cit in Rego & Pina e Cunha, 2009), por isso, se o sujeito percepciona que não é capaz de conciliar de forma harmoniosa o trabalho com a família, a sua qualidade de vida e o sentimento de bem-estar afectivo podem diminuir e desencadear um sentimento de falta de apoio por parte da organização onde desempenha as suas funções e, consequentemente, um menor bem-estar afectivo (Deborah, Michelle, & Linda, 1993; Richardsen, Burke, & Mikkelsen, 1999; Rhoades & Eisenberger, 2002; Ter Doest & De Jonge, 2006, cit in Rego & Pinha e Cunha, 14 2009), bem como reduzir o significado ou a importância que o trabalho representa para o sujeito (Richardsen et al., 1999, cit in Rego & Pinha e Cunha, 2009). Todavia, quando o sujeito percebe que é capaz de conciliar o trabalho com a família, desenvolve sentimentos de maior bem-estar e se sente mais apoiado pela organização onde trabalha (Mauno et al., 2005, cit in Rego & Pinha e Cunha, 2009), ele cria formas de responder às exigências do trabalho e da família e, deste modo, sente uma diminuição do stress no desempenho dos seus papéis em ambos os domínios, um aumento da auto-estima e do bemestar afectivo (Kinnunen, Mauno, Geurts, & Dikkers, 2005; Marks & MacDermid, 1996, cit in Rego & Pina e Cunha, 2009). Se nos reportarmos à situação do docente universitário, as três variáveis em questão, oportunidade de aprendizagem, desenvolvimento pessoal e bem-estar afectivo, são essenciais para que o docente exerça da melhor forma possível a sua função. Isto porque é importante que ele se sinta confortável em termos afectivos consigo próprio, com a sua família, os seus amigos e mesmo com a comunidade académica, e que percepcione que possuiu oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal ao longo da sua carreira de docente. Contudo, atendendo às conclusões do estudo supramencionado, tudo isto é possível se o docente sentir que vive uma relação de harmonia entre o seu trabalho e a sua família. Em jeito de conclusão, podemos, a partir daqui, afirmar que as relações e o ambiente familiar influenciam o desempenho do sujeito no seu local de trabalho, do mesmo modo que aquilo que acontece no trabalho vai influenciar o comportamento e as condutas do sujeito na sua família. Há, então, uma influência mútua entre o trabalho e a família que, segundo Zedeck e Mosier (1990; cit. in Ramos, 2001), pode ser explicada através de modelos não exclusivos entre si e que procuram explicar esta articulação. Estes modelos, isto é, as diferentes formas de viver a relação entre o trabalho e a família, serão apresentados na secção seguinte. 1.2.2.1.1 Modelos da articulação trabalho/família Após a explanação da importância do trabalho e da família na vida do sujeito, nomeadamente, quanto ao significado de cada um destes domínios e à influência mútua entre eles, perceber como se conciliam e como lidam os sujeitos com esta articulação, é essencial. Deste modo, a articulação entre o trabalho e a família pode ser explicada a partir de cinco modelos: o extravasamento (spilllover), a compensação, a segmentação, a perspectiva instrumental e o conflito (Zedeck & Mosier, 1990; cit in Ramos, 2001). 21 Internacional do Trabalho considerou que uma das profissões de maior risco físico e mental é a profissão de docente (Chambel, 2005) e em 1987, Kyriacou confirma tal afirmação num dos seus artigos de revisão bibliográfica, onde declara que o stress na profissão docente é uma preocupação que deve ser considerada a nível internacional (Mota-Cardoso, Araújo, Ramos, Gonçalves & Ramos, 2000). Kyriacou e Sutcliffe (1978, cit in Gomes, 2006) reforçam o desgaste que a profissão de docente acarreta a partir de uma investigação realizada com 700 professores ingleses. Os seus resultados demonstram que 25% dos docentes caracterizam a profissão como muito stressante e dão relevo ao facto dos efeitos negativos se repercutirem ao nível do rendimento profissional e em certas variáveis psicológicas, como a depressão e o burnout. Estes dados permitem concluir que a vivência de stress por parte da docência, neste caso, constitui-se como uma ameaça para o seu bem-estar, auto-estima e valor pessoal, o que, em consequência pode acarretar o desenvolvimento de sentimentos negativos, como a insatisfação e a desmotivação, o que, na sua prática laboral, se manifesta pela diminuição da qualidade e investimento nas actividades desenvolvidas (Kyriacou, 1987, cit in Gomes, 2006). Os estudos efectuados por Kinman (2001, cit in Biron, Brun & Ivers, 2008) concluem que o nível de stress ocupacional tem aumentado ao longo dos últimos anos nos docentes universitários, devido às pressões organizacionais e à falta de apoio social, estando relacionados com uma administração excessiva e com longas horas de trabalho. Um estudo qualitativo realizado em 15 Universidades da Austrália concluiu que os docentes universitários sentiram um aumento acentuado dos níveis de stress ao longo dos últimos cinco anos. Os principais motivos descritos como fontes indutoras de stress passavam pela falta de financiamento, baixos recursos e serviços de apoio, pela sobrecarga de trabalho, pelo sentimento negativo face à conduta de liderança e gestão, pela falta de promoção, reconhecimento ou recompensa e pelo trabalho com baixas condições de segurança (Gillespie, Walsh, Winefield, Dua & Stough, 2001, cit in Biron, Brun & Ivers, 2008). Um estudo realizado pela Blais e Lachance (1992, cit in Biron, Brun & Ivers, 2008) indica que as fontes de stress mencionadas por docentes universitários, foram concomitantes com as dos estudos mencionados anteriormente, nomeadamente o trabalho excessivo, a falta de recursos para financiar a investigação, bem como as dificuldades no cumprimento da articulação das exigências do trabalho com as da família. Em Portugal, as investigações de Melo e colaboradores (1997, cit. in Mota-Cardoso, Araújo, Ramos, Gonçalves & Ramos, 2000) demonstram que as principais fontes de stress na docência 22 do ensino superior são o excesso de trabalho, a insuficiência de meios e recursos humanos, os conflitos interpessoais, o conflitos entre os valores pessoais e os da organização, as “intrigas de gabinete”, a discriminação e o favoritismo encobertos, a falta de comunicação e de participação na tomada de decisões. Um estudo de Pinto (2009), cujo objectivo era a validação de uma escala de fontes de stress para a população de docentes universitários portugueses concluiu que as características do trabalho era o factor de stress mais comum nos profissionais do ensino superior português, seguido da carreira profissional, das condições do trabalho e por fim, do clima organizacional. No que respeita às características do trabalho, estas recaem na relação do sujeito com o seu trabalho, e caracteriza-se pela natureza das tarefas, pela conciliação de múltiplos papéis, pela sobrecarga de trabalho, pelo ritmo de trabalho, pela articulação trabalho/família, pelas responsabilidades e pela diversidade de tarefas. Já a carreira profissional reflecte o potencial stress dos factores de progressão na carreira, e representa-se através da progressão na carreira, da necessidade de formação, na avaliação do desempenho e no dilema pesquisa/docência. No que concerne às condições do trabalho, que focam as condições físicas, humanas e materiais necessárias ao desempenho profissional do docente, caracterizam-se pelo espaço físico, pela ausência de recursos ou materiais adequados, pela inexistência de recursos humanos apropriados e pela forma como a faculdade está organizada. Por fim, quanto ao clima organizacional, que diz respeito às percepções relativas ao ambiente de trabalho, nomeadamente, quanto os processos de comunicação e de relacionamento interpessoal, fazem parte os jogos de poder na faculdade, o ambiente vivido na organização, as distorções na comunicação, a relação com os superiores e com os colegas (Pinto, 2009). Na verdade, os níveis de stress afectam de forma negativa a produtividade e o desempenho no trabalho dos docentes, o que estimula a insatisfação, a intenção de mudar de actividade laboral, a perda da produtividade e o absentismo (Blais & Lachance, 1992, Cooper, 1996 & Kinman & Jones, 2003, cit in Biron, Brun & Ivers, 2008). Cap. II – Estudo Empírico 24 1 Metodologia O presente estudo é um estudo de caso múltiplo, exploratório, descritivo (Yin, 1994) e transversal (Sampieri, 2006). Apesar do stress ocupacional ser um tema amplamente estudado, não só ao nível da docência, mas, também, de outras profissões, só o é em grande escala ao nível dos docentes do ensino básico e secundário, sendo que ao nível do ensino universitário são escassas as referências relacionadas com o stress ocupacional nestes docentes. O mesmo acontece no que concerne aos estudos relativos ao modo como os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família. 2 Questão de investigação e objectivos do estudo Com vista à estruturação formal da concepção do presente estudo, foram definidas duas questões de investigação, sendo elas: De que modo, os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família? Há diferenças nas prioridades dos docentes universitários desde o início da sua actividade docente até à actualidade?. A partir destas, foram delineados os objectivos do mesmo, como instrumentos de orientação ao longo de todo o processo de investigação. Desta forma, com este estudo pretende-se compreender de que modo os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família, posteriormente, foram constituídos três objectivos de cariz mais específico: perceber se houve alterações das prioridades dos docentes universitários desde o início da sua actividade docente até à actualidade, perceber se os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress e conhecer as estratégias que os docentes universitários usam para gerir a fronteira entre o trabalho e a família. 3 Casos Os participantes deste estudo são 6 docentes universitários, que pertencem a diferentes Faculdades de uma Universidade Portuguesa, sendo que 4 sujeitos são do sexo feminino e 2 sujeitos do sexo masculino. As idades variam entre os 37 e os 51 anos, sendo a média das idades igual a 42, 8 anos. Todos os sujeitos entrevistados são casados e têm de 1 a 3 filhos. Dos casos em análise, 4 exercem funções de gestão, sendo que 2 deles acumulam 2 cargos de gestão, quanto às categorias a que pertencem os docentes e, segundo o estatuto da carreira docente, 5 deles são Professores Auxiliares e 1 é Professor Catedrático (cf. Quadro 1). 25 Quadro 1: Caracterização dos casos 4 Técnica de recolha de dados A recolha dos dados foi realizada através de entrevista construída a partir da revisão bibliográfica acerca do tema em questão e tendo em consideração os objectivos e a questão de investigação deste estudo. A escolha da entrevista como técnica de recolha de dados prendeu-se com o facto do principal objectivo ser a delineação de algo específico, a gestão da fronteira entre o trabalho e a família, e do modo mais rigoroso possível, relativamente a um conjunto de casos específicos. Na verdade, as situações de trabalho, a dinâmica e as relações familiares variam de indivíduo para indivíduo. Deste modo, conhecer as estratégias de articulação trabalho/família eleitas pelos docentes universitários, bem como, perceber se percepcionam a relação entre o trabalho e a família como fonte indutora de stress constituem-se também objectivos da presente investigação, e tratam-se de acontecimentos vividos e experienciados pelos sujeitos, situações que a entrevista permite explorar (Poirier, Clopier-Valladon & Raybaut, 1995). Para o efeito foi elaborado um guião de entrevista (cf. ANEXO A) constituído por quatro áreas: “Dados demográficos”; “Eu e o meu trabalho”; “Eu e a minha família” e “A gestão da fronteira trabalho/família”. A área dos dados demográficos reporta-se a variáveis como a idade, o género, o estado civil, o número de filhos e as suas idades, indaga acerca do exercício de um cargo de gestão e, em caso afirmativo, há quanto tempo. Esta primeira área surge no sentido de possibilitar a caracterização dos casos em análise, para tal, centra-se Casos Idade Sexo Estado civil Nº de filhos Categoria Função de gestão Tempo durante o qual exerce função de gestão Caso A 43 Feminino Casado 3 Professor Auxiliar Comissão da Direcção de Mestrado 1 ano Comissão da Direcção de Doutoramento 3/4 anos Caso B 43 Masculino Casado 1 Professos Catedrático Vice-presidente do Conselho Directivo 8 anos Vice-presidente do Conselho Pedagógico 1/2 anos Caso C 37 Feminino Casado 2 Professor Auxiliar Director de secção 1 ano Caso D 40 Feminino Casado 2 Professor Auxiliar Não se aplica Não se aplica Caso E 51 Masculino Casado 2 Professor Auxiliar Vice-presidente do Conselho Pedagógico 1 ano Caso F 43 Feminino Casado 3 Professor Auxiliar Não se aplica Não se aplica 26 essencialmente nos dados profissionais como: se exerce ou não algum cargo de gestão e o número de anos de experiência profissional. Para além disso, e porque o principal objectivo do estudo é compreender de que modo os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família, tornou-se pertinente questionar o estado civil, o número de filhos e as suas idades para caracterização do contexto familiar dos participantes do estudo. Isto porque, a teoria aponta para o facto de que quanto maior for a família, maiores são as expectativas em relação a ela e maior a pressão sentida no trabalho para lhes dar resposta, do mesmo modo que, o conflito entre o trabalho e a família pode ser mais acentuado com o aumento das obrigações familiares, como, por exemplo, o casamento ou a existência de filhos (Cooke & Rouseau, 1984). A área “Eu e o meu trabalho” está direccionada para a compreensão da vivência do trabalho por parte do docente e procura compreender se o desenvolvimento da carreira fomentou alterações nas prioridades profissionais dos sujeitos. Como vimos anteriormente, o conceito de trabalho e o seu significado têm sido alvo de inúmeras transformações ao longo dos tempos, para além de que o trabalho é um factor caracterizador da identidade de cada um. Deste modo, esta área foca-se nas seguintes questões: a) Que obrigações e/ou responsabilidades tem no exercício da sua actividade de docente? b) Neste momento da sua carreira, que prioridades identifica a nível profissional? c) Se nos reportarmos ao início da sua carreira, sentiu alteração a nível das suas prioridades? Se sim, quais as alterações mais significativas a nível profissional? Assim, a primeira questão procura perceber quais as responsabilidades e obrigações sentidas pelos docentes, dado que a sua profissão é considerada uma das mais exigentes e selectivas (Teodoro, 1994) e um factor desencadeador de stress ocupacional. A segunda e terceira questões estão relacionadas entre si e reportam-se à história da carreira profissional do sujeito, que acaba por reflectir a história de trabalho de cada um, de modo semelhante com o ciclo de vida da pessoa (Ramos, 2001). O principal objectivo das questões é perceber quais os aspectos mais valorizados e com maior significado para o sujeito no início da sua carreira de docente e quais são os mais importantes na actualidade, isto é, pretende-se saber se, com o decorrer do tempo, se o docente percepcionou mudanças ao nível das suas prioridades profissionais. A área “Eu e a minha família” centra-se na compreensão da vivência da família. Com efeito, as mudanças que possam ser verificadas a nível familiar advêm de todas as transformações que ocorrem nos sistemas de trabalho, do mesmo modo que as alterações nos sistemas e dinâmicas da família modificam a vida laboral (Shellenberger & Hoffman, 1995). Deste modo, as questões aqui colocadas passam por: a) Neste momento da sua carreira, que prioridades 27 identifica a nível pessoal? b) Se nos reportarmos ao início da sua carreira, sentiu alteração a nível das suas prioridades? Se sim, quais as alterações mais significativas a nível pessoal? c) Sente que foi ou é um pai/mãe presente na educação e no crescimento dos seus filhos? d) Enquanto cônjuge, sente que se dedicou ou se tem dedicado à sua relação? e) Esteve ausente em algum acontecimento familiar importante por causa do seu trabalho? É uma situação recorrente na sua vida? As duas primeiras questões relacionam-se com a história de vida de trabalho do sujeito e o objectivo é perceber se, em algum momento da sua carreira profissional, a sua prioridade foi ou é a família e todas as actividades e momentos que pode viver com ela, dado que, segundo Ross e Altmaier (1994; cit in Ramos, 2001), no início da carreira, os sujeitos preocupam-se com o trabalho e formulam as primeiras expectativas, depois e até aos quarenta anos, centram-se na família, na comunidade e nas actividades de lazer, e até aos cinquenta anos os seus interesses podem divergir: ou são capazes de integrar harmoniosamente a esfera familiar com a laboral ou vivem estes dois mundos de forma separada. Já as três últimas questões procuram reflectir acerca da relação do sujeito com a sua família e a influência do seu trabalho nas relações familiares, enquanto cônjuge e pai/mãe, porque, muitas vezes, os sujeitos não são capazes de articular a esfera do trabalho com a esfera familiar, o que provoca uma situação de conflito, uma vez que podem surgir pressões ou exigências do trabalho ou da família que se tornam incompatíveis de alguma forma com a vida familiar ou com o desempenho no trabalho (Frone, 2003). A última área, “A gestão da fronteira trabalho família”, procura perceber se os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress e, por outro, conhecer as estratégias que estes usam para gerir a fronteira entre o trabalho e a família, objectivos do presente estudo. Assim, reporta-se a questões como: a) Ao longo do exercício da sua profissão, vivenciou momentos de maiores níveis de stress? b) Considera o seu trabalho como fonte indutora de stress? Se sim, a que níveis? c) Percepciona a progressão na carreira como fonte geradora de stress? De que forma? Porquê? d) De que forma o desempenho simultâneo de um cargo de gestão afecta os níveis de stress que sente? e) Considera que o stress sentido no local de trabalho afecta as suas relações familiares (mãe/pai/cônjuge)? Se sim, em que sentido? f) Sente que o facto de exercer um cargo de gestão lhe acarretou problemas e dificuldades nas suas relações com a família? g) Sente que é capaz de articular devidamente o seu papel no trabalho com o seu papel na família? h) Muitos são aqueles que vivem um conflito entre o trabalho e a família, dado não conseguirem conciliar os dois papéis. Como consegue conciliar 28 a exigências destes dois papéis? i) Considera o trabalho e a família como dois mundos ou domínios distintos? j) Sente-se capaz de fazer a separação entre as vivências do trabalho e as vivências no seio familiar? k) Alguma vez percepcionou que os constrangimentos do trabalho estavam a afectar a sua vida/relação familiar? l) Costuma preocupar-se em delinear o tempo em que se vai dedicar ao trabalho e o tempo em que vai estar com a família? m) Assume os mesmos comportamentos, emoções e atitudes no trabalho e na família? n) Que estratégias privilegia ou utiliza para gerir a fronteira entre o trabalho e a família? As quatro primeiras questões focam-se no stress ocupacional, caracterizado por um desajustamento entre os sujeitos e o ambiente em que vivem. Este pode ser relativo à vida ocupacional (exigências de papel) e às competências do indivíduo, que oscilam entre a motivação e as potencialidades advindas do trabalho (French et al., 1974, cit. in, Mota-Cardoso, Araújo, Ramos, Gonçalves & Ramos, 2000). As duas primeiras questões estão direccionadas para o docente universitário, quer exerça ou não um cargo de gestão, e a terceira e quarta já são específicas para aqueles docentes que exercem um cargo de gestão. Porém, todas elas se focam no stress ocupacional, com o fim último de perceber se consideram a sua profissão como fonte geradora de stress, a que níveis e em que momentos da vida profissional foi mais notória a vivência do stress. As três questões seguintes procuram percepcionar o modo como o sujeito vive a relação entre o trabalho e a família, nomeadamente, explora se existe uma relação sustentada no conflito entre os dois domínios. Na verdade, se o conflito existir na relação, este pode ser baseado no tempo, isto é, o sujeito investe mais tempo num dos domínios em detrimento do outro, na tensão, ou seja, o individuo deixa extravasar as emoções negativas de um domínio para o outro ou no comportamento quando as normas e as expectativas relativas a um papel não são compatíveis com as do outro papel (Brough & O’Driscoll, 2005 in Stamatios, Antoniou & Cooper, 2005). Estas bases do conflito serão analisadas a partir das respostas às questões h); i); j) e k). Com efeito, podemos considerar que a fronteira entre o trabalho e a família, considerada por Clark (2000), pode assumir três vertentes: a física (define até onde é que os comportamentos relevantes de cada domínio têm lugar), a temporal (divide o momento em que o trabalho é feito, do período em que as responsabilidades familiares devem ser consideradas) e a psicológica (foca-se nas normas individuais estabelecidas de comportamentos, pensamentos e emoções que melhor se adaptam a cada um dos domínios). Estas vertentes serão analisadas a partir das questões l); m) e n). 29 5 Procedimento Foram entrevistados individualmente seis docentes universitários, as entrevistas foram gravadas e realizadas nos gabinetes desses mesmos docentes, com uma duração que varia entre os vinte minutos e uma hora e trinta minutos e, posteriormente, foi efectuada a transcrição de todas as verbalizações dos sujeitos. 6 Técnica de análise dos dados Os dados recolhidos foram sujeitos à análise do conteúdo, efectuada com o auxílio do programa informático Nvivo7. A análise do conteúdo será utilizada para o tratamento de dados, porque se trata de uma metodologia que se centra nos conteúdos verbalizados pelos sujeitos, bem como, no fim que procura atingir, neste caso especifico, compreender de que modo os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família. 7 Resultados Para a análise dos dados recolhido foi necessário previamente proceder à criação do sistema de categorias, aspecto que faremos referência na primeira secção. Por fim, apresentaremos os resultados divididos em duas partes: os resultados descritivos e os resultados analíticos (Richard, 2005), isto para melhor compreendermos o modo como os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família. 7.1 Sistema de Categorias Foi necessário elaborar um sistema de categorias (cf. Quadro 2) para permitir a codificação e posterior interpretação das informações obtidas a partir das entrevistas efectuadas. O conjunto final de categorias resultou, numa primeira fase, da revisão bibliográfica e do guião da entrevista, tendo sido posteriormente, ajustado para a inclusão de aspectos referidos pelos entrevistados, nomeadamente, no que respeita às actividades do docente, às prioridades pessoais, aos factores indutores de stress, principalmente, a realização das tarefas de casa, a falta de tempo para realizar actividades pessoais e o exercício de um cargo de gestão, bem como, as estratégias de articulação trabalho/família. 30 Quadro 2: Sistema de categorias Categorias Descrição das categorias A)Actividades do docente Todas as actividades que o sujeito considere que fazem parte das suas obrigações/responsabilidades enquanto docente universitário. A1) Pedagógica Actividades relacionadas com a preparação, a leccionação das aulas, o atendimento aos alunos e o acompanhamento dos alunos em trabalhos de determinada unidade curricular, em teses de mestrado ou doutoramento. A2) Científica Actividades relativas à publicação de artigos, nacionais ou internacionais, à investigação, bem como à participação ou deslocação a conferências relacionadas com a sua área de investigação/ensino. A3) Gestão Todas as actividades de carácter mais administrativo, desenvolvidas no âmbito do exercício de cargos de gestão. Nomeadamente participação em reuniões e tomada de decisões quando assim lhe compete. B)Prioridades na carreira Diz respeito ao desenvolvimento/modificação das prioridades, no âmbito da carreira, que foram progressivamente estabelecidas pelo docente universitário, desde o início da sua actividade de docente até à actualidade. C)Prioridades pessoais Diz respeito ao desenvolvimento/modificação das prioridades, a nível pessoal, pelas quais o docente universitário teve de optar ao longo da sua carreira. C1) Família em geral Relaciona-se com as prioridades no seio familiar, nomeadamente no que diz respeito à importância que a família tem tido para o docente desde o início da sua carreira até ao momento presente. C2) Filhos Diz respeito ao período da carreira em que decide ter filhos, à presença ao longo do seu crescimento, à preocupação e à disponibilidade para com a sua educação, saúde e o acompanhamento nas actividades extra-curriculares (festas, desporto) dos mesmos. C3) Cônjuge Refere-se ao relacionamento com o conjugue e à dedicação para com a relação. D)Factores indutores de stress Todas as situações, relacionadas com a profissão e/ou com a família, que o docente considera causa indutora de stress. D1) Sobrecarga de trabalho Estão relacionados com a acumulação de trabalho e a percepção de falta de tempo para o concluir, isto é, o ter excesso de trabalho, bem como à grande diversidade de solicitações provenientes dos alunos (apoios em trabalhos, mestrados, doutoramentos) e a pedidos externos de colaboração quer no âmbito da docência quer no âmbito da publicação. D2) Realização de tarefas familiares Questões relacionadas com os filhos, principalmente, com a gestão da casa, que retiram tempo para realizar as tarefas do trabalho, e com a insatisfação sentida pelo facto de não poder dar apoio ou estar mais vezes com os membros mais próximos da família alargada (pais, irmãos, sobrinhos). D3) Falta de tempo para realizar actividades pessoais Falta de tempo para realizar actividades de lazer e/ou culturais, sozinho ou com amigos. D4) Progressão na carreira Fases de progressão da carreira como fazer o mestrado e o doutoramento, ser submetido às provas de agregação ou aptidão pedagógica. D5) Exercício de um cargo de gestão O exercício de um cargo de gestão para além da actividade de docente. D6) Insegurança profissional Refere-se à incerteza quanto ao seu futuro na profissão de docente universitário no que respeita ao estatuto da carreira de docente e especialmente para aqueles que se encontram em regime de contrato. D7) Relacionamento interpessoal Prende-se com a comunicação com os alunos, na comunidade académica em geral, nomeadamente, no contexto da sala de aula, em conferencias nas quais seja orador e com os colegas de profissão, superiores ou outros. E) Articulação Trabalho/Família Refere-se ao modo como os docentes universitários vivem a relação entre o trabalho e a família. E1) Extravasamento (Spillover) A vivência da relação entre o trabalho e a família, por parte do docente, é pautada pelo extravasar das experiências emocionais do trabalho na família ou da família no trabalho, influenciando-se mutuamente. E2) Compensação O docente vive a relação entre o trabalho e a família baseada na procura de elementos de compensação em ambos os domínios, ou seja, procura na família aquilo que não alcança no trabalho e, no trabalho, o que não consegue na família. E3) Segmentação Os docentes consideram a família e o trabalho como dois domínios distintos e são capazes de lidar ou funcionar de forma satisfatória num deles, sem influenciar o outro. E4) Conflito A vivência da relação entre o trabalho e a família é pautada pelo conflito quando o docente percepciona que as exigências de um dos domínios são incompatíveis com as do outro domínio. E4a) Conflito trabalho/Família Refere-se ao conflito vivido entre o trabalho e a família quando as exigências e acontecimentos do trabalho influenciam o desempenho do papel do docente na família. E4b) Conflito baseado na tensão Ocorre quando o docente deixa extravasar as emoções negativas de um dos domínios no outro. F)Estratégias de articulação Trabalho/Família Meios através dos quais os docentes universitários procuram articular ou gerir as exigências do trabalho com as da família. F1) Existência de apoios Refere-se ao apoio prestado por familiares ou outros, nomeadamente a existência de uma empregada em casa. F2) Organização das tarefas de casa Diz respeito à organização das tarefas de casa de forma a não colidirem ou de colidirem o mínimo possível com as do trabalho, através de uma lista de tarefas ou da utilização da agenda “familiar” ou à organização mental das tarefas. F3) Alteração das regras de funcionamento Mudar ou adaptar comportamentos familiares e de trabalho de forma à não colisão de papéis, nomeadamente favorecer a aquisição de competências aos membros da família nuclear, que permitam maior autonomia e cooperação na realização de tarefas familiares. Auto disciplinar-se na gestão das tarefas profissionais. 37 fonte de stress, devido às dificuldades comunicacionais. A progressão na carreira não é para todos os docentes mecanismo gerador de stress, dado que, poucos o referem como tal, contudo salientam que o stress sentido ao longo da sua progressão na carreira serviu como um motor de acção e não tanto como inibidor. Por último, a insegurança profissional, apesar de só ser referida por um docente que se encontra em regime de contrato, faz com que ele se sinta inseguro e com algum receio face ao futuro. No Quadro 9 (cf. pág. 38) transcrevemos algumas das verbalizações dos docentes relativamente ao stress que sentem na sua profissão, quanto ao total das unidades de registo podemos verificá-lo no anexo D. 7.2.3.2 A gestão da fronteira Trabalho/Família: Articulação Trabalho/Família A Articulação trabalho/família refere-se ao modo como o sujeito vive a relação entre estes dois domínios da sua vida. De acordo com Ramos (2001), e tal como descrevemos anteriormente (cf. pág.14) a vivência desta relação pode ser descrita a partir de cinco modelos interligados entre si. Todavia, e após análise das entrevistas realizadas, foram considerados quatro dos cinco modelos. Assim, criamos quatro subcategorias: a) Extravasamento (spillover); b) Compensação; c) Segmentação e d) Conflito. Ainda foram geradas duas subcategorias secundárias a partir da subcategoria Conflito, sendo elas: o conflito trabalho/família e o conflito baseado na tensão. Apesar de existirem outras formas e origens do conflito, não foram consideradas no sistema de categorias final, dado que, as verbalizações dos docentes não se reportavam a situações características dessas mesmas bases e tipos de conflito. 38 Factores indutores de stress Casos Sobrecarga de trabalho Realização de tarefas familiares Falta de tempo para realizar actividades pessoais Progressão na carreira Exercício de um cargo de gestão Insegurança profissional Relacionamento Interpessoal A “ (…) actualmente é claro com alguns custos para mim, sinto muito bem esse stress de ter que estar em dois sítios ao mesmo tempo (…)” “ (…) a família consome tempo que eu preferia não ter e que preferia dedicar ao trabalho (…)pôr os filho que já são grandinhos a fazer alguma coisa, que também me dá um stress (…)” “(…) outro tipo de actividades de voluntariado, que fiz no passado (…) ir ao ginásio (…) também é outra coisa que me causa algum stress é ter pago alguma coisa que não estou a aproveitar (…)” “ (…) Um bocadinho mas não um stress que me incapacite, (…) há momentos de maior aflição de mais stress (…)” “ (…) são decisões partilhadas (…) não me gera de facto não me gera stress, não tem gerado. (…) Não traz muitas, não traz muito stress, isso não.” B “ (…) é humanamente impossível eu abrir a minha caixa do correio e ver numa manhã 30 e-mails que exigem uma resposta (…) o que me causa mais stress é esta sobrecarga (…) dar resposta a todas as solicitações.” “Já não vou ao cinema, com ele fui ver o Madagáscar e o Panda do Kung Fu com ele mas já não ia ao cinema há 3 anos 4 desde que ele nasceu quase (…)” “ (…) tive o stress de ter que me organizar para ver os timings (…) o que é um stress que tem a ver com a preparação das coisas (…)” “Penso que são outras dimensões de stress, portanto a gestão de pessoas acrescenta um mar de coisas que há para fazer, de repente mais uma que se tem de ligar, falar.” “ (…) as relações com as pessoas, não é? (…) acho que é o grande desafio para as instituições, olhar para as pessoas como pessoas, portanto isso consome-nos muito (…)” C “ (…) há várias coisas que tenho que trabalhar que é cansativo e que provocam muito stress. Porque eu sou muito stressada de natureza (…)” “ (…)tento comer com a minha filha isso dá-me um gozo embora seja uma fonte de stress pegar no carro ir buscá-la a correr (…)” “Sim, muito mais do que se não tivesse. (…) é mesmo elementos que existem em qualquer sítio (…)” (…) o meu contrato termina daqui mais ou menos um ano, aí sim gera-me muito stress.” “(…) as comunicações pessoais(…) não são as melhores (…) tentar falar com essas pessoas eu já vou num stress muito grande” D “Sem dúvida. Tem tudo a ver com o tempo, não é? Pronto e com a pressão às vezes temos de fazer coisas para ontem, não é? (…)o excesso de trabalho também é muita coisa ao mesmo tempo.” E “(…). As orientações (…) as situações de solicitações do exterior para participar em conferências, para ir a congressos (…) Não é só o volume de trabalho é muitas vezes a dispersão (…)” “ (…) há quanto tempo eu não me sento no sofá a ler o “Expresso” ou o “Sol” e não tenho uma sonequinha, (…)” “ Afecta um bocadinho (…) não afecta tanto porque (..) é um exercício partilhado (…) faz diminuir claramente os níveis de stress (…).” F Hoje em dia as solicitações são tantas (…) há sobretudo uma dispersão de tarefas e de funções que somos chamados a dar resposta e isso de facto faz com que o tempo não chegue.” “e é preciso gerir muito bem o dia-a-dia, é um esforço grande ter que gerir, ter que gerir as obrigações da carreira e o diaa-dia da família.” Quadro 9: Exemplos de verbalizações acerca dos Factores indutores de stress (cf. ANEXO I) 39 Assim, como podemos constatar no Quadro 10 a Segmentação e o Conflito trabalho/família são as duas formas de viver a relação privilegiadas pelos indivíduos, seguida do Extravasamento (spillover), por fim a Compensação é referida por dois dos docentes, já o conflito baseado na tensão é verbalizado por um participante. O total das unidades de registo pode ser observado no anexo E. Quadro 10: Articulação Trabalho/ Família (número de vezes verbalizadas pelos sujeitos) De seguida apresentamos algumas das verbalizações dos docentes para melhor ilustrar o modo como articulam o trabalho com a família (cf. Quadro 11, cf. pág. 40). 7.2.3.3 A gestão da fronteira Trabalho/Família: Estratégias de Articulação Trabalho/Família A terceira e última subcategoria criada no âmbito da gestão da fronteira entre o trabalho e a família foi: Estratégias de Articulação Trabalho/Família. A partir daqui foram desenvolvidas três subcategorias a) Existência de apoios; b) Organização das tarefas de casa e c) Alteração das regras de funcionamento, elaboradas com base nas verbalizações dos docentes, dado que, a bibliografia é escassa no que respeita ao tema e muito mais quando nos centramos nas estratégias que possam ser adoptadas pelos sujeitos. Assim, e tal como demonstra o Quadro 12, a alteração das regras de funcionamento, quer em casa na procura da mudança do comportamento dos familiares no sentido de apoiar nas tarefas e gestão da casa quer na autodisciplina do docente, é a principal estratégia, segue-se a existência de apoios e, por fim, a organização das tarefas de casa, centrada na utilização da agenda familiar. O total das unidades de registo pode ser encontrado no anexo E. Articulação trabalho/família Conflito Casos Extravasamento (spillover) Compensação Segmentação trabalho/família baseado na tensão A 1 0 1 1 0 B 3 1 1 2 0 C 1 0 2 0 0 D 2 1 0 5 1 E 0 0 6 4 0 F 3 0 4 1 0 Totais 10 2 14 13 1 Estratégias de Articulação Trabalho/Família Casos Existência de apoios Organização das tarefas de casa Alteração das regras de funcionamento A 2 0 2 B 1 2 6 C 1 2 1 D 4 0 1 E 3 2 3 F 0 0 2 Totais 11 6 15 Quadro 12: Estratégias de Articulação Trabalho/Família (número de verbalizadas pelos sujeito) 40 Articulação Trabalho/Família Casos Extravasamento (Spillover) Segmentação Compensação Conflito Conflito Trabalho/Família Conflito baseado na tensão A “Menos paciência com a família, uns gritos mais ou menos, um bocado isso de estar impaciente e não ter pachorra para haver aquela comunicação adequada com os filhos, com o marido também (…)” “Sim, sim. (…) Engraçado que os problemas de casa esqueço mais facilmente (…)” “Afectam nessa medida de não ter o tempo que necessito e depois não dedicar tempo a determinadas coisas da família (…) .” B “Porque há menos disponibilidade de conversar, fico mais sisudo, mais aborrecido, menos disponível para brincar, acho que tem consequências.” “Penso que sim. Uma coisa é o trabalho outra coisa é família. “ “Uma pessoa acaba sempre por se adaptar também acredito que é preciso ter sorte em ter uma família plástica o suficiente para amortecer (…)” “Digamos que as coisas minoram, aparecem sempre mas nada que gera-se desorganização, sei lá uma discussão de um dia para o outro” C “Sei que às vezes posso falar “Despacha-te” ou “Tenho pressa” tento ao máximo ter calma possível para as minhas filhas e para o meu marido. Acho que não sou capaz totalmente mas tento ao máximo que isso não influencie (…) ” “Embora seja muito stressada no trabalho tento ao máximo na família não ser stressada, tento deixar tudo que seja problemas do trabalho aqui neste gabinete (…)” D “Não consigo por duas razões, por um lado levo sempre trabalho para casa, não consigo no tempo que tenho aqui fazer tudo aquilo que tenho para fazer por outro lado eu sou uma pessoa muito emotiva, muito sensível portanto pronto tenho algum problema no trabalho e não consigo chegar a casa e esquecer esse problema e fico a remoer (…)” “ É sempre com eles que normalmente temos as coisas melhores e as piores e desabafamos (…)” “Ora bem, do trabalho para a família sim mas da família para cá já nem tanto pronto a não ser que seja alguma coisa assim muito grave que tenha acontecido mas vaise gerindo.” “Estando sempre com depressões, esgotamentos, (…) vou conseguindo mas sem paciência as coisas vão rolando mas não como eu gostaria (…). “ E “(…) eu acho que distingo claramente, embora haja uma dimensão da minha vida familiar que tem muito a ver com o trabalho (…) sim, eu acho que ainda vou conseguindo (…) desligar, é.” “ (…)de se transportarem coisas daqui para casa aí claro. (…) depois há uma coisa que eles ficam muito irritados, que é trabalho na mesa da sala de jantar (…)” F “(…) andam um bocadinho, como diz a expressão popular “a toque de caixa” (risos). (…) sinto mais com os meus filhos, a paciência para os acompanhar às vezes com um ritmo mais acelerado do que devia penso eu (…)Penso que é mais fácil sobretudo quando andamos mais sobrecarregados de trabalho não desligamos completamente (…)” “(…) são dois mundos que nos complementam e que sinto que obviamente não posso prescindir num de um nem de outro (…). (…)não de um forma muito estruturada, em que eu decido agora vou-me dedicar à família ou agora vou-me dedicar ao trabalho.” “ Considero que às vezes afecta sobretudo naquela fase que é uma fase, uma hora um bocadinho problemática que é a hora do fim do dia, (…) eu chego a pensar naquilo que ainda tenho de fazer a do ponto de vista profissional naquele dia, (…) depois das crianças estarem todas deitadas (…)” Quadro 11: Exemplos de verbalizações acerca da Articulação Trabalho/ Família (cf. ANEXO J) 41 Expomos o Quadro 13 com algumas das verbalizações dos docentes no que concerne às estratégias que adoptam para melhor gerir a articulação entre a vida laboral com a familiar. Estratégias de Articulação trabalho/família Casos Existência de apoios Organização das tarefas de casa Alteração das regras de funcionamento A “ (…) uma forma de gerir é ter o background que é de avós, e depois e agora de uma empregada que sobretudo ao nível das refeições e isso tudo consegue pôr a casa a marchar, digamos e estar tudo a funcionar (…)” “Aqui uma estratégia é tornar as pessoas, a família digamos mais responsáveis, não é? Das suas actividades, das suas próprias tarefas (…) dar também competências à família de saber viver em conjunto (…)” B “É, eu penso que sim mas a família, é muito importante o tipo de família, eu acho que tenho mesmo a sorte de que a minha mulher gere muito bem as coisas (…).” “A principal mesmo é trabalhar com calendário, tentar mesmo (…)” “ (…) é tentar habituar sair a horas, estou a tentar introduzir essas rotinas mais de olhar para o relógio (…)ou tentar não começar a marcar coisas (…) ao Sábado para termos o fim-de-semana com espaço. À noite tento não receber telefonemas para não ficar a falar de trabalho e no espaço do quarto (…)” C “ (..)ando numa roda viva, todos os dias levar a minha filha buscar para comer onde a outra está que é na minha mãe (…)” “Sim, tenho ao máximo, há um tempo das nove ao meio dia estou aqui normalmente (…)de resto há um tempo específico para estar aqui e um tempo específico para estar com a minha família.” “Mas ponho sempre um horário de saída do trabalho de forma a que nem prejudique o trabalho nem prejudique o ceio familiar, tento comer com a minha filha (…)” D “Tenho a sorte de ter um marido que me ajuda muito, que desistiu um bocado de ir tão longe na carreira profissional dele para me ajudar e portanto entre um e outro acabamos por conseguir que as coisas corram bem. “ “Quando saio daqui tento respirar fundo e dizer assim “Agora vou desligar quando chegar a casa...” (…)” E “Por causa desse suporte, por causa dos sogros, são nossos vizinhos, os pais da A, depois a T e a F. E isso de facto é uma retaguarda verdadeiramente fantástica, portanto estou perfeitamente descansado quanto a isso.” “Em primeiro lugar usar a agenda e usar a agenda de uma forma efectiva, não é? Essa é a primeira grande questão. (…) é não criar, não deixar criar situações para que este tempo seja e portanto é um bocadinho demarcar, organizar-me também (…)” “ (…) a minha estratégia de gestão é simples, eu chego aqui ao gabinete, fecho a porta, desligo a luz e não existo para ninguém, quer dizer, se tenho algum aluno marcado, as pessoas já sabem (…) Por outro lado, relativamente ao trabalho envolver-me, nunca me envolver em situações que ultrapassam o limite da barreira(…)” F “Em primeiro lugar uso o bom senso que eu acho que o bem senso, o bom senso é um fiel da balança muito grande (…) primeiro de organização acho que aqui a organização tem de ser fundamental, sobretudo a organização a nível mental (…) para os miúdos, para eles saberem que também devem ter regras, organização, em casa eles têm as tarefas deles, as tarefas definidas, aquilo que têm de fazer antecipadamente, eles têm de saber as datas dos testes, uma grelhazinha com os testes, conjugando com todos estes pontos da vida familiar (…)” Quadro 13: Exemplos de verbalizações acerca das Estratégias de Articulação da fronteira Trabalho/Família (cf. ANEXO K) 42 7.3 Resultados Analíticos Num primeiro momento, faremos referência aos objectivos do presente estudo, paralelamente iremos explorar o cruzamento das categorias a) Factores indutores de stress; b) Articulação Trabalho/Família e c) Estratégias de articulação Trabalho/Família com as variáveis v1) Sexo e v2) Exercício de um cargo de gestão. 7.3.1 Factores indutores de stress Um dos objectivos do presente estudo é perceber de que modo os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress. Assim, podemos referir que todos os sujeitos exprimem que ao longo do exercício da sua profissão de docente vivenciaram momentos de stress, principalmente, ao nível da sobrecarga de trabalho e à falta de tempo para realizar actividades pessoais. É essencial referir que este stress sentido no trabalho afecta as relações familiares, principalmente porque faz com que o docente tenha “(…) Menos paciência com a família, uns gritos mais ou menos, um bocado isso de estar impaciente e não ter pachorra para haver aquela comunicação adequada com os filhos, com o marido também se calhar um bocadinho (…)” (Caso A). A progressão na carreira foi vivida de modo diferente por todos os sujeitos e teve impactos distintos em todos eles, porém, não deixaram de ter momentos de maior stress, sobretudo no que concerte à organização do seu próprio tempo de trabalho. Já o exercício de um cargo de gestão é vivido com algum stress, atenuado pelo modo como funciona o grupo de trabalho, contudo, não trouxe problemas e dificuldades nas relações familiares e isto pode estar relacionado com o facto de “Uma pessoa acaba sempre por se adaptar também acredito que é preciso ter sorte em ter uma família plástica o suficiente para amortecer, o que eventualmente possa enfim, ter a sorte, penso que é o caso, que aquilo que vem também é amortecido.” (Caso B). No cruzamento da categoria Factores indutores de stress com a variável Sexo, podemos constatar que os homens não fazem referência à realização de tarefas familiares como indutor de stress, centrando-se mais na sobrecarga de trabalho, seguida do exercício de um cargo de gestão. Os docentes do sexo feminino para além destas fontes de stress referem-se à realização das tarefas de casa, com o mesmo número de verbalizações com que mencionam a sobrecarga de trabalho (cf. Quadro 14). 43 Factores indutores de stress Feminino Masculino Sobrecarga de trabalho 7 6 Realização de tarefas familiares 7 0 Falta de tempo para realizar actividades pessoais 2 2 Progressão na carreira 1 2 Exercício de um cargo de gestão 5 4 Insegurança profissional 1 0 Relacionamento interpessoal 1 2 Quadro 14: Número de verbalizações acerca dos Factores indutores de stress por Sexo Ao cruzarmos a mesma categoria com a variável exercício de um cargo de gestão, verificamos que os docentes que exercem um cargo de gestão para além da actividade docente verbalizam em todos os factores indutores de stress, ao contrário dos que não desempenham cargos de gestão que apenas apresentam verbalizações relativas à sobrecarga de trabalho e à realização das tarefas de casa (cf. Quadro 15). Factores indutores de stress Cargo de gestão = Sim Cargo de gestão = Não Sobrecarga de trabalho 9 4 Realização de tarefas familiares 5 2 Falta de tempo para realizar actividades i 4 0 Progressão na carreira 3 0 Exercício de um cargo de gestão 9 0 Insegurança profissional 1 0 Relacionamento interpessoal 3 0 Quadro 15: Número de verbalizações acerca dos Factores indutores de stress pelo Exercício de um cargo de gestão 7.3.2 Articulação Trabalho/Família O objectivo perceber de que modo os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress, analisado anteriormente (cf. pág.40), intersecta com o objectivo principal deste estudo que se reporta ao modo como os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família, uma vez que, só nos é possível perceber como é que os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress, se analisarmos o modo como articulam o trabalho com a família. Deste modo, podemos dizer que existem docentes que expressam ser capazes de articular os papéis que desempenham no trabalho com os familiares “Sinto, sinto que consigo articular com este esforço todo sinto que se quiser e faço o balanço eu digo francamente que é positivo (…)” (Caso F), há quem considere que é capaz devido ao tipo de família e outros dizem que é uma tarefa complicada “É muito difícil, dado que há sempre alguma coisa que ficar por fazer. A gente tenta fazer tudo mas é muito difícil (…)” (Caso C); “Não, sinto que não consigo de maneira nenhuma (…)” (Caso 44 D). Posteriormente, quanto ao modo como articulam as exigências do trabalho com as da família, os docentes consideram-se capazes de o fazer, porém, uns dão prioridade ao trabalho “ (…) não me arrependo muito de ter procurado crescer em termos profissionais (…)” (Caso A), outros à família “ (…) Pronto tento ao máximo, ando numa roda viva, todos os dias levar a minha filha buscar para comer onde a outra está que é na minha mãe para estar com ela e ainda amamento-a, depois venho trabalhar (…) “ (Caso C), existe quem considere que a capacidade desta articulação reside na família “Mas não tanto por mérito meu, por mérito da família.” (Caso B), aqueles que se deixam prejudicar em termos da sua saúde “Estando sempre com depressões, esgotamentos, já tive vários é um bocado assim, portanto pondo-me sempre para trás em último plano vou conseguindo mas sem paciência as coisas vão rolando mas não como eu gostaria (…)” (Caso D) e por fim os que conseguem fazer estar articulação “Pois vem um bocadinho conseguido com o esforço (…) a gente está sempre com os horários muitos bem definidos (…)” (Caso F). Podemos mencionar que a maioria dos docentes considera o trabalho e a família como mundos distintos, todavia, nem todos conseguem separar as vivências destes dois domínios, sendo que, alguns deles verbalizam que os problemas do trabalho afectam a relação com a família, nomeadamente, no que respeita ao tempo e/ou à situação profissional O que demonstra, tal como vimos, que os docentes vivem a relação trabalho/família através da Segmentação, do Conflito trabalho/família e do Extravasamento. No entanto, todos os sujeitos procuram estabelecer limites nos comportamentos, atitudes e emoções face ao trabalho e à família, na medida em que, na família “Dentro da família acho que as coisas são muito mais sem filtros, é um espaço natural.” (Caso B) e no trabalho “Acho que no local de trabalho eu consigo pronto pelo menos quando estou a dar aulas com os meus alunos consigo dar a volta e não mostrar aquilo que estou a sentir pronto claro que com os colegas depende (…)” (Caso D). A delineação do tempo que será dedicado à família e do que vai ser dedicado ao trabalho, para alguns está dependente das tarefas que há para realizar “Essa preocupação ela vai, ela sobe um bocadinho do digamos das rotinas e do desenrolar do dia-a-dia das tarefas, da própria organização do dia-a-dia (…)” (Caso F), outros definem os horários de trabalho e os momentos para a família “(…) há um tempo específico para estar aqui e um tempo específico para estar com a minha família.” (Caso C). Ao analisarmos a Articulação Trabalho/Família com a variável sexo é possível afirmar que todas as mulheres vivem esta articulação baseada no Extravasamento (Spillover). A Segmentação é sentida por três docentes do sexo feminino e dois do masculino. O Conflito Trabalho/Família é referido por dois docente do sexo masculino e três do sexo feminino e o conflito baseado na tensão é apenas por um docente do sexo feminino. Por fim, a Compensação é verbalizada por um docente do sexo masculino e por um dos sexo feminino. 45 O maior número de verbalizações centra-se quando os docentes se referem ao Extravasamento à Segmentação e ao Conflito Trabalho/Família (cf. Quadro 16). Estratégias de articulação Trabalho/Família Feminino Masculino Extravasamento (spillover) 7 3 Compensação 1 1 Segmentação 7 7 Conflito trabalho/família 7 6 Conflito baseado na tensão 1 0 Quadro 16: Número de verbalizações acerca da Articulação Trabalho/Família por Sexo Quanto aos docentes que exercem cargo de gestão, estes vivem a relação entre o trabalho e a família de forma segmentada, ou seja, procuram separar os dois domínios em termos de emoções, comportamentos e atitudes, do mesmo modo que procuram que os acontecimentos do trabalho não afectem a relação familiar, o que é difícil para eles alcançarem, dado que, na maioria das vezes deixam extravasar as emoções mais negativas para a família. É-nos possível constatar que apesar de considerarem que não vivem um conflito, relatam situações em que o trabalho afecta a relação familiar, o que nos leva a concluir que mesmo sem se aperceberem vivem um conflito trabalho/família. No que concerne aos docentes que não exercem cargo de gestão, estes verbalizam com maior frequência o conflito trabalho/família seguido do extravasamento. (cf. Quadro 17). Estratégias de articulação Trabalho/Família Cargo de gestão = Sim Cargo de gestão = Não Extravasamento (spillover) 5 5 Compensação 1 1 Segmentação 10 4 Conflito trabalho/família 7 6 Conflito baseado na tensão 0 1 Quadro 17: Número de verbalizações acerca da Articulação Trabalho/Família pelo Exercício de um cargo de gestão 7.3.3 Estratégias de Articulação Trabalho/Família Para dar resposta ao objectivo: Conhecer as estratégias que os docentes universitários usam para gerir a fronteira entre o trabalho e a família, agrupamos os meios de gestão da fronteira adoptados pelos docentes em três estratégias: a Existência de apoios, a Alteração das regras de funcionamento e a Organização das tarefas de casa. Sendo que, a estratégia mais comum entre eles é a da alteração das regras de funcionamento e a menos frequente é a organização das tarefas de casa. Deste modo, quanto à Alteração das regras de funcionamento podemos encontrar verbalizações como: “ (…) dar também competências à família de saber viver em 46 conjunto (…)” (Caso A); “ (…) também é tentar habituar sair a horas (…)” (Caso B). No que concerne à Existência de apoios os docentes referem o apoio do cônjuge, dos filhos mais velhos, de empregados e de familiares, nomeadamente, os avós. Para terminar, a Organização das tarefas de casa, apesar de ser a estratégias menos adoptada, torna-se importante fazer menção a algumas das verbalizações dos docentes, dado que, estes usam como estratégia a organização das tarefas familiares para serem capazes de dar resposta às exigências do trabalho. Assim, procuram “(…) trabalhar com calendário (…)” (Caso B) e “(…) usar a agenda de uma forma efectiva, não é?” (Caso E). Quanto às Estratégias de Articulação Trabalho/Família, analisadas a partir da variável sexo, podemos referir que a maioria das mulheres refere a Existência de apoios e a Alteração das regras de funcionamento como estratégias que adoptam na gestão da fronteira entre as duas esferas, porém os homens verbalizam com maior frequência a Alteração das regras de funcionamento (cf. Quadro 18). Estratégias de articulação Trabalho/Família Feminino Masculino Existência de apoios 7 4 Organização das tarefas de casa 2 4 Alteração das regras de funcionamento 6 9 Quadro 18: Número de verbalizações acerca das Estratégias de articulação Trabalho/Família por Sexo Para os docentes que exercem cargo de gestão a Alteração das regras de funcionamento é a mais mencionada, seguida da Existência de apoios e da Organização das tarefas de casa, já para os docentes que não exercem cargo de gestão a Existência de apoios surge como a estratégia mais frequente seguida da Alteração das regras de funcionamento (cf. Quadro 19). Estratégias de articulação Trabalho/Família Cargo de gestão = Sim Cargo de gestão = Não Existência de apoios 7 4 Organização das tarefas de casa 6 0 Alteração das regras de funcionamento 12 3 Quadro 19: Número de verbalizações acerca das Estratégias de articulação Trabalho/Família pelo Exercício de um cargo de gestão 53 com que o indivíduo acabe por investir mais num dos domínios em detrimento do outro (Clark, 2000). A partir da análise dos resultados obtidos, foi-nos possível constatar que os docentes vivem a relação entre o trabalho e a família através da segmentação, do conflito trabalho/família, do extravasamento (spillover) e da compensação, sendo que, os dois primeiros são os mais comuns e que existem docentes que não possuem um modo exclusivo de viver a relação. Desta forma, podemos agrupar os cinco modelos de articulação entre o trabalho e a família propostos por Ramos (2001) em dois grupos. Como vimos, o autor apresenta-nos a segmentação, o extravasamento (spillover), a compensação, o conflito e a perspectiva instrumental como modos de articulação destes dois domínios. Uma vez que, estes modelos estão interligados entre si, podemos agrupá-los considerando dois modelos principais: o extravasamento e a segmentação, dado que, no primeiro caso o sujeito deixa extravasar os sentimentos negativos de um dos domínios no outro, já no segundo caso age de forma a que os dois domínios não se influenciem, vivendo-os de forma separada. Posto isto, o extravasamento pode ser vivido através do conflito ou da compensação e a segmentação relaciona-se com a perspectiva instrumental associada ao trabalho, digamos que a ocupação laboral do indivíduo é tida como meio de subsistência da família. Quanto ao conflito, este pode ter origem no trabalho ou na família, ou seja, podemos, por um lado, estar perante um conflito do tipo Trabalho/Família, quando as exigências e acontecimentos do trabalho influenciam o papel do sujeito no contexto familiar, por outro, podemos verificar um conflito do tipo Família/Trabalho, quando o papel familiar e tudo o que dele faz parte influencia o desempenho laboral do sujeito (Frone, 2003). Ainda relativamente ao conflito, seja do tipo Trabalho/Família ou Família/Trabalho, pode ser baseado no tempo, quando o sujeito investe ou dedica mais tempo a um dos domínios e consequentemente o tempo torna-se escasso para o outro, baseado na tensão quando o individuo deixa extravasar as emoções negativas de um domínio no outro e/ou baseado no comportamento quando as normas e as expectativas relativas a um papel não são compatíveis com as do outro papel (Brough & O’Driscoll, 2005 in Stamatios, Antoniou & Cooper, 2005). Se nos debruçarmos na análise dos resultados, mais concretamente no Quadro 10 (cf. pág.40), verificamos que o Caso A vive esta relação baseada no extravasamento e na segmentação, porém, relata o conflito trabalho/família, assim e de acordo com a junção dos modelos, podemos concluir que este docente vive o extravasamento através do conflito que tem origem no trabalho. Seguindo a mesma lógica, o Caso B vive a relação através do extravasamento e da segmentação, contudo o extravasamento é vivido entre o conflito trabalho/família e a 54 compensação. No que respeita ao Caso C este vive a relação através do extravasamento e da segmentação, porém, o docente não se reporta às restantes dimensões, e assim, podemos dizer que ele é capaz de separar os dois domínios em alguns momentos da sua vida, todavia, noutras situações deixa que se influenciem. Quanto ao Caso D o docente articula o trabalho e a família com base no extravasamento através do conflito trabalho/família e da compensação. O Caso E relata que a articulação é feita através da segmentação e apesar de não verbalizar situações de extravasamento demonstra-nos, que os acontecimentos do trabalho influenciam o seu desempenho na vida familiar. Ora, esta é uma situação de conflito, mais concretamente de conflito trabalho/família, relatada pela maioria dos docentes. Por fim, o Caso F verbaliza que vive esta relação entre a segmentação e o extravasamento, sendo que este ocorre na forma de conflito trabalho/família. A partir daqui podemos referir que apenas um dos docentes (Caso D) vive a relação entre o trabalho e a família apenas através do conflito e não é capaz de separar as duas esferas “(…) se eu não estou bem no trabalho quando chego a casa não consigo estar bem com a família, se eu não estou bem na família não consigo estar bem no trabalho, eu não consigo distinguir (…)” (Caso D), inclusive também verbaliza que consegue articular estes dois sistemas mas coloca em risco a sua saúde a nível psicológico “Estando sempre com depressões, esgotamentos, já tive vários (…)” (Caso D), na verdade, a existência de conflito trabalho/família leva entre outros, a situações de ansiedade, burnout e depressão (O’Driscoll, Brough & Kalliath, 2004; Aycan & Eskin, 2005; Greenhaus, Allen & Spector, 2006, cit in Rego & Pina e Cunha, 2009). Como pudemos constatar nenhum dos docentes relata o trabalho numa perspectiva instrumental, porém, não devemos partir do princípio que não lhe dêem esse significado, dado que, o trabalho para além de contribuir para o desenvolvimento e/ou reestruturação da identidade do sujeito e consequentemente da família (Ramos, 2001) é na verdade o meio através do qual os indivíduos garantem a sobrevivência familiar, pelo salário, assim, os docentes podem considerar que esta é uma ideia intrínseca a todos os sujeitos da sociedade e não o referirem por considerarem como um facto socialmente adquirido, por outro lado, as exigências inerentes às funções do docente universitário e o envolvimento que requer a prática docente quer ao nível pedagógico, científico ou de investigação, fazem com que seja difícil o desempenho da mesma de forma instrumental, dado que se vivessem a prática docente como meio de subsistência, os eu envolvimento e dedicação para com os discentes e com a própria instituição não seria autêntica. É-nos também permissível afirmar que estes docentes não experienciam o conflito do tipo família/trabalho, isto pode ser explicado pelo facto dos sujeitos procurarem separar as vivências dos dois domínios, na tentativa de criarem um fronteira física e psicológica, bem como, pelo facto dos problemas ou questões familiares não serem tão complexas ou não criarem tanto impacto nos docentes que os levem a sentir 55 dificuldades no empenho do seu papel laboral por isso. Da mesma forma, que não foram encontradas situações de conflito baseado no comportamento nem no tempo, no primeiro caso pode ser explicado pela segmentação que os docentes procuram fazer das duas esferas, isto é, tentam que os acontecimentos do trabalho não colidam com os da família e simultaneamente adequam os comportamentos a cada contexto, de acordo com o papel que desempenham. Já no segundo caso, estes docentes de forma mais ou menos estruturada definem o tempo que vão dedicar ao trabalho e o que fica para a família, e apesar de verbalizarem que muitas vezes a família sai prejudicada não é motivo para se gerar conflito. Depois de conhecermos o modo como os docentes universitários articulam a vida laboral com a vida familiar, resta-nos conhecer as estratégias por eles adoptadas como meio de gerir esta relação. Assim, e de acordo com os resultados que obtivemos, é-nos possível concluir que estes docentes dão ênfase a três estratégias de gestão das exigências do trabalho com as da família, sendo elas, a existência de apoios bastante valorizada por aqueles que a relatam, considerando que sem este apoio de familiares, ou outros, não seria possível desempenhar no trabalho as funções que lhes competem, a alteração das regras de funcionamento, estratégia mais comum nestes docentes, centra-se sobretudo na auto-disciplina do professor no sentido de definir o espaço do trabalho e o espaço familiar, na imposição individual de horários de saída ou na articulação desses horários com as necessidades familiares, bem como, na moldagem da família com o fim de aprimorar comportamentos e a aquisição de competências, na tentativa destes serem capazes de colaborar com as tarefas familiares; e por fim a organização das tarefas de casa que está direccionada para a existência de uma agenda familiar que pode ser mental ou não, para que os eventos familiares não colidam com as tarefas laborais. 5 Síntese De modo a concluirmos a discussão dos resultados, iremos procurar dar resposta aos objectivos do presente estudo, bem como, às questões de investigação. Assim o objectivo perceber se houve alteração das prioridades dos docentes universitários desde o início da sua actividade docente até à actualidade, verificamos que isso não ocorreu completamente, pois para estes docentes a família assumiu sempre um papel de destaque, mesmo no início das suas carreiras. Apesar do objectivo no período inicial da actividade laboral dos docentes ser o de fazer o doutoramento, realizar as provas de aptidão pedagógica e capacidade científica, a família era a prioridade e continua a sê-lo no presente. Todavia, sentem que o tempo para 56 estar com ela é cada vez menor, mas procuram dar resposta a todas as necessidades familiares. Assim, podemos concluir que o desenvolvimento da carreira não promoveu alterações nas prioridades pessoais destes docentes universitários, o que sucede é que as exigências laborais são, com o passar dos anos, cada vez maiores e mais complexas, o que consequentemente altera as prioridades profissionais dos docentes face ao início da sua carreira, pois na actualidade a prioridade é maioritariamente ao nível pedagógico e no início da mesma era centrada na realização de provas públicas que permitem a progressão na carreira. Posto isto podemos dar resposta à questão: Há diferenças nas prioridades dos docentes universitários desde o início da sua actividade docente até à actualidade?, na verdade foi ao nível das prioridades relacionadas com o trabalho, na medida em que, com o passar do tempo estas foram-se alterando, porém a nível pessoal mantêm-se as mesmas, a família do docente e tudo o que com ela se relaciona. Na continuidade da síntese da discussão dos resultados, passamos à questão de investigação: De que modo os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família? e reflectir acerca dos objectivos: Perceber se os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress e Conhecer as estratégias que os docentes universitários usam para gerir a fronteira entre o trabalho e a família, para tal incidiremos na teoria de Clark (2000) acerca da fronteira Trabalho/Família. O conceito de fronteira entre o trabalho e a família proposto por Clark (2000) considera que os indivíduos vivem diariamente na fronteira entre o trabalho e a família, e que por essa razão, apesar de se tratar de dois domínios interligados, são distintos, o que pode levar a diferentes investimentos por parte dos indivíduos. Esta fronteira pode ser definida por uma linha imaginária que separa os dois domínios e pode assumir uma forma física, que define até onde é que os comportamentos relevantes do domínio têm lugar, uma forma temporal, que divide o momento em que o trabalho é feito do período em que as responsabilidades familiares devem ser consideradas, uma forma psicológica, que se foca nas normas individuais estabelecidas de comportamentos, pensamentos e emoções que melhor se adaptam a um dos domínios e não a outro. Perceber como os docentes universitários gerem esta fronteira é um dos objectivos deste estudo, assim após análise dos dados obtidos, é-nos possível concluir que estes docentes possuem distintos modos de viver a relação entre o trabalho e a família, que se repercute na forma como vivem nessa fronteira, bem como, utilizam estratégias para gerir a articulação entre os dois mundos que fazem parte da sua vida e que ditam a sua identidade pessoal e social. 57 Posto isto, consideramos que o objectivo do estudo: Conhecer as estratégias que os docentes universitários usam para gerir a fronteira entre o trabalho e a família, foi conseguido, dado que, como vimos anteriormente, a existência de apoios, a alteração das regras de funcionamento e a organização das tarefas de casa, são os meios utilizados por estes docentes para melhor articularem o trabalho com a família. Estas estratégias centram-se principalmente no contexto familiar e aqui podemos dizer que de certo modo ao definir estas estratégias o docente está a construir uma fronteira entre o trabalho e a família do tipo físico e psicológico, dado que, a alteração das regras de funcionamento centra-se, entre outros, nos comportamentos dos membros da família e nas normas eleitas para a gestão da casa e autodisciplina do docente. Apesar de menos comum, a fronteira temporal está presente, nomeadamente, no que respeita à organização das tarefas de casa, pois a tentativa da não colisão de actividades e funções da família e do trabalho está associada à delimitação do tempo dedicado a cada sistema. Galinsky e Stein (1990, ci in Clark 2000) destacam a importância da comunicação e do diálogo na e com a família sobre o trabalho e neste acerca da família, como meio de atenuação do conflito trabalho/família, isto poderá ser uma estratégia de articulação entre estes dois sistemas, na medida em que, se existe comunicação constante acerca do trabalho na família e da família no trabalho, isto poderá moderar os efeitos negativos de situações que levariam ao conflito ou desequilíbrio entre os domínios, contudo, quando o trabalho e a família são tidos como domínios distintos a comunicação fica comprometida e em consequência a probabilidade da ocorrência do conflito é maior. Com efeito, as especificidades inerentes ao trabalho e à família, bem como, as características dos membros que fazem parte destes dois contextos, podem impedir ou fomentar a comunicação (Clark, 2000). Se nos reportarmos ao modo como os docentes que participam no estudo, vivem a relação verificamos que a segmentação está presente, logo eles procuram viver estas duas esferas de forma separada e tal como podemos constatar nas sua verbalizações encaram o trabalho e a família como coisas distintas, “Uma coisa é o trabalho outra coisa é família. “ (Caso B); “São, são distintos. São bem distintos, são dois mundos que nos complementam e que sinto que obviamente não posso prescindir num de um nem de outro(…)” (Caso F), apesar de outros considerarem que não são distintos mas que se articulam “Eles articulam-se um com o outro, não são distintos.” (Caso C), logo a comunicação não é considerada por estes docentes. como estratégia de articulação entre o trabalho e a família, apesar de haver quem considere que “São um bocadinho distintos, embora na minha casa é como eu digo há uma sobreposição muito grande porque eu e o meu marido trabalhamos no mesmo local, portanto falamos muito, a conversa é muito à volta do trabalho, do que é que se passa (…)” (Caso A). 58 Quanto ao outro objectivo: Perceber se os docentes universitários percepcionam a relação trabalho/família como fonte indutora de stress, não nos é exequível afirmar se esta articulação é tida como fonte de stress por parte destes docentes, pois não o mencionam como tal. Todavia, se observarmos os principais factores de stress explanados pelos sujeitos verificamos que se centram na sobrecarga de trabalho e na realização das tarefas de casa, o que nos poderá permitir concluir que o trabalho e a família são preocupações dos docentes e que as exigências e tarefas relativas a estes dois papéis são promotoras de stress. Na UE mais de 40% dos trabalhadores referem estar descontentes quanto à conciliação do trabalho com a família devido ao longo horário de trabalho (http://www.cienciahoje.pt/index.php?o.id=25001&op=all). Além disso, podemos olhar para a análise efectuada à categoria Articulação Trabalho/Família e percebemos que esta articulação é feita com muito desgaste, nomeadamente, emocional, e que muitas vezes é conseguida à custa do tipo de família. Apesar da relação ser por muitos vivida através do extravasamento (spillover) também o é pela segmentação e o conflito trabalho/família não deixa de estar presente, mesmo que os docentes procurem gerir a relação de modo a que as exigências do papel laboral não condicionem, dificultem ou prejudiquem o papel exercido na família e viceversa. Face ao exposto, podemos concluir que os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família com base no extravasamento e na segmentação. O que significa que os sentimentos e atitudes provenientes do trabalho/família extravasam de modo a influenciar a família/trabalho (Ramos, 2001). Este extravasamento é pautado pelo conflito entre o trabalho e a família, o que se reflecte na interferência das situações ou acontecimentos do trabalho na família, repercutindo-se na falta de tempo para estar com esta, do mesmo modo, que a disponibilidade emocional é menor, ou seja, têm menos paciência para cuidar e estar com a família, principalmente, com os filhos. Por outro lado, este extravasamento é vivido pela compensação, o sujeito procura na família o que não alcança no trabalho ou no trabalho o que não obtêm na família (Ramos, 2001), neste caso, a situação vivida pelos docentes é a procura na família do apoio e suporte emocional. A segmentação é um modo de viver a relação entre o trabalho e a família, procurada pelos docentes, digamos que vivem na tentativa de separar o que é do trabalho e o que faz parte da família, porém, nem todos são capazes acabando por viver o extravasamento. Digamos que estes docentes procuram na relação entre o trabalho e família estabelecer uma fronteira do tipo físico e psicológico, pois apesar de em certas situações deixarem derramar os sentimentos negativos de um domínio no outro, procuram adequar os comportamentos, as emoções e as atitudes ao trabalho e à família “No trabalho tenho de ser mais formal, tenho que ir mais formal e ter em conta o contexto e tenho de adequar ao 59 contexto de trabalho. Na, em casa posso estar um bocadinho mais liberta dessa formalidade mas digamos tento ser eu própria nos diferentes contextos, não é?” (Caso A); “(…) , em termos de comportamentos de cada situação, do nosso mais ou menos à vontade, do tipo de relação que estabelecemos com as pessoas porque é uma relação profissional ou é uma relação de amizade ou é uma relação familiar, obviamente dentro desses papéis aí as coisas vão variando.” (Caso F) e vivem na tentativa de estabelecer normas de conduta no interior de cada uma das esferas “Em primeiro lugar eu acho que assumo que há coisas do trabalho que não podem entrar em casa e tenho tentado fazer isso (…) haver o mínimo de interferência possível, de por exemplo, estou a pensar Sábado à tarde que é o dia da T ir aos escuteiros, o J ao hóquei, não há nada ao Sábado à tarde, não há reuniões (…)” (Caso E). É certo que têm consciência de que não é fácil esta relação mas que é essencial ser harmoniosa, por isso, usam estratégias para melhor viverem a conjugação do trabalho com a família, pois ambos são os pilares da sua existência enquanto pessoas. Cap. IV – Reflexões finais 61 O stress é sem dúvida, cada vez mais, uma problemática da sociedade actual, pois esta exige constantemente aos sujeitos que se adaptem às incontornáveis transformações de carácter social, demográfico, económico e laboral. O indivíduo ao longo do seu ciclo de vida vai adquirindo alicerces que irão ser a base da sua identidade, dos valores, da cultura e micro cultura através da família, por um lado, e do trabalho, por outro. A família, primeira instituição promotora do crescimento e do desenvolvimento da pessoa enquanto elemento social, que vive e interage na sociedade, e o trabalho, onde o indivíduo coloca em prática as suas capacidades e competências quer sociais quer relativas à área laboral e meio através do qual reestrutura, desenvolve ou confirma a identidade construída no seio familiar (Ramos, 2001), constituem-se como instituições primordiais da vida do sujeito, pela identidade pessoal e social adquiridas com base nas vivências oriundas destes dois mundos. No entanto, ao longo deste mesmo ciclo de vida, os sujeitos são confrontados com exigências provenientes do trabalho e da família, exigências essas às quais devem responder, dado que, o trabalho mesmo sendo realizado com prazer e dedicação é na verdade, o meio de subsistência primordial da pessoa pelo que deve preserválo. Já a família assume o papel de transmissor dos valores culturais dominantes (Shellenberger & Hoffman, 1995), é o lugar natural de apoio e protecção mas provida de expectativas e requisitos face ao papel que cada um desempenha, pelo que é necessário e imprescindível que as dimensões trabalho e família se articulem e encontrem formas de gerir as diferenças entre si. A incapacidade de dar resposta às obrigações, expectativas, exigências ou requisitos quer do trabalho quer da família, faz com que o sujeito se sinta incapaz de desempenhar o seu papel laboral e familiar, levando a um desequilíbrio na relação entre estes dois sistemas, pois não consegue dar uma resposta adequada em nenhum dos casos. Esta dificuldade em conciliar o trabalho com a família é mais abundante nas mulheres, dado que, na maioria das vez, têm de responder paralelamente à actividade laboral e às tarefas de casa (http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=25001&op=all). Em consequência, induz tensão, quer física quer psicológica, nos sujeitos quando as pressões de um ou outro papel são de tal modo elevadas que dominam o tempo que a pessoa tem disponível para dar resposta às expectativas associadas ao outro papel (Katz & Kahn, 1978, cit in Cooke & Rouseau, 1984). Por outro lado, os indivíduos criam dois tipos de expectativas, quanto à família e quanto ao trabalho, o que pode acarretar sentimentos de sobrecarga no trabalho ou então ao nonwork (Hall & Hall, 1982; Szalai, 1972, cit in Cooke & Rouseau, 1984), bem como, ao empobrecimento da relação e vida marital e a um aumento de sentimentos de infelicidade, stress, ansiedade, burnout, depressão e abuso de substâncias psicoactivas (O'Driscoll, Brough & Kalliath, 2004; Aycan & Eskin, 2005; Greenhaus, Allen & Spector, 2006, cit in Rego & Pina e Cunha, 2009). 62 A sociedade actual vive em constantes transformações económicas, demográficas, sociais e laborais, pelo que promovem alterações na dinâmica familiar, no contexto laboral e na saúde dos indivíduos (St-Amour, Laverdure, Devault & Manseau, 2005). Na verdade, as mudanças a nível familiar têm origem em todas as transformações que decorrem dos sistemas de trabalho, do mesmo modo que as alterações nos sistemas e dinâmicas da família modificam a vida laboral (Shellenberger & Hoffman, 1995). Se pensarmos que o contexto laboral é um meio promotor de stress nos sujeitos e se adicionarmos o facto destes não serem capazes de conciliar as exigências do trabalho com as da família, deparamo-nos com uma situação complexa e muitas vezes negligenciada pelos próprios sujeitos, dado não terem consciência do que provavelmente está a acontecer, e pelas organizações que muitas vezes estão apenas atentas à produção e crescimento organizacional, descurando o bem-estar dos seus colaboradores. Daí ser fundamental conhecer e compreender as fontes de stress ocupacional que afectam o desempenho do indivíduo no exercício da sua actividade laboral, principalmente, identificar as causas organizacionais e a sua relação com a produtividade e com a saúde dos trabalhadores (Ramos, 2001). Posto isto, o presente estudo focado na profissão de docente universitário, procurou perceber o modo como estes profissionais do ensino superior gerem a relação entre o trabalho e a família aliada ao stress ocupacional em que vivem constantemente. Considerando que, de acordo com Clark (2000), existe uma fronteira entre o trabalho e a família e que os sujeitos devem procurar viver harmoniosamente nessa mesma fronteira. Assim, procurou-se explorar a vivência laboral e familiar dos docentes, bem como, o modo privilegiado de articular o trabalho com a família, incidindo nos factores indutores de stress, na forma como vivem a relação laboral com a familiar e as estratégias adoptadas para melhor viver esta relação. Concluindo-se que os docentes universitários que participaram neste estudo, têm como prioridade máxima a família, nomeadamente, os filhos, porém o trabalho traduzido numa dispersão de tarefas impede, na maioria das vezes, que o sujeito destine à família o tempo que esta necessita e que eles desejariam dedicar. No que respeita ao stress sentido por estes profissionais do ensino superior, sobressai a sobrecarga de trabalho como a principal fonte de stress, pois os indivíduos consideram não conseguirem dar resposta a todas as solicitações no tempo que lhes está destinado para o trabalho, o que faz com que tenham de trabalhar em casa o que não conseguiu terminar na universidade. Na verdade, um estudo de DeFrank e Ivancevich (1998, cit in Ramos, 2001) concluiu que 60% dos sujeitos levam trabalho para casa, o que dificulta a resposta ao papel familiar, dado que, pretendem simultaneamente dar resposta à função laboral. A realização das tarefas de casa foi, seguido 69 Teodoro, A. (1994). A carreira docente: Formação-Avaliação-Progressão (1ªEdição). Lisboa: Texto Editora. T-Ford, M., Heinen, B. & Langkamer, K. (2007). Work and family satisfaction and conflict: a meta-analysis of cross-domain relations. Journal of Applied Psychology, 92 (1), pp.57-80. Working life and family life: ambiguous communication at work (2006). Community, work and family, 9 (2), pp.123-141. Yin, R. (1994). Case Study Research: Disign and Methods (2ª Ed.). Applicd Social Research Methods, Vol 5. Newbury Park, California: SAGE Publications. Sites consultados: São cada vez mais as pessoais que enfrentam riscos psicossociais no trabalho – Alerta vem do Observatório Europeu dos Riscos. Recolhido a 31 de Janeiro de 2008 em http://cienciahoje.pt/index.php?oid=25001&op=all Estatuto da Carreira Docente Universitária (Decreto-Lei nº 448/79 de 13 de Novembro). Recolhido a 19 de Dezembro de 2007 em http://www.ideiasalternativas.com/CRUP/ecdu.html. ANEXOS ANEXO A O meu nome é Catarina Carvalho e estou a realizar a tese de mestrado em Psicologia das Organizações, Social e do Trabalho, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tratar-se-à de um estudo de caso relativo ao tema “O stress ocupacional na docência universitária: modos de gestão da fronteira trabalho família”, cujo principal objectivo é compreender de que modo os docentes universitários gerem a fronteira entre o trabalho e a família. Desde já agradeço a sua disponibilidade. Guião de Entrevista Data: Duração: Dados demográficos Idade: Sexo: Estado civil: Nºde filhos: Idades: Exerce Funções de gestão? Se sim, há quanto tempo (anos)? Eu e o meu trabalho Que obrigações e/ou responsabilidades tem no exercício da sua actividade de docente? Neste momento da sua carreira, que prioridades identifica a nível profissional? Se nos reportarmos ao início da sua carreira, sentiu alteração a nível das suas prioridades? Se sim, quais as alterações mais significativas a nível profissional? Eu e a minha família Neste momento da sua carreira, que prioridades identifica a nível pessoal? Se nos reportarmos ao início da sua carreira, sentiu alteração a nível das suas prioridades? Se sim, quais as alterações mais significativas a nível pessoal? Sente que foi ou é um pai/mãe presente na educação e no crescimento dos seus filhos? Enquanto conjugue, sente que se dedicou ou se tem dedicado à sua relação? Esteve ausente em algum acontecimento familiar importante por causa do seu trabalho? É uma situação recorrente na sua vida? A gestão da fronteira do trabalho/família Ao longo do exercício da sua profissão, vivenciou momentos de maiores níveis de stress? Considera o seu trabalho como fonte indutora de stress? Se sim, a que níveis? Percepciona a progressão na carreira como fonte geradora de stress? De que forma? Porquê? De que forma o desempenho simultâneo de um cargo de gestão afecta os níveis de stress que sente? Considera que o stress sentido no local de trabalho afecta as suas relações familiares (mãe/pai/conjugue)? Se sim, em que sentido? Sente que o facto de exercer um cargo de gestão lhe acarretou problemas e dificuldades nas suas relações com a família? Sente que é capaz de articular devidamente o seu papel no trabalho com o seu papel na família? Muitos são aqueles que vivem um conflito entre o trabalho e a família, dado não conseguirem conciliar os dois papéis. Como consegue conciliar a exigências destes dois papéis? Considera o trabalho e a família como dois mundos ou domínios distintos? Sente-se capaz de fazer a separação entre as vivências do trabalho e as vivência no seio familiar? Alguma vez percepcionou que os constrangimentos do trabalho estavam a afectar a sua vida/relação familiar? Costuma preocupar-se em delinear o tempo em que se vai dedicar ao trabalho e o tempo em que vai estar com a família? Assume os mesmos comportamentos, emoções e atitudes no trabalho e na família? Que estratégias privilegia ou utiliza para gerir a fronteira entre o trabalho e a família? ANEXO B Matriz Geral da Tree Node Actividades do docente: número de unidades de registo por Node e por caso *A designação utilizada serve apenas para facilitar a distinção das categorias principais das secundárias. Designação * Actividades do docente Caso A Caso B Caso C Caso D Caso E Caso F Totais por Node A1 Pedagógica 2 1 1 2 2 2 10 A2 Científica 1 0 1 1 1 0 4 A3 Gestão 1 0 1 0 0 0 2 Totais por Caso 4 1 3 3 3 2 16 ANEXO C Matriz Geral da Tree Node Prioridades na carreira: número de unidades de registo por Node e por caso *A designação utilizada serve apenas para facilitar a distinção das categorias principais das secundárias. Matriz Geral da Tree Node Prioridades pessoais: número de unidades de registo por Node e por caso Designação * Prioridades na carreira Caso A Caso B Caso C Caso D Caso E Caso F Totais por Node C1 Família em geral 2 2 1 2 0 1 8 C2 Filhos 3 5 3 4 8 3 26 C3 Conjugue 1 1 2 1 4 1 10 Totais por Caso 6 8 6 7 12 5 44 *A designação utilizada serve apenas para facilitar a distinção das categorias principais das secundárias. Designação * Caso A Caso B Caso C Caso D Caso E Caso F Totais por Node B Prioridades na carreira 4 3 2 3 6 2 20 Totais por Caso 4 3 2 3 6 2 20 ANEXO D Reference 1 220 - 707 Character Range portanto são obrigações inerentes à preparação das aulas, à pesquisa, inerentes também para a preparação das aulas, portanto estamos a relacionar mais aqui a função, a função docente, a responsabilidade em termos de regência da disciplina e portanto da organização toda de uma disciplina, desde o planeamento, de tudo das matérias, das aulas, do acompanhamento dos alunos, dos trabalhos, das correcções dos exames e portanto tudo aquilo que é inerente ao planeamento de uma disciplina. Reference 2 1.255 - 1.418 Character Range portanto é em termos de docência é a responsabilidade das disciplinas, de tudo aquilo, das áreas, dos processos de desenvolvimento da disciplina, da avaliação. Coding Summary Report Page 3 of 3 ANEXO G Coding Summary Report – Prioridades na Carreira Dissertação Project: Generated: 20-10-2009 18:52 Caso B Document Entrevista realizada a 15-12-08 Total References 3 Tree Nodes\Prioridades na carreira References 3 Coverage 4,61 % Node Coding Reference 1 786 - 1.408 Character Range A nível profissional na carreira a Faculdade tem tido um desempenho a nível de publicações, temos estado nos últimos dois anos penso que nos três primeiros lugares dentro da I. Corrigindo o número de publicações, de maneira que o esforço tem sido um bocadinho tentar não baixar então o nível de produção como resultado final de produção científica. O desafio é um bocadinho continuar a tentarmos no grupo manter o número de publicações. Depois tem toda a parte do incremento da actividade pós-graduada que também é um desafio que vai ter que ser mais aprimorado, não é? Reference 2 1.488 - 1.876 Character Range Depois há outras tarefas que não têm a ver propriamente com a docência mas que tem a ver com a participação em centros de investigação, no meu caso, tenho participado no Centro de Investigação J da L. Pronto depois temos os projectos, a investigação, a participação em sociedade científicas, a sociedade científica de M. Reference 3 5.447 - 5.635 Character Range ao fim ao cabo a fazer outras coisas e mais essas e então de facto, os objectivos são sempre os mesmos, fazer ciência, levantar questões, afinar um bocado a técnica, a técnica docente. Caso D Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 3 Tree Nodes\Prioridades na carreira References 3 Coverage 3,03 % Node Coding Reference 1 1.186 - 1.484 Character Range Para mim a prioridade são as aulas pronto porque penso primeiro nos outros do que em mim se pensasse em mim deveria ser a investigação como eu não consigo desempenhar pronto esse papel da investigação sem desempenhar um bom papel como professora pronto, a prioridade é são as aulas sem dúvida. Reference 2 1.497 - 1.661 Character Range E os alunos sem dúvida se elas vierem para aqui falar perco imenso tempo com eles e depois não tenho tempo para a investigação na realidade a prioridade são eles. Reference 3 1.827 - 1.840 Character Range Sempre foi. Caso C Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 2 Tree Nodes\Prioridades na carreira References 2 Coverage 2,79 % Node Coding Reference 1 802 - 1.010 Character Range Para mim primeiro sou sincera dar aulas é uma das maiores prioridades, que eu adoro dar aulas e adoro o contacto com os alunos, mas a investigação também tem que estar conciliada ao mesmo nível. Reference 2 2.155 - 2.336 Character Range Não, não as mesmas. Na altura tinha que fazer primeiro o doutoramento portanto como eu também gostava Coding Summary Report Page 1 of 3 muito e continuo a gostar de dar aulas portanto as prioridades são as mesmas. Caso A Document Realizada a 4/03/09 Total References 4 Tree Nodes\Prioridades na carreira References 4 Coverage 5,54 % Node Coding Reference 1 1.531 - 1.993 Character Range Portanto, as prioridades são essas em termos científicos da publicação, portanto exijo de mim a presença em duas conferências pelo menos no ano. Em termos de conferências internacionais, publicações também de artigos, embora o meu objectivo era que pelo menos um artigo por ano numa revista internacional conseguisse ter publicado mas portanto isso é um bocado variável, mas tenho sempre essa prioridade, uma grande prioridade do meu tempo. Reference 2 2.127 - 2.441 Character Range Outra minha prioridade é em termos pedagógicos portanto as aulas terem qualidade e estarem actualizadas, actualizar-me também um bocado nesse sentido e agora os alunos quer de mestrado quer de doutoramento sã o uma outra prioridade para estar capaz de prestar uma orientação adequada em termos científicos, não é? Reference 3 2.619 - 2.826 Character Range No início era mais só a componente pedagógica que me preocupava, a exposição nã o publica, os alunos, portanto ter de trabalhar essas minhas competências de relacionamento interpessoal mas mais em público. Reference 4 2.934 - 3.245 Character Range E em termos científicos portanto aquela questão das conferências e da publicação não eram uma prioridade tão grande, também não havia essas exigências tão fortes como existe agora. Portanto houve de facto essa mudança e também obviamente não tinha a responsabilidade nem de gestão nem de orientação de alunos. Caso E Document Realizada a 18-12-08 Total References 6 Tree Nodes\Prioridades na carreira References 6 Coverage 3,42 % Node Coding Reference 1 993 - 1.299 Character Range A minha primeira prioridade que eu não sei se vai ser possível concretizar, mas a minha primeira prioridade é tornar-me melhor professor do que aquilo que hoje sou e provavelmente a minha primeira prioridade é uma preocupação que eu tenho, quer como pessoa quer como investigador. Reference 2 2.031 - 2.509 Character Range tenho de me envolver mais na investigação e depois em consequência disto provavelmente na internacionalização, porque embora isto não seja um objectivo meu, vejo como um objectivo da N e das instituições de ensino superior mas claramente que o meu primeiro objectivo não é o da internacionalização, o meu objectivo é o da docência e de alguma forma da investigação e só depois é que poderá vir a história da internacionalização, da escrita de artigos, etc. Reference 3 2.677 - 2.905 Character Range Quando comecei como docente a minha grande prioridade era fazer o doutoramento (risos), era a grande prioridade, também, tinha preocupações enquanto professor, o que eu não tinha era tanta consciência de que eu era professor. Reference 4 3.160 - 3.495 Character Range A questão do doutoramento também estava ligada à própria carreira também estava ligada ao desejo de fazer o doutoramento porque o doutoramento não foi só um instrumento para evoluir na carreira, o desejo de realizar alguma coisa enquanto investigador mas eram tempos mais eram claramente tempos, havia tempo para muita coisa (risos). Reference 5 6.323 - 6.495 Character Range No princípio da carreira sim, porque era preciso claramente era a história do doutoramento, do passar a professor auxiliar o mais rápido possível para chegar à nomeação. Reference 6 7.000 - 7.135 Character Range depois do doutoramento iniciar todo o processo de investigação, da orientação de mestrados, doutoramentos, portanto era o objectivo. Coding Summary Report Page 2 of 3 Caso F Document Entrevista realizada a 22-01-09 Total References 2 Tree Nodes\Prioridades na carreira References 2 Coverage 4,42 % Node Coding Reference 1 1.529 - 2.425 Character Range Nós neste momento estamos com digamos com algumas quase obrigações em termos de reconfiguração também da universidade e portanto além da entrada em Bolonha aquilo que exige agora na universidade em termos da nossa produtividade, dos centros de investigação, a criação dos centros de investigação, as publicações que são quase obrigatórias em termos de periódicos portanto neste momento estamos a reconfigurar. Criamos um centro de investigação agora muito recente, do qual faço parte aqui na faculdade portanto neste momento, todas as nossas prioridades estão todas canalizadas para aí, para a investigação e para a reconfiguração também dos segundos ciclos, dos cursos da escola doutoral, cursos de doutoramento ligados a esse centro de investigação e por tanto, estamos a reconfigurar tudo e é neste momento em termos de investigação a grande prioridade do ponto de vista da carreira. Reference 2 3.046 - 3.570 Character Range Sim. Uma grande alteração se pensarmos, eu entrei para a faculdade em 90, portanto há 19anos como docente e as prioridades eram outras completamente diferentes, o nosso percurso académico eram os momentos culminantes das provas de aptidão pedagógica, capacidade científica, depois o doutoramento. As exigências que hoje se colocam aos docentes são completamente, são completamente diferentes, em termos de investigação, em termos de produtividade que se colocam neste momento. Coding Summary Report Page 3 of 3 ANEXO H Coding Summary Report – Prioridades pessoais Dissertação Project: Generated: 20-10-2009 20:16 Caso B Document Entrevista realizada a 15-12-08 Total References 8 Tree Nodes\Prioridades pessoais\Conjugue References 1 Coverage 0,36 % Node Coding Reference 1 9.501 - 9.595 Character Range Penso que sim, penso que sim. Se calhar também facilita trabalharmos no mesmo espaço físico Tree Nodes\Prioridades pessoais\Família em geral References 2 Coverage 2,36 % Node Coding Reference 1 5.800 - 6.079 Character Range e pensar que isto não tem consequências, tem horários longos e depois fim-de-semana fora. Portanto faz parte dos meus objectivos também conseguir dedicar mais tempo à família e quando eu digo dedicar mais tempo se calhar é devolver à família o tempo que ela tem de direito. Reference 2 6.339 - 6.674 Character Range Quando me referia devolver, ao fim ao cabo, nem é deixar invadir aquilo que eu reconheço, que é invadir a família e nós próprios, não é? Para a família guardo os sábados, os domingos e os fins de tarde, não é? Ao fim da tarde e à noitinha continuar, ter por objectivo pessoal e familiar conseguir devolver esses espaços à família. Tree Nodes\Prioridades pessoais\Filhos References 5 Coverage 2,54 % Node Coding Reference 1 5.735 - 5.803 Character Range Ter um filho de quatro anos faz-me muito querer acompanhá-lo mais Reference 2 8.293 - 8.381 Character Range ainda em Maio passado fui a um congresso sobre a O na Suíça e ele foi connosco Reference 3 8.793 - 8.913 Character Range Tenho de adaptar um bocado e sobra um bocado para ele estas conciliações. Mas varia muito, há pessoas que acham piada. Reference 4 9.001 - 9.075 Character Range Penso que sim, e se calhar por isso ele nasceu já com um pai de 43anos Reference 5 9.881 - 10.190 Character Range Muitas festas de Natal, a 19 de Dezembro que tenho faltado que o exame é à mesma hora mas tenho conversado com o meu filho, não vou poder estar, mas é uma eventualidade. Pronto acho que não houve assim nada mais chato do que uma festinha ou outra, na escola, os miúdos ligam a isso mas temos já conversado. Caso D Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 7 Tree Nodes\Prioridades pessoais\Conjugue References 1 Coverage 0,93 % Node Coding Reference 1 4.367 - 4.513 Character Range Tento embora em segundo plano mas tento, e ele queixa-se tenho a sorte de ter um marido que me compreende mas que se queixa muitas vezes queixa. Coding Summary Report Page 1 of 5 Tree Nodes\Prioridades pessoais\Família em geral References 2 Coverage 2,59 % Node Coding Reference 1 2.042 - 2.132 Character Range claro que a família está primeiro mas na prática as coisas não funcionam dessa maneira, Reference 2 2.307 - 2.623 Character Range Claro que pronto se acontecer alguma coisa de grave se não tiver quem me ajude o trabalho fica para segundo plano mas tem sido, há alturas em que é muito complicado em que a pessoa acaba por ter que deixar um bocado a família de lado a não ser aquilo que tem de fazer que é o básico por causa do excesso do trabalho. Tree Nodes\Prioridades pessoais\Filhos References 4 Coverage 9,01 % Node Coding Reference 1 3.414 - 3.631 Character Range Os filhos são a grande prioridade sem dúvida e o resto fica um bocado para trás infelizmente. Cheguei a trabalhar muitas e muitas horas com eles ao colo bebés e pronto ir daqui para fora para os congressos e deixá-los Reference 2 3.722 - 4.290 Character Range Sou mas pronto posso dizer que acho que o facto de ter excesso de trabalho que afecta em muito a forma como eu estou com eles não tenho a paciência que deveria ter pronto embora esteja presente, estou todos os dias. Empenho-me em saber como foi o dia deles e em ajudá-lo s naquilo que for preciso e tudo o que é festas seja o que for a mãe está lá sempre mas não são momentos com a qualidade que deveriam ser porque eu ando sempre com muito stress ando sempre muito cansada e não tenho a paciência que deveria ter e nesse aspecto acho que tem sido mal. Reference 3 4.640 - 4.937 Character Range Não isso não, nunca deixei de estar. Ah. Só, só quando foi a minha defesa de doutoramento acho que foi um festa de Natal deles que eu perdi ou uma festa qualquer mas foi uma ú nica vez e porque tinha a defesa de doutoramento mas de resto sempre estive presente nesses momentos, foi muito pontual. Reference 4 13.882 - 14.209 Character Range sei lá sou sempre eu a deitar os meus filhos há sempre aquele momento em que conversamos alguma coisa sobre o que se passou além de conversarmos ao jantar normalmente ao jantar eles pegam-se os dois e portanto quando é para deitar deito um deito outro e portanto há ali sempre um momento em que dá para conversar alguma coisa Caso C Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 6 Tree Nodes\Prioridades pessoais\Conjugue References 2 Coverage 1,58 % Node Coding Reference 1 2.835 - 2.877 Character Range eu tenho depois o marido é óbvio Reference 2 3.690 - 3.869 Character Range Ai já não digo sim não é, porque lá está mal mas pronto, as minhas filhas destacam-se bem a parte do meu marido mas acho que sim não com tanta convicção mas acho que sim também. Tree Nodes\Prioridades pessoais\Família em geral References 1 Coverage 1,74 % Node Coding Reference 1 3.272 - 3.514 Character Range Quando eu vim para aqui já tinha a primeira portanto a prioridade era a mesma, porque antes de vir para aqui dava aulas era no secundário e quando vim para aqui já a tinha portanto a nível do ensino superior as prioridades não se alteraram. Tree Nodes\Prioridades pessoais\Filhos References 3 Coverage 3,63 % Node Coding Reference 1 2.576 - 2.835 Character Range Ah! Prioridades, tenho muitas, primeiro as minhas filhas tudo o que pronto desde a educação, desde portanto tudo quer dizer elas são a prioridade máxima. Mesmo a nível entre a família e trabalho elas são a minha prioridade máxima, são a primeira prioridade Coding Summary Report Page 2 of 5 Reference 2 2.877 - 3.113 Character Range pronto mas com elas pronto tudo o que é relacionado com elas tem prioridade máxima. Não sei se quer que justifique? Se quiser... Sei lá educação, já disse pronto antes da educação a saúde em primeiro lugar saúde, educação por aí fora. Reference 3 3.602 - 3.613 Character Range Sim, sim. Caso A Document Realizada a 4/03/09 Total References 6 Tree Nodes\Prioridades pessoais\Conjugue References 1 Coverage 2,36 % Node Coding Reference 1 5.511 - 6.061 Character Range Sim, acho que sim (risos). Também com custos por vezes também às vezes não há tempo para estar muito com o meu marido, se bem que nós temos uma vantagem que é trabalhamos os dois no mesmo local e portanto partilhamos muito, também algum tempo de trabalho mas mais em termos profissionais, não é? A parte afectiva às vezes fica um bocadinho de lado mas nos conseguimos conciliar, conseguimos conciliar um pouco por essa razão, estarmos no mesmo local e portanto também temos outras coisas para partilhar para além da nossa relação afectiva, não é? Tree Nodes\Prioridades pessoais\Família em geral References 2 Coverage 1,71 % Node Coding Reference 1 3.345 - 3.526 Character Range Portanto a nível pessoal para mim, uma das minhas prioridades foi sempre a família, mesmo no passado, no início da minha carreira provavelmente não fiz as coisas tão rapidamente. Reference 2 3.942 - 4.158 Character Range Gradualmente fui deixando, fui deixando de dar tanto tempo à vida familiar e dar mais à vida profissional, ou seja gradualmente acabo por, tenho a noção que dou muito mais à vida profissional do que à vida familiar. Tree Nodes\Prioridades pessoais\Filhos References 3 Coverage 2,76 % Node Coding Reference 1 5.408 - 5.434 Character Range Sim, sim. Sinto que fui. Reference 2 6.342 - 6.728 Character Range Festas na escola eventualmente uma ou outra festa na escola talvez, uma reunião na escola que não terei posso ir mas depois compensei de outra maneira, marquei um horário ou qualquer coisa assim e portanto nada que fosse complicado, não é? Algo mais esporádico, a sobreposição às vezes que depois se é em termos de escola dos filhos que é perfeitamente compensado de outra maneira, Reference 3 16.754 - 16.988 Character Range ou jogo dos miúdos porque eles como jogam, treinam durante a semana e ao fim-de-semana têm jogos de basquete e portanto nós temos que ir ver os jogos de basquete, agora já não vou tanto, e temos que os levar às vezes é pelo país fora Caso E Document Realizada a 18-12-08 Total References 12 Tree Nodes\Prioridades pessoais\Conjugue References 4 Coverage 2,39 % Node Coding Reference 1 4.908 - 5.179 Character Range depois tem a minha mulher também, vivemos juntos não só, estimamo-nos muito mas isso aí como não há, como não vai havendo grandes problemas a gente vai gerindo, vai gerindo a relação e o dia-a-dia muito centrados sobretudo nesta preocupação relativamente aos filhos, Coding Summary Report Page 3 of 5 Reference 2 10.723 - 11.073 Character Range Bom, nós trabalhamos juntos, não é? (risos). Agora trabalhamos juntos quer dizer isto tem coisas boas, tem coisas más, boas ou más, há claramente aqui muita cumplicidade por aqui. E portanto, agora admito que, admito que dentro da nossa dinâmica familiar provavelmente é a nossa relação aquela que é menos objecto de cuidado. Reference 3 11.535 - 11.805 Character Range quando eu disse que a relação é menos cuidadosa, há menos cuidado, menos atenção, ela é na vida quer dizer, não imagino a minha vida sem a A quer dizer é muito complicado pode acontecer e tal mas neste momento, porque de facto há muita coisa que se faz em conjunto, Reference 4 12.367 - 12.633 Character Range Estamos a partilhar o mesmo quotidiano, estamos a partilhar dinâmicas conjuntas, estamos a viver problemas muitas vezes comuns, em todos esses problemas que às vezes possam ser dramáticos não deixam de ser uma situação confortável do ponto de vista da relação. Tree Nodes\Prioridades pessoais\Filhos References 8 Coverage 4,69 % Node Coding Reference 1 3.668 - 4.144 Character Range Ah! É assim bom, em termos familiares eu tenho um filho de 15 anos que entrou este ano para o 10ºano e de facto ele acaba por ser a maior preocupação minha e da família. A preocupação com a filha mais velha é uma preocupação um bocadinho diferente, como ela tem 25anos, acabou o curso, já está a trabalhar e portanto quer dizer, neste caso trata-se basicamente de a apoiar, a autonomizarse face à família que neste momento tem condições mínimas para o fazer mas claramente. Reference 2 5.605 - 5.837 Character Range No início da carreira de docente era basicamente as mesmas coisas, só que em vez de ser com o filho mais novo que ainda não tinha nascido, era com a filha mais velha que era um bocadinho mais nova que o J, que o JG. Reference 3 8.620 - 8.669 Character Range Sim, acho que sim. Sem qualquer tipo de culpa. Reference 4 9.225 - 9.402 Character Range mas nessa altura de facto havia alguma ausência mas que eu acho que era compensada pelos avós, de qualquer forma eu acho que a presença era uma presença com alguma qualidade. Reference 5 9.572 - 9.811 Character Range Eventualmente do J acabo por estar mais presente até porque eu acho que o J tem mais necessidade da nossa presença, não estuda tanto, não é tão disciplinado como a irmã e depois tem outra coisa, depois pratica desporto, não é? Reference 6 13.251 - 13.572 Character Range Tive. Estive enquanto a T entrou, entre o ano e meio e os 4 anos da T estava em Angola numa instituição do ensino superior, tava em Angola a trabalhar e isto foi uma coisa muito dura para mim, sobretudo para mim acho que foi uma coisa muito dolorosa. Acho que foi a única coisa que foi o único assim o único momento. Reference 7 14.321 - 14.848 Character Range De resto não houve, agora os 2anos na Angola foram muito duros, quer pela separação da A mas sobretudo pela separação da T que era muito pequenina, tinha um ano e meio, do ano e meio aos 4anos lembro-me que é das coisas, que se voltasse atrás e sabendo o que sei hoje não sei se teria feito isso, exactamente por causa dela, é um tempo qu e nunca mais, nunca mas recupero, mas também é verdade que acabou por se recuperar mas aí foi eu que fiz, era eu k tinha a necessidade. Tinha uma saudade imensa, foi um bocadinho difícil, Reference 8 15.069 - 15.323 Character Range E no caso do J? Não. De vez em quando falto a um jogo de hóquei que é uma coisa que me irrita profundamente mas sou eu que sinto a falta do jogo não é ele que sente a minha falta na bancada é uma coisa que me irrita profundamente perder o meu joguinho. Caso F Document Entrevista realizada a 22-01-09 Coding Summary Report Page 4 of 5 propriamente com o volume. Reference 4 18.599 - 18.850 Character Range Agora a grande questão, hoje a minha fonte de maior, fonte de stress é como é que eu vou continuar a assumir este conjunto de tarefas relacionadas com a docência e a orientação com os novos desafios e exigências que eu sei que vou ter de assumir. Caso F Document Entrevista realizada a 22-01-09 Total References 4 Tree Nodes\Factores indutores de stress\Realização de tarefas familiares References 2 Coverage 3,31 % Node Coding Reference 1 3.790 - 3.931 Character Range e é preciso gerir muito bem o dia-a-dia, é um esforço grande ter que gerir, ter que gerir as obrigaçõ es da carreira e o dia-a-dia da família. Reference 2 5.235 - 6.157 Character Range momentos altos como por exemplo o doutoramento em que tinha um e que o segundo veio durante o percurso do doutoramento portanto para que eles não sentissem, portanto quando defendido doutoramento já tinha dois pequenos, senti muito a nível, a nível pessoal, digamos que me saiu muito do corpo, tentar tirar, fazer o dia-a-dia normal sem eles sentirem, os mesmos ritmos, os mesmos horários, o que implica parar de trabalhar quando as coisas estão a render e quando as coisas estão a produzir é preciso parar porque é preciso ir buscar ao infantário, é preciso levar, há horários a cumprir com eles e só depois da vida pessoal está toda organizada e toda arrumada, portanto quando as crianças já estão a dormir novamente é que se retorna muitas vezes e sinto isso cada vez mais, é que se retoma novamente mais um último turno de trabalho, portanto durante a dia as coisas estão a ter muitos turnos de trabalho diferentes. Tree Nodes\Factores indutores de stress\Sobrecarga de trabalho References 2 Coverage 5,76 % Node Coding Reference 1 9.565 - 9.965 Character Range Nos últimos tempos sem dúvida. Nos últimos tempos sem dúvida porque, as dissipações são tantas, a carga de trabalho é tanta em termos de dispersão de actividade aqui, portanto neste momento não é só a actividade de docente a vários níveis obviamente que eu no meu caso como diferentes disciplinas, disciplinas ao nível do 1ºciclo, disciplinas ao nível do 2ºciclo. Reference 2 10.435 - 11.883 Character Range todas as tarefas académicas que lhes são exigidas, as organizações de todas as espécies, a investigação, os congressos, há determinado de facto, determinadas alturas em que é uma fonte muito grande de stress tentar cumprir os prazos todos, depois há alturas em que os prazos se acumulam, são diferentes prazos para combater na mesma altura pronto para terminar na mesma altura e o dia não chega para tudo e de facto neste momento é o dia e é às vezes muitas vezes parte da noite e os fins-de-semana, eu já não me lembro de há muito tempo de não ter que não levar trabalho para casa, há sempre qualquer coisa para acabar, há sempre qualquer coisa que ficou por fazer e que deveria ter sido feita ontem ou esta semana e por tanto os fins-de-semana e as noites há sempre algo para fazer e que tem sempre que levar para casa, coisa que de facto há alguns anos atrás bem que era possível, que me era possível digamos terminar o trabalho e no dia seguinte retomá-lo sem ser assim naqueles momentos digamos naqueles picos, em termos de alguma tarefa muito específica fazia um perí odo entre as tarefas, entre os pontos mais altos, conseguia de facto terminar o trabalho e poder não trabalhar sempre. Hoje em dia as solicitações são tantas que nós temos das diferentes áreas, há sobretudo uma dispersão muito de tarefas e de funções que somos chamados a dar resposta e isso de facto faz com que o tempo não chegue. Coding Summary Report Page 5 of 5 ANEXO J Coding Summary Report – Articulação trabalho/família Dissertação Project: Generated: 20-10-2009 20:34 Caso B Document Entrevista realizada a 15-12-08 Total References 7 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Compensação References 1 Coverage 0,93 % Node Coding Reference 1 17.238 - 17.480 Character Range Uma pessoa acaba sempre por se adaptar também acredito que é preciso ter sorte em ter uma família plástica o suficiente para amortecer, o que eventualmente possa enfim, ter a sorte, penso que é o caso, que aquilo que vem também é amortecido. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Conflito trabalho/família References 2 Coverage 1,99 % Node Coding Reference 1 20.210 - 20.338 Character Range Digamos que as coisas minoram, aparecem sempre mas nada que gera-se desorganização, sei lá uma discussão de um dia para o outro. Reference 2 21.107 - 21.496 Character Range Ah! É sim, sei lá. Estou me a lembrar ainda há pouco tempo tive uma coisa a uma determinada hora que me fez ir buscar o meu filho e tava com ele à noite e trazia-o e entretanto ele adormeceu. Ele também não estava muito bem, até que vomitou no caminho. Aquilo que eu estava a fazer era para não abdicar de uma tarefa de trabalho a fazê-lo sacrificar o estar em casa a descansar, o trazê-lo Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Extravasamento (spillover) References 3 Coverage 2,77 % Node Coding Reference 1 16.571 - 16.859 Character Range Mas assim objectivamente a questão se às vezes tenho de levar daqui factores de stress para casa e isso às vezes prejudique, penso que sim, não é? Porque há menos disponibilidade de conversar, fico mais sisudo, mais aborrecido, menos disponível para brincar, acho que tem consequências. Reference 2 16.982 - 17.238 Character Range Nã o de grande impacto, aquela coisa que no final do dia pode ter o impacto de brincar menos um bocadinho, de falar menos um bocadinho mas nunca ao ponto também de achar que isso dê origem a qualquer turbulência que depois não possa ser resolvida, não é? Reference 3 20.822 - 20.997 Character Range Sim. Às vezes luto um bocado porque às vezes arrasto e quando percebo que estou a arrastar as coisas para dentro, não é? Mas no geral sente que é capaz? Sim, penso que sim. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Segmentação References 1 Coverage 0,24 % Node Coding Reference 1 20.657 - 20.720 Character Range Penso que sim. Uma coisa é o trabalho outra coisa é família. Caso D Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 9 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Compensação References 1 Coverage 1,95 % Node Coding Reference 1 6.518 - 6.824 Character Range porque a família é sempre o nosso porto de abrigo não é? É sempre com eles que normalmente temos as coisas melhores e as piores e desabafamos e por isso aquilo que a pessoa contém durante o dia no local de trabalho chega a casa já não consegue aguentar mais e descarrega. A vida em casa também não é fácil. Coding Summary Report Page 1 of 5 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Conflito baseado na tensão References 1 Coverage 1,53 % Node Coding Reference 1 7.317 - 7.556 Character Range Estando sempre com depressões, esgotamentos, já tive vários é um bocado assim, portanto pondo-me sempre para trás em último plano vou conseguindo mas sem paciência as coisas vão rolando mas não como eu gostaria que fosse pronto não sei. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Conflito trabalho/família References 5 Coverage 6,85 % Node Coding Reference 1 6.924 - 7.137 Character Range Não, sinto que não consigo de maneira nenhuma. Também eu sou muito exigente, muito perfeccionista acho que estou sempre a falhar em qualquer lado então na família mais do que no trabalho. Para mim é muito difícil. Reference 2 8.905 - 9.080 Character Range Ora bem, do trabalho para a família sim mas da família para cá já nem tanto pronto a não ser que seja alguma coisa assim muito grave que tenha acontecido mas vai-se gerindo. Reference 3 9.340 - 9.544 Character Range É complicado gerir a situação. Ora diga lá outra vez. Alguma vez percepcionou que os constrangimentos do trabalho estavam a afectar a sua vida/relação familiar? Sem dúvida, acaba por estar tudo encadeado. Reference 4 11.848 - 12.071 Character Range tudo aquilo que a pessoa durante o dia conseguiu fazer de conta que estava tudo bem chega a casa já não tem paciência portanto é capaz de dar um berro de dizer as coisas de uma forma agressiva que não tem nada a ver comigo Reference 5 12.085 - 12.343 Character Range neste momento eu já nem consigo evitar e depois estou sempre com o problema das horas, vamos para a cama que amanhã tem que se levantar cedo mas não é só o amanhã ter que se levantar cedo é o eu ter que ir trabalhar e esse tipo de coisas é o meu dia-a-dia. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Extravasamento (spillover) References 2 Coverage 2,61 % Node Coding Reference 1 6.087 - 6.425 Character Range Não consigo por duas razões, por um lado levo sempre trabalho para casa, não consigo no tempo que tenho aqui fazer tudo aquilo que tenho para fazer por outro lado eu sou uma pessoa muito emotiva, muito sensível portanto pronto tenho algum problema no trabalho e não consigo chegar a casa e esquecer esse problema e fico a remoer, a remoer Reference 2 6.446 - 6.517 Character Range pois acabo por é triste dizer isso mas acabo por descarregar na família Caso C Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 3 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Extravasamento (spillover) References 1 Coverage 1,97 % Node Coding Reference 1 7.499 - 7.774 Character Range Sei que às vezes posso falar “Despacha-te” ou “Tenho pressa” tento ao máximo ter calma possível para as minhas filhas e para o meu marido. Acho que não sou capaz totalmente mas tento ao máximo que isso não influencie o meu estado normal com as minhas filhas e o meu marido. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Segmentação References 2 Coverage 1,84 % Node Coding Reference 1 11.368 - 11.382 Character Range Coding Summary Report Page 2 of 5 Sim, sempre. Reference 2 13.144 - 13.386 Character Range Embora seja muito stressada no trabalho tento ao máximo na família não ser stressada, tento deixar tudo que seja problemas do trabalho aqui neste gabinete embora ele seja pequeno acho que consegue arrecadar consegue conter todo o meu stress. Caso A Document Entrevista realizada a 4/03/09 Total References 3 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Conflito trabalho/família References 1 Coverage 0,78 % Node Coding Reference 1 14.499 - 14.681 Character Range Pois é um bocadinho isso. Afectam nessa medida de não ter o tempo que necessito e depois não dedicar tempo a determinadas coisas da família mas é só um bocadinho, nada de complicado. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Extravasamento (spillover) References 1 Coverage 1,31 % Node Coding Reference 1 10.968 - 11.274 Character Range Menos disposição, menos paciência, não é? Menos paciência com a família, uns gritos mais ou menos, um bocado isso de estar impaciente e não ter pachorra para haver aquela comunicação adequada com os filhos, com o marido também se calhar um bocadinho mas nada também muito, nada muito complicado de gerir. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Segmentação References 1 Coverage 0,86 % Node Coding Reference 1 13.866 - 14.067 Character Range Sim, sim. Não leva para casa as “coisas” do trabalho e para o trabalho as “coisas” de casa? Isso é inevitável. Engraçado que os problemas de casa esqueço mais facilmente, também são problemas menores. Caso E Document Entrevista realizada a 18-12-08 Total References 10 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Conflito trabalho/família References 4 Coverage 2,74 % Node Coding Reference 1 26.945 - 27.262 Character Range Afecta um bocadinho, acho que sim, acho que afecta. Agora digo uma coisa acho que afecta mais as minhas relações cá dentro do que propriamente as minhas relações com a família e sobretudo afecta muito a relação com a minha mulher, com a A em situação particular de se transportarem coisas daqui para casa aí claro. Reference 2 35.040 - 35.197 Character Range depois há uma coisa que eles ficam muito irritados, que é trabalho na mesa da sala de jantar, não sei porquê e portanto quando os jantares se prolongam, Reference 3 35.428 - 35.761 Character Range desculpem eu tenho de fazer isto, não me quero deitar às 2da manhã, é o ú nico momento mas de qualquer forma eu acho que já foi interiorizado por todos, não é? Atenção são dez e meia, chega de recreio mas acho que não é fonte de, já foi fonte de conflito, hoje já não é fonte de conflito, pronto acho que é a única. Reference 4 35.871 - 36.393 Character Range Sim, isso já claramente. Não são muitos mas claramente lá. Já houve momentos em que isso aconteceu, não são de facto tantos momentos quanto isso, como lhe dizia em desligo, por exemplo vou dar um exemplo, eu estou em casa e às 10horas telefona-me um colega ou telefona-me um aluno sobretudo para tratar de coisas complicadas, situaçõ es conflituais, claramente que isso afecta, assim como afecta quando alguém anda com um problema e não consegue resolver e pronto, admito que mas é muito raro. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Segmentação References 6 Coverage 4,61 % Node Coding Coding Summary Report Page 3 of 5 Reference 1 32.883 - 32.909 Character Range Sim, de alguma maneira, Reference 2 33.715 - 34.008 Character Range Mas nós é possível, claramente, eu acho que distingo claramente, embora haja uma dimensã o da minha vida familiar que tem muito a ver com o trabalho que tenho e com o trabalho que os outros dois membros também têm, o que obriga claramente a um processo de partilha, alguma discussão comum. Reference 3 34.772 - 34.962 Character Range Sim, eu acho que ainda vou conseguindo e acho que ainda vou conseguindo, nem toda a gente consegue mas eu acho que apesar de tudo ainda vou conseguindo, ainda vou conseguindo desligar, é. Reference 4 37.336 - 37.622 Character Range Fecho a porta de manhã, nã o tenho problema nenhum, consigo perfeitamente neste momento desligar e acabou, isso eu consigo, tenho disciplina suficiente para isso, agora são algumas vezes os problemas que afectam a A, aqui dentro, de trabalho, que acabam por ter algum efeito sobre mim. Reference 5 38.058 - 38.725 Character Range Imagine que é uma situação qualquer que surge de repente, agora estou-me a lembrar, houve uma situação muito difícil, muito difícil, aí o stress funcionou quase como, quase como um motor para realizar as coisas. Penso que foi em 2007, no ano de 2007 eu tinha 7 pessoa para entregar as dissertaçõ es de mestrado e gozava de entregar isso em Junho, porque eram professores e porque estavam a evoluir na carreira e fazendo o mestrado na altura beneficia vam de 4anos e eu ai abdiquei, houve ai um período em Maio, Junho e Julho que eu vivi permanentemente para isso mas a família ai aguentou muito bem, aguentou muito bem o barco. Reference 6 41.384 - 42.156 Character Range Não, já foi, cada vez menos. Já houve uma altura em que sim, houve uma altura em que aqui, hoje estou muito mais comedido, falo muito menos, sou muito menos efusivo, embora quem me conhece aqui dentro sabe que conto uma história, uma anedota, brinco um bocadinho e não sei o quê mas é completamente diferente. Hoje em dia percebo claramente que os meus colegas são meus colegas, não são meus irmãos e gosto tanto deles como se fossem irmã os mas gostando deles como se fossem irmãos e não meus irmão e pronto é por uma razão muito simples porque depois percebi claramente que algumas questões do trabalho que me doeram essa cumplicidade, que as questões do trabalho se tornavam em questões pessoais e portanto houve uma altura em que era assim, hoje claramente não. Caso F Document Entrevista realizada a 22-01-09 Total References 8 Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Conflito trabalho/família References 1 Coverage 2,77 % Node Coding Reference 1 12.017 - 12.907 Character Range Considero que às vezes afecta sobretudo naquela fase que é uma fase, uma hora um bocadinho problemática que é a hora do fim do dia, a hora do fim do dia em que nós em que pelo menos eu chego a pensar naquilo que ainda tenho de fazer a do ponto de vista profissional naquele dia, portanto ainda estou a equacionar o que tenho de fazer depois das crianças estarem todas deitadas e o horário de chegar a casa, não atrasar, fazer o jantar dar-lhes banho antes do jantar ver se está tudo bem para a escola no dia seguinte de os deitar e recomeçar, confesso que há alturas em que a paciência já não é muita e portanto eles têm que andar, acabando por sujeitá-los também muito ao nosso ritmo é preciso fazer isto, ainda falta aquilo, ver os horários, tamos a chegar, é um bocado recorrente a ideia de às vezes mostro-lhes um bocado, eu sentir que estou/estamos atrasados sempre para alguma coisa, Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Extravasamento (spillover) References 3 Coverage 2,26 % Node Coding Reference 1 13.773 - 13.852 Character Range andam um bocadinho, como diz a expressão popular “a toque de caixa” (risos). Reference 2 13.892 - 14.013 Character Range sinto mais com os meus filhos, a paciência para os acompanhar às vezes com um ritmo mais acelerado do que devia penso eu. Coding Summary Report Page 4 of 5 Reference 3 22.117 - 22.639 Character Range Penso que é mais fácil sobretudo quando andamos mais sobrecarregados de trabalho nã o desligamos completamente e isso de facto é, ultimamente é um bocado impossível não desligar completamente mas nos momentos em que chego a casa e estou com eles à partida é assim, embora ande lá por trás a pairar aquilo que tenho que fazer e que ainda está pendente, portanto não se desliga completamente mas não em termos de interferência e em termos de um interferir de modo grave ou penalizante no outro aí pelo menos tento. Tree Nodes\Articulação trabalho-família\Segmentação References 4 Coverage 6,62 % Node Coding Reference 1 20.058 - 21.170 Character Range São, são distintos. São bem distintos, são dois mundos que nos complementam e que sinto que obviamente não posso prescindir num de um nem de outro, até porque o trabalho é obviamente que não posso prescindir até porque está na base da nossa sobrevivência, não é? Portanto já é algo que é dado como adquirido, como natural, não é? O trabalho portanto importa estar lá e estar com gosto e dedicar tudo aquilo que se deve dedicar, obviamente não esquecendo que é um trabalho, que é uma profissão e portanto para mim desse ponto de vista tem limites, não levo as coisas de modo a quando digo exacerbar, não é? Não quer dizer que não leve as coisas ao máximo dentro daquilo que estou a fazer, que levo e que tenho essa noção mas tento que também não interfira e que não choque com o outro. O outro mundo, é o nosso mundo pessoal e que no fundo é a razão, para mim é a razão de ser obviamente que assim prescindiria penso que o trabalho nós em circunstâncias últimas podemos equacionar alguma alternativa, no caso da família não, não ponho essa hipótese, mas são coisas muito diferentes. Reference 2 21.275 - 21.477 Character Range Tento que sim. Tento que elas não interfiram ao ponto de uma não digo anular a outra mas interferir substancialmente naquilo que é o importante e o cerne da outra, ou seja do ponto de vista familiar Reference 3 23.075 - 23.646 Character Range Essa preocupação ela vai, ela sobe um bocadinho do digamos das rotinas e do desenrolar do dia-a-dia das tarefas, da própria organização do dia-a-dia, portanto não a preocupação agora vou-me dedicar este fim-desemana, este tempo para a família ou este tempo para o trabalho não, não penso, não vejo assim de uma forma digamos muito premeditada, vejo mais e portanto estando no tempo das aulas os ritmos impõem um determinado desenvolvimento quer o tempo que estamos com a família quer o tempo que estamos no trabalho, que estamos em férias ou estamos em fim-de-semana, Reference 4 24.464 - 24.705 Character Range portanto é um bocadinho digamos flutuante em função dos ritmos e do desenrolar da vida familiar e da vida profissional, não de um forma muito estruturada, em que eu decido agora vou-me dedicar à família ou agora voume dedicar ao trabalho. Coding Summary Report Page 5 of 5 ANEXO K Coding Summary Report – Estratégias de articulação trabalho/família Dissertação Project: Generated: 20-10-2009 19:13 CasoB Document Entrevista realizada a 15-12-08 Total References 9 Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Alteração das regras de funcionamento References 6 Coverage 3,57 % Node Coding Reference 1 8.016 - 8.137 Character Range também é tentar habituar sair a horas, é uma coisa que tentamos fazer, 5horas eu ou a minha mulher tamos a ir buscá-lo, Reference 2 13.213 - 13.369 Character Range que cada vez mais eu estou a interiorizar uma coisa, que é a partir daquela hora do dia tem que ser família agora, senão vou chegar à noite e mais uma vez. Reference 3 22.065 - 22.150 Character Range Agora estou a tentar introduzir essas rotinas mais de olhar para o relógio, não é? Reference 4 22.485 - 22.663 Character Range Vou tentar não começar a marcar coisas, já estou na fase que sou eu a chatear a minha mulher para não marcar coisas ao Sábado para termos realmente o fim-de-semana com espaço. Reference 5 23.239 - 23.401 Character Range a meu ver é importante essa estratégia que agora queremos usar, que é Sábados e Domingos não marcamos absolutamente nada, já tivemos que acabar com o possível. Reference 6 24.692 - 24.915 Character Range À noite tento não receber telefonemas para não ficar muito tempo a falar de trabalho e no espaço do quarto mesmo de repente estar deitado na cama mesmo e estar a falar sobre quais são os compromissos para o dia seguinte. Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Existência de apoios References 1 Coverage 1,50 % Node Coding Reference 1 18.309 - 18.698 Character Range É, eu penso que sim mas a família, é muito importante o tipo de família, eu acho que tenho mesmo a sorte de que a minha mulher gere muito bem as coisas sobra imenso para ela e para o meu filho e é a sorte, para agora (risos). Tem sido possível de gerir mas também acredito que a capacidade mas também reconheço que a minha mulher tem uma capacidade muito acima da média para gerir isto. Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Organização das tarefas de casa References 2 Coverage 0,44 % Node Coding Reference 1 24.382 - 24.444 Character Range A principal mesmo é trabalhar com calendário, tentar mesmo, Reference 2 25.536 - 25.587 Character Range Confesso que procuramos estar juntos nas férias. Caso D Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 5 Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Alteração das regras de funcionamento References 1 Coverage 0,64 % Node Coding Coding Summary Report Page 1 of 4 Reference 1 12.437 - 12.537 Character Range Quando saio daqui tento respirar fundo e dizer assim “Agora vou desligar quando chegar a casa...” Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Existência de apoios References 4 Coverage 4,58 % Node Coding Reference 1 7.621 - 7.835 Character Range Tenho a sorte de ter um marido que me ajuda muito, que desistiu um bocado de ir tão longe na carreira profissional dele para me ajudar e portanto entre um e outro acabamos por conseguir que as coisas corram bem. Reference 2 10.533 - 10.723 Character Range é o meu marido que vai às compras com eles, é o meu marido que tem ido com eles levá-los às festas buscá-los às festas tem sido assim é muito raro eu ter um bocadinho para estar com eles. Reference 3 13.230 - 13.393 Character Range É isso entre mim e ele sempre que quando preciso mais dele é ele que fica mais com as crianças, quando precisa ele fico eu, não sei o que lhe hei-de dizer mais. Reference 4 14.563 - 14.713 Character Range pronto o pai acompanha-os naquilo que eu digo olha faz-me um favor, olha agora eu preciso de fazer qualquer coisa e tu ficas ai com eles. Caso C Document Entrevista realizada a 17-12-08 Total References 4 Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Alteração das regras de funcionamento References 1 Coverage 1,09 % Node Coding Reference 1 13.531 - 13.683 Character Range Mas ponho sempre um horário de saída do trabalho de forma a que nem prejudique o trabalho nem prejudique o s eio familiar. Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Existência de apoios References 1 Coverage 0,92 % Node Coding Reference 1 9.686 - 9.814 Character Range ando numa roda viva, todos os dias levar a minha filha buscar para comer onde a outra está que é na minha mãe para estar com ela. Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Organização das tarefas de casa References 2 Coverage 1,31 % Node Coding Reference 1 11.956 - 12.037 Character Range Sim, tenho ao máximo, há um tempo das nove ao meio dia estou aqui normalmente. Reference 2 12.208 - 12.309 Character Range de resto há um tempo específico para estar aqui e um tempo específico para estar com a minha família. Caso A Document Entrevista realizada a 4/03/09 Total References 4 Tree Nodes\Estratégias de articulação trabalho-família\Alteração das regras de funcionamento References 2 Coverage 2,15 % Node Coding Reference 1 18.228 - 18.361 Character Range Aqui uma estratégia é tornar as pessoas, a família digamos mais responsáveis, não é? Das suas actividades, Coding Summary Report Page 2 of 4