Depressão e pós-modernidade
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07 VOLUME VII Nº2 MARÇO/ABRIL 2005 Iremos tecer alguns comentários sobre a configuração da depressão à luz da sociedade moderna (actual). Para tal servir-me-ei do pensamento de Jean Baudrillard1. Segundo este autor hoje vivemos numa sociedade cujos valores se regem pelo consumo e pela abundância, que resultam num afã de multiplicação de objectos, de serviços, de bens materiais. Esta será, segundo esta óptica, a ecologia própria da espécie humana: as leis ecológicas naturais foram substituídas pela lei do valor de troca. "O indivíduo serve o sistema industrial, não pela oferta das suas economias e pelo fornecimento de capitais mas pelo consumo dos seus produtos. Por outro lado, não existe qualquer outra actividade religiosa, política ou moral, para a qual seja preparado de maneira tão completa, tão científica e tão dispendiosa", diz-nos Galbraith, citado por Baudrillard2. Em relação à era pós-moderna poderíamos de um modo semelhante afirmar que ao outro homem, ao alter-ego substitui-se o objecto, à comunicação inter-subjectiva substitui-se a publicidade como forma privilegiada de comunicação, ao teatro da vida substitui-se o psicodrama simbólico pleno de objectos nocturnos. Deste modo, o tempo transfigurou-se no tempo dos objectos; a normatividade social regula-se pelo ritmo dos objectos. E estes assumiram um valor próprio, independente da sua utilidade para o sujeito: isto é, as relações sujeito - "objectos" alteraramse, sendo agora referidos não à sua utilidade específica mas, antes, à sua significação total, assumindo a marca um autêntico imprinting social. O lugar do consumo é, no dizer daquele autor, a vida quotidiana, que se enclausurou no "privado", pasmada, necessitando, por isso, para a sua exaltação, o consumo de violência, em casa, na TV. Deste modo se constrói uma "individualidade de síntese" para acabar por se dissolver num anonimato total. Nesta saga de consumo também o "consumo médico" está incluído. Há uma grande inflação da procura/saúde, atenuando-se o limite entre a procura "fundada" e a compulsão consumidora de prestações médicas, em que o médico acaba, ele próprio por se um objecto de consumo. Nesta lógica, as toxicodependências seriam a atitude hipernormal numa sociedade assim organizada: consumo hipervalorizado, na saga do prazer/evitação do vazio, que se inclui finalmente no anonimato da vida escravizada. A própria procura do médico, em termos de possibilidade de redução da angústia, rapidamente derrapa para o "consumo", já que o médico deixa de ter valor específico: é substituível por qualquer outro processo de regressão parcial — álcool, compras, coleccionismo (o consumidor "colecciona" o médico e os medicamentos). O médico é consumido Depressão e pós-modernidade Depression and post-modernity 1 Baudrillard, J. (1981): A Sociedade de Consumo. Lisboa: Edições 70. 2 Ibid, pp. 95.
08 Editorial / Editorial VOLUME VII Nº2 MARÇO/ABRIL 2005 enquanto "signo-entre-outros-signos". Neste domínio particular assume grande importância a valorização do corpo, numa nova ética corporal, em que o consumo do corpo, revela a fascinação narcísica desta sociedade. A saúde assume, assim, um imperativo social ligado ao estatuto, substituindo-se um "valor" fundamental por um fazer-valer (eficácia). Este fazer-valer como função social do corpo, ao qual Baudrillard considera como um dos elementos essenciais da ética moderna, revela-se também, ao invés, através da somatização de toda a decepção de prestígio ou todo revés social. Vemos, então, que o corpo é elevado ao domínio da "forma" e o estatuto da medicina, bem como o médico, são re-elaborados nas duas dimensões atrás referidas: do investimento narcísico (dimensão "psíquica") e do fazer-valer (dimensão estatutária). Mas esta re-elaboração não se distancia muito da "sacralização" originária da medicina, pelo contrário re-aproxima-a, fazendo convergir sobre o corpo privatizado e personalizado todas as espécies de conductas sacrificiais de auto-solicitude e de conjuração maligna, de gratificação e de repressão - toda uma rede de consumos "irracionais", sem finalidade terapêutica-prática (uma grande parte das compras de medicamentos faz-se sem indicação médica). Subjacente a esta "irracionalidade" está uma lógica "mítica" segundo a qual basta que algo custe alguma coisa para que a saúde regresse em troca. Isto é, consumo ritual e sacrificial mais do que medicação. Eis o paradigma da ética moderna. Pôr-se ao serviço do próprio corpo, procurando, para isso, compulsivamente medicamentos e médicos, mesmo que este funcione apenas como "psicanalista do corpo". Este papel importante que o corpo assume, constituindo um objecto de posse é compreensível, segundo Hannah Arendt3, pois é o "único bem que o indivíduo jamais poderia compartihar com outro, mesmo que desejasse fazê-lo"4. Assim, nada é menos comum e menos comunicável do que o que se passa no interior do nosso próprio corpo, seus prazeres e suas dores, seu labor e seu consumo. Ora, decorrente disto verifica-se que nada expele mais o indivíduo para fora do mundo do que a sua concentração exclusiva na vida corporal. Esta viragem para dentro pode ser entendida como o refúgio natural numa sociedade em que o Outro não é um alterego mas antes um objecto e, portanto, uma defesa, em que quer as neuroses ditas viscerais, quer as doenças psicossomáticas, quer mesmo a depressão, são uma expressão moderna desta reacção. Sendo assim, a vivência do corpo, como a experiência "natural" em que se baseia a independência em relação ao mundo, é uma experiência dolorosa, pois nesta concentração, a ingenuidade natural do acontecer corporal perde-se e o corpo assume um significado próprio revelado pelos sentidos. Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado e, devido a isso, voltado para dentro de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido. Deste modo e tomando em consideração o que foi dito no ponto anterior sobre a significação do corpo, verifica-se que ao sujeito só lhe restam duas alternativas: ou se encontra centrado no seu corpo ou comporta-se em relação a ele, como corpo, de forma excêntrica, como em relação a um objecto. Cada uma destas atitudes induz um tipo próprio de reacção: a primeira, remete-nos para a depressão como resposta a uma sociedade vazia e a segunda para um consumo do médico e de medicamentos como tentativa de se manter numa sociedade narcísica. 3 Arendt, H. (1991): A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 4 Ibid, pp. 124.
09 Editorial / Editorial VOLUME VII Nº2 MARÇO/ABRIL 2005 O domínio do corpo nesta sociedade está directamente correlacionado com a obsessão da "saúde": a beleza é a "boa forma física". Nesta solicitude do corpo, descobre-se na ascese "dos regimes alimentares" e nos "bons regimes de exercício físico" uma pulsão agressiva em relação ao corpo, transformando-se então este em objecto ameaçador que é preciso vigiar. Lógica de contradições, espécie de agressividade inversa de uma sociedade de abundância em relação ao triunfalismo do corpo e toda a recusa veemente dos próprios princípios. Como atrás referi, nesta sociedade de consumo, o tempo ocupa um lugar privilegiado, mas também metamorfoseado pela produção social: isto é, transformado num bem tão essencial e procurado como os outros bens de consumo. "Elevado" à categoria de objecto, é o tempo livre que dita a natureza do homem: se o tempo se encontra alienado, escravizado no trabalho, então "não se tem tempo"; mas se não se está a trabalhar ou se não há constrangimento, "tem-se tempo". Assim, o tempo adquire o seu valor de uso: tem-se tempo "livre". Trágico paradoxo este inerente à lógica do consumo: em cada objecto possuído ou consumido, bem como em cada minuto de tempo livre, o homem julga fazer passar o seu desejo; mas o desejo encontrase já ausente de todo o objecto possuído ou de toda a satisfação cumprida ou ainda de todos os minutos "disponíveis". Resta o ter "consumido" o desejo. Um outro atributo desta nova sociedade pós-industrial é o problema da fadiga. Autêntico síndroma colectivo, constitui uma disfunção do bem-estar. É uma fadiga própria pois é uma fadiga "sem causa" muscular ou energética, falando-se antes em depressividade ou psicossomática. Mais uma vez damos conta da mesma lógica de contradição que atrás falei: uma sociedade que se considera e se contempla em progresso contínuo para a abolição do esforço (veja-se toda a tendência para a automatização e robotização crescente), para a resolução das tensões, para maior facilidade, surge na realidade como sociedade de stress, de tensão, de "doping", em que o balanço global de satisfação acusa um défice cada vez maior . "Os heróis do consumo sentemse cansados", diz-nos Baudrillard. Esta fadiga poder-se-á interpretar como um dos mecanismos de resposta, sob a forma de recusa passiva, do homem moderno às condições de existência; a depressão constitui o grau mais avançado desta resposta. Entre estes dois graus estende-se um leque de respostas variado, desde a greve de braços caídos, do refreamento, do "slowing down" dos operários nas fábricas até ao "tédio" escolar. Todas elas são formas de resistência passiva "incarnada". À leitura habitual da fadiga como passividade oposta à superactividade social deve então contrapor-se a leitura da fadiga como a única forma de actividade que, em determinadas condições consegue opor-se ao constrangimento da passividade geral5. Do mesmo modo, a depressividade geral, endémica, tem o mesmo sentido, não sendo por isso curável por meio de desporto ou de medicamentos. Apesar disso, mas coerente com esta lógica consumista, não é raro vermos prescrições médicas de "desporto" e "exercício físico" como a cura "mágica" desta depressividade generalizada. A proliferação dos health clubs prova-o. A fadiga como a depressão generalizada é uma forma de contestação larvada, que se volta contra si mesma e se "encrava" no próprio corpo, constituindo, na maior parte das vezes, a única coisa que o indivíduo desapossado consegue prender-se, inconsciente de si mesmo. Eis o "Eu ameaçado" do médico através de uma autêntica perversão do seu papel: de agente 5 O aluno fatigado é aquele que aguenta passivamente o discurso do professor; o operário cansado é aquele a quem se tirou a responsabilidade no trabalho; a "indiferença" política é a do indivíduo a quem toda a decisão se esquiva.
10 Editorial / Editorial VOLUME VII Nº2 MARÇO/ABRIL 2005 e de interlocutor terapêutico passa (é impelido para) a objecto de consumo como se a lógica auto-fágica do doente deprimido se derramasse para uma sociedade em que a "fagia" é o valor dominante. A ameaça reside precisamente na destruição do humano, na dissolução da subjectividade numa amálgama de objectos que valem pela utilidade ao serviço de ideias de eficácia e de afirmação. O que resta do médico ou da medicina quando eles são transmutados e fixados em objectos de uso comum, ou mesmo, de abuso, à guisa de uma autêntica "intoxicação" pela procura de consultas ou medicamentos. É a imposição de uma "sociabilidade química" e de "receitas médicas", traduzida nos referentes de eficácia de um "bom" Centro de Saúde: quanto mais consultas melhor, não interessando "que" consultas.