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Qual a relação entre Karl Popper e toxicodependência?: uma aproximação conceptual

João Marques Teixeira

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Lei u as 57 VOLUME V Nº1 JANEIRO/FEVEREIRO 2003 encon adas ao a a mos es es doen es, mos a a-se cép ico quan o às possibilidades exis en es de aze mos en e a es es desa ios is o que, po exemplo, um aumen o signi ica i o da ap eensão de d oga não aca e ou uma diminuição do p oblema, sem con a com ou os ac os como o e o no do oxicodepen- den e, após um pe íodo de a amen o, ao seio de amílias dis uncionais, sem con a com o ac o de que a pa i da comp o ação neu o-química da o igem das oxicodependências ( endo po base as suas e e ências bibliog á icas) não possuímos no momen o, uma maio ma gem de manob a e apêu ica en e a desa ios semp e em c escen e. Em suma: emos nas mãos um abalho he cúleo mas ins umen os sisi ianos. Fiquei com ais ques ões (u ilizando uma boa exp essão da nossa língua) enca i adas e dei po mim, du an e alguns dias, a pensa na ob a de Ka l Poppe . Ac o con ínuo lá es a a eu a compulsa no as e os li os de ão ilus e au o , logo es e pequeno ex o ganhou co po. II – Poppe e os ês mundos Si Ka l Poppe , que nos deixou em 1994, iniciou a sua ida in elec ual pe encendo ao chamado Cí culo de Viena, encabeçado po Schlick e o mando uma co en e de pensamen o chamada de Empi ismo lógico ou Neoposi i ismo. Com o passa do empo Poppe a as a-se das ideias des a co en e, p incipalmen e no que diz espei o aos c i é ios de e i icação expe imen al das ciências. Poppe de ende que o conhecimen o é concebido den o dos limi es da c í ica e da acionalidade. Esses são os seus dois pila es, o es an e - uma posição que lemb a Desca es - é is o pelo au o como um pala eado sem sen ido. A p imei a ques ão de impo ância que se nos ap esen a Qual a elação en e Ka l Poppe e Toxicodependência? Uma ap oximação concep ual Resumo O au o aplica as ideias de Ka l Poppe no campo da oxicodependência. Concei os como: “ ês mundos”; a necessidade de abalha mos com hipó eses; o alo e o ca ác e de alsi icação de uma eo ia cien í ica são le ados em con a en e aos desa ios semp e c escen es da p á ica com os oxicodependen es. Po úl imo, são a aliados os limi es da eo ia do conhecimen o de Poppe . Pala as-cha e: ideias de Ka l Poppe ; oxicodependência, “ ês mundos” e eo ia cien í ica. Resumé L’au eu applique les idées de Ka l Poppe su la oxicodependence: Concep s comme: “ ois mondes”; la nécéssi é de a aille a ec des hypo héses; le aleu e le ca ac è e de alsi ica ion d’une heó ie cien i ique son ici p i en comp e de an les dé i s oujou s plus g ands en p a ique a ec les oxicodependan s. Finalemen , les limi es de la heó ie de la connaissance de Poppe son é aluées. Mo s clé: idées de Ka l Poppe ; oxicodependence; “ ois mondes” e heó ie cien i ique. Abs ac s The au ho use Ka l Poppe ideas in he ield o he addic ion. Concep s as: “ h ee wo lds”; he need o wo k wi h hypo hesis; he alue and he cha ac e is ic o he o ge y abou cien i ic heo y a e conside ed agains he challenges always inc easing in he p ac ice wi h addic s. Finally he limi s o Poppe ’s heo y o knowledge a e discussed. Key wo ds: Ka l Poppe ’s ideas; addic ion; “Th ee wo lds” and cien i ic heo y. I - In odução Recen emen e assis i a um deba e en e dois ilus es e enomados p o esso es de Psiquia ia que e sa a sob e os desa ios da oxicodependência. Um deles, após um desaba o público sob e as di iculdades Ni aldo Dua e de Ma ins Mes e em Psiquia ia pela Faculdade de Medicina do Po o Médico Psiquia ia do Cen o Hospi ala Conde Fe ei a 58 Lei u as VOLUME V Nº1 JANEIRO/FEVEREIRO 2003 é: qual a posição de Poppe en e ao “quad o do mundo” ou de uma manei a mais cla a, como é que ele se posiciona dian e da complexidade do eal? Qual a sua linha me odológica? Diagmos que Poppe é um plu alis a, admi indo que o mundo consis e de pelo menos ês sub-mundos on ologicamen e dis in os. Segui emos mui o de pe o a sua pena e sabe emos que: a) o p imei o é o mundo ma e ial, ou o mundo dos es ados ma e iais; b) o segundo é o mundo men al, ou o mundo dos es ados men ais; c) o e cei o é o mundo dos in eligí eis ou das ideias no sen ido objec i o. É o mundo dos objec os de pensamen o possí eis, o mundo das eo ias em si mesmas e de suas elações lógicas, dos a gumen os e das si uações de p oblemas em si mesmos. Vale a pena deb uça -nos sob e o e cei o mundo. Ele é mui o mais do que uma me á o a ou um p odu o do espí i o humano. Em e mos de conhecimen o objec i o “en amos” no e cei o mundo quando islumb amos o uni e so das biblio ecas, dos li os, bem como quando a nossa a enção é despe ada e man ida po um ela o e bal ou adição o al. Acei ando es a isão ipa ida de Poppe — ou do seu ialismo como ad oga o P o . Pio de Ab eu (2000) — emos que nos ol a pa a as elações causais en e esses ês mundos. Os ês mundos elacionam-se de al modo — e es e é um aspec o c ucial na cons ução de Poppe — que o segundo mundo in e age com o p imei o e com o e cei o, ou seja, a pa i des e “mundo-cha e” que é o segundo, o p imei o e o e cei o são conec ados. Vejamos dois exemplos. O p imei o de ca ác e ge al e o segundo iliado no campo da oxicodependência. Ao obse a mos a igu a 1, emos um desenho ei o com um dado ins umen o e pe cebemos um eo ema (es amos na companhia de Pi ágo as). Desenho e eo ema es ão associados g aças à minha men e, ou espec i amen e, o p imei o e o e cei o mundos es ão coligados po acção do segundo. O e cei o mundo — o das eo ias ma emá icas e cien í icas — exe ce imensa in luência sob e o p imei o mundo (só pe cebemos isso quando a a és da e lexão, ou se quise mos uma ca ego ia ilosó ica: o espan o, pe mi imo-nos olha o mundo de ou a o ma. Pense nisso na p óxima ez que a po a do ae opo o, de o ma mágica, se ab i dian e de si). No e cei o mundo exis e um ca ác e de au onomia. Vejamos o que nos diz Poppe aquando de uma con e ência na Uni e sidade de Emo y, ao disco e sob e os p oblemas que su gi ão no desen ol imen o da geome ia e da a i mé ica, (é de no a que es es dois campos do sabe já exis iam an es mesmo de c uza mos duas linhas ec as num plano) “... ais p oblemas exis em, independen emen e da consciência que emos deles, mas podemos descob i-los no mesmo sen ido em que descob imos ou as coisas no as, como po exemplo, pa ículas elemen a es ou mon anhas e ios desconhecidos”. No campo da oxicodependência pode íamos giza o seguin e: a gue a con a o e o ismo (aqui en ol endo ideias, a gumen os e concepções do e cei o mundo) in luenciou o me cado de he oína na Eu opa (o olume da d oga nas ansacções come ciais no p imei o mundo) com e lexos no es ado men al dos oxicode- penden es (mais ansiosos, p eocupados — aspec os do segundo mundo). Da mesma o ma a opção de uma de e minada e apêu- ica ambém passa pelo c i o des as ês ins âncias. A opção de um a amen o com Bup eno ina implica uma de e minada concepção da oxicodependência ( e cei o mundo) e necessi a se ins umen alizada conc e amen e (ex: de e minada dosagem dos comp imidos – p imei o mundo) pa a que os es ados men ais sejam al e ados (segundo mundo). III – Rumo aos p oblemas Gos a ia de essal a um ou o aspec o da cons ução ilosó ica de Poppe . É o que diz espei o à o ma pela qual o au o islumb a o conhecimen o do mundo. Figu a 1. a2 = b2 + c2 ba c Lei u as 59 VOLUME V Nº1 JANEIRO/FEVEREIRO 2003 1. P1 é mui as ezes uma ques ão p á ica, mas ambém pode se eó ica. O mesmo acon ece com P2; 2. es e esquema é aplicá el an o ao conhecimen o objec i o como ao subjec i o. A aplicação des e esquema es a ia elacionado não só a p oblemas quo idianos dos oxicodependen es, bem como a ques ões mais amplas que en ol e iam, po exemplo, a assis ência aos u en es. Tomemos po acaso a complexa e bas an e discu ida ques ão das salas de injecção assis ida. Pode íamos pa i de um dos seguin es pon os de is a: 1. uma p eocupação undamen almen e empi is a eduzindo o con eúdo do nosso conhecimen o des a ma é ia a de e minações pe cep í eis. Ab i íamos mão de pode exis i uma in uição in elec ual. É ce o que um empi is a adical pode ia lemb a -nos o amoso a o isma de Locke, de que exis e uma di e ença en e um homem que sonha es a sendo queimado numa oguei a e um homem que ealmen e es á sendo queimado (com odo o humo inglês). Mas a expe iência sensí el pode ia segui um ou o caminho, e assim: 2. passa mos a um posicionamen o que de ende a concepção de que só podemos a ingi a a és da expe iência o ac o singula a a és de ope ações lógicas e exp essas pela linguagem. Seguindo es e caminho alcança íamos ce as ligações sis emá icas, ab indo espaço pa a um sabe uni e sal; 3. mas a expe iência ambém pode se is a a a és de uma óp ica denominada concei ualis a. O pon o cen al aqui é o ac o de que o dado pe cep i o já engloba um con eúdo de signi icação. Japiassu (1991) lemb a-nos, “...em ou as pala as, há uma ac i idade in elec ual que nos pe mi e ap ende a a és da essi u a dos con eúdos sensí eis, as o mas in eligí eis po meio das quais esses con eúdos o nam- se acessí eis ao conhecimen o e signi ican es pa a nós”. Es as ês concepções encon am no pensamen o de Poppe um pon o de e lexão, que pode ia se esumido em duas ques ões de peso: 1. como posso eu cons ui uma eo ia cien í ica Exis em aqui duas e sões que me ecem a nossa a enção. A p imei a é denominada po Poppe (1975) de “ eo ia do balde da ciência”, ou “ eo ia do balde men al”. E em que consis e? O pon o c ucial des a dou ina é de que an es de pode mos conhece ou dize qualque coisa a espei o do mundo que nos odeia, de emos e ido pe cepções ou melho , expe iências de sen idos. Es as pe cepções podem se acumuladas (Locke) ou assimiladas, o denadas, classi icadas (Bacon e Kan ). Mas exis e um ou o caminho. Na ciência o papel c ucial é desempenhado pela obse ação e não pela pe cepção; po ém, a obse ação é um p ocesso ac i o em que omamos pa e. Uma obse ação, al e qual uma explo ação de uma e a desconhecida é planeada e p epa ada. Toda a obse ação nasce a pa i de um p oblema, de uma eo ia, de uma hipó ese. Pa a en e eda mos pelo di ícil campo da oxicodepen- dência usamos como “bússolas” um de e minado modelo. Toda a obse ação pa e de um ho izon e de expec a i as. O explo ado que ai obse a uma e a es anha, espe a ( em expec a i as) encon a de e mi- nados elemen os ( ecen emen e espe á amos encon a água em Ma e). G aças à expe iência es as expec a i as são con i madas ou não (encon amos água em Ma e). Nada melho que as pala as de Poppe (1975) “... podemos ca ac e iza uma expec a i a como uma disposição pa a eagi , ou como um p epa a i o pa a uma eacção, que se adap a (ou que se an ecipa) a um es ado do ambien e ainda po i ”. Possibilidades, expec a i as, p oblemas, soluções de em se in eg ados num de4 e minado modelo que auxilie os nossos u en es a aze en e às di iculdades (de di e en es ma izes) que en en am; pa a an o o esquema u ilizado po Poppe (1975) em em nosso auxílio. Assim emos: P1 TE EE P2 onde P1 ep esen a o p oblema de pa ida (que pode se índole p á ica ou eó ica); TE é a eo ia expe imen al, p opos a e des inada a esol e o p oblema; EE signi ica o p ocesso de eliminação de e os po meio de ensaios ou discussões c í icas e P2 ep esen a os p oblemas inais, os que eme gem das discussões e dos ensaios. É impo an e e e que es e esquema diz-nos que o conhecimen o pa e de p oblemas e desemboca em no os p oblemas. Vale a pena no a duas ca ac e ís icas des e esquema: 60 Lei u as VOLUME V Nº1 JANEIRO/FEVEREIRO 2003 a pa i de obse ações em núme o semp e ini o?; 2. como es abelece a e dade de uma eo ia a pa i apenas de bases obse acionais? Chamo a a enção que ais ques ões se encon am de o ma la en e, quando apoiamos ou não uma polí ica de edução de danos, po exemplo. Pa o da ideia que emos que possui um de e minado c i é io pa a a aliação das eo ias que exis em po de ás das nossas p á icas. O c i é io é nos dado po Poppe quando de ende que de emos p eocupa -nos com o “ alo ” das eo ias cien í icas, ou seja com o g au de con iança que podemos deposi a nas eo ias. A nossa dú ida é: o que pode jus i ica a nossa c ença na possibilidade de um de e minado compo amen o se semp e o mesmo? Ou u ilizando uma linguagem mais ilosó ica (mas não menos comp eensí el), qual a jus i icação que possuímos pa a pode mos lança mão de nossas in e ências indu i as? Se á que a pa i dos dados empí icos c iamos um enunciado uni e sal? Ou dizendo de ou a o ma, se á que eu enho em mãos c i é ios que pe mi i ão e i ica a exac idão de uma eo ia? Não gos a ia que o lei o isse ais indagações como es anhas ao mundo quo idiano ou a ac os que obse a. Não causa ia es anheza a cons a ação que no campo da oxicodependência pode íamos encon a á ias eo ias i ais (a é os deuses não se en endem, imaginem nós, pob es mo ais). F en e a eo ias em choque, em que o emba e é le ado a ex emos, uma de e minada pos u a de Poppe pode ia ajuda -nos. Poppe de ende a ideia de que de emos ab i mão da e i icação e islumb a mos o ca ác e de alsi icação de uma eo ia. Explicando melho e ampliando: en e a eo ias que se encon am em choque, a melho é aquela que: a) pude indica , à p io i, um ac o ou uma expe iência capaz de abala ou e u a as bases da eo ia; b) o es á el, ou seja capaz de esis i aos es es ealizados. Em suma, a hipó ese mais an ajosa pa a nós, não é aquela que possua a maio chance de se alsa, mas aquela que, pela sua o ma lógica, o capaz de nos o nece as melho es possibilidades de pode mos e u á-la ( ia es agem) e o ná-la alsa. IV – Conclusão Ac edi o que as ideias de Ka l Poppe exp essas nes e a igo, pode iam e ajudado aqueles dois ilus es p o esso es de Psiquia ia, quando deba iam e o o- samen e os seus pon os de is a. Em conclusão, acho que os seguin es pon os de is a de em se en a izados: 1. A in e p e ação que azemos de um de e minado ac o não nasce de uma “pu a” obse ação, mas é ealizada a pa i de um e e encial eó ico. 2. O conhecimen o cien í ico — necessá io no campo especí ico da oxicodependência — jamais a inge uma e dade objec i a absolu a. Temos que acei a que o nosso conhecimen o é p o isó io. 3. Não de emos esquece que a ciência abalha a pa i de pon os de is a que necessi am se es ados a cada passo. A “cada passo” ez-me lemb a a imagem de uma malaba is a ao equilib a -se sob e uma i ubean e co da colocada no al o do picadei o. O olha da malaba is a é ixo no seu pon o de chegada (pode íamos aplica o esquema que nos le a de P1 a P2) e passa a se impulsionado o a pela dú ida, o a po uma ce eza algo aga, à semelhança do que oco e no inal de cada consul a, quando a po a se echa. BIBLIOGRAFIA 1. ABREU, J.L.Pio (2000). O Tempo Ap isionado. Coimb a. Qua e o Edi o a. 2. JAPIASSU, H. (1991). In odução ao Pensamen o Epis emológico. Rio de Janei o, F ancisco Al es Edi o a. 3. POPPER, K. (1975). Conhecimen o Objec i o. Belo Ho izon e, I a iaia Edi o a. 4. POPPER, K. (1996). O conhecimen o e o P oblema Co po- -Men e. Lisboa, Edições 70.