Qual a relação entre Karl Popper e toxicodependência?: uma aproximação conceptual
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encon adas ao a a mos es es doen es, mos a a-se
cép ico quan o às possibilidades exis en es de aze mos
en e a es es desa ios is o que, po exemplo, um
aumen o signi ica i o da ap eensão de d oga não
aca e ou uma diminuição do p oblema, sem con a
com ou os ac os como o e o no do oxicodepen-
den e, após um pe íodo de a amen o, ao seio de
amílias dis uncionais, sem con a com o ac o de que
a pa i da comp o ação neu o-química da o igem das
oxicodependências ( endo po base as suas e e ências
bibliog á icas) não possuímos no momen o, uma maio
ma gem de manob a e apêu ica en e a desa ios
semp e em c escen e.
Em suma: emos nas mãos um abalho he cúleo mas
ins umen os sisi ianos.
Fiquei com ais ques ões (u ilizando uma boa exp essão
da nossa língua) enca i adas e dei po mim, du an e
alguns dias, a pensa na ob a de Ka l Poppe . Ac o
con ínuo lá es a a eu a compulsa no as e os li os de
ão ilus e au o , logo es e pequeno ex o ganhou
co po.
II – Poppe e os ês mundos
Si Ka l Poppe , que nos deixou em 1994, iniciou a sua
ida in elec ual pe encendo ao chamado Cí culo de
Viena, encabeçado po Schlick e o mando uma co en e
de pensamen o chamada de Empi ismo lógico ou
Neoposi i ismo.
Com o passa do empo Poppe a as a-se das ideias
des a co en e, p incipalmen e no que diz espei o aos
c i é ios de e i icação expe imen al das ciências.
Poppe de ende que o conhecimen o é concebido
den o dos limi es da c í ica e da acionalidade. Esses
são os seus dois pila es, o es an e - uma posição que
lemb a Desca es - é is o pelo au o como um
pala eado sem sen ido.
A p imei a ques ão de impo ância que se nos ap esen a
Qual a elação en e Ka l Poppe e
Toxicodependência?
Uma ap oximação concep ual
Resumo
O au o aplica as ideias de Ka l Poppe no campo da
oxicodependência. Concei os como: “ ês mundos”; a
necessidade de abalha mos com hipó eses; o alo e o
ca ác e de alsi icação de uma eo ia cien í ica são le ados
em con a en e aos desa ios semp e c escen es da p á ica
com os oxicodependen es. Po úl imo, são a aliados os limi es
da eo ia do conhecimen o de Poppe .
Pala as-cha e: ideias de Ka l Poppe ; oxicodependência,
“ ês mundos” e eo ia cien í ica.
Resumé
L’au eu applique les idées de Ka l Poppe su la
oxicodependence: Concep s comme: “ ois mondes”; la
nécéssi é de a aille a ec des hypo héses; le aleu e le
ca ac è e de alsi ica ion d’une heó ie cien i ique son ici p i
en comp e de an les dé i s oujou s plus g ands en p a ique
a ec les oxicodependan s. Finalemen , les limi es de la heó ie
de la connaissance de Poppe son é aluées.
Mo s clé: idées de Ka l Poppe ; oxicodependence; “ ois
mondes” e heó ie cien i ique.
Abs ac s
The au ho use Ka l Poppe ideas in he ield o he addic ion.
Concep s as: “ h ee wo lds”; he need o wo k wi h hypo hesis;
he alue and he cha ac e is ic o he o ge y abou cien i ic
heo y a e conside ed agains he challenges always inc easing
in he p ac ice wi h addic s. Finally he limi s o Poppe ’s
heo y o knowledge a e discussed.
Key wo ds: Ka l Poppe ’s ideas; addic ion; “Th ee wo lds”
and cien i ic heo y.
I - In odução
Recen emen e assis i a um deba e en e dois ilus es
e enomados p o esso es de Psiquia ia que e sa a
sob e os desa ios da oxicodependência. Um deles,
após um desaba o público sob e as di iculdades
Ni aldo Dua e de Ma ins
Mes e em Psiquia ia pela
Faculdade de Medicina do
Po o
Médico Psiquia ia do
Cen o Hospi ala Conde
Fe ei a
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é: qual a posição de Poppe en e ao “quad o do mundo”
ou de uma manei a mais cla a, como é que ele se
posiciona dian e da complexidade do eal? Qual a sua
linha me odológica?
Diagmos que Poppe é um plu alis a, admi indo que
o mundo consis e de pelo menos ês sub-mundos
on ologicamen e dis in os. Segui emos mui o de pe o
a sua pena e sabe emos que:
a) o p imei o é o mundo ma e ial, ou o mundo
dos es ados ma e iais;
b) o segundo é o mundo men al, ou o mundo dos
es ados men ais;
c) o e cei o é o mundo dos in eligí eis ou das
ideias no sen ido objec i o. É o mundo dos objec os
de pensamen o possí eis, o mundo das eo ias
em si mesmas e de suas elações lógicas, dos
a gumen os e das si uações de p oblemas em si
mesmos.
Vale a pena deb uça -nos sob e o e cei o mundo. Ele
é mui o mais do que uma me á o a ou um p odu o
do espí i o humano. Em e mos de conhecimen o
objec i o “en amos” no e cei o mundo quando
islumb amos o uni e so das biblio ecas, dos li os,
bem como quando a nossa a enção é despe ada e
man ida po um ela o e bal ou adição o al.
Acei ando es a isão ipa ida de Poppe — ou do
seu ialismo como ad oga o P o . Pio de Ab eu (2000)
— emos que nos ol a pa a as elações causais en e
esses ês mundos.
Os ês mundos elacionam-se de al modo — e es e
é um aspec o c ucial na cons ução de Poppe — que
o segundo mundo in e age com o p imei o e com o
e cei o, ou seja, a pa i des e “mundo-cha e” que é
o segundo, o p imei o e o e cei o são conec ados.
Vejamos dois exemplos. O p imei o de ca ác e ge al
e o segundo iliado no campo da oxicodependência.
Ao obse a mos a igu a 1, emos um desenho ei o
com um dado ins umen o e pe cebemos um eo ema
(es amos na companhia de Pi ágo as).
Desenho e eo ema es ão associados g aças à minha
men e, ou espec i amen e, o p imei o e o e cei o
mundos es ão coligados po acção do segundo.
O e cei o mundo — o das eo ias ma emá icas e
cien í icas — exe ce imensa in luência sob e o p imei o
mundo (só pe cebemos isso quando a a és da e lexão,
ou se quise mos uma ca ego ia ilosó ica: o espan o,
pe mi imo-nos olha o mundo de ou a o ma. Pense
nisso na p óxima ez que a po a do ae opo o, de
o ma mágica, se ab i dian e de si).
No e cei o mundo exis e um ca ác e de au onomia.
Vejamos o que nos diz Poppe aquando de uma
con e ência na Uni e sidade de Emo y, ao disco e
sob e os p oblemas que su gi ão no desen ol imen o
da geome ia e da a i mé ica, (é de no a que es es
dois campos do sabe já exis iam an es mesmo de
c uza mos duas linhas ec as num plano) “... ais
p oblemas exis em, independen emen e da consciência que
emos deles, mas podemos descob i-los no mesmo sen ido
em que descob imos ou as coisas no as, como po exemplo,
pa ículas elemen a es ou mon anhas e ios desconhecidos”.
No campo da oxicodependência pode íamos giza o
seguin e: a gue a con a o e o ismo (aqui en ol endo
ideias, a gumen os e concepções do e cei o mundo)
in luenciou o me cado de he oína na Eu opa (o olume
da d oga nas ansacções come ciais no p imei o
mundo) com e lexos no es ado men al dos oxicode-
penden es (mais ansiosos, p eocupados — aspec os
do segundo mundo).
Da mesma o ma a opção de uma de e minada e apêu-
ica ambém passa pelo c i o des as ês ins âncias.
A opção de um a amen o com Bup eno ina implica
uma de e minada concepção da oxicodependência
( e cei o mundo) e necessi a se ins umen alizada
conc e amen e (ex: de e minada dosagem dos
comp imidos – p imei o mundo) pa a que os es ados
men ais sejam al e ados (segundo mundo).
III – Rumo aos p oblemas
Gos a ia de essal a um ou o aspec o da cons ução
ilosó ica de Poppe . É o que diz espei o à o ma pela
qual o au o islumb a o conhecimen o do mundo.
Figu a 1.
a2 = b2 + c2
ba
c
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1. P1 é mui as ezes uma ques ão p á ica, mas
ambém pode se eó ica. O mesmo acon ece
com P2;
2. es e esquema é aplicá el an o ao conhecimen o
objec i o como ao subjec i o.
A aplicação des e esquema es a ia elacionado não só
a p oblemas quo idianos dos oxicodependen es, bem
como a ques ões mais amplas que en ol e iam, po
exemplo, a assis ência aos u en es. Tomemos po acaso
a complexa e bas an e discu ida ques ão das salas de
injecção assis ida. Pode íamos pa i de um dos seguin es
pon os de is a:
1. uma p eocupação undamen almen e empi is a
eduzindo o con eúdo do nosso conhecimen o
des a ma é ia a de e minações pe cep í eis.
Ab i íamos mão de pode exis i uma in uição
in elec ual. É ce o que um empi is a adical
pode ia lemb a -nos o amoso a o isma de Locke,
de que exis e uma di e ença en e um homem
que sonha es a sendo queimado numa oguei a
e um homem que ealmen e es á sendo queimado
(com odo o humo inglês).
Mas a expe iência sensí el pode ia segui um ou o
caminho, e assim:
2. passa mos a um posicionamen o que de ende
a concepção de que só podemos a ingi a a és
da expe iência o ac o singula a a és de
ope ações lógicas e exp essas pela linguagem.
Seguindo es e caminho alcança íamos ce as
ligações sis emá icas, ab indo espaço pa a um
sabe uni e sal;
3. mas a expe iência ambém pode se is a a a és
de uma óp ica denominada concei ualis a. O pon o
cen al aqui é o ac o de que o dado pe cep i o
já engloba um con eúdo de signi icação. Japiassu
(1991) lemb a-nos, “...em ou as pala as, há uma
ac i idade in elec ual que nos pe mi e ap ende a a és
da essi u a dos con eúdos sensí eis, as o mas
in eligí eis po meio das quais esses con eúdos o nam-
se acessí eis ao conhecimen o e signi ican es pa a
nós”.
Es as ês concepções encon am no pensamen o de
Poppe um pon o de e lexão, que pode ia se esumido
em duas ques ões de peso:
1. como posso eu cons ui uma eo ia cien í ica
Exis em aqui duas e sões que me ecem a nossa
a enção. A p imei a é denominada po Poppe (1975)
de “ eo ia do balde da ciência”, ou “ eo ia do balde
men al”. E em que consis e? O pon o c ucial des a
dou ina é de que an es de pode mos conhece ou
dize qualque coisa a espei o do mundo que nos
odeia, de emos e ido pe cepções ou melho ,
expe iências de sen idos. Es as pe cepções podem se
acumuladas (Locke) ou assimiladas, o denadas,
classi icadas (Bacon e Kan ).
Mas exis e um ou o caminho.
Na ciência o papel c ucial é desempenhado pela
obse ação e não pela pe cepção; po ém, a obse ação
é um p ocesso ac i o em que omamos pa e. Uma
obse ação, al e qual uma explo ação de uma e a
desconhecida é planeada e p epa ada. Toda a obse ação
nasce a pa i de um p oblema, de uma eo ia, de uma
hipó ese.
Pa a en e eda mos pelo di ícil campo da oxicodepen-
dência usamos como “bússolas” um de e minado
modelo. Toda a obse ação pa e de um ho izon e de
expec a i as. O explo ado que ai obse a uma e a
es anha, espe a ( em expec a i as) encon a de e mi-
nados elemen os ( ecen emen e espe á amos encon a
água em Ma e). G aças à expe iência es as expec a i as
são con i madas ou não (encon amos água em Ma e).
Nada melho que as pala as de Poppe (1975) “...
podemos ca ac e iza uma expec a i a como uma disposição
pa a eagi , ou como um p epa a i o pa a uma eacção,
que se adap a (ou que se an ecipa) a um es ado do
ambien e ainda po i ”.
Possibilidades, expec a i as, p oblemas, soluções de em
se in eg ados num de4 e minado modelo que auxilie
os nossos u en es a aze en e às di iculdades (de
di e en es ma izes) que en en am; pa a an o o esquema
u ilizado po Poppe (1975) em em nosso auxílio.
Assim emos: P1 TE EE P2 onde P1 ep esen a o
p oblema de pa ida (que pode se índole p á ica ou
eó ica); TE é a eo ia expe imen al, p opos a e des inada
a esol e o p oblema; EE signi ica o p ocesso de
eliminação de e os po meio de ensaios ou discussões
c í icas e P2 ep esen a os p oblemas inais, os que
eme gem das discussões e dos ensaios.
É impo an e e e que es e esquema diz-nos que o
conhecimen o pa e de p oblemas e desemboca em
no os p oblemas.
Vale a pena no a duas ca ac e ís icas des e esquema:
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a pa i de obse ações em núme o semp e ini o?;
2. como es abelece a e dade de uma eo ia a
pa i apenas de bases obse acionais?
Chamo a a enção que ais ques ões se encon am de
o ma la en e, quando apoiamos ou não uma polí ica
de edução de danos, po exemplo.
Pa o da ideia que emos que possui um de e minado
c i é io pa a a aliação das eo ias que exis em po
de ás das nossas p á icas. O c i é io é nos dado po
Poppe quando de ende que de emos p eocupa -nos
com o “ alo ” das eo ias cien í icas, ou seja com o
g au de con iança que podemos deposi a nas eo ias.
A nossa dú ida é: o que pode jus i ica a nossa c ença
na possibilidade de um de e minado compo amen o
se semp e o mesmo? Ou u ilizando uma linguagem
mais ilosó ica (mas não menos comp eensí el), qual
a jus i icação que possuímos pa a pode mos lança
mão de nossas in e ências indu i as?
Se á que a pa i dos dados empí icos c iamos um
enunciado uni e sal? Ou dizendo de ou a o ma, se á
que eu enho em mãos c i é ios que pe mi i ão e i ica
a exac idão de uma eo ia?
Não gos a ia que o lei o isse ais indagações como
es anhas ao mundo quo idiano ou a ac os que obse a.
Não causa ia es anheza a cons a ação que no campo
da oxicodependência pode íamos encon a á ias
eo ias i ais (a é os deuses não se en endem, imaginem
nós, pob es mo ais). F en e a eo ias em choque, em
que o emba e é le ado a ex emos, uma de e minada
pos u a de Poppe pode ia ajuda -nos.
Poppe de ende a ideia de que de emos ab i mão da
e i icação e islumb a mos o ca ác e de alsi icação
de uma eo ia. Explicando melho e ampliando: en e
a eo ias que se encon am em choque, a melho é
aquela que:
a) pude indica , à p io i, um ac o ou uma
expe iência capaz de abala ou e u a as bases
da eo ia;
b) o es á el, ou seja capaz de esis i aos es es
ealizados.
Em suma, a hipó ese mais an ajosa pa a nós, não é
aquela que possua a maio chance de se alsa, mas
aquela que, pela sua o ma lógica, o capaz de nos
o nece as melho es possibilidades de pode mos
e u á-la ( ia es agem) e o ná-la alsa.
IV – Conclusão
Ac edi o que as ideias de Ka l Poppe exp essas nes e
a igo, pode iam e ajudado aqueles dois ilus es
p o esso es de Psiquia ia, quando deba iam e o o-
samen e os seus pon os de is a.
Em conclusão, acho que os seguin es pon os de is a
de em se en a izados:
1. A in e p e ação que azemos de um de e minado
ac o não nasce de uma “pu a” obse ação, mas
é ealizada a pa i de um e e encial eó ico.
2. O conhecimen o cien í ico — necessá io no
campo especí ico da oxicodependência — jamais
a inge uma e dade objec i a absolu a. Temos que
acei a que o nosso conhecimen o é p o isó io.
3. Não de emos esquece que a ciência abalha
a pa i de pon os de is a que necessi am se
es ados a cada passo.
A “cada passo” ez-me lemb a a imagem de uma
malaba is a ao equilib a -se sob e uma i ubean e co da
colocada no al o do picadei o. O olha da malaba is a
é ixo no seu pon o de chegada (pode íamos aplica
o esquema que nos le a de P1 a P2) e passa a se
impulsionado o a pela dú ida, o a po uma ce eza
algo aga, à semelhança do que oco e no inal de cada
consul a, quando a po a se echa.
BIBLIOGRAFIA
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