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Estudos sobre qualidade de vida em mulheres submetidas a histerectomia ou anexectomia para tratamento de cancro do útero ou ovário

Helena Lopes,José Luís Pais Ribeiro,Isabel Leal

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1. INTRODUÇÃO Os cancros ginecológicos constituem as formas de neoplasia mais frequentes na mulher, sendo o carcinoma do útero a segunda causa de cancro nesta (Roldão, 1984) e o carcinoma do ovário a sexta (Silverberg, 1989). Os progressos no diagnóstico e tratamento do cancro do útero e ovário têm sido significativos e o seu prognóstico melhorou. No entanto, estas duas doenças representam ainda um importante problema de saúde pública, dada a sua incidência e consideráveis riscos de mortalidade quando o tumor é diagnosticado numa fase de evolução avançada. As possibilidades terapêuticas são múltiplas e variam em função da idade da mulher, do seu estado clínico, do tipo e extensão do tumor. A histerectomia total com anexectomia bilateral é um dos principais métodos de tratamento e consiste numa intervenção cirúrgica por meio da qual se pratica a ablação do útero e dos ovários. A radioterapia e a quimioterapia constituem metodologias de tratamento complementares ou alternativas às cirurgias não conservadoras. Para além das reacções psicológicas inerentes a qualquer tipo de cirurgia oncológica, reacções específicas estão relacionadas com a localização da cirurgia e com alterações funcionais ou perda de função resultantes desta intervenção (Callahan, Pawlicki, Nicholas & Hamilton, 1993). O tratamento cirúrgico do cancro genital, da face, mama e cólon suscita reacções emocionais particularmente adversas, em virtude do significado psicológico atribuído à perda (total ou parcial) 483 Análise Psicológica (1999), 3 (XVII): 483-497 Estudos sobre qualidade de vida em mulheres submetidas a histerectomia ou anexectomia para tratamento de cancro do útero ou ovário (*) HELENA BALTAR LOPES (**) JOSÉ LUIS PAIS RIBEIRO (***) ISABEL PEREIRA LEAL (****) (*) Estudo realizado no âmbito de mestrado com bolsa do Programa Praxis XXI. (**) Bolseira de Doutoramento do Programa Praxis XXI. (***) Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa (****) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa. destes órgãos ou partes do corpo (Jacobsen & Holland, 1990). Na mulher, as intervenções cirúrgicas ginecológicas revestem-se de aspectos peculiares, tendo um impacto significativo a diferentes níveis. Estudos sobre as repercussões da histerectomia e anexectomia no plano emocional e psicossexual sugerem que a perda do útero e ovários e, consequente, cessação da função reprodutora e ovárica podem ter efeitos negativos ao nível do bem-estar psicológico e somático, relacionamento sexual e conjugal, auto-estima, imagem corporal e identidade feminina. Por outro lado, têm sido identificados alguns factores que parecem estar associados a maiores dificuldades de ajustamento a esta situação: dificuldades sexuais e conjugais prévias, existência de um suporte social precário e antecedentes psiquiátricos. A idade da mulher e paridade constituem, também, possíveis factores de risco: mulheres jovens, particularmente quando não têm filhos, parecem ser mais propensas a sofrer de problemas psíquicos e sexuais, em consequência de histerectomia e/ou anexectomia. Assim, em situação de cancro genital, a compreensão do impacto da histerectomia ou anexectomia quer para a mulher, quer para os próximos, tem de ser enquadrada no contexto das doenças ginecológicas, em particular, e oncológicas, em geral. Os tratamentos oncológicos implicam muitas vezes uma cirurgia de exérese, com eventual comprometimento do funcionamento de órgãos vitais ou do aparelho reprodutor, e que pode ser sentida pelos doentes como uma mutilação. A toxicidade de alguns fármacos é considerável, e a radioterapia pode provocar efeitos colaterais difíceis de suportar pela pessoa. A morbilidade por psicopatologia tem, igualmente, uma expressão significativa. Todavia, a sua incidência parece ter sido sobrestimada em estudos iniciais, devido a limitações metodológicas e de diagnóstico. Brown, Haddox, Posada e Rubio (1972), num estudo com quinze mulheres com cancro ginecológico que foram submetidas a exenteração pélvica, concluem que – apesar da existência de alguns problemas relacionados essencialmente com a sexualidade e a colostomia – as mulheres parecem ter-se adaptado relativamente bem a esta situação quer do ponto de vista psicológico, quer social. Também, num estudo realizado por Vera (1981) com dezanove mulheres, sujeitas a um tratamento idêntico, as doentes referiram que a sua qualidade de vida melhorou desde a intervenção cirúrgica e que estavam optimistas em relação ao futuro. Porém, comentaram que se sentiram deprimidas após a cirurgia e evidenciaram uma reabilitação ocupacional pobre e acentuadas dificuldades no plano sexual. Estudos de qualidade de vida de doentes com cancro indicam que estes relatam uma qualidade de vida melhor do que seria de esperar. Existem diversas hipóteses para explicar esses resultados. De Haes e van Knippenberg (1985) sugerem que as doenças oncológicas podem afectar menos a qualidade de vida dos doentes do que geralmente se pensa, devido, provavelmente, a alterações das suas expectativas ou valores, a melhorias efectivas em determinados aspectos das suas vidas (por exemplo, reforço de certos vínculos afectivos) ou a uma reestruturação das prioridades e objectivos de vida. A teoria da adaptação de Helson e Bevan (1967) explica este fenómeno. Uma hipótese alternativa, reflectindo uma perspectiva mais psicopatológica, sugere que os doentes tendem a responder de uma forma socialmente desejável (Hurny, Piasetsky, Bagin & Holland, 1987) e dão respostas de acordo com as expectativas que têm acerca do que os médicos (ou entrevistadores) gostariam de ouvir. Outra explicação para este facto traduz uma perspectiva cognitiva. Segundo Campbell et al. (1976), os julgamentos de qualidade de vida contêm uma componente cognitiva e afectiva, cada uma das quais pode variar independentemente da outra. Os estudos que demonstram que as pessoas com cancro têm uma qualidade de vida satisfatória ou mesmo boa mascaram as respostas emocionais, que surgem associadas à doença e tratamento e requerem uma avaliação independente. Essa hipótese vai de encontro às observações de Irwin et al. (1982), segundo as quais doentes que fizeram radioterapia classificam a sua qualidade de vida como sendo tão satisfatória como a das pessoas «sem doença», mas não avaliam a dimensão afectiva dos seus julgamentos. Uma perspectiva diferente é defendida por 484 Durá (1997)1que chama a atenção para o facto do cancro ao longo dos séculos ter sido mistificado pelas sociedades. Os próprios investigadores teriam uma visão pessimista desta doença e tenderiam a sobrestimar os efeitos negativos do cancro e seu tratamento no bem-estar psicológico e qualidade de vida dos doentes. A controvérsia sobre se a qualidade de vida da generalidade das pessoas com cancro é comparável à da população «normativa» traduziria as expectativas baixas dos investigadores e a sua perplexidade face aos resultados destes estudos. Segundo Barofsky e Sugarbaker (1990), os doentes com cancro não avaliam passivamente o seu estado de saúde e qualidade de vida, mas processam activamente os acontecimentos e circunstâncias da sua vida. O modo como a informação é interpretada ou enquadrada poderá afectar os julgamentos que os doentes fazem. Llewellyn-Thomas et al. (1984) realizaram vários estudos sobre os efeito de factores metodológicos na avaliação que os doentes com cancro fazem do seu estado de saúde. Eles observaram que o tipo, número e ordem de apresentação das questões, assim como os métodos de valorização, parecem influenciar as respostas. Os autores sugerem, ainda, que os doentes quando fazem juízos adoptam várias heurísticas. Ainda se sabe muito pouco sobre as estratégias cognitivas que os doentes oncológicos usam quando fazem julgamentos e se estas diferem das que as pessoas «sem doença» ou outros grupos de doentes utilizam. Observações empíricas indicam que as capacidades intelectuais estão diminuídas em certos grupos de doentes com cancro. Segundo Barofsky e Sugarbaker (1990), os tratamentos oncológicos muitas vezes debilitam as funções neurológicas dos doentes idosos, com cancro disseminado, e que foram submetidos a um regime multidrogas. Essa condição física poderá alterar as suas cognições e comprometer os seus julgamentos. Embora não exista um consenso para explicar os resultados de estudos com grupos de cancro, aquelas perspectivas fornecem uma visão multifacetada do processo de julgamento da qualidade de vida em doentes oncológicos. Todavia, a generalidade das concepções existentes não tem como referência um modelo teórico suficientemente elaborado que permita uma maior compreensão do papel de cada uma das dimensões (cognitiva e afectiva) que intervêm nos julgamentos de qualidade de vida, bem como das relações existentes entre ambas as componentes. O objectivo deste trabalho é estudar aspectos de qualidade de vida em um grupo de doentes sujeitas a histerectomia e/ou anexectomia para tratamento de cancro do útero ou ovário, tendo sido utilizado como instrumento de avaliação o Questionário de Avaliação da Qualidade de Vida, F-84. Trata-se de um estudo transversal com carácter exploratório, descritivo e comparativo, visando conhecer e compreender a influência dessas situações na qualidade de vida das mulheres. Procurou-se, ainda, comparar o estado de saúde desse grupo de doentes com o estado de saúde de um grupo de mulheres sem doença e que não foram submetidas a nenhum tipo de cirurgia ginecológica, com o objectivo de estimar os efeitos destes acontecimentos em diferentes aspectos de saúde, avaliados através de uma medida de saúde multidimensional (Questionário de Estado de Saúde, SF-36). 2. MÉTODO 2.1. Participantes A população do nosso estudo é constituída por mulheres que satisfazem os seguintes critérios: a) diagnóstico de cancro do ovário ou útero (colo ou corpo uterino); b) conhecimento da doença; c) realização de uma histerectomia total e/ou anexectomia num período de tempo superior a três meses e inferior a dois anos; d) ausência de quadro de neoplasia disseminada com expressão clínica; e) inexistência de outras doenças não controladas do ponto de vista clínico; f) sem antecedentes psiquiátricos conhecidos nem deficiência intelectual manifesta; g) disponibilidade e consentimento informado para participar no estudo. A definição de critérios de inclusão e a selecção do grupo de estudo foi rea485 1Comunicação pessoal de Estrella Durá (28 de Fevereiro de 1997). lizada com a colaboração de médicos da consulta de ginecologia do Hospital Geral de Santo António. O grupo de estudo é constituído por trinta mulheres com idades compreendidas entre os vinte e quatro e os setenta e cinco anos. O grupo de comparação constitui uma amostra intencional de idênticas características excepto as referidas nas alíneas a) a d). - Grupo de estudo: trinta mulheres sujeitas a histerectomia e/ou anexectomia para tratamento de cancro do útero ou ovário. - Grupo comparação: trinta mulheres «sem doença», com características demográficas «comparáveis» às do grupo A, e que não foram submetidas a nenhum tipo de cirurgia ginecológica. Parte da amostra foi seleccionada entre a população utente do serviço de ginecologia do Hospital Geral de Santo António. A restante amostra foi recolhida no Centro Paroquial de Paço d’Arcos. Primeiro foi recolhido o grupo de estudo. Para isso, fez-se uma triagem de casos com recurso aos meios informáticos disponíveis no hospital, o que permitiu identificar oitenta e dois processos clínicos. A selecção final dos sujeitos foi feita através da análise dos processos e de informações colhidas no contexto de uma entrevista pessoal. As doentes foram convocadas para este estudo através de um cartão postal, enviado pelos serviços administrativos do hospital. Posteriormente, foi colhido o grupo de comparação. Parte dos sujeitos foram seleccionados entre as utentes da consulta de planeamento familiar do serviço de ginecologia deste hospital. A primeira triagem foi realizada pelos médicos no decurso das consultas. A selecção final dos sujeitos foi feita a partir dos dados obtidos na entrevista e nos processos clínicos. Para que os dois grupos fossem similares em termos da variável nível etário, incluiu-se na amostra do grupo de comparação mulheres em idade não fértil, seleccionadas entre a população que frequenta o Centro Paroquial de Paço d’Arcos. O grupo de estudo é constituído por trinta mulheres com diagnóstico de cancro do útero ou ovário, que fizeram tratamentos oncológicos no Hospital Geral de Santo António. Todas as doentes tinham sido submetidas a cirurgias ginecológicas num período de tempo superior a três meses e inferior a dois anos (M = 11,9 meses; dp = 5,8 meses), tendo sido informadas dos motivos e objectivos desta intervenção. Vinte e nove doentes realizaram uma histerectomia total e uma fez uma anexectomia direita. Em dezanove casos a histerectomia foi associada a uma anexectomia bilateral e em três a uma anexectomia unilateral. Seis doentes fizeram radioterapia, três quimioterapia e a generalidade das doentes com carcinoma do corpo uterino fez hormonoterapia. Um número considerável de mulheres, na altura da entrevista, não apresentava manifestações clínicas específicas da doença e a sintomatologia era menos expressiva nas doentes com sintomas residuais. A maior parte das doentes tinham filhos e eram casadas ou estavam a viver maritalmente, sendo as suas idades compreendidas entre os vinte e quatro e os setenta e quatro anos (M = 51,1 anos e dp = 12,8 anos). Dezasseis exerciam uma actividade profissional fora de casa (com redução do número de horas de trabalho em três casos) e duas no domicílio, seis estavam reformadas, cinco com baixa médica e apenas uma era doméstica. Vinte e sete doentes tinham uma escolaridade igual ou inferior a seis anos e as suas actividades profissionais, de um modo geral, reflectiam um baixo nível de instrução e de formação profissional. Em termos do grupo sócio-profissional e do nível de habilitações literárias, o grupo A caracteriza-se por uma certa homogeneidade, situando-se a maior parte das doentes nos grupos baixo ou médio baixo. No grupo B, a amplitude de idades dos sujeitos, também, é elevada (M = 48,9 anos e dp = 12,6 anos). A maior parte das mulheres eram casadas ou estavam a viver em situação marital e tinham filhos. Dezanove estavam activas profissionalmente, uma estava desempregada, quatro eram reformadas e seis domésticas. A generalidade das mulheres tinha uma escolaridade igual ou inferior a nove anos. Em termos do grupo sócio-profissional e do nível de habilitações literárias, o grupo de comparação caracteriza-se por uma relativa heterogeneidade, com uma maior incidência de sujeitos no grupo médio baixo. A comparação das médias de idades dos dois grupos com recurso ao teste t de student permite concluir que não existem diferenças significativas entre as médias de idades dos dois grupos (t = 0,66; para p < 0,05 e 58 g.l.). Donde, 486 as diferenças de resultados não deverão ser atribuídas ao factor idade. 2.2. Material Neste estudo utilizou-se os seguintes instrumentos: entrevista de pesquisa; questionário demográfico; processos clínicos; Questionário de Avaliação da Qualidade de Vida, F-84 (Ribeiro, 1996); e versão portuguesa do Questionário de Estado de Saúde, SF-36 (Ware & Sherbourne, 1992). Questionário de Estado de Saúde (SF-36) O Questionário de Estado de Saúde, SF-36 («M.O.S. 36-Item Short-Form Health Survey»), foi construído por Ware e Sherbourne (1992) para medir e aprofundar o estudo de conceitos gerais de saúde. Os autores pretenderam desenvolver um instrumento de avaliação da saúde de reduzidas dimensões, que possibilitasse uma colheita e interpretação rápida e simples de dados, mas que simultaneamente reforçasse as qualidades psicométricas de escalas abreviadas de saúde.O SF-36 foi concebido para ser utilizado em diferentes contextos (prática clínica, investigação, estudos da população em geral e avaliações de políticas de saúde) e para ser aplicado a indivíduos a partir dos catorze anos com/ou sem doença. Pode ser auto-administrado ou passado por um entrevistador treinado, no contexto de uma entrevista pessoal ou por telefone. O questionário é constituído por oito sub-escalas, que avaliam as seguintes dimensões de saúde: 1) funcionamento físico; 2) limitações de papéis decorrentes de problemas físicos; 3) funcionamento social; 4) dor corporal; 5) saúde mental; 6) limitações de papéis por problemas emocionais; 7) vitalidade; e 8) percepção geral de saúde. O perfil fornecido por esta medida permite uma avaliação multidimensional dos efeitos da saúde/doença no funcionamento quotidiano do indivíduo e seu bem-estar. Estudos para testar a validade das escalas do SF-36, enquanto medidas de conceitos de saúde física e mental, com utilização de técnicas de análise factorial e critérios clínicos (McHorney, Ware & Raczek, 1993), apoiam a hipótese de uma estrutura bidimensional da escala e indicam que algumas sub- -escalas medem principalmente a componente física da saúde, outras a mental enquanto outras medem ambas as componentes. Os resultados do SF-36 distribuem-se por uma escala de zero a cem, tendo os critérios de cotação dos itens e escalas sido definidos de forma a que um resultado elevado indica um estado de saúde melhor (e vice-versa). Questionário de Avaliação da Qualidade de Vida (F-84) O Questionário de Avaliação da Qualidade de Vida, F-84 (forma 84 itens), foi construído pelo «Grupo Português para o Estudo da Qualidade de Vida em Doenças Crónicas», para medir e estudar aspectos de qualidade de vida de pessoas com diferentes doenças crónicas. A concepção deste instrumento tem como referência o conceito de qualidade de vida adoptado pela Organização Mundial de Saúde, que é definido pelos seguintes pressupostos: a) existe uma entidade abrangente que se denomina qualidade de vida; b) essa entidade pode ser avaliada através de uma medida quantitativa, válida e fiel, aplicável a várias populações; c) qualquer factor que afecte a qualidade de vida influenciará um largo conjunto de componentes, representados na escala. A estrutura do instrumento deverá ser modular, organizada em grandes domínios, cada um dos quais integra diversos componentes, passíveis de variar de cultura para cultura. O instrumento avalia o efeito da saúde e doenças na qualidade de vida e não propriamente doenças, sintomas ou condições específicas, podendo ser utilizado para medir os resultados de intervenções específicas da saúde na qualidade de vida. A medida deverá reflectir a avaliação que o indivíduo faz da sua vida global, que depende da contribuição de múltiplas facetas ou dimensões da sua vida (WHOQOL Group, 1993). O F-84 foi construído tendo como matriz o Questionário de Estado de Saúde, SF-36 (Ware & Sherbourne, 1992). Os itens da versão portuguesa do SF-362foram integrados no F-84 e adi487 2O SF-36 foi traduzido para a língua portuguesa pelo grupo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, coordenado pelo Doutor L. Ferreira, sendo a versão portuguesa desta escala reconhecida pelo Medical Outcome Trust. cionou-se novos itens, de forma a abranger um maior conjunto de doenças e de dimensões de qualidade de vida. O questionário é composto por oitenta e quatro itens, integrados visualmente em quinze áreas. Cada item constitui uma informação com várias possibilidades de resposta, entre as quais o respondente escolhe a que se aplica a si. A generalidade das questões refere-se ao período das últimas quatro semanas. Pode ser auto-administrado ou passado por um entrevistador, no contexto de uma entrevista clínica, e destina-se a diversos grupos etários (a partir dos quinze anos de idade) e a um vasto grupo de doenças crónicas. Os critérios de cotação das respostas foram definidos de forma que um resultado elevado indica um melhor nível de qualidade de vida (e vice-versa). Os resultados distribuem-se por uma escala de zero a cem, sendo o valor médio do F-84: 50,1. 2.3. Procedimento A recolha de dados do grupo A efectuou-se entre os meses de Fevereiro e Junho de 1996, no serviço de ginecologia do Hospital Geral de Santo António, tendo sido utilizado como instrumento de avaliação da qualidade de vida o questionário F-84, que foi passado no contexto de uma entrevista com a pessoa. A colheita de dados pessoais foi feita com base num questionário demográfico preenchido pela doente (ou investigador). Os dados clínicos foram sistematizados numa ficha de registo e obtidos através dos processos clínicos. Posteriormente, procedeu-se à aplicação do SF-36 ao grupo B. Os dados referentes às mulheres do grupo B, em idade fértil, foram colhidos no serviço de ginecologia, tendo a escala sido passada no contexto de uma entrevista pessoal, realizada após a consulta de planeamento familiar. Os dados referentes às mulheres do grupo B, em idade não fértil, foram recolhidos no Centro Paroquial de Paço d’Arcos. O procedimento utilizado na recolha de dados demográficos e administração do questionário foi idêntico ao do grupo A. Contudo, a interacção entrevistado/entrevistador e a condução da entrevista foram modeladas pelas condições e comportamento da pessoa. 3. RESULTADOS Análise descritiva dos resultados do grupo de estudo Nesta análise descritiva dos dados referentes ao grupo A, serão considerados os resultados globais e dos itens do F-84, e os resultados das escalas do SF-36. Os resultados das doentes no F-84 variam entre 28,9 e 91,3; sendo M = 58,1 (amplitude = 62,4, dp = 16,5). Este valor situa-se ligeiramente acima da média do F-84 (M = 50,1). Vinte mulheres (66,7%) obtêm resultados acima da média do F-84, entre as quais quinze (50%) têm resultados que se distribuem no intervalo 50-75 e cinco (16,7%) entre 75-100. As restantes dez (33,3%) têm resultados inferiores à média do F-84, que se situam no intervalo 25-50. Relativamente aos resultados dos itens do F84, sessenta e dois itens (75%) têm pontuações médias que se situam dentro ou acima dos valores médios dos itens do F-84 (54 para o item 1 e 50 para os restantes) e vinte e um itens (25%) estão abaixo destes valores. No Quadro 1 são referidos os itens do F-84 que obtiveram pontuações mais baixas e os respectivos resultados. A última coluna indica a percentagem de sujeitos com resultados abaixo da média nesses itens. Os resultados do grupo de estudo nas escalas do SF-36 oscilam entre 45,6 e 73,3 (ver Gráfico 1), situando-se dentro ou acima dos valores médios das escalas do SF-36 (50,8 para a escala de percepção geral de saúde; 51,5 para a escala de dor corporal e 50,0 para as outras), com excepção do resultado da escala de percepção geral de saúde que é ligeiramente inferior. A pontuação mais elevada regista-se na escala de funcionamento social (M = 73,3 e dp = 30,9). A pontuação mais baixa verifica-se na escala de percepção geral de saúde (M = 45,6 e dp = 20,6), seguida das escalas de vitalidade (M = 52,2 e dp = 24,5), de saúde mental (M = 55,1 e dp = 21,1) e de dor corporal (M = 55,4 e dp = 24,3) que obtiveram valores próximos. Análise de variância Com o objectivo de avaliar os efeitos das variáveis demográficas (idade, escolaridade, estado civil, paridade, situação profissional e profissão/ /ocupação) e clínicas (diagnóstico da doença, ti488 489 QUADRO 1 Itens do F-84 que obtiveram pontuações mais baixas 490 QUADRO 2 Síntese dos resultados das análises de variância referentes às variáveis demográficas e clínicas, para o nível de significância de 5% e v1e v2graus de liberdade po de tratamento cirúrgico, tempo de realização da cirurgia e tratamentos oncológicos complementares) na qualidade de vida do grupo de estudo, utilizou-se a análise de variância (técnica de A. Fisher). Os resultados obtidos nesta prova são apresentados no Quadro 2. Como se pode observar neste quadro, os valores da razão F para as variáveis demográficas e clínicas estudadas não são estatisticamente significativos (p < 0,05). Resultados do grupo de comparação nas escalas do SF-36 Os resultados do grupo de comparação nas escalas do SF-36 oscilam entre 53,3 e 81,8. A pontuação mais elevada regista-se na escala de funcionamento físico (M = 81,8 e dp = 20,1), seguida da escala de funcionamento social que se aproximou desse valor (M = 80 e dp = 25,3). A pontuação mais baixa verifica-se na escala de vitalidade (M = 53,3 e dp = 18,2). Diferenças entre os resultados dos grupos nas escalas do SF-36 Os resultados obtidos pelos grupos nas escalas do SF-36 são resumidos no Gráfico 1. A partir do Gráfico 1 podemos observar que as médias dos dois grupos diferem. Para determinar se existem diferenças significativas entre as médias dos grupos nas escalas do SF-36, foi aplicado o teste t de Student (fórmula t variâncias agrupadas). Adoptando o nível de significância p<0,05 verificamos que o valor de t para a escala de funcionamento físico é estatisticamente significativo (t = 2,30; para 58 g.l). Foram, também, encontradas diferenças significativas na escala de percepção geral de saúde (t = 3,16). Relativamente às escalas de papel-físico (t = 1,52), dor corporal (t = 0,71), vitalidade (t = 0,21), funcionamento social (t = 0,90), papel-emocional (t = 0,21) e saúde mental (t = 1,52) não se regista diferenças significativas entre as médias dos grupos. Antes de se determinar se existem diferenças significativas entre os dois grupos em cada uma das escalas do SF-36, utilizou-se o teste de Student (fórmula t variâncias agrupadas) com o objectivo de testar se os grupos A e B diferem em termos da variável idade. 491 GRÁFICO 1 O eixo horizontal representa as escalas do SF-36 e o eixo vertical os valores médios obtidos em cada uma das escalas. As barras cinzento claro representam os resultados do grupo A e as barras cinzento escuro os resultados do grupo B.