Arte e espacialidade internalizada: estratégias endógenas de sobrevivência
Full text
Arte e espacialidade internalizada: estratégias endógenas de sobrevivência Fernando José Pereira (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto) PEREIRA, Fernando José – Arte e espacialidade internalizada: estratégias endógenas de sobrevivência. Revista Comunicação e Linguagens. Lisboa. ISSN 0870-7081. Nº 34-35, 2005. p. 162-182. 1. Num livro publicado já há alguns anos Giorgio Agamben definia a época presente da seguinte forma: «Já que é claro que o espetáculo é a linguagem, a própria comunicatividade ou o ser linguístico do homem. Isto significa que a análise marxiana deve ser integrada no sentido em que o capitalismo (ou qualquer outro nome que se queira dar ao processo que domina hoje a história mundial) não estava apenas dirigido para a exploração da atividade produtiva, mas também, e sobretudo, para a alienação da própria linguagem, da própria natureza linguística e comunicativa do homem, do logos com que um fragmento de Heradito identifica o Comum. A forma extrema desta expropriação do Comum é o espetáculo, isto é, a política em que vivemos.» (Agamben, 1993) O que Agamben define com clareza é o fenómeno da ultrapassagem efetuada em torno do conceito tradicional de capital desenvolvido pelo marxismo. Ao fazê-lo abre-nos perspetivas para uma análise enriquecida do espaço em que vivemos. Lança-nos algumas pistas no trabalho de definição da amplitude desejada para a sua caracterização. O facto relevante de o autor colocar dentro de uns parêntesis a incógnita que define a contemporaneidade oferece-se como primeira abordagem a uma substituição fundamental: a temporalidade pela espacialidade. Uma nova realidade que se impôs dec1aradamente e em termos de um sistema na condição de totalizante, no sentido de ocupação total. A dificuldade de nomeação desta estrutura aparentemente indizível ou inominável advém do facto de se apresentar aos nossos olhos como um pansistema. Existe, neste caso, uma linha fronteiriça muito frágil entre o que pode ser qualificado como totalidade não representável - que lhe é devida ao facto de ser uma espécie de ente omnipresente, que como tal inibe qualquer possibilidade de oposição externa e, assim, se transforma numa realidade totalizadora, portanto aparentemente invisível - e a sua própria inexistência. Contudo, apesar desta constatação propõe-se, por vezes, uma realidade que por ultrapassada passou a ser encarada de forma anacrónica. Aquela que
reconhece o sistema unicamente como centrado e como tal passível de representação orgânica: para um centro definido existiriam claras margens e limites internos. Ora sabemos que a entidade com que nos defrontamos não possui estas características; pelo contrário, perante um sistema descentrado existe, isso sim, a plena consciência de uma ausência total de margens por óbvia impotência representacional. A nomeação da atual fase de desenvolvimento do período histórico que vivemos como globalizadora - tentativa de resolução do problema de rotular a nossa contemporaneidade, através do recurso a uma representação semântica passível de encontrar um significado para o percurso seguido até agora pelo capitalismo, ou seja, a nomeação provisória do seu atual estádio de desenvolvimento 1 - enquadra-se numa constatação já assimilada (desde Marx) de que o capital tende necessariamente para um limite de mercado global, que é também o seu último momento de crise, já que depara com a impossibilidade de expansão. A sua expansão totalizadora vincula todas as estratégias de compreensão da atualidade a uma posição endógena que é dificultada conceptualmente pela incapacidade de nomeação quantitativa deste estado de saturação do espaço. Na caracterização que realiza do espaço pós-moderno Fredric Jameson referese à sua feição totalizadora como característica de um novo sublime, um tecnosublime. Ora sabemos desde Kant que o sublime se caracteriza fundamentalmente pela incapacidade de julgar e representar o incomensurável 2 , por falta de uma adequação teórica que permita a sua 1 Refere Vaclav Belohradsky sobre esta noção: «La fuerza perturbadora de lo Nuevo que separa el futuro deI pasado y que constituye la esencia de cualquier época moderna, se comprime con frecuencia en una fórmula incendiaria, una abreviatura que domina toda una época. Son los "mitos de una sola palabra" I un término acuii.ado por eI filósofo che· CD Bretislav Horyna para indicar aquellos mitos modernos que no son narrativos, sino eslóganes a los que no se puede hacer frente facilmente, ya que contrariamente a lo que sucedia con los antigos, no es posible introducirse en ellos para reconducirIos de forma subversiva desde dentro. La palabra más agresiva de los mitos de una sola palabra es hoy en día la omnívora palabra "globalización".» (Belohrzdsky, 2002). 2 O incomensurável encontra·se hoje na ausência de capacidades para elaborar uma cartografia do espaço virtual, e como tal na deficiente compreensão que este coloca a todos quantos o querem pensar/utilizar. Mais do que uma apologia embasbacada da tecnologia que a esta situação conduz, o que é necessário entender é a amplitude de todo este novo espaço como mecanismo condutor da presença global do capitalismo tardio. A nova incomensurabilidade é percecionada pela incapacidade de apreender a ilusão de instantaneidade oferecida pelos novos media tecnológicos, gerando uma espécie de passividade e superficialidade unicamente habitada temporalmente por um presente de essência esquizofrénica e perpétuo. As linhas estruturantes deste sistema político integram·se, declaradamente, no novo espaço eletrónico, encontram-se dele dependentes. Aos eloquentes espaços (non sites, teorizados por Smithson ou mais recentemente por Augé) sem identidades, mas fundamentais para as estratégias de comunicação do capitalismo moderno sucedem agora as terminologias metafóricas de «information superhigways; virtual reality and cyberspace», todas elas metáforas de uma necessidade absoluta de controlo (cyber) e de abertura rápida de vasos
concretização, ou seja, encontramo-nos de novo a referir a noção anterior de totalidade. Rosalind Krauss, ao abordar a questão de uma idade pós-medium para a arte contemporânea, contextualiza desta forma o momento atual, servindo-se, para tal, das noções avançadas por Jameson: «Fredric Jarneson characterizes postmodernity as total saturation of cultural space by the image, whether at the hands of advertising, communication media, or cyberspace. This complete image / permeation of social and daily life means, he says, that aesthetic experience is now everywhere, in an expansion of culture that has not only made the notion of an individual work of art wholly problematic, but has a1so emptied out the very concept of aesthetic autonomy.» (Krauss, 2000) Ao colocar a situação atual em termos de asfixia, o que R. Krauss está a postular é um envolvimento da arte contemporânea nas teias da globalidade totalizadora, em termos de uma impotência que, dir-se-ia, é consequência direta da expansão generalizada do mercado à totalidade do quotidiano e consequentemente ao campo do estético agora concomitantemente alargado para territórios anteriormente impensáveis. O que hoje é conhecido como lógica cultural define com clareza os postulados que colocamos. Toda a atividade, anteriormente diversificada, da vida quotidiana foi sendo unificada em torno da sua estetização, entrando em colisão acelerada com a autonomia anteriormente reivindicada pela(s) arte(s) relativamente ao estético. Será necessário referir o caráter premonitório do trabalho, hoje a ser redescoberto, nomeadamente pela investigação efetuada por Rosalind Krauss, bem como Benjamin Buchloh, de um artista como Broodthaers na tentativa de recolocação do artista e da arte frente a esta nova situação de interioridade com as regras anteriormente desconhecidas de um mercado em expansão. Segundo a interpretação proposta pela teórica americana, o trabalho que Broodthaers desenvolveu para a capa do número de 1974 de Studio lnternational é sintomático da afirmação anterior. A capa é preenchida na totalidade com duas linhas que contêm (aparentemente, como veremos) as palavras Fine Arts. Até aqui nada a opor, simplesmente a última letra da primeira palavra, bem como a primeira letra da segunda foram substituídas por duas imagens que se apresentam como signos visuais representativos de outras significações externas. A primeira imagem é a comunicantes (highlways) entre todos os pontos vitais ao desenvolvimento económico neoliberal (reality). Só pelo desenvolvimento tecnológico acelerado se pôde chegar a uma situação de ultrapassagem dos conceitos iniciais de McLuhan. A aldeia global que este teorizava perdeu toda a sua ingenuidade para se transformar numa imensa megalópolis virtual onde tudo depende da aceleração temporal como fator decisivo para a compressão espacial, elemento fulcral de toda a política expansiva do capitalismo tardio.
de uma águia (signo recorrente em toda a obra de Broodthaers 3 ) que na sua versão linguística anglo-saxónica é escrita como eagle, ou seja, a primeira letra e finaliza a palavra fine. Na segunda palavra a imagem refere-se a um burro (o que no contexto da arte não é novidade, também, Duchamp apropriando-se da vox populi dizia, burro como um pintor) que em inglês se escreve ass, mais uma vez e como no anterior caso, aqui a palavra arts é iniciada com o recurso à primeira letra da nomeação da imagem. Parece ser, apesar da provocação assumida, muito mais aprofundada a relação estabelecida por este título com a realidade da arte. Assim, perante a insistência de uma imagem que caracteriza os seus desenvolvimentos teóricos e práticos para o futuro, o que Broodthaers poderia estar a referir seria, então, fin arts, isto é o fim da arte. Não o fim da arte como leitura irremediável e niilista, mas antes um posicionamento lúcido perante uma realidade, então, emergente. O fim de uma arte não contaminada exteriormente e que via aqui os seus últimos instantes de propensão autonómica esvaírem-se na totalidade. Refere, a propósito de Broodthaers, Benjamin Buchloh: «With the canny clairvoyance Df the materialist, Broodthaers anticipated, as early as the mid 1960(s), the complete transformation of artistic production into a branch of the culture industry, a phenomenon which we only now recognize.» (Buchloh, 1987) O que Buchloh defende quando analisa a obra de Broodthaers é muito mais clarificado no texto que produziu para a Artforum e onde contextualiza de forma clara o atual relacionamento da arte com a lógica cultural (ou o que se lhe quiser chamar) que preside aos nossos destinos quotidianos. Uma fusão de interesses entre universos anteriormente diversos como os da vanguarda e da indústria cultural no novo universo unificado da moda. Buchloh avança com duas definições antagónicas para a noção de moda que sintomaticamente se completam na leitura da nova aproximação tipológica ao fenómeno da arte contemporânea e da sua miscigenação com os interesses asfixiantes da política atual. O fenómeno contemporâneo encontra-se em desenvolvimento desde há alguns anos e contempla, acima de tudo, o vazio entretanto criado pela implosão conceptual (e não só) de alguns mitos modernistas. Vazio que se corporiza nas diversas mistificações de fins e de pós com que convivemos. 3 O artista referia-se à águia como «identity of the eagle as idea and of art as idea» numa clara associação de ideias com os então paradigmas da arte conceptual, nomeadamente com Kosuth.
Nomeamos apenas os mais recorrentes como ilustrativos do sintoma generalizado de algo que, pretensamente, se encontra esgotado: «fim da história», «fim da ideologia», «fim da arte», «pós-industrial», «pós-moderno», etc. Simplesmente nunca as coisas são lineares, e aqui também não. Todas as noções pressupõem uma anterioridade incompleta. Por um lado, através do recurso ao prefixo pós e pelo outro um esgotamento ensaiado na utilização da palavra fim. O que se afigura problemático é a convivência entre noções que delimitam claramente o passado na sua asserção mais significativa, isto é, como algo que já aconteceu e que se encontra finalizado e as outras que corporizam o que parece ser apenas o ultrapassar de uma etapa. 2. A articulação dos vários conteúdos postulados conduz sempre à noção de que, de facto, existe uma nova condição com que lidar e essa é regida por um caráter totalizador, como atrás víamos. A questão a ser analisada prende-se com a sua estruturação conceptual. Que instrumentos no campo da pura operatividade são utilizados para que todas as possibilidades de crítica a um sistema tenham sido suprimidas? Se pensarmos que nenhuma das habituais atitudes totalitárias foi utilizada e, pelo contrário, a institucionalização das regras liberais de governo rege-se exatamente pela recusa em constituírem-se como condutores de posicionamentos que levem à corporização totalitária, complexifica-se a questão. No pós-Segunda Guerra Mundial e na sequência do debate ideológico levado a cabo em torno da reconstrução de Europa, a proposta de Friederich von Hayeck de recusa absoluta do Estado intervencionista – por este se caracterizar por uma estrutura socioeconómica que, em sua opinião, conduziria diretamente ao chamado Estado total, com a consequente perda de liberdades para os indivíduos - afirma-se então como motivadora de interesses inovadores. A liberdade individual institui-se na sua teoria como um dos alicerces de toda a estrutura liberal, e através dela a noção contemporânea de menos Estado mais cidadania constitui-se como o culminar de urna ideia que, apesar de tudo, não deve ser entendida de forma ingénua 4 . 4 O ataque cerrado dirigido contra as estruturas estatais de segurança social, por parte dos pensadores neoliberais, com o argumento de que «en terminos de las contradicciones entre el crecimiento de un setor de bien estar "improdutivo" - que no creaba riqueza – y un setor privado "produtivo" - que era eI que creaba toda la riqueza nacional» (Rose,1997) apenas veio determinar a incapacidade de coexistência entre uma socialização das estruturas do Estado e as regras mais duras da sociedade de mercado.
A quantificação exigida pela subordinação da política à economia aí está para retirar todas as aparentes benesses de liberdade ao indivíduo. O fenómeno essencial da civilização criada pelo capitalismo era designado por Max Weber como «espírito de cálculo». O que esta noção significa é que nesta condição os fenómenos só se podem analisar ou relacionar entre si de modo quantitativo. O que se problematiza é a extensão deste processo a todos os valores sociais que por definição não devem ser quantificados, acima de tudo por serem intrinsecamente qualitativos. Contudo, na atualidade parecem corresponder a uma necessidade, aparentemente já ultrapassada. Foi o anunciado fim das grandes narrativas que teoricamente lhes determinou a existência, agora como entes fantasmagóricos. Apesar de não haver urna sistematização clara da relação sobranceira agora atribuída à componente espaço, o que Lyotard nos propõe a propósito de uma ampla explanação sobre o estado do saber nas ciências é uma tentativa de provar a falência das narrativas fundadas na Revolução Francesa. Para Lyotard a chegada de um novo tipo de paradigma social, que ele apelidou de pós-moderno, encontra-se estritamente ligada ao aparecimento de uma sociedade pós-industrial, no sentido em que o conhecimento se teria transformado na principal força de produção, por oposição aos estádios anteriores. De acordo com Perry Anderson, o que definiu a pós-modernidade para este autor foi a conjugação destes fatores que conduziram a um debilitamento e consequente derrube da crença nas grandes narrativas: «Según Lyotard, habían sido destruidas por el desarrollo irunanente de las propias ciencias: por un lado, por una pluralización de los tipos de argumentación, con la proliferación de la paradoja y dei paralogismo, anticipada en filosofia por Nietzsche, Wittgenstein y Levinas; por otro, por la tecníficación de la demostración, en la que los tostosos aparatos dirigidos por el capital o el estado reducian la "verdad" a "performatividad".» (Anderson, 1998) A performatividade a que se refere Lyotard está obviamente ligada ao desenvolvimento das redes telemáticas de informação e estas ao espaço. Se o que estava aqui em julgamento era a própria história como agente temporal gerador de narrativas que tinham falido, haveria, contudo, de ser justificada a permanência de uma «nova», única e poderosa narrativa baseada na liberdade e prosperidade como vitória total do mercado. Lyotard argumenta que o capitalismo enquanto sistema, apesar de se encontrar em todo o lado, como que omnipresente, afirma-se como uma necessidade e não como uma finalidade. Ou seja, apesar de nunca aflorar diretamente a questão do espaço, o que Lyotard propõe é a preponderância de uma realidade espacial por oposição ao
mito moderno de crença no futuro. O que se analisa é não o aparecimento de uma nova realidade, mas, antes, as condições teóricas que levaram ao desaparecimento da condição anteriormente existente. Daí a sua importância. À expansividade espacial resultante desta falência corresponde, em ordem inversa, a contração quase compulsiva do pensamento político moderno. Seja declarada como «gargalhada do espaço» (Nogueira, 1997), depois de todos os historicismos modernos completamente enredados na temporalidade oferecida como objetivo a atingir por grandes narrativas; seja como «lógica cultural» (Jameson, 1991) por absoluta invasão da espacialidade de todas as intervenções da cultura pela cruzada do capitalismo tardio (Mandel, 1972), o que parece certo é a importância assumida pelo espaço no desenvolvimento de estratégias, inclusive artísticas, que se tiveram de transformar para poderem adaptar as suas premissas a novas formas de estar. A ideologia vê-se assim superada por uma nova postura espacializada agora apelidada de pós-ideológica 5 . Após a derrocada ideológica sobra unicamente a expansiva espacialização da sensibilidade. É aqui que a nossa época vai jogar o seu presente. Surge, então, a sensologia. Esta impõe-se pela «pura efectualidade do já sentido» (Perniola, 1993), no seguimento de um processo evolutivo que coloca a nossa contemporaneidade no âmbito da socialização do sentir. A sensologia opera agora a socialização das sensibilidades transformando a nossa época em algo de novo. Uma época essencialmente estética. «Parece que é justamente no plano do sentir que a nossa época exerceu o seu poder. Talvez por isso ela possa ser definida como uma época estética: não por ter uma relação privilegiada e direta com as artes, mas mais essencialmente porque o seu campo estratégico não é o cognitivo, nem o prático, mas o do sentir, o da aisthesis.» (Pemiola, 1993) 5 Slavoj ZiZek em livro recente dedicado ao problema da nova ordem mundial saída do 11 de setembro refere-se com muita exatidão a este problema do adormecimento ideológico. Dá o exemplo inquietante das últimas eleições presidenciais francesas; refere o autor: «As we have seen, in the first round of the French presidential elections on April21 2002, Jean-Marie le Pen, whose anti-Semitism is a constant fator (merely recall his remark that the Holocaust was a minor detail of European history), made it into the second round, emerging as the only altemative to Jacques Chirac - that is, beating Leonel Jospin, so that the line of division is no longer between Right and Left, but between the global field of moderate post-politics and extreme Rightist repoliticization. Is not this shocking outcome an ominous sign of the price we are going to pay for the Pyrrhic victory of post-politics?» (Zi.Zek, 2002).
Colocamos a sensibilidade no campo do já sentido, isto é, algo que só pode ser já repetido, por óbvia ultrapassagem temporal e que naturalmente nos exime da necessidade de construção de uma experiência direta, individual e subjetiva. Todos estes desenvolvimentos convergem no interesse de determinismo por parte de uma superestrutura totalizadora. Os mecanismos da sua disseminação em constante assédio ao sujeito, agora espoliado, serão determinantes para a espacialidade totalizadora do capitalismo tardio. 3. Baudrillard (1972) defendeu que a ideologia não deve continuar a ser entendida como uma relação infrassuperestrutura entre o sistema produtivo e a produção de signos, precisamente porque estas componentes, outrora autónomas, encontram-se hoje claramente fundidas no mesmo processo de «abstração ideológica que é o capitalismo tardio» (Foster, 1985). Esta transferência e consequente socialização da sensibilidade produz efeitos devastadores, ao introduzir uma lógica de «estação», no sentido de que transfigura o real numa metáfora fashion e como tal obedecendo a estratégias temporalmente limitadas e possuidoras de uma forte carga estetizante. A utilização daquilo a que chamaremos «estratégia explosiva» permite uma difusão em larga escala, isto é, a partir de centros difusores e difusos (poder) opera-se o lançamento de fragmentos polidireccionais sempre com direção e sentido definido: o exterior. Como já atrás referimos a atual etapa do capitalismo manifesta uma crise que se corporiza pela introdução de limites totalizadores na sua expansão. Daí que a palavra «exterior» se refira, neste contexto, a uma significação que apelidaríamos de utópica. Pelas razões já expostas de impossibilidade expansiva, por absoluta dominância espacial de todo o possível e passível site de ser ocupado. Apesar de tudo, existe uma polidireccionalidade expansiva que introduz a noção de exterioridade como impossibilidade prática, mas mantém uma relação formal com o conceito. O grupo norte-americano Critical Art Ensemble alerta em texto intitulado «Nomadic Power and Cultural Resistence» para a existência de um poder que apreendeu algumas das estratégias que o levaram da posição de sedentarismo para uma difusão nomádica. O exemplo fornecido de um povo da antiguidade clássica, os Citas, que por não possuírem uma estrutura organizativa sedentária nunca foram colonizados pela potência dominante que era a
Grécia 6 , vem provar que a atual estratégia de poder nómada se posiciona (a realidade aí está para o provar) numa posição privilegiada para a consecução dos seus objetivos. A estratégia explosiva cobre a totalidade do território, transformando e assimilando as possibilidades discordantes. Encontramo-nos, hoje, num mundo em que a lógica do espetáculo se encontra já numa fase post. Toda a crítica se encontra «condenada», pela razão simples de que já não existem lugares passíveis de estar «fora». A velocidade a que se vão alterando e atualizando os conceitos conduz a um efeito de obsolescência rápido. Mesmo aqueles que se apresentavam como profundamente intrincados nas lógicas que tentavam contrariar rapidamente são ultrapassados. Vejamos, por exemplo, a noção de linhas de fuga proposta por Deleuze e Gualtari em Mille plateaux. Ao definirem uma sociedade não tanto pelas suas contradições mas pela existência de linhas de fuga, estão explicitamente a declarar a possibilidade de exterioridade como hipótese. A definição canónica para linhas de fuga prende-se com a existência de um ponto de fuga que corporiza uma limitação externa, isto é, uma tentativa de materializar operativamente o infinito, de acordo com uma significação que direciona para o exterior, por oposição declarada a um qualquer ponto (central ou não) interno. O que se passa na contemporaneidade é que houve uma transformação semântica da estruturação identitária desta noção. A inexistência de exterioridade altera a relação com a operacionalidade do infinito, tornando-o finito e, logo, passível de interioridade. Hoje confrontamonos com linhas de fuga traçadas em todas as direções, mas com sinal contrário, talvez mais corretamente, linhas de expansibilidade em vez de linhas de fuga, isto é, a mesma trajetória, agora utilizada com sinal distintivo. Porque para falar em alternativa ou mais radicalmente em emancipação tem de existir um a priori categórico, a noção de exterioridade. Parece-nos determinante a sua contextualização contemporânea. Ernesto Laclau explica de forma clara os mecanismos necessários à existência de uma situação emancipatória, coligindo vários itens que, segundo ele, se afirmam como necessários à consecução deste objetivo. Entre outros destacamos os seguintes: 6 Refere-se no texto a este propósito: «Sem cidades nem territórios fixos, essa horda errante nunca podia ser verdadeiramente localizada. Por isso mesmo, era impossível fazê-los tomar uma posição defensiva e conquistá-los. Conservaram a sua autonomia através do movimento, dando aos inimigos a impressão de que estavam sempre em toda a parte, preparados para atacar, mesmo quando estavam ausentes. O terror que os Citas inspiravam justificava-se plenamente, uma vez que organizavam frequentes ofensivas militares, embora ninguém soubesse onde, até finalmente eles surgirem ou serem detetados vestígios do seu poder.» (CriticaI Art Ensemble, 1999).
Agamben, Giorgio 1993 A Comunidade que Vem, Lisboa, Editorial Presença, 1995. 1996 Bartleby OH la création, Paris, Circé. Andersen, Perry 1998 Los Origines de la Posmodernidad, Barcelona, Anagrama, 2000. Baudrillard, Jean 1972 Para uma Crítica da Economia Política do Signo, Lisboa, Edições 70, 1995. Belohradsky, VácIav 2002 «Globalización: Toda la Basura en una Sola Palabra», in Brumaria: Práticas Artísticas, Estéticas y Políticas, nº 1, Madrid. Buchloh, Benjamin H. D. 1987 «Introductory Note [to the Special Broodthaers Issue]», Oclober, nº 42, Cambridge (Mass.), MIT Press. Castro Nogueira, Luis 1997 La Risa dei Espacio, elImaginario Espacio-Temporal en la Cultura Contemporánea: Una Reflexión Sociológica, Madrid, Tecnos. Critical Art Ensemble 1993 «Poder Nómada e Resistência Cultural», in Acesso Interdito, Porto, Museu de Serralves,1999. Fernandes, João 2002 «Born to be Famous: A Condição do Jovem Artista entre o Sucesso Pop e as ilusões Perdidas», in Jürgen Bock (org.), Da Obra ao Texto: Diálogos sobre a Prática e a Crítica na Arte Contemporânea, Lisboa. Foster, Hal 1985 Recodings, Art, Spectac1e, Cultural Pofitics, Seattle, Bay Press. 2002 Design and Crime (and another Diatribes), Londres, Verso. Jameson, Fredric 1991 Teoria de la Postmodernidad, Madrid, Editorial Trotta, 1996. Krauss, Rosalind 2000 A Voyage on the North Sea: Art in the Age of the Post-Medium Condition, Nova Iorque, Thames & Hudson. Laclau, Ernesto 1996 Emancipation(s), Londres, Verso. MandeI, Emest 1972 Late Capitalism, Londres, Verso, 1999. Manovich, Lev 2002 «Não lhe chamem Arte: Ars Electronica 2003», Vetor, n.o B.07, http: //www.virose.pt!vectorlb_07/manovieh.html. PernioIa, Mario 1990 Do Sentir, Lisboa, Editorial Presença, 1993. Petit, Santiago Lopez 1996 Horror Vacui, La Travesía de la Noche dei Siglo, Madrid, Siglo Veintiuno de Espana Editores.
Rose, Nikolas 1997 «El Gobiemo en las Democracias Liberales "Avanzadas": Dei Liberalismo ai Neoliberalismo», Archipiélago, nº 29 («La Epidemia Neoliberal»), Barcelona, Editorial Archipiélago. Stallabrass, Julian 2002 «O Destino da Young British Art, in Jürgen Bock (org.), Da Obra ao Texto: Diálogos sobre a Prática e a Crítica na Arte Contemporânea, Lisboa. Wall, Thomas Carl 1999 Radical Passivity: Lévinas, Blanchot, and Agamben, Nova Iorque, State University of New York Press. ZiZek, Slavaj 1998 Welcome to the Desert of the Real, Londres, Verso.