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O sonho colonial do III Reich: A influência nacional-socialista na América Latina

Santos, Cátia Alexandra Matos dos

Abstract

Os conceitos de imperialismo e colonialismo provocaram uma reformulação do tema colonização em todas as áreas. Neste sentido, é importante distinguir que os métodos usados no “colonialismo” não são os mesmos que se verificam no “imperialismo”, apesar de estes serem, de alguma forma, afins. Como refere Young, se por um lado a colonização apresenta-se de modo mais pragmático e desenvolve-se de um modo localizado e desordenado, o imperialismo, era fortemente baseada na ideologia e na implementação por parte de um centro metropolitano que ambicionava a sua afirmação e expansão. Seguindo esta abordagem, a presente dissertação centra-se na relação entre a Alemanha e a América Latina, nomeadamente no período da Alemanha Nacional-Socialista, procurando verificar se existe uma tentativa colonialista por parte da Alemanha nos países latino-americanos. O trabalho de investigação debruça-se sobre três áreas que auxiliaram na compreensão da temática em questão: a posição da Alemanha em relação ao colonialismo; as relações histórico-culturais entre a Alemanha e a América Latina; e a influência do sistema educacional alemão naos países latino-americanos. Tentando, deste modo, compreender se as posições que foram assumidas pela Alemanha em relação aos países da América Latina eram sinais de uma tentativa de colonizar estes países. A investigação permitiu concluir que esta aproximação alemã ao continente sul-americano se mostrou bastante ambígua uma vez que, ao mesmo tempo que procurava colonizar os países em questão, esse processo não se assemelhava ao usado noutros casos como era o caso dos países da Europa de Leste. No entanto, a justificação de que esta aproximação era o mote para a conquista de aliados extrarregionais parece não ser totalmente clara. Em suma, a investigação conclui, que a relação Alemanha/ América Latina é híbrida e que este tema não se esgota, deixando espaço para futuras investigações sobre o mesmo.

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O Sonho Colonial do III Reich: A Influência Nacional-Socialista na América Latina Cátia Alexandra Matos dos Santos Dissertação de Mestrado em Literaturas e Culturas Modernas Especialização em Estudos Alemães (Versão corrigida e melhorada após defesa pública) Setembro, 2018 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Literaturas e Culturas Modernas, especialização em Estudos Alemães, realizada sob a orientação científica do Professor Doutor Fernando Clara. AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer em primeiro lugar ao Professor Doutor Fernando Clara por ter despertado o meu interesse neste tema e por ter aceitado orientar-me nesta investigação, demonstrando sempre a maior disponibilidade para me ajudar e guiar neste processo. Ao meu namorado, Tiago por todas as pequenas orientações que me deu com base na sua própria experiência e por me ter apoiado durante todo o processo com toda a paciência e carinho, até mesmo durante grandes crises existenciais. Aos meus pais por simplesmente nunca me terem pressionado a nada em relação às minhas escolhas académicas, por sempre mostrarem preocupação com o meu progresso e me ouvirem falar, por vezes incessantemente, de temas que nem sempre entendem, mas que sabem que são importantes para mim. Por fim, mas não menos importantes, aos meus amigos e colegas que conheci nesta instituição por partilharem esta experiência comigo desde o primeiro dia, por todo o apoio, ajuda e troca de ideias sobre este trabalho e muito mais. RESUMO Os conceitos de imperialismo e colonialismo provocaram uma reformulação do tema colonização em todas as áreas. Neste sentido, é importante distinguir que os métodos usados no “colonialismo” não são os mesmos que se verificam no “imperialismo”, apesar de estes serem, de alguma forma, afins. Como refere Young, se por um lado a colonização apresenta-se de modo mais pragmático e desenvolve-se de um modo localizado e desordenado, o imperialismo, era fortemente baseada na ideologia e na implementação por parte de um centro metropolitano que ambicionava a sua afirmação e expansão. Seguindo esta abordagem, a presente dissertação centra-se na relação entre a Alemanha e a América Latina, nomeadamente no período da Alemanha NacionalSocialista, procurando verificar se existe uma tentativa colonialista por parte da Alemanha nos países latino-americanos. O trabalho de investigação debruça-se sobre três áreas que auxiliaram na compreensão da temática em questão: a posição da Alemanha em relação ao colonialismo; as relações histórico-culturais entre a Alemanha e a América Latina; e a influência do sistema educacional alemão naos países latino-americanos. Tentando, deste modo, compreender se as posições que foram assumidas pela Alemanha em relação aos países da América Latina eram sinais de uma tentativa de colonizar estes países. A investigação permitiu concluir que esta aproximação alemã ao continente sulamericano se mostrou bastante ambígua uma vez que, ao mesmo tempo que procurava colonizar os países em questão, esse processo não se assemelhava ao usado noutros casos como era o caso dos países da Europa de Leste. No entanto, a justificação de que esta aproximação era o mote para a conquista de aliados extrarregionais parece não ser totalmente clara. Em suma, a investigação conclui, que a relação Alemanha/ América Latina é híbrida e que este tema não se esgota, deixando espaço para futuras investigações sobre o mesmo. PALAVRAS-CHAVE: Alemanha; Estudos Alemães; Cultura Alemã; Pós-Colonialismo; Colonização; América Latina; Império; Terceiro Reich ABSTRACT The concepts of imperialism and colonialism brought a reformulation of the theme colonization in all areas. Thus, it is important to distinguish that, though related, the methods used by “colonialism”, and “imperialism” are different. As Young refers, colonization presents itself in a pragmatic way and develops in a local and disordered way. On the other hand, imperialism has its basis in ideological principles and its implemented by a metropolitan center whose ambition is to affirm and expand itself. Hence, the investigation focuses on the relationship between Germany and Latin America, especially during the National-Socialist government. Attempting to substantiate a possible colonialist attempt from Germany towards Latin America. Thus, the investigation focuses on three areas that aid to the comprehension of the topic presented: the German stance on colonialism; the historical-cultural relationship between Germany and Latin America; and the influence of the German educational system in Latin America. So, it tries to understand if the position assumed by Germany on the Latin-American countries, were indicators of a pursue to colonize these countries. The investigation concludes that the German proximity to the South American continent was ambiguous. Whilst, Germany looked eager to colonize these countries, their practices did not resemble the ones used in East Europe. Also, the idea that such proximity was a strategy to gain foreign allies was not clear. Altogether, the investigation concludes the existence of a hybrid relationship between Germany and Latin America, which leaves room for further investigation on this topic. KEYWORDS: Germany, German Studies; German Culture; Post-Colonialism; Colonization; Latin America, Empire; Third Reich ÍNDICE Introdução ...................................................................................................................................... 1 1. Os Conceitos ............................................................................................................................... 6 1.1. Colónia ............................................................................................................................... 7 1.2. Colonialismo vs. Imperialismo .......................................................................................... 8 1.3. Neocolonialismo .............................................................................................................. 20 2. O Sonho Colonial Alemão ....................................................................................................... 26 2.1. Fantasias coloniais e aquisição de colónias (1770-1884) .............................................. 27 2.2. O revisionismo colonial na República de Weimar ........................................................ 34 2.3. O revisionismo nacional-socialista ................................................................................ 41 3. As Relações Germano-Latino-Americanas ........................................................................... 48 3.1 Primeiros Contactos ........................................................................................................ 49 3.2. Século XIX .................................................................................................................... 51 3.3. I Guerra Mundial e a República de Weimar .................................................................. 58 2.4. Era Nacional-Socialista ................................................................................................. 61 4. As Escolas Alemãs na América Latina .................................................................................. 73 4.1. Die Auslanschulen antes de Hitler ................................................................................. 74 4.2. As escolas durante o regime nazi .................................................................................. 78 4.2.1. NSLB ..................................................................................................................... 81 4.2.2. Currículo escolar..................................................................................................... 84 4.2.3. Símbolos e festividades .......................................................................................... 89 4.2.3 Grupos estudantis ................................................................................................... 90 4.3. Encerramento de instituições .......................................................................................... 92 Conclusões .................................................................................................................................... 95 Bibliografia ................................................................................................................................. 100 1 Introdução A presente investigação debruçar-se-á sobre o modo como a expansão cultural e científica do governo nacional-socialista, correspondente ao período entre a ascensão de Adolf Hitler e o fim da Segunda Guerra Mundial (1933-1945), poderá ter influenciado os países da América Latina. Ao longo do período apresentado existem indícios de que a infiltração alemã nestes países, resultou num processo de colonização passiva. O tema considera-se relevante uma vez que a literatura existente se encontra num debate inconclusivo sobre este ponto. Deste modo, a investigação tentará esclarecer este processo e compreender se este pode ser considerado um caso de colonização. No século XIX, a desproporção do crescimento populacional em relação à oferta de alimentos e oportunidades de trabalho no território alemão pressionava cada vez mais a população. Consequentemente, surgem ondas de emigração em massa, que superam todos os movimentos migratórios até à data, quer em extensão, quer em alcance. Cerca de seis milhões de pessoas deixam o país entre o século XIX e meados do século XX, espalhando-se por mais de 83 países. Destes 83 países a América Latina mereceu especial destaque pelo seu historial pacifista, pelas suas potencialidades agrícolas e recursos naturais dos quais a Alemanha se via privada após a perda das suas colónias africanas com o Tratado de Versalhes. A influência alemã na região fez-se notar através dos interesses privados das classes mercantis, no decorrer do século XIX, após as inúmeras vagas migratórias. Criase, assim, uma base sólida de respeito e aceitação da cultura alemã. Base esta permanece apesar do impacto da Primeira Guerra Mundial e do clima de desconfiança que se enfrenta a nível internacional. Com a subida ao poder de Adolf Hitler em 1933, os emigrantes (die Auslanddeutsche) ganhariam grande relevância enquanto precursores da cultura alemã no estrangeiro, assim como dos ideais nacionais-socialistas. Medidas de apoio aos alemães no exterior são suportadas pelo Estado, e cada vez mais se cultiva a protecção da Germanidade (das Deutschtum). A investigação apresentará a expansão cultural e científica por parte do governo de Hitler, tentando responder à seguinte pergunta de investigação: de que modo os esforços de expansão cultural e científica do governo nacional-socialista nos países latino-americanos podem ser considerados como fazendo parte de um projecto colonial? Assim, proceder-se-á a uma abordagem compreensiva, em conjunto com uma 2 descrição histórico-cultural, para que seja possível analisar os vários métodos que possam providenciar uma resposta à pergunta apresentada. Consequentemente, são apresentadas duas hipóteses: Hipótese 1: o fenómeno observado através da expansão cultural e científica do governo nacional-socialista na América Latina tenta emular o movimento de expansão e colonização recorrente durante o período de guerra nos países da Europa de Leste; Hipótese 2: essa expansão seria uma tentativa de angariação de aliados extrarregionais. O desenvolvimento da dissertação baseia-se assim em dois pontos fundamentais. Numa primeira fase, tenta-se entender a posição alemã face ao colonialismo de forma geral e como isso afectou o povo alemão, as suas visões sobre o mundo e a sua própria noção de nacionalidade. Consequentemente, procura-se entender também a relação da nação alemã com as suas colónias em África, que apesar de não contarem com a durabilidade de outros impérios europeus, foram de extrema importância para o país, especialmente, devido ao longo tempo de espera para entrar no sistema colonial. Será igualmente importante analisar a perda destas colónias com o Tratado de Versalhes (1919), e como esta afectou o orgulho e pretensões coloniais alemães, bem como as investidas por parte de diversos indivíduos e organizações para a recuperação das mesmas. Numa segunda fase, é analisada a relação da Alemanha com os países da América do Sul, com maior incidência entre os séculos XVII e XX, para entender as visões e opiniões alemãs sobre o sub-continente e a sua população e, até que ponto, este poderia ser considerado um dos seus desejos para iniciar um processo colonialístico. Desta forma, todas as interacções, comerciais, culturais e diplomáticas são importantes para entender qual o nível de relacionamento existente entre as várias nações e a Alemanha e como estas podem, ou não, se desenvolver para uma possível colonização. Neste sentido, a investigação encontra-se dividida em quatro capítulos. O capítulo 1 centra-se na compreensão da teoria por detrás dos movimentos coloniais e como estes podem ser identificados ao longo dos séculos. Para este efeito, foram analisadas fontes de diversos períodos históricos, que nos permitem verificar a mutação de termos como colonialismo e imperialismo, e a consequente criação de sub-categorias para agregar todos os formatos de expansão registados. Numa primeira fase é analisado o termo “colónia” e como este pode ser mutável, e se repartir em sub-categorias com características próprias. De seguida, são comparados os termos colonialismo e 3 imperialismo, de forma a entender as suas semelhanças, como também as suas diferenças e como podemos aplicar cada um de forma mais correcta. Por último, será analisado o termo “neocolonialismo”, como este se metamorfoseou com base nos dois acima referidos e como este se aplica numa era moderna, onde o colonialismo aparenta desaparecer aos poucos. Assim, tendo em consideração as variantes apresentadas, poderá ser possível analisar o comportamento alemão face aos países latino-americanos e verificar em que categoria este se poderia inserir. O capítulo 2, dedica-se à análise da posição alemã durante o período de descoberta e conquista realizadas pelos restantes países europeus. Numa primeira fase, serão analisadas as fantasias coloniais alemãs, as suas visões sobre as novas descobertas que chegam à Europa e sobre o novo mundo. É dado destaque à forma como estes se viam enquanto futuros colonizadores e à análise que estes fazem sobre o trabalho desenvolvido pelas restantes potências coloniais. Igualmente referidas são as inúmeras pesquisas científicas por parte de cientistas e entidades alemãs e como estes trabalham esta informação, de forma a entender como avaliam o novo mundo e que formas de exploração lhes parecem apropriadas para o sucesso colonial. De seguida, são brevemente abordadas as colónias alemãs em África, conseguidas após a Conferência de Berlim em 1884, e qual o sentimento que estas vieram trazer no seio da sociedade alemã. Numa segunda fase, é demonstrado o movimento revisionista colonial alemão após a perda das suas colónias com o Tratado de Versalhes, analisando as atitudes e opinião pública que as condições de paz provocaram na população e quais as suas abordagens utilizadas para manter vivo o colonialismo alemão. Por último, é trabalhada a evolução deste revisionismo até à tomada de posse de Adolf Hitler em 1933 e como este mudou após a mesma, tendo em consideração os mesmos pontos já anteriormente referidos. O capítulo 3, explora as relações entre Alemanha e a América Latina. Como primeiro ponto, são referidos os primeiros contactos entre si durante os anos de descoberta e exploração colonial (séculos XV e XVII) de forma a compreender de que forma ambas as partes se vêm e como estas primeiras impressões podem influenciar em contactos futuros. Num segundo ponto de trabalho, são analisadas as grandes migrações germânicas para os países do Sul da América e como estes se adaptaram no seu novo ambiente, bem como a criação das primeiras escolas germânicas e a importância das relações comerciais que se vêm a estabelecer entre os continentes. O terceiro ponto reflecte sobre os efeitos da Primeira Guerra Mundial nos relacionamentos já fortificados 10 Nem o imperialismo, nem o colonialismo são um simples acto de acumulação e aquisição. Para Said, ambos são apoiados e até impelidos por formações ideológicas que afirmam que certos territórios e pessoas exigem e suplicam a dominação e apresentam características, que se podem ligar a uma predisposição à dominação: o vocabulário da cultura imperial clássica do século XIX é abundante em palavras e conceitos como: inferior ou sujeito dominador, povos subordinados, dependência, expansão e autoridade (Said, 1994: 9). Na expansão dos grandes impérios ocidentais, o lucro ou a esperança do mesmo foi tremendamente importante, através de matérias como especiarias, açúcar, borracha, algodão, ópio, estanho, ouro e prata, que foram motivo de grande interesse ao longo dos séculos. No entanto, existia um compromisso que ultrapassa a vontade de obtenção de lucros, um compromisso em constante circulação e recirculação, que, por um lado, permitia que homens e mulheres aceitassem a noção de que territórios distantes e os seus nativos deveriam ser subjugados. Por outro reabasteceu as energias metropolitanas para que estes pudessem pensar no império como uma obrigação prolongada, quase metafísica, de governar povos subordinados, inferiores e menos avançados (Ibidem). Na escrita pós-colonial é frequente o agrupamento dos termos colonialismo, e imperialismo, como se de sinónimos se tratassem. No entanto, o uso do termo póscolonial em vez de pós-imperial sugere que uma distinção de facto existe entre os dois. Esta tendência totalizante é tão evidente que o colonialismo e o imperialismo são tratados como se fossem práticas homogéneas. Embora muita ênfase seja dada às particularidades das diferentes culturas colonizadas, isso tende a ser acompanhado de um trabalho histórico relativamente pequeno sobre a diversidade do colonialismo (Young, 2001:15). O que é colonialismo? Como se pode definir o termo independentemente da colónia? Fala-se, geralmente, de "dominação por um povo de outra cultura". Osterhammel introduz esta formulação contendo dois elementos cruciais: dominação e estranhamento cultural. Porém nem todo o domínio de estranhos na história tem sido considerado pelos súbditos como ilegítimo. A fim de distinguir nitidamente a peculiaridade histórica do colonialismo moderno, este deve ser complementado por três componentes: em primeiro lugar, o colonialismo não é uma relação arbitrária de senhores e servos, mas uma sociedade privada do seu desenvolvimento histórico interno, controlada por outros, e revertida às necessidades e interesses, principalmente económicos, dos governantes coloniais. Em segundo lugar, o colonialismo moderno 11 baseia-se no desejo de fazer as sociedades periféricas servirem as metrópoles. E por último, com base no ponto anterior, o colonialismo não é apenas uma relação de dominação que pode ser estruturalmente descrita, mas, ao mesmo tempo, uma interpretação especial dessa relação. O seu núcleo é uma atitude específica de consciência, é uma formação ideológica (Osterhammel, 1995: 18). Desde os primórdios coloniais, a expansão europeia foi estilizada para cumprir uma missão universal, como uma contribuição para um plano divino de salvação da missão cristã, como um mandato secular de civilizar os "bárbaros" ou "selvagens” tidos como privilegiados face ao fardo suportado pelos colonizadores. Foi constantemente baseada na convicção de uma superioridade cultural. Culturas tradicionais compartilham o seu exemplo de civilização e qualidade insuperável, mas sem impor isso aos seus vizinhos. Somente no colonialismo moderno tal arrogância etnocêntrica tomou um rumo agressivo e expansionista (Ibidem). Osterhammel define ainda: Kolonialismus ist eine Herrschaftsbeziehung zwischen Kollektiven, bei welcher die fundamentalen Entscheidungen über die Lebensführung der Kolonisierten durch eine kulturell andersartige und kaum anpassungswillige Minderheit von Kolonialherren unter vorrangiger Berücksichtigung externer Interessen getroffen und tatsächlich durchgesetzt werden. Damit verbinden sich in der Neuzeit in der Regel sendungsideologische Rechtfertigungsdoktrinen, die auf der Überzeugung der Kolonialherren von ihrer eigenen kulturellen Höherwertigkeit beruhen. (Osterhammel, 1995: 21) Outras definições tradicionais enfatizam três coisas: uma relação territorialmente indeterminada de dominação que distingue o colonialismo do conceito mais amplo de imperialismo e inclui formas de controlo informal sem reivindicações de controlo territorial; a norma europeia que se caracteriza pela organização social díspar entre sociedades colonizadoras e colonizadas; e a ideia de que ambas as sociedades estão separadas por diferentes níveis de desenvolvimento. No entanto, a busca por uma definição precisa e universalmente válida não deveria obscurecer o facto de que a realidade colonial era altamente complexa e heterogénea. O colonialismo moderno, desde o século XV, passou por diferentes fases e produziu uma tremenda variedade de manifestações. Os impérios marítimos 12 portugueses e holandeses dos séculos XVI e XVII, que se baseavam no controlo de bases comerciais individuais, eram categoricamente diferentes das colónias britânicas no Canadá e na Austrália ou do domínio burocrático do Japão na Coreia. As condições climáticas e geográficas, as estruturas das sociedades indígenas, os mecanismos de integração económica, as aspirações dos colonizadores e as respostas das sociedades locais eram muitas vezes tão diferentes, que seria necessário falar de “colonialismos”. Em vista dessa grande heterogeneidade, as definições são sempre provisórias. Isso fica claro, por exemplo, se forem observadas mais de perto duas formas comuns de classificação: distância geográfica e dominação territorial (Öztürk, 2012). Desde a segunda metade do século XIX, as relações coloniais têm sido parte integrante da ordem internacional. É importante, no entanto, perceber que o colonialismo foi um fenómeno abrangente cujo significado se estendeu para lá do conceito de dominação. As diferentes formas de intercâmbio transfronteiriço eram coloniais, a economia mundial baseava-se na inclusão assimétrica de matérias-primas, trabalho e interesses de compra de sociedades não-europeias (Ibidem). Colonialismo, ainda nas palavras de Öztürk, seria a legitimidade legal e ideológica desta ordem mundial. A ordem cultural do mundo, incluindo as exposições mundiais, a actividade missionária, mas também as ideias de modernização e desenvolvimento foram também conotadas como coloniais. Os historiadores teriam de demostrar a ligação entre o colonialismo e o início da história da globalização. Especialmente no caso do Império Britânico, através de hegemonia política, cabos telegráficos, posição dominante nos mercados financeiros, superioridade da marinha e ideologia do livre comércio, pela qual ocorreram muitos processos de intercâmbio transfronteiriço (Ibidem). Analisando uma visão mais moderna e objectiva apresentada por Young (2001), a colonização era pragmática e, até ao século XIX, desenvolvia-se de forma geral num âmbito local e de maneira desordenada, como a ocupação das ilhas das Índias Ocidentais, enquanto que, o imperialismo era tipicamente movido pela ideologia do centro metropolitano e preocupado com a afirmação e expansão do poder estatal, como é o caso da invasão francesa na Argélia. O colonialismo funcionava como uma actividade na periferia, impulsionada economicamente e que, do ponto de vista do governo de origem, era por vezes difícil de controlar. O imperialismo, por outro lado, operava a partir do centro como uma política de Estado, impulsionada por grandiosos 13 projectos de poder. Assim, enquanto que o imperialismo é susceptível a uma análise enquanto conceito, o colonialismo necessita de ser analisado como uma prática. O último apresenta um extraordinário leque de diferentes formatos e práticas, levadas a cabo em culturas radicalmente diferentes, ao longo de séculos muito diferentes. Esta extraordinária diversidade, tanto histórica quanto geográfica, mesmo dentro de uma única potência colonial, dificulta a possibilidade de qualquer teoria generalizada (Young, 2001: 16-17). A teoria pós-colonial é predominantemente baseada no trabalho de Frantz Fanon, autor que desenvolveu uma análise do colonialismo através de um conceito limitado e único, seguindo Sartre. Ambos descreviam o colonialismo francês, que se demonstra, deveras, sistemático. O colonialismo britânico, por outro lado, nunca o foi. Era tão excêntrico e idiossincrático quanto qualquer outra instituição britânica, tão heterogéneo quanto a sua constituição. De modo geral, é possível afirmar que o que ocorre na teoria pós-colonial é o uso de uma base teórica derivada, em grande parte, de uma teoria anticolonial francesa (Ibidem). Colonização, segundo Young, não significava o domínio sobre os povos indígenas, ou a extração das suas riquezas, mas sim a transferência de comunidades com o objectivo de manterem a sua cultura original, enquanto procuravam uma vida melhor quer por motivos religiosos ou políticos. Por outro lado, colonialismo tem como objectivo principal a fixação noutros locais e não governar outros. Embora na maioria dos casos também envolver governação, esta era uma consequência do processo de estabelecimento nestes novos espaços e não o objectivo primordial destas comunidades. É possível ainda definir-se uma colónia como uma terra sem povos indígenas cujos habitantes olhavam para outro estado como a sua pátria mãe. Posteriormente, os colonizadores procuraram manter uma distinção entre eles e os nativos, em vez de se integrarem com a população local como geralmente ocorria com a colonização precoce dos portugueses e dos espanhóis, uma colonização desenvolvida numa sociedade mista e crioula. A colonização não se preocupava principalmente com a transposição de valores culturais. Estes vieram como uma consequência dos seus reais objetivos de comércio, exploração económica e criação de comunidades populacionais (Young, 2001: 20). Vários historiadores afirmam que a era áurea do imperialismo se iniciou no final da década de 1870. Em 1899, quaisquer diferenças entre o que hoje é caracterizado 14 como colonialismo e imperialismo tornaram-se menos evidentes; o primeiro parecia terse tornado a prática do segundo. O objectivo do imperialismo era redimir o saque do colonialismo precisamente no momento em que foi estendido a um sistema político mundial hegemónico. O realmente envolvia, no entanto, era mais difícil de dizer. Historicamente, o significado da palavra “imperialismo” também é difícil de definir, e muitos afirmam que a palavra sofreu alterações de significado múltiplas vezes, fazendo com que alguns historiadores não usem o termo de modo algum (Young, 2001: 25). Frederick Cooper afirma, no entanto, que é possível estabelecer uma descrição familiar do império, se não mesmo uma definição precisa: uma unidade política de grande dimensão, expansionista ou com memórias de um passado expansionista, e que reproduza uma diferenciação e desigualdade entre as pessoas que nela se incorporam. A institucionalização da “diferença” é importante para constituir um império. O Império poderia ser uma fase de um sistema político, pois se a incorporação deixasse de implicar diferenciação, poderia resultar numa política relativamente homogénea que se torna mais nacional e menos imperial, como resultado de táticas extremamente brutais de assimilação coagida ou extermínio, ou possivelmente um processo mais gradual de mistura. Nos impérios, o poder não é necessariamente coerente com uma colectividade central ou um povo, pois todos os membros da comunidade política podem ser subordinados, num grau maior ou menor, a um monarca, ditador, oligarquia ou linhagem. Um império-estado é uma estrutura que reproduz distinções entre coletividades enquanto as subordina à autoridade governante (Cooper, 2005: 27). Ao contrário do colonialismo, o imperialismo é impulsionado por ideologia e teoria, em alguns casos até na medida em que pode operar tanto contra como a favor de interesses puramente económicos. Porquanto, a exploração de território e a criação de colónias foram estabelecidas de acordo com as necessidades pragmáticas e, geralmente, de acordo com os interesses económicos dos colonizadores, tornando o imperialismo numa forma ineficiente de exploração económica (Young, 2001: 27). As palavras império, imperial e imperialismo têm diferentes histórias e diferentes ressonâncias políticas. Os espanhóis foram pioneiros do colonialismo como hoje o conhecemos, com um projecto imperial de conquista de grande parte do continente americano por meio de exércitos. Isso, no entanto, era uma forma pré-capitalista e altamente burocrática de governo imperial que inicialmente operava com base no modelo romano e otomano de taxação directa dos povos que viviam na terra ocupada, administrada por meio de uma combinação de controlo militar e político (Ibidem). 15 O imperialismo é caracterizado pelo exercício do poder através de conquista directa ou através de influências políticas e económicas que efetivamente equivalem a uma forma similar de dominação, envolvendo, em ambos, a prática do poder através de instituições e ideologias facilitadoras. Tipicamente, este é produto deliberado de uma máquina política que governa do centro e estende o seu controlo até os confins mais distantes das periferias. Simultaneamente, era uma ideologia contraditória por se ver, em tempos modernos, caracterizada como produto do gentlemanly capitalism 2 . O problema, no entanto, sempre foi que os senhores não eram capitalistas e os capitalistas não eram senhores. Essa fraqueza inerente, dentro do imperialismo europeu foi uma das principais razões para o seu fim abruto e os problemas que deixou para trás (Young, 2001: 28). O imperialismo, como já sugerido, operou muitas vezes retrospectivamente para dar um significado cultural à prática histórica do colonialismo. Isso significava que existia uma completa continuidade histórica entre o imperialismo, tal como se desenvolveu no século XIX, e a história do colonialismo. Para aqueles que já eram sujeitos coloniais, o imperialismo trouxe poucas diferenças à sua experiência quotidiana, para além de uma formalização da administração, e uma separação maior entre governante e governado, um culto visivelmente maior da masculinidade no governante e uma proliferação correspondente da monumentalidade colonial (Ibidem). O imperialismo é um termo híbrido, multifacetado, que cobre uma ampla gama de relações de domínio e dependência que podem ser caracterizadas de acordo com diferenças históricas, teóricas ou organizacionais. A palavra é utilizada em dois significados predominantes: originalmente constituía a descrição de um sistema político de conquista e ocupação reais, mas desde o início do século XX passou a ser usada cada vez mais no seu sentido marxista de um sistema geral de dominação económica, sendo a dominação política directa um adjunto possível, mas não necessário. Este foi um produto dirigido à política de poder global. A crescente rivalidade e militarização das principais potências coloniais europeias, junto com a entrada tardia dos EUA, Alemanha e Japão como potências imperiais; um maior requisito para operar a administração das colónias como saída para manufacturas industriais e como fonte de matérias-primas; uma nova tendência para os próprios governos se apropriarem das 2 Teoria apresentada em 1980 pelos historiadores Peter J. Cain e A.G. Hopkins que afirma que o desenvolvimento do império britânico foi impulsionado pelos interesses comerciais e fundiários da sua elite financeira e social (Gentlemen) concentrada em Londres. 16 colónias, com a probabilidade de virem a ser úteis mais tarde e entretanto, para evitar que qualquer outro poder as adquira; tudo justificado por uma tradução do zelo missionário do cristianismo numa missão para submeter o resto do mundo à modernidade da civilização ocidental, colocando convenientemente todas as nações ao alcance do capitalismo ocidental no processo. Todos esses fatores contribuíram para uma sistematização da estrutura colonial na ideologia dominante do imperialismo (Young, 2001: 28). O termo imperialismo originalmente denotava uma ideologia política baseada no império romano sendo, subsequentemente, utilizado para descrever inúmeras fases da história colonial europeia. Com o passar do tempo, implicava também uma política de busca de prestígio nacional através da conquista e expansão territorial no exterior. Se o imperialismo, argumenta Young (2001), no seu formato do século XIX, era essencialmente uma invenção francesa, logo foi imitado pelas outras potências coloniais, cada vez mais atraídas para um sistema global económico e político competitivo. Não obstante a justificação ideológica da missão civilizacional, o verdadeiro objectivo do sistema imperial do século XIX era combinar a provisão de estabilidade política e económica doméstica com a produção de prestígio nacional e mercados fechados na arena internacional, por meio de conquista (Ibidem: 29). Para Said o termo imperialismo significa a prática, a teoria e as atitudes de um centro metropolitano que domina um território distante; colonialismo, quase sempre uma consequência do imperialismo, é a implantação de aglomerados populacionais em territórios distantes. O império é um relacionamento, formal ou informal, no qual um Estado controla a soberania política efetiva de outra sociedade política. Pode ser alcançado pela força, pela colaboração política, pela dependência económica, social ou cultural. É simplesmente o processo ou política de estabelecer ou manter um império. O imperialismo, permanece onde sempre esteve, numa espécie de esfera cultural geral, bem como em práticas políticas, ideológicas, económicas e sociais específicas (Said, 1994: 9). Os primeiros impérios europeus ultramarinos modernos eram, por sua própria natureza, quase exclusivamente impérios coloniais. Isso mudou desde o final do século XVIII com a crescente lacuna no desempenho económico entre as economias em crescimento na Europa e no mundo exterior, com a consolidação das relações económicas globais, a melhoria da intervenção militar globalmente operacional e o surgimento do pensamento político em escala global estratégica. Especialmente para a 17 Grã-Bretanha, que foi o principal poder económico e naval internacional entre 1815 e 1880, vê agora um repertório diversificado de outras possibilidades disponível para os seus próprios interesses económicos e estratégicos (Osterhammel, 1995: 23). A distinção entre salvaguarda formal e informal de interesses contra países “mais atrasados" militar e economicamente, entre império formal e império informal (cf. Barton, 2014: 30-47) pode ser aplicada não apenas ao Império Britânico, mas em grande escala, aos EUA e ao Japão. Cuba, por exemplo, colónia espanhola desde 1858, apesar de ser oficialmente uma república independente entre 1902 e a tomada de posse de Fidel Castro, vê quase toda a sua economia em mãos americanas. O governo dos EUA interveio fortemente na política interna de Cuba. Cuba era, portanto, uma área de exploração semi-soberana dos EUA: um caso clássico de império informal. Os japoneses implementaram, desde 1905, um império formal, que consiste de colónias economicamente lucrativas: Taiwan (1895-1945), Coreia (1910-1945) e Manchúria. Com uma esfera de influência gradualmente ampliada na China. O Reich alemão também operou uma política de construção de império informal antes de 1914 na China, na América Latina e no Império Otomano (Ibidem: 24). Em suma, de acordo com Osterhammel, para os séculos XIX e XX, podemos distinguir três graus de interação entre superpotências colónias e estados recentemente independentizados: Domínio colonial (die Koloniale Herrschaft) (= império formal): os governantes nativos são substituídos por estrangeiros. A ordem política pré-colonial deixa de existir ou, pelo menos, de funcionar sem impedimentos. Representantes do poder colonial exercem funções centrais como tributação, jurisdição, policiamento e poder militar. Todas as relações exteriores dos colonizados são monopolizadas pelo poder colonial. Para o resto, as definições acima de colónia e colonialismo aplicam-se (Osterhammel, 1995: 25); Controlo quase colonial (die Quasi-koloniale Kontrolle) (= império informal): o estado mais fraco permanece como uma comunidade independente com seu próprio sistema político. Ele pode administrar a sua própria política externa e regular os assuntos internos de rotina. Não há administração colonial, mas, por vezes, existem autoridades mistas estrangeiras e indígenas. No entanto, o estado mais fraco tem apenas soberania limitada, a superpotência recebe privilégios como resultado da pressão pontual em contractos desiguais. O seu conteúdo é geralmente a proteção de estrangeiros da aplicação das leis locais pela jurisdição consular e extraterritorialidade, 18 o estabelecimento de um regime de livre comércio, o direito de estacionar tropas estrangeiras em águas territoriais e em pontos de desembarque acordados. A superpotência é representada por cônsules, diplomatas ou residentes, que intervêm em carácter consultivo na política local, especialmente nas lutas dos sucessores, e se necessário, sublinham o seu conselho através de ameaças de intervenção militar (Osterhammel, 1995: 25). Em casos extremos, os dirigentes de administrações locais são apenas peões ao serviço da metrópole. No entanto, eles têm um certo espaço de manobra, muitas vezes até considerável. A elite colaborativa ideal, sobre a qual o império informal repousa inevitavelmente, deve possuir legitimidade e assertividade suficientes para operar no interesse do poder imperial. O Império informal raramente é estratégico ou motivado por considerações de prestígio. Na maioria dos casos, é um meio de assegurar interesses econômicos frequentemente importantes (comércio, investimento direto, títulos), muitas vezes sem apoio político. Ao contrário do colonialismo, o império informal exige uma superioridade económica significativa do colonizador. Deve haver o potencial para penetrar uma economia no exterior (Ibidem). Influência não colonial (die Nichtkolonialer Einfluß): não existe relação colonial entre a potência e a ex-colónia neste caso. Além disso, não há direitos especiais codificados em contractos desiguais. No entanto, a superioridade económica do parceiro estatal mais forte ou das suas instituições do sector privado, ou a sua função de proteção militar dá-lhe a oportunidade de influenciar a política do parceiro mais fraco que não possui os seus vizinhos "normais". Este é um padrão típico de assimetria internacional no mundo pós-colonial” (Ibidem: 26). Osterhammel nota ainda que, "Imperialismo" é o termo que resume todas as forças e atividades que contribuíram para a construção e manutenção de tais impérios trans-coloniais. Incluí as vontades e acções do centro imperial de definir os seus próprios interesses nacionais como imperiais, levando-os a um nível mundial dentro do sistema internacional. Assim, o imperialismo implica não apenas política colonial, mas política mundial, na qual as colónias não estão sozinhas em si mesmas. Desde o último terço do século XIX, o reconhecimento das reivindicações geopolíticas de poderes terceiros, e das suas próprias reivindicações coloniais. O imperialismo é planeado pelas instituições estaduais, ministérios estrangeiros e de guerra e executado pelas autoridades coloniais e figuras no local. Contudo, tal política mundial, deve ser sempre vista tendo em conta o pano de fundo do surgimento de um sistema de estado mundial, e o contexto 19 de estruturas de evolução lenta e desigual no intercâmbio económico entre os espaços da Terra (Osterhammel, 1995: 27). Portanto, imperialismo e colonialismo não são o mesmo. Como nos indica Osterhammel, o imperialismo é, em certos aspectos, o termo com o sentido mais amplo, de modo que o colonialismo surge quase como um caso especial seu. Na verdade, isso pode ser argumentado olhando para o Império Britânico desde 1780. No entanto, como o imperialismo inclui a possibilidade de percepção do interesse mundial e penetração capitalista de grandes áreas económicas, o termo é aplicado com relutância face aos primeiros impérios coloniais modernos, ainda incapazes de tais manobras económicas. Mas, o Reino Unido e os Estados Unidos nunca foram potências imperialistas plenamente desenvolvidas, os Estados Unidos, são claramente, um caso de imperialismo sem um império colonial. França, Alemanha, Rússia e Japão foram em diferentes momentos portadores de imperialismo num sentido limitado, sem estar realmente presente a longo prazo por todo o mundo, ou economicamente fraco demais para penetrar mais economias. Impérios coloniais “sem imperialismo” (Kolonialimperien ohne Imperialismus) foram regra durante o início do período moderno da expansão europeia, sendo tida como excepção, a Holanda. Nos séculos XIX e XX, no entanto, o cenário altera-se e são precisamente os Países Baixos que ilustram este caso de uma forma particularmente plausível. Entre as guerras mundiais, a Holanda foi, sem dúvida, a terceira maior potência colonial europeia depois da Grã-Bretanha e da França. Ao mesmo tempo, não era de forma alguma uma potência imperialista: sem ambições políticas mundiais e meios de poder, sem as oportunidades de fazer uma aparência informal apreciável, à excepção da sua colónia na Indonésia (Ibidem: 28). Na época da Primeira Guerra Mundial, as potências imperiais ocupavam, ou por vários meios controlavam, nove décimos do território global, sendo um quinto do mundo e um quarto da sua população domínio britânico. O mundo era concebido como incontrolável, caótico, inatingível e, em última instância, maligno. Motivado pelo seu desejo de conquistar e dominar, o imperialista configura o reino colonial como um confronto baseado em diferenças de raça, linguagem, costumes sociais, valores culturais e modos de produção. Pode afirmar-se que os impérios modernos eram projeções de estados-nação e alguns defensores da colonização no final do século XIX argumentavam a favor desta visão. As colónias deveriam ser expressões do poder nacional e os seus recursos usados para fins nacionais. Os líderes políticos, na metrópole, discordavam regularmente sobre 26 2. O Sonho Colonial Alemão For almost 60 years, from the end of World War Two, the German public had forgotten about its colonial empire. Whereas other European powers experienced the traumatic violence of decolonization, Germans believed that they had nothing to do with the colonial exploitation of large parts of Africa, Asia or South America. They were innocent—so many believed—of the devastations brought about by European colonialism and could therefore engage with the new post-colonial world without the dark shadow of a colonial past. Some observers have termed this a “colonial amnesia.” (Perraudin e Zimmerer, 2011: 1). Só em 2004, no centenário do genocídio dos povos Herero e Nama, a população volta a ser confrontada com as atrocidades alemãs de há um século. O tema chamou a atenção dos media e em agosto do mesmo ano, o governo alemão emitiu um pedido de desculpas oficial. Tal atitude, apesar de apoiada no panorama internacional, desencadeou uma onda de respostas inquietantes, sendo mesmo considerada pelos círculos conservadores como traição (Ibidem: 2). A temática colonial alemã parece não despertar o interesse da comunidade académica, mesmo dentro da Alemanha. O colonialismo alemão foi considerado durante muito tempo um fenómeno isolado e marginal, que tentou realizar uma aparição no panorama mundial demasiado tarde e de forma superficial, tendo sido demasiado curto para deixar qualquer impressão mais profunda. Agora a opinião pública e a academia alemã parecem ter finalmente entrado na sua era pós-colonial, após décadas de marginalização. É, de certa forma, irónica esta “amnésia colonial” que se abate sobre os alemães após tantos séculos de luta por um “lugar ao sol” e pelo reconhecimento dos seus vizinhos europeus enquanto potência colonial. Apesar de curta e extremamente diferenciada do modelo habitual do colonialismo europeu, a expansão alemã mostra pontos de interesse e marcou, de certa forma, os territórios onde se estabeleceu. Este é ainda um colonialismo que vai para além da dominação de um território longínquo, sendo durante os primeiros séculos da construção colonial europeia fomentado pela imaginação, pela ciência e a vontade de integração na nova aventura mundial. 27 Neste capítulo será abordada a relação da Alemanha com o colonialismo, abordando maioritariamente as fantasias criadas à volta da criação de um império, a visão do outro e as esperanças e vontades de ter um domínio seu. Esta observação será realizada, tendo como grande base a obra Colonial Fantasies de Susanne Zantop (1997), fundamental no estudo deste tópico e base para grande maioria da literatura crítica sobre o mesmo. Assim, serão analisados os seguintes espaços temporais: primeiramente, entre 1770 e a obtenção de colónias em 1884; em segundo lugar, o período pós primeira guerra mundial; e por último a era nacional socialista. 2.1. Fantasias coloniais e a aquisição de colónias (1770-1884). Quase desde o seu início, os povos europeus, incluindo os alemães, fizeram parte da exploração dos novos territórios através de aventureiros e mercenários em expedições espanholas ou portuguesas (e.g. Ulrich Schmidt, Hans Staden); como mercadores equipavam navios e negociavam escravos, como cientistas, exploradores ou intérpretes ao serviço de companhias alemãs ou estrangeiras. Milhares de homens tomaram rumo em direção às américas e África, atraídos por lendas de aventura e riqueza. Não existiam projectos coloniais com financiamento estatal. Grande parte dos cerca de 300 estados do Sacro Império Romano eram demasiado pequenos e pobres para investirem em tais actividades. Às grandes casas de mercadores faltava-lhes a autoridade, ou até mesmo vontade, de reivindicar os territórios, recorrendo a uma colonização indirecta através do financiamento de expedições de terceiros. Aos pequenos principados alemães, por sua vez, faltava-lhes organização, meios financeiros e portos com meios para equipar frotas e enviar tropas. Ao longo dos séculos, no entanto, enquanto que dificuldades materiais e financeiras impediram as aventuras coloniais, o desejo de conquistar e explorar cresceu para um nível de quase obsessão (Zantop, 1997:19). No século XIX, quando parecia, finalmente, possível uma expedição patrocinada pelo estado, temia-se que o mundo já estaria totalmente dividido e espalhado pelas restantes forças expansionistas, sem deixar qualquer espaço para a “nova Alemanha”. O facto de a Alemanha ter chegado muito tarde trouxe alguma insegurança e frustração, intensificadas por diversas dúvidas sobre a capacidade dos alemães enquanto colonizadores, baseadas no leitmotiv ressurgente da culpa colonial alemã, a sua 28 participação na escravatura, violência e aniquilação contra populações indígenas. Bartolomeu de Las Casas (Monge Hispano-Dominicano) foi o primeiro a publicar sobre esta culpa colonial. Na sua obra Brevísima relación (1552), Las Casas afirma que os mercadores alemães são ainda mais cruéis e gananciosos que os espanhóis., trazendo à luz uma “Lenda Negra”. 4 (Zantop, 1997: 20) As fantasias coloniais nascem com o conto e reconto desta história e de tantas outras como uma manobra para libertar o povo alemão de qualquer culpa, revelando, simultaneamente, um discurso de Germanidade (das Deutschtum). Como exemplo temos a própria obra de Las Casas, que na sua primeira tradução alemã (1597) tenta desviar a atenção da questão da culpa alemã, ao reforçar as atrocidades espanholas. Surgem também, cada vez mais obras que tratam a colónia alemã ideal, povoada por colonizadores honestos e batalhadores, que trabalham do solo, produzindo produtos agrários para exportação e ganhando riquezas não pela exploração de nativos, mas sim através do seu trabalho. (Ibidem: 22) As frustrações, inseguranças e escrúpulos morais acerca da sua chegada tardia ao campo colonial e possível envolvimento nas atrocidades realizadas nas colónias, foram reprimidas a favor de um ideal fantasioso, positivo e optimista. Este tentou provar que não, a Alemanha não teria chegado tarde de mais, ainda haveria território a conquistar; não eram incompetentes enquanto colonizadores, pelo contrário, a sua coragem e desenvolvimento industrial predestinava-os para essa função; e não teriam feito parte das actividades horríveis de que são acusados. A narrativa de infortúnio e insucesso no campo colonial foi convertida numa fantasia triunfalista. Fantasia esta que se agarra perpetuamente a um leque de questões sobre as possibilidades de sucesso enquanto potência colonial. Tal narrativa fantasiosa preencheu assim os 300 anos que se seguiram, desde a descoberta, invocando um futuro triunfal imaginário (Ibidem: 25). Esta transformação gradual de atitude no discurso vai ao encontro da febre de viagens no séc. XVIII e a publicação cada vez mais acentuada de relatos de viagem. Nunca se teria viajado tanto como neste século e embora poucos alemães tenham realmente participado nas expedições a novos territórios, muitos tiveram interesse nestas viagens, como indica o grande número de diários de viagem publicados na Alemanha. Até 1874, os leitores alemães tornaram-se os principais consumidores de 4 Conceito utilizado para todos os conquistadores, que pressupõe uma tendência natural e cultural para a crueldade e intolerância. Cf. Greer et. al. (2007) 29 literatura de viagem na Europa. Enquanto que o número de viajantes aumentava gradualmente, o número de “exploradores de poltrona” a participar destas viagens através do seu lar disparou (Zantop, 1997: 35). Na primeira metade do séc. XVIII existe ainda uma transição entre as primeiras formas de literatura que retratam o encontro entre europeu e nativo, de carácter mítico, e novos textos de natureza científica. Muitos trabalhos antigos sobre descoberta e conquista eram agora alternados com descrições contemporâneas de viagens de exploradores europeus e de populações exóticas. A exactidão científica coexiste e até se confunde com o mito. Assim, acontece uma junção de histórias míticas com informação geográfica, hierárquica, cultural e moral, que era agora acessível ao público burguês (Ibidem). Através da representação de cenários coloniais pela visão de personagens alemãs (fictícias), o leitor ganha percepção do novo mundo e da chegada dos europeus, permitindo-lhes criar uma opinião própria. Sendo intelectualmente envolvidos em todas as vertentes da actividade colonial, os leitores iniciam comparações entre potências internacionais para definir qual delas a pior, visto que quaisquer experiências coloniais alemãs eram raramente referidas ou criticadas nestes textos. Providenciando o leitor com uma unidade de comparação entre si e outras culturas, a literatura de viagem e outras obras científicas são utilizadas para o que se pode chamar de colonialismo intelectual (Ibidem: 41). Os diários de viagem tornaram-se, igualmente, um veículo para aceder à distância cultura entre “eles” e “nós”. Autores como Cornelius De Pauw, identificaram concepções populares e familiares para o europeu sobre o “outro”, encaixando-as numa realidade aparentemente coerente de forma a explicar a história da conquista. Inicia-se assim o debate sobre a natureza dos colonos e comparações físicas e intelectuais com os europeus, que providenciou parâmetros para a construção de uma nova identidade do homem europeu enquanto colonizador natural (Ibidem: 48). De Pauw foca-se em elementos como a falta de cabelo, como sinal de degeneração física e moral, para desencadear uma redefinição da virilidade europeia como oposta à efeminação dos nativos (descritos como mais fracos e com características femininas). O autor propõe assim um homem burguês naturalmente forte (Kraftmensch) que carrega publicamente a sua vasta barba e cabelo natural como símbolo do seu poder e da sua obrigação de restabelecer a ordem natural das coisas. Reforça a sua convicção de que o Homem é feito de domínio, de domesticação dos selvagens e que apenas um 30 homem civilizado pode extinguir todos os males ao se expandir e construir colónias. Deste modo, se a colonização deve ser feita por pessoas civilizadas, por uma nação sem culpa colonial, onde as artes e ciências florescem e a sua população sonha sobre o amor pelo trabalho e pela ordem, então os prussianos seriam, naturalmente. os candidatos perfeitos. Ele reforça a ideia de missão colonial, missão essa que cabe ao homem firme, não afectado pelas atracções exóticas e focado na sua tarefa de ordenar e dominar (Zantop, 1997: 58-65). Surge assim uma enfase no conceito de raça, que se funde à ideia de impotência e inferioridade através de uma categorização efeminada do outro. O ensaio de Kant, Von der verschidenen Racen der Menschen (1775), é considerado o pilar teórico no que diz respeito à discussão das diferenças fisiológicas na Alemanha, apresentando pela primeira ver o termo raça adoptado do inglês e do reino animal. Kant distingue quatro raças baseadas na cor da pele: os brancos (europeus); os negros (África Central); os de pele vermelha (hunos e mongóis); e os de pele morena (da Índia) (Ibidem: 68). Christoph Meiners, reforça esta teoria estabelecendo uma identidade nacional baseada exclusivamente na raça. Homens altos, brancos e com vastas barbas é um sinal de superioridade física e psicológica. Os alemães, por sua vez, encaixam-se perfeitamente na descrição, tornando-os automaticamente superiores aos restantes povos (Ibidem: 70). Apresentando estes argumentos, parece agora evidente para o público que a supremacia do europeu é explicada através da sua anatomia e biologia. A superioridade estava no sangue e este explicava o porquê de um continente inteiro ter sido sempre soberano e os restantes servos. Com o passar dos séculos e a crescente simpatia por movimentos patriotas conservadores, as teorias raciais ganharam visibilidade. Torna-se tendência associar carácter racial e carácter nacional. Os alemães agora colocavam-se no topo da classificação (racial) global, contrastando com os negros e indianos. E até mesmo dentro do continente europeu existia competição para determinar quem possuía o tom de pele mais claro e delicado, de forma a estabelecer uma hierarquia. A raça branca era não só superior em todos os aspectos, como também o alfa e ómega da evolução humana. Após a ocupação napoleónica em 1806, os alemães que se viam como futuros colonizadores eram agora colonos dos franceses, aumentando o sentimento de diferenciação entre eles e os seus vizinhos europeus. A imagem do alemão, generoso, empreendedor e com espírito de sacrifício colocava-se em contraste com os espanhóis preguiçosos e os gananciosos ingleses, ambos de carácter erróneo. Esta distinção 31 nacional, por si só, pode ser considerada colonialista, ao aplicar as mesmas medidas de diferenciação utilizadas para os povos do terceiro em relação aos seus iguais europeus (Zantop, 1997: 80). À medida de que este mito racial alemão se fortifica na mente das massas, adaptações de famosas personagens coloniais são feitas, indo ao encontro da visão que o alemão tem de si mesmo enquanto futuro colonizador. Uma destas adaptações é Robinson der Jüngere – adaptação da obra Robinson Crusoe de 1719 - de Joachim Campe (1790), que tal como o povo alemão procura a sua própria ilha e uma história colonial diferente. A história de Crusoe é o mais puro legado colonial. Desperta a imaginação e cria desejos de aventura, pelo exótico, de uma ilha utópica, um lugar onde se pode governar de acordo com os próprios princípios, onde se pode trabalhar com nativos dóceis (como Sexta-Feira), ou disciplinar os que se recusam a abandonar os seus territórios e modos selvagens (Ibidem: 113-115). Ao contrário dos ingleses, espanhóis ou franceses, Crusoe não se entrega a excessos; ele não anseia por ganhos materiais, luxo e poder. Ele é frugal, trabalhador, piedoso, protestante. Para ele a colónia é um espaço de aprendizagem e regeneração, não um lugar para prazer sensual ou enriquecimento material. Ele retorna para casa um homem novo que conseguiu provar a sua superioridade natural através da sua resistência física, conduta moral e inteligência. Os alemães identificam-se com esta descrição de Robinson Crusoe, transplantando as suas esperanças e sonhos nesta figura. Esta versão de Campe torna possível simpatizar com os conquistadores, que vencem com virtude e coragem. A sua crueldade, por outro lado, não passa (com base nas teorias publicadas) de parte do plano divino que Crusoe teria de seguir. Deste modo, não havia um colonizador, viajante ou apoiante da prática colonial que não afirmasse orgulhosamente ter sido atraído para a aventura colonial após ler Crusoe (Ibidem: 121). Outras duas figuras que se tornam extremamente populares e que facilitam o imaginário colonial são Cristóvão Colombo e Alexander von Humbolt. As observações fornecidas por Humboldt só vêm confirmar todas as ideias e teorias que o público tem ouvido durante todo este tempo, de que a conquista é um evento natural, sem violência se o fraco se reconhecer como tal. Humboldt traz à vida, mais uma vez, o entusiamo dos primeiros descobridores. No imaginário germânico este transformou-se num Colombo alemão, que ao “conquistar” a américa latina (local onde realiza as suas pesquisas), levou consigo o legado da conquista, transformando-o e abrindo o continente sul-americano para uma 32 exploração renovada. Humboldt é considerado não só o colombo dos tempos modernos, como alguns afirmam, como também o ultrapassa, pois ao contrário de Colombo que só realizou uma descoberta territorial, Humboldt abre as mentes trazendo recompensas espirituais. A esta “descoberta” de Humboldt é dado o nome de “segunda descoberta” (sendo a primeira de Colombo) apagando do pensamento dos alemães no séc. XIX, os fracassos do passado, dando espaço para um futuro glorioso (Zantop, 1997: 168-173). Colombo, por sua vez, está próximo da realidade alemã pelo facto de, tal como os alemães, ter sido subestimado, incompreendido e ter atingido a glória numa fase mais tardia da sua vida. Com a unificação do país em 1871, seria possível moldar a história colonial da nação e atingir a glória retardada que tanto procuravam. A Alemanha seria a sucessora de Colombo, descobrindo a sua própria Índia. O crescente número de alemães a emigrar em busca de melhores condições, tornou-se uma grande preocupação. Preocupação esta que passa a alimentar todo o discurso colonial, para tentar direcionar os emigrantes alemães dos Estados Unidos, para futuras colónias alemães. Milhares de emigrantes, exilados politicamente, tornaram-se os representantes dos alemães que viviam no exterior. Entre 1848 e 1871, ajudaram a sustentar na mente dos leitores da pátria mãe uma ideia de rede global unificada de alemães no exterior (Ames et al, 2005: 25) Estes Auslandsdeutsche 5 , surgem como uma personificação de Colombo, como colonizadores culturais supremos, que passam os valores do trabalho árduo, vitalidade espiritual, educação clássica e amor à ordem para terras culturalmente subdesenvolvidas na Europa Oriental, Ásia, Austrália, América Latina e Oeste americano, assim como aumentaram a atmosfera cosmopolita das cidades mais importantes da Europa e da América. Com a unificação as espectativas tornaram-se elevadas, o objecto transnacional transmutou de uma situação onde não é nacional de todo para não ser nacional o suficiente. Para os nacionalistas alemães, o próximo passo era entrar na globalização competitiva juntamente com os grandes impérios mundiais (Naranch e Eley, 2014: 31). Vários movimentos alimentados por dois séculos de material fantasioso decidem avançar agora que o país se encontra finalmente com um governo central que pode aceder, com entusiamo, aos seus planos. A forte liderança que se apresentava em Berlim 5 Nas décadas pós-revolucionárias, o termo Auslandsdeutsche substituiu o antigo termo Auswanderer. Ser Auslandsdeutsche trouxe vantagens distintas que os antigos Auswanderer não tiveram. Os Auslandeutsche reflectiam o status ambíguo dos indivíduos que viviam fora da pátria, eram aqueles que preservavam os valores regionais e demonstravam a força do Volk alemão (Ames et al, 2005: 26) 33 após a unificação do país parecia ter todas as condições, e até a vontade de, finalmente, apanhar os vizinhos europeus no campo colonial. No entanto, o novo governo estava, numa fase inicial, relutante quanto ao investimento em empreendimentos coloniais. O apoio popular aumentava e diversas sociedades coloniais de foro privado como: Westdeutscher Verein für Kolonisation und Export (1880); Kolonialverein (1882); e Gesellschaft für deutsche Kolonisation (1884); assumiram a tarefa de espalhar propaganda colonialista e forçar a ajuda do governo ao colectar capital, enviar emissários e adquirir territórios (Zantop, 1997: 192-200). Otto von Bismarck convocou uma conferência em Berlim, que se realizou entre 15 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, com a participação de países europeus (Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, GrãBretanha, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal, Rússia e Suécia) mas também do Império Otomano e dos Estados Unidos. Esta tinha como objectivo a repartição justa do território africano. Após a conferência, Otto von Bismarck conseguiu, finalmente, colocar áreas do Sudoeste Africano, adquiridas pelo mercador Lüderitz, sob a protecção do império alemão. Até 1888, o império havia acumulado territórios várias vezes do tamanho da Alemanha, com um crescente entusiasmo. A seguir à Grã-Bretanha, França e Holanda, a Alemanha conseguiu o quarto maior império imperial naquela época, tornando-se num período integral e significante do imperialismo pré primeira guerra mundial (Conrad, 2013: 544). Apesar do entusiasmo, debates sobre a necessidade de colónias e a “missão colonial” da Alemanha continuaram. Neste contexto, os mitos e fantasias incumbidos na sociedade alemã tiveram um papel fundamental. Eles formaram a matéria cultural pela qual os colonialistas poderiam construir os seus argumentos. Mesmo após a unificação de 1871, a obtenção de territórios, as figuras coloniais do passado (acima referidas) são utilizadas como modelos positivos de identificação nacional. Os contos e mitos estavam tão enraizados na cultura que eram utilizados em narrativas de colonizadores reais, ofuscando, muitas vezes, a realidade dos acontecimentos. As fantasias coloniais, especialmente com base científica, não terminam com a aquisição de colónias, e encontraram ainda momentos de ressurgimento, em novas batalhas pelo direito alemão a colónias, acompanhando toda a história colonial alemã até ao fim da Segunda Guerra Mundial. 34 2.2. O Revisionismo Colonial na República de Weimar. Mesmo após conseguir o seu objectivo de angariar colónias para si, o colonialismo, permaneceu relevante e uma força na política nacionalista e um meio de obter apoio para várias políticas nacionalistas. O plano de Bismarck era que as novas possessões fossem administradas pelas entidades comerciais, cujos interesses comerciais haviam motivado, em primeiro lugar, as anexações, trazendo lucro e sem despesas significativas por parte do governo. O subsequente fracasso destes interesses privados em prover um governo efectivo, forçou a uma tomada de poder por parte de Berlim e, em poucos anos, levou à criação de administrações coloniais oficiais em todas as propriedades estrangeiras da Alemanha (Perraudin e Zimmerer, 2011: 101). Não foi necessário, no período posterior à Primeira Guerra Mundial, desenvolver as suas colónias com especial energia. Como a eclosão da Primeira Guerra Mundial, as colónias já haviam deixado de ser um fardo para a pátria mãe. De facto, o equilíbrio financeiro estava tão bem estabelecido que até mesmo os empréstimos para a construção dos caminhos de ferro alemães no sudoeste africano, foram pagos através dos ganhos das colónias. Após a derrota na guerra, a Alemanha é esmagada por dívidas externas e assediada pela falta de matérias-primas, de modo que, se as suas colónias lhe fossem devolvidas, ela iria desenvolvê-las com muito maior intensidade (Baranowski, 2015: 49). A guerra e as suas consequências redefiniram a política alemã e reformularam as prioridades imperialistas alemãs. Três dos resultados desastrosos da guerra permitiram a sobrevivência das aspirações imperialistas no período do pós-guerra: as limitações autoimpostas da Revolução Alemã de 1918; as implicações do Tratado de Versalhes e a resolução de paz; a crise da etnia alemã que veio fortalecer a crítica nacionalista radical do imperialismo Guilhermino (Ibidem). A população alemã jamais teria pensado que perderia os seus territórios alémmar. O Tratado de Versalhes e as suas condições, foram a pior forma de humilhação para um povo como o alemão, orgulhoso das suas raízes, da sua cultura e dos seus feitos coloniais, pelos quais ambicionaram tanto tempo. Mas a sua determinação só ganhou força com o que era considerado um ataque por parte dos aliados. Nem por um momento, durante os anos que se seguiram, o desejo de recuperar os territórios ultramarinos alemães desapareceu. Antigos colonos, autoridades coloniais 35 e organizações nacionalistas mantiveram-se motivados, arranjando maneiras de exercer qualquer influência que levasse ao retorno do império marítimo alemão. Muitos propunham, persistentemente, investimentos em infraestruturas e recursos de saúde pública para assegurar uma força de trabalho indígena eficiente nas colónias quando estas voltassem às mãos do governo alemão. Do ponto de vista de muitos nacionalistas alemães, no entanto, era o Leste que prometia. o que a Alemanha necessitava: um vasto espaço de exploração e revitalização étnica do povo após o trauma da derrota na Primeira Guerra e da dominação estrangeira (principalmente francesa) (Baranowski, 2015: 55). Nunca o povo alemão considerou como definitiva a renúncia às suas colônias. A questão foi mantida viva através de livros, artigos de revistas e jornais, panfletos, palestras e afins. Em 1922, num grande congresso colonial realizado em Berlim sob o patrocínio da Liga Colonial Alemã, o general Paul von Lettow-Vorbeck e o duque de Mecklemburg garantiram à nação que as antigas colónias seriam devolvidas. Alguns líderes alemães chegaram ao ponto de tentar garantir da Holanda parte da Nova Guiné holandesa como uma concessão para uma companhia alemã, esquema que só fracassou por causa da recusa do parlamento holandês em aprová-lo (D’Eça, 1936: 212). Após a derrota do Império Alemão na Primeira Guerra Mundial, muito poucos desfiles foram realizados em homenagem às tropas no seu retorno; a maioria dos alemães não via motivo para celebrar as forças armadas que haviam travado e perdido a guerra pela supremacia europeia. No entanto, em 1919 algumas centenas de oficiais e soldados coloniais, sob o comando do general von Lettow-Vorbeck, desfilaram através do Portão de Brandemburgo e foram recebidos com entusiasmo pelos berlinenses que os aguardavam. Poucos foram os factos sobre os acontecimentos na África Oriental que chegaram à Alemanha durante os anos de guerra, mas essa lacuna de informação foi preenchida por notícias que descreviam as ousadas e corajosas acções das tropas alemãs, vitórias surpreendentes sobre um inimigo numericamente superior e aventuras nas selvas da África Oriental. Estas narrativas, tal como no passado, continuaram a moldar as memórias do projeto colonial alemão durante a época da República de Weimar, quando as antigas colónias alemãs ganharam imensa popularidade e a sua perda passou a ser vista como parte do trauma nacional do pós-guerra (Perraudin e Zimmerer, 2011: 126). A construção do herói colonial durante a guerra teve, em grande parte, ajuda da população africana. Os próprios africanos tornaram-se, de certa forma, heróis que 42 Os Nacional-Socialistas planearam, assim, uma reorganização fundamental do espaço da Europa Oriental que envolveria a criação de Siedlungskolonien. Quando a Alemanha invadiu a Polónia, dividiu o território que ocupou em várias unidades administrativas, mais significativamente das Wartheland e das Generalgouvernement. Várias instituições governamentais produziram modelos para um projeto de colonização, mas o plano era transferir os polacos do oeste da Wartheland para o leste do Generalgouvernement, de forma a mover alemães étnicos e em seguida reintroduzir a população eslava como força de trabalho escrava num sistema de plantações que, segundo algumas versões, deveria ter um sistema como o estado da Virgínia pré-Guerra Civil Americana. Os primeiros estágios desse plano foram realizados, e de milhares de alemães foram transferidos para um espaço de onde mais de um milhão de polacos e judeus étnicos haviam sido expulsos violentamente. Outras medidas, no entanto, foram impedidas pelas exigências da guerra (Peurradin et al, 2011: 33). Cada vez mais se procurava legitimar as invasões ao leste europeu. Para esse efeito, diversos estudos surgiram, sugerindo que estes estados são caóticos, estagnados no tempo e incapazes de acompanhar a modernidade, requerendo assim intervenção externa de forma a ser possível uma evolução. A prioridade da expansão no continente europeu era frequentemente justificada com o argumento de que a velha versão do colonialismo havia sido um erro, que o Terceiro Reich não voltaria a repetir. Muito antes de tomar o poder, Hitler opôs-se aos planos de restabelecer as colónias na África. Ele manteve a posição de que só se pode procurar uma política colonial quando a Europa estivesse assegurada. O Führer chegou a declarar que todos os empreendimentos coloniais de Espanha, França e Inglaterra eram fracassos. Os povos continentais devem se expandir apenas até garantirem a conexão geográfica com a pátria (Naranch e Eley, 2014: 337). Algumas publicações comentam os planos "coloniais" de Hitler para o Oriente, mas a noção de colonialismo é usada principalmente como sinónimo de liquidação: Der Kampf um die Hegemonie in der Welt wird für Europa durch den Besitz des russischen Raumes entschieden; er macht Europa zum blockadefestesten Ort der Welt. (…) Der russische Raum ist unser Indien, und wie die Engländer es mit einer Handvoll Menschen beherrschen, so werden wir diesen unseren Kolonialraum regieren (…) Ich habe ja keine unmäßigen Ziele; im Grunde sind es lauter 43 Gebiete, in denen einmal schon Germanen gesessen haben. Das deutsche Volk soll in diesen Raum hineinwachsen. (Hitler et. al, 1968: 46-48) Através dos, supostos, comentários de Hitler e das visões e planos orquestrados para estas áreas, torna-se mais do que evidente, de que o intuito deste projecto não é somente expansionista, como também colonialista. Apesar de, na época, o termo colonialismo não ser ligado de forma exclusiva ao apoderamento de terras. No entanto, toda a vertente racial e de violência, mostram um carácter imperial do Reich, absolutamente distinto de qualquer um até à data. Esta perspectiva imperialista de direita radical é importante devido à influência da Liga Pan-Alemã na direita alemã e na política alemã durante a primeira metade do século XX. Com membros na sua maioria parte da academia, com profissões liberais ou dentro do comércio e indústria, a Liga Pan-Alemã abrigou os expoentes mais influentes do nacionalismo radical ou völkisch. Os pan-alemães definiram em grande parte o universo ideológico da “nova direita” da qual os nazis emergiram durante a década de 1920. As ideias pan-alemãs sobre a expansão imperial foram especialmente formativas nesse sentido, e os historiadores notaram as semelhanças (Naranch e Eley, 2014: 206). A política colonial pan-alemã inicialmente concentrou-se na demanda por novos territórios no exterior, tanto para acomodar a população crescente da Alemanha quanto para satisfazer as necessidades económicas de uma economia alemã em expansão. Hitler parecia ter dado pouca importância à posse de colónias no exterior; em vez disso, ele usou as alegações coloniais alemãs para promover contactos com a Inglaterra. Quando essas tentativas falharam, Hitler começou a levar a retórica colonial mais a sério. Com as vitórias na blitzkrieg de 1939-1940, as colónias pareciam estar novamente ao alcance. Em 1941, com o Reich no auge do seu poder, as demandas pelo retorno das antigas posses alemãs não eram suficientes (Ibidem: 335). Com todas as nações a ganhar permissão de adquirir bens no exterior, a Alemanha tinha de ter direito a uma oportunidade de anexar colónias. Para os membros e apoiantes do partido nacional-socialista, era difícil ignorar tais argumentos de prestígio nacional. No início da década de 40, os planos para recuperar os territórios perdidos estavam em pleno andamento. Muitos indivíduos se demonstraram prontos para partir de imediato para habitar nas futuras colónias africanas. Especialistas alemães 44 em assuntos coloniais e tecnologia tropical garantiram que estavam actualizados sobre os últimos desenvolvimentos. A Liga Colonial do Reich tinha quase dois milhões de membros, e quantias consideráveis foram para a pesquisa colonial (Naranch e Eley, 2014: 335). A liderança nacional-socialista também se esforçou para explorar a experiência colonial de outras potências europeias. Filiais do Kolonialpolitisches Amt em Bruxelas e Paris foram encarregadas de examinar os documentos coloniais franceses e belgas. Foram intensamente utilizadas, ideias italianas aplicadas no norte de África. Unidades policiais e militares viajaram para Roma para serem treinadas e, em 1941, as unidades da polícia alemã estavam aparentemente estacionadas na Líbia. A liderança nazi também iniciou numerosos documentários que abordavam questões coloniais (Ibidem: 336-7). Os cientistas coloniais, pertencentes ao NSDAP, foram capazes de construir sobre uma fundação existente, uma continuação do movimento colonial científico criado na era Guilhermina. A fundação do Seminário de Línguas Orientais na Universidade de Berlim, a Escola Colonial Alemã em Witzenhausen ou o Instituto de Doenças Navais e Tropicais em Hamburgo podem ser vistas sucessores institucionais da mudança política colonial iniciada pelo Secretário de Estado Bernhard Dernburg em 1907 (Ibidem). A partir de 1938, os cientistas coloniais de todos os campos voltaram a ter uma agenda movimentada, tendência que continuou até 1943 e, em alguns, até mais tarde. A amplitude e a intensidade com que a opção colonial foi cientificamente investigada é notável e durante o nacional-socialismo. O departamento de ciências coloniais do Reichsforschungsrates, fundado em setembro de 1940, coordenava as actividades científicas. Ele tornar-se-ia o grupo central de pesquisa colonial alemã. A sua subestrutura foi formada por 29 grupos de especialistas, liderados por cientistas reconhecidos. A sua tarefa era dirigir e promover vigorosamente a pesquisa em todas as áreas da ciência colonial Em 1933, a academia alemã estabeleceu uma Politische Fachgemeinschaft der Fakultäten na qual criaram um Departamento de Cultura Estrangeira. A comunidade profissional formou o precursor do Instituto Colonial, que reabriu oficialmente em 9 de maio de 1939. O apoio etnológico também foi exigido. Segundo Hugo Adolf Bernatzik, a etnologia como ciência aplicada formava a base da colonização moderna. Para isso, no 45 entanto, deve ser estritamente orientada para o nazismo e fazer da biologia hereditária e racial uma de suas pedras angulares. Além das investigações destinadas a preparar o caminho para o governo mais suave e eficiente dos governantes coloniais, havia aqueles que examinavam uma capacidade de trabalho diferente entre africanos e europeus (Linne, 2006: 91-93). A maioria dos colonialistas acreditava que o conhecimento das línguas africanas era indispensável para o controle efetivo da população indígena. Além disso, a pesquisa de idiomas pretendia filtrar as linguagens que pareciam adequadas como línguas de ensino, literárias e linguísticas. Os dois principais Institutos de Estudos Africanos estavam localizados nas Universidades de Hamburgo e Berlim. Em vista da grande necessidade de agricultores coloniais, algumas cidades tentaram estabelecer instituições suplementares para a Escola Colonial Alemã em Witzenhausen. Também em Hamburgo, se iniciava um planeamento apropriado. A universidade inicialmente trabalhou num curso de pós-graduação colonial de dois semestres para agricultores graduados. Um decreto do Ministro do Reich para a Ciência, Educação e Educação Nacional de 14 de novembro de 1941 introduziu a ciência colonial (Ibidem: 94-95). Die Forstliche Hochschule Tharandt fundou em 1931 das Institut für ausländische und koloniale Forstwirtschaft, o único instituto alemão, na época, encarregue desta disciplina. Os cientistas devem desenvolver as bases de uma política florestal colonial de longo prazo, estudando as matérias-primas correspondentes, o seu cultivo, o seu manejo e sua exploração. Das Reichsinstitut treinou funcionários florestais para partida imediata para as colónias (Ibidem: 99-100). Os cientistas compartilhavam a convicção de que aproximar-se dos objetivos coloniais exigia uma maior actividade nestes campos de pesquisa. Outras áreas como a história, medicina, geografia, geologia, cartografia e direito, receberam incentivos do género e criaram unidades de pesquisa colonial dentro das suas áreas. A esperança de que os territórios ultramarinos pudessem ser recuperados permaneceu viva até ao início dos anos 1940. Os cientistas “coloniais” não estavam conscientes de que as suas ambições coloniais, que se concentravam na pesquisa dos territórios africanos, não correspondiam com as ambições do regime. O governo nacional-socialista concentrava-se maioritariamente na expansão e conquista no leste da Europa, desligando-se do antigo desejo de reaver as suas possessões em África. A cultura capitalista tem frequentemente considerado a Alemanha nazi como um 46 fenómeno singular na história europeia, que teve um caminho único de desenvolvimento, independente das democracias tradicionais da França e da GrãBretanha e dos vários movimentos fascistas que surgiram no período entre guerras. Os impérios francês e britânico serviram como principal ponto de referência negativo quando se tratou de definir o império nazi em termos ideológicos. Em contraste, novas formas de conquista imperial, especialmente os projectos de “colónias” japonesas e italianas em grande escala no norte de África e na Manchúria, forneceram modelos positivos de ação a Hitler e seus homens. A construção do império italiano foi particularmente fascinante para a liderança nazi, do ponto de vista alemão, os fascistas italianos haviam transcendido as noções tradicionais de colonialismo. Na realidade, as autoridades italianas queriam criar um império muito mais homogêneo em termos raciais. Desta forma, os alemães observavam o domínio italiano em África como uma forma inovadora e moderna de colonialismo, e era precisamente esse carácter inovador que despertava especial interesse. Os alemães, também, apoiavam a visão de uma sociedade racial pura e queriam implementar esse modelo nos territórios recentemente conquistados na Europa de Leste. Enquanto que o regime de Bismarck servia os interesses de alguns capitalistas, o “império” nazi visava a melhoria de toda a população nacional, pensando na vida em união e comunidade, independentemente do afastamento das potências. Assim, os fascistas falaram de "colonização demográfica" empreendida por um "império proletário". Nesse sentido, o imperialismo fascista foi descrito como algo inteiramente novo e único. A Alemanha juntou-se à onda internacional de excitação sobre o império fascista, criando o seu próprio império completamente afastado das convenções clássicas criadas até aquele momento. Durante décadas, o colonialismo alemão foi esquecido pela maioria das áreas de estudo, por ser considerado demasiado curto e insignificante. Na verdade, o período colonial alemão não se limita simplesmente a vinte cinco anos e um sentimento amargo pela sua perda prematura. Este capítulo ajudará a investigação, de modo a entender e avaliar o colonialismo alemão, bem como as suas visões, culturais, raciais e políticas sobre o mesmo. Apresenta igualmente um ponto de comparação entre cada época em termos de atitudes e opiniões dentro do contexto colonial que podem ser mais tarde utlizados 47 como forma de entender de onde surgem determinados padrões psicológicos e comportamentais nas relações com os países latino-americanos. Aborda também a questão dos Auslanderdeutsche, que funciona como uma grande base de iniciação das interacções entre Alemanha e América Latina. Consequentemente, a atitude alemã face ao novo mundo e a maneira como este é recebido na face inicial das descobertas, através das suas narrativas fantásticas, poderá ditar o tom das relações e objectivos do Reich alemão face a estes países. 48 3. As Relações Germano-Latino-Americanas As relações alemãs com a América Latina têm uma longa história. São encontrados relatos que provam que o povo alemão esteve presente em todas as frentes no processo de descoberta e exploração da América Central e do Sul (cf. Zantop 1997 e Blackbourn 2015). Já durante o século XIX, iniciou-se uma emigração em massa de alemães que se fixaram em comunidades germanófonas isoladas dentro dos recém-independentizados estados sul-americanos. Desde 1830 centenas de milhares de migrantes germanófonos deixaram o centro da Europa em busca de um novo heimat além-fronteiras. Apesar de, comparativamente a outras comunidades e colónias, não contarem com um grande aglomerado populacional, estas comunidades têm sido objecto de estudo de muitos académicos que tentam provar o seu impacto no sistema escolar, científico, militar, e industrial latino-americano (cf. Rippy 1948 e Gleich 1968). Estas comunidades mostraram um grande crescimento, o que atraiu diversas ligações com a Europa Central e uma dependência de relações iniciadas em séculos anteriores e que se mantêm durante todas as mudanças geopolíticas do séc. XX. Simultaneamente, esta expansão parece acontecer de forma paralela com a reunificação dos estados alemães e o seu projecto colonial, sem ser, no entanto, um produto directamente patrocinado por qualquer órgão estatal. O aumento das relações entre continentes surgiu devido a interesses económicos pessoais, e não propriamente objectivos de carácter nacional. Ainda durante o séc. XIX, o governo de Bismarck apesar de se opor inicialmente às vagas migratórias e ao desenvolvimento das comunidades germanófonas, disponibiliza pequenas ajudas estatais para os Auslandsdeutsche de forma a se manterem ligados à sua terra natal e para manter relações económicas positivas com os países de acolhimento. O regime de Adolf Hitler, por sua vez, reforçou as ajudas às comunidades e iniciou projectos culturais e académicos extensivos para assimilar os seus ideais e interesses nas povoações latino-americanas e usufruir das matérias-primas locais, inexistentes no Reich, e das boas relações comerciais com os países de acolhimento destes Auslandsdeutsche. Estas relações entre Alemanha e América Latina, são fulcrais para entender a vivência dos alemães no estrangeiro e os esforços políticos, comerciais e culturais do 49 estado alemão, especialmente durante o III Reich, aplicados às comunidades, que nos ajudam a entender as intenções e planos germânicos para com as mesmas. Assim, este capítulo irá abordar as relações germano-latino-americanas apoiando-se nos seguintes pontos: primeiramente, serão brevemente analisados os primeiros contactos alemães com os povos latinos e as suas fantasias face aos mesmos, com base na obra de Susanne Zantop (1997); em seguida serão apresentadas as novas relações que se criam entre os dois continentes durante o séc. XIX; posteriormente será analisada a evolução das mesmas no âmbito da Primeira Guerra Mundial e o período que lhe sucede; Finalmente serão ilustradas as medidas aplicadas pelo governo do III Reich nas “colónias” sul-americanas e as instituições criadas para auxiliar a expansão nazi nas mesmas. 3.1. Primeiros Contactos No século XVII, o continente sul-americano não era somente o primeiro objecto de desejo colonial alemão, como também se manteve parte do sonho colonialista alemão mesmo após o Império Alemão apoiar de forma activa as colónias em África. O interesse do imaginário colonial alemão (em primeira instância) pela América do Sul ao invés do continente africano, poderia estar ligado a diferenças de acessibilidade. Até ao final do século XVIII, os poderes coloniais espanhol e português mantinham as suas possessões na América do Sul fechadas a sete chaves, permitindo acesso apenas a alguns estrangeiros nas cidades costeiras. O rumor da existência de tesouros escondidos (El Dorado) nas possessões alheias era um bom motivo para o crescimento dos impulsos coloniais (Zantop, 1997: 9). África, por outro lado, era uma terra desconhecida, com territórios, especialmente no interior, cobertos de obstáculos, desde o clima, a doenças, pobreza das terras e agressividade dos habitantes. A falta de recursos e a aparente falta de riquezas e reinos, inexplorados, que contivessem matéria pilhável, não trazia qualquer entusiasmo (Ibidem: 10). A América do Sul com a sua promessa de ouro, clima ameno, vegetação abundante, e uma suposta facilidade dos seus habitantes à submissão pelos estrangeiros, tornava-a mais atraente aos olhos dos alemães. Como estes não tencionavam assimilarse com qualquer povo e eram especialmente sensíveis a mudanças climatéricas 50 violentas, o local aparentava ser perfeito. Simultaneamente, os índios americanos eram descritos na literatura de forma mais nobre e atraente, vistos assim como mais amistosos e interessantes comparados com os negros. Quando as colónias da América Latina se afastaram do reino colonial espanhol no início século XIX, o território parecia, mais uma vez, disponível para os restantes competidores europeus. Para os alemães, no entanto, o continente tinha um significado especial, era como uma oportunidade perdida. Os alemães tiveram a sua primeira oportunidade de colonização do “novo mundo” quando Carlos V garantiu à companhia mercante Welser 8 a oportunidade de apropriar e explorar vastos territórios no continente sul-americano, no espaço geográfico da actual Venezuela e Colômbia (Zantop, 1997: 11). Em 1528, a companhia mercante Welser emprestou dinheiro a Carlos V para financiar a sua eleição como imperador do Sacro Império Romano. Desta forma, foram capazes de negociar com o governo espanhol um tratado para obtenção de terras para fins coloniais. Apesar dos territórios sul-americanos terem o seu acesso negado a colonizadores estrangeiros, os Welser receberam um estatuto excepcional, podendo conquistar, estabelecer-se, “governar”, e explorar uma região localizada entre a província de Santa Marta e Cabo de la Vela no Oeste e o Cabo Maracapaná no Este, e do Oceano Alântico a Norte ao “Mar do Sul”. O objectivo seria ajudar os espanhóis a expandir e assegurar a sua possessão colonial enquanto, simultaneamente, experimentavam a colonização e obtiam lucro. Através de uma série de contractos, os dois agentes dos Welser, Heinrich Ehinger e Hieronymus Sailer, focaram-se em 3 áreas: minas, tráfico escravo e colonização (Ibidem: 12). Para concretizar esta tarefa, Carlos V garantiu aos Welser o privilégio de escolher líderes governamentais, militares e administrativos para as novas “colónias”. Estes novos administradores deveriam apropriar 25 quilómetros quadrados de terra espanhola para seu próprio uso, e colectar 4% do lucro adquirido para a coroa. Estes estavam ainda, isentos de impostos por 8 anos e de pagar o “quinto” através de metais preciosos durante 3 anos, de forma a ajudar, a nível económico, no estabelecimento da colónia. Em troca de tais privilégios, os governadores concordaram em retorno, de estabelecer esta colónia dentro de dois anos, encontrar duas “colónias” com 300 habitantes cada, erguer três fortes e fundar uma administração colonial totalmente 8 Verificar capítulo 2 51 funcional (Zantop, 1997: 20). Os comerciantes, no entanto, não pareciam dispostos a realizar uma política colonial pacifica, organizando inúmeras excursões, conotadas como violentas e destrutivas, em busca do El Dorado. Ao não descobrir os grandes tesouros que esperavam, os colonizadores iniciaram a captura de índios e venda dos mesmos, de forma a compensar a falta de lucro. Sem ouro, bens para vender e mão-de-obra escrava, a colónia acabou por colapsar. Os Welser viram-se privados das suas possessões após longas batalhas judiciais nas quais foram acusados de pobre organização de finanças e atrocidades contra os nativos. As terras foram assim restituídas aos espanhóis em 1555 (Ibidem: 21). O episódio colonial protagonizado pelos Welser é talvez o maior indicativo da natureza do colonialismo alemão na América do Sul durante as primeiras fases da expansão europeia. Os acontecimentos na “colónia” venezuelana iriam assombrar gerações futuras, produzindo uma frustração no seio do povo alemão por ter chegado “demasiado tarde” ao cenário colonial. Este foi o momento que marcou a Alemanha enquanto conquistadora, tornando-se a base de todas as futuras fantasias coloniais alemães direccionadas à América do Sul e do ideal de um futuro colonial alemão. 3.2. Século XIX No século XIX, o crescimento desproporcional da população em comparação com o baixo poder de oferta de alimentos e emprego, leva a uma pressão cada vez maior na população alemã. Esta pressão explodiu em ondas de emigração em massa, estimuladas por novas opções de transportes. Cerca de 6 milhões de pessoas deixaram os estados de língua alemã. Movimentos migratórios tornaram-se uma característica central da época. A influência germânica começou quando as cidades Hanseáticas, como Bremen e Hamburgo, tentaram quebrar o monopólio comercial ibérico na América Latina, após as revoluções contra o império espanhol, sendo dos primeiros a reconhecer a independência nacional dos novos estados. Lançando-se nos novos mercados agora abertos devido a tais rupturas políticas, competiram com êxito com franceses e britânicos, conseguindo uma forte posição económica em vários destes novos estados latino-americanos em meados do século XIX. 58 para ajudar os exércitos latino-americanos a preparar-se e abrir caminho para a venda de armas em grande escala, fazendo com que os seus exércitos fossem treinados e abastecidos pelos alemães (Goebel, 2009). No final do século, a Alemanha fornecia 10% das importações da América Latina. As matérias-primas e os produtos da indústria pesada alemã foram responsáveis por uma parte considerável dessas vendas. Grandes bancos alemães operavam em quase todos os centros comerciais da América Latina. No início da Primeira Guerra Mundial, a participação alemã nas importações da América Latina havia crescido para mais de 16% e 12,3% das exportações da América Latina revertiam para a Alemanha (Gleich, 1968: 3). Blumenau, uma das primeiras “colónias”, vê os seus números duplicar a cada dez anos, e ganhou população muito respeitável, tornando-se uma cidade, de 45.000 pessoas. A “colónia” dedica-se, principalmente, à transportação de tabaco, chegando ao valor anual de 8 milhões de marcos (Bonsal,1903). Até à eclosão da I Guerra Mundial, das Auslandsdeutschtum na América Latina era tido na literatura como a essência da “verdadeira Alemanha”, e reconhecido como um modelo para o reino. 3.3. I Guerra Mundial e República de Weimar Até ao irromper da Primeira Guerra Mundial ter um negócio alemão na América Latina era considerado uma vantagem, mas após o início da mesma, tornou-se uma desvantagem. O sentimento anti-alemão, trouxe um sentimento de perseguição e reclusão entre os residentes germanófonos, sendo estes Reichsdeutsche - alemães étnicos que mantinham cidadania alemã mesmo vivendo no estrangeiro - ou Volksdeutsche - alemães étnicos sem nacionalidade alemã. Segundo David Blackbourn (2015), a Primeira Guerra Mundial foi um separador de águas para os alemães na América Latina. No Brasil, o único país da América do Sul que entrou na guerra a favor dos Estados Unidos, há relatos de ataques a jornais, clubes e empresas alemãs em Abril de 1917, depois de um submarino alemão afundar um navio mercante brasileiro. Noutros locais, os alemães étnicos encontravam-se sob pressão, embora isso pareça ter criado uma esperança de vitória, juntamente com um sentimento de vitimização que intensificou a auto-segregação das comunidades alemãs e 59 a sua união. No entanto, em grande parte da América Latina a relação com a Alemanha aparenta manter-se. A eclosão da guerra levou a uma onda de entusiasmo e “solidariedade” para com a Alemanha, os seus emigrantes e descendentes na América Latina. Nos anos de 1916 e 1917, novas organizações foram criadas para imigrantes alemães em países da América Latina com o objectivo de propaganda pró-alemã: no Chile, der Deutsch-Chilenische Bund e die Deutsche Handelskammer; na Argentina, der Deutsche Volksbund für Argentinien; no Brasil, der Germanische Bund für Südamerika; no Paraguai, der Volksbund für Paraguay e no México foi fundada der Verband Deutscher Reichsangehöriger gegründet (Barbian, 2014). Apenas no último ano de guerra o comércio entrou em colapso, após as linhas de comunicação serem encerradas e, consequentemente, os países latino-americanos cessarem as relações diplomáticas com a Alemanha, após anos de neutralidade e tentativas de manutenção das relações, até ali, amistosas entre si - possivelmente devido a pressões derivadas dos EUA, que mantinham grande influência na região. Com a grande inflação que se seguiu à derrota alemã, tornou-se difícil retomar as relações económicas com o continente sul-americano. Contudo, estas retomaram, apesar da desconfiança do império alemão, muitos líderes dos países da América Latina estavam extremamente interessados em retomar o comércio com a Alemanha e o seu investimento para compensar a influência americana e britânica que havia crescido nos seus países. O investimento crescia a um passo bastante reduzido, mas era contínuo, visto que os investimentos no estrangeiro não sofreram um golpe tão devastador como na Europa (Penny, 2013). Neste período a emigração de alemães para a América Latina aumentou de forma significante com aproximadamente cem mil recém-chegados, que se concentraram particularmente no Brasil e no Chile. Muitos deles desejavam escapar da insegurança sentida na Alemanha, ou eram atraídos por aventuras em terras exóticas. As relações económicas não só se reestabeleceram, como também expandiram, trazendo um reconhecimento da importância geopolítica dos Auslanddeutsche. Estes alemães residentes no estrangeiro, tornavam-se agora figuras críticas na renovação da economia da República de Weimar, ao manter as suas comunidades ligadas ao estado alemão. Estes ganharam uma nova importância para o ministério alemão (Ibidem). A derrota na guerra e o Tratado de Versalhes trouxeram novas condições para a Alemanha, interna e externamente. A República de Weimar não teve nada de admirável 60 para a maioria dos alemães, portanto, o interesse nacional virou-se para o tamanho do estado e a sua gente. O termo Auslandsdeutschtum, desta forma, ganhou na República de Weimar uma importância que até aí não lhe era conhecida. Este teria a função de um motor de ressurgimento da Alemanha para o poder mundial. A nível político, libertaria o Reich alemão do isolamento agindo como mediador; economicamente deveria promover as exportações alemãs e culturalmente difundir as grandes conquistas da cultura alemã (Barbian, 2014). Volksgemeinschaft tornou-se um termo chave na República de Weimar. Os danos causados pelas condições do Tratado de Versalhes alimentaram este discurso de união nacional com a imagem de uma Alemanha vitimizada pelos aliados sendo, assim, necessário defender a solidariedade entre compatriotas. Este discurso parecia apelar aos emigrantes alemães, que se identificaram com os seus irmãos, após serem alvo de más condições de trabalho por parte de empregadores nos países de acolhimento e de desconfiança e ataques durante os anos de guerra, principalmente no Brasil. Após 1918, a política externa alemã desenvolveu um interesse significativo na América Latina, identificando a região como uma esfera promissora de influência alemã, ou, “o último continente livre” como é muitas vezes referida. A América Latina apresentava inúmeras vantagens, pois como outras regiões submetidas ao colonialismo europeu, as nações latino-americanas eram consideradas fracas e susceptíveis à intervenção externa, contrastando, assim, com África e grandes áreas da Ásia. Os principais países da região - à excepção do Brasil – haviam-se mantido neutros durante a guerra. Além disso, a presença de importantes comunidades alemãs no Chile, na Argentina e especialmente no Sul do Brasil, assim como laços comerciais e militares que antecediam o conflito, ajudariam a influenciar os latino-americanos a favor da Alemanha num possível futuro conflito (Goebel, 2009). Deste modo, a cultura passa a desempenhar um papel fundamental no cumprimento destas ambições. Foi pedido, por parte das autoridades estatais, que a propaganda fosse colocada, de agora em diante, em local de destaque, a fim de evitar qualquer repetição da humilhação de 1918. Quando das Auswärtiges Amt, inaugurou o seu departamento cultural (die Kulturabteilung), o Estado alemão, bem como actores não-estatais, desenvolveram uma série de iniciativas para converter as opiniões próamericanas em atitudes e atividades pró-alemãs (Ibidem). As ideias advindas da cultura tradicional romântica alemã mostraram-se cada vez mais atraentes para os latino-americanos, empenhados em afirmar a sua 61 idiossincrasia cultural. Estas eram um modelo alternativo de modernidade, devido à sua demarcada distinção face às demais culturas tradicionais dominantes. As novas formas de nacionalismo que se vinham a criar na América Latina, eram veículo para os objetivos da política externa alemã na região. Quanto às políticas culturais na América Latina, muitas iniciativas vieram de atores não-estatais, die Kulturabteilung, por sua vez, era pouco mais do que um departamento central de informações que detinha pouca influência devido à distribuição limitada de meios financeiros. Independentemente dos objetivos expressos pelos diplomatas, a política cultural externa alemã na América Latina assumiu vida própria. Como resultado, as visões subjacentes a essa política sobre o que constituía a cultura alemã e como ela deveria promovida variavam tão amplamente quanto os actores envolvidos nesse empreendimento. Apesar da Europa Oriental e os Balcãs serem os principais alvos da Kulturabteilung, das regiões extra-europeias, a América Latina foi talvez a mais importante. Isto é visível através do domínio que as escolas alemãs tinham na região, registando-se mil e quinhentas escolas, mil e duzentas delas no Brasil (Goebel, 2009: 233). Mesmo tendo projetos, por vezes grandiosos, a política cultural externa na América Latina era modesta. Os problemas financeiros enfraqueceram os institutos culturais que se estabeleceram em Buenos Aires e no Rio de Janeiro no início dos anos vinte para promover o intercâmbio entre os académicos locais, e para realizar actividades culturais com a participação da comunidade e da inteligência local. E die Kulturabteilung parecia centrar o seu trabalho apenas na ajuda financeira e organizacional de indivíduos, clubes e instituições quer na Alemanha, quer na América Latina. Independentemente dos objetivos iniciais da política cultural externa alemã em relação à América Latina, a implementação dessa política foi restringida por uma série de factores que estavam fora do alcance do AA. A falta de uma tradição de relações culturais entre os dois tornou mais difícil o sucesso de uma agenda centralizada, visto que existiam múltiplos indivíduos com os seus interesses pessoais, baseados num sistema descentralizado (Ibidem). De modo geral, as relações culturais com a América Latina nesta época continuaram a desenvolver laços militares e comerciais. O início do "movimento iberoamericano” na Alemanha, no final da década de vinte, assim como esta continua relação com a América Latina, formavam uma combinação de interesses que cresciam 62 lentamente, a partir dos interesses imperialistas do império Guilhermino. 3.4 Era Nacional-Socialista A emigração para a América Latina não pareceu diminuir até ao período nazi. O fluxo de refugiados tornou-se muito comum, dirigindo-se para velhas comunidades étnicas germânicas. Estas ondas de emigrantes criaram, em alguns casos, “colónias” rurais de maneira semelhante às primeiras “colónias” latino-americanas - apoiadas por empreendedores individuais e governadores de alguns estados que pretendiam receber estas pessoas para trabalhar devido às já reconhecidas características germânicas: trabalhadores aplicados e capazes, bons agricultores, eficientes, apolíticos, confiáveis e brancos (Penny, 2013). Argumentava-se que a reconstituição das colónias africanas não fazia parte do plano original de Hitler como parte de uma tentativa de manter a paz com Inglaterra. Mas, os planos arquitectónicos e de construção monumental nas cidades alemãs são para muitos um sinal de antecipação deliberada de expansão planeada, servindo como demonstração do poder imperial do grande Reich alemão que se viria a formar. Com o início do controlo nacional-socialista da Europa de Leste, discussões entre globalistas e continentalistas sobre os objectivos de Hitler e a sua política internacional foram constantes. Debates com os EUA assumiam que após o domínio de todos os impérios do Leste e a restituição das colónias africanas, a dominação mundial se seguiria. Hitler não se contentaria com apenas a Europa, ele desejava poder absoluto e domínio territorial. A construção de um império continental na Europa e a reconquista das colónias africanas asseguraria à Alemanha um estatuto de poder mundial (Müller, 1992: 67-68). Para Hitler, a América Latina era a epítome da miscigenação de raças, que afundava e denegria o nível das raças superiores, portuguesa e espanhola, que eram, na sua opinião, brancos e fundadores de cultura. Na verdade, Hitler demonstra extrema ignorância face à América Latina e a sua vida política, cultural e histórica. Na sua obra Mein Kampf, Hitler faz uma única referência sobre o continente: Nordamerika, dessen Bevölkerung zum weitaus größten Teile aus germanischen Elementen besteht, die sich nur sehr wenig mit 63 niedrigeren farbigen Völkern vermischten, zeigt eine andere Menschheit und Kultur als Zentralund Süd amerika, in dem die hauptsächlich romanischen Einwanderer sich in manchmal großem Umfange mit den Ureinwohnern vermengt hatten. An diesem einen Beispiele schon vermag man die Wirkung der Rassenvermischung klar und deutlich zu erkennen (Hitler, 1943: 313) O Führer não só mostrava ignorância como também um aparente desinteresse na região. O que não tem, automaticamente, de significar que a América Latina estava de fora do radar do regime. Claramente, a região era de relevância inferior em comparação com o ambiente europeu imediato à Alemanha nazi. No entanto, isto não impediu os oficiais alemães, públicos e privados, de realizar esforços extenuantes para expandir a influência do país na América Latina. E, em 1934, foram até iniciadas várias visitas diplomáticas aos países sul-americanos. (Leitz, 2004). Apesar do aparente desinteresse face ao sub-continente, muitos afirmam que, entre quatro paredes, Hitler era bastante vocal sobre o seu intuito de construir uma nova Alemanha na América Latina. Hermann Rauschning (1940), por exemplo, afirma que no ano de 1933, durante um jantar com o Führer, este lhe expressou vontade de dominar o Brasil e o México. Estes pareciam ser espaços perfeitos para o povo alemão, que estariam a ser mal aproveitados pelos seus povos nativos. A forma como este descreve o processo é interessante, pois refere que a utilização de força não seria necessária e utilizaria em seu lugar a cultura e força moral e espiritual do povo alemão e do regime para os trazer para o seu lado. As populações do Sul não necessitavam de capital financeiro, mas sim de incentivos ideológicos e políticos que lhes faltava de forma intrínseca. O povo por si veria que a melhor solução para si seria juntar-se a Hitler, tornando-se primeiro seus aliados e, de seguida, seus subordinados (Rauschning,1940: 60-64). Tal relato não pode ser tido como absolutamente verosímil, mas não pode deixar de ser referido como informação para possível debate e análise, juntamente com toda a informação, realmente, oficial sobre o tema. Independentemente de Hitler demonstrar ou não preocupação para com a região, é importante frisar que a grande maioria das acções e planos levados a cabo pelo partido nazi tiveram origem em elementos, de grande influência, dentro do mesmo. É claro, tendo em consideração o aumento de iniciativas culturais e comerciais na América 64 Latina, que membros do partido Nacional-Socialista teriam interesse na expansão nazi na região. O governo alemão decidiu retomar em força as relações económicas, quase extintas com a região – durante a grande depressão, as importações entre os dois continentes caíram 75%, muito abaixo dos níveis registados em 1913. A 3 de Julho de 1934, die Deutsche Handelsdelegation für Südamerika, uma delegação comercial dirigida por Otto Kiep, deixou a Alemanha. Durante sete meses a delegação visitou quase todos os estados Sul Americanos, retornando ao país com vários acordos comerciais com a Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Assim, o Terceiro Reich conseguia importar bens, especificamente produtos agrícolas e matéria-prima indisponível na Alemanha e considerada vital, da maioria dos países latino-americanos sem utilizar reservas preciosas de moeda estrangeira (Leitz, 2004). É visível no investimento alemão na América Latina, através da introdução de perícia técnica e alguns contratos de gestão, um esforço para compensar recursos de capital mais reduzidos. É uma tendência que ficou evidente na actividade alemã em companhias aéreas latino-americanas. A influência alemã predominou na fundação da Sociedade Alemã de Transportes Aéreos, a primeira companhia aérea da América Latina (Gleich, 1968: 13). Esta nova política comercial na América Latina surtiu frutos. Até políticos e negociantes britânicos e americanos queixavam-se vigorosamente do sucesso dos métodos económicos nazis. De 1934 a 1939, a participação alemã nas importações latino-americanas aumentou para mais de 16% atingindo, assim, o nível de 1913. A Alemanha assumiu novamente o segundo lugar entre os países que abasteciam a América Latina. Devido aos acordos de troca e ao forte apoio às exportações alemãs para a América Latina, a Alemanha tornou-se, em 1938, o segundo parceiro comercial mais importante da América Latina, atrás dos Estados Unidos (Ibidem: 12). Ainda antes da subida ao poder de Hitler em 1933, der Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), iniciava a criação de unidades para controlar os Auslandsdeutsche e expandir a sua influência nos seus países de acolhimento. A 1 de Maio de 1931, é fundado o órgão principal de tal “missão”, die Auslandsabteilung – mais tarde conhecida como Auslandsorganisation (AO) - por Gregor Strasser die Reichsorganisationsleiter. A sua direcção ficou a cargo de Hans Nieland até este se demitir em 1933, passando o cargo para Ernst Wilhelm Bohle. Esta procurava promover e fortalecer a indústria alemã no estrangeiro, melhorar acordos bilaterais, unir os 65 emigrantes alemães e, simultaneamente, educá-los ideologicamente; lutando ainda pelo controlo político e jurídico. O partido tenta actuar, primeiramente, a partir dos regimes latino-americanos que demonstravam uma atitude favorável em relação ao fascismo – como é o caso do Brasil, que acaba em 1937 por instaurar o Estado Novo, regime nacionalista liderado por Getúlio Vargas. A AO apoiava cada vez mais as escolas, hospitais e clubes considerados confiáveis pelo partido. Esta dedicou a sua atenção ao estabelecimento de filiais do NSDAP em áreas onde as populações de origem étnica alemã estavam concentradas. Deste modo, a partir de 1931, nasceram diversos grupos locais do NSDAP na América Latina, que começaram a sofrer a influência da AO. O seu objetivo era de início, penetrar ideológica e pessoalmente grupos locais e todas as associações e organizações, em que os Auslandsdeutsche fossem organizados, a fim de criar uma comunidade global com sentimentos pró-nazi. O esforço dos nazis foi inicialmente rejeitado pelas elites de emigrantes, mas, mais tarde parece surtir efeito, dizendo-se mesmo que existiam mais nazis nas comunidades da América Latina do que na própria pátria mãe (Barbian,2014). Na capital do Chile, Santiago, o primeiro grupo NSDAP foi estabelecido em 1931 e através do seu envolvimento com organizações alemãs que serviam o ideal do germanismo, ganhou muito reconhecimento. O jornal alemão mais importante, o Condor, tornou-se o principal órgão de propaganda nazi no país. Quase todos os clubes alemães no Chile caíram sob o domínio da AO e entre 1937e 1938 o NSDAP Landesgruppe incluía cerca de 1.000 pessoas (Ibidem). Na Argentina, em Buenos Aires, o primeiro grupo local foi fundado em Fevereiro de 1931. Com o apoio de Willy Köhn, que tinha, entretanto, sido nomeado Auslandskommissar für Südamerika, os mais importantes grupos alemães caíram nas mãos dos nazis. Também der Deutsche Volksbund für Argentinien, cuja gestão tinha inicialmente resistido, caiu em 1934 sob a influência do partido. O jornal alemão La Plata tornou-se o porta-voz da Alemanha nazi. Em 1937, a célula argentina contava com 1.500 membros (Ibidem). No Brasil, a primeira filial da NSDAP foi fundada, tal como as restantes, em 1931 na cidade de São Paulo. Apesar de alguns confrontos contra a politização excessiva, devido à memória, ainda muito presente, dos motins anti-alemães durante a Primeira Guerra Mundial; a resistência desapareceu em meados dos anos 1930 e os sucessos da AO aumentaram. Em 1937 o ramo brasileiro do partido contava com 2.903 66 membros, sendo assim, possível à AO construir organizações em todo o estado para difundir a ideologia nazi, e ganhar um impacto decisivo sobre a ideologia de Auslandsdeutschtum (Barbian, 2014). Os membros do partido nestes países tinham obrigação de cumprir as leis do país de acolhimento e era proibido envolver-se na política interna do mesmo, até através de conversas. A sua tarefa principal era anunciar o nacional-socialismo alemão e ajudar a organizar quaisquer actividades, entre os países de acolhimento e o Reich, através das células do partido. Sob a chefia de Bohle, a AO iniciou um grande desenvolvimento e um crescimento do número base de Orstgruppen (grupos regionais), Kreisleitungen (círculos de direcção) e Landesgruppen (grupos nacionais), para cerca de 600 em 1938, com 29 mil membros globais. A A.O. tinha várias associações partidárias como: a Deutsche Arbeitfront (DAF), die Nationalsozialistische Frauenschaft (NSF), der Hitler-Jugend e der Bund Deutscher Mädel (HJ und BDM), como também a Nationalsozialischtischer Lehrerbund (NSLB). Estes eram, no entanto, grupos que não tinham permissão para operar a sua própria política no estrangeiro (Bartelt, 1993: 5). Os integrantes destas instituições reuniam-se regularmente e algumas, como é o caso da DAF e da NSF, possuíam as suas próprias células e hierarquia interna. Outra actividade do partido era a colheita de donativos dos associados, partidários e simpatizantes, que reverteria para a Ajuda de Inverno, sendo enviados para a Alemanha. Para além das reuniões, os principais dirigentes do partido deveriam elaborar relatórios para o comando da AO na Alemanha sobre as actividades dos partidários, a comunidade alemã como um todo e a situação política do país sul-americano em questão. A função da DAF no exterior seria encobrir a propaganda inimiga, divulgar a ideia de paz no trabalho e promover programas sociais. Dentro destes programas, realizavam-se reuniões mensais, cursos de formação de professores e a criação de grupos de jogos e desportos. Os seus integrantes eram ainda responsáveis por consultoria jurídica, prestar cuidados na educação e participar em actividades da imprensa (Dietrich, 2007). Um dos principais instrumentos da propaganda do regime era a realização de festividades, algumas delas específicas a este regime político e outras que foram por ele apropriadas, a fim de se tornarem “festas nacionais”. Procurava-se realizar uma propaganda política de massa, utilizando o conceito de psicologia de massas. A partir destas ideias, é instituído pelo Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, um calendário 67 político novo. Por este calendário, datas antes inexistentes como o aniversário da ascensão ao poder do NSDAP (30 de janeiro) e o aniversário do Führer (20 de abril) tornaram-se grandes acontecimentos no quotidiano dos alemães na pátria mãe e no estrangeiro. As celebrações eram como missas políticas, decoradas com cores chamativas como o vermelho, anteriormente usada pelos marxistas; o preto, símbolo dos camponeses; e o branco, associado à claridade e à luz. Nos desfiles, utilizava-se pirotecnia, como tochas e bacias de fogo, e também efeitos sonoros, como tiros de canhão, entoação de canções nacional-socialistas e discursos dos líderes, principalmente de Adolf Hitler. Multidões vestiam-se a rigor com uniformes e organizavam cortejos. A componente mágica misturava-se com a religiosa. Estes eventos eram uma promoção de uma felicidade colectiva, de alegria e bem-estar geral, desviando o olhar da prática opressora que se implantava cada vez mais na Alemanha (Dietrich, 2007). A juventude hitleriana participava em coros musicais exclusivamente na língua alemã e assistia a discursos dos partidários. Fora as actividades dos seus grupos, o partido dedicava-se, igualmente, à propaganda através da elaboração de jornais, programas de rádio, sessões de filmes, viagens de dirigentes para a realização de palestras sobre a ideologia nazi e divulgação do ideal nacional-socialista em instituições, como clubes desportivos ou recreativos, igrejas, firmas e escolas (Ibidem). Observando a propaganda utilizada em jornais, rádios e panfletos, é possível observar temas recorrentes: a inevitabilidade da vitória do Eixo; omissão de comunicados dos Aliados, especialmente sobre vitórias; o perigo mundial do Bolchevismo; a humilhação de Versalhes; a América do Norte e a sua sede por controlo mundial; e o perigo dos judeus. Deste vasto grupo de instituições, as igrejas e escolas mereciam um local de destaque, sendo as organizações com maior apoio do partido e onde a divulgação do ideário nazi se propagava com maior fluidez, chegando a um maior número de pessoas. Historicamente, os pastores e padres alemães nestas regiões estavam entre os nacionalistas mais fervorosos na liderança da comunidade. Estes auxiliam o esforço de propaganda local através de material inserido em sermões, conversas privadas, reuniões da igreja e da sua liderança em actividades comunitárias. A imprensa religiosa destas paróquias desempenhava um grande papel na propaganda estatal. O partido não se dedicou apenas à propaganda e organização de actividades culturais, como também decidiu aplicar as ciências e investigação na sua “missão 74 82% (número que aumenta para 94% em 1933) das escolas estrangeiras alemãs situavam-se no sub-continente, constituindo, praticamente, todo o sistema de ensino alemão no exterior (Penny, 2013: 379). Este capitulo irá analisar as características e impacto das escolas alemãs nas comunidades germanófonas na América Latina, tanto nos seus alunos alemães como não alemães, focando-se nos seguintes pontos: primeiramente, serão abordadas as evoluções destas escolas nas décadas anteriores à tomada de posse do NSDAP (1933); de seguida, serão retratadas as alterações trazidas pelo partido nacional-socialista no sistema educativo no exterior, analisando características como o treino dos seus professores, as disciplinas e rotina, festividades e grupos estudantis; por fim, serão brevemente abordadas em modo de conclusão o processo limitação das matérias lecionadas dentro destas escolas e o seu consequente fecho após o início da Segunda Guerra Mundial. 4.1. Die Auslandsschulen antes de Hitler Die Auslandsschulen foram fundamentalmente criadas em núcleos culturais semelhantes a colónias e áreas urbanas. Estes núcleos organizavam-se em torno de 80 a 100 famílias que tinham como centro infra-estruturas de artesanato, comércio e religião, promovendo assim, uma ampla rede comunitária neste processo de educação. Nas áreas rurais formavam-se grupos populacionais com estruturas de apoio onde os emigrantes promoviam as suas escolas comunitárias. As escolas possuíam um credo confessional cristão, luterano e católico (mais tarde surgem também os metodistas, adventistas presbiterianos). Muitas destas eram escolas privadas, que se tornaram centros de excelência no ensino primário e secundário. (Söldon, 2008: 24). Ao contrário da França que favorecia a educação pública, países como a GrãBretanha, a Bélgica e a Alemanha concentravam-se nas missões religiosas e apenas as subsidiavam se necessário. Como a educação não costumava ser um campo preferido de alta política colonial, havia uma quantidade incontrolável de variantes locais. O que se entende por uma escola oscilava entre uma reunião na aldeia onde um intérprete local tentava ensinar o alfabeto, e escolas básicas nalgumas das grandes cidades. Relativamente mais desenvolvido era o sistema de ensino secundário. Os principais beneficiários destas instituições eram os filhos das classes médias urbanas locais. Estes 75 deveriam ser treinados para se tornarem parte dos quadros dos escalões inferiores da administração ou funcionários de empresas europeias (Osterhammel, 1995: 106). À medida que as populações germanófonas cresciam no final do século XIX, o mesmo aconteceu com o tamanho e o número de escolas criadas pelas suas comunidades, com professores e administradores treinados na Alemanha. Este crescimento faz-se acompanhar da criação de associações de apoio a professores e fundos financeiros para os mesmos, jornais e revistas associados às escolas e ao seu quotidiano e instituições de formação, que procuram diversificar o sistema escolar. O ensino, nesta fase, passa fundamentalmente pela língua alemã (elemento fulcral e indispensável para as comunidades), catecismo, escrita e aritmética aplicadas ao quotidiano e cantos religiosos e profanos (Söldon, 2008: 26). Após o início da Primeira Guerra Mundial em 1918, muitas destas escolas encerraram ou viram-se limitadas quanto ao ensino do alemão. No entanto, com a ressurgente economia alemã e o interesse vigoroso dos comerciantes, estas voltariam ao seu auge entre 1919 e 1935 com a reabertura de 64 escolas no continente sul-americano que conseguiram restaurar a tradição recorrente no período pré-guerra. Com o fim da guerra, as comunidades alemãs no estrangeiro parecem cada vez mais empenhadas em transmitir a cultura e língua alemã (das Deutschtum) às novas gerações, já nascidas nos países de acolhimento, evitando que estes se assimilassem com as comunidades falantes de português e espanhol e, consequentemente, perdessem as características gloriosas atribuídas durante séculos aos alemães no continente (remetendo à figura de Humboldt). As condições económicas enfrentadas pela Alemanha no pós-guerra e pelos administradores escolares tornam este crescimento ainda mais impressionante. Apesar deste maior movimento de preservação do Deutschtum e maior apoio financeiro por parte do estado alemão (através do Ministério dos Negócios Estrangeiros), foi necessária a admissão de muitos outros alunos de origem não alemã de forma a fazer face às despesas. Assim, iniciam-se mudanças no currículo com base em exigências dos governos dos países de acolhimento. Em estados como Santa Catarina no Brasil, as escolas alemãs enfrentaram leis particularmente rígidas, com o objectivo de incorporar a sua excepcional organização e pedagogia dentro dos novos princípios nacionalistas do país e exigindo maior uso do português nos programas escolares (Penny, 2013: 379). Noutros estados federais, no entanto, as restrições foram menos severas. As escolas alemãs tentaram cumprir as novas exigências, como usar o português em aulas 76 de história e geografia e contratar professores brasileiros. Estas recebiam ajuda de Berlim para sobreviver, não apenas meios financeiros, mas também professores, material e aconselhamento foram oferecidos para apoiar as escolas. Os esforços pareciam dar frutos e, no final da década de 1920, a situação aparenta estar controlada e a seguir um rumo positivo (Rinke, 2014a: 10). Nos anos 1920 existia um forte sentimento de superioridade ligado à cultura alemã. Simultaneamente, cresce a valorização do que significava a América Latina e da sua receptividade e interesse pela cultura e ciência alemãs. Em comparação com outras regiões do mundo, como a Ásia, observou-se que a América Latina tinha um maior interesse e admiração pela ciência e a cultura alemãs. Isso é evidente; na literatura, na música e no teatro da época. Pode ainda constatar-se que esta região e em particular o Brasil eram vistos como regiões muito exóticas. Tal exotismo perdurou durante todo o período posterior à Segunda Guerra Mundial, mas com um sentido diferente àquele demonstrado noutras épocas. Agora o fascínio concentrava-se na ascensão da esquerda no continente. O que os esquerdistas fizeram nada mais era do que outra forma de exotismo: projectava-se agora no continente latino-americano, por parte de alguns alemães, o desejo de o ver como um continente de revolução pura e positiva. Durante as décadas seguintes, uma forte corrente no pensamento alemão progressista olhava para a América Latina como um continente de sonho (Silva et al, 2014: 343). O interesse dos alemães pelo continente parecia cada vez mais recíproco, destronando a influência majestosa da França como ponto de referência cultural. As ideias românticas nacionalistas que chegavam da Alemanha, tornavam-se cada vez mais interessantes para os latino-americanos que se encontram ainda em processo de afirmação cultural. As ideologias provenientes da Alemanha eram inovadoras, como um modelo de modernidade alternativa devido à distinção das suas tradições dominantes de liberalismo e nacionalidade cívica. Seguindo os passos do governo francês, que apostava numa expansão cultural (política cultural) para reforçar a sua política externa, a Alemanha inicia um desenvolvimento de uma política externa cultural (die auswärtige Kulturpolitik), por vezes chamada também de propaganda cultural, tendo como cerne da mesma as escolas no exterior (Goebel, 2009: 226). Die auswärtige Kulturpolitik, que inicialmente se destinava apenas aos descendentes alemães, tornava-se agora grande parte da política externa alemã, utilizando as escolas, e apelando à simpatia das populações sulamericanas, para revelar aos não-alemães a injustiça do Tratado de Versalhes e 77 simultaneamente tentar recuperar o seu estatuto e poder mundial. A crescente empatia pelos alemães e a sua mensagem é notória particularmente no Brasil onde se observava entre os estudantes uma maior atitude pró-alemã, que vinha a substituir o entusiasmo por França (por quem se sentia um grande rancor após o Tratado de Versalhes). A revalorização das raízes hispânicas entre partes das elites hispano-americanas na década de 1920 também veio a ser útil, pois a Espanha poderia utilizar como ponte, através da sua atitude pró-germânica que seria transferida para os sul-americanos (Goebel, 2008: 232). Apesar de algumas dificuldades financeiras e da ausência de reformas organizacionais, as escolas alemãs passaram a ter uma importante função propagandística. Elas promoveram ainda mais respeito e admiração pela Alemanha e pela cultura alemã na América Latina, e fortaleceram as redes intelectuais e as relações económicas entre a Alemanha de Weimar e muitos dos países da América Latina. Em países como a Guatemala, o México e o Uruguai, que tinham maiores populações alemãs, e onde tais escolas tiveram grande sucesso, o seu potencial propagandístico tornou-se assunto de grande debate (Penny, 2013: 380). Uma nova reorganização do sistema escolar estrangeiro alemão, durante a República de Weimar, ocorreu após o auge da inflação em 1923. O Ministério dos Negócios Estrangeiros investiu principalmente na expansão de edifícios escolares existentes e ajudou no financiamento para a aquisição de terrenos. O número de estudantes subiu para um total de 80.000, atingindo o nível dos anos anteriores à grande guerra em meados da década de 1920 (Waibel, 2010: 14). A "política" cultural alemã na América Latina assumiu vida própria. Em 1928, uma revisão das atividades do Departamento de Cultura (die Kulturabteilung), revelou que a maior parte do orçamento do mesmo era consumido pelas escolas alemãs no exterior, levando à redacção de uma nova lista de prioridades. No entanto, continuou a surgir no topo da lista as escolas e questões relacionadas ao Deutschtum, para as quais foram concedidos, 3,5 milhões do orçamento anual de 7,5 milhões de Reichsmarks do departamento. A esta quantia soma ainda custos para o intercâmbio de professores e estudantes, viagens de professores e outros institutos científicos alemães no exterior. A Europa e as Balcãs foram os principais alvos do Kulturabteilung 10 . Contudo por entre as 10 "The schools of the German minority in the European states in the period in question have not been regarded as German schools abroad since the time of the Kaiser and in the Weimar Republic.” (Waibel, 78 regiões não-europeias a América Latina foi, sem dúvida, a mais importante. Visto que que 1.200 do total de 1.500 escolas alemãs no exterior estavam no Brasil, é possível afirmar que as escolas consumiram uma grande maioria do orçamento destinado para as actividades na América Latina. Mesmo no México, um país com uma comunidade alemã pequena, em 1926 das Auswärtige Amt subsidiava as suas escolas com 75,200 Reichsmarks, deixando apenas 2400 para as restantes áreas (Goebel, 2009: 233). Como medida de apoio adicional, o departamento escolar do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão enviou materiais de ensino para as escolas e continuou a enviar professores alemães. Em termos de conteúdo, as escolas, por sua vez, tomaram como modelo aquele imposto nas escolas da era imperial (Guilhermina), tal como acontecia na Alemanha. No que diz respeito às fontes existentes, o corpo docente das escolas estrangeiras consistia muitas vezes de professores conservadores ou reacionários leais ao imperador. É através destes professores que os ideais do nacional-socialismo se difundiram nas escolas alemãs no estrangeiro bem antes de 1933, pois entre os mesmos existiam já membros do NSDAP. 4.2. As escolas durante o regime nazi As escolas alemãs no estrangeiro continuaram a florescer e a ganhar relevância na década de 1930, bem como o pensamento nacionalista dentro das mesmas. Com a tomada de posse do partido nacional-socialista em 1933, inicia-se uma reorganização de todas as organizações nacionais (die Gleichschaltung), e esta estende-se, naturalmente, às escolas no estrangeiro que ganham, juntamente com os seus elementos, alunos e docentes, cada vez mais importância dentro do regime. Assim que tomou o poder, o partido iniciou imediatamente uma reorganização do sistema escolar e a elaboração de novas diretrizes para as escolas, visto que entendiam a antiga educação humanista clássica como inadequada para poder ser chamada de alemã. Os velhos calendários, livros didácticos e até mesmo toda a formação dos professores foram substituídos por novos que se apoiavam na ideologia nacional-socialista. A educação estava agora ligada ao Partido Nacional-Socialista e ao seu sistema político, e por isso, todos os assuntos tratados nas escolas deveriam incluir 2010:1) – As escolas europeias seriam consideradas parte do reino, visto que se situavam em áreas consideradas por direito parte do “império” alemão e do seu espaço vital. 79 uma visão política. A partir desse momento, uma das tarefas mais importantes das escolas era a doutrinação política e os alunos deveriam ser nacional-socialistas. Automaticamente, membros do partido foram eleitos para fazer parte dos quadros administrativos das escolas e das suas associações. Paralelamente, procurava-se avançar o mais rápido possível com uma política de expulsão de professores judeus ou dissidentes da causa nacional-socialista (Waibel, 2010: 3). Os judeus eram considerados inadequados para exercer a profissão de docente. Apenas um alemão, com a devida prova da sua pureza de sangue, poderia ser admitido no programa de formação para professores. Esta tendência afectou, igualmente, os estudantes judeus que se viram enviados para turmas especiais ou escolas especiais. O regime acreditava que as crianças judias atrasavam os alunos alemães devido a diferenças cognitivas entre raças (os judeus eram considerados lentos e estúpidos em comparação com os arianos). Estas eram ainda consideradas um forte obstáculo ao ideal de comunidade e à implementação do nacional-socialismo nas escolas públicas em geral. Visto que o corpo docente das escolas tinha, até aí, um carácter multiétnico e multiconfessional, a crescente influência da ideologia nacional-socialista levou a um êxodo de alunos, por razões religiosas e políticas. Como muitos destes estudantes ajudavam a manter a situação financeira das escolas, das Auswärtiges Amt tentou estagnar a tendência, enviando em 1934 um comunicado com directrizes para o tratamento de alunos não-alemães. Existia um medo de que a imprensa ibero-americana pudesse revelar o que vinha a acontecer nas escolas, formando assim a ideia de que estas estavam a influenciar os estudantes com visões políticas incompatíveis com as leis nacionais dos países de acolhimento. Desta forma, foi ordenado que fosse evitada qualquer acção que pudesse ser considerada ofensiva ou provocativa face à raça, cultura e instituições estatais do país anfitrião (Ibidem: 129). Outra orientação dada a todo o corpo docente e associações pertencentes às escolas, era do respeito pela lei do país de acolhimento. Professores e dirigentes nas escolas, tal como os membros do partido, não deveriam intervir na política do seu país de hospedagem. As escolas e os professores estariam subordinados às leis, direitos internos e orientações educacionais do país onde estão localizados. Apesar de todos os cuidados, muitas queixas surgiram. No Brasil, por exemplo, muitos professores compareciam ao trabalho uniformizados e utilizavam a saudação hitleriana no início das suas aulas, o que incomodava muitos pais. Entre as muitas 80 queixas, a auto-discriminação entre estudantes era a mais preocupante (Dietrich: 2007: 302). O trabalho das escolas estrangeiras foi prejudicado nos meses que seguiram a tomada de posse, especialmente na área da América Latina, pelos governos anfitriões. O ensino secundário alemão no México foi solicitado a introduzir o espanhol como língua de instrução. Alguns professores alemães foram também impedidos de entrar em alguns países e a sua permissão de ensino foi negada. Em muitas escolas na região, onde directores e conselhos escolares eram liberais activos, existiu grande resistência à influência nacional-socialista (Waibel, 2010: 70). A doutrinação política estava inserida em todas as disciplinas, consistindo em três pontos-chave: doutrina racial, concentrando-se nas diferenças intra-raciais e a superioridade ariana; o conceito de Lebensraum e de defesa da nação alemã de influências exteriores; e a ideologia do Führer e do Reich, onde as crianças deveriam desenvolver respeito e amor pela Alemanha e pela figura de Hitler (Stopar, 2007: 8). Estes três pontos faziam parte da noção limitada de Hitler sobre educação. O Führer era contra uma estrutura educacional de cariz intelectual, achando que a mesma destruía a juventude. A camada jovem, na sua percepção, só teria de aprender sobre o domínio da sua raça e cultura, somente com o objectivo de se tornarem nacionaissocialistas exemplares. Este formato educativo era passado não nas escolas, exclusivamente, mas também em organizações como a Jungvolk, Hitler-Jungend, das Jungmädeln e der Bund Deutscher Mädchen, onde as crianças deveriam sempre manterse como membros (Ibidem: 5). As crianças tinham de resolver problemas que abordavam temas como o sacrifício humano e perdas durante a Primeira Guerra Mundial, de forma a desenvolver um pensamento nacionalista e bélico. Serve como exemplo o problema matemático que se segue: “Ein moderner Nachtbomber kann 1800 Brandbomben tragen. Auf wie viel km Streckenlänge kann er diese Bomben verteilen, wenn er bei einer Stundengeschwindigkeit von 250 km in jeder Sekunde 1 Bombe wirft?” (Stopar, 2007: 9 apud Flessau 1977: 145). Outros sugeriam a superioridade racial e intelectual do povo alemão, referindo, por exemplo, a diferença no número de analfabetos no exército alemão, inglês, russo, francês e italiano. Na opinião de Hitler, auto-controle (baseado nos modelos de treino militar), era mais importante que educação de base intelectual, chegando mesmo a afirmar: “Wenn 81 unserer Jugend in den Volksschulen etwas weniger Wissen eingetrichert worden wäre und dafür mehr Selbstbeherrschung, so hätte sich dies in den Jahren 1915/18 reich gelohnt” (Hitler, 1943: 462). No que diz respeito ao ensino de áreas como história, Adolf Hitler acreditava que os jovens deveriam aprender apenas o suficiente para conseguirem tomar um posicionamento político e entender o significado de pureza de sangue e da doutrina racial, pois segundo o mesmo: “Es soll kein Knabe und kein Mädchen die Schule verlassen, ohne zur letzten Erkenntnis über die Notwendigkeit und das Wesen der Blutreinheit geführt worden zu sein” (Hitler: 1943, 476). Uma das associações que desempenhou um papel importante no desenvolvimento do movimento nazi nas escolas foi der Nationalsozialistische Lehrerbund (NSLB), braço integrante do NSDAP no exterior. Esta tinha como função dirigir as escolas alemãs segundo a visão alemã (nazi) e as suas orientações políticas. 4.2.1. NSLB “Ihr seid Bannerträger des neuen Deutschlands!“ (DsiA, 1937: 277 apud Waibel, 2010: 1). Este é o lema pelo qual os professores nas escolas no estrangeiro deveriam viver e a responsabilidade que deveriam honrar para o bem maior do Reich alemão e do seu povo. Para fazer cumprir tal objectivo foi criado em 1927, ainda antes da tomada de posse por parte do NSDAP, der Nationalsozialistische Lehrerbund. A organização teve como primeiro líder Ostmark Hans Schemm, antigo ministro da cultura da Baviera e encontrava-se activa exclusivamente na Baviera, Saxónia e Turíngia. Mas, em 1929, estendeu-se por todo o Reich alemão (e comunidades no estrangeiro que faziam parte do Lebensraum alemão) com o seu objectivo de conquistar o poder político do Reich através do treino ideológico da causa nazi contra organizações de ensino no Reich controladas por liberalistas, democratas e marxistas (Waibel, 2010: 15). O NSLB foi criado como uma organização que fazia parte da luta nazi, que preenche a vida educacional alemã com as ideias e visões do nacional-socialismo, e que como tal deveria lutar contra as antigas associações de professores e educadores - baseadas no sistema da República de Weimar, que aos olhos dos nazis, teria denegrido a imagem da nação alemã e rebaixado o seu povo. 82 A expansão em massa, um objectivo urgente para o grupo, não tardou a chegar e com o aumento dos seus elementos, tal como em outras organizações, foi necessário criar vários grupos locais associados à NSLB e uma central dedicada às escolas no estrangeiro (Gau Ausland), com uma hierarquia própria. Em 1931, a associação contava com 2 mil membros, número esse que subiu rapidamente para 11 mil até Março de 1933, devido à ascensão ao poder do NSDAP e as suas promessas de melhores condições de trabalho (Waibel, 2010: 16). O grande objectivo da organização era formar um corpo escolar de teor nacionalsocialista, que abrangesse as faixas-etárias desde o jardim de infância até à universidade. Para reorganizar o sistema educativo alemão, seria necessário ter como pontos chave da campanha educacional os princípios de Hitler e a ideologia nacionalsocialista. E tal só seria possível se os professores se mantivessem, mais do que nunca, fiéis à natureza e nacionalidade alemã, protegendo o sistema educativo de quaisquer influências nocivas (Ibidem: 18). Uma das principais funções das unidades no estrangeiro era informar o Reich de todas as actividades nas escolas. Dirigentes e outros postos, seriam escolhidos com base nos relatórios recebidos no Reich. Era exigido absoluta devoção e submissão ao regime e ao Führer, pois qualquer tentativa de oposição levaria a uma intervenção imediata. Se as declarações ou relatórios dos líderes do grupo escolar contivessem informações incriminatórias sobre as actividades de professores, estes seriam excluídos do NSLB. Como exemplo, a professora Luise Herrmann e o director Alexander Necker, da Escola Alemã de Caracas, foram excluídos do NSLB por serem vistos como oponentes do movimento nacional-socialista (Waibel, 2010: 41). Todos deveriam trabalhar no exterior com o objectivo proteger a população alemã de quaisquer influências perigosas e de “combater” para a manutenção do génio alemão pelas próximas gerações. Ainda que existisse alguma urgência no processo de Gleichschaltung, dentro da NSLB, como na maioria das organizações no estrangeiro, foi necessário manter algum nível de descrição de forma a evitar menções na imprensa. Como forma de controlar a informação passada para a comunidade estudantil, bem como para o exterior da mesma, foi utilizada uma revista intitulada Die deutsche Schule im Ausland criada em 1901 pelo professor Hans Amrhein (Ibidem: 20). Esta passou a trabalhar como instrumento de disseminação dos ideais a alcançar por professores e alunos, mantendo ainda toda a comunidade estudantil a par das actividades em toda a rede de escolas, dentro e fora do país. 83 Foi, igualmente, necessário manter a associação com antigas organizações de professores (pertencentes à antiga Auslandlehrerverband) activas no estrangeiro devido à sua boa reputação e nome que afastava qualquer proximidade ao sistema político, alemão (Ibidem, 2010: 26). O objectivo seria, aparentemente, o encobrimento de ligações ao partido nacional-socialista e as alterações dentro do sistema educativo, bem como projectos e actividades no seio administrativo do mesmo, de forma a manter a simpatia e confiança dos governos locais e da população em geral. Ao contrário do que acontecia no passado, durante o comando nazi, decisões que envolvessem as escolas eram negociadas entre organizações estatais como das Auswärtige Amt, o conselho do povo alemão, a direcção de propaganda do Reich, die Auslandorganisation do NSDAP, organizações eclesiásticas e a academia alemã. As escolas no estrangeiro eram agora um assunto de estado, tratado com a maior importância e cuidado, enquanto parte da sua política externa. A correlação directa entre a NSLB e o partido torna-se cada vez mais forte e evidente com a nomeação do novo líder da Gau no estrangeiro em 1934; Emil Ehrich, mantinha simultaneamente um cargo como adjunto do dirigente da Auslandorganisation do NSDAP (Ernst Wilhelm Bohle). A sua dupla posição demonstra a crescente proximidade entre a instituição e a AO e a consequente pretensão do partido nacionalsocialista de controlo e liderança sobre todos os alemães que habitam no estrangeiro. De forma a cumprir a missão proposta para as escolas alemãs e “purificar” o seu sistema, foram criados 11 campos de treino para professores a exercer dentro e fora do país. Só podiam frequentar tais campos professores que fizessem parte do NSLB ou estivessem afiliados ao partido Nacional-Socialista. O primeiro destes campos foi apresentado em 1934 na Mainzer Zitadelle, no Rhein-Mainisches Bildungsstätte, e teve a duração de 14 dias. Os professores deveriam adquirir durante estes “cursos” o espírito da nova Alemanha, sendo treinados com base na visão nacional-socialista. Durante estes “campos de treino”, eram tratados temas como história local, folclore, pré-história e ciência racial. Entre os temas, o mais importante seria o culto do corpo, essencial para os alunos, requerido como actividade diária aos professores participantes destes campos (Waibel, 2010: 112). Os campos tinham um carácter puramente propagandista. Durante os 14 dias em que estes decorriam, os professores eram “bombardeados” com todo o tipo de material 11 Já existiam cursos de preparação para professores durante a República de Weimar no Instituto Alemão de Estrangeiros em Stuttgart. 90 imensas reclamações por parte dos pais, ter o bazar sem quaisquer bandeiras. Tal atitude levou a que o embaixador e a sua esposa, que retinham a presidência honorária, não comparecessem à ocasião (Waibel, 2010: 187). O “cumprimento alemão” ou “saudação de Hitler” começou a ser utilizado nas escolas estrangeiras muito cedo. Apesar de ter sido aprovado um decreto que pretendia o uso do cumprimento entre Reichdeutschen fora das escolas e outras instituições, era necessário evitar qualquer incidente com autoridades locais. Se algum país tivesse ordens policiais que proibissem a sua utilização, estas deveriam ser acatadas. Noutros países, o cumprimento era utilizado pelas missões diplomáticas quase como um sinal de obediência. A delegação em La Paz, por exemplo, aplicou a saudação para qualquer membro das missões estrangeiras lá e clubes locais. As escolas na Bolívia observavam que o cumprimento era utilizado entre professores alemães e outros alemães e até mesmo com alunos não-alemães (Ibidem: 188). Festividades, por sua vez, eram utilizadas para fins de propaganda. A convicção e ideologia nazi eram o foco das comemorações. Este tipo de festa nas escolas era visto como uma óptima forma de fortalecer o espírito comunitário entre os alunos. Os festivais escolares contavam com jogos, música, dança e exercícios físicos com elementos culturais alemães e do país de acolhimento. O objectivo era recolher fundos e incentivar o espírito colectivo entre os estudantes. Era importante a participação dos alunos e pais do país anfitrião, para que estes desenvolvessem uma compreensão da natureza alemã e servindo, de forma geral, como um meio de mútuo entendimento e despertar de uma consciência nacional própria. Um feriado central nas celebrações anuais era o aniversário de Hitler no dia 20 de Abril. Esta era uma celebração simplista que contava com a reprodução do discurso de Hitler aquando da anexação da Áustria ao Reich. Em algumas escolas o discurso era acompanhado de declarações de lealdade ao Führer por parte de alunos e professores. O dia do solstício, dia de importância religiosa para os circuitos pagãos, era utilizado pelo regime nazi como um festival pseudo-religioso de celebração à juventude alemã. Foi publicado um artigo na revista Die deutsche Schule im Ausland de Herbert Koch, intitulado “Sonnwend-Feuerrede an eine auslanddeutsche Kolonie” – termo colónia utilizado para referir as comunidades germanófonas – com o objectivo de explicar toda a simbologia por detrás da data. Este simbolizaria a vida e a morte, através da roda do sol, símbolo do movimento nacional-socialista (Waibel, 2010: 210). Outras datas celebradas nas escolas estrangeiras eram: der Reichgründungstag 91 (18 de Janeiro de 1871); o dia de tomada de posse do partido nazi (30 de Janeiro); o dia da mãe (11 de Maio); memorial de Leo Schlageter, reconhecido como o primeiro soldado do Terceiro Reich (26 de Maio); “retorno” do território de Saarland ao Reich alemão; nascimento de Schiller (10 de Novembro). As escolas alemãs, que se encontravam no mesmo país, celebravam festivais escolares conjuntos. A associação escolar de Buenos Aires, à qual pertenciam 17 escolas alemãs, organizou um festival escolar colectivo em 4 de Abril de 1936. As Escolas do distrito de Los Lagos no Sul do Chile celebraram a 7 de 8 de novembro de 1936, um festival da escola além que foi um sucesso enquanto evento de propaganda, por combinar em si todos os elementos dos governantes alemães (Waibel, 2010: 213). 4.2.4. Grupos estudantis Organizações como a juventude hitleriana, eram os espaços de socialização mais importantes na vida das crianças nacional-socialistas. Quando o NSDAP subiu ao poder, a participação nestas organizações era voluntária, mas na prática os jovens eram obrigados a tornar-se membros. Se estes não se juntassem poderiam, em alguns casos, ser expulsos da escola. E com a expansão do grupo em várias actividades juvenis, o partido decidiu que qualquer jovem que pretendesse juntar-se a um clube desportivo teria de ser mesmo da juventude hitleriana. Todas as organizações juvenis têm como objectivo treinar os seus membros a nível físico, mental e moral dentro do espírito nacional-socialista, para o serviço da comunidade nacional. A educação extracurricular era um elemento extremamente importante para os jovens no estrangeiro, e por isso inúmeras células locais e subdivisões da juventude hitleriana e outras instituições foram fundadas. Estas passaram a ser fundamentais na transmissão dos conceitos nazis, fora do horário escolar. Existiam, no entanto, outros grupos estudantis, de expressão muito semelhante à juventude hitleriana, muitos considerados, com base na ideologia nazi, inferiores. Para além de jogos, desporto e viagens, a partir de 1934 muitas crianças estrangeiras eram levadas ao Reich para experienciar a Vaterland e as conquistas da nova Alemanha. De forma geral, os grupos juvenis deveriam ser o berço de germinação do movimento nazi no exterior (Waibel, 2010: 197). 92 Apesar da pressão para aderir a estes grupos, os alunos no estrangeiro nem sempre se juntavam à juventude hitleriana. O motivo passava pela visão negativa de alguns pais face a organizações associadas ao partido nazi e o efeito externo que poderia ter. Os alunos da escola de Porto Alegre no Brasil, juntaram-se num grupo chamado die Deutschen Jungenschaft, que era ideologicamente muito próxima à juventude hitleriana, tendo a figura de Hitler como líder “espiritual”. No entanto, este incluía não só soldados alemães, como também heróis nacionais brasileiros como exemplos a seguir (Waibel, 2010: 202). No outono de 1933, o Grupo Nacional do NSDAP na Guatemala iniciou a fundação de um grupo de jovens alemães liderado por um professor. Neste grupo só eram aceites crianças puramente alemãs. Esta regra levou a um grande descontentamento dentro do grupo de pais dos alunos estrangeiros. O ministro alemão na Guatemala (Kuhlmann), sugeriu ao representante de Estado, que o líder do grupo fosse substituído, proibindo a participação de professores das escolas alemãs, mas, apesar dos seus esforços, a resistência contra o grupo só se veio a intensificar mais. Os pais dos alunos não-alemães consideraram até retirar os seus filhos da escola. Foi decidido, como forma de apaziguar a situação, que este grupo fosse convertido num outro grupo, desta vez de escuteiros alemães, cuja entrada seria aberta para todas crianças da escola (Ibidem: 204-6). Os grupos do Chile, Paraguai e Uruguai e integrantes da Juventude hitleriana no Brasil fizeram uma viagem, em 1935, para a Alemanha, que foi alvo de grande divulgação da imprensa pró-nazi. No total foram enviados 150 meninos e 20 meninas. Em Julho de 1935, eles chegaram a Hamburgo e foram recebidos enquanto convidados da Juventude Hitleriana do Reich. Os jovens voltaram ao Brasil apenas três meses depois. O jornal Deutscher Morgen acompanhou com entusiasmo a excursão, publicando relatos apaixonados dos meninos. Muitos dos seus relatos demonstram o fascínio que o nacional-socialismo tentava exercer sobre as massas e a intensa divulgação desta viagem foi utilizada como propaganda do partido (Dietrich, 2007: 302). 4.3. Encerramento de instituições No final dos anos trinta, as escolas alemãs pareciam ir de vento em poupa com a 93 construção de novos edifícios e inauguração de novas escolas. Em 1937 a escola Fridericus em Buenos Aires recebeu um novo edifício, bem como a escola de Santa Anna no Brasil, e a escola de Valparaíso, Chile, inaugurou uma nova escola. Até 1940 mais escolas foram fundadas no Uruguai, Chile, México e Venezuela. Das Auswärtige Amt continuava a apoiar a construção destes edifícios apenas para mostrar o prestígio do Terceiro Reich aos estados em questão, apesar do clima de guerra, e expressar a imagem da nova Alemanha. No entanto, estas demonstrações de poder não durariam muito mais após o início da guerra em 1939. No Brasil, os decretos-lei de Getúlio Vargas de 1938 que promoviam a nacionalização de empresas e escolas estrangeiras atingiram as escolas alemãs. Em Santa Catarina, 79 escolas alemãs foram transformadas em escolas municipais, passando a lecionar em português. Em 1942, quando acontece o corte de relações diplomáticas entre os dois países, todos os professores alemães tiveram de abandonar as escolas, dando um fim às escolas alemãs no Brasil (Dietrich: 2007: 297). Na maioria dos casos, os encerramentos coincidiram com a declaração de guerra do Terceiro Reich com o país em questão – no caso da América Latina, quase todos aconteceram em 1942 – ou vice-versa. As escolas eram confiscadas pelo país de acolhimento ou administradas por agências de protecção diplomática do Terceiro Reich. Em alguns casos como em Buenos Aires (1941), quando o Reich temia uma declaração de guerra do país, enviava uma ajuda financeira para as escolas, de modo a que esta fosse capaz de sobreviver durante mais algum tempo. Na Argentina estas só encerraram realmente no início de 1945 com a apropriação de edifícios e bens das escolas e associações por parte do governo nacional (Waibel, 2010: 335). Em 1941, a Colômbia corta relações com a Alemanha e emite ordens para o encerramento de todas as escolas até ao final de Janeiro. Apesar de edifícios e materiais estarem confiscados pelo estado, este juntamento com o sistema policial, autorizaram que estas lecionassem os seus alunos até ao final de 1946. Os estados do Centro e Sul da América, por sua vez, tomam medidas mais extremas ao criar listas negras (devido à pressão exercida pelos EUA e o Reino Unido), com nomes de indivíduos e empresas alemãs, que obrigavam à remoção dos mesmos do círculo social do país. Muitos professores foram exilados para os EUA e o Reino Unido. Noutros casos, como o Chile, as escolas não encerraram, mas sofreram alterações no seu currículo. O Ministério da Educação chileno exigiu que a língua nacional passasse a ser a língua de instrução, passando o alemão a ser a primeira língua 94 estrangeira e o francês a segunda. Em 1943, o estado chileno ainda considerava as escolas alemãs como cooperadoras na função educacional do estado, adaptando o seu currículo na totalidade ao currículo estatal (Waibel, 2010: 367). Algumas escolas continuaram a funcionar após o fim da Segunda Guerra Mundial; quatro dessas escolas estavam localizadas na Argentina e no Chile, quase todas as escolas continuaram as suas funções normais após o fim do conflito. No Uruguai, estas foram também capazes de sobreviver mais alguns meses após a guerra. As escolas alemãs foram criadas com um propósito nobre de assistir na educação das crianças germânicas noutras partes do mundo, ajudando a manter as suas raízes culturais. Este circuito, apoiado maioritariamente por instituições privadas, revelou-se de uma força e sucesso imenso, o que levou, mais tarde, o governo de Hitler a aproveitá-lo como uma infra-estrutura de propaganda e controlo sobre a camada mais jovem e, consequentemente, os seus pais. Apesar de alguns países contarem com números reduzidos de alunos, é impossível calcular (devido à falta de mais documentação) o verdadeiro impacto que estas escolas exerceram nas comunidades alemãs nestes países, como também nos seus vizinhos não-alemães. O seu carácter desafiador, quanto a algumas regras e à exposição excessiva da sua afiliação nacional-socialista, foi causa para inúmeros problemas para as crianças que frequentavam estas escolas e as suas famílias, que se viram perseguidas e, em muitos casos, acabaram por renegar a sua língua e cultura pela sua segurança – tendo assim o efeito oposto. O tema tem uma grande importância para a investigação devido ao teor propagandístico das escolas, que abrangia não só alunos alemães, como também latinoamericanos. Este sistema pode ser considerado como uma base inicial de penetração cultural e ideológica nestes países, que tendo sido explorada de forma diferente, de modo a garantir uma expansão e exposição mais prolongada sob uma camada tão jovem e influenciável, poderia trazer, a longo prazo, consequências possivelmente perigosas para os estados em questão. 95 Conclusões O presente trabalho analisou o caminho percorrido pelo colonialismo de forma a avaliar a influência da Alemanha nacional-socialista na América Latina. Deste modo, os argumentos que foram brevemente explorados sobre o termo colonialismo e sobre a forma como este se desenvolveu ao longo do tempo, guiaram a investigação realizada. Com base na seguinte pergunta de partida: de que modo os esforços de expansão cultural e científica do governo nacional-socialista nos países latino-americanos podem ser considerados como fazendo parte de um projecto colonial? A investigação procurou averiguar as seguintes hipóteses: - Hipótese 1: O fenómeno observado através da expansão cultural e científica do governo nacional-socialista na América Latina tenta emular o movimento de expansão e colonização recorrente durante o período de guerra nos países da Europa de Leste. - Hipótese 2: Esta expansão seria uma tentativa de angariação de aliados extrarregionais. Partindo das hipóteses apresentadas, a pesquisa foi dividida em quatro capítulos explorando duas áreas distintas: O colonialismo e a visão alemã do mesmo e as relações Alemanha-América Latina com foco principal nas instituições escolares alemãs nos países latino-americanos. No capítulo 1 observaram-se as teorias associadas ao colonialismo, abordando temas como o colonialismo, imperialismo e neo-colonialismo, de forma a atender se os comportamentos e modos de relacionamento entre a Alemanha e os países da América Latina se podem enquadrar em qualquer um dos conceitos tratados. No capítulo 2, foram tratadas as fantasias alemãs face aos impérios coloniais europeus, a opinião sobre o novo mundo e os seus habitantes, as suas pesquisas e ambições por império próprio, bem como as suas críticas à forma de colonização dos seus vizinhos europeus. No capítulo 3, analisaram-se as relações entre Alemanha e América latina, desde os seus primeiros contactos durante o período de exploração dos novos continentes, passando pelas vagas migratórias no século XIX onde milhares de alemães decidiram fixar-se nos países latino-americanos, até à evolução das comunidades criadas durante estas migrações quer no período da República de Weimar quer durante o regime Nacional-Socialista. No capítulo 4, trataram-se as escolas alemães como parte integrante das relações entre nações, tendo em consideração todas as mudanças desde o seu começo no século XIX, até ao fim do regime nazi em 1945. Foram analisadas todas as formas como estas foram utilizadas em 96 benefício do governo alemão, especialmente no final da República de Weimar e durante o governo de Hitler, e o impacto que estas tiveram nos países onde se localizavam, bem como na sua população. Durante o período de descoberta, os estados alemães viram-se de parte, não sendo capazes de investir em expedições estatais para as novas terras. Apenas se realizou uma tentativa, de foro privado, por parte da companhia mercantil Welser, tendo um fim bastante traumático para os alemães e o seu orgulho nacional. No entanto, estes nunca deixaram de ter todo um imaginário focado no seu desejo colonial que se manteve sempre vivo de todo o tipo de literatura. A América Latina parecia trazer um interesse especial devido aos rumores de grandes riquezas, bom clima, solo fértil e descrições maravilhosas dos seus nativos. O sub-continente manteve-se sempre no imaginário colonial dos alemães, mas nunca lhes foi possível alcançá-lo. Nos finais do século XIX, devido à grande crise económica, milhares de alemães decidiram emigrar para a América Latina, pois devido aos inúmeros relatos sobre as suas terras e gente, este parecia ser o local mais apropriado para si. Rapidamente se criaram centenas de comunidades germanófonas e todo o tipo de organizações e infraestruturas. Uma das mais importantes infraestruturas eram as escolas de língua alemã, pois os alemães não pretendiam assimilar-se totalmente à cultura do seu país de acolhimento, e pretendiam ensinar às gerações mais jovens a sua língua e cultura de origem. Estas comunidades sofreram grandes desenvolvimentos devido às classes mercantis que faziam parte das mesmas, trazendo grandes oportunidades de negócio entre a pátria mãe e o seu país de acolhimento. Foram também estas classes que ajudaram a criar e manter as escolas e todas as restantes associações dentro das comunidades, visto que o estado alemão olhava para estes emigrantes como traidores da pátria, que não mereciam ser apoiados. Este posicionamento do governo alemão manteve-se até aos primeiros anos da República de Weimar. Bismarck, alguns anos após tomar posse, reconhece as vantagens económicas e diplomáticas que estes emigrantes poderiam trazer para a pátria, decidindo iniciar apoios para proteger os Auslanddeutsche e os ajudar a manter o seu Deutschtum (coisa que estes já faziam por si mesmos há muitos anos). Esta ajuda concentrou-se também nas escolas, mas visto não ser o suficiente para sobreviverem, estas abrem as suas portas a alunos não-alemães iniciando, assim, uma troca cultural com as populações dos seus países anfitriões. Durante o regime nazi, Hitler deu enorme importância a estes emigrantes e às 97 suas infra-estruturas. Este aproveitou os lucros económicos provenientes da relação forte com os países da América Latina, utilizando, ainda, as escolas para doutrinar as comunidades e tentar chegar às suas áreas envolventes, e aumentar as relações diplomáticas com estes países. Por outras palavras, os Auslanddeutsche e as escolas alemãs nestes países, eram uma “arma” de extrema importância na política externa alemã com a América Latina (tendo em consideração que a grande maioria das escolas alemãs no estrangeiro se localizavam na América Latina, e que as escolas no Leste da Europa não eram conotadas como escolas estrangeiras). Apesar da grande ajuda do estado para as escolas, e o afastamento das mesmas e de qualquer outra organização estatal de assuntos políticos dos países de acolhimento, as reformas preformadas nas escolas levaram a algumas comoções, impossibilitando algumas acções do regime. No fim, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o crescimento dos movimentos nacionalistas na América Latina, levaram a uma grande desconfiança face aos alemães. Entre 1941-1942, com declarações de guerra de ambas as partes, maioria das escolas alemãs encerraram, e as comunidades alemãs viram-se privadas de utilizar a sua língua e cultura por receio de represálias. Neste sentido, tanto a primeira hipótese que afirmava que “o fenómeno observado através da expansão cultural e científica do governo nacional-socialista na América Latina tenta emular o movimento de expansão e colonização recorrente durante o período de guerra nos países da Europa de Leste” como a segunda hipótese que refere: “esta expansão seria uma tentativa de angariação de aliados extrarregionais” puderam ser, parcialmente, validadas através dos três capítulos que foram aqui apresentados. Apesar de haver várias suspeitas em alguns relatos, discursos e literatura explorados, nomeadamente, nos Capítulos 3 e 4, o que se verificou é que existem poucos indícios que permitam corroborar, inteiramente, qualquer uma das hipóteses. O que se verificou é que a relação entre a Alemanha e a América Latina tinha contornos coloniais, mas devido à falta de documentação e resultados neste sentido, não é possível confirmá-lo de forma absoluta. Através da informação trabalhada, podemos perceber que as relações entre a Alemanha e a América Latina, não se enquadram num quadro clássico de colonialismo. O mesmo é válido no que diz respeito à Europa de Leste, apesar de as suas relações demonstrarem um carácter agressivo e autoritário. Enquanto que na Europa de Leste, a ocupação deu-se através da força militar, na América Latina não se regista ocupação à força, no entanto, é notória uma tentativa de construção de um império informal. Em 98 termos teóricos os comportamentos das comunidades alemãs na América Latina, bem como do governo alemão, mostram elementos que se enquadram em vários conceitos, mas nunca na totalidade. Segundo Young (2011), a colonização, ao contrário do que se pensa, não envolve exploração de terras, riquezas e nativos, mas sim uma transferência de comunidades, para uma melhoria do seu nível de vida, que mantém a sua cultura original, como é o caso dos alemães. No entanto, esta transferência não se dá a uma escala que a população nativa esteja em desvantagem face aos recém-chegados alemães, ou vejam a sua cultura ser exacerbada pela cultura do outro. Imperialismo por sua vez é um conceito que tem como base a diferença entre “nós” e o “outro”, tendo grande incidência no domínio de uma raça superior para com uma raça inferior, exercendo poder estatal nas áreas conquistadas e criando um centro metropolitano. O regime nacional-socialista tinha como base a doutrina racial, e transportava-a, bem como ao seu poder estatal, para os países sul-americanos de uma forma informal, através de organizações e escolas, ligadas ao partido, dentro das comunidades. As relações económicas existentes entre os dois continentes, apesar de muito fortes, não levam a uma dependência económica total de nenhuma das partes, não se tratando, portanto, de um caso de neo-colonialismo. É certo de que a Alemanha considerava a América Latina um paraíso e o local perfeito para a vivência da população alemã, mantendo o sub-continente no seu imaginário colonial por séculos. Contudo, Hitler nunca foi publicamente vocal sobre qualquer vontade de colonizar a América Latina, ainda que existam relatos de conversações privadas, as quais não se reconhece até hoje a sua verosimilhança, sendo difícil saber as reais intenções do ditador para com estes países. No que diz respeito à sua vontade de manter a América Latina como aliada em caso de guerra, esta teoria poderia ser possível durante a época entre o pós primeira guerra e a tomada de posse do partido Nacional-Socialista. Mas, após as alterações aplicadas pelo partido nacional-socialista em instituições e organizações nas comunidades, e principalmente nas escolas, onde existia um grande número de crianças não-alemães (algumas delas ultrapassavam o número de estudantes alemães), levou a diversas comoções, que consequentemente deixaram as populações e os governos nacionais desconfiados do regime, desconfiança essa que só piorou com as pressões vindas dos EUA e do Reino Unido. Sendo as sus intenções, impossíveis de confirmar, as suas atitudes apontam para um descuido para que tal cenário de aliança fosse 99 possível. Em suma, a América Latina, constituiu ao longo do tempo, um “império informal” da Alemanha, que veio a sofrer metamorfoses ao longo dos séculos, especialmente entre os séculos XVII e XX, tendo um carácter ora económico, ora cultural, ora militar; nunca se moldando a um padrão colonial clássico, ao contrário de outras potências coloniais, trazendo aos alemães a distinção que sempre procuraram face ao estilo colonial, muito criticado, dos seus “rivais”. O presente trabalho de investigação procura contribuir para uma exploração mais detalhada e completa de um debate que precisa de ser enriquecido sobre o colonialismo alemão e a sua actuação na América Latina. Visto que o tema não se esgota nesta investigação e apresenta ainda várias áreas por explorar, este pode e deve ser considerado como amostra para investigações futuras. 106 the Rendsburg Colonial School for Women. Central European History 49(2): 181–207. Sanke, H. (1966) Der deutsche Faschismus in Lateinamerika 1933-1943. 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