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O combate à desinformação: qual o papel das bibliotecas?

Carrusca, Mónica Filipa Claro

Abstract

A sociedade atual digitalizada e hiperconetada expõe fragilidades nunca antes conhecidas. Nos últimos anos, assistiu-se a uma expansão súbita do fenómeno da desinformação, que se repercutiu negativamente em todo o mundo. A União Europeia, em parceria com diferentes instituições, tomou medidas de combate à desinformação no pleno reconhecimento de que esta é uma ameaça ao paradigma de sociedade livre e democratizada. A desinformação é transformada em info weaponization e põe em risco os valores éticos e de liberdade em que assenta a democracia. As bibliotecas têm um papel a desempenhar para a consciencialização e mitigação da desinformação. O presente estudo tem como objetivo responder às seguintes perguntas sobre as bibliotecas e profissionais de informação em relação à desinformação: (Q1) Qual o seu compromisso ético?, (Q2) Quais as suas práticas? e (Q3) Qual o seu papel no combate à desinformação? A partir de uma Revisão Sistemática da Literatura entre 2017 e junho de 2021, foi recolhida uma amostra final de 42 documentos, cujo processo está documentado utilizando o fluxo PRISMA. Os resultados demonstram que as bibliotecas, sendo instituições de conhecimento, devem continuar a promover a prática de cidadania e aderir ao novo conceito de «construção de comunidades», bem como alinhar-se com as recentes políticas de combate à desinformação, como o Plano de Ação Contra a Desinformação (PACD). Propomos que o perfil dos PI encontra-se em transformação e em plena expansão e que o código ético de conduta dos PI poderá vir a sofrer alterações que se adequem ao PACD, e, em Portugal, à Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital (CPDHED) (2021). Da nossa RSL, concluímos que a maioria dos autores reconhece a desinformação como um problema sistémico, apontando fatores como information bias, filter bubbles, pensamento crítico, entre outros, como obstáculos para a deteção da informação falsa. A maioria dos autores centra-se na implementação de programas de Literacia Informacional para mitigar o problema, sendo que estas práticas foram categorizadas usando o quadro de Revez & Corujo (2021).

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O Combate à desinformação: Qual o papel das Bibliotecas? Mónica Filipa Claro Carrusca Dissertação de Mestrado em Gestão e Curadoria da Informação Orientadora: Profª. Doutora Paula Alexandra Ochôa de Carvalho Telo Nota: Mónica Carrusca nº58006, O Combate à Desinformação: Qual o papel das bibliotecas? agosto 2021 -Encadernação térmicaAgosto, 2021 O Combate à desinformação: Qual o papel das Bibliotecas? Mónica Filipa Claro Carrusca Dissertação de Mestrado em Gestão e Curadoria da Informação Orientadora: Profª. Doutora Paula Alexandra Ochôa de Carvalho Telo Nota: Mónica Carrusca nº58006, O Combate à Desinformação: Qual o papel das bibliotecas? agosto 2021 -Encadernação térmicaAgosto, 2021 Faculdade de Ciências Sociais e Humanas NOVA IMS Information Management School Universidade Nova de Lisboa O COMBATE À DESINFORMAÇÃO: Qual o papel das bibliotecas? Por Mónica Filipa Claro Carrusca Orientadora: Prof. Doutora. Paula Ochôa Agosto 2021 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Gestão e Curadoria de Informação realizada sobre a orientação científica da Professora Doutora Paula Alexandra Ochôa de Carvalho Telo DECLARAÇÃO Declaro que esta Dissertação é o resultado da minha investigação pessoal e independente. O seu conteúdo é original e todas as fontes consultadas estão devidamente mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia. A candidata, ____________________ Lisboa, 30 de agosto de 2021 Declaro que esta Dissertação se encontra em condições de ser apreciada pelo júri a designar A orientadora, ____________________ Lisboa, 30. de agosto de 2021 À minha família e em especial ao meu avô. AGRADECIMENTOS Processo (do latim procedĕre) significa a ação de avançar de ir para a frente. O trabalho alcançado na presente dissertação decorreu de um longo processo, permeado por diversos impasses, desafios, tristezas e incertezas sobre a direção em que se avançava. Um processo solitário e infindo, que exigiu aprendizagem e disciplina e que contou com o apoio e contributo de várias pessoas importantes. Agradeço profundamente a orientação e aconselhamento da Professora Doutora Paula Ochôa. Sem esses encontros frutíferos e sem a nossa agitada troca de e-mails, haveria o risco de eu não avistar além-mar durante este processo tão intenso. A sabedoria incita à procura de aprofundamento, e agradeço a curiosidade, que já naturalmente me caracteriza, ter sido sempre estimulada e apreciada nesse sentido. Também agradecer aos docentes do Mestrado em Gestão da Informação e Curadoria da NOVA FCSH/ IMS, que foram fundamentais para a execução deste processo, já que ele começou antes da primeira linha ter sido escrita: Profº Doutor Carlos Tam, Profª Doutora Manuela Aparício, Profº Doutor Paulo Leitão, Profª Doutora Rosa Galvão e Profª Doutora Alexandra Lourenço. Gostaria ainda de agradecer aos colegas de Mestrado pelos trabalhos realizados em colaboração bem-sucedidos, que nos prepararam para este processo e com quem existiu uma partilha de dúvidas e incertezas, mas também de ideias e impressões enriquecedoras. Por fim, agradecer à minha família pelo apoio positivo e em especial ao meu avô, historiador náutico, que influenciou quem sou para sempre e que estaria orgulhoso de me ver entregar o resultado escrito deste processo tão denso. De ti guardarei sempre uma memória vívida, obrigado avô. Obrigado a todos por participarem direta ou indiretamente no resultado deste processo! i RESUMO A sociedade atual digitalizada e hiperconetada expõe fragilidades nunca antes conhecidas. Nos últimos anos, assistiu-se a uma expansão súbita do fenómeno da desinformação, que se repercutiu negativamente em todo o mundo. A União Europeia, em parceria com diferentes instituições, tomou medidas de combate à desinformação no pleno reconhecimento de que esta é uma ameaça ao paradigma de sociedade livre e democratizada. A desinformação é transformada em info weaponization e põe em risco os valores éticos e de liberdade em que assenta a democracia. As bibliotecas têm um papel a desempenhar para a consciencialização e mitigação da desinformação. O presente estudo tem como objetivo responder às seguintes perguntas sobre as bibliotecas e profissionais de informação em relação à desinformação: (Q1) Qual o seu compromisso ético?, (Q2) Quais as suas práticas? e (Q3) Qual o seu papel no combate à desinformação? A partir de uma Revisão Sistemática da Literatura entre 2017 e junho de 2021, foi recolhida uma amostra final de 42 documentos, cujo processo está documentado utilizando o fluxo PRISMA. Os resultados demonstram que as bibliotecas, sendo instituições de conhecimento, devem continuar a promover a prática de cidadania e aderir ao novo conceito de «construção de comunidades», bem como alinhar-se com as recentes políticas de combate à desinformação, como o Plano de Ação Contra a Desinformação (PACD). Propomos que o perfil dos PI encontra-se em transformação e em plena expansão e que o código ético de conduta dos PI poderá vir a sofrer alterações que se adequem ao PACD, e, em Portugal, à Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital (CPDHED) (2021). Da nossa RSL, concluímos que a maioria dos autores reconhece a desinformação como um problema sistémico, apontando fatores como information bias, filter bubbles, pensamento crítico, entre outros, como obstáculos para a deteção da informação falsa. A maioria dos autores centra-se na implementação de programas de Literacia Informacional para mitigar o problema, sendo que estas práticas foram categorizadas usando o quadro de Revez & Corujo (2021). Palavras-chave: Desinformação, Bibliotecas, Profissionais da Informação, Revisão Sistemática da Literatura, Literacia Informacional, Ética da Informação ii ABSTRACT In the recent years there has been a sudden expansion of the phenomenon of disinformation, which had negative repercussions throughout the world, and the current digitalized and hyper-connected society exposes fragilities never seen before. The European Union, recognizing disinformation as a threat to the paradigm of a free and democratized society, partnered with different institutions to take measures to fight it. Disinformation is transformed into info-weaponization and jeopardizes the ethical values and freedom on which a democracy is based. Libraries play a role in spreading awareness and mitigating disinformation. This study aims to answer the following questions about libraries and Information Professionals concerning disinformation: (Q1) What is their ethical commitment?, (Q2) what are their practices to fight it?, and (Q3) what is their role in fighting disinformation? From a Systematic Literature Review (SLR) from 2017 to June 2021 a final sample of 42 documents was collected, whose process was documented with the PRISMA flow chart. The results show that libraries, as knowledge institutions, should continue to promote citizenship and adhere to the new concept of «community building» as well as aligning themselves with recent policies to combat disinformation, such as the Action Plan Against Disinformation (APAD). We propose that the profile of the IP is changing and expanding, and that the ethical code of conduct of these professionals may undergo changes that fit the APAD, and in Portugal, the Portuguese Letter of Human Rights in the Digital Age (PLHRDA) (2021). From our SLR, we conclude that most authors recognize disinformation as a systemic problem and point out confirmation bias, filter bubbles, critical thinking, among others, as obstructors to the process of distinguishing false information. Most authors focus on implementing Information Literacy programs to mitigate the problem; these practices were categorized using the Revez & Corujo framework (2021). Keywords: Disinformation, Libraries, Information Professionals, Systematic Literature Review, Information Literacy, Information Ethics 1 1. Introdução No contexto atual de incerteza e instabilidade que vivemos devido à pandemia COVID19 1 , aceder a informação fidedigna de forma a acompanhar o desenvolvimento da pandemia e as medidas em vigor implementadas pelos governos tornou-se uma necessidade basilar e transversal a todos os cidadãos (UNESCO, 2021). A COVID-19 inaugurou uma crise socioeconómica à escala global e todas as esferas da vida estão em profunda transformação, o que não deixa ninguém indiferente, tornando ainda mais urgente a necessidade de combater a desinformação, que se tornou um problema sistémico acarretando riscos globais. A necessidade de acesso à informação é um direito fundamental; já em 1994 o manifesto da IFLA expressava objetivamente que «a participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória, como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação» (IFLA & UNESCO, 1994). Apesar de em 2016 o termo fake news ter alcançado uma grande popularidade, investigadores já tinham vindo a apontar a gravidade deste fenómeno alguns anos antes. Por exemplo, em 2013 no Global Risks Report do World Economic Forum (World Economic Forum, 2013) a desinformação foi considerada perigosa para o desenvolvimento saudável da sociedade, sendo apontada como um risco global e equiparada ao terrorismo ou aos ataques cibernéticos. No mesmo relatório do ano 2021 (World Economic Forum, 2021) a desinformação continua a ser um ponto fundamental a abordar: «The response to COVID-19 offers four governance opportunities to strengthen the overall resilience of countries, businesses and the international community: (1) formulating analytical frameworks that take a holistic and systems-based view of risk impacts; (2) investing in high-profile “risk champions” to encourage national leadership and international co-operation; (3) improving risk communications and combating misinformation; and (4) exploring new forms of public-private partnership on risk preparedness.» (p. 9 2021). 1 A civilização tem sido assolada por pandemias ao longo da sua existência. Uma pandemia é um surto de doenças infeciosas que afetam um grande número de pessoas em grandes áreas geográficas (Theilmann, 2020). O vírus Síndrome respiratória aguda grave coronavírus 2 (SARS-CoV-2) é o vírus responsável pelo surto da doença que se originou na China no final de 2019, o coronavírus 2019, ou COVID-19. Em poucos meses, o COVID19 espalhou-se em mais de 189 países e territórios e em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o surto da doença coronavírus 2019 (COVID-19) como uma pandemia global (Sheposh, 2021). 2 Mais adiante no mesmo documento (p.33 2021) lê-se o seguinte a propósito do impacto da «infodemia» 2 que se instalou desde o inicio da pandemia de COVID-19: «Widespread falsehoods and conspiracy theories hinder civic debate and consensus on critical political, public health and environmental issues. “Infodemics” surrounding COVID-19, for example, have impeded efforts to stem the physical damage from the disease— false information that ingesting highly concentrated alcohol kills SARS-CoV2 caused over 700 deaths and nearly 6,000 hospitalizations in Iran.» A desinformação afeta o pensamento crítico e a capacidade de julgamento, que, em última análise, orienta as decisões dos indivíduos, e, embora seja largamente utilizada para efeitos de propaganda política, tem-se revelado um modelo de negócio informacional lucrativo que gera receitas fáceis, pois quem publicar o tema mais viral, quem tiver mais cliques e quem gerar mais tráfego terá mais lucro (Pena, 2019). Assim, por parte de órgãos oficiais, já houve a tomada de uma posição ativa para combater a desinformação, nomeadamente a Comissão Europeia em 2018 com a publicação do «Plano Europeu de Ação contra a Desinformação» (High representative of the Union for Foreign Affairs and Security Policy, 2018) e o alinhamento com este da República Portuguesa com a publicação em Portugal da «Carta dos direitos digitais», que contempla o artigo 6º (“Decreto de Lei n.o 27/2021,” 2021), que prevê o direito da proteção contra a desinformação. A lei determina que o Estado deve assegurar o cumprimento, em Portugal, do Plano Europeu de Ação contra a Desinformação, para proteger a sociedade contra pessoas que produzam, reproduzam e difundam narrativas deste tipo e evitar os danos causados por este fenómeno. Exemplo disso é também a implementação e publicação de inúmeros fact-checks 3 , a existência nos telejornais de um espaço de verificação de notícias virais divulgadas nas redes sociais, Moocs 4 online e gratuitos, infografias, ferramentas online e, em suma, um 2 Infodemia do inglês infodemic, a partir de information, «informação» + epidemic , «epidemia». Tratase do fluxo excessivo de informações sobre um assunto– sobretudo se veiculadas por fontes não fidedignas – que, à maneira de uma epidemia, se multiplicam num curto período de tempo, gerando desinformação e tornando o esclarecimento mais difícil (Infopédia, 2021) 3 Factcheck é a Verificação dos factos, especialmente em algo que é publicado (Macmillan Dictionary, n.d.). Exemplos de websites ou ferramentas de fact-checking: https://weverify.eu/verification-plugin/; https://observador.pt/seccao/observador/fact-check/ ; https://www.poynter.org/media-news/fact-checking/; https://facta.news/; https://www.disinfo.eu/resources/tools-to-monitor-disinformation/; acedidos a 23/08/2021 4 Exemplos de Moocs: NAU: https://www.nau.edu.pt/pt/curso/fakenews-nao-se-deixe-enganar/; Future Learn: https://www.futurelearn.com/courses/combating-disinformation-and-fake-news; European School: https://www.europeanschoolnetacademy.eu/courses/course-v1:sml4change+SocMedLit+2019/about, acedidos a 23/08/2021 3 crescimento exponencial na investigação deste fenómeno, incluindo projetos que abordam estratégias e legislação das grandes empresas tecnológicas, e o desenvolvimento de grupos de trabalho transdisciplinares entre outras iniciativas 5 . Os profissionais de informação e as bibliotecas, enquanto instituições de conhecimento, podem desempenhar um papel relevante no combate à desinformação, sendo que as bibliotecas são descritas como «casas do conhecimento» por excelência pela UNESCO e IFLA, tendo como missão criar condições para o contínuo desenvolvimento dos cidadãos (IFLA & UNESCO, 1994). A União Europeia, em parceria com diferentes instituições, tem vindo a tomar medidas de combate à desinformação no pleno reconhecimento de que esta é uma ameaça ao paradigma de sociedade livre e democratizada. A info weaponization 6 ou o uso da informação para causar distúrbios sociais, manipular a opinião dos cidadãos e instalar o caos e a desconfiança, é uma realidade que põe em risco os valores éticos em que assenta a democracia. A desinformação é assim, atualmente um dos grandes desafios na sociedade de informação e o tema tem sido abordado em disciplinas tão diversas como Filosofia, Sociologia, Comunicação, Psicologia, Política, Estudo dos Média, Tecnologias, Ciência e Filosofia da Informação, Negócios, entre outras. Neste sentido, tratando-se de um problema transversal a várias disciplinas e não sendo possível desenvolver o tema da desinformação abarcando as diferentes perspetivas teóricas resultantes da investigação de cada disciplina respetiva, o nosso ponto de partida e contributo para alargar a compreensão sobre a problemática da desinformação é o posicionamento da Ciência e da Filosofia da Informação e dos seus principais contributos. Luciano Floridi na sua obra introdutória «Information: A very short introduction» (Floridi, 2010) é um dos precursores na concetualização da Filosofia da Informação (doravante FI) e a abordar o tema da desinformação como problema de investigação. São vários os autores nas áreas da FI e da Ciência da Informação (doravante CI) a aplicar uma abordagem «informacional» ao problema da desinformação. 5 https://www.disinfo.eu/; https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/policies/media-and-digital-culture 6 Weaponize e weaponization são neologismos que descrevem a ação ou processo de «tornar alguma coisa numa arma» (Rocha, 2006). O uso da informação como arma (ou no inglês info weaponizatin) para causar danos morais ou outros é um termo que começa a receber mais aderência 4 Karlova e Fischer apresentam em 2013 o seu modelo de difusão da desinformação para compreender o comportamento informacional humano (Karlova & Fisher, 2013). Fetzer deu continuidade para a discussão sobre a definição de desinformação, os tipos de desinformação existentes e, num exercício de lógica, esboçou considerações sobre o uso da informação falsa (Fetzer, 2004a, 2004b) Também Don Fallis se debruçou sobre esta problemática, procurando concetualizar e uniformizar o conceito de desinformação com o artigo de 2015 «What is Disinformation», (Fallis, 2011, 2014, 2015, 2020). Froehlich escreve sobre a ética da informação, onde inclui reflexões sobre a desinformação, informação falsa e outras formas de engano ou incompetência (T. Froehlich, 2017; 2021; 2020). Por fim, Obelitz Søe, num trabalho que analisa o dilema floridiano sobre a informação semântica e a definição de desinformação, desenvolve conceções sobre desinformação à luz da perspetiva de significado natural e não-natural de Paul Griece 7 (Søe, 2018, 2019a, 2019b, 2019c, 2021). As bibliotecas são instituições de conhecimento por excelência, onde os profissionais seguem um código ético profissional que visa garantir, acima de tudo, a disponibilização do conhecimento a todos de forma igual e inclusiva e o enriquecimento cultural da comunidade que servem (Farmer & Stricevic, 2011; IFLA, 2012). Os bibliotecários e profissionais da informação (doravante PI) têm garantido ao longo do tempo o acesso a informação de qualidade a partir do desenvolvimento de atividades como a catalogação ou a curadoria digital, e um serviço de referência direcionado às necessidades do utilizador. Esta característica única das bibliotecas, estendida aos PI que aí desenvolvem atividade, pode ser uma vantagem no que diz respeito à implementação de estratégias de combate relacionadas com a desinformação (Lim, 2020b). As Bibliotecas estão alinhadas com os objetivos de desenvolvimento sustentável 2030 8 (doravante ODS) e colocam em ação programas que promovem a literacia e as competências 7 https://plato.stanford.edu/entries/grice/#Aca, acedido a 23/08/2021 8 A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas é constituída por 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) com 169 metas e foi aprovada a setembro de 2015 por 193 membros. A Agenda 2030 foi resultado de um trabalho conjunto de governos e cidadãos para criar um novo modelo global que erradique a pobreza e a fome, promova a prosperidade, saúde, bem-estar e inclusão social, defenda o ambiente e combata a perda de biodiversidade terrestre e marinha, contribuindo assim para o desenvolvimento humano em harmonia com o seu ecossistema, promovendo os direitos humanos fundamentais e a igualdade de género. Os Objetivos e metas levarão ao estabelecimento de políticas e práticas nos próximos quinze anos em áreas de grande relevância para a humanidade e para o planeta. https://unric.org/pt/objetivosde-desenvolvimento-sustentavel/, acedido a 23/08/2021 5 digitais, temas que estão diretamente associados às questões em torno da desinformação. Neste seguimento, o presente estudo está circunscrito principalmente às bibliotecas, independentemente da sua tipologia, e aos seus utilizadores, onde procuraremos desenvolver uma compreensão sobre as propostas de ação levadas a cabo por estas instituições para combater a desinformação. A literatura recolhida ao longo deste estudo é essencialmente de origem anglo-saxónica, por três razões distintas: porque a estratégia de pesquisa utilizou termos em inglês; o inglês é a língua mais proeminente na produção científica global; e por fim, a paisagem conceptual e terminológica do campo da desinformação continua a ser maioritariamente moldada pelo mundo anglófono. Queremos perceber fundamentalmente qual é o entendimento que os bibliotecários e profissionais de informação (doravante PI) têm sobre o problema da desinformação e quais as estratégias de combate; por fim, compreender o contributo único destes profissionais para a consciencialização da desinformação nas comunidades em que se inserem. Entretanto, durante o nosso estudo, foi publicado um artigo de Revisão Sistemática de Literatura (doravante RSL) sobre um tema análogo e com questões de partida de bastante proximidade (Revez & Corujo, 2021). De forma a seguir esta linha de investigação, mas procurando ao mesmo tempo evitar a redundância na execução da nossa proposta, procurámos alargar as taxonomias associadas à desinformação, incluir os anos de 2017 e 2021 e procurar compreender o posicionamento ético dos PI. A dissertação é composta por seis capítulos dedicados à (2) missão das Bibliotecas, onde se introduz e caracteriza estas instituições de conhecimento bem como os PI; (3) contexto da desinformação, que visa contextualizar a desinformação sociologicamente e na perspetiva da CI; (4) metodologia e questões de investigação, onde são apresentados os objetivos do presente estudo, descreve-se a metodologia e apresenta-se o método desenvolvido e aplicado na RSL, seguido dos resultados obtidos; (5) RSL sobre o papel dos PI no combate à desinformação; e por fim, (6) contribuição teórica e limitações do estudo. As nossas questões de investigação para a RSL relativamente à desinformação centram-se no compromisso ético das bibliotecas e PI e nas estratégias práticas utilizadas em bibliotecas pelos PI para mitigar o problema. Para respondermos a estas questões formuladas sobre a participação e desempenho das bibliotecas e dos PI, efetuámos uma RSL utilizando o protocolo PRISMA (Moher et al., 2015) para documentar cada etapa. Da aplicação dos critérios 6 de inclusão e exclusão resultaram 42 documentos que serviram para responder às questões colocadas neste estudo, cujo processo está documentado a partir do fluxo PRISMA (Anexo D). Os resultados demostram que as bibliotecas enquanto instituições de conhecimento devem continuar a promover a prática de cidadania e aderir ao novo conceito de «construção de comunidades», bem como alinhar-se com as recentes políticas de combate à desinformação, como o Plano de Ação Contra a Desinformação (PACD). Entende-se que o perfil dos PI é um perfil em transformação e em plena expansão e que o código ético de conduta dos PI poderá vir a sofrer alterações que se adequem ao PACD, e em Portugal, à Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital (CPDHED) (2021). Da RSL, a maioria dos autores reconhece a desinformação como problema sistémico e aponta fatores como information bias, filter bubbles, pensamento crítico, entre outros, como obstáculos para a deteção de informação falsa. A maioria dos autores centra-se na implementação de programas de Literacia Informacional para mitigar o problema, sendo que estas práticas foram categorizadas usando o quadro de Revez & Corujo (2021). 7 2. A missão das bibliotecas «To me, it feels like the library is a place with a heart. It’s a place that wants the best for me, and where I’m not a product or customer.» - Man, 39 years (Roskilde Central Library, 2021) Em verdade, a história das bibliotecas começa com o advento da escrita e com a necessidade de armazenar e preservar documentos e mais tarde com a necessidade de organizá-los e disponibilizá-los. As bibliotecas existem por todo o mundo e são organizações criadas, mantidas e financiadas na sua maioria pelos governos ou instituições, sendo o seu principal objetivo o de providenciarem um conjunto de serviços, normalmente gratuitos e relacionados com aprendizagem, cultura e conhecimento, e que estão disponíveis a toda a comunidade (Koontz & Gubbin, 2013). Este trabalho procurou incluir na sua reflexão as diferentes tipologias de bibliotecas (escolares, universitárias, especialidade e públicas) mesmo sabendo que cada tipo apresenta especificidades e necessidades que diferem consoante a comunidade onde se inserem e as instituições que servem, que apresentam objetivos e visões que definem a sua estratégia de atuação. No manifesto da IFLA/ UNESCO de 1994 sobre as bibliotecas públicas pode ler-se: «A biblioteca pública — porta de acesso local ao conhecimento — fornece as condições básicas para a aprendizagem ao longo da vida, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais.» (IFLA & UNESCO, 1994) O Manifesto da IFLA dirigido às bibliotecas públicas (IFLA & UNESCO, 1994) descreve de forma sucinta as missões-chave das bibliotecas associadas à informação, cultura e literacia, e entre as quais encontramos, o papel de facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática e de criar programas de literacia para apoiar este desenvolvimento. As bibliotecas universitárias também estão alinhadas com estas missões associadas à informação, cultura e literacia, mas os seus serviços são destinados aos estudantes e ao pessoal docente das universidades, embora possam estar abertas ao público. O Grupo de 8 Trabalho das Bibliotecas do Ensino Superior da BAD, sublinham algumas recomendações prioritárias para o triénio 2020-2022 (BAD, 2020) : - Apoiar o ensino e a aprendizagem: reforçar as competências em LI, uso ético da informação, e desenvolvimento de competências digitais, bem como dinamizar espaços de aprendizagem e troca de conhecimento; - Apoiar a investigação, nomeadamente com a prática da Ciência Aberta, e prestar apoio ao longo do processo de publicação científica; - Desenvolvimento profissional; - Redes, cultura e património: estimular a oferta cultural e científica; assegurar a preservação e difusão do património; Também a declaração da IFLA sobre o posicionamento das bibliotecas para o desenvolvimento (IFLA, 2013) considera o acesso à informação um direito basilar que pode pôr fim ao ciclo de pobreza, afirmando que as bibliotecas (1) proporcionam oportunidades para todos; (2) que fortalecem as pessoas no seu próprio desenvolvimento; (3) que permitem o acesso ao conhecimento mundial; (4) oferecem aconselhamento especializado; (5) têm uma génese baseada em diversidade; e (6) devem ser reconhecidas como essenciais para o desenvolvimento político. Atualmente, uma tendência na visão sobre a missão das bibliotecas é que estas «constroem comunidades» (R. D. Lankes, 2020) e neste sentido vemos surgir movimentos como o Maker (American Library Association, 2014) associados às bibliotecas, onde é valorizada a troca de conhecimentos práticos a partir de oficinas, ou de iniciativas diversas que procuram dentro das comunidades onde se inserem estimular o diálogo (Biblioteca de Traducción y Documentación de la Universidad de Salamanca, 2017). Veja-se por exemplo a nova Biblioteca de Alcântara, em Lisboa, cujo conceito é ser «(…)uma biblioteca feita por pessoas e para pessoas» e vai ter disponível para a comunidade atividades como uma companhia de teatro comunitário, um coro juvenil e um espaço para exposições entre outros (BLX, 2020). Esta possibilidade das bibliotecas se envolverem com a comunidade através de serviços mais inclusivos possibilita um terreno para a descoberta criativa de potencial humano, para a autodescoberta, mas também para o desenvolvimento da reflexão crítica. 9 Vários estudos apontam o crescente investimento por parte das bibliotecas públicas e universitárias em ações de literacia associadas à desinformação e em particular às fake news (Auberry, 2018; Delellis & Rubin, 2018; T. Froehlich, 2017; Ireland, 2017; Lim, 2020a, 2020b; Revez & Corujo, 2021; Spratt & Agosto, 2017; Wade & Hornick, 2018) para citar apenas alguns. Neste sentido, o panorama desinformacional irá requer dos PI uma participação ativa que promova literacia, debate e conhecimento sobre este problema. Portanto, podemos inferir que na era pós-verdade a missão das bibliotecas e dos PI pode ser bastante relevante, bem como participativa, especialmente quando articulada com a visão de «criação de comunidades coesas», onde o diálogo intercultural pode ter lugar em segurança e onde as bibliotecas (independentemente da sua tipologia) voltam a ocupar um lugar central na atividade cultural da comunidade onde se inserem. 2.1. O impacto das bibliotecas na comunidade Neste ponto procuraremos sumariamente compreender o impacto das bibliotecas, ou seja, o efeito ou a influência decisiva que as bibliotecas têm na comunidade onde se inserem. Não está no âmbito deste trabalho distinguir a tipologia das bibliotecas por pública, escolar ou universitária e avaliar o impacto de cada tipologia, embora reconheçamos que existem diferenças no modo de atuação de que cada tipologia dependendo dos seus objetivos e missão. Queremos apenas observar e compreender como é que estas instituições de conhecimento apoiam o desenvolvimento da comunidade em que se inserem. Medir o impacto de instituições que servem a comunidade com o propósito de suprir necessidades de informação e de aprendizagem existentes nessas comunidades, pode verificar-se uma tarefa algo difícil, sendo por isso necessário o desenvolvimento de estudos quantitativos e qualitativos que avaliem o impacto das bibliotecas em diversas dimensões. O entendimento de (Ochôa & Pinto, 2017) sobre a avaliação é que esta deverá ser «(…) entendida como um processo que, sistematicamente, fornece informação sobre a adequação, qualidade ou impacto de uma atividade ou serviço. A utilização dessa informação como base para a introdução de melhorias na eficácia e eficiência organizacionais evidencia a função assumida pela avaliação como catalisador da mudança.». As autoras baseando-se ainda na norma ISO 16439: Information and documentation — methods and procedures for assessing 10 the impact of libraries, consideram três áreas dentro da avaliação do impacto das bibliotecas, sendo elas, o impacto nos indivíduos, o impacto na instituição de tutela ou na comunidade e o impacto social. Um estudo de 2007 sobre o impacto das bibliotecas no desenvolvimento económico local realizado pela Urban Council Libraries distingue cinco áreas em que a ação das bibliotecas contribui para a economia: (1) o apoio ao desenvolvimento de capital social, humano e institucional; (2) programas que desenvolvem literacias, em específico, nos primeiros anos de aprendizagem; (3) disponibilização de informação e suporte sobre o mercado de trabalho, bem como apoio à aprendizagem ao longo da vida; (4) apoio também às pequenas empresas e empreendedores, através da disponibilização de serviços e recursos totalmente gratuitos; e por último, (5) as bibliotecas constroem comunidades ao seu redor estimulando a economia local (Gómez et al., 2007). No relatório «The impact of public libraries in Denmark: a haven in our community» (Roskilde Central Library, 2021) sobre o impacto das bibliotecas públicas na Dinamarca, houve um esforço de ir para além das métricas convencionais sobre utilização da biblioteca (tais como número de entradas, livros requisitados, idade dos utilizadores), centrando-se também na experiência concreta dos utilizadores. Deste modo, os utilizadores foram questionados sobre o uso e o impacto dos serviços da biblioteca levando à concretização de um estudo que visa abordar de forma holística o impacto da biblioteca na comunidade: «In other words, this survey moves beyond “How much content do libraries lend out?” to “What was the individual impact of borrowing that content?”, and from “How many people participated in the event?” to “What was the individual impact of participating in that event?”.» (Roskilde Central Library, 2021, p. 4) Do reconhecimento de que as bibliotecas têm um valor intrínseco para a comunidade, surge a necessidade de ampliar as perspetivas sobre a experiência do utilizador. Na Dinamarca, por exemplo, estima-se que 95, 5% dos cidadãos já foram utilizadores de uma biblioteca ou são neste momento utilizadores ou ainda que esperam sê-lo no futuro (Roskilde Central Library, 2021). Esta apreciação revela que mesmo na era digital as bibliotecas continuam a ter relevância para os seus utilizadores como podemos compreender na citação seguinte: «In a digital era where the Internet offers a fleeting flow of information and misinformation, the public library is highly impactful on its users in terms of being a 17 O perfil dos PI está em transformação, integrando novas competências digitais, nomeadamente gestão da informação e curadoria digital, que visam um alinhamento com as necessidades da sociedade de informação/conhecimento, distanciando-se do perfil tradicional de bibliotecário e arquivista. Esta classe de profissionais integra posições em instituições públicas, bibliotecas, arquivos, empresas no sector privado e universidades, e a qualificação adequada destes profissionais adiciona valor às instituições onde atuam e apoia as suas missões e objetivos. Onde se tem vindo a identificar maior expressividade na necessidade das novas competências dos PI é no campo da comunicação da ciência eletrónica (Anexo A – Quadro das Competências dos profissionais de informação-documentação de suporte à comunicação científica eletrónica, segundo Ochôa & Pinto, 2019) que inclui serviços de publicação científica, serviços em repositórios de Acesso Aberto, consultoria sobre publicação em Acesso Aberto e direitos de autor e avaliação de recursos científicos eletrónicos (Ochôa & Pinto, 2019; Revez, 2020) e que também já foi abordado no ponto anterior. Fontain (2018) resume que as competências dos bibliotecários do futuro centram-se no desenvolvimento de linguagens num sentido abrangente «(…)human, machine, artistic and science languages.» num esforço de desenvolvimento contínuo e de adaptação à constante transformação do ambiente digital. E Ochôa & Pinto (2019) identificam seis papéis dos bibliotecários «bibliotecário de ligação, bibliotecário de iniciativas digitais, bibliotecário de humanidades digitais, bibliotecário de serviços técnicos, bibliotecário de aquisições, bibliotecário de dados». Revez (2020) aponta três papéis essenciais dos bibliotecários do ensino superior ou associados a institutos de investigação: apoiar nos estágios iniciais da criação de conhecimento, incluindo na elaboração de planos de gestão de dados de investigação, desenvolvimento de colaborações entre comunidades de investigação e curadoria de dados de investigação. Também Claire Laybats (2018) identificou três competências fundamentais destes PI no âmbito do ensino superior, (1) competências associadas à investigação, análise, seleção de fontes e de conhecimento, pesquisa e conhecimento de bases de dados; (2) utilização dos dados de forma criativa e eficaz, conhecimento de visualização de dados, estruturação de dados e apresentação de relatórios; (3) competências em gestão da informação, negociação de contratos, formação em LI, e organização da informação. 18 Apesar destas competências relacionadas com a gestão e tratamento de dados, o estudo de Trepanier et al. (2019) revela que a perspetiva sobre o uso dos dados de um PI proveniente das áreas de biblioteca, arquivo e documentação difere de outros. Por exemplo, o artigo compara o código de ética da IFLA de 2012 e o código de conduta profissional dos cientistas de dados da Data Science Association de 2013, onde identificam as oposições entre estes dois códigos de conduta: « data vs. information; clients vs. users; private vs. public; exclusivity vs. inclusivity; information as a strategic asset vs. as a public good; and, cautionary vs. permissive approaches to professionalism.» concluindo que existe a necessidade de elaboração de um código unificado mais inclusivo que conceptualize sobre a ética dos dados e a sua utilização (Trepanier et al., 2019). Competências em curadoria de dados e gestão de informação digital são novas áreas emergentes que alargam a atuação dos PI, no entanto não ficará por aqui, como Floridi (2018a) afirma, a disrupção vai continuar a ter lugar numa sociedade em constante evolução tecnológica e o maior desafio será a forma como a sociedade irá moldar a infoesfera que habita, questionando «what kind of mature information societies do we want to build? What is our human project for the digital age? », acrescentando mais adiante, «So, clearly, the real challenge is no longer digital innovation, but the governance of the digital. » e distingue digital governance, digital ethics e digital regulation: «Digital governance is the practice of establishing and implementing policies, procedures, and standards for the proper development, use and management of the infosphere. (…) Compliance is the crucial relation through which digital regulation shapes digital governance (…) digital ethics, understood as the branch of ethics that studies and evaluates moral problems relating to data and information (…) (and) shapes digital regulation and digital governance through the relation of moral evaluation. ». Claramente, os PI têm que estar atentos e bem informados sobre o desenvolvimento da ética aplicada ao digital, sobre regulamentação de proteção, utilização e exploração de dados, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (doravante RGPD) 9 , e sobre políticas para a informação. Assim, num mundo em constante transformação/disrupção o código de ética destes profissionais pode servir de barómetro a novas aprendizagens e desenvolvimento de competências que possibilitem uma atuação neste projeto visionário: o de construir uma 9 https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=celex%3A32016R0679 19 infoesfera onde os direitos de liberdade e de participação cívica continuem a moldar as práticas de interação e a experiência online. O código de ética para bibliotecários e profissionais de informação da IFLA (IFLA, 2012) afirma «Librarianship is, in its very essence, an ethical activity embodying a value-rich approach to professional work with information.(…) Information service in the interest of social, cultural and economic well-being is at the heart of librarianship and therefore librarians have social responsibility.» A IFLA sustenta que a necessidade de partilha e acesso à informação é um direito fundamental e que os PI têm que participar ativamente e criticamente no desenvolvimento das políticas sobre o direito à informação, assim como, a estarem preparados para oferecer consultoria sobre este tema (Ibidem, 2012). O código assenta em seis pilares fundamentais (1) assegurar o acesso à informação como missão central dos PI; (2) responsabilidade social e comprometimento na construção de uma sociedade inclusiva sem discriminação (que inclui a Literacia da Informação) ; (3) respeito pela privacidade, sigilo e transparência; (4) apoiar o acesso aberto e defender a propriedade intelectual; (5) neutralidade, integridade pessoal e competências profissionais; (6) relações laborais respeitosas e justas (Ibidem, 2012). Em Portugal, os responsáveis pela elaboração do código de ética dos PI portugueses são a BAD (Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas), APDIS (Associação portuguesa de documentação e informação na Saúde) e a INCITE (Associação Portuguesa para o desenvolvimento da informação científica e técnica). O código apresentado em 1999 assenta sucintamente em três pilares (1) a liberdade intelectual, que visa promover o acesso à informação de acordo com as melhores práticas e profissionalismo; (2) respeito pela privacidade dos utilizadores dos serviços de informação e (3) profissionalismo, que inclui inúmeras responsabilidades, entre as quais, formação e atualização de conhecimentos mediante necessidades laborais e partilha de conhecimentos entre profissionais (APDIS et al., 1999). No presente código consideramos ser necessário uma harmonização mais atual com a recente Carta dos Direitos Humanos digitais, (“Decreto de Lei n.o 27/2021,” 2021) e em particular o artigo 6º sobre o Direito à proteção contra a desinformação e as responsabilidades éticas e de atuação dos PI neste âmbito. 20 Embora não seja explícito no código de ética da IFLA ou no português que responsabilidades ou práticas devem ter os PI no que respeita à desinformação, existe todo um novo manancial de investigação em torno desta temática, a qual muitos PI aderiram, publicando diversos artigos científicos (Fontanin, 2021; T. Froehlich, 2017; Revez & Corujo, 2021; Saunders & Budd, 2020) apenas para mencionar alguns, e que nos podem ajudar a compreender o seu posicionamento atual e direção futura, tal como se propõe também a elucidar esta dissertação. Um ponto interessante que pode ser útil neste âmbito, é rever também o Código Deontológico dos Jornalistas (Sindicato dos jornalistas, 1993), já que estes desempenham o papel de produtores e disseminadores de informação, que envolve igualmente comprometimento e responsabilidade social. Existem diversos pontos análogos ao código da IFLA (IFLA, 2012), por exemplo, combater e rejeitar a censura, rejeitar a discriminação e respeitar a privacidade. O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar e em contrapartida os PI têm como missão assegurar o acesso à informação promovendo a LI onde esta é mais necessária e o uso ético da informação. Os jornalistas devem obter informação por meios legais e identificar as fontes e os PI devem apoiar os princípios de acesso aberto, código de fonte aberto e licenças abertas. As funções dos jornalistas e dos PI são complementares em diversos aspetos e num potencial frutífero de trabalho conjunto, estes profissionais poderiam desenvolver uma relação interprofissional adequada à investigação teórica e prática sobre ética e desinformação. Em suma, é cada vez mais exigido aos PI competências múltiplas, não só tecnológicas, mas também de estudo e de avaliação críticas, numa postura de aprendizagem contínua e de abertura à colaboração. 2.4. Literacia da Informação «One thing seems indubitable though: the digital divide will become a chasm, generating new forms of discrimination between those who can be denizens of the infosphere and those who cannot, between insiders and outsiders, between in formation rich and information poor.» (Floridi, 2007) 21 Para iniciar este ponto onde abordaremos a Literacia da Informação (LI) cito novamente Floridi para dar conta da disparidade e assimetria do mundo e em específico dos «ricos em informação» e dos «pobres em informação» no conceito que ficou conhecido como digital divide (Marcella & Chowdhury, 2020) e que contribui por certo para a difusão da desinformação. Para ajudar a combater estas assimetrias no acesso à educação e informação, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável inclui 17 objetivos (ODSObjetivos para o Desenvolvimento Sustentável), onde o ODS 4 estabelece a necessidade de «Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.» (United Nations, n.d.). Vários guias e documentos têm sido publicados para apoiar o alinhamento das bibliotecas e das suas práticas com os ODS da Agenda 2030 (Ochôa, 2018; Pinto & Ochôa, 2018, 2019). A evidência da importância da literacia informacional é um facto, já que a informação é um agente de empoderamento: «Information remains a key agent for the eradication of poverty and other social evils, whether through enabling access to information as a means of overcoming disadvantage or enabling users to provide information to shape societal discourse.» (Marcella & Chowdhury, 2020). No âmbito das bibliotecas universitárias foi também publicado em 2015 pela ACRL o Framework for Information Literacy for Higher Education que oferece uma definição de literacia informacional: «Information literacy is the set of integrated abilities encompassing the reflective discovery of information, the understanding of how information is produced and valued, and the use of information in creating new knowledge and participating ethically in communities of learning.» (American Library Association, 2015). O framework tem sido amplamente aplicado no desenho de formações em LI em diversas tipologias de bibliotecas (universitárias, escolares e públicas) e privilegia seis conceitos chave para o desenvolvimento de competências em LI: (1) a autoridade é construída e contextual: diferentes comunidades reconhecem diferentes tipos de autoridade, os recursos informacionais refletem os seus criadores, o nível de 22 proficiência e credibilidade numa avaliação feita com base no contexto em que a informação irá ser utilizada; (2) criação de informação como processo: os processos iterativos de pesquisa, criação, revisão e disseminação de informação são variáveis, e o produto resultante reflete também essas diferenças; (3) o valor da informação: a informação constitui-se de várias dimensões de valor, como mercadoria, como meio de educação, como meio de influenciar e como meio de negociar e para compreender o mundo. Os interesses jurídicos e socioeconômicos influenciam a produção e a disseminação da informação. (4) investigação como indagação: a pesquisa é um processo iterativo que recorre à indagação para o desenvolvimento da investigação. (5) saber como diálogo: a comunidade de investigação estabelece um diálogo aberto e de troca de saberes que propicia uma multiplicidade de perspetivas e interpretações. (6) pesquisa como experiência estratégica: a pesquisa é um processo não-linear e iterativo, que exige a avaliação de uma variedade de fontes de informação e a flexibilidade mental para aceitar caminhos alternativos à medida que um novo entendimento se desenvolve. (ibidem. 2015) Num artigo de 2020, Onyancha (2020) mapeou o conhecimento em torno do conceito de LI, revelando que existe uma evolução do conceito na área de LIS (Library and Information Science), para um conceito multidisciplinar e abrangente que não apenas restrito às ciências socias, o que resulta na introdução de novas literacias associadas a diferentes áreas (financeira, saúde, trabalho etc.). Torna-se importante aqui distinguir conceitos relevantes no âmbito da LI, sendo o uso de metaliteracia (metaliteracy) e transliteracia (transliteracy) conceitos que vão tendo um uso crescente devido às TIC. Metaliteracia tem sido considerada uma atualização do conceito de LI que integra as TIC e unifica múltiplas literacias, bem como reconhece os indivíduos como consumidores e criadores de informação, que contribuem e participam com autonomia nos espaços colaborativos (Mackey & Jacobson, 2011). Este conceito abrange também a literacia dos media (media literacy) que Mackey e Jacobson (2011) descrevem como a capacidade dos indivíduos acederem, analisarem e produzirem informação para fins específicos e a literacia 23 digital (digital literacy) definida no mesmo estudo como a capacidade de aceder a recursos online e usá-los, bem como avaliá-los nessa reutilização. O ACRL (Fulkerson et al., 2017) descreve os domínios de aprendizagem da metaliteracia: «Metaliteracy emphasizes four learning domains: cognitive, behavioural, affective, and metacognitive. The cognitive (for example, determine the extent of information needed) and behavioural (access the needed information effectively and efficiently) spheres have long been built into definitions of information literacy.» Também o conceito de transliteracia tem contribuído para uma mais ampla compreensão das literacias necessárias no mundo digital e a definição central foca-se no mapeamento dos diferentes médias e não no desenvolvimento de literacias particulares sobre vários meios de comunicação, ou seja, a transliteracia é um conceito que define o significado de ser literato no séc. XXI (Ipri, 2010). Uma definição mais sucinta é-nos dada por Sukovic (Sukovic, 2016): «Transliteracy is an ability to use diverse analogue and digital technologies, techniques, modes and protocols to search for and work with a variety of resources, to collaborate and participate in social networks, to communicate meanings and new knowledge by using different tones, genres, modalities and media. Transliteracy consists of skills, knowledge, thinking and acting, which enable a fluid ‘movement across’ in a way that is defined by situational, social, cultural and technological contexts.» A transliteracia coloca ainda enfâse na literacia das médias sociais (social media literacy), que são as plataformas mais utilizadas para a difusão da desinformação e que estão no centro do debate no que respeita às fake news. Como vimos, desenvolver competências em LI implica reconhecer diferentes tipos de autoridade e contextos, perceber o ciclo de criação de informação e os diferentes resultados, bem como os diferentes métodos aplicados nesses processos, respeitar as ideias originais dos autores, identificar, discernir e avaliar criticamente as contribuições dos investigadores, reconhecer o valor da navegação e outros métodos na recolha de informação. (American Library Association, 2015). Em 2017 a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) apresentou um modelo baseado em cinco leis para LI e dos media. A sua estratégia 24 reúne os campos da LI e da literacia dos media combinando conhecimentos, capacidades e atitudes necessárias para viver e trabalhar no século XXI (Valenza, 2017). A literacia foi ainda reconhecida como um direito humano há mais de 50 anos, em diversas declarações e iniciativas internacionais, como por exemplo, pela UNESCO que promove a literacia como um direito na Declaração de Persépolis de 1975 10 e a Rede Europeia de Políticas de Literacia (ELINET) 11 que publicou em 2016 a Declaração dos Direitos de Literacia dos Cidadãos Europeus integrada no Programa Europeu de Aprendizagem ao Longo da Vida. A LI em particular compõem um conjunto de instrumentos e princípios essenciais para o combate à desinformação, já que formar utilizadores literatos e ampliar os níveis de literacia informacional pode reduzir a difusão e a viralidade da desinformação. Concluindo, Wardle e Derakhshan (2017) dirigindo-se aos Ministérios da Educação recomendam explicitamente que os PI e as bibliotecas sejam incluídos nas iniciativas de combate à desinformação demonstrando que estes profissionais e instituições têm um papel importante a desempenhar, tanto como os professores, jornalistas e profissionais TIC. 10 https://en.unesco.org/sites/default/files/persepolis-declaration-literacy-1975-en.pdf 11 A ELINET é uma associação criada em 2014, da qual fazem parte 77 organizações parceiras de 28 países europeu com o objetivo de melhorar as políticas de literacia, https://www.dge.mec.pt/noticias/outrostemas/elinet-rede-europeia-de-politicas-de-literacia, acedido a 23/08/2021 25 3. Perspetivas sobre a desinformação: contexto teórico e sociológico «We have entered the post-truth era, when “alternative facts” replace actual facts, and feelings have more weight than evidence.» (Dalkir & Katz, 2020) Na introdução da presente dissertação, abordámos a desinformação de um ponto de vista generalista, de forma a abarcar os problemas sociopolíticos atuais configurados pela desinformação, entre os quais a «infodemia» gerada pela pandemia Covid-19 e o risco que denota para a democracia e para uma sociedade plena. Propomo-nos desenvolver a nossa reflexão sobre desinformação e esboçar aqui algumas notas sobre o conceito, cada vez mais preponderante, de «pós-verdade». Para tal, organizámos um primeiro ponto de carácter histórico, relevando antecedentes do debate sobre a possibilidade de uma verdade objetiva («factos», «verdades», etc.), quer: 1) na vertente académica, na procura de sistemas de formalização da «verdade» e da eventual revolução relativística no campo das ciências; 2) na vertente sociocultural, no gradual desabar das «grandes narrativas» e ideologias unificantes do século XIX e da primeira metade do século XX. Este pano de fundo, social e político, que abarca a totalidade do século XX veio a constituir, concomitante com a revolução tecnológica, as condições ideais para a emergência da crise da desinformação. O segundo ponto visa aprofundar o problema da desinformação no seu enquadramento e ramificações contemporâneos. Também neste capítulo, procuraremos perspetivar a desinformação enquanto objeto de estudo académico enfim amadurecido; ou seja, entender na filosofia da informação o trabalho teórico que tem vindo a ser efetuado sobre a desinformação, alinhando-o na CI. 3.1. Notas sociológicas sobre a sociedade pós-verdade Em 2016, a Oxford Dictionaries selecionou «pós-verdade» (do original em inglês, «post-truth») como palavra do ano. A explicação desta escolha prende-se com o fato da 26 palavra ter surgido com elevada frequência em diversas plataformas, no contexto do referendo do «Brexit» e das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América (Mcintyre, 2018). O termo assume, desde então, um carácter político, e relaciona-se com circunstâncias em que a opinião pública tende a ser formada a partir de sentimentos e emoções subjetivas, ao invés de factos objetivos e evidências concretas, «(…)in which knowledge gained systematically and through careful observation of the environment is rejected and replaced by arrogant anti-science, anti-humanitarian propaganda whose misinformation or disinformation is transmitted through cable broadcasting and social media.» (T. Froehlich, 2017) Neste capítulo, propomo-nos dar relevo a alguns antecedentes críticos deste fenómeno, mais precisamente quando a massificação da informação, em concerto tecnológico e social, começou a ser um fator determinante no rumo das sociedades democráticas. Como este desenvolvimento não escapou à atenção de pensadores e filósofos, iremos destacar muito rapidamente, algumas figuras, que, no nosso entender, seriam sempre incontornáveis em qualquer historiografia crítica da desinformação. Na academia e nas ciências Nas primeiras décadas do século XX, Bertrand Russell e David Hilbert foram representativos de uma classe de intelectuais, herdeiros do positivismo da filosofia continental europeia e da escola analítica anglo-saxónica, que fundamentava as suas teorias a partir da lógica e da matemática, encetando esforços para delinear «sistemas de verdade» e as suas provas formais: preconizavam, um futuro de total segurança e fiabilidade determinística nas ciências e, sob a orientação destas, na sociedade. Mas os sucessores de Russell e Hilbert, no espaço de apenas uma geração, fizeram desabar esse otimismo formalista. A título de exemplo, Ludwig Wittgenstein, tendo inicialmente continuado o trabalho de Russell da criação de uma linguagem formal da lógica, acabou por se tornar um crítico severo das suas possibilidades. Quanto a Hilbert, que tentara criar um sistema final para a matemática, viu os seus esforços gorados pelo trabalho de Kurt Gödel, que provou que um sistema de proposições formais pode ser completo ou coerente, mas nunca ambos. Já com o surgimento da física não newtoniana, maioritariamente através da teoria da relatividade de Albert Einstein e do campo emergente da mecânica quântica, uma mudança 33 informativa da informação, existindo diferentes definições para o conceito de informação (Gorichanaz, 2017). No artigo de 2005 «Information and knowledge: an evolutionary framework for information science», Marcia Bates apresenta um conceito integrativo de informação que atravessa a um primeiro nível o ser físico e biológico, seguindo o cultural, social, cognitivo e estético (Bates, 2005). A autora define informação da seguinte forma: i) A informação é a organização de matéria e de energia em padrões (patterns); ii) A alguns padrões de organização de matéria e de energia é dada uma aceção por uma criatura viva; Sendo que conhecimento é ainda definido por Bates como «informação que tomou significado e que se integra com outros conteúdos de compreensão.» (Ibidem, 2005). Apesar de algumas divergências na definição do conceito de informação, a maioria dos autores afirma que a informação é um conjunto de dados que tomaram um significado, sendo que uma parte dos autores perceciona a informação como uma entidade física ou imaterial estática e outros percecionam a informação como um processo dinâmico (Gorichanaz, 2017). O modelo da pirâmide do conhecimento ou pirâmide DIKW (data, information, knowledge, wisdom) tem sido amplamente aceite para descrever e explicar as diferenças entre dados, informação, conhecimento e sabedoria, apresentando-os numa relação hierárquica e interdependente onde a base corresponde aos dados, seguindo-se da informação, conhecimento e no topo da pirâmide a sabedoria (Bates, 2005; Fricke, 2019). De acordo com Ackoff a compreensão e o contexto vão aumentando à medida que avançamos para o topo da pirâmide. Sucintamente, os dados neste modelo são considerados matéria em bruto que a princípio só terão valor se deles for possível extrair informação, ou seja, encontrar padrões nos dados que possibilitem contextualizar e produzir significado. O terceiro patamar correspondente ao conhecimento, que corresponde ao modo como é aplicada a informação, ou seja, o know-how (como descrito por Ackoff em Frické (2019)), por último, a sabedoria, que consiste no processo onde se adquire compreensão e experiência sobre como utilizar as informações (Bernstein, 2020). Alguns autores como Frické (2019) criticam a relação hierárquica que o modelo DIKW apresenta e defendem um processo mais iterativo sobre as relações dados-informação- 34 conhecimento-sabedoria. O conceito de informação e o seu enquadramento tem sido amplamente debatido como o afirma Floridi quando evidencia características volúveis da informação: « Information is notoriously a polymorphic phenomenon and a polysemantic concept (…) » (Floridi, 2011). Floridi o pensador central na Filosofia da Informação avança para um conceito mais específico, semantic information (em português «informação semântica»), para descrever uma qualidade da informação de cariz aletológico que é central para a construção do conhecimento, apontando que uma definição geral de informação necessita de incluir a condição verídica dos dados, ou seja, (1) consiste em dados, (2) bem formados, (3) que comportam significado, (4) que por sua vez é verdadeiro (well-formed, meaningful and truthful data): «Data that are incorrect (…), imprecise (…) or inaccurate (…) are still data, and they are often recoverable, but, if they are not truthful, they can only constitute misinformation. Let me repeat they can be informative, but only indirectly or derivatively: for example, they can be informative about the unreliability of a source, (…). We have seen that misinformation (false information) has turned out to be not a kind of information but rather pseudo-information.» (Floridi, 2011) Na aceção de Floridi desinformação não é informação «when we describe p as false information, we are using ‘false’ attributively, to negate the fact that p qualifies as information at all.», mas pseudoinformação. Relativamente ao conceito de desinformação Fetzer também propõe importantes premissas. Primeiro aproximando a investigação sobre desinformação da investigação sobre mentir ou enganar; segundo, distinguindo desinformação não-intencional (misinformation) de desinformação (com a intenção deliberada de causar desorientação e de confundir) (Fetzer, 2004b). Centrado nos avanços epistémicos sobre a desinformação e citando o trabalho dos autores anteriores, Don Fallis (2011, 2014, 2015) aponta que tanto a aceção de Floridi como a aceção de Fetzer sobre o conceito de desinformação são ainda inadequados, ou por se verificar determinada abrangência, ou por excluir formulações informacionais que se enquadram no conceito de desinformação. Mais especificamente, em Floridi por este afirmar que desinformação ocorre quando o conteúdo semântico se altera em algum ponto do ciclo de vida da informação (criação, armazenamento, recuperação, atualização) (Anexo C – Ciclo 35 de Informação segundo Luciano Floridi) e em Fetzer por assentar os seus argumentos no paralelismo entre desinformação e mentira o que torna o conceito de desinformação demasiado abrangente e não-explicativo do fenómeno. Fallis encontra assim um conceito que descreve o fenómeno como «Disinformation is misleading information that has the function of misleading someone.» (Ibidem, 2011, 2014, 2015). Para Fallis a desinformação pode enganar de duas formas, (1) com o objetivo de desorientar ou de desviar a atenção, como na propaganda política, ou com o (2) objetivo de ganhos financeiros ou outros benefícios, como é o caso do clickbait ou das teorias da conspiração. (Ibidem, 2011, 2014, 2015). No artigo «A Floridian dilemma. Semantic information and truth.», Obelitz Søe (2019c) avança que existe um consenso generalizado sobre o conceito de informação semântica floridiano, mas denota uma disputa verbal sobre se a veracidade do conteúdo semântico é um requisito para o conceito de informação, sendo que para alguns autores Fallis, Fox e Fetzer a desinformação é uma categoria dentro da informação, mas que na aceção de Floridi isso não acontece. A disputa complexifica-se quando existe a possibilidade de se incluir desinformação verdadeira, onde o que é dito é verdadeiro mas o que está implicado é falso (2019c). A resolução propostas para este impasse concetual por Obelitz Søe é: a informação deve ser definida como conteúdo semântico em geral sem referência à verdade, ou seja, como aleticamente neutra, de modo que todas as variedades de desinformação possam estar incluídas no conceito de informação (Ibidem, 2019c). Neste trabalho alinhamo-nos com a proposta de Obelitz Søe e consideramos o conceito de desinformação, como sendo uma subcategoria ou tipologia de informação, assumindo assim um conceito de informação amplo que inclui a desinformação. Também estamos alinhados com o conceito apresentado por Fallis, que considera desinformação como informação falsa que é utilizada intencionalmente para desorientar ou confundir. 3.3. Fake News e desinformação: definição Vários autores (Burkhardt, 2017; Christopoulou, 2018; Tsfati et al., 2020; Wardle & Derakhshan, 2017) concordam que a disseminação de informação falsa não é algo novo na 36 sociedade humana e que a propaganda política em particular tem-se especializado na difamação dos seus opositores. No presente trabalho optámos por não usar o termo fake news, pois este tem sido usado exaustivamente, inclusive de forma abusiva, não sendo por isso adequado para descrever a complexidade do problema da desinformação (HLEG, 2018). Fake é algo que «não é genuíno; uma imitação ou falsificação», enquanto news significa «receção de informação nova, especialmente sobre eventos» (Merriam-Webster, 2021), termo que não designa a abrangência dimensional da desinformação de forma objetiva e como descrevemos no ponto anterior. Segundo a publicação de 2017 do Council of Europe, “Information Disorder” (Wardle & Derakhshan, 2017) a desinformação faz parte de uma categoria mais ampla da «Desordem Informacional» que se caracteriza por uma paisagem informacional poluída. A partir do uso das dimensões “falsa” e “prejudicial” os autores apresentam um enquadramento funcional onde dividem a mis-information (desinformação não-intencional) que se caracteriza por ser informação falsa com conteúdos enganadores, mal-information (informação com impacto nocivo), que se caracteriza por ser informação prejudicial, como por exemplo, discursos de ódio, cyberbullying e assédio. A desinformação encontra-se no centro destes dois tipos de informação poluente, relacionada com conteúdo falso, contexto falso, conteúdo manipulado, Figura 2. Desinformação segundo o framework para análise da desordem informacional segundo Wardle & Derakhshan (2017 p.5) 37 conteúdo fabricado com o propósito de manipular como podemos ver na figura 2 (Wardle & Derakhshan, 2017). Encontramos também em HLEG (HLEG, 2018) uma proposta que explicita no que consiste a desinformação e os seus perigos inerentes, a qual passo a citar: «Disinformation as defined here includes forms of speech that fall outside already illegal forms of speech, notably defamation, hate speech, incitement to violence, etc. but can nonetheless be harmful. It is a problem of actors — state or nonstate political actors, for-profit actors, citizens individually or in groups — as well as infrastructures of circulation and amplification through news media, platforms, and underlying networks, protocols and algorithms.» Wardle e Derakhshan demonstram a necessidade de se compreender de forma individual cada um dos elementos da mensagem desinformativa, ou seja, os seus agentes, as mensagens em si e os seus intérpretes (ou recetores alvo) (Wardle & Derakhshan, 2017). Por fim, os autores sublinham a importância das três fases diferentes no processamento da informação, ou seja, a criação do conteúdo, a sua produção e a sua distribuição, explicando que os agentes criadores de uma mensagem falsa, poderão não ser os mesmos agentes que irão produzi-la e distribuí-la. No caso da distribuição existe ainda um objetivo central por parte destes agentes: a amplificação da mensagem falsa através dos media de forma a manipular, visto que sem esta amplificação a desinformação não tem qualquer efeito. Uma ocorrência detetada e descrita pelos autores na fase da distribuição, é que esta é maioritariamente realizada por bots 12 , especialmente numa fase inicial para tornar a mensagem viral de forma a alcançar utilizadores influentes (Ibidem, 2017) A partir do estudo taxonómico de Kapantai et al. (2020) descrevemos na tabela 1 os onze tipos de desinformação a considerar: 12 Bots: consiste num programa de computador que funciona automaticamente, especialmente para encontrar informação na internet (Separation Definition and Synonyms | Macmillan Dictionary, n.d.) Nº Tipos de desinformação Definição 1 Inventadas Histórias que não apresentam base factual e que são 100% falsas, cuja intenção é causar danos. Adotam quase sempre o 38 estilo de artigo de jornais para os recetores acreditarem na sua legitimidade. 2 Impostoras A utilização de fontes legítimas para disseminar narrativas falsas. Por exemplo o uso de nomes de jornalistas, logos, marcas, ou imitação de URLs. 3 Teorias da Conspiração Histórias que normalmente explicam eventos como enredos secretos do governo ou de indivíduos poderosos. São difíceis de discernir quanto à sua veracidade e a refutação da conspiração torna-se muitas vezes prova da teoria conspirativa. 4 Hoaxes (boatos perigosos) São mentiras complexas, inventadas a larga escala que podem inclusive causar perdas materiais às suas vítimas. Contém factos falsos ou imprecisos apresentados como legítimos. 5 Biased or one-sided Histórias tendenciosas sobre uma pessoa/ partido/ situação ou evento que têm como objetivo a polarização. O contexto deste tipo de informação é inflamatório, apela às emoções e pode conter uma mistura de factos verdadeiros e falsos de forma a confirmar um ponto de vista ideológico específico. 6 Rumores Histórias cuja veracidade é ambígua ou impossível de provar. É um tipo de informação largamente propagado nas redes sociais. 7 Clickbait Fontes que providenciam conteúdo credível, mas deliberadamente exagerado e enganador. Normalmente o objetivo é levar os utilizadores a clicarem de forma a aumentar o seu tráfego, popularidade e lucro. 8 Conexão errónea Acontece quando as headlines e imagem gráfica não estão de acordo com o conteúdo. Algumas partes do conteúdo podem ser verdadeiras, mas estão apresentadas numa associação incorreta. 9 Falsas críticas Qualquer crítica (positiva, neutra ou negativa) ou opinião que não é de um consumidor real e, portanto, não reflete uma experiência genuína do produto, serviço, negócio. 10 Trolling O ato deliberado de publicar um post ofensivo, ou inflamatório numa comunidade com o objetivo de provocar ou causar disrupção na conversa. 39 A partir da definição de desinformação, da apresentação das diferentes dimensões a compreender e dos formatos mais comuns que dão forma à mensagem desinformativa, tentaremos no ponto seguinte contextualizar alguns problemas colocados pela proliferação de informação falsa. 3.4. O problema da desinformação Entender objetivamente o modelo de negócio lucrativo por detrás da desinformação é sem dúvida uma questão importante, já que é urgente agir, conhecer, detetar, criar ações de literacia, legislar e punir os detratores. No entanto, fatores cognitivos e psicológicos, fatores tecnológicos relacionados com o design das infraestruturas, fatores puramente informacionais, estão no centro do problema da desinformação. Atualmente é-nos útil pensar num ecossistema de informação, ou se quisermos na infoesfera (fazendo uso do conceito de Floridi) que habitamos informacionalmente, desenvolvendo atividades, formando laços, procurando informação. Vivendo a nossa onlife, somos obrigados a numa constante adaptação devido ao carácter disruptivo da tecnologia, e como anteriormente descrito, a sociedade está cada vez mais conectada, num potencial de interação com qualquer pessoa ou thing, num paradigma de comunicação de todos-paratodos, produzindo, disseminando e recebendo informação. Todos estes fatores moldam o comportamento informacional humano e as expetativas sobre a realidade estando previsto que o problema da desinformação se torne cada vez mais crítico com a automação: «In the near future, it will increasingly involve communication via private messaging applications, chat bots, and voice-operated systems, as well as augmented reality and virtual reality and content generated or manipulated by AI. It is a problem that must be understood in the wider context of how information is produced, how it is distributed, and how people engage with it in the public sphere. This includes changes 11 Pseudociência Informação que deturpa estudos científicos com reivindicações duvidosas. Normalmente opõem-se aos especialistas e defendem a metafísica, métodos naturais e outros. Tabela 1. Taxonomia da informação falsa e tipologias segundo Kapantai et al. (2020 p.25) (tradução livre do original - Anexo B) 40 in the business and profession of journalism, the move to digital media and rise of platforms, as well as the widespread crisis of confidence between much of the public and many public institutions at national or EU level.» (HLEG, 2018) Atualmente no centro deste habitat digital sempre em transformação, estão as plataformas sociais que têm servido massivamente para a disseminação de informação falsa, propaganda e monetização de anúncios. Os resultados são visíveis, já que qualquer um pode produzir e disseminar conteúdos falsos ou sem qualidade, que uma vez em circulação e «viralizados» podem ter um efeito devastador (Pena, 2019). Burkhart (2017) explica que desde a antiguidade que as notícias têm sido divulgadas a partir do word-of-mouth 13 e que esta predisposição funciona nas redes sociais, levando os disseminadores de fake news a procurar indivíduos ou grupos em filter bubles 14 alinhados com o seu conteúdo informacional, de modo a amplificar a mensagem. A autora sublinha que no início as fake news eram fáceis de detetar, mas que foram sendo otimizadas, «It took only a short time for fake news to become more insidious, more plentiful, more subtle, and subverted for manipulation of information and public opinion.». São estas mesmas filter bubbles que impedem o utilizador de estar em contacto com conteúdo que apresente perspetivas diferentes, visto os algoritmos serem otimizados para responder à experiência do utilizador mostrando-lhe conteúdo personalizado (Kingsland & Isuster, 2020). O artigo «The psychology of content sharing online in 2019» citado por Bailey & HsiehYee (2019) apresenta quatro razões para a partilha de informação online: (1) para partilhar 13 Word-of-mouth: trata-se da transmissão de informação de um indivíduo para outro através de comunicação oral (ou escrita, no caso das redes sociais). A comunicação oral, ou o boca-a-boca têm sido utilizado desde os povos antigos como modo de transmitir tradições e saberes. O marketing digital faz uso desta técnica para tornar viral informação sobre produtos a baixo custo, onde o objetivo é tornar popular o produto através criando conversação à volta dele. 14 Filter bubble: é um termo inglês para designar a redução ou limitação da perspetiva intelectual de um indivíduo com base no conteúdo fornecido da web por tecnologia de pesquisa personalizada. Muitos mecanismos de pesquisa e sites e redes sociais usam bots para monitorizar o conteúdo que um utilizador visualiza com mais frequência de modo a refletir as preferências do utilizador. Como resultado, o utilizador recebe apenas o conteúdo com o qual concorda e, muitas vezes, fica isolado de pontos de vista opostos. Existe concordância argumentativa em como as filter bubbles distorcem as visões de uma pessoa sobre a realidade e a colocam vulnerável à manipulação. (Sheposh, 2020) 41 conteúdo com valor para a comunidade; (2) como autoafirmação da sua personalidade (3) para permanecer conectado; (4) como autorrealização (5) para suportar causas e marcas. Um outro estudo sobre os fatores que determinam a crença dos indivíduos em fake news, resume que as características da mensagem, tais como consistência das crenças e evidências, ou fatores individuais, incluindo estilos cognitivos, predisposição, e níveis de literacia mediática e informacional, bem como intervenções como avisos ou estímulos que orientem os indivíduos a pensar sobre a veracidade das informações têm impacto nos julgamentos sobre a credibilidade das notícias falsas (Bryanov & Vziatysheva, 2021). Fatores individuais, o comportamento na pesquisa de informação, ou a necessidade de pertencer à comunidade, são alguns fatores apontados. Alguns autores dão destaque ao facto de que tendencialmente existe uma predisposição do indivíduo para procurar a confirmação das suas crenças (confirmation bias) e de escolher essa informação em detrimento de informação que contenha perspetivas diferentes, o que é reforçado pelo uso de algoritmos (Lim, 2020b; P. J. Lor, 2018). Lim (2020b) refere que existe uma tendência generalizada dos utilizadores em confiarem na credibilidade dos julgamentos de terceiros e a procurarem a aprovação social como processo heurístico. Buschman (2019) aponta que um dos problemas em geral é o decréscimo do envolvimento cívico e o fraco conhecimento sobre política que agrava ainda mais o impacto malicioso da informação falsa. Rochlin (2017) acusa o sistema de cliques de ser antidemocrático, onde apenas os votos positivos contam, não sendo possível votar contra. O autor defende que tal sistema baseado na taxa de cliques incentiva a procura de mais cliques independentemente da qualidade dos conteúdos, ou seja, permite a proliferação do clickbait: «Every possible action equates to a click, which equates to advertising revenue for the content producer. The only form of protest is inaction, which allows a link to continuously be shared and generate clicks until Facebook censors it.» Outras preocupações prendem-se com o impacto da automação e das novas formas de informação falsa, como o fenómeno das deepfakes, que consistem em falsificações hiperrealistas em formatos vídeo ou áudio (Fallis, 2020; Vatreš, 2021). A linguagem gerada automaticamente e as deepfakes são uma grande ameaça no futuro, pois podem ser geradas sem cessar e sem intervenção humana através de mecanismos de machine learning (Dobber 42 et al., 2021; Floridi, 2018b). É importante que se compreenda a dimensão destas novas formas de desinformação e os perigos da automação, especialmente quando se prevê uma sociedade com tecnologias cada vez mais ubíquas como já desenvolvido em pontos anteriores, «In the news media and the blogosphere, the worry has been raised that, as a result of deepfakes, we are heading toward an “infopocalypse” where we cannot tell what is real from what is not (…)» (Fallis, 2020). Fallis afirma que de certa forma sempre existiram representações sobre o real cujo intento é substituir o real, a verdade, no entanto, com as tecnologias usadas para criar deepfakes este tipo de narrativas vão estar otimizadas e em maior circulação (Fallis, 2020). Por fim ressalvar que em tempo de pandemia vimos instalar-se uma emergência de saúde pública à escala global e o combate à desinformação sobre a COVID-19 juntou muitos esforços, por se reconhecer urgente o combate à infodemia. A UNESCO, por exemplo, tem levado a cabo diversas iniciativas como colocar em acesso aberto recursos educacionais, manter uma rede de fact checkers e proporcionar literacia dos media e informacional (MIL) (UNESCO, 2020). No website da WHO (WHO, 2021) encontramos uma secção chamada «Mythbusters» que apresenta mitos, teorias da conspiração e informações falsas que circulam sobre a COVID-19, de forma a informar o público e a orientá-lo para informação fidedigna. Em Portugal, a Carta dos direitos digitais publicada em 2021 (“Decreto de Lei n.o 27/2021,” 2021) alinhado com o Plano Europeu de Ação contra a Desinformação (High representative of the Union for Foreign Affairs and Security Policy, 2018) contempla o artigo 6º dedicado exclusivamente ao direito do cidadão de ser protegido da desinformação. O problema da desinformação é abrangente, transversal e global e subscrevo que só as diferentes perspetivas sobre a desinformação complementadas (perspetiva da comunicação social, da psicologia, ciência política, direito, tecnologia, educação e ciência da informação entre outras …) nos podem oferecer um quadro mais completo sobre o problema, de forma a podermos atuar institucionalmente e eficazmente. O ponto quinto centra-se exatamente no domínio que nos compete (PI) e a sua relação com a desinformação. 49 Como referido, a metodologia de RSL foi primeiramente desenvolvida nas áreas das ciências exatas, mais propriamente na medicina, com vista à tomada de decisões informadas, no entanto tem sido progressivamente adotada em outras áreas. Para termos uma ideia da sua aplicação em CI recorremos a uma experiência de pesquisa avançada no Google Scholar. Na experiência 1, usámos as palavras-chave “Systematic Review” e “Information Science” tendo indicado que as palavras deveriam encontrar-se no título e que a pesquisa deveria ser efetuada entre 2005 e 2021. Da pesquisa resultaram apenas 15 artigos contendo estas palavras-chave. A segunda experiência seguiu o mesmo enquadramento que as anteriores, mas a palavra-chave usada foi “Library”. Nesta pesquisa obtivemos 115 resultados, alguns dos quais relacionados com o papel dos bibliotecários no apoio aos investigadores-revisores, especialmente na área da saúde. Na terceira experiência de pesquisa foram utilizadas as palavras-chave “Systematic Review”, “Library” e “disinformation” e não obtivemos qualquer resultado. Por outro lado, ao utilizarmos o termo “fake news” obtivemos um artigo publicado neste mesmo ano (Revez & Corujo, 2021). O objetivo destas experiências realizadas a 2 de maio de 2021 no Google Scholar, foi verificar a quantidade e tipologia de estudos associados às bibliotecas ou à CI que recorrem a uma RSL. Numa primeira impressão, podemos extrair destas experiências as seguintes Figura 4. Etapas da RSL (Vilelas, 2020) 50 observações: (1) que a RSL é uma metodologia ainda pouco difundida na área da Ciência da Informação, (2) eventualmente existirá um papel participativo a ser desempenhado por bibliotecários nas revisões sistemáticas de literatura, já que os mesmos são especialistas da informação, com competências avançadas em pesquisa, recuperação e avaliação da informação (Donato & Donato, 2019; Spencer & Eldredge, 2018), (3) o trabalho da RSL direcionado para problemas como o da desinformação é reduzido, sendo que acabámos por utilizar um termo mais popular e icónico (fake news) a fim de ampliar a pesquisa inicial, pelo que também apenas obtivemos um resultado. Sabemos que o tema da desinformação sob o nome de fake news tem sido um hot topic nos últimos anos e que existem estudos de RSL direcionados para o estudo da desinformação em diversas áreas: economia, media e comunicação, tecnologia e psicologia. No entanto, no nosso entendimento, a desinformação é um problema informacional e nesta linha, consideramos essencial preencher esta lacuna da existência de escassos estudos de RSL em CI e contribuir para a compreensão do problema da desinformação na perspetiva oferecida pelos PI e dirigida às bibliotecas, sendo que esperamos com o nosso estudo apoiar também os PI na tomada de decisões e na estruturação de ações quanto a este problema. 4.5. Métodos O presente ponto destina-se a delinear os métodos aplicados no processo de pesquisa em bases de dados para a RSL no âmbito da CI. Bases de dados Numa RSL é importante utilizar diferentes bases de dados bibliográficas, no sentido de aumentar a probabilidade de recuperação de informação relevante para o nosso estudo. Stapleton et al. (2020) reforçam a importância de ter em mente diferentes questões relativamente à seleção de bases de dados: se as mesmas são adequadas ao tema, quantas bases de dados poderão ser pesquisadas no tempo que o revisor tem disponível e as que estão disponíveis ao revisor. Assim, para a presente RSL foram escolhidos quatro tipos de bases de dados: 51 - Bases de dados especializadas em CI: foi escolhida a LISTA, para garantir a abrangência do tema “desinformação” na área da bibliotecnia e CI; - Bases de dados secundárias relacionadas com o tema: ERIC, especializada em educação que nos poderá ajudar na relação Literacia – CI e o problema da desinformação; - Bases de dados multidisciplinares: SCOPUS e Web of Science que agregam uma grande quantidade de recursos de diversas áreas disciplinares e que nos podem ajudar a recuperar artigos no âmbito da nossa investigação, mas indexados fora do campo da CI - Bases de dados de literatura cinzenta (Grey Literature): Open Grey de foco europeu e RCAAP – Repositório Científico de Acesso Aberto em Portugal; Embora o Google Scholar seja um motor de pesquisa sofisticado e útil para muitos fins, não se adequa à presente RSL, por não indicar de forma transparente que fontes são indexadas (Donato & Donato, 2019), por não permitir a reprodutibilidade das pesquisas (tema central da RSL), por ser complexa a transferência dos resultados das pesquisas para um gerenciador de citações (Stapleton et al., 2020) e por realizar um rastreio desadequado às revistas científicas levando a que as revistas predatórias também sejam incluídas (Donato & Donato, 2019). Para cada base de dados será necessário adaptar a estratégia de pesquisa, já que os termos indexados podem ser diferentes. A maioria das bases de dados oferecem uma opção de browsing que mostra os títulos mais relevantes e muitos tesauros de bases de dados oferecem a facilidade na pesquisa de termos próximos e similares aos termos pesquisado especificamente (Cochrane Information Retrieval Methods Group, 2021). Estratégia de Pesquisa As técnicas de pesquisa para RSL podem consumir muito tempo e por esse motivo é importante estruturar uma estratégia de pesquisa efetiva (Stapleton et al., 2020). Assim, «uma estratégia de pesquisa deverá ser minuciosa, objetiva e reprodutível, num conjunto de recursos para identificar o maior número de estudos» (Donato & Donato, 2019) 52 De forma a identificar a maior quantidade possível de recursos, as pesquisas devem incluir termos selecionados de vocabulários controlados ou tesauros (Cochrane Information Retrieval Methods Group, 2021). De acordo com o apontado e no que concerne à nossa estratégia de pesquisa, procurámos inicialmente aprofundar o conhecimento relativo à terminologia do nosso tema, de forma a otimizar a recuperação de informação nas bases de dados selecionadas. Os conceitos centrais do nosso estudo são bibliotecas, PI e desinformação. Na literatura são usados diferentes termos para expressar informação falsa, tais como fake news, false news, digital misinformation, disinformation, rumors e outros (Kapantai et al., 2020). Para abranger amplamente a nossa pergunta de investigação é necessário incluir termos para cada conceito selecionado, incluir operadores booleanos e símbolos com funcionalidades especiais. Por exemplo, nas RSL da Cochrane é obrigatório identificar variantes ortográficas, sinónimos e acrónimos (Cochrane Information Retrieval Methods Group, 2021; UFSCar, 2020). O estudo de Kapantai et al. (2020) sobre taxonomia da desinformação ajudou-nos a sistematizar termos que representam informação falsa. Abaixo incluímos a tabela 3 com os 11 tipos de desinformação que foram incluídos no estudo após validação de critérios de inclusão delimitados pelos autores, os quais estarão incluídos na nossa estratégia de pesquisa: Normalized disinformation types Disinformation typology Fabricated Clickbait Imposter Misleading connection Conspiracy theories Fake reviews Hoaxes Trolling Biased or one-sided Pseudoscience Rumours Tabela 3. Tipos de desinformação normalizados segundo Kapantai et al. (2020) 53 No estudo taxonómico de Kapantai et al. (2020), também ele uma RSL, o foco esteve no termo disinformation, e inclui diferentes formas de informação falsa, imprecisões de informação, informação cuja estrutura organizativa serve o propósito de enganar, informação apresentada e promovida com o intuito de causar danos públicos, prejuízos ou produzir ganhos. Para a pesquisa relacionada com os PI, podemos encontrar sinónimos e subcategorias para estes profissionais, compondo assim o grupo de termos a pesquisar: librarian, curator, information professional, information specialist, incluindo no conceito de PI o campo a que pertencem LIS (Library and Information Science), IS (Information Science) e o lugar, espaço físico onde atuam library. Figura 5. Termos de pesquisa : « Information Professionals » (IP) ; « Information Literacy » (IL) ; disinformation Também para Information Literacy foi encontrado o vocabulário adequado para que o conceito tenha abrangência e representatividade. No modelo seguinte (figura 2) encontram-se representados os conceitos centrais e derivações correspondentes que foram selecionados e que formam combinações para 54 diferentes pesquisas. Cada termo associado a um conceito deverá ser combinado com os operadores booleanos. Resumidamente, a pesquisa booleana aplica a álgebra de Boole ao sistema de recuperação de informação, combinando dois ou mais termos, relacionando-os logicamente e tornando a pesquisa mais refinada (Vilelas, 2020). Sendo que os operadores booleanos mais usados são: ▪ OR (OU): reúne termos num mesmo conceito e normalmente resulta na recuperação de um número maior de resultados, tendo uma função aditiva. Usando o operador OR iremos recuperar todos os documentos que fazem uso de qualquer termo da pesquisa; ▪ AND (E): combina diferentes conceitos para recuperar informação mais específica. O sistema irá procurar documentos que contenham exatamente todas as palavras combinadas por AND; ▪ NOT (NÃO): exclui termos ou conceitos, tendo uma ação restritiva. Este operador é o mais restritivo dos três e é necessário usá-lo com cautela, pois exclui certos resultados das pesquisas. O modelo demonstra que os termos que se encontram dentro do mesmo conceito deverão ser combinados com o operador “OR”, no sentido de recuperar informação com pelo menos um termo. Conceitos diferentes deverão ser combinados usando o operador “AND”, resultando na combinação dos conceitos centrais para as questões de investigação (Cochrane Information Retrieval Methods Group, 2021). Existem ainda vários símbolos com funcionalidades diferentes que ajudam a refinar a pesquisa: * ou $, que quando postos no final do termo, têm a funcionalidade de recuperar todas as variações de uma palavra, por exemplo, libra* - fará a seleção de librarian, librarianship e de library. Já o símbolo ? assume uma letra extra, ou uma letra alternativa quando colocado a meio da palavra. Em geral, cada base de dados terá as suas particularidades no que respeita aos operadores e símbolos usados para apoiar uma pesquisa mais refinada. A estratégia de pesquisa deverá ser experimentada em cada base de dados selecionada e adaptada consoante as especificidades que cada uma apresenta. O modelo estratégico de pesquisa apresentado na figura 3 será o nosso ponto de partida para a recuperação de documentos nas bases de 55 dados selecionados, usando os operadores booleanos e combinando os conceitos conforme descrito anteriormente. O nosso modelo de estratégia de pesquisa (figura 3) contempla assim E1 (estratégia 1) que visa recuperar todos os documentos relacionados com os PI, biblioteca (librar*), incluindo a prática da curadoria (curat*) associados entre si pelo operador booleano OR. A E2 (estratégia 2) que assenta no esforço de ampliar a terminologia associada à desinformação, aceitando por isso termos como clickbait, misleading connection, pseudoscience e post-truth. A E3 (estratégia 3) que procurou reunir termos utilizados para falar de competências informacionais, muitas vezes associadas a competências digitais, incluindo diferentes conceitos de literacia que já foram descritos anteriormente, tais como, a transliteracia e a metaliteracia. Transliteracia, usando as palavras de Suzana Sukovic «consists of skills, Figura 6. Estratégia de Pesquisa 56 knowledge, thinking and acting, which enable a fluid ‘movement across’ in a way that is defined by situational, social, cultural and technological contexts.» (Sukovic, 2016). A transliteracia é muito importante na capacidade de “operar” tecnologicamente e a partir de diferentes técnicas, modos e protocolos de forma a fluir no meio digital, sendo que o essencial na transliteracia é a interação, ou se quisermos, a conjugação das diferentes literacias (textual, visual, digital) (Ipri, 2010). No que respeita à desinformação, adquirir competências relacionadas com transliteracia é fundamental para desenvolver aptidões críticas na avaliação de informação. Também incluímos o termo metaliteracia, de forma a abarcar amplamente conceitos sobre literacia. Competências associadas à metaliteracia são de extrema importância, visto que a informação tem diferentes formas online e as atividades de partilha e produção de informação são críticas nos ambientes online. Como afirmam Mackey & Jacobson a respeito de metaliteracia «(…) by developing critical consciousness, students learn to take control of their lives and their own learning to become active agents, asking and answering questions that matter to them and to the world around them.» (2011) Em algumas bases de dados é possível realizar uma pesquisa única, ou seja, pesquisar os termos em título, resumo, assunto e palavras-chave em simultâneo, em outras bases será necessário recorrer a várias pesquisas correspondentes a cada uma das opções. As pesquisas E1, E2 e E3 são conjugadas através do operador booleano AND utilizando a pesquisa avançada (Scopus e WoS) de forma a refinar os resultados. Elegibilidade de artigos Numa RSL, a avaliação dos documentos para elegibilidade é um processo onde deve seguir critérios específicos de inclusão e exclusão definidos e que garantam a sistematização da aplicação desses critérios aos documentos recuperados de forma a diminuir o risco de parcialidade (Meline, 2006). Os critérios devem estar alinhados com a relevância dos estudos em responder à pergunta de investigação (J. P. Higgins & Green, 2008, Chapter 5; Kitchenham, 2004) e embora exista alguma discussão sobre a amplitude do processo de seleção de artigos, se deverá ou não suportar maior ou menor abrangência, é importante ter em mente que este processo irá determinar o âmbito e a validade das conclusões na RSL (Meline, 2006). 57 O processo de elegibilidade é composto por etapas de avaliação, uma primeira etapa avalia os estudos a partir da leitura do título, resumo e palavras-chave e determina se o estudo entra no âmbito de elegibilidade. Nesta primeira etapa, essencialmente de cariz prático, também podem entrar questões de matéria estrutural, relacionadas com a natureza do documento e com a questão de investigação (Fink, 2005, Chapter 2). A segunda etapa compreende já um conjunto de documentos mais reduzido que correspondem de forma mais relevante aos critérios estabelecidos e que serão avaliados na íntegra para serem ou não definitivamente incluídos. Estes artigos serão submetidos a um exame qualitativo que reporta mais diretamente à qualidade metodológica aplicada e é usado para diminuir a abrangência da pesquisa e selecionar os estudos com maior relevância e qualidade científica (Ibidem 2005). Meline (2006) aponta que de forma geral os critérios de elegibilidade estão associados a categorias que descrevem a (1) população; (2) natureza da intervenção; (3) resultados; (4) período de tempo; (5) língua e cultura; (6) qualidade metodológica. Tendo em conta a nossa questão de investigação PICO, os critérios de elegibilidade associam-se a: (1) (população) bibliotecas e PI; (2) (natureza da intervenção) as estratégias usadas no combate à desinformação; (3) (resultados) o papel dos PI e das bibliotecas no combate à desinformação: estabelecemos que os documentos têm que mencionar os conceitos relacionados com desinformação, PI e literacia aqui anteriormente descritos, no título, resumo ou nas palavras-chave do documento. (4) (tempo) para o critério temporal estabelecemos que apenas documentos publicados entre 2017-2021 (5) (língua) serão apenas incluídos documentos escritos em inglês por ser a língua de trabalho com maior difusão no âmbito científico. Relativamente à qualidade metodológica (6) apresentada por Fink (2005) e por Meline (2006), a questão poderá apresentar uma certa complexidade e necessita um esforço inferencial. Como Fink (Fink, 2005) menciona «Methodological quality refers to how wellscientifically a study has been designed and implemented to achieve its objectives. The highest 58 quality studies come closest to adhering to rigorous research standard.» Para esta seleção é então necessário o revisor colocar as seguintes questões: (a) A metodologia do estudo é válida? (b) Os dados e fontes utilizados no estudo são confiáveis e válidos? (c) Os métodos de análise do estudo são apropriados tendo em conta os dados utlizados? (d) São os resultados dos estudos significativos em termos práticos e estatísticos? Assim serão excluídos documentos que omitam uma descrição metodológica de como foi conduzida a investigação, que sejam documentos que expressem uma opinião sem que esta esteja devidamente fundamentada ou comprovada por evidências que a sustentem e documentos que sejam fruto de apresentações em conferências, mas que não apresentem resultados. 65 26 Lifting the curtain: examining the importance of the Shared Foundation IV: curate in the National School Library Standards for Learners, School Librarians, and School Libraries Journal of Library Administration (Ahlfeld, 2019) 27 Good news, bad news, and fake news Journal of Documentation (Buschman, 2019) 28 The art of the real: fact checking as information literacy instruction Reference Services Review (Addy, 2020) 29 Academic library guides for tackling fake news: a content analysis The Journal of Academic Librarianship (Lim, 2020b) 30 Framing Fake News: Misinformation and the ACRL Framework portal: Libraries and the Academy (Faix & Fyn, 2020) 31 Fake or for real? A fake news workshop Reference Services Review (Hanz & Kingsland, 2020) 32 Information literacy and fake news: How the field of librarianship can help combat the epidemic of fake news The Journal of Academic Librarianship (De Paor & Heravi, 2020) 33 Conflicting authority: Using the Trump administration’s responses to the EPA climate assessment report to teach information literacy Reference Services Review (Lynch & Hunter, 2020) 34 The Covid‐19 ‘infodemic’: a new front for information professionals Health Information & Libraries Journal (Naeem & Bhatti, 2020) 35 Examining authority and reclaiming expertise The Journal of Academic Librarianship (Saunders & Budd, 2020) 36 A call to action for librarians: countering conspiracy theories in the age of QAnon The Journal of Academic Librarianship (Beene & Greer, 2021) 37 The fake news wave: academic libraries' battle against misinformation during COVID-19 The Journal of Academic Librarianship (Bangani, 2021) 38 Information literacy education during the pandemic: the cases of academic libraries in Chinese top universities The Journal of Academic Librarianship (Guo & Huang, 2021) 39 Librarians against fake news: A systematic literature review of library practices (Jan. 2018–Sept. 2020) The Journal of Academic Librarianship (Revez & Corujo, 2021) 40 Emerging (information) realities and epistemic injustice Journal of the Association for Information Science and Technology (Oliphant, 2021) 41 On fake news, gatekeepers, and LIS professionals: the finger or the moon? Digital Library Perspectives (Fontanin, 2021) 42 Re-thinking Information Ethics: Truth, Conspiracy Theories, and Librarians in the COVID-19 Era Libri (P. Lor et al., 2021) Tabela 5. Documentos incluídos na RSL 66 5.4. Caracterização dos dados selecionados A seleção final é composta por 42 documentos, dos quais 8 documentos foram publicados em 2017, 13 em 2018, 7 em 2019, 8 em 2020 e 6 em 2021. Os documentos recolhidos e selecionados são provenientes de um universo de 24 revistas, sendo que 15 têm no título library ou libraries e estão diretamente associadas aos serviços destas instituições e quatro estão diretamente associados à CI, ainda que library não conste no título. Cinco artigos são provenientes de duas revistas dedicadas aos serviços para os utilizadores das bibliotecas. Um artigo é proveniente da revista Communications in Information Literacy (CIL), que é um jornal independente dedicado à pesquisa, teoria e prática da LI no ensino superior. E por fim, uma última publicação da revista International Journal of Legal Information, que é a publicação oficial da International Association of Law Libraries, e que se centra em informação jurídica. O gráfico 1 mostra visualmente a distribuição do nosso universo de documentos incluídos por revista científica. Gráfico 2. Revistas científicas representadas pelos estudos Gráfico 1. Revistas ciêntifica representadas 67 Podemos constatar que a maioria das publicações provém de revistas no domínio da CI e biblioteconomia, o que demonstra um compromisso por parte dos PI em desenvolverem estudos e aprofundar a investigação sobre o tema, quer no âmbito educacional (escolar e universitário), quer das bibliotecas públicas e até das especializadas (saúde e direito legal). Os PI estão a contribuir para um corpo de investigação que se dedica à relação entre desinformação, LI e CI. Por outro lado, podemos inferir que possivelmente a nossa amostra é bastante significativa no campo da CI, mas não se inscreve ainda num âmbito mais alargado que possa ter impacto em outros domínios, que também estejam dedicados ao estudo do combate à desinformação per se, já que os documentos aqui recuperados são exclusivamente todos dedicados ao potencial da LI como combate à desinformação no âmbito das bibliotecas associadas a instituições de educação. A solução para esta falta de projeção pode estar dependente da capacidade de os PI realizarem parcerias de investigação sobre a desinformação, quer com investigadores de outras áreas, quer com instituições de investigação e assim aumentarem a relevância das suas experiências de investigação no âmbito deste tema. Outra dimensão de interesse a analisar é a tipologia dos estudos aqui recuperados. Fizemos uso de categorias abrangentes «artigo de pesquisa», «artigo de revisão», «estudo de caso» e «outros estudos» com base no tutorial da Springer para autores e revisores (Castro, 1999) para agrupar os estudos de modo a perceber o seu enquadramento metodológico de investigação. Gráfico 3. Tipos de estudo representados na amostra 68 O gráfico 2 demonstra que a maioria dos estudos (26) aqui selecionados são artigos de pesquisa, que apresentam um formato de investigação original que pode contemplar estudos mais concetuais ou de cariz qualitativo, e que incluem normalmente uma estrutura de introdução, métodos, resultados e discussão (Castro, 1999). Em seguida, temos estudos que recaem na tipologia de estudos de caso (7), por apresentarem experiências práticas em LI e descreverem resultados relacionados com essas experiências. A amostra também contempla quatro artigos de revisão, que têm essencialmente o objetivo de através de uma revisão de literatura, sistemática ou não, aceder a conhecimento sobre a questão de investigação, e por fim, na tipologia outros estudos encontram-se cinco documentos que não se enquadram em qualquer outra categoria aqui apresentada e descrita. 5.5. Discussão Face à problemática da desinformação e tendo em consideração a nossa primeira questão de investigação: (Q1) desde 2017 o que é que a literatura nos diz sobre a missão e compromisso ético dos PI no combate à desinformação? A literatura aqui recolhida demonstra que existe como foco central a missão de educar sobre a desinformação, de forma a serem desenvolvidas competências em LI, tais como capacidade de reflexão e pensamento crítico sobre a informação, reconhecimento de autoridades fiáveis e competências de navegação do ecossistema informacional. O problema da desinformação é percecionado pelos PI como um problema profundo, multidisciplinar e sistémico no seio do ecossistema informacional contemporâneo (Sullivan, 2019a) e citando Kranich (Kranich, 2017, 424) a partir de Addy (2020) «“Confronted by fake news, clicktivism, and slacktivism, librarians are well-positioned to seize this teachable moment to enhance civic literacy,” with civic literacy being defined as “the knowledge and ability to make sense of their world and to act as competent citizens.», opinião que é partilhada pela grande maioria dos autores aqui lidos. É defendida a necessidade de promover reflexão e educação sobre o momento histórico e político atual (Pun, 2017), a necessidade de desempenhar um papel orientador para os estudantes (Burkhardt, 2017), a urgência em se encontrar formas de limitar a difusão da informação falsa (incentivando á investigação) (Ireland, 2017), a responsabilidade em 69 responder a questões relacionadas com justiça social e com as necessidades da comunidade (Bluemle, 2018; Eva & Shea, 2018; Oliphant, 2021), bem como promover a diversidade e a inclusão (P. J. Lor, 2018), necessidades sempre presentes no código de conduta dos PI, mas que atualmente são prementes e revisitadas pelos autores à luz do problema da desinformação. Para Dahri & Richard (2018) é da responsabilidade dos PI promoverem o consumo responsável da informação, e para Bailey & Hsieh-Yee (2019) todas as bibliotecas têm a missão de preparar utilizadores de informação informados, ajudando-os a compreender as implicações do processo de partilha de informação «Libraries and information professionals can leverage the great public trust in libraries to help our citizens become better information creators, messengers, and consumers.» Addy (2020) e De Paor & Heravi (2020) também afirmam que é uma responsabilidade das bibliotecas e PI providenciar ferramentas que ajudem a navegação no ecosistema informacional atual. Para Rochlin (2017) os PI são centrais na guerra da informação instituída na era pós-verdade e como tal devem implementar programas educacionais que abordem o problema da desinformação e o poder dos cliques. Ainda Addy (2020) considera que os PI estão posicionados para desenvolver um trabalho que relacione o pensamento crítico, cidadania e as rápidas alterações na realidade informacional. Rose-Wiles (2018)aponta os desafios colocados ao uso dos recursos da biblioteca por parte dos estudantes, que procuram na sua maioria fontes menos confiáveis como o Google, defendendo que «cooperation among librarians, vendors, and publishers in providing carefully curated resources, information-literacy instruction, and training in critical thinking will guide our students—tomorrow’s leaders—to become thoughtful information users who easily recognize fake news in its various.» O conceito de autoridade é central no framework da ACRL (American Library Association, 2015) e diversos autores refletiram sobre este conceito, avaliando a sua atualidade face ao contexto digital e em rede. Para Bluemle (2018) os programas de LI devem desenvolver métodos para a avaliação da informação, que espelhem a complexidade da autoridade cognitiva, e devem explorar a relação entre evidência e a interpretação. Para Niedringhaus (2018) foi o aumento da circulação de fake news que levou à diminuição da confiança nos especialistas, que foram perdendo a autoridade e ficaram associados a 70 mentiras. Saunders & Budd (2020) apontan que a perceceção sobre autoridade tem vindo a mudar principalmente porque os utilizadores têm acesso a conteúdos produzidos por minorias que até então eram marginalizadas nos media convencionais e que passaram a ter um valor intrínseco e representativo da diversidade e da experiência de vida. Os autores afirmam que tem sido uma importante mudança, já que, repensar as definições de autoridade é um passo essencial para redefinir um sistema que há muito está assente em padrões masculinos de supremacia caucasiana e heteronormativos. No sentido em que os PI não conseguem travar o fluxo ininterrupto de informação falsa que circula, o seu papel passa a estar maioritariamente centrado na instrução, tendo como base a LI (De Paor & Heravi, 2020), este comprometimento ético em educar surge daquilo que os PI acreditam ser as suas responsabilidades éticas face ao problema desinformacional, que se enquadram aqui na promoção da verdade (T. Froehlich, 2017; P. Lor et al., 2021) ou como coloca Lor et al.(2021) «librarians should be the guardians of (this) truth and it should become the core value underpinning their moral reasoning and sense of social justice.» Para Buschman (p.222, 2019) as bibliotecas e os PI devem estar mais envolvidos na promoção da democracia: «LIS needs to play the long game in democratic society, and these formulations are not comprehensive, but they are responsive to our fuller definition of fake news, the contemporary environment of democracy, and a more nuanced understanding of contemporary democracy. LIS efforts to counteract fake news and the spirit in which they have been undertaken are excellent beginnings, but they are beginnings.» Alinhado com Buschman está Sullivan (p.96, 2019a) que defende que os PI devem aprofundar a sua reflexão sobre a relação que existe entre informação e participação democrática, afirmando que no âmago do ecossistema informacional existem predisposições tendenciosas: «For the most informed citizens, the system functions as intended, but it operates less democratically as the depth of information decreases and the distribution becomes less equitable. If there is thus a differential cost of being informed, and the depth of one’s information depends on structural factors, then there is an urgent need for librarians to look beyond the problems of Facebook or filter bubbles when championing an informed public.» 71 Sem dificuldade compreendemos que o alinhamento ético e compromisso dos PI, quer atuem em bibliotecas escolares, públicas ou universitárias, está em contribuir para o desenvolvimento de uma cidadania mais responsável em relação aos processos informacionais, quer no que respeita ao desenvolvimento de competências de avaliação da informação e pensamento crítico, quer na consciencialização do utilizador enquanto disseminador e consumidor da informação, sendo que a missão das bibliotecas está concomitantemente conectada a uma missão orientadora e mediadora, de forma a contribuir para a formação do indivíduo. Fontanin (2021) sugere assim que talvez seja necessário uma redefinição do papel dos PI no que respeita ao problema desinformacional: «(…) the ultimate ethical doubt is whether library and information professionals are aiming at justifying their existence in the changing informational landscape or are ready to rethink their role and also become as invisible as libraries are becoming, should this serve the cause of fighting disinformation and contributing to an informed and more aware society.» A nossa segunda questão centra-se nas estratégias ou práticas adotadas pelos PI no combate à desinformação em bibliotecas, independentemente da sua tipologia. Com base no trabalho de RSL já anteriormente citado de Revez & Corujo (2021) apresentamos a tabela 6 que sintetiza estas práticas e em anexo apresentamos o material usado pelos PI (checklists, alguns websites citados e usados como estratégia, infografias, memes, etc.). Práticas das bibliotecas no combate à desinformação ID [Tabela x] Avaliação de fontes Abordagem com checklists CRAAP (Currency, Relevance, Accuracy, Purpose) 7; 14; 16; 20; 29; 31; 32; 34; 35; 36 RADAR (Rationale, Authority, Date, Accuracy, Relevance) 1; 13; 20; IFLA infografia “How to Spot Fake News” 2; 11; 13; 29; 31; Outras técnicas Leitura transversal 23; 28; 29; Método IF I APPLY 33 Literacia da Informação Materiais de biblioteca Guias de biblioteca (incluindo recursos factchecking) 3; 7; 11; 14; 16; 17; 20; 25; 29; 32; 34; 37; Formação formal (online e offline) Formação presencial ou online 1; 2; 3; 4; 5; 7; 8; 9; 11;13; 14; 16; 17; 18; 19; 22; 28; 72 29; 30; 31; 32; 34; 35; 36; 37; 38 Outras abordagens Abordagens conversacionais que envolvem competências de pensamento crítico 5; 21; 30; 35 Gamificação como estratégia de aprendizagem (online e offline) 5; 6; Técnicas de curadoria digital 26; Disseminação Audiovisual Memes e infografias 8; 10; 18; 26; 28; Atividades audiovisuais, como Youtube vídeos 5; 26; Eventos públicos Conferências e debates (que podem incluir parcerias com jornalistas) 4; 7; 11; 25; 37 Social media Campanhas em Social media 11; 18; Out-of-IL-Box Colaborações e parcerias Parcerias com professores, jornalistas, media, editores, … 4; 5; 15; 19; 23; 41; Via tecnológica Soluções tecnológicas para identificar informação falsa 24; Tabela 6. Práticas dos PI contra a desinformação (a partir de Revez &Corujo, 2021 As soluções práticas apresentadas pelos PI centram-se maioritariamente na formação presencial e online, complementada com o uso de outros recursos ou materiais. Existe algum debate sobre a eficácia das checklists e sobre o currículo dos programas de LI que deverão estar mais centrados em práticas de metaliteracia. Rochlin (2017) e Burkhardt (2017) apontam ser necessário aplicar programas de LI durante toda a aprendizagem dos estudantes, desde a infância até à idade adulta, ou seja, repetir ciclos de LI, para que os estudantes desenvolvam pensamento e questionamento crítico. A formação em LI é reconhecida como ferramenta central no combate à desinformação. Num estudo de caso que abordava as perceções sobre LI de Delellis & Rubin (2018) os participantes (8 professores, 6 bibliotecários e 4 coordenadores de departamento) 73 quando questionados sobre a relevância de LI afirmaram que LI é essencial na educação dos cidadãos, pois permite os indivíduos envolverem-se e participarem da democracia. Também na experiência descrita por Kendra Auberry (2018) foi criado um fórum de discussão que permitiu a partilha de experiências sobre a criação de fake news (exercício proposto na formação), tendo como ponto de partida a exploração de elementos da LI o que tornou claro que os estudantes necessitam de orientação para discernir as informações que lhes chegam aos feeds. Wade & Hornick (2018) realizaram um questionário onde apresentavam diversas propostas de formação entre as quais uma sobre fake news, que revelou ter sido a que maior interesse teve por parte dos alunos. Desenvolveram um workshop focado em redes sociais com o objetivo de desenvolver capacidades de LI sobre o uso (consumo e partilha) da informação. Apesar de existirem recursos tecnológicos limitados, os facilitadores promoveram estratégias cooperativas de aprendizagem de competências informacionais, o que proporcionou maior interação entre os participantes, promovendo o diálogo e a aprendizagem conjunta. Os estudos acima descritos demonstram que existe uma perceção muito positiva sobre o potencial uso da LI no combate à desinformação e que estudantes e possivelmente outros utilizadores procuram desenvolver competências em LI. O debate em torno de como providenciar formação em LI e como organizar o programa é abundante. Os autores dos artigos aqui selecionados avançam várias propostas e relatam experiências bem-sucedidas, no entanto, não se verificam resultados que meçam o impacto das iniciativas (Revez & Corujo, 2021). Por exemplo, Glisson (2019) defende uma estratégia de formação interativa e contextual assente em três princípios (1) existência de espaço de questionamento para a prática de decisão na avaliação da informação; (2) exemplificação prática e exame crítico de exemplos; (3) contextualização do problema da desinformação globalmente para contrariar uma atitude nacionalista do problema. Este processo colocado em prática pode ajudar a definir as características do jornalismo ético e da escrita científica. No mesmo artigo Glisson (2019) descreve a importância de usar o storytelling em conteúdos que sejam apelativos para os participantes, «Social justice topics, such as Black Lives Matter, Islamophobia, or the 2016 election, held students’ attention because these issues affected 74 them directly. The Russian troll farm story also engaged students because it had dramatic cloak-and-dagger appeal.» O comportamento de partilha de informação foi estudado por Bailey & Hsieh-Yee (2019) que apontam que uma abordagem mais efetiva seria responsabilizar os utilizadores de informação na sua disseminação de informação falsa, ou seja, desenvolver estratégias de LI focadas no comportamento do utilizador de informação. Beene & Greer (2021) afirmam que apesar das checklists como a CRAAP (Anexo F) serem «dispositivos mnemónicos» que apoiam o complexo processo da avaliação da informação, o facto de simplificarem o processo de decisão a um processo heurístico pode acarretar riscos e tornarem-se ineficientes face à variedade de informação falsa existente. O problema com as checklists como CRAAP e RADAR (Anexo G), afirmam Sullivan (2019a), Lim (2020) e Bangani (2021), entre outros, é que estas apresentam indicações desatualizadas em relação ao contexto informacional em constante evolução. Lim (2020) notou no seu estudo que apesar de existir um grande criticismo em relação ao uso das checklists, estas são ainda amplamente usadas nas bibliotecas como forma de detetar fake news e avaliar fontes de informação. Também Addy (2020) nota que as checklist e outros métodos menos iterativos são insuficientes na LI porque se focam em critérios que facilmente são falsificados no ambiente online: «The new frontier of information literacy instruction should be skills that help students not only to judge credibility, but also evaluate information on controversial or divisive topics in a way that helps them develop truthful assessments, and responsible civic discourse.» Por exemplo, os mesmo autores (Addy, 2020; Lim, 2020b) apontam que as técnicas aplicadas pelos factcheckers permitem-lhes alcançar melhores resultados em menos tempo. Os factcheckers profissionais utilizam a leitura transversal, fazem background research o que lhes permite tomarem uma direção na pesquisa limitando assim os cliques, ler menos e aprender mais sobre um tópico. Neste sentido, Lim (2020b) nota ser importante os PI introduzirem na estrutura das suas formações em LI elementos sobre estratégias de pesquisa na internet. Face à complexidade do problema Beene & Greer (2021) são defensores de uma abordagem à LI holística e Fontanin (2021) assume ser mesmo necessário abordagens multidisciplinares na LI. 81 como objetivo desta dissertação um estudo sobre o papel das bibliotecas e o posicionamento dos PI neste domínio. Como tal realizámos uma RSL onde foram recolhidos das bases da ERIC, Scopus, Web of Science, LISTA, Open Grey e RCAAP um total de 194 documentos, que após a remoção de duplicados e aplicação de critérios de inclusão/ exclusão foram incluídos um total 42 documentos (Anexo E), os quais foram lidos na íntegra para responder a três questões estruturais: (Q1) Qual a missão e compromisso ético das bibliotecas e dos PI na luta contra a desinformação?; (Q2) Que estratégias estão a ser aplicadas pelas bibliotecas e colocadas em prática pelos PI no combate à desinformação?; (Q3) Qual o papel das bibliotecas e dos PI no combate à desinformação?. Os resultados obtidos mostram que a missão das bibliotecas e dos PI está interligada com a educação em LI e com o desenvolvimento de programas que promovam competências em avaliação, literacia e disseminação da informação, bem como o dever cívico de responsabilizar o utilizador pelo uso da informação e o impacto que isso possa vir a ter. A nossa análise SWOT demonstra que existem pontos muito positivos no posicionamento das bibliotecas como lugares mediadores do desenvolvimento e que os PI possuem as competências informacionais exigidas para o combate à desinformação. O potencial da neutralidade «convida à reflexão» e ao diálogo aberto, no entanto foram detetados obstáculos sobre o desempenho funcional e efetivo dos serviços das bibliotecas e nos próprios PI. Nas bibliotecas os obstáculos mais limitadores são a falta de recursos para a concretização de projetos de maior impacto, o que poderá inibir a experimentação de novos programas alinhados com as políticas contra a desinformação, onde o posicionamento das bibliotecas é ainda mais frágil quando existe a falta do reconhecimento dos PI que aí desenvolvem atividade e do seu potencial em serem parceiros em programas de LI. Existe ainda uma vasta investigação que pode ser abordada: problemas sociopolíticos com foco em temas que relacionam bibliotecas e democracia; preconceitos e cidadania; verdade (no sentido em que Lor et al. (2021) colocam: verdade alética); código ético dos PI e desinformação. 82 6.1. Implicações práticas para as bibliotecas As bibliotecas podem garantir que estão alinhadas com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (em específico com o ODS 4, na educação inclusiva) (Nations, 2021), e também com o Plano de Combate à Desinformação da Comissão Europeia (High representative of the Union for Foreign Affairs and Security Policy, 2018), e em Portugal, com a Carta dos Direitos Digitais (“Decreto de Lei n.o 27/2021,” 2021) de forma a promoverem programas e serviços em prol e defesa da verdade, sendo «facilitadores da verdade» e inspirando confiança aos seus utilizadores. Também foi mostrado que é central que se consiga levar a cabo estudos a médio-longo prazo, mistos (qualitativos e quantitativos) que possam abordar o impacto das iniciativas de LI, mas também a perceção dos utilizadores sobre os serviços e utilização da biblioteca, ou seja, abordagens centradas no utilizador. Por exemplo, os estudos de Roskilde (2021) demonstraram que a importância da coleção da biblioteca é vital e que a biblioteca é percecionada como refúgio, lugar de expansão de horizontes (porque se encontra uma seleção de conteúdos eclética que estimula a imaginação) e Chow & Tian (2021) relacionaram a qualidade de vida dos cidadãos com o número de empréstimos de diversas bibliotecas e concluíram que quanto maior a circulação mais alta a qualidade de vida dos cidadãos. Também Ahlfeld (2019); Bangani (2021) e Lor et al. (2021)são defensores da atualização da coleção tendo em conta o problema da desinformação de forma a apoiar a investigação e a providenciar fontes credíveis sobre o tema. Como foi referido, uma nova tendência na visão sobre a missão das bibliotecas parece ter lugar: «o futuro é impacto» e a «construção de comunidades» (Lankes, 2020), de forma a valorizar cada vez mais a colaboração; coesão; troca de conhecimentos e expansão criativa dos indivíduos e em geral da comunidade em torno da biblioteca. Para mitigar os efeitos da desinformação é necessário sustentar serviços inclusivos que possibilitem um terreno para a descoberta criativa do potencial humano, para a autodescoberta, mas também para o desenvolvimento da reflexão crítica conjunta. Lankes afirma «Our nation may be divided at this moment. But throughout our history we see that when we come together in civil, honest conversations based on facts and science, history, and truth, we find commonality. And I 83 believe that our libraries and schools are the essentials social infrastructures that will help move us past this dark period in our history.» (D. Lankes, 2021) 6.2. Implicações práticas para os PI Os PI entendem o problema da desinformação como sistémico e multidisciplinar, e se as bibliotecas são os espaços em torno do qual a comunidade se constrói, o papel dos PI focase em facilitar a educação sobre a desinformação, de forma a serem desenvolvidas competências em LI, como a capacidade de reflexão; o pensamento crítico sobre a informação; o reconhecimento de autoridades fiáveis e competências de navegação no ecossistema informacional. Bailey & Hsieh-Yee (2019) e Dahri & Richard (2018) afirmam ser uma responsabilidade dos PI promover o consumo responsável da informação e serem necessários programas que abordem a era pós-verdade e o problema da desinformação. A literatura em torno do papel destes profissionais está, em suma, focada nos programas de literacia e na educação. Novas competências em curadoria de dados e gestão de informação digital são também emergentes e alargam a atuação dos PI, no entanto será necessário que estes profissionais estejam em constante reciclagem e valorização das suas competências de forma a acompanharem o desenvolvimento da ética aplicada ao digital, a regulamentação de proteção, utilização e exploração de dados e políticas para a informação. O código de conduta ético dos PI terá que se atualizar relativamente aos desenvolvimentos na legislação, ética e regulamentação do digital, incluindo práticas mais explícitas que promovam a verdade e a sociedade democrática e neste sentido Lor et al. (2021) e Fontanin (2021)e Oliphant (2021)levantam interessantes questões e direções acerca da ética na conduta dos PI. Para concluir, os PI estão bem posicionados para desenvolver um trabalho que relacione o pensamento crítico, cidadania, promoção e reflexão sobre a verdade, participação ativa que promova literacia, debate e conhecimento sobre o problema da desinformação. Neste sentido, o foco dos PI deverá estar mais localizado na promoção da prática da cidadania e fomentar a participação mais ativa dos indivíduos na sociedade. 84 6.3. Limitações e investigação futura O presente estudo procurou responder de forma ampla sobre o posicionamento ético, as práticas e a posição estratégica das bibliotecas e dos PI em relação à desinformação, levando a cabo uma RSL que inclui apenas documentos em inglês. Aqui encontramos por certo limitações que convém notar: o nosso estudo procedeu e procurou incluir um estudo de RSL análogo levado a cabo por Revez & Corujo (2021) que responde sinteticamente sobre as práticas dos PI no combate à desinformação, por outro lado, tendo apenas incluído documentos em inglês (e maioritariamente provenientes dos Estados Unidos da América) a amostra recolhida poderá não ser representativa das questões éticas abordadas em países cuja língua não seja inglesa, por exemplo, países europeus como a Alemanha, Dinamarca e Suécia que não estavam representados na nossa amostra final. Em consequência, este estudo poderá servir para sustentar investigações futuras que reflitam sobre os mesmos pressupostos de forma individualizada, ou seja, procurando abranger apenas uma das questões de partida relacionadas com ética, práticas, e posição estratégica das bibliotecas e PI e cingindo-se apenas à União Europeia. Também a partir dos pressupostos desta investigação podemos compreender que haverá uma investigação fecunda a aprofundar e a realizar sobre a relação das bibliotecas com a sociedade democrática e cidadania na era da pós-verdade, o código de ética dos PI e a promoção da verdade como premissa, o papel dos PI na construção de uma infoesfera que promova a prática da cidadania; que reflita na legislação e ética digitais e na construção de comunidades como estratégia para mitigar a desinformação; que reflita na abordagem da CI relativamente à automação com IoT e o uso dos dados provenientes destes dispositivos; bem como ao problema das deepfakes. 85 Conclusão Esta dissertação teve como objetivo contribuir para ampliar o estudo sobre o papel das bibliotecas no combate à desinformação, no âmbito do qual também se inserem os PI. Procurámos compreender quais são as perspetivas éticas, qual o posicionamento estratégico e quais as práticas das bibliotecas para prevenir e mitigar a desinformação. Para esse fim, foi realizada uma RSL que abrange o período de 2017 a junho de 2021, a qual, para efeitos desta dissertação, apenas inclui documentos em língua inglesa. A nossa amostra final contemplou 42 artigos maioritariamente provenientes dos Estados Unidos da América, não refletindo, por isso, de forma abrangente o estado da arte a nível europeu. Por outro lado, a partir da categorização de Revez & Corujo (2021) categorizámos as práticas dos PI no combate à desinformação, no período referenciado. Por fim, utilizámos uma análise SWOT para avaliar o posicionamento estratégico quer das bibliotecas quer dos PI, avaliando os pontos fortes, as fragilidades e oportunidades que poderão fazer emergir novas perspetivas, assim como as ameaças ao bom desempenho destas instituições e destes profissionais. A nossa discussão final centra-se na mais recente tendência, definida por David Lankes, de construir comunidades onde o diálogo é fundamental, demonstrando também que é vital e necessário um investimento em estudos centrados no utilizador, de forma a acompanhar as necessidades de cada comunidade local. Para além disso, é necessário avaliar o impacto dos serviços e dos programas (incluindo os programas de LI) que as bibliotecas oferecem, já que ficou demonstrado a partir da nossa RSL que a maioria dos programas propostos não referiam a avaliação do impacto destas iniciativas, não sendo possível criar um relatório baseado em evidências. A partir do presente estudo podemos concluir que na era pós-verdade, a missão das bibliotecas e dos PI pode ser bastante relevante e participativa, especialmente quando conjugada com a nova visão de «criação de comunidades coesas», estimulando o diálogo intercultural e a sensação de «espaço seguro», no qual as bibliotecas (independentemente da sua tipologia) voltam a ocupar um lugar central na atividade cultural da comunidade onde se inserem. As iniciativas de LI, tal como Revez & Corujo (2021) já tinha apontado, são a principal dinâmica proativa para mitigar de forma prática a desinformação, visto os PI terem um papel 86 ativo e importante neste problema informacional. Existe no âmbito da CI uma investigação prolífera que se repercute nos trabalhos de Fallis (2015) sobre a desinformação, Lor et al. (2021) sobre a verdade alética e a ética dos PI, Obelitz Søe (2019a, 2019c) no que respeita ao debate em torno das definições mais profícuas sobre desinformação e desenvolvimento da FI, Bailey & Hsieh-Yee (2019) no desenvolvimento de uma perspetiva de responsabilização comportamental na utilização da informação, Oliphant (2021) no debate sobre a justiça social; e muitos outros, que pensamos estabelecer linhas de investigação que poderão também ser aprofundadas, alinhando-se com a FI e com a visão da construção de uma infoesfera saudável, cujo o percursor concetual é Floridi (2010). Doravante, o envolvimento destes profissionais também se prende com a reflexão sobre a verdade e sobre os parâmetros em que o seu código ético e de conduta assenta. Entende-se que as bibliotecas podem ter uma vantagem devido à confiança institucional construída ao longo da sua existência, e que os PI podem utilizar esta vantagem e os recursos que já têm disponíveis (enquanto especialistas de informação) para melhorar a sua visibilidade e impacto, sendo que serão necessárias ações estratégicas alinhadas com as políticas e diretivas da União Europeia, como já referido, com a legislação e direitos digitais. Será também necessário realinhar os programas de LI com o plano de ação contra a desinformação. Ressalvamos ainda nestas considerações finais que este estudo procurou promover uma reflexão sobre os perigos «informacionais» já detetados, como as deepfakes, assim como os perigos que terão maior intensidade no futuro com o uso dos IoT a larga escala e que trarão problemas relativos ao uso e abuso dos dados dos cidadãos. Neste sentido, as bibliotecas e PI terão que manter uma espécie de calendário preventivo e investigar qual a sua contribuição eventual neste âmbito. No nosso modesto entender, a criação de comunidades em torno da promoção de uma cidadania com multiliteracia (dados, finanças, política, ecologia, etc.) seria a contribuição mais alinhada com a Agenda 2030 e com a própria missão destas instituições e profissionais, sendo que para isto é necessário também a colaboração com outros especialistas de outras áreas. Tornar a biblioteca um lugar cada vez mais envolvido nas necessidades da comunidade, com capacidade autoavaliativa do seu desempenho, numa linha de atuação que envolve a reflexão sobre a «criação de uma infoesfera saudável», que poderá paulatinamente contribuir para a mitigação da desinformação. 87 Bibliografia Addy, J. M. (2020). The art of the real: fact checking as information literacy instruction. 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Competências dos profissionais de informação-documentação de suporte à comunicação científica eletrónica, segundo Ochôa & Pinto, 2019) 104 Anexo B – Tipologias da Desinformação, tabela original de Kapantai et al., 2020 105 Anexo C - Modelo de ciclo de vida da Informação Luciano Floridi, 2010 106 Anexo D – Taxonomia da Revisão da Literatura, segundo Harry Cooper (Cooper, 1988) Taxonomia da Revisão de Literatura Características Categorias Foco (1) - Resultados de investigação; -Métodos de investigação; - Teorias; - Práticas ou aplicações; Objetivo (2) - Integração: a) Generalização; b) Resolução de conflitos; c) Construção e pontes linguísticas; - Crítica; - Identificação de temas centrais; Perspetiva (3) - Neutral; - Aquisição ou defesa de uma perspetiva; Abrangência (4) - Exaustiva; - Exaustiva com citações selecionadas; - Representativa; - Central Organização (5) - Histórica; - Concetual; - Metodológica; Audiência (6) - Investigadores especializados; - Investigadores em geral; - Profissionais e legisladores; - Público em geral;