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Consumo de notícias através do Facebook e a formação de perceções em acontecimentos políticos Sofia Beatriz Correia Baptista Relatório de Estágio de Mestrado em Jornalismo Maio de 2020
Relatório de estágio apresentado para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Jornalismo, realizado sob a orientação científica da Professora Dora Santos Silva.
CONSUMO DE NOTÍCIAS ATRAVÉS DO FACEBOOK E A FORMAÇÃO DE PERCEÇÕES EM ACONTECIMENTOS POLÍTICOS [NEWS CONSUMPTION THROUGH FACEBOOK AND THE FORMATION OF PERCEPTIONS IN POLITICAL EVENTS] SOFIA BEATRIZ CORREIA BAPTISTA RESUMO Este relatório tem como ponto de partida um estágio realizado na secção de Política do jornal PÚBLICO entre setembro e novembro de 2019. Após a descrição da experiência de estágio e da caracterização do órgão de comunicação, o trabalho analisa o consumo de notícias através das redes sociais, em particular o Facebook, e a formação de perceções em acontecimentos políticos. O consumo de notícias, incluindo de informação política, faz-se cada vez mais através das redes sociais. A vulnerabilidade das redes sociais à difusão de desinformação torna a literacia mediática determinante. Os jovens adultos entre os 18 e os 34 anos representam o grupo com maior número de utilizadores do Facebook. Com base neste contexto, a investigação analisa a cobertura realizada pelo jornal PÚBLICO de um acontecimento político relevante, o Orçamento do Estado para 2020, com foco no site e no Facebook. Uma vez que a investigação se centra nos jovens, realizou-se um inquérito para estudar o modo como os jovens formam perceções sobre as notícias e a política através das redes sociais. Foram publicados 354 artigos no site do PÚBLICO sobre o Orçamento do Estado e a notícia foi o género jornalístico predominante. No Facebook, a hashtag #OE2020 foi utilizada 29 vezes e de forma irregular. Concluiu-se que os temas e os títulos das peças, o interesse pelos assuntos abordados e o facto de os artigos serem ou não explicativos são os fatores que mais influenciam a formação de perceções dos jovens ao ver notícias sobre o Orçamento do Estado no Facebook. PALAVRAS-CHAVE: redes sociais; jornalismo político; literacia mediática; desinformação; jovens
ABSTRACT This report is based on an internship in the political section of PÚBLICO between September and November 2019. After describing the internship experience and the newspaper history, the report analyses news consumption through social media, particularly Facebook, and the formation of perceptions in political events. News consumption, including political information, is increasingly done through social media. The vulnerability of social media to the spread of misinformation makes media literacy decisive. Young adults between the ages of 18 and 34 represent the group with the largest number of Facebook users. On this basis, the investigation analyses the coverage done by PÚBLICO of a major political event, the state’s budget for 2020, with focus on website and Facebook. Since the focus of the research is on young people, an inquiry was conducted to study how they form perceptions about news and politics through social media. 354 articles were published in PÚBLICO’s website about the state’s budget and the most used news genre was news articles. On Facebook, the hashtag #OE2020 was used 29 times and irregularly. It was found that the topics and titles of the articles, the interest in the subjects covered and whether or not the articles are explanatory are the factors that most influence the formation of perceptions of young people when seeing news about the state’s budget on Facebook. KEYWORDS: social media; political journalism; media literacy; misinformation; young people
Índice Introdução ..................................................................................................................... 1 Capítulo I: Caracterização do órgão de comunicação e da experiência de estágio ....... 4 I.I. O jornal PÚBLICO ............................................................................... 4 I.II. Estagiar na secção de Política do PÚBLICO ....................................... 6 Capítulo II: Enquadramento teórico ............................................................................. 13 II.I. Jornalismo político num high-choice media environment .............. 13 II.II. Redes sociais, consumo de notícias e informação política ............ 16 II.II.I. O caso do Facebook ......................................................... 20 II.III. A literacia mediática e o impacto da desinformação em acontecimentos políticos relevantes .................................................... 25 II.IV. A relação dos jovens com as notícias ........................................... 39 Capítulo III: O Orçamento do Estado enquanto acontecimento político ..................... 48 III.I. Objetivos e perguntas de investigação .......................................... 48 III.II. Análise e discussão de resultados ................................................ 49 Conclusão ..................................................................................................................... 68 Bibliografia ................................................................................................................... 72 Índice de gráficos ......................................................................................................... 80 Anexos ......................................................................................................................... 81
1 Introdução Vivemos num mundo em que a informação está omnipresente. As novas tecnologias de informação e comunicação, que já pouco têm de novas, transformaram a realidade. O jornalismo e o digital são hoje indissociáveis. Além da presença na Internet, o jornalismo teve de se adaptar ao surgimento e desenvolvimento das redes sociais, que abriram a porta a um mundo novo, onde todos podem consumir e partilhar (des)informação. Apesar de as redes sociais representarem mais uma possibilidade de aproximação entre o jornalismo e os cidadãos, existem muitas condicionantes nesta relação. A literacia mediática, a preferência por conteúdos não informativos ou o funcionamento dos algoritmos são alguns exemplos. O ponto de partida deste trabalho é o jornalismo político, depois da realização de um estágio de três meses na secção de Política do jornal PÚBLICO. O foco do primeiro capítulo está na experiência de estágio e na caracterização do órgão de comunicação. O enquadramento teórico do trabalho é feito no segundo capítulo, com uma temática em estudo bastante abrangente. No atual high-choice media environment, muitos consomem notícias e informação política apenas através das redes sociais, principalmente pelo Facebook. A literacia mediática define a forma como os indivíduos contactam com os media e é fundamental para combater a propagação de desinformação. A desinformação não é um fenómeno novo nem exclusivo das redes sociais, mas estas proporcionam uma maior proliferação em termos de escala e velocidade. Uma vez que o foco da investigação se situa nos acontecimentos políticos e nas gerações mais jovens, ainda no segundo capítulo analisam-se o impacto da desinformação nesses eventos e a relação dos jovens com as notícias. A desinformação com o objetivo de afetar atos eleitorais é especialmente relevante porque é nestes períodos que os cidadãos mais procuram informação, nomeadamente através das redes sociais. Quanto aos jovens, as redes sociais fazem parte do seu quotidiano, muitas vezes como forma de entretenimento, mas são também um meio onde consomem notícias, sem precisar de as procurar de forma ativa.
2 O terceiro capítulo aborda a preparação do Orçamento do Estado para 2020 enquanto acontecimento político relevante. A preparação de um Orçamento do Estado envolve um processo longo e complexo e representa um dos momentos mais importantes no panorama político português. O objetivo da investigação é analisar a cobertura que o PÚBLICO realizou deste evento no seu site 1 e no Facebook, através da análise das publicações que utilizam a hashtag #OE2020. A metodologia de investigação é mista porque, além da análise de conteúdo, foi feito um inquérito online a jovens adultos entre os 18 e os 34 anos com o objetivo de compreender a forma como este grupo, do ponto de vista da receção, adquire perceções sobre as notícias e a política através das redes sociais, especialmente pelo Facebook. De acordo com dados de janeiro de 2020 2 , as duas faixas etárias com mais utilizadores no Facebook situam-se entre os 18 e os 24 anos e entre os 25 e os 34 anos. No âmbito do objetivo de investigação, pretende-se responder às seguintes questões: - Quantos artigos dedicou o PÚBLICO ao Orçamento do Estado? - Quais as características editoriais das peças publicadas no PÚBLICO, em particular em relação aos géneros jornalísticos, ao tema e ângulo de abordagem (informativo ou explicativo)? - Qual a presença do Orçamento do Estado no Facebook do PÚBLICO, em particular as publicações identificadas com a hashtag #OE2020? - Que perceções adquirem os jovens ao ver notícias sobre o tema no Facebook? Através da análise de conteúdo, concluiu-se que a cobertura que o PÚBLICO realizou sobre o Orçamento do Estado no seu site foi extensa. O género jornalístico predominante nos 354 artigos publicados foi a notícia. Em relação à presença do 1 https://www.publico.pt/oe-2020 2 https://www.statista.com/statistics/376128/facebook-global-user-age-distribution/
3 Orçamento do Estado no Facebook do PÚBLICO, a hashtag #OE2020 foi utilizada 29 vezes e de forma irregular. Quanto ao inquérito aos jovens, a maioria afirmou ter interesse por política, acompanhou o processo de elaboração do Orçamento do Estado através do que lhe aparecia nas redes sociais ou era comentado por amigos, clicaria em duas de três notícias sobre o tema publicadas pelo PÚBLICO no Facebook e sente-se total ou parcialmente esclarecido depois de as ler. Foi possível concluir que os temas e os títulos das peças, o interesse pelos assuntos abordados e o facto de os artigos serem ou não explicativos são os fatores que mais influenciam a formação de perceções dos jovens ao ver notícias sobre o Orçamento do Estado no Facebook.
4 Capítulo I: Caracterização do órgão de comunicação e da experiência de estágio I.I. O jornal PÚBLICO O jornal PÚBLICO foi fundado a 5 de março de 1990. Pertence ao grupo empresarial português Sonae, tem sede na Maia e redações em Lisboa e no Porto. Vicente Jorge Silva foi o primeiro diretor do PÚBLICO. Nuno Pacheco, Francisco Sarsfield Cabral, Nicolau Santos, José Manuel Fernandes, Bárbara Reis e David Dinis já foram diretores do jornal. Desde 2018 e até maio de 2020, o diretor é Manuel Carvalho e os diretores-adjuntos são Ana Sá Lopes, Amílcar Correia, David Pontes e Tiago Luz Pedro. O estatuto editorial do PÚBLICO 3 define o jornal como um “diário de grande informação, orientado por critérios de rigor e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica”. O PÚBLICO “inscreve-se numa tradição europeia de jornalismo exigente e de qualidade, recusando o sensacionalismo e a exploração mercantil da matéria informativa” e “aposta numa informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de atividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural”. Na introdução do livro de estilo do PÚBLICO 4 , cujo texto original é de 1989 mas foi editado em livro apenas em 1997, lê-se que o estilo do jornal “integra os grandes princípios fundadores do jornalismo moderno - adotados pelos jornais de referência em todo o mundo, do "The Washington Post" e do "The New York Times" ao "La Repubblica", "El País", "Le Monde" ou "The Independent" - e uma nova sensibilidade para captar e noticiar os acontecimentos, que caracteriza um jornal como o "Libération", por exemplo”. No mesmo texto, Vicente Jorge Silva explica que “notícias completas e originais, escritas corretamente, num estilo fluente e incisivo, são o capital informativo mais precioso do PÚBLICO. Por isso, e sem prejuízo da desejável e necessária variedade de vocações orientadas para os diferentes géneros jornalísticos - notícia, crónica, 3 https://www.publico.pt/nos/estatuto-editorial 4 http://static.publico.pt/nos/livro_estilo/04-introducao.html
11 vários partidos de forma a tentar perceber até quando os cartazes da campanha das eleições legislativas iriam ficar nas ruas, assim como a Câmara Municipal de Lisboa e a Comissão Nacional de Eleições, visto que não há uma data estabelecida pela lei para retirar a propaganda 24 . Algumas das Secretarias de Estado do novo Governo foram deslocadas para fora de Lisboa e, por isso, surgiu a ideia de conversar com três antigos secretários de Estado que tiveram esta experiência no passado, de forma a tentar perceber quais os prós e os contras de tal opção 25 . Outro trabalho que destaco foi pensado para sair a 25 de novembro, dia em que a tomada de posse da Assembleia da República fizera um mês. Em conjunto com a jornalista Liliana Borges, contactámos vários antigos deputados que não tinham sido eleitos para a nova legislatura para perceber, por exemplo, quais as mudanças no seu quotidiano e quais as perspetivas para o futuro 26 . O último trabalho que publiquei também foi bastante interessante de realizar: tendo em conta que há três partidos com representação parlamentar pela primeira vez (Livre, Chega e Iniciativa Liberal), pensámos em analisar que propostas já tinham sido apresentadas por essas forças partidárias 27 . Todos os dados sobre iniciativas legislativas, como projetos de lei ou de resolução, e perguntas/requerimentos ao Governo podem ser consultados no site do Parlamento. Esta análise permite ter uma maior noção do trabalho dos partidos e conhecer a fundo as suas ideias e propostas. Pontualmente, ao longo do estágio, fiz alguns trabalhos solicitados por outras secções: fui a uma conferência de imprensa do bastonário da Ordem dos Médicos porque não havia nenhum jornalista da secção de Sociedade disponível para ir; a pedido da secção de Local, entrevistei o líder do projeto Urban Co-creation Data Lab e o artigo 24 https://www.publico.pt/2019/11/17/politica/noticia/ate-havera-cartazes-legislativas-ruas-1893753 25 https://www.publico.pt/2019/11/21/politica/noticia/opinioes-dividemse-secretarias-estado-lisboa1894484 26 https://www.publico.pt/2019/11/25/politica/reportagem/carris-teses-regresso-rotina-onde-andamdeputados-anterior-legislatura-1894921 27 https://www.publico.pt/2019/11/30/politica/noticia/propostas-chega-iniciativa-liberal-livre-1895338
12 saiu em janeiro de 2020, já depois de ter terminado o estágio 28 ; para a secção de Sociedade, fui a um protesto de alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas o artigo acabou por sair no P3 29 . No total, foram 37 as peças publicadas da minha autoria 30 . Em suma, o balanço que faço da minha experiência enquanto estagiária na secção de Política do PÚBLICO é bastante positivo. Foram três meses enriquecedores, em que pude pôr em prática aquilo que sabia e aprender ainda mais. Sem dúvida que só trabalhando diariamente numa redação é que se consegue perceber o seu funcionamento e como são as coisas na “vida real”. Nem todos os dias são fáceis, mas é também com esses momentos que se cresce a nível pessoal e profissional. Talvez a maior dificuldade que posso destacar relaciona-se com o contacto com as fontes, de quem muitas vezes dependemos para fazer o nosso trabalho e estas nem sempre facilitam, como acontece quando não colaboram ou demoram muito a responder. No entanto, é apenas um pequeno obstáculo que me ensinou a ser mais persistente, mas também mais paciente. Fui muito bem recebida no PÚBLICO, especialmente pelos meus colegas da secção de Política. Mostraram sempre disponibilidade para me ajudar e deram-me conselhos importantes. Com o passar do tempo, senti que confiavam em mim e no meu trabalho e agradeço as oportunidades que tive. 28 https://www.publico.pt/2020/01/03/local/noticia/ha-laboratorio-dados-ajudar-resolver-problemascidades-1892557 29 https://www.publico.pt/2019/11/18/p3/noticia/estudantes-faculdade-letras-lisboa-protesto-faltacondicoes-1894171 30 https://www.publico.pt/autor/sofia-correia-baptista
13 Capítulo II: Enquadramento teórico II.I. Jornalismo político num high-choice media environment A política é um dos temas centrais no jornalismo. Para Strömbäck e Shehata, “idealmente, o jornalismo político deve funcionar como fornecedor de informação, como watchdog e como fórum para discussões políticas, de modo a ajudar os cidadãos a compreender as questões políticas e a prevenir abusos de poder” 31 (Strömbäck & Shehata, 2018, p. 1). Strömbäck e Shehata apontam quatro motivos que justificam a importância do jornalismo político: está fortemente ligado à política e à democracia e próximo dos centros de poder; está relacionado com o papel do jornalismo nas democracias; influencia a forma como os cidadãos veem o mundo e as respetivas atitudes, opiniões e comportamentos a nível político; funciona como espaço e como ator nos processos políticos, o que influencia o funcionamento das instituições políticas, os seus processos e os atores envolvidos (2018, p. 2). Segundo os mesmos autores, a investigação tem demonstrado que o jornalismo político tem uma grande tendência para enquadrar a política enquanto jogo estratégico, que muitas vezes faz a cobertura de conflitos e de situações negativas, que não existem certezas sobre se é influenciado por determinados interesses políticos ou partidários e que o jornalismo interpretativo se tornou mais comum (2018, p. 1). Quando a cobertura noticiosa é feita como se de um jogo se tratasse, com vencedores e derrotados, táticas e estratégias de políticos e partidos, a qualidade do jornalismo diminui e perde-se o foco das questões reais, explicam Aalberg et al. (2016, p. 33). O crescimento do jornalismo interpretativo exige uma alteração na habitual fórmula jornalística, constituída por o quê, onde, quando, quem e porquê, para um maior peso no porquê e menor nos restantes fatores (Salgado et al., 2016, p. 52). Esser et al. explicam que, quanto ao nível de negatividade nas notícias sobre política, a sua 31 Tradução livre do excerto: “Ideally, political journalism should function as an information provider, watchdog, and forum for political discussions, thereby helping citizens understand political matters and help prevent abuses of power.”
14 variação depende de fatores como as organizações de media ou os temas das notícias (Esser et al., 2016, p. 89). Relativamente ao possível enviesamento do jornalismo político, tal perceção depende largamente das crenças partidárias de cada um, consideram Hopmann et al. (2016, p. 93). Desde o início do milénio que a comunicação política tem sofrido fortes e aceleradas mudanças. A transição para um high-choice media environment é uma das mais significativas alterações: “Esta mudança tem grandes ramificações para os ambientes de informação política e, consequentemente, para os processos de disseminação e aquisição de conhecimento nas democracias pós-industriais” 32 (Van Aelst et al., 2017, p. 4). No âmbito destes processos, os autores apresentam seis preocupações: declínio da oferta de informação política; declínio da qualidade das notícias; crescente concentração dos media e menor diversidade de notícias; crescente fragmentação e polarização; aumento do relativismo face aos factos; crescimento das desigualdades no conhecimento político. Estas tendências da comunicação política apresentam-se como desafios à democracia, pois podem pôr em causa a igualdade de oportunidades, o esclarecimento dos cidadãos e a própria participação política. As pessoas nunca tiveram tantas oportunidades de encontrar notícias e informação política como têm atualmente (Gil de Zúñiga et al., 2017, p. 105). Além dos media tradicionais, como a televisão, os jornais ou a rádio, a quase omnipresença de notícias, tanto nas redes sociais como na restante Internet, faz com que os cidadãos estejam muitas vezes expostos às notícias, mesmo que não as procurem de forma ativa (Gil de Zúñiga et al., 2017, p. 105). Ao mesmo tempo que a abundância de opções pode oferecer mais oportunidades de conhecimento, este high-choice media environment também pode afetar negativamente a democracia ao aumentar lacunas no conhecimento político com base em preferências de conteúdo, interesses e padrões de uso (Gil de Zúñiga et al., 2017, p. 106). 32 Tradução livre do excerto: “This change has major ramifications for the political information environments and, hence, processes of knowledge dissemination and acquisition in postindustrial democracies.”
15 Segundo um relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism, o aumento do media choice faz com que aqueles que têm mais informação obtenham ainda mais informação, ao mesmo tempo que os que têm menos informação obtêm menos informação. Esta desigualdade continua a aumentar à medida que o ambiente de media se torna cada vez mais digital (Kalogeropoulos & Kleis Nielsen, 2018, p. 2). Quanto maior a possibilidade de escolha, mais seletivas se tornam as pessoas e quanto mais seletivas são, mais importância ganham as suas preferências (Strömbäck et al., 2017, p. 2). O interesse por política transformou-se num fator determinante para o consumo de notícias no atual high-choice media environment, consumo esse que se tornou mais polarizado entre news-seekers e news-avoiders (Strömbäck et al., 2013, p. 414). Tal acontece porque, para os mais interessados em assuntos políticos, nunca foi tão fácil escolher em que momentos e em que plataformas querem acompanhar as notícias sobre política (Strömbäck et al., 2017, p. 2). Por outro lado, também nunca foi tão fácil para os menos interessados em política não serem expostos a notícias sobre o tema enquanto utilizam essas plataformas (idem). Em 2005, já Prior previa esta situação. “Uma maior escolha permite aos interessados por política acederem a mais informação e aumentarem o seu conhecimento político. Aqueles que preferem conteúdo não-político conseguem escapar mais facilmente das notícias e, por isso, adquirir menos informação política do que antes. Num highchoice environment, a falta de motivação, não a falta de capacidades ou recursos, coloca o maior obstáculo a um eleitorado amplamente informado” 33 (Prior, 2005, p. 577). 33 Tradução livre do excerto: “Greater choice allows politically interested people to access more information and increase their political knowledge. Yet those who prefer nonpolitical content can more easily escape the news and therefore pick up less political information than they used to. In a high-choice media environment, lack of motivation, not lack of skills or resources, poses the main obstacle to a widely informed electorate.”
16 II.II. Redes sociais, consumo de notícias e informação política De acordo com o Digital News Report de 2019, mais de metade (55%) da população total analisada (38 países) prefere aceder a notícias através de ferramentas como as redes sociais, motores de busca ou agregadores de notícias, que utilizam algoritmos no seu funcionamento (Newman et al., 2019, p. 14). Mesmo que não queiram, os utilizadores das redes sociais são expostos a notícias. As pessoas podem ir ao Facebook com outra intenção, mas tal acaba por acontecer de qualquer maneira (Tremayne, 2017, p. 27). Hermida definiu este processo como ambient journalism: “um sistema de consciência que oferece diversos meios para colecionar, comunicar, partilhar e exibir notícias e informação, servindo diversos propósitos” 34 (Hermida, 2010, p. 301). Para o autor, neste sistema o utilizador recebe informação “na periferia da sua consciência” (Hermida, 2010, p. 301). No entanto, muitas pessoas têm um “deserto de notícias” nas suas redes sociais. Segundo Thorson, um inquérito online realizado antes das eleições presidenciais de 2016, que Donald Trump venceu, revelou que 40% dos inquiridos não tinha visto nada sobre política nas redes sociais na semana anterior ao ato eleitoral. Os dados demonstraram ainda que estes desertos de notícias estão distribuídos de modo desigual, uma vez que os mais qualificados, os mais ricos e os utilizadores brancos veem mais notícias nas redes sociais do que os menos qualificados, os mais pobres e os utilizadores não-brancos. Por isso, Thorson considera que há mais estratificação na exposição a notícias online do que offline (Thorson, 2019). Estas desigualdades surgem como uma espiral que o ambiente digital, pelo seu funcionamento, continua a reproduzir. “Os cidadãos menos qualificados e com menos rendimentos têm menos probabilidade de procurar notícias online e de apresentar interesse por notícias e por política. Os seus amigos têm menos probabilidade de partilhar notícias nas redes sociais. Os algoritmos criam um ciclo de feedback ligando 34 Tradução livre do excerto: “I describe this as ambient journalism - an awareness system that offers diverse means to collect, communicate, share and display news and information, serving diverse purposes.”
17 todos estes sinais para a futura exposição a conteúdo, reproduzindo as desigualdades ao longo do tempo” 35 (Thorson, 2019). O menor interesse destes cidadãos por notícias e por política repercute-se nas suas redes sociais. Se um indivíduo não clicar em notícias, a quantidade de notícias a que é exposto vai diminuir. Este predomínio das preferências e predisposições individuais tem um risco: o reforço da lacuna entre os ricos e os pobres em informação política (Thorson & Wells, 2016, p. 318). Esperava-se que o digital fosse um contributo para reduzir as diferenças de informação entre as pessoas com diferentes níveis de escolaridade. “A condição socioeconómica influencia fortemente as escolhas que os diferentes segmentos de população fazem no uso dos media tradicionais e das plataformas digitais para o consumo de notícias. Os grupos mais qualificados são mais ativos na procura de notícias através de diversos canais e no aproveitamento das novas tecnologias para aceder a notícias” 36 (Tran, 2013, p. 845). Os mais qualificados também tendem a participar mais a nível político do que aqueles que têm menores qualificações. Havia a expectativa de que as redes sociais contribuíssem para a redução dessas diferenças de participação através do aumento do acesso a informação política (Thorson et al., 2018, p. 1). Esta aspiração não se confirmou devido à lacuna entre os mais e os menos informados, que o ambiente digital não evita. Conforme já referido, o interesse por política é um fator fundamental para o consumo de notícias, mas os efeitos dos media não são iguais para todos os indivíduos. “As questões ligadas à relação entre as várias formas de engajamento político, por um lado, e ao uso dos media, por outro, têm estado no centro da investigação sobre media e comunicação há muito tempo. Uma das principais conclusões destes estudos é que não existem efeitos universais do uso dos media no engajamento político em todos os 35 Tradução livre do excerto: “Less educated, lower income citizens are less likely to seek out news online and less likely to report interest in news and politics. Their friends are less likely to share news on social media. Algorithms create a feedback loop connecting all these behavioral signals to future content exposure, reproducing inequalities over time.” 36 Tradução livre do excerto: “In addition, SES strongly influences the choices that different segments of the population make in using traditional and online media platforms for news. Affluent and educated groups are more active in seeking news from various channels and taking advantage of new technology to get the news.”
18 grupos de cidadãos” 37 (Holt et al., 2013, pp. 20, 21). Os fatores que fazem variar esses efeitos são os diferentes media utilizados, as motivações de utilização e os níveis de uso. Ainda assim, o consumo de notícias está diretamente relacionado com o aumento da participação política. Apesar de existirem “nuances”, normalmente o uso dos media contribui para a participação política (Strömbäck et al., 2017, p. 1). Holt et al. sugerem que o uso das redes sociais para fins políticos mobiliza grupos de cidadãos mais jovens, enquanto os media tradicionais mobilizam os cidadãos mais velhos. Segundo os autores, o interesse e a participação política aumentam com a idade e tanto o uso dos media tradicionais como das redes sociais têm impacto nesses níveis de mobilização política. Desta forma, “as redes sociais podem servir como um nivelador do interesse político e da participação política offline entre os cidadãos mais jovens e os mais velhos” 38 (Holt et al., 2013, p. 32). Em termos de aprendizagem sobre os acontecimentos políticos, as redes sociais não ganham vantagem sobre os meios tradicionais. Um estudo de Shehata e Strömbäck concluiu que não compensa usar as redes sociais para consumir notícias sobre política sem recorrer também aos media tradicionais, independentemente do interesse e do conhecimento políticos dos cidadãos (2018, p. 16). Apesar de a Internet e as redes sociais ampliarem a exposição dos cidadãos à informação política, essa abundância de notícias online pode levar ao equívoco de se pensar que não é preciso grande esforço para estar suficientemente informado sobre as questões políticas. Trata-se de um fenómeno denominado news-finds-me perception. 37 Tradução livre do excerto: “Issues related to the relationship between various forms of political engagement, on the one hand, and media use, on the other, have been at the centre of media and communication research for a long time. One of the major conclusions from these studies is that there are no universal effects of media use on political engagement across all citizen groups.” 38 Tradução livre do excerto: “In this respect, social media could serve as a leveller of political interest and offline political participation between younger and older citizens.”
19 “Os nossos resultados indicam que muitos indivíduos têm a perceção errada de que podem fazer parte de uma cidadania bem informada, visto que as notícias importantes vão encontrá-los sem as procurarem ativamente. (...) Outro aspeto importante é que os cidadãos que têm esta perceção estão menos bem informados sobre os assuntos políticos e cívicos do que aqueles que não acreditam que as notícias os irão encontrar” 39 (Gil de Zúñiga et al., 2017, p. 118). A ideia de news finds me baseia-se na suposição de que a informação aparece no quotidiano, nomeadamente durante o uso das redes sociais para outros fins, como o entretenimento (Toff & Nielsen, 2018, p. 11). Segundo esta perspetiva, os indivíduos pensam que as notícias aparecem no dia-a-dia naturalmente, incluindo nas redes sociais, sem ser necessário procurá-las de forma direta e ativa. “Esta teoria popular baseia-se em parte na confiança das pessoas nas suas redes sociais de amigos e familiares, mas também frequentemente e explicitamente na experiência vivida de como as redes sociais, especialmente o Facebook, permitem que as notícias as encontrem” 40 (Toff & Nielsen, 2018, p. 8). Para Zuñiga et al., os indivíduos estão frequentemente expostos a notícias nas redes sociais, mas tal não garante o aumento do conhecimento político para aqueles que pensam que a informação mais importante lhes vai surgir sem a procurarem. Os autores sugerem ainda que as redes sociais podem estar a contribuir para um público que participa mais, mas que sabe menos (Gil de Zúñiga et al., 2017, p. 119). 39 Tradução livre do excerto: “Our results indicate that many individuals hold the mistaken perception that they can be part of a well-informed citizenry, as important news will find them without their actively seeking it. (...) Also of importance, citizens who hold this perception are less knowledgeable about civic and political affairs than are those who do not believe the news will find them.” 40 Tradução livre do excerto: “This folk theory relies in part on people’s confidence in their social networks of friends and family, but also frequently and explicitly on their lived experience of the ways in which social media, especially Facebook, enable news to find them.”
20 II.II.I. O caso do Facebook Nos últimos anos, o Facebook tem vindo a perder espaço para outras redes sociais. Segundo o Digital News Report de 2019, as pessoas passaram mais tempo no WhatsApp e no Instagram do que no Facebook, em comparação com 2018 (Newman et al., 2019, p. 10). No entanto, o Facebook manteve a sua relevância. Nos 38 países analisados, o Facebook (47%) continua a ser a rede social mais utilizada para aceder a notícias. Segue-se o YouTube (27%) e o WhatsApp (19%). No caso de Portugal, a tendência é semelhante: Facebook (53%), YouTube (24%), Messenger do Facebook (20%) e WhatsApp (15%). De acordo com o mesmo relatório, os utilizadores das redes sociais passaram a usar mais os serviços de mensagens privadas, como o WhatsApp e o Messenger do Facebook, porque aí é possível conversar e partilhar informação com pessoas mais próximas, logo de forma mais discreta. Esta mudança de paradigma motiva alterações na estratégia destes meios, por exemplo ao nível da privacidade e encriptação (Newman et al., 2019, p. 38). A difusão de discursos de ódio e de desinformação são outros motivos que justificam o afastamento das pessoas do Facebook. “Tem sido um ano dramático para as redes sociais, com o Facebook e o YouTube debaixo de fogo por espalharem desinformação, encorajarem discursos de ódio e ofensas online – assim como por jogarem rápida e facilmente com a nossa privacidade” 41 (Newman et al., 2019, p. 18). Outro motivo relaciona-se com um certo ceticismo face ao acesso a notícias através desta rede social, porque muitas vezes as pessoas não percebem como é que a informação que surge é filtrada (Fletcher & Nielsen, 2018b, p. 15). Tal parece constituir um paradoxo. “O facto de as redes sociais serem uma fonte cada vez mais utilizada e importante para aceder e encontrar notícias, mesmo que as pessoas continuem céticas sobre como elas filtram as notícias, sugere um possível 41 Tradução livre do excerto: “It has been a dramatic year for social media with Facebook and YouTube under fire for spreading misinformation, encouraging hate speech and online harm – as well as playing fast and loose with our privacy.”
27 ter em conta que a expressão fake news, muito utilizada nos dias de hoje, pode não ser a mais correta. “A expressão amplamente difundida de “fake news” é enganadora, tendo aliás sido inicialmente utilizada para denegrir o trabalho dos meios de comunicação social. Uma notícia, por definição, não é falsa. Falsas são as narrativas que, embora anunciadas como notícias e contendo partes de textos copiados de jornais ou de sites do mesmo género, integram conteúdos ou informações falsas, imprecisas, enganadoras, concebidas, apresentadas e promovidas para intencionalmente causar dano público ou obter lucro” (Entidade Reguladora para a Comunicação Social, 2019, p. 1). A Comissão Europeia também evita o termo fake news e justifica porquê: a expressão é desadequada porque a desinformação abrange conteúdos que não são totalmente falsos mas manipulados ou fabricados; não se relaciona apenas com notícias mas também com outras práticas; alguns políticos têm utilizado a expressão para atacar informação de meios de comunicação que não lhes agradam (European Comission, 2018, p. 10) Existem inúmeras definições que os investigadores atribuem às fake news e à desinformação, mas este debate parece não terminar e, para Weeks e Zúñiga, apesar da importância dos conceitos, estas divergências desviam-se daquilo que é essencial (Weeks & Gil de Zúñiga, 2019, p. 2). Assim, a desinformação pode ser definida como “toda a informação comprovadamente falsa ou enganadora que é criada, apresentada e divulgada para obter vantagens económicas ou para enganar deliberadamente o público, e que é susceptível de causar um prejuízo público” (Entidade Reguladora para a Comunicação Social, 2019, p. 2). No prejuízo público inclui-se, naturalmente, o impacto em processos políticos democráticos. “A desinformação mina a confiança nas instituições e nos meios de comunicação tradicionais e digitais e prejudica as nossas democracias ao comprometer a capacidade dos cidadãos de tomarem decisões bem informadas, portanto, a desinformação enfraquece a liberdade de expressão” (Entidade Reguladora para a Comunicação Social, 2019, p. 3).
28 Embora nos últimos anos a “produção, consumo e disseminação de desinformação online se tenha tornado uma séria preocupação em muitos países” 52 , ainda não se sabe exatamente qual a escala do problema (Fletcher et al., 2018, p. 1). Sabe-se que a difusão de desinformação através das redes sociais constitui uma ameaça à democracia, mas a investigação tem-se centrado mais nos efeitos desta situação e não tanto na evolução do problema nos últimos anos (Allcott et al., 2019, p. 6). É certo que há uma elevada presença de desinformação online, mas permanecem dúvidas quanto ao impacto em termos políticos, por exemplo na confiança nas instituições ou no conhecimento político dos cidadãos (Tucker et al., 2018, pp. 15, 16). Para Graves e Nielsen, o debate sobre desinformação tem como pano de fundo um contexto de baixa confiança nos media e na política (Nielsen & Graves, 2017, p. 1). A atitude dos utilizadores caracteriza-se por um “ceticismo generalizado”, também em relação às redes sociais (Nielsen & Graves, 2017, p. 6). O caso português é uma exceção no contexto europeu: apesar de a maioria dos utilizadores de Internet se cruzar com conteúdos falsos ou desinformação, os níveis de confiança nas notícias mantêm-se elevados (Quintanilha et al. , 2019, p. 30). Após um estudo com indivíduos dos Estados Unidos da América, Espanha, Finlândia e Reino Unido, realizado em 2017, Graves e Nielsen concluíram que as pessoas não fazem uma distinção clara entre notícias e informação falsa, encaram-na como se fosse uma questão de grau (Nielsen & Graves, 2017, p. 1). Os participantes associaram mais exemplos de propaganda política ou de jornalismo de fraca qualidade ao conceito de fake news do que conteúdo falso que se faz passar por noticioso (Nielsen & Graves, 2017, p. 4). O uso das redes sociais, a polarização política e a desinformação que circula online são três variáveis que não podem ser dissociadas, uma vez que a relação entre estes três fatores pode estar a afetar a qualidade da democracia (Tucker et al., 2018, p. 3). É este “triângulo”, composto pelas redes sociais que “conduzem à polarização 52 Tradução livre do excerto: “The production, consumption, and dissemination of online disinformation has become a serious concern in many countries in recent years.”
29 política e à prevalência de desinformação, em que ambas se acentuam mutuamente”, que leva a “tanta preocupação sobre o potencial impacto das redes sociais na democracia” 53 (Tucker et al., 2018, p. 4). No entanto, há outros fatores a ter em conta, como o engajamento político, o uso dos media tradicionais, o comportamento dos políticos e a qualidade da democracia. São vários os atores envolvidos na criação e difusão de desinformação: trolls, bots, sites de fake news, teóricos da conspiração, políticos ou determinados meios de comunicação são alguns dos exemplos referidos por Tucker et al. (Tucker et al., 2018, p. 22). Os políticos, os membros dos governos e as elites são, para Weeks e Zúñiga, grandes mas pouco estudadas fontes de informação falsa (Weeks & Gil de Zúñiga, 2019, p. 6). As táticas e estratégias para espalhar desinformação através das plataformas online também se caracterizam pela diversidade: manipulação de algoritmos de pesquisa, invasão de informações confidenciais publicadas seletivamente e introdução de desinformação diretamente nas redes sociais são alguns exemplos de manobras utilizadas. Segundo Tucker et al., as redes sociais apresentam uma maior vulnerabilidade a campanhas de desinformação (Tucker et al., 2018, p. 36) por dois motivos: o modelo de negócio focado nas receitas da publicidade e a utilização de algoritmos de otimização. No entanto, a desinformação não é um fenómeno exclusivo do século XXI nem das redes sociais, mas estas oferecem novas possibilidades em termos de velocidade e escala (Neudert et al., 2019, p. 3). Para Van Heekeren, este problema tem antecedentes históricos muito anteriores à era digital (Van Heekeren, 2019, p. 1). Apesar de reconhecer que as redes sociais proporcionam uma proliferação mais rápida e que a diversidade de fontes de informação complica o processo de verificação, Van Heekeren encontra vantagens neste contexto (Van Heekeren, 2019, p. 9). Para a autora, os meios de comunicação mais respeitados conseguiram reafirmar a sua posição 53 Tradução livre do excerto: “It is this triangle - social media driving political polarization and the prevalence of disinformation, both of which are also accentuating each other and simultaneously potentially undermining democratic quality - that has led to so much concern about the potential impact of social media on democracy.”
30 e as redes sociais estão a apostar em formas de verificação, como o fact-checking, de forma a desmascarar quem propaga conteúdos manipulados ou enganadores (Van Heekeren, 2019, p. 9). Segundo Quintanilha et al., há uma ambivalência nas correntes de pensamento sobre esta matéria: por um lado e em maioria, os mais preocupados com os impactos negativos da questão; por outro, aqueles que, como Van Heekeren, veem uma oportunidade para o jornalismo se renovar, com mais transparência, mais verificação e melhores conteúdos (Quintanilha et al., 2019, p. 21). Em comparação com o passado, Van Heekeren destaca que a sociedade atual tem mais capacidades tecnológicas para travar ou corrigir as fake news (Van Heekeren, 2019, p. 10) e que o alcance deste tipo de informação é hoje menor do que na época pré-digital (Van Heekeren, 2019, p. 1). Ainda assim, mantêm-se as dúvidas sobre quais as melhores estratégias para travar a propagação de desinformação (Weeks & Gil de Zúñiga, 2019, p. 8). Um artigo publicado na Science em 2018 concluiu que, apesar de tanto a verdade como a mentira conseguirem espalhar-se rapidamente no online, as notícias falsas propagam-se de forma ainda mais rápida e mais ampla devido ao comportamento dos indivíduos (Vosoughi et al., 2018, p. 5). Saber como funcionam os media e os procedimentos jornalísticos é um fator importante para identificar e reconhecer conteúdos que representam desinformação (Amazeen & Bucy, 2019, p. 416). Há vários motivos para os utilizadores difundirem este tipo de conteúdos: alguns estão convencidos de que a informação está correta, outros sabem que não está mas partilham na mesma para influenciar os outros ou satisfazer um determinado objetivo, e também há quem o faça porque acha que é digno de atenção e que promove a sua própria visibilidade (Valenzuela et al., 2019, p. 4). Importa aqui salientar o papel das emoções e a influência que as redes de amigos e as conexões mais próximas têm na exposição e na crença em informação falsa, aspetos pouco estudados até agora, segundo Weeks e Zúñiga (Weeks & Gil de Zúñiga, 2019, pp. 5, 7). Até os comentários que se acrescentam ao partilhar um artigo noticioso verdadeiro podem contribuir para o aumento da desinformação, pois podem ser diferentes do conteúdo do artigo ou até falsos e, muitas vezes, as pessoas não chegam
31 a ler o artigo e confiam no que escreve a pessoa que partilha (Anspach & Carlson, 2018, p. 17). Segundo Valenzuela et al., os indivíduos mais ativos politicamente têm maior probabilidade de partilhar informação e desinformação, conforme o que satisfaça mais os seus interesses (Valenzuela et al., 2019, p. 5). Não quer dizer que a participação política conduza à difusão de desinformação, mas a participação associa-se à partilha desse tipo de conteúdos quando está de acordo com as crenças dos indivíduos (Valenzuela et al., 2019, p. 5). Mesmo quando recebem informação correta e precisa, incluindo dados numéricos, os indivíduos têm tendência a relembrar-se desses dados de forma incorreta de modo a corresponder às suas crenças (Owen, 2019). Ou seja, as pessoas também criam a sua própria desinformação, não dependendo apenas de fontes externas (Owen, 2019). Surge então um paradoxo: usar as redes sociais para consumir informação pode promover o aumento do interesse e da participação política, mas este maior envolvimento político está associado a uma maior partilha de conteúdo, onde se inclui a desinformação (Valenzuela et al., 2019, p. 14). De acordo com Valenzuela et al., durante muito tempo a investigação centrou-se nos efeitos positivos do consumo de notícias através das redes sociais e do consequente impacto no envolvimento político dos cidadãos mas, mais recentemente, tem-se concluído que existe um outro lado, mais perigoso e negativo, relacionado com a partilha de desinformação (Valenzuela et al., 2019, p. 14). Verifica-se que, na investigação académica, há “grandes discordâncias sobre até que ponto a desinformação partilhada nas redes sociais tem efeito nas crenças políticas dos cidadãos” 54 (Tucker et al., 2018, p. 58). São inúmeras as preocupações sobre o impacto da desinformação nos processos de decisão democráticos, mas parecem surgir mais questões do que respostas. Muitas vezes, as pessoas não estão corretamente informadas sobre diversos assuntos políticos e as suas visões e opiniões individuais 54 Tradução livre do excerto: “There are notable scholarly disagreements regarding the extent to which disinformation shared on social media has any effect on citizens’ political beliefs”
32 podem ser afetadas por essas perceções erradas (Tucker et al., 2018, p. 51). As perceções erradas podem ter impacto não só individualmente, mas também ao nível da opinião pública, incluindo nos debates sobre políticas públicas e até nos resultados eleitorais (Tucker et al., 2018, pp. 51, 52). Para a Comissão Europeia, é preciso tomar particular atenção à desinformação que tem como objetivo afetar atos eleitorais, tanto a nível local como nacional e europeu (European Comission, 2018, p. 12). Nestes períodos, os cidadãos procuram mais informações de forma a exercer o seu direito de voto e as redes sociais concederam eficácia e facilidade à comunicação, mas surgiu o perigo da vulnerabilidade a campanhas de desinformação (European Comission, 2018, p. 12). A expressão fake news e o tema da desinformação, apesar de não serem novas, entraram em força no quotidiano mediático em 2016, após a eleição de Donald Trump nas presidenciais dos Estados Unidos da América e o referendo do Brexit, e também com a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil, em outubro de 2018. Segundo uma análise do Reuters Institute for the Study of Journalism, quase metade dos que votaram pela permanência do Reino Unido na União Europeia dizem ter como principal fonte de consumo de notícias o meio online, incluindo as redes sociais, enquanto cerca de metade dos que votaram pela saída prefere consumir notícias através da televisão (Fletcher & Selva, 2019, p. 2). Para ambos os grupos, o órgão mais utilizado é a BBC News e as televisões e os jornais são os meios em que depositam mais confiança (Fletcher & Selva, 2019, pp. 3, 4). Quanto ao consumo de notícias através das redes sociais, a única diferença relevante entre os dois grupos é a maior utilização do Twitter por parte dos que votaram a favor da permanência (Fletcher & Selva, 2019, p. 6). Hänska e Bauchowitz analisaram mais de 7,5 milhões de tweets sobre o Brexit no mês anterior ao referendo, que se realizou a 23 de junho de 2016 e que deu a vitória à saída da União Europeia com quase 52% dos votos, concluindo que os utilizadores que apoiavam a saída estavam em maior número e que os eurocéticos em geral foram mais ativos, publicando mais tweets do que os utilizadores a favor da permanência (Hänska & Bauchowitz, 2017, p. 29). No
33 Instagram a tendência foi a mesma: os utilizadores que defendiam a saída eram o dobro dos que apoiavam a permanência (Polonski, 2016). A análise de Hänska e Bauchowitz conclui que os utilizadores do Twitter a favor do Brexit, ao contrário dos a favor da permanência, apresentaram uma maior tendência para contactar com apoiantes da mesma opção, ou seja, uma menor abertura para visões diferentes, o que constitui um indicador importante para a existência de câmaras de eco (Hänska & Bauchowitz, 2017, p. 29). No Facebook também se confirmou a existência de dois grupos distintos que limitaram a sua atenção a determinadas páginas e ignoraram a narrativa oposta (Del Vicario et al. , 2017, pp. 7, 11). Del Vicario et al. explicam que é muito provável que, quanto maior a distância emocional entre os dois lados ou câmaras de eco, maior é a polarização dos utilizadores envolvidos no debate (Del Vicario et al., 2017, p. 7). Para Hänska e Bauchowitz, um dos motivos que justifica a predominância a favor da saída no Twitter é a utilização de slogans curtos e simples, como “vote Leave” ou “take control”, mais fáceis de utilizar tendo em conta o limite de caracteres de cada tweet (Hänska & Bauchowitz, 2017, p. 30). No entanto, através da análise de mais de 1,5 milhões de tweets entre 5 e 12 de junho de 2016, Howard e Kollanyi descobriram que as duas contas mais ativas, uma pela saída (@ivoteleave) e outra pela permanência (@ivotestay), eram bots (Howard & Kollanyi, 2017, p. 2). Os bots são mecanismos que implantam e reproduzem mensagens que são utilizados, na política, para manipular a opinião pública e satisfazer determinados interesses (Howard & Kollanyi, 2017, p. 1). Ambas as contas funcionaram de forma semelhante: não geraram novos conteúdos, fizeram retweets de mensagens a favor da visão que defendiam, de forma a amplificar a ideia pretendida (Howard & Kollanyi, 2017, p. 2). Howard e Kollanyi também concluíram que o grupo de hashtags associadas à saída da União Europeia dominou e que menos de 1% das contas geraram quase um terço do total de mensagens (Howard & Kollanyi, 2017, p. 5). Uma parte significativa dos tweets com hashtags a favor do Brexit foi gerada por contas com elevado nível de automatização: são bots com intervenção humana ocasional (Howard & Kollanyi, 2017, p. 4).
34 Segundo os autores, os bots criados com fins políticos são mais desenvolvidos em momentos políticos relevantes, quando a opinião pública está polarizada (Howard & Kollanyi, 2017, p. 1). Foi isso que aconteceu aquando do referendo do Brexit: o debate online sobre o tema esteve dividido em dois lados opostos, com argumentos amplificados e reforçados pela transmissão e repetição dentro de cada campo, mas com um domínio dos eurocéticos e a favor do Brexit, que se revelaram mais apaixonados e intensos na defesa da sua visão (Polonski, 2016). Em novembro de 2016, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América foi, possivelmente, o acontecimento que mais trouxe o tema da desinformação para o espaço público. Allcott et al. analisaram mais de 500 sites identificados como fontes de histórias falsas e mais de 9000 artigos desses sites no Facebook e no Twitter, entre 2015 e 2018, e os resultados demonstraram que as interações com sites de fake news subiram no Facebook e no Twitter desde o princípio de 2015 até aos meses seguintes às eleições de 2016, que se realizaram a 8 de novembro (Allcott et al., 2019, p. 2). Após as eleições, as interações com este tipo de sites desceram muito no Facebook, mas continuaram a aumentar no Twitter (Allcott et al., 2019, p. 2). Segundo o European Research Council, um em cada quatro americanos visitou sites de fake news entre 7 de outubro e 14 de novembro de 2016, e este comportamento foi mais prevalente entre os apoiantes de Trump (Guess et al., 2018, p. 2). Neste grupo, 40% leu pelo menos um artigo de um site de fake news classificado como pró-Trump (Guess et al., 2018, p. 4). Das 156 fake news analisadas por Allcott e Gentzkow que circularam nos três meses anteriores à eleição, 115 eram pró-Trump ou anti-Clinton, ou seja, houve cerca de três vezes mais artigos falsos a favor de Trump do que a favor de Clinton, a principal adversária do presidente eleito (Allcott & Gentzkow, 2017, p. 223). Guess et al. concluem que a orientação da produção e do consumo de sites de fake news foi maioritariamente a favor de Trump e que aqueles que utilizaram mais o Facebook consumiram mais fake news (Guess et al., 2018, pp. 10, 11). Os bots também estiveram presentes na eleição de Trump. Estas contas foram usadas no Facebook e no Twitter para espalhar rumores e junk news, muitas vezes geridas por apoiantes de Trump e com conteúdos contra Clinton (Howard et al., 2018,
35 pp. 84, 90). Para Howard et al., os bots políticos desempenham um pequeno mas estratégico papel nos debates sobre política nos Estados Unidos, uma vez que geram determinados conteúdos e interagem com os utilizadores (Howard et al., 2018, p. 85). No mesmo sentido, Garrett defende que a influência das redes sociais nas convicções dos americanos é pequena mas significativa porque pode atingir mais determinados grupos populacionais (Kelly Garrett, 2019, p. 11). Assim, para Garrett, apesar de as redes sociais terem influência no contacto com mensagens imprecisas, não são a principal causa da propagação de falsidades (Kelly Garrett, 2019, p. 13). Quanto à utilização das redes sociais por parte dos principais candidatos, Trump destacou-se por partilhar frequentemente links de notícias no Facebook e, no Twitter, por fazer mais retweets de cidadãos comuns (Center, 2016). Apesar de Clinton e Sanders publicarem quase com a mesma frequência que Trump, este último teve mais atenção do público, com um maior número de partilhas, comentários, reações e retweets, tanto no Facebook como no Twitter (Center, 2016). Naquele período, Trump tinha também mais seguidores do que os adversários: quase 10 milhões no Twitter e 9 milhões no Facebook (Center, 2016). Tal como no Reino Unido e nos Estados Unidos, os níveis de polarização política no Brasil são elevados (Aruguete et al., 2019, p. 2). A eleição de Jair Bolsonaro como presidente, em outubro de 2018, teve como pano de fundo uma disputa acesa nas redes sociais entre dois grupos: um favorável à sua eleição e outro contra (Aruguete et al., 2019, p. 2). O contexto brasileiro também contribuiu para o sucesso de Bolsonaro, devido a uma crise multidimensional vivida no país, incluindo a nível económico, político, de segurança e com a divulgação de grandes casos de corrupção (Hunter & Power, 2019, p. 4). A partilha de notícias no Twitter foi elevada, tanto entre os apoiantes como entre os anti-Bolsonaro. Ao analisar mais de 5 milhões de tweets entre 26 de setembro e 2 de outubro de 2018, Aruguete et al. concluíram que, do lado dos apoiantes de Bolsonaro, apenas três dos dez principais utilizadores tinham contas verificadas e constatou-se um predomínio de trolls, fakes e websites anónimos (Aruguete et al., 2019, p. 7). O grupo defensor de Bolsonaro propagou mais informação falsa do que os não apoiantes através
36 da partilha de artigos de meios desconhecidos ou com pouca reputação (Aruguete et al., 2019, p. 9). Depois de uma análise à atividade dos dez principais candidatos no Twitter, entre 16 de agosto e 6 de outubro, Teixeira et al. demonstram que Bolsonaro foi o segundo a publicar menos tweets: apenas 360. No entanto, foi o que teve mais retweets (quase dois milhões) e mais likes (mais de 8 milhões) (Teixeira et al., 2019, p. 440). Bolsonaro foi também o candidato que ganhou mais seguidores durante a primeira volta das eleições (Teixeira et al., 2019, p. 443), que decorreu a 7 de outubro de 2018. A segunda volta aconteceu no dia 28 de outubro. Para Hunter e Power, a estratégia de utilização das redes sociais ajudou a disseminar as mensagens incendiárias de Bolsonaro (Hunter & Power, 2019, p. 1). O WhatsApp foi outra rede social que desempenhou um papel fundamental na propagação de mensagens falsas e extremadas, uma vez que os mecanismos de controlo dos conteúdos são reduzidos (Machado et al., 2019, p. 1015). Entre 21 de setembro e 20 de outubro, mais de 13% dos links partilhados em 130 grupos públicos no WhatsApp tinham origem em fontes de junk news (Machado et al., 2019, p. 1015). De forma deliberada, estas fontes publicam conteúdos enganosos, incorretos ou de propaganda com o objetivo de parecerem verdadeiros (Machado et al., 2019, p. 1014). É também de destacar o elevado número de links do YouTube partilhados nestes grupos de WhatsApp, representando 40% do total. Machado et al. explicam que os vídeos são uma ferramenta importante para propagar conteúdos polarizados ou teorias da conspiração (Machado et al., 2019, p. 1016). Além dos vídeos, verifica-se também uma elevada partilha de imagens e áudios, o que demonstra um predomínio do recurso a estratégias visuais e emocionais com o intuito de influenciar o utilizador (Machado et al., 2019, p. 1016). Estas ferramentas foram usadas nas eleições brasileiras para distorcer a informação, manipular os utilizadores e difundir falsidades e discursos de ódio (Machado et al., 2019, p. 1017). Os três países têm adotado diferentes estratégias para combater a desinformação. Segundo um guia criado pelo Poynter Institute que reúne as ações de combate à desinformação em vários países do mundo, o foco do Brasil esteve na
43 & Kõuts-Klemm, 2018, p. 180). O Facebook não era um meio muito utilizado para consumir notícias, mas quem o utilizava com esse objetivo eram os jovens mais interessados em notícias (Brites & Kõuts-Klemm, 2018, p. 180). Sobre as motivações para consumir informação, o dever foi uma das mais referidas pelos jovens portugueses. Para eles, a importância do consumo de notícias relaciona-se com adquirir conhecimento para poder conversar sobre os temas, para formular visões sobre o mundo ou para preparar o próprio futuro (Brites & Kõuts-Klemm, 2018, p. 186). A objetividade é um dos aspetos dos media tradicionais sobre o qual os jovens apresentam algumas dúvidas, nomeadamente quanto à sua utilidade (Marchi, 2012, p. 256), indica um estudo realizado por Marchi com estudantes norte-americanos entre os 14 e os 19 anos. Estes jovens descreveram as notícias tradicionais como chatas e repetitivas. Por outro lado, sentem que outros meios lhes deram mais informação sobre determinados acontecimentos políticos, como por exemplo publicações no Facebook e em blogues ou vídeos no YouTube (Marchi, 2012, p. 255). Conforme explica um relatório de 2019 do Reuters Institute for the Study of Journalism, “as audiências mais jovens são diferentes dos grupos mais velhos naquilo que fazem, mas também nas atitudes em termos daquilo que querem das notícias. Os jovens são orientados principalmente pelo progresso e pelo prazer nas suas vidas e isso traduz-se no que eles procuram nas notícias” 59 (Galan et al., 2019, p. 4). Há uma diferença na forma como as marcas de notícias e os jovens encaram o papel e o valor das notícias. Para os jovens, além daquilo que devemos saber, que representa o aspeto mais focado pelas marcas tradicionais, também é relevante o que é útil, interessante ou divertido saber (Galan et al., 2019, p. 4). Marchi considera que, embora céticos em relação às notícias mais tradicionais, os jovens não estão desligados do mundo e da atualidade, estão até mais conectados, o que se deve em grande parte às redes sociais, onde contactam com notícias (Marchi, 2012, p. 257). Apesar de parecerem menos interessados nas “notícias objetivas”, 59 Tradução livre do excerto: “Younger audiences are different from older groups not just in what they do, but in their core attitudes in terms of what they want from the news. Young people are primarily driven by progress and enjoyment in their lives, and this translates into what they look for in news.”
44 recorreram a outros meios não-tradicionais, como o Youtube, o Facebook ou os blogues, para tentarem compreender melhor aquilo que os rodeia (Marchi, 2012, p. 256). O ambiente familiar influencia o consumo de notícias dos jovens. A adolescência é um período fundamental para o desenvolvimento de motivações e de hábitos de consumo de informação e notícias que têm influência nos comportamentos dos jovens (Valenzuela et al., 2016, p. 14). Além da influência no presente, o contexto familiar também causa impacto no consumo de notícias dos jovens no futuro. “O desenvolvimento de diferentes hábitos e características na adolescência leva a consequências a longo prazo na vida adulta. Os resultados demonstram que, além da reprodução dos padrões de consumo de notícias aprendidos em casa, os adolescentes desenvolvem as suas próprias necessidades e motivações quando se expõem às notícias, e que diferentes formas de comunicação entre pais e filhos podem ter efeitos indiretos no consumo de notícias – moldam as necessidades para pensar sobre a realidade e avaliar o mundo, e guiam a satisfação procurada quando se trata de ler jornais, ver notícias na televisão ou estar informado através das redes sociais” 60 (Valenzuela et al., 2016, p. 15). O nível socioeconómico é outro fator importante na relação dos jovens com as notícias. Thorson et al. explicam que pais de níveis socioeconómicos mais elevados apresentam maior probabilidade de passar níveis mais altos de interesse político aos filhos e a presença de comunicação política em casa vai ter impacto nas escolhas desses jovens, nomeadamente no uso dos media (Thorson et al., 2018, p. 2). Os hábitos de consumo de notícias resultam muitas vezes de influências tanto do passado como do presente e até de objetivos para o futuro (Galan et al., 2019, p. 27), explica um relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism. Quanto ao passado, 60 Tradução livre do excerto: “The development of different habits and traits in adolescence leads to long-term consequences in adult life. The results show that beyond the reproduction of news consumption patterns learned at home, adolescents develop their own needs and motivations when exposing themselves to news, and that different forms of parent-child communication may have indirect effects on news consumption - they shape the needs to think about reality and to evaluate the world, and guide the gratifications sought when it comes to reading newspapers, watching TV news, or getting informed via social media.”
45 está em causa não só o contexto socioeconómico como os hábitos de consumo de notícias dos pais e da restante família. Sobre o presente, a análise conclui que são muitas as influências possíveis, mas destaca o impacto do círculo social de cada um e a carreira. Relativamente ao futuro, a carreira é o aspeto mais importante, o que se relaciona com aquilo que é preciso saber e demonstrar que se sabe para atingir determinados objetivos (Galan et al., 2019, p. 27). O referido relatório classificou os jovens segundo quatro tipos de consumidores de notícias: heritage news consumer, passive news absorber, dedicated news devotee e proactive news lover. O heritage news consumer esforça-se para consumir algumas marcas tradicionais de notícias, mas não tem muito tempo disponível e, por vezes, encara o consumo de notícias como uma tarefa inerente à vida adulta (Galan et al., 2019, p. 28). O passive news absorber não tem interesse suficiente para ter um contacto frequente com notícias, por isso não as procura ativamente e mantém-se informado através de “osmose coletiva”, nas suas experiências online e offline (Galan et al., 2019, p. 28). O dedicated news devotee tem uma rotina diária com a marca de notícias que prefere e consome-as em vários momentos ao longo do dia, incluindo nas redes sociais (Galan et al., 2019, p. 29). O proactive news lover consome notícias de forma empenhada mas, em vez de deixar que seja uma marca a organizá-las, reúne ele próprio o conjunto de notícias que pretende consumir (Galan et al., 2019, p. 29). Dada a diversidade de utilizadores, o relatório conclui que não haverá uma só solução para conseguir reforçar uma relação duradoura dos jovens com as notícias, mas há uma maior oportunidade com os dedicated news devotees e os heritage news consumers (Galan et al., 2019, p. 38). São três as recomendações de mudança que o estudo sugere. Primeiro, a experiência de consumir notícias deve tornar-se fácil e acessível, como acontece com o Facebook e a Netflix, através do recurso a uma linguagem mais simples e explicativa (Galan et al., 2019, p. 54). Em segundo lugar, são precisos mais conteúdos próprios para as plataformas móveis, com destaque para os formatos visuais (Galan et al., 2019, p. 54). Por último, além dos assuntos mais pesados e negativos, os jovens querem conhecer histórias que os inspirem através de valores como a autenticidade e a diversidade (Galan et al., 2019, p. 55).
46 Na previsão sobre jornalismo para o ano de 2020 publicada no Nieman Lab, Gendron explica que “os produtos noticiosos precisam de espelhar o apelo dos produtos das redes sociais para satisfazer a geração Z” 61 (Gendron, 2020). Gendron propõe quatro soluções: estabelecer uma conta forte de Instagram; estimular um fácil engajamento, por exemplo através dos likes; ter em conta plataformas alternativas, como por exemplo newsletters enviadas por mensagem; o conteúdo precisa de ser visual e com recurso a vídeo (Gendron, 2020). Quanto aos jovens que frequentam o ensino superior, Leeder considera que, enquanto grandes utilizadores das redes sociais, têm mais probabilidade de serem expostos a fake news (Leeder, 2019, p. 1). O estudo de Leeder abrangeu 63 estudantes universitários norte-americanos e teve como objetivo analisar a identificação e avaliação dos jovens a seis notícias verdadeiras e a seis notícias falsas. Mais de 60% das identificações das notícias (como verdadeiras ou falsas) estavam corretas, ou seja, quase 40% das notícias foram incorretamente identificadas. Ainda assim, o desempenho foi ligeiramente melhor ao identificar notícias falsas (p. 4). Para Leeder, os estudantes universitários não compreendem totalmente as potenciais consequências de partilhar notícias falsas nas redes sociais (Leeder, 2019, p. 8). Os jovens não veem as fake news como “um problema, mas sim como um incómodo” 62 , indica um relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism (Galan et al., 2019, p. 44). Além do domínio das tecnologias, são também relevantes as competências que lhes estão associadas, destaca Macedo em relação ao contexto português. “Muitos dos jovens saídos das nossas Universidades e dos nossos Politécnicos parecem não estar preparados para o exigente mundo do trabalho da “sociedade da informação” por não possuírem a elevada competência comunicativa que lhes irá ser solicitada” (Macedo, 2012, p. 81), concluiu Macedo através de uma análise às competências de comunicação 61 Tradução livre do excerto: “News products need to mirror the appeal of social media products to satisfy Gen Z.” 62 Tradução livre do excerto: “Fake news is not a problem but a nuisance, and also a potential opportunity for attribution”
47 de um grupo de jovens recém-licenciados portugueses. “Todavia, ao nível da utilização das TIC o cenário parece bem diferente: todos os formandos dos grupos em estudo revelaram possuir boas aptidões e grande predisposição para melhorar as suas competências a este nível” (Macedo, 2012, p. 81). Para Macedo, “há que ter em atenção que as questões da literacia e do pensamento crítico não podem ser subvalorizadas face ao domínio das infotecnologias nos sistemas educativos”, uma vez que na “sociedade da informação o processamento e a manipulação de símbolos (imagens, sons e mensagens) se tornam nos factores críticos de produtividade e de competitividade dos sistemas económicos” (Macedo, 2012, p. 82).
48 Capítulo III: O Orçamento do Estado enquanto acontecimento político III.I. Objetivo e perguntas de investigação O Orçamento do Estado é um documento preparado anualmente pelo Governo em funções que prevê as receitas e as despesas do Estado. Depois de entregue em forma de proposta à Assembleia da República, o Orçamento é apreciado pelos deputados e votado na generalidade. Segue-se a apreciação na especialidade e a votação final global do documento. A preparação de um Orçamento do Estado envolve um processo longo e complexo e é um acontecimento que constitui um dos momentos mais relevantes no panorama político português. O objetivo da investigação é analisar a cobertura que o PÚBLICO realizou deste evento no seu site 63 e no Facebook, através da análise das publicações que utilizam a hashtag #OE2020. A investigação permite retirar conclusões sobre a relevância dada ao Orçamento do Estado no PÚBLICO, tanto no site como no Facebook, e sobre a forma como, do ponto de vista da receção, os jovens adquirem perceções sobre as notícias e a política através das redes sociais. No âmbito deste objetivo de investigação, pretende-se responder às seguintes questões: - Quantos artigos dedicou o PÚBLICO ao Orçamento do Estado? - Quais as características editoriais das peças publicadas no PÚBLICO, em particular em relação aos géneros jornalísticos, ao tema e ângulo de abordagem (informativo ou explicativo)? - Qual a presença do Orçamento do Estado no Facebook do PÚBLICO, em particular as publicações identificadas com a hashtag #OE2020? - Que perceções adquirem os jovens ao ver notícias sobre o tema no Facebook? 63 https://www.publico.pt/oe-2020
49 III.I. Metodologia de investigação A metodologia de investigação é mista porque, além da análise de conteúdo, foi feito um inquérito online. Segundo dados de janeiro de 2020 64 , as duas faixas etárias com mais utilizadores no Facebook situam-se entre os 18 e os 24 anos e entre os 25 e os 34 anos. Para melhor compreender a formação de perceções em acontecimentos políticos, neste caso o Orçamento do Estado, por parte dos utilizadores de redes sociais mais jovens, realizou-se um inquérito a jovens adultos entre os 18 e os 34 anos. III.II. Análise e discussão de resultados A proposta de Orçamento do Estado para 2020 foi entregue pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, ao presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, na noite de 16 de dezembro de 2019. De 6 a 10 de janeiro de 2020 decorreu a apreciação na generalidade. No dia 10, o Orçamento foi aprovado na generalidade com o voto a favor do PS, os votos contra do PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega e com a abstenção do Bloco de Esquerda, PCP, PEV, PAN, Livre e de três deputados do PSD-Madeira. A apreciação na especialidade realizou-se entre 13 de janeiro e 6 de fevereiro. Os ministros das diferentes pastas estiveram presentes no Parlamento e os partidos apresentaram e votaram propostas de alteração ao documento. Na votação final global, a 6 de fevereiro, o Orçamento foi aprovado com o voto a favor do PS, os votos contra do PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega e com a abstenção do Bloco de Esquerda, PCP, PEV, PAN e Joacine Katar Moreira. O site do PÚBLICO tem uma página 65 exclusivamente dedicada a todos os artigos publicados sobre o Orçamento do Estado. No total, foram 354 os artigos publicados 64 https://www.statista.com/statistics/376128/facebook-global-user-age-distribution/ 65 https://www.publico.pt/oe-2020
50 sobre o tema. O primeiro saiu no dia 26 de outubro de 2019 e o último a 17 de fevereiro de 2020. Os dias com maior número de artigos publicados foram 17 de dezembro (46) e 16 de dezembro (45). A maioria dos artigos é assinada por jornalistas do PÚBLICO, com destaque para os que pertencem às secções de Política, Economia e Sociedade. Há ainda 58 artigos da autoria da Agência Lusa. Em relação à classificação em termos de géneros jornalísticos, a notícia foi, de longe, o género mais utilizado, com 256 artigos. Seguiu-se a opinião (46) e a análise (34), que diz respeito a artigos que aprofundam determinados temas e analisam a conjuntura e o contexto envolventes, indo além da mera reprodução diária dos acontecimentos. São exemplos de análises os artigos intitulados Vinte medidas do Orçamento do Estado que vão mexer com o seu bolso 66 , As pressões sobre Centeno na hora do seu quinto 66 https://www.publico.pt/2019/12/17/economia/noticia/vinte-medidas-orcamento-estado-vao-mexerbolso-1897640 256 34 46 4 7 1321 Géneros jornalísticos Notícia Análise Opinião Entrevista Ao minuto Simulador Podcast Editorial Crónica Gráfico 1 Gráfico 2Gráfico 3 Gráfico 4Gráfico 5 Gráfico 6Gráfico 7
51 Orçamento 67 , Como é que o OE 2020 te pode afectar, a começar pelo IRS jovem 68 ou O OE em que o Governo deixou de reduzir o défice pelo lado da despesa 69 . Em menor número, foram também utilizados artigos ao minuto (7), que serviram para acompanhar em permanência o que se passava na Assembleia da República, entrevistas (4), podcasts (3), editoriais (2), uma crónica (1) e um simulador de IRS (1). Quanto aos temas dos artigos, o mais frequente foi o IVA da eletricidade (28 artigos), uma das questões mais debatidas ao longo de todo o processo. Seguiu-se a discussão do Orçamento, que inclui os artigos que abordam a discussão do documento na generalidade e na especialidade na Assembleia da República, num total de 27 artigos. Como terceiro assunto mais abordado estão as pensões (20). Seguiram-se os artigos sobre a votação do Orçamento (19), a saúde (17) e a função pública (16). Destacaram67 https://www.publico.pt/2019/12/16/economia/noticia/pressoes-centeno-hora-quinto-orcamento1897433 68 https://www.publico.pt/2019/12/17/p3/noticia/oe-2020-afectar-comecar-irs-jovem-1897653 69 https://www.publico.pt/2019/12/18/economia/noticia/oe-governo-deixou-reduzir-defice-ladodespesa-1897765 28 27 20 19 17 16 14 13 10 10 10 Temas predominantes IVA da eletricidade Discussão do OE Pensões Votação do OE Saúde Função pública iRS Habitação Saldo orçamental Transportes Negociação do OE Gráfico 2 Gráfico 8Gráfico 9 Gráfico 10Gráfico 11 Gráfico 12Gráfico 13
52 se ainda o IRS (14), a habitação (13), o saldo orçamental (10), os transportes (10) e a negociação do Orçamento (10), especialmente com os partidos à esquerda do Partido Socialista. O predomínio destes temas abrange 184 do total de artigos publicados, excluindo os artigos de opinião, que não foram classificados com temas dada a sua natureza. Definir um artigo como explicativo ou não envolve algum grau de subjetividade. Neste caso, considerando que houve algumas vezes um esforço por parte daqueles que escrevem os artigos para explicar melhor algumas medidas do Orçamento do Estado, concluiu-se que 166 dos 290 artigos classificados como notícias e análises eram explicativos, ou seja, pouco mais de metade. Uma vez que o foco da investigação são os jovens, procurou-se saber se os artigos sobre o Orçamento do Estado abordaram temas com impacto na vida dos mais novos. Tal aconteceu apenas em 11 artigos e a maioria diz respeito a uma alteração no IRS para os jovens que comecem a trabalhar. Os títulos destes artigos foram os seguintes: OE avança para isenção parcial de IRS para jovens que começam a trabalhar 70 , Jovens vão pagar menos IRS nos três primeiros anos de trabalho 71 , Vinte medidas do Orçamento do Estado que vão mexer com o seu bolso 72 , Como é que o OE 2020 te pode afectar, a começar pelo IRS jovem 73 , Jovens podem poupar quase um salário com o novo incentivo no IRS 74 , Oito novidades que 2020 traz ao IRS 75 , Governo 70 https://www.publico.pt/2019/12/16/economia/noticia/oe-avanca-isencao-parcial-irs-jovenscomecam-trabalhar-1897499 71 https://www.publico.pt/2019/12/16/economia/noticia/jovens-vao-pagar-menos-irs-dois-anostrabalho-1897565 72 https://www.publico.pt/2019/12/17/economia/noticia/vinte-medidas-orcamento-estado-vao-mexerbolso-1897640 73 https://www.publico.pt/2019/12/17/p3/noticia/oe-2020-afectar-comecar-irs-jovem-1897653 74 https://www.publico.pt/2019/12/18/economia/noticia/jovens-podem-poupar-quase-salario-novoincentivo-irs-1897745 75 https://www.publico.pt/2020/01/01/economia/noticia/oito-novidades-2020-traz-irs-1898876
59 Após ler a notícia, 122 participantes responderam que se sentiam esclarecidos (47,1%). Por outro lado, 104 responderam que estavam parcialmente esclarecidos (40,2%). Em menor número, 23 não sabem se ficaram esclarecidos (8,9%) e 10 responderam que não ficaram esclarecidos (3,9%). Para este elevado grau de esclarecimento terá contribuído o facto de o artigo, além de informativo, ser também explicativo: o assunto é descrito de forma detalhada, tanto sobre quem serão os abrangidos e sobre a forma como será feita a aplicação da medida. Primeiro post:
60 206 53 Este post levar-te-ia a clicar na peça? Sim Não 122 104 10 23 Após ler a notícia, sentes-te esclarecido? Sim Parcialmente Não Não sei se fiquei esclarecido Gráfico 8 Gráfico 44 Gráfico 45 Gráfico 46 Gráfico 8.1 Gráfico 47Gráfico 8.2 Gráfico 48Gráfico 8.3 Gráfico 49Gráfico 8.4
61 O segundo post apresentado intitula-se OE 2020 mantém cativações idênticas às deste ano 82 . A grande maioria respondeu que não clicaria nesta peça (198 participantes – 76,4%). Os restantes 61 responderam que clicariam (23,6%). Quanto ao nível de esclarecimento após a leitura da notícia, cerca de metade respondeu que se sentia parcialmente esclarecido: 117 participantes – 45,2% do total. Dos restantes, 60 responderam que se sentiam esclarecidos (23,2%), 50 não sabem se ficaram esclarecidos (19,3%) e 32 afirmaram não ter ficado esclarecidos (12,4%). O menor interesse por esta peça e as dificuldades no seu entendimento poderão estar relacionados com o tema que, do ponto de vista económico, é mais complexo e, possivelmente, menos familiar à generalidade dos jovens adultos. Além do tema em questão, provavelmente também o título não capta a atenção deste grupo. Conforme se verificou na questão sobre os motivos para clicar numa peça, os aspetos mais importantes para os jovens são o tema e o título. O próprio artigo não é explicativo, uma vez que informa sobre o que vai acontecer mas, para compreender verdadeiramente o assunto, é preciso estar a par da linguagem utilizada, o que acontece muitas vezes no jornalismo económico e pode constituir um obstáculo ao entendimento por parte dos mais jovens. 82 https://www.publico.pt/2019/12/16/economia/noticia/oe-2020-mantem-cativacoes-identicas-ano1897515?fbclid=IwAR2eWoCfjaF2MOa296TtkDq7IU840vdgaPjQv8AEOTp59q0tN87VEgtiV9M
62 Segundo post: 61 198 Este post levar-te-ia a clicar na peça? Sim Não Gráfico 9 Gráfico 50 Gráfico 51 Gráfico 52
63 O terceiro post tem como notícia Governo propõe IVA mais baixo para quem consumir menos electricidade 83 . A maioria dos inquiridos respondeu que clicaria na peça: 197 participantes – 76,1% do total. Os restantes 62 participantes afirmaram que não clicariam na peça (23,9%). Depois de ler a notícia, mais de metade respondeu que se sentia esclarecido (144 participantes – 55,6% do total). No entanto, 88 disseram que se sentiam parcialmente esclarecidos (34%). Em menor número, 18 não sabem se ficaram esclarecidos (6,9%) e 9 não ficaram esclarecidos (3,5%). O interesse por este artigo, demonstrado pela maioria dos jovens, estará relacionado com o facto de ser uma medida “positiva”, que permite poupar gastos no consumo de um bem que é essencial. Neste sentido, o tema é bem sintetizado no título da notícia, chamando a atenção de quem lê. 83 https://www.publico.pt/2019/12/16/economia/noticia/governo-propoe-iva-baixo-consumir-menoselectricidade-1897534 60 117 32 50 Após ler a notícia, sentes-te esclarecido? Sim Parcialmente Não Não sei se fiquei esclarecido Gráfico 9.1 Gráfico 53Gráfico 9.2 Gráfico 54Gráfico 9.3 Gráfico 55Gráfico 9.4
64 O esclarecimento da maior parte dos inquiridos após a leitura da notícia é influenciado pelo facto de o artigo poder ser considerado como explicativo, uma vez que esclarece claramente o âmbito e o impacto da medida em causa, além de contextualizar o tema. Terceiro post:
65 197 62 Este post levar-te-ia a clicar na peça? Sim Não 144 88 918 Após ler a notícia, sentes-te esclarecido? Sim Parcialmente Não Não sei se fiquei esclarecido Gráfico 10 Gráfico 10.1
66 São várias as conclusões a retirar dos resultados deste inquérito. A maioria dos inquiridos diz interessar-se por política, mas mais de metade não acompanhou o processo de elaboração do Orçamento do Estado para 2020 ou limitou-se apenas àquilo que aparecia nas redes sociais ou era comentado por amigos. Tal não surpreende dado que estes jovens pertencem às duas faixas etárias que mais utilizam o Facebook. Além disso, este resultado também demonstra a importância das redes sociais no conhecimento político dos jovens e no contacto com notícias, assim como a relevância dos grupos com que se relacionam, tanto online como offline. Mais de metade dos participantes não segue a página do PÚBLICO no Facebook mas, perante três notícias do jornal publicadas naquela rede social sobre o Orçamento do Estado, a maioria afirma que clicava em duas delas. Para isso contribuem, maioritariamente e segundo as respostas obtidas, o tema e o título das peças. Quanto aos temas, uma das peças em que os jovens clicariam diz respeito a uma medida com impacto direto nas suas vidas: a redução do pagamento de IRS nos primeiros três anos de trabalho. A outra peça em que clicariam também poderá ter impacto nos seus quotidianos: uma menor cobrança de IVA a quem consumir menos energia. Os títulos destes dois artigos são claros e objetivos quanto aos temas que abordam. Naturalmente, os temas que podem afetar positivamente o dia a dia dos mais jovens captam a sua atenção, o que os leva a clicar nas peças. Quanto à peça em que a maioria não clicaria, tal pode ser explicado pela complexidade do tema e também por, provavelmente, ser um assunto pouco familiar aos mais jovens. Quanto ao grau de esclarecimento após a leitura das notícias, é possível concluir que é satisfatório, dado que nas três peças analisadas as duas respostas mais frequentes foram que os jovens se sentiam esclarecidos na totalidade ou parcialmente. Na primeira peça, 47,1% sentiram-se esclarecidos e 40,2% parcialmente esclarecidos. Resultado semelhante teve a terceira peça: 55,6% ficaram esclarecidos e 34% parcialmente esclarecidos. Estas duas peças, que obtiveram um maior grau de esclarecimento, são também as duas peças em que a maioria dos jovens afirmou que clicaria: o primeiro post, sobre a redução do pagamento de IRS nos primeiros três anos de trabalho, e o
67 terceiro post, sobre uma menor cobrança de IVA a quem consumir menos energia. São também dois artigos que podem ser classificados como explicativos. Por outro lado, a peça que tiveram mais dificuldades em entender, que aborda o tema das cativações, é aquela em que a maioria afirmou que não clicaria e que não é um artigo explicativo. Após ler este artigo, o segundo post, 45,2% sentiram-se parcialmente esclarecidos, 23,2% ficaram esclarecidos, 19,3% não sabem se ficaram esclarecidos e 12,4% não ficaram esclarecidos. Neste segundo post, mantêm-se como respostas mais frequentes o esclarecimento na totalidade ou parcialmente, mas verifica-se a existência de mais dificuldades porque, ao mesmo tempo, 19,3% não sabem se ficaram esclarecidos e 12,4% não ficaram esclarecidos, o que não aconteceu de forma tão expressiva nas outras duas peças. Assim, é possível concluir que a maioria dos jovens inquiridos tem interesse por política, acompanhou o processo de elaboração do Orçamento do Estado através do que lhe aparecia nas redes sociais ou era comentado por amigos, clicaria em duas de três notícias sobre o tema publicadas pelo PÚBLICO no Facebook e sente-se total ou parcialmente esclarecido depois de as ler. Os temas e os títulos influenciam a vontade que os jovens têm de clicar ou não nas peças e as perceções que adquirem depois de as ler também estão relacionadas com os temas em causa: o nível de esclarecimento é maior nas duas peças em que clicavam e que mais lhes interessam, pois abordam temas com impacto no seu dia a dia. O facto de estes dois artigos serem explicativos também contribui para um maior grau de esclarecimento após a leitura.
68 Conclusão Estagiar na secção de Política do PÚBLICO foi uma experiência enriquecedora. Aquilo que se aprende na faculdade é, sem dúvida, uma base fundamental para o que se segue. No entanto, é através da prática que se aplica e amplifica verdadeiramente o conhecimento. O estágio representa um contacto direto com o mundo real e proporciona a aprendizagem do funcionamento e da dinâmica do dia a dia da redação de um jornal. Hoje, ao mesmo tempo que a informação está um pouco por todo o lado, vivemos também num momento em que, para aqueles que não se interessam, é mais fácil fugir das notícias. Em relação à política, o interesse pelo tema transformou-se num fator determinante para o consumo de notícias. Existe, em simultâneo, uma abundância de conhecimento e um risco de afastamento que pode criar uma lacuna no conhecimento político dos cidadãos, tendo em conta as suas preferências e padrões de uso dos media e das redes sociais. Com o aumento do uso das redes sociais, a literacia mediática adquire maior importância, incluindo no combate à desinformação. A difusão de desinformação através das redes sociais constitui uma ameaça à democracia, nomeadamente pelos prejuízos que pode causar em acontecimentos políticos relevantes, como os atos eleitorais. Os jovens são os que mais utilizam as redes sociais, nomeadamente o Facebook, o que facilita a exposição destas faixas etárias a notícias, uma vez que a maioria não as consome através dos media tradicionais. A maior parte dos jovens que participaram no inquérito realizado para a investigação afirmou que se interessa por política. Contudo, mais de metade não acompanhou o processo de elaboração do Orçamento do Estado para 2020, um dos acontecimentos mais relevantes no panorama político português, ou limitou-se apenas àquilo que aparecia nas redes sociais ou era comentado por amigos. A investigação permite concluir que, apesar de mais de metade dos jovens inquiridos não seguir a página do PÚBLICO no Facebook, a maioria clicaria em duas de três notícias sobre o Orçamento do Estado publicadas pelo jornal naquela rede social.
75 Guess, A., Nyhan, B., & Reifler, J. (2018). Selective Exposure to Misinformation: Evidence from the consumption of fake news during the 2016 U.S. presidential campaign. European Research Council, 1–14. Retrieved from http://www.askforce.org/web/Fundamentalists/Guess-Selective-Exposure-to-MisinformationEvidence-Presidential-Campaign-2018.pdf Hänska, M., & Bauchowitz, S. (2017). Tweeting for Brexit: How social media shaped the Referendum campaign. In Brexit, Trump and the media (pp. 27–31). Hermida, A. (2010). Twittering the news: The emergence of ambient journalism. Journalism Practice, 4(3), 297–308. https://doi.org/10.1080/17512781003640703 Holt, K., Shehata, A., Strömbäck, J., & Ljungberg, E. (2013). Age and the effects of news media attention and social media use on political interest and participation: Do social media function as leveller? European Journal of Communication, 28(1), 19– 34. https://doi.org/10.1177/0267323112465369 Howard, P. N., & Kollanyi, B. (2017). Bots, #Strongerin, and #Brexit: Computational Propaganda During the UK-EU Referendum. SSRN Electronic Journal, 1–6. https://doi.org/10.2139/ssrn.2798311 Howard, P. N., Woolley, S., & Calo, R. (2018). Algorithms, bots, and political communication in the US 2016 election: The challenge of automated political communication for election law and administration. Journal of Information Technology and Politics, 15(2), 81–93. https://doi.org/10.1080/19331681.2018.1448735 Hunter, W., & Power, T. J. (2019). Bolsonaro and Brazil’s illiberal backlash. Journal of Democracy, 30(1), 1–22. https://doi.org/10.1353/jod.2019.0005 Kaiser, J., Keller, T. R., & Kleinen-von Königslöw, K. (2018). Incidental News Exposure on Facebook as a Social Experience: The Influence of Recommender and Media Cues on News Selection. Communication Research. https://doi.org/10.1177/0093650218803529 Kalogeropoulos, A., & Kleis Nielsen, R. (2018). Social Inequalities in News Consumption. Reuters Institute for the Study of Journalism, (October), 1–7. Retrieved from https://www.mrs.org.uk/ Kelly Garrett, R. (2019). Social media’s contribution to political misperceptions in U.S. Presidential elections. PLoS ONE, 14(3), 1–16.
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80 Índice de gráficos Gráfico 1 ......................................................................................................................... 50 Gráfico 2 ......................................................................................................................... 51 Gráfico 3 ......................................................................................................................... 55 Gráfico 4 ......................................................................................................................... 56 Gráfico 5 ......................................................................................................................... 56 Gráfico 6 ......................................................................................................................... 57 Gráfico 7 ......................................................................................................................... 58 Gráfico 8 ......................................................................................................................... 60 Gráfico 8.1 ..................................................................................................................... 60 Gráfico 9 ......................................................................................................................... 62 Gráfico 9.1 ..................................................................................................................... 63 Gráfico 10 ...................................................................................................................... 65 Gráfico 10.1 ................................................................................................................... 65
81 Anexos Exemplos de trabalhos publicados na edição impressa do PÚBLICO 1.
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83 2.
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