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O património Arquitectónico e o fenómeno do Vinho do Porto: relações e motivações.

Rosas, Lúcia,Queiróz, José

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Título O Vinho do Porto em Gaia & Companhia Coordenação Fernando de Sousa Co-edição CEPESE- Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade I Edições Afrontamento Rua do Campo Alegre, 1055 -4169 -004 Porto Telef.: 22 609 53 47 Fax: 22 543 23 68 E-mail: [email protected] www .cepese.pt Edições Afrontamento Rua de Costa Cabral, 859- 4200-225 Porto Telef.: 22 507 42 20 Fax: 22 507 42 29 E-mail: [email protected] www.edicoesafrontamento.pt Capa: Da Companhia, Design de Comunicação, Lda. Execução gráfica: Rainha & Neves, Lda. I Santa Maria da Feira Tiragem 500 exemplares Depósito legal n.' 236281/05 ISBN Edições Afrontamento 972-36-0809-X ISBN CEPESE 972-99070-4-8 Impresso em Dezembro de 2005 O PATRIMÓNIO ARQUITECTÓNICO E O FENÓMENO DO VINHO DO PORTO: RELAÇÕES E MOTIVAÇÕES Lúcia Rosas Francisco Queiroz Ana Margarida Portela O tema desta comunicação insere-se no projecto, aprovado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, designado Património arquitectónico rural nos concelhos do Porto e Vila Nova de Gaia1. Este projecto tem como objectivos a inventariação e o estudo das estruturas arquitectónicas existentes nos concelhos do Porto e Vila Nova de Gaia, que pontuam o espaço rural nos séculos XVIII e XIX, nomeadamente: 1 -Casas de lavoura e construções adjectivas, lagares e adegas, moinhos, azenhas, engenhos, fontes, pontes, mirantes e a sua relação com o espaço público, com o espaço reservado à exploração agrícola e com os povoados; 2 -A relação destes elementos, como partes constitutivas de núcleos rurais, com outros núcleos arquitectónicos da mesma época, quer sejam urbanos, industriais ou rurais, analisando a relação espacial e de expressão arquitectónica entre cada núcleo; 3 -Através do estudo levado a cabo nos dois pontos anteriores, conhecer melhor as sociedades que constituíram este habitat; 4 - Propor estratégias de salvaguarda e valorização de alguns dos elementos que sejam considerados mais relevantes e exemplificativos pela sua qualidade, singularidade, antiguidade, novidade, carácter de exemplo único, etc. Nesta comunicação iremos somente fazer uma primeira abordagem aos itens 2 e 4. No que diz respeito ao património arquitectónico ligado ao Vinho do Porto, que motiva o título desta comunicação, queremos chamar a atenção para o trabalho de investigação que vem sendo desenvolvido por Agustín Guimará2 Este autor tem vindo a propor uma análise dos portos que comercializam o vinho, através da sua situação e estabelecimento geográficos, comercialização viní- A arquitectura dos armazéns, da habitação e da lavoura, a arquitectura religiosa e devocional, foram definindo em Vila Nova de Gaia uma· morfologia urbana própria, que deverá ser estudada também em comparação com a morfologia urbana de outros portos ligados ao comércio do vinho. Esta morfologia assume uma relação muito estreita com o fenómeno do Vinho do Porto sobretudo na área ribeirinha conhecida de antanho como Vila Nova, assim como no sopé do morro do Castelo de Gaia. Todavia, a dependência socioeconómica do Vinho do Porto foi também bastante forte nas freguesias confinantes com Vila Nova de Gaia, especialmente desde os finais do século XVIII e até meados do século XX, ao ponto de ter sido factor fundamental para o surgimento de novos lugares habitados, mesmo que com vestígios arquitectónicos e de estruturação territorial bem diferentes daqueles que surgem na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia. Podemos dar o exemplo de um caso que foi já parcialmente estudado: o Lugar da Costa (freguesia da Madalena), onde a influência do fenómeno do Vinho do Porto foi tão evidente que o lugar praticamente assumiu-se como tal graças a muitas pequenas casas de trabalhadores de armazém, construídas sobretudo após o estabelecimento do apeadeiro de caminho de ferro a poucas dezenas de metros3. O caminho de ferro permitia um acesso rápido até às Devesas, que servia de estação ferroviária principal para as caves de vinhos. Contudo, mesmo antes do apeadeiro da Madalena ter sido criado, já neste emergente Lugar da Costa se notava uma prevalência de habitantes não directamente ligados à actividade agrícola. A influência do fenómeno do Vinho do Porto nota-se pelo facto da agricultura tradicional e suas características casas de lavoura não se terem aqui implantado de forma evidente. Indirectamente, o Vinho do Porto marcou a arquitectura e a morfologia do lugar, tendo mesmo estado na base do carácter progressista e não conservador dos seus habitantes, facto que ainda hoje se nota. Ainda assim, foi na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia que o fenómeno do Vinho do Porto mais condicionou a malha urbana. Não que tivesse sido a sua origem. De facto, o fenómeno do Vinho do Porto condicionou toda amorfologia e arquitectura do núcleo histórico de Vila Nova de Gaia num sentido bem diferente do que sucedeu em qualquer outro núcleo histórico português, facto que o toma singular, exigindo estratégias de reabilitação especificamente pensadas para o território em causa. De facto, o núcleo histórico de Vila Nova de Gaia não é senão a união de dois núcleos: Gaia e Vila Nova. Gaia era a primitiva urbe ajtimedieval, cuja importância na época parece ter sido equivalente à do Porto. Porém, diversas causas históricas acabariam por favorecer a preponderância crescente do Porto em relação a Gaia. Ao contrário do que sucedeu em Gaia, o crescimento urbano foi evidente no Porto ao longo de todo a Baixa Idade Média. Não admira, pois, que -na margem sul - a estrada que dava acesso directo ao Porto sem passar 172 O PATRIMÓNIO ARQUITECTÓNICO E O FENÓMENO DO VINHO DO PORTO: RELAÇÕES E MOTIVAÇÕES por Gaia deu origem à Vila Nova, vila esta favorecida pelo poder real como forma de contrapor o poder económico e administrativo dos Bispos do Porto. Tudo isto significa, em traços largos, que Vila Nova nasceu como um arrabalde do Porto e,não como um arrabalde de Gaia. Ainda hoje não existe qualquer articulação de percursos entre o antigo núcleo urbano de Gaia e o antigo núcleo urbano de Vila Nova. O rio (e, hoje, a sua estrada marginal) é a única forma de comunicação entre os dois núcleos. Em Vila Nova de Gaia existe um núcleo histórico que são, afinal, dois núcleos completamente distintos e sem estreitas relações entre si durante séculos, ao ponto de terem andado mesmo separados administrativamente. Ora, o elemento agregador destes dois núcleos urbanos de origem medieval (Gaia, com a sua origem urbana possivelmente ainda do período Romano), foi o fenómeno de edificação dos armazéns de vinhos. Este fenómeno foi sobretudo forte a partir do século XVIII, com a criação da região demarcada do Douro. Um poder mais forte vai-se instalar numa área urbana depauperada: Gaia já estava completamente decadente há vários séculos e Vila Nova, se bem que tenha perdido a sua função inicial de contraponto ao poder dos Bispos do Porto, assumia alguma prosperidade sobretudo pelo facto de se situar no local onde desembocava a antiga estrada coimbrã de acesso ao Porto. De tal forma isso sucedia que o crescimento urbano de carácter residencial e comercial foi sendo feito na corda desta antiga estrada, no sentido do rio para sul. Ora, as caves do chamado "Vinho do Porto" acabaram por inverter a tendência de evolução urbana ao longo da Rua Direita e antiga Calçada dos Ferradores. Mesmo assim, talvez não se possa falar em verdadeira evolução urbana em Vila Nova de Gaia na segunda metade do século XVIII, pois os armazéns de vinhos não eram espaços comerciais ou residenciais. Antes constituíram uma valência pré-industrial relacionada com um produto de elevado valor económico, dependendo estritamente do ambiente urbano do Porto - onde se situavam geralmente as sedes das sociedades de comércio de vinhos. Este ligante ou "cimento urbano" que foram os armazéns de vinhos originou um núcleo urbano sui gene ris, sobretudo porque nunca pressupôs uma qualquer ligação orgânica entre os dois antigos núcleos de Gaia e Vila Nova. Os (poucos) percursos que se criaram de novo e os que já existiam e foram enfatizados, dirigiam-se sempre para o rio. As caves acabaram por ocupar os espaços vazios entre os dois núcleos urbanos primitivos, obliterando mesmo antigas servidões em zonas que estavam já despovoadas. Por outras palavras, os armazéns de vinhos condicionaram a malha urbana não propriamente através da promoção de novas ruas, mas pela eliminação de várias serventias públicas secundárias e pelo desvio de alinhamentos, mesmo em ruas com uma maior importância. uu ruuu. Em síntese, o núcleo histórico de Vila Nova de Gaia apresenta as seguintes singularidades: 174 • dois núcleos iniciais distintos e separados administrativamente durante séculos; • um dos núcleos (Gaia) terá nascido como aglomerado urbano de origem castreja, o outro (Vila Nova) surge como arrabalde de um núcleo urbano situado na margem oposta; • o núcleo urbano mais antigo acaba por ser suplantado em importância pelo referido arrabalde, ainda no fim da Idade Média; • ambos os núcleos diluem-se depois num outro núcleo maior e mais difuso, com carácter não residencial e não comercial, constituído sobretudo por .armazéns de vinhos e por indústrias associadas ao vinho: tanoaria, vidro, cortiça, destilação, etc. • este núcleo maior e mais difuso é também fortemente marcado pela indústria cerâmica, sendo rodeado por várias quintas de recreio de gente abastada fixada no Porto; • o que tomou os dois núcleos iniciais de Gaia e Vila Nova hoje quase indistintos foi o estabelecimento massivo de edifícios destinados ao armazenamento de vinho e a indústrias complementares. [fig. 1] Figura I O PATRIMÓNIO ARQUITECTÓNICO E O FENÓMENO DO VINHO DO PORTO: RELAÇÕES E MOTIVAÇÕES Em suma, são as caves que tornam o núcleo histórico de Vila Nova de Gaia numa entidade una e indivisa, muito embora as caves não tenham implicado qualquer articulação entre os primitivos núcleos urbanos. Pelo contrário, abafaram-nos e seqmdarizaram-nos. Ora, nenhum outro núcleo histórico no país (e, provavelmente, no mundo) possui semelhantes características evolutivas. De facto, Vila Nova de Gaia não pode ser meramente classificado como um núcleo urbano portuário, pois a sua origem e evolução é bem mais complexa, como sucintamente demonstrámos. A especificidade do núcleo histórico de Vila Nova de Gaia coloca problemas complexos de reabilitação integrada, de restauro e de conservação urbana, não só porque são raros os paralelos que podem ser encontrados de modo a servir de exemplo metodológico, mas também pelas suas próprias características intrínsecas: • O estabelecimento dos armazéns de vinhos foi sendo feito nos vazios entre os dois núcleos iniciais -Gaia e Vila Novaao ponto de eliminar caminhos e casas de habitação anteriormente existentes, facto que ainda nos dias de hoje vem sucedendo, como se verificou durante as obras das caves Fonseca, que acabaram por obstruir um trecho da Rua da Fonte Nova (para além de um outro caminho antigo de acesso ao rio). [fig. 2] • Os dois núcleos iniciais -Gaia e Vila Nova -não possuem articulação orgãnica de percursos. Como já foi referido, apenas o Rio Douro e arespectiva marginal são uma via de comunicação comum. Os percursos orgânicos primordiais dirigem-se para o rio, mas o rio não é hoje devidamente vivenciado. Tal significa que -hoje -apenas a marginal possui algum potencial comercial no sentido clássico, sendo o eixo mais fácil de reabilitar. Efectivamente, tem-se assistido a vários projectos de reabilitação desta zona, mas tudo o resto encontra-se votado ao abandono. • O actual núcleo histórico de Vila Nova de Gaia é um dos mais vastos do país e um dos mais desiguais em termos de propriedade: predominam grandes lotes, detidos por algumas empresas com poder económico. Contudo, aqui e ali existem vários núcleos habitacionais, onde vivem pessoas com poucos recursos. • O grosso do edificado no núcleo histórico de Vila Nova de Gaia não é passível de função comercial. Este aspecto é crucial e condiciona todo o sentido da intervenção de Restauro Urbano a realizar nos anos futuros. Apesar do ponto anterior, o núcleo histórico de Vila Nova de Gaia possui um potencial turístico enorme. Contudo, a principal oferta vale sobretudo como um conjunto. A oferta turística que vale individualmente é algo periférica no núcleo his-