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A pretexto da conferência de Wanderley Geraldi "A linguagem em Paulo Freire"

Rosa Nunes

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A Pretexto da Conferência de Wanderley Geraldi «A Linguagem em Paulo Freire» Rosa Soares Nunes* Com o tema «A Linguagem em Paulo Freire» Wanderley Geraldi veio aqui partilhar connosco a sua compreensão criativa dessa linguagem. E não é inocentemente que, ao apresentá-lo, faço referência a este conceito. Compreensão criativa é um conceito que percorre a obra do filósofo russo Mikahil Bakhtine. O nosso encontro intelectual tem a marca de uma paixão comum por este autor. Todo o texto é percorrido pela preocupação Freiriana, e também de W. Geraldi, com a emergência de um sujeito forjado num eu-tu interconstitutivo, remetendo para uma relação dialógica. Para isso, Wanderley justapõe à voz de Paulo Freire outras vozes – Bakhtine e Vygotsky – que deixam o rasto de outras significações, porque ele sabe que a recusa de uma significação única é o que mantém o texto em estado de enunciação e não de enunciado. É também este sentido dinâmico de incompletude – outro conceito bakhtiniano – que nos estimula para a partilha de sentidos. Nesta justaposição assume-se o risco hermenêutico de inferir similitude onde outros podem ler diferenciação. O Wanderley foi arguente da minha tese de doutoramento. Um dos subtítulos dessa tese é uma pergunta que a minha neta me fez, tinha acabado de fazer 3 anos: «Avó, porque é que a gente não vê a nossa cabeça?». Nesta pergunta ela situou o determinismo da nossa condição dialógica: nós não vemos a nossa exterioridade. Tampouco o espelho no-la devolve. Quando olhamos para o espelho é sempre falso o que vemos, porque não vemos o que os outros vêem quando nos vêem. É através do olhar dos outros que eu me construo, enquanto imagem de mim própria. 18 * Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Para Bakhtine, é impossível a construção do eu a partir da consciência individual. Tal como Paulo Freire, ele vê um núcleo dialógico em toda a sociabilidade, que é construído por uma resposta existencial activa, construída na própria interacção. Em qualquer situação de comunicação intercultural ou interpessoal nós criamos imagens dos outros e imagens de nós próprios para os outros – o que remete para o conceito de exterioridade. No âmbito da construção de uma cidadania multicultural, este conceito pode ser muito produtivo para a reflexão sobre diálogo, porque qualquer cultura tem significados que ela própria não conhece, de que ela própria não tomou consciência. Eles estão lá, mas como um potencial. Este potencial cria-se e desenvolve-se pelo diálogo, já que toda a linguagem transporta uma antecipação de se juntar a quem a receba. A visão alargada que Bakhtine tem de cultura, que se refere a todos os fenómenos culturais enraizados na linguagem, tem o efeito salutar de deitar abaixo as fronteiras entre cultura popular e cultura das elites, mas também entre texto e contexto. Tal como Vygotsky, para quem o extralinguístico e o linguístico são inseparáveis. E, se bem que este último tenha demonstrado que as origens filogenéticas e ontogenéticas da linguagem e do pensamento são diferentes, para ele, pensamento, linguagem e acção constituem um todo que, se se separam, se desvirtuam, sendo a palavra um modo de agir sobre e reagir à realidade de um determinado grupo social. Como em Paulo Freire, Bakhtine rejeita qualquer modelo que investigue os processos culturais em termos de regras ou sistemas. Ele argumenta que o processo cultural original desaparece sob esse escrutínio. As relações interculturais apenas são significativas quando a autenticidade e a qualidade das mundivisões relacionais são avaliadas pelo ângulo dialógico, no qual uma consciência é justaposta a outra. Os temas «geradores» em Paulo Freire, resultam de uma situação de comunicação, pela entrada num mesmo universo de sentidos, em si mesma propulsora de outros sentidos, num quadro dialéctico de superação do imediato no mediato. Mas Wanderley Geraldi também fala de silêncios e na recuperação de um tempo ausente e jamais passível de reposição, quando convoca o tempo de pós-exílio de Paulo Freire. É o silêncio de quem é silenciado. Mas há também o silêncio, não de quem é impedido de dizer o que quer, mas que não tem como dizer aquilo que poderia ser dito. É um silêncio que dói. 19 E também o silêncio gerado num quadro agonístico da luta pelo reconhecimento, em que o diálogo tende para o silenciamento do outro. E isso pode não ser tão distante assim do que são as nossas práticas. Concomitantemente com as mais bem intencionadas reflexões e argumentações, tantas vezes somos participantes activos de um confronto entre um saber prestigiado, que a si mesmo se legitima, com outros que não passam nesse crivo. E Wanderley também nos dá esse toque na recomendação de um fazer cognitivo que não se afaste da vida. A resposta será a saída (difícil) desse quadro agonístico para um diálogo descentrado do eu e do outro. A conversação desloca-se do centro eu e do centro outro para o medium que está deslocado do centro, envolvendo uma multiplicidade de vozes e de contextos: a tal polifonia Bakhtiniana. É para esta descentração que tende a proposta de Paulo Freire, aqui mediada pelo encontro a três, tão criativamente engendrado por Wanderley Geraldi. E que, finalmente, pode acolher diferenças substanciais e mesmo conflituais, de resto, muito caras aos três autores que convoca. E acedo ao Paulo Freire narrador, em contraponto à lembrança de que ler O Marxismo e a Filosofia da Linguagem de M. Bakhtine é enfrentar um monumento intelectual construído sobre a maior sofisticação discursiva. Já na Pedagogia do Oprimido... sentimo-nos aconselhados. O que não obsta ao reconhecimento de convergências dos três autores no carácter socialmente construído da consciência, em resultado da irredutível incompletude humana. Será este o registo em que Wanderley situa as teorias dialógicas quando estas parecem demandar um compromisso com o futuro, com o provisório, com o sempre em construção. É esse o alcance da memória do que há de vir. Contacto: Rosa Soares Nunes, FPCE-UP, Rua do Campo Alegre, 1021-1055, 4169-004 Porto Email: [email protected] Referências bibliográficas BAKHTINE, M. (1977) Le Marxisme et la Philosophie du Langage, Paris: Ed. Minuit. FREIRE, P. (1981) Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra. MIN, E. (2001) «Bakhtinian Perspectives for the Study of Intercultural Comunication», Journal of Intercultural Studies, vol. 22, 1, 5-8. VYGOTSKY, L. S. (1979) Pensamento e Linguagem, Lisboa: Edições Antídoto. 20