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Tornar-se doente... um paradoxo inquietante

João Marques Teixeira

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VOLUME III, Nº2. MARÇO/ABRIL 2001 05 Tornar-se doente mental... Como? Uns dizem que, para isso, basta ler o último livro de Pio Abreu. Outros, que mesmo lendo-o com toda a atenção, isso será impossível! Outros, ainda, que andam a brincar com coisas sérias...ou que bem razão têm os que acham que os psiquiatras não fazem mais do que criar doenças para melhor controlarem as pessoas...e sei lá o que mais se dirá! Mas, afinal, o que é que nos diz este livro que tanta controvérsia tem criado (e ainda bem) nos meios da comunicação social? Afinal, o que é que nós, psiquiatras, temos a ver com isso? Interrogarse-ão alguns dos leitores porque razão dedicarmos um editorial a esse assunto? Afinal de que nos fala Pio Abreu? Como acontece com qualquer criação ela fala por si, para além do desejo do próprio criador. Também, como qualquer outro livro, este é susceptível de várias leituras: isto é, a fala do livro é múltipla. Analisemos, por isso, as suas falas. 1. A fala do discurso imediato. Trata-se do nível discursivo imediato ou explícito, do diálogo directo entre a obra e o leitor. A obra impõe-se ao leitor pelo seu carácter prescritivo, atordoando-o: o autor prescreve aquilo que o leitor quer evitar! Como é possível tornar-se doente mental? O leitor encontra todas as instruções para tal, não se limitando o autor a receitas de genéricos, mas a prescrições altamente especializadas para nos tornarmos doentes mentais com um diagnóstico definido e aceite mundialmente. Torne-se fóbico, paranóide, obessivo, histérico! E o que resta ao leitor? Rir-se, rever-se ou até inquietar-se. A este nível discursivo o leitor reage à proposta: ou segue, avidamente, até à última linha, na esperança de não encontrar o "sintoma-comportamento" que o denuncie neste "sistema de classificação de doenças" e lhe restaure a certeza que, neste mundo louco, afinal, ele é uma das excepções para quem este livro não foi escrito; ou, lê-o hesitante, com avanços e recuos, ruminando cada “fraseprescrição”, acabando por achar que durante tantos anos andou a evitar os psis e, afinal, teria de estar ali, naquela prateleira da sua livraria preferida, a revelação do que ele sempre duvidara - afinal poderia tornar-se doente mental! 2. A fala oculta. Àquela leitura imediata, explícita, provocante, que acabei de lhe traçar os contornos, opõe-se uma outra, escondida, oculta, e igualmente provocante. A este nível, esta obra questiona uma certa tendência da psiquiatria actual, posicionando-se como contracultura. Uma autêntica pedrada no charco. Analisemos esta fala. Como tornar-se doente mental introduz o paradoxo que nos obriga a olhar para uma certa psiquiatria a partir de outro ponto de vista. A inversão figura-fundo proposta pelo autor opera uma ruptura no sistema instituído dos saberes psiquiátricos. Estes, têm acompanhado a revolução tecnológica do último decénio, num movimento de aproximação à descoberta da "causa última", lesional, que confira alicerces sólidos ao conceito de doença expressa no domínio do comportamento. A psiquiatria tem corrido, ultimamente, de uma forma ávida, atrás dessa "lesão", alimentando uma ambivalência entre a resistência à redução biomecanicista da vida mental e a perda de um lugar de destaque na fileira das especialidades médicas. Na procura de objectividade e de cientificidade, o comportamento é decomposto Editorial Tornar-se doente um paradoxo inquietante... Editorial VOLUME III, Nº2. MARÇO/ABRIL 2001 06 em unidades e sub-unidades de sintomas, organizados em síndromes, exarados em critérios de diagnóstico (ver Editorial, Vol II/nº 5 – Setembro/Outubro 2000). Os valores da sociedade de bem-estar, higienizada e sanitarizada que caracterizam os tempos modernos, insinuam-se como ordenadores dos sub-conjuntos de comportamentos que, subtraindo-se àquela higiene e normalização comportamental, passam a engrossar a lista de doenças mentais identificáveis. A relação osmótica entre o patológico e o cultural acompanha-se de um movimento de dessubjectivação. O doente já não é o sujeito do seu adoecer, porque se transformou em objecto de mitos sociais de normalização. A obra que aqui tratamos vem, no sub-entendido, denunciar esta paisagem. Ao devolver ao doente o "poder-de ser-doente", re-introduz o sujeito no centro do adoecer e, simultaneamente, interpela a psiquiatria no seu mais íntimo: quais são as fronteiras entre o normal e o patológico? Como tornar-se doente mental, não fala de doentes nem de psis, fala antes das relações entre o poder do saber psiquiátrico e o poder-comportar-se dos sujeitos. Poder tornar-se doente mental é ter o poder de se auto-determinar, o que é a negação de ser doente, pois a doença não deixa de ser, em última instância, uma coartação dos graus de liberdade do ser. A proposta desta obra situa-se, por isso, no nível do paradoxal: ter o poder de ser doente é, de facto, a afirmação da liberdade de comportar-se. Ser doente mental, na nossa óptica, é um "nãopoder-senão-comportar-se-dessa-maneira", que é o mesmo que dizer que a doença expressa no domínio psíquico, é a revelação da perda de poder pessoal, total ou parcial, o que nos remete para as questões da liberdade do ser. A doença é, nesta óptica, uma patologia da liberdade. Ou, como nos ensinou Canguillem, ser normal é ter a possibilidade de ser doente e aí re-encontrar os caminhos para a sua própria normatividade. É a capacidade de decidir e de se responsabilizar face a essas decisões. A saúde e a doença têm uma ética que é necessário reformular. Num certo sentido, esta obra aponta para essa necessidade. Face à cultura de psiquiatrização dos comportamentos, lança um grito contra-cultural de responsabilização dos indivíduos, devolvendo-lhes a possibilidade de se auto-determinarem. A uma psiquiatria centrada nos sintomas, decalcada de um modelo bio-médico, (cuja adopção sem cuidados de adaptação às particularides da vida mental, resvala, inexoravelmente, para o reducionismo biológico), esta obra remete-nos para uma psiquiatria centrada nas possibilidades do comportar-se, movendo-se nas margens de um interaccionismo de cunho antropológico. As várias falas desta obra acabam, então, por exprimirem de maneira aparentemente simples as grandes questões da psiquiatria actual, anunciando a sua crise e abrindo as portas para uma discussão dos seus paradigmas. Discussão que tem sido reclamada por muitos e que agora parece ter-se tornado inevitável.