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O biológico e o psicológico: como se ligam?

João Marques Teixeira

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07 Editorial / Editorial VOLUME VII Nº3 MAIO/JUNHO 2005 VOLUME VII Nº3 MAIO/JUNHO 2005 Numa altura em que as neurociências nos trouxeram grandes avanços quanto à compreensão das ligações entre o comportamento e o cérebro, também nos reforçaram alguns enigmas, nomeadamente aquele que diz respeito ao modo como as células do cérebro sustentam as funções psicológicas. Isto é, os avanços das neurociências têm vindo a modificar o modo como olhamos para as ligações entre o domínio psicológico / comportamental e o domínio biológico da organização do ser humano. Se por um lado se vai tornando cada vez mais clara essa ligação, por outro lado as tentações de reduzir o comportamento e as funções psicológicas ao funcionamento de redes neuronais são cada vez mais evidentes. Como dizia alguns dos enigmas relativos a essas ligações vão sendo desvendados, como aconteceu na sequência da investigação sobre a percepção da linguagem. As razões do interesse para a psiquiatria da resolução deste enigma prendem-se com o facto de estes dados poderem servir para uma maior aproximação aos mecanismos neurofisiopatológicos que subjazem às doenças mentais. Vejamos então como tem evoluído o conhecimento relativo a este enigma. Desde os anos 80 que os neurologistas e os psicólogos acreditam que a percepção da fala estava associada com actividade na área cerebral designada por área de Wernicke. Contudo, como Bogen e Bogen (1976) assinalaram, o próprio Wernicke identificou outras áreas corticais para esta função tendo, com o tempo, estas descrições de Wernicke sido extendidas para a circunvolução temporal postero-superior esquerda, para o lóbulo parietal inferior e mesmo para algumas partes da circunvolução temporal mediana. Estas propostas não coincidiam umas com as outras nos diferentes estudos. O que se sabia era que as lesões nestas áreas conduziam à disrrupção no processamento da fala, designado por afasia receptiva (Pincus & Tucker, 1985). Mas, com o advento dos estudos de imagiologia cerebral acabamos por nos confrontarmos com um dado comum: os córtices temporal posteriores e superiores de ambos os hemisférios activam-se durante a percepção da fala. Este dado constitui um dos dados mais consistentes de todas as neurociências cognitivas tendo, em conjunto com os dados sobre o papel da área de Broca, levado à noção comum de que no hemisfério esquerdo estaria o “centro” da linguagem. A questão que se levanta face a estas constatações é a seguinte: porque é que a percepção da fala está tão associada com a circunvolução temporal superior? O que é que estas redes neuronais fazem de especial? Foi a partir dos trabalhos de Belin et al. (1998) que se lançou a sugestão de que as células daquela região, em razão da sua estrutura e das suas conexões com outras células, analisariam sequências de potenciais pós-sinápticos altamente sobrepostas. Em consequência, as palavras com estruturas rápidas produzem maior sobreposição nas transmissões sinápticas originárias da cóclea e passam para níveis sucessivos do sistema auditivo, sendo descodificadas, por último, no córtice temporal superior. O que é curioso é que uma rede neuronal criada segundo os mesmos princípios é capaz de aprender palavras (Hopfield e Brody, 2001). O que é que estes dados nos dizem? Pelo menos sugerem que estas células contribuem para as funções psicológicas, mas que a sua função actual é mais simples e, num certo sentido, essa função está divorciada de qualquer dimensão psicológica. Daí que seja necessário ter-se muito cuidado com as inferências acerca deste grupo de células. As designações que são usadas para estes grupos de células elicitam, muitas vezes, a tentação de as diagramar como pequenas versões da “caixa negra” que finalmente foi aberta. Essas designações não diminuem o facto de que elas não são mais do que grupos de células em grande proximidade. É por esta razão que a futura investigação, numa manifestação de exagerado optimismo reducionista, não deve procurar os centros cerebrais de constructos como a culpa, a lealdade ou as emoções negativas, mas antes perguntar quais são os dados mais simples dessas funções psicológicas complexas que estão a ser processados por redes específicas de sistemas neuronais. É a única pergunta que impede a assumpção de uma postura reducionista biologizante. Para terminar, não podemos deixar de afirmar a nossa perspectiva. É óbvio que todo o comportamento humano, a algum nível, é biológico, mas isto não significa que o reducionismo biológico nos traga uma explicação simples, singular e satisfatória para os comportamentos complexos ou que as formas de representação molecular nos dão o melhor nível de análise para a compreensão do comportamento humano. Os constructos molares, tais como os que têm sido desenvolvidos pelas ciências sociais, dão-nos um meio de compreensão da actividade altamente complexa sem a necessidade de especificar cada acção individual dos seus componentes mais simples; desse modo fornecem-nos meios eficientes para a descrição do comportamento de sistemas complexos. Daí que pugnemos por uma postura conservadora, considerando que os dois domínios em causa ainda não possuem os instrumentos conceptuais e empíricos que permitam uma adequada tradução da linguagem entre os níveis em causa. Referências Bogen, J & Bogen, G. (1976). Wernick’s region – where is it? Annals of the New York Academy of Sciences, 280:834-843. Pincus, J. & Tucker, G. (1985). Behavioral Neurology. Oxford, UK: Osford University Press. Belin, P. et al. (1998). Lateralization of speech and auditory temporal processing. Journal of Cognitive Neuroscience, 10(4): 536-540. Hopfield, J. & Brody, C. (2001). What is a moment? Transient synchrony as a collective mechanism for spatiotemporal integration. Proceedings of the National Academy of Science, 98: 1282-1287. O biológico e o psicológico - como se ligam? The biological and the psychological levels - how are they connected? 08 Editorial / Editorial VOLUME VII Nº3 MAIO/JUNHO 2005 VOLUME VII Nº3 MAIO/JUNHO 2005 Numa altura em que as neurociências nos trouxeram grandes avanços quanto à compreensão das ligações entre o comportamento e o cérebro, também nos reforçaram alguns enigmas, nomeadamente aquele que diz respeito ao modo como as células do cérebro sustentam as funções psicológicas. Isto é, os avanços das neurociências têm vindo a modificar o modo como olhamos para as ligações entre o domínio psicológico / comportamental e o domínio biológico da organização do ser humano. Se por um lado se vai tornando cada vez mais clara essa ligação, por outro lado as tentações de reduzir o comportamento e as funções psicológicas ao funcionamento de redes neuronais são cada vez mais evidentes. Como dizia alguns dos enigmas relativos a essas ligações vão sendo desvendados, como aconteceu na sequência da investigação sobre a percepção da linguagem. As razões do interesse para a psiquiatria da resolução deste enigma prendem-se com o facto de estes dados poderem servir para uma maior aproximação aos mecanismos neurofisiopatológicos que subjazem às doenças mentais. Vejamos então como tem evoluído o conhecimento relativo a este enigma. Desde os anos 80 que os neurologistas e os psicólogos acreditam que a percepção da fala estava associada com actividade na área cerebral designada por área de Wernicke. Contudo, como Bogen e Bogen (1976) assinalaram, o próprio Wernicke identificou outras áreas corticais para esta função tendo, com o tempo, estas descrições de Wernicke sido extendidas para a circunvolução temporal postero-superior esquerda, para o lóbulo parietal inferior e mesmo para algumas partes da circunvolução temporal mediana. Estas propostas não coincidiam umas com as outras nos diferentes estudos. O que se sabia era que as lesões nestas áreas conduziam à disrrupção no processamento da fala, designado por afasia receptiva (Pincus & Tucker, 1985). Mas, com o advento dos estudos de imagiologia cerebral acabamos por nos confrontarmos com um dado comum: os córtices temporal posteriores e superiores de ambos os hemisférios activam-se durante a percepção da fala. Este dado constitui um dos dados mais consistentes de todas as neurociências cognitivas tendo, em conjunto com os dados sobre o papel da área de Broca, levado à noção comum de que no hemisfério esquerdo estaria o “centro” da linguagem. A questão que se levanta face a estas constatações é a seguinte: porque é que a percepção da fala está tão associada com a circunvolução temporal superior? O que é que estas redes neuronais fazem de especial? Foi a partir dos trabalhos de Belin et al. (1998) que se lançou a sugestão de que as células daquela região, em razão da sua estrutura e das suas conexões com outras células, analisariam sequências de potenciais pós-sinápticos altamente sobrepostas. Em consequência, as palavras com estruturas rápidas produzem maior sobreposição nas transmissões sinápticas originárias da cóclea e passam para níveis sucessivos do sistema auditivo, sendo descodificadas, por último, no córtice temporal superior. O que é curioso é que uma rede neuronal criada segundo os mesmos princípios é capaz de aprender palavras (Hopfield e Brody, 2001). O que é que estes dados nos dizem? Pelo menos sugerem que estas células contribuem para as funções psicológicas, mas que a sua função actual é mais simples e, num certo sentido, essa função está divorciada de qualquer dimensão psicológica. Daí que seja necessário ter-se muito cuidado com as inferências acerca deste grupo de células. As designações que são usadas para estes grupos de células elicitam, muitas vezes, a tentação de as diagramar como pequenas versões da “caixa negra” que finalmente foi aberta. Essas designações não diminuem o facto de que elas não são mais do que grupos de células em grande proximidade. É por esta razão que a futura investigação, numa manifestação de exagerado optimismo reducionista, não deve procurar os centros cerebrais de constructos como a culpa, a lealdade ou as emoções negativas, mas antes perguntar quais são os dados mais simples dessas funções psicológicas complexas que estão a ser processados por redes específicas de sistemas neuronais. É a única pergunta que impede a assumpção de uma postura reducionista biologizante. Para terminar, não podemos deixar de afirmar a nossa perspectiva. É óbvio que todo o comportamento humano, a algum nível, é biológico, mas isto não significa que o reducionismo biológico nos traga uma explicação simples, singular e satisfatória para os comportamentos complexos ou que as formas de representação molecular nos dão o melhor nível de análise para a compreensão do comportamento humano. Os constructos molares, tais como os que têm sido desenvolvidos pelas ciências sociais, dão-nos um meio de compreensão da actividade altamente complexa sem a necessidade de especificar cada acção individual dos seus componentes mais simples; desse modo fornecem-nos meios eficientes para a descrição do comportamento de sistemas complexos. Daí que pugnemos por uma postura conservadora, considerando que os dois domínios em causa ainda não possuem os instrumentos conceptuais e empíricos que permitam uma adequada tradução da linguagem entre os níveis em causa. Referências Bogen, J & Bogen, G. (1976). Wernick’s region – where is it? Annals of the New York Academy of Sciences, 280:834-843. Pincus, J. & Tucker, G. (1985). Behavioral Neurology. Oxford, UK: Osford University Press. Belin, P. et al. (1998). Lateralization of speech and auditory temporal processing. Journal of Cognitive Neuroscience, 10(4): 536-540. Hopfield, J. & Brody, C. (2001). What is a moment? Transient synchrony as a collective mechanism for spatiotemporal integration. Proceedings of the National Academy of Science, 98: 1282-1287. O biológico e o psicológico - como se ligam? The biological and the psychological levels - how are they connected?