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Mulheres, espaços e mudanças: o pensar e o fazer na educação das novas gerações

Maria José Magalhães

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UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE PSICOL OGIA E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO “MULHERES, ESPAÇOS E MUDANÇAS: O pensar e o fazer na educação das novas gerações” Tese de Doutoramento em Ciências da Educação, por Maria José Magalhães, sob a orientação da Prof. Doutora Helena Costa Araújo. Janeiro de 2005 1 Índice: PRIMEIRA PARTE ................................................................................................................. ............................... 5 Introdução Geral ............................................................................................................... .................................... 5 C APÍTULO I – As H ISTÓRIAS DE VIDA NA PRIMEIRA PESSOA ..................................................................................... 17 1. Hercília de Nogueira, co nfrontando a viol ência no lar ....................................................................... ......... 17 1.1. O trabalho árduo da s mulheres no campo .................................................................................... ...... 17 1.2. “Entrar na minha casa é como se estivesse a ent rar num in ferno” .................................................... 19 1.3. “A pancada”, a fuga e o regr esso com “um bag acinho e mel” ............................................................ 28 1.4. Cuidar dos filhos, cuid ar do lar: “Negociei mesm o: tenho que levar as coi sas da melhor manei ra” .. 36 2. Lurdes Martins, sabe r nem sempre é poder .................................................................................... ........... 41 2.1. À descoberta, com mar ao fundo: jovem e «terrí v el» ........................................................................ . 41 2.2. “Um início profissional muit o trabalhoso mas mu ito agra dável” ......................................................... 49 2.3. “A gravidez em clausura” .................................................................................................. .................. 54 2.4. “A vida de casada foi uma po rcaria” ....................................................................................... ............ 61 2.5. “Agora a parte fundamental: uma rela ção co mpensadora” ................................................................ 73 3. Maria Carolina Cardoso, “o que eu sou é professora” ......................................................................... ...... 76 3.1. A infância entre o moinho e África, crescen do com o trabalho e as letras ......................................... 76 3.2. “ Eu ouvia o riso trocista dos deuse s ” .................................................................................................. 87 3.3. O «ataque» do bichinho da docênc ia e um marido muito especial .................................................... 92 3.4. A gestão deu cabo da minha fé na s pesso as ................................................................................. .. 114 3.5. Conseguir que entre um ra io de luz, é fantásti co!......................................................................... .... 118 4. Ermelinda Ribeiro, a mili t ância tem sido a minha vida ....................................................................... ...... 129 4.1. “Quando morre uma mãe, é co mo uma árvore que se corta” ........................................................... 129 4.2. A entrada e a militância na JOC.......................................................................................... ............. 138 4.3. A mudança da cost ura para a fábrica ....................................................................................... ........ 147 4.4. O convencimento das pessoas de que têm força é mu ito importante .............................................. 151 5. Alzira Cordoeiro, a conquista da au tonomia e da independênci a como in visual ..................................... 167 5.1. Infância e juventude: das cores da aldei a para um internato de raparigas cegas ............................ 167 5.2. A revolução com uma bengala: sentido de humor e irreve rência ..................................................... 172 5.3. Intervir para melhorar a qualidade de vida da população cega ........................................................ 181 6. Teresa Evert, ser lés bic a numa cidade de província .......................................................................... ..... 193 6.1. A escola: o des afio do saber .............................................................................................. ............... 193 6.2. Não aguentar fingir: querer emergir da existênc ia subterrânea ........................................................ 202 6.3. Partir do pessoal para o político , fazer o político à medida do pessoal ............................................ 212 6.4. Ser professora e da r a cara c omo lésbica .................................................................................. ...... 220 7. Graciela das Nieves, cigana não morre se tem sangue bom ................................................................... 233 7.1. A infância: entre outras rapa rigas e as tare fas domésticas .............................................................. 233 7.2. Apesar da tradição, casei com que m eu que ria .............................................................................. .. 234 7.3. As ciganas, a materni dade, a escola e o empr ego… ....................................................................... 238 7.4. Viver co m o raci smo .......................................................................................................................... 247 8. Margarida Pimenta, o trabalho fe minista ..................................................................................... ............. 250 8.1. Crescer numa fa mília ‘mat riarcal’ ......................................................................................... ............. 250 8.2. Oposição ao fascis mo ...................................................................................................... ................. 254 8.3. Tempos de estu dante ....................................................................................................... ................. 258 8.4. Namore i muito! ............................................................................................................ ...................... 266 8.5. E fui para o trabalho com as mu lheres… .................................................................................... ...... 271 C APÍTULO II. O PERCURSO DE PESQUISA EM HISTÓRIAS DE VIDA ............................................................................ 287 Introdução ..................................................................................................................... .................................... 287 1. Opções epistemológicas: as histór ias de vida no centro de um percurso ............................................... 288 1.1. A autonomia do mé todo biográfico .......................................................................................... ......... 289 1.2. Memória, ficção e personagem na construção de hist óri as de vida ................................................. 293 2. Questões de mé todo .......................................................................................................... ...................... 297 2.1. Porque escolher estas mulheres? Representatividade e q uantidade versus profundidade ............. 299 2.2. A construção das hist órias de vida e os procedi ment os de anális e de conteúdo ............................ 305 3. Apresentando as biografadas ................................................................................................. .................. 320 Concluindo ..................................................................................................................... ............................... 328 2 SEGUNDA PARTE .................................................................................................................. ......................... 330 C APÍTULO III – P REOCUPAÇÕES TEÓRICAS EM TORNO DA E DUCAÇÃO E DA S SUBJECTIVIDADES E AGÊNCIA DAS MULHERES ............................................................................................................................... ........................... 331 Introdução ..................................................................................................................... ................................ 331 1. Narrativas bio-auto-gráfica s e a construção da cientifici dade em ciências da educação ........................ 332 1.1. Subjectividades, linguagem e ex periência .................................................................................. ...... 332 1.2. Histórias de vida, cientificidade em educação e estudos sobre as mulheres ................................... 337 1.3. Silêncios, vo ze s e metáforas .............................................................................................. ............... 339 2. Pensar os conceitos de partici paç ão e cidadania nas vi das das mu lheres ............................................. 343 2.1. Ampliando o conc eito de cidadania ......................................................................................... ......... 346 2.2. Pensar a agência das mulheres para uma cidada nia incl usiva ........................................................ 351 2.3. Reflectindo sobre a ag ência política das mulheres......................................................................... .. 354 3. Subordinação e eman cipação: a endurance na s lutas fe ministas ........................................................... 357 3.1. Em torno do conceito mulhere s para pensar as ques tões da opressão ........................................... 359 3.2. Feminismos: correntes, debates e movimentos contempo râneos.................................................... 366 4. Estado e «soft policying» truncando sentidos da democracia para as mulheres .................................... 380 4.1. A leitura de Fraser da repr odução material e simbólica.................................................................... 381 4.2. Redistribuição e reconhecimento, condições básica s de cidadania ................................................ 389 5. Educação e mudança soci al nas vidas de mulheres ............................................................................. .. 389 Revisitando…................................................................................................................... ............................. 393 C APÍTULO IV – C ONHECENDO OS CONTEXTOS SOCIAIS DA S NARRATIVAS ............................................................... 395 Introdução ..................................................................................................................... ................................ 395 1. Acerca da evolução hi stórica dos contextos s o ciais das narrativas......................................................... 395 2. O contexto actual da produção do texto ...................................................................................... ............. 401 3. As políticas sociais na s vidas das narradoras ............................................................................... ........... 403 3.1. O caso da Lei de Bases da Famí lia e do Código de Tr abalho de 2002 ........................................... 407 3.2. Cidadania e direitos sociai s: o c aso do rmg versus rsi .................................................................... . 409 4. As questões da igualdade nas políticas s ociais .............................................................................. ......... 411 4.1. Cidadania e inte rvenção técnica: o caso da vi olência contra as mulheres ...................................... 412 5. Agências socializadoras em tempos de globalização ........................................................................... ... 417 5.1. A socializ ação da globalização ............................................................................................ ............. 418 Observações finais ............................................................................................................. .......................... 419 C APÍTULO V – Q UOTIDIANOS DE TRABALHO , FAMÍLIA E ( NÃO ) LAZER ...................................................................... 421 Introdução ..................................................................................................................... ................................ 421 1. Sintonizando famílias , a partir das narrativas........................................................................................... 423 1.1. Quotidianos familiares, (na infânc ia e juventude), a partir das nar rativas ..................................... 423 1.2. Muita dureza e tr abalho, nenhuns direitos ................................................................................. ....... 425 1.3. ‘Comunidade’: regulação da ordem patriarcal versus apoio ............................................................. 431 1.4. Resistência, dualismo e mudança ........................................................................................... ......... 434 1.5. Fragmentos, separa ções e iti nerâncias ..................................................................................... ....... 441 2. Os trabalhos nas experiências e nas vozes ............................................................................................. 444 2.1. Tradição familiar de m ulheres de trabalho : mães e avós trabalhadoras .......................................... 444 2.2. As profissões ditas ‘femininas’, doc ência e enfermagem, nas vozes das mulheres ........................ 449 2.3. Experiências em cargos de gestão e direcção têm a marca históric a de género ........................... 453 2.3. Etnicidade e trabalho: a entrada das ciganas na re lação sala rial?................................................... 454 2.4. Relação subjec tiva com o trabalho ......................................................................................... .......... 457 3. Entrelaços e desenlaces nos quotidianos de trabalho e família .............................................................. 458 3.1. Na família patriarcal, não há lugar para o afecto: a regulação da sexualidade e do corpo ............ 459 Algumas conclus ões em torno dos quotidianos familiares, de trabalho (e de não lazer?) ...................... 465 CAPÍTULO VI – S ILENCIAMENTOS , SUBJECTIVIDADES E VITIMIZAÇÃ O : PROCURANDO A AGÊNCIA DAS MULHERES .... 469 Introdução ..................................................................................................................... ................................ 469 1. Modos de sujeição pela mate rnidade .......................................................................................... ............. 470 1.1. Operárias e mães: duas posiçõ es de su jeito irreconciliáveis? ......................................................... 473 1.2. Condições pré-modernas de maternidade em co ntextos rurai s ....................................................... 475 1.3. Mães sós e aborto clandesti no: estigma, ve rgonha e medo ............................................................. 476 1.4. Maternidade como obstáculo à criação artística e ao conheci mento ............................................... 479 3 1.5. Maternidade lésbica: mais um desafio ao patriarcado? .................................................................... 480 1.6. Maternidade em mudança em comunidades ciganas: mães e f ilhas, destinos diferentes? ............. 481 1.7. O retomar da domesticidade pelos discursos públicos e pelas políticas sociai s .............................. 484 2. Corpos diferentes e sexualidades reguladas .................................................................................. ......... 485 2.1. Clausura e invisibilidade como protecção à atenção discriminatória ................................................ 487 2.2. Impedimentos nas dimens ões afectiva e familiar ............................................................................ . 489 2.3. Sexuali dade e culturas .................................................................................................... .................. 492 2.4. Envel hecimento ............................................................................................................ ..................... 495 3. Etnicizaçã o e racialização das vidas e s ubjectividades de ciganas ......................................................... 495 3.1. Racismo e perseguição: constrangi mentos para encontrar um l ugar para habitar .......................... 496 3.2. Mulheres e homens: mundos diferentes ma rcados pela tradiçã o .................................................... 500 3.3. Aceitar a exploração para sair da miséria? ................................................................................ ....... 505 4. Relações de intimidade atravessadas de viol ência ............................................................................ ...... 505 4.1. Reflectindo so bre os conceitos ............................................................................................ ............. 506 4.2. Terrorismo patriarcal e uxoricídio : “se não és minha, não és de ninguém” ...................................... 516 4.3. Significados e práticas que assume a violência nas expe riências relatadas ................................... 518 4.4. Violência contra as mulheres na famí lia a par da violência contra as crianç as ................................ 523 5. Formas de resi stência e de agência .......................................................................................... ............... 525 5.1. A solidariedade, a amizade e a edu cação para a indep endênci a e autonomia ............................... 527 5.2. Fugas e regressos: resistin do às teias dos constrangimentos ......................................................... 529 5.3. Humor, irreverência e capacidade de comunicação: estrat égias de re siliência ............................... 530 5.4. Resistir às i dentidades atribuídas ........................................................................................ ............. 531 5.5. Estratégias para lidar com a violência na intimi dade ...................................................................... .. 537 Em jeito de re flexão final ..................................................................................................... ......................... 541 CAPÍTULO VII. F EMINISMOS , C IDANANIA E P RODUÇÃ O DE CONHECIMENTO DENTRO E FORA DA ACADEMIA ............ 545 Introdução ..................................................................................................................... ................................ 545 1. Ultrapassando a dico tomia público / privado ................................................................................. ........... 546 1.1. Uma moral restrita e o gaze masculi no marcaram a agência das mulheres .................................... 546 1.2. Da vivência de dores calada s, à interiorizaç ão dos direitos ............................................................. 547 1.3. O 25 de Abril: a conquista do direito à parti cipação polític a activa no espaço público da rua ......... 548 2. A tomada de consciência: aprender a ve r e a agir para além de si pr ópria/o .......................................... 552 2.1. Articular as posições objectivas com as subje ctivas: “o convencimento das pessoas de que têm força, é muit o importante” ..................................................................................................... ................... 553 2.2. A construção do colectiv o: a formaç ão de um ‘c orpo’ ...................................................................... 554 2.3. Estratégias de força e poder .............................................................................................. ............... 556 3. A construção do sujeit o político feminista .................................................................................. .............. 561 3.1. Ultrapassan do obstáculos .................................................................................................. ............... 562 3.2. Construindo uma po lítica fe minista ........................................................................................ ........... 567 3.3. Especificidades da pol ítica feminista: aborto e violência contra as mulheres no cerne d a actual política feminista ............................................................................................................. .......................... 574 4. Produção de conhe cimento dentro e fora da ac ademia .......................................................................... . 584 5. A importância do internaciona lismo nas políticas feministas ................................................................. .. 588 Em jeito de conclusão: conhecer a agência po lítica e a agência fe minista das mulheres.......................... 591 CONCLUSÕES FINAIS .............................................................................................................. ...................... 597 Subjectividades, sujeito e agência: ressonân cias de feminismo nas vidas de mulheres ........................ 597 Estratégias de resistência: a agência na esfera privad a e da inti midade ................................................ 602 Agência política e agência feminista – equacionando a cida dania das mu lheres ................................... 605 Mensagens cont raditórias ....................................................................................................... ................. 606 Imaginando caminhos para uma pedagogia cr ítica feminista .................................................................. 607 Finaliz ando…................................................................................................................... ......................... 613 Bibliografia referenciada ...................................................................................................... ............................. 617 4 5 PRIMEIRA PARTE Introdução Geral Esta tese inscreve-se num percurso de procur a da agência das mulher es e das d iferentes opressões de que são alvo, no sentido de, atravé s das suas hist órias de vida, conhec ermos as formas de cidadania que lhes têm estado di sponíveis e outras pelas quais têm lut ado. Preocupa-nos conhecer os processos pelos quai s as mulheres contribuem para a sua subordinação, aqueles em que, pelo contrári o, elas a desafiam e outros em que conquistam, no contexto das s uas experiênc ias e subjectividade s, a s ua liberdade e emancipação. A modernidade e os outros processo s com ela associados, em part icular, a divisão social e sexual do trabalho, construíra m um conjunto de dicotomias estruturadoras da vida socia l que tiveram impacto nas vidas das mulheres, nas percepções que sobre elas socia lmente se construíram e nas formas como elas próprias as interiorizaram, lhes resistiram ou as desafiaram. Estruturando uma divi são central entre vida pública versus vida privad a, a cidadania moderna liberal assentou na invisib iliz ação do contributo produtivo das mulheres para a sociedade, e daí para a história, o que nos tem historicamente remetido para uma extensa e misteriosa zona de silêncios. Assim, pretendemos também caminhar para um entendimento conceptual dos silêncios e das vozes de mulheres, onde a sua codificação e descodificação de alguns silênc ios e de algum as vozes se elaboram em ordem a encontrar as ressonâncias de discursos feministas e / ou igualitários que ecoam das experiências transcritas. De forma críptica e indirecta a que a metodol ogia em histórias de vida já nos habituou (Ferrarotti 1983), queremos chegar a aspectos c onsiderados relevantes pelas mulheres no que deve ser uma educação democrática que tril he um caminho para uma cidadania plena. Neste trabalho, pretende-se pensar como os espaços-tempos educativ os — familiar, escolar, informal, não-formal, social — permitem equacionar desafios, não apenas quanto às hierarquias de género mas também às de «r aça», etnia, orientação sexual, região, capacidade e classe. 12 Para estas histórias de vida, a abordagem empírica foi realizada de três ângulos. De um lado, ouvindo directamente as mulheres através de múltiplos en contros, num total de mais de centena e meia, gravados e transcritos liter almente, tentando reflectir o mais fielmente possível o que foi a interacção estabelecida. Destes encontros, alguns realizaram-se em diálogo, direccionado à elaboraç ão de histórias de vida, onde se dei xou cada mulher contar o que considerava relevante da sua vida. Para al ém destes, fizemos entrevistas temáticas, tendo em conta a intenção de conhecer melhor algumas realidades que emergiram dos relatos das narradoras. Estão aqui, por exemplo, entrevistas dirigidas a técnicas que trabalham na área da violênc ia contra as mulheres, dos maus tratos contra as crianças, da adopção, da integração de pessoas portadoras de deficiência , do activismo feminista, sindical, partidário, lésbico, da investigação na área dos estudos sobre as mulheres, que são usadas como apoio, reforço ou confront o, da interpretação e análise efectuada sobre e com as histórias de vida. De outro lado, fizemos uma análise documental de alguns diplomas de políticas sociais e de algum material saído nos mass media. Esta análise constitui-se como um auxiliar para os caminhos teóricos e reflexivos para os quais a análise e compreensão das histórias de vida nos ia le vando. De outro, ainda, realizou-se trabalho de terreno, registando o que se foi fazendo na ac tividade de pesquisa que, muitas vezes, se entrelaçava com outras acções, quer em termos dos projectos no campo educativo, quer em termos do activismo feminista, sobre o qual mantivemos um diário de bordo regular. Para não sobrecarregar o número de páginas deste trabalho que se pretende focado na s histórias de vida, este material não foi sujeit o a análise sistem ática, apenas contribuindo para uma compreensão mais abrangente do nosso lugar na interacção estabelecida para a pesquisa. Análise de cont eúdo sistemática foi o pr ocedimento adoptado para uma interpretação e compreensão do que nos foi sendo dito ao longo diálogos par a as histórias de vida e das entrevistas temáticas. • Organização do texto da pesquisa Posto isto e apresentando os ca pítulos que se seguem, a primeira parte abre com algumas histórias de vida de mulheres com quem es tabelecemos uma relação mais ou menos prolongada, da qual se regi staram alguns dos seus relatos. A sua selecção, além do critério da diversidade de experiência s, obedeceu ao que alguns/mas investigadores/as 13 denominaram de “bola de neve” ( snow ball ), na medida em que va mos, em cadeia, conhecendo cada vez mais possíveis entrevist adas, e também às possibilidades corporais e temporais que impuseram as suas limit ações e constrangimentos, como fazem a qualquer actividade humana. Tentou-se, neste prim eiro capítulo, preservar algo do discurso autêntico das mulheres biografadas e si multaneamente «apurar» algumas questões dado que a sua forma de apresentação — a escrita — é estruturalmente diferente da forma com que nos foi entregue — a or alidade. Nesse s entido, limpar am-se algumas expressões «bengala» ou repetições necessárias na oralidade mas que pesam e impedem a comunicação na forma escrita. Completa-se esta primeira parte com o segundo capítulo, onde se expõem pormenorizadam ente as opções epistemológicas e metodológicas, os procedimentos, os dilemas e as questões que se enfrentaram. A segunda parte começa com o terceiro capítulo respeitante às preocupações teóricas que acompanharam este processo de conhecimento e simultaneamente apres enta o que se considera, nesta tese, essencial para uma cientificidade em educação, incluindo alguns contornos da pedagogia feminista. Percorrem-s e conceitos, visões, perspectivas mais distanciadas para olharmos em v oo de pássaro as folhas, o húmus, as copa s, de florestas e clareiras, de sombras e luzes que mostra m e escondem experiências e linguagens, sons e sabores de pessoas concretas, mas também de estruturas menos palpáveis ma s não menos presentes, de mecanismos mais ou menos separáveis mas existentes, de processos uns misteriosos outro s vulgares, outros ainda irre conhecíveis. Num campo onde a comunicação e a relação jo gam fortemente, este capítu lo propõe um diálogo entre correntezas e canais de cientificidades por vezes de tal forma insonorizadas que a/ o mesma/o não se reconhecem e a/ o diferente não transparece. O quarto capítulo consiste num conjunto de breves apontamentos sobre os contextos sociais e políticos que rodearam e rodeiam as v idas das narradoras. Apresenta-se sumariamente algumas das principais mudanç as histórico-sociais nas três décadas abrangidas pelas bio-auto-grafias, a anális e de alguns diplomas de política social que se evidenciaram relevantes no per íodo em que decorreram os diál ogos e as entrevistas, assim como algumas notas em torno de certos proc essos socializadores considerados relevantes para a compreensão de repres entações e visões do mundo e da v ida, que a anális e subsequente evidencia. 14 Em “Quotidianos de trabalho, família e (não) lazer” — o quinto capítulo — trazem-se para a reflexão os percursos das narradoras sobre o trabalho pago das mulheres e os seus quotidianos familiares. Pretendia- se, igualmente, mostrar espaços e tempos de lazer, mas este não surge nas s uas narrativas: curios amente, uma das narradoras, a dado momento, utiliza a expressão «nada de ócio», o que pode si ntetizar esta questão nas vidas destas mulheres. Entre outras questões, as noções de família e de práticas de vida familiares, emergem das histórias de vida e das narrativas biográficas, onde outras instituições a ela ligadas — parentalidade, mate rnidade, paternidade, educaç ão familiar (Ariès 1978, Badinter s/d, Bradley Segal 1999) — surgem articuladas com os relatos que recolhemos, onde as políticas sociais (Martin 1992; Muncie 1997) ganham, por veze s, algum relevo, a par de lutas sociais em torno as questões de género na família (Staggenborg 1998; Beck 1992; Carvalho 1998). Simultaneamente, as c oncepções sobre o trabalho (Walby 1990, Fonseca 1995, Ferreira 2003), passando pela probl emática do lugar relativo entre género, classe social e outras diferenças entre as mulheres (Estanque 1999, Phillips 1992), emergem dos testemunhos apresentados. A anál ise da situação portuguesa no que se refere à família e às vidas sexuais e reprodutivas (Almeida e Wall 1996; Almeira, Vilar e André 2004), às políticas sociais e aos equi pamentos em Portugal (Torres e Silva 1998; Portugal 1998), entram pela via das falas das mulheres que, no mundo do trabalho, se confrontam com uma realidade social ai nda organizada segundo um paradigma da divisão público / privado que supõe a existência de pe ssoas a tempo inteiro no espaço doméstico para cuidar das crianças e realizar as tare fas de reposição diária da força de trabalho. Neste sentido, este capítulo diz respeito à anális e de quotidianos concretos — familiares, de trabalho e de (não) lazer— em que vivem as mulheres de quem nos fomos aproximando ao longo desta pesquisa: subt ilmente, quotidianos e contextos envidenciam-se como espaços-tempos educativos no s eu papel reprodutor de relações de género e/ou de classe, disciplinador, mas também, por vezes, nas potencialidades que encerram para a construção de relações entre as pessoas ma is satisfatórias e mais emancipadoras. Guiadas pela mão de cada mulher, serã o aqui ponderadas aquel as formas em que a família se constitui como um espaço de trabalho, as que a tornam um lugar de afectos , e aquelas através das quais se faz num inferno ; assim como aquelas em que o trabalho é 15 independência , outras em que é servidão e ainda aqueloutras onde é fuga ou transcendência. “Silenciamentos, subjectividades e vitimiza ção: procurando a agênc ia mulheres” — é o sexto capítulo onde se apresentam alguns dos constrangimentos que as narradoras relatam e as formas pelas quais tentam sobreviver, resistir ou enfrentar. Silê ncio é aqui pensado em diversas vertentes, o silêncio como opressão, mas também o silênc io como revolta (Lewis 1993) ou ainda como estr atégia (Gatenby e Hump hries 1999). Assim, conceitos como subjectividade e experiência , subjectividades genderizadas (Marshall 1994, Rich, Weedon 1989, Lewis 1993), vitmização na área da vi olência doméstica (LaViolette e Barnett 2000, Dobash et al, Hagemann-White 1998, entre outras), racismo (Phoenix, Woollett e Lloyd 1991, Radford-Hill) ou de agência entrelaçam-se com vivências de algumas das narrativas, mostra ndo as formas e os processos pel os quais a hierarquia de género e, por vezes, o poder patriarcal lhes c onstrange as possibilidades de acção, e que se articulam com outras formas de opress ão como o racismo, a marginalização de populações de etnias e culturas minoritárias como as ciganas (Lacková, Brodzi 1988, Schenck 1988, Carr 1988), a invisi bilidade e opressão da homofobia contra as lésbicas ou os constrangimentos que se co locam a pessoas cujas capacidades não seguem as versões padronizadas. Corpo, sexualidade, maternidad e, aborto, cultura, ou mesmo tradição, mostram-se por vezes como modos de silencia mento das mulheres, outras como veículos para fazer ouvir as suas vozes ou pelo menos par a amplificar o seu silêncio (Lewis 1993). Tentamos equacionar aqui, como Iris Marion Young (1990), algumas das implicações para as ciências da educação e par a os estudos s obre as mulheres das “reivindicações dos novos movimentos sociais assentes em grupos ” — movimentos como o feminismo, o d os direitos dos negros, o movimento lgbt, e as lu tas pelo respeito e cidadania de cida dãs/ãos ostracizadas/os na nossa sociedade — pess oas de cultura cigana e portadoras de deficiência. “Feminismos, cidadania e pr odução do conhecimento dentro e fora da academina” — constitui o sétimo e último capítulo para sistematizar as questões relacionadas com a agência política feminista, desafiando conceitos tradicionais e androcêntricos de participação política e de cidadania. Cruza m-se as experiências e subjectiivdades com conceitos como democracia, cidadania, part icipação, para chegar a uma perspect iva 16 feminista, isto é, capaz de incluir as mul heres nesta s emântica teórica (Araújo 1999, Dean 1997, Fraser 1991, James 1992, Lister 2002, Pollock 1996). É ainda disc utida a agência feminista (Magalhães 2003) e a sua relevância para pensar a transformação social. São aqui apresentados os debates em torno de ques tões de política feminista que emergiram das narrativas e entrevistas. Articulando crítica s feministas a uma concepção de cidadão abstracto que ‘esquece’ e/ ou oculta o contrato sexual (Pateman 1988) em que assenta, e a cave ontológica (Roland Martin 1994, cit por Arnot e Dilla bough 2002) para onde foram e continuam a ser relegadas as mulheres, as cr ianças e a família, mostram-se formas de participação política das mulheres presentes nesta pesquisa, evidenciando-se alguns dos processos em que algumas de las, ao mesmo tempo que t entam empurrar as noç ões genderizadas de cidadania e de agência, vão del ineando modelos não androcêntricos de agência política. Desdobram-se, ainda, algumas questões em torno dos feminismos com o movimentos de intervenção social e de produç ão de conhecimento para a transformação social. Enquanto feministas partilhamos da ideia de Kathleen Weiler de que "… para as feministas, o último teste do conhecimento não é se é 'v erdadeiro' de acordo co m algum critério abstracto mas se conduz ou não a uma mudanç a progressista" (1988: 63). Assim, a reflexão e a procura, nas dimensões apont adas, fazem mais sentido articuladas com dispositivos de intervenção e ac ção social e pol ítica, junto das escolas e fora das escolas, inscrevendo este percurso individual no gr osso daqueles que têm lutado em orde m à construção de uma praxis libertadora , nomeadamente no âmbito do movimento feminista e de uma perspectiva educacional crítica. 17 C APÍTULO I – As H ISTÓRIAS DE VIDA NA PRIMEIRA PESSOA 1. Hercília de Nogueira, confrontando a violência no lar 1.1. O trabalho árduo das mulheres no campo Os meus pais são de Terreiro. Andei na escola até… sei lá! Até aos dez anos. Já nem me lembro bem mas… Fiz a quarta classe. Portanto, entrei para aí de sete [ anos]. Ainda queria ir estudar mais… Tinha mesmo vício de estudar, mas os meus pais não podiam. Casei com 18 anos, saí de Terreiro e fui viver para Nogueira, Arengue. Cas ei-me e veio o primeiro filho, correu tudo maravilhosamente. Pronto, eu fazia t udo: quer dizer, se fosse preciso prender vacas, ir buscar um carro de mato ou um carro de erva, tudo isso eu fazia sozinha. Sozinha. E ele [o meu marido] habituou-se a isso. Ele podia ir “dar um dia”, porque chegava e tinha tudo feito. Já tinha tudo em palhado, tudo arrumadinh o, no campo e em casa. As mulheres, aqui, fazem tudo igual aos homens . Vão para a roça, cortar mato... Mas, claro que não ganham a mesma coisa. Eu trabalho para o meu sogro. Eu é que lhe “pago” a ele, dou- lhe metade de lucro: tenho que dar metade do milho, metade do feijão (s e houver, que isto aqui é raro ter feijão), metade do vinho, de tudo. O gado ainda é só meu: por agora, dei xaram-me ter o gado. “— Lá vai ela para a sombra!” Trabalhava… Ia a pé [para o campo]. E foi ali que eu dei um bocado cabo da minha saúde. Para baixo, para cima… Era assim: a minha sogr a é que estava com o meu filho, o António [o mais velho], naquela altura, só tinha aquele; depois ela tocava um búzio e eu vinha-lhe 18 dar de mamar. De três em três horas, ela to cava, lá vinha eu, com o calor e chegava aqui “cansinha, cansinha”. Também só dei o peito sete meses. Não dava para aguentar: para baixo, para cima; para baixo com o calor, depois andava lá mais três horas, e lá vinha eu para cima. Depois, ele ainda era assim para mim: — Lá vai ela para a sombra! E eu lá ía sachar o milho, que tinha que sa char tanto como ele ... Mesmo quando eu andava de bebé, eu andava lá tonta, com a sacholita, e ele: — Ela anda aí a meter nojo…! — Dava-me um empurrão e eu, pum ba, caía de cú. Tornava-me a levantar... Quer dizer, [ele] era uma pessoa que não podia ver isso, a gravidez. Foi um instantinho que nos chateemos . Andávamos sempre pegados. Ficava emunado 1 aos meses, não falava. Um mês, um mês e tal. Fazíamos tudo sem falar. Eu ía com ele buscar um carro, por exemplo, de mato ao mont e... Uma vez caiu um carro de mato, virou por cima de mim e fiquei debaixo do carro, e ele ainda por cima: — Ó puta, desaparece-me, tu andas c’o diabo! Botaste-me o carro ao chão! “Eu vinha para fazer o comer a qu ase na hora que ele vinha também…” Primeiro era assim: acabava [de trabalhar]... eu vinha para fazer o comer a quase na hora que ele vinha também, vinha na frente um bocadinho só. Fazia o comer, acabávamos de comer e ele era assim: — Vamos embora! Eu era assim para mim: «Ai meu Deus, ent ão, e agora quem é que arruma a cozinha, quem é que lava a loiça? Vai ele lavar?» Mas quantas vezes foi isto assim! Eu vinha, saía [do campo] aquando a ele. Metia a louça dentro da banca por arrumar — que me custava imenso — deixava assim a louça e pxsssst , lá ía eu com ele e depois ainda chegav a aqui de noite, porque tínhamos uma te rra que andávamos a fazer e q ue era ali por trás daquele alto... 1 Emunado , o mesmo qu e amuado. 19 1.2. “Entrar na minha casa é como se estivesse a entrar num inferno” Como é que ele começou? Ele era meu ami go e tudo, quando nos casamos, ele aí não podia ser melhor para mim! Aquilo começou por causa dos filhos... Ele era meu amigo e depois nasceu o miudito, o Antóni o. E eu para ele já era diferente, é por isso que ele não gostava… Eu sofri muito, sofri imenso. No início, se eu tinha um a dor de cabeça ou se tinha uma dor qualquer, ele não sabia o que é que havia de fazer: — Olha, vai para a cama, deixa-te estar na caminha... Depois, quando os problemas começaram, dizia-me: — Ó filha da puta, levanta-te. Olha que está isto e aquilo para fazer! Se eu podia, levantava-me e fazia, e a coisa andava assim mais ou menos. Se eu não podia… Um dia, ele começou a ficar chateado porque eu fiquei grávida do segundo filho e j á não podia trabalhar como devia ser. Quando veio o se gundo o filho, claro, eu já não podia fazer tanto, porque a minha vida já era outra. Ele até aí andava muito content e, porque tinha tudo feito, não é? Começou a marcar o campo Eu não me alimentava direit o, porque enj ooei muit o. Uma vez, estávamos num campo bastante longe daqui e ele: — Então, tu não fazes nada?! — e não sei quê não sei que mais. E eu: — Olha, eu não faço porque eu não posso. A gente vai até onde a gente pode, não é? — É, mas tens que fazer… Tens que fazer. Começou a marcar o trabalho [do campo] comi go. Começou a marcar o campo. Fez um risquinho a meio da leira, o meu marido! E disse: — Metade para ti, metade para mim; tu fazes aquela parte e eu faço esta. E eu lá andava, pimba, pimba, pi mba. Mas claro, muito mais cá para trás. Ele já lá andava a chegar ao cabo 2 e eu ainda ia a meio: não podia! Ai nda levou muito tempo ele a bater- 2 Ao cabo, o mesmo que no fim. 20 me, ainda levou um bocado de tempo. Ma s apanhou-me assim de ponta, porque ele achava que eu não trabalhava por não querer tr abalhar. «Malandra, caloira…» Chamava- me pr’aí quantos nomes havia. Depois começou o problema em casa. Como não trabalhav a, já não me deixava ver televisão! A guerra da televisão Já não podia ver televisão! — Ai tu não trabalhas e queres ver televisão? — era o que ele dizia. Eu tinha passado uns trabalhos, Nossa Senhora!, para comprar a televisão: eu pedia, pedia: — Vamos comprar uma televisão que é bom para os miúdos e tudo. Aprendem muito… — Não, não vais comprar televisão nenhuma, isso é muito caro… Um dia, lá o apanhei quando ele andava assim melhor, bem di sposto, e eu disse-lhe a quase como [em segredo]: — Vamos comprar uma televisão? — Olha, eu não vou lá comprá-la, mas se tu quiseres, vai lá. Então, fui com o meu sogro, comprei uma tele visão, mas a preto a br anco. Depois, prontos, começou a guerra: ora porque tinha a televi são; ora porque eu já não trabalhava… Nem deixava ver os miúdos! Às veze s, os miúdos queriam ver a nove lita, à noite, e ele ia lá e zás, desligava-a. E depois eu comecei-me a enervar também. Achava que aquilo não era direito nem nada. Quer dizer, ele desligava e eu ligava. Só tinha televisão na sala . Era assim, ele estava a ver televisão, eu estava a fazer o comer e, da cozinha, via. E ele se v isse que eu que reparava para a televisão, ia lá logo, zás . E eu, depois, via que ele desligava a televisão, tinha pena dos miúdos, que é que eu fazia? Não olhava para a televisão. Podia es tar a dar uma coisa que eu gostasse muito, mas dizia assim para mim: “eu não vou olhar para a televisão, ele vai lá desligá-la.” E eu sempre de ‘costi nhas’ para a televisão, sempre. Quando ele percebesse que eu olhava, zás . Um tempo deixei andar. Mas, às tantas, digo eu assim: 21 — Mas isto não pode ser assim. A televisão é tanto minha como tua, porque que é que tu tens que desligar agora a televisão? Por ventura… Ele desligava e eu ligava; ele desligava e eu ligava. Às tantas, nem ele c onseguia estar sentado, nem eu. Ele podia-me ter dado uns t abefes, só que não. Aí um tempito, não. Ele gosta de ver televisão, era para se vingar de mim. Tanta vez que ele foi lá desligar a televisão e eu ligar, que arrebentou com a ficha. Pegou e arrebentou aqu ilo tudo. Eu deixei estar, não fiz caso e ficamos uns dias sem tele vis ão. O que é que acontece? Ia ver a casa do Tio Quim da Toucada. Ainda a falecida era vi va, a mulher dele. A casa era ali pertinho, eu ia lá à noite, ver a novela. Fazia o c omer, arrumava tudo, arrumava a cozinha, e eu ia lá ver a novela. E uma vez o que é que me ac onteceu? Cheguei a casa para entrar: portas fechadas! Portas, tudo trancado, tudo fechado. Chamei pelos miúdos, mas já estavam a dormir, não havia maneira de acordarem. E eu: — Ó António, abre-me a porta, ó António, abre-me a porta… Ele fechou-me as port as… Eu não tinha outra hipótese para entrar, pa rto um vidro… É que eu fiquei tão nervosa quando vi as portas todas fechadas, que eu cheguei lá, com a mão, fiz assim: pum! Dei um murro ao vidro e pumba , partiu. Sujeita até a cortar um dedo ou assim… Mas não cortei, não fi z sangue, nada! Sujeita a leva r uma lambada e tudo. Mas é que não lhe tinha medo nenhum… Com os nervos que esta va, não tinha medo!… Dei um murro nos vidros… E destes vidros grossos! De i um tal murro, que era só vidros no meio do chão. Ele alevantou-se da cama, quando ouviu aquilo dos vidros e: — Eu faço, “aconteço”, eu mato-te, eu mato-te! — não sei quê, não sei que mais. E eu disse: — Olha, vai direitinho para a cama e não me toques! Porque t u não tinhas nada que me embargar a porta! Não tinhas nada que me fechar a porta! Porque eu só fui ver a telev isão para casa dos vizinhos por tu seres ma luco, porque eu podia ver aqui na nossa casa! Mas, pronto, passou. Berrou, berrou para lá um bocado mas, nessa altura, não me bateu. Entrou para o quarto, fec hou-me a porta do quarto! Ora, eu tinha um miúdo ainda pequeno que ainda usava fralda, e claro, no meu quarto tinha a as fraldas, tinha lá tudo… Vou assim par a mi m: «E agora como é q ue eu faço? Ai, meu Deus…» Digo eu assim: 28 — Hum! Estava, assim, ao pé do portão e eu par ei ao pé. Mas eu disse assim: — Ora repete-me mais isso. — ele veio mesm o pôr a ‘c abecinha’ ao pé para lhe dar com a pedra. E então ele era assim: — Dá, dá. Anda, dá. — assim com gozo. — Olha que eu dou. Olha que eu dou-te! E ele: — Puta, puta. — mesmo a chegar à minha bei ra, assim ao pé da minha cabeça: — puta, puta. — com os filhos todos ao pé. E ele com a sachola: — Puta, puta. E olha que eu mato-te. — Arrebit ou assim para mim com a sachola: — Olha que eu mato-te redonda, eu mato-te. — Antes que me mates a mim, levas tu. — O quê? Eu mato-te puta, puta. — e não sei quê. E eu caço a mão à pedra num instante e disse assim: — Olha que eu dou-te. — Então dá. — Pôs a cabeça [inclin ada] e eu, zás. Aleijei-o. E depois digo assim: «Ai». E ele, apenas eu só ter tocado com uma pedra, ele caiu redondo no chão. 1.3. “A pancada”, a fuga e o regresso com “um bagacinho e mel” E o que me fez dar com a pedra nele, foi aquel e inferno. Era um ambiente que a minha casa, que aquilo era horrível. Eu sofri muito, ca lada. Ai, mas eu chorei muito. Eu fiz isso, mas foi os nervos. Eu não havia de fazer isso . Eu não hav ia de fazer isso, porque eu fiz com os nervos. É mesmo! É que eu rachei-lhe a cabeça. Rachei-lhe a cabeç a. Não lhe assentei [bem] na cabeça, se não matava-o, mas assentei-lhe assim perto do pescoço e no ombro, e ele “ bumba ” caiu abaixo, no chão. Foi com a mão esquerda, [porque] tinha o braço [direito] ao peito, que eu tinha-me aleijado. — Ai que eu o matei. — imagine o que eu sofri... O que é, é que também não tinha aqui ninguém que fosse por ele. Eu digo assim: 29 — Ai, meu Deus, que eu o matei. — Eu dei-lhe mesmo no sítio perigoso. Ele ficou todo encharcado em sangue. Foi uma situação que eu pensei a ssim: «Eu vou ter de chamar a ambulância, para ele ir para o hospital». Ai, mas com os nervos que estava! Ele depois levantou-se para cima e ainda ía para pegar na sachola a ver se me dava, mas a força já não era assi m muita. E eu disse: — Então, querias que eu te desse, já te dei! O que é que eu faço? Vou por aí abaixo muito direitinha... e ele ali ficou. Eu fui por aí abaixo muito direitinha e fui ao telefone 3 ... Isto foi à noite. Fui telefonar, mas quase que não conseguia telefonar. Desmaiei, ía telefonar para a minha cunhada, para ela me vir buscar que eu com ele não podia estar, se não, depois, «comia 4 »! Telefonei para a minha cunhada, a minha cunhada fic ou toda aflita. Contei-lhe, mas contei- lhe muito pouco, e ela ficou ainda mais aflita do que eu. Quando deu conta do que era, começou aos gritos 5 . A minha filha nem estava cá, estava com os padr inhos dela. Só estavam cá os outros dois. A minha cunhada chegou, ela não me levou no ca rro dela, alugou-me um taxi. Ela a chegar e ele a levantar-se do chão, a sair daqui, ele. Mas o que é que ela fez? Ela rodou o carro, naquele largo, virou o carro para lá para que ele não visse quem era. Mas eu queria-me ir embora e queria levar os meus filhos. • “«uma mulher de coraige », e um homem a dizer isto…!” Mas fiquei tão nervosa, quer dizer, até saía e nem roupa apanhava nem nada! E a minha cunhada disse-me: — Ó Cila, tu tens que levar roupa. Então tu va is sair daqui sem roupa para os teus filhos? Já viste? E para ti e tudo? Tu tens que lá ir a casa apanhar roupa. Ele já tinha saído [para casa da mãe]. Depois nós estacionámos o carro à porta, o senhor lá estacionou, e eu fui lá apanhar a roupa. A minha sogra viu-me! Mas nada acont ec eu. Ela podia-me ter levado para a cadeia!? 3 À cabine públic a que se situa ao fund o da aldeia. 4 “Comer”, o mesmo que “comer porrada”, isto é, “apanhar p ancada”. 5 Do outro lado do telefone. 30 Ela [sogra] ali a espreitar, ali de cima. Eu só olhei as sim um bocadito para cima, ela fsss , escondeu-se, porque ela, se vi esse, «comi a» também. Ela ainda se meteu debaixo da japoneira, estava a vigiar, a ve r o que é que eu tirava de casa , mas eu só tirei a roupa, porque não deu tempo de mais nada. Nem o carro [de aluguer] podia levar muita coisa. Depois, pronto, lá saí. Saí sem documentos nenhuns, porque ele ti nha-me apanhado os documentos todos, e os dos meus filhos, tudo! E o homenzinho do táxi era assim: — Ah, mulher de coraige !? — Ai, e um homem a dizer isto!... Em casa da minha cunhada estive dois meses. Ele foi lá duas vezes. Disse que era para ver os filhos. • “Ele no hospital, contou que tinha sido a mulher” Depois, eu precisava de saber se ele esta va bem, no hospital. Fui à casa da minha cunhada, a ver se arranjo o número do hospita l de Arengue, que era para ver se o homem estava morto ou se estava vivo. Depois, eu, fina, liguei para lá e falou a enfermeira, perguntei-lhe como é que ele est ava. Não disse que era a esposa dele! Disse que era uma amiga, uma senhora aqui da t erra dele, uma vizinha. — Olhe, ele levou sete pontos. Está um bocadinho mal, mas vai ficar bem. Ele, no hospital, contou que tinha sido a mulher . Contou lá, e não foi só lá. Contou no posto da Guarda, também. Eu depois fiquei muito sentida, porque ele al evantou-me um falso testemunho: que eu que era assim, que eu era assado… Quer dizer, ele teve tempo de meter logo q ueixa contra mim. Logo, não digo que fosse no dia... Porque ele depois dizia a todo o mundo: — Eu nunca mais quero aquele diabo, eu nunca mais... — Fa lou tanto, tanto! — Ela nunca mais é mulher minha, nunca mais. Nunc a mais me entra aqui portas adentro. Depois, pronto, eu ía sabendo notícias, pelos vizinhos, a ver como é que estava... se estava a correr bem. 31 “O meu medo era ficar sem as crianças” Mas depois eu fiquei aflita. Sofri muito, porque os meus filhos ficaram aqui e eu fui para baixo 6 . Ficaram aqui de volta do pai, já viu? Mas a minha aflição foi: tinha saído com a minha cunhada e tinha levado só o Tadeu, tinham ficado os outros dois. Estava sem documentos, sem nada. Não tinha o número de contribuinte, não tinha o bilhete de identidade, não tinha nada. E depois aquelas coisas demoram muito tempo, aqui na aldeia. Pedi ao meu cunhado, então, se vinha a Arengue, para ver se conseguia ir tirar os papéis. Então o que é que eu fiz? Fui mais a minha cunhada, foi o que me valeu, aquela cunhada, e fui tirá-los ao Porto, demorou só uma semana. E foi quando eu pude tratar das coisas e então fui a tribunal e essas coisas. O meu medo era que ele não me trouxesse os miúdos! Mas trouxeram-me os miúdos. Depois ameaçou-me com a Guar da. Foi a Arengue, ameaçou-me... para eu lhe vir cá trazer os miúdos, porque se não, que era assim, que era assado… Eu disse: — Eu não tenho medo. — Ma s eu ainda assim andava lestra , porque eu pensava mesmo que ele ía-me tirar os miúdos e depois, Deus me livre! Do jeito que ele andava, não podia ser! Então fui logo falar com a Guarda de Castelo: — Passa-se isto assim, assim... o meu mari do disse que eu tinha que devolver os miúdos, que eles tinham de lá estar um certo tempo. E ele [agente] disse assim para mim: — Olhe minha senhora, tenha calma... Você é m ãe. Ninguém pode tirar os filhos da mãe, ninguém. Nem a Guarda de Arengue pode vir fa zer nada aqui a este concelho. Voc ê esteje tranquila. A senhora não tenha medo, que não vêm cá. Pronto, lá fiquei mais aliviada, porque ele tinha dit o que me tirava os miúdos e que precisava deles aqui para o feno. Para trabalhar! Era o que ele me dizia: — Preciso aqui deles para trabalhar, pr eciso aqui deles para o feno. Digo assim: — Olha, eu também preciso deles aqui par a os tratar, que eles bem precisam. Foi horrível! 6 Para a terra da cunhada e da mãe. 32 Depois eu ligava para o meu cunhado, por que eu precisava imenso dos documentos, que eu, pronto, via-me com três f ilhos à minha volta... e queria ver se ele me ía buscar os documentos e mos mandava. Q ueria pedir o rend imento minímo, como pedi. Mas não tive nada. “Levou as calças para dar ao «amigo»” Ele ía lá buscar buscar os miúdos e, às veze s, a gente calhava de se encontrar na rua... Eu, quando o via, olhav a para o chão e fsss , enfiava-me em qualquer lado. E depois chegou uma vez que ele lá veio, eu estava com a miudita no colo, estavamos-lhe até a cortar a franjita, quando ele chegou de mota. Eu vi aquela mota, virei -me para trás. Quando chegou, ele tirou-me a miudita do colo e disse: — Ó Carla anda cá. — Vi nele que ele que já estava um bocado mudado. Já estava a ver assim se falava comigo. Só que eu, pronto, ele pegou na miúda e eu retirei-me e fui para casa da minha mãe, e ele lá ficou com a miudita, mais a outra mulherzita. Lá ficou a conversar e eu em casa da minha mãe. D’outra vez, ele andava sempre a dizer que eu que lhe tinha levado as calças: — Olha, levou as calças para dar “ao amigo 7 ”. — Digo assim [para mim]: «Ai, o que eu estou a passar! Ai, que cois a mais horrível, que duro». Mas realmente tinha levado; foi quando peguei nos cabides da r oupa, à pressa, e elas íam lá. E eu disse assim: «Lá levá-las, não vou. Olha, ficam para o meu filho, pois o miúdo já a quase que veste com o pai, já está muito alto. Ficam aqui.» Eu soube porque o meu cunhado ligou para lá e disse assim: — Olhe, sabe o que é que ele anda a dizer? — que ele contava-me tudo — Olhe, anda a dizer que você lhe roubou as calças e que é para dar ao “amigo”, e assim essas coisas. Até a cabeça me estalava, mas não queria esta r a falar com ele, eu estava tão magoada com ele, que fui e disse assim, para o meu Tadeu: — Ó Tadeu, vai levar estas calças ao teu pai , dizes que afinal que elas ainda não foram para o «amigo», que ainda estão aqui. — O mocito disse-lhe assim, direitinho, direitinho: 7 “Amigo”, o mesmo que amante. 33 — Olha, a mãe disse para você levar estas ca lças, que afinal de co ntas que ainda não as levou para o «amigo». Pode levá-las à vontade. — O mocito assim. O meu Tadeu é todo descarado para dizer qualquer coisa! Não levou as calças. Deu as calças ao meu Tadeu e disse: — Ó Tadeu, diz à tua mãe a ver se ela me pode virar a barra 8 acima... — porque ele tinha- as comprado na feira e ainda estavam por arranjar... — Então agora não está lá a tua avó para as virar? — disse eu, q uando o miúdo veio outra vez com as calças. Lá deixou as calcinhas ficar, mas ficaram lá, ainda, depois, muito tempo. O re-engate: “quando a gente fez as pazes” Nesse dia, ele lá em cima com as calças, com a saca, chegou acima e virou outra vez para trás, e depois eu ía passar para baixo e el e veio num instante e diz assim: — Ó Cila, olha, vem lá buscar um presunto ... — que eu tinha dei xado [em casa] dois presuntos, aquilo já era para começar, já era o começo... — Olha, vem lá buscar um presunto, porque eu não como aquilo tudo sozinho. Leva, me smo por causa dos miúdos e assim… E eu digo: — Olha, eu não preciso de nada, estou bem, como vêem, como nunca es tive. Ao pé dos meus pais estou muito bem. Estou feliz, gr aças a Deus, agora não tenho zum zum zum atrás de mim. Estou bem. E também não me fa lta de comer, graças a Deus. Podes comer lá os presuntinhos à vontade, podes comer t udo à vontade, porque aqu ilo era metade meu, mas eu não quero nada. Eu ofereço-te isso t udo. — E virei por ali abaixo... E ele ficou assim, parado, a olhar para mim, assim um bocado… E eu sempre a andar, a ver assim pelos cantitos dos olhos. Pronto, e não levou as calças. D’outra vez veio lá pedir para eu deixar ir os miúdos à Senhora do Monte. Aí, foi quando a gente fez as pazes. Foi lá, mas eu não estava em casa. A miudita estava a dormir, porque eu deitava-a sempre à tarde para ela dormir um soninho. Não calhou de estar lá e ele ficou 8 Barra , o mesmo que baínha. 34 lá um ror de tempo à espera. Eu andava para lá, acho que a poda r, e ele mandou lá um miúdo: — Olha, vai dizer à tua mãe que venha cá, quero falar com ela. Eu cheguei à porta e disse assim: — Olha, eu não tenho mais na da a falar contigo. Eu acho que a gente já falou o que tínhamos a falar. Acabou. Pronto. — Eh… olha é que se tu me deixasses... se dexa sses ir os mocitos… — Até ali ía lá buscá- los com a Guarda e levava-os, mas agora já era «se me deixasses », ah! — Se me deixasses ir os mocitos à Senhora do Monte e tal, que eles gost am da festa. — Mas ele não era bem pelos filhos. Ele er a mas era para ver se eu vinha com eles. Mas eu andei lá a ajudar a malhar milho e adoeci. O que é que ele faz? Isto tudo sem a mãe saber, que, se a mãe soubesse, despedaçava-o. Veio-se embora, eu deixei vir os mi údos, lá lhes pus a roupinha para eles depois levare m para a festa. Pus-lhe uma pa ra eles trazerem, e pus-lhe a outra para eles depois levar à festa. A festa era só ao outro dia. Lá deixei vir os miúdos, mas a miudita não veio. A miudita não veio que el a não quis vir. Nem o mais velho queria vir, que ele tinha um medo ao pai danado. Mas eu disse-lhe: — Ó António vai, porque, olha, agora está lá a tua madrinha... — [ele] gosta muito da madrinha, se não, ele não vinha. — D epois o teu pai vem-te cá trazer. Ele [marido], ao outro dia, telefonou-me para lá. Nesse dia da Senhor a do Monte é que ele me ligou para lá. Eu até fiquei parva quando me foram chamar a diz er para eu ir ao telefone, que era ele. Digo assim: — Ai, o que é que ele quer? — Mas como os meus filhos estavam com ele, disse: — Bem, vou lá. Pode ser alguma coisa por causa dos miúdos. Então, fui ao telefone e ele diz assim: — Olha, eu não posso ir aí levar os miúdos hoje, mas vou-tos levar amanhã, lev o-tos a tempo de tu ires com eles ao médico. — Pois, é isso que eu quero. — porque eu andava-lhes a tr atar os dentes com um dinheirito, que eu tinha i do a Arengue, tinha-me vi ndo aí uns 60 contos, e eu fui lá, lev antei- o, e foi para tratar dos dentes ao miúdo. Mas ele estava com problema de dentes, teve que levar pontos e tudo, vi-me com ele! E depois, então, ao outro dia da fe sta, tinha que ir que era para tirar os pontos. Eu disse-lhe assim: — Olha, levas os miúdos, mas tal dia traz-mos 35 cá, porque eu tenho que ir com ele tratar da saúde dele. — E ele estava a falar comigo, mas eu sentia que ele não estava bem, e ele depois é que me contou. Diz ele assim: — Porque eu estou aqui a ligar de casa da minha mãe e eles devem estar a chegar e se eles chegam e me vêem aqui... Mas eu pulei pela janela. Vou-me já embor a. — Porque ele não queria ir falar a mais l ado nenhum, porque ele falava tanto [mal] de mim e depois as pessoas... Então aproveitou-se dali. Nós aqui não temos telefone, é na casa deles. Ele não me chegou a dizer, mas eu acho que ele, antes de ir para a fest a, abriu a janela. Abriu, porque eles não deixavam a janela aber ta, porque os meus sogros eram muito acautelados. E ele então deix ou a janela, encostou a janeli nha, mas não a deixou c om o fecho, e depois abriu e entrou por lá. Entrou pelas janelas para ir telefonar. Estava preparado já para isso. Porque ele já deixou lá os miúdos e tudo para eles não dizerem. • “Um bagacinho com mel...” Depois, ao outro dia, cedo, chega-me lá co m um bagaço com mel, por causa da garganta: — Olha, bota-lhe um bocadinho de bagaço — porque eu até é raro beber isso. — Pega lá… — Eu não quero nada disso. — disse eu. — Olha é por causa da garganta, a ver se fi cas melhor, porque andas muito r ouca… — Pôs lá a garrafa, lá ficou. Nunca mais fiz caso da garrafa. Depois ele andou, andou, andou [uns tempos]: — Eh, podias mas é ir para lá. Olha, punha-se uma pedra em cima disto tudo. Eu disse assim: — O quê? Eu ir para lá, depois disto tudo, eu ir para lá? Para quê? Porque agora é que tu me matavas mesmo. Já que eu não te matei a ti! — Sabes o que é, sabes… Não é bem por causa de nós, mas por causa das crianças, por causa dos filhos... — diz ele. 36 1.4. Cuidar dos filhos, cuidar do lar: “Negociei mesmo: tenho que levar as coisas da melhor maneira” Ele mudou muito depois da pancada. Às veze s, ainda tem um bocado de... às vezes com os miúdos é assim [ríspido] mas é feitio dele. Às vezes com os filhos o u assim, ainda não tem bem aquela compreensão que havia de ter. Eu estou sempre a dar-lhe para trás. Mas ele agora já é outro, que agora chega, fala para as pessoas, normal, e ele que nem falava para ninguém, a quase !… Mesmo quando estava em casa da minha cunhada e da minha mãe, nunca estorvei os meus filhos de irem ver o pai. Eu até lhes dizia assim: — Ide ver o vosso pai, porque é vosso pai. Seje fraco, seje bom, é vosso pai... Não tem nada a ver. Negociei mesmo. Eu tinha um carrito velho. O que é que acontec eu? Eu ía aqui para baixo com ele, já era preciso empurrá-lo. Depois empurrava-o, chegava lá em baixo, ou brigav a por isto, ou por aquilo, ou já não tinha marcha atrás, ou não tinha isto e depois não dava porque tinha que o compor. Eu não podia andar assim. Às vezes até ía com o meu cunhado. Uma vez fui com ele a Arengue, avariou-me lá o carro. Digo assim: — Ai meu Deus, como é que eu vou agora chegar a casa? Q uando é que eu vou chegar a casa? Já sei que vou ouvir. Tive que pedir algum dinheiri nho e comprar um carro. Ainda devo algum à minha família, mas é minha família, que espere por ele. Eu disse assim: — Não saio mais no carro sem tu ires comigo. Tenho que levar as coisas da melhor maneira para não viver no inferno. “O meu mais velho não está co m vício nenhum na escola” O meu mais velho ainda anda na escola, mas não está com “vício 9 ” nenhum, porque está sempre no mesmo ano, sempre no mesmo ano... O António tem catorze anos e ainda está na quarta. Esta professora agora que está cá, também não ensina quase na da. Ela 9 “vício”, o mesmo que paixão. 37 também é doente, a gente tem que ver isso, ela fez uma operação à [tiróide]. E ficou mal, ela até custa-lhe um pouco a falar. Mas pr ontos, duas semanas em que não houve escola, agora na outra Segunda-feira e Sexta não houve escola, ontem não houve escola... Hoje não houve escola, e, quer dizer, há pouca esco la, muito pouca escola, como é que eles também hão-de aprender? Ele não fala em trabalhar no ca mpo, não. Eu acho que ele queria era ir para o talho. A madrinha dele tem um talho e ele quer é ir para o talho. E gaba-se, ele já lá esteve nas férias, este ve lá uma semana, e diz a minha cunhada: — Ó, quem mo dera aqui, que el e é muito limpo, muito arrum ado. — Por agora não posso deixá-lo ir [trabalhar] por causa da escola, ma s depois se ele quiser ir, pois tomara eu... Diz ele: — Eu quando sair daqui, já não vou para mais lado nenhum. Vou mas é para ao pé da minha madrinha e [ela] paga-me... — e porque ele vê os outros a ter um telefone, um telemóvel... E ele quer ter. — Ai, os da minha idade já têm, eu também tenho de ter. O mais novo, tem nove anos, anda com o pai lá em baixo 10 . Eu acho que ele já aprendeu mais lá, que aqui 11 ! E ela 12 tem o deixado, tem-no ensinado. No trabalho de casa tenho um, o mais velho, esse é mesmo trabalhador, já há muito tempo que ele levantava-se, fazia a cama dele, a rrumava o quarto, arrumava a cozinha, o canteiro, a loja dos animais, fazia tudo… Ainda hoje.... O mais novo, esse, só mesmo obr igando-o, se não, não faz nada. “Mas também há homens que são “uma maravilha”” Eu tenho um irmão que é uma maravil ha para a mulher, eu até lhe disse: — Ó pá, que maravilha! — Ele c hega, faz o comer, igual a ela, ou melhor até. Faz o comer e depois é assim: ele faz uma coisa e ela faz outra. É porque a minha cunhada é assim: — Olha, não quero sair sem arrumar a cozinha. — Ele às vezes ainda lhe diz assim: — Ouve lá, hoje, deixa lá a cozinha por arruma r. Olha, pronto, arru ma-se à noite, a gente depois à noite fazemos isso os dois. 10 Na escola da noite, na educ ação de adulto s, por causa do rendiment o mínimo 11 Tem aprendido mais na esc ola da noite do que n a escola regular. 12 A professora da escola da noite 44 Um dos professores, que eu nunca esqueci e tenho a impressão que só na altura quando eu fechar os olhos vou esquecê-lo, era o meu professor de história que eu gostava muito e que eu sei que ele também gostava de mim, de maneira que era o único professor que me levava a estudar para ele e a ficar o fim de semana em casa sem namoriscar, porque admito que fui muito precoce, nos amores. Claro, como era muito nova, o meu pai já estava lá com a ‘amiga’ da minha m ãe, mas ainda estava em casa , não estabelecia relação nem contacto connosco, usava só um quarto no cimo de umas escadas, fechava-se e não percorria o resto da casa. Mas nessa altura s abia-se impor, até para culpabilizar a minha mãe. Só que eu também não era assim muito fácil, era uma adolescente como são as adolescentes e, claro, quanto mais ele c ontrariava, então é que eu gostava do rapaz. Uma das colegas ainda consegui u ir para Coimbra, para Ge rmânicas que er a aquilo que havia na altura porque, realmente, tinha outras possibilidades económicas. Havia já outras pessoas que andavam nos cursos de en fermagem… Uma professora da Mocidade Portuguesa tinha-me ensinado «enfermagem» e nunca me passava pela cabeça realmente vir para isto, tanto que eu tinha aversão ao sangue, aos cheiro s, era assim um bocado de nariz sensível. Não tive outra alternativa até em função do a lojamento, porque, para aliciar, também forneciam alojamento e davam-nos a possibilidade de pagar a maior parte no fim do curso e, para não sobrecarregar a minha mãe, vim para aqui. Tirei o curso de enfermagem numa Escola de Enfer magem do Porto. Na altura, o que exigiam para o curso geral era o segundo ano dos liceus e quem não tivesse dezoito anos, tinha que pedir autorização ao ministro para fr equentar. Eu tinha dezassete anos o quinto ano: entrava automaticamente nem tinha que fa zer exames de admissão. A licença veio tardiamente, eu já nem contava, já esta va assim um bocado des animada, mas depois lá entrei directamente. O curso também não abriu na data prevista, por causa da gripe de África. Vim assim um bocado frustrada por que realmente queria ir para Coimbra, até porque a outra colega também tinha ido, mas depoi s acabei por gostar, quer dizer, comecei logo a relacionar-me bem com os colegas, a criar amizades. 45 • “Ser enfermeira tinha uma carga negativa” Outra coisa era ser-se enfermeira naquela altu ra, que também tinha uma cotação muito negativa. Só tive na altura um rapaz que me deu os parabéns. Ele também tinha andado no seminário, não tinha predilecção por mim, e escreveu-me a dar os parabéns por eu v ir para enfermagem. Foi a única pessoa, assim mascu lina; e até me disse que a princesa Margarida da Suécia também era enfermeira. Esse rapaz, era muito engraçado, tinha uma escrita muito erudita e lá me dizia na carta «…que a deusa da felicidade levante sobre si as cornucópias». Eu na altura era ignorante em relação às cornucópias, em vez de ler cornucópias, li cornupitros . Depois percebi realmente que «c ornucópias» eram uns vazos em forma de conchas. Foi, por tanto, o único rapaz que me deu os parabéns, de resto era tudo assim um bocado… “O primeiro namorado: num sábado e com gladíolos” Comecei a namorar ainda não ti nha quinze anos e o rapaz já tinha vinte e um. Recordo ainda perfeitamente esse primeiro encont ro, num sábado, quando nos cruzamos pela primeira vez: ele ía levar um ramo de glad íolos a uma senhora que tinha sido professora dele na primária. Andava na tropa, usava o númer o vinte e sete, os outros colegas, quando passavam por mim era: “Olha o Vinte e Sete” . Era assim uma pândega. O meu pai não era não gostar do rapaz que el e nem o conhecia, era para im por a autoridade. Havia na aldeia aquelas pessoas que me ajudavam, digamos assim, que me protegiam até nesta relação e havia também aqueles que hostilizavam e que lhe íam dizer a ele [pai], nomeadamente, a tal ‘amiga’ da mi nha mãe, que passou a viver em frente a nós e tudo o que se passava na minha casa ela relatava ao meu pai. A minha vinda para o Porto para o curso geral de enfermagem coincidiu com a ida dele [namorado] para Nova Lisboa, pa ra Angola. Ía para lá com a intenção de preparar, vá la, a vida para se viver um bocadinho melhor. Ele era primo direito do bispo de Nova Lisboa que era de Portalegre e arranjava em pregos para os conterrâneos e el e ía para funcionário do Banco de Nova Lisboa. Foi de barco, ainda me escreveu para a esco la de enfermagem, mas eu ainda não tinha entrado, porque estava c heia. Uma amiga minha deu-me a notícia que realmente havia ali 46 uma carta, que a senhora do lar bem sabia bem de quem era. E depois era bom por que todas segundas-feiras eu tinha carta dele. Essa amiga minha, que é minha comadre, madrinha do meu filho mais velho, foi quem me indicou o curso e me ajudou a integrar no lar. O namoro ainda durou, só que d epois foi a distância, alguns me xericos, da parte da família dele. Ele era de outra aldeia, havia alguns primos que me conheciam e me estimavam e actualmente eu gosto dessa gente, mas nunca mais os vi. • “Intrigas da família do namorado” Uma irmã dele e um irmão mais novo, que era seminarista, andaram para lá com uns mexericos porque queriam que ele casasse com um a rapariga de outra aldeia que est ava também em África e cujo pai era militar. Eles eram pobres mas a outra, como era filha de um senhor influente que estava lá em África e era visita assídua do bispo de Nova Lisboa, ía lá comer, havia essa troca, e a família preferia. É muito engraçado, esta vida dava uma telenov ela. Quando ele estava lá e que a família queria que ele casasse com outra, ele esteve um tempo sem escrever, muito pouco, porque tinha tido um acidente de moto e tinha feito frac tura da tíbia e do perónio. Esteve para aí três meses sem me escrever, nem para mim nem para os familiares . Uma vez apareceu o tal seminarista, ele e outros primos vieram pr ocurar-me saber se ele me escrevia, que eles não sabiam de nada! Entretanto ao fim deste te mpo lá recebi uma carta dele a dizer que bem podia ter morrido que eu nem procurava saber, se tinha estado incapacitado, se tinha tido um acidente. Já era manife stação da doença, foi por isso que ele esteve mais tempo a recuperar. Foi engraçado que eu fr acturei também a tíbia e o per ónio direito e ele fracturou a tíbia e o perónio esquerdo. Entretanto, mais ou menos qu ando ele já estava praticament e recuperado do acidente, veio cá o bispo ao nosso país e acho que procurou s aber notícias de mim. Terá sabido que o meu pai me bateu e, apesar de ser muito amigo do pai da outra, qu eria antes que ele casasse comigo. Entretanto, esse bispo veio cá, procurou saber de mim e a irmã mentiu, disse que eu estava em Lisboa. O senhor fo i operado às amígdalas na Ordem do Carmo, e eu até podia ir depois lá visitá-lo, mas não eu só soube depois, porque entretanto ele [namorado] tinha-me escrito a dizer que o senhor bispo queria f alar comigo, até para nos 47 dar uma ajuda no início da vida . E como eu não fui, escreve-me todo aborrecido, [porque] o senhor bispo me procurou e eu não apareci. Po rtanto, tinha sido uma intriga da família. O irmão mais novo que andava no seminário conheceu-me e depois fi cou assim com uma dorzita por ele namorar comigo. Não sei, deu-me ideia que ele, não é para me estar a enaltecer, mas… Ainda chegou a ir assim a minha casa umas vezes, eu recebi-o bem porque era irmão, estava praticamente noi va do outro, mas não houve nada, nem abuso nenhum. Naquele tempo, havia muit a dificuldade das cartas saírem do seminário, mas ele arranjou lá uma estratégia qu alquer numa saída e es creveu -me. Dizia, a dada altura, que vinha muitas vezes ao Porto, que me levava no pens amento, e não sei quê, mas eu nem ligava importância àquilo, mesmo sinceram ente: o meu cunhado não! Nem me passava pela cabeça, mas realmente podia ter sido ele [i ntriga], depois fiquei um bocado na dúvida, não tenho a certeza. • Outros pretendentes até conhecer o “falecido vivo” Entretanto, depois de acabar este namoro, houve outros namoricos, mas aquele foi sempre o eleito. Os outros podiam ser pessoas mais importantes mas, para mim era sempre aquele. Até porque já conhecia a vida dos meus pais e, na alt ura, parecendo que não, estas separações tinham muita influência e aí eu tinha muitos complexos de inferioridade. Era uma coisa estúpida, mas era realmente assim. Era a mentalidade da época e is so prejudicou-me bastante, até porque chegava a te r pessoas [pretendentes] já com um certo estatuto e só para não dizerem isso ou aquilo , nem ía com a relação para a frente. De maneira que tive mesmo aqui no Porto do is rapazes que andavam em engenharia. Ainda tenho assim um bocado de remorsos porque o r apaz até tinha uma frequência, andava aflito para estudar, marcou encontro comigo, mas eu não fui. Depois o rapaz passava por mim e ficava vermelho e nem sequer dizi a nada, nem sei que é feito desse homem. A vida lá rolou até que num ano, qualquer tinha eu vinte e doi s, conheci aquele que foi meu marido e agora gosto muito de l he chamar “falecido-vivo”. É, conheci esse energúmeno, que era energúmeno mesmo. Sob o ponto de vista físico, ti nha uma boa figura, não era bruto, sabia falar, também tinha sido semi narista, mas era vaidoso porque sabia que era preferido pelas meninas. Era irmão do padre do Hospit al e qu e tinha sido meu professor de Moral, na Escola de Enfermagem. Este irmão padre, que era o i rmão mais velho, não tinha 48 nada a ver com ele, era uma pessoa muito engraç ada, muito comunicativa, muito alegre, gostava imenso de viver. Não tinha, praticam ente, nada de padre, no sentido tradic ional. Gostava muito das suas anedotas, era um bon vivan t. Tinha ido também para padre provavelmente por acidente. Fo i das poucas possibilidades q ue o meu sogro encontrou de lhe proporcionar um futuro melhor. O meu sogr o trabalhava na agricultura, teve doze filhos e era um homem apegado, por ser agricultor, mas já evoluído para a época, tinha um espírito religioso mesmo são, não era fanático, porque era sadio, e se pudesse ter os filhos padres… para ele, ser padre dava-lhe uma va idade, automaticamente tinha um estatuto logo diferente. • Jovem e… «terrível» Nas aulas de moral, eu era terrível, um boc ado provocatória também… Porque para mim, não sei, mas, agradava-me aquela parte de provoc ar, e mesmo no namoro, a primeira parte mais de sedução era que me dava mais piada, para mim era a que me prendia mais. Assim, na aula do padre era pela brincadeira: perguntava-lhe muitas vezes porque é que os padres não casavam, e essa coisa toda, e el e dizia que só eram obrigados a manter o celibato, mas que não eram obrigados a ser puros. Quando acabei o curso fui trabalhar para o bloco operatório, logo que abriu, no Hospital, e fui viver para uma casa mesmo próxima do Hospital. Era de uma senhora viúva que só tinha um filho. O meu futuro cunhado ía lá come r, almoçar e jantar, mas era praticamente só almoçar, porque, ao jantar, os médicos não o dispensavam. Era um bom companheiro, de maneira que fazia parte integrante das várias equipes. Como as equipes eram rotativas, ele todos os dias praticamente comia lá com eles. Este, o energúmeno, era o irmão mais novo e, aos fins de semana, às vezes comia lá na casa [da senhora]. De modo que aí estávamos vá rias enfermeiras, nessa casa, e era só ele de padre, que ía lá comer. A senhora não queria brincadeiras, mas nós brincávamos muito; trabalhávamos muito, mas aproveitávamos todo o tempo para brincar. Estava eu com vinte anos… Então provocávamo-lo, eu e outras. Às vezes, quando familiares dele vinham lá do Macedo, com problemas, ficava aborrecido durante tempos indefinidos e já não era o mesmo… Uma vez, já aquilo ía avançado, digo assim, «Não pode ser, ele anda assim aborreci do, triste, não pode ser». Então, estávamos 49 à mesa e eu de repente lembrei-me que, uns tempos antes, ele tinha trazido uns pares de cuecas. Ele pesava à volta de cem quilos, era alto, e tinha trazido uns lenços e umas cuecas para ver se a gente lhe punha a marca, um monograma, por causa da mulherzinha do hospital que lhe lavava a roupa, e às vezes a roupa perdia-se. Nós é que lhe dissemos, «traga, que nós bordamos aí um monograma». E ele lá tinha trazido, já uns tempos antes, e eu lembrei-me que havia umas cuecas do hom em, fui ao quarto e vesti as cuecas por cima da roupa. Eu era magrinha , ele era gordo, pus uma almofada assim à frente, lá vim eu naquele preparo. Quando venho a sair, ele quando me viu… desatou a rir. Depois brincávamos muito, mesmo na frente da senhora, cl aro, punhamo-nos no colo dele, cada uma em sua coxa. Depois dávamos-lhe uns beijinhos no pescoço com os lábios muito carregados de baton para ele ficar com a marca. Ele tinha trinta e tal anos, chamava-se José, mas não gostava do nome, e a gente c hamava-lhe o Zezinho. O que o homem não devia ter «sofrido»!…A espicaçá-lo, mas era mesmo. Entretanto ensinavamos-lhe a dançar o tango, que ele não sabia dançar… Enfim, lá ficava em brasa… O homem passou das boas connosco. Para ver o estilo. O certo é que o homem já dava uns passos do tango e quando ouvia uma música já ficava inquieto. Quando foi da nossa festa de fim de cu rso, a Tina então foi lá provocá-lo. Numa das fotografias ele está a dançar: «Quem diria, pois é padre…» Gozámos assim bem, trabalhávamos muito, mas divertíamo-nos. 2.2. “Um início profissional muit o trabalhoso mas muito agradável” Acho a época mais agradável em termos prof issionais, foi essa, no Hospital. Era o verdadeiro trabalho em equipe, que era no bloco operatório. Tr abalhávamos sem horários, praticamente, era até terminar o movimento operatório. Depois, ainda estávamos de serviço às urgências. Era até acabar . Isto foi em sessenta… Era o que faltava agora, para não haver lis tas de espera. Agora não operam, nem sei exactamente como é que eles lá fazem, mas trabalham menos. Aquilo era até acabar. Era realmente muito duro, o trabal ho, mas pronto, éramos novas e aguentávamos com tudo. E também aproveitávamos depois os momentos em que não havia tr abalho, para nos divertirmos, para cantar: fechava-se a porta, cantávamos enquanto arranjávamos as faixas 50 outra vez, preparávamos tudo para o dia segui nte e, às vezes, at é dançávamos umas com as outras. Convívio entre médicos e enfermeiras: as “meninas de chapéu” e as outras Foi uma época, realmente, interessante. Criávamos mesmo relações de amizade e algumas mantiveram-se pela vida fora, mesm o médicos e tudo. Fomos nós que montamos o bloco. Havia o espaço, mas não estava a funcionar e nós é que fomos para lá abri-lo. De maneira que ficamos sempre muito ligadas ao serviço. Acho que ainda deve haver lá um álbum de fotografias da nossa época. Trabalhei lá três anos e meio. De maneira que foi assim uma época muito trabalhosa, mas também ainda brincávamos um bocado lá dentro. Logo no fim das operações, às vezes, as do Dr . Garcia acabavam pela meia noite, uma hora da manhã, desde as três da tarde até aí, em pé, no mesmo sítio: nem fazer chichi, nem comer, nem nada. Claro que hoje tenho artros es nos tornozelos e isto de alguma coisa foi, não é só a idade. Não havia substi tuições, naquela altura. E aguentava!… Trabalhei com eles até me vir embora que foi por eu ter engravidado. A gente acabava a intervenção àquelas horas, e ainda tínhamos que arrumar tudo, deixar ferros lavados, tudo arranjado, montar outra ve z a sala para, no dia seguinte de manhã, já estar tudo funcional. E o médico ficava à nossa espera, porque senão, nós não podíamos sair. O hospital fechava a porta para aí às dez da noite e depois tí nhamos que sair pelo serviço de urgência, o porteiro não nos deixa va sair. Porque era a lei, era aquela escravatura. Podia ser consi derado abandono do serviço. Era esse o regulamento. Só o médico é que atestava que não havia serviç o e que estávamos dentro da lei. Ele lá esperava, ou no átrio do bloco, ou à saída no serviço de urgência. Às vezes até vínhamos tão cansadas que nos deitávamos vestidas. Das três da tarde até às três da manhã! Íamos assim, nem comer, nem nada. E ele também estava desde as três, com o máximo de concentração e de pé. Ele tinha uma coisa: enquanto operava, não admit ia conversas. Só quando estava já a fechar o doente, é que re laxava e dizia assim uma gr aça, até o seu disparate. Até aí, não permitia que ninguém abr isse a boca. Esperava por nós, à saída, e levava-nos a comer qualquer coisa ao café. Havia convívio entre médicos e enfermeiras, já na altura. Ou se chegava a ir uma vez ou outra jantar. Não toda a gente, algumas. E claro está, depois isso também nos marcava. 51 Acontecia que o outro pessoal chamava-nos «meninas de c hapéu». Achavam que éramos um tanto a élite. As do bloco eram as «meninas de ch apéu». E até nem usávamos chapéu, tem graça, usávamos barrete. Chapéus, us avam-nos elas. Elas é que usavam um chapelinho da farda! E nós at é não: era tudo abolid o porque tínhamos que ve stir as roupas próprias do bloco, esterilizadas. Eu trabalhava com o Dr. Garcia no Hospital e cá fora. Quando ele tinha serviço nas Ordens, era eu que ia instrumentar. A chefe de enfermagem facilitava a saída do hospital, ia ela fazer o meu trabalho, ou de outra qualquer, par a nós podermos ganhar mais uns tostões cá fora. E ele [médico] ia buscar-me ao hospital e levava-me para a Ordem, no carro. Era uma pessoa muito exigente, mas, mesmo no Hospital, era eu sempre que trabalhava com ele, mesmo quando eu estava de férias e ele ti nha uma operação grande, chamava-me. Eu sabia e vinha sempre. Era eu que instrumentava o Dr. Garcia nessas intervenções e era a Tina que circulava, a circulant e. A circulante é a pess oa que equipa a sala com tudo e a que está atenta aos materiais, ao que falta e aos posicionamentos do doente e a acertar as luzes e essa coisa toda. Agora deve ser tu do já mais automático, mais mecanizado. • A chefe de enfermagem: dinâmica, culta e solidária Tínhamos uma chefe que, naquela época, já er a uma pessoa bastante culta. Era de uma boa família, em termos sociais, e era uma r apariga muito dinâmica. Eu acho que f oi a melhor chefe que tive até hoje, daquelas me smo competentes. Cas ou com um médico. Está viva e está muito bem. Nem parece a idade que tem. Mas era r ealmente uma chefe, na verdadeira acepção da palavra. Estava atent a à nossa maneira de estar: se uma pessoa divertida, andava assim uns dias cabisbaixa , ela via logo que alguma coisa se pass ava. Nós não andamos sempre bem dispostos, com esse estado permanente. Então lá perguntava o que é que se passa va e se pudéssemos… ela faria tudo para nos ajudar. E ajudava. Era fantástica! E lutava muito com os superiores administrativos e com a classe médica para nos defender. Não era uma chefe que se baixava. Esteve depois um ano em Bristol. Quando veio, procurou, realmente, adaptar alguns conhecimentos que trouxe à nossa realidade. Lá está, naquela época tam bém abanou um bocado as estruturas. A 52 princípio, alguns médicos ridicularizaram algumas situações, mas depois acabaram por aceitar. Era realmente uma chefe excelent e, em tudo. • O poder dos médicos Uma das vezes até houve um episódio numa intervenção… Era uma anastemose, uma coisa difícil, na época. Era só o Dr. Garcia que fazia essas intervenções, lá no Hospital, e havia lá determinado produto que, em determinado ponto da intervenção, era necessário, um produto para fazer uma lavagem depois de ter feito lá determinada sutura. Ele já tinha utilizado isso e eu fiquei de um momento para o outro sem mais, e pedi à Tina para me abastecer e ela decidiu que não era preciso. E até foi. E estava um médico de fora, a assistir à intervenção, e o Garcia tinha o seu genioz ito. De mo do que quando qualquer coisa não estava bem, ele atirava tudo pelo ar . Materiais e tudo. Lá iam as pinças, tudo pelo ar. Ele quase que me batia! Eu fiquei co m uma vergonha tão grande na frente do outro senhor! Mas lá se remediou. Nunca ele chegou a s aber que a decisão tinha sido da Tina. Fiquei eu por parva, quando não fui. Podi a ter sido, mas não fui. Eu calei-me, fiquei por incompetente. Mas ele quase que me bateu, ficou possesso, tinha razão. A Lucinda sabe, que ela ouviu, mas também não disse nada. O Dr. Garcia, naquele dia, quando me ralhou, esperou na mes ma, no fim. O assistente veio-se despedir, eu estava a equipar a sala, ele veio por trás de mim, lá se despediu, «até amanhã» e estava eu a choramingar porque eu esti ve um pouco tempo ali, naquela tensão. Não tinha tido culpa, mas ouvi aquela coisa, não queria acusar a colega. Então, eu disse- lhe: — Foi a última intervenção que eu trabalhei convosco. Com ele, não quero trabalhar mais. Porque o Garcia tinha saído da sala furibundo, se m dizer nada. E ele lá lhe foi dizer, ao Garcia e este veio para trás, fez-me umas festinhas, parece que até já tinha mudado de humor. Era um homem atraente, bonitão, muito bem vestido, estilo i nglês. Um dia, a mulher quis saber informações de mim. Falou com uma anestesista, que era assim uma senhora m uito interessante, o marido também era anestesista e eram um par muito romântico, mesmo no trabalho, mas ela era muito bisbilhoteira, er a mesmo o termo. Mesmo no decurso das 53 intervenções, ela e a enfermeira auxiliar semp re ali a falar dos outros. A gente às vezes estava a operar e ouvia aquele ruído. Já tinha esta fama, lá no hospital, assim, de «lí ngua comprida». Foi a ela que a mulher do Dr. Garcia foi pedir informações. Eu depois é que soube como é que foi que isso aconteceu. Na altura, o director e os médicos do serviço de cirurgia organizava m de vez em quando uns almoços nas quintas uns dos outros e lá nos convidavam para a ge nte ir. Fomos uma vez a Poiares, a uma quinta de um deles. E conv idaram as esposas dos s enhores doutores, aquelas que quisessem ir. Houve um grupito que foi, e entre esse grupo figu rava essa tal anestesista. É claro que elas formavam um grupo à par te. Nunca se misturaram connosco. O dono da quinta organizou o jantar , cá fora. Chamou o rancho fo lclórico da região para vir lá actuar e depois, a dada altura, andamos nós e o rancho, tudo ali num dançarico. O Dr. Garcia já sabia das conversas da mulher, e para que ela ouviss e e fixasse mais, chamou- me e disse-me, assim na frente dela, que ne ssa semana havia uma intervenção na [Ordem da] Lapa. E, no decurso do almoço, fez uma coisa que eu, também, no lugar dela, não gostaria nada. As mesas estavam dispostas de maneira a que os solteiros estivessem de um lado e os casados de outro, para dar espaço às senhoras a estarem ao lado dos maridos. A chefe de enfermagem era solteira e eu também e o Ga rcia, em vez de ir para o lado da esposa, sentou-se à minha beira. Aí, claro, ela, de vez em quando, olhava e eu dizia logo: — Ó Sr. Dr. vá para aqueles lados. — Aqui é que eu estou bem, nesta mesa é que eu estou bem. — Eu, no lugar da senhora, sou franca, também não gostaria nada. Um dia, estávamos numa intervenção, à ta rde, daquelas que demor avam muitas horas mesmo, estava essa anestesista e um outro médico que tinha uma « língua» horrível, ainda pior do que ela. Entrou o Garcia e diz assim: — Juntaram-se as duas más línguas daqui do Ho spital, — assim mesmo. E depois virou-se e acrescentou: — Sabe que aqui a Dr.ª é qu e esteve encarregada de dar informações suas à minha mulher… — disse assim a li na frente dela, e ela ficou!… Ele era de um calibre! Quando veio lá a modinha do rock & roll, uma vez saiu do hos pital, pelos vistos, e foi lá para os lados de Matosinhos, não sei com quem. Não foi comigo. Chegou a casa às tantas da manhã. Ele é que disse depois, lá na operação: 60 Andei lá ainda dois anos . Quando voltou outra vez o falecido-viv o , lá fui por onde não devia ter ido. O progenitor recusa-se a registar a criança: «pai incógnito» Quando nasceu o meu mais velho, vim à judiciária para registar o miúdo. Ele soube da gravidez, porque a cunhada mandou-lhe logo um te legr ama, mas não quis saber. E lá vim, por causa de perfilhar o miúdo, mas ele não aporfilhou. Eles esc reveram mesmo na cédula, por extenso: «Pai incógnito». Às vezes só punham um traço, mas ali escreveram mesmo assim. Acho que não dar logo o nome foi um truque que ele usou: «assim, aquela, quando eu quiser, está ali à minha disposição.» E agor a, nesta fase da vi da, pens o que era essa jogada dele. Eu aceitei casar com ele mais por causa do problema do rapaz, da criança. Foi isso! Se ele tinha dad o logo o nome… Quando ele veio ter comigo, não o tinh a aporfilhado ainda. Uma vez, estava no lar, ainda trabalhava ent ão com o Professor, estava à beira da Bernadete e de outra e encontro-o. Foi num dia lá dos mortos, em Novembro. Vinha ele e outro lá do Cemitério de Agramonte e passou ali pela Boavista, viu-me e falou comigo. Onde é que eu estava e tal, e eu lá disse. Já tinha passado por ele, anteriormente, eu tinha feito de conta e ele também. Mas, naquele dia, resolveu falar. Um dia, nunca mais me esqueço que foi o dia 10 de Junho, dia de Camões, eu estava a almoçar e era feijoada lá no lar. Ía começar a comer, tocou o telefone: era para mim. A freira chamou-me, era ele. Queria que saísse com ele. Era estranho, de repente assim! Porque é que eu me lembro que eram feijões? Levantei-me, já não me deu tempo de ir a lado nenhum, vomitei tudo num balde. Tal era a tensão. Era uma série delas, de volta de mim, nem acabaram de comer: uma a pent ear-me, que eu tinha os cabelos compridos, outra deu-me um cola r. Eu tinha um vestid o, por acaso, muito interessante, lá o vesti e lá ter com ele. Fique i à beira da Arcádia à espera. Já estava para aí há dez minutos à espera do homem e ele não vinha. Nisto , lá vem ele do outro lado. Atravessou a rua e lá demos uma volta. Então o que é que el e dizia? Que tinha pensado e que não podia estar toda a vida a ssim. Entretanto, com quem el e deveria casar era comigo. Foi logo assim directo. E terréutéutéu , lá fomos, jantei lá com el e. Telefonei para o lar para 61 a freira a dizer que ia mesmo na hora de fechar (fechava às dez e meia da noite). E depois, a partir dali, aparecia-me. Eu disse ao Professor e diz ele: — Veja lá onde é que se mete. Eu tenho má fama. — que ele tinha assim uma fama das meninas, era também um homem muito interess ante. — Se você engravida outra vez, sou eu que estou na berlinda. Entretanto, veja lá, Maria de Lurdes, gosto muito de si, mas não me obrigue a mandá-la embora, porque eu não queria fazer isso. Portanto, diga-lhe a ele, para já, que venha ter comigo. Precis o de ter uma conversa assim… E ele, por acaso foi, eu pensava que ele não ia, mas foi. O professor pôs-me, na lua, não foi na minha frente, mas lá lhe fez ver que a primeira coisa que tinha que fazer era dar um nome à criança. Pronto, e depois o professor ficou a ser o nosso padrinho de casamento. E foi assim. 2.4. “A vida de casada foi uma porcaria” A outra vida, de casada, foi uma porcaria. Claro, também não posso dizer que foi sempre, sempre. O que tornava tudo mais difícil era a in stabilidade dele. Hoje estava um enc anto, amanhã já… Depois vinha outra vez bem, depois vinha não sei quantos. Só que, se ele fosse sempre mau, era fácil de me desli gar. Assim, não. Punha a hipótese de haver melhoras, andava naquela esperança. É assi m um bocado complicado. Não vinha muitas vezes comer, nem sequer avisava que não vinha. Depois saía às três, às quatro, às cinco horas, de madrugada, eu não dormia, ficava m agoada, pensava assim: «Então, sabe que eu que vou trabalhar…», e ficava fora de mim. Não era eu mesma. Eu ficava totalment e diferente. Eu ficava possessa também. Depoi s ele, chegava, e lá era ali uma zaragata, quase sempre. A dada altura, nem sequer ligava. Uma vez disse-lhe: — Tenho a sensação de que, quando fazes esses telefonemas, quando dize s «vou já para cima», deve estar ao teu lado alguém, e tu queres prov ar a esse alguém que fazes de mim aquilo que tu queres. Ele ficava possesso. Eu chegava lá, mas não sabia como é que havia de lidar com a situação, porque ele era da judici ária. Eu não tinha dinheiro na altura para pôr um detective particular atrás dele. Tinha os filhos pequenos para cuidar. A enfermagem era quase um 62 quartel general, e chegava a casa e tinha a vida de casa e os miúdos e essa coisa toda, não dava muito tempo de pensar em sair da situação. Eu, quando estava sozinha no quarto, sabe Deus… Mas não podia também ir. Não ia deixar dois filhos com ele, ou um, ou três. E onde é que eu ia com os quatro, se saísse? Mas era assim um bocado complicado. Ele, nesta última filha, queria que eu abortasse , mas não abortei. Depois já era a predilecta dele. Era engraçado, tão predilecta que a rapar iga, coitada, ainda ficou meia abananada. Também bebia bastante, tinha esse problema. Acompanhava-se sempre de outros homens com aquela identificação de grupo do alcoólico. Eu bem lia aqui as coisas, bem sabia, mas… O problema é como resolver: nem quem está de fora resolve depressa, quanto mais quem está dentro. “Saí de casa durante três meses” Quando andava maluco com ela [a mante], aí é que ele me fe z mesmo uma vida horrível durante um ano. Fez mesmo. At é que, a dada altura eu comecei, realmente a cansar e pu- lo mesmo de lado, afectivam ente. Um dia qualquer, chegou às quatro da manhã, veio ao quarto, levou a almofada e foi para um sofá par a a sala. E eu, tudo bem . A partir dali, nunca mais quis saber, nem se ele tinh a almofada limpa, se tinha lenç óis, se ele dormia aqui, se dormia acolá. Ele enrolava os lençóis, punha num quarto pequeno em cima de uma arca que lá estava e aquilo lá andava. A miúda mais nova [filha] é que substituía, quando era para mudar. E andamos assim um tempo. Não o fui lá buscar para ele vir para a minha beira, bolas! Ainda ficou lá assim um tempo no sofá. E então saí de casa, fui para outra cidade, par a o meu apartamento, para não ter que ficar em casa. Estive lá três meses. Ia e vi nha… Nesses três meses, é que ele andou bem!. Julguei que as filhas o prendessem um bocado, mas não. Ele abandonou-as totalmente e não queria jantar, nem aparecia, às vezes. E a mais velha que não tinha namorado, nem tinha nada, vinha de trabalhar e sentia-se muito so zinha, uma vez ou outra, ia ficar comigo, depois vínhamos as duas. Numa das vezes, na es tação, eu vi a rapariga muito triste, na sala de espera, perguntei-lhe e ela lá me disse: — Ó mamã, deixa-te disso, anda-te embora, sinto-me tão so zinha. — e eu lá vim. 63 Dali a pouco tempo lá foi então a tal cr ise grande e eu nunca mais liguei, também. Ele também chegava às quatro e ta l da manhã, cinco, mas era assi m diário, ele não aguentava, diariamente, aquele ritmo de vida! Estar a dormi r com a mulher [ amante], ou lá o que era, ter que se vestir, ter q ue vir outra vez para casa. Eu não sei quem era a outra, a sirigaita. Sei que uma vez ela ligou para lá, de tarde, era assim um exemplar que se via que não tinha… Ligou a perguntar se er a ali a casa do Sr. José Vasco Martins. Ele não é José, é Manuel. José era o padre, o i rmão, o tal Zezinho. Eu disse que não, que não havia ali Jo sé nenhum, mas também não disse quem era, percebeu-se lo go que havia ali hi stória. Depois disse-lhe a ele: — Para a outra vez, dá o nome direitinho às meninas. É melhor não dares falsos nomes. — Anh, anh, mas que meninas?… Perguntaste-lhe o que é que ela queria? — O que ela queria eu já sei! Ponto final. O processo até ao divórcio: “fez-me coisas muito baixas” Depois, fez-me coisas mesmo muito baixas, que nem vale a pena relatá-las. E a dada altura saiu de casa mesmo. Saiu nos finais de Julho de noventa e seis, quando sabia que em Setembro a filha mais velha se ia casa r. Os momentos que el e escolhia!… O que eu tive de suportar também. A rapariga casou-se no dia vinte e oito de Setembro, que é também o aniversário do meu genro. Escolher am essa dat a, ele festejou os anos e casaram. Foi desta que nasceu esta minha neta. Aos cinquenta e seis anos meus, eu sou mais nova do que ele oito, mas, pelos vistos, ele gosta é das novitas mesmo e então… acho que ele deve ser pedófilo, porque, segundo me disseram, ele andava com essa rapariga desde os dezassete anos. Ele é um sujeito com mais de sessenta! Não é normal. Andei assim abananada um tempo, o que me valeram foi aqui a Tina e a Conceição e as amigas lá da cidade onde tenho o meu apartamento, andava as sim meia desvairada. Não era pela perda lá do «exemplar», era, realmente, por estas coisas t odas, por aquilo que era meu, pelo casamento da filha, que fui eu que supo rtei tudo, e por ter aguentado toda aquela tensão. Um dia, chego a casa, já ao fi m de alguns meses de ele ter sa ído, e havia lá o pedido de divórcio. Ai, este papel tem graça, este do divórcio. 64 • Manobras intimidatórias e perseguições Ele saiu no final de Julho, mas aí no início de Julho, fins de Junho, ele esteve para aí uma semana que não veio a casa. Ainda estava em casa, mas não veio dormir. Faço anos a seis de Julho e, em noventa e seis, era um a Segunda-feira, nunca me hei-de esquecer. Ele não tinha estado o fim-de-semana. Já há uns dias que não vinha. O que é que tinha acontecido? Saiu com o nosso carro, que não estava na garagem, e deixou, no lugar do nosso, o da polícia, que esteve lá uma série de dias ali metido. Eu acho que isto que é um crime, mas esteve. Entretanto, eu andava em estágio no hospita l, estava lá e diz-me uma empregada lá do serviço: — Ó senhora monitora, vá lá fora que estão lá uns senhores que querem falar consigo. — Uns senhores? — lá fui. Então, dou de caras com ele e com um coleguinha de gabinete, um nov ato. Lá estava ele, na recepção, e esse novato junt o dele, que era um tal de agente Barata, soube depois o nome do homem. Então, o que é que ele queri a? Tinha dada cabo das chav es do carro do Estado. Não sei o que é que ele fez a elas e então dizia que eu que lhas tirei. Deixou-as nalgum sítio, ou até ela lhas teria tirado par a precipitar a situaç ão de ele abandonar a casa. Então, o homem vem lá, com o outro, e queria as chaves. E eu, meia parva: — Que chaves? — Ai, as chaves. Estás a ver como ela é? Tirou-me as chaves. — ele para o outro. E o outro era assim: — Ó minha senhora, dê-lhe as chaves do ca rro, porque a gente tem que ir trabalhar. — Mas o que é que estão aí a dizer? Que conversa é essa? — Foi para ali uma cena! E digo assim: — E de resto, não sei o que este homem quer de mim, porque, afinal, já há muito tempo que não põe os pés em casa, nem contribui com nada para ela, já nem sequer a mercearia põe em casa, nem nada. Não sei o que é que ele quer de mim, afinal. Procure, talvez a sua amante saiba onde é que elas estão. Nisto, passou a chefe de serviço, a enfermeira Castro, e eu disse-lhe assim: — Ó senhora enfermeira, deixe este senhor ir lá em cima comigo, ver a minha carteira. A mulher deve ter ficado parva. Ela não sabia que o homem era agente, nem nada, ele estava à civil. — Não, minha senhora, não é preciso. — diz o homem. 65 — Não, não, é preciso. Agora, o senhor vem lá e eu mostro-l he a carteira, para ver se tem lá alguma coisa. — e dei tei lá aquela po rcaria em cima de uma mesa, prrr : já estava também irritada com aquelas m anobras dele… — Agora se o senhor quiser que eu me dispa… — eu assim para o catraio. — Não minha senhora! Não. Eu estou convenc ido que ele que as deixou nalgum sítio. Lá se foram embora. À tarde, sou assaltada em frente à min ha porta, de esticão. Veio um carro com uns magareiros lá dentro e eu estava a fala r com uma vizinha de frente: — Ó D. Lurdes, a senhora está tão magrinha! — queria conversa e eu lá disse: — Olhe, estou, mas eu sinto-me bem, não est ou doente… — e nisto, nem estava há dois minutos, ou três, passou o carro mesmo r ente a mim e levou-me a carteira. Caí violentamente e sei que tive este pensament o: “Ai meu Deus, vou ficar esborrachada.” Mas não, só tive umas negritas. Não tive a s ensação que foi roubo de carteira, julguei que tinha sido atropelada. Quando m e vim, estava de costas. Quando me levantei, começou ela a gritar: — Ai, levaram-lhe a carteira. — como eu tinha lá tudo, cheques, cartões, as chaves das duas casas, estava muito preocupada com as chaves de lá. Levaram-me as chaves de casa, mas a mais nova tinha acabado de subir. Tive que fazer outro buraco na porta, outra chave. Ele, na al tura, ainda vinha a casa, mas vinha às quatro, às cinco e eu penso que isto que foi autori a dele. Mandou alguns dos seus capangas atrás de mim. Ele era muito esperto, porque provocav a-me com coisas mesmo ordinárias, em silêncio, mas eu percebia o que é que ele quer ia: queria que eu berrasse como das out ras vezes, que era para ter um pé para sair. Nem nada! Entretanto, numa Sexta-feira dessa mesma se mana, ele chega a casa à tarde, e tinha andado a mexer na fechadura da caixa do corre io, porque só ele é qu e t inha as chaves. Nós não tínhamos, nem eu nem elas. E então, ti rou a correspondência e havia uma carta para mim, e ele pousou a carta lá numa mesa, de maneira a que eu visse. Eu vou para o quarto, ponho os óculos, vou ler a carta e vinha endereçada a Maria de Lurdes Vasco Moura. O carimbo era da Gand ra e dentro tinha um papelinho e dizia assim: «Junto se envia a sua fotografia encont rada no corredor do Hospital, depar tamento de informática», Paulo não sei quê, já não me lembro. Ainda tenho o cartão. Ent ão, aparecia aí uma fotografia de quando eu tinha onze anos. Tinha na minha carteira. Mas o que é importante 66 aqui é o que essa carta dizia e es ta fotografia! Porque na fotogr afia, por trás, estava a letra do meu pai: «Menina Maria de Lurdes Martins de Sousa», não tinha nada de «Vasco Moura». Era isso que me baral hava. Como é que a fotografia tinha um nom e e o autor da carta tinha posto outro?! No corredor do Hospital, quando eu não tinha anda do lá, porque é que a fotografia lá foi parar? E fiquei assim baralhada. Eu tenho isso tudo guardado. O homem trabalha lá, no departamento de informática. O papel não era timbrado, era um papelinho! Pensei assim: «Vão saber que eu estou no Hospital. Não tenho que ir ver se existe este homem. Pode ser perigoso para mim.» Andei aque la manhã que Deus m e livre! Cheguei ao meio dia, vim-me embora. Cheguei ao Ho spital, vesti uma bat a, fui s aber onde er a o departamento de informática e ver esse Paulo. Era na hora do almoço, tive que estar à espera dele. Nisto, vêm dois e um deles de argolinha [na orelha] e eu perguntei-lhe se algum deles era o senhor Paulo. Diz o da argola: «Sou eu.» O outro caminhou, ele ficou comig o no corredor e digo assim: — Olhe, era por causa de uma fotografia que o senhor me mandou por cart a, foi encontrada no corredor hospital. Fez-se um silêncio… Ele fico u muito atrapalhado, foi apanhado em flag rante: ali havia coisa. Quer dizer, não sei se foi mandado por ele, se era meni no que andasse c om a sirigaita, que era mais para a idade dela. Isso foi qualquer plano que eles fizeram para me pôr maluca, para me chatear. E isso aí tamb ém me dava assim um bocado na alma. É que depois analisava: «pode ser isto, isto, ou isto e isto». E aqui eu acho qu e foi um plano dele ou dela. E foi como quem: «Põe-t e a pau, porque se quiser dou cabo de ti.» Disse ao homem: — Como é que o senhor soube a mi nha direcção e o nome de casada? — Ah, a fotografia tinha o nome. — Não, não. Tinha o meu nome de solteira, não tinha o meu nome de casada. Como é que o senhor soube? — outro silêncio. — Fui ver aos dados. — A fotografia nem sequer era recente, era de quando eu era pequenina, como é que soube que era minha? — Eu fui ver aos dados. 67 — Que dados? Mas eu nem sequer sou funcionária aqui do hospital, como é que o senhor foi ver aos dados? — Dados de informática. Como doente. Por acaso tenho o cartão do hospital como doent e, mas deve haver milhentas Marias de Lurdes. Eu, se quisesse tinha liquidado aquele hom em. Quer dizer, ia à Administração, fazia uma queixa, porque ele mesmo que fosse ver aos dados, não tinha nada que and ar a usá-los. Digo assim: — Então, pronto já estou esclarecida. Mas queria ao menos pagar-lhe o selo. — Ai, não, não. — o que ele quer ia era sair da minha beira. Eu dava cabo dele. Ele estava enrascado e demorava assim tempo para me dar as respostas. Peguei e saí, vim-me embora, mas andava louca… Fiquei assim um bocado aterrorizada. A carteira apareceu depois, em Matosinhos. Uma senhora tele fonou-me a dizer que tinha lá uma carteira. Devolveu-me a carteira com as chaves, com tudo. Claro que o dinheiro não apareceu. Eu tinha telefonado para Lisboa, para a telecaixa, e tive ram que rejeitar os cheques daquela série, no dia seguinte. Naqueles tempos eu andava louca. O meu compadre de Vila C hã, o Ernesto, tinha sido operado e estava na Casa de Saúde. Fui lá vê-lo e contei-lhe. Levei-lhe o papelinho, levei- lhe tudo. Diz ele assim: — Ó comadre, que és esperta e que sabes escrever, por que é que não escreves ao Provedor de Justiça, a dizer que te sent es ameaçada? Ou então ponh o-lhe em cima um advogado, que eu lamento que o M anuel seja assim tão burro. — portanto, também ficou convicto que isto era ele [marido]. De maneira que foi uma época difícil… Eu cheguei a casa e disse, eles até fica ram assim um bocado surpreendidos: — Ei!, faz favor de avisarem lá o vosso pa izinho que eu tenho gente amiga que, se me acontecer a mínima coisa, nem que seja natur al, ele vai ser incomodado. Digam-lhe isso. Não sei se eles lhe disseram ou não disseram, nunca mais ninguém me chateou. Mas era o meu compadre: — Tenha muito cuidado ao atravessar a rua… 68 E o rapaz [do Hospital] devia ter ficado apa vorado, porque depois soube que, dali a uns dias, ele meteu baixa. Agora não sei se lá es tá, nem se não está. Aqui a Tina e a Conceição, as minhas amigas, conheciam admi nistrativos, e diz uma delas assim: — Dá-me cá isso! Quem vai lá tratar disso sou eu. — dei-lhes aquilo e disse-lhes: — Mas tenham cuidado, porque ele agora sabe, já me viu a cara. Tenham cuidado, não quero que se metam nisso. Pequenas vinganças E no dia sete de Setembro, por tanto, anteriormente ao casame nto da minha filha, eu tinha ido à casa dos meus compadres de Vila Chã, era um Sábado. E, de vez em quando metia- me no comboio, como andava assim um bocado avariada , ia lá assim um bocadinho, conversava e depois vinha-me embor a. E, à vinda, quando cheguei à estação, já eram oito menos cinco da noite, já estava assim lusco-f u sco, e vejo passar um carro da polícia, o que ele usualmente trazia. Estava à espera do autocarro e, ali na cur va, vejo o carro, conhecia a matrícula, vejo-o a ele e vejo os cabelos compridos da sirigaita. Ele tinha saído em Julho, já nos fins de Julho, mas eu fiquei!… Então quando eu lhe pedia, às veze s que chovia que eu sei lá, e ele tinha o carro, ele dizia: «Ai, não, e depois se alguém me vê contigo, sou cham ado ao director.» Veio tudo à memória num turbilhão e pensei: «Deixa es tar que eu já te digo como é», e vim durante o autocarro a conceber o plano. “— É legal o pessoal da Judiciária passear as amantes nos carros da polícia?” Cheguei a casa, estava a rapariga mais nova [f ilha], só vivia já com ela. Estava ela toda preparada para sair lá com as amigas e até ficou assim par ada para ver. Não gostou muito do que eu fiz, mas eu fi-lo, na mesma. Peguei no telefone e ligo para a judiciária. Vem -me um senhor, que diga-se em abono da verdade, era um homem es perto. Devia ser um rapaz novo ainda, pela voz, e foi inte ligente mesmo. Mas eu andav a meia apanhada do clima , mesmo assim admiro-me como é que eu falei assim tão direitinha: — Olhe, eu desejava fazer uma pergunta. — Faz favor, minha senhora. 69 — Será legal os senhores agentes passear em as amantes num carro do Estado? — fez-se um período latente: — Ó minha senhora, os carros de Estado são de serviço. — Bem me queria parecer, mas poderia ser uma concessão de última hora. — Eu assim, cínica. Mas depois dei a volta ao texto. Pensei as sim: «Ele às tantas não aguenta este cinismo, desliga-me o telefone e ‘vá lá para o raio que a parta’». E digo assim: — Mas talvez o Sr. Provedor da justiça me possa elucidar melhor. — fui logo assim para ele não me desligar o telefone. — Mas quem está a falar, minha senhora? Olhe, e quem era, quem era? — ele já assim, eles são terríveis; mas eu, o que quis foi abanar a estrutura. — Olhe, quem foi, por enquanto não digo. Ou por outro, dou-lhe outros dados. É uma pessoa veterana aí e cuja amante poderia ser fil ha dele. De resto, se os senhores quiserem investigar, não é assim tão difícil como isso , porque, penso eu, que não é qualquer um que mantém um carro de estado apr isionado um fim de semana. Portanto, os senhores se quiserem sabem quem foi, sabem. — Ó minha senhora, mas com certeza andava em serviço, não é? — Mas disse aquilo pouco convicto, foi mesmo para fazer conversa ; e depois: — Ó minha senhora, mas escusa de escrever ao senhor Provedor da Justiça, escreva aqui para o Sr. Director. — Não, não. Para aí, não vale a pena, porque eu sei muito bem que só c hega à mão do Sr. Director aquela correspondência que o senhor bem entende. Não vale a pena. M uito obrigada, já estou esclarecida. — E pensei assim: «Isto agor a vai ser mote para a conv ersa del es durante o piquete. Isto vai ser um zumzum : ‘Houve para aqui uma gaja, que tele fonou, que fez isto, que fez aquilo’.» Eu já estava ali a congeminar. E assim fo i. E ele bem soube que eu que tinha telefonado. Toda a gente sabia quem ele era, que era um bobo da corte. Um bonito casamento para a filha A festa do casamento esteve bem, esteve t udo muito bonito. Ele foi ao casamento. Foi só, não sei se a tinha lá na estalagem. Desconfio que ele devia tê-la lá para algum c anto, porque ele estava muito instável, mesmo na mesa, de vez em quando, levantava-se. Eu 76 3. Maria Carolina Cardoso, “o que eu sou é professora” 3.1. A infância entre o moinho e África, crescendo com o trabalho e as letras O meu pai era moleiro O meu pai e a minha mãe eram naturais, cada um deles, de uma freguesia do concelho de Condeixa-a-Nova e ambos faziam parte de famí lias de moleiros. O próprio pai era moleiro, que era uma profissão extremamente modesta. Hoje, quase não há mole iros, mas eu acho que, apesar de modesta, era um a profissão muito, muito in teressante e uma coisa muito poética, também. Ainda há um moinho na famí lia, embora não funcione como tal, é mais uma recordação e ainda hoje go sto de ouvir aquele barulho ince ssante, de sentir a água a passar por baixo, porque são moinhos de água, a que também chamavam azenhas. Conheci duas azenhas diferentes, onde v ivi até aos meus seis anos de idade. Mas a que acabou por ter efeitos muito profundos na vida de t odos nós foi a última, que se situava em Vila Pouca de Cenarche, que, por acaso, já pertence ao conc elho de Coimbr a. À sua maneira, o meu pai era uma pessoa um tanto empreendedora, não era muito, mas bastante para o seu tempo e a sua cultura. Assim , em 1948, tinha eu seis anos, ele mandou electrificar o moinho, o que se just ificava, porque durant e grande parte do ano não havia água suficiente para mover as mós e, portanto, não se moía. Nessa altura, passava- se muito mal. Tenho uma ideia muito concre ta disso. Lembro-me de que c omíamos muitas papas de farinha de milho com sardinha frita ou a ssada. Muitas papas e pouca sardinha… Nesse ano, fui pela primeira vez para a escola, em Vila Pouc a, e lembro-me de coisas que então aconteceram que sempre achei ex traordinárias e que nem sei explicar. Por exemplo, no primeiro dia de aulas, a pr ofessora perguntou a todos “O que é que tu queres ser?” e os rapazes diziam as coisas que se diziam naquela al tura. Em 1949, o que é que se dizia? Queria-se ser carteiro, guarda-r epublicano, carpinteiro, pedreiro. Coisas assim, e pouco mais, e as raparigas, então, quando muito queriam ser costureiras. Os horizontes eram muito curtos para nós, mas eu dei por mim a dizer: “Quero ser professora de grandes”. 77 Ainda hoje, pergunto-me a mim mesma, porque é que disse aquilo. Eu sabia lá o que era ser professora de grandes!? Não sabia! Mas foi o que eu respondi… Quando cheguei a casa, nesse pr imeiro dia, o meu pai perguntou-me o que é que eu tinha aprendido e eu respondi: — Aprendi o, a, e, i, o, u. O A é branco, o E é verde, o I é amarelo, o é castanho e o U é roxo. E ele perguntou outra vez: — O quê?! E ainda hoje eu vejo os sons das vogais assim. Ainda hoje faço o me smo com os sons e com os nomes das pessoas. Para mim, as Elsas são verdes, não há dúvida nenhuma, as Anas e as Marias são brancas e as Marias Josés têm duas cores. Maria é branco e José tem um risco azul por cima. É assim que eu vejo as coi sas, não faço esforço nenhum. O meu pai deve ter ficado preocupado porque, no di a s eguinte, foi à escola e a professora disse-lhe, assim que ele chegou: — Olhe que ela, se calhar, eu não sei em que é que isto vai dar, porque ela disse que queria ser professora dos grandes. E estiveram a conversar com um ar sé rio mas ninguém me disse mais nada. Pediu uma “Carta de Chamada” (…) e fomos os quatro para África Para electrificar o tal moinho, o meu pai tinha pedido um di nheiro emprestado, para ir pagando por letras, que era assim que as coisas se passavam naquele tempo. Ora, nós morávamos num fundão e o meu pai ia buscar o milho para moer, a casa dos fregueses e depois ia levar a farinha já moída, num carroça puxada por uma mula. Como a ladeira do fundão onde estava a moagem e a estrada que ele tinha que tomar era muito íngreme, era preciso ajudar a mula a subir, empurrando a carroça, o que era feito pelo meu pai e pela minha mãe. Um dia de Inverno, ainda escuro, estavam eles a empurrar a carroça e eu e o meu irmão, dois anos mais novo do que eu, estávamos na cama, no quente, até a minha mãe voltar para trás e nos dar o café da manhã com bo roa. Lembro-me que adoçávamos o café com rebuçados, porque havia racionament o de açucar. De repente, come cei a sentir um cheiro estranho, um queimado esquisito, cheirava a me tal, era um cheiro que nunca mais esqueci. Levantei-me para ir ver e dei lo go com os motores a arder. Nessa altura, já hav ia chamas 78 altas e isso, e os meus gritos fizeram com que os meus pais voltassem a correr e deixassem a mula a vir às arrecuas por ali abaixo a ganhar velocidade. Ficámos, como se diz, na miséria, pois além de o moinho estar inutilizado, não havia possibilidades de pagar a dí vida que o meu pai tinha. Ora a minha mãe tinha três irmãos em Angol a, em Luanda, os dois mais v elhos estabelecidos com comércio e o mais novo a trabalhar no caminho-de- ferro. Então, o meu pai escreveu ao cunhado mais velho e pediu- lhe que lhe mandasse uma “Carta de Chamada”, isto é, uma carta a garantir que, quando o meu pai chegasse a Luanda, teria emprego. Sem essa carta, não era permitido emigrar para lá, a não ser que se tivesse dinheiro para montar um negócio . E lá fomos todos juntos, os quatro. Chegámos a Luanda no dia quatorze de Março de 1950. O meu pai e a minha mãe tinham e tivera m até à morte uma relação afectuosa extraordinária. Como eu nem me lembro de ver entre pessoas do seu meio. Uma dedicação mútua extraordinária. Estavam horas, horas a fa lar. Estiveram sempre juntos e tinham sempre motivo para falar. Nunca iam para la do nenhum um sem o outro e, por isso, é que fomos todos juntos para África. Não deixa de ser curioso que essa afectividade que me lembro perfeitamente de notar não se reflectia nos filhos. Não eram pais afectuosos para com os filhos. Mas não notava muito isso nessa altura. Falo por mim, mas o facto é que eu não via, à minha volta, pais que fossem carinhos os com os filhos. Eram bruscos, e a lembrança que tenho é a de que andavam sempre a ralhar connosco. O que os preocupava era a vida. Eram tempos difíc eis. Como costumo dizer, “ não eram maus, eram pobres”. Fiquei sozinha a viver num musseque em Luanda Os meus pais foram trabalhar por conta desse m eu tio mais velho, um solteirão, que tinha uma loja no musseque Marçal, mas tinha um a loja pequena e uma gr ande porção de terras para cultivar com produtos agrícolas e frutos a doze quilómetros de Luanda. Era mesmo assim que se identificava: o km12. Isto por que em frente à loja passava uma linha de comboio que ia até ao Cacuac o e os quilómetros estavam marcados de dois em dois. O meu pai e a minha mãe tomavam conta do negóc io da loja, praticamente só serviam negros, nessa altura, e tratavam das hortaliça s e dos pomares. O meu tio ia lá duas vezes por semana com uma carrinha e enchia-a com pr odutos que depois ia vender no merc ado 79 que, nessa altura, ficava no centro da bai xa, muito perto da baía de Luanda. Lembro-me das muitas mangueiras, mamoeiros e papaieira s, fruta-pinha (aqui chamada anona), sape- sape e abacates. Os cajus er am abundantes mas não se compra vam. Era só apanhá-los. Então os meus pais estavam longe da cidade, onde não havia escola. Naquela altura, em 1950, não havia grandes transportes (a não ser o tal comboio m as não servia para o efeito) e eu fiquei sozinha, com o meu tio na loja, no tal mussequ e Marçal. Também tinha um a pensão com meia dúzia de hóspedes da mesma região que nós. Era só para homens: pedreiros, carpinteiros… Aqueles colonos, como se chamavam, que iam daqui e que normalmente eram lavradores, cavadores et c., mas que passavam o Equador e tinham uma profissão, passavam a ser pedreiro s, carpinteiros… Eles realizavam, automaticamente, os seus sonhos, porque chegavam lá e havia tanta falta de trabalhadores, que eles passavam logo a ter uma profissão. Foi assim q ue fizeram até fortunas, se eram trabalhadores, de spachados, porque em breve passavam a encarregados de obras, depois mont avam o seu próprio negócio e lá iam singrando. Eram quase todos analfabetos e uma das coisas que eu detestava, então, era escrever-lhes e ler-lhes as cartas de e para a família. A par tir da minha segunda classe, era um castigo, excepto aos fins-de-semana em que ía para o km12 passá-l os com os meus pais. Durante três anos, até 1953, eu e o meu irm ão, que entretanto tinha vi ndo também para a escola, vivemos ali, no musseque. Levantávam o-nos de manhã e havia uma lavadeira que tratava as roupas do meu tio e da maior part e dos hóspedes e era ela que nos lavava. Especialmente a mim. Tinha umas mãos gr andes, bonitas, de dedos compridos, com as palmas muito brancas e tin ha um grande empenho em me traz er sempre bem lavada. Ainda agora sou capaz de recordar as mãos dela a passarem pelos meus braços muito magros e escanzelados e a doerem-me os o ssos. Dava-me uns banhos de se lhe tirar o chapéu, escarolava-me toda e fazia questão de verificar como andavam o meu pescoço e as orelhas. Andava então na es cola da Missão de S. Paulo, onde mais tarde vim a casar. Quando fomos para África, o meu pa i esqueceu-se de pedir um ce rtificado em como eu já andava quase no fim da primeira classe e tive que voltar ao princípio. Mas não perdi es se tempo porque no ano segui nte fiz a segunda e a terceira clas ses num só ano. Na escola D. Dinis, então, porque a Missão não aceitava rapaz es e eu ía com o meu irmão. Era longe, na Vila Alice, mas nunca tivemos medo de nada. 80 Como começa a história que me faz chegar aqui… Quando fiz a terceira classe, este meu tio, em vez de aumentar o meu pai que já estava lá a trabalhar há que tempos, a ganhar uma mi séria do cunhado dele, que apenas c hegava para ele mandar para Portugal (a Metrópole, como se dizia) para pagar as dívidas, ofereceu-se para me pagar o co légio. O meu pai reclamou e ac abou por se despedir e ir montar um negócio no musseque mais pobre e problemático de Lua nda — na Sambizanga. A casa em que vivíamos tinha só duas divisões e uma delas era a loja. Depois, o meu pa i fez uns anexos no quintal para termo s uma cozinha e uma retrete. Entretanto, na quarta classe, fui estudar para o Colégio de S. Jo sé de Cluny. Era um colégio caro, de gente rica, muito bem apetrec hado, com muitas freiras e alunas internas, semi-internas e externas. Exis tiam vários prémios, que eram dados período a período, no salão solene, onde todos os dias nos ía mos reunir quando chegávamos até tocar para entrar, e onde se rezava para começar bem o di a. Eu entrei para este colégio porqu e era boa aluna e havia uma espécie de quota para al unos pobres, e o meu tio conseguiu, usando os seus conhecimentos, colocar-me lá e eu não pagar. Era uma aluna acima da média, mas era uma aluna que não se notava , porque aquele colégio era f requentado por muita gente bem. Era a nata social. E apes ar de ser boa aluna nunca recebi senão a medalha de aplicação. As fitas de bom compor tamento e de distinção, que se usavam traçadas como as faixas das misses, eram só para as meninas bem. Um dia, a minha professora, que não era fr eira, que se chamava D. Magda, disse: — Hoje, vocês, quando forem almoçar a ca sa, perguntem quem é que vem fazer a admissão. Quem é que vai fazer a quarta cla sse e quem é que vai continuar a estudar. Quem continuar a estudar, não precisa de fazer a quarta class e, só faz a admissão e depois vai para o liceu. Quem não quiser cont inuar, tem que fazer a quarta classe, porque precisa de ter um diplomazinho, para um dia que queira arranjar um emprego no Estado. Lembro-me perfeitamente de ela me dizer isto. Eu não disse nada a ninguém, em casa. quando veio na minha caderneta. Naquela altura tinha nove anos, ia fazer dez, mas não disse nada a ninguém. E, à tarde, quando chegou a minha vez, quando chegou a minha vez de responder, dei por mim a dizer isto: 81 — Vou continuar a estudar. E a professora que sabia da min ha situação económica, disse: — Tu tens a certeza? — Tenho. Eu disse ao meu pai, e o meu pai disse que eu que era muito inteligente e que ia continuar a estudar. Pronto. Estava feito. Lembro-me que fui fa zer a admissão em Janeiro, porque naquela altura o ano lectivo era diferente cá e lá. Po r causa do clima. Nessa altura, morávamos na Sambizanga, que ficava muito longe do Liceu Na c ional Salvador Correia, onde fui fazer a admissão. Tive que vir um cami nho enorme, quilómetros, a pé, ao lusco-fusco já, sozinha, tive que passar pelo Cemitério do Alto das Cr uzes, vulgarmente conhecido por “cemitério velho”, que tinha grades em vez de muros. Como tinha chovido e estava muito calor, havia fogos-fátuos, mas eu não sabia o que era e fiquei muito assustada. Via luzinhas muito pequenas, com um tom azulado no meio, que vinham da terra e rapidamente se apagavam. Corri, corri, até perdi o meu Bilhet e de Identidade. Fui fazer exame de admissão ao liceu mas não disse nada disso aos meus pais! No dia seguinte, comecei a trabalhar na loja e a tomar conta do meu irmão mais novo que, entretanto, tinha nascido em 1952. Fiz os dez, onze e doze anos e calei-me muito bem caladinha, não disse nada a ninguém, porque eu s abia, de alguma forma sentia, que não estava na altura de pedir para continuar a est udar. Tinha sido essa a intenção, porque eu tinha uma noção claríssima de q ue viv ia num buraco e que só pela instrução conseguiria sair dele. Não sei como o sabia, mas sabia. Nunca tive dúvidas de que iria continuar a estudar. Ao fim de dois anos, comecei a dizer: — Oh pai, tenho que ir estudar, e mais isto e mais aquilo…. — Tens que ir estudar porquê? — Tenho que ir estudar, porque eu não fiz a quar ta classe, não tenho ne nhum diploma, e um dia, se eu quiser arranjar um emprego, eu não o tenho. — Mas, então, tu não andaste, no colégio?! — Ó pai, a professora disse que eu era muito inteligente e q ue eu tinha que estudar. Andei dois anos a convencê-lo. Todos os dia falava nisso. Todos os dias dizia que não tinha diploma. Acho que ele acabou por me deixar ir par a o liceu por puro cansaço. Eu já tinha 82 então treze anos, quando fui para o primeiro ano e ent retanto o ano lectivo j á começava em Outubro, como aqui na Metrópole. … Portanto, estive três anos lectivos fora da escola, dois anos e meio, em termos cronológicos. Fui estudar mas na seguinte condição: — O teu trabalho ninguém o faz. Portanto, se quiseres ir estuda r, vai, mas o teu trabalho ninguém o faz. — O que é que ele queria dizer com isto? Queria dizer que precisava do meu contributo para a economia familiar e, por tanto, se eu queria estudar, tinha que me sair do corpo. É que ele tinha ficado, por tres passe, com a loja e a pensão do meu tio. Já estávamos outra vez em Marçal, que era mais perto da cidade. Mas era uma dívida muit o grande e a loja nunca fechava. Vida de branca de musseque, pé descalço e nada de racismo… Mas li a Eneida aos 12 anos Nós morávamos na loja e como ela nunca fechava, nós fazíamos um roulement entre nós, entre pais e filhos. Por exemplo, eu levantava -me normalmente às 6.30h. Aqui tenho que fazer um parêntesis para explicar porque é que me considero não-racista. Acho que o meu não-racismo depende do facto de eu, desde peque na, com oito anos, ir bus car o pão com um empregado negro. Íamos os dois, igualment e descalços (ele andava s empre descalço, mas eu ia descalça para poupar as sandálias que era para levar para a escola) e trazíamos irmãmente, cada um, cento e cinquenta pãezitos. Hoje, olho para os meus netos nessa idade e pergunto-me como era possível fazer aqu ilo e mais, ter noção de que era trabalho e era preciso fazê-lo. Depois começávamos a servir o café, aos negros, aos naturais, que era na loja, na parte da frente e fazíamos ca fé de manhã. Depois er a preciso servir o almoço. Havia sempre muito que fazer, e eu fu i estudar com essa condição, de continuar sempre a fazer a minha parte do serviço. Acho que chegou a altura de dizer que, se tive uma infância e adolesc ência praticamente inexistentes, não me queixo. Sei que tive ou tras compensações que outras pessoas não tinham ou não tiveram. Por exemplo, o acesso a grandes obras de literatura. Eu adorava ler e como o meu pai tinha a loja, a mercearia , e o papel era extremamente caro, ele não comprava o papel para fazer os embrulhos: ía aos alfarrabistas, comprava livros usados, ao 83 quilo, e eu deliciava-me a ler. Lia com um candeeiro de petróleo, com um cobertor ou uma manta por cima. Quando fui para o liceu, já tinha lido as grandes obras clássicas, o que m e ajudou imenso. E aliás, não só me ajudou, como também era, de algum modo, uma coisa a puxar por mim. Eu tinha uma sensação clara, e c onsigo ver isso como se estivesse fora de mim, de que sabia onde estava, que estava num poço e que só a cultura, só a educaçao é que me permitiriam que eu saísse desse poço. O que acontecia é que, enquanto as raparigui nhas, que tinham andado comigo na escola primária, começaram a namorar, porque era costume, com quatorze e quinze anos, e casavam-se aos dezasseis, eu tinha continuado a ‘chagar’ o meu pai pa ra ir para o liceu. Casavam-se, porque, em África, as raparigas se faziam mulheres mais cedo, diziam os pais… Fechavam-nas muito, porque pensavam que aquele clima era perigoso para as raparigas estarem solteiras e, portanto, era melhor «arrumá-las». Aí, paciência, não senhora, não estava para aí virada… Não quer dizer qu e não tiv esse as minhas paixonetas, mas namorar, compromisso, nada disso, porque o meu compromisso era comigo própria, relativamente ao meu futuro. Assim, até aos meus treze, quatorze anos, li a obra toda de Victor Hugo e não me fez mal nenhum! Charles Dickens, a Bíblia, A Cabana do Pai T omás, O Monte dos Vendavais, Jane Eyre, O Caçador de Veados, Oliver Twist, sei lá quantos livros li par a depois os ver acabar, ingloriamente, a embrulhar massa de tomate , açucar, café. Ainda tenho a Eneida, porque consegui salvá-la da destrui ção, tinha capa dura, guardei-a. Aliás, também tenho um dicionário de inglês-português, que era de um padre, Júlio qualquer coisa, porque eu tenho um amor aos livros, que ganhei nessa altura, que me fazia s entir como uma dor o rasgar aquelas folhas. Foi um tempo muito difícil, porque eu não ti nha tempo para estudar. Andava sempre a correr, e isso ficou a marcar-me para sempre . Não podia estudar, tinha que estar muito atenta nas aulas e f azia os meus trabalhos de casa — havia sempre muitos — de madrugada, quando acordava. Por isso, lembro-me de cair duas vezes, cheguei a desmaiar duas vezes, por puro cansaço, inanição. Uma vez estava com uma valente gripe, mas er a preciso trabalhar! As pessoas não são má s nem boas. Quando são pobres, é preciso trabalhar. Era a vida… 84 Entretanto, fiz o segundo ano, mas dispensei de exame. O pai tinha-se informado e sabia que ao fim do segundo ano se fazia exam e. Mas como eu dispensei, disse: — Ó pai, eu tenho que continuar . Olhe que eu não tenho diploma! (Coitado, eu é que ainda brincava com a ignorância dele.) — Não tens diploma porquê? — Ó pai, eu dispensei do exame. — Mas porquê? — Porque eu sou boa aluna. Dis pensei, não tenho diploma. E ele dizia: — Então, tu vê lá se te arranjas par a fazer exame, porque isto não pode continuar. Nunca mais queria sair do hospital! Nunca tinha sido tão feliz Tive então, a começar em Abril de 1958 , um interregno que me deu um bocado de descanso. Criei uma relação íntima e muito ami gável com hospitais. Isto parece uma tolice. Tudo começou com acidente muito grave, de carro, no dia quinze de Abril de 1958. Fracturei a base do crânio. Aquele tipo de fr actura com que morreu o Joaquim Agostinho. Costuma ser fatal… Além disso, fiz uma frac tura ao longo de todo o parietal esquerdo. Fiquei sem membrana do tímpano esquerdo, por que ela se rompeu com a hemo rragia provocada pelas fracturas. Fiquei no hospital durante muito tempo e aconteceu-me uma coisa que eu vou referir porque foi pública. Fui env iada para a morgue, mas quem me tinha levado para o hospital tinha sido um polícia. E o polí cia, que depois pus no álbum de família, salvou-me. Coitado, na sua ignorância — ele era muito i gnorante, tinha pouca cultura — disse: — Ó Sr. Doutor, vá lá ver que ela não está morta, porque eu trazia-a ao colo (eu era crescida, tinha precisamente quinze anos e me io, mas como entrei logo em coma, ele é que me trazia ao colo) e sempre ouvi dizer que quem morre, estica o pernil. Garanto-lhe que enquanto eu a trouxe, ela não esticou pern il nenhum. Até vomitou ali em frente ao Restauração (era um cinema, muito perto do hospital) e os mortos não vomitam. Como se vê, o homem tinha razão, porque eu es tava viva. É engraçado, como ele, apesar de ele não ter nenhuma cultura erudita, tinha um certo feeling, uma certa sensibilidade. 85 Ora este caso deu que falar, na altura, porque aquilo teve que ser comunicado às autoridades, tornou-se quase um crime público, porque ele er a polícia e comunicou… Embora não tivesse acontecido nada, porque isto entretanto foi amnistiado aquando de uma visita de um Presidente da República lá — acho que foi o Pr esidente Craveiro L opes. De qualquer forma, apaparicaram-me de tal manei ra no hospital que eu nunca mais queria sair de lá. Nunca tinha sido tão bem tratada, nunca tinha sido tão feliz. Estive em coma durante um largo tempo e quando saí do coma tinha o que se chama “amnésia de personalidade”. Isto é, lembra va-me de tudo, excepto da minha própria vida pessoal. Não sabia quem era, não reconhecia os meus pais, não tinha a mais pequena ideia do que se tinha passado comigo, como pessoa, até então. Era uma sensação muito desagradável. Recuperei a memória a um domingo de m anhã cedo, quando ouvi o barulho de uma carrinha e disse à empregada de limpeza: “Aquela é a carrinha do meu pai”. Ela respondeu-me que não era, que er a a carrinha que ía levar o leite ao hospital. Ser á da mesma marca, por isso o motor fazia o me smo barulho. Não me lembrei de tudo, de repente, foi assim um pouco a puxar o que es tava escondido. Talvez o meu eu é que tivesse razão e seria melhor eu não me ter lembrado de tanta coisa. Comecei a sentir-me mal, fisicamente, quando saí do hospital, porque não queria ir para casa. Passei muita coisa lá, mas não queria ir , porque sabia que, depois, ia retomar aquele rame, rame todo do trabalho. Estive seis meses, mais ou menos, de convalescença, até retomar as aulas. Até por causa do hospital e do acidente, aquilo tornou-se, assim, quase um caso nacional. Angola é catorze vezes maior que Portugal, mas houve uma série de cois as que tornou aquilo um facto público. Como tinha sido dada como morta, no dia seguinte houve uma Missa por minha alma, mandada di zer pelos Professores e alu nas do Liceu Nac ional D. Guiomar de Lencastre. Fui entrevistada para os jornais, quando saí, e aquilo deu-me, assim, uma certa nomeada porque eu não tinha morrido. Mesmo não tendo frequentado todo o terceiro período, passei com a mais alta classificação do Liceu e lá fui continuando a ter boas notas e a ser apaparicada por toda a gente do D. Guiomar. Entretanto, em 1960, comecei a ter umas sequelas do acidente. Comecei a ter um ruído enorme e contínuo no ouvido esquerdo. É como se tivesse uma cigarra eterna dentro da cabeça, mas agora só a sinto, só a ouço quando penso nela… Ela está sempre aqui, é iso: 92 — Olha, então… tu sabes onde é o Colégio de S. Jorge de Cluny? — Não sei. Não, não sei! — Depois perguntas… Tu perguntas, e vai -me lá visitar na Terça–feira. E na Terça-feira lá fui. Curiosa mas muito c ontrariada. Primeiro disse para mim mesma: “Seja lá o que for que ela queira, eu cá nã o quero ser mais nada senão uma dona de casa e mãe de família”. Por outro lado, eu, que até então acompanhava o meu marido no seu trabalho de técnico do Instuto de Algodão de Angola, que se di stribuía por uma vasta zona, com a base da Baixa do Cassange, estava convencida de que, quando eu lhe dissesse que as freiras queriam falar comigo, não se most rasse muito entusiasmado. Mas, para meu desapontamento (visto que na segunda-feira era dia de ir par a o mato), ele disse que achava uma boa ideia eu ficar e ir ver o que as freiras queriam, porque até andaria mais descansado, sem ter que pensar na minha segurança. Não achei graça nenhuma, até porque quando ia com ele nunca me lembrava do perigo, ao passo que ficando em Malange, andava sempre ans iosa. Mas, enfim, lá fui ao Colégio. 3.3. O «ataque» do bichinho da docên cia e um marido muito especial Naquela semana, ele foi sozinho e eu fui falar com as freiras, que me pediram para dar explicações a umas meninas internas que lá estavam, meninas muito ‘bem’, já crescidinhas, quase todas da minha idade, pouco mais novas eram do que eu, e que estavam muito aborrecidas, descontentes… Eu disse que ia falar com o meu marido antes de dar uma resposta definitiva. Quando ele veio, no fim-de-semana, contei-lhe a proposta da madre: — Olha, o que as freiras queriam era que eu fosse para lá dar explicações. À espera que ele me dissesse: «N ão vais nada, vais andar co migo.» Mas ele disse-me com um ar muito sereno: — Olha, eu acho que fazes muito bem. Acho uma boa ideia, em vez de andares lá pelo mato comigo, a gente sabe lá o que é que pode acontecer, podias ir. E lá fui, assim um bocadinho… acomodada… mas renitente, lá por dentro. Um tanto desconsolada, para ser franca, mas lá fui. 93 Mas realmente, gostei muito. Gostei mu ito da luta que me deu estar a trabalhar com raparigas rebeldes. Raparigas da melhor sociedade, que esta vam ali de castigo. Eram meninas daquilo que se cham a mesmo a «melhor sociedade» e que estavam ali internas por vontade dos pais, para as castigarem das duas maluquic es de mocidade ocios a. Os pais da maior parte daquelas com quem eu estive, e que eram pouco mais novas do que eu — eu tinha vinte anos — viviam em Luanda. Lembro-me que elas não eram nada fáceis, mas, aí para o terceiro dia, disse-lhes assim: — Olhem, eu não sei porque é que vocês estão a reagir comigo desta maneira. Primeiro porque nós somos quase da mesma idade. Podí amos ser amigas. Vocês já viram que somos quase da mesma idade, eu estou aqui a ganhar a vida , a trabalhar e vocês estão aqui…com tudo. Contei-lhes como a minha infância tinha s ido diferente das delas e começámos a criar uma excelente relação. Tão bo a que as freiras, pouco dadas a larguezas em termos de pagamentos, me pagaram o dobro do que estava previsto. Eu tinha estado a preparar as tais meninas par a fazer o quinto ano e os resultados foram tão bons que as freiras me disseram: — Olha, nós gostaríamos muito que ficasses cá, a trabalhar connosco, mas não temos lugar. Nem temos lugar, nem te mos verba para te pagar como professora. Mas sabes uma coisa? Há aí a Escola Industrial e Comercial, que abre c oncurso no princípio de c ada ano lectivo e tu devias concorrer, porque tens jeito. — Mas só tenho o 7º ano! — (era o sétimo ano antigo.) — Não é preciso ter mais, podes fazer um requer imento ao Director. Tu concorre que tens muito jeito. E eu lá esperei que o meu marido chegasse e c ontei-lhe o que se tinha passado, à espera, na verdade, que ele dissesse: «Não vais nada!». Mas ele disse: — Ó mulher, é uma belíssima ideia! Eu franzi a testa, mas como tinha um senti do do casamento assim muito de dedicação ao marido, de confiar no que ele decidisse, el e dizia que achava bem e eu achava também. Além disso, esta conversa foi para aí em Agos to, já estava grávida do meu primeiro filho, tinha passado bastante mal no princípio da gravi dez e talvez fosse melhor ir dar aulas. O bichinho começava a roer. 94 Portanto, lá fiz o meu requerim ento e fui dar aulas de Língua e História Pátria aos alunos do primeiro e segundo anos da Escola Comercia l e Industrial de Malange. Comecei no dia vinte e dois de Setembro de 1963. Tive umas peripécias que hoje, à distância, me dizem que fiz bem em ir trabalhar na Escola e dar aulas. Sei agora, qu e nasci para ser professora e que hei-de ser professora até morrer. Havia muitas coisas que entretanto li nas obras de teoria didáctica e pedagógica que fiz ou não fiz inst intivamente. Um caso foi: Um dia, um aluno — não sei se até é muito recomendável mas eu gosto muito de contar — um aluno, aí no dia trinta, vinte e nove de Março de 1964, andava eu muito grávida (o meu filho nasceu no dia dez de Abril) pregou-me um a partida um bocado estúpida. Eu nunca me sentava, dava sempre aulas em pé, e sentav a-me para escrever sumário. Antigamente, a gente escrevia o sum ário no princípio da aula, não era no fim. A cade ira era um cadeirão, era uma cátedra, e quando eu me fui para sentar , nem sequer olhei para a c adeira, só me sentava para escrever o sumário, e enfiei-me pela cadeira abaixo! Portanto, em pleno fim do tempo de gravidez, enfiei-me pela cadeir a abaixo, porque um aluno tinha t irado o tampo. Um aluno já dos seus treze anos, que era me stiço, um rapaz muito bonito, com feições muito correctas. Tinha tirado o tampo. Evidentemente que o bebé entrou logo em sofrimento, porque eu fiquei com os pés dobr ados para a cabeça, levaram-me para o hospital e depois aconteceu que o director s oube — c oitado, ainda não era velho, mas até morreu pouco tempo depois. Era uma pessoa muito severa, à moda do que se usava naquele tempo, e quando eu tive alta, ele disse-me: — Olhe, agora, nós temos que fazer uma reuni ão — estive uns três ou quatro dias no hospital em observação — temos que faze r uma reunião para expulsar o aluno. Ora eu tinha tido aqueles três di as, em especial, aquelas três noites, no hospital a pensar, o bebé mexia-se muito, mexia-se muito… E eu dizia assim — naquela altura não havia ecografias e eu dizia assim par a mim mesma: «tenho para aqui um futebolista de prim eira apanha e depois, um dia, daqui a treze anos, es te futebolista, por muito bem que eu o ensine, um dia tem uma tentação do diabo…… e puxa uma c adeira a um professor. E depois o que é que eu quero que façam a este meu filho?» Então, quando o director pôs o problema da expulsão, eu disse: — Olhe, sr. director, sabe uma coisa? Nós vamo s chamar o rapaz, va mos ter uma conversa com ele, mas nada de expulsão. 95 — Ai, não o expulsamos porquê? — Não, ó sr. director, está a ver? Se a ge nte o expulsar, ele nunca mais pode entrar no ensino público. Já viu, ele é mestiço, nunca mais tem probabili dades de ir para a escola! Eu não me sinto bem. E o director, muito diplomaticamente, com grande discernimento, diz-me assim: — Pois é, mas se o seu filho daqui uns di as nascer aleijado, depois a senhora não venha cá para cima de mim. Portanto, faça aqui um a declaração a assumir a responsabilidade. E eu, que tinha vinte e um anos, tive que faz er uma declaração em como me responsabilizava, e o rapazinho, mesmo assim, coitadinho, apanhou um número de dias de suspensão para reprovar, certinhos para reprovar por faltas. De qualquer maneira, tenho que dizer que foi uma situação um boc ado embaraçosa. A seguir, quando a “sentença”, digamos entre aspas, foi publicada, a mãe dele entrou-me pela sala dos professores e beijou-me os pés . É uma situação incrível, de embaraçosa! Porque a senhora disse-me: — Olhe, ninguém fazia aquilo que a senhora me fez. Deus lhe p ague e lhe dê um menino muito lindo e inteligente. Mas eu achei que devia fazer, achei que não era aquele tipo de castig o, que estava muito na moda naquela altura, que ia resolver a situaç ão. Não acredito que ele tivesse feito com má intenção. Foi uma criancice autêntica. Este foi um dos casos. O outro foi um out ro matulão. Morreu o director, e uma das professoras passou a directora interina, e eu fu i substitui-la nas aulas. Então, no primeiro dia de aulas, pr’aí em Fevereiro do ano seguint e, grávida outra vez, eu chego lá… e eles ficaram muito mal encarados, eram assim um bocado mal encarados. Já naquela altura! Repare, pelo menos há 34 anos! Isto é para a gente não passar a vida a dizer mal dos novos agora. E eu, querendo amenizar a coisa, disse: — Vocês são uns felizardos, até têm duas apr esentações num ano, por que eu hoje pouco mais vou fazer do que saber quem vocês são, como é que se chamam, onde é que estão, qual é a lição, tal, tal, tal… E um, que se chamava Albano, que era enorme, engolia-me se ele quisesse, disse assim: — Ó sra. Doutora, olhe que eu — que não era nada doutora, is to também faz parte da história — eu costumo ter at aques epilépticos, e quando eu tenho ataques epilépticos, 96 agarro-me às pessoas. A senhora fique avisada, porque se eu tiver um ataque, sou c apaz de a agarrar, a senhora fuja! Disse-lhe: — Ó Albano, não te aflijas. Olha, ficamos ambos avisados: eu fico avisada que tu te agarras às pessoas e tu ficas avisado que eu não fujo. Na segunda-feira, logo a segu ir, eu estava a querer dar a minha aula desc ansadamente, e o Albano a falar em futebol: «Benfica para a frente, Sporting para trás…» que o Porto, naquela altura, não mandava nada por lá, pelo menos em África… E eu a querer dar a minha aulinha e eles nada. No futebol. E eu disse: — Ó Albano! E diz-me ele assim: — Que é que foi? Fale para mim, quando eu falar para si! Menina, eu atravessei aquela sala, com a barri ga empinada, fui ao pé dele, ele era maior do que eu, dei-lhe um par de estalos. Um par , um de cada lado. Quando acabei de lhe dar o par de estalos, arrependi-me imediatamente. Não por tê-lo feito mas pensei: «eu agora viro costas e este tipo desfaz-me e eu grávida». Mas não, ele ficou com elas e nunca teve nenhum ataque epiléptico na minha aula. Não quero ser professora de aviário Quando, ao fim de um período, vi que gostava, pensei: «Bem is to, é uma coisa que vale a pena, é uma coisa int eressante. Só que eu não quero ser prof essora assim! Eu não quero ser professora com o sétimo ano… Eu não quer o ser professora desta maneira. Isto não pode ser por intuição!” Isto era o que eu pensav a, mas também não via grande saída. Já estavam lá a lançar qualquer coisa da Un iversidade, mas não era em Malange, era em Luanda. E eu lá fiquei dois anos a leccionar naquelas condições. No princípio do ano, eu tinha sempre o cuidado de dizer isto aos alunos: — Olhem, eu não sou Dra., mas atenção, sei o su ficiente que chegue pa ra vós, só que não sou Dr.ª, pronto! — Mas eles di ziam que não dava jeito. — Você s tratem-me por favor, por Senhora D. Maria Caro lina. Não quero cá donas marias carolinas , que eu não sou nenhuma peixeira. Tratem-me por professora . (Dona é uma peixeira, era também uma coisa que se dizia por lá. ) 97 — Ah! Sôtora , não dá jeito nenhum, não dá… — respondiam-me os alunos — Ó professora, ó Sr.ª Dra., isso é muito complicado… E passaram a vida a chamar-me Sra Dra . No segundo ano, assim a meio, foi criado um liceu, (pois onde eu estava era uma escola técnica), e foi enviado para lá como reitor um senhor professor que eu conhecia, até, que era casado com uma minha anti ga professora, e ambos eram licenciados. Ela foi acompanhar o marido e foi colocada naquela escola industrial e comercial d e Malange. Era licenciada, não era “de aviário” co mo eu, não era “de Macau”… (Das coisas de segunda categoria nós dizíam os que eram de Macau. O meu marido tinha um ajudante, o Raimundo, que er a mestiço e dizia: “Eu não sou mestiço, sou branco de Macau!”) Era a Dr.ª Soledade, uma se nhora muito volumosa, mas com aquele coração grande, caloroso, muito próprio das mulheres volumosa s. Causava-me um constrangimento enorme o facto de os alunos, à frent e dela, me tratarem por Sra Dra . Um dia, no fim do segundo ano, já mesmo praticamente no fim, fiquei muito constrangida porque eu e a dra. Soledade estávamos as duas a conversar à entrada da escola e vários alunos foram lá perguntar isto e aqui lo e sempre a tratarem-me por Sra. Dra. Eu disse: — Olhe Sra. Dra., eu digo-lhes sempre que não sou dra., mas eles continuam… e ela disse-me, muito serena, assim como quem diz: «se estás com sede, porque é que não vais beber a água?»: — Olha, eu também não percebo porque é que não vais tirar o curso?! — Tirar o curso? — Sim, tirar o curso, ir para a Universid ade. (Eu julguei que ela estava a fazer uma confusão qualquer, porque naquela altura não havia universidade em Malange.) Fiquei a olhar para ela quando o meu marido veio do mato, mais uma vez, como das outras vezes, disse-lhe: — Tu queres saber? Então, passou-se isto assim, assim, com a Dra. Soledade, e tu queres saber que ela me pergunta porque é que eu não vou tirar o curso? Sabe o que ele me respondeu, muito descansado? — Eu também não sei porque é que tu não vais tirar o curso?! — E onde?! 98 — Em Portugal. Isto aconteceu no fim do ano lectivo e eu estava grávida do segundo, que nasceu em Julho. Entretanto, nasceu-me logo o rapaz, e digo assim: — Então, mas eu vou com dois, vou agora, um nascido outro para nascer? — Diz-me ele assim: — Olha, nós vamos pensar nisso. A mudança para Portugal para tirar o curso Então, sentamo-nos numa mesa, começamos a fazer contas e resolvemos arriscar. Nós ganhávamos mutíssimo bem naquela alt ura. Ganhávamos muito bem, porque o meu marido ganhava aquilo que estava adstrito à função dele e tinha ajudas de custo, porque passava a vida fora, e eu ganhava muito bem , naquela altura. A vida era barata. Eu ganhava, em 1964-65, quatro m il e quinhentos escudos e dav a umas quatro horas extraordinárias por semana. Era muito bom. Eu lembro-me que um kilo de bifes custava vinte e seis escudos. A garoupa custava ainda menos, só para falar assim em peixes caros. Pagávamos duzentos tal escudos de renda de um andar, tinha cozinhe iro, empregada, criada para os meninos… empregada não, lav adeira e criada para os meninos. Era a Marta, coitadinha, que tinha para aí onze anos. Eu hoje… a gora que o t empo passou… penso: “Como é que nós vivíamos assim? Po rque não soubemos dar outro futuro àquela gente?”. A Marta… Uma vez… Eu morava ao lado da escola, um dia eu ouvi-a a gritar desesperadamente. Pens ei que tinha acontecido alguma co is a aos meus filhos. Saí da escola, atravessei e era o cozinheiro Manuel que lhe estava a dar uma grande tareia, porque ela tinha dado vinho ao meu filho, que tinha quatro meses, para o adormecer. O que acontece é que o meu filho tem agora tr inta e seis anos, semp re foi um al uno brilhante é um belíssimo profissional; portanto, aquele vinho aos quatro meses também não lhe fez mal nenhum! Coitada, ela tinha onze anos. Uma vez, comprei uma caixa de bolachas que apareceu lá, porque não havia bolachas baunilha e guardei-as. E, de vez em quando, tirava uma, porque tinha desejos. Andava sempre grávida… Por acaso, tinha sempre cuidado de lhe dar uma também. Um dia, cheguei lá para tirar bolachas e não tinha. Perguntei: 99 — Mas então, onde é que estão as bolachas? — Perguntei ao m eu marido, ao cozinheiro e a Marta disse: — Minha senhora, fui eu. Eu tirei uma, tirei um a, tirei uma, tirei um a e quando eu dei c onta já não tinha nenhuma. Não fiquei zangada, até nos rimos do «tirei um a, tirei uma». Tenho fotografias dela, era uma criança… Era uma vítima do sistema, como eu tinha sido. Já não fiz o requerimento para dar aulas no ano seguinte. E viemos, pegámos naquilo que tínhamos. Estávamos a ganhar muitíssimo bem, foi um desafio. Viemos para Portugal, para casa dos meus sogros, na aldeia. Não houve problema nenhum, a minha sogra era uma mulher excepcional. Mulher da aldeia, criada na aldeia, não sabia le r, embora, não se justifique, porque o meu avô, por afinidade, o avô do meu marido, era uma pessoa de posses. Além disso, era enfermeiro do Seminário de Coim bra, não era um anal fabeto qualquer. Podi a, portanto, ter feito com que a filha estudasse. Mas era uma mulher com um coração, co m uma inteligência, com uma vivência extraordinárias. Uma pessoa que morreu com oitenta e nov e anos, e eu nunca pensei que ela fosse morrer. Porque havia tanta coisa que a g ente queria fazer! Tanta coisa que a gente gostava de falar as duas e… foi um choque! Hoje ainda penso, às vezes, q ue, se Deus me dissesse assim: “Olha lá, quanto é que tu dás para eu te dar a tua sogra um dia, um dia?” Dava algum tempo da minha vida para estar com ela um dia que fosse e dizer-lhe, mostrar-lhe como ela foi importante para mim. É uma pessoa com quem eu converso muito, que me acalma muito. Gosto imenso de ir ao cemitério, sentar-me, com grande escândalo, agora já se habituaram, porque ela es tá num jazigo térreo, sem ser de capela. Sento-me em cima da pedra, e fico ali a conversar com ela, um as vezes com palavras, se não estiver ninguém, outras vezes sem palavras, se estiver gente. Atendendo até às condições de vida com os m eus pais, que não eram pessoas afectuosas com os filhos, nunca foram, a minha sogra deu -me muito calor em termos afectivos. Foi com ela que eu encontrei afecto e não com a minha mãe. Quando estou muito zangada com a minha mãe, às vezes digo-lhe — e isto é um drama para as duas, e depois também me arrependo — mas já lhe disse isso pelo m enos duas vezes: “Eu trocava duas mã es por 100 uma sogra. Trocava duas mães como aquela que tenho por uma sogra s ó, por a minha sogra.” Mas a vida não foi um mar de rosas Viemos para Portugal e então foram uns anos de extrema dureza, apesar das boas relações com os meus sogros. Foram anos mu ito duros. Bastantes. Porquê? Primeiro, foi uma adaptação. Foi uma adapt ação que não era fácil… Um a adaptação, não a Portugal, mas a um estilo de vida… Eu digo isto, mas… eu nunca fui «retornada», porque eu vim em 1966, (chegámos a Lisboa no dia seis de Fevereir o de 1966), viemos, por tanto, muito antes do processo de descolonização, mas vivemo s essa adaptação, a nível muito pessoal e personalizado, pelo menos eu, pelo seguint e: de facto, eu tinha tido uma vida muito difícil, muito trabalhosa, muito dura, até me casar; mas depois, … Eu também costumo dizer “quem não sabe subir, não merece subir”… Eu tinha estado a viver num estatuto e com uma condição óptima: tinha um cozinheiro, uma criada para os meninos, que era a Marta, uma lavadeira e um criado de mesa! E quando c heguei a Portugal, não tinha ninguém! E fui viver, naquela altura, para uma casa de prov íncia que não tinha luz, não tinha água, não tinha nada! Pronto, era uma aldeia. Não ti nha nada. Muito menos condições do que tinha em África. Muito menos. E depoi s, a pobreza gera sempre alguma forma de maldade… Por exemplo, naquela altura em que eu cheguei, era em pleno Inve rno, tinha os filhos muito pequeninos. Um tinha cinco meses, outro tinha dezoito, e eu não tinha condições para lavar roupa nem nada. Para arranjar uma pessoa que me lavasse a roupa era um castigo, e levavam-me tanto quanto levavam para andar no arroz, que era o tr abalho agrícola mais caro, porque era um trabalho difícil, extremament e doentio, muito frio, sempre com os pé s molhados até cá acima, e era se eu queria. Era uma terra que agora está muito melhor, porque aí está, porque já não são tão pobres… Ou tro exemplo: vendiam-me o leite muito caro, pr’aí o dobro do que lhes davam no posto de recepção e tinham que o ir lá levar à cabeça (ao posto receptor do leite) — o dobro ou o triplo, porq ue achavam que era um abuso eu e o meu marido bebermos leite. Lá para os cachopos, como eles diziam, ainda «era com’ó outro», agora nós bebermos leite, aquilo fazia-l hes uma certa confusão. Portanto, era assim um meio muito fraco. 101 E estivemos durante seis meses com muita des pesa, porque nós viem os sem emprego, em Janeiro de 1966, como já disse, e o meu ma rido só arranjou emprego no dia quinze de Junho desse ano. Foi muito difícil. Quer dize r, as nossas poupanças, que eram de há muito pouco tempo (não chegava ainda a três anos des de o casamento, e trouxemos carr o e tudo…) começaram a esvair-se. • Somos um casal de parvos Nós viemos para a tal terra, Anobra, mas como trazíamos muita tralha, voltámos a Lisboa, e fui à Fundação Calouste Gulbenkian pedir uma bolsa. Eles deram-me uma bolsa! Uma bolsa muito boa! Nós é que fomos parvos. Não foram eles, fomos nós. Porque depois, entretanto, também concorremos a umas casas que se chamavam antigamente de «renda resolúvel» — a gente pagava uma renda durante vinte anos e a casa era nossa, umas casas do estado — uma vivenda ali na Zona do Calhabé em Coimbra, óptima, e pronto, nós íamos morar para a vivenda e com a tal bolsa — uma bolsa muito jeitosa da Gulbenkian — e o meu marido foi colocado no Porto. E a casa e a universidade eram em Coimbra. E nós achámos que era indecente. Era indec ente, porque depois el e só iria lá de vez em quando. O meu marido não vi nha para aqui para o Porto sozinho naquela altura, as coisas não davam, ele vinha ganhar muito pouco. Não dava para ter duas casas e então resolvemos, muito honestamente, comunicar à Gu lbenkian, que eu ia ser aluna voluntária, e pedir se, ao menos me davam uma parte. Mas eles não davam bolsas para alunos voluntários, a bolsa foi-se logo ao ar, e co mo achávamos que havia muita gente sem casa, também não tomamos posse da casa! A Faculdade em Coimbra, como voluntária não foi ‘pêra doce’: casada no Porto, mãe de dois filhos e a dar aulas em S. J. da Madeira Tinha dois pequenos. Os meus sogros não viviam com muitas liberalidades e, portanto, o que aconteceu, é que não fomos nós que nos inserimos na família deles, fomos nós que achávamos que os devíamos inserir nas no ssas despesas, nessas coisas todas de despesas com médicos, medicamentos, et c., embora os meus cunhados também ajudassem. Foi muito difícil. 108 elegante. E ela estava a falar com o se nhor Alves, enquanto eu esperava que aquela conversa acabasse. Entretanto, ele viu-me e disse: — Então, minha senhora, co mo está? E os meninos, como estão? Estão bem? E ela virou-se para mim, (era lisboeta falava âssim ) e pergunta-me: — Tu és casada? — Sou. — E tens filhos? — Tenho. E ela virou-se para a outra e disse assim: — Tu estás a ver? A gente esmifra-se para a rranjar um homem e não encontra, esta fulana, não tem nada que a recomende, é casada e tem filhos! Ao que eu retorqui: — Pois é, minha filha, mas olha, se eu fumasse boquilha e usasse mini- saia, se calhar ainda era solteira. — Isto era uma ideia a ssim um bocado retrógrada, mas tinha que lhe dizer alguma coisa naquela altura… • O sr. Machado da Livraria Almedina Outra ajuda muito importante que tive foi lo go no prim eiro ano. Tão importante que nem se i se teria chegado ao fim sem ela. Sempre que tenho uma oportunidade, gosto de contar este «incidente». Um dia eu estava a namorar uns livros na Livr aria Almedina e por acaso não sabia que o sr. Joaquim Machado, que era o dono da Almedina, esta va lá por dentro a verificar se alguém rapinava alguma coisa. Eu estava a namorar a Paideia . Custava imenso, eram muito cara, nem pensar em comprá-la. Mas o professor tinha-a referido e eu não podia andar pela Faculdade a fazer as consultas e estava ali a namorar a Paideia . Ele deve ter ficado desconfiado lá de dentro, por eu olhava para a Paid eia , peguei na Paidei a e voltei a pô-la no sítio. Era em espanhol, uma versão esp anhola. E depois, vim-me embora e ele veio atrás de mim e disse assim: — Olhe, venha cá, venha cá. Diga-me um a coisa: porque é que não leva o livro? — Não levo o livro porque é muito caro. — Mas precisa dele? 109 — Eu preciso daquele e de uns poucos. — Então porque não leva? — Olhe, não levo porque não posso. Não po sso, sabe porquê? Olhe, não moro cá, moro no Porto, sou voluntária, não tenho disponibilidade. O que eu tenho q ue fazer é procurar isto lá na Biblioteca do Porto. — Não. Nós vamos fazer aqui um contrato: você leva este livro, leva outros que queira e paga quando quiser. Aceitei, quase me apeteceu abraçar-me a el e e, depois, andei dur ante quatro anos a comprar os meus livros e ia pagando às pingui nhas. Era a aluna que, praticamente, tinha mais livros. Comprava, ia pagando. E depois, quando acabei o curso, quando acabei o bacharelat o, comecei a trabalhar e fui lá pagar e agradecer-lhe. Paguei tudo. Mesmo assim eu também não estava assim tão abonada, mas disse-lhe: — Sr. Machado, agora, a próxima coisa que eu vou comprar, mas quero comprar a pronto pagamento, é o Pantagruel . Vivia naquela altura em S. João da Madeira, o Colégio Castilho era em S. João da Madeira, arranjei lá casa, e, então, na Terça-feira seguinte, (a conversa tinha sido pr’aí uma Sexta- feira), eu recebi o Pantagruel oferecido por ele, com dedicação e tudo! O Pantagruel sempre foi um livro caro. E ele ofereceu-mo. Pronto, estas pessoas e o meu cunhado padre, evidentemente, que tinha sempre ali a casa à disposição e, coitado, vinha-me trazer muitas vezes ao Porto. No seu Fiat 600 , br anco, sem rádio, quanta s histórias contámos aos meus filhos ao longo da Estrada Nacional nº 1. Quantos jogos e quantas canções cantávamos para o caminho não custar tanto a passar! • Matilde Rosa Araújo e a aula sobre Sebastião da Gama Entre 1970 e 1972-3 estive a dar aulas em S. João da Madeira e o meu marido, que, entretanto, era técnico na Câmara Municipal do Porto, ia e vinha todos os dias. Era um bocado cansativo, pelo que res olvi concorrer ao ensino oficial e fui coloc ada na Escola Preparatória Soares dos Reis em Gaia. Foi nesse ano que fiz as Pedagógicas e que engravidei da milha filha, Joana, que viria a nascer em Julho de 1973. Em 72, em Outubro, vinha eu de Coimbra de fazer a última cadeira para terminar o bacharelato e, quando 110 cheguei a casa, em Mafamude, Ga ia, para onde tinha vindo depois de S. João da Madeira, toquei a campaínha e gritei de cá de baixo , do fundo das escadas, para o meu marido: — Acabei! (Dessa vez, excepcionalmente, ti nha ido de comboio, sozinha, porque os dois rapazes, o Carlos Manuel e o Rui Manuel, já andavam na escola.) E o meu marido lá de cima respondeu-me: — Acabaste? Pois agora começo eu! E começou! Fez exame ad hoc à Universidade do Porto, lic enciou-se em Geografia, fez o estágio logo de seguida e, ao fim de um ano de aulas, foi logo nomeado orientador de estágio, funções que exerceu nas escolas O liveira Martins, Raínha Sant a e Aurélia de Sousa. Entretanto, efectivou na mesma escola que eu, a Oliveira Martins e quando de lá quis sair, saímos os dois. Gostávamos de trabalhar na mesma escola, embora sejamos muito diferentes. Ele é mais calmo, mais se reno, mais calado. No entanto, os alunos adoram-no, ou antes, adoravam - no, porque, entretanto, se reformou. Chegámos a t er turmas comuns e eu quase tinha ciúmes por que, gostando sempre dos alunos e gostando que eles gostassem de mim, parecia-me (e era certo) que eles ainda gostavam mais dele. Concorri então ao estágio como bacharel, fiz o estágio no ens ino técnico. Comecei em Outubro de 1973, na que era então a Escola Co mercial Oliveir a Martins. O 25 de Abril aconteceu já quase no fim do meu estágio. O exame de estágio estava marcado para o dia um de Maio. Já não fiz. Tive muito boa nota, tive boa nota, mesmo para a época. Eu tive dezasseis a Português e quinze a Inglês, por que eu fiz estágio em Inglês e Português. Na altura, para cada disciplina em estágio havia o metodólogo, uma assistente de metodologia e ainda havia a met odóloga itinerante. A metodól oga itinerante andava pelo país a assistir a algumas aulas e a ver as class ificações que eram propostas pelos metodólogos locais, para depois acertar a nota no final. No meu ano, a metodóloga itinerante de Português era Mat ilde Rosa Araújo, já muito idosa naquela altura. A not a dezasseis a Português foi-me dada por ela e considero esta minha nota sobrevalorizada. Foi absolutamente por acaso. Talvez porque eu era um bocadinho mais ex trover trida do que as minhas colegas, normalmente pediam-me para ser eu a atender, para «aturar» o visitante. Foi o que aconteceu quando veio a Sra. Dra. Matilde Rosa Araújo, a metodóloga itinerante nesse ano, que vinha para supervisionar as notas, as classificações, e acontece que ninguém 111 queria que ela fosse assistir às aulas, porq ue estávamos numa fase de trabalho de grupo. Quando me pediram, eu também disse: — Mas não me dá jeito nenhum, porque o que eu est ou a fazer, o que eu vou fazer nessa altura com os alunos, é um trabalho sobr e o Sebas tião da Gama. Já tenho os grupos organizados. Um vai tratar o poeta da Serra da Arrábida, outro o poet a do amor conjugal… isto e aquilo. A metodóloga viu o que eu já tinha preparado, um roteiro de trabalho par a cada grupo, e disse: — Até é bom, deixe lá. Pronto, já estávamos em cima do acontecimento… lá aceitei. A minha turma, como todas então na Escola, er a só com rapazes, porque era uma escola masculina. Os alunos estava divididos em grupos: um grupo tratava de Sebastião da Gama, o poeta da Arrábida, outro grupo, o Sebastião da Gama professor, outro, o Sebastião da Gama poeta do amor conjugal. Havia ainda mais um ou dois grupos que tratavam outras facetas de que agora me não reco rdo. Achei importante tratar o aspecto do poeta do amor conjugal, porq ue costumava dizer (e disse-o também à frente da metodóloga): — Os poetas casam-se e acabou. Nunca mais escrevem poemas de amor às mulheres. Têm que arranjar outras musas. Este é o único que eu conheço que, depois de casar, ainda continuou a escrever poemas de amor. Também, coitado, morreu tão cedo, que não teve tempo de se cansar. E, na vida, acontecem daquelas coisas. Eu costumo dizer, também, que tenho muitas graças a dar não sei a quem… Po rque tínhamos por lá umas Flamas antigas (eram umas revistas, ainda as tenho) e senti-me conduzida a folheá-las. É este o termo: conduzida. Ainda sem saber quem era a me todóloga itinerante, pus-me a desfolhá-las, e o que é que eu encontro numa? A reportagem, em página inte ira, do funeral do Sebastião da Gama, e quem é que estava lá em pé, ao pé da urna? A Matilde Rosa Araújo. Então, eu olhei para aquilo e pensei: «espera lá, q ue isto aqui já fica e vou levar para os miúdos ver em a notícia». Então, aconteceu um milagre. A vida das pessoas é feita de coisas fantásticas. Eu reflict o muito, tenho muitas insónias, reflicto muit o nestas coisas, mesmo com o tempo passado. 112 Eram só rapazes, antigo terceiro ano, que a gora é nono, portanto, aqueles rapazes que vão para uma Escola Comercial. Não eram a ‘nata’, de maneir a nenhuma, e estavam a trabalhar. E logo no princípio da aula, onde estavam os alunos, a metodóloga, a assistente, as outras três estagiárias e a metodóloga iti nerante, um aluno fez um a pergunta de í ndole pessoal sobre Sebastião da Gama e eu enchi-me de inspiração… Aliás, a minha vida é feita de inspirações. Sinceramente, lament o muito, mas não me recordo da inesperada pergunta e a que eu não tinha meios de res ponder, e dei por mim a responder: — Ó filho, olha, eu não sei, mas nós vamos per guntar à Senhora Dra. Matilde Rosa Araújo, porque eu sei que ela o conheceu e pode ser que ela possa responder. Porque, na tal reportagem, eu tinha lido que a Senhora tinh a sido uma profunda amiga do poeta e professor Sebastião da Gama. A Dra. Matilde Rosa Araúj o respondeu, eles começaram-lhe a fazer perguntas, e daí a bocado ela estava sentada em cima da mesa do professor, de perna traçada, a falar, a dizer coisas sobre o Sebastião da Gama. A fala r da mulher dele, a contar o casamento. Ela conhecia-o e tinha tido uma paixão por ele. Ma s isso eu só soube mais tarde! Ela era a madrinha de casamento dele, e contou ali como foram os dois atravessando a Arrábida, a pé, para a igreja. Contou que, a ele, se lhe de sapertou um atacador do sapato, e que ela se sentou com ele sobre uma pedra, e que, quando el e estava a apertar o sapato, lhe disse: — Sabes, Tila, eu estou muito doente, eu se i que não duro muito, mas eu devo isto à Joana… (querendo dizer com isso que lhe devia esse bocado de vida que ainda poderia viver com ela). Os alunos, apesar da idade, apesar de tudo, esta vam muito comovidos. Gerou-se ali um ambiente muito sensível, e vi muitos daqueles rapazes com lágrimas nos olhos e o utros a sufocar com os soluços. Foi muito comovente. E eu que sou uma chorona, o que valeu é que não funguei. Realmente estive muito discreta, com as lágrimas a correr e bastante tempo, porque foi muito bonito. Ela falou com uma humanidade, com uma amizade… E então no fim, criou-se uma magia. Nisto tocou e um aluno diz assim: — Sra. Dra., posso ainda fazer uma pergunta? — E eu até disse com os meus botões: «eu mato-te se tu agora estragas este encanto». Mas o mocinho, com um ar muito ansioso, pergunta à Dra. Matilde Rosa Araújo: 113 — Sra. Dra., e essa senhora, depois de ter c onhecido um homem assim, voltou a casar? — Não, meu filho, esta senhora é uma freira laica: uma senhor a que faz visitas, toma conta de pessoas, visita pobres e doentes. É assim uma freira laica, sabes o que é? — Quando ela disse aquilo, eles todos der am um suspiro profundo, como se lhes tivessem tirado um peso de cima. Como se se considerassem todos traídos se ela se tivesse casado outra vez… E, já no momento de avalia ção da aula, comentou: — Ai, que bela aula deu! Eu não tinha dado aula nenhuma! Eu tinha prepar ado os materiais e essas coisas, mas eu mesma disse e continuo a dizer: — Isto é uma nota injusta. • Tenho cadeiras que davam para fazer um banquete Acabei por fazer os dois anos da licenciatura aqui no Porto. Costumo dizer que tenho cadeiras que davam para fazer um banquete. Como já tinha fe ito praticamente tudo em Coimbra, do quarto ano só me faltava o Semi nário e do quinto faltava-me uma disciplina. Mas depois, quando começou o quarto ano de Filo logia Germânica na Faculdade de Letras aqui da Universidade do Porto, tive que faze r o quarto e quinto anos inteiros. Não se perdeu nada. Gostei imenso de vo ltar a estudar. Fiz sempre na mesma como voluntária. Julgo que só fui assistir a uma aula ou duas . Lembro-me que fui fazer um exame a casa de uma professora. O exame estava marcado e era só eu, e ela estava doente. E ela perguntou-me se eu me importava e eu fui lá fazer o exame, numa casa a caminho da Maia. Gostei muito. Por exemplo, conheci uma pe ssoa que foi meu professor, na altura, e que é praticamente da minha idade, com quem ainda hoje mantenho uma relação de profunda amizade, até é meu co-autor, que é o professor David Davis. É Inglês. Coitado, vinha da Turquia, tinha casado com uma portuguesa , tinha acabado de cair aqui em Portugal, e estava a dar Linguística Inglesa Aplicada ao ens ino do Inglês. Pronto, foi aquilo que ele s lhe deram para ele dar. O facto de eu ser mais velha do que os outros — eu já era efectiva naquela altura — de saber algumas dificul dades que se punham ao professor a ensinar Inglês, acabou por criar uma relação que a gente foi mantendo sempre. Por exemplo, tenho 114 feito, até mais por solicit ação do que por vontade própria, manuais escolares de Inglês e vou sempre ter com ele, porque formamos um a belíssima equipa. Trabalhamos muito bem: temos ritmos muito diferentes, mas completa mo-nos. Eu sou um bocado mais inventiva, mas ele é muito criativo, a pegar naquilo que faço, e depois te m um sentido de humor muito grande, que acho que é essencia l para se ser professor. Go sto imenso de trabalhar com ele. Gostei muito também de algumas profe ssoras. Ainda há tempos faleceu uma, que era ainda mais nova do que eu, até fiquei c om uma pena, que era a Margarida Losa, filha da escritora Ilse Losa. Eu já conhecia a mãe, tinha trabalhado com ela. 3.4. A gestão deu cabo da minha fé nas pessoas Sou é professora. Se quisesse ser outra co isa, era. Tive vários convites… Sempre gostei de me envolver um bocado naquilo em que eu es tou metida. No entanto, a seguir ao 25 de Abril, havia muito barulho, muita manifestação. Mas manifestações, isso não é comigo. Não consigo meter-me numa multi dão. Não consigo! Numa multidão, fico isolada, e até me dá vont ade de chorar. As multidões comovem-me, assim como os espaços muito abertos. Comovem-me, impre ssionam-me e eu até me emociono e digo assim: «eu não sou de confiança que me emoci ono com estas coisas», e até faço uma certa filosofia sozinha sobre isso. Mas gost ava de participar e, por exemplo, uma das coisas que eu assumi, numa altura que er a muito difícil, na es cola, foi fazer parte da Comissão de Gestão. Tinha acabado de sair do estágio! Fazer parte parte da Comissão de Gestão foi uma experiência terrí vel. Naquele ano e no seguinte, em que estive na Escola do Magistério Primário, também me envolvi na gestão. Foram anos difíceis, para quem não queria pactuar com injustiças, demagogias e co vardias. O 25 de Abril foi há vinte e seis anos e eu há dezanove que estou ligada aos Cons elhos Directivos. Este é o primeiro ano em que sou só assessora, mas tenho estado se mpre na gestão. Lá saio um ano ou dois, quando mudo de escola, mas depois, lá caio outra vez. É o que vai acontecer agora, po is vou fazer parte de uma lista que vai conc orrer à eleição do Conselho Executivo para a Escola em que já estou desde 1999, a Es cola Secundária 115 Filipa de Vilhena. Apesar de te r estado (e ninguém me pôs ne nhuma fava ao peito), todos estes anos em órgãos de gestão, a verdade é que do que eu gosto, e muito, é de estar com alunos. Gosto muito de trabalhar com adultos, gos to muito de trabalhar co m alunos de dia. Gosto essencialmente de dar aulas, de part ilhar, de ensinar. Acho que é uma daquelas actividades que uma pessoa faz, que tem qual quer coisa de divino. E então quando nós temos um aluno muito mau, por exemplo, e a gente consegue ab rir uma porta para entrar um bocadinho de luz, um raio de luz, é fantástico, é comovente. Por outro lado, também nunca tive grandes problemas. Dei dois pares de estalos na minha vida. Nem sei se estou ou não arrependida de os ter dado, mas dei. E se, no episódio do Albano, o meu arrependimento te ve por base uma possível tareia que ele me podia dar, já o segundo caso foi diferente. Foi na Escola Oliveira Martins, no ano de est ágio, numa aula as sistida, com um aluno que estava a gozar com os meus esforços para fazer o que então se chamava «a motivação da aula». Falei-lhe alto e quando ele me disse: — O que é que foi? Olhe que eu não sou da sua confiança! Não pensei nas consequênc ias e dei-lhe dois tabefes. Levou também. Levou e aí a minha reacção foi assim: “bolas, já reprovei”. Mas não. Nem ninguém referiu aquilo, senão uns anos mais tarde. Também é curioso recordar que os professores, na primeira vez que concorriam, não podiam concorrer para nenhuma escola situada a me nos de trinta quilómetros de casa. Isto em 1975-76. Por isso, embora houvesse vagas a dar com um pau perto de casa, concorri para S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vila Nova de Fa m alicão. Por isso, a primeira vez que efectivei fiquei em Famalicão. Mas acabei por ir lá só receber! Ia lá no dia vinte e cinco de cada mês, ou no dia vinte e seis , se calhava ao domingo — recebia-se o vencimento na escola! Ia com outra colega, que também tinha sido des tacada. Mas não, não fui para lá dar aulas, porque, entretanto, uma amiga minha, a Graça Branco, de Br aga, foi nomeada Directora da Escola do Magistério Primário do Porto, que era um lugar eminentemente político. Ela era simpatizante do MDP/CDE, uma pessoa honestíssima, muito discreta. E convidou-me para ser subdirectora. A mim e a outra colega chamada Alice. Tanto o ano de 1974-75, na Oliveira Martins, como 1975-76, no Magistério , foram dois anos dificílimos! Porque ali é que 116 era política mesmo! Era horrível. Ganhei umas úlceras, meu Deus! Ponha difícil nisso. Sabe a obra de Português que nós dávamos aos futuros professores primários? Os Capitães da Areia , foi o que foi decidido que se dava. Claro eu procurava desmontar o sistema, tanto quanto possível, mas era pesado. Só tinha uma turma, porque eu era subdirectora, só tinha mesmo duas ou três aulas por semana. Em 1976-77 fiquei efectiva na escola que, ne ssa altura, se chamava de Artes Decorativas Soares dos Reis. Cheguei lá, só estive a fo lgar um ano. Fui nome ada para o Conselho Directivo. Cansei-me, estive três anos no Cons elho Directivo e tratei de mudar de escola. Foi quando concorri para a Oliveira Martins, que ficava situada a cin quenta metros de minha casa. Julguei que me tinha livrado… Não é que ser membro de um órgão de ges tão não tenha coisas boas. Mas, em mim, teve um efeito muito negativo: a gestão deu cabo da minha fé nas pes soas. Eu gostava de mim como eu era, porque eu confiava muito nas pe ssoas. Agora não confio, e mais, perco a paciência com muita facilidade. Sei que não é tanto da idade, por que eu não per co a paciência com os alunos. Perco a paciência co m a falta de brio profissional de muitos professores, perco a paciência com a falta de pac iência de muitos professores, perco a paciência por eles não se lem brarem que já foram também jovens, adolescentes… Com aqueles que vêem tudo pelo lado negativo, que é tudo mau. Aqueles professores que me dizem assim: “quando é que começam as férias ?”, ponho-os logo numa prateleira. Gosto de pessoas activas, que tenham iniciativas, que se envolvam, que tenham orgulho na sua escola. Por isso, andei sempre metida em muita coisa. Até já ensinei culinária a alunos, numas férias grandes, na cantina da Escola! Quando voltei para a Oliveira Martins, estive oito meses para aí, um ano lectivo, sem estar no Conselho Directivo. E fiquei por lá onze anos. Depois saí. Já não aguentava. Estava a ficar antipática. Foi quando concorri para a Esco la Secundária Filipa de Vilhena, juntamente com o meu marido. Quando chegue i à Filipa, pense i que ia ter uma folga sem cargo nenhum. Não tive nada! Tive logo um cargo: perguntaram-me se eu não queria assumir um curso em regime pós-laboral, que funcionava no sistema modelar. Era como o das escolas profissionais. E eu fiquei com a responsabilidade desse curso três anos. Quando acabou, fui para o Conselho Executivo três anos. A segui r, fiquei mais um ano como assessora do Conselho Executivo, e agora estou outra vez, julgo q ue os me us três últimos anos. É que 117 eu já tenho idade e tempo para me reformar . Para o ano vou pedir a contagem do meu tempo de serviço, parece-me que no fim dos três anos terei talvez uns meses de horário zero e que me reformo. As mulheres e a gestão das escolas Na gestão, um dos pelouros mais difíceis e tenho-o tido muitas vezes, é o do pessoal auxiliar de acção educativa. Porque o pe ssoal não tem formação e ganha muito pouco. Como ganha pouco e não tem fo rmação, são ali logo dois handicaps com que nós temos que lidar. Normalmente, nota-se uma grande subalternizarão das mulheres. Os homens não querem fazer a limpeza, apesar de ela cons tar das funções que lhes são atribuídas… Mas Conselho Executivo onde eu esteja, ganham t odos por igual, todos fazem igual. Se houver trabalho de limpeza para fazer, faz-se. A primeira vez que disse a um funcionário para limpar os vidros, que estavam imundos e alto s, ele retorquiu enfastiado: “Ah, sra dra, eu vou limpar os vidros?!”, “Vai, sim senhor.”, “Mas eu nunca limpei!”, “Pois, olhe, agora é uma boa altura de começar, Sr. Miguel.” Pront o. E procuro que a distribuição das tarefas seja equitativa, o que também é muito difícil, porque os chefes de pess oal têm muito poder. Então, o que é que eles fazem? Fazem chant agem emocional, eles ameaçam as pessoas, e se uma pessoa não andar em cima, (e eu não tenho nenhuma pretensão de que sei tudo o que se passa), há pessoas que são mais sa crificadas do que outras. E dentro das mais sacrificadas, lá estão as mulheres. Portant o, o que é que eu faço? No princípio dos anos, faço uma distribuição de tarefas: quantas sa las há para limpar, quantas esc adas, quantos pátios, quantos bufetes, quant os corredores, quantos ginásio s, quanta cantina, quanto telefone, tatatata… e faz-se uma distribuição, o mais equitativa possí vel. Eles faltam imenso. Quando há faltas, temos que gerir aquela divisão… Mas de facto, é um problema porque elas até são, na minha opinião, até são ofendidas, por exemplo, oralmente, pelo vocabulário que é usado por el es, e que abusam. E as desculpas deste género: “Ó sr. Euclides, olhe que a D. Teresa está muito sobrecarregada, é uma pessoa frágil e está muito sobrecarregada.” “Sra Dra., muito bem es tá ela! Havia de ver o ano passado. Está a ver o ano passado era injusto.” “Mas o facto de ela estar melhor do que o ano passado, não quer dizer que esteja bem! Não está. Não está bem e eu não quero isto. E olhe, faz favor, tire-me uma sala a esta senhora, dê a outro , tire mais aquela e dê aquele, porque aqueles 124 Eles a falarem mesmo à moda do Brasil, co m aqueles nomes, e depois aquelas situações dúbias, a mulher, o marido e o outro. O marido ia para a Índia… a esposa ficava cá… Repare, isto foi em 1998, e é por isso que eu digo: “alguém deu esta frase para a publicidade”, porque dizia ele a ssim: “Olhe, meu bem, vou- lhe dar uma novidade.” E o marido dizia: “Novidade? Novidade, só no outro continente.” Ai nda não havia o slogan «Novidade só no Continente». E depois, ela dizia: “Não, mas eu vou-te dar uma novidade: estou grávida.” E ele dizia assim: “Mas isso não é novidade.” E o amante, por trás: “É, é.” Quando um dizia assim: “seu Tibúrcio, meu sogro, olhe pela minha mulher, enquanto eu vou andar lá por aquelas Índias.” E dizia ele assim: “Nes tor, meu filho q ue eu nunca tive, graças a Deus. Deixa lá disso, vamos é ganhar dinheiro e vem rico e deixa lá ag ora de fidelidade. Qual fideli dade, qual carapuça.” Era o sogro, mas o que ele queria era que o genro viesse rico. Quer dizer, eu dei-lhes uma ce rta liberdade. Nalgumas coisas pus um bocadinho de água nas fervuras. “Quer dizer, vocês só que quer em para pôr água nas fe rvuras. Pronto, está bem.” Portanto, ensinei-lhes o que eles precisavam: quais os vários passos de um trabalho de projecto: “Isto é um trabalho de projecto, é divisão do trabal ho, reuniões, tatata…” E nós fazíamos, todas as quintas-feiras, ali, fazí amos mesmo aquilo. Foi um sucesso, de facto. A própria Directora de Turma delas riu-se de perdida, perdida. No fim. Mas ela é mesm o assim. E é uma pessoa honesta. “Vendendo” a professora… Esta turma I estava em constante competiç ão com a turma J, com muito boa gente, mas talvez com menos talentos, de uma manei ra geral. Ora no 11º ano, decidi que um determinado teste de Técnicas de Tradução, que seria sobre o as sunto “Publicidade”, seria diferente do habitual. Tínhamos já chegado à conclusão de que a pub licidade e a poesia eram dois tipos de textos muito difíceis de traduzir por causa da mensagem escondida. Tínham os traduzido muita coisa e o que é que eu lhes pedi? Era um teste que lhes apresentei ass im: 125 — Nós agora não vamos traduzir, propriamente… Inventem um slogan sobre um produto real ou imaginário. Inventem uma marca, escr evam um slogan, digam qual o meio que escolheriam para difundir a publicidade e os passo s que seguiriam para produzir o anúncio. E uma aluna, uma belíssima aluna, chamada Daniela, — el a diz que é como eu, que é ‘marcada’: eu tenho aqui uma m ancha branca e ela tem aqui nas sobrancelhas — diz- me assim: — Ó professora, eu hoje não estou nada inspirada. Eu não sei o que é que hei-de vender. — Olhe, venda-me a mi m. Vende-me a mi m. — Vender a professora? — Sabes? É que eu hoje no noticiário ouvi venderem o Figo. E ela disse, muit o rapidamente: — A professora não diga mais nada, não diga mais nada. E então fez um anúncio que eu tenho lá, também guardado. O que é que ela pôs? El a vendeu-me assim: era na televisão… o slogan er a este, em inglês é muito mais curto, que era: “Se quiser ter o sol na sua aula, compre a nossa professora de TTI”. Era um anúncio de televisão. Er a assim: Primeira cena: sala de aula — na janela, vê-se o sol lá fora, as flores nos ja rdim e ouve-se o mar e vê-se uns passos a andar em de um lado para o outro, blá, blá, blá, blá… Dentro da sala há silêncio, só se ouve o blá, blá, blá e há um tom de cinzento. Segunda cena: a professora de TTI aproxima-se, o cinzento começa a mudar de cor, entra, espera lá, entram as flores, entra o sol… Imagine! Com isto! Tenho lá, guardado! Depois, fui para a outra turma, a turma J, logo a seguir, e veio outra que era a Andreia, que era a nº 2 e também pensou em vender-me: — Ó filha, olha que parece que já me v enderam na outra sala… Como quiseres. O meu marido era professor nas duas turmas. Eu era de Técnicas de Tradução e ele de Geografia. E esta também me vendeu, ela at é fez a lápis mas vendeu-me pelo sistema televendas: “Este produto não está à venda nas lojas! Se quiser adquirir est a professora, ligue para o…” (lá pôs o meu número de te lefone, que sempre dei aos alunos, par a poderem contactar se tivessem necessidade), e em “Nota”, “a primeira pessoa que telefonar para comprar esta professora, le va de brinde um professor de Geografia”. 126 Eu não podia ficar com isto, porque era dos alunos, eram test es… E então, o que é que eu fiz? Pedi-os todos e disse: — Olhem, raramente, como vocês sabem, os professores fazem testes destes. (Porque eu tinha escrito no quadr o o que eu queria. Foi uma determinação pedagóg ica.) Mas estou a fazer um estudo — portanto, aldrabei-os — estou a fazer um estudo sobre isto, e eu gostava que vocês, se não se importam… Olhem, se quiserem, eu faço-vos uma fotocópia, mas se não quiserem, quero que vocês vejam o que eu escrevi, as anotações, mas depois quero outra vez tudo. E fiquei com eles. Guardo-os ao pé dos meus louvores, porque acho que s ão estas coisas que tornam a vida de professora uma maravil ha. Guardei estes porque eram comoventes. E que mais tenho eu feito pelas escolas? Também o que é que eu já fiz? No ano em que eu não estive no Conselho Executivo, ele s disseram-me: “Olha lá, tu não arranjas aí umas actividades para ocupar os miúdos durante o mês de Julho?” E eu estive-lhes a dar culin ária! Na cantina da escola. Olhe, a gente cozinhava e comia. Demos lá um curso de culinária. Já fiz a história da escola, ta mbém, em livro! Com uma colega que foi directora para aí durante quarenta anos… Publ icamos. Arranjei uma editora que o fizesse de borla, em capa cartonada, capa dura e tudo. Mil exemplar es. E fiz o regulamento interno da escola. Nós tínhamos uma comissão formada por professores, dois funcionários, duas alunas, um pai, e aquilo nunca mais andava, nem para a frente nem para trás. Então disse: “Olha, vamos fazer assim: eu tenho livros em casa, e levo a legislação, e começo a fazer e a gente junta- se aqui uma vez por semana, a ver se vocês concordam com aquilo que eu fiz.” E foi as sim que a gente fez o regulamento, que está aí. Nu m mês fizemos o regulamento. São as coisas que eu lhe tenho a dizer sobre a minha vi da profissional. Eu sinto-me muito feliz por ser professora. Não há nada, neste momento, qualquer outra coisa eu consiga c onceber que pudesse ser. Os alunos, no dia seis de Abril, pediram-me par a, num colóquio qu e eles promoveram sobre saídas profissionais, lhes falar como professora, o que é que é, na minha opinião, um professor. E fiz-lhes um levantamento das qualidades que considero indispensáv eis: 127 espírito optimista, sentido de humor, cr iatividade, gosto pela mudança, sentido de responsabilidade, capacidade de interacção. Também lhes disse que deve ter sempre di sponível um lenço, um ombro e uma esferográfica. E que não há ma l nenhum se uma vez, de muito em muito longe, parecer pateta. Para que os alunos saibam que ele ou ela é de carne e osso. Esta frase não é minha é de uma obra que costumo recomendar mu ito, “501 Dicas para Professores”, da Editora Replicação. E a última dica é esta: “V ocê é professor? Congratule-se. Não há nada melhor”. Leio sempre isto. Não me lembro do autor. Concluindo, foi a Escola e os Alunos que me deram algumas das maiores alegrias, que me proporcionaram momentos extremamente gratificantes, que me têm ajudado a manter jovem, pelo menos por dentro. Quem é que pode envelhecer no meio de t anta juventude? Por isso, se fosse preciso, voltaria a fazer todos os sacrifícios para me poder sentir como membro do que considero uma das mais importantes profissões do mundo. Repare que só lhe contei duas desgraças, lá do tampo da cadeira e da bofetada, e tantas coisas boas. É só a gente querer. Porque os alunos têm, têm coisas muito boas. Eu acho um privilégio ser professor. Ac ho mesmo. Ficamos jovens mais tempo. Se quisermos aprender com os alunos, eles têm t antas coisas para nos ensinar! Antigamente, havia um professor que dizia: “Eu só dou vi nte quando houver algum al uno que me ensine alguma coisa a mim”. Isso era dantes. Porque se fosse agora, coitado do homem! Passava a vida a dar vintes! Mesmo na altura, não esta ria com atenção, porque eu gosto muito de ser professora e julgo que vou ter pena… por isso, é que quero guardar o mestrado para depois… 128 129 4. Ermelinda Ribeiro, a mili tância tem sido a minha vida 4.1. “Quando morre uma mãe, é como uma árvore que se corta” A minha mãe foi empregada doméstica desde os seis anos de idade. Fic ou sem pai nem mãe quando tinha seis anos de idade: os meus avós morreram com uma doença pneumónica a seguir à Grande Guerra, e eles er am catorze irmãos. Uma das mais n ovas era a minha mãe, ainda havia dois irmãos abaixo dela e todos aqueles que tinham para cima de seis anos, foi tudo servir. Na altura , os meus avós e a minha mãe viviam em Espadela, e ela veio depois para Santo André. Veio para uns lavradores, porque tinha lá uma irmã já ao serviço que foi quem pediu para ela ficar lá. Daí é que eu tenho muitas más recordações, porque a minha mãe nos contava. Ela teve que ir trabalhar quando tinha 6 anos, punham-na a vigiar e a sacudir as pom bas e as galin has das sementeiras e ela estava ali com um caldito na mão e se, então, adormecia, pegavam numa vergasta e davam-lhe com ela. Comia uma tigela de s opa e um bocado de pão e depois ia trabalhar. E ela dizia-nos muitas vezes que aquilo que mais lhe custava era à noite ir para a cama, porque punham-lhe uns lençóis de estopa, que eram muito duros, não aqueciam e só eram lavados na Páscoa. Ela dizia que tinha muito fr io e que, quando ia para a c ama ia sempre aflita porque, novinha, a roupa não aconchegava nada: era uma manta de trapos em cima desses lençóis. E ela contava-nos isto quando nós às vezes, pronto “Vais fazer isto, vais fazer aquilo . Tu hoje vais lavar a loiça, vais limpar os talher es” e tal. E como a gente fazia tudo à vez: — Oh, mãe, eu fiz ontem, eu fiz hoje. E a minha mãe dizia: — Já pr’á cama! Já pr’á cama, não preciso da vossa ajuda! Eu não soube o que é ter pais e não sei se calhar o que é ter filhos! — El a quando nos dizia isto, não precisava de nos bater. E a gente ia pr’á cama, a olhar uma para a outra. — Vá lá, lavar os pezinhos bem lavadinhos, cama! Não preciso da vossa ajuda! E ficávamos todas torcidas porque ela contava-nos estas peripécias. 130 Amor numa noite de desfolhada A minha mãe estava lá a servir, já tinha mudado de casa e conheceu o meu pai numa noite de uma desfolhada. Ela foi com el e até à porta, havia aqueles ca rros de bois e eles fizeram amor ali e a minha mãe engravidou da primeira vez. Quando sentiu que estava grávida, doida, af lita, não podia dizer nada a ninguém! Depois, mais tarde, os patrões deram conta que ela estava gráv ida e disseram-lhe que se i a embora, que ela fosse falar com as tias, mas ti nha que se ir embora. E ela pediu para ficar a trabalhar, nem que fosse de graça. Que a dei xassem estar, que ela não ganhava dinheiro e que continuava a trabalhar. Então ficou com a condição de trabalhar até nascer a criança e, quando nascesse a criança, tinha que se ir em bora. A minha irmã entretanto nasceu, e a minha mãe continuou a pedir par a a deixarem lá estar porque tinha muito leite, e que amamentava a criança e depois tr abalhava mais pela noite dentro para tratar da menina. A minha irmã foi criada no sótão, num caixote de madeir a e a minha mãe dava-lhe de m amar e, depois de fazer as tarefas da casa todas, à noite, às 10 horas da noite, que ela estava acordada até os patrões se irem deitar, é que ela ia lavar os paninhos da minha irmã, ia passar umas coisinhas a ferro e pegava um boc adinho na menina, na bébé, que durante o dia aquilo era um ver-se-te -avias e quase não a deixavam pegar na menina. Os amigos [dos senhores] davam-lhe muit o boa roupinha, eram todos burgueses, am igos do casal lá de casa, ia lá muita gente, faziam lá muita jantarada, e eles davam muita roupinha para a menina. Aliás, os senhores, patrões da minha mãe, só quando a minha irmã tinha seis meses é que lhe disseram: —Oh Elsa, ainda não conhecemos a tua filha!?… E a minha mãe foi buscar a menina: no dia em que lhes mos trou a menina, ficou sem a filha. Eles ficaram encantados com a bébé. Não ti nham filhos. Ela começou a pegar nela ao colo, a dar-lhe comida, a apaparicá-la, a deixá -la meter as mãozinhas nas maminhas e quando começou a falar, dizia: — Oh, mãe, antes quero as maminhas da senhora, que as dela são inteiras, as tuas são partidas. — Porque ela tinha os seios muit o grandes, ela gostava de fazer aquilo. 131 A partir mais ou menos dos se is anos, a minha irmã já era ‘ polícia’ da minha mãe. Quando eles saíam, das duas uma: ou levavam a m enina para a minha mãe não perder tempo com a filha, levavam-na com eles para passear, ent retidos com a criança, ou então ela ficava em casa e ela [patroa] dizia: — Ficas aqui, mas vais ver o que é que a tua mãe faz, se a tua mãe vai falar com o teu pai, se o teu pai vai falar com a t ua mãe. — porque, naquela altura, eles não deixavam sequer o meu pai, que era pai da minha irmã, aproximar-se da minha mãe. Eles tinham uma forma de se encontrarem e de falarem um para o outro: a minha mãe ia lavar para um tanque muito lo nge e começava a c antar, que a minha mãe cantava muito bem. O meu pai ouvia e mandava um bilhet inho pela boca do cão a trazer uma comunicação para a minha mãe. E a minha mãe lia o bilhetinho, escrevia também o seu bilhetinho e mandava pelo cão para o meu pai. Uma vez, quando a minha mãe chegou, a patroa perguntou: — Então, filha, o teu pai aproximou-se da tua mãe? — Não, foi só o cão. — Era só o cão. E ela perguntava: — E não aconteceu mais nada? — Não aconteceu mais nada. — E a minha mãe deixou cair o canário e o c anário começou a cantar. — E mal acabava de dizer isto, voltava-se para a minha mãe: — Oh mãe, eu disse à Lili (q ue era a senhora) que tu deixaste cair o canário. Mas olha que eu não disse, ela é que perguntou e eu tive de dizer. — Foi utilizada assim. Quando ela já tinha seis anos, o meu pai decidi u casar com a minha mãe. Tiveram que ir pedir para casar, eles arranjaram-lhe uma casa com uns moinhos. O meu pai era pad eiro e a minha mãe foi para o moinho e passou a ser moleira. Depois nasci eu. Entretanto, os patrões da mi nha mãe, mais tarde, fora m meus padrinhos, não foram da minha irmã porque ela era fil ha de pai incógnito. Nós moráva mos perto. Quando a m inha mãe casou, a senhora perguntou: — Se queres levar a t ua filha, ela é tua. Se a queres cá deixar ficar, eu vou fazer como se ela fosse minha. E como eu nasci em 1940, antes do tem po da Grande Guerra, de uma fome desgraçada, de uma pobreza muito grande, a minha mãe, a chorar, disse ao meu pai: 132 — Está para nascer uma, não sabemos como é que a vida vai correr. Ao menos, àquela não lhe falta nada, vamos deixá-la lá estar. — E foi assim que aconteceu, deixaram-na lá estar. No percurso da vida, tiveram muitas dúvidas. Chegavam ao Natal e o meu pai dizia sempre que era o último Natal que pass ava sem ela. Depois, tudo aquilo que fosse bom, não era porque a minha mãe fizesse, eram os senhores que faziam, tudo o que fosse mau, vinham dizer à minha mãe: — Olha que a tua filha, aconteceu isto, aconteceu aquilo, aqueloutro… — e tal. Mas eles tiveram sempre uma certa preocupaç ão de ligar muito a minha irmã às irmãs. Diziam: — Nós não somos os teus pais, o teu pai é Ant ónio, a tua mãe é Elsa e as tuas irmãs são aquelas. — E mandava-nos chamar… Quando a minha irmã estava a fazer o 5º ano, reprovou três vezes, e eles chamavam-me a mim para ir lá fazer as equações. Essa minha irmã depois foi estudar e formou-se como professora. Tenho uma irmã mais nova um ano e meio. Temos sido as três muito amigas , ao longo do percurso. Claro q ue são percursos muito diferentes, não têm nada a ver comigo. Sobretudo a mais velha tem muito menos a ver comigo, mas existe uma relação, uma certa afectividade, ela n ão se mete com a minha vida e eu não me m eto com a vida dela. Tem filhos e netos: já tenho sobrinhos netos. A gente, chegou a certa altura, definiu terrenos, cada uma opina, dá a sua opinião e tal, mas depois cada uma tem a sua vida, a sua decisão e a sua vida, e isso ela respeit a profundamente. Por vontade dela eu estava lá todos os fins de semana: — Oh, Linda, vens cá este fim-de-semana? Se eu disser: — Não, este fim-de-sem ana tenho uma reunião da ‘Liga’ 16 . — Ei, tudo bem. — e já não li ga. — Pronto, o que importa é que tu estejas bem. Se há uma semana em que eu estou um bocado ma is distraída e não lhes telefono, elas ficam aflitas, telefonam pr’ali, telefonam pr ’ó Damásio, para saber como é que eu estou, ficam um bocado aflitas. 16 Da LOC, Liga Operária Católica. 133 A minha mãe já morreu há uns anos. E foi muito difícil, porque aquilo é como uma árvore que se corta. Nunca tive obstáculos da dos m eus pais. Apesar de eu, mais ou menos com vinte, ter saído de casa — fui trabalhar para o Alto da Beira. Primei ro, quis ir trabalhar para uma fábrica e depois quis ir para o Alto da Beira e fui. E quan do fui estudar à noite, éramos só duas a estudar à noite, o meu pai ia-me buscar numa ‘pachancha’, numa motorizada, às onze horas da noite, e, na aldeia, a partir das oito horas, toda a gente dormia, e ele lá me ia buscar. Quando não podia, se estava doente, ía a minha mãe, com um xaile na cabeça, ao meu encontro. Nunca puseram obstáculos a eu ter reuniõe s à noite, ou aos domingos à noite, em prosseguir as minhas coisas. Da escola, tenho boas e más recordações Nasci na década de 1940. Andei na escola at é aos onze anos, mas ainda frequentei o primeiro ciclo do liceu. Mas depois os m eus pais tiraram-me porque não podiam. Da escola primária t enho boas e más e recordações. Quer dizer, boas recordações porque era uma boa aluna… Dantes ha via uns fulanos que iam ver como estava a decorrer, se estava a decorrer bem, os inspectores, e cl aro que a professora punha-me sempre a mim ou no quadro a fazer problemas ou a fazer um a leitura… Então, tenho boas recordações porque era estimulada e era inteligente, segundo os patamares da época. Só que, um dia, a minha mãe pediu à professora para deixar ir a minha irmã mais nova lá p’á escola, para estar a assistir, para estar ocupada também, a miúda, e ela ia comigo e v inha. E, nesse dia, havia uma lição que era sobre o Marechal Carm ona, um texto da segunda classe, que tinha umas palavras muito difíceis e eu comecei-me a engasgar a ler, houve uma ou duas palavras que eu não disse corre ctamente. Depois de o homem ir embora, a professora chama-me: — Ah, minha malvada, que me deixaste fi car mal! — E dá-me duas reguadas! As únicas duas que apanhei, por que esteve o inspector presente, nunca tinha apanhado. A minha irmã, que estava lá, começou aos gritos : “Oh, Linda, vamos embora, Linda, vamos embora, Linda vamos embora” e a gente largou a aula, eram pr’á aí 11h 30 da manhã e fomos para casa, com a minha irmã a chorar todo o caminho e eu também a chorar com ela. Ela chegou a casa e disse à minha mãe: — Nós viemos embora porque a professora bat eu na Linda e nunca mais quero ir à escola. 140 razões por que foi aquilo, se havia a pessoa que era ré ou era vítima, e depois o que é que podíamos fazer, era sempre a per gunta para o compromisso, a seguir. Havia outra coisa que era muito importante: ninguém podia dizer «e u pens o como fulano, penso como sicrano» e assim. E então, uma dizia uma coisa e a outra, nem que fosse por outras palavras, mas não podia dizer a mesma co isa. Nunca se podia dizer, era o método: «Eu penso como fulano, eu estou de acordo co m sicrano, eu estou de acordo com aquela». Obrigavam toda a gente a dizer pelas suas pal avras. «Pode repetir o mesmo, mas pensa, nós somos seres pensantes, que pensam». Obrigav am à opinião. ‘Estalavam castanholas ’ quando chegava a nossa vez de falar. Tínhamos que falar, toda a gente tinha que falar e não podia dizer «Estou de acordo», saía logo a pergunta: «E porquê?». Portanto, obrigavam a pensar e a reflectir porque é que a gente estava de acordo. Isto foi uma escola muito importante. Nessa data, eu já tinha p’aí dezasseis anos ou dezassete, fui a um encontro a Fátima. Fui escolhida p’ra ir. Na reunião havia uma pergunta, também nunca me esqueci, porque me marcou, que era assim: «acha que a evolução da técnica tem influência na formação do carácter da pessoa?» Agora, isto há uns cinquenta anos!… Dá a ‘voltinha’, e não podia repetir o que outro disse. E depois, a gente já estava a ver: que as pessoas depois fa ziam as coisas muito mecanizadas, etc. E i sso marcou-me porque eu chorei tanto… Claro, no encontro, deitávamo-nos às tantas, levantávamo-nos às tantas… Mas o que é certo é que, no primeiro dia: «a que conclus ão chegou»; no segundo dia: «a que conclusão chegou», e «o que é que se ia fazer», etc. E eu sentia o pe so da responsabilidade de estar em representação de Santo André; achava que tinha de fazer tudo muito bem feito, tinha de as representar bem, e tinha de fazer um diário todos os dias, para depois fazer o relato cá. Tinham-me dito: — Tens de tomar notas, tens de fazer apontamentos, para depois, quando cá chegares, aqui ao nível do Concelho, num Domingo à tarde, faz- se uma reunião com o resto da malta da JOC e fazes entretanto um resumo. — Um pivete, ali em cim a, à frente de uma mesa, num palanque, a explicar o que foi o encontro… Quer dizer, eu tremia mais do que as castanholas, tremia-me tudo, a explicar o que é que foi, como que não foi… Este encontro em Fátima preparou um outro, que depois se tr ansformou num grande encontro nacional, que foi em Lisboa. 141 Foi um método important e e depois era a acção, [que] er a no meio operário. Em meados da década de cinquenta, havia uma quantidade de fábricas têxt eis em Santo André, em que as jovenzinhas da nossa idade iam trabalhar , primeiro iam para o aterro, depois para a vassoura, depois para ajudantes, e depois é que iam para o lugar. Havia uma fábrica e eles queriam fazer um pavilhão do outro lado. Então, descarregav am cascalho e as crianças, com doze anos, andavam todo o dia com aqueles cestinhos pequeninos , iguais aos das uvas, de verga, à cabeça, a acarretar cascal ho como formigas. Era assim. Iam para lá, carregavam, depois vinha outro, acabavam de ac arretar a pedra, carregavam cimento, acabavam de acarretar cimento… Cham avam eles aterro , a palavra tem muita força, parece escravatura. E tinham de andar sete meses, para depois terem acesso a ser aprendizes no sector profissi onal, ou ir em varrer. Q uando as pessoas tinham uma vassoura, era já uma promoção, e quando iam para ajudantes de profissional, então aí era o máximo. Ai, davam presuntos e salpicões e tudo. Naquela altura, a gente não descontava, ia trabal har com treze, catorze anos até encontrar todos um lugar na fábrica. É clar o que os pais davam uns presuntos… Tudo o que era bom er a para os chefes. A gente at é di zia assim, «quando o pobre come uma galinha, uma de duas coisas acontece, ou está o pobre doente ou a galinha». Um dia, fui a casa dumas colegas, que depois uma del as até foi para freira, e ela disse: — Como hoje é domingo, nesta casa, come-s e bem, temos arroz e batatas fritas. — portanto, era o arroz e as batatas fritas! Era a co mida daquela gente ao domingo. • Aprendendo a ser militante O trabalho sindical tem sido a minha vida. A minha vida não t em partes, tem sido uma sequência, uma tomada de consciência da expl oração das mulheres e, através da JOC, desde os catorze anos, quinze, não tinha mais. Des de essa altura, ainda estava eu no atelier de costura, a gente começou a tomar consciência da exploração das mulheres. F oi na década de sessenta, quando apareceram as confecções. Houve uma transformação muito grande na minha zona, porque, até ali, as raparigas só tinham duas alternativas: ou trabalhavam no campo ou iam servir. O meu come ço foi por ali, e foi pela minha mãe, que começou a servir aos seis anos de idade e ti nha, perante a vida, uma visão que foi muito importante para mim. 142 Quando as fábricas apareceram, foi uma cois a muito importante. Primeiro, porque as pessoas vestiam melhor, levavam uns aventai zinhos mais arranjadinhos, já não andavam como andavam no campo, para irem para a fábrica, enc arregavam-se de esfregar os calcanhares muito bem nas pedras para ir mu ito branquinhos, como se fossem para a cidade, ou para a vila; na altura , era para ir para a fábr ica. Segundo, começaram a ganhar algum dinheiro, já tinham uma roupinha para ve stir ao domingo, para ir à missa, uma roupa diferente daquela que tinham para a semana. Portanto, o ir para um a fábrica foi muito importante, apesar de naquela altura se ganhar apenas alguns vinte e cinco tostões por dia. O máximo que o salário atingia era sete e quinhentos, sete mil e quinh entos, sete mil reis. Na década de sessenta, era uma exploração muito grande. Aquilo que nos era sensível era a exploração; a gente não tinha a sensação pol ítica, tinha a sensação da exploração. Víamos também que as raparig as mais bonitas que iam trabalhar para as fábricas, eles metiam-nas logo na limpeza do escritório ou nos armazéns, que era mais limpinho. Eram às três e às quatro que a gente via que eram papadas pelos chefes e pelos patrões. Aquelas que aparecessem lá, com um ar mais limpinho, loirinhas, de ol hinhos bonitos e tudo, já se sabia, que aquela gente ia mais tarde ou ma is cedo… A gente sabia que eram presas fáceis, e nessa altura ainda pior que hoje, as pessoas [as mulheres] sofriam caladam ente, porque deus me livre que alguém soubesse ou que o namorado soubesse ou que os pais soubessem! Nem se podiam queixar, se não, ainda apanhavam dos pais. Nem se falava de assédios sexuais... Nós não sabíamos como se chamava, o assédio sexual. Naquela altura, as crianças iam para lá tra balhar com catorze anos e com treze ou doze, mal saíam da escola. Era de segunda a sábado, das oito às seis, e ao sábado ainda era das oito às onze, para completar as quarenta e oi to horas de trabalho. As férias eram seis dias, doze ou dezoito [dias] conforme as faltas que davam, e não havia subsídio de férias nem subsídio de Natal. As mulheres só ti nham um mês de parto, e a maior parte delas, ao fim de quinze dias, já ia trabalhar, que eles c hamavam-nas. Depois, as mães delas ou as tias ou as amas iam levar as crianças à fábr ica para elas lhe darem a mama na fábrica, não havia outra hipótese. Num bocadinho, elas ia m ali, mas quando a criança estava a agarrar o peito, já elas iam para dentro. 143 A nossa acção na década de sessenta e setenta A gente começou a nossa acção por coisas muito simples, se m preconceitos. Dizia-se: «o que é que a gente vai fazer?» Por exemplo: uma vez, um dos casos era o das as trabalhadoras da fábrica de têxteis de Santo Andr é, que já fechou. Eles tinham lá umas casas de banho, tipo ‘caçador’, onde as mul heres tinham de aninhar e depois punham aqueles desinfectantes, amoníacos, e as pess oas iam fazer xi-xi e vinham aqueles ácidos cá para cima e queimavam. Como as pessoas podiam demorar muito tempo nas casas de banho, eles cortaram um pedaço às portas das casas de banho, para ver quem estava lá dentro. Então, a gente esteve a analisar e achou aquilo uma falt a de dignidade. E nós começamos, na JOC, a fazer acção [sobre isto]. Íamos falar com as jovens e depois íamos falar com os chefes das empresas, com aquilo tudo. E então, «o que é que a gente pode fazer?!» Resolv emos fazer um encontro no Colégio, e fomos convidar os chefes das fábricas todas par a irem lá. E eles f oram. E a gente dirigiu as coisas, levantou os problemas e então houve um compromisso de alterar as coisas. Nós nem percebíamos o que era exploração, não percebíamos o que era política. Nós funcionávamos muito nas qu es tões humanas e da dignidade. Era nas questões da dignidade, o ‘ver, julgar e agir’ era isso mesmo. E o interessante é que a gente tinha tanta convi cção! A gente partia se mpre do princípio que, se Deus criou a terra, criou para to dos e, portanto, não houve uma noite em que choveram notas e os que estavam acordados apanharam-nas todas. Se isto acontece, é porque alguém continua a apr opriar-se daquilo que é par a t odos e nós tínhamos a consciência de que se apropriaram, ao longo do tempo, das terras e agora apropriaram-se do trabalho das pessoas. • A dificuldade de consciencializar as pessoas Foi uma luta difícil. Nós reuníam o-nos às seis e meia da manhã, para depois irmos par a a fábrica. Das seis e meia às sete e meia para depois irmos para a fábrica às sete e meia. Um dia por semana, e aos domin gos de tarde, também nos volt ávamos a reunir. Dentro do 144 método que a gente aprendeu na JOC, que era “ver, julgar e agi r”. E cada uma ficava com responsabilidades de parte da acção a fazer e de pois prestávamos contas umas às out ras, que é aquilo que hoje não se faz e que se devia fa zer, no meu entender. E, portanto, aquilo era um ciclo de responsabilização. Quando há uma situação, pergunt a-se «o que é que vamos fazer?» E tínhamos que fazer alguma coisa. Lembro-me que nó s, a uma determinada altura, fomos ao Colégio pedir se nos emprestavam uma sala, que íamos convocar os encarregados e os chefes de todas as fábricas, porque havia coisas muito injustas e a gente queria discutir com eles. E as freiras perguntaram: — Eles vêm? — Pois claro que vêm! — Nós partimos do pr incípio que eles iriam. Nós éramos uma organização importante, a JOC, de maneira que fizemos uns convites sobre as condições de higiene das fábricas e tal, e fomos às fábricas distribuir aos escr itórios. E é verdade que a gente conseguiu reunir à vo lta de duzentos chefes. Nós, jovens de vinte anos, ali assim: eles eram a plateia e nós éramos a mesa. Fizemos um relatório, dissemos várias coisas : «nós falámos com as trabalhadoras e elas queixam-se desta situação das casas de banho. Há uma outra situação das miúdas estarem sempre a varrer e isso dificulta o seu crescimento, não podem estar sempre a varrer, é mau para a coluna e para o futuro . Depois, nós estamos contra que uma pessoa vá trabalhar e ainda tenha de ir levar presentes ao chefe, dar sa lpicões ao chefe, bacalhau, ovos. As pessoas matam o porco, comem a carne gorda, porque os presuntos e os chouriços são para levarem par a quem lhes arranja trabalho.» E foi assim. Começamos pelas denúncias e passamos às questões da dignidade. Que era indigno que isto acontecesse e o que é que el es podiam fazer, ta mbém tinham filhos, nenhum dos filhos deles ia trabal har para as confecções, eles estavam a procurar que ele s continuassem a estudar. A gente dizia: «aos onze anos, ainda é idad e de brincar e vocês têm que lhes dar trabalhos leves». Ainda não se falava em trabal hos leves, mas viramo-nos para eles e dissemos: «têm de lhes dar trabalhos le ves, o que é que v ocês podem fazer e que compromisso é que podem assumir?» 145 Depois começamos a discutir com os lá da z ona. Eles não alinhavam, foram alinhando; não tinham respostas para as nossas questões. E os homens comprometeram-se a arranjar as casas de banho, a ver o trabalho que as raparigas faziam de segunda a sábado. • "É preciso que os pobres existam para que os ricos se realizem" Nesse tempo, as esposas dos industriais t inham as suas actividades: no Verão, faziam as colónias de férias para os meninos filhos dos operários e levavam-nos para a praia e assim. Geralmente, como as famílias er am grandes, levavam [só] um ou dois filhos de cada casal. As pessoas, na altura, nem pensavam ir para a praia nem nada, aquilo era uma coisa que ficava longe do horizonte. As crianças, na escola, quando iam dar um passeio à praia, de Santo André à praia, era a cois a melhor que podiam fazer, el es podiam ver o mar e ficavam extasiados, porque ainda hoje há crianças em Santo André que nunca viram o mar! E no interior também. Essas senhoras disseram-nos «Olhem, a gente vai fazer estas colónias de férias, é muito bom para os meninos». Chamavam-se “noelista s” e era assim um grupo das meninas da finesse que iam para lá tomar conta dos meninos nas colónias. Os meninos iam lá e as pessoas diziam: «ai que boas, ai q ue boas que elas são». Bem, nós reflectíamos isto em equipa. E um dia fomo s convidadas para ir à colónia de férias, e lá fomos. Estivemos, observamo s e elas diziam assim: — Têm alguma coisa que dizer? Não está tudo limpinho? Olhem , nós dormimos aqui, os meninos ali. Vêem? Aprenderam a comer de fa ca e garfo… — era o mais essencial!? — aprenderam a tomar leitinho, pão com manteiga… Nunca tinham comido manteiga, alguns até vomitaram… — claro que não estavam habituados; ficam habituadinhos a t omar banhinho todos os dias… — o que era um suplíc io para quem estava habituado que tomar banho era lavar os pés, porque naquela altura ninguém tinha casas de banho. Havia lá um livro onde as pessoas tinham que escrever o que é que achara m da colónia e a gente começou logo a ver: «pois é, eles vão restituir um bocad inho daquilo que roubaram todo o ano e ainda passam por muito bons. E os pais ai nda passam por desgraçadinhos porque os seus meninos, para irem um bocadinho à praia, tiveram de ir com a D. Maria e mais a Dona não sei o quê». 146 E elas, pronto, foram-nos most rando aquilo tudo, e os meninos a comer, etc., e quiseram que a gente escrevesse. Então a gente escreveu uma coisa tão simples c omo isto: ”Visita da JOC à colónia de férias de tantos de tal: é preciso que os pobres existam para que os ricos se realizem”. E elas choraram porque estavam convencidas que estavam a fazer bem. Uma delas até era muito minha amiga e eu disse-lhe: - Lininha, tenha paciência, mas nós vivemos em dois mundos dif erentes. Isto não é para a afrontar a si, é para afrontar as situações, não é para a afrontar a si porque você é que deixou o seu quartinho muito a rranjadinho para vir dormir num corredor num divã. Não é para a afrontar a si, é para as pessoas perceberem, para os pais não terem vergonha, que os pais não tenham vergonha, e não venham depoi s muito agradecidos por isto [a colónia de férias] ter acontecido. Portanto, isto não é para a afrontar a si, é para afrontar o facto: o agradecimento. Os sapatos, as sandálias, é t udo feito na fábrica e eles deviam pagar o suficiente para que os pais pudessem ser eles a levar os filhos todos à praia. Chamávamos e organizávamos as pessoas, fazí amos reuniões regulares. Havia domin gos que a gente atingia trezentas, quatrocentas jo vens. Dividia por equipas, por lugares, em casa dumas, em casa de outras, e fazíamos reuniões com as pessoas para as despertar. Era sempre assim: as pessoas diziam «ai não isto não dá para viver», e nós perguntávamos «o que é que você s produzem?, quanto é que ist o dá?, quanto dinheir o é que este ganha?, como é que eles enriquece m?» Aquilo que a gente queria era que a riqueza fosse distribuída por todos. Partíamo s do religioso, que era Deus quem criou o mundo para todos, e como tal tudo tinha que ser distribuído e o [facto de] haver uns muitos pobres e outros muitos ricos era realment e a apropriação do trabalho de muitos para benefício de poucos. • A campanha da garrafa de vinho A gente foi com as pessoas tomando consciência disto tudo e organizando estratégias de defesa e de luta. Por exemplo, na fábrica do Arco, em Santo André, os homens que trabalhavam de noite levavam umas garrafinhas de vinho, pequeninas , levavam as sandes para comer de noite: boroa e azeitonas, e um bocado de bacalhau ou umas castanhas cozidas, o que tinham. E 147 levavam umas garrafas pequeninas com vinho, que era o que as pessoas tinham. Havia, ali perto, um reguinho de água, el es iam à noite, punham-nas no reguinho de água para refrescar. Eles lá vieram: pr imeiro tiraram as garrafas todas e as pessoas ficaram sem beber, e depois deram a ordem: «a parti r de amanhã não há garrafas aqui!» Então fomos lá à porta e conseguimos que à volta de mil trabalhadore s mesmo os que não costumavam levar garrafas, no dia seguinte levassem, porque o homem que as havia de apanhar havia de andar a noite inteira a apanhar garrafas. Não era nenhuma vantagem os homens terem vi nho ali, mas era o que eles tinham. Depois, as pessoas deixaram de levar o vinho, levavam a cervejita. E a gente também ia dizendo. Entre vinho e a cervej a, leite ainda é melhor e tal, mas isto não passava pela ruptura de dizer «agora não bebes nada». Dize r-lhes o que era melhor para a saúde. Então a gente fez a campanha da garrafa, porque eles nã o têm direito de tirar, e aqueles que não levavam passaram a levar. Quer dizer, num di a, em vez de terem lá cem garrafas, iam ter para aí quinhentas. Eles sempre arranjaram obras nas igrejas, e is to e aquilo, com dinheiro dos industriais da terra. Aliás, a gente vai ver os campos de futebol des de S. Martinho do Campo a Santo André, até chegar aqui a Aveiro, desta z ona toda, e Guimarães, todos esses campos… Tudo isto foi criado com a riqueza do trabalho dos trabalhadores mas o nome é deles. 4.3. A mudança da costura para a fábrica Entretanto, decidi que, em ve z de trabalhar no atelier de costura, onde andava a trabalhar aos dias nas casas de três senhoras, iria trabal har para a fábrica. Até ali, trabalhava em casa e andava aos dias pelas senhoras. Por opção, pedi para ir para a fábrica. A minha mãe chorou, porque queria que nós tivéssemo s um emprego limpinho. Ela achava que, não podendo estudar, ser costureira era uma coisa mais limpinha do que ir para a fábrica. Ora, eu fui para a fábrica com vinte e quatro anos, ma s fui para lá exactamente por opção, para fazer acção, aquilo nós chamávamos a nossa acção social, era até onde a gente via. Quando eu disse que queria estudar à noite a minha esteve de acordo, mais o meu pai, mas quando eu disse que queria ir para a fábrica a minha mãe disse: 148 — Ò filha, mas aquilo é tão dur o, das senhoras, és das que estás melhor, comes melhor e tudo. — Mas eu quis ir. Nas senhoras, almoçava, lanchava, jantav a, depois é que me vinha embora. E ganhava mais, às vezes ganhava mais. Quando cheguei à fábrica, já estava na JOC, estudava de noite e tinha o meu trabalho na fábrica. Fui para a fábrica e ali conheci ou tro mundo, que era a nossa gente a viver na altura… • O caso das camisas roubadas Quando eu chegava àquela fábrica era sempre para rir. Na fábrica, a primeir a acç ão onde eu estive mais envolvi da foi num caso de cam isas roubadas. As mulheres que ganhavam muito pouc o e roubaram camisa s para oferecerem de prenda de anos aos noivos ou aos pais. O pr eço duma camisa, que elas faziam num instante, era igual ao salário de um mês: elas não tinham poder de compra. Ganhavam sete e quinhentos e as camisas cust avam trezentos e cinquenta escudos. Que é que eu comecei a fazer? Começava no corte: a gente via o númer o que havia, era consoante o número de estendim entos que a gente faz. Chega-se ao fim, aquilo tem que dar certo com as encomendas que eles fazem. Portanto, sempre que podia, metia mais uns poucos de panos: já sabia que iam sair camisas a mais e já sabia que elas que levavam. Mas eu dizia assim: «ganhar sete e quinhentos!…» A gente começou ali a criar um ambiente, não era de permissão, mas era eu que cortava e não ‘via’, eu só via de vez em quando que lá vinha uma pedir uma caixa, a uma colega, outra tinha pedido daquele cartão, de alfinet es, umas molinhas, e depois elas em casa acabavam de fazer as camisas. Bom, já em balavam aquilo, que hav ia camisas que iam para o tanque para ser lavadas, que saíam um bocadinho sujas, elas penduravam-nas, metiam-nas num saco e depois pediam uma caixa. Estava eu num congresso da JOC, na Figueira da Foz, telefona-me o meu patrão a dizer: — Venha embora já, porque eu vou despedir muit a gente, porque eles estão a roubar. — Bem, venho eu corrida por lá adiante, er a um choro naquela fábrica por que eles tinham descoberto que uma estava a vender, ao domingo, e vendia aos vizinhos mais barato. 149 E elas diziam: «só ela nos pode salvar». C heguei lá, meti-me à fr ente daquilo tudo. O patrão já estava lá com a polícia. E eu disse: — A polícia só vai para o pé das trabalhadoras se eu for com elas! Ele tinha um respeito muito gr ande por mim. E eu dizia-lhes: — Vocês dizem sempre que não, que não. E depois dizem: «pergunt em à D. Ermelinda, perguntem à D. Ermelinda». Vocês dizem se mpre: «eu nunca levei nada, podia às vezes pôr um colarinho novo numa camisa, mas pedia à D. Ermelinda, eu podia pôr uns punhos novos, mas pedia à D. Ermelinda». E os guardas que estavam à beira da ‘D. Ermelinda’ dissera m ao meu patrão: — Olhe, das duas uma, ou a maior ladra é el a, ou… Portanto, o melhor é mandar as pessoas todas embora porque a gente quer investigá-la. O meu patrão cai, deita as mãos à cabeça e diz: — Investigá-la a ela? — e foram-se embora e diz-me ele assim: — E agora Maria Ermelinda? Eu sei que elas venderam, e sei que elas levaram. — Vamos cá combinar pelo mel hor. Quer castigá-las? Castigue-as. Então, vamos fazer o seguinte: a gente vai dizer que elas vão pedir as camisas ve lhas e que as vão entregar na fábrica. — Muito bem! É isso! Elas trazem as camisas e entregam-nas aqui. Nas reuniões na casa da minha irmã, à noite, elas com as lágrimas nos olhos e dizia o meu cunhado: «sai disso». Porque o meu patrão até tinha dito [ ao meu cunhado] que me dava uma lambreta no fim do ano, porque era das co isas que as jovens queriam e os pais não podiam dar e ele dizia: «no fim do ano, vou-l he dar uma lambreta». E dizia ao meu pai, e aos meus cunhados que eu era mel hor que a assistente social Mas eu disse para elas no dia se guinte levarem as camisas, aquilo dava entrada logo pelo armazém, elas embalavam e depois comprava m imediatamente “em segundas”, a vinte e cinco tostões cada. Havia lá o sistema de comprar “em segundas”, para depois ir pagando a crédito tirando do salário. A senhora que andava todo dia a lim par e a pôr cera, a esfregar e a pôr cera, começava numa ponta e acabava noutra que era para tira r as manchas, era daquelas que também tinha levado. Antes do patrão chegar, e eu disse-lhe: 252 um artista: o meu pai era canteiro, trabalhav a a pedra. A Câmara de Beja e a Igreja do Santo Condestável foram feitas por ele. Tinha muita habilidade. Nunca sustentou a casa, porque gastava o dinheir o todo, era um bocado incontrolado. As minhas irmãs, eventualmente, terão recordaç ões de algumas partes mais negativas. Não era agradável ter um pai que ch egava a casa com os copos. A minha mãe era muito cuidadosa. Fazíamos sempre as festas de anos. Por exemplo, quando o meu pai fazia anos, a gente fazia a festa, mas ele es tava sempre no quarto com os copos e nós a comemorar sozinhos porque parece que ele decidia sempre estragar o esforço. Era mesmo uma pessoa muito fechada, embora tivesse muitos amigos, até fosse muito “social”, mas isso não queria dizer que tivesse uma vida… parece que contrariava tudo. Quando eu era miúda, lembro-me de as minhas irmãs começarem a namorar, e depois há aquela altura dos namorico s irem lá a casa. Arranjavam um pretexto como, por exemplo, ir aos meus anos. Eram os anos da “menina”, eles sabiam, e iam também para estarem com as minhas irmãs. Então a minha mãe preparava o m eu pai: «cuidado, que vêm os rapazes» e o meu pai: “claro, claro, cl aro”. Mas depois, no dia, lá estava ele, no quarto, aos gritos. Lembro-me perfeitamente de as minha irmãs porem a música muito alto e falarem muito alto, para eles não ouvirem… coitadas das minhas irmãs! Como já o apanhei velhote e desgastado, já ac hava piada a tudo. Mas, eventualmente, a minha mãe não achava, como é óbvio. Eu at é gostava dele, não tenho más recordações, mas não era uma figura presente. Ele conheceu quase todos os netos menos a minha filha: quando o meu pai morreu tinha eu dezassete anos, dias antes tinha nascido o último dos meus sobrinhos. A minha avó acabou também [por vir a] se r um grande apoio para a minha mãe, porque era muito difícil, com sete filhos. A minha mãe se mpre governou a casa, sempre decidiu tudo, sempre orientou tudo. Não me lembro do meu pai perguntar nada, se faltava alguma coisa, ou «se vais para a escola», ou outra coisa. Part ia do princípio que isso estava tudo tratado. A minha mãe é que marcou sempre ali o ritmo. A minha avó era mais a figura consensual da família. Não trabalhava muito, não era um a pessoa muito habituada a trabalhar, era mais para a conversa, para fazer sala, para orientar, para dirigi r. A minha mãe sim: fazia a comida, a roupa dos meus irmãos, tudo. Mas er a assim: o meu pai tinha muito respeito à 253 minha avó. Ela só dizia: «Oh, José…», e ele: «Pronto, eu vou-me já deitar». Ele também não tinha tido mãe. A minha mãe era um a pessoa também muito fec hada. Nunca se pintou na vida, nunc a vi a minha mãe vestida de vermelho, nem de amarel o, nem de verde. Era de estar em casa. Aliás, ainda agora conta que, às vezes, o carteiro notava isso , de repente, deixava de a ver e perguntava: — Então, a Carmen? — A Carmen teve um bébé. — O quê? Teve um bébé e então a gente nem viu?! Ficava anos sem sair de casa, à conta de tratar de tudo. Nem a viam grávida. Foi sempre mais virada para o sacrifício, para tratar das coisas, ter de ser a retaguar da. Teve a ajuda da minha avó e de uma tia minha, que não tinha filhos. A minha avó era uma mulher completamente di ferente, muito alegre, a cantar e tudo… A minha tia era outro tipo de mulher completa mente diferente da minha mãe. Trabalhava, era enfermeira. Já era uma mu lher de ir aos espectáculos, de ir para a rua, de fazer compras… Morreu relativamente muito cedo. Foi esta minha tia quem tratou da Catarina Eufémia no hospital de Beja, porque era lá enfermeira e estava lá quando ela chegou. O meu pai participou naquela hi stória do homem que vivia nos montes, de que fala a Cerro Maior , de Manuel da Fonseca. O Alentejo era muito marcado por [aquelas lutas] e as pessoas estavam sempre, de uma maneira ou de outra, envolvidas. Sou a sétima filha, com uma grande diferenç a de idades dos meus irmãos. Somos cinco mulheres e dois rapazes. Como sou a sétima, e assim fora de tempo, à partida, não fui desejada: a minha mãe tinha quarenta e dois anos, já tinha seis filhos adultos. Quando eu tinha doze anos, a minha irmã mais nov a estava a ser mãe. Nunca vivi aquele convívio com os irmãos que funcionaram para mi m sempre num determinado registo. Tenho um irmão mais velho que em igrou para o Canadá, em Julho e eu nas ço em Agosto. Antes, ele já tinha ido trabal har para Lisboa, mas emigrou para conseguir um a vida melhor, como é óbvio, para arranjar dinheiro para a família. Não vai, propriamente, por motivos políticos, não me apercebi, não teve que fugir. Aliás, ele ajudou e muito, mandava muito dinheiro para cá, e mandava para mim. Eu não tinha ideia nenhuma dele. Veio cá pela primeira vez tinha eu sete anos, e retorno a vê-lo exactamente quando o meu pai morre, e 254 é a primeira vez que me apercebo dele assim co mo irmão. Agora, vamo-nos encontrando esporadicamente, ou em Paris ou cá. Vem várias vezes a Portugal, duas ou três vezes por ano, para ver a minha mãe, já está noutra fase da vida. É uma pessoa muito distante, mais canadiano do que português, tem mais anos lá do que cá e tem uma família toda lá. Também me separei dos outros irmãos, de al guns que foram para o estrangeiro, um para a Alemanha e as minhas outras duas irmãs para Pa ris. Ainda guardo as cartas que escrevi ao meu irmão a contar história s. Os meus irmãos, sobretudo a minha irmã Nelita, mas os três de alguma maneira, envolveram-se com o Partido Com unista, portanto, com a oposição. A minha irmã é mesmo militante e teve mesmo que fugir, a polícia foi lá a casa… 8.2. Oposição ao fascismo A minha mãe sabia, de alguma maneira, que o m eu pai participava nos grupos da oposição mas não era militante. O meu tio mais velho tam bém participava, no in ício, e até ajud ou a organizar o Socorro Vermelho Internacional. Os meus irmãos é que vieram a ser mesmo militantes do Partido Comunista. Estavam muito envolvidos. Na Cova da Piedade, que era um centro da oposição e da resistência, havia a escola de um clube chamado Clube Desportivo, só uma c apa. Era um modo de intervir: davam aulas aos marinheiros, e a minha irmã dava aulas de Inglês. A maior parte das pessoas que lá trabalhava era militante do Partido Comunista. Havia a Cooperativa e era a Nelit a quem estava à f rente. Havia uma intensa actividade cultural, muitas sessões culturais, ia lá o Ferreira de Castro, a Mati lde Rosa Araújo, … Eu tinha nessa altura 5, 6 anos, ia lá muitas vezes, a vida que eu fazia era muito deste tipo. A Matilde Rosa Araújo ofereceu-me O Livro de Tila , com uma dedicatória. A minha irmã era muito animadora destas co isas. Quando as minhas irmãs começaram a namorar, a minha mãe obrigava-me a ir com elas, porque não podiam ir sozinhas, e eu ia sempre, de [pau de cabeleira]. Tenho “estágio” dos namorados todos, dos meus cunhados, tenho recordações das “secas” que eu apanhava. 255 A grande investida da PIDE: a fuga da irmã para Paris Depois há uma grande investida da PIDE, [da polícia do regime], em que são presos alguns militantes do PC. Aquilo foi uma razia co mpleta, prenderam muita gente e é aí que a minha irmã tem que fugir. Lembro-me exactamente do dia em que a minha irmã fugiu. Não porque eu tenha sabido, que ninguém contava nada… A minha mãe aqui funcionava como: «quanto menos souber, melhor». Eu andav a a brincar na rua e lembro-me de a minha mãe ter-me dito que ia à cabeleireira, de eu entrar em casa e de lhe dizer: — Oh, mãe, não vai à cabeleireira? — e de ela estar numa cadeira, na cozinha. — Não, eu hoje não vou a l ado nenhum. — Na altura pensei que a minha mãe estava chateada com qualquer coisa. Nesse di a a minha irmã acabava de ir embora. Contaram-me [depois]: bateram à porta, e a minha mãe revelou-se corajosa e disse: — Eu não sei da minha filha, ne m quero saber, ela fugiu-me de casa. Não quero saber, a minha filha há muito tempo que saiu de casa. — Lá aprontou a manta. A minha irmã fugiu com a roupa que tinha no corpo! Foi de re pente, foi sem nada. Saiu com outros e eram dois grupos: um saiu pelo Norte e o outro pelo Sul; o que s aiu pelo Norte foi apanhado e o que foi pelo Sul safou-se. A minha irmã foi pelo Sul, pelo Alentejo. Saíram pelo monte e passaram uma noite numa casa: pediram [guarida], tanto no Sul como no Norte. Só que a pessoa do No rte chamou a polícia e a do Su l não chamou. A minha irmã conta que a senhora levou uma ca feteira grande com café para eles tomarem. Tomaram o café e foram-se embora. Passara m pela Espanha, tudo, sem nada…! O pai da minha grande amiga de infância, a Anabela, t ambém era do Partido [Comunista], e foi preso. Não quis f ugir, sentou-se na sa la à espera que a polícia o fosse buscar… Cada um tinha a sua forma de acção, a sua resistência. Ninguém falava das coisas connosco, ninguém nos explicava nada, ouvíamos aqui e ali, mas a gente sabia que ele estava preso. O pai dela só saiu com o 25 de Abril. Em 1973, apareceu a CDE, que abriu uma sede na nossa rua. E então, ia com ela lá dentro espreitar : Tínhamos doze anos, éramos já [crescidinhas], mas espionavámos aquilo tudo, vasculhávamos tudo… Claro, não sabí amos o que era era fascismo, [mas] sabíamos algumas coisas, porque eram as actividades e os livros que costumávamos ler, pr onto, aquela coisada toda. Isso conta muito. Na escola, andámos até ao Liceu, fomos sempre muit o unidas. Depois nunca mais soube nada dela. 256 A minha irmã foi par a Paris, em 1967, devia fazer um ano que estava em Paris, dá-se o Maio de 68! Viveu todo o Maio de 68 em França. Depois, pronto, ficou lá. Lembro-me de ver as outras minhas irmãs a esconderem os livros dentro do sofá, tudo aquilo que era suspeito e a tirarem muita coisa de ca sa. Claro que a mim nunca me disseram nada. A seguir foi a outra minha irmã, porque o meu c unhado fugiu à tropa. Foi lá ter com ele, casou lá, e começaram a viver lá. E eu come cei, de alguma maneira, a perceber que elas não podiam cá vir. Claro que a minha irmã corta co m o PCP em Paris, portanto, vai mais à esquerda. Isso, de alguma maneira, marcou-me também. A força da mãe espantou … enfrentando o fascismo A minha irmã foge em Junho e a minha mãe vai l ogo para Paris passar esse Natal com ela. A minha mãe espantou, nalguma medida, porque era uma mu lher que nunca ia a lado nenhum, anos e anos sem sair de casa, e quando os filhos saem de casa, a minha mãe corre meio mundo, sozinha! Vai sozinha para Paris de comboi o, que era pr eciso passar a noite no comboio e aquela coisa toda. Não fala va francês, nem nada! Esses embates, o meu pai não aguentava. Tem muitas dificuldades para sair, teve que pedir autorização à PIDE, e a minha mãe desenrascou isso tudo. Ela tinha uma boa de sculpa, porque ia nascer o meu primeiro sobrinho, filho do meu irmão que está no Canadá. Ela não diz que vai para Paris, diz que vai para a Alemanha assi stir ao nascimento do neto. Nesse Natal, leva-lhes muita coisa: bacalhau, e rissóis, roupa… Na segunda vez fui eu e a minha mãe. Nessa altura tinha eu oito anos, estava na 2ª classe. Era o Dia da Mãe, vamos de comboio e lemb ro-me muito bem de entrar, de verem os documentos, tudo passado a pente fino, e de a minha mãe ter um grande à vontade perante isso. Fomos e estivemos lá bastante tempo. Tenho perfeitas recordações da casa, de tudo… Fui ver o “Oliver Twist”, em Pa ris, em francês, eu sentada e a minha irmã a segredar-me a tradução. [Levaram-me] a ver os museus, já não me lembro do que vi, andava por tudo quanto era Paris. Nessa altura, fui duas vezes com a minha mãe a Paris. 257 Elas escreviam, iam mantendo aquela ligação: «a mana está aq ui, está a fazer uma coisa muito importante», entret anto, iam alimentando aquela relação. Eu escrevia as cartas todas em francês e ela mandavam-mas corrigidas. Os brinquedos da clandestinidade Quando começou a Primavera Marcelis ta, aquel a [fase] mais aberta, a minha irmã Ernestina começou a vir a Portugal, que é a Er nestina. Vinha, geralmente, com o meu irmão, que estava na Alemanha. Vinha se mpre cheios de presentes, de brinquedos! Quando via aqueles brinquedos t odos, eu pensava: «que maravil ha!» No dia seguinte não estava lá brinquedo nenhum em casa e eu ficava com um desgosto enorme, porque pensava que os brinquedos eram para mim. Eles escreviam uns documentos [políticos] que traziam dentro dos brinquedos. Por isso é que os brinquedos desap areciam logo e eu sempre pensei: «Mas que raios, mas a quem é que eles dão, senão a mim?!» Havia na minha família um pouco aquele tabu: «não se conta tudo, e muito menos à mais nova, porque isso até pode tornar-se perigoso». Mas de uma maneira ou de outra eu chego à política. Na minha família, toda a gente é de es querda. O nosso núcleo familiar é muito grande, a família próxima é muit a gente e todos sentimos esta ligação. Tudo de esquerda, mas nem toda a gente é do mesmo. Os meus irmãos influenciaram-me muito, mas nunca me disseram: «Vai para ali, vai para acolá». Eu nunca fui para o PC P, de facto, sempre tive uma noção que a esquerda era outra coisa. De França ou da Alemanha m andavam-me coisas: [por exemplo] um fato à Bonnie and Clyde , com a boina; interferem nos livros, nos brinquedos. Quem determina a minha educação não é a minha m ãe nem o meu pai, são os meus irmãos. Aí eu tenho muita vantagem, em muita cois a, até no vestir, que as i rmãs é que determinam a minha roupa… São mais vanguardistas, digamos assim. Deram-me tanta liberdade para ler: lembro-me de ter-me fechado em casa e só [saí] quando acabei o 3º volume do Jorge Amado sobre a história do Partido Comunist a do Brasil. São três volumes que marcam. Para já, um romance lindissimo, claro, mas que nos pinta uma visão completamente idílica da pol ítica, do Partido Comunista. Aquilo é um Partido onde nunca há problema s, onde toda a gent e é boa, onde não há luta de ideias, 258 não há interesses diferentes. De facto, eu hoje não aconselharia ninguém a ler um livro daqueles, porque a seguir a de cepção é enorme e não nos prepara, não nos arma para coisa absolutamente nenhuma. O meu irmão regressa ainda antes do 25 de Ab ril, as minhas irmãs regressam exactamente a seguir ao 25 de Abril. A minha irmã vem vive r para nossa casa, embora já fosse casada, porque não tem casa, não tem nada. Depois do 25 de Abril, ia com os meus irmãos aos primeiros concertos de canto livre, por exemplo, o José Mário Branco era amigo deles. E assim que, quase sem dar por isso, uma pessoa vai-se ligando, vai vendo… 8.3. Tempos de estudante Nunca andei na catequese nem na “mocidade” A escola primária era a e scola pública, ninguém era rico , acho que era tudo mais ou menos… Lembro-me de haver jovens que tinham mais dificuldades que nós, mas era uma coisa que nos escapava. Talvez nos cader nos, algum que não tinha caneta, ou as c ores, depois nas canetas de feltro, mas os professo res não faziam diferença. Também não nos deixavam muito evidenciar… Tive duas professoras na primária: a primeira foi a D. Guilhermina, era a directora da escola, portanto, tinha muito que fazer, mas era uma mulher muito gira, muito justa, não nos batia, não precisava… Já não se reformou nova, tinha muita prática daquilo e… demo- nos muito bem. A outra professora veio no fim da quarta classe, e puxou muito mais por nós, porque a D. Guilhermina era muito boa, muito compreensiva, mas tinha sempre muito que fazer, e estava sempre tudo muito bem. Eu e a Anabela, a minha amiga, nunca andámos na catequese nem na Mocidade Portuguesa: fomos a excepção. Mas nunca fomo s marginalizadas por causa disso. Nem a nossa professora de Moral nos penalizou. Aliá s, acho que éramos um bocado invejadas, até. 259 Não sei nada de religião, nunca assisti a um a Missa. A minha mãe é religiosa, sempre rezou, mas nunca em público. Só fui baptizada com sei anos e um bocado à revelia, porque os meus irmãos não queriam. Não queriam que eu fosse para a Religião. A mãe aceita isto durante um tempo, mas depois usa a minha irmã mais velha, que no fundo é a minha mãe, e, com a minha tia, vão comigo à Igreja e baptizam-me. Lembro-me do padre me perguntar qualquer coisa do catecismo: — O que é que tu sabes dizer da vida de Jesus? — Não sei nada. — respondi e ele deu-me um livrinho de catequese para eu aprender, que ainda tenho na mala. A minha avó, claro, acreditava em deus e contou-me a vida de Jesus. Na escola prim ária, claro, estava lá o crucifixo, fazia-se o pr esépio, mas não foi uma coisa que nos marcou. Os/as professores/as que marcaram Do ciclo preparatório, tenho a recordação sobretudo das profes soras. Por exemplo, a de Religião e Moral que, de facto, era uma mulher muito interessante: foi a primeira que nos falou de sexo, de virgindade e disso tudo, de uma maneira m u ito séria. Numa aula, ela estava a falar da virgindade e uma pessoa da turma pergunta assim: — Ó professora, como é que nós sabemos que uma pessoa é virgem? — Esse teu colega tem o braço partido. Se es tamos às escuras, como é que sabes que ele tem o braço partido? — Foi a resposta dela. Eram umas aulas muito divertidas. Essa pr ofessora marcou-me, ainda estou até a ver a cara dela. Era mulher de um médico… Lembro-me de outro, o Rui Mingas, que hoje é embai xador de Angola; era cantor e escritor, um resistente, é o pai daquela modelo negr a: er a um homem do MPLA, um intelectual e era o nosso professor de ginástica: para além da giná stica, tocava violão e a gente, atrás do pavilhão, cantava aquelas músicas todas de Angola. O ciclo preparatório não era misto, só nos encontrávamos no recreio: raparigas de um lado, rapa zes do outro, raparigas com batas cor de rosa, rapazes com batas [azuis¿]. Na Educação Física era tudo à parte, mas ele incentivava-nos muito, fazíamos ginástica e até gostávamos de jogar andebol, tínhamos 260 uma equipa e participávamos em campeonatos . Alcácer também tem muita tradição do andebol. Quando vamos para o liceu, a coisa torna-se mais dispersa. Os meus principais anos de liceu são os anos do pós 25 de Abril. Tudo pr ofessores porreiros, uns melhores, outros piores, mas tive um professor que foi um horro r, era muito autoritá rio, era da PIDE. Era professor da disciplina de Desenho e Trabalhos Manuais. Sempre fui muito má a Desenho, Trabalhos Manuais ainda era como o outro; no Desenho Geométrico tinha j eito, fazia aquilo tudo muito direitinho, só que depois era pr eciso passar a lim po e já era uma questão psicológica, porque eu chegava a passar o desenho todo, estar com o tiralinhas e, no final… cair um borrão. Mas co mo eu tinha boas notas às out ras disciplinas, para não me estragarem a média, por c ausa do “quadro de honra”, por que só tínhamos isenção de propinas se estivéssemos no quadro de honra, tinha sempre 12! No ano escolar do 25 de Abril, 1973/74, tive um a professora de Inglês contra quem no s revoltámos. Só tinha uma preocupação: era que disséssemos muito bem three com a língua; usava sempre o mesmo penteado, vest ia sempre da mesma maneira, andava sempre muito direita; não era bem freira, mas… E nunca faltava às aulas! Até que há um célebre dia, que nós estávamos na sala, dá o segundo toque, ela não aparece, e nós, tumba, tumba ! O que é que acontece?! Ela chega atra sada, depois do segundo toque, vai para a aula e dá falta à malt a toda! Aí, nós decidimos revoltar-nos. Na aula seguint e, alguém tem que falar, lá fui servir de porta-voz: — Nós queremos aqui contestar a razão pela qua l a professora nos marcou falta. Tudo bem, que a senhora veio, mas muito atras ada, depois do toque. — E começou uma discussão ali na sala por causa da dita falt a. Havia aí muito, muito autoritarismo. Havia também dois professores no liceu que er am dois tiranos: a Alice Cost a e o marido, que até era vice-reitor, a quem a gente chamava o “Mocas”. A A lice Costa era professora de Latim, nunca chegou a ser minha professora, felizmente. Tivemos um professor do MRPP, que era um “espanto”, a Matemática , fazia tudo errado, não percebia nada daquilo. Depois havia aqueles que falavam mais conno sco: lembro-me muito da Catalina Pes tana, ela era uma fulana com o mesmo ar que tem hoje, mas de bom relacionamento com as pessoas. Dava Português. Nessa altura, era tudo muito, muito movi mentado. 261 A minha turma do 5º ano, 1974/75, agora re tomou o cont acto: há uns anos atrás, encontrámo-nos e até tem uma página na In ternet. Não era assim uma turma muito revolucionária, mas era engraçada, cada um seguiu o seu caminho, mas temo-nos encontrado, agora, e telefonamo-nos. A militância estudantil Entro no Liceu, em Alcácer. É aí que a gente começa, ainda antes do 25 de Abril. Comecei, talvez, com os meus treze, doze anos, no movim ento associativo. Fazíamos um jornal, que ainda tenho lá em casa. Era feito em papel cor de rosa e havia ali coisas arriscadas. Mas a censura também abranda, [neste período]. Era um jornal de jovens, embora alguns fossem mais velhos. Nós ainda não entendíamos muit o bem , mas era contra a guerra colonial, sobretudo. Uma vez tínhamos lá posto uma fr ase sobre a guerra colonial que depois tivemos que riscar em todos os jornais, todos : fomos nós próprios a riscar, mas aquilo ia fazer com que o jornal desaparecesse. Organizámos um canto livre, com o José Jorge Letria. Tínhamos um reitor, que era um gajo porreirinho e ele autorizou-nos a fazer o canto livre. Começou tudo a cantar, e às duas por três começa um comício contra a guerra colonial. Ele estava com muito medo, mas não chamou a Polícia, nem nada. Nessa altura, mesmo ainda antes do 25 de Abril, começa o MAESL, “Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Se cundário do Liceu”, ao qual nós estávamos ligados, e aí começámos a distribuir os co municados, aquelas c oisas . Era um movimento muito conhecido que acabava por agregar muita malta do outro lado do Tejo. Foi aí que comecei nas questões estudantis, ainda sem per ceber muito bem o que é que se passava. Para distribuir os comunicados no recreio, a té cnica era: juntar muita malta, e de repente alguém lançava os comunicados, portant o, nunca se sabia quem tinha lançado, chamavam-se os “volantes”, porque “voavam” e depois cada um ia par a o seu canto e, pronto, e ninguém via. Já havia manifestações em Lisboa, tive co legas meus que f oram presos, os rapazes. Quando eles voltavam no dia seguint e, via-se se tinham sido de tidos, porque lhes cortavam o cabelo, não ficavam propriamente pres os, mas estavam sempre à espera. 268 gente muito bem dis posta e isso era o que me at raía mais nele. Os meus sobrinhos passavam a vida lá na nossa casa, nas noitadas e ele brincava com os putos. A certa altura, a gente decidiu casar: já tinha vinte e sete anos e os meus sobrinhos já estavam adultos. Dos vinte e sete aos trinta anos aquilo foi uma vida às mil maravilhas! Estávamos os dois sozinhos. Então, decidimos planear uma criança, a Aïda. Mas depois de ela nascer, de facto, a vida mudou muito, uma criança muda muita coisa. Nós mudamos e a perspectiva das coisas também muda. Acho que há aqui também o problema da expectativa. Eu tive sempre expectativas muito altas… Mas, de facto, o Mateus Fortunado n ão mudou absolutamente nada, além de não ter aceite muito bem um maior protagonismo meu na política. Porque nessa altura, a Aïda nem sequer tinha feito um ano, eu estou na campanha das presidenciais, sou a mandatária da Juventude e corro o país t odo. Não que ele tenha fic ado com a Aïda, porque ela foi para as minhas irmãs. Separámo-nos. Também não tive tempo para me chatear muito, as coisas começaram a correr mal: houve alguma propensão da minha parte e um afastamento dele. Aquilo não durou muito. Claro que houve uma discussão ou out ra, mas, quer dizer, não prolongámos, nem eu nem ele, não temos aquela coisa: «Vamos tentar salvar o casamento, vamos mudar, vamos tentar de novo». No ano em que eu me separei, fi quei a viv er em Lisboa quase um ano. A casa é dele, e até era a casa onde tinha nascido, mas ele disse que não queria lá fica r. Eu [também] não queria: não queira ficar em Lisboa, longe da mi nha família, mas ele é que saiu de casa. Foi o pior período da minha vida! Fi quei só eu e a Aïda, e nesse período, eu não fazia nada. Vivia sozinha com ela. Ainda por cima, ela era bebé. Levantava-me de manhã, levava-a para a creche, ia trabalhar, ia buscá-la: não fa zia mais nada. Portanto, eu só ansiava que chegasse a sexta-feira para me vir embora. Depois regressava no domingo à noite, com as sopas todas feitas dentro dos taparwares !…Por isso, assim que pude, nem chegou a um ano, fui viver outra vez para casa da minha mãe. Prefer i voltar para casa da minha mãe, e estar ali descansada, para ter esses apoios todos. 269 • Mãe descomprometida Tenho sido militante toda a vida, desde pequenina, por assim dizer. Quando decidi ter a minha filha e decidi tê-la, planeada, já não foi muito cedo. Quando se decide, a gente também não sabe bem como é que vai ser a seguir. Sempre tive esta i deia e logo se vai ver se fiz bem ou se fiz mal. Embor a a minha filha ache que eu s ou uma mãe “galin ha”, sempre fui muito descomprometida. Podem-me dizer que cada um actua segundo as circunstâncias que tem. Podem-me dizer: «mas está bem, tinhas as tuas irmãs, tinhas a família…». É verdade. Se não tivesse, a minha vida seria outra coisa. Mas eu tenho que falar com base naquilo que a minha vida foi. Sempre, desde o princípio, nunca encarei a questão da maternidade e da minha vida familiar como uma obrigação a tempo inteiro. Tive a minha filha em Março e em Agosto estava fora a organizar um acampament o para os jovens e estive lá o tempo todo. Em Dezembro estava a deixá-la para fazer uma campanha presidencial. Ela ficou com as tias. Há mã es que não fazem isto! Também não estou a criticar essas pessoas, mas como estou a falar em relação a mim, semp re pensei assim. Eu nunca me privei de ir a lado nenhum nem de fa zer nada por causa da minha filha, desde que a não prejudicasse. Mas isto é em função da minha vida. Por acaso, agora tenho um companheiro, mari do, que assumiu isso na sua plenitude. Quando vim viver para aqui, a minha filha tinha cinco anos, eu e o meu companheiro assumimos que a minha vida ia ser sobretudo em Lisboa, portanto, havia uma série de coisas que eu não iria fazer! E que eu não iria estar. Sobret udo nos primeiros tempos em que só tínhamos um carro, eu tinha que ir e vir de comboio. Tínhamos que sair os três de casa às sete e meia da manhã, e, como eu s ou mais lenta para me levantar, quem tratava da Aïda era o Gonçalves. Port anto, ele levantava-se, vest ia-a, que ela er a pequenina, saíamos os três e quando eu voltava, já a Aïda tinha tomado banho, já estava jantada e pronta para deitar. Ele é que trat ava dela, ele assumiu isso bem , e ela assumiu muito bem, porque se deu logo bem com el e e eu assumi isso também muito bem. Nunca me fez confusão isso, nem nunca me senti diminuída por causa disso, nem ciumenta, na relação com a minha filha. Até costum ava dizer isso ao Gonçalves, que acho que é motivo de orgulho para ele, que a Aïda, que não é filha de le biológica, a meio da noite, sempre chamou pelo Gonçalves, nunca chamou pela mãe. Pr onto, a relação assi m o permitiu e 270 acho que para ele é um motivo de orgulho e de realização de ter conseguido essa relação com ela. Acho que ele não tem ciúmes da minha actividade, nem do meu protagonismo, que alguns homens têm. Alguns são camar adas, são compreensivos mas têm ciúmes. E eu acho que isso é uma das coisas que às vezes faz com que a mulher fique para trás. Isso tem a ver com o poder masculino. Eles têm de ser mais importantes do que elas. Ao meu companheiro não lhe faz confusão que eu esteja num órgão [de direcção] e ele não es teja. Pelo menos na prática, não. E t ambém acho que se não fosse assim, ao fim de dez anos, ele já teria verbalizado. Como também há homens que não gostam de que as mulheres ganhem mais. O Gonçalves quer lá saber, el e diz: «Eu quero é que tu ganhes muito. Quanto mais melhor.» Acho que isto tem a ve r com a consciência política e t ambém porque é uma relação baseada na igual dade. Mes mo com consciência po lítica, às vezes isso não existe. Se é uma relação baseada na igualdade, em que as pessoas, de facto, são iguais , portanto, se há um que está ma is à frente, tanto faz se é a mulher ou o homem. Agora, eu sinto que há muita mulher que fica para tr ás porque o homem não quer. A nossa cultura é essa, o homem tem de ter mais protagonismo. É por isso que há mais homens para os órgãos dirigentes e para os cargos. Não é por acaso. Portanto, nesse aspecto da minha vida, vai-se gerindo. Claro, também moment os de cansaço. Mas isso é humano. Nesse aspecto, pelo menos até agora… • Apoio dos familiares: uma educação enriquecedora Bom, não vou dizer que, de vez em quando, a gente não sente uma pequ ena culpa. Houve um período em que trabalhava co m algumas companheiras que se culpabilizavam muito e não tinham uma vida, nem de perto nem de longe, como a minha: «O meu filho, isto… E tenho que ir…». E eu interrogava-me… Mas isso a mim serviu-me para dar a volta de outra maneira. Achei aquilo um perfe ito exagero: já agor a, então porque é que os homens que eu sempre vi a militar nos parti dos não davam importância nenhuma aos filhos ?… Nunca se culpabilizaram, porque estavam sempre em nome de algo que era superior, porque er a o colectivo, era a luta por um ideal, então porque é que eu me hei -de culpabilizar?! O que eu ando a fazer também é importante. Claro que semp re tentei criar uma boa relação. Tentei sempre fazer, não sei se fiz se não, mas quando é para estar, estou mesmo. E não est ar sempre em permanente conflito e sempre a chatear, nem sempre a mandar fazer isto ou 271 aquilo… Não quer dizer que às vezes não se pense: «Ai, devia fazer ist o ou aquilo…». Também depende das fases da crianç a: porque há fases em que el as querem mais, outras em que nem nos querem por perto. Portanto, há que t er aqui um equilíbrio. Agora, olhando para trás, não me culpabilizo, não acho que tenha falhado. Co m o tenho uma família muito grande e a minha filha sempre foi a benjamim durante algum tempo, havia sempre alguém que queria ficar com ela, mesmo os primos. Também tenho essa sorte. Assumo que tenho uma situação privilegiada. Semp re tive muita gente a quem ped ir. E acho que ela ganhou com cada componente da família em que cada um fez o seu bocadinho. Eu espero é que ela, no futuro, tire proveito disso; tire provei to de ter tido uma educação tão alargada e tão diferente. Cada tia trata-a à sua maneira, os pr imos já são todos adultos. Acho que iss o foi enriquecedor. Também tive essa vantagem. 8.5. E fui para o trabalho com as mulheres… Houve um determinado período da minha vida em que saí das organizações de juventude. Porque a gente decidia estas cois as nos partidos, que era preciso investir aqui o u investir acolá. Às vezes também havia alguma sensibi lidade, também é bom dizer isto: «atenção, esta pessoa está muito desgastada ali», ou «está muito rotinada no seu trabalho». Eu sei que na altura fiquei dan adíssima. Achei que aquilo era a pior coisa que me estavam a fazer, não achei que fosse nada justo, mas… ac eitei. E fui para o trabalho das mulheres. Mas fui com uma missão muito especial: que er a ajudar, e não era só eu, a construir uma célula do partido no sector têxtil! Isto, no final dos anos 1970. Começamos o trabalho a falar com uma aqui, com outra ali, um trabalho muito difícil, muito complicado. Falávamos à hora de almoço na fábrica, porque à saí da era praticamente impossível porque iam a correr pa ra casa. Ou até se chegava de manhã cedo… Ou íamos a casa de uma, depois a casa de outra, mas er a preciso ter cuidados com o marido porque nem todos os maridos alinhavam nisto… E tivemos muita dificuldade em conseguir enc ontrar um dia, um local e u ma hora em que nos pudéssemos juntar todas para formar a tal célula, que era fundamental para isso. Há um episódio muito giro… Tivemos muitas tent ativas falhadas, até que houve um belo dia que conseguimos e, então, para as irmos busca r a todas e para as levarmos para casa de 272 uma, vamos de carro, num mini. Foi o único carro que arranjámos para fazer este trabalho. Estávamos com o mini cheio de mulheres, ía mos para casa de uma, o mini av aria num descampado!… Chovia por to do o lado. Eu só sei que andei a empurrar aquele malfadado carro com água até ao joelho e só sei que nem realizámos a reunião porque o mini não pegou! A nossa frustração, no di a em finalmente tínhamos t odas as mulheres juntas, estava tudo combinado, e o carro avaria ne sse dia! Quando consegui mos desatolar o mini, eram horas de as mulheres irem para casa , as que estavam connosco! Portanto, a reunião ficou inviabiliz ada por causa do mini. Havia muitas dificuldades em organizar as mu lheres: dificuldades delas próprias e também devido à visão um bocado fechada que nós tí nhamos da organização, porque, visto com outros olhos, poderíamos ter encontrado formas mais flexíveis, mais alijeiradas de organizar. Estive muito pouco tempo neste trabalho porque, por contingências partidárias, passados uns meses tive que passar para a juventude. E na juventude, nós não tínhamos muito a ideia, não trabalhávamos muito as questões de género, nem das mulheres, não estava interiorizado. A experiência de trabalho feminista na UMAR 21 As minhas actividades feministas, se assim se pode chamar, iniciaram-se nos anos 1990. Eu só venho a entrar para a UMAR nessa al tura. Não tenho nada a ver com as origens nem com a fundação. Tinha tido apenas algumas colaborações esporádicas. Naquela altura, havia uma folha informativa às operárias têxteis, faziam-se muitos comunicados, havia muita actividade, ia-se a muitas fábricas. O que eu tenho mais presente não são os encontros, er am as distribuições às porta s das fábricas têxteis. Uma delas é aquela que fechou agora há pouco tempo, a Confélis, mu ito falada. Praticamente, não passava semana nenhuma que não se fosse à porta das fábricas. Falava-se muito com as mulheres e eu era um boc ado mais trabalho “braçal”. A UMAR sempre foi muito ligada ao trabalho concreto e à resposta concreta. Sobretudo ao nível dos bairros, esteve muito ligada às questões da alfabetização, à questão das creches, 21 União de Mulheres Alternati va e Resposta . 273 ao trabalho nos bairros, à organização de grupos de mulheres… Aquele movimento que também havia muito a seguir ao 25 de Abril, desde alcatroar as ruas, ir aos mercados, fazer abaixos-assinados… Houve muito essa ligação, essa vertente, por isso, quase que já estava um pouco na sua génese um certo ti po de trabalho muito ligado ao concreto, de ligação com as pessoas, neste caso, com as mulheres. • O corte com a perspectiva das mulheres enquanto “companheiras dos trabalhadores” Nesta primeira época, havia aquela ideia, que atravessava toda a esquerda e que eu acho que o PC ainda hoje tem, que é a das mulheres como “companheiras dos trabalhadores” e do movimento geral dos trabal hadores, onde estam os todos incluídos, e pronto, toca a andar. Esta perspectiva de orga nizar as mul heres era, às vezes, utilitarist a, porque era importante ter uma or ganização das mulheres, mas não só utilitarista, também era depreciativa, ou seja, as mulheres não tinham nem condições nem capacidades para estar no partido. Também havia para a juventude. Mas a idei a não era exactamente a mesma. Porque na juventude havia sempre maior investimento: “s ão os quadros de amanhã”, “é preciso puxar por eles”… As mulheres ali estavam, estivera m e estão do “nosso lado”. Em certa medida e levando até às últimas consequências, estão controladas, é mesmo assim, e dá jeito! A partir de metade dos anos oitent a, começou-se a fazer o cort e com esta perspectiva. Por isso, quando volto mais activa ao movimento feminis ta, já depar o, em termos ideológicos, com esse corte. E isso significou, em termos da UMAR, várias fases: o nome corresponde um bocado às fases. O primeiro nome, a célebre “União das Mulheres Antifascistas e Revolucionárias” teve a ver com a época em q ue surgiu, no pós 25 de Abril: não se imaginava outra coisa que não fosse antifascista e que não fosse revolucionária! E corresponde também a essa fase de uma organização-braço de alguma coisa. Depois, as coisas vão evoluindo, não foi um processo brusco. Acho qu e a grande vantagem que nos per mitiu fazer estes cortes foi manter sempre uma grande ligação às mulheres c oncretas, nos bairros, nas fábricas e também aos sectores de mulheres que de al guma forma eram feministas, que iam falando 274 sobre isto. Então, esses dois tipos de contac tos iam trazendo a necessidade da reflexão, porque não podemos ser só nós, a luta das mulher es é muito mais larga. E, então, mudou- se o nome. Manteve-se a sigla e mudámos para “Movimento para Emancipação Social das Mulheres Portuguesas”! Com o tempo, também se foi vendo que não era nada disso. Este nome, se nós quisermos ir ao fundo: será que é tarefa de uma associaç ão de mulheres promover a emancipação social das mulheres portuguesas? Ou será que isto não tem a ver com as emancipações e com a questão de quem emancipa quem? Uma vez fui confrontada com esta questão, porque fui a um programa do Carlos Pinto Coelho, na Antena Um. Era um programa da rádio que tinha se mpre vários assuntos. E apanhou-me completamente desprevenida. Isto já estava eu na UMAR que já não era, na prática, nenhum ‘movimento pel a emancipação soc ial das mu lheres’. Quando ele me apresenta, diz: — Temos connosco Margarida Pimenta, da UMAR — e faz mesmo assim um tom — “ Movimento pela Emancipação Soci al das Mulheres Portuguesas, mas isto parece-me 1917!” — escusado será dizer que me tramou um bocado, mas não deixou de nos colocar uma questão: que nome era aquele?! Que é que tinha a ver?! • “Alternativa e Resposta”: afirmar-se como ONG 22 E nós até já estávamos noutra… E isso fez uma discussão sobre o papel da associação. Fez-nos mudar novamente de nome. Não foi fá cil porque queríamos manter a sigla que já era, de facto, muito conheci da. E então lá conseguimos, após um estudo exaustivo dos dicionários, à procura de palavras que come çassem por aquelas letras, conseguimos a “União de Mulheres Alternativa e Resposta”. Pode não ser o melhor nome do mundo, mas parece-nos que é o que condiz melhor com a si tuação actual: é uma união de mulheres, isso não há dúvida, tem uma preocupação de apresentar uma alternativa, do ponto de vista político, à situação, e é uma resposta, porque dá respostas concretas às mulheres. É esta a grande diferença. E isto fez com que a UM AR se situasse de uma vez por todas no campo das ONG. Não é uma organização que se preocupa simplesmente com tomadas de posição política, que têm o seu cabimento, mas, para além disso, vai dando respostas no 22 Organização Não Governam ental. 275 terreno com as mulheres. Isto desenvolveu-se com a formação profissional de mulheres, com os projectos de desenvolvimento local, com as questões da exclusão s ocial e, depois, com a violência contra as mulh eres, sobretudo. Foi-se abrindo a vários sectores e, hoje, está muito claro que a UMAR tem um programa mínimo, e que m estiver de acordo com ele está connosco, mas que é um programa al argado e que atinge vários sectores de mulheres. E podemos rever sempre o que a gente está a fazer. Na transição para este tipo de trabalho, a UM AR tinha dois caminhos: ou ficaria como uma organização política, de cariz político r estrito , tomava posição sobre os direitos das mulheres, sobre as situações, ou então iria também caminhando mais para a questão das respostas concretas aos problemas das pessoas. Ao longo dos anos, as mulheres que têm passado pela UMAR, e já não são tão poucas como tudo isso, estamos diferentes. Há algum as que o dizem: por exemplo, uma cigana, que me disse: «nunca mais deixei de me arranj ar!» Outras disseram que só se acharam com a UMAR. A esmagadora maioria delas foi co m a UMAR que dormiu a primeira vez fora de casa, algumas com os filhos atrás, mas outras sem maridos e sem filhos, e estavam felizes! Só entraram em discotecas e só fo ram ao estrangeiro com a UMAR! Algumas só saíram da Madeira e dos Açores com a UMAR! Vieram ao continente pel a primeira vez — e isto dizendo assim, dito a seco, não é nada, ma s só vendo as caras delas: «eu nunca tinha vindo ao continente!» Vieram pa ra participar numa reunião. E algumas fizeram formação profissional connosco. Nós também temos se mpre a preocupação de juntar o lúdico, o conhecimento, a cultura, a participaç ão, os direitos políticos, etc. Uma das coisas que se nota, e nós também fi zemos um estudo da evolução das formandas naquele projecto, é sobre a aproximação aos f ilhos: o facto de terem voltado “à escola”, entre aspas, aproximou-as dos filhos e os f ilhos delas, nos trabalhos, no estudo. Algumas disseram: «eu agora já percebo melhor…». Mas não é dado como adquirido. Muitas vezes, o trabalho que nós fazemos durant e um mês, na formação, é estragado no fim-de-semana em casa, completamente! Mas vai-se notando a evolução destas mulheres, a vários níveis. • A dupla tarefa é um obstáculo à participação de algumas mulheres Voltando à questão das organizaç ões das mulheres, eu penso q ue, hoje, e reportando-nos à nossa experiência e não às outras organizações, é mais fá cil organiz ar as mulheres 276 porque a organização não é tão rígida. A UMAR ta mbém já teve o seu tempo em que era uma organização nacional com concelhos region ais e núcleos. Hoje, não tem nada disso: as pessoas juntam-se e trabalham, por objecti vos, até alguns pontuais! Não se pode pensar que uma organização de mulheres é uma cópia das outras organizações e muito menos dos partidos. Nem podemos pensar que as pessoas estão numa militância a cem por cento em todas as frentes. Não, é consoante podem. Agora, é preciso sabermos articular isto, é muito mais difícil trabalhar … E não é controláv el. Essa é uma questão fundamental! Se nós tivermos uma organização deste tipo, que queremos controlar, mais vale não ter. Devemos partir do princípio que não queremos controlar! Não queremos mesmo! Do meu ponto de vista, nem se justifica. Agora, temos outras questões, por exemplo, as mulheres trabalhadoras. Temos uma ou outra, mas se queremos ser realistas, a base das mulheres militantes e das mulheres mais activas não são mulheres trabalhadoras das oito hor as por dia, são prof essoras, etc. Acho que junto das mulheres trabalhad oras ainda é preciso fazer muito trabalho. O problema da dupla tarefa continua a ser determinante: quer di zer, de facto, a entrada das mulheres no mercado de trabalho foi fundamental, não vamos esta r contra isso, muito pelo contrário, mas trouxe uma dupla tarefa e isso veio prej udicar as mulheres: impediu-as, veio-lhes dar mais trabalho, objectivamente. A vida [delas] é muito dura. É possível trabalhar com elas, chamá-las a acções, a questões concreta s, mas é muito difícil organizarem-se. Os maridos também resistem muito a isto. Nó s também tentamos sempre fazer acções com os maridos, mas eles resistem muito. Há um ou outro que vem, mas são poucos. Aqui, os sindicatos poderiam ter um papel mu ito importante, que não têm. Acho que as questões das mulheres no movimento sindical é uma questão a pegar. As mulheres não “furam” dentro das estruturas da CGTP, não “furam” nos si ndicatos. Há muita ideia reaccionária, mesmo entre militantes progressist as! Lá está um grande trabalho a fazer. Os partidos, e os partidos de esquerda, eu acho que não assumiram nem assimilaram as questões do patriarcado. Desculpabiliza-se muita coisa, porque não há um afrontamento, não fomos ainda ao fundo nessa matéria. Po r exemplo, na minha co rrente po lítica, já fizemos o corte com a concepção, que eu acho que é dogmática, para dizermos esses termos, que o movimento de mulheres te m de estar no movimento mais geral dos trabalhadores, senão não tem valor nenhum ! Acho que compreendemos que, para além de 277 todas as contradições na sociedade, há outr a contradição que é ent re homem e mulher, que existe, independentemente da nossa vontade, como existe entre o trabalho e o capital. Mas é necessário aprofundar mais, porque aí é que iremos ao patriarcado. A gente sabe que muitas das análises continuam a não t er se xo. ‘Trabalhadores’! C ontinua-se a ver no geral. É preciso a gente preocupar-se quais são os reflexos da ofensiva do neoliberalismo nas trabalhadoras! Serão alguns iguais, mas haverá outros parti culares. Eu ac ho que ainda é preciso ir um bocadinho mais longe nesta questão. Agora, em termos das organizações de mul heres em geral, não houve muitos avanços e em alguns aspectos até houve rec uos. Isso notou-se, é visível. • Abrir os horizontes às mulheres numa perspectiva de luta A UMAR tem desenvolvido alg uns projectos de trabalho concreto com mulheres. Isto começou com um primeiro projecto que, a liás, surgiu por um desafio no Conselho Consultivo da CIDM 23 , porque já havia esses programas próprios para mulheres e havia financiamento. Correspondendo a uma necessidad e, que era o facto de ter fechado uma fábrica no Seixal e de haver muitas mulh eres desempregadas , promoveu-se um curso de formação profissional, de três anos. Dessa primeira experiência saiu a “Associaç ão de Artes e Ofícios do Seixal”, um grupo de artesã s que a inda existe até hoje. Portanto, teve um efeito multiplicador. A UMAR utilizou esses instrumentos [pr ogramas e financia mentos], não os aplicou exactamente só por si, mas serviram-lhe para aprofundar outras coisas. Com este tipo de trabalho, há sempre aquela coisa de abrir os horizontes às mulheres e também uma perspectiva de luta. Por exemplo, nesse curs o, houve um problema co m as instalações e correu-se o risco de haver uma ordem de despej o. Na altura, o Pres idente da República era o Mário Soares que organizava as Presidências Abertas e teve uma Presidência Aberta no Seixal. E nós mobilizámos as mulheres e mobilizámos-nos a nós e desviámos a Presidência Aberta! Fomos lá, lá nos me temos… encontrões, encontrões, encontrões… mas vimo-nos frente-a-frente com o Mário Soar es. Portanto, furámos o protocolo e e le foi lá, com a imprensa toda. Claro que temos fotograf ias e registos disso, e ele lá no meio das 23 Comissão para a Igualda de e para os Direit os das Mulher es. 284 projectos e que depois encontrávamos ali. Isto, no fundo, foi batendo tudo certo. Estes últimos doze anos deram-nos uma capacidade, um empowerment , uma abertura para depois descortinar e ver onde se podia pr opor… Eu acho que esta questão da abertura internacional foi um factor determi nante. Para nós próprias. E nota-se. Outro exemplo: embora não seja até no mesmo registo, mas que eu acho que tem algum sinal disto, é a Rede Jovens para a Igua ldade, que também ganhou com esta visão internacional. Aquela transposição foi também bem feita! Aliás, é a úni ca que existe desse projecto: tanto quanto sei, nos outros países, acabou mais ou menos por cair. Esta experiência deu outra c onsistência para a prepar ação para os tempos que são de hoje e que são de amanhã, em que a componente internacional é imprescindível e em que aquela lógica do trabalho no nosso cantinho, da nossa reivindicação, é muito curta. E depois reflecte-se nas propostas e nas políticas que se fazem. A experiência do internacionalismo feminista Fui convidada para ir em 1998 ao Québec, à primeira reuni ão da Marcha Mundial das Mulheres através de Marie Lise Semblan t, uma mulher muito ligada às questões do desenvolvimento local, uma feminista tam bém investigadora, tem uma tese sobre o feminismo. No Canadá, nesta reunião da Marcha, uma cois a que nos espantou foi aquela organização, aquela tradição, aquilo tudo. Passados uns tempos, vieram cá a minha cunhada e o meu irmão, que é canadiana e é uma mulher religi osa, que anda lá metida na igreja, e que não tem nada de revolucionária, e depois contei-lhes, e ela respondeu-me: — Então porquê? Eu sou feminista! Porque, lá, se encontram uma mulher que não é feminista, com isso é que ficam espantadas! O normal é ser feminista. Elas tinham aquilo tudo muito bem organi zado e tinham uma preocupação engraçada que era: tentaram que as pessoas que foram de fora ficassem, porque distribuíram-nos por diversas casas, em casa de pessoas que fala ssem a nossa língua. Para não nos sentirmos tão estranhas… E então foi uma das experiências ma is interessantes da minha vida porque eu fui para uma casa de freiras. Fui com um a delas, ela era do Canadá, do Quebec, só que tinha estado dezoito anos a trabalhar no Br asil e falava português. tinha trabalhado dezoito 285 anos nas favelas, portanto, tinha perdido todos os preconceitos, falava de aborto, falava de tudo… Tinha-se despido de tudo perante a r ealidade. A casa era também uma cois a do outro mundo: uma casa muito gira, onde de fa cto havia assim um sossego, uma paz, que se vê que há ali qualquer cois a que não é a nossa agitação… Quer dizer, não era uma casa nada luxuosa, nada disso, mas confor tável, normal, havia aq uela paz, aquele sossego, aquela organiza ção que se faz sem a gente perceber e está tudo feito, mas muito informal, umas mulheres muito interessantes. Essa reunião é na altura em que a questão de Timor está muito efervescente e eu atrevi- me, na coordenação europeia, a colocar um a moção sobre Timor que foi aprovada lá. • A Marcha é de outra dimensão, é um desafio muito grande Aí, percebemos que aquilo é uma coisa de outra dimensão, um desafio muito grande. É engraçado porque a gente nem se mpre quando está nas coisas percebe a dimensão, e percebe o que é que aquilo vai dar a seguir. Mas a sensação quando se vem de lá é: «isto é qualquer coisa de diferente e que vale a pena». É o que depois nós dizíamos no ano 2000: é para resgatar o feminismo, para se voltar a falar de fe minismo, acabou isso de que a emancipação da mulher já está, a igualdade já es tá, isto é repor as coisas no seu lugar, é mostrar que continua a haver motivo, e, nesse sentido, foi um incentivo muito grande. • A diversidade no movimento feminist a da Marcha: como harmonizar sem baixar o nível das reivindicações Por outro lado, aquilo é logo uma coisa muit o forte do ponto de vista político, é outra mudança, porque estávamos muito habituadas, aqui, em Portugal, que as coisas das mulheres sejam sempre muito ‘pacíficas’. Estamos sempre todas muito de acordo, porque andamos sempre pelos mínimos! Outra coisa que a Marcha deu: se havia a tal descoberta de norte a su l, em Portugal, a Marcha deu-nos isso a nível mundial. Ver as af ricanas, as indígenas, as da América Latina, as do Canadá, as asiáticas, é uma coisa! … É uma grande diversidade. Perceber a diferença que há… Lembro-me que na altura falava muito nisso porque, de facto, impressionou-me: nós estamos a discutir e equac ionar reivindic ações e há um continente que diz «tudo bem, mas a gente luta pela ág ua!» «A gente luta pela identidade! As 286 mulheres não têm bilhete de identidade!» «As mulheres não existem! A gente não pode comprar uma casa, um terreno, não temos direit o à propriedade!» Quer dizer, ouvir as sim… Mesmo a situação nos países árabes, também… São coisas que mexem e a gente percebe o que é que se passa, porque a Marcha também é muito popular, pode não ser assim em todos os países, de facto, há diferenças, como em tudo, mas a Marcha tem uma raíz muito popular, de grupos de base, muito pouco partidarizados. Agora, é preciso que a Marcha assuma que tem várias corr entes dentro dela, também, que defendem várias coisas e que vão prossegui ndo… Iss o notou-se na [reunião mundial na] Índia em que a polémica em to rno do feminismo foi mu ito grand e. Mas esse também é um caminho que, do meu ponto de vist a, é incontornável, hoje em dia, que é o dos movimentos plurais. Já não há movimentos monolíticos. Há ali um determinado momento na [reunião mundial da Índia], em que se tenta a conci liação de tudo e fazer um grande “chapéu”. Eu acho que esse caminho iria acabar com a Marc ha. Portanto, vai ser o caminho de que a Marcha é um movimento plural, tem várias co rrentes lá dentro, que vão lutar, lutar no bom sentido, vão disputar o poder entre si , e vão defender os seus interesses. E depois a sua capacidade de i novação. Porque ou tem capaci dade de atrair as jovens gerações e de ter reivindicações para as mulheres de hoje, porque há aqui um certo espaço, em que ou se dá um salto ou se estagna. 287 C APÍTULO II. O PERCURSO DE PESQ UISA EM HI STÓRIAS DE VIDA Introdução Inscrevendo esta pesquisa como um contribut o para uma pedagogia feminista crítica e transformadora e procurando articular as problem áticas escolares com as não-escolares, este capítulo pretende dar c onta dos processos e opções epist emológicas e metodológicas. Estão presentes preocupações com uma "epistem ologia do experiencial" e o equacionar de estratégias de intervenção capazes de se di rigirem a grupos sociais heterogéneos em termos de género, classe, etnia, região, idade e orientação sexual, q uer no interior da escola quer fora. Preocupou-nos um enfoque na complexidade dos contextos sociais, mas cimentados na articulação com os quotidianos, tentando contribu ir para a construção de um saber relevante para a vida das pessoas onde têm lugar de destaque os diálogos e as pontes entre diferentes for mas de saber . Se é verdade que o sabe r só tem existência própria enquanto experiência indi vidual (Lewis 1993), também a transformação social só existe enquanto dialéctica entre exper iência individual e colectiva. No cerne desta pesquisa está uma procura de ouvir as vozes das mulheres e é nesta medida que as perspectivas biográficas pe rmitem a valorização das e xperiências, perspectivas e subjectividades das narradoras. Este capítulo pretende ser a apresentação do processo de investigação, apresentando as dificuldades, os d ilemas, as opções efectuadas. No início deste trabalho e quando se formulou o objecto de estudo, estavam a ser publicados os volumes da investigação or gani zada por Barreto (1996) e que atestavam, através de diversos indicadores, um c onjunto de mudanças subst antivas na sociedade portuguesa. Para nossa grande estranheza, os indicadores não estavam trabalhados em função do sexo e as questões de género eram subr epticiamente tratadas, sob um “universal neutro” que já nos cansa, num úni co volume que outros já apelidaram de 288 “impressionista” 27 sobre a evolução dos costumes. No sentido de contrariar a obscuridade que tem caracterizado as vidas e experiências fe mininas, esta investigação tem o seu foco em histórias de vidas de mulheres, olhadas e ouvidas nas suas es pecificidades e singularidades, de diversas condições e grupos so ciais, sensivelmente entre os quarenta e os sessenta anos. Aqui, o percurso da refl exão pretende estabelec er, tanto para quem escreve como para quem lê, o processo e as condições de construção das histórias de vida e das narrativas biográficas, isto é, as condições epistemológica s da sua produção, constituindo-se simultaneamente num moment o de discussão epistemológica, teórica e prática sobre a realização das entrevistas, do s encontros e dos diálogos, a elaboração das histórias de vida e das narrativas biográfic as e a con strução da análise, passando também por alguns percursos pessoais de intervenção e de investigação 28 . 1. Opções epistemológicas: as histórias de vida no centro de um percurso Com a intenção de articular a educação numa visão holística sobre vidas femininas, realizaram-se algumas histórias de vida, assentes numa interacção prolongada e aprofundada com as narradoras e em diálogos em profundi dade que foram posteriormente organizados num texto narrativo e, simultaneamente, submetidos a análise de conteúdo, complementada com alguma anál ise documental. Como afi rma Idalina Conde, na investigação assente em trabalho biográfico, neces sitamos de três tipos de teorias auxiliares de pesquisa: “teoria do instrumento, teoria das relações sociais de observação e teoria das experiências sociais da subjectivi dade” (1993: 39). É sobre as histórias de vida num percurso de pesquisa implicado na valoriza ção e descoberta das subjectividades e experiências femininas, que trata esta secção. 27 Estanque (1999: 173): “à pa rte certos entusiasmos exc essivos, por vezes de simple s p endor impressi onista, acerca da evolução dos c ostumes em Portugal.” 28 Para este processo de invest igação, contribuiu a e xperiência pessoal, p rofissional e política, onde alguns projectos de investigação ( quer ao nível das q uestões de g énero — ProCiMas, NORA, Padjas e C iganas, Autonomia das Raparigas…— quer ao nível das questõ es curriculare s — TEIAS, PROCUR), e outros de intervençã o (quer nas organizações de mulher es, quer no cam po da educaç ão não-formal, alfabetização e educação comu nitária, quer aind a na área da animação sóci o-cultural) forneceram ferramentas que foram send o muito úteis nesta longa caminh ada. 289 1.1. A autonomia do método biográfico O recurso às histórias de vida pode ser rea lizado, do ponto de vista epist emológico, de diversas perspectivas. Mathias Finger (19 89) e Helena Araújo (2000: 279-80) fazem uma revisão dessas perspectivas, salientando a importância da abordagem deste recurs o metodológico através do que Ferrarotti designa com o “autonomia do método biográfico”. Nas diferentes abordagens, realça-se o papel que o sujeito 29 desempenha em cada perspectiva e a relação entre os materiais biográficos e a construção do conhec imento científico-social. Assim, na abordagem da histór ia oral e da antropologia cultural, se o sujeito não é eliminado da pesquisa, o foco é sobre a cultura, obscurecendo as subjectividades individuais. Na abordagem que ficou conhecida por “Escola de Chicago”, as preocupações com a representatividade em termos da legitimação do fazer emergir de “problemas sociais” e da força das estruturas sociais, tem co mo consequência a eliminação do sujeito e das subjectividades. Finalmente, na abordagem em que a história de vida é tomada como metodologia fund amental, o enfoque c oloca-se no papel do sujeito e nas subjectividades e experiências pessoais. Nesta perspectiva, des tacam-se Ferrarotti (1983) e Helena C. Araújo (1993; 2000). Esta autora sublinha: A sua perspectiva é relevante (…) Fe rrarotti distan cia-se de uma tradição dent ro da qual as história s de vida são usada s para fornecer informações pertinentes, não contid as em arquivos e ainda de uma perspect iva em que a pesso a biografada «repre senta» a «visão do mundo» de u m grupo social ou profissional. O qu e pretende é, através dela s, contribuir para uma renovação metodológica no campo da so ciologia que, embora pod endo recorrer a técnicas cada vez mais sofisticada s, «não obtém acréscimo de conhecimento soci ológico real » (…) e permanece « refém das versões oficiai s» (…) sem assumir um a postura crítica, face a um a ordem dominante. Neste sentido, Ferrarotti salienta as suas p ossibilidades heu rísticas, apontando a « subjectividade explosiva». (Araú jo 2000: 280). A via que Ferrarotti (1983) encontrou, e nós seguimos, para, através de uma história de vida, darmos conta do social, é composta por três grandes e comp lexos processos. O primeiro diz respeito à conceptualizaç ão, que ele funda em Marx, sobre a “praxis totalizante”, na medida em que uma pessoa (o autor só fala de homem ) é sempre um universo singular (idem: 59). O segundo diz respeito ao recurso à “razão dialéctica”, apenas a razão di aléctica nos permi te compreen der cientifica mente um acto, reconstruir os processos que de um comportam ento fazem a síntese activa de um sistema s ocial, de interpretar a 29 Poder-se-á dizer sujeita ? C omo mais um dos cas os de “derrogaçã o semântica” (Abr anches e Carv alho 1999), es te conceito no feminino tem u ma conotação neg ativa. Vale rá a pena empurrar o conceito também para desi gnar, no feminino, o mesmo que desi gna no masculi no? 290 objectividade de um fra gmento de história social partindo da subjectividade não iludível de u ma história individual. Só a razã o dialéctica nos pe rmite reunir o universal e o geral (a sociedade) apoiando-se no individual e no sin gular (o homem [sic]). (ide m: 56). Propondo uma ruptura radical face à dicoto mia entre intencionalidade nomotética e intencionalidade idiográfica, segundo este auto r, o processo para chegar ao conhecim ento do social através da singularidade de uma história de vida é, ainda, realiz ado pelo recurso a “uma ciência das mediações que traduza as estruturas sociais em comportamentos individuais ou microssociais” (i dem: 80). Neste sentido, o recu rso à história de vida como metodologia fundamental assenta numa perspectiva de historicid ade em que “o «sujeito re- entra na história», numa concep ção mais ampla de história co mo «vida h istórica», tomando em consideração o ponto de vista daqueles que estão numa posição subordinada e que constitui uma fonte de conhecimento” (Araújo 2000: 281). Segundo Ferrarotti: A história de vida como método a utónomo implica necessa riamente uma histori cidade «não historicista». Noutros term os, implica uma ruptu r a com a con cepção de hi stória enquanto sucessão diacrónica e m direcção à pret endida verda de de um sentido geral detido pel as elites que serão os depositários exclusivos do valor. (198 3: 3-1) Então, a “subjectividade explos iva” emerge nas ciênc ias sociai s dando voz ao sujeito que deixa, nesta postura epistemológica, de ser objecto de estudo. Sem negar as hierarquias de poder, esta abordagem exige al guma disponibilidade para lar garmos alguns pontos da nossa agenda como investigadoras e abertu ra para redireccionarmos o percurso de pesquisa se quisermos fazer jus à especificidade de cada auto/bi ografada. É neste sentido que, por exemplo, Sue Middl eton (1993) nos conta que um a entrevista com uma das mulheres a levou a aprofundar o seu conhecim ento sobre Bourdieu, ac rescentanto que isto constituía, do seu ponto de vista, indicação do tipo de “processo de teorização colaborativ a que uma abordagem de histórias de vida pode engendrar” (1993: 73). A preocupação central, aqui, consistiu na valorização da s histórias de vida enquanto “metodologia fundamental” (Ferrarotti 1988 e Araújo 1990) evit ando o lugar de ‘ilustração’ da teoria. Foi por esta razão que se decidiu a sua colocação no início deste trabalho, enquanto primeiro capítulo, reservando-lhes o espaço inicial e nquanto base a partir da qual s e elaboraram as análises e reflexões posteriores. Existe, hoje, uma variedade importante de bibli ografia em torno das histórias de vida, narrativas biográficas e metodologias afin s, que dá conta de como esta corrente de 291 investigação tem já um longo caminho feit o, assim como algum as obras realizadas com histórias de vida, biografias ou relatos bi ográficos. No contexto português, pode mos destacar diversas obras realizadas nesta ár ea, tendo por base ou reivindicando-se do método biográfico, como por ex emplo, Chinita (1983), Joaquim (1985), Vicente (1985), Brettel (1978, 1991), Magalhães, Fonseca e Oliveira (1991), Fern andes (1990), Moita (1992), Fontoura (1992) Cavaco (1992), Nóvoa (1992), Gonç alves (1992), Araújo (1993 /2000, 1995), Cole (1994), Neves Cardoso ( 1996), Neto (1996), Barbosa (1999), Vieira (1999), Paiva Couceiro (2000), Pedrosa (2000) , Ventura (2002), Varandas (2001) Sarmento (2002), Cruz (2002), Gorjão (2002). • Dizer / escrever uma vida: a dimensão da textualidade Algumas questões se levantam numa perspectiva centrada em histórias de vida. Uma delas consiste no seu (habitual) carácter textual, isto é, o dilema se as narrativas biográficas são apenas textualidades ou se cons ti tuem alguma referencialidade sobre a realidade exterior ao texto. Sem rejeitar importantes contributos sobre a dimensão textual no dizer/escrever das vidas, consideramos, no entanto, a par de muitas investigadoras neste campo, que os relatos têm relação com a realidade. Stanley (1992; 1993) discute este dilema e a este respeito vai propondo outras designações ao produt o deste trabalho. Como se trata de um processo interactivo entre investi gadora e narradora, a autora acaba designando auto/biografia, tentando encontrar uma forma gráfica que dê c ont a dos dois processos em articulação: é uma for ma de autobiografia na medida em que as narradoras contam na primeira pessoa, mas é tam bém biografia porque a invest igadora desempenha um papel de mediação, desde os temas que as mulheres elegem at é à forma, passando pelo trabalho construtivo até ao produto que se apresenta. A/o investigad or/a acaba também por se expor nessa mediação. Por vezes, a autora fala também de autografia , exactamente para destacar a construção textual ne ste processo, clarificando que a relação com a vida [bio] é críptica e não linear. Assim, a autora faz refe rência a Roland Barthes sobre “o self que escreve”, “o self que foi (ou era)” e “o self que é (ou está a ser)” (cit. por Stanley 1992: 61). As teóricas feministas que se têm debruçado sobre histórias de vida , mais concretamente sobre autobiografia, pesquisaram o seu sign ificado na construção do sujeito e das subjectividades. Durante muito te mpo, a autobiografia constituiu um ‘projecto ocidental’ de 292 formação do sujeito universal, o que foi critic ado por investigadoras como Sidonie Smith (1993; 1998), para quem a dificu ldade da autobiografia (tal como era praticada por Agostinho, Rousseau e Goethe, ou qualq uer outro membro do canon que quisermos mencionar) consistia no facto de que a aut obiograf ia pressupõe a composição de uma master narrativa, a arquitectura do ‘sujeito unive rsal’, uma “dura noz de … individualidade (masculina) normativa.” (Smith 1993: 3). Portanto, o canon aut obiográfico ocidental era construído a partir dos escritos de homens de élite (ou a que pretendiam pertencer). Segundo algumas autoras, a crítica literária teve os seus efei tos, e agora, na viragem do séc. XX-XXI, o canon autobiográfi co foi grandemente alargado, e a teoria autobiográfica que daqui derivou tem mais probabi lidade de ser estabelec ida pela escrita das mulheres. Pode também constatar-se também que, no campo das ciências sociais, “as Histórias de Vida conhecem um forte impul so no início do séc. XX, sobretudo com o instrumento metodológico da “sociologia militante”, utilizado quer na Polónia quer nos Estados Unidos” (Paiva Couceiro 2000). As classes trabalhadoras também entraram neste campo, todavia de forma diferente. A entrada dos grupos desfavorecidos e das classe s trabalhadoras foi, talvez possamos dizê- lo, pela ‘porta do cavalo’ em termos das teorias autobio gráficas. Não tive ram direito a entrar pela via da literatura, como aconteceu com as autobiografias dos homens de élite (ou que à élite passaram a pertencer), antes pela via da des crição dos ‘factos’, da ‘realidade’. Referindo o estudo de Pamela Fox, Steedman escr eve que “é um pre ssuposto académico comum que as produções escritas das pess oas das classes trabalhadoras pertencem a algum reino de ‘factos’ ou ‘rea lidade’, e não à ‘literatura’, e serão então território dos/as historiadoras/es e não do/a crític o/a literário/a” (Fox, cit. por Steedman 2000: 26 ). Tentando contornar esta aparente dicotomia entre ficção e factos, e assentando numa perspectiva em que subjectividade e experiência se entrela çam de formas variadas e complexas (Lewis 1993, Weedon 1989), de algum a forma se assume que o que as mulheres contam é ‘realidade’, se não ‘r ealidade’ de factos objectivos das suas vidas, pelo menos ‘realidade das suas subjectividades’. A teoria feminista pós-estruturalista têm trazido para o debate o problemático que é assumirmos questões de ‘verdade’. Segundo Carolyn Steedman (2000), se estamos interessadas nas aut obiografias, então trabalhamos com dois pressupostos tácitos. O primeiro, é que, de alguma forma, a produção de formas escritas 293 tem algo a ver com a produção das subjec tividades; e o s egundo, de que este é um processo voluntário, que existe ali um ímpeto para contar o self, que vem de dentro, e que o impulso para o fazer, na linguagem falada ou escrita, é parte do próprio processo da construção do self ” (idem: 25). A questão da autobiografia tem saído da conc entração exc lusiva na palavra escrita, mudando para o terreno mais geral da narrativa, em que se inclui quer os r elatos escritos, quer a narrativa oral. Temos assistido ao pr o liferar de termos próximos em diversas ár eas — psicologia, sociologia, história , literatura: narrativa, narrativi dade, narrativizar, récitas de vida, testemunhos, etc. (Lulle 1998, Massolo 1998, Tierney 2000). Também os estudos em torno da transição das sociedades tradicionais para a modernidade (Ariès 1978, Hall e Gieben 1992) de alguma forma estabelecem a passagem de uma indiferenciação da pessoa face ao grupo social a que pertencia para uma lenta e progressiva emergência de um individualismo, a construção de um sujeito individua l despernado face às suas amarras comunitárias e familiares. Anthony Giddens descreve um desenvolvimento de 300 anos no Ocidente, pelo qual a personalidade e a auto-identidade acabou por ser compreendida como “o self … reflexivamente compreendido pela pessoa em termos da sua biografia”. Ele compreende ‘ autobiografia’ não tanto como uma forma de escrita, nem como um genre 30 , mas como uma forma de pensar e de sentir, como um modo de cognição. De acordo com Giddens, o processo de realmente escrever uma autobiografia, publicá-la e conseguir que seja lida é uma variante menor de um “pensamento autobiográfico” muito mais generalizado. 1.2. Memória, ficção e pe rsonagem na construção de histórias de vida Segundo Steedman (2000), o trabalho autobiográfico tem raízes históricas que vêm já detrás do próprio processo histórico das ciências sociais: Ainda não saímos de stas sugestõ es tentativas, de que a articulação literá ria moderna da identidad e do self e da person agem teve as su as origens ent re o grupo dos/as mai s pobres, tanto no reino literário como no reino so cial, quando os seus relatos verbais foram registados por outro s/as. Mas parte do processo social envolvido — o contar um a n arrativa plebeia; a sua apropria ção e o uso dos seus enredos e temas p or outros/as mais di stinto s/as — é realizad a e descrita nos textos do sé c. XVIII, o que oferece evidência válida da s formas pel as quais a narrativa dos pobres pode ser usa da 30 Estilo literário. 300 e histórias tristes convivem com a nossa existência e pretendíam os dar conta dessa diversidade. Por vezes, fomos assaltadas pela “angústia positivista”, ou seja, a angústia de querer realizar uma pesquisa “repres entativa”. Reiterar que é sempre assim, em qualquer investigaçâo, não resolve o vazio que s e abre no estômago e não nos sossega sobre até onde se admite a incompletude, em termos de evidência empírica? Assim, impulsionadas para ficar a saber algo mais do que já se sabi a, optou-se por fazer histórias de vida de mulheres que abrangessem algum a diversidade; sem veleidades de representatividade, procurámos dialogar com: camponesa, operária, professora , cabeleireira, enfermeira, sindicalista, médica, empresária, cigana nóm ada, cigana sedentária, negra, comunista, conservadora, órfã, liberal, lé sbica, cega, investigadora, feminista marxista, empregada doméstica, feminista radical, mu lher rural, feminista católica, mulher católica, moradora e activista num bairro social, militante de base 32 . E a todas estas mulheres se fizeram entrevistas em profundidade e se tentou ir o mais longe po ssível até verificar se se conseguia ou não fazer histórias de vida. O número constitui uma polémica epistemológica que não pare ce estar resolvida. Desde o argumento de que a unicidade de uma hi stória de vida, pelo seu carácter sincrético, permite ler o social até outras investigações onde o número andam muito l onge deste primeiro dígito alfanumérico. Por exemplo, Jennifer J ohnson entrevistou sessenta e três mulheres da classe trabalhadora (2002) e co nsidera que fez histórias de vida. No entanto, estávamos interessadas nas singularidades das vidas de algum as mulheres e, como afirma Ferrarotti, “os elementos quantificáveis de uma biogr afia são geralmente pouco numerosos e marginais: ela põe inteirament e em relevo a qualidade” (1983: 82), já que uma história de vida se constitui como “conhecimento organizado embora críptico que é preciso aprender a decifrar” (idem: 83). E, neste sentido, a quant idade só atrapalha, porque impede uma atenção em profundidade às singul aridades e especificidades. Portanto, a ideia não foi fazer uma investigaç ão de tipo extensivo, antes partir do princí pio de que mulheres negras, ciganas, lésbicas, operár ias, têm experiências de vida diferentes e provavelmente percursos de vida marcados pelo racismo, pela homofobia, pela 32 A linguagem é de facto u m espartilho. Por e xemplo, aqu i ao tent ar descrev er por quem s e optou para c onstruir as histórias de vid a, é difícil decidir e ntre o plur al e o singul ar: qualquer vers ão deixa s empre um travo d e general izações que gostaríamos de evitar. Enfim, entre um e outro, escolhemos o singular… 301 discriminação, para além do sexismo, mas que não se constituem nem como representativas nem como exemplo. Então, nes te aspecto, tornou-se importante dar a voz a mulheres que pudessem, através das suas narrati vas, contar-nos as suas experiênc ias e percursos onde, talvez, as questões da opress ão, racismo, discrimin ação, exploração e homofobia se tornassem visíveis. Ferrarotti al erta contra “a reduç ão da biografia a uma simples «história de vida» social utilizável c omo exemplo, caso particular, ilustração numa interpretação que se situa a um nível mais el evado de abstracção” (idem: 83). É no sentido de evitar este reducionismo epistemológico numa pesquis a em histórias de vida que construímos os capítulos de análise mantendo as singularidades das s uas vidas, evitando fazer agregações abusivas, a não ser quando eram de facto pertinentes. Algumas auto/biografias estão mais presentes em al guns capítulos do que noutros porque as narrativas evidenciaram mais uns aspectos do que outros. Decidimo-nos também pelo critério de não escolher as mulheres de maio r protagonismo social: existem já diversas obras em português e sobre as mulheres portuguesas (embora ai nda não suficientes) sobre mulheres públicas e protagonistas (veja- se, por exemplo, Pedr osa 2000; Bettencourt e Pereira 1995). Para além do mais, colocam outras questões que se relacionam com a maior dificuldade de anonimato e, portanto, maiores problemas em entrar em territórios mais íntimos ou interditos. Assim, embora algumas das nossas entrevistadas sejam mulheres com algum protagonismo social, a nossa es colha recaiu sobre as vidas “típicas” (Stanley 1992, Araújo 2000), isto é, mais próximas dos quotidi anos de todas as mulheres. Foram realizadas, mais de uma centena e meia de encontros, incluindo diálogos e entrevistas (ver Quadro das Entrevistas). Alguns foram efectuadas no percurso de selecção da pessoa a biografar, por um lado, porque o cr itério escolhido era a diversidade soc ial, implicando um esforço de de scentração dos conhecimentos pessoais, por outro, porque o próprio processo da construção das história s de vida não resulta da exc lusiva decisão do/a investigador/a. No decurso dos diferentes encontros com as mulheres, a interacção que se estabelece vai também contribuindo para definir quem está mais disponível para contar a sua história, quem vai mostrando mais inte resse e entusiasmo e quem mostra mais confiança na pessoa que desempenha o papel de reco lher e reconstruir a história. Este processo é uma relação a duas, interfer indo também factores que têm a ver com a disponibilidade real da narrador a e da inv estigadora. A decisão in icial tinha sido elaborar 302 dez histórias de vida e diversas narrativas co mplementares. Esta decisão revelou-se não exequível, na medida em que o tempo e disponibilidade emocional não per mitiram chegar a um número tão elevado de auto/ biografias. Com aquelas em que a biografia ou a narrativ a biográfica não foi completada, mantém-se o compromisso de continuar até completar o processo, agora já posteriormente a esta investigação. Enfrentaram-se diversas dificuldades na se lecção de algumas das narradoras. Um dos casos mais difíceis foi a escolha de uma mul her cigana. Começamos o proc esso realizando entrevistas colectivas a um conjunto de mu lheres ciganas que se encontravam no ensino recorrente por via do Rendi mento Mínimo Garantido 33 , numa pequena cidade da zona centro. Mais tarde, solicitámos a possibilidade de realizar enc ontros individu ais explicando que era para “fazer a história da sua vida”, tendo ainda realiz ado alguns. O problema surgiu quando quisemos construir as narrativas. As transcrições evidenciaram-se como obstáculo que nos levou a não optar por se leccionar alguma destas mulher es para uma história de vida. Por um lado, revelaram-se pessoas de par cas palavras, resumindo as suas opiniões e experiências de forma bastante sintética, tornando difíc il a construção de uma narrativa 34 . Por outro, falavam uma língua di ferente, que designavam como galiciano, o que tornou muito difícil a compreensão e transcrição de algumas expressões aquando da passage m a texto escrito. Apesar de termos sentido compreend er todo o diálogo quando em presença destas mulheres, o certo é que, na transcrição, ficavam muitas lacunas para preencher. O grande desconhecimento sobre a li nguagem desta comunidade impediu-nos de tentar substituir algumas lacunas por expressõ es que dissessem o que tínhamos entendido. Corríamos um grande risco de in fidelidade ao seu dis curso e, nesse sentido, optámos por abandonar a escolha de uma mulher cigana desta comunida de. Entretanto, estabelecemos contacto com uma mulher cigana, activi sta de uma associação de mulheres ciganas da zona sul que fala português e tem, além de tudo o mais, uma experiência muito interessante de activismo pelos direitos das mulher es ciganas. Foram marcados três encontros com esta mulher e em nenhum deles foi possível realizar nenhuma entrevista gravada. O primeiro foi marcado com demas iada antecedência (duas semanas) e, quando 33 Esta parte da investi gação foi também re alizada no contexto de um projecto financi ado pe lo Alto Com issariado par a as Minorias Étnicas, designa do “Padjas e Cig anas: em busca de di álo go intercultur al, cuja coordenadora foi Helena Costa Araújo (ver Relatório). 34 Nestas entrevistas e com mulheres cam ponesas, vínha- no s diversas vezes à memór ia a obra de T eresa Joaquim, Dar à Luz , onde a autora refer e esta parc imónia da palavra no mu ndo rura l que ela estudou e que, em parte, pode rel acionar-se com o mundo simbólico rur al da ligação entr e o real e a magia. A pal avra ainda tem po deres… 303 chagámos ao encontro, ela precisou de ir re solver um problema que entretanto tinha surgido com a filha e a sobrinha. O segu ndo, marcado com maior proximidade temporal, revelou-se também inoperacional porque era dom ingo e ela estava com a família toda, com funções de “matriarca”, não podendo, portanto, retirar-se para um encontro com mais privacidade. Convidou para ficarmos a conv iver com toda a gent e, o que fizemos durante um tempo, e regressámos num comboio mais cedo. No último encontro, marcado na CIDM de Lisboa, para um momento anterior a uma audiência que ela tinha marcada com a Presidente, quando chegámos, ela tinha decidi do ant ecipar-se à hora marcada para a audiência e tinha ficado na CIDM à espera de ser recebida porque não queria ser “ultrapassada” por outras pesso as com quem a Presidente ta m bém iria reunir. Como a audiência foi efectuada à hora marcada, isto é, três horas depois, e no final nenhuma de nós tinha disponibilidade para se encontrar, mais uma vez não foi possível realiz ar a entrevista. As dificuldades de deslocação e as incertezas de poder efectivamente registar alguns diálogos com esta mulher levaram-nos a equacionar entrevist ar outras. Assim, tomámos conhecimento de uma comuni dade cigana no norte, que também fala correntemente o português. Embora bastante difer ente, quer das mulheres do grupo inicial, porque a comunidade já está sedentariz ada há bastante tempo tendo até uma boa integração no local, quer da activista da associação de mulheres ciganas , já que nesta comunidade ainda não se coloca este tipo de activismo, este contacto permitiu-nos o estabelecimento de diálogos mais prolongados e gravados com uma mulher cigana de que resultou a história de vida de D. Graciela. Não foi fácil, também, escolher a mulher lésbica para r ealizar um a história de vida. Procurar uma lésbica enfrenta o problema do “armário”, já que muito poucas “dão a c ara”. Optou-se por contactar algumas das associações do movi mento lgbt e foi, a partir desse contacto, que se entrevistaram duas acti vistas do Clube Safo, e elaborad o uma história de vida. Encontrar uma mulher negra foi também um per curso difícil, expresso pelo facto de ser um dos casos em que a história de vida ainda não está finalizada. Contactámos duas mulheres, mas só foi possível realizar entrevistas com uma, devido às ocupações profissionais da segunda. Aqui, revelou-se importante o facto de não termos grandes conhecimentos pessoais com mulheres negras na faixa etária entre os quarenta e os sessenta anos que se dispusesse m a dialogar connosco e a co ntar factos e experiência s 304 da sua vida. O mesmo se passou ao procurar uma mulher portador a de deficiência. Só estabelecemos diálogos com uma mulher cega, exactamente pela ausênc ia de contactos anteriores com este grupo de mulheres. Noutros casos, a dificuldade fo i por razões opostas. Eram tant as as mulheres sobre quem se poderia realizar uma história de vida que as decisões não foram fáceis. Foram os casos das camponesas, das operárias, das sindicalista s, das professoras e das feministas. Não se tinha intenção inicial de cons truir histórias de vida de prof essoras, mas os contextos de intervenção em que esta investigação decorreu levaram ao conhecimento e contacto com muitas mulheres desta profissão. Realizaram-se diversas entrevi stas e a história de vida foi seleccionada pela energia da narr adora que estimulou e tomou iniciativa diversas vezes para elaborarmos a história de vida em tem po por ela considerado importante. Também para isso contribuiu o facto de morar numa zona mais acessível do que outras entrevistadas. Neste grupo, os afazeres profissionais e dispon ibilidades dive rsas obrigaram à distanciação face a algumas das entrevistadas. No grupo das camponesas, em que também se realizaram diversas entrevista s, acabámos por selecci onar a primeira, porque se encontrava numa faixa etária não tão avanç ada como a maioria das outras, embora já com diversos filhos também. Simultaneamente, a interacção estabelecida foi sendo muito forte, impulsionando-nos para a sua escolha. Ti vemos diversos encontros com esta mulher, nem todos puderam concretizar-se em diálogo gravado devido aos c onstrangimento s da sua vida familiar, da violênc ia do marido, e porque, mais tarde, passou a ser controlada também pelo filho mais velho. Finalmente foi difícil, devido à sua situ ação de vitimização, sair dos episódios de violênci a para outras fases e aspectos da sua vida p orque ela estava muito centrada nessa questão (c omo, aliás, aprendemos que é um a das características do próprio processo de vitimização). No grupo das sindica listas, colocou-se a mesma questão de quem escolher dada a grande diversidade. Escolhemos uma mulher com uma grande experiência sindical, que não era o caso de out ras, operária de um dos sectores mais desfavorecidos na área do emprego, e que, face às grandes e conflit uosas correntes do movimento sindical, se situava nos chamados “sindicatos independentes”, isto é, que não estavam filiados nem na CGTP nem na UGT. Finalmente, no grupo das feministas, a questão foi ainda mais difícil de resolver, muito devido à minha implicação no ca mpo. Foram entrevistadas feministas de diversas organizações (APEM, Associação Portuguesa 305 a Mulher e o Desporto, APF, MDM, Clube Safo , GRAAL, UMAR, além de feministas que fizeram parte dos grupos radicais dos anos oit enta, hoje extintos). Eliminámos os grupos radicais dado que não têm actividade hoje, e o Clube Safo porque, coincidentemente, entrou pela via da história de vida da mulher lésbica. Em relação à APEM, tínhamos efectuado uma investigação s obre a associaç ão, para o que entrevistámos quatorze mulheres que tinham pertencido à direcção e considerou-se que a publicaç ão desse trabalho (na ex aequo ) constituía uma visibilização do papel desta asso ciação para esta reflexão sobre o feminismo. Também as entrevistadas são, em geral, mulheres de gr ande protagonismo académico. O mesm o se poderia diz er em relação à APMD que edit ou um número da revista ex aequo . As sim, entre o MDM e a UMAR , a opção foi facilitada pela maior dificuldade de entrevistar mulheres do MDM para contarem as suas vidas e não apenas as actividades políticas da associaç ão, e pelo facto de não estar assumido no MDM que são uma associação feminista (designam-se como associação feminina ), e uma maior proximidade com a UMAR. Foi uma decis ão muit o difícil, porque efectivamente teríamos gostado de fazer as biografias pelo m enos de uma mulher de cada uma destas associações. É um trabalho que pode ser poste riormente continuado. Inicialmente, tínhamos intenção de integrar duas histór ias de vida de feministas, que se revelou completamente não exequível no tempo de que disp únhamos. Tentarem os concluir esse trabalho a seguir à etapa que corresponde a esta investigação. 2.2. A construção das histórias de vida e os procedimentos de análise de conteúdo O processo da elaboração das histórias de vida No que se refere à elaboração de cada história de vida, poder-se-ia dizer que os procedimentos relevam da opção metodológica de seguir o caminho epistemológico apontado por Araújo (1993) e Ferrarotti (1983): São bem conheci das as linhas g erais do método sart reano progressivo-reg ressivo para uma ciência social da biog rafia: leitura horizont al e vertical da biografia e do si stema so cial, movimento heurísti co de vai e vem da biografia ao sistema social, do sistema social à biografia. A SOUDURE deste duplo movimento significa a re construção com pleta das «totalizaçõ es» recíprocas que exprimem a relação dialéctica entre a so ciedade e o indivídu o específi co. O conhecime nto integral do homem torna-se o conhecimento integral do outro. Colectivo so cial e universal sin gular esclarecem-se re ciprocamente. [Document text truncated for crawler view.]