Mulheres, espaços e mudanças: o pensar e o fazer na educação das novas gerações
Full text
UNIVERSIDADE DO PORTO
FACULDADE DE PSICOL OGIA E CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO
“MULHERES, ESPAÇOS E MUDANÇAS:
O pensar e o fazer na educação das novas gerações”
Tese de Doutoramento em Ciências da
Educação, por Maria José Magalhães,
sob a orientação da Prof. Doutora
Helena Costa Araújo.
Janeiro de 2005
1
Índice:
PRIMEIRA PARTE ................................................................................................................. ............................... 5
Introdução Geral ............................................................................................................... .................................... 5
C APÍTULO I – As H ISTÓRIAS DE VIDA NA PRIMEIRA PESSOA ..................................................................................... 17
1. Hercília de Nogueira, co nfrontando a viol ência no lar ....................................................................... ......... 17
1.1. O trabalho árduo da s mulheres no campo .................................................................................... ...... 17
1.2. “Entrar na minha casa é como se estivesse a ent rar num in ferno” .................................................... 19
1.3. “A pancada”, a fuga e o regr esso com “um bag acinho e mel” ............................................................ 28
1.4. Cuidar dos filhos, cuid ar do lar: “Negociei mesm o: tenho que levar as coi sas da melhor manei ra” .. 36
2. Lurdes Martins, sabe r nem sempre é poder .................................................................................... ........... 41
2.1. À descoberta, com mar ao fundo: jovem e «terrí v el» ........................................................................ . 41
2.2. “Um início profissional muit o trabalhoso mas mu ito agra dável” ......................................................... 49
2.3. “A gravidez em clausura” .................................................................................................. .................. 54
2.4. “A vida de casada foi uma po rcaria” ....................................................................................... ............ 61
2.5. “Agora a parte fundamental: uma rela ção co mpensadora” ................................................................ 73
3. Maria Carolina Cardoso, “o que eu sou é professora” ......................................................................... ...... 76
3.1. A infância entre o moinho e África, crescen do com o trabalho e as letras ......................................... 76
3.2. “ Eu ouvia o riso trocista dos deuse s ” .................................................................................................. 87
3.3. O «ataque» do bichinho da docênc ia e um marido muito especial .................................................... 92
3.4. A gestão deu cabo da minha fé na s pesso as ................................................................................. .. 114
3.5. Conseguir que entre um ra io de luz, é fantásti co!......................................................................... .... 118
4. Ermelinda Ribeiro, a mili t ância tem sido a minha vida ....................................................................... ...... 129
4.1. “Quando morre uma mãe, é co mo uma árvore que se corta” ........................................................... 129
4.2. A entrada e a militância na JOC.......................................................................................... ............. 138
4.3. A mudança da cost ura para a fábrica ....................................................................................... ........ 147
4.4. O convencimento das pessoas de que têm força é mu ito importante .............................................. 151
5. Alzira Cordoeiro, a conquista da au tonomia e da independênci a como in visual ..................................... 167
5.1. Infância e juventude: das cores da aldei a para um internato de raparigas cegas ............................ 167
5.2. A revolução com uma bengala: sentido de humor e irreve rência ..................................................... 172
5.3. Intervir para melhorar a qualidade de vida da população cega ........................................................ 181
6. Teresa Evert, ser lés bic a numa cidade de província .......................................................................... ..... 193
6.1. A escola: o des afio do saber .............................................................................................. ............... 193
6.2. Não aguentar fingir: querer emergir da existênc ia subterrânea ........................................................ 202
6.3. Partir do pessoal para o político , fazer o político à medida do pessoal ............................................ 212
6.4. Ser professora e da r a cara c omo lésbica .................................................................................. ...... 220
7. Graciela das Nieves, cigana não morre se tem sangue bom ................................................................... 233
7.1. A infância: entre outras rapa rigas e as tare fas domésticas .............................................................. 233
7.2. Apesar da tradição, casei com que m eu que ria .............................................................................. .. 234
7.3. As ciganas, a materni dade, a escola e o empr ego… ....................................................................... 238
7.4. Viver co m o raci smo .......................................................................................................................... 247
8. Margarida Pimenta, o trabalho fe minista ..................................................................................... ............. 250
8.1. Crescer numa fa mília ‘mat riarcal’ ......................................................................................... ............. 250
8.2. Oposição ao fascis mo ...................................................................................................... ................. 254
8.3. Tempos de estu dante ....................................................................................................... ................. 258
8.4. Namore i muito! ............................................................................................................ ...................... 266
8.5. E fui para o trabalho com as mu lheres… .................................................................................... ...... 271
C APÍTULO II. O PERCURSO DE PESQUISA EM HISTÓRIAS DE VIDA ............................................................................ 287
Introdução ..................................................................................................................... .................................... 287
1. Opções epistemológicas: as histór ias de vida no centro de um percurso ............................................... 288
1.1. A autonomia do mé todo biográfico .......................................................................................... ......... 289
1.2. Memória, ficção e personagem na construção de hist óri as de vida ................................................. 293
2. Questões de mé todo .......................................................................................................... ...................... 297
2.1. Porque escolher estas mulheres? Representatividade e q uantidade versus profundidade ............. 299
2.2. A construção das hist órias de vida e os procedi ment os de anális e de conteúdo ............................ 305
3. Apresentando as biografadas ................................................................................................. .................. 320
Concluindo ..................................................................................................................... ............................... 328
2
SEGUNDA PARTE .................................................................................................................. ......................... 330
C APÍTULO III – P REOCUPAÇÕES TEÓRICAS EM TORNO DA E DUCAÇÃO E DA S SUBJECTIVIDADES E AGÊNCIA DAS
MULHERES ............................................................................................................................... ........................... 331
Introdução ..................................................................................................................... ................................ 331
1. Narrativas bio-auto-gráfica s e a construção da cientifici dade em ciências da educação ........................ 332
1.1. Subjectividades, linguagem e ex periência .................................................................................. ...... 332
1.2. Histórias de vida, cientificidade em educação e estudos sobre as mulheres ................................... 337
1.3. Silêncios, vo ze s e metáforas .............................................................................................. ............... 339
2. Pensar os conceitos de partici paç ão e cidadania nas vi das das mu lheres ............................................. 343
2.1. Ampliando o conc eito de cidadania ......................................................................................... ......... 346
2.2. Pensar a agência das mulheres para uma cidada nia incl usiva ........................................................ 351
2.3. Reflectindo sobre a ag ência política das mulheres......................................................................... .. 354
3. Subordinação e eman cipação: a endurance na s lutas fe ministas ........................................................... 357
3.1. Em torno do conceito mulhere s para pensar as ques tões da opressão ........................................... 359
3.2. Feminismos: correntes, debates e movimentos contempo râneos.................................................... 366
4. Estado e «soft policying» truncando sentidos da democracia para as mulheres .................................... 380
4.1. A leitura de Fraser da repr odução material e simbólica.................................................................... 381
4.2. Redistribuição e reconhecimento, condições básica s de cidadania ................................................ 389
5. Educação e mudança soci al nas vidas de mulheres ............................................................................. .. 389
Revisitando…................................................................................................................... ............................. 393
C APÍTULO IV – C ONHECENDO OS CONTEXTOS SOCIAIS DA S NARRATIVAS ............................................................... 395
Introdução ..................................................................................................................... ................................ 395
1. Acerca da evolução hi stórica dos contextos s o ciais das narrativas......................................................... 395
2. O contexto actual da produção do texto ...................................................................................... ............. 401
3. As políticas sociais na s vidas das narradoras ............................................................................... ........... 403
3.1. O caso da Lei de Bases da Famí lia e do Código de Tr abalho de 2002 ........................................... 407
3.2. Cidadania e direitos sociai s: o c aso do rmg versus rsi .................................................................... . 409
4. As questões da igualdade nas políticas s ociais .............................................................................. ......... 411
4.1. Cidadania e inte rvenção técnica: o caso da vi olência contra as mulheres ...................................... 412
5. Agências socializadoras em tempos de globalização ........................................................................... ... 417
5.1. A socializ ação da globalização ............................................................................................ ............. 418
Observações finais ............................................................................................................. .......................... 419
C APÍTULO V – Q UOTIDIANOS DE TRABALHO , FAMÍLIA E ( NÃO ) LAZER ...................................................................... 421
Introdução ..................................................................................................................... ................................ 421
1. Sintonizando famílias , a partir das narrativas........................................................................................... 423
1.1. Quotidianos familiares, (na infânc ia e juventude), a partir das nar rativas ..................................... 423
1.2. Muita dureza e tr abalho, nenhuns direitos ................................................................................. ....... 425
1.3. ‘Comunidade’: regulação da ordem patriarcal versus apoio ............................................................. 431
1.4. Resistência, dualismo e mudança ........................................................................................... ......... 434
1.5. Fragmentos, separa ções e iti nerâncias ..................................................................................... ....... 441
2. Os trabalhos nas experiências e nas vozes ............................................................................................. 444
2.1. Tradição familiar de m ulheres de trabalho : mães e avós trabalhadoras .......................................... 444
2.2. As profissões ditas ‘femininas’, doc ência e enfermagem, nas vozes das mulheres ........................ 449
2.3. Experiências em cargos de gestão e direcção têm a marca históric a de género ........................... 453
2.3. Etnicidade e trabalho: a entrada das ciganas na re lação sala rial?................................................... 454
2.4. Relação subjec tiva com o trabalho ......................................................................................... .......... 457
3. Entrelaços e desenlaces nos quotidianos de trabalho e família .............................................................. 458
3.1. Na família patriarcal, não há lugar para o afecto: a regulação da sexualidade e do corpo ............ 459
Algumas conclus ões em torno dos quotidianos familiares, de trabalho (e de não lazer?) ...................... 465
CAPÍTULO VI – S ILENCIAMENTOS , SUBJECTIVIDADES E VITIMIZAÇÃ O : PROCURANDO A AGÊNCIA DAS MULHERES .... 469
Introdução ..................................................................................................................... ................................ 469
1. Modos de sujeição pela mate rnidade .......................................................................................... ............. 470
1.1. Operárias e mães: duas posiçõ es de su jeito irreconciliáveis? ......................................................... 473
1.2. Condições pré-modernas de maternidade em co ntextos rurai s ....................................................... 475
1.3. Mães sós e aborto clandesti no: estigma, ve rgonha e medo ............................................................. 476
1.4. Maternidade como obstáculo à criação artística e ao conheci mento ............................................... 479
3
1.5. Maternidade lésbica: mais um desafio ao patriarcado? .................................................................... 480
1.6. Maternidade em mudança em comunidades ciganas: mães e f ilhas, destinos diferentes? ............. 481
1.7. O retomar da domesticidade pelos discursos públicos e pelas políticas sociai s .............................. 484
2. Corpos diferentes e sexualidades reguladas .................................................................................. ......... 485
2.1. Clausura e invisibilidade como protecção à atenção discriminatória ................................................ 487
2.2. Impedimentos nas dimens ões afectiva e familiar ............................................................................ . 489
2.3. Sexuali dade e culturas .................................................................................................... .................. 492
2.4. Envel hecimento ............................................................................................................ ..................... 495
3. Etnicizaçã o e racialização das vidas e s ubjectividades de ciganas ......................................................... 495
3.1. Racismo e perseguição: constrangi mentos para encontrar um l ugar para habitar .......................... 496
3.2. Mulheres e homens: mundos diferentes ma rcados pela tradiçã o .................................................... 500
3.3. Aceitar a exploração para sair da miséria? ................................................................................ ....... 505
4. Relações de intimidade atravessadas de viol ência ............................................................................ ...... 505
4.1. Reflectindo so bre os conceitos ............................................................................................ ............. 506
4.2. Terrorismo patriarcal e uxoricídio : “se não és minha, não és de ninguém” ...................................... 516
4.3. Significados e práticas que assume a violência nas expe riências relatadas ................................... 518
4.4. Violência contra as mulheres na famí lia a par da violência contra as crianç as ................................ 523
5. Formas de resi stência e de agência .......................................................................................... ............... 525
5.1. A solidariedade, a amizade e a edu cação para a indep endênci a e autonomia ............................... 527
5.2. Fugas e regressos: resistin do às teias dos constrangimentos ......................................................... 529
5.3. Humor, irreverência e capacidade de comunicação: estrat égias de re siliência ............................... 530
5.4. Resistir às i dentidades atribuídas ........................................................................................ ............. 531
5.5. Estratégias para lidar com a violência na intimi dade ...................................................................... .. 537
Em jeito de re flexão final ..................................................................................................... ......................... 541
CAPÍTULO VII. F EMINISMOS , C IDANANIA E P RODUÇÃ O DE CONHECIMENTO DENTRO E FORA DA ACADEMIA ............ 545
Introdução ..................................................................................................................... ................................ 545
1. Ultrapassando a dico tomia público / privado ................................................................................. ........... 546
1.1. Uma moral restrita e o gaze masculi no marcaram a agência das mulheres .................................... 546
1.2. Da vivência de dores calada s, à interiorizaç ão dos direitos ............................................................. 547
1.3. O 25 de Abril: a conquista do direito à parti cipação polític a activa no espaço público da rua ......... 548
2. A tomada de consciência: aprender a ve r e a agir para além de si pr ópria/o .......................................... 552
2.1. Articular as posições objectivas com as subje ctivas: “o convencimento das pessoas de que têm
força, é muit o importante” ..................................................................................................... ................... 553
2.2. A construção do colectiv o: a formaç ão de um ‘c orpo’ ...................................................................... 554
2.3. Estratégias de força e poder .............................................................................................. ............... 556
3. A construção do sujeit o político feminista .................................................................................. .............. 561
3.1. Ultrapassan do obstáculos .................................................................................................. ............... 562
3.2. Construindo uma po lítica fe minista ........................................................................................ ........... 567
3.3. Especificidades da pol ítica feminista: aborto e violência contra as mulheres no cerne d a actual
política feminista ............................................................................................................. .......................... 574
4. Produção de conhe cimento dentro e fora da ac ademia .......................................................................... . 584
5. A importância do internaciona lismo nas políticas feministas ................................................................. .. 588
Em jeito de conclusão: conhecer a agência po lítica e a agência fe minista das mulheres.......................... 591
CONCLUSÕES FINAIS .............................................................................................................. ...................... 597
Subjectividades, sujeito e agência: ressonân cias de feminismo nas vidas de mulheres ........................ 597
Estratégias de resistência: a agência na esfera privad a e da inti midade ................................................ 602
Agência política e agência feminista – equacionando a cida dania das mu lheres ................................... 605
Mensagens cont raditórias ....................................................................................................... ................. 606
Imaginando caminhos para uma pedagogia cr ítica feminista .................................................................. 607
Finaliz ando…................................................................................................................... ......................... 613
Bibliografia referenciada ...................................................................................................... ............................. 617
4
5
PRIMEIRA PARTE
Introdução Geral
Esta tese inscreve-se num percurso de procur a da agência das mulher es e das d iferentes
opressões de que são alvo, no sentido de, atravé s das suas hist órias de vida, conhec ermos
as formas de cidadania que lhes têm estado di sponíveis e outras pelas quais têm lut ado.
Preocupa-nos conhecer os processos pelos quai s as mulheres contribuem para a sua
subordinação, aqueles em que, pelo contrári o, elas a desafiam e outros em que
conquistam, no contexto das s uas experiênc ias e subjectividade s, a s ua liberdade e
emancipação.
A modernidade e os outros processo s com ela associados, em part icular, a divisão social e
sexual do trabalho, construíra m um conjunto de dicotomias estruturadoras da vida socia l
que tiveram impacto nas vidas das mulheres, nas percepções que sobre elas socia lmente
se construíram e nas formas como elas próprias as interiorizaram, lhes resistiram ou as
desafiaram. Estruturando uma divi são central entre vida pública versus vida privad a, a
cidadania moderna liberal assentou na invisib iliz ação do contributo produtivo das mulheres
para a sociedade, e daí para a história, o que nos tem historicamente remetido para uma
extensa e misteriosa zona de silêncios. Assim, pretendemos também caminhar para um
entendimento conceptual dos silêncios e das vozes de mulheres, onde a sua codificação e
descodificação de alguns silênc ios e de algum as vozes se elaboram em ordem a encontrar
as ressonâncias de discursos feministas e / ou igualitários que ecoam das experiências
transcritas.
De forma críptica e indirecta a que a metodol ogia em histórias de vida já nos habituou
(Ferrarotti 1983), queremos chegar a aspectos c onsiderados relevantes pelas mulheres no
que deve ser uma educação democrática que tril he um caminho para uma cidadania plena.
Neste trabalho, pretende-se pensar como os espaços-tempos educativ os — familiar,
escolar, informal, não-formal, social — permitem equacionar desafios, não apenas quanto
às hierarquias de género mas também às de «r aça», etnia, orientação sexual, região,
capacidade e classe.
12
Para estas histórias de vida, a abordagem empírica foi realizada de três ângulos. De um
lado, ouvindo directamente as mulheres através de múltiplos en contros, num total de mais
de centena e meia, gravados e transcritos liter almente, tentando reflectir o mais fielmente
possível o que foi a interacção estabelecida. Destes encontros, alguns realizaram-se em
diálogo, direccionado à elaboraç ão de histórias de vida, onde se dei xou cada mulher contar
o que considerava relevante da sua vida. Para al ém destes, fizemos entrevistas temáticas,
tendo em conta a intenção de conhecer melhor algumas realidades que emergiram dos
relatos das narradoras. Estão aqui, por exemplo, entrevistas dirigidas a técnicas que
trabalham na área da violênc ia contra as mulheres, dos maus tratos contra as crianças, da
adopção, da integração de pessoas portadoras de deficiência , do activismo feminista,
sindical, partidário, lésbico, da investigação na área dos estudos sobre as mulheres, que
são usadas como apoio, reforço ou confront o, da interpretação e análise efectuada sobre e
com as histórias de vida. De outro lado, fizemos uma análise documental de alguns
diplomas de políticas sociais e de algum material saído nos mass media. Esta análise
constitui-se como um auxiliar para os caminhos teóricos e reflexivos para os quais a análise
e compreensão das histórias de vida nos ia le vando. De outro, ainda, realizou-se trabalho
de terreno, registando o que se foi fazendo na ac tividade de pesquisa que, muitas vezes,
se entrelaçava com outras acções, quer em termos dos projectos no campo educativo, quer
em termos do activismo feminista, sobre o qual mantivemos um diário de bordo regular.
Para não sobrecarregar o número de páginas deste trabalho que se pretende focado na s
histórias de vida, este material não foi sujeit o a análise sistem ática, apenas contribuindo
para uma compreensão mais abrangente do nosso lugar na interacção estabelecida para a
pesquisa. Análise de cont eúdo sistemática foi o pr ocedimento adoptado para uma
interpretação e compreensão do que nos foi sendo dito ao longo diálogos par a as histórias
de vida e das entrevistas temáticas.
• Organização do texto da pesquisa
Posto isto e apresentando os ca pítulos que se seguem, a primeira parte abre com algumas
histórias de vida de mulheres com quem es tabelecemos uma relação mais ou menos
prolongada, da qual se regi staram alguns dos seus relatos. A sua selecção, além do critério
da diversidade de experiência s, obedeceu ao que alguns/mas investigadores/as
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denominaram de “bola de neve” ( snow ball ), na medida em que va mos, em cadeia,
conhecendo cada vez mais possíveis entrevist adas, e também às possibilidades corporais
e temporais que impuseram as suas limit ações e constrangimentos, como fazem a
qualquer actividade humana. Tentou-se, neste prim eiro capítulo, preservar algo do discurso
autêntico das mulheres biografadas e si multaneamente «apurar» algumas questões dado
que a sua forma de apresentação — a escrita — é estruturalmente diferente da forma com
que nos foi entregue — a or alidade. Nesse s entido, limpar am-se algumas expressões
«bengala» ou repetições necessárias na oralidade mas que pesam e impedem a
comunicação na forma escrita. Completa-se esta primeira parte com o segundo capítulo,
onde se expõem pormenorizadam ente as opções epistemológicas e metodológicas, os
procedimentos, os dilemas e as questões que se enfrentaram.
A segunda parte começa com o terceiro capítulo respeitante às preocupações teóricas que
acompanharam este processo de conhecimento e simultaneamente apres enta o que se
considera, nesta tese, essencial para uma cientificidade em educação, incluindo alguns
contornos da pedagogia feminista. Percorrem-s e conceitos, visões, perspectivas mais
distanciadas para olharmos em v oo de pássaro as folhas, o húmus, as copa s, de florestas
e clareiras, de sombras e luzes que mostra m e escondem experiências e linguagens, sons
e sabores de pessoas concretas, mas também de estruturas menos palpáveis ma s não
menos presentes, de mecanismos mais ou menos separáveis mas existentes, de
processos uns misteriosos outro s vulgares, outros ainda irre conhecíveis. Num campo onde
a comunicação e a relação jo gam fortemente, este capítu lo propõe um diálogo entre
correntezas e canais de cientificidades por vezes de tal forma insonorizadas que a/ o
mesma/o não se reconhecem e a/ o diferente não transparece.
O quarto capítulo consiste num conjunto de breves apontamentos sobre os contextos
sociais e políticos que rodearam e rodeiam as v idas das narradoras. Apresenta-se
sumariamente algumas das principais mudanç as histórico-sociais nas três décadas
abrangidas pelas bio-auto-grafias, a anális e de alguns diplomas de política social que se
evidenciaram relevantes no per íodo em que decorreram os diál ogos e as entrevistas, assim
como algumas notas em torno de certos proc essos socializadores considerados relevantes
para a compreensão de repres entações e visões do mundo e da v ida, que a anális e
subsequente evidencia.
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Em “Quotidianos de trabalho, família e (não) lazer” — o quinto capítulo — trazem-se para a
reflexão os percursos das narradoras sobre o trabalho pago das mulheres e os seus
quotidianos familiares. Pretendia- se, igualmente, mostrar espaços e tempos de lazer, mas
este não surge nas s uas narrativas: curios amente, uma das narradoras, a dado momento,
utiliza a expressão «nada de ócio», o que pode si ntetizar esta questão nas vidas destas
mulheres. Entre outras questões, as noções de família e de práticas de vida familiares,
emergem das histórias de vida e das narrativas biográficas, onde outras instituições a ela
ligadas — parentalidade, mate rnidade, paternidade, educaç ão familiar (Ariès 1978,
Badinter s/d, Bradley Segal 1999) — surgem articuladas com os relatos que recolhemos,
onde as políticas sociais (Martin 1992; Muncie 1997) ganham, por veze s, algum relevo, a
par de lutas sociais em torno as questões de género na família (Staggenborg 1998; Beck
1992; Carvalho 1998). Simultaneamente, as c oncepções sobre o trabalho (Walby 1990,
Fonseca 1995, Ferreira 2003), passando pela probl emática do lugar relativo entre género,
classe social e outras diferenças entre as mulheres (Estanque 1999, Phillips 1992),
emergem dos testemunhos apresentados. A anál ise da situação portuguesa no que se
refere à família e às vidas sexuais e reprodutivas (Almeida e Wall 1996; Almeira, Vilar e
André 2004), às políticas sociais e aos equi pamentos em Portugal (Torres e Silva 1998;
Portugal 1998), entram pela via das falas das mulheres que, no mundo do trabalho, se
confrontam com uma realidade social ai nda organizada segundo um paradigma da divisão
público / privado que supõe a existência de pe ssoas a tempo inteiro no espaço doméstico
para cuidar das crianças e realizar as tare fas de reposição diária da força de trabalho.
Neste sentido, este capítulo diz respeito à anális e de quotidianos concretos — familiares,
de trabalho e de (não) lazer— em que vivem as mulheres de quem nos fomos aproximando
ao longo desta pesquisa: subt ilmente, quotidianos e contextos envidenciam-se como
espaços-tempos educativos no s eu papel reprodutor de relações de género e/ou de classe,
disciplinador, mas também, por vezes, nas potencialidades que encerram para a
construção de relações entre as pessoas ma is satisfatórias e mais emancipadoras.
Guiadas pela mão de cada mulher, serã o aqui ponderadas aquel as formas em que a
família se constitui como um espaço de trabalho, as que a tornam um lugar de afectos , e
aquelas através das quais se faz num inferno ; assim como aquelas em que o trabalho é
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independência , outras em que é servidão e ainda aqueloutras onde é fuga ou
transcendência.
“Silenciamentos, subjectividades e vitimiza ção: procurando a agênc ia mulheres” — é o
sexto capítulo onde se apresentam alguns dos constrangimentos que as narradoras
relatam e as formas pelas quais tentam sobreviver, resistir ou enfrentar. Silê ncio é aqui
pensado em diversas vertentes, o silêncio como opressão, mas também o silênc io como
revolta (Lewis 1993) ou ainda como estr atégia (Gatenby e Hump hries 1999). Assim,
conceitos como subjectividade e experiência , subjectividades genderizadas (Marshall 1994,
Rich, Weedon 1989, Lewis 1993), vitmização na área da vi olência doméstica (LaViolette e
Barnett 2000, Dobash et al, Hagemann-White 1998, entre outras), racismo (Phoenix,
Woollett e Lloyd 1991, Radford-Hill) ou de agência entrelaçam-se com vivências de
algumas das narrativas, mostra ndo as formas e os processos pel os quais a hierarquia de
género e, por vezes, o poder patriarcal lhes c onstrange as possibilidades de acção, e que
se articulam com outras formas de opress ão como o racismo, a marginalização de
populações de etnias e culturas minoritárias como as ciganas (Lacková, Brodzi 1988,
Schenck 1988, Carr 1988), a invisi bilidade e opressão da homofobia contra as lésbicas ou
os constrangimentos que se co locam a pessoas cujas capacidades não seguem as versões
padronizadas. Corpo, sexualidade, maternidad e, aborto, cultura, ou mesmo tradição,
mostram-se por vezes como modos de silencia mento das mulheres, outras como veículos
para fazer ouvir as suas vozes ou pelo menos par a amplificar o seu silêncio (Lewis 1993).
Tentamos equacionar aqui, como Iris Marion Young (1990), algumas das implicações para
as ciências da educação e par a os estudos s obre as mulheres das “reivindicações dos
novos movimentos sociais assentes em grupos ” — movimentos como o feminismo, o d os
direitos dos negros, o movimento lgbt, e as lu tas pelo respeito e cidadania de cida dãs/ãos
ostracizadas/os na nossa sociedade — pess oas de cultura cigana e portadoras de
deficiência.
“Feminismos, cidadania e pr odução do conhecimento dentro e fora da academina” —
constitui o sétimo e último capítulo para sistematizar as questões relacionadas com a
agência política feminista, desafiando conceitos tradicionais e androcêntricos de
participação política e de cidadania. Cruza m-se as experiências e subjectiivdades com
conceitos como democracia, cidadania, part icipação, para chegar a uma perspect iva
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feminista, isto é, capaz de incluir as mul heres nesta s emântica teórica (Araújo 1999, Dean
1997, Fraser 1991, James 1992, Lister 2002, Pollock 1996). É ainda disc utida a agência
feminista (Magalhães 2003) e a sua relevância para pensar a transformação social. São
aqui apresentados os debates em torno de ques tões de política feminista que emergiram
das narrativas e entrevistas. Articulando crítica s feministas a uma concepção de cidadão
abstracto que ‘esquece’ e/ ou oculta o contrato sexual (Pateman 1988) em que assenta, e a
cave ontológica (Roland Martin 1994, cit por Arnot e Dilla bough 2002) para onde foram e
continuam a ser relegadas as mulheres, as cr ianças e a família, mostram-se formas de
participação política das mulheres presentes nesta pesquisa, evidenciando-se alguns dos
processos em que algumas de las, ao mesmo tempo que t entam empurrar as noç ões
genderizadas de cidadania e de agência, vão del ineando modelos não androcêntricos de
agência política. Desdobram-se, ainda, algumas questões em torno dos feminismos com o
movimentos de intervenção social e de produç ão de conhecimento para a transformação
social.
Enquanto feministas partilhamos da ideia de Kathleen Weiler de que "… para as feministas,
o último teste do conhecimento não é se é 'v erdadeiro' de acordo co m algum critério
abstracto mas se conduz ou não a uma mudanç a progressista" (1988: 63). Assim, a
reflexão e a procura, nas dimensões apont adas, fazem mais sentido articuladas com
dispositivos de intervenção e ac ção social e pol ítica, junto das escolas e fora das escolas,
inscrevendo este percurso individual no gr osso daqueles que têm lutado em orde m à
construção de uma praxis libertadora , nomeadamente no âmbito do movimento feminista e
de uma perspectiva educacional crítica.
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C APÍTULO I – As H ISTÓRIAS DE VIDA NA PRIMEIRA PESSOA
1. Hercília de Nogueira, confrontando a violência no lar
1.1. O trabalho árduo das mulheres no campo
Os meus pais são de Terreiro.
Andei na escola até… sei lá! Até aos dez anos. Já nem me lembro bem mas… Fiz a quarta
classe. Portanto, entrei para aí de sete [ anos]. Ainda queria ir estudar mais… Tinha mesmo
vício de estudar, mas os meus pais não podiam.
Casei com 18 anos, saí de Terreiro e fui viver para Nogueira, Arengue. Cas ei-me e veio o
primeiro filho, correu tudo maravilhosamente. Pronto, eu fazia t udo: quer dizer, se fosse
preciso prender vacas, ir buscar um carro de mato ou um carro de erva, tudo isso eu fazia
sozinha. Sozinha. E ele [o meu marido] habituou-se a isso. Ele podia ir “dar um dia”, porque
chegava e tinha tudo feito. Já tinha tudo em palhado, tudo arrumadinh o, no campo e em
casa.
As mulheres, aqui, fazem tudo igual aos homens . Vão para a roça, cortar mato... Mas, claro
que não ganham a mesma coisa.
Eu trabalho para o meu sogro. Eu é que lhe “pago” a ele, dou- lhe metade de lucro: tenho
que dar metade do milho, metade do feijão (s e houver, que isto aqui é raro ter feijão),
metade do vinho, de tudo. O gado ainda é só meu: por agora, dei xaram-me ter o gado.
“— Lá vai ela para a sombra!”
Trabalhava… Ia a pé [para o campo]. E foi ali que eu dei um bocado cabo da minha saúde.
Para baixo, para cima… Era assim: a minha sogr a é que estava com o meu filho, o António
[o mais velho], naquela altura, só tinha aquele; depois ela tocava um búzio e eu vinha-lhe
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dar de mamar. De três em três horas, ela to cava, lá vinha eu, com o calor e chegava aqui
“cansinha, cansinha”.
Também só dei o peito sete meses. Não dava para aguentar: para baixo, para cima; para
baixo com o calor, depois andava lá mais três horas, e lá vinha eu para cima. Depois, ele
ainda era assim para mim:
— Lá vai ela para a sombra!
E eu lá ía sachar o milho, que tinha que sa char tanto como ele ... Mesmo quando eu andava
de bebé, eu andava lá tonta, com a sacholita, e ele:
— Ela anda aí a meter nojo…! — Dava-me um empurrão e eu, pum ba, caía de cú.
Tornava-me a levantar... Quer dizer, [ele] era uma pessoa que não podia ver isso, a
gravidez.
Foi um instantinho que nos chateemos . Andávamos sempre pegados. Ficava emunado 1
aos meses, não falava. Um mês, um mês e tal. Fazíamos tudo sem falar. Eu ía com ele
buscar um carro, por exemplo, de mato ao mont e... Uma vez caiu um carro de mato, virou
por cima de mim e fiquei debaixo do carro, e ele ainda por cima:
— Ó puta, desaparece-me, tu andas c’o diabo! Botaste-me o carro ao chão!
“Eu vinha para fazer o comer a qu ase na hora que ele vinha também…”
Primeiro era assim: acabava [de trabalhar]... eu vinha para fazer o comer a quase na hora
que ele vinha também, vinha na frente um bocadinho só. Fazia o comer, acabávamos de
comer e ele era assim:
— Vamos embora!
Eu era assim para mim: «Ai meu Deus, ent ão, e agora quem é que arruma a cozinha, quem
é que lava a loiça? Vai ele lavar?» Mas quantas vezes foi isto assim! Eu vinha, saía [do
campo] aquando a ele. Metia a louça dentro da banca por arrumar — que me custava
imenso — deixava assim a louça e pxsssst , lá ía eu com ele e depois ainda chegav a aqui
de noite, porque tínhamos uma te rra que andávamos a fazer e q ue era ali por trás daquele
alto...
1 Emunado , o mesmo qu e amuado.
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1.2. “Entrar na minha casa é como se estivesse a entrar num inferno”
Como é que ele começou? Ele era meu ami go e tudo, quando nos casamos, ele aí não
podia ser melhor para mim! Aquilo começou por causa dos filhos... Ele era meu amigo e
depois nasceu o miudito, o Antóni o. E eu para ele já era diferente, é por isso que ele não
gostava… Eu sofri muito, sofri imenso. No início, se eu tinha um a dor de cabeça ou se tinha
uma dor qualquer, ele não sabia o que é que havia de fazer:
— Olha, vai para a cama, deixa-te estar na caminha...
Depois, quando os problemas começaram, dizia-me:
— Ó filha da puta, levanta-te. Olha que está isto e aquilo para fazer!
Se eu podia, levantava-me e fazia, e a coisa andava assim mais ou menos. Se eu não
podia…
Um dia, ele começou a ficar chateado porque eu fiquei grávida do segundo filho e j á não
podia trabalhar como devia ser. Quando veio o se gundo o filho, claro, eu já não podia fazer
tanto, porque a minha vida já era outra.
Ele até aí andava muito content e, porque tinha tudo feito, não é?
Começou a marcar o campo
Eu não me alimentava direit o, porque enj ooei muit o. Uma vez, estávamos num campo
bastante longe daqui e ele:
— Então, tu não fazes nada?! — e não sei quê não sei que mais.
E eu:
— Olha, eu não faço porque eu não posso. A gente vai até onde a gente pode, não é?
— É, mas tens que fazer… Tens que fazer.
Começou a marcar o trabalho [do campo] comi go. Começou a marcar o campo. Fez um
risquinho a meio da leira, o meu marido! E disse:
— Metade para ti, metade para mim; tu fazes aquela parte e eu faço esta.
E eu lá andava, pimba, pimba, pi mba. Mas claro, muito mais cá para trás. Ele já lá andava
a chegar ao cabo 2 e eu ainda ia a meio: não podia! Ai nda levou muito tempo ele a bater-
2 Ao cabo, o mesmo que no fim.
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me, ainda levou um bocado de tempo. Ma s apanhou-me assim de ponta, porque ele
achava que eu não trabalhava por não querer tr abalhar. «Malandra, caloira…» Chamava-
me pr’aí quantos nomes havia.
Depois começou o problema em casa. Como não trabalhav a, já não me deixava ver
televisão!
A guerra da televisão
Já não podia ver televisão!
— Ai tu não trabalhas e queres ver televisão? — era o que ele dizia.
Eu tinha passado uns trabalhos, Nossa Senhora!, para comprar a televisão: eu pedia,
pedia:
— Vamos comprar uma televisão que é bom para os miúdos e tudo. Aprendem muito…
— Não, não vais comprar televisão nenhuma, isso é muito caro…
Um dia, lá o apanhei quando ele andava assim melhor, bem di sposto, e eu disse-lhe a
quase como [em segredo]:
— Vamos comprar uma televisão?
— Olha, eu não vou lá comprá-la, mas se tu quiseres, vai lá.
Então, fui com o meu sogro, comprei uma tele visão, mas a preto a br anco. Depois, prontos,
começou a guerra: ora porque tinha a televi são; ora porque eu já não trabalhava… Nem
deixava ver os miúdos! Às veze s, os miúdos queriam ver a nove lita, à noite, e ele ia lá e
zás, desligava-a. E depois eu comecei-me a enervar também. Achava que aquilo não era
direito nem nada.
Quer dizer, ele desligava e eu ligava. Só tinha televisão na sala . Era assim, ele estava a ver
televisão, eu estava a fazer o comer e, da cozinha, via. E ele se v isse que eu que reparava
para a televisão, ia lá logo, zás . E eu, depois, via que ele desligava a televisão, tinha pena
dos miúdos, que é que eu fazia? Não olhava para a televisão. Podia es tar a dar uma coisa
que eu gostasse muito, mas dizia assim para mim: “eu não vou olhar para a televisão, ele
vai lá desligá-la.” E eu sempre de ‘costi nhas’ para a televisão, sempre. Quando ele
percebesse que eu olhava, zás .
Um tempo deixei andar. Mas, às tantas, digo eu assim:
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— Mas isto não pode ser assim. A televisão é tanto minha como tua, porque que é que tu
tens que desligar agora a televisão? Por ventura…
Ele desligava e eu ligava; ele desligava e eu ligava. Às tantas, nem ele c onseguia estar
sentado, nem eu. Ele podia-me ter dado uns t abefes, só que não. Aí um tempito, não.
Ele gosta de ver televisão, era para se vingar de mim. Tanta vez que ele foi lá desligar a
televisão e eu ligar, que arrebentou com a ficha. Pegou e arrebentou aqu ilo tudo. Eu deixei
estar, não fiz caso e ficamos uns dias sem tele vis ão. O que é que acontece? Ia ver a casa
do Tio Quim da Toucada. Ainda a falecida era vi va, a mulher dele. A casa era ali pertinho,
eu ia lá à noite, ver a novela. Fazia o c omer, arrumava tudo, arrumava a cozinha, e eu ia lá
ver a novela. E uma vez o que é que me ac onteceu? Cheguei a casa para entrar: portas
fechadas! Portas, tudo trancado, tudo fechado. Chamei pelos miúdos, mas já estavam a
dormir, não havia maneira de acordarem. E eu:
— Ó António, abre-me a porta, ó António, abre-me a porta…
Ele fechou-me as port as… Eu não tinha outra hipótese para entrar, pa rto um vidro… É que
eu fiquei tão nervosa quando vi as portas todas fechadas, que eu cheguei lá, com a mão,
fiz assim: pum! Dei um murro ao vidro e pumba , partiu. Sujeita até a cortar um dedo ou
assim… Mas não cortei, não fi z sangue, nada! Sujeita a leva r uma lambada e tudo. Mas é
que não lhe tinha medo nenhum… Com os nervos que esta va, não tinha medo!… Dei um
murro nos vidros… E destes vidros grossos! De i um tal murro, que era só vidros no meio do
chão. Ele alevantou-se da cama, quando ouviu aquilo dos vidros e:
— Eu faço, “aconteço”, eu mato-te, eu mato-te! — não sei quê, não sei que mais.
E eu disse:
— Olha, vai direitinho para a cama e não me toques! Porque t u não tinhas nada que me
embargar a porta! Não tinhas nada que me fechar a porta! Porque eu só fui ver a telev isão
para casa dos vizinhos por tu seres ma luco, porque eu podia ver aqui na nossa casa!
Mas, pronto, passou. Berrou, berrou para lá um bocado mas, nessa altura, não me bateu.
Entrou para o quarto, fec hou-me a porta do quarto!
Ora, eu tinha um miúdo ainda pequeno que ainda usava fralda, e claro, no meu quarto tinha
a as fraldas, tinha lá tudo… Vou assim par a mi m: «E agora como é q ue eu faço? Ai, meu
Deus…»
Digo eu assim:
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— Hum!
Estava, assim, ao pé do portão e eu par ei ao pé. Mas eu disse assim:
— Ora repete-me mais isso. — ele veio mesm o pôr a ‘c abecinha’ ao pé para lhe dar com a
pedra. E então ele era assim:
— Dá, dá. Anda, dá. — assim com gozo.
— Olha que eu dou. Olha que eu dou-te!
E ele:
— Puta, puta. — mesmo a chegar à minha bei ra, assim ao pé da minha cabeça: — puta,
puta. — com os filhos todos ao pé. E ele com a sachola:
— Puta, puta. E olha que eu mato-te. — Arrebit ou assim para mim com a sachola: — Olha
que eu mato-te redonda, eu mato-te.
— Antes que me mates a mim, levas tu.
— O quê? Eu mato-te puta, puta. — e não sei quê.
E eu caço a mão à pedra num instante e disse assim:
— Olha que eu dou-te.
— Então dá. — Pôs a cabeça [inclin ada] e eu, zás. Aleijei-o.
E depois digo assim: «Ai». E ele, apenas eu só ter tocado com uma pedra, ele caiu
redondo no chão.
1.3. “A pancada”, a fuga e o regresso com “um bagacinho e mel”
E o que me fez dar com a pedra nele, foi aquel e inferno. Era um ambiente que a minha
casa, que aquilo era horrível. Eu sofri muito, ca lada. Ai, mas eu chorei muito. Eu fiz isso,
mas foi os nervos. Eu não havia de fazer isso . Eu não hav ia de fazer isso, porque eu fiz
com os nervos. É mesmo!
É que eu rachei-lhe a cabeça. Rachei-lhe a cabeç a. Não lhe assentei [bem] na cabeça, se
não matava-o, mas assentei-lhe assim perto do pescoço e no ombro, e ele “ bumba ” caiu
abaixo, no chão. Foi com a mão esquerda, [porque] tinha o braço [direito] ao peito, que eu
tinha-me aleijado.
— Ai que eu o matei. — imagine o que eu sofri...
O que é, é que também não tinha aqui ninguém que fosse por ele. Eu digo assim:
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— Ai, meu Deus, que eu o matei. — Eu dei-lhe mesmo no sítio perigoso. Ele ficou todo
encharcado em sangue.
Foi uma situação que eu pensei a ssim: «Eu vou ter de chamar a ambulância, para ele ir
para o hospital». Ai, mas com os nervos que estava!
Ele depois levantou-se para cima e ainda ía para pegar na sachola a ver se me dava, mas
a força já não era assi m muita. E eu disse:
— Então, querias que eu te desse, já te dei!
O que é que eu faço? Vou por aí abaixo muito direitinha... e ele ali ficou. Eu fui por aí
abaixo muito direitinha e fui ao telefone 3 ... Isto foi à noite. Fui telefonar, mas quase que não
conseguia telefonar. Desmaiei, ía telefonar para a minha cunhada, para ela me vir buscar
que eu com ele não podia estar, se não, depois, «comia 4 »!
Telefonei para a minha cunhada, a minha cunhada fic ou toda aflita. Contei-lhe, mas contei-
lhe muito pouco, e ela ficou ainda mais aflita do que eu. Quando deu conta do que era,
começou aos gritos 5 .
A minha filha nem estava cá, estava com os padr inhos dela. Só estavam cá os outros dois.
A minha cunhada chegou, ela não me levou no ca rro dela, alugou-me um taxi. Ela a chegar
e ele a levantar-se do chão, a sair daqui, ele. Mas o que é que ela fez? Ela rodou o carro,
naquele largo, virou o carro para lá para que ele não visse quem era.
Mas eu queria-me ir embora e queria levar os meus filhos.
• “«uma mulher de coraige », e um homem a dizer isto…!”
Mas fiquei tão nervosa, quer dizer, até saía e nem roupa apanhava nem nada! E a minha
cunhada disse-me:
— Ó Cila, tu tens que levar roupa. Então tu va is sair daqui sem roupa para os teus filhos?
Já viste? E para ti e tudo? Tu tens que lá ir a casa apanhar roupa.
Ele já tinha saído [para casa da mãe].
Depois nós estacionámos o carro à porta, o senhor lá estacionou, e eu fui lá apanhar a
roupa. A minha sogra viu-me! Mas nada acont ec eu. Ela podia-me ter levado para a
cadeia!?
3 À cabine públic a que se situa ao fund o da aldeia.
4 “Comer”, o mesmo que “comer porrada”, isto é, “apanhar p ancada”.
5 Do outro lado do telefone.
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Ela [sogra] ali a espreitar, ali de cima. Eu só olhei as sim um bocadito para cima, ela fsss ,
escondeu-se, porque ela, se vi esse, «comi a» também. Ela ainda se meteu debaixo da
japoneira, estava a vigiar, a ve r o que é que eu tirava de casa , mas eu só tirei a roupa,
porque não deu tempo de mais nada. Nem o carro [de aluguer] podia levar muita coisa.
Depois, pronto, lá saí. Saí sem documentos nenhuns, porque ele ti nha-me apanhado os
documentos todos, e os dos meus filhos, tudo! E o homenzinho do táxi era assim:
— Ah, mulher de coraige !? — Ai, e um homem a dizer isto!...
Em casa da minha cunhada estive dois meses. Ele foi lá duas vezes. Disse que era para
ver os filhos.
• “Ele no hospital, contou que tinha sido a mulher”
Depois, eu precisava de saber se ele esta va bem, no hospital. Fui à casa da minha
cunhada, a ver se arranjo o número do hospita l de Arengue, que era para ver se o homem
estava morto ou se estava vivo.
Depois, eu, fina, liguei para lá e falou a enfermeira, perguntei-lhe como é que ele est ava.
Não disse que era a esposa dele! Disse que era uma amiga, uma senhora aqui da t erra
dele, uma vizinha.
— Olhe, ele levou sete pontos. Está um bocadinho mal, mas vai ficar bem.
Ele, no hospital, contou que tinha sido a mulher . Contou lá, e não foi só lá. Contou no posto
da Guarda, também.
Eu depois fiquei muito sentida, porque ele al evantou-me um falso testemunho: que eu que
era assim, que eu era assado…
Quer dizer, ele teve tempo de meter logo q ueixa contra mim. Logo, não digo que fosse no
dia... Porque ele depois dizia a todo o mundo:
— Eu nunca mais quero aquele diabo, eu nunca mais... — Fa lou tanto, tanto! — Ela nunca
mais é mulher minha, nunca mais. Nunc a mais me entra aqui portas adentro.
Depois, pronto, eu ía sabendo notícias, pelos vizinhos, a ver como é que estava... se
estava a correr bem.
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“O meu medo era ficar sem as crianças”
Mas depois eu fiquei aflita. Sofri muito, porque os meus filhos ficaram aqui e eu fui para
baixo 6 . Ficaram aqui de volta do pai, já viu? Mas a minha aflição foi: tinha saído com a
minha cunhada e tinha levado só o Tadeu, tinham ficado os outros dois.
Estava sem documentos, sem nada. Não tinha o número de contribuinte, não tinha o
bilhete de identidade, não tinha nada. E depois aquelas coisas demoram muito tempo, aqui
na aldeia. Pedi ao meu cunhado, então, se vinha a Arengue, para ver se conseguia ir tirar
os papéis. Então o que é que eu fiz? Fui mais a minha cunhada, foi o que me valeu, aquela
cunhada, e fui tirá-los ao Porto, demorou só uma semana. E foi quando eu pude tratar das
coisas e então fui a tribunal e essas coisas.
O meu medo era que ele não me trouxesse os miúdos! Mas trouxeram-me os miúdos.
Depois ameaçou-me com a Guar da. Foi a Arengue, ameaçou-me... para eu lhe vir cá trazer
os miúdos, porque se não, que era assim, que era assado… Eu disse:
— Eu não tenho medo. — Ma s eu ainda assim andava lestra , porque eu pensava mesmo
que ele ía-me tirar os miúdos e depois, Deus me livre! Do jeito que ele andava, não podia
ser!
Então fui logo falar com a Guarda de Castelo:
— Passa-se isto assim, assim... o meu mari do disse que eu tinha que devolver os miúdos,
que eles tinham de lá estar um certo tempo.
E ele [agente] disse assim para mim:
— Olhe minha senhora, tenha calma... Você é m ãe. Ninguém pode tirar os filhos da mãe,
ninguém. Nem a Guarda de Arengue pode vir fa zer nada aqui a este concelho. Voc ê esteje
tranquila. A senhora não tenha medo, que não vêm cá.
Pronto, lá fiquei mais aliviada, porque ele tinha dit o que me tirava os miúdos e que
precisava deles aqui para o feno. Para trabalhar! Era o que ele me dizia:
— Preciso aqui deles para trabalhar, pr eciso aqui deles para o feno.
Digo assim:
— Olha, eu também preciso deles aqui par a os tratar, que eles bem precisam.
Foi horrível!
6 Para a terra da cunhada e da mãe.
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Depois eu ligava para o meu cunhado, por que eu precisava imenso dos documentos, que
eu, pronto, via-me com três f ilhos à minha volta... e queria ver se ele me ía buscar os
documentos e mos mandava. Q ueria pedir o rend imento minímo, como pedi. Mas não tive
nada.
“Levou as calças para dar ao «amigo»”
Ele ía lá buscar buscar os miúdos e, às veze s, a gente calhava de se encontrar na rua...
Eu, quando o via, olhav a para o chão e fsss , enfiava-me em qualquer lado. E depois
chegou uma vez que ele lá veio, eu estava com a miudita no colo, estavamos-lhe até a
cortar a franjita, quando ele chegou de mota. Eu vi aquela mota, virei -me para trás. Quando
chegou, ele tirou-me a miudita do colo e disse:
— Ó Carla anda cá. — Vi nele que ele que já estava um bocado mudado. Já estava a ver
assim se falava comigo. Só que eu, pronto, ele pegou na miúda e eu retirei-me e fui para
casa da minha mãe, e ele lá ficou com a miudita, mais a outra mulherzita. Lá ficou a
conversar e eu em casa da minha mãe.
D’outra vez, ele andava sempre a dizer que eu que lhe tinha levado as calças:
— Olha, levou as calças para dar “ao amigo 7 ”. — Digo assim [para mim]: «Ai, o que eu
estou a passar! Ai, que cois a mais horrível, que duro».
Mas realmente tinha levado; foi quando peguei nos cabides da r oupa, à pressa, e elas íam
lá. E eu disse assim: «Lá levá-las, não vou. Olha, ficam para o meu filho, pois o miúdo já a
quase que veste com o pai, já está muito alto. Ficam aqui.»
Eu soube porque o meu cunhado ligou para lá e disse assim:
— Olhe, sabe o que é que ele anda a dizer? — que ele contava-me tudo — Olhe, anda a
dizer que você lhe roubou as calças e que é para dar ao “amigo”, e assim essas coisas.
Até a cabeça me estalava, mas não queria esta r a falar com ele, eu estava tão magoada
com ele, que fui e disse assim, para o meu Tadeu:
— Ó Tadeu, vai levar estas calças ao teu pai , dizes que afinal que elas ainda não foram
para o «amigo», que ainda estão aqui. — O mocito disse-lhe assim, direitinho, direitinho:
7 “Amigo”, o mesmo que amante.
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— Olha, a mãe disse para você levar estas ca lças, que afinal de co ntas que ainda não as
levou para o «amigo». Pode levá-las à vontade. — O mocito assim. O meu Tadeu é todo
descarado para dizer qualquer coisa!
Não levou as calças. Deu as calças ao meu Tadeu e disse:
— Ó Tadeu, diz à tua mãe a ver se ela me pode virar a barra 8 acima... — porque ele tinha-
as comprado na feira e ainda estavam por arranjar...
— Então agora não está lá a tua avó para as virar? — disse eu, q uando o miúdo veio outra
vez com as calças. Lá deixou as calcinhas ficar, mas ficaram lá, ainda, depois, muito
tempo.
O re-engate: “quando a gente fez as pazes”
Nesse dia, ele lá em cima com as calças, com a saca, chegou acima e virou outra vez para
trás, e depois eu ía passar para baixo e el e veio num instante e diz assim:
— Ó Cila, olha, vem lá buscar um presunto ... — que eu tinha dei xado [em casa] dois
presuntos, aquilo já era para começar, já era o começo... — Olha, vem lá buscar um
presunto, porque eu não como aquilo tudo sozinho. Leva, me smo por causa dos miúdos e
assim…
E eu digo:
— Olha, eu não preciso de nada, estou bem, como vêem, como nunca es tive. Ao pé dos
meus pais estou muito bem. Estou feliz, gr aças a Deus, agora não tenho zum zum zum
atrás de mim. Estou bem. E também não me fa lta de comer, graças a Deus. Podes comer
lá os presuntinhos à vontade, podes comer t udo à vontade, porque aqu ilo era metade meu,
mas eu não quero nada. Eu ofereço-te isso t udo. — E virei por ali abaixo... E ele ficou
assim, parado, a olhar para mim, assim um bocado… E eu sempre a andar, a ver assim
pelos cantitos dos olhos. Pronto, e não levou as calças.
D’outra vez veio lá pedir para eu deixar ir os miúdos à Senhora do Monte. Aí, foi quando a
gente fez as pazes. Foi lá, mas eu não estava em casa. A miudita estava a dormir, porque
eu deitava-a sempre à tarde para ela dormir um soninho. Não calhou de estar lá e ele ficou
8 Barra , o mesmo que baínha.
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lá um ror de tempo à espera. Eu andava para lá, acho que a poda r, e ele mandou lá um
miúdo:
— Olha, vai dizer à tua mãe que venha cá, quero falar com ela.
Eu cheguei à porta e disse assim:
— Olha, eu não tenho mais na da a falar contigo. Eu acho que a gente já falou o que
tínhamos a falar. Acabou. Pronto.
— Eh… olha é que se tu me deixasses... se dexa sses ir os mocitos… — Até ali ía lá buscá-
los com a Guarda e levava-os, mas agora já era «se me deixasses », ah! — Se me
deixasses ir os mocitos à Senhora do Monte e tal, que eles gost am da festa. — Mas ele
não era bem pelos filhos. Ele er a mas era para ver se eu vinha com eles. Mas eu andei lá a
ajudar a malhar milho e adoeci. O que é que ele faz? Isto tudo sem a mãe saber, que, se a
mãe soubesse, despedaçava-o. Veio-se embora, eu deixei vir os mi údos, lá lhes pus a
roupinha para eles depois levare m para a festa. Pus-lhe uma pa ra eles trazerem, e pus-lhe
a outra para eles depois levar à festa. A festa era só ao outro dia. Lá deixei vir os miúdos,
mas a miudita não veio. A miudita não veio que el a não quis vir. Nem o mais velho queria
vir, que ele tinha um medo ao pai danado. Mas eu disse-lhe:
— Ó António vai, porque, olha, agora está lá a tua madrinha... — [ele] gosta muito da
madrinha, se não, ele não vinha. — D epois o teu pai vem-te cá trazer.
Ele [marido], ao outro dia, telefonou-me para lá. Nesse dia da Senhor a do Monte é que ele
me ligou para lá. Eu até fiquei parva quando me foram chamar a diz er para eu ir ao
telefone, que era ele. Digo assim:
— Ai, o que é que ele quer? — Mas como os meus filhos estavam com ele, disse: — Bem,
vou lá. Pode ser alguma coisa por causa dos miúdos. Então, fui ao telefone e ele diz assim:
— Olha, eu não posso ir aí levar os miúdos hoje, mas vou-tos levar amanhã, lev o-tos a
tempo de tu ires com eles ao médico.
— Pois, é isso que eu quero. — porque eu andava-lhes a tr atar os dentes com um
dinheirito, que eu tinha i do a Arengue, tinha-me vi ndo aí uns 60 contos, e eu fui lá, lev antei-
o, e foi para tratar dos dentes ao miúdo. Mas ele estava com problema de dentes, teve que
levar pontos e tudo, vi-me com ele! E depois, então, ao outro dia da fe sta, tinha que ir que
era para tirar os pontos. Eu disse-lhe assim: — Olha, levas os miúdos, mas tal dia traz-mos
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cá, porque eu tenho que ir com ele tratar da saúde dele. — E ele estava a falar comigo,
mas eu sentia que ele não estava bem, e ele depois é que me contou. Diz ele assim:
— Porque eu estou aqui a ligar de casa da minha mãe e eles devem estar a chegar e se
eles chegam e me vêem aqui... Mas eu pulei pela janela. Vou-me já embor a. — Porque ele
não queria ir falar a mais l ado nenhum, porque ele falava tanto [mal] de mim e depois as
pessoas... Então aproveitou-se dali.
Nós aqui não temos telefone, é na casa deles.
Ele não me chegou a dizer, mas eu acho que ele, antes de ir para a fest a, abriu a janela.
Abriu, porque eles não deixavam a janela aber ta, porque os meus sogros eram muito
acautelados. E ele então deix ou a janela, encostou a janeli nha, mas não a deixou c om o
fecho, e depois abriu e entrou por lá. Entrou pelas janelas para ir telefonar. Estava
preparado já para isso. Porque ele já deixou lá os miúdos e tudo para eles não dizerem.
• “Um bagacinho com mel...”
Depois, ao outro dia, cedo, chega-me lá co m um bagaço com mel, por causa da garganta:
— Olha, bota-lhe um bocadinho de bagaço — porque eu até é raro beber isso. — Pega
lá…
— Eu não quero nada disso. — disse eu.
— Olha é por causa da garganta, a ver se fi cas melhor, porque andas muito r ouca… — Pôs
lá a garrafa, lá ficou. Nunca mais fiz caso da garrafa.
Depois ele andou, andou, andou [uns tempos]:
— Eh, podias mas é ir para lá. Olha, punha-se uma pedra em cima disto tudo.
Eu disse assim:
— O quê? Eu ir para lá, depois disto tudo, eu ir para lá? Para quê? Porque agora é que tu
me matavas mesmo. Já que eu não te matei a ti!
— Sabes o que é, sabes… Não é bem por causa de nós, mas por causa das crianças, por
causa dos filhos... — diz ele.
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1.4. Cuidar dos filhos, cuidar do lar: “Negociei mesmo: tenho que levar as coisas da
melhor maneira”
Ele mudou muito depois da pancada. Às veze s, ainda tem um bocado de... às vezes com
os miúdos é assim [ríspido] mas é feitio dele. Às vezes com os filhos o u assim, ainda não
tem bem aquela compreensão que havia de ter. Eu estou sempre a dar-lhe para trás. Mas
ele agora já é outro, que agora chega, fala para as pessoas, normal, e ele que nem falava
para ninguém, a quase !… Mesmo quando estava em casa da minha cunhada e da minha
mãe, nunca estorvei os meus filhos de irem ver o pai. Eu até lhes dizia assim:
— Ide ver o vosso pai, porque é vosso pai. Seje fraco, seje bom, é vosso pai... Não tem
nada a ver.
Negociei mesmo.
Eu tinha um carrito velho. O que é que acontec eu? Eu ía aqui para baixo com ele, já era
preciso empurrá-lo. Depois empurrava-o, chegava lá em baixo, ou brigav a por isto, ou por
aquilo, ou já não tinha marcha atrás, ou não tinha isto e depois não dava porque tinha que
o compor. Eu não podia andar assim. Às vezes até ía com o meu cunhado. Uma vez fui
com ele a Arengue, avariou-me lá o carro. Digo assim:
— Ai meu Deus, como é que eu vou agora chegar a casa? Q uando é que eu vou chegar a
casa? Já sei que vou ouvir.
Tive que pedir algum dinheiri nho e comprar um carro. Ainda devo algum à minha família,
mas é minha família, que espere por ele.
Eu disse assim:
— Não saio mais no carro sem tu ires comigo.
Tenho que levar as coisas da melhor maneira para não viver no inferno.
“O meu mais velho não está co m vício nenhum na escola”
O meu mais velho ainda anda na escola, mas não está com “vício 9 ” nenhum, porque está
sempre no mesmo ano, sempre no mesmo ano... O António tem catorze anos e ainda está
na quarta. Esta professora agora que está cá, também não ensina quase na da. Ela
9 “vício”, o mesmo que paixão.
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também é doente, a gente tem que ver isso, ela fez uma operação à [tiróide]. E ficou mal,
ela até custa-lhe um pouco a falar. Mas pr ontos, duas semanas em que não houve escola,
agora na outra Segunda-feira e Sexta não houve escola, ontem não houve escola... Hoje
não houve escola, e, quer dizer, há pouca esco la, muito pouca escola, como é que eles
também hão-de aprender? Ele não fala em trabalhar no ca mpo, não. Eu acho que ele
queria era ir para o talho. A madrinha dele tem um talho e ele quer é ir para o talho. E
gaba-se, ele já lá esteve nas férias, este ve lá uma semana, e diz a minha cunhada:
— Ó, quem mo dera aqui, que el e é muito limpo, muito arrum ado. — Por agora não posso
deixá-lo ir [trabalhar] por causa da escola, ma s depois se ele quiser ir, pois tomara eu...
Diz ele:
— Eu quando sair daqui, já não vou para mais lado nenhum. Vou mas é para ao pé da
minha madrinha e [ela] paga-me... — e porque ele vê os outros a ter um telefone, um
telemóvel... E ele quer ter. — Ai, os da minha idade já têm, eu também tenho de ter.
O mais novo, tem nove anos, anda com o pai lá em baixo 10 . Eu acho que ele já aprendeu
mais lá, que aqui 11 ! E ela 12 tem o deixado, tem-no ensinado.
No trabalho de casa tenho um, o mais velho, esse é mesmo trabalhador, já há muito tempo
que ele levantava-se, fazia a cama dele, a rrumava o quarto, arrumava a cozinha, o
canteiro, a loja dos animais, fazia tudo… Ainda hoje....
O mais novo, esse, só mesmo obr igando-o, se não, não faz nada.
“Mas também há homens que são “uma maravilha””
Eu tenho um irmão que é uma maravil ha para a mulher, eu até lhe disse:
— Ó pá, que maravilha! — Ele c hega, faz o comer, igual a ela, ou melhor até. Faz o comer
e depois é assim: ele faz uma coisa e ela faz outra. É porque a minha cunhada é assim:
— Olha, não quero sair sem arrumar a cozinha. — Ele às vezes ainda lhe diz assim:
— Ouve lá, hoje, deixa lá a cozinha por arruma r. Olha, pronto, arru ma-se à noite, a gente
depois à noite fazemos isso os dois.
10 Na escola da noite, na educ ação de adulto s, por causa do rendiment o mínimo
11 Tem aprendido mais na esc ola da noite do que n a escola regular.
12 A professora da escola da noite
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Um dos professores, que eu nunca esqueci e tenho a impressão que só na altura quando
eu fechar os olhos vou esquecê-lo, era o meu professor de história que eu gostava muito e
que eu sei que ele também gostava de mim, de maneira que era o único professor que me
levava a estudar para ele e a ficar o fim de semana em casa sem namoriscar, porque
admito que fui muito precoce, nos amores. Claro, como era muito nova, o meu pai já estava
lá com a ‘amiga’ da minha m ãe, mas ainda estava em casa , não estabelecia relação nem
contacto connosco, usava só um quarto no cimo de umas escadas, fechava-se e não
percorria o resto da casa. Mas nessa altura s abia-se impor, até para culpabilizar a minha
mãe.
Só que eu também não era assim muito fácil, era uma adolescente como são as
adolescentes e, claro, quanto mais ele c ontrariava, então é que eu gostava do rapaz.
Uma das colegas ainda consegui u ir para Coimbra, para Ge rmânicas que er a aquilo que
havia na altura porque, realmente, tinha outras possibilidades económicas. Havia já outras
pessoas que andavam nos cursos de en fermagem… Uma professora da Mocidade
Portuguesa tinha-me ensinado «enfermagem» e nunca me passava pela cabeça realmente
vir para isto, tanto que eu tinha aversão ao sangue, aos cheiro s, era assim um bocado de
nariz sensível. Não tive outra alternativa até em função do a lojamento, porque, para aliciar,
também forneciam alojamento e davam-nos a possibilidade de pagar a maior parte no fim
do curso e, para não sobrecarregar a minha mãe, vim para aqui.
Tirei o curso de enfermagem numa Escola de Enfer magem do Porto. Na altura, o que
exigiam para o curso geral era o segundo ano dos liceus e quem não tivesse dezoito anos,
tinha que pedir autorização ao ministro para fr equentar. Eu tinha dezassete anos o quinto
ano: entrava automaticamente nem tinha que fa zer exames de admissão. A licença veio
tardiamente, eu já nem contava, já esta va assim um bocado des animada, mas depois lá
entrei directamente. O curso também não abriu na data prevista, por causa da gripe de
África. Vim assim um bocado frustrada por que realmente queria ir para Coimbra, até
porque a outra colega também tinha ido, mas depoi s acabei por gostar, quer dizer, comecei
logo a relacionar-me bem com os colegas, a criar amizades.
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• “Ser enfermeira tinha uma carga negativa”
Outra coisa era ser-se enfermeira naquela altu ra, que também tinha uma cotação muito
negativa. Só tive na altura um rapaz que me deu os parabéns. Ele também tinha andado no
seminário, não tinha predilecção por mim, e escreveu-me a dar os parabéns por eu v ir para
enfermagem. Foi a única pessoa, assim mascu lina; e até me disse que a princesa
Margarida da Suécia também era enfermeira. Esse rapaz, era muito engraçado, tinha uma
escrita muito erudita e lá me dizia na carta «…que a deusa da felicidade levante sobre si as
cornucópias». Eu na altura era ignorante em relação às cornucópias, em vez de ler
cornucópias, li cornupitros . Depois percebi realmente que «c ornucópias» eram uns vazos
em forma de conchas. Foi, por tanto, o único rapaz que me deu os parabéns, de resto era
tudo assim um bocado…
“O primeiro namorado: num sábado e com gladíolos”
Comecei a namorar ainda não ti nha quinze anos e o rapaz já tinha vinte e um. Recordo
ainda perfeitamente esse primeiro encont ro, num sábado, quando nos cruzamos pela
primeira vez: ele ía levar um ramo de glad íolos a uma senhora que tinha sido professora
dele na primária. Andava na tropa, usava o númer o vinte e sete, os outros colegas, quando
passavam por mim era: “Olha o Vinte e Sete” . Era assim uma pândega.
O meu pai não era não gostar do rapaz que el e nem o conhecia, era para im por a
autoridade. Havia na aldeia aquelas pessoas que me ajudavam, digamos assim, que me
protegiam até nesta relação e havia também aqueles que hostilizavam e que lhe íam dizer
a ele [pai], nomeadamente, a tal ‘amiga’ da mi nha mãe, que passou a viver em frente a nós
e tudo o que se passava na minha casa ela relatava ao meu pai.
A minha vinda para o Porto para o curso geral de enfermagem coincidiu com a ida dele
[namorado] para Nova Lisboa, pa ra Angola. Ía para lá com a intenção de preparar, vá la, a
vida para se viver um bocadinho melhor. Ele era primo direito do bispo de Nova Lisboa que
era de Portalegre e arranjava em pregos para os conterrâneos e el e ía para funcionário do
Banco de Nova Lisboa.
Foi de barco, ainda me escreveu para a esco la de enfermagem, mas eu ainda não tinha
entrado, porque estava c heia. Uma amiga minha deu-me a notícia que realmente havia ali
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uma carta, que a senhora do lar bem sabia bem de quem era. E depois era bom por que
todas segundas-feiras eu tinha carta dele. Essa amiga minha, que é minha comadre,
madrinha do meu filho mais velho, foi quem me indicou o curso e me ajudou a integrar no
lar.
O namoro ainda durou, só que d epois foi a distância, alguns me xericos, da parte da família
dele. Ele era de outra aldeia, havia alguns primos que me conheciam e me estimavam e
actualmente eu gosto dessa gente, mas nunca mais os vi.
• “Intrigas da família do namorado”
Uma irmã dele e um irmão mais novo, que era seminarista, andaram para lá com uns
mexericos porque queriam que ele casasse com um a rapariga de outra aldeia que est ava
também em África e cujo pai era militar. Eles eram pobres mas a outra, como era filha de
um senhor influente que estava lá em África e era visita assídua do bispo de Nova Lisboa,
ía lá comer, havia essa troca, e a família preferia.
É muito engraçado, esta vida dava uma telenov ela. Quando ele estava lá e que a família
queria que ele casasse com outra, ele esteve um tempo sem escrever, muito pouco, porque
tinha tido um acidente de moto e tinha feito frac tura da tíbia e do perónio. Esteve para aí
três meses sem me escrever, nem para mim nem para os familiares . Uma vez apareceu o
tal seminarista, ele e outros primos vieram pr ocurar-me saber se ele me escrevia, que eles
não sabiam de nada! Entretanto ao fim deste te mpo lá recebi uma carta dele a dizer que
bem podia ter morrido que eu nem procurava saber, se tinha estado incapacitado, se tinha
tido um acidente. Já era manife stação da doença, foi por isso que ele esteve mais tempo a
recuperar. Foi engraçado que eu fr acturei também a tíbia e o per ónio direito e ele fracturou
a tíbia e o perónio esquerdo.
Entretanto, mais ou menos qu ando ele já estava praticament e recuperado do acidente, veio
cá o bispo ao nosso país e acho que procurou s aber notícias de mim. Terá sabido que o
meu pai me bateu e, apesar de ser muito amigo do pai da outra, qu eria antes que ele
casasse comigo. Entretanto, esse bispo veio cá, procurou saber de mim e a irmã mentiu,
disse que eu estava em Lisboa. O senhor fo i operado às amígdalas na Ordem do Carmo, e
eu até podia ir depois lá visitá-lo, mas não eu só soube depois, porque entretanto ele
[namorado] tinha-me escrito a dizer que o senhor bispo queria f alar comigo, até para nos
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dar uma ajuda no início da vida . E como eu não fui, escreve-me todo aborrecido, [porque] o
senhor bispo me procurou e eu não apareci. Po rtanto, tinha sido uma intriga da família.
O irmão mais novo que andava no seminário conheceu-me e depois fi cou assim com uma
dorzita por ele namorar comigo. Não sei, deu-me ideia que ele, não é para me estar a
enaltecer, mas… Ainda chegou a ir assim a minha casa umas vezes, eu recebi-o bem
porque era irmão, estava praticamente noi va do outro, mas não houve nada, nem abuso
nenhum. Naquele tempo, havia muit a dificuldade das cartas saírem do seminário, mas ele
arranjou lá uma estratégia qu alquer numa saída e es creveu -me. Dizia, a dada altura, que
vinha muitas vezes ao Porto, que me levava no pens amento, e não sei quê, mas eu nem
ligava importância àquilo, mesmo sinceram ente: o meu cunhado não! Nem me passava
pela cabeça, mas realmente podia ter sido ele [i ntriga], depois fiquei um bocado na dúvida,
não tenho a certeza.
• Outros pretendentes até conhecer o “falecido vivo”
Entretanto, depois de acabar este namoro, houve outros namoricos, mas aquele foi sempre
o eleito. Os outros podiam ser pessoas mais importantes mas, para mim era sempre
aquele. Até porque já conhecia a vida dos meus pais e, na alt ura, parecendo que não,
estas separações tinham muita influência e aí eu tinha muitos complexos de inferioridade.
Era uma coisa estúpida, mas era realmente assim. Era a mentalidade da época e is so
prejudicou-me bastante, até porque chegava a te r pessoas [pretendentes] já com um certo
estatuto e só para não dizerem isso ou aquilo , nem ía com a relação para a frente. De
maneira que tive mesmo aqui no Porto do is rapazes que andavam em engenharia. Ainda
tenho assim um bocado de remorsos porque o r apaz até tinha uma frequência, andava
aflito para estudar, marcou encontro comigo, mas eu não fui. Depois o rapaz passava por
mim e ficava vermelho e nem sequer dizi a nada, nem sei que é feito desse homem.
A vida lá rolou até que num ano, qualquer tinha eu vinte e doi s, conheci aquele que foi meu
marido e agora gosto muito de l he chamar “falecido-vivo”. É, conheci esse energúmeno,
que era energúmeno mesmo. Sob o ponto de vista físico, ti nha uma boa figura, não era
bruto, sabia falar, também tinha sido semi narista, mas era vaidoso porque sabia que era
preferido pelas meninas. Era irmão do padre do Hospit al e qu e tinha sido meu professor de
Moral, na Escola de Enfermagem. Este irmão padre, que era o i rmão mais velho, não tinha
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nada a ver com ele, era uma pessoa muito engraç ada, muito comunicativa, muito alegre,
gostava imenso de viver. Não tinha, praticam ente, nada de padre, no sentido tradic ional.
Gostava muito das suas anedotas, era um bon vivan t. Tinha ido também para padre
provavelmente por acidente. Fo i das poucas possibilidades q ue o meu sogro encontrou de
lhe proporcionar um futuro melhor. O meu sogr o trabalhava na agricultura, teve doze filhos
e era um homem apegado, por ser agricultor, mas já evoluído para a época, tinha um
espírito religioso mesmo são, não era fanático, porque era sadio, e se pudesse ter os filhos
padres… para ele, ser padre dava-lhe uma va idade, automaticamente tinha um estatuto
logo diferente.
• Jovem e… «terrível»
Nas aulas de moral, eu era terrível, um boc ado provocatória também… Porque para mim,
não sei, mas, agradava-me aquela parte de provoc ar, e mesmo no namoro, a primeira parte
mais de sedução era que me dava mais piada, para mim era a que me prendia mais.
Assim, na aula do padre era pela brincadeira: perguntava-lhe muitas vezes porque é que os
padres não casavam, e essa coisa toda, e el e dizia que só eram obrigados a manter o
celibato, mas que não eram obrigados a ser puros.
Quando acabei o curso fui trabalhar para o bloco operatório, logo que abriu, no Hospital, e
fui viver para uma casa mesmo próxima do Hospital. Era de uma senhora viúva que só
tinha um filho. O meu futuro cunhado ía lá come r, almoçar e jantar, mas era praticamente
só almoçar, porque, ao jantar, os médicos não o dispensavam. Era um bom companheiro,
de maneira que fazia parte integrante das várias equipes. Como as equipes eram rotativas,
ele todos os dias praticamente comia lá com eles.
Este, o energúmeno, era o irmão mais novo e, aos fins de semana, às vezes comia lá na
casa [da senhora]. De modo que aí estávamos vá rias enfermeiras, nessa casa, e era só ele
de padre, que ía lá comer. A senhora não queria brincadeiras, mas nós brincávamos muito;
trabalhávamos muito, mas aproveitávamos todo o tempo para brincar. Estava eu com vinte
anos… Então provocávamo-lo, eu e outras.
Às vezes, quando familiares dele vinham lá do Macedo, com problemas, ficava aborrecido
durante tempos indefinidos e já não era o mesmo… Uma vez, já aquilo ía avançado, digo
assim, «Não pode ser, ele anda assim aborreci do, triste, não pode ser». Então, estávamos
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à mesa e eu de repente lembrei-me que, uns tempos antes, ele tinha trazido uns pares de
cuecas. Ele pesava à volta de cem quilos, era alto, e tinha trazido uns lenços e umas
cuecas para ver se a gente lhe punha a marca, um monograma, por causa da mulherzinha
do hospital que lhe lavava a roupa, e às vezes a roupa perdia-se. Nós é que lhe dissemos,
«traga, que nós bordamos aí um monograma». E ele lá tinha trazido, já uns tempos antes,
e eu lembrei-me que havia umas cuecas do hom em, fui ao quarto e vesti as cuecas por
cima da roupa. Eu era magrinha , ele era gordo, pus uma almofada assim à frente, lá vim eu
naquele preparo. Quando venho a sair, ele quando me viu… desatou a rir. Depois
brincávamos muito, mesmo na frente da senhora, cl aro, punhamo-nos no colo dele, cada
uma em sua coxa. Depois dávamos-lhe uns beijinhos no pescoço com os lábios muito
carregados de baton para ele ficar com a marca. Ele tinha trinta e tal anos, chamava-se
José, mas não gostava do nome, e a gente c hamava-lhe o Zezinho. O que o homem não
devia ter «sofrido»!…A espicaçá-lo, mas era mesmo. Entretanto ensinavamos-lhe a dançar
o tango, que ele não sabia dançar… Enfim, lá ficava em brasa… O homem passou das
boas connosco. Para ver o estilo.
O certo é que o homem já dava uns passos do tango e quando ouvia uma música já ficava
inquieto. Quando foi da nossa festa de fim de cu rso, a Tina então foi lá provocá-lo. Numa
das fotografias ele está a dançar: «Quem diria, pois é padre…»
Gozámos assim bem, trabalhávamos muito, mas divertíamo-nos.
2.2. “Um início profissional muit o trabalhoso mas muito agradável”
Acho a época mais agradável em termos prof issionais, foi essa, no Hospital. Era o
verdadeiro trabalho em equipe, que era no bloco operatório. Tr abalhávamos sem horários,
praticamente, era até terminar o movimento operatório. Depois, ainda estávamos de serviço
às urgências. Era até acabar . Isto foi em sessenta…
Era o que faltava agora, para não haver lis tas de espera. Agora não operam, nem sei
exactamente como é que eles lá fazem, mas trabalham menos. Aquilo era até acabar. Era
realmente muito duro, o trabal ho, mas pronto, éramos novas e aguentávamos com tudo. E
também aproveitávamos depois os momentos em que não havia tr abalho, para nos
divertirmos, para cantar: fechava-se a porta, cantávamos enquanto arranjávamos as faixas
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outra vez, preparávamos tudo para o dia segui nte e, às vezes, at é dançávamos umas com
as outras.
Convívio entre médicos e enfermeiras: as “meninas de chapéu” e as outras
Foi uma época, realmente, interessante. Criávamos mesmo relações de amizade e
algumas mantiveram-se pela vida fora, mesm o médicos e tudo. Fomos nós que montamos
o bloco. Havia o espaço, mas não estava a funcionar e nós é que fomos para lá abri-lo. De
maneira que ficamos sempre muito ligadas ao serviço. Acho que ainda deve haver lá um
álbum de fotografias da nossa época. Trabalhei lá três anos e meio. De maneira que foi
assim uma época muito trabalhosa, mas também ainda brincávamos um bocado lá dentro.
Logo no fim das operações, às vezes, as do Dr . Garcia acabavam pela meia noite, uma
hora da manhã, desde as três da tarde até aí, em pé, no mesmo sítio: nem fazer chichi,
nem comer, nem nada. Claro que hoje tenho artros es nos tornozelos e isto de alguma coisa
foi, não é só a idade. Não havia substi tuições, naquela altura. E aguentava!… Trabalhei
com eles até me vir embora que foi por eu ter engravidado.
A gente acabava a intervenção àquelas horas, e ainda tínhamos que arrumar tudo, deixar
ferros lavados, tudo arranjado, montar outra ve z a sala para, no dia seguinte de manhã, já
estar tudo funcional. E o médico ficava à nossa espera, porque senão, nós não podíamos
sair. O hospital fechava a porta para aí às dez da noite e depois tí nhamos que sair pelo
serviço de urgência, o porteiro não nos deixa va sair. Porque era a lei, era aquela
escravatura. Podia ser consi derado abandono do serviço. Era esse o regulamento. Só o
médico é que atestava que não havia serviç o e que estávamos dentro da lei. Ele lá
esperava, ou no átrio do bloco, ou à saída no serviço de urgência. Às vezes até vínhamos
tão cansadas que nos deitávamos vestidas. Das três da tarde até às três da manhã! Íamos
assim, nem comer, nem nada. E ele também estava desde as três, com o máximo de
concentração e de pé. Ele tinha uma coisa: enquanto operava, não admit ia conversas. Só
quando estava já a fechar o doente, é que re laxava e dizia assim uma gr aça, até o seu
disparate. Até aí, não permitia que ninguém abr isse a boca. Esperava por nós, à saída, e
levava-nos a comer qualquer coisa ao café.
Havia convívio entre médicos e enfermeiras, já na altura. Ou se chegava a ir uma vez ou
outra jantar. Não toda a gente, algumas. E claro está, depois isso também nos marcava.
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Acontecia que o outro pessoal chamava-nos «meninas de c hapéu». Achavam que éramos
um tanto a élite. As do bloco eram as «meninas de ch apéu». E até nem usávamos chapéu,
tem graça, usávamos barrete. Chapéus, us avam-nos elas. Elas é que usavam um
chapelinho da farda! E nós at é não: era tudo abolid o porque tínhamos que ve stir as roupas
próprias do bloco, esterilizadas.
Eu trabalhava com o Dr. Garcia no Hospital e cá fora. Quando ele tinha serviço nas Ordens,
era eu que ia instrumentar. A chefe de enfermagem facilitava a saída do hospital, ia ela
fazer o meu trabalho, ou de outra qualquer, par a nós podermos ganhar mais uns tostões cá
fora.
E ele [médico] ia buscar-me ao hospital e levava-me para a Ordem, no carro. Era uma
pessoa muito exigente, mas, mesmo no Hospital, era eu sempre que trabalhava com ele,
mesmo quando eu estava de férias e ele ti nha uma operação grande, chamava-me. Eu
sabia e vinha sempre. Era eu que instrumentava o Dr. Garcia nessas intervenções e era a
Tina que circulava, a circulant e. A circulante é a pess oa que equipa a sala com tudo e a
que está atenta aos materiais, ao que falta e aos posicionamentos do doente e a acertar as
luzes e essa coisa toda. Agora deve ser tu do já mais automático, mais mecanizado.
• A chefe de enfermagem: dinâmica, culta e solidária
Tínhamos uma chefe que, naquela época, já er a uma pessoa bastante culta. Era de uma
boa família, em termos sociais, e era uma r apariga muito dinâmica. Eu acho que f oi a
melhor chefe que tive até hoje, daquelas me smo competentes. Cas ou com um médico.
Está viva e está muito bem. Nem parece a idade que tem. Mas era r ealmente uma chefe,
na verdadeira acepção da palavra. Estava atent a à nossa maneira de estar: se uma pessoa
divertida, andava assim uns dias cabisbaixa , ela via logo que alguma coisa se pass ava.
Nós não andamos sempre bem dispostos, com esse estado permanente. Então lá
perguntava o que é que se passa va e se pudéssemos… ela faria tudo para nos ajudar. E
ajudava. Era fantástica! E lutava muito com os superiores administrativos e com a classe
médica para nos defender. Não era uma chefe que se baixava. Esteve depois um ano em
Bristol. Quando veio, procurou, realmente, adaptar alguns conhecimentos que trouxe à
nossa realidade. Lá está, naquela época tam bém abanou um bocado as estruturas. A
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princípio, alguns médicos ridicularizaram algumas situações, mas depois acabaram por
aceitar. Era realmente uma chefe excelent e, em tudo.
• O poder dos médicos
Uma das vezes até houve um episódio numa intervenção… Era uma anastemose, uma
coisa difícil, na época. Era só o Dr. Garcia que fazia essas intervenções, lá no Hospital, e
havia lá determinado produto que, em determinado ponto da intervenção, era necessário,
um produto para fazer uma lavagem depois de ter feito lá determinada sutura. Ele já tinha
utilizado isso e eu fiquei de um momento para o outro sem mais, e pedi à Tina para me
abastecer e ela decidiu que não era preciso. E até foi. E estava um médico de fora, a
assistir à intervenção, e o Garcia tinha o seu genioz ito. De mo do que quando qualquer
coisa não estava bem, ele atirava tudo pelo ar . Materiais e tudo. Lá iam as pinças, tudo
pelo ar. Ele quase que me batia! Eu fiquei co m uma vergonha tão grande na frente do outro
senhor!
Mas lá se remediou. Nunca ele chegou a s aber que a decisão tinha sido da Tina. Fiquei eu
por parva, quando não fui. Podi a ter sido, mas não fui. Eu calei-me, fiquei por
incompetente. Mas ele quase que me bateu, ficou possesso, tinha razão. A Lucinda sabe,
que ela ouviu, mas também não disse nada.
O Dr. Garcia, naquele dia, quando me ralhou, esperou na mes ma, no fim. O assistente
veio-se despedir, eu estava a equipar a sala, ele veio por trás de mim, lá se despediu, «até
amanhã» e estava eu a choramingar porque eu esti ve um pouco tempo ali, naquela tensão.
Não tinha tido culpa, mas ouvi aquela coisa, não queria acusar a colega. Então, eu disse-
lhe:
— Foi a última intervenção que eu trabalhei convosco. Com ele, não quero trabalhar mais.
Porque o Garcia tinha saído da sala furibundo, se m dizer nada. E ele lá lhe foi dizer, ao
Garcia e este veio para trás, fez-me umas festinhas, parece que até já tinha mudado de
humor.
Era um homem atraente, bonitão, muito bem vestido, estilo i nglês. Um dia, a mulher quis
saber informações de mim. Falou com uma anestesista, que era assim uma senhora m uito
interessante, o marido também era anestesista e eram um par muito romântico, mesmo no
trabalho, mas ela era muito bisbilhoteira, er a mesmo o termo. Mesmo no decurso das
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intervenções, ela e a enfermeira auxiliar semp re ali a falar dos outros. A gente às vezes
estava a operar e ouvia aquele ruído. Já tinha esta fama, lá no hospital, assim, de «lí ngua
comprida». Foi a ela que a mulher do Dr. Garcia foi pedir informações.
Eu depois é que soube como é que foi que isso aconteceu. Na altura, o director e os
médicos do serviço de cirurgia organizava m de vez em quando uns almoços nas quintas
uns dos outros e lá nos convidavam para a ge nte ir. Fomos uma vez a Poiares, a uma
quinta de um deles. E conv idaram as esposas dos s enhores doutores, aquelas que
quisessem ir. Houve um grupito que foi, e entre esse grupo figu rava essa tal anestesista. É
claro que elas formavam um grupo à par te. Nunca se misturaram connosco.
O dono da quinta organizou o jantar , cá fora. Chamou o rancho fo lclórico da região para vir
lá actuar e depois, a dada altura, andamos nós e o rancho, tudo ali num dançarico. O Dr.
Garcia já sabia das conversas da mulher, e para que ela ouviss e e fixasse mais, chamou-
me e disse-me, assim na frente dela, que ne ssa semana havia uma intervenção na [Ordem
da] Lapa.
E, no decurso do almoço, fez uma coisa que eu, também, no lugar dela, não gostaria nada.
As mesas estavam dispostas de maneira a que os solteiros estivessem de um lado e os
casados de outro, para dar espaço às senhoras a estarem ao lado dos maridos. A chefe de
enfermagem era solteira e eu também e o Ga rcia, em vez de ir para o lado da esposa,
sentou-se à minha beira. Aí, claro, ela, de vez em quando, olhava e eu dizia logo:
— Ó Sr. Dr. vá para aqueles lados.
— Aqui é que eu estou bem, nesta mesa é que eu estou bem. — Eu, no lugar da senhora,
sou franca, também não gostaria nada.
Um dia, estávamos numa intervenção, à ta rde, daquelas que demor avam muitas horas
mesmo, estava essa anestesista e um outro médico que tinha uma « língua» horrível, ainda
pior do que ela. Entrou o Garcia e diz assim:
— Juntaram-se as duas más línguas daqui do Ho spital, — assim mesmo. E depois virou-se
e acrescentou: — Sabe que aqui a Dr.ª é qu e esteve encarregada de dar informações suas
à minha mulher… — disse assim a li na frente dela, e ela ficou!…
Ele era de um calibre! Quando veio lá a modinha do rock & roll, uma vez saiu do hos pital,
pelos vistos, e foi lá para os lados de Matosinhos, não sei com quem. Não foi comigo.
Chegou a casa às tantas da manhã. Ele é que disse depois, lá na operação:
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Andei lá ainda dois anos . Quando voltou outra vez o falecido-viv o , lá fui por onde não devia
ter ido.
O progenitor recusa-se a registar a criança: «pai incógnito»
Quando nasceu o meu mais velho, vim à judiciária para registar o miúdo. Ele soube da
gravidez, porque a cunhada mandou-lhe logo um te legr ama, mas não quis saber. E lá vim,
por causa de perfilhar o miúdo, mas ele não aporfilhou. Eles esc reveram mesmo na cédula,
por extenso: «Pai incógnito». Às vezes só punham um traço, mas ali escreveram mesmo
assim.
Acho que não dar logo o nome foi um truque que ele usou: «assim, aquela, quando eu
quiser, está ali à minha disposição.» E agor a, nesta fase da vi da, pens o que era essa
jogada dele. Eu aceitei casar com ele mais por causa do problema do rapaz, da criança.
Foi isso! Se ele tinha dad o logo o nome… Quando ele veio ter comigo, não o tinh a
aporfilhado ainda.
Uma vez, estava no lar, ainda trabalhava ent ão com o Professor, estava à beira da
Bernadete e de outra e encontro-o. Foi num dia lá dos mortos, em Novembro. Vinha ele e
outro lá do Cemitério de Agramonte e passou ali pela Boavista, viu-me e falou comigo.
Onde é que eu estava e tal, e eu lá disse. Já tinha passado por ele, anteriormente, eu tinha
feito de conta e ele também. Mas, naquele dia, resolveu falar.
Um dia, nunca mais me esqueço que foi o dia 10 de Junho, dia de Camões, eu estava a
almoçar e era feijoada lá no lar. Ía começar a comer, tocou o telefone: era para mim. A
freira chamou-me, era ele. Queria que saísse com ele. Era estranho, de repente assim!
Porque é que eu me lembro que eram feijões? Levantei-me, já não me deu tempo de ir a
lado nenhum, vomitei tudo num balde. Tal era a tensão.
Era uma série delas, de volta de mim, nem acabaram de comer: uma a pent ear-me, que eu
tinha os cabelos compridos, outra deu-me um cola r. Eu tinha um vestid o, por acaso, muito
interessante, lá o vesti e lá ter com ele. Fique i à beira da Arcádia à espera. Já estava para
aí há dez minutos à espera do homem e ele não vinha. Nisto , lá vem ele do outro lado.
Atravessou a rua e lá demos uma volta. Então o que é que el e dizia? Que tinha pensado e
que não podia estar toda a vida a ssim. Entretanto, com quem el e deveria casar era comigo.
Foi logo assim directo. E terréutéutéu , lá fomos, jantei lá com el e. Telefonei para o lar para
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a freira a dizer que ia mesmo na hora de fechar (fechava às dez e meia da noite). E depois,
a partir dali, aparecia-me.
Eu disse ao Professor e diz ele:
— Veja lá onde é que se mete. Eu tenho má fama. — que ele tinha assim uma fama das
meninas, era também um homem muito interess ante. — Se você engravida outra vez, sou
eu que estou na berlinda. Entretanto, veja lá, Maria de Lurdes, gosto muito de si, mas não
me obrigue a mandá-la embora, porque eu não queria fazer isso. Portanto, diga-lhe a ele,
para já, que venha ter comigo. Precis o de ter uma conversa assim…
E ele, por acaso foi, eu pensava que ele não ia, mas foi. O professor pôs-me, na lua, não
foi na minha frente, mas lá lhe fez ver que a primeira coisa que tinha que fazer era dar um
nome à criança. Pronto, e depois o professor ficou a ser o nosso padrinho de casamento. E
foi assim.
2.4. “A vida de casada foi uma porcaria”
A outra vida, de casada, foi uma porcaria. Claro, também não posso dizer que foi sempre,
sempre. O que tornava tudo mais difícil era a in stabilidade dele. Hoje estava um enc anto,
amanhã já… Depois vinha outra vez bem, depois vinha não sei quantos. Só que, se ele
fosse sempre mau, era fácil de me desli gar. Assim, não. Punha a hipótese de haver
melhoras, andava naquela esperança. É assi m um bocado complicado. Não vinha muitas
vezes comer, nem sequer avisava que não vinha. Depois saía às três, às quatro, às cinco
horas, de madrugada, eu não dormia, ficava m agoada, pensava assim: «Então, sabe que
eu que vou trabalhar…», e ficava fora de mim. Não era eu mesma. Eu ficava totalment e
diferente. Eu ficava possessa também. Depoi s ele, chegava, e lá era ali uma zaragata,
quase sempre. A dada altura, nem sequer ligava. Uma vez disse-lhe:
— Tenho a sensação de que, quando fazes esses telefonemas, quando dize s «vou já para
cima», deve estar ao teu lado alguém, e tu queres prov ar a esse alguém que fazes de mim
aquilo que tu queres.
Ele ficava possesso. Eu chegava lá, mas não sabia como é que havia de lidar com a
situação, porque ele era da judici ária. Eu não tinha dinheiro na altura para pôr um detective
particular atrás dele. Tinha os filhos pequenos para cuidar. A enfermagem era quase um
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quartel general, e chegava a casa e tinha a vida de casa e os miúdos e essa coisa toda,
não dava muito tempo de pensar em sair da situação.
Eu, quando estava sozinha no quarto, sabe Deus… Mas não podia também ir. Não ia
deixar dois filhos com ele, ou um, ou três. E onde é que eu ia com os quatro, se saísse?
Mas era assim um bocado complicado.
Ele, nesta última filha, queria que eu abortasse , mas não abortei. Depois já era a predilecta
dele. Era engraçado, tão predilecta que a rapar iga, coitada, ainda ficou meia abananada.
Também bebia bastante, tinha esse problema. Acompanhava-se sempre de outros homens
com aquela identificação de grupo do alcoólico. Eu bem lia aqui as coisas, bem sabia,
mas… O problema é como resolver: nem quem está de fora resolve depressa, quanto mais
quem está dentro.
“Saí de casa durante três meses”
Quando andava maluco com ela [a mante], aí é que ele me fe z mesmo uma vida horrível
durante um ano. Fez mesmo. At é que, a dada altura eu comecei, realmente a cansar e pu-
lo mesmo de lado, afectivam ente. Um dia qualquer, chegou às quatro da manhã, veio ao
quarto, levou a almofada e foi para um sofá par a a sala. E eu, tudo bem . A partir dali, nunca
mais quis saber, nem se ele tinh a almofada limpa, se tinha lenç óis, se ele dormia aqui, se
dormia acolá. Ele enrolava os lençóis, punha num quarto pequeno em cima de uma arca
que lá estava e aquilo lá andava. A miúda mais nova [filha] é que substituía, quando era
para mudar. E andamos assim um tempo. Não o fui lá buscar para ele vir para a minha
beira, bolas! Ainda ficou lá assim um tempo no sofá.
E então saí de casa, fui para outra cidade, par a o meu apartamento, para não ter que ficar
em casa. Estive lá três meses. Ia e vi nha… Nesses três meses, é que ele andou bem!.
Julguei que as filhas o prendessem um bocado, mas não. Ele abandonou-as totalmente e
não queria jantar, nem aparecia, às vezes. E a mais velha que não tinha namorado, nem
tinha nada, vinha de trabalhar e sentia-se muito so zinha, uma vez ou outra, ia ficar comigo,
depois vínhamos as duas. Numa das vezes, na es tação, eu vi a rapariga muito triste, na
sala de espera, perguntei-lhe e ela lá me disse:
— Ó mamã, deixa-te disso, anda-te embora, sinto-me tão so zinha. — e eu lá vim.
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Dali a pouco tempo lá foi então a tal cr ise grande e eu nunca mais liguei, também. Ele
também chegava às quatro e ta l da manhã, cinco, mas era assi m diário, ele não aguentava,
diariamente, aquele ritmo de vida! Estar a dormi r com a mulher [ amante], ou lá o que era,
ter que se vestir, ter q ue vir outra vez para casa. Eu não sei quem era a outra, a sirigaita.
Sei que uma vez ela ligou para lá, de tarde, era assim um exemplar que se via que não
tinha… Ligou a perguntar se er a ali a casa do Sr. José Vasco Martins. Ele não é José, é
Manuel. José era o padre, o i rmão, o tal Zezinho. Eu disse que não, que não havia ali Jo sé
nenhum, mas também não disse quem era, percebeu-se lo go que havia ali hi stória. Depois
disse-lhe a ele:
— Para a outra vez, dá o nome direitinho às meninas. É melhor não dares falsos nomes.
— Anh, anh, mas que meninas?… Perguntaste-lhe o que é que ela queria?
— O que ela queria eu já sei! Ponto final.
O processo até ao divórcio: “fez-me coisas muito baixas”
Depois, fez-me coisas mesmo muito baixas, que nem vale a pena relatá-las. E a dada
altura saiu de casa mesmo. Saiu nos finais de Julho de noventa e seis, quando sabia que
em Setembro a filha mais velha se ia casa r. Os momentos que el e escolhia!… O que eu
tive de suportar também. A rapariga casou-se no dia vinte e oito de Setembro, que é
também o aniversário do meu genro. Escolher am essa dat a, ele festejou os anos e
casaram. Foi desta que nasceu esta minha neta.
Aos cinquenta e seis anos meus, eu sou mais nova do que ele oito, mas, pelos vistos, ele
gosta é das novitas mesmo e então… acho que ele deve ser pedófilo, porque, segundo me
disseram, ele andava com essa rapariga desde os dezassete anos. Ele é um sujeito com
mais de sessenta! Não é normal.
Andei assim abananada um tempo, o que me valeram foi aqui a Tina e a Conceição e as
amigas lá da cidade onde tenho o meu apartamento, andava as sim meia desvairada. Não
era pela perda lá do «exemplar», era, realmente, por estas coisas t odas, por aquilo que era
meu, pelo casamento da filha, que fui eu que supo rtei tudo, e por ter aguentado toda
aquela tensão.
Um dia, chego a casa, já ao fi m de alguns meses de ele ter sa ído, e havia lá o pedido de
divórcio. Ai, este papel tem graça, este do divórcio.
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• Manobras intimidatórias e perseguições
Ele saiu no final de Julho, mas aí no início de Julho, fins de Junho, ele esteve para aí uma
semana que não veio a casa. Ainda estava em casa, mas não veio dormir. Faço anos a
seis de Julho e, em noventa e seis, era um a Segunda-feira, nunca me hei-de esquecer. Ele
não tinha estado o fim-de-semana. Já há uns dias que não vinha. O que é que tinha
acontecido? Saiu com o nosso carro, que não estava na garagem, e deixou, no lugar do
nosso, o da polícia, que esteve lá uma série de dias ali metido. Eu acho que isto que é um
crime, mas esteve. Entretanto, eu andava em estágio no hospita l, estava lá e diz-me uma
empregada lá do serviço:
— Ó senhora monitora, vá lá fora que estão lá uns senhores que querem falar consigo.
— Uns senhores? — lá fui.
Então, dou de caras com ele e com um coleguinha de gabinete, um nov ato. Lá estava ele,
na recepção, e esse novato junt o dele, que era um tal de agente Barata, soube depois o
nome do homem. Então, o que é que ele queri a? Tinha dada cabo das chav es do carro do
Estado. Não sei o que é que ele fez a elas e então dizia que eu que lhas tirei. Deixou-as
nalgum sítio, ou até ela lhas teria tirado par a precipitar a situaç ão de ele abandonar a casa.
Então, o homem vem lá, com o outro, e queria as chaves. E eu, meia parva:
— Que chaves?
— Ai, as chaves. Estás a ver como ela é? Tirou-me as chaves. — ele para o outro.
E o outro era assim:
— Ó minha senhora, dê-lhe as chaves do ca rro, porque a gente tem que ir trabalhar.
— Mas o que é que estão aí a dizer? Que conversa é essa? — Foi para ali uma cena! E
digo assim: — E de resto, não sei o que este homem quer de mim, porque, afinal, já há
muito tempo que não põe os pés em casa, nem contribui com nada para ela, já nem sequer
a mercearia põe em casa, nem nada. Não sei o que é que ele quer de mim, afinal. Procure,
talvez a sua amante saiba onde é que elas estão.
Nisto, passou a chefe de serviço, a enfermeira Castro, e eu disse-lhe assim:
— Ó senhora enfermeira, deixe este senhor ir lá em cima comigo, ver a minha carteira.
A mulher deve ter ficado parva. Ela não sabia que o homem era agente, nem nada, ele
estava à civil.
— Não, minha senhora, não é preciso. — diz o homem.
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— Não, não, é preciso. Agora, o senhor vem lá e eu mostro-l he a carteira, para ver se tem
lá alguma coisa. — e dei tei lá aquela po rcaria em cima de uma mesa, prrr : já estava
também irritada com aquelas m anobras dele… — Agora se o senhor quiser que eu me
dispa… — eu assim para o catraio.
— Não minha senhora! Não. Eu estou convenc ido que ele que as deixou nalgum sítio.
Lá se foram embora. À tarde, sou assaltada em frente à min ha porta, de esticão. Veio um
carro com uns magareiros lá dentro e eu estava a fala r com uma vizinha de frente:
— Ó D. Lurdes, a senhora está tão magrinha! — queria conversa e eu lá disse:
— Olhe, estou, mas eu sinto-me bem, não est ou doente… — e nisto, nem estava há dois
minutos, ou três, passou o carro mesmo r ente a mim e levou-me a carteira.
Caí violentamente e sei que tive este pensament o: “Ai meu Deus, vou ficar esborrachada.”
Mas não, só tive umas negritas. Não tive a s ensação que foi roubo de carteira, julguei que
tinha sido atropelada. Quando m e vim, estava de costas. Quando me levantei, começou ela
a gritar:
— Ai, levaram-lhe a carteira. — como eu tinha lá tudo, cheques, cartões, as chaves das
duas casas, estava muito preocupada com as chaves de lá.
Levaram-me as chaves de casa, mas a mais nova tinha acabado de subir. Tive que fazer
outro buraco na porta, outra chave. Ele, na al tura, ainda vinha a casa, mas vinha às quatro,
às cinco e eu penso que isto que foi autori a dele. Mandou alguns dos seus capangas atrás
de mim. Ele era muito esperto, porque provocav a-me com coisas mesmo ordinárias, em
silêncio, mas eu percebia o que é que ele quer ia: queria que eu berrasse como das out ras
vezes, que era para ter um pé para sair. Nem nada!
Entretanto, numa Sexta-feira dessa mesma se mana, ele chega a casa à tarde, e tinha
andado a mexer na fechadura da caixa do corre io, porque só ele é qu e t inha as chaves.
Nós não tínhamos, nem eu nem elas. E então, ti rou a correspondência e havia uma carta
para mim, e ele pousou a carta lá numa mesa, de maneira a que eu visse. Eu vou para o
quarto, ponho os óculos, vou ler a carta e vinha endereçada a Maria de Lurdes Vasco
Moura. O carimbo era da Gand ra e dentro tinha um papelinho e dizia assim: «Junto se
envia a sua fotografia encont rada no corredor do Hospital, depar tamento de informática»,
Paulo não sei quê, já não me lembro. Ainda tenho o cartão. Ent ão, aparecia aí uma
fotografia de quando eu tinha onze anos. Tinha na minha carteira. Mas o que é importante
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aqui é o que essa carta dizia e es ta fotografia! Porque na fotogr afia, por trás, estava a letra
do meu pai: «Menina Maria de Lurdes Martins de Sousa», não tinha nada de «Vasco
Moura». Era isso que me baral hava. Como é que a fotografia tinha um nom e e o autor da
carta tinha posto outro?!
No corredor do Hospital, quando eu não tinha anda do lá, porque é que a fotografia lá foi
parar? E fiquei assim baralhada. Eu tenho isso tudo guardado. O homem trabalha lá, no
departamento de informática. O papel não era timbrado, era um papelinho! Pensei assim:
«Vão saber que eu estou no Hospital. Não tenho que ir ver se existe este homem. Pode ser
perigoso para mim.» Andei aque la manhã que Deus m e livre! Cheguei ao meio dia, vim-me
embora. Cheguei ao Ho spital, vesti uma bat a, fui s aber onde er a o departamento de
informática e ver esse Paulo. Era na hora do almoço, tive que estar à espera dele. Nisto,
vêm dois e um deles de argolinha [na orelha] e eu perguntei-lhe se algum deles era o
senhor Paulo. Diz o da argola: «Sou eu.» O outro caminhou, ele ficou comig o no corredor e
digo assim:
— Olhe, era por causa de uma fotografia que o senhor me mandou por cart a, foi
encontrada no corredor hospital.
Fez-se um silêncio… Ele fico u muito atrapalhado, foi apanhado em flag rante: ali havia
coisa. Quer dizer, não sei se foi mandado por ele, se era meni no que andasse c om a
sirigaita, que era mais para a idade dela. Isso foi qualquer plano que eles fizeram para me
pôr maluca, para me chatear. E isso aí tamb ém me dava assim um bocado na alma. É que
depois analisava: «pode ser isto, isto, ou isto e isto». E aqui eu acho qu e foi um plano dele
ou dela. E foi como quem: «Põe-t e a pau, porque se quiser dou cabo de ti.» Disse ao
homem:
— Como é que o senhor soube a mi nha direcção e o nome de casada?
— Ah, a fotografia tinha o nome.
— Não, não. Tinha o meu nome de solteira, não tinha o meu nome de casada. Como é que
o senhor soube? — outro silêncio.
— Fui ver aos dados.
— A fotografia nem sequer era recente, era de quando eu era pequenina, como é que
soube que era minha?
— Eu fui ver aos dados.
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— Que dados? Mas eu nem sequer sou funcionária aqui do hospital, como é que o senhor
foi ver aos dados?
— Dados de informática. Como doente.
Por acaso tenho o cartão do hospital como doent e, mas deve haver milhentas Marias de
Lurdes. Eu, se quisesse tinha liquidado aquele hom em. Quer dizer, ia à Administração,
fazia uma queixa, porque ele mesmo que fosse ver aos dados, não tinha nada que and ar a
usá-los. Digo assim:
— Então, pronto já estou esclarecida. Mas queria ao menos pagar-lhe o selo.
— Ai, não, não. — o que ele quer ia era sair da minha beira.
Eu dava cabo dele. Ele estava enrascado e demorava assim tempo para me dar as
respostas. Peguei e saí, vim-me embora, mas andava louca… Fiquei assim um bocado
aterrorizada.
A carteira apareceu depois, em Matosinhos. Uma senhora tele fonou-me a dizer que tinha lá
uma carteira. Devolveu-me a carteira com as chaves, com tudo. Claro que o dinheiro não
apareceu. Eu tinha telefonado para Lisboa, para a telecaixa, e tive ram que rejeitar os
cheques daquela série, no dia seguinte.
Naqueles tempos eu andava louca. O meu compadre de Vila C hã, o Ernesto, tinha sido
operado e estava na Casa de Saúde. Fui lá vê-lo e contei-lhe. Levei-lhe o papelinho, levei-
lhe tudo. Diz ele assim:
— Ó comadre, que és esperta e que sabes escrever, por que é que não escreves ao
Provedor de Justiça, a dizer que te sent es ameaçada? Ou então ponh o-lhe em cima um
advogado, que eu lamento que o M anuel seja assim tão burro. — portanto, também ficou
convicto que isto era ele [marido].
De maneira que foi uma época difícil…
Eu cheguei a casa e disse, eles até fica ram assim um bocado surpreendidos:
— Ei!, faz favor de avisarem lá o vosso pa izinho que eu tenho gente amiga que, se me
acontecer a mínima coisa, nem que seja natur al, ele vai ser incomodado. Digam-lhe isso.
Não sei se eles lhe disseram ou não disseram, nunca mais ninguém me chateou. Mas era o
meu compadre:
— Tenha muito cuidado ao atravessar a rua…
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E o rapaz [do Hospital] devia ter ficado apa vorado, porque depois soube que, dali a uns
dias, ele meteu baixa. Agora não sei se lá es tá, nem se não está. Aqui a Tina e a
Conceição, as minhas amigas, conheciam admi nistrativos, e diz uma delas assim:
— Dá-me cá isso! Quem vai lá tratar disso sou eu. — dei-lhes aquilo e disse-lhes:
— Mas tenham cuidado, porque ele agora sabe, já me viu a cara. Tenham cuidado, não
quero que se metam nisso.
Pequenas vinganças
E no dia sete de Setembro, por tanto, anteriormente ao casame nto da minha filha, eu tinha
ido à casa dos meus compadres de Vila Chã, era um Sábado. E, de vez em quando metia-
me no comboio, como andava assim um bocado avariada , ia lá assim um bocadinho,
conversava e depois vinha-me embor a. E, à vinda, quando cheguei à estação, já eram oito
menos cinco da noite, já estava assim lusco-f u sco, e vejo passar um carro da polícia, o que
ele usualmente trazia. Estava à espera do autocarro e, ali na cur va, vejo o carro, conhecia
a matrícula, vejo-o a ele e vejo os cabelos compridos da sirigaita. Ele tinha saído em Julho,
já nos fins de Julho, mas eu fiquei!…
Então quando eu lhe pedia, às veze s que chovia que eu sei lá, e ele tinha o carro, ele dizia:
«Ai, não, e depois se alguém me vê contigo, sou cham ado ao director.» Veio tudo à
memória num turbilhão e pensei: «Deixa es tar que eu já te digo como é», e vim durante o
autocarro a conceber o plano.
“— É legal o pessoal da Judiciária passear as amantes nos carros da polícia?”
Cheguei a casa, estava a rapariga mais nova [f ilha], só vivia já com ela. Estava ela toda
preparada para sair lá com as amigas e até ficou assim par ada para ver. Não gostou muito
do que eu fiz, mas eu fi-lo, na mesma. Peguei no telefone e ligo para a judiciária. Vem -me
um senhor, que diga-se em abono da verdade, era um homem es perto. Devia ser um rapaz
novo ainda, pela voz, e foi inte ligente mesmo. Mas eu andav a meia apanhada do clima ,
mesmo assim admiro-me como é que eu falei assim tão direitinha:
— Olhe, eu desejava fazer uma pergunta.
— Faz favor, minha senhora.
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— Será legal os senhores agentes passear em as amantes num carro do Estado? — fez-se
um período latente:
— Ó minha senhora, os carros de Estado são de serviço.
— Bem me queria parecer, mas poderia ser uma concessão de última hora. — Eu assim,
cínica.
Mas depois dei a volta ao texto. Pensei as sim: «Ele às tantas não aguenta este cinismo,
desliga-me o telefone e ‘vá lá para o raio que a parta’». E digo assim:
— Mas talvez o Sr. Provedor da justiça me possa elucidar melhor. — fui logo assim para
ele não me desligar o telefone.
— Mas quem está a falar, minha senhora? Olhe, e quem era, quem era? — ele já assim,
eles são terríveis; mas eu, o que quis foi abanar a estrutura.
— Olhe, quem foi, por enquanto não digo. Ou por outro, dou-lhe outros dados. É uma
pessoa veterana aí e cuja amante poderia ser fil ha dele. De resto, se os senhores quiserem
investigar, não é assim tão difícil como isso , porque, penso eu, que não é qualquer um que
mantém um carro de estado apr isionado um fim de semana. Portanto, os senhores se
quiserem sabem quem foi, sabem.
— Ó minha senhora, mas com certeza andava em serviço, não é? — Mas disse aquilo
pouco convicto, foi mesmo para fazer conversa ; e depois: — Ó minha senhora, mas escusa
de escrever ao senhor Provedor da Justiça, escreva aqui para o Sr. Director.
— Não, não. Para aí, não vale a pena, porque eu sei muito bem que só c hega à mão do Sr.
Director aquela correspondência que o senhor bem entende. Não vale a pena. M uito
obrigada, já estou esclarecida. —
E pensei assim: «Isto agor a vai ser mote para a conv ersa del es durante o piquete. Isto vai
ser um zumzum : ‘Houve para aqui uma gaja, que tele fonou, que fez isto, que fez aquilo’.»
Eu já estava ali a congeminar. E assim fo i. E ele bem soube que eu que tinha telefonado.
Toda a gente sabia quem ele era, que era um bobo da corte.
Um bonito casamento para a filha
A festa do casamento esteve bem, esteve t udo muito bonito. Ele foi ao casamento. Foi só,
não sei se a tinha lá na estalagem. Desconfio que ele devia tê-la lá para algum c anto,
porque ele estava muito instável, mesmo na mesa, de vez em quando, levantava-se. Eu
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3. Maria Carolina Cardoso, “o que eu sou é professora”
3.1. A infância entre o moinho e África, crescendo com o trabalho e as letras
O meu pai era moleiro
O meu pai e a minha mãe eram naturais, cada um deles, de uma freguesia do concelho de
Condeixa-a-Nova e ambos faziam parte de famí lias de moleiros. O próprio pai era moleiro,
que era uma profissão extremamente modesta. Hoje, quase não há mole iros, mas eu acho
que, apesar de modesta, era um a profissão muito, muito in teressante e uma coisa muito
poética, também. Ainda há um moinho na famí lia, embora não funcione como tal, é mais
uma recordação e ainda hoje go sto de ouvir aquele barulho ince ssante, de sentir a água a
passar por baixo, porque são moinhos de água, a que também chamavam azenhas.
Conheci duas azenhas diferentes, onde v ivi até aos meus seis anos de idade. Mas a que
acabou por ter efeitos muito profundos na vida de t odos nós foi a última, que se situava em
Vila Pouca de Cenarche, que, por acaso, já pertence ao conc elho de Coimbr a.
À sua maneira, o meu pai era uma pessoa um tanto empreendedora, não era muito, mas
bastante para o seu tempo e a sua cultura. Assim , em 1948, tinha eu seis anos, ele
mandou electrificar o moinho, o que se just ificava, porque durant e grande parte do ano não
havia água suficiente para mover as mós e, portanto, não se moía. Nessa altura, passava-
se muito mal. Tenho uma ideia muito concre ta disso. Lembro-me de que c omíamos muitas
papas de farinha de milho com sardinha frita ou a ssada. Muitas papas e pouca sardinha…
Nesse ano, fui pela primeira vez para a escola, em Vila Pouc a, e lembro-me de coisas que
então aconteceram que sempre achei ex traordinárias e que nem sei explicar.
Por exemplo, no primeiro dia de aulas, a pr ofessora perguntou a todos “O que é que tu
queres ser?” e os rapazes diziam as coisas que se diziam naquela al tura. Em 1949, o que é
que se dizia? Queria-se ser carteiro, guarda-r epublicano, carpinteiro, pedreiro. Coisas
assim, e pouco mais, e as raparigas, então, quando muito queriam ser costureiras. Os
horizontes eram muito curtos para nós, mas eu dei por mim a dizer: “Quero ser professora
de grandes”.
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Ainda hoje, pergunto-me a mim mesma, porque é que disse aquilo. Eu sabia lá o que era
ser professora de grandes!? Não sabia! Mas foi o que eu respondi…
Quando cheguei a casa, nesse pr imeiro dia, o meu pai perguntou-me o que é que eu tinha
aprendido e eu respondi:
— Aprendi o, a, e, i, o, u. O A é branco, o E é verde, o I é amarelo, o é castanho e o U é
roxo.
E ele perguntou outra vez: — O quê?!
E ainda hoje eu vejo os sons das vogais assim. Ainda hoje faço o me smo com os sons e
com os nomes das pessoas. Para mim, as Elsas são verdes, não há dúvida nenhuma, as
Anas e as Marias são brancas e as Marias Josés têm duas cores. Maria é branco e José
tem um risco azul por cima. É assim que eu vejo as coi sas, não faço esforço nenhum.
O meu pai deve ter ficado preocupado porque, no di a s eguinte, foi à escola e a professora
disse-lhe, assim que ele chegou:
— Olhe que ela, se calhar, eu não sei em que é que isto vai dar, porque ela disse que
queria ser professora dos grandes.
E estiveram a conversar com um ar sé rio mas ninguém me disse mais nada.
Pediu uma “Carta de Chamada” (…) e fomos os quatro para África
Para electrificar o tal moinho, o meu pai tinha pedido um di nheiro emprestado, para ir
pagando por letras, que era assim que as coisas se passavam naquele tempo. Ora, nós
morávamos num fundão e o meu pai ia buscar o milho para moer, a casa dos fregueses e
depois ia levar a farinha já moída, num carroça puxada por uma mula. Como a ladeira do
fundão onde estava a moagem e a estrada que ele tinha que tomar era muito íngreme, era
preciso ajudar a mula a subir, empurrando a carroça, o que era feito pelo meu pai e pela
minha mãe.
Um dia de Inverno, ainda escuro, estavam eles a empurrar a carroça e eu e o meu irmão,
dois anos mais novo do que eu, estávamos na cama, no quente, até a minha mãe voltar
para trás e nos dar o café da manhã com bo roa. Lembro-me que adoçávamos o café com
rebuçados, porque havia racionament o de açucar. De repente, come cei a sentir um cheiro
estranho, um queimado esquisito, cheirava a me tal, era um cheiro que nunca mais esqueci.
Levantei-me para ir ver e dei lo go com os motores a arder. Nessa altura, já hav ia chamas
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altas e isso, e os meus gritos fizeram com que os meus pais voltassem a correr e
deixassem a mula a vir às arrecuas por ali abaixo a ganhar velocidade.
Ficámos, como se diz, na miséria, pois além de o moinho estar inutilizado, não havia
possibilidades de pagar a dí vida que o meu pai tinha.
Ora a minha mãe tinha três irmãos em Angol a, em Luanda, os dois mais v elhos
estabelecidos com comércio e o mais novo a trabalhar no caminho-de- ferro. Então, o meu
pai escreveu ao cunhado mais velho e pediu- lhe que lhe mandasse uma “Carta de
Chamada”, isto é, uma carta a garantir que, quando o meu pai chegasse a Luanda, teria
emprego. Sem essa carta, não era permitido emigrar para lá, a não ser que se tivesse
dinheiro para montar um negócio . E lá fomos todos juntos, os quatro. Chegámos a Luanda
no dia quatorze de Março de 1950.
O meu pai e a minha mãe tinham e tivera m até à morte uma relação afectuosa
extraordinária. Como eu nem me lembro de ver entre pessoas do seu meio. Uma dedicação
mútua extraordinária. Estavam horas, horas a fa lar. Estiveram sempre juntos e tinham
sempre motivo para falar. Nunca iam para la do nenhum um sem o outro e, por isso, é que
fomos todos juntos para África. Não deixa de ser curioso que essa afectividade que me
lembro perfeitamente de notar não se reflectia nos filhos. Não eram pais afectuosos para
com os filhos. Mas não notava muito isso nessa altura. Falo por mim, mas o facto é que eu
não via, à minha volta, pais que fossem carinhos os com os filhos. Eram bruscos, e a
lembrança que tenho é a de que andavam sempre a ralhar connosco. O que os preocupava
era a vida. Eram tempos difíc eis. Como costumo dizer, “ não eram maus, eram pobres”.
Fiquei sozinha a viver num musseque em Luanda
Os meus pais foram trabalhar por conta desse m eu tio mais velho, um solteirão, que tinha
uma loja no musseque Marçal, mas tinha um a loja pequena e uma gr ande porção de terras
para cultivar com produtos agrícolas e frutos a doze quilómetros de Luanda. Era mesmo
assim que se identificava: o km12. Isto por que em frente à loja passava uma linha de
comboio que ia até ao Cacuac o e os quilómetros estavam marcados de dois em dois. O
meu pai e a minha mãe tomavam conta do negóc io da loja, praticamente só serviam
negros, nessa altura, e tratavam das hortaliça s e dos pomares. O meu tio ia lá duas vezes
por semana com uma carrinha e enchia-a com pr odutos que depois ia vender no merc ado
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que, nessa altura, ficava no centro da bai xa, muito perto da baía de Luanda. Lembro-me
das muitas mangueiras, mamoeiros e papaieira s, fruta-pinha (aqui chamada anona), sape-
sape e abacates. Os cajus er am abundantes mas não se compra vam. Era só apanhá-los.
Então os meus pais estavam longe da cidade, onde não havia escola. Naquela altura, em
1950, não havia grandes transportes (a não ser o tal comboio m as não servia para o efeito)
e eu fiquei sozinha, com o meu tio na loja, no tal mussequ e Marçal. Também tinha um a
pensão com meia dúzia de hóspedes da mesma região que nós. Era só para homens:
pedreiros, carpinteiros… Aqueles colonos, como se chamavam, que iam daqui e que
normalmente eram lavradores, cavadores et c., mas que passavam o Equador e tinham
uma profissão, passavam a ser pedreiro s, carpinteiros… Eles realizavam,
automaticamente, os seus sonhos, porque chegavam lá e havia tanta falta de
trabalhadores, que eles passavam logo a ter uma profissão. Foi assim q ue fizeram até
fortunas, se eram trabalhadores, de spachados, porque em breve passavam a
encarregados de obras, depois mont avam o seu próprio negócio e lá iam singrando. Eram
quase todos analfabetos e uma das coisas que eu detestava, então, era escrever-lhes e
ler-lhes as cartas de e para a família. A par tir da minha segunda classe, era um castigo,
excepto aos fins-de-semana em que ía para o km12 passá-l os com os meus pais.
Durante três anos, até 1953, eu e o meu irm ão, que entretanto tinha vi ndo também para a
escola, vivemos ali, no musseque. Levantávam o-nos de manhã e havia uma lavadeira que
tratava as roupas do meu tio e da maior part e dos hóspedes e era ela que nos lavava.
Especialmente a mim. Tinha umas mãos gr andes, bonitas, de dedos compridos, com as
palmas muito brancas e tin ha um grande empenho em me traz er sempre bem lavada.
Ainda agora sou capaz de recordar as mãos dela a passarem pelos meus braços muito
magros e escanzelados e a doerem-me os o ssos. Dava-me uns banhos de se lhe tirar o
chapéu, escarolava-me toda e fazia questão de verificar como andavam o meu pescoço e
as orelhas. Andava então na es cola da Missão de S. Paulo, onde mais tarde vim a casar.
Quando fomos para África, o meu pa i esqueceu-se de pedir um ce rtificado em como eu já
andava quase no fim da primeira classe e tive que voltar ao princípio. Mas não perdi es se
tempo porque no ano segui nte fiz a segunda e a terceira clas ses num só ano. Na escola D.
Dinis, então, porque a Missão não aceitava rapaz es e eu ía com o meu irmão. Era longe,
na Vila Alice, mas nunca tivemos medo de nada.
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Como começa a história que me faz chegar aqui…
Quando fiz a terceira classe, este meu tio, em vez de aumentar o meu pai que já estava lá
a trabalhar há que tempos, a ganhar uma mi séria do cunhado dele, que apenas c hegava
para ele mandar para Portugal (a Metrópole, como se dizia) para pagar as dívidas,
ofereceu-se para me pagar o co légio. O meu pai reclamou e ac abou por se despedir e ir
montar um negócio no musseque mais pobre e problemático de Lua nda — na Sambizanga.
A casa em que vivíamos tinha só duas divisões e uma delas era a loja. Depois, o meu pa i
fez uns anexos no quintal para termo s uma cozinha e uma retrete.
Entretanto, na quarta classe, fui estudar para o Colégio de S. Jo sé de Cluny. Era um
colégio caro, de gente rica, muito bem apetrec hado, com muitas freiras e alunas internas,
semi-internas e externas. Exis tiam vários prémios, que eram dados período a período, no
salão solene, onde todos os dias nos ía mos reunir quando chegávamos até tocar para
entrar, e onde se rezava para começar bem o di a. Eu entrei para este colégio porqu e era
boa aluna e havia uma espécie de quota para al unos pobres, e o meu tio conseguiu,
usando os seus conhecimentos, colocar-me lá e eu não pagar. Era uma aluna acima da
média, mas era uma aluna que não se notava , porque aquele colégio era f requentado por
muita gente bem. Era a nata social. E apes ar de ser boa aluna nunca recebi senão a
medalha de aplicação. As fitas de bom compor tamento e de distinção, que se usavam
traçadas como as faixas das misses, eram só para as meninas bem.
Um dia, a minha professora, que não era fr eira, que se chamava D. Magda, disse:
— Hoje, vocês, quando forem almoçar a ca sa, perguntem quem é que vem fazer a
admissão. Quem é que vai fazer a quarta cla sse e quem é que vai continuar a estudar.
Quem continuar a estudar, não precisa de fazer a quarta class e, só faz a admissão e
depois vai para o liceu. Quem não quiser cont inuar, tem que fazer a quarta classe, porque
precisa de ter um diplomazinho, para um dia que queira arranjar um emprego no Estado.
Lembro-me perfeitamente de ela me dizer isto. Eu não disse nada a ninguém, em casa.
quando veio na minha caderneta. Naquela altura tinha nove anos, ia fazer dez, mas não
disse nada a ninguém. E, à tarde, quando chegou a minha vez, quando chegou a minha
vez de responder, dei por mim a dizer isto:
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— Vou continuar a estudar.
E a professora que sabia da min ha situação económica, disse:
— Tu tens a certeza?
— Tenho. Eu disse ao meu pai, e o meu pai disse que eu que era muito inteligente e que ia
continuar a estudar.
Pronto. Estava feito. Lembro-me que fui fa zer a admissão em Janeiro, porque naquela
altura o ano lectivo era diferente cá e lá. Po r causa do clima. Nessa altura, morávamos na
Sambizanga, que ficava muito longe do Liceu Na c ional Salvador Correia, onde fui fazer a
admissão. Tive que vir um cami nho enorme, quilómetros, a pé, ao lusco-fusco já, sozinha,
tive que passar pelo Cemitério do Alto das Cr uzes, vulgarmente conhecido por “cemitério
velho”, que tinha grades em vez de muros. Como tinha chovido e estava muito calor, havia
fogos-fátuos, mas eu não sabia o que era e fiquei muito assustada.
Via luzinhas muito pequenas, com um tom azulado no meio, que vinham da terra e
rapidamente se apagavam. Corri, corri, até perdi o meu Bilhet e de Identidade.
Fui fazer exame de admissão ao liceu mas não disse nada disso aos meus pais! No dia
seguinte, comecei a trabalhar na loja e a tomar conta do meu irmão mais novo que,
entretanto, tinha nascido em 1952. Fiz os dez, onze e doze anos e calei-me muito bem
caladinha, não disse nada a ninguém, porque eu s abia, de alguma forma sentia, que não
estava na altura de pedir para continuar a est udar. Tinha sido essa a intenção, porque eu
tinha uma noção claríssima de q ue viv ia num buraco e que só pela instrução conseguiria
sair dele. Não sei como o sabia, mas sabia. Nunca tive dúvidas de que iria continuar a
estudar.
Ao fim de dois anos, comecei a dizer:
— Oh pai, tenho que ir estudar, e mais isto e mais aquilo….
— Tens que ir estudar porquê?
— Tenho que ir estudar, porque eu não fiz a quar ta classe, não tenho ne nhum diploma, e
um dia, se eu quiser arranjar um emprego, eu não o tenho.
— Mas, então, tu não andaste, no colégio?!
— Ó pai, a professora disse que eu era muito inteligente e q ue eu tinha que estudar. Andei
dois anos a convencê-lo. Todos os dia falava nisso. Todos os dias dizia que não tinha
diploma. Acho que ele acabou por me deixar ir par a o liceu por puro cansaço. Eu já tinha
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então treze anos, quando fui para o primeiro ano e ent retanto o ano lectivo j á começava em
Outubro, como aqui na Metrópole. …
Portanto, estive três anos lectivos fora da escola, dois anos e meio, em termos
cronológicos.
Fui estudar mas na seguinte condição:
— O teu trabalho ninguém o faz. Portanto, se quiseres ir estuda r, vai, mas o teu trabalho
ninguém o faz. — O que é que ele queria dizer com isto? Queria dizer que precisava do
meu contributo para a economia familiar e, por tanto, se eu queria estudar, tinha que me
sair do corpo. É que ele tinha ficado, por tres passe, com a loja e a pensão do meu tio. Já
estávamos outra vez em Marçal, que era mais perto da cidade. Mas era uma dívida muit o
grande e a loja nunca fechava.
Vida de branca de musseque, pé descalço e nada de racismo… Mas li a Eneida aos
12 anos
Nós morávamos na loja e como ela nunca fechava, nós fazíamos um roulement entre nós,
entre pais e filhos. Por exemplo, eu levantava -me normalmente às 6.30h. Aqui tenho que
fazer um parêntesis para explicar porque é que me considero não-racista. Acho que o meu
não-racismo depende do facto de eu, desde peque na, com oito anos, ir bus car o pão com
um empregado negro. Íamos os dois, igualment e descalços (ele andava s empre descalço,
mas eu ia descalça para poupar as sandálias que era para levar para a escola) e trazíamos
irmãmente, cada um, cento e cinquenta pãezitos. Hoje, olho para os meus netos nessa
idade e pergunto-me como era possível fazer aqu ilo e mais, ter noção de que era trabalho
e era preciso fazê-lo. Depois começávamos a servir o café, aos negros, aos naturais, que
era na loja, na parte da frente e fazíamos ca fé de manhã. Depois er a preciso servir o
almoço. Havia sempre muito que fazer, e eu fu i estudar com essa condição, de continuar
sempre a fazer a minha parte do serviço.
Acho que chegou a altura de dizer que, se tive uma infância e adolesc ência praticamente
inexistentes, não me queixo. Sei que tive ou tras compensações que outras pessoas não
tinham ou não tiveram. Por exemplo, o acesso a grandes obras de literatura. Eu adorava ler
e como o meu pai tinha a loja, a mercearia , e o papel era extremamente caro, ele não
comprava o papel para fazer os embrulhos: ía aos alfarrabistas, comprava livros usados, ao
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quilo, e eu deliciava-me a ler. Lia com um candeeiro de petróleo, com um cobertor ou uma
manta por cima. Quando fui para o liceu, já tinha lido as grandes obras clássicas, o que m e
ajudou imenso. E aliás, não só me ajudou, como também era, de algum modo, uma coisa a
puxar por mim. Eu tinha uma sensação clara, e c onsigo ver isso como se estivesse fora de
mim, de que sabia onde estava, que estava num poço e que só a cultura, só a educaçao é
que me permitiriam que eu saísse desse poço.
O que acontecia é que, enquanto as raparigui nhas, que tinham andado comigo na escola
primária, começaram a namorar, porque era costume, com quatorze e quinze anos, e
casavam-se aos dezasseis, eu tinha continuado a ‘chagar’ o meu pai pa ra ir para o liceu.
Casavam-se, porque, em África, as raparigas se faziam mulheres mais cedo, diziam os
pais… Fechavam-nas muito, porque pensavam que aquele clima era perigoso para as
raparigas estarem solteiras e, portanto, era melhor «arrumá-las». Aí, paciência, não
senhora, não estava para aí virada… Não quer dizer qu e não tiv esse as minhas
paixonetas, mas namorar, compromisso, nada disso, porque o meu compromisso era
comigo própria, relativamente ao meu futuro.
Assim, até aos meus treze, quatorze anos, li a obra toda de Victor Hugo e não me fez mal
nenhum! Charles Dickens, a Bíblia, A Cabana do Pai T omás, O Monte dos Vendavais, Jane
Eyre, O Caçador de Veados, Oliver Twist, sei lá quantos livros li par a depois os ver acabar,
ingloriamente, a embrulhar massa de tomate , açucar, café. Ainda tenho a Eneida, porque
consegui salvá-la da destrui ção, tinha capa dura, guardei-a. Aliás, também tenho um
dicionário de inglês-português, que era de um padre, Júlio qualquer coisa, porque eu tenho
um amor aos livros, que ganhei nessa altura, que me fazia s entir como uma dor o rasgar
aquelas folhas.
Foi um tempo muito difícil, porque eu não ti nha tempo para estudar. Andava sempre a
correr, e isso ficou a marcar-me para sempre . Não podia estudar, tinha que estar muito
atenta nas aulas e f azia os meus trabalhos de casa — havia sempre muitos — de
madrugada, quando acordava. Por isso, lembro-me de cair duas vezes, cheguei a desmaiar
duas vezes, por puro cansaço, inanição. Uma vez estava com uma valente gripe, mas er a
preciso trabalhar! As pessoas não são má s nem boas. Quando são pobres, é preciso
trabalhar. Era a vida…
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Entretanto, fiz o segundo ano, mas dispensei de exame. O pai tinha-se informado e sabia
que ao fim do segundo ano se fazia exam e. Mas como eu dispensei, disse:
— Ó pai, eu tenho que continuar . Olhe que eu não tenho diploma!
(Coitado, eu é que ainda brincava com a ignorância dele.)
— Não tens diploma porquê?
— Ó pai, eu dispensei do exame.
— Mas porquê?
— Porque eu sou boa aluna. Dis pensei, não tenho diploma.
E ele dizia:
— Então, tu vê lá se te arranjas par a fazer exame, porque isto não pode continuar.
Nunca mais queria sair do hospital! Nunca tinha sido tão feliz
Tive então, a começar em Abril de 1958 , um interregno que me deu um bocado de
descanso. Criei uma relação íntima e muito ami gável com hospitais. Isto parece uma tolice.
Tudo começou com acidente muito grave, de carro, no dia quinze de Abril de 1958.
Fracturei a base do crânio. Aquele tipo de fr actura com que morreu o Joaquim Agostinho.
Costuma ser fatal… Além disso, fiz uma frac tura ao longo de todo o parietal esquerdo.
Fiquei sem membrana do tímpano esquerdo, por que ela se rompeu com a hemo rragia
provocada pelas fracturas.
Fiquei no hospital durante muito tempo e aconteceu-me uma coisa que eu vou referir
porque foi pública. Fui env iada para a morgue, mas quem me tinha levado para o hospital
tinha sido um polícia. E o polí cia, que depois pus no álbum de família, salvou-me. Coitado,
na sua ignorância — ele era muito i gnorante, tinha pouca cultura — disse:
— Ó Sr. Doutor, vá lá ver que ela não está morta, porque eu trazia-a ao colo (eu era
crescida, tinha precisamente quinze anos e me io, mas como entrei logo em coma, ele é
que me trazia ao colo) e sempre ouvi dizer que quem morre, estica o pernil. Garanto-lhe
que enquanto eu a trouxe, ela não esticou pern il nenhum. Até vomitou ali em frente ao
Restauração (era um cinema, muito perto do hospital) e os mortos não vomitam.
Como se vê, o homem tinha razão, porque eu es tava viva. É engraçado, como ele, apesar
de ele não ter nenhuma cultura erudita, tinha um certo feeling, uma certa sensibilidade.
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Ora este caso deu que falar, na altura, porque aquilo teve que ser comunicado às
autoridades, tornou-se quase um crime público, porque ele er a polícia e comunicou…
Embora não tivesse acontecido nada, porque isto entretanto foi amnistiado aquando de
uma visita de um Presidente da República lá — acho que foi o Pr esidente Craveiro L opes.
De qualquer forma, apaparicaram-me de tal manei ra no hospital que eu nunca mais queria
sair de lá. Nunca tinha sido tão bem tratada, nunca tinha sido tão feliz. Estive em coma
durante um largo tempo e quando saí do coma tinha o que se chama “amnésia de
personalidade”. Isto é, lembra va-me de tudo, excepto da minha própria vida pessoal. Não
sabia quem era, não reconhecia os meus pais, não tinha a mais pequena ideia do que se
tinha passado comigo, como pessoa, até então. Era uma sensação muito desagradável.
Recuperei a memória a um domingo de m anhã cedo, quando ouvi o barulho de uma
carrinha e disse à empregada de limpeza: “Aquela é a carrinha do meu pai”. Ela
respondeu-me que não era, que er a a carrinha que ía levar o leite ao hospital. Ser á da
mesma marca, por isso o motor fazia o me smo barulho. Não me lembrei de tudo, de
repente, foi assim um pouco a puxar o que es tava escondido. Talvez o meu eu é que
tivesse razão e seria melhor eu não me ter lembrado de tanta coisa.
Comecei a sentir-me mal, fisicamente, quando saí do hospital, porque não queria ir para
casa. Passei muita coisa lá, mas não queria ir , porque sabia que, depois, ia retomar aquele
rame, rame todo do trabalho. Estive seis meses, mais ou menos, de convalescença, até
retomar as aulas.
Até por causa do hospital e do acidente, aquilo tornou-se, assim, quase um caso nacional.
Angola é catorze vezes maior que Portugal, mas houve uma série de cois as que tornou
aquilo um facto público. Como tinha sido dada como morta, no dia seguinte houve uma
Missa por minha alma, mandada di zer pelos Professores e alu nas do Liceu Nac ional D.
Guiomar de Lencastre. Fui entrevistada para os jornais, quando saí, e aquilo deu-me,
assim, uma certa nomeada porque eu não tinha morrido. Mesmo não tendo frequentado
todo o terceiro período, passei com a mais alta classificação do Liceu e lá fui continuando a
ter boas notas e a ser apaparicada por toda a gente do D. Guiomar.
Entretanto, em 1960, comecei a ter umas sequelas do acidente. Comecei a ter um ruído
enorme e contínuo no ouvido esquerdo. É como se tivesse uma cigarra eterna dentro da
cabeça, mas agora só a sinto, só a ouço quando penso nela… Ela está sempre aqui, é iso:
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— Olha, então… tu sabes onde é o Colégio de S. Jorge de Cluny?
— Não sei. Não, não sei!
— Depois perguntas… Tu perguntas, e vai -me lá visitar na Terça–feira.
E na Terça-feira lá fui. Curiosa mas muito c ontrariada. Primeiro disse para mim mesma:
“Seja lá o que for que ela queira, eu cá nã o quero ser mais nada senão uma dona de casa
e mãe de família”. Por outro lado, eu, que até então acompanhava o meu marido no seu
trabalho de técnico do Instuto de Algodão de Angola, que se di stribuía por uma vasta zona,
com a base da Baixa do Cassange, estava convencida de que, quando eu lhe dissesse que
as freiras queriam falar comigo, não se most rasse muito entusiasmado. Mas, para meu
desapontamento (visto que na segunda-feira era dia de ir par a o mato), ele disse que
achava uma boa ideia eu ficar e ir ver o que as freiras queriam, porque até andaria mais
descansado, sem ter que pensar na minha segurança.
Não achei graça nenhuma, até porque quando ia com ele nunca me lembrava do perigo, ao
passo que ficando em Malange, andava sempre ans iosa. Mas, enfim, lá fui ao Colégio.
3.3. O «ataque» do bichinho da docên cia e um marido muito especial
Naquela semana, ele foi sozinho e eu fui falar com as freiras, que me pediram para dar
explicações a umas meninas internas que lá estavam, meninas muito ‘bem’, já
crescidinhas, quase todas da minha idade, pouco mais novas eram do que eu, e que
estavam muito aborrecidas, descontentes…
Eu disse que ia falar com o meu marido antes de dar uma resposta definitiva. Quando ele
veio, no fim-de-semana, contei-lhe a proposta da madre:
— Olha, o que as freiras queriam era que eu fosse para lá dar explicações.
À espera que ele me dissesse: «N ão vais nada, vais andar co migo.» Mas ele disse-me com
um ar muito sereno:
— Olha, eu acho que fazes muito bem. Acho uma boa ideia, em vez de andares lá pelo
mato comigo, a gente sabe lá o que é que pode acontecer, podias ir.
E lá fui, assim um bocadinho… acomodada… mas renitente, lá por dentro. Um tanto
desconsolada, para ser franca, mas lá fui.
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Mas realmente, gostei muito. Gostei mu ito da luta que me deu estar a trabalhar com
raparigas rebeldes. Raparigas da melhor sociedade, que esta vam ali de castigo. Eram
meninas daquilo que se cham a mesmo a «melhor sociedade» e que estavam ali internas
por vontade dos pais, para as castigarem das duas maluquic es de mocidade ocios a. Os
pais da maior parte daquelas com quem eu estive, e que eram pouco mais novas do que
eu — eu tinha vinte anos — viviam em Luanda. Lembro-me que elas não eram nada fáceis,
mas, aí para o terceiro dia, disse-lhes assim:
— Olhem, eu não sei porque é que vocês estão a reagir comigo desta maneira. Primeiro
porque nós somos quase da mesma idade. Podí amos ser amigas. Vocês já viram que
somos quase da mesma idade, eu estou aqui a ganhar a vida , a trabalhar e vocês estão
aqui…com tudo.
Contei-lhes como a minha infância tinha s ido diferente das delas e começámos a criar uma
excelente relação. Tão bo a que as freiras, pouco dadas a larguezas em termos de
pagamentos, me pagaram o dobro do que estava previsto.
Eu tinha estado a preparar as tais meninas par a fazer o quinto ano e os resultados foram
tão bons que as freiras me disseram:
— Olha, nós gostaríamos muito que ficasses cá, a trabalhar connosco, mas não temos
lugar. Nem temos lugar, nem te mos verba para te pagar como professora. Mas sabes uma
coisa? Há aí a Escola Industrial e Comercial, que abre c oncurso no princípio de c ada ano
lectivo e tu devias concorrer, porque tens jeito.
— Mas só tenho o 7º ano! — (era o sétimo ano antigo.)
— Não é preciso ter mais, podes fazer um requer imento ao Director. Tu concorre que tens
muito jeito.
E eu lá esperei que o meu marido chegasse e c ontei-lhe o que se tinha passado, à espera,
na verdade, que ele dissesse: «Não vais nada!». Mas ele disse:
— Ó mulher, é uma belíssima ideia!
Eu franzi a testa, mas como tinha um senti do do casamento assim muito de dedicação ao
marido, de confiar no que ele decidisse, el e dizia que achava bem e eu achava também.
Além disso, esta conversa foi para aí em Agos to, já estava grávida do meu primeiro filho,
tinha passado bastante mal no princípio da gravi dez e talvez fosse melhor ir dar aulas. O
bichinho começava a roer.
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Portanto, lá fiz o meu requerim ento e fui dar aulas de Língua e História Pátria aos alunos
do primeiro e segundo anos da Escola Comercia l e Industrial de Malange. Comecei no dia
vinte e dois de Setembro de 1963. Tive umas peripécias que hoje, à distância, me dizem
que fiz bem em ir trabalhar na Escola e dar aulas. Sei agora, qu e nasci para ser professora
e que hei-de ser professora até morrer. Havia muitas coisas que entretanto li nas obras de
teoria didáctica e pedagógica que fiz ou não fiz inst intivamente. Um caso foi: Um dia, um
aluno — não sei se até é muito recomendável mas eu gosto muito de contar — um aluno,
aí no dia trinta, vinte e nove de Março de 1964, andava eu muito grávida (o meu filho
nasceu no dia dez de Abril) pregou-me um a partida um bocado estúpida. Eu nunca me
sentava, dava sempre aulas em pé, e sentav a-me para escrever sumário. Antigamente, a
gente escrevia o sum ário no princípio da aula, não era no fim. A cade ira era um cadeirão,
era uma cátedra, e quando eu me fui para sentar , nem sequer olhei para a c adeira, só me
sentava para escrever o sumário, e enfiei-me pela cadeira abaixo! Portanto, em pleno fim
do tempo de gravidez, enfiei-me pela cadeir a abaixo, porque um aluno tinha t irado o tampo.
Um aluno já dos seus treze anos, que era me stiço, um rapaz muito bonito, com feições
muito correctas. Tinha tirado o tampo. Evidentemente que o bebé entrou logo em
sofrimento, porque eu fiquei com os pés dobr ados para a cabeça, levaram-me para o
hospital e depois aconteceu que o director s oube — c oitado, ainda não era velho, mas até
morreu pouco tempo depois. Era uma pessoa muito severa, à moda do que se usava
naquele tempo, e quando eu tive alta, ele disse-me:
— Olhe, agora, nós temos que fazer uma reuni ão — estive uns três ou quatro dias no
hospital em observação — temos que faze r uma reunião para expulsar o aluno.
Ora eu tinha tido aqueles três di as, em especial, aquelas três noites, no hospital a pensar, o
bebé mexia-se muito, mexia-se muito… E eu dizia assim — naquela altura não havia
ecografias e eu dizia assim par a mim mesma: «tenho para aqui um futebolista de prim eira
apanha e depois, um dia, daqui a treze anos, es te futebolista, por muito bem que eu o
ensine, um dia tem uma tentação do diabo…… e puxa uma c adeira a um professor. E
depois o que é que eu quero que façam a este meu filho?»
Então, quando o director pôs o problema da expulsão, eu disse:
— Olhe, sr. director, sabe uma coisa? Nós vamo s chamar o rapaz, va mos ter uma conversa
com ele, mas nada de expulsão.
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— Ai, não o expulsamos porquê?
— Não, ó sr. director, está a ver? Se a ge nte o expulsar, ele nunca mais pode entrar no
ensino público. Já viu, ele é mestiço, nunca mais tem probabili dades de ir para a escola! Eu
não me sinto bem.
E o director, muito diplomaticamente, com grande discernimento, diz-me assim:
— Pois é, mas se o seu filho daqui uns di as nascer aleijado, depois a senhora não venha
cá para cima de mim. Portanto, faça aqui um a declaração a assumir a responsabilidade.
E eu, que tinha vinte e um anos, tive que faz er uma declaração em como me
responsabilizava, e o rapazinho, mesmo assim, coitadinho, apanhou um número de dias de
suspensão para reprovar, certinhos para reprovar por faltas.
De qualquer maneira, tenho que dizer que foi uma situação um boc ado embaraçosa. A
seguir, quando a “sentença”, digamos entre aspas, foi publicada, a mãe dele entrou-me
pela sala dos professores e beijou-me os pés . É uma situação incrível, de embaraçosa!
Porque a senhora disse-me:
— Olhe, ninguém fazia aquilo que a senhora me fez. Deus lhe p ague e lhe dê um menino
muito lindo e inteligente.
Mas eu achei que devia fazer, achei que não era aquele tipo de castig o, que estava muito
na moda naquela altura, que ia resolver a situaç ão. Não acredito que ele tivesse feito com
má intenção. Foi uma criancice autêntica.
Este foi um dos casos. O outro foi um out ro matulão. Morreu o director, e uma das
professoras passou a directora interina, e eu fu i substitui-la nas aulas. Então, no primeiro
dia de aulas, pr’aí em Fevereiro do ano seguint e, grávida outra vez, eu chego lá… e eles
ficaram muito mal encarados, eram assim um bocado mal encarados. Já naquela altura!
Repare, pelo menos há 34 anos! Isto é para a gente não passar a vida a dizer mal dos
novos agora. E eu, querendo amenizar a coisa, disse:
— Vocês são uns felizardos, até têm duas apr esentações num ano, por que eu hoje pouco
mais vou fazer do que saber quem vocês são, como é que se chamam, onde é que estão,
qual é a lição, tal, tal, tal…
E um, que se chamava Albano, que era enorme, engolia-me se ele quisesse, disse assim:
— Ó sra. Doutora, olhe que eu — que não era nada doutora, is to também faz parte da
história — eu costumo ter at aques epilépticos, e quando eu tenho ataques epilépticos,
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agarro-me às pessoas. A senhora fique avisada, porque se eu tiver um ataque, sou c apaz
de a agarrar, a senhora fuja!
Disse-lhe:
— Ó Albano, não te aflijas. Olha, ficamos ambos avisados: eu fico avisada que tu te
agarras às pessoas e tu ficas avisado que eu não fujo.
Na segunda-feira, logo a segu ir, eu estava a querer dar a minha aula desc ansadamente, e
o Albano a falar em futebol: «Benfica para a frente, Sporting para trás…» que o Porto,
naquela altura, não mandava nada por lá, pelo menos em África… E eu a querer dar a
minha aulinha e eles nada. No futebol. E eu disse:
— Ó Albano!
E diz-me ele assim:
— Que é que foi? Fale para mim, quando eu falar para si!
Menina, eu atravessei aquela sala, com a barri ga empinada, fui ao pé dele, ele era maior
do que eu, dei-lhe um par de estalos. Um par , um de cada lado. Quando acabei de lhe dar
o par de estalos, arrependi-me imediatamente. Não por tê-lo feito mas pensei: «eu agora
viro costas e este tipo desfaz-me e eu grávida». Mas não, ele ficou com elas e nunca teve
nenhum ataque epiléptico na minha aula.
Não quero ser professora de aviário
Quando, ao fim de um período, vi que gostava, pensei: «Bem is to, é uma coisa que vale a
pena, é uma coisa int eressante. Só que eu não quero ser prof essora assim! Eu não quero
ser professora com o sétimo ano… Eu não quer o ser professora desta maneira. Isto não
pode ser por intuição!” Isto era o que eu pensav a, mas também não via grande saída. Já
estavam lá a lançar qualquer coisa da Un iversidade, mas não era em Malange, era em
Luanda. E eu lá fiquei dois anos a leccionar naquelas condições.
No princípio do ano, eu tinha sempre o cuidado de dizer isto aos alunos:
— Olhem, eu não sou Dra., mas atenção, sei o su ficiente que chegue pa ra vós, só que não
sou Dr.ª, pronto! — Mas eles di ziam que não dava jeito. — Você s tratem-me por favor, por
Senhora D. Maria Caro lina. Não quero cá donas marias carolinas , que eu não sou
nenhuma peixeira. Tratem-me por professora .
(Dona é uma peixeira, era também uma coisa que se dizia por lá. )
97
— Ah! Sôtora , não dá jeito nenhum, não dá… — respondiam-me os alunos — Ó
professora, ó Sr.ª Dra., isso é muito complicado…
E passaram a vida a chamar-me Sra Dra .
No segundo ano, assim a meio, foi criado um liceu, (pois onde eu estava era uma escola
técnica), e foi enviado para lá como reitor um senhor professor que eu conhecia, até, que
era casado com uma minha anti ga professora, e ambos eram licenciados. Ela foi
acompanhar o marido e foi colocada naquela escola industrial e comercial d e Malange. Era
licenciada, não era “de aviário” co mo eu, não era “de Macau”…
(Das coisas de segunda categoria nós dizíam os que eram de Macau. O meu marido tinha
um ajudante, o Raimundo, que er a mestiço e dizia: “Eu não sou mestiço, sou branco de
Macau!”)
Era a Dr.ª Soledade, uma se nhora muito volumosa, mas com aquele coração grande,
caloroso, muito próprio das mulheres volumosa s. Causava-me um constrangimento enorme
o facto de os alunos, à frent e dela, me tratarem por Sra Dra .
Um dia, no fim do segundo ano, já mesmo praticamente no fim, fiquei muito constrangida
porque eu e a dra. Soledade estávamos as duas a conversar à entrada da escola e vários
alunos foram lá perguntar isto e aqui lo e sempre a tratarem-me por Sra. Dra. Eu disse:
— Olhe Sra. Dra., eu digo-lhes sempre que não sou dra., mas eles continuam… e ela
disse-me, muito serena, assim como quem diz: «se estás com sede, porque é que não vais
beber a água?»:
— Olha, eu também não percebo porque é que não vais tirar o curso?!
— Tirar o curso?
— Sim, tirar o curso, ir para a Universid ade. (Eu julguei que ela estava a fazer uma
confusão qualquer, porque naquela altura não havia universidade em Malange.)
Fiquei a olhar para ela quando o meu marido veio do mato, mais uma vez, como das outras
vezes, disse-lhe:
— Tu queres saber? Então, passou-se isto assim, assim, com a Dra. Soledade, e tu queres
saber que ela me pergunta porque é que eu não vou tirar o curso?
Sabe o que ele me respondeu, muito descansado?
— Eu também não sei porque é que tu não vais tirar o curso?!
— E onde?!
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— Em Portugal.
Isto aconteceu no fim do ano lectivo e eu estava grávida do segundo, que nasceu em
Julho. Entretanto, nasceu-me logo o rapaz, e digo assim:
— Então, mas eu vou com dois, vou agora, um nascido outro para nascer? — Diz-me ele
assim:
— Olha, nós vamos pensar nisso.
A mudança para Portugal para tirar o curso
Então, sentamo-nos numa mesa, começamos a fazer contas e resolvemos arriscar. Nós
ganhávamos mutíssimo bem naquela alt ura. Ganhávamos muito bem, porque o meu
marido ganhava aquilo que estava adstrito à função dele e tinha ajudas de custo, porque
passava a vida fora, e eu ganhava muito bem , naquela altura. A vida era barata. Eu
ganhava, em 1964-65, quatro m il e quinhentos escudos e dav a umas quatro horas
extraordinárias por semana. Era muito bom. Eu lembro-me que um kilo de bifes custava
vinte e seis escudos. A garoupa custava ainda menos, só para falar assim em peixes caros.
Pagávamos duzentos tal escudos de renda de um andar, tinha cozinhe iro, empregada,
criada para os meninos… empregada não, lav adeira e criada para os meninos. Era a
Marta, coitadinha, que tinha para aí onze anos. Eu hoje… a gora que o t empo passou…
penso: “Como é que nós vivíamos assim? Po rque não soubemos dar outro futuro àquela
gente?”.
A Marta… Uma vez… Eu morava ao lado da escola, um dia eu ouvi-a a gritar
desesperadamente. Pens ei que tinha acontecido alguma co is a aos meus filhos. Saí da
escola, atravessei e era o cozinheiro Manuel que lhe estava a dar uma grande tareia,
porque ela tinha dado vinho ao meu filho, que tinha quatro meses, para o adormecer. O
que acontece é que o meu filho tem agora tr inta e seis anos, semp re foi um al uno brilhante
é um belíssimo profissional; portanto, aquele vinho aos quatro meses também não lhe fez
mal nenhum! Coitada, ela tinha onze anos.
Uma vez, comprei uma caixa de bolachas que apareceu lá, porque não havia bolachas
baunilha e guardei-as. E, de vez em quando, tirava uma, porque tinha desejos. Andava
sempre grávida… Por acaso, tinha sempre cuidado de lhe dar uma também. Um dia,
cheguei lá para tirar bolachas e não tinha. Perguntei:
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— Mas então, onde é que estão as bolachas? — Perguntei ao m eu marido, ao cozinheiro e
a Marta disse:
— Minha senhora, fui eu. Eu tirei uma, tirei um a, tirei uma, tirei um a e quando eu dei c onta
já não tinha nenhuma.
Não fiquei zangada, até nos rimos do «tirei um a, tirei uma». Tenho fotografias dela, era
uma criança… Era uma vítima do sistema, como eu tinha sido.
Já não fiz o requerimento para dar aulas no ano seguinte. E viemos, pegámos naquilo que
tínhamos. Estávamos a ganhar muitíssimo bem, foi um desafio. Viemos para Portugal,
para casa dos meus sogros, na aldeia. Não houve problema nenhum, a minha sogra era
uma mulher excepcional.
Mulher da aldeia, criada na aldeia, não sabia le r, embora, não se justifique, porque o meu
avô, por afinidade, o avô do meu marido, era uma pessoa de posses. Além disso, era
enfermeiro do Seminário de Coim bra, não era um anal fabeto qualquer. Podi a, portanto, ter
feito com que a filha estudasse.
Mas era uma mulher com um coração, co m uma inteligência, com uma vivência
extraordinárias. Uma pessoa que morreu com oitenta e nov e anos, e eu nunca pensei que
ela fosse morrer. Porque havia tanta coisa que a g ente queria fazer! Tanta coisa que a
gente gostava de falar as duas e… foi um choque! Hoje ainda penso, às vezes, q ue, se
Deus me dissesse assim: “Olha lá, quanto é que tu dás para eu te dar a tua sogra um dia,
um dia?” Dava algum tempo da minha vida para estar com ela um dia que fosse e dizer-lhe,
mostrar-lhe como ela foi importante para mim. É uma pessoa com quem eu converso
muito, que me acalma muito. Gosto imenso de ir ao cemitério, sentar-me, com grande
escândalo, agora já se habituaram, porque ela es tá num jazigo térreo, sem ser de capela.
Sento-me em cima da pedra, e fico ali a conversar com ela, um as vezes com palavras, se
não estiver ninguém, outras vezes sem palavras, se estiver gente.
Atendendo até às condições de vida com os m eus pais, que não eram pessoas afectuosas
com os filhos, nunca foram, a minha sogra deu -me muito calor em termos afectivos. Foi
com ela que eu encontrei afecto e não com a minha mãe. Quando estou muito zangada
com a minha mãe, às vezes digo-lhe — e isto é um drama para as duas, e depois também
me arrependo — mas já lhe disse isso pelo m enos duas vezes: “Eu trocava duas mã es por
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uma sogra. Trocava duas mães como aquela que tenho por uma sogra s ó, por a minha
sogra.”
Mas a vida não foi um mar de rosas
Viemos para Portugal e então foram uns anos de extrema dureza, apesar das boas
relações com os meus sogros. Foram anos mu ito duros. Bastantes. Porquê? Primeiro, foi
uma adaptação. Foi uma adapt ação que não era fácil… Um a adaptação, não a Portugal,
mas a um estilo de vida… Eu digo isto, mas… eu nunca fui «retornada», porque eu vim em
1966, (chegámos a Lisboa no dia seis de Fevereir o de 1966), viemos, por tanto, muito antes
do processo de descolonização, mas vivemo s essa adaptação, a nível muito pessoal e
personalizado, pelo menos eu, pelo seguint e: de facto, eu tinha tido uma vida muito difícil,
muito trabalhosa, muito dura, até me casar; mas depois, … Eu também costumo dizer
“quem não sabe subir, não merece subir”… Eu tinha estado a viver num estatuto e com
uma condição óptima: tinha um cozinheiro, uma criada para os meninos, que era a Marta,
uma lavadeira e um criado de mesa! E quando c heguei a Portugal, não tinha ninguém! E fui
viver, naquela altura, para uma casa de prov íncia que não tinha luz, não tinha água, não
tinha nada! Pronto, era uma aldeia. Não ti nha nada. Muito menos condições do que tinha
em África. Muito menos. E depoi s, a pobreza gera sempre alguma forma de maldade… Por
exemplo, naquela altura em que eu cheguei, era em pleno Inve rno, tinha os filhos muito
pequeninos. Um tinha cinco meses, outro tinha dezoito, e eu não tinha condições para lavar
roupa nem nada. Para arranjar uma pessoa que me lavasse a roupa era um castigo, e
levavam-me tanto quanto levavam para andar no arroz, que era o tr abalho agrícola mais
caro, porque era um trabalho difícil, extremament e doentio, muito frio, sempre com os pé s
molhados até cá acima, e era se eu queria. Era uma terra que agora está muito melhor,
porque aí está, porque já não são tão pobres… Ou tro exemplo: vendiam-me o leite muito
caro, pr’aí o dobro do que lhes davam no posto de recepção e tinham que o ir lá levar à
cabeça (ao posto receptor do leite) — o dobro ou o triplo, porq ue achavam que era um
abuso eu e o meu marido bebermos leite. Lá para os cachopos, como eles diziam, ainda
«era com’ó outro», agora nós bebermos leite, aquilo fazia-l hes uma certa confusão.
Portanto, era assim um meio muito fraco.
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E estivemos durante seis meses com muita des pesa, porque nós viem os sem emprego, em
Janeiro de 1966, como já disse, e o meu ma rido só arranjou emprego no dia quinze de
Junho desse ano. Foi muito difícil. Quer dize r, as nossas poupanças, que eram de há muito
pouco tempo (não chegava ainda a três anos des de o casamento, e trouxemos carr o e
tudo…) começaram a esvair-se.
• Somos um casal de parvos
Nós viemos para a tal terra, Anobra, mas como trazíamos muita tralha, voltámos a Lisboa,
e fui à Fundação Calouste Gulbenkian pedir uma bolsa. Eles deram-me uma bolsa! Uma
bolsa muito boa! Nós é que fomos parvos. Não foram eles, fomos nós. Porque depois,
entretanto, também concorremos a umas casas que se chamavam antigamente de «renda
resolúvel» — a gente pagava uma renda durante vinte anos e a casa era nossa, umas
casas do estado — uma vivenda ali na Zona do Calhabé em Coimbra, óptima, e pronto,
nós íamos morar para a vivenda e com a tal bolsa — uma bolsa muito jeitosa da
Gulbenkian — e o meu marido foi colocado no Porto. E a casa e a universidade eram em
Coimbra. E nós achámos que era indecente. Era indec ente, porque depois el e só iria lá de
vez em quando. O meu marido não vi nha para aqui para o Porto sozinho naquela altura, as
coisas não davam, ele vinha ganhar muito pouco. Não dava para ter duas casas e então
resolvemos, muito honestamente, comunicar à Gu lbenkian, que eu ia ser aluna voluntária,
e pedir se, ao menos me davam uma parte. Mas eles não davam bolsas para alunos
voluntários, a bolsa foi-se logo ao ar, e co mo achávamos que havia muita gente sem casa,
também não tomamos posse da casa!
A Faculdade em Coimbra, como voluntária não foi ‘pêra doce’: casada no Porto, mãe
de dois filhos e a dar aulas em S. J. da Madeira
Tinha dois pequenos. Os meus sogros não viviam com muitas liberalidades e, portanto, o
que aconteceu, é que não fomos nós que nos inserimos na família deles, fomos nós que
achávamos que os devíamos inserir nas no ssas despesas, nessas coisas todas de
despesas com médicos, medicamentos, et c., embora os meus cunhados também
ajudassem. Foi muito difícil.
108
elegante. E ela estava a falar com o se nhor Alves, enquanto eu esperava que aquela
conversa acabasse. Entretanto, ele viu-me e disse:
— Então, minha senhora, co mo está? E os meninos, como estão? Estão bem?
E ela virou-se para mim, (era lisboeta falava âssim ) e pergunta-me:
— Tu és casada?
— Sou.
— E tens filhos?
— Tenho.
E ela virou-se para a outra e disse assim:
— Tu estás a ver? A gente esmifra-se para a rranjar um homem e não encontra, esta fulana,
não tem nada que a recomende, é casada e tem filhos!
Ao que eu retorqui:
— Pois é, minha filha, mas olha, se eu fumasse boquilha e usasse mini- saia, se calhar
ainda era solteira. — Isto era uma ideia a ssim um bocado retrógrada, mas tinha que lhe
dizer alguma coisa naquela altura…
• O sr. Machado da Livraria Almedina
Outra ajuda muito importante que tive foi lo go no prim eiro ano. Tão importante que nem se i
se teria chegado ao fim sem ela. Sempre que tenho uma oportunidade, gosto de contar
este «incidente».
Um dia eu estava a namorar uns livros na Livr aria Almedina e por acaso não sabia que o sr.
Joaquim Machado, que era o dono da Almedina, esta va lá por dentro a verificar se alguém
rapinava alguma coisa. Eu estava a namorar a Paideia . Custava imenso, eram muito cara,
nem pensar em comprá-la. Mas o professor tinha-a referido e eu não podia andar pela
Faculdade a fazer as consultas e estava ali a namorar a Paideia . Ele deve ter ficado
desconfiado lá de dentro, por eu olhava para a Paid eia , peguei na Paidei a e voltei a pô-la
no sítio. Era em espanhol, uma versão esp anhola. E depois, vim-me embora e ele veio
atrás de mim e disse assim:
— Olhe, venha cá, venha cá. Diga-me um a coisa: porque é que não leva o livro?
— Não levo o livro porque é muito caro.
— Mas precisa dele?
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— Eu preciso daquele e de uns poucos.
— Então porque não leva?
— Olhe, não levo porque não posso. Não po sso, sabe porquê? Olhe, não moro cá, moro no
Porto, sou voluntária, não tenho disponibilidade. O que eu tenho q ue fazer é procurar isto lá
na Biblioteca do Porto.
— Não. Nós vamos fazer aqui um contrato: você leva este livro, leva outros que queira e
paga quando quiser.
Aceitei, quase me apeteceu abraçar-me a el e e, depois, andei dur ante quatro anos a
comprar os meus livros e ia pagando às pingui nhas. Era a aluna que, praticamente, tinha
mais livros. Comprava, ia pagando.
E depois, quando acabei o curso, quando acabei o bacharelat o, comecei a trabalhar e fui lá
pagar e agradecer-lhe. Paguei tudo. Mesmo assim eu também não estava assim tão
abonada, mas disse-lhe:
— Sr. Machado, agora, a próxima coisa que eu vou comprar, mas quero comprar a pronto
pagamento, é o Pantagruel .
Vivia naquela altura em S. João da Madeira, o Colégio Castilho era em S. João da Madeira,
arranjei lá casa, e, então, na Terça-feira seguinte, (a conversa tinha sido pr’aí uma Sexta-
feira), eu recebi o Pantagruel oferecido por ele, com dedicação e tudo! O Pantagruel
sempre foi um livro caro. E ele ofereceu-mo. Pronto, estas pessoas e o meu cunhado
padre, evidentemente, que tinha sempre ali a casa à disposição e, coitado, vinha-me trazer
muitas vezes ao Porto. No seu Fiat 600 , br anco, sem rádio, quanta s histórias contámos aos
meus filhos ao longo da Estrada Nacional nº 1. Quantos jogos e quantas canções
cantávamos para o caminho não custar tanto a passar!
• Matilde Rosa Araújo e a aula sobre Sebastião da Gama
Entre 1970 e 1972-3 estive a dar aulas em S. João da Madeira e o meu marido, que,
entretanto, era técnico na Câmara Municipal do Porto, ia e vinha todos os dias. Era um
bocado cansativo, pelo que res olvi concorrer ao ensino oficial e fui coloc ada na Escola
Preparatória Soares dos Reis em Gaia. Foi nesse ano que fiz as Pedagógicas e que
engravidei da milha filha, Joana, que viria a nascer em Julho de 1973. Em 72, em Outubro,
vinha eu de Coimbra de fazer a última cadeira para terminar o bacharelato e, quando
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cheguei a casa, em Mafamude, Ga ia, para onde tinha vindo depois de S. João da Madeira,
toquei a campaínha e gritei de cá de baixo , do fundo das escadas, para o meu marido:
— Acabei! (Dessa vez, excepcionalmente, ti nha ido de comboio, sozinha, porque os dois
rapazes, o Carlos Manuel e o Rui Manuel, já andavam na escola.) E o meu marido lá de
cima respondeu-me:
— Acabaste? Pois agora começo eu!
E começou! Fez exame ad hoc à Universidade do Porto, lic enciou-se em Geografia, fez o
estágio logo de seguida e, ao fim de um ano de aulas, foi logo nomeado orientador de
estágio, funções que exerceu nas escolas O liveira Martins, Raínha Sant a e Aurélia de
Sousa. Entretanto, efectivou na mesma escola que eu, a Oliveira Martins e quando de lá
quis sair, saímos os dois. Gostávamos de trabalhar na mesma escola, embora sejamos
muito diferentes. Ele é mais calmo, mais se reno, mais calado. No entanto, os alunos
adoram-no, ou antes, adoravam - no, porque, entretanto, se reformou. Chegámos a t er
turmas comuns e eu quase tinha ciúmes por que, gostando sempre dos alunos e gostando
que eles gostassem de mim, parecia-me (e era certo) que eles ainda gostavam mais dele.
Concorri então ao estágio como bacharel, fiz o estágio no ens ino técnico. Comecei em
Outubro de 1973, na que era então a Escola Co mercial Oliveir a Martins. O 25 de Abril
aconteceu já quase no fim do meu estágio. O exame de estágio estava marcado para o dia
um de Maio. Já não fiz. Tive muito boa nota, tive boa nota, mesmo para a época. Eu tive
dezasseis a Português e quinze a Inglês, por que eu fiz estágio em Inglês e Português.
Na altura, para cada disciplina em estágio havia o metodólogo, uma assistente de
metodologia e ainda havia a met odóloga itinerante. A metodól oga itinerante andava pelo
país a assistir a algumas aulas e a ver as class ificações que eram propostas pelos
metodólogos locais, para depois acertar a nota no final. No meu ano, a metodóloga
itinerante de Português era Mat ilde Rosa Araújo, já muito idosa naquela altura. A not a
dezasseis a Português foi-me dada por ela e considero esta minha nota sobrevalorizada.
Foi absolutamente por acaso.
Talvez porque eu era um bocadinho mais ex trover trida do que as minhas colegas,
normalmente pediam-me para ser eu a atender, para «aturar» o visitante. Foi o que
aconteceu quando veio a Sra. Dra. Matilde Rosa Araújo, a metodóloga itinerante nesse
ano, que vinha para supervisionar as notas, as classificações, e acontece que ninguém
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queria que ela fosse assistir às aulas, porq ue estávamos numa fase de trabalho de grupo.
Quando me pediram, eu também disse:
— Mas não me dá jeito nenhum, porque o que eu est ou a fazer, o que eu vou fazer nessa
altura com os alunos, é um trabalho sobr e o Sebas tião da Gama. Já tenho os grupos
organizados. Um vai tratar o poeta da Serra da Arrábida, outro o poet a do amor conjugal…
isto e aquilo.
A metodóloga viu o que eu já tinha preparado, um roteiro de trabalho par a cada grupo, e
disse:
— Até é bom, deixe lá.
Pronto, já estávamos em cima do acontecimento… lá aceitei.
A minha turma, como todas então na Escola, er a só com rapazes, porque era uma escola
masculina. Os alunos estava divididos em grupos: um grupo tratava de Sebastião da
Gama, o poeta da Arrábida, outro grupo, o Sebastião da Gama professor, outro, o
Sebastião da Gama poeta do amor conjugal. Havia ainda mais um ou dois grupos que
tratavam outras facetas de que agora me não reco rdo. Achei importante tratar o aspecto do
poeta do amor conjugal, porq ue costumava dizer (e disse-o também à frente da
metodóloga):
— Os poetas casam-se e acabou. Nunca mais escrevem poemas de amor às mulheres.
Têm que arranjar outras musas. Este é o único que eu conheço que, depois de casar,
ainda continuou a escrever poemas de amor. Também, coitado, morreu tão cedo, que não
teve tempo de se cansar.
E, na vida, acontecem daquelas coisas. Eu costumo dizer, também, que tenho muitas
graças a dar não sei a quem… Po rque tínhamos por lá umas Flamas antigas (eram umas
revistas, ainda as tenho) e senti-me conduzida a folheá-las. É este o termo: conduzida.
Ainda sem saber quem era a me todóloga itinerante, pus-me a desfolhá-las, e o que é que
eu encontro numa? A reportagem, em página inte ira, do funeral do Sebastião da Gama, e
quem é que estava lá em pé, ao pé da urna? A Matilde Rosa Araújo. Então, eu olhei para
aquilo e pensei: «espera lá, q ue isto aqui já fica e vou levar para os miúdos ver em a
notícia».
Então, aconteceu um milagre. A vida das pessoas é feita de coisas fantásticas. Eu reflict o
muito, tenho muitas insónias, reflicto muit o nestas coisas, mesmo com o tempo passado.
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Eram só rapazes, antigo terceiro ano, que a gora é nono, portanto, aqueles rapazes que vão
para uma Escola Comercial. Não eram a ‘nata’, de maneir a nenhuma, e estavam a
trabalhar. E logo no princípio da aula, onde estavam os alunos, a metodóloga, a assistente,
as outras três estagiárias e a metodóloga iti nerante, um aluno fez um a pergunta de í ndole
pessoal sobre Sebastião da Gama e eu enchi-me de inspiração… Aliás, a minha vida é
feita de inspirações. Sinceramente, lament o muito, mas não me recordo da inesperada
pergunta e a que eu não tinha meios de res ponder, e dei por mim a responder:
— Ó filho, olha, eu não sei, mas nós vamos per guntar à Senhora Dra. Matilde Rosa Araújo,
porque eu sei que ela o conheceu e pode ser que ela possa responder.
Porque, na tal reportagem, eu tinha lido que a Senhora tinh a sido uma profunda amiga do
poeta e professor Sebastião da Gama.
A Dra. Matilde Rosa Araúj o respondeu, eles começaram-lhe a fazer perguntas, e daí a
bocado ela estava sentada em cima da mesa do professor, de perna traçada, a falar, a
dizer coisas sobre o Sebastião da Gama. A fala r da mulher dele, a contar o casamento. Ela
conhecia-o e tinha tido uma paixão por ele. Ma s isso eu só soube mais tarde! Ela era a
madrinha de casamento dele, e contou ali como foram os dois atravessando a Arrábida, a
pé, para a igreja. Contou que, a ele, se lhe de sapertou um atacador do sapato, e que ela se
sentou com ele sobre uma pedra, e que, quando el e estava a apertar o sapato, lhe disse:
— Sabes, Tila, eu estou muito doente, eu se i que não duro muito, mas eu devo isto à
Joana… (querendo dizer com isso que lhe devia esse bocado de vida que ainda poderia
viver com ela).
Os alunos, apesar da idade, apesar de tudo, esta vam muito comovidos. Gerou-se ali um
ambiente muito sensível, e vi muitos daqueles rapazes com lágrimas nos olhos e o utros a
sufocar com os soluços. Foi muito comovente. E eu que sou uma chorona, o que valeu é
que não funguei. Realmente estive muito discreta, com as lágrimas a correr e bastante
tempo, porque foi muito bonito. Ela falou com uma humanidade, com uma amizade… E
então no fim, criou-se uma magia.
Nisto tocou e um aluno diz assim:
— Sra. Dra., posso ainda fazer uma pergunta? — E eu até disse com os meus botões: «eu
mato-te se tu agora estragas este encanto». Mas o mocinho, com um ar muito ansioso,
pergunta à Dra. Matilde Rosa Araújo:
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— Sra. Dra., e essa senhora, depois de ter c onhecido um homem assim, voltou a casar?
— Não, meu filho, esta senhora é uma freira laica: uma senhor a que faz visitas, toma conta
de pessoas, visita pobres e doentes. É assim uma freira laica, sabes o que é? — Quando
ela disse aquilo, eles todos der am um suspiro profundo, como se lhes tivessem tirado um
peso de cima. Como se se considerassem todos traídos se ela se tivesse casado outra
vez…
E, já no momento de avalia ção da aula, comentou:
— Ai, que bela aula deu!
Eu não tinha dado aula nenhuma! Eu tinha prepar ado os materiais e essas coisas, mas eu
mesma disse e continuo a dizer:
— Isto é uma nota injusta.
• Tenho cadeiras que davam para fazer um banquete
Acabei por fazer os dois anos da licenciatura aqui no Porto. Costumo dizer que tenho
cadeiras que davam para fazer um banquete. Como já tinha fe ito praticamente tudo em
Coimbra, do quarto ano só me faltava o Semi nário e do quinto faltava-me uma disciplina.
Mas depois, quando começou o quarto ano de Filo logia Germânica na Faculdade de Letras
aqui da Universidade do Porto, tive que faze r o quarto e quinto anos inteiros. Não se
perdeu nada. Gostei imenso de vo ltar a estudar. Fiz sempre na mesma como voluntária.
Julgo que só fui assistir a uma aula ou duas . Lembro-me que fui fazer um exame a casa de
uma professora. O exame estava marcado e era só eu, e ela estava doente. E ela
perguntou-me se eu me importava e eu fui lá fazer o exame, numa casa a caminho da
Maia.
Gostei muito. Por exemplo, conheci uma pe ssoa que foi meu professor, na altura, e que é
praticamente da minha idade, com quem ainda hoje mantenho uma relação de profunda
amizade, até é meu co-autor, que é o professor David Davis. É Inglês. Coitado, vinha da
Turquia, tinha casado com uma portuguesa , tinha acabado de cair aqui em Portugal, e
estava a dar Linguística Inglesa Aplicada ao ens ino do Inglês. Pronto, foi aquilo que ele s
lhe deram para ele dar. O facto de eu ser mais velha do que os outros — eu já era efectiva
naquela altura — de saber algumas dificul dades que se punham ao professor a ensinar
Inglês, acabou por criar uma relação que a gente foi mantendo sempre. Por exemplo, tenho
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feito, até mais por solicit ação do que por vontade própria, manuais escolares de Inglês e
vou sempre ter com ele, porque formamos um a belíssima equipa. Trabalhamos muito bem:
temos ritmos muito diferentes, mas completa mo-nos. Eu sou um bocado mais inventiva,
mas ele é muito criativo, a pegar naquilo que faço, e depois te m um sentido de humor muito
grande, que acho que é essencia l para se ser professor. Go sto imenso de trabalhar com
ele. Gostei muito também de algumas profe ssoras. Ainda há tempos faleceu uma, que era
ainda mais nova do que eu, até fiquei c om uma pena, que era a Margarida Losa, filha da
escritora Ilse Losa. Eu já conhecia a mãe, tinha trabalhado com ela.
3.4. A gestão deu cabo da minha fé nas pessoas
Sou é professora. Se quisesse ser outra co isa, era. Tive vários convites…
Sempre gostei de me envolver um bocado naquilo em que eu es tou metida. No entanto, a
seguir ao 25 de Abril, havia muito barulho, muita manifestação. Mas manifestações, isso
não é comigo. Não consigo meter-me numa multi dão. Não consigo! Numa multidão, fico
isolada, e até me dá vont ade de chorar. As multidões comovem-me, assim como os
espaços muito abertos. Comovem-me, impre ssionam-me e eu até me emociono e digo
assim: «eu não sou de confiança que me emoci ono com estas coisas», e até faço uma
certa filosofia sozinha sobre isso. Mas gost ava de participar e, por exemplo, uma das
coisas que eu assumi, numa altura que er a muito difícil, na es cola, foi fazer parte da
Comissão de Gestão. Tinha acabado de sair do estágio! Fazer parte parte da Comissão de
Gestão foi uma experiência terrí vel. Naquele ano e no seguinte, em que estive na Escola
do Magistério Primário, também me envolvi na gestão. Foram anos difíceis, para quem não
queria pactuar com injustiças, demagogias e co vardias. O 25 de Abril foi há vinte e seis
anos e eu há dezanove que estou ligada aos Cons elhos Directivos. Este é o primeiro ano
em que sou só assessora, mas tenho estado se mpre na gestão. Lá saio um ano ou dois,
quando mudo de escola, mas depois, lá caio outra vez.
É o que vai acontecer agora, po is vou fazer parte de uma lista que vai conc orrer à eleição
do Conselho Executivo para a Escola em que já estou desde 1999, a Es cola Secundária
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Filipa de Vilhena. Apesar de te r estado (e ninguém me pôs ne nhuma fava ao peito), todos
estes anos em órgãos de gestão, a verdade é que do que eu gosto, e muito, é de estar com
alunos. Gosto muito de trabalhar com adultos, gos to muito de trabalhar co m alunos de dia.
Gosto essencialmente de dar aulas, de part ilhar, de ensinar. Acho que é uma daquelas
actividades que uma pessoa faz, que tem qual quer coisa de divino. E então quando nós
temos um aluno muito mau, por exemplo, e a gente consegue ab rir uma porta para entrar
um bocadinho de luz, um raio de luz, é fantástico, é comovente.
Por outro lado, também nunca tive grandes problemas. Dei dois pares de estalos na minha
vida. Nem sei se estou ou não arrependida de os ter dado, mas dei. E se, no episódio do
Albano, o meu arrependimento te ve por base uma possível tareia que ele me podia dar, já
o segundo caso foi diferente.
Foi na Escola Oliveira Martins, no ano de est ágio, numa aula as sistida, com um aluno que
estava a gozar com os meus esforços para fazer o que então se chamava «a motivação da
aula». Falei-lhe alto e quando ele me disse:
— O que é que foi? Olhe que eu não sou da sua confiança!
Não pensei nas consequênc ias e dei-lhe dois tabefes. Levou também. Levou e aí a minha
reacção foi assim: “bolas, já reprovei”. Mas não. Nem ninguém referiu aquilo, senão uns
anos mais tarde.
Também é curioso recordar que os professores, na primeira vez que concorriam, não
podiam concorrer para nenhuma escola situada a me nos de trinta quilómetros de casa. Isto
em 1975-76. Por isso, embora houvesse vagas a dar com um pau perto de casa, concorri
para S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vila Nova de Fa m alicão. Por isso, a primeira
vez que efectivei fiquei em Famalicão. Mas acabei por ir lá só receber! Ia lá no dia vinte e
cinco de cada mês, ou no dia vinte e seis , se calhava ao domingo — recebia-se o
vencimento na escola!
Ia com outra colega, que também tinha sido des tacada. Mas não, não fui para lá dar aulas,
porque, entretanto, uma amiga minha, a Graça Branco, de Br aga, foi nomeada Directora da
Escola do Magistério Primário do Porto, que era um lugar eminentemente político. Ela era
simpatizante do MDP/CDE, uma pessoa honestíssima, muito discreta. E convidou-me para
ser subdirectora. A mim e a outra colega chamada Alice. Tanto o ano de 1974-75, na
Oliveira Martins, como 1975-76, no Magistério , foram dois anos dificílimos! Porque ali é que
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era política mesmo! Era horrível. Ganhei umas úlceras, meu Deus! Ponha difícil nisso. Sabe
a obra de Português que nós dávamos aos futuros professores primários? Os Capitães da
Areia , foi o que foi decidido que se dava. Claro eu procurava desmontar o sistema, tanto
quanto possível, mas era pesado. Só tinha uma turma, porque eu era subdirectora, só tinha
mesmo duas ou três aulas por semana.
Em 1976-77 fiquei efectiva na escola que, ne ssa altura, se chamava de Artes Decorativas
Soares dos Reis. Cheguei lá, só estive a fo lgar um ano. Fui nome ada para o Conselho
Directivo. Cansei-me, estive três anos no Cons elho Directivo e tratei de mudar de escola.
Foi quando concorri para a Oliveira Martins, que ficava situada a cin quenta metros de
minha casa. Julguei que me tinha livrado…
Não é que ser membro de um órgão de ges tão não tenha coisas boas. Mas, em mim, teve
um efeito muito negativo: a gestão deu cabo da minha fé nas pes soas. Eu gostava de mim
como eu era, porque eu confiava muito nas pe ssoas. Agora não confio, e mais, perco a
paciência com muita facilidade. Sei que não é tanto da idade, por que eu não per co a
paciência com os alunos. Perco a paciência co m a falta de brio profissional de muitos
professores, perco a paciência com a falta de pac iência de muitos professores, perco a
paciência por eles não se lem brarem que já foram também jovens, adolescentes… Com
aqueles que vêem tudo pelo lado negativo, que é tudo mau. Aqueles professores que me
dizem assim: “quando é que começam as férias ?”, ponho-os logo numa prateleira. Gosto
de pessoas activas, que tenham iniciativas, que se envolvam, que tenham orgulho na sua
escola. Por isso, andei sempre metida em muita coisa. Até já ensinei culinária a alunos,
numas férias grandes, na cantina da Escola!
Quando voltei para a Oliveira Martins, estive oito meses para aí, um ano lectivo, sem estar
no Conselho Directivo. E fiquei por lá onze anos. Depois saí. Já não aguentava. Estava a
ficar antipática. Foi quando concorri para a Esco la Secundária Filipa de Vilhena, juntamente
com o meu marido. Quando chegue i à Filipa, pense i que ia ter uma folga sem cargo
nenhum. Não tive nada! Tive logo um cargo: perguntaram-me se eu não queria assumir um
curso em regime pós-laboral, que funcionava no sistema modelar. Era como o das escolas
profissionais. E eu fiquei com a responsabilidade desse curso três anos. Quando acabou,
fui para o Conselho Executivo três anos. A segui r, fiquei mais um ano como assessora do
Conselho Executivo, e agora estou outra vez, julgo q ue os me us três últimos anos. É que
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eu já tenho idade e tempo para me reformar . Para o ano vou pedir a contagem do meu
tempo de serviço, parece-me que no fim dos três anos terei talvez uns meses de horário
zero e que me reformo.
As mulheres e a gestão das escolas
Na gestão, um dos pelouros mais difíceis e tenho-o tido muitas vezes, é o do pessoal
auxiliar de acção educativa. Porque o pe ssoal não tem formação e ganha muito pouco.
Como ganha pouco e não tem fo rmação, são ali logo dois handicaps com que nós temos
que lidar. Normalmente, nota-se uma grande subalternizarão das mulheres. Os homens
não querem fazer a limpeza, apesar de ela cons tar das funções que lhes são atribuídas…
Mas Conselho Executivo onde eu esteja, ganham t odos por igual, todos fazem igual. Se
houver trabalho de limpeza para fazer, faz-se. A primeira vez que disse a um funcionário
para limpar os vidros, que estavam imundos e alto s, ele retorquiu enfastiado: “Ah, sra dra,
eu vou limpar os vidros?!”, “Vai, sim senhor.”, “Mas eu nunca limpei!”, “Pois, olhe, agora é
uma boa altura de começar, Sr. Miguel.” Pront o. E procuro que a distribuição das tarefas
seja equitativa, o que também é muito difícil, porque os chefes de pess oal têm muito poder.
Então, o que é que eles fazem? Fazem chant agem emocional, eles ameaçam as pessoas,
e se uma pessoa não andar em cima, (e eu não tenho nenhuma pretensão de que sei tudo
o que se passa), há pessoas que são mais sa crificadas do que outras. E dentro das mais
sacrificadas, lá estão as mulheres. Portant o, o que é que eu faço? No princípio dos anos,
faço uma distribuição de tarefas: quantas sa las há para limpar, quantas esc adas, quantos
pátios, quantos bufetes, quant os corredores, quantos ginásio s, quanta cantina, quanto
telefone, tatatata… e faz-se uma distribuição, o mais equitativa possí vel. Eles faltam
imenso. Quando há faltas, temos que gerir aquela divisão… Mas de facto, é um problema
porque elas até são, na minha opinião, até são ofendidas, por exemplo, oralmente, pelo
vocabulário que é usado por el es, e que abusam. E as desculpas deste género: “Ó sr.
Euclides, olhe que a D. Teresa está muito sobrecarregada, é uma pessoa frágil e está
muito sobrecarregada.” “Sra Dra., muito bem es tá ela! Havia de ver o ano passado. Está a
ver o ano passado era injusto.” “Mas o facto de ela estar melhor do que o ano passado, não
quer dizer que esteja bem! Não está. Não está bem e eu não quero isto. E olhe, faz favor,
tire-me uma sala a esta senhora, dê a outro , tire mais aquela e dê aquele, porque aqueles
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Eles a falarem mesmo à moda do Brasil, co m aqueles nomes, e depois aquelas situações
dúbias, a mulher, o marido e o outro. O marido ia para a Índia… a esposa ficava cá…
Repare, isto foi em 1998, e é por isso que eu digo: “alguém deu esta frase para a
publicidade”, porque dizia ele a ssim: “Olhe, meu bem, vou- lhe dar uma novidade.” E o
marido dizia: “Novidade? Novidade, só no outro continente.” Ai nda não havia o slogan
«Novidade só no Continente».
E depois, ela dizia: “Não, mas eu vou-te dar uma novidade: estou grávida.” E ele dizia
assim: “Mas isso não é novidade.” E o amante, por trás: “É, é.”
Quando um dizia assim: “seu Tibúrcio, meu sogro, olhe pela minha mulher, enquanto eu
vou andar lá por aquelas Índias.” E dizia ele assim: “Nes tor, meu filho q ue eu nunca tive,
graças a Deus. Deixa lá disso, vamos é ganhar dinheiro e vem rico e deixa lá ag ora de
fidelidade. Qual fideli dade, qual carapuça.” Era o sogro, mas o que ele queria era que o
genro viesse rico.
Quer dizer, eu dei-lhes uma ce rta liberdade. Nalgumas coisas pus um bocadinho de água
nas fervuras. “Quer dizer, vocês só que quer em para pôr água nas fe rvuras. Pronto, está
bem.” Portanto, ensinei-lhes o que eles precisavam: quais os vários passos de um trabalho
de projecto: “Isto é um trabalho de projecto, é divisão do trabal ho, reuniões, tatata…” E nós
fazíamos, todas as quintas-feiras, ali, fazí amos mesmo aquilo. Foi um sucesso, de facto.
A própria Directora de Turma delas riu-se de perdida, perdida. No fim. Mas ela é mesm o
assim. E é uma pessoa honesta.
“Vendendo” a professora…
Esta turma I estava em constante competiç ão com a turma J, com muito boa gente, mas
talvez com menos talentos, de uma manei ra geral. Ora no 11º ano, decidi que um
determinado teste de Técnicas de Tradução, que seria sobre o as sunto “Publicidade”, seria
diferente do habitual.
Tínhamos já chegado à conclusão de que a pub licidade e a poesia eram dois tipos de
textos muito difíceis de traduzir por causa da mensagem escondida. Tínham os traduzido
muita coisa e o que é que eu lhes pedi? Era um teste que lhes apresentei ass im:
125
— Nós agora não vamos traduzir, propriamente… Inventem um slogan sobre um produto
real ou imaginário. Inventem uma marca, escr evam um slogan, digam qual o meio que
escolheriam para difundir a publicidade e os passo s que seguiriam para produzir o anúncio.
E uma aluna, uma belíssima aluna, chamada Daniela, — el a diz que é como eu, que é
‘marcada’: eu tenho aqui uma m ancha branca e ela tem aqui nas sobrancelhas — diz- me
assim:
— Ó professora, eu hoje não estou nada inspirada. Eu não sei o que é que hei-de vender.
— Olhe, venda-me a mi m. Vende-me a mi m.
— Vender a professora?
— Sabes? É que eu hoje no noticiário ouvi venderem o Figo.
E ela disse, muit o rapidamente:
— A professora não diga mais nada, não diga mais nada.
E então fez um anúncio que eu tenho lá, também guardado. O que é que ela pôs? El a
vendeu-me assim: era na televisão… o slogan er a este, em inglês é muito mais curto, que
era: “Se quiser ter o sol na sua aula, compre a nossa professora de TTI”.
Era um anúncio de televisão. Er a assim: Primeira cena: sala de aula — na janela, vê-se o
sol lá fora, as flores nos ja rdim e ouve-se o mar e vê-se uns passos a andar em de um lado
para o outro, blá, blá, blá, blá… Dentro da sala há silêncio, só se ouve o blá, blá, blá e há
um tom de cinzento.
Segunda cena: a professora de TTI aproxima-se, o cinzento começa a mudar de cor, entra,
espera lá, entram as flores, entra o sol… Imagine! Com isto! Tenho lá, guardado!
Depois, fui para a outra turma, a turma J, logo a seguir, e veio outra que era a Andreia, que
era a nº 2 e também pensou em vender-me:
— Ó filha, olha que parece que já me v enderam na outra sala… Como quiseres.
O meu marido era professor nas duas turmas. Eu era de Técnicas de Tradução e ele de
Geografia. E esta também me vendeu, ela at é fez a lápis mas vendeu-me pelo sistema
televendas: “Este produto não está à venda nas lojas! Se quiser adquirir est a professora,
ligue para o…” (lá pôs o meu número de te lefone, que sempre dei aos alunos, par a
poderem contactar se tivessem necessidade), e em “Nota”, “a primeira pessoa que
telefonar para comprar esta professora, le va de brinde um professor de Geografia”.
126
Eu não podia ficar com isto, porque era dos alunos, eram test es… E então, o que é que eu
fiz? Pedi-os todos e disse:
— Olhem, raramente, como vocês sabem, os professores fazem testes destes. (Porque eu
tinha escrito no quadr o o que eu queria. Foi uma determinação pedagóg ica.) Mas estou a
fazer um estudo — portanto, aldrabei-os — estou a fazer um estudo sobre isto, e eu
gostava que vocês, se não se importam… Olhem, se quiserem, eu faço-vos uma fotocópia,
mas se não quiserem, quero que vocês vejam o que eu escrevi, as anotações, mas depois
quero outra vez tudo.
E fiquei com eles. Guardo-os ao pé dos meus louvores, porque acho que s ão estas coisas
que tornam a vida de professora uma maravil ha. Guardei estes porque eram comoventes.
E que mais tenho eu feito pelas escolas?
Também o que é que eu já fiz? No ano em que eu não estive no Conselho Executivo, ele s
disseram-me: “Olha lá, tu não arranjas aí umas actividades para ocupar os miúdos durante
o mês de Julho?” E eu estive-lhes a dar culin ária! Na cantina da escola. Olhe, a gente
cozinhava e comia. Demos lá um curso de culinária.
Já fiz a história da escola, ta mbém, em livro! Com uma colega que foi directora para aí
durante quarenta anos… Publ icamos. Arranjei uma editora que o fizesse de borla, em capa
cartonada, capa dura e tudo. Mil exemplar es. E fiz o regulamento interno da escola. Nós
tínhamos uma comissão formada por professores, dois funcionários, duas alunas, um pai, e
aquilo nunca mais andava, nem para a frente nem para trás. Então disse: “Olha, vamos
fazer assim: eu tenho livros em casa, e levo a legislação, e começo a fazer e a gente junta-
se aqui uma vez por semana, a ver se vocês concordam com aquilo que eu fiz.” E foi as sim
que a gente fez o regulamento, que está aí. Nu m mês fizemos o regulamento. São as
coisas que eu lhe tenho a dizer sobre a minha vi da profissional. Eu sinto-me muito feliz por
ser professora. Não há nada, neste momento, qualquer outra coisa eu consiga c onceber
que pudesse ser.
Os alunos, no dia seis de Abril, pediram-me par a, num colóquio qu e eles promoveram
sobre saídas profissionais, lhes falar como professora, o que é que é, na minha opinião, um
professor. E fiz-lhes um levantamento das qualidades que considero indispensáv eis:
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espírito optimista, sentido de humor, cr iatividade, gosto pela mudança, sentido de
responsabilidade, capacidade de interacção.
Também lhes disse que deve ter sempre di sponível um lenço, um ombro e uma
esferográfica. E que não há ma l nenhum se uma vez, de muito em muito longe, parecer
pateta. Para que os alunos saibam que ele ou ela é de carne e osso. Esta frase não é
minha é de uma obra que costumo recomendar mu ito, “501 Dicas para Professores”, da
Editora Replicação. E a última dica é esta: “V ocê é professor? Congratule-se. Não há nada
melhor”. Leio sempre isto. Não me lembro do autor. Concluindo, foi a Escola e os Alunos
que me deram algumas das maiores alegrias, que me proporcionaram momentos
extremamente gratificantes, que me têm ajudado a manter jovem, pelo menos por dentro.
Quem é que pode envelhecer no meio de t anta juventude? Por isso, se fosse preciso,
voltaria a fazer todos os sacrifícios para me poder sentir como membro do que considero
uma das mais importantes profissões do mundo.
Repare que só lhe contei duas desgraças, lá do tampo da cadeira e da bofetada, e tantas
coisas boas. É só a gente querer. Porque os alunos têm, têm coisas muito boas.
Eu acho um privilégio ser professor. Ac ho mesmo. Ficamos jovens mais tempo. Se
quisermos aprender com os alunos, eles têm t antas coisas para nos ensinar! Antigamente,
havia um professor que dizia: “Eu só dou vi nte quando houver algum al uno que me ensine
alguma coisa a mim”. Isso era dantes. Porque se fosse agora, coitado do homem! Passava
a vida a dar vintes! Mesmo na altura, não esta ria com atenção, porque eu gosto muito de
ser professora e julgo que vou ter pena… por isso, é que quero guardar o mestrado para
depois…
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129
4. Ermelinda Ribeiro, a mili tância tem sido a minha vida
4.1. “Quando morre uma mãe, é como uma árvore que se corta”
A minha mãe foi empregada doméstica desde os seis anos de idade. Fic ou sem pai nem
mãe quando tinha seis anos de idade: os meus avós morreram com uma doença
pneumónica a seguir à Grande Guerra, e eles er am catorze irmãos. Uma das mais n ovas
era a minha mãe, ainda havia dois irmãos abaixo dela e todos aqueles que tinham para
cima de seis anos, foi tudo servir. Na altura , os meus avós e a minha mãe viviam em
Espadela, e ela veio depois para Santo André. Veio para uns lavradores, porque tinha lá
uma irmã já ao serviço que foi quem pediu para ela ficar lá. Daí é que eu tenho muitas más
recordações, porque a minha mãe nos contava. Ela teve que ir trabalhar quando tinha 6
anos, punham-na a vigiar e a sacudir as pom bas e as galin has das sementeiras e ela
estava ali com um caldito na mão e se, então, adormecia, pegavam numa vergasta e
davam-lhe com ela. Comia uma tigela de s opa e um bocado de pão e depois ia trabalhar.
E ela dizia-nos muitas vezes que aquilo que mais lhe custava era à noite ir para a cama,
porque punham-lhe uns lençóis de estopa, que eram muito duros, não aqueciam e só eram
lavados na Páscoa. Ela dizia que tinha muito fr io e que, quando ia para a c ama ia sempre
aflita porque, novinha, a roupa não aconchegava nada: era uma manta de trapos em cima
desses lençóis.
E ela contava-nos isto quando nós às vezes, pronto “Vais fazer isto, vais fazer aquilo . Tu
hoje vais lavar a loiça, vais limpar os talher es” e tal. E como a gente fazia tudo à vez:
— Oh, mãe, eu fiz ontem, eu fiz hoje.
E a minha mãe dizia:
— Já pr’á cama! Já pr’á cama, não preciso da vossa ajuda! Eu não soube o que é ter pais e
não sei se calhar o que é ter filhos! — El a quando nos dizia isto, não precisava de nos
bater. E a gente ia pr’á cama, a olhar uma para a outra. — Vá lá, lavar os pezinhos bem
lavadinhos, cama! Não preciso da vossa ajuda!
E ficávamos todas torcidas porque ela contava-nos estas peripécias.
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Amor numa noite de desfolhada
A minha mãe estava lá a servir, já tinha mudado de casa e conheceu o meu pai numa noite
de uma desfolhada. Ela foi com el e até à porta, havia aqueles ca rros de bois e eles fizeram
amor ali e a minha mãe engravidou da primeira vez.
Quando sentiu que estava grávida, doida, af lita, não podia dizer nada a ninguém! Depois,
mais tarde, os patrões deram conta que ela estava gráv ida e disseram-lhe que se i a
embora, que ela fosse falar com as tias, mas ti nha que se ir embora. E ela pediu para ficar
a trabalhar, nem que fosse de graça. Que a dei xassem estar, que ela não ganhava dinheiro
e que continuava a trabalhar. Então ficou com a condição de trabalhar até nascer a criança
e, quando nascesse a criança, tinha que se ir em bora. A minha irmã entretanto nasceu, e a
minha mãe continuou a pedir par a a deixarem lá estar porque tinha muito leite, e que
amamentava a criança e depois tr abalhava mais pela noite dentro para tratar da menina. A
minha irmã foi criada no sótão, num caixote de madeir a e a minha mãe dava-lhe de m amar
e, depois de fazer as tarefas da casa todas, à noite, às 10 horas da noite, que ela estava
acordada até os patrões se irem deitar, é que ela ia lavar os paninhos da minha irmã, ia
passar umas coisinhas a ferro e pegava um boc adinho na menina, na bébé, que durante o
dia aquilo era um ver-se-te -avias e quase não a deixavam pegar na menina. Os amigos
[dos senhores] davam-lhe muit o boa roupinha, eram todos burgueses, am igos do casal lá
de casa, ia lá muita gente, faziam lá muita jantarada, e eles davam muita roupinha para a
menina. Aliás, os senhores, patrões da minha mãe, só quando a minha irmã tinha seis
meses é que lhe disseram:
—Oh Elsa, ainda não conhecemos a tua filha!?…
E a minha mãe foi buscar a menina: no dia em que lhes mos trou a menina, ficou sem a
filha. Eles ficaram encantados com a bébé. Não ti nham filhos. Ela começou a pegar nela ao
colo, a dar-lhe comida, a apaparicá-la, a deixá -la meter as mãozinhas nas maminhas e
quando começou a falar, dizia:
— Oh, mãe, antes quero as maminhas da senhora, que as dela são inteiras, as tuas são
partidas. — Porque ela tinha os seios muit o grandes, ela gostava de fazer aquilo.
131
A partir mais ou menos dos se is anos, a minha irmã já era ‘ polícia’ da minha mãe. Quando
eles saíam, das duas uma: ou levavam a m enina para a minha mãe não perder tempo com
a filha, levavam-na com eles para passear, ent retidos com a criança, ou então ela ficava
em casa e ela [patroa] dizia:
— Ficas aqui, mas vais ver o que é que a tua mãe faz, se a tua mãe vai falar com o teu pai,
se o teu pai vai falar com a t ua mãe. — porque, naquela altura, eles não deixavam sequer o
meu pai, que era pai da minha irmã, aproximar-se da minha mãe.
Eles tinham uma forma de se encontrarem e de falarem um para o outro: a minha mãe ia
lavar para um tanque muito lo nge e começava a c antar, que a minha mãe cantava muito
bem. O meu pai ouvia e mandava um bilhet inho pela boca do cão a trazer uma
comunicação para a minha mãe. E a minha mãe lia o bilhetinho, escrevia também o seu
bilhetinho e mandava pelo cão para o meu pai.
Uma vez, quando a minha mãe chegou, a patroa perguntou:
— Então, filha, o teu pai aproximou-se da tua mãe?
— Não, foi só o cão. — Era só o cão. E ela perguntava:
— E não aconteceu mais nada?
— Não aconteceu mais nada.
— E a minha mãe deixou cair o canário e o c anário começou a cantar. — E mal acabava de
dizer isto, voltava-se para a minha mãe: — Oh mãe, eu disse à Lili (q ue era a senhora) que
tu deixaste cair o canário. Mas olha que eu não disse, ela é que perguntou e eu tive de
dizer. — Foi utilizada assim.
Quando ela já tinha seis anos, o meu pai decidi u casar com a minha mãe. Tiveram que ir
pedir para casar, eles arranjaram-lhe uma casa com uns moinhos. O meu pai era pad eiro e
a minha mãe foi para o moinho e passou a ser moleira. Depois nasci eu.
Entretanto, os patrões da mi nha mãe, mais tarde, fora m meus padrinhos, não foram da
minha irmã porque ela era fil ha de pai incógnito. Nós moráva mos perto. Quando a m inha
mãe casou, a senhora perguntou:
— Se queres levar a t ua filha, ela é tua. Se a queres cá deixar ficar, eu vou fazer como se
ela fosse minha.
E como eu nasci em 1940, antes do tem po da Grande Guerra, de uma fome desgraçada,
de uma pobreza muito grande, a minha mãe, a chorar, disse ao meu pai:
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— Está para nascer uma, não sabemos como é que a vida vai correr. Ao menos, àquela
não lhe falta nada, vamos deixá-la lá estar. — E foi assim que aconteceu, deixaram-na lá
estar.
No percurso da vida, tiveram muitas dúvidas. Chegavam ao Natal e o meu pai dizia sempre
que era o último Natal que pass ava sem ela. Depois, tudo aquilo que fosse bom, não era
porque a minha mãe fizesse, eram os senhores que faziam, tudo o que fosse mau, vinham
dizer à minha mãe:
— Olha que a tua filha, aconteceu isto, aconteceu aquilo, aqueloutro… — e tal.
Mas eles tiveram sempre uma certa preocupaç ão de ligar muito a minha irmã às irmãs.
Diziam:
— Nós não somos os teus pais, o teu pai é Ant ónio, a tua mãe é Elsa e as tuas irmãs são
aquelas. — E mandava-nos chamar…
Quando a minha irmã estava a fazer o 5º ano, reprovou três vezes, e eles chamavam-me a
mim para ir lá fazer as equações. Essa minha irmã depois foi estudar e formou-se como
professora. Tenho uma irmã mais nova um ano e meio. Temos sido as três muito amigas ,
ao longo do percurso. Claro q ue são percursos muito diferentes, não têm nada a ver
comigo. Sobretudo a mais velha tem muito menos a ver comigo, mas existe uma relação,
uma certa afectividade, ela n ão se mete com a minha vida e eu não me m eto com a vida
dela. Tem filhos e netos: já tenho sobrinhos netos. A gente, chegou a certa altura, definiu
terrenos, cada uma opina, dá a sua opinião e tal, mas depois cada uma tem a sua vida, a
sua decisão e a sua vida, e isso ela respeit a profundamente. Por vontade dela eu estava lá
todos os fins de semana:
— Oh, Linda, vens cá este fim-de-semana?
Se eu disser:
— Não, este fim-de-sem ana tenho uma reunião da ‘Liga’ 16 .
— Ei, tudo bem. — e já não li ga. — Pronto, o que importa é que tu estejas bem.
Se há uma semana em que eu estou um bocado ma is distraída e não lhes telefono, elas
ficam aflitas, telefonam pr’ali, telefonam pr ’ó Damásio, para saber como é que eu estou,
ficam um bocado aflitas.
16 Da LOC, Liga Operária Católica.
133
A minha mãe já morreu há uns anos. E foi muito difícil, porque aquilo é como uma árvore
que se corta. Nunca tive obstáculos da dos m eus pais. Apesar de eu, mais ou menos com
vinte, ter saído de casa — fui trabalhar para o Alto da Beira. Primei ro, quis ir trabalhar para
uma fábrica e depois quis ir para o Alto da Beira e fui. E quan do fui estudar à noite, éramos
só duas a estudar à noite, o meu pai ia-me buscar numa ‘pachancha’, numa motorizada, às
onze horas da noite, e, na aldeia, a partir das oito horas, toda a gente dormia, e ele lá me ia
buscar. Quando não podia, se estava doente, ía a minha mãe, com um xaile na cabeça, ao
meu encontro. Nunca puseram obstáculos a eu ter reuniõe s à noite, ou aos domingos à
noite, em prosseguir as minhas coisas.
Da escola, tenho boas e más recordações
Nasci na década de 1940. Andei na escola at é aos onze anos, mas ainda frequentei o
primeiro ciclo do liceu. Mas depois os m eus pais tiraram-me porque não podiam.
Da escola primária t enho boas e más e recordações. Quer dizer, boas recordações porque
era uma boa aluna… Dantes ha via uns fulanos que iam ver como estava a decorrer, se
estava a decorrer bem, os inspectores, e cl aro que a professora punha-me sempre a mim
ou no quadro a fazer problemas ou a fazer um a leitura… Então, tenho boas recordações
porque era estimulada e era inteligente, segundo os patamares da época. Só que, um dia,
a minha mãe pediu à professora para deixar ir a minha irmã mais nova lá p’á escola, para
estar a assistir, para estar ocupada também, a miúda, e ela ia comigo e v inha. E, nesse dia,
havia uma lição que era sobre o Marechal Carm ona, um texto da segunda classe, que tinha
umas palavras muito difíceis e eu comecei-me a engasgar a ler, houve uma ou duas
palavras que eu não disse corre ctamente. Depois de o homem ir embora, a professora
chama-me:
— Ah, minha malvada, que me deixaste fi car mal! — E dá-me duas reguadas!
As únicas duas que apanhei, por que esteve o inspector presente, nunca tinha apanhado. A
minha irmã, que estava lá, começou aos gritos : “Oh, Linda, vamos embora, Linda, vamos
embora, Linda vamos embora” e a gente largou a aula, eram pr’á aí 11h 30 da manhã e
fomos para casa, com a minha irmã a chorar todo o caminho e eu também a chorar com
ela. Ela chegou a casa e disse à minha mãe:
— Nós viemos embora porque a professora bat eu na Linda e nunca mais quero ir à escola.
140
razões por que foi aquilo, se havia a pessoa que era ré ou era vítima, e depois o que é que
podíamos fazer, era sempre a per gunta para o compromisso, a seguir.
Havia outra coisa que era muito importante: ninguém podia dizer «e u pens o como fulano,
penso como sicrano» e assim. E então, uma dizia uma coisa e a outra, nem que fosse por
outras palavras, mas não podia dizer a mesma co isa. Nunca se podia dizer, era o método:
«Eu penso como fulano, eu estou de acordo co m sicrano, eu estou de acordo com aquela».
Obrigavam toda a gente a dizer pelas suas pal avras. «Pode repetir o mesmo, mas pensa,
nós somos seres pensantes, que pensam». Obrigav am à opinião. ‘Estalavam castanholas ’
quando chegava a nossa vez de falar. Tínhamos que falar, toda a gente tinha que falar e
não podia dizer «Estou de acordo», saía logo a pergunta: «E porquê?». Portanto,
obrigavam a pensar e a reflectir porque é que a gente estava de acordo. Isto foi uma escola
muito importante.
Nessa data, eu já tinha p’aí dezasseis anos ou dezassete, fui a um encontro a Fátima. Fui
escolhida p’ra ir. Na reunião havia uma pergunta, também nunca me esqueci, porque me
marcou, que era assim: «acha que a evolução da técnica tem influência na formação do
carácter da pessoa?» Agora, isto há uns cinquenta anos!… Dá a ‘voltinha’, e não podia
repetir o que outro disse. E depois, a gente já estava a ver: que as pessoas depois fa ziam
as coisas muito mecanizadas, etc. E i sso marcou-me porque eu chorei tanto…
Claro, no encontro, deitávamo-nos às tantas, levantávamo-nos às tantas… Mas o que é
certo é que, no primeiro dia: «a que conclus ão chegou»; no segundo dia: «a que conclusão
chegou», e «o que é que se ia fazer», etc. E eu sentia o pe so da responsabilidade de estar
em representação de Santo André; achava que tinha de fazer tudo muito bem feito, tinha
de as representar bem, e tinha de fazer um diário todos os dias, para depois fazer o relato
cá. Tinham-me dito:
— Tens de tomar notas, tens de fazer apontamentos, para depois, quando cá chegares,
aqui ao nível do Concelho, num Domingo à tarde, faz- se uma reunião com o resto da malta
da JOC e fazes entretanto um resumo. — Um pivete, ali em cim a, à frente de uma mesa,
num palanque, a explicar o que foi o encontro… Quer dizer, eu tremia mais do que as
castanholas, tremia-me tudo, a explicar o que é que foi, como que não foi…
Este encontro em Fátima preparou um outro, que depois se tr ansformou num grande
encontro nacional, que foi em Lisboa.
141
Foi um método important e e depois era a acção, [que] er a no meio operário. Em meados
da década de cinquenta, havia uma quantidade de fábricas têxt eis em Santo André, em
que as jovenzinhas da nossa idade iam trabalhar , primeiro iam para o aterro, depois para a
vassoura, depois para ajudantes, e depois é que iam para o lugar. Havia uma fábrica e eles
queriam fazer um pavilhão do outro lado. Então, descarregav am cascalho e as crianças,
com doze anos, andavam todo o dia com aqueles cestinhos pequeninos , iguais aos das
uvas, de verga, à cabeça, a acarretar cascal ho como formigas. Era assim. Iam para lá,
carregavam, depois vinha outro, acabavam de ac arretar a pedra, carregavam cimento,
acabavam de acarretar cimento… Cham avam eles aterro , a palavra tem muita força,
parece escravatura. E tinham de andar sete meses, para depois terem acesso a ser
aprendizes no sector profissi onal, ou ir em varrer. Q uando as pessoas tinham uma
vassoura, era já uma promoção, e quando iam para ajudantes de profissional, então aí era
o máximo. Ai, davam presuntos e salpicões e tudo.
Naquela altura, a gente não descontava, ia trabal har com treze, catorze anos até encontrar
todos um lugar na fábrica. É clar o que os pais davam uns presuntos…
Tudo o que era bom er a para os chefes. A gente at é di zia assim, «quando o pobre come
uma galinha, uma de duas coisas acontece, ou está o pobre doente ou a galinha». Um dia,
fui a casa dumas colegas, que depois uma del as até foi para freira, e ela disse:
— Como hoje é domingo, nesta casa, come-s e bem, temos arroz e batatas fritas. —
portanto, era o arroz e as batatas fritas! Era a co mida daquela gente ao domingo.
• Aprendendo a ser militante
O trabalho sindical tem sido a minha vida. A minha vida não t em partes, tem sido uma
sequência, uma tomada de consciência da expl oração das mulheres e, através da JOC,
desde os catorze anos, quinze, não tinha mais. Des de essa altura, ainda estava eu no
atelier de costura, a gente começou a tomar consciência da exploração das mulheres. F oi
na década de sessenta, quando apareceram as confecções. Houve uma transformação
muito grande na minha zona, porque, até ali, as raparigas só tinham duas alternativas: ou
trabalhavam no campo ou iam servir. O meu come ço foi por ali, e foi pela minha mãe, que
começou a servir aos seis anos de idade e ti nha, perante a vida, uma visão que foi muito
importante para mim.
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Quando as fábricas apareceram, foi uma cois a muito importante. Primeiro, porque as
pessoas vestiam melhor, levavam uns aventai zinhos mais arranjadinhos, já não andavam
como andavam no campo, para irem para a fábrica, enc arregavam-se de esfregar os
calcanhares muito bem nas pedras para ir mu ito branquinhos, como se fossem para a
cidade, ou para a vila; na altura , era para ir para a fábr ica. Segundo, começaram a ganhar
algum dinheiro, já tinham uma roupinha para ve stir ao domingo, para ir à missa, uma roupa
diferente daquela que tinham para a semana.
Portanto, o ir para um a fábrica foi muito importante, apesar de naquela altura se ganhar
apenas alguns vinte e cinco tostões por dia. O máximo que o salário atingia era sete e
quinhentos, sete mil e quinh entos, sete mil reis.
Na década de sessenta, era uma exploração muito grande. Aquilo que nos era sensível era
a exploração; a gente não tinha a sensação pol ítica, tinha a sensação da exploração.
Víamos também que as raparig as mais bonitas que iam trabalhar para as fábricas, eles
metiam-nas logo na limpeza do escritório ou nos armazéns, que era mais limpinho. Eram às
três e às quatro que a gente via que eram papadas pelos chefes e pelos patrões. Aquelas
que aparecessem lá, com um ar mais limpinho, loirinhas, de ol hinhos bonitos e tudo, já se
sabia, que aquela gente ia mais tarde ou ma is cedo… A gente sabia que eram presas
fáceis, e nessa altura ainda pior que hoje, as pessoas [as mulheres] sofriam caladam ente,
porque deus me livre que alguém soubesse ou que o namorado soubesse ou que os pais
soubessem! Nem se podiam queixar, se não, ainda apanhavam dos pais.
Nem se falava de assédios sexuais... Nós não sabíamos como se chamava, o assédio
sexual.
Naquela altura, as crianças iam para lá tra balhar com catorze anos e com treze ou doze,
mal saíam da escola. Era de segunda a sábado, das oito às seis, e ao sábado ainda era
das oito às onze, para completar as quarenta e oi to horas de trabalho. As férias eram seis
dias, doze ou dezoito [dias] conforme as faltas que davam, e não havia subsídio de férias
nem subsídio de Natal. As mulheres só ti nham um mês de parto, e a maior parte delas, ao
fim de quinze dias, já ia trabalhar, que eles c hamavam-nas. Depois, as mães delas ou as
tias ou as amas iam levar as crianças à fábr ica para elas lhe darem a mama na fábrica, não
havia outra hipótese. Num bocadinho, elas ia m ali, mas quando a criança estava a agarrar
o peito, já elas iam para dentro.
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A nossa acção na década de sessenta e setenta
A gente começou a nossa acção por coisas muito simples, se m preconceitos. Dizia-se: «o
que é que a gente vai fazer?» Por exemplo: uma vez, um dos casos era o das as
trabalhadoras da fábrica de têxteis de Santo Andr é, que já fechou. Eles tinham lá umas
casas de banho, tipo ‘caçador’, onde as mul heres tinham de aninhar e depois punham
aqueles desinfectantes, amoníacos, e as pess oas iam fazer xi-xi e vinham aqueles ácidos
cá para cima e queimavam. Como as pessoas podiam demorar muito tempo nas casas de
banho, eles cortaram um pedaço às portas das casas de banho, para ver quem estava lá
dentro. Então, a gente esteve a analisar e achou aquilo uma falt a de dignidade.
E nós começamos, na JOC, a fazer acção [sobre isto]. Íamos falar com as jovens e depois
íamos falar com os chefes das empresas, com aquilo tudo.
E então, «o que é que a gente pode fazer?!» Resolv emos fazer um encontro no Colégio, e
fomos convidar os chefes das fábricas todas par a irem lá. E eles f oram. E a gente dirigiu as
coisas, levantou os problemas e então houve um compromisso de alterar as coisas. Nós
nem percebíamos o que era exploração, não percebíamos o que era política. Nós
funcionávamos muito nas qu es tões humanas e da dignidade. Era nas questões da
dignidade, o ‘ver, julgar e agir’ era isso mesmo.
E o interessante é que a gente tinha tanta convi cção! A gente partia se mpre do princípio
que, se Deus criou a terra, criou para to dos e, portanto, não houve uma noite em que
choveram notas e os que estavam acordados apanharam-nas todas. Se isto acontece, é
porque alguém continua a apr opriar-se daquilo que é par a t odos e nós tínhamos a
consciência de que se apropriaram, ao longo do tempo, das terras e agora apropriaram-se
do trabalho das pessoas.
• A dificuldade de consciencializar as pessoas
Foi uma luta difícil. Nós reuníam o-nos às seis e meia da manhã, para depois irmos par a a
fábrica. Das seis e meia às sete e meia para depois irmos para a fábrica às sete e meia.
Um dia por semana, e aos domin gos de tarde, também nos volt ávamos a reunir. Dentro do
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método que a gente aprendeu na JOC, que era “ver, julgar e agi r”. E cada uma ficava com
responsabilidades de parte da acção a fazer e de pois prestávamos contas umas às out ras,
que é aquilo que hoje não se faz e que se devia fa zer, no meu entender. E, portanto, aquilo
era um ciclo de responsabilização.
Quando há uma situação, pergunt a-se «o que é que vamos fazer?» E tínhamos que fazer
alguma coisa. Lembro-me que nó s, a uma determinada altura, fomos ao Colégio pedir se
nos emprestavam uma sala, que íamos convocar os encarregados e os chefes de todas as
fábricas, porque havia coisas muito injustas e a gente queria discutir com eles. E as freiras
perguntaram:
— Eles vêm?
— Pois claro que vêm! — Nós partimos do pr incípio que eles iriam. Nós éramos uma
organização importante, a JOC, de maneira que fizemos uns convites sobre as condições
de higiene das fábricas e tal, e fomos às fábricas distribuir aos escr itórios. E é verdade que
a gente conseguiu reunir à vo lta de duzentos chefes.
Nós, jovens de vinte anos, ali assim: eles eram a plateia e nós éramos a mesa.
Fizemos um relatório, dissemos várias coisas : «nós falámos com as trabalhadoras e elas
queixam-se desta situação das casas de banho. Há uma outra situação das miúdas
estarem sempre a varrer e isso dificulta o seu crescimento, não podem estar sempre a
varrer, é mau para a coluna e para o futuro . Depois, nós estamos contra que uma pessoa
vá trabalhar e ainda tenha de ir levar presentes ao chefe, dar sa lpicões ao chefe, bacalhau,
ovos. As pessoas matam o porco, comem a carne gorda, porque os presuntos e os
chouriços são para levarem par a quem lhes arranja trabalho.»
E foi assim. Começamos pelas denúncias e passamos às questões da dignidade. Que era
indigno que isto acontecesse e o que é que el es podiam fazer, ta mbém tinham filhos,
nenhum dos filhos deles ia trabal har para as confecções, eles estavam a procurar que ele s
continuassem a estudar.
A gente dizia: «aos onze anos, ainda é idad e de brincar e vocês têm que lhes dar
trabalhos leves». Ainda não se falava em trabal hos leves, mas viramo-nos para eles e
dissemos: «têm de lhes dar trabalhos le ves, o que é que v ocês podem fazer e que
compromisso é que podem assumir?»
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Depois começamos a discutir com os lá da z ona. Eles não alinhavam, foram alinhando; não
tinham respostas para as nossas questões. E os homens comprometeram-se a arranjar as
casas de banho, a ver o trabalho que as raparigas faziam de segunda a sábado.
• "É preciso que os pobres existam para que os ricos se realizem"
Nesse tempo, as esposas dos industriais t inham as suas actividades: no Verão, faziam as
colónias de férias para os meninos filhos dos operários e levavam-nos para a praia e assim.
Geralmente, como as famílias er am grandes, levavam [só] um ou dois filhos de cada casal.
As pessoas, na altura, nem pensavam ir para a praia nem nada, aquilo era uma coisa que
ficava longe do horizonte. As crianças, na escola, quando iam dar um passeio à praia, de
Santo André à praia, era a cois a melhor que podiam fazer, el es podiam ver o mar e ficavam
extasiados, porque ainda hoje há crianças em Santo André que nunca viram o mar! E no
interior também.
Essas senhoras disseram-nos «Olhem, a gente vai fazer estas colónias de férias, é muito
bom para os meninos». Chamavam-se “noelista s” e era assim um grupo das meninas da
finesse que iam para lá tomar conta dos meninos nas colónias.
Os meninos iam lá e as pessoas diziam: «ai que boas, ai q ue boas que elas são». Bem,
nós reflectíamos isto em equipa. E um dia fomo s convidadas para ir à colónia de férias, e lá
fomos. Estivemos, observamo s e elas diziam assim:
— Têm alguma coisa que dizer? Não está tudo limpinho? Olhem , nós dormimos aqui, os
meninos ali. Vêem? Aprenderam a comer de fa ca e garfo… — era o mais essencial!? —
aprenderam a tomar leitinho, pão com manteiga… Nunca tinham comido manteiga, alguns
até vomitaram… — claro que não estavam habituados; ficam habituadinhos a t omar
banhinho todos os dias… — o que era um suplíc io para quem estava habituado que tomar
banho era lavar os pés, porque naquela altura ninguém tinha casas de banho.
Havia lá um livro onde as pessoas tinham que escrever o que é que achara m da colónia e
a gente começou logo a ver: «pois é, eles vão restituir um bocad inho daquilo que roubaram
todo o ano e ainda passam por muito bons. E os pais ai nda passam por desgraçadinhos
porque os seus meninos, para irem um bocadinho à praia, tiveram de ir com a D. Maria e
mais a Dona não sei o quê».
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E elas, pronto, foram-nos most rando aquilo tudo, e os meninos a comer, etc., e quiseram
que a gente escrevesse. Então a gente escreveu uma coisa tão simples c omo isto: ”Visita
da JOC à colónia de férias de tantos de tal: é preciso que os pobres existam para que os
ricos se realizem”.
E elas choraram porque estavam convencidas que estavam a fazer bem. Uma delas até
era muito minha amiga e eu disse-lhe:
- Lininha, tenha paciência, mas nós vivemos em dois mundos dif erentes. Isto não é para a
afrontar a si, é para afrontar as situações, não é para a afrontar a si porque você é que
deixou o seu quartinho muito a rranjadinho para vir dormir num corredor num divã. Não é
para a afrontar a si, é para as pessoas perceberem, para os pais não terem vergonha, que
os pais não tenham vergonha, e não venham depoi s muito agradecidos por isto [a colónia
de férias] ter acontecido. Portanto, isto não é para a afrontar a si, é para afrontar o facto: o
agradecimento. Os sapatos, as sandálias, é t udo feito na fábrica e eles deviam pagar o
suficiente para que os pais pudessem ser eles a levar os filhos todos à praia.
Chamávamos e organizávamos as pessoas, fazí amos reuniões regulares. Havia domin gos
que a gente atingia trezentas, quatrocentas jo vens. Dividia por equipas, por lugares, em
casa dumas, em casa de outras, e fazíamos reuniões com as pessoas para as despertar.
Era sempre assim: as pessoas diziam «ai não isto não dá para viver», e nós
perguntávamos «o que é que você s produzem?, quanto é que ist o dá?, quanto dinheir o é
que este ganha?, como é que eles enriquece m?» Aquilo que a gente queria era que a
riqueza fosse distribuída por todos. Partíamo s do religioso, que era Deus quem criou o
mundo para todos, e como tal tudo tinha que ser distribuído e o [facto de] haver uns muitos
pobres e outros muitos ricos era realment e a apropriação do trabalho de muitos para
benefício de poucos.
• A campanha da garrafa de vinho
A gente foi com as pessoas tomando consciência disto tudo e organizando estratégias de
defesa e de luta.
Por exemplo, na fábrica do Arco, em Santo André, os homens que trabalhavam de noite
levavam umas garrafinhas de vinho, pequeninas , levavam as sandes para comer de noite:
boroa e azeitonas, e um bocado de bacalhau ou umas castanhas cozidas, o que tinham. E
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levavam umas garrafas pequeninas com vinho, que era o que as pessoas tinham. Havia, ali
perto, um reguinho de água, el es iam à noite, punham-nas no reguinho de água para
refrescar. Eles lá vieram: pr imeiro tiraram as garrafas todas e as pessoas ficaram sem
beber, e depois deram a ordem: «a parti r de amanhã não há garrafas aqui!»
Então fomos lá à porta e conseguimos que à volta de mil trabalhadore s mesmo os que não
costumavam levar garrafas, no dia seguinte levassem, porque o homem que as havia de
apanhar havia de andar a noite inteira a apanhar garrafas.
Não era nenhuma vantagem os homens terem vi nho ali, mas era o que eles tinham.
Depois, as pessoas deixaram de levar o vinho, levavam a cervejita. E a gente também ia
dizendo. Entre vinho e a cervej a, leite ainda é melhor e tal, mas isto não passava pela
ruptura de dizer «agora não bebes nada». Dize r-lhes o que era melhor para a saúde. Então
a gente fez a campanha da garrafa, porque eles nã o têm direito de tirar, e aqueles que não
levavam passaram a levar. Quer dizer, num di a, em vez de terem lá cem garrafas, iam ter
para aí quinhentas.
Eles sempre arranjaram obras nas igrejas, e is to e aquilo, com dinheiro dos industriais da
terra. Aliás, a gente vai ver os campos de futebol des de S. Martinho do Campo a Santo
André, até chegar aqui a Aveiro, desta z ona toda, e Guimarães, todos esses campos…
Tudo isto foi criado com a riqueza do trabalho dos trabalhadores mas o nome é deles.
4.3. A mudança da costura para a fábrica
Entretanto, decidi que, em ve z de trabalhar no atelier de costura, onde andava a trabalhar
aos dias nas casas de três senhoras, iria trabal har para a fábrica. Até ali, trabalhava em
casa e andava aos dias pelas senhoras. Por opção, pedi para ir para a fábrica. A minha
mãe chorou, porque queria que nós tivéssemo s um emprego limpinho. Ela achava que, não
podendo estudar, ser costureira era uma coisa mais limpinha do que ir para a fábrica. Ora,
eu fui para a fábrica com vinte e quatro anos, ma s fui para lá exactamente por opção, para
fazer acção, aquilo nós chamávamos a nossa acção social, era até onde a gente via.
Quando eu disse que queria estudar à noite a minha esteve de acordo, mais o meu pai,
mas quando eu disse que queria ir para a fábrica a minha mãe disse:
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— Ò filha, mas aquilo é tão dur o, das senhoras, és das que estás melhor, comes melhor e
tudo. — Mas eu quis ir.
Nas senhoras, almoçava, lanchava, jantav a, depois é que me vinha embora. E ganhava
mais, às vezes ganhava mais.
Quando cheguei à fábrica, já estava na JOC, estudava de noite e tinha o meu trabalho na
fábrica. Fui para a fábrica e ali conheci ou tro mundo, que era a nossa gente a viver na
altura…
• O caso das camisas roubadas
Quando eu chegava àquela fábrica era sempre para rir.
Na fábrica, a primeir a acç ão onde eu estive mais envolvi da foi num caso de cam isas
roubadas. As mulheres que ganhavam muito pouc o e roubaram camisa s para oferecerem
de prenda de anos aos noivos ou aos pais. O pr eço duma camisa, que elas faziam num
instante, era igual ao salário de um mês: elas não tinham poder de compra. Ganhavam
sete e quinhentos e as camisas cust avam trezentos e cinquenta escudos.
Que é que eu comecei a fazer? Começava no corte: a gente via o númer o que havia, era
consoante o número de estendim entos que a gente faz. Chega-se ao fim, aquilo tem que
dar certo com as encomendas que eles fazem. Portanto, sempre que podia, metia mais uns
poucos de panos: já sabia que iam sair camisas a mais e já sabia que elas que levavam.
Mas eu dizia assim: «ganhar sete e quinhentos!…»
A gente começou ali a criar um ambiente, não era de permissão, mas era eu que cortava e
não ‘via’, eu só via de vez em quando que lá vinha uma pedir uma caixa, a uma colega,
outra tinha pedido daquele cartão, de alfinet es, umas molinhas, e depois elas em casa
acabavam de fazer as camisas. Bom, já em balavam aquilo, que hav ia camisas que iam
para o tanque para ser lavadas, que saíam um bocadinho sujas, elas penduravam-nas,
metiam-nas num saco e depois pediam uma caixa.
Estava eu num congresso da JOC, na Figueira da Foz, telefona-me o meu patrão a dizer:
— Venha embora já, porque eu vou despedir muit a gente, porque eles estão a roubar. —
Bem, venho eu corrida por lá adiante, er a um choro naquela fábrica por que eles tinham
descoberto que uma estava a vender, ao domingo, e vendia aos vizinhos mais barato.
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E elas diziam: «só ela nos pode salvar». C heguei lá, meti-me à fr ente daquilo tudo. O
patrão já estava lá com a polícia. E eu disse:
— A polícia só vai para o pé das trabalhadoras se eu for com elas!
Ele tinha um respeito muito gr ande por mim. E eu dizia-lhes:
— Vocês dizem sempre que não, que não. E depois dizem: «pergunt em à D. Ermelinda,
perguntem à D. Ermelinda». Vocês dizem se mpre: «eu nunca levei nada, podia às vezes
pôr um colarinho novo numa camisa, mas pedia à D. Ermelinda, eu podia pôr uns punhos
novos, mas pedia à D. Ermelinda».
E os guardas que estavam à beira da ‘D. Ermelinda’ dissera m ao meu patrão:
— Olhe, das duas uma, ou a maior ladra é el a, ou… Portanto, o melhor é mandar as
pessoas todas embora porque a gente quer investigá-la.
O meu patrão cai, deita as mãos à cabeça e diz:
— Investigá-la a ela? — e foram-se embora e diz-me ele assim: — E agora Maria
Ermelinda? Eu sei que elas venderam, e sei que elas levaram.
— Vamos cá combinar pelo mel hor. Quer castigá-las? Castigue-as. Então, vamos fazer o
seguinte: a gente vai dizer que elas vão pedir as camisas ve lhas e que as vão entregar na
fábrica.
— Muito bem! É isso! Elas trazem as camisas e entregam-nas aqui.
Nas reuniões na casa da minha irmã, à noite, elas com as lágrimas nos olhos e dizia o meu
cunhado: «sai disso». Porque o meu patrão até tinha dito [ ao meu cunhado] que me dava
uma lambreta no fim do ano, porque era das co isas que as jovens queriam e os pais não
podiam dar e ele dizia: «no fim do ano, vou-l he dar uma lambreta». E dizia ao meu pai, e
aos meus cunhados que eu era mel hor que a assistente social
Mas eu disse para elas no dia se guinte levarem as camisas, aquilo dava entrada logo pelo
armazém, elas embalavam e depois comprava m imediatamente “em segundas”, a vinte e
cinco tostões cada. Havia lá o sistema de comprar “em segundas”, para depois ir pagando
a crédito tirando do salário.
A senhora que andava todo dia a lim par e a pôr cera, a esfregar e a pôr cera, começava
numa ponta e acabava noutra que era para tira r as manchas, era daquelas que também
tinha levado. Antes do patrão chegar, e eu disse-lhe:
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um artista: o meu pai era canteiro, trabalhav a a pedra. A Câmara de Beja e a Igreja do
Santo Condestável foram feitas por ele. Tinha muita habilidade.
Nunca sustentou a casa, porque gastava o dinheir o todo, era um bocado incontrolado. As
minhas irmãs, eventualmente, terão recordaç ões de algumas partes mais negativas. Não
era agradável ter um pai que ch egava a casa com os copos.
A minha mãe era muito cuidadosa. Fazíamos sempre as festas de anos. Por exemplo,
quando o meu pai fazia anos, a gente fazia a festa, mas ele es tava sempre no quarto com
os copos e nós a comemorar sozinhos porque parece que ele decidia sempre estragar o
esforço. Era mesmo uma pessoa muito fechada, embora tivesse muitos amigos, até fosse
muito “social”, mas isso não queria dizer que tivesse uma vida… parece que contrariava
tudo. Quando eu era miúda, lembro-me de as minhas irmãs começarem a namorar, e
depois há aquela altura dos namorico s irem lá a casa. Arranjavam um pretexto como, por
exemplo, ir aos meus anos. Eram os anos da “menina”, eles sabiam, e iam também para
estarem com as minhas irmãs. Então a minha mãe preparava o m eu pai: «cuidado, que
vêm os rapazes» e o meu pai: “claro, claro, cl aro”. Mas depois, no dia, lá estava ele, no
quarto, aos gritos. Lembro-me perfeitamente de as minha irmãs porem a música muito alto
e falarem muito alto, para eles não ouvirem… coitadas das minhas irmãs!
Como já o apanhei velhote e desgastado, já ac hava piada a tudo. Mas, eventualmente, a
minha mãe não achava, como é óbvio. Eu at é gostava dele, não tenho más recordações,
mas não era uma figura presente. Ele conheceu quase todos os netos menos a minha filha:
quando o meu pai morreu tinha eu dezassete anos, dias antes tinha nascido o último dos
meus sobrinhos.
A minha avó acabou também [por vir a] se r um grande apoio para a minha mãe, porque era
muito difícil, com sete filhos. A minha mãe se mpre governou a casa, sempre decidiu tudo,
sempre orientou tudo. Não me lembro do meu pai perguntar nada, se faltava alguma coisa,
ou «se vais para a escola», ou outra coisa. Part ia do princípio que isso estava tudo tratado.
A minha mãe é que marcou sempre ali o ritmo. A minha avó era mais a figura consensual
da família. Não trabalhava muito, não era um a pessoa muito habituada a trabalhar, era
mais para a conversa, para fazer sala, para orientar, para dirigi r. A minha mãe sim: fazia a
comida, a roupa dos meus irmãos, tudo. Mas er a assim: o meu pai tinha muito respeito à
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minha avó. Ela só dizia: «Oh, José…», e ele: «Pronto, eu vou-me já deitar». Ele também
não tinha tido mãe.
A minha mãe era um a pessoa também muito fec hada. Nunca se pintou na vida, nunc a vi a
minha mãe vestida de vermelho, nem de amarel o, nem de verde. Era de estar em casa.
Aliás, ainda agora conta que, às vezes, o carteiro notava isso , de repente, deixava de a ver
e perguntava:
— Então, a Carmen?
— A Carmen teve um bébé.
— O quê? Teve um bébé e então a gente nem viu?!
Ficava anos sem sair de casa, à conta de tratar de tudo. Nem a viam grávida. Foi sempre
mais virada para o sacrifício, para tratar das coisas, ter de ser a retaguar da. Teve a ajuda
da minha avó e de uma tia minha, que não tinha filhos.
A minha avó era uma mulher completamente di ferente, muito alegre, a cantar e tudo…
A minha tia era outro tipo de mulher completa mente diferente da minha mãe. Trabalhava,
era enfermeira. Já era uma mu lher de ir aos espectáculos, de ir para a rua, de fazer
compras… Morreu relativamente muito cedo. Foi esta minha tia quem tratou da Catarina
Eufémia no hospital de Beja, porque era lá enfermeira e estava lá quando ela chegou.
O meu pai participou naquela hi stória do homem que vivia nos montes, de que fala a Cerro
Maior , de Manuel da Fonseca. O Alentejo era muito marcado por [aquelas lutas] e as
pessoas estavam sempre, de uma maneira ou de outra, envolvidas.
Sou a sétima filha, com uma grande diferenç a de idades dos meus irmãos. Somos cinco
mulheres e dois rapazes. Como sou a sétima, e assim fora de tempo, à partida, não fui
desejada: a minha mãe tinha quarenta e dois anos, já tinha seis filhos adultos. Quando eu
tinha doze anos, a minha irmã mais nov a estava a ser mãe. Nunca vivi aquele convívio com
os irmãos que funcionaram para mi m sempre num determinado registo.
Tenho um irmão mais velho que em igrou para o Canadá, em Julho e eu nas ço em Agosto.
Antes, ele já tinha ido trabal har para Lisboa, mas emigrou para conseguir um a vida melhor,
como é óbvio, para arranjar dinheiro para a família. Não vai, propriamente, por motivos
políticos, não me apercebi, não teve que fugir. Aliás, ele ajudou e muito, mandava muito
dinheiro para cá, e mandava para mim. Eu não tinha ideia nenhuma dele. Veio cá pela
primeira vez tinha eu sete anos, e retorno a vê-lo exactamente quando o meu pai morre, e
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é a primeira vez que me apercebo dele assim co mo irmão. Agora, vamo-nos encontrando
esporadicamente, ou em Paris ou cá. Vem várias vezes a Portugal, duas ou três vezes por
ano, para ver a minha mãe, já está noutra fase da vida. É uma pessoa muito distante, mais
canadiano do que português, tem mais anos lá do que cá e tem uma família toda lá.
Também me separei dos outros irmãos, de al guns que foram para o estrangeiro, um para a
Alemanha e as minhas outras duas irmãs para Pa ris. Ainda guardo as cartas que escrevi
ao meu irmão a contar história s. Os meus irmãos, sobretudo a minha irmã Nelita, mas os
três de alguma maneira, envolveram-se com o Partido Com unista, portanto, com a
oposição. A minha irmã é mesmo militante e teve mesmo que fugir, a polícia foi lá a casa…
8.2. Oposição ao fascismo
A minha mãe sabia, de alguma maneira, que o m eu pai participava nos grupos da oposição
mas não era militante. O meu tio mais velho tam bém participava, no in ício, e até ajud ou a
organizar o Socorro Vermelho Internacional. Os meus irmãos é que vieram a ser mesmo
militantes do Partido Comunista. Estavam muito envolvidos.
Na Cova da Piedade, que era um centro da oposição e da resistência, havia a escola de
um clube chamado Clube Desportivo, só uma c apa. Era um modo de intervir: davam aulas
aos marinheiros, e a minha irmã dava aulas de Inglês. A maior parte das pessoas que lá
trabalhava era militante do Partido Comunista.
Havia a Cooperativa e era a Nelit a quem estava à f rente. Havia uma intensa actividade
cultural, muitas sessões culturais, ia lá o Ferreira de Castro, a Mati lde Rosa Araújo, …
Eu tinha nessa altura 5, 6 anos, ia lá muitas vezes, a vida que eu fazia era muito deste tipo.
A Matilde Rosa Araújo ofereceu-me O Livro de Tila , com uma dedicatória.
A minha irmã era muito animadora destas co isas. Quando as minhas irmãs começaram a
namorar, a minha mãe obrigava-me a ir com elas, porque não podiam ir sozinhas, e eu ia
sempre, de [pau de cabeleira]. Tenho “estágio” dos namorados todos, dos meus cunhados,
tenho recordações das “secas” que eu apanhava.
255
A grande investida da PIDE: a fuga da irmã para Paris
Depois há uma grande investida da PIDE, [da polícia do regime], em que são presos alguns
militantes do PC. Aquilo foi uma razia co mpleta, prenderam muita gente e é aí que a minha
irmã tem que fugir. Lembro-me exactamente do dia em que a minha irmã fugiu. Não porque
eu tenha sabido, que ninguém contava nada… A minha mãe aqui funcionava como:
«quanto menos souber, melhor». Eu andav a a brincar na rua e lembro-me de a minha mãe
ter-me dito que ia à cabeleireira, de eu entrar em casa e de lhe dizer:
— Oh, mãe, não vai à cabeleireira? — e de ela estar numa cadeira, na cozinha.
— Não, eu hoje não vou a l ado nenhum. — Na altura pensei que a minha mãe estava
chateada com qualquer coisa. Nesse di a a minha irmã acabava de ir embora.
Contaram-me [depois]: bateram à porta, e a minha mãe revelou-se corajosa e disse:
— Eu não sei da minha filha, ne m quero saber, ela fugiu-me de casa. Não quero saber, a
minha filha há muito tempo que saiu de casa. — Lá aprontou a manta.
A minha irmã fugiu com a roupa que tinha no corpo! Foi de re pente, foi sem nada. Saiu com
outros e eram dois grupos: um saiu pelo Norte e o outro pelo Sul; o que s aiu pelo Norte foi
apanhado e o que foi pelo Sul safou-se. A minha irmã foi pelo Sul, pelo Alentejo. Saíram
pelo monte e passaram uma noite numa casa: pediram [guarida], tanto no Sul como no
Norte. Só que a pessoa do No rte chamou a polícia e a do Su l não chamou. A minha irmã
conta que a senhora levou uma ca feteira grande com café para eles tomarem. Tomaram o
café e foram-se embora. Passara m pela Espanha, tudo, sem nada…!
O pai da minha grande amiga de infância, a Anabela, t ambém era do Partido [Comunista],
e foi preso. Não quis f ugir, sentou-se na sa la à espera que a polícia o fosse buscar… Cada
um tinha a sua forma de acção, a sua resistência. Ninguém falava das coisas connosco,
ninguém nos explicava nada, ouvíamos aqui e ali, mas a gente sabia que ele estava preso.
O pai dela só saiu com o 25 de Abril. Em 1973, apareceu a CDE, que abriu uma sede na
nossa rua. E então, ia com ela lá dentro espreitar : Tínhamos doze anos, éramos já
[crescidinhas], mas espionavámos aquilo tudo, vasculhávamos tudo… Claro, não sabí amos
o que era era fascismo, [mas] sabíamos algumas coisas, porque eram as actividades e os
livros que costumávamos ler, pr onto, aquela coisada toda. Isso conta muito. Na escola,
andámos até ao Liceu, fomos sempre muit o unidas. Depois nunca mais soube nada dela.
256
A minha irmã foi par a Paris, em 1967, devia fazer um ano que estava em Paris, dá-se o
Maio de 68! Viveu todo o Maio de 68 em França. Depois, pronto, ficou lá. Lembro-me de
ver as outras minhas irmãs a esconderem os livros dentro do sofá, tudo aquilo que era
suspeito e a tirarem muita coisa de ca sa. Claro que a mim nunca me disseram nada.
A seguir foi a outra minha irmã, porque o meu c unhado fugiu à tropa. Foi lá ter com ele,
casou lá, e começaram a viver lá. E eu come cei, de alguma maneira, a perceber que elas
não podiam cá vir.
Claro que a minha irmã corta co m o PCP em Paris, portanto, vai mais à esquerda. Isso, de
alguma maneira, marcou-me também.
A força da mãe espantou … enfrentando o fascismo
A minha irmã foge em Junho e a minha mãe vai l ogo para Paris passar esse Natal com ela.
A minha mãe espantou, nalguma medida, porque era uma mu lher que nunca ia a lado
nenhum, anos e anos sem sair de casa, e quando os filhos saem de casa, a minha mãe
corre meio mundo, sozinha! Vai sozinha para Paris de comboi o, que era pr eciso passar a
noite no comboio e aquela coisa toda. Não fala va francês, nem nada! Esses embates, o
meu pai não aguentava.
Tem muitas dificuldades para sair, teve que pedir autorização à PIDE, e a minha mãe
desenrascou isso tudo. Ela tinha uma boa de sculpa, porque ia nascer o meu primeiro
sobrinho, filho do meu irmão que está no Canadá. Ela não diz que vai para Paris, diz que
vai para a Alemanha assi stir ao nascimento do neto. Nesse Natal, leva-lhes muita coisa:
bacalhau, e rissóis, roupa…
Na segunda vez fui eu e a minha mãe. Nessa altura tinha eu oito anos, estava na 2ª classe.
Era o Dia da Mãe, vamos de comboio e lemb ro-me muito bem de entrar, de verem os
documentos, tudo passado a pente fino, e de a minha mãe ter um grande à vontade
perante isso.
Fomos e estivemos lá bastante tempo. Tenho perfeitas recordações da casa, de tudo… Fui
ver o “Oliver Twist”, em Pa ris, em francês, eu sentada e a minha irmã a segredar-me a
tradução. [Levaram-me] a ver os museus, já não me lembro do que vi, andava por tudo
quanto era Paris. Nessa altura, fui duas vezes com a minha mãe a Paris.
257
Elas escreviam, iam mantendo aquela ligação: «a mana está aq ui, está a fazer uma coisa
muito importante», entret anto, iam alimentando aquela relação. Eu escrevia as cartas todas
em francês e ela mandavam-mas corrigidas.
Os brinquedos da clandestinidade
Quando começou a Primavera Marcelis ta, aquel a [fase] mais aberta, a minha irmã
Ernestina começou a vir a Portugal, que é a Er nestina. Vinha, geralmente, com o meu
irmão, que estava na Alemanha. Vinha se mpre cheios de presentes, de brinquedos!
Quando via aqueles brinquedos t odos, eu pensava: «que maravil ha!» No dia seguinte não
estava lá brinquedo nenhum em casa e eu ficava com um desgosto enorme, porque
pensava que os brinquedos eram para mim. Eles escreviam uns documentos [políticos] que
traziam dentro dos brinquedos. Por isso é que os brinquedos desap areciam logo e eu
sempre pensei: «Mas que raios, mas a quem é que eles dão, senão a mim?!»
Havia na minha família um pouco aquele tabu: «não se conta tudo, e muito menos à mais
nova, porque isso até pode tornar-se perigoso». Mas de uma maneira ou de outra eu chego
à política. Na minha família, toda a gente é de es querda. O nosso núcleo familiar é muito
grande, a família próxima é muit a gente e todos sentimos esta ligação. Tudo de esquerda,
mas nem toda a gente é do mesmo.
Os meus irmãos influenciaram-me muito, mas nunca me disseram: «Vai para ali, vai para
acolá». Eu nunca fui para o PC P, de facto, sempre tive uma noção que a esquerda era
outra coisa. De França ou da Alemanha m andavam-me coisas: [por exemplo] um fato à
Bonnie and Clyde , com a boina; interferem nos livros, nos brinquedos. Quem determina a
minha educação não é a minha m ãe nem o meu pai, são os meus irmãos. Aí eu tenho
muita vantagem, em muita cois a, até no vestir, que as i rmãs é que determinam a minha
roupa… São mais vanguardistas, digamos assim.
Deram-me tanta liberdade para ler: lembro-me de ter-me fechado em casa e só [saí]
quando acabei o 3º volume do Jorge Amado sobre a história do Partido Comunist a do
Brasil. São três volumes que marcam. Para já, um romance lindissimo, claro, mas que nos
pinta uma visão completamente idílica da pol ítica, do Partido Comunista. Aquilo é um
Partido onde nunca há problema s, onde toda a gent e é boa, onde não há luta de ideias,
258
não há interesses diferentes. De facto, eu hoje não aconselharia ninguém a ler um livro
daqueles, porque a seguir a de cepção é enorme e não nos prepara, não nos arma para
coisa absolutamente nenhuma.
O meu irmão regressa ainda antes do 25 de Ab ril, as minhas irmãs regressam exactamente
a seguir ao 25 de Abril. A minha irmã vem vive r para nossa casa, embora já fosse casada,
porque não tem casa, não tem nada.
Depois do 25 de Abril, ia com os meus irmãos aos primeiros concertos de canto livre, por
exemplo, o José Mário Branco era amigo deles. E assim que, quase sem dar por isso, uma
pessoa vai-se ligando, vai vendo…
8.3. Tempos de estudante
Nunca andei na catequese nem na “mocidade”
A escola primária era a e scola pública, ninguém era rico , acho que era tudo mais ou
menos… Lembro-me de haver jovens que tinham mais dificuldades que nós, mas era uma
coisa que nos escapava. Talvez nos cader nos, algum que não tinha caneta, ou as c ores,
depois nas canetas de feltro, mas os professo res não faziam diferença. Também não nos
deixavam muito evidenciar…
Tive duas professoras na primária: a primeira foi a D. Guilhermina, era a directora da
escola, portanto, tinha muito que fazer, mas era uma mulher muito gira, muito justa, não
nos batia, não precisava… Já não se reformou nova, tinha muita prática daquilo e… demo-
nos muito bem. A outra professora veio no fim da quarta classe, e puxou muito mais por
nós, porque a D. Guilhermina era muito boa, muito compreensiva, mas tinha sempre muito
que fazer, e estava sempre tudo muito bem.
Eu e a Anabela, a minha amiga, nunca andámos na catequese nem na Mocidade
Portuguesa: fomos a excepção. Mas nunca fomo s marginalizadas por causa disso. Nem a
nossa professora de Moral nos penalizou. Aliá s, acho que éramos um bocado invejadas,
até.
259
Não sei nada de religião, nunca assisti a um a Missa. A minha mãe é religiosa, sempre
rezou, mas nunca em público. Só fui baptizada com sei anos e um bocado à revelia, porque
os meus irmãos não queriam. Não queriam que eu fosse para a Religião. A mãe aceita isto
durante um tempo, mas depois usa a minha irmã mais velha, que no fundo é a minha mãe,
e, com a minha tia, vão comigo à Igreja e baptizam-me. Lembro-me do padre me perguntar
qualquer coisa do catecismo:
— O que é que tu sabes dizer da vida de Jesus?
— Não sei nada. — respondi e ele deu-me um livrinho de catequese para eu aprender,
que ainda tenho na mala.
A minha avó, claro, acreditava em deus e contou-me a vida de Jesus. Na escola prim ária,
claro, estava lá o crucifixo, fazia-se o pr esépio, mas não foi uma coisa que nos marcou.
Os/as professores/as que marcaram
Do ciclo preparatório, tenho a recordação sobretudo das profes soras. Por exemplo, a de
Religião e Moral que, de facto, era uma mulher muito interessante: foi a primeira que nos
falou de sexo, de virgindade e disso tudo, de uma maneira m u ito séria. Numa aula, ela
estava a falar da virgindade e uma pessoa da turma pergunta assim:
— Ó professora, como é que nós sabemos que uma pessoa é virgem?
— Esse teu colega tem o braço partido. Se es tamos às escuras, como é que sabes que ele
tem o braço partido? — Foi a resposta dela.
Eram umas aulas muito divertidas. Essa pr ofessora marcou-me, ainda estou até a ver a
cara dela. Era mulher de um médico…
Lembro-me de outro, o Rui Mingas, que hoje é embai xador de Angola; era cantor e escritor,
um resistente, é o pai daquela modelo negr a: er a um homem do MPLA, um intelectual e era
o nosso professor de ginástica: para além da giná stica, tocava violão e a gente, atrás do
pavilhão, cantava aquelas músicas todas de Angola. O ciclo preparatório não era misto, só
nos encontrávamos no recreio: raparigas de um lado, rapa zes do outro, raparigas com
batas cor de rosa, rapazes com batas [azuis¿]. Na Educação Física era tudo à parte, mas
ele incentivava-nos muito, fazíamos ginástica e até gostávamos de jogar andebol, tínhamos
260
uma equipa e participávamos em campeonatos . Alcácer também tem muita tradição do
andebol.
Quando vamos para o liceu, a coisa torna-se mais dispersa. Os meus principais anos de
liceu são os anos do pós 25 de Abril. Tudo pr ofessores porreiros, uns melhores, outros
piores, mas tive um professor que foi um horro r, era muito autoritá rio, era da PIDE. Era
professor da disciplina de Desenho e Trabalhos Manuais. Sempre fui muito má a Desenho,
Trabalhos Manuais ainda era como o outro; no Desenho Geométrico tinha j eito, fazia aquilo
tudo muito direitinho, só que depois era pr eciso passar a lim po e já era uma questão
psicológica, porque eu chegava a passar o desenho todo, estar com o tiralinhas e, no
final… cair um borrão. Mas co mo eu tinha boas notas às out ras disciplinas, para não me
estragarem a média, por c ausa do “quadro de honra”, por que só tínhamos isenção de
propinas se estivéssemos no quadro de honra, tinha sempre 12!
No ano escolar do 25 de Abril, 1973/74, tive um a professora de Inglês contra quem no s
revoltámos. Só tinha uma preocupação: era que disséssemos muito bem three com a
língua; usava sempre o mesmo penteado, vest ia sempre da mesma maneira, andava
sempre muito direita; não era bem freira, mas… E nunca faltava às aulas! Até que há um
célebre dia, que nós estávamos na sala, dá o segundo toque, ela não aparece, e nós,
tumba, tumba ! O que é que acontece?! Ela chega atra sada, depois do segundo toque, vai
para a aula e dá falta à malt a toda! Aí, nós decidimos revoltar-nos. Na aula seguint e,
alguém tem que falar, lá fui servir de porta-voz:
— Nós queremos aqui contestar a razão pela qua l a professora nos marcou falta. Tudo
bem, que a senhora veio, mas muito atras ada, depois do toque. — E começou uma
discussão ali na sala por causa da dita falt a. Havia aí muito, muito autoritarismo.
Havia também dois professores no liceu que er am dois tiranos: a Alice Cost a e o marido,
que até era vice-reitor, a quem a gente chamava o “Mocas”. A A lice Costa era professora
de Latim, nunca chegou a ser minha professora, felizmente. Tivemos um professor do
MRPP, que era um “espanto”, a Matemática , fazia tudo errado, não percebia nada daquilo.
Depois havia aqueles que falavam mais conno sco: lembro-me muito da Catalina Pes tana,
ela era uma fulana com o mesmo ar que tem hoje, mas de bom relacionamento com as
pessoas. Dava Português. Nessa altura, era tudo muito, muito movi mentado.
261
A minha turma do 5º ano, 1974/75, agora re tomou o cont acto: há uns anos atrás,
encontrámo-nos e até tem uma página na In ternet. Não era assim uma turma muito
revolucionária, mas era engraçada, cada um seguiu o seu caminho, mas temo-nos
encontrado, agora, e telefonamo-nos.
A militância estudantil
Entro no Liceu, em Alcácer. É aí que a gente começa, ainda antes do 25 de Abril. Comecei,
talvez, com os meus treze, doze anos, no movim ento associativo. Fazíamos um jornal, que
ainda tenho lá em casa. Era feito em papel cor de rosa e havia ali coisas arriscadas. Mas a
censura também abranda, [neste período]. Era um jornal de jovens, embora alguns fossem
mais velhos. Nós ainda não entendíamos muit o bem , mas era contra a guerra colonial,
sobretudo. Uma vez tínhamos lá posto uma fr ase sobre a guerra colonial que depois
tivemos que riscar em todos os jornais, todos : fomos nós próprios a riscar, mas aquilo ia
fazer com que o jornal desaparecesse. Organizámos um canto livre, com o José Jorge
Letria. Tínhamos um reitor, que era um gajo porreirinho e ele autorizou-nos a fazer o canto
livre. Começou tudo a cantar, e às duas por três começa um comício contra a guerra
colonial. Ele estava com muito medo, mas não chamou a Polícia, nem nada.
Nessa altura, mesmo ainda antes do 25 de Abril, começa o MAESL, “Movimento
Associativo dos Estudantes do Ensino Se cundário do Liceu”, ao qual nós estávamos
ligados, e aí começámos a distribuir os co municados, aquelas c oisas . Era um movimento
muito conhecido que acabava por agregar muita malta do outro lado do Tejo. Foi aí que
comecei nas questões estudantis, ainda sem per ceber muito bem o que é que se passava.
Para distribuir os comunicados no recreio, a té cnica era: juntar muita malta, e de repente
alguém lançava os comunicados, portant o, nunca se sabia quem tinha lançado,
chamavam-se os “volantes”, porque “voavam” e depois cada um ia par a o seu canto e,
pronto, e ninguém via.
Já havia manifestações em Lisboa, tive co legas meus que f oram presos, os rapazes.
Quando eles voltavam no dia seguint e, via-se se tinham sido de tidos, porque lhes cortavam
o cabelo, não ficavam propriamente pres os, mas estavam sempre à espera.
268
gente muito bem dis posta e isso era o que me at raía mais nele. Os meus sobrinhos
passavam a vida lá na nossa casa, nas noitadas e ele brincava com os putos. A certa
altura, a gente decidiu casar: já tinha vinte e sete anos e os meus sobrinhos já estavam
adultos. Dos vinte e sete aos trinta anos aquilo foi uma vida às mil maravilhas! Estávamos
os dois sozinhos.
Então, decidimos planear uma criança, a Aïda. Mas depois de ela nascer, de facto, a vida
mudou muito, uma criança muda muita coisa. Nós mudamos e a perspectiva das coisas
também muda. Acho que há aqui também o problema da expectativa. Eu tive sempre
expectativas muito altas… Mas, de facto, o Mateus Fortunado n ão mudou absolutamente
nada, além de não ter aceite muito bem um maior protagonismo meu na política. Porque
nessa altura, a Aïda nem sequer tinha feito um ano, eu estou na campanha das
presidenciais, sou a mandatária da Juventude e corro o país t odo. Não que ele tenha fic ado
com a Aïda, porque ela foi para as minhas irmãs.
Separámo-nos. Também não tive tempo para me chatear muito, as coisas começaram a
correr mal: houve alguma propensão da minha parte e um afastamento dele. Aquilo não
durou muito. Claro que houve uma discussão ou out ra, mas, quer dizer, não prolongámos,
nem eu nem ele, não temos aquela coisa: «Vamos tentar salvar o casamento, vamos
mudar, vamos tentar de novo».
No ano em que eu me separei, fi quei a viv er em Lisboa quase um ano. A casa é dele, e até
era a casa onde tinha nascido, mas ele disse que não queria lá fica r. Eu [também] não
queria: não queira ficar em Lisboa, longe da mi nha família, mas ele é que saiu de casa. Foi
o pior período da minha vida! Fi quei só eu e a Aïda, e nesse período, eu não fazia nada.
Vivia sozinha com ela. Ainda por cima, ela era bebé. Levantava-me de manhã, levava-a
para a creche, ia trabalhar, ia buscá-la: não fa zia mais nada. Portanto, eu só ansiava que
chegasse a sexta-feira para me vir embora. Depois regressava no domingo à noite, com as
sopas todas feitas dentro dos taparwares !…Por isso, assim que pude, nem chegou a um
ano, fui viver outra vez para casa da minha mãe. Prefer i voltar para casa da minha mãe, e
estar ali descansada, para ter esses apoios todos.
269
• Mãe descomprometida
Tenho sido militante toda a vida, desde pequenina, por assim dizer. Quando decidi ter a
minha filha e decidi tê-la, planeada, já não foi muito cedo. Quando se decide, a gente
também não sabe bem como é que vai ser a seguir. Sempre tive esta i deia e logo se vai ver
se fiz bem ou se fiz mal. Embor a a minha filha ache que eu s ou uma mãe “galin ha”, sempre
fui muito descomprometida. Podem-me dizer que cada um actua segundo as circunstâncias
que tem. Podem-me dizer: «mas está bem, tinhas as tuas irmãs, tinhas a família…». É
verdade. Se não tivesse, a minha vida seria outra coisa. Mas eu tenho que falar com base
naquilo que a minha vida foi. Sempre, desde o princípio, nunca encarei a questão da
maternidade e da minha vida familiar como uma obrigação a tempo inteiro. Tive a minha
filha em Março e em Agosto estava fora a organizar um acampament o para os jovens e
estive lá o tempo todo. Em Dezembro estava a deixá-la para fazer uma campanha
presidencial. Ela ficou com as tias. Há mã es que não fazem isto! Também não estou a
criticar essas pessoas, mas como estou a falar em relação a mim, semp re pensei assim. Eu
nunca me privei de ir a lado nenhum nem de fa zer nada por causa da minha filha, desde
que a não prejudicasse. Mas isto é em função da minha vida.
Por acaso, agora tenho um companheiro, mari do, que assumiu isso na sua plenitude.
Quando vim viver para aqui, a minha filha tinha cinco anos, eu e o meu companheiro
assumimos que a minha vida ia ser sobretudo em Lisboa, portanto, havia uma série de
coisas que eu não iria fazer! E que eu não iria estar. Sobret udo nos primeiros tempos em
que só tínhamos um carro, eu tinha que ir e vir de comboio. Tínhamos que sair os três de
casa às sete e meia da manhã, e, como eu s ou mais lenta para me levantar, quem tratava
da Aïda era o Gonçalves. Port anto, ele levantava-se, vest ia-a, que ela er a pequenina,
saíamos os três e quando eu voltava, já a Aïda tinha tomado banho, já estava jantada e
pronta para deitar. Ele é que trat ava dela, ele assumiu isso bem , e ela assumiu muito bem,
porque se deu logo bem com el e e eu assumi isso também muito bem. Nunca me fez
confusão isso, nem nunca me senti diminuída por causa disso, nem ciumenta, na relação
com a minha filha. Até costum ava dizer isso ao Gonçalves, que acho que é motivo de
orgulho para ele, que a Aïda, que não é filha de le biológica, a meio da noite, sempre
chamou pelo Gonçalves, nunca chamou pela mãe. Pr onto, a relação assi m o permitiu e
270
acho que para ele é um motivo de orgulho e de realização de ter conseguido essa relação
com ela. Acho que ele não tem ciúmes da minha actividade, nem do meu protagonismo,
que alguns homens têm. Alguns são camar adas, são compreensivos mas têm ciúmes. E eu
acho que isso é uma das coisas que às vezes faz com que a mulher fique para trás. Isso
tem a ver com o poder masculino. Eles têm de ser mais importantes do que elas. Ao meu
companheiro não lhe faz confusão que eu esteja num órgão [de direcção] e ele não es teja.
Pelo menos na prática, não. E t ambém acho que se não fosse assim, ao fim de dez anos,
ele já teria verbalizado. Como também há homens que não gostam de que as mulheres
ganhem mais. O Gonçalves quer lá saber, el e diz: «Eu quero é que tu ganhes muito.
Quanto mais melhor.» Acho que isto tem a ve r com a consciência política e t ambém porque
é uma relação baseada na igual dade. Mes mo com consciência po lítica, às vezes isso não
existe. Se é uma relação baseada na igualdade, em que as pessoas, de facto, são iguais ,
portanto, se há um que está ma is à frente, tanto faz se é a mulher ou o homem. Agora, eu
sinto que há muita mulher que fica para tr ás porque o homem não quer. A nossa cultura é
essa, o homem tem de ter mais protagonismo. É por isso que há mais homens para os
órgãos dirigentes e para os cargos. Não é por acaso. Portanto, nesse aspecto da minha
vida, vai-se gerindo. Claro, também moment os de cansaço. Mas isso é humano. Nesse
aspecto, pelo menos até agora…
• Apoio dos familiares: uma educação enriquecedora
Bom, não vou dizer que, de vez em quando, a gente não sente uma pequ ena culpa. Houve
um período em que trabalhava co m algumas companheiras que se culpabilizavam muito e
não tinham uma vida, nem de perto nem de longe, como a minha: «O meu filho, isto… E
tenho que ir…». E eu interrogava-me… Mas isso a mim serviu-me para dar a volta de outra
maneira. Achei aquilo um perfe ito exagero: já agor a, então porque é que os homens que eu
sempre vi a militar nos parti dos não davam importância nenhuma aos filhos ?… Nunca se
culpabilizaram, porque estavam sempre em nome de algo que era superior, porque er a o
colectivo, era a luta por um ideal, então porque é que eu me hei -de culpabilizar?! O que eu
ando a fazer também é importante. Claro que semp re tentei criar uma boa relação. Tentei
sempre fazer, não sei se fiz se não, mas quando é para estar, estou mesmo. E não est ar
sempre em permanente conflito e sempre a chatear, nem sempre a mandar fazer isto ou
271
aquilo… Não quer dizer que às vezes não se pense: «Ai, devia fazer ist o ou aquilo…».
Também depende das fases da crianç a: porque há fases em que el as querem mais, outras
em que nem nos querem por perto. Portanto, há que t er aqui um equilíbrio. Agora, olhando
para trás, não me culpabilizo, não acho que tenha falhado. Co m o tenho uma família muito
grande e a minha filha sempre foi a benjamim durante algum tempo, havia sempre alguém
que queria ficar com ela, mesmo os primos. Também tenho essa sorte. Assumo que tenho
uma situação privilegiada. Semp re tive muita gente a quem ped ir. E acho que ela ganhou
com cada componente da família em que cada um fez o seu bocadinho. Eu espero é que
ela, no futuro, tire proveito disso; tire provei to de ter tido uma educação tão alargada e tão
diferente. Cada tia trata-a à sua maneira, os pr imos já são todos adultos. Acho que iss o foi
enriquecedor. Também tive essa vantagem.
8.5. E fui para o trabalho com as mulheres…
Houve um determinado período da minha vida em que saí das organizações de juventude.
Porque a gente decidia estas cois as nos partidos, que era preciso investir aqui o u investir
acolá. Às vezes também havia alguma sensibi lidade, também é bom dizer isto: «atenção,
esta pessoa está muito desgastada ali», ou «está muito rotinada no seu trabalho».
Eu sei que na altura fiquei dan adíssima. Achei que aquilo era a pior coisa que me estavam
a fazer, não achei que fosse nada justo, mas… ac eitei. E fui para o trabalho das mulheres.
Mas fui com uma missão muito especial: que er a ajudar, e não era só eu, a construir uma
célula do partido no sector têxtil! Isto, no final dos anos 1970.
Começamos o trabalho a falar com uma aqui, com outra ali, um trabalho muito difícil, muito
complicado. Falávamos à hora de almoço na fábrica, porque à saí da era praticamente
impossível porque iam a correr pa ra casa. Ou até se chegava de manhã cedo… Ou íamos
a casa de uma, depois a casa de outra, mas er a preciso ter cuidados com o marido porque
nem todos os maridos alinhavam nisto…
E tivemos muita dificuldade em conseguir enc ontrar um dia, um local e u ma hora em que
nos pudéssemos juntar todas para formar a tal célula, que era fundamental para isso. Há
um episódio muito giro… Tivemos muitas tent ativas falhadas, até que houve um belo dia
que conseguimos e, então, para as irmos busca r a todas e para as levarmos para casa de
272
uma, vamos de carro, num mini. Foi o único carro que arranjámos para fazer este trabalho.
Estávamos com o mini cheio de mulheres, ía mos para casa de uma, o mini av aria num
descampado!… Chovia por to do o lado. Eu só sei que andei a empurrar aquele malfadado
carro com água até ao joelho e só sei que nem realizámos a reunião porque o mini não
pegou! A nossa frustração, no di a em finalmente tínhamos t odas as mulheres juntas,
estava tudo combinado, e o carro avaria ne sse dia! Quando consegui mos desatolar o mini,
eram horas de as mulheres irem para casa , as que estavam connosco! Portanto, a reunião
ficou inviabiliz ada por causa do mini.
Havia muitas dificuldades em organizar as mu lheres: dificuldades delas próprias e também
devido à visão um bocado fechada que nós tí nhamos da organização, porque, visto com
outros olhos, poderíamos ter encontrado formas mais flexíveis, mais alijeiradas de
organizar.
Estive muito pouco tempo neste trabalho porque, por contingências partidárias, passados
uns meses tive que passar para a juventude. E na juventude, nós não tínhamos muito a
ideia, não trabalhávamos muito as questões de género, nem das mulheres, não estava
interiorizado.
A experiência de trabalho feminista na UMAR 21
As minhas actividades feministas, se assim se pode chamar, iniciaram-se nos anos 1990.
Eu só venho a entrar para a UMAR nessa al tura. Não tenho nada a ver com as origens
nem com a fundação. Tinha tido apenas algumas colaborações esporádicas.
Naquela altura, havia uma folha informativa às operárias têxteis, faziam-se muitos
comunicados, havia muita actividade, ia-se a muitas fábricas. O que eu tenho mais
presente não são os encontros, er am as distribuições às porta s das fábricas têxteis. Uma
delas é aquela que fechou agora há pouco tempo, a Confélis, mu ito falada. Praticamente,
não passava semana nenhuma que não se fosse à porta das fábricas. Falava-se muito com
as mulheres e eu era um boc ado mais trabalho “braçal”.
A UMAR sempre foi muito ligada ao trabalho concreto e à resposta concreta. Sobretudo ao
nível dos bairros, esteve muito ligada às questões da alfabetização, à questão das creches,
21 União de Mulheres Alternati va e Resposta .
273
ao trabalho nos bairros, à organização de grupos de mulheres… Aquele movimento que
também havia muito a seguir ao 25 de Abril, desde alcatroar as ruas, ir aos mercados, fazer
abaixos-assinados… Houve muito essa ligação, essa vertente, por isso, quase que já
estava um pouco na sua génese um certo ti po de trabalho muito ligado ao concreto, de
ligação com as pessoas, neste caso, com as mulheres.
• O corte com a perspectiva das mulheres enquanto “companheiras dos
trabalhadores”
Nesta primeira época, havia aquela ideia, que atravessava toda a esquerda e que eu acho
que o PC ainda hoje tem, que é a das mulheres como “companheiras dos trabalhadores” e
do movimento geral dos trabal hadores, onde estam os todos incluídos, e pronto, toca a
andar. Esta perspectiva de orga nizar as mul heres era, às vezes, utilitarist a, porque era
importante ter uma or ganização das mulheres, mas não só utilitarista, também era
depreciativa, ou seja, as mulheres não tinham nem condições nem capacidades para estar
no partido.
Também havia para a juventude. Mas a idei a não era exactamente a mesma. Porque na
juventude havia sempre maior investimento: “s ão os quadros de amanhã”, “é preciso puxar
por eles”… As mulheres ali estavam, estivera m e estão do “nosso lado”. Em certa medida e
levando até às últimas consequências, estão controladas, é mesmo assim, e dá jeito!
A partir de metade dos anos oitent a, começou-se a fazer o cort e com esta perspectiva. Por
isso, quando volto mais activa ao movimento feminis ta, já depar o, em termos ideológicos,
com esse corte.
E isso significou, em termos da UMAR, várias fases: o nome corresponde um bocado às
fases. O primeiro nome, a célebre “União das Mulheres Antifascistas e Revolucionárias”
teve a ver com a época em q ue surgiu, no pós 25 de Abril: não se imaginava outra coisa
que não fosse antifascista e que não fosse revolucionária! E corresponde também a essa
fase de uma organização-braço de alguma coisa. Depois, as coisas vão evoluindo, não foi
um processo brusco. Acho qu e a grande vantagem que nos per mitiu fazer estes cortes foi
manter sempre uma grande ligação às mulheres c oncretas, nos bairros, nas fábricas e
também aos sectores de mulheres que de al guma forma eram feministas, que iam falando
274
sobre isto. Então, esses dois tipos de contac tos iam trazendo a necessidade da reflexão,
porque não podemos ser só nós, a luta das mulher es é muito mais larga. E, então, mudou-
se o nome. Manteve-se a sigla e mudámos para “Movimento para Emancipação Social das
Mulheres Portuguesas”! Com o tempo, também se foi vendo que não era nada disso. Este
nome, se nós quisermos ir ao fundo: será que é tarefa de uma associaç ão de mulheres
promover a emancipação social das mulheres portuguesas? Ou será que isto não tem a ver
com as emancipações e com a questão de quem emancipa quem?
Uma vez fui confrontada com esta questão, porque fui a um programa do Carlos Pinto
Coelho, na Antena Um. Era um programa da rádio que tinha se mpre vários assuntos. E
apanhou-me completamente desprevenida. Isto já estava eu na UMAR que já não era, na
prática, nenhum ‘movimento pel a emancipação soc ial das mu lheres’. Quando ele me
apresenta, diz:
— Temos connosco Margarida Pimenta, da UMAR — e faz mesmo assim um tom —
“ Movimento pela Emancipação Soci al das Mulheres Portuguesas, mas isto parece-me
1917!” — escusado será dizer que me tramou um bocado, mas não deixou de nos colocar
uma questão: que nome era aquele?! Que é que tinha a ver?!
• “Alternativa e Resposta”: afirmar-se como ONG 22
E nós até já estávamos noutra… E isso fez uma discussão sobre o papel da associação.
Fez-nos mudar novamente de nome. Não foi fá cil porque queríamos manter a sigla que já
era, de facto, muito conheci da. E então lá conseguimos, após um estudo exaustivo dos
dicionários, à procura de palavras que come çassem por aquelas letras, conseguimos a
“União de Mulheres Alternativa e Resposta”. Pode não ser o melhor nome do mundo, mas
parece-nos que é o que condiz melhor com a si tuação actual: é uma união de mulheres,
isso não há dúvida, tem uma preocupação de apresentar uma alternativa, do ponto de vista
político, à situação, e é uma resposta, porque dá respostas concretas às mulheres. É esta
a grande diferença. E isto fez com que a UM AR se situasse de uma vez por todas no
campo das ONG. Não é uma organização que se preocupa simplesmente com tomadas de
posição política, que têm o seu cabimento, mas, para além disso, vai dando respostas no
22 Organização Não Governam ental.
275
terreno com as mulheres. Isto desenvolveu-se com a formação profissional de mulheres,
com os projectos de desenvolvimento local, com as questões da exclusão s ocial e, depois,
com a violência contra as mulh eres, sobretudo. Foi-se abrindo a vários sectores e, hoje,
está muito claro que a UMAR tem um programa mínimo, e que m estiver de acordo com ele
está connosco, mas que é um programa al argado e que atinge vários sectores de
mulheres. E podemos rever sempre o que a gente está a fazer.
Na transição para este tipo de trabalho, a UM AR tinha dois caminhos: ou ficaria como uma
organização política, de cariz político r estrito , tomava posição sobre os direitos das
mulheres, sobre as situações, ou então iria também caminhando mais para a questão das
respostas concretas aos problemas das pessoas.
Ao longo dos anos, as mulheres que têm passado pela UMAR, e já não são tão poucas
como tudo isso, estamos diferentes. Há algum as que o dizem: por exemplo, uma cigana,
que me disse: «nunca mais deixei de me arranj ar!» Outras disseram que só se acharam
com a UMAR. A esmagadora maioria delas foi co m a UMAR que dormiu a primeira vez fora
de casa, algumas com os filhos atrás, mas outras sem maridos e sem filhos, e estavam
felizes! Só entraram em discotecas e só fo ram ao estrangeiro com a UMAR! Algumas só
saíram da Madeira e dos Açores com a UMAR! Vieram ao continente pel a primeira vez — e
isto dizendo assim, dito a seco, não é nada, ma s só vendo as caras delas: «eu nunca tinha
vindo ao continente!» Vieram pa ra participar numa reunião. E algumas fizeram formação
profissional connosco. Nós também temos se mpre a preocupação de juntar o lúdico, o
conhecimento, a cultura, a participaç ão, os direitos políticos, etc.
Uma das coisas que se nota, e nós também fi zemos um estudo da evolução das formandas
naquele projecto, é sobre a aproximação aos f ilhos: o facto de terem voltado “à escola”,
entre aspas, aproximou-as dos filhos e os f ilhos delas, nos trabalhos, no estudo. Algumas
disseram: «eu agora já percebo melhor…». Mas não é dado como adquirido. Muitas vezes,
o trabalho que nós fazemos durant e um mês, na formação, é estragado no fim-de-semana
em casa, completamente! Mas vai-se notando a evolução destas mulheres, a vários níveis.
• A dupla tarefa é um obstáculo à participação de algumas mulheres
Voltando à questão das organizaç ões das mulheres, eu penso q ue, hoje, e reportando-nos
à nossa experiência e não às outras organizações, é mais fá cil organiz ar as mulheres
276
porque a organização não é tão rígida. A UMAR ta mbém já teve o seu tempo em que era
uma organização nacional com concelhos region ais e núcleos. Hoje, não tem nada disso:
as pessoas juntam-se e trabalham, por objecti vos, até alguns pontuais! Não se pode
pensar que uma organização de mulheres é uma cópia das outras organizações e muito
menos dos partidos. Nem podemos pensar que as pessoas estão numa militância a cem
por cento em todas as frentes. Não, é consoante podem. Agora, é preciso sabermos
articular isto, é muito mais difícil trabalhar … E não é controláv el. Essa é uma questão
fundamental! Se nós tivermos uma organização deste tipo, que queremos controlar, mais
vale não ter. Devemos partir do princípio que não queremos controlar! Não queremos
mesmo! Do meu ponto de vista, nem se justifica.
Agora, temos outras questões, por exemplo, as mulheres trabalhadoras. Temos uma ou
outra, mas se queremos ser realistas, a base das mulheres militantes e das mulheres mais
activas não são mulheres trabalhadoras das oito hor as por dia, são prof essoras, etc. Acho
que junto das mulheres trabalhad oras ainda é preciso fazer muito trabalho. O problema da
dupla tarefa continua a ser determinante: quer di zer, de facto, a entrada das mulheres no
mercado de trabalho foi fundamental, não vamos esta r contra isso, muito pelo contrário,
mas trouxe uma dupla tarefa e isso veio prej udicar as mulheres: impediu-as, veio-lhes dar
mais trabalho, objectivamente. A vida [delas] é muito dura. É possível trabalhar com elas,
chamá-las a acções, a questões concreta s, mas é muito difícil organizarem-se.
Os maridos também resistem muito a isto. Nó s também tentamos sempre fazer acções com
os maridos, mas eles resistem muito. Há um ou outro que vem, mas são poucos.
Aqui, os sindicatos poderiam ter um papel mu ito importante, que não têm. Acho que as
questões das mulheres no movimento sindical é uma questão a pegar. As mulheres não
“furam” dentro das estruturas da CGTP, não “furam” nos si ndicatos. Há muita ideia
reaccionária, mesmo entre militantes progressist as! Lá está um grande trabalho a fazer. Os
partidos, e os partidos de esquerda, eu acho que não assumiram nem assimilaram as
questões do patriarcado. Desculpabiliza-se muita coisa, porque não há um afrontamento,
não fomos ainda ao fundo nessa matéria. Po r exemplo, na minha co rrente po lítica, já
fizemos o corte com a concepção, que eu acho que é dogmática, para dizermos esses
termos, que o movimento de mulheres te m de estar no movimento mais geral dos
trabalhadores, senão não tem valor nenhum ! Acho que compreendemos que, para além de
277
todas as contradições na sociedade, há outr a contradição que é ent re homem e mulher,
que existe, independentemente da nossa vontade, como existe entre o trabalho e o capital.
Mas é necessário aprofundar mais, porque aí é que iremos ao patriarcado. A gente sabe
que muitas das análises continuam a não t er se xo. ‘Trabalhadores’! C ontinua-se a ver no
geral. É preciso a gente preocupar-se quais são os reflexos da ofensiva do neoliberalismo
nas trabalhadoras! Serão alguns iguais, mas haverá outros parti culares. Eu ac ho que ainda
é preciso ir um bocadinho mais longe nesta questão.
Agora, em termos das organizações de mul heres em geral, não houve muitos avanços e
em alguns aspectos até houve rec uos. Isso notou-se, é visível.
• Abrir os horizontes às mulheres numa perspectiva de luta
A UMAR tem desenvolvido alg uns projectos de trabalho concreto com mulheres. Isto
começou com um primeiro projecto que, a liás, surgiu por um desafio no Conselho
Consultivo da CIDM 23 , porque já havia esses programas próprios para mulheres e havia
financiamento. Correspondendo a uma necessidad e, que era o facto de ter fechado uma
fábrica no Seixal e de haver muitas mulh eres desempregadas , promoveu-se um curso de
formação profissional, de três anos. Dessa primeira experiência saiu a “Associaç ão de
Artes e Ofícios do Seixal”, um grupo de artesã s que a inda existe até hoje. Portanto, teve
um efeito multiplicador.
A UMAR utilizou esses instrumentos [pr ogramas e financia mentos], não os aplicou
exactamente só por si, mas serviram-lhe para aprofundar outras coisas. Com este tipo de
trabalho, há sempre aquela coisa de abrir os horizontes às mulheres e também uma
perspectiva de luta. Por exemplo, nesse curs o, houve um problema co m as instalações e
correu-se o risco de haver uma ordem de despej o. Na altura, o Pres idente da República era
o Mário Soares que organizava as Presidências Abertas e teve uma Presidência Aberta no
Seixal. E nós mobilizámos as mulheres e mobilizámos-nos a nós e desviámos a
Presidência Aberta! Fomos lá, lá nos me temos… encontrões, encontrões, encontrões…
mas vimo-nos frente-a-frente com o Mário Soar es. Portanto, furámos o protocolo e e le foi
lá, com a imprensa toda. Claro que temos fotograf ias e registos disso, e ele lá no meio das
23 Comissão para a Igualda de e para os Direit os das Mulher es.
284
projectos e que depois encontrávamos ali. Isto, no fundo, foi batendo tudo certo. Estes
últimos doze anos deram-nos uma capacidade, um empowerment , uma abertura para
depois descortinar e ver onde se podia pr opor… Eu acho que esta questão da abertura
internacional foi um factor determi nante. Para nós próprias. E nota-se.
Outro exemplo: embora não seja até no mesmo registo, mas que eu acho que tem algum
sinal disto, é a Rede Jovens para a Igua ldade, que também ganhou com esta visão
internacional. Aquela transposição foi também bem feita! Aliás, é a úni ca que existe desse
projecto: tanto quanto sei, nos outros países, acabou mais ou menos por cair.
Esta experiência deu outra c onsistência para a prepar ação para os tempos que são de hoje
e que são de amanhã, em que a componente internacional é imprescindível e em que
aquela lógica do trabalho no nosso cantinho, da nossa reivindicação, é muito curta. E
depois reflecte-se nas propostas e nas políticas que se fazem.
A experiência do internacionalismo feminista
Fui convidada para ir em 1998 ao Québec, à primeira reuni ão da Marcha Mundial das
Mulheres através de Marie Lise Semblan t, uma mulher muito ligada às questões do
desenvolvimento local, uma feminista tam bém investigadora, tem uma tese sobre o
feminismo.
No Canadá, nesta reunião da Marcha, uma cois a que nos espantou foi aquela organização,
aquela tradição, aquilo tudo. Passados uns tempos, vieram cá a minha cunhada e o meu
irmão, que é canadiana e é uma mulher religi osa, que anda lá metida na igreja, e que não
tem nada de revolucionária, e depois contei-lhes, e ela respondeu-me:
— Então porquê? Eu sou feminista!
Porque, lá, se encontram uma mulher que não é feminista, com isso é que ficam
espantadas! O normal é ser feminista.
Elas tinham aquilo tudo muito bem organi zado e tinham uma preocupação engraçada que
era: tentaram que as pessoas que foram de fora ficassem, porque distribuíram-nos por
diversas casas, em casa de pessoas que fala ssem a nossa língua. Para não nos sentirmos
tão estranhas… E então foi uma das experiências ma is interessantes da minha vida porque
eu fui para uma casa de freiras. Fui com um a delas, ela era do Canadá, do Quebec, só que
tinha estado dezoito anos a trabalhar no Br asil e falava português. tinha trabalhado dezoito
285
anos nas favelas, portanto, tinha perdido todos os preconceitos, falava de aborto, falava de
tudo… Tinha-se despido de tudo perante a r ealidade. A casa era também uma cois a do
outro mundo: uma casa muito gira, onde de fa cto havia assim um sossego, uma paz, que
se vê que há ali qualquer cois a que não é a nossa agitação… Quer dizer, não era uma
casa nada luxuosa, nada disso, mas confor tável, normal, havia aq uela paz, aquele
sossego, aquela organiza ção que se faz sem a gente perceber e está tudo feito, mas muito
informal, umas mulheres muito interessantes.
Essa reunião é na altura em que a questão de Timor está muito efervescente e eu atrevi-
me, na coordenação europeia, a colocar um a moção sobre Timor que foi aprovada lá.
• A Marcha é de outra dimensão, é um desafio muito grande
Aí, percebemos que aquilo é uma coisa de outra dimensão, um desafio muito grande. É
engraçado porque a gente nem se mpre quando está nas coisas percebe a dimensão, e
percebe o que é que aquilo vai dar a seguir. Mas a sensação quando se vem de lá é: «isto
é qualquer coisa de diferente e que vale a pena». É o que depois nós dizíamos no ano
2000: é para resgatar o feminismo, para se voltar a falar de fe minismo, acabou isso de que
a emancipação da mulher já está, a igualdade já es tá, isto é repor as coisas no seu lugar, é
mostrar que continua a haver motivo, e, nesse sentido, foi um incentivo muito grande.
• A diversidade no movimento feminist a da Marcha: como harmonizar sem
baixar o nível das reivindicações
Por outro lado, aquilo é logo uma coisa muit o forte do ponto de vista político, é outra
mudança, porque estávamos muito habituadas, aqui, em Portugal, que as coisas das
mulheres sejam sempre muito ‘pacíficas’. Estamos sempre todas muito de acordo, porque
andamos sempre pelos mínimos!
Outra coisa que a Marcha deu: se havia a tal descoberta de norte a su l, em Portugal, a
Marcha deu-nos isso a nível mundial. Ver as af ricanas, as indígenas, as da América Latina,
as do Canadá, as asiáticas, é uma coisa! … É uma grande diversidade. Perceber a
diferença que há… Lembro-me que na altura falava muito nisso porque, de facto,
impressionou-me: nós estamos a discutir e equac ionar reivindic ações e há um continente
que diz «tudo bem, mas a gente luta pela ág ua!» «A gente luta pela identidade! As
286
mulheres não têm bilhete de identidade!» «As mulheres não existem! A gente não pode
comprar uma casa, um terreno, não temos direit o à propriedade!» Quer dizer, ouvir as sim…
Mesmo a situação nos países árabes, também… São coisas que mexem e a gente percebe
o que é que se passa, porque a Marcha também é muito popular, pode não ser assim em
todos os países, de facto, há diferenças, como em tudo, mas a Marcha tem uma raíz muito
popular, de grupos de base, muito pouco partidarizados.
Agora, é preciso que a Marcha assuma que tem várias corr entes dentro dela, também, que
defendem várias coisas e que vão prossegui ndo… Iss o notou-se na [reunião mundial na]
Índia em que a polémica em to rno do feminismo foi mu ito grand e. Mas esse também é um
caminho que, do meu ponto de vist a, é incontornável, hoje em dia, que é o dos movimentos
plurais. Já não há movimentos monolíticos. Há ali um determinado momento na [reunião
mundial da Índia], em que se tenta a conci liação de tudo e fazer um grande “chapéu”. Eu
acho que esse caminho iria acabar com a Marc ha. Portanto, vai ser o caminho de que a
Marcha é um movimento plural, tem várias co rrentes lá dentro, que vão lutar, lutar no bom
sentido, vão disputar o poder entre si , e vão defender os seus interesses.
E depois a sua capacidade de i novação. Porque ou tem capaci dade de atrair as jovens
gerações e de ter reivindicações para as mulheres de hoje, porque há aqui um certo
espaço, em que ou se dá um salto ou se estagna.
287
C APÍTULO II. O PERCURSO DE PESQ UISA EM HI STÓRIAS DE VIDA
Introdução
Inscrevendo esta pesquisa como um contribut o para uma pedagogia feminista crítica e
transformadora e procurando articular as problem áticas escolares com as não-escolares,
este capítulo pretende dar c onta dos processos e opções epist emológicas e metodológicas.
Estão presentes preocupações com uma "epistem ologia do experiencial" e o equacionar de
estratégias de intervenção capazes de se di rigirem a grupos sociais heterogéneos em
termos de género, classe, etnia, região, idade e orientação sexual, q uer no interior da
escola quer fora. Preocupou-nos um enfoque na complexidade dos contextos sociais, mas
cimentados na articulação com os quotidianos, tentando contribu ir para a construção de um
saber relevante para a vida das pessoas onde têm lugar de destaque os diálogos e as
pontes entre diferentes for mas de saber . Se é verdade que o sabe r só tem existência
própria enquanto experiência indi vidual (Lewis 1993), também a transformação social só
existe enquanto dialéctica entre exper iência individual e colectiva.
No cerne desta pesquisa está uma procura de ouvir as vozes das mulheres e é nesta
medida que as perspectivas biográficas pe rmitem a valorização das e xperiências,
perspectivas e subjectividades das narradoras. Este capítulo pretende ser a apresentação
do processo de investigação, apresentando as dificuldades, os d ilemas, as opções
efectuadas.
No início deste trabalho e quando se formulou o objecto de estudo, estavam a ser
publicados os volumes da investigação or gani zada por Barreto (1996) e que atestavam,
através de diversos indicadores, um c onjunto de mudanças subst antivas na sociedade
portuguesa. Para nossa grande estranheza, os indicadores não estavam trabalhados em
função do sexo e as questões de género eram subr epticiamente tratadas, sob um
“universal neutro” que já nos cansa, num úni co volume que outros já apelidaram de
288
“impressionista” 27 sobre a evolução dos costumes. No sentido de contrariar a obscuridade
que tem caracterizado as vidas e experiências fe mininas, esta investigação tem o seu foco
em histórias de vidas de mulheres, olhadas e ouvidas nas suas es pecificidades e
singularidades, de diversas condições e grupos so ciais, sensivelmente entre os quarenta e
os sessenta anos. Aqui, o percurso da refl exão pretende estabelec er, tanto para quem
escreve como para quem lê, o processo e as condições de construção das histórias de vida
e das narrativas biográficas, isto é, as condições epistemológica s da sua produção,
constituindo-se simultaneamente num moment o de discussão epistemológica, teórica e
prática sobre a realização das entrevistas, do s encontros e dos diálogos, a elaboração das
histórias de vida e das narrativas biográfic as e a con strução da análise, passando também
por alguns percursos pessoais de intervenção e de investigação 28 .
1. Opções epistemológicas: as histórias de vida no centro de um percurso
Com a intenção de articular a educação numa visão holística sobre vidas femininas,
realizaram-se algumas histórias de vida, assentes numa interacção prolongada e
aprofundada com as narradoras e em diálogos em profundi dade que foram posteriormente
organizados num texto narrativo e, simultaneamente, submetidos a análise de conteúdo,
complementada com alguma anál ise documental. Como afi rma Idalina Conde, na
investigação assente em trabalho biográfico, neces sitamos de três tipos de teorias
auxiliares de pesquisa: “teoria do instrumento, teoria das relações sociais de observação e
teoria das experiências sociais da subjectivi dade” (1993: 39). É sobre as histórias de vida
num percurso de pesquisa implicado na valoriza ção e descoberta das subjectividades e
experiências femininas, que trata esta secção.
27 Estanque (1999: 173): “à pa rte certos entusiasmos exc essivos, por vezes de simple s p endor impressi onista, acerca da
evolução dos c ostumes em Portugal.”
28 Para este processo de invest igação, contribuiu a e xperiência pessoal, p rofissional e política, onde alguns projectos de
investigação ( quer ao nível das q uestões de g énero — ProCiMas, NORA, Padjas e C iganas, Autonomia das
Raparigas…— quer ao nível das questõ es curriculare s — TEIAS, PROCUR), e outros de intervençã o (quer nas
organizações de mulher es, quer no cam po da educaç ão não-formal, alfabetização e educação comu nitária, quer aind a na
área da animação sóci o-cultural) forneceram ferramentas que foram send o muito úteis nesta longa caminh ada.
289
1.1. A autonomia do método biográfico
O recurso às histórias de vida pode ser rea lizado, do ponto de vista epist emológico, de
diversas perspectivas. Mathias Finger (19 89) e Helena Araújo (2000: 279-80) fazem uma
revisão dessas perspectivas, salientando a importância da abordagem deste recurs o
metodológico através do que Ferrarotti designa com o “autonomia do método biográfico”.
Nas diferentes abordagens, realça-se o papel que o sujeito 29 desempenha em cada
perspectiva e a relação entre os materiais biográficos e a construção do conhec imento
científico-social. Assim, na abordagem da histór ia oral e da antropologia cultural, se o
sujeito não é eliminado da pesquisa, o foco é sobre a cultura, obscurecendo as
subjectividades individuais. Na abordagem que ficou conhecida por “Escola de Chicago”,
as preocupações com a representatividade em termos da legitimação do fazer emergir de
“problemas sociais” e da força das estruturas sociais, tem co mo consequência a eliminação
do sujeito e das subjectividades. Finalmente, na abordagem em que a história de vida é
tomada como metodologia fund amental, o enfoque c oloca-se no papel do sujeito e nas
subjectividades e experiências pessoais. Nesta perspectiva, des tacam-se Ferrarotti (1983)
e Helena C. Araújo (1993; 2000). Esta autora sublinha:
A sua perspectiva é relevante (…) Fe rrarotti distan cia-se de uma tradição dent ro da qual as história s
de vida são usada s para fornecer informações pertinentes, não contid as em arquivos e ainda de
uma perspect iva em que a pesso a biografada «repre senta» a «visão do mundo» de u m grupo social
ou profissional. O qu e pretende é, através dela s, contribuir para uma renovação metodológica no
campo da so ciologia que, embora pod endo recorrer a técnicas cada vez mais sofisticada s, «não
obtém acréscimo de conhecimento soci ológico real » (…) e permanece « refém das versões oficiai s»
(…) sem assumir um a postura crítica, face a um a ordem dominante. Neste sentido, Ferrarotti
salienta as suas p ossibilidades heu rísticas, apontando a « subjectividade explosiva». (Araú jo 2000:
280).
A via que Ferrarotti (1983) encontrou, e nós seguimos, para, através de uma história de
vida, darmos conta do social, é composta por três grandes e comp lexos processos. O
primeiro diz respeito à conceptualizaç ão, que ele funda em Marx, sobre a “praxis
totalizante”, na medida em que uma pessoa (o autor só fala de homem ) é sempre um
universo singular (idem: 59). O segundo diz respeito ao recurso à “razão dialéctica”,
apenas a razão di aléctica nos permi te compreen der cientifica mente um acto, reconstruir os
processos que de um comportam ento fazem a síntese activa de um sistema s ocial, de interpretar a
29 Poder-se-á dizer sujeita ? C omo mais um dos cas os de “derrogaçã o semântica” (Abr anches e Carv alho 1999), es te
conceito no feminino tem u ma conotação neg ativa. Vale rá a pena empurrar o conceito também para desi gnar, no
feminino, o mesmo que desi gna no masculi no?
290
objectividade de um fra gmento de história social partindo da subjectividade não iludível de u ma
história individual. Só a razã o dialéctica nos pe rmite reunir o universal e o geral (a sociedade)
apoiando-se no individual e no sin gular (o homem [sic]). (ide m: 56).
Propondo uma ruptura radical face à dicoto mia entre intencionalidade nomotética e
intencionalidade idiográfica, segundo este auto r, o processo para chegar ao conhecim ento
do social através da singularidade de uma história de vida é, ainda, realiz ado pelo recurso
a “uma ciência das mediações que traduza as estruturas sociais em comportamentos
individuais ou microssociais” (i dem: 80). Neste sentido, o recu rso à história de vida como
metodologia fundamental assenta numa perspectiva de historicid ade em que “o «sujeito re-
entra na história», numa concep ção mais ampla de história co mo «vida h istórica», tomando
em consideração o ponto de vista daqueles que estão numa posição subordinada e que
constitui uma fonte de conhecimento” (Araújo 2000: 281). Segundo Ferrarotti:
A história de vida como método a utónomo implica necessa riamente uma histori cidade «não
historicista». Noutros term os, implica uma ruptu r a com a con cepção de hi stória enquanto sucessão
diacrónica e m direcção à pret endida verda de de um sentido geral detido pel as elites que serão os
depositários exclusivos do valor. (198 3: 3-1)
Então, a “subjectividade explos iva” emerge nas ciênc ias sociai s dando voz ao sujeito que
deixa, nesta postura epistemológica, de ser objecto de estudo. Sem negar as hierarquias
de poder, esta abordagem exige al guma disponibilidade para lar garmos alguns pontos da
nossa agenda como investigadoras e abertu ra para redireccionarmos o percurso de
pesquisa se quisermos fazer jus à especificidade de cada auto/bi ografada. É neste sentido
que, por exemplo, Sue Middl eton (1993) nos conta que um a entrevista com uma das
mulheres a levou a aprofundar o seu conhecim ento sobre Bourdieu, ac rescentanto que isto
constituía, do seu ponto de vista, indicação do tipo de “processo de teorização colaborativ a
que uma abordagem de histórias de vida pode engendrar” (1993: 73). A preocupação
central, aqui, consistiu na valorização da s histórias de vida enquanto “metodologia
fundamental” (Ferrarotti 1988 e Araújo 1990) evit ando o lugar de ‘ilustração’ da teoria. Foi
por esta razão que se decidiu a sua colocação no início deste trabalho, enquanto primeiro
capítulo, reservando-lhes o espaço inicial e nquanto base a partir da qual s e elaboraram as
análises e reflexões posteriores.
Existe, hoje, uma variedade importante de bibli ografia em torno das histórias de vida,
narrativas biográficas e metodologias afin s, que dá conta de como esta corrente de
291
investigação tem já um longo caminho feit o, assim como algum as obras realizadas com
histórias de vida, biografias ou relatos bi ográficos. No contexto português, pode mos
destacar diversas obras realizadas nesta ár ea, tendo por base ou reivindicando-se do
método biográfico, como por ex emplo, Chinita (1983), Joaquim (1985), Vicente (1985),
Brettel (1978, 1991), Magalhães, Fonseca e Oliveira (1991), Fern andes (1990), Moita
(1992), Fontoura (1992) Cavaco (1992), Nóvoa (1992), Gonç alves (1992), Araújo (1993
/2000, 1995), Cole (1994), Neves Cardoso ( 1996), Neto (1996), Barbosa (1999), Vieira
(1999), Paiva Couceiro (2000), Pedrosa (2000) , Ventura (2002), Varandas (2001) Sarmento
(2002), Cruz (2002), Gorjão (2002).
• Dizer / escrever uma vida: a dimensão da textualidade
Algumas questões se levantam numa perspectiva centrada em histórias de vida. Uma delas
consiste no seu (habitual) carácter textual, isto é, o dilema se as narrativas biográficas são
apenas textualidades ou se cons ti tuem alguma referencialidade sobre a realidade exterior
ao texto. Sem rejeitar importantes contributos sobre a dimensão textual no dizer/escrever
das vidas, consideramos, no entanto, a par de muitas investigadoras neste campo, que os
relatos têm relação com a realidade. Stanley (1992; 1993) discute este dilema e a este
respeito vai propondo outras designações ao produt o deste trabalho. Como se trata de um
processo interactivo entre investi gadora e narradora, a autora acaba designando
auto/biografia, tentando encontrar uma forma gráfica que dê c ont a dos dois processos em
articulação: é uma for ma de autobiografia na medida em que as narradoras contam na
primeira pessoa, mas é tam bém biografia porque a invest igadora desempenha um papel de
mediação, desde os temas que as mulheres elegem at é à forma, passando pelo trabalho
construtivo até ao produto que se apresenta. A/o investigad or/a acaba também por se
expor nessa mediação. Por vezes, a autora fala também de autografia , exactamente para
destacar a construção textual ne ste processo, clarificando que a relação com a vida [bio] é
críptica e não linear. Assim, a autora faz refe rência a Roland Barthes sobre “o self que
escreve”, “o self que foi (ou era)” e “o self que é (ou está a ser)” (cit. por Stanley 1992: 61).
As teóricas feministas que se têm debruçado sobre histórias de vida , mais concretamente
sobre autobiografia, pesquisaram o seu sign ificado na construção do sujeito e das
subjectividades. Durante muito te mpo, a autobiografia constituiu um ‘projecto ocidental’ de
292
formação do sujeito universal, o que foi critic ado por investigadoras como Sidonie Smith
(1993; 1998), para quem a dificu ldade da autobiografia (tal como era praticada por
Agostinho, Rousseau e Goethe, ou qualq uer outro membro do canon que quisermos
mencionar) consistia no facto de que a aut obiograf ia pressupõe a composição de uma
master narrativa, a arquitectura do ‘sujeito unive rsal’, uma “dura noz de … individualidade
(masculina) normativa.” (Smith 1993: 3). Portanto, o canon aut obiográfico ocidental era
construído a partir dos escritos de homens de élite (ou a que pretendiam pertencer).
Segundo algumas autoras, a crítica literária teve os seus efei tos, e agora, na viragem do
séc. XX-XXI, o canon autobiográfi co foi grandemente alargado, e a teoria autobiográfica
que daqui derivou tem mais probabi lidade de ser estabelec ida pela escrita das mulheres.
Pode também constatar-se também que, no campo das ciências sociais, “as Histórias de
Vida conhecem um forte impul so no início do séc. XX, sobretudo com o instrumento
metodológico da “sociologia militante”, utilizado quer na Polónia quer nos Estados Unidos”
(Paiva Couceiro 2000).
As classes trabalhadoras também entraram neste campo, todavia de forma diferente. A
entrada dos grupos desfavorecidos e das classe s trabalhadoras foi, talvez possamos dizê-
lo, pela ‘porta do cavalo’ em termos das teorias autobio gráficas. Não tive ram direito a entrar
pela via da literatura, como aconteceu com as autobiografias dos homens de élite (ou que à
élite passaram a pertencer), antes pela via da des crição dos ‘factos’, da ‘realidade’.
Referindo o estudo de Pamela Fox, Steedman escr eve que “é um pre ssuposto académico
comum que as produções escritas das pess oas das classes trabalhadoras pertencem a
algum reino de ‘factos’ ou ‘rea lidade’, e não à ‘literatura’, e serão então território dos/as
historiadoras/es e não do/a crític o/a literário/a” (Fox, cit. por Steedman 2000: 26 ). Tentando
contornar esta aparente dicotomia entre ficção e factos, e assentando numa perspectiva
em que subjectividade e experiência se entrela çam de formas variadas e complexas (Lewis
1993, Weedon 1989), de algum a forma se assume que o que as mulheres contam é
‘realidade’, se não ‘r ealidade’ de factos objectivos das suas vidas, pelo menos ‘realidade
das suas subjectividades’. A teoria feminista pós-estruturalista têm trazido para o debate o
problemático que é assumirmos questões de ‘verdade’. Segundo Carolyn Steedman
(2000), se estamos interessadas nas aut obiografias, então trabalhamos com dois
pressupostos tácitos. O primeiro, é que, de alguma forma, a produção de formas escritas
293
tem algo a ver com a produção das subjec tividades; e o s egundo, de que este é um
processo voluntário, que existe ali um ímpeto para contar o self, que vem de dentro, e que
o impulso para o fazer, na linguagem falada ou escrita, é parte do próprio processo da
construção do self ” (idem: 25).
A questão da autobiografia tem saído da conc entração exc lusiva na palavra escrita,
mudando para o terreno mais geral da narrativa, em que se inclui quer os r elatos escritos,
quer a narrativa oral. Temos assistido ao pr o liferar de termos próximos em diversas ár eas
— psicologia, sociologia, história , literatura: narrativa, narrativi dade, narrativizar, récitas de
vida, testemunhos, etc. (Lulle 1998, Massolo 1998, Tierney 2000).
Também os estudos em torno da transição das sociedades tradicionais para a
modernidade (Ariès 1978, Hall e Gieben 1992) de alguma forma estabelecem a passagem
de uma indiferenciação da pessoa face ao grupo social a que pertencia para uma lenta e
progressiva emergência de um individualismo, a construção de um sujeito individua l
despernado face às suas amarras comunitárias e familiares. Anthony Giddens descreve um
desenvolvimento de 300 anos no Ocidente, pelo qual a personalidade e a auto-identidade
acabou por ser compreendida como “o self … reflexivamente compreendido pela pessoa
em termos da sua biografia”. Ele compreende ‘ autobiografia’ não tanto como uma forma de
escrita, nem como um genre 30 , mas como uma forma de pensar e de sentir, como um
modo de cognição. De acordo com Giddens, o processo de realmente escrever uma
autobiografia, publicá-la e conseguir que seja lida é uma variante menor de um
“pensamento autobiográfico” muito mais generalizado.
1.2. Memória, ficção e pe rsonagem na construção de histórias de vida
Segundo Steedman (2000), o trabalho autobiográfico tem raízes históricas que vêm já
detrás do próprio processo histórico das ciências sociais:
Ainda não saímos de stas sugestõ es tentativas, de que a articulação literá ria moderna da identidad e
do self e da person agem teve as su as origens ent re o grupo dos/as mai s pobres, tanto no reino
literário como no reino so cial, quando os seus relatos verbais foram registados por outro s/as. Mas
parte do processo social envolvido — o contar um a n arrativa plebeia; a sua apropria ção e o uso dos
seus enredos e temas p or outros/as mais di stinto s/as — é realizad a e descrita nos textos do sé c.
XVIII, o que oferece evidência válida da s formas pel as quais a narrativa dos pobres pode ser usa da
30 Estilo literário.
300
e histórias tristes convivem com a nossa existência e pretendíam os dar conta dessa
diversidade.
Por vezes, fomos assaltadas pela “angústia positivista”, ou seja, a angústia de querer
realizar uma pesquisa “repres entativa”. Reiterar que é sempre assim, em qualquer
investigaçâo, não resolve o vazio que s e abre no estômago e não nos sossega sobre até
onde se admite a incompletude, em termos de evidência empírica? Assim, impulsionadas
para ficar a saber algo mais do que já se sabi a, optou-se por fazer histórias de vida de
mulheres que abrangessem algum a diversidade; sem veleidades de representatividade,
procurámos dialogar com: camponesa, operária, professora , cabeleireira, enfermeira,
sindicalista, médica, empresária, cigana nóm ada, cigana sedentária, negra, comunista,
conservadora, órfã, liberal, lé sbica, cega, investigadora, feminista marxista, empregada
doméstica, feminista radical, mu lher rural, feminista católica, mulher católica, moradora e
activista num bairro social, militante de base 32 . E a todas estas mulheres se fizeram
entrevistas em profundidade e se tentou ir o mais longe po ssível até verificar se se
conseguia ou não fazer histórias de vida.
O número constitui uma polémica epistemológica que não pare ce estar resolvida. Desde o
argumento de que a unicidade de uma hi stória de vida, pelo seu carácter sincrético, permite
ler o social até outras investigações onde o número andam muito l onge deste primeiro
dígito alfanumérico. Por exemplo, Jennifer J ohnson entrevistou sessenta e três mulheres da
classe trabalhadora (2002) e co nsidera que fez histórias de vida. No entanto, estávamos
interessadas nas singularidades das vidas de algum as mulheres e, como afirma Ferrarotti,
“os elementos quantificáveis de uma biogr afia são geralmente pouco numerosos e
marginais: ela põe inteirament e em relevo a qualidade” (1983: 82), já que uma história de
vida se constitui como “conhecimento organizado embora críptico que é preciso aprender a
decifrar” (idem: 83). E, neste sentido, a quant idade só atrapalha, porque impede uma
atenção em profundidade às singul aridades e especificidades.
Portanto, a ideia não foi fazer uma investigaç ão de tipo extensivo, antes partir do princí pio
de que mulheres negras, ciganas, lésbicas, operár ias, têm experiências de vida diferentes
e provavelmente percursos de vida marcados pelo racismo, pela homofobia, pela
32 A linguagem é de facto u m espartilho. Por e xemplo, aqu i ao tent ar descrev er por quem s e optou para c onstruir as
histórias de vid a, é difícil decidir e ntre o plur al e o singul ar: qualquer vers ão deixa s empre um travo d e general izações que
gostaríamos de evitar. Enfim, entre um e outro, escolhemos o singular…
301
discriminação, para além do sexismo, mas que não se constituem nem como
representativas nem como exemplo. Então, nes te aspecto, tornou-se importante dar a voz a
mulheres que pudessem, através das suas narrati vas, contar-nos as suas experiênc ias e
percursos onde, talvez, as questões da opress ão, racismo, discrimin ação, exploração e
homofobia se tornassem visíveis. Ferrarotti al erta contra “a reduç ão da biografia a uma
simples «história de vida» social utilizável c omo exemplo, caso particular, ilustração numa
interpretação que se situa a um nível mais el evado de abstracção” (idem: 83). É no sentido
de evitar este reducionismo epistemológico numa pesquis a em histórias de vida que
construímos os capítulos de análise mantendo as singularidades das s uas vidas, evitando
fazer agregações abusivas, a não ser quando eram de facto pertinentes. Algumas
auto/biografias estão mais presentes em al guns capítulos do que noutros porque as
narrativas evidenciaram mais uns aspectos do que outros. Decidimo-nos também pelo
critério de não escolher as mulheres de maio r protagonismo social: existem já diversas
obras em português e sobre as mulheres portuguesas (embora ai nda não suficientes)
sobre mulheres públicas e protagonistas (veja- se, por exemplo, Pedr osa 2000; Bettencourt
e Pereira 1995). Para além do mais, colocam outras questões que se relacionam com a
maior dificuldade de anonimato e, portanto, maiores problemas em entrar em territórios
mais íntimos ou interditos. Assim, embora algumas das nossas entrevistadas sejam
mulheres com algum protagonismo social, a nossa es colha recaiu sobre as vidas “típicas”
(Stanley 1992, Araújo 2000), isto é, mais próximas dos quotidi anos de todas as mulheres.
Foram realizadas, mais de uma centena e meia de encontros, incluindo diálogos e
entrevistas (ver Quadro das Entrevistas). Alguns foram efectuadas no percurso de selecção
da pessoa a biografar, por um lado, porque o cr itério escolhido era a diversidade soc ial,
implicando um esforço de de scentração dos conhecimentos pessoais, por outro, porque o
próprio processo da construção das história s de vida não resulta da exc lusiva decisão do/a
investigador/a. No decurso dos diferentes encontros com as mulheres, a interacção que se
estabelece vai também contribuindo para definir quem está mais disponível para contar a
sua história, quem vai mostrando mais inte resse e entusiasmo e quem mostra mais
confiança na pessoa que desempenha o papel de reco lher e reconstruir a história. Este
processo é uma relação a duas, interfer indo também factores que têm a ver com a
disponibilidade real da narrador a e da inv estigadora. A decisão in icial tinha sido elaborar
302
dez histórias de vida e diversas narrativas co mplementares. Esta decisão revelou-se não
exequível, na medida em que o tempo e disponibilidade emocional não per mitiram chegar a
um número tão elevado de auto/ biografias. Com aquelas em que a biografia ou a narrativ a
biográfica não foi completada, mantém-se o compromisso de continuar até completar o
processo, agora já posteriormente a esta investigação.
Enfrentaram-se diversas dificuldades na se lecção de algumas das narradoras. Um dos
casos mais difíceis foi a escolha de uma mul her cigana. Começamos o proc esso realizando
entrevistas colectivas a um conjunto de mu lheres ciganas que se encontravam no ensino
recorrente por via do Rendi mento Mínimo Garantido 33 , numa pequena cidade da zona
centro. Mais tarde, solicitámos a possibilidade de realizar enc ontros individu ais explicando
que era para “fazer a história da sua vida”, tendo ainda realiz ado alguns. O problema surgiu
quando quisemos construir as narrativas. As transcrições evidenciaram-se como obstáculo
que nos levou a não optar por se leccionar alguma destas mulher es para uma história de
vida. Por um lado, revelaram-se pessoas de par cas palavras, resumindo as suas opiniões e
experiências de forma bastante sintética, tornando difíc il a construção de uma narrativa 34 .
Por outro, falavam uma língua di ferente, que designavam como galiciano, o que tornou
muito difícil a compreensão e transcrição de algumas expressões aquando da passage m a
texto escrito. Apesar de termos sentido compreend er todo o diálogo quando em presença
destas mulheres, o certo é que, na transcrição, ficavam muitas lacunas para preencher. O
grande desconhecimento sobre a li nguagem desta comunidade impediu-nos de tentar
substituir algumas lacunas por expressõ es que dissessem o que tínhamos entendido.
Corríamos um grande risco de in fidelidade ao seu dis curso e, nesse sentido, optámos por
abandonar a escolha de uma mulher cigana desta comunida de. Entretanto, estabelecemos
contacto com uma mulher cigana, activi sta de uma associação de mulheres ciganas da
zona sul que fala português e tem, além de tudo o mais, uma experiência muito
interessante de activismo pelos direitos das mulher es ciganas. Foram marcados três
encontros com esta mulher e em nenhum deles foi possível realizar nenhuma entrevista
gravada. O primeiro foi marcado com demas iada antecedência (duas semanas) e, quando
33 Esta parte da investi gação foi também re alizada no contexto de um projecto financi ado pe lo Alto Com issariado par a as
Minorias Étnicas, designa do “Padjas e Cig anas: em busca de di álo go intercultur al, cuja coordenadora foi Helena Costa
Araújo (ver Relatório).
34 Nestas entrevistas e com mulheres cam ponesas, vínha- no s diversas vezes à memór ia a obra de T eresa Joaquim, Dar à
Luz , onde a autora refer e esta parc imónia da palavra no mu ndo rura l que ela estudou e que, em parte, pode rel acionar-se
com o mundo simbólico rur al da ligação entr e o real e a magia. A pal avra ainda tem po deres…
303
chagámos ao encontro, ela precisou de ir re solver um problema que entretanto tinha
surgido com a filha e a sobrinha. O segu ndo, marcado com maior proximidade temporal,
revelou-se também inoperacional porque era dom ingo e ela estava com a família toda, com
funções de “matriarca”, não podendo, portanto, retirar-se para um encontro com mais
privacidade. Convidou para ficarmos a conv iver com toda a gent e, o que fizemos durante
um tempo, e regressámos num comboio mais cedo. No último encontro, marcado na CIDM
de Lisboa, para um momento anterior a uma audiência que ela tinha marcada com a
Presidente, quando chegámos, ela tinha decidi do ant ecipar-se à hora marcada para a
audiência e tinha ficado na CIDM à espera de ser recebida porque não queria ser
“ultrapassada” por outras pesso as com quem a Presidente ta m bém iria reunir. Como a
audiência foi efectuada à hora marcada, isto é, três horas depois, e no final nenhuma de
nós tinha disponibilidade para se encontrar, mais uma vez não foi possível realiz ar a
entrevista. As dificuldades de deslocação e as incertezas de poder efectivamente registar
alguns diálogos com esta mulher levaram-nos a equacionar entrevist ar outras. Assim,
tomámos conhecimento de uma comuni dade cigana no norte, que também fala
correntemente o português. Embora bastante difer ente, quer das mulheres do grupo inicial,
porque a comunidade já está sedentariz ada há bastante tempo tendo até uma boa
integração no local, quer da activista da associação de mulheres ciganas , já que nesta
comunidade ainda não se coloca este tipo de activismo, este contacto permitiu-nos o
estabelecimento de diálogos mais prolongados e gravados com uma mulher cigana de que
resultou a história de vida de D. Graciela.
Não foi fácil, também, escolher a mulher lésbica para r ealizar um a história de vida. Procurar
uma lésbica enfrenta o problema do “armário”, já que muito poucas “dão a c ara”. Optou-se
por contactar algumas das associações do movi mento lgbt e foi, a partir desse contacto,
que se entrevistaram duas acti vistas do Clube Safo, e elaborad o uma história de vida.
Encontrar uma mulher negra foi também um per curso difícil, expresso pelo facto de ser um
dos casos em que a história de vida ainda não está finalizada. Contactámos duas
mulheres, mas só foi possível realizar entrevistas com uma, devido às ocupações
profissionais da segunda. Aqui, revelou-se importante o facto de não termos grandes
conhecimentos pessoais com mulheres negras na faixa etária entre os quarenta e os
sessenta anos que se dispusesse m a dialogar connosco e a co ntar factos e experiência s
304
da sua vida. O mesmo se passou ao procurar uma mulher portador a de deficiência. Só
estabelecemos diálogos com uma mulher cega, exactamente pela ausênc ia de contactos
anteriores com este grupo de mulheres.
Noutros casos, a dificuldade fo i por razões opostas. Eram tant as as mulheres sobre quem
se poderia realizar uma história de vida que as decisões não foram fáceis. Foram os casos
das camponesas, das operárias, das sindicalista s, das professoras e das feministas. Não
se tinha intenção inicial de cons truir histórias de vida de prof essoras, mas os contextos de
intervenção em que esta investigação decorreu levaram ao conhecimento e contacto com
muitas mulheres desta profissão. Realizaram-se diversas entrevi stas e a história de vida foi
seleccionada pela energia da narr adora que estimulou e tomou iniciativa diversas vezes
para elaborarmos a história de vida em tem po por ela considerado importante. Também
para isso contribuiu o facto de morar numa zona mais acessível do que outras
entrevistadas. Neste grupo, os afazeres profissionais e dispon ibilidades dive rsas obrigaram
à distanciação face a algumas das entrevistadas. No grupo das camponesas, em que
também se realizaram diversas entrevista s, acabámos por selecci onar a primeira, porque
se encontrava numa faixa etária não tão avanç ada como a maioria das outras, embora já
com diversos filhos também. Simultaneamente, a interacção estabelecida foi sendo muito
forte, impulsionando-nos para a sua escolha. Ti vemos diversos encontros com esta mulher,
nem todos puderam concretizar-se em diálogo gravado devido aos c onstrangimento s da
sua vida familiar, da violênc ia do marido, e porque, mais tarde, passou a ser controlada
também pelo filho mais velho. Finalmente foi difícil, devido à sua situ ação de vitimização,
sair dos episódios de violênci a para outras fases e aspectos da sua vida p orque ela estava
muito centrada nessa questão (c omo, aliás, aprendemos que é um a das características do
próprio processo de vitimização). No grupo das sindica listas, colocou-se a mesma questão
de quem escolher dada a grande diversidade. Escolhemos uma mulher com uma grande
experiência sindical, que não era o caso de out ras, operária de um dos sectores mais
desfavorecidos na área do emprego, e que, face às grandes e conflit uosas correntes do
movimento sindical, se situava nos chamados “sindicatos independentes”, isto é, que não
estavam filiados nem na CGTP nem na UGT. Finalmente, no grupo das feministas, a
questão foi ainda mais difícil de resolver, muito devido à minha implicação no ca mpo.
Foram entrevistadas feministas de diversas organizações (APEM, Associação Portuguesa
305
a Mulher e o Desporto, APF, MDM, Clube Safo , GRAAL, UMAR, além de feministas que
fizeram parte dos grupos radicais dos anos oit enta, hoje extintos). Eliminámos os grupos
radicais dado que não têm actividade hoje, e o Clube Safo porque, coincidentemente,
entrou pela via da história de vida da mulher lésbica. Em relação à APEM, tínhamos
efectuado uma investigação s obre a associaç ão, para o que entrevistámos quatorze
mulheres que tinham pertencido à direcção e considerou-se que a publicaç ão desse
trabalho (na ex aequo ) constituía uma visibilização do papel desta asso ciação para esta
reflexão sobre o feminismo. Também as entrevistadas são, em geral, mulheres de gr ande
protagonismo académico. O mesm o se poderia diz er em relação à APMD que edit ou um
número da revista ex aequo . As sim, entre o MDM e a UMAR , a opção foi facilitada pela
maior dificuldade de entrevistar mulheres do MDM para contarem as suas vidas e não
apenas as actividades políticas da associaç ão, e pelo facto de não estar assumido no MDM
que são uma associação feminista (designam-se como associação feminina ), e uma maior
proximidade com a UMAR. Foi uma decis ão muit o difícil, porque efectivamente teríamos
gostado de fazer as biografias pelo m enos de uma mulher de cada uma destas
associações. É um trabalho que pode ser poste riormente continuado. Inicialmente,
tínhamos intenção de integrar duas histór ias de vida de feministas, que se revelou
completamente não exequível no tempo de que disp únhamos. Tentarem os concluir esse
trabalho a seguir à etapa que corresponde a esta investigação.
2.2. A construção das histórias de vida e os procedimentos de análise de conteúdo
O processo da elaboração das histórias de vida
No que se refere à elaboração de cada história de vida, poder-se-ia dizer que os
procedimentos relevam da opção metodológica de seguir o caminho epistemológico
apontado por Araújo (1993) e Ferrarotti (1983):
São bem conheci das as linhas g erais do método sart reano progressivo-reg ressivo para uma ciência
social da biog rafia: leitura horizont al e vertical da biografia e do si stema so cial, movimento heurísti co
de vai e vem da biografia ao sistema social, do sistema social à biografia. A SOUDURE deste duplo
movimento significa a re construção com pleta das «totalizaçõ es» recíprocas que exprimem a relação
dialéctica entre a so ciedade e o indivídu o específi co. O conhecime nto integral do homem torna-se o
conhecimento integral do outro. Colectivo so cial e universal sin gular esclarecem-se re ciprocamente.
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