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As Medianeras em Buenos Aires. O terceiro alçado como elemento de composição no espaço urbano

João Pedro Mesquita Amorim

Abstract

A medianera é um elemento comum na imagem urbana de distintas cidades. Surge como elemento efémero, contudo, no período de tempo em que o lote contíguo carece de edificação, adquire uma preponderância vital na imagem produzida no espaço público. As constantes alterações às normativas urbanísticas conferiram à medianera o valor de fachada principal, devido à sua perenidade, dimensão e exposição relativamente ao arruamento. Buenos Aires, cidade de estudo desta dissertação, desenvolve-se através de estrutura reticular com lotes justapostos, à imagem da época colonial. Apesar de, numa primeira fase, o desenvolvimento realizar-se em extensão, rapidamente se densificou a área central, emergindo a cidade através da exploração da vertical. Sendo este um traçado propenso ao poder especulativo, nos seus estreitos lotes, os diversos planeamentos permitiram uma construção impulsiva do edificado, outorgando deste modo um caráter múltiplo aos seus quarteirões, onde a alternância de cércea é uma constante. Esta situação permite o aparecimento, de forma explícita, da medianera, confrontando deste modo os utilizadores que percorrem diariamente a cidade. A medianera torna-se um testemunho da história da evolução do edificado, evidenciando condições precárias de habitabilidade que permitem, ainda que de forma ilegal, a abertura de vãos pelos seus habitantes, os quais se apropriam da medianera. A cidade, baseada num traçado com estrutura uniforme, ao crescer, propõe uma leitura heterogénea e específica de Buenos Aires. A reflexão desenvolvida neste trabalho sobre a medianera teve origem na vivência direta da cidade possibilitada pela realização de uma condição de mobilidade como estudante na Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo de Buenos Aires. A aproximação com a arquitetura da cidade, que permitiu entender quais as possibilidades de atuação face a esta preexistência, foi possibilitada pela realização de um estágio profissional, no estúdio Adamo-Faiden.

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AS MEDIANERAS EM BUENOS AIRES. O terceiro alçado como elemento de composição no espaço urbano João Pedro Mesquita Amorim Orientação | Doutora Ana Isabel da Costa e Silva FAUP | Porto, 2015 RESUMO A medianera é um elemento comum na imagem urbana de distintas cidades. Surge como elemento efémero, contudo, no período de tempo em que o lote contíguo carece de edificação, adquire uma preponderância vital na imagem produzida no espaço público. As constantes alterações às normativas urbanísticas conferiram à medianera o valor de fachada principal, devido à sua perenidade, dimensão e exposição relativamente ao arruamento. Buenos Aires, cidade de estudo desta dissertação, desenvolve-se através de estrutura reticular com lotes justapostos, à imagem da época colonial. Apesar de, numa primeira fase, o desenvolvimento realizar-se em extensão, rapidamente se densificou a área central, emergindo a cidade através da exploração da vertical. Sendo este um traçado propenso ao poder especulativo, nos seus estreitos lotes, os diversos planeamentos permitiram uma construção impulsiva do edificado, outorgando deste modo um caráter múltiplo aos seus quarteirões, onde a alternância de cércea é uma constante. Esta situação permite o aparecimento, de forma explícita, da medianera, confrontando deste modo os utilizadores que percorrem diariamente a cidade. A medianera torna-se um testemunho da história da evolução do edificado, evidenciando condições precárias de habitabilidade que permitem, ainda que de forma ilegal, a abertura de vãos pelos seus habitantes, os quais se apropriam da medianera. A cidade, baseada num traçado com estrutura uniforme, ao crescer, propõe uma leitura heterogénea e específica de Buenos Aires. A reflexão desenvolvida neste trabalho sobre a medianera teve origem na vivência direta da cidade possibilitada pela realização de uma condição de mobilidade como estudante na Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo de Buenos Aires. A aproximação com a arquitetura da cidade, que permitiu entender quais as possibilidades de atuação face a esta preexistência, foi possibilitada pela realização de um estágio profissional, no estúdio Adamo-Faiden. 2|3 ABSTRACT The sidewalls are a common element in the urban image of different cities. It appears as an ephemeral element, however, in the period of time when there is no building in the next lot, it acquires a vital influence on the image produced in the public space. Constant amendments to town planning regulations have given the sidewalls the value of a main facade, because of its continuity, size and exposure concerning to the street. Buenos Aires, city of study of this thesis, develops itself through the reticular structure with juxtaposed lots, maintaining the colonial appearance. Although, initially, the development has been done in size, quickly the central area densified, emerging the city by exploring the vertical. Being this structure prone to speculative power, in its narrow lots, the diverse plannings allowed an impulsive building construction, giving this way a multiple character to its blocks, where the alternating height is a constant. This situation allows, in a clear way, the appearance of the sidewalls, confronting the users who walk around the city every day. The sidewalls becomes a witness of the building evolution history, showing precarious habitability conditions which boosts, although illegally, the opening of gaps by its inhabitants. The city, based on a uniform structure, by growing, proposes an heterogeneous and specific lecture of Buenos Aires. The reflection developed in this work about the sidewalls, was made possible by the lived experience in the city, in the exchange programme as student at the Faculty of Architecture, Design and Urbanism of Buenos Aires. The approach to the city’s architecture, which allowed an understanding of the possibilities of action having in mind this pre-existence, was provided by the possibility of carrying out an internship at the Adamo-Faiden studio. 4|5 SUMÁRIO 09 Introdução CAPÍTULO I. A MEDIANERA 15 1.1 Terminologia 17 1.2 Medianera como terceira fachada 1.2.1 O valor de contraste 1.2.2 O valor compositivo e plástico 29 1.3 O emergir da medianera 1.3.1 A liberalização da construção 1.3.2 A alternância das normativas 1.3.3 O lote como fator de crescimento CAPÍTULO II. EM BUENOS AIRES 53 2.1 História e morfologia 67 2.2 Evolução do edificado 2.2.1 O Código de Edificação de 1944 2.2.2 O Código de Planeamento Urbano de 1977 85 2.3 A medianera em Buenos Aires 2.3.1 Atmosferas 2.3.2 A apropriação através da abertura de vãos CAPÍTULO III. AS AVENIDAS SANTA FE E CABILDO 111 3.1 Caracterização das avenidas 123 3.2 Metodologia 133 3.3 Caso de estudo CAPÍTULO IV. A ARQUITETURA PORTEÑA 147 4.1 A arquitetura moderna argentina 153 4.2 O tema da medianera em edifícios excecionais 4.2.1 Mario Roberto Alvarez 161 4.3 A intervenção no lote convencional 4.3.1 Adamo-Faiden 175 Considerações finais 181 Referências bibliográficas 191 Índice de imagens 6|7 Palavras Chave | Buenos Aires. Normativa. Medianera. Alçado. Composição. Contraste. Levantamento. Registo. Apropriação. Intervenção. INTRODUÇÃO O objeto de estudo da dissertação é a medianera e a sua escolha deve-se essencialmente a dois fatores: a abordagem relativamente à empena na cidade do Porto durante o percurso académico, em que no decorrer da frequência das unidades curriculares da área de projeto, nos diferentes anos, do curso de arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, despontou como tema pessoal de reflexão para o desenvolvimento de projeto; a vivência quotidiana que me foi possível experienciar na cidade de Buenos Aires no período de intercâmbio no ano letivo de 2013/2014 potenciado pelo estágio realizado no estúdio Adamo-Faiden na mesma cidade no ano de 2015. A opção por Buenos Aires como objeto de trabalho, para esta dissertação, reside na forte presença da medianera nesta cidade, assumindo-se como um terceiro alçado, perpendicular ao sentido da rua, cuja importância no espaço urbano muitas vezes se sobrepõe aos restantes alçados, face à mudança do campo visual de quem percorre a cidade. Este fenómeno surge através da descontinuidade exercida pelo alçado da rua, devido às diferentes cérceas atingidas pelo edificado. O presente estudo procura o registo pessoal da compreensão e interpretação do fenómeno e da sua evolução ao longo do tempo. Objetiva-se o entendimento da realidade que o fenómeno medianera produz na cidade de Buenos Aires face a outras com traçado semelhante, bem como as circunstâncias pela qual os seus habitantes frequentemente se apropriam deste plano para a abertura de vãos, individualizando a cidade em estudo. Surge a necessidade de perceber de que modo, e face às constantes dificuldades de compreensão do fator tempo na evolução do edificado da cidade, é possível potenciar uma imagem de contraste e experiência da diferença, através da apropriação de que a medianera é alvo. Deste modo, pretende-se uma observação ampla sobre o tema da medianera, a partir da qual se registou a sua presença diferenciada na cidade, 8|9 Capítulo I. A Medianera #2 | Vista desde a faculdade de engenharia da medianera em Buenos Aires. 1.2 MEDIANERA COMO TERCEIRA FACHADA A cidade é o espaço onde o homem exerce a sua ação, pelo que a imagem urbana é deste modo a manifestação física da relação entre a sociedade e um território através do tempo. É precisamente o contacto entre o nosso corpo e a matéria física o que faz a experiência urbana.6 As cidades estão determinadas pelas necessidades e formas de vida da sociedade que as habita, resultando uma estrutura urbana produto da ocupação e manipulação do território pelos seus habitantes, de acordo com as suas necessidades. É a visão o veículo principal que permite a perceção daquilo que nos rodeia, mas essa perceção também se encontra influenciada pela relação com a experiência de habitar.7 Surge, deste modo, como necessidade incorporar o tempo e o movimento à experiência do espaço. A atividade humana afeta e modifica as dinâmicas da imagem urbana, como atributos essenciais da experiência da cidade: Vemos, movendo-nos, porque os acidentes naturais ou a multiplicidade de estímulos, mensagens, formas que nos bombardeiam no nosso movimento pela cidade, produzem-se temporalmente, ligados inevitavelmente a experiências de deambulação, trasladar-se através de percursos e miradas diferentes, surpreendidas pela permanente inovação do que se apresenta perante os nossos olhos.8 Quando percorremos as ruas de uma cidade, inevitavelmente, o plano vertical da cidade tem extrema importância no espaço público9, e no campo visual do observador, pelo que a imagem produzida pelas fachadas do edificado no espaço urbano assumem, deste modo, um valor considerável. Quando os planos laterais cegos do edificado não se encontram 6 SOLÀ-MORALES, Manuel - De Cosas Urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. P. 23-28 7 SOLÀ-MORALES, Ignasi de - Territorios. Barcelona: Gustavo Gili, 2002. P.154 8 Ibidem. P.156 9 CULLEN, Gordon - Paisagem Urbana. Lisboa: Edições 70, 1984. [1964] P.123 A vida na rua é enquadrada por paredes, estrada e céu. O céu, em permanente mudança, as medianeras, velhas e esboroadas, ou novas e brilhantes; variedade de estilo e de perfil, de textura, cor e caráter. 16|17 Capítulo I. A Medianera #4 | Avenida Santa Fe com Callao, Buenos Aires. #3 | A medianera na imagem urbana de Buenos Aires. consolidados com outra construção, é visível a medianera, adquirindo presença na imagem da cidade, através da observação ao nível da rua. Face à possibilidade de edificação futura no lote contíguo, não é considerado qualquer cuidado no tratamento da medianera, dado que se poderá tornar inconsequente por razões óbvias de gestão de recursos e de economia. Deste modo, o valor formal da construção recai sobre as fachadas principais do edificado, concentrando-se apenas nestes planos o esforço de caracterização da imagem que se pretende atribuir à cidade. Esta opção demonstra-se contraditória na prática porque não se considera o campo visual do observador em movimento. Face à perpendicularidade que a medianera produz com o sentido da rua, a sua perceção é deste modo incrementada, ganhando uma importância por vezes superior ao das fachadas principais na leitura do espaço público, tendo em conta o hiato de tempo que é possível a sua observação. Os elementos de transformação no tempo através das modificações políticas, económicas e administrativas alteraram de forma permanente a imagem urbana, demonstrando desequilíbrios de uso, de apropriação e de representação. A dificuldade de gestão das medianeras prende-se ao facto de pertencerem ao domínio privado, pelo que recai sobre os seus proprietários a responsabilidade de manutenção. Visto que não é percebida pelo interior pelos seus habitantes, são frequentemente negligenciadas, produzindo a imagem de uma construção degradada no espaço urbano. Outro dos fatores de inércia relativamente a este tema surge pelos encargos económicos que advêm da sua manutenção. Sendo a medianera uma parede comum a vários proprietários, surge difícil o consenso para uma intervenção de caráter global. A decisão de intervenção passa, geralmente, pelo arrendamento ao mercado publicitário, que usufrui dos planos pelo seu tamanho considerável em várias situações e pela sua preponderância no campo visual. Este fator demonstra-se aliciante, visto que dá a possibilidade aos proprietários de auferir rendimento extra. 18|19 Capítulo I. A Medianera #5 | Kasimir Malevich, Composição Suprematista, 1915-1916. #6 | Paul Citroen, Metropolis, 1923. #7 | Fritz Lang, fotomontagem a partir do filme Metrópolis, 1926. #8 | Manuel Solá-Morales, Novo Distrito Portuário, Amberes, Eijlande, 1990-1993. 1.2.1 O valor de contraste | A identidade da cidade é precisamente a experiência da diferença, como conta Richard Sennett quando aplica as sucessivas experiências de lugares, lojas, edifícios, sensações ao passear em Manhattan, desde a rua 19 à 42. A partir do uso pessoal que fazemos das cidades, experimentamo-las como formas de apropriação que fazem dos seus fragmentos sistemas inteligíveis e por vezes, inclusive afetivos. O encaixe das diferenças faz rica a nossa vida na cidade, e fá-la própria.10 Uma das características de maior estímulo à pertinência e movimento no espaço urbano recai sobre as diferenças protagonizadas pelos diversos constituintes da cidade. A cidade, desta forma, torna-se num conjunto de ocorrências e partes distintas que dão notícia das suas características, permitindo criar surpresa e estímulo ao quotidiano, o do contraste e a especialização das características individuais.11 (…) uma cidade, e também uma metrópole, é importante pela sua anatomia, é importante pelas partes que contém, é importante pelo seu rim, pelo seu fígado, pelo seu pulmão. (…) Um modelo onde a contiguidade é mais importante que a continuidade, e o tecido gorduroso e amorfo da cidade é um valor em si mesmo; onde os tamanhos se misturam a pequenas doses; e onde as vias são algo mais que um dispositivo lógico de circulação sobre o interior para ser trama de relações indefinidas.12 A cidade deve ser apreciada através de todos os seus elementos e dos seus níveis de interação, pelo que o movimento pela cidade poderá ser entendido como uma sequência de diferenças percetivas.13 Quando situados numa cidade 10 SOLÀ-MORALES, Manuel - De Cosas Urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. P.190 11 LYNCH, Kevin – La Imagen de la Ciudad. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. [1960] P.134 12 SOLÀ-MORALES, Manuel - . Barcelona: Gustavo Gili, 2008. P.154-165 13 RAPOPORT, Amos - Aspectos humanos de la forma urbana: Hacia una confrontación de las Ciencias Sociales con el diseño de la forma urbana. Barcelona: Gustavo Gili, 1978. P.224 20|21 Capítulo I. A Medianera em que o sistema viário, no seu todo, é muito semelhante, os indivíduos apenas se podem sentir estimulados se o meio lhes oferece uma gama de sensações rica e variada.14 Gordon Cullen, através do desenvolvimento do conceito de visão serial15 considera: O cérebro humano reage ao contraste, isto é, às diferenças entre as coisas (…). Neste caso a cidade torna-se visível num sentido mais profundo; anima-se de vida pelo vigor e dramatismo dos seus contrastes. Quando isto não se verifica ela passa despercebida, é uma cidade incaracterística e amorfa.16 Manuel de Sola-Morales ao referir-se à epiderme das cidades contribui de forma mais significativa para entender e ler as diferenças que existem na cidade. Deste modo, a atratividade da cidade poderá ser a incoerência (relativa), inesperada (para a epiderme) de uma medianera, de um terraço, de uma sombra obscura, de um pátio tranquilo.17 A cidade, não a constituem os edifícios, os objetos urbanos, mas a relação entre os objetos, entre as experiências dos objetos urbanos. Como adicionar ou derrubar, ou manter. Como fazer pedaços, magníficos, de cidade. É necessário contar com: permanências, adições, transformações.18 Pelo seu caráter efémero, a medianera enquadra-se na categoria dos elementos insignificantes da cidade, condição que inibe uma reflexão sobre o modo como se pode realizar a sua manutenção e de certa forma potenciar a sua imagem. Contudo, a posição, a dimensão, a forma e, acima de tudo, a sua cadência e ritmo alteram o valor da medianera para a cidade, que se assume como elemento de contraste e diferença no espaço urbano. O seu valor de limite do edificado deve ser considerado como uma qualidade da cidade. 14 RAPOPORT, Amos - Aspectos humanos de la forma urbana: Hacia una confrontación de las Ciencias Sociales con el diseño de la forma urbana. Barcelona: Gustavo Gili, 1978. P.226/227 15 CULLEN, Gordon - Paisagem Urbana. Lisboa: Edições 70, 1984. [1964] P.19 A progressão uniforme do caminhante vai sendo pontuada por uma série de contrastes súbitos que têm grande impacto visual e dão vida ao percurso (como a leve cotovelada que se dá ao vizinho que está prestes a adormecer na missa). 16 Ibidem. P.11 17 SOLÀ-MORALES, Manuel - De Cosas Urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. P.138 18 Idem. É a matéria da epiderme urbana a que nos ensina as suas características e as suas diferenças, o peso, a forma, a textura e o formato. A sua morfologia e a sua tectónica. Mas há que olhá-las com insistência, com suficiente atenção para que nos revelem, como já explicava Jacques Derrida, as suas respostas escondidas, as suas cavernas.19 Face à sua dimensão e preponderância na imagem da cidade é necessário uma particular atenção ao modo de resolver, apropriar ou valorizar a medianera. Ressaltando uma carência na consideração e discussão da temática seria necessário incorporar este fenómeno de forma refletida na imagem da cidade, contribuindo para novas caracterizações do existente, não o destruindo, mas intensificando as suas características.20 1.2.2 O valor compositivo e plástico21 | Dada a preponderância que a parede medianera detém face ao perfil da rua, esta é explorada, sobretudo, através da sua utilização como telas publicitárias ou de campanha política. A medianera é o modo de exposição de forma favorável da informação sobre a mensagem ou produto que representam, a par dos letreiros que se inclinam sobre o percurso pela sua posição, perpendicular a (este) e à beira dele, por sua escala e às vezes sua forma.22 Contudo, e como constata Bea Goller, as medianeras, além desta finalidade referida, poderiam efetuar o cruzamento entre a arte, a imaginação, e a vida quotidiana visto serem o suporte ideal para qualquer comunicação de tipo cultural, social, mais longe que outra arquitetura, do puramente construtivo, 19 SOLÀ-MORALES, Manuel - De Cosas Urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. P. 23-28 20 GREGOTTI, Vittorio - Território da Arquitetura. São Paulo: Perspectiva. 1994. [1972] P.83 Kennet Browne, mas especialmente Gordon Cullen, Jean Nairn e alguns outros, dentro do grupo de estudos apresentado na revista inglesa Architectural Review nos anos 50, atribuem à intervenção tarefas de restituição, feita de relações percetivas entre outras, em que o objetivo está voltado para o problema da linguagem, do ambiente total, da sua sintaxe e da sua morfologia. 21 Em conversa com o professor Rui Pinto na FAUP, em Novembro de 2014, este enalta o valor absoluto, estético, plástico e compositivo de uma parede medianera através da noção de escala e proporção. 22 VENTURI, Robert; IZENOUR, Steven; BROWN, Denise Scott – Aprendiendo de Las Vegas: el simbolismo olvidado de la forma arquitectónica. Barcelona: Gustavo Gili, 2013. [1977] P.62 22|23 Capítulo I. A Medianera #9 | Wim Wenders, Wall in Paris, Texas, 2001. #10 | Peter Downsbrough, Unité de la Rennes: Art dans la ville, 1990. #11 | Gabriele Basílico, Buenos Aires, 2001. dando desta forma, lugar a inúmeras ações e colaborações com artistas ou profissionais gráficos,23 valorizando assim a imagem produzida. De acordo com a sua visibilidade, que permite à medianera uma preponderância na imagem da cidade, outras manifestações, de considerável incidência nestas construções, provêm da arte urbana e de instalações artísticas como local de eleição por parte dos seus autores na exposição da sua obra. A proporção24 e escala, que em muitos casos as medianeras chegam a atingir, tornam-se um suporte atrativo pelo tamanho de tela para os artistas.25 A sua presença na imagem urbana permite diferenciá-la, valorizando e potenciando a expressão do artista pela capacidade que este tipo de obras detém na captação da atenção do espetador. Nestes planos surgem instalações temporárias que procuram aproveitar a oportunidade resultante da vontade de dinamizar as medianeras, onde se destacam os trabalhos de Peter Downsbrough, exposto recentemente no museu de Serralves,26 no Porto, e do artista português Alexandro Farto, conhecido regularmente por Vhils, pela exposição individual realizada no museu da eletricidade de Lisboa,27 entre diversos outros no mesmo âmbito. Na fotografia e no cinema, as medianeras surgem direta ou indiretamente pela sua presença em momentos que procuram retratar panoramas urbanos, o fascínio em captar a efemeridade de certo tipo de imagens que procuram representar a cultura em que se encontram. Imagens como a de Wim Wenders, Wall in Paris, Texas (2001),28 ou numa realidade mais próxima ao contexto do estudo a obra de Gabriele Basílico, Scattered City, a par de outros exercícios cinematográficos, demonstram, de forma explícita esta vontade. Existe, deste modo, uma tentativa de apropriação da parede medianera 23 GOLLER, Bea – “Andamios y Medianeras: Laboratorios Urbanos”. In Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme, 1999, nº224, P.92 24 LE CORBUSIER - Hacia una Arquitectura. Barcelona: Apóstrofe, 1998. [1923] XXXII A proporção é uma pura criação do espírito; atrai o plástico. 25 GALI, Beth in OLARTE, Ivan; TEIXEIRA, Luis - Mitgeres Barcelona: de l’oblit al projecte. Barcelona, 2007 26 Exposição ARTquitetura realizada de 05 de Julho de 2014 a 11 de Janeiro de 2015 na biblioteca de Serralves. 27 Exposição Dissecção realizada de 05 de Julho a 05 de Outubro de 2014, a primeira em Portugal de Alexandre Farto de forma individual que reuniu obras que se identificam pela linguagem visual única, através de técnicas de escavação das camadas superficiais da parede. 28 COTTON, Charlotte - The Photograph as Contemporary Art. London: Thames & Hudson, 2009. P.124 24|25 Capítulo I. A Medianera A homogeneidade da grelha permitiu pensar-se como a materialização extrema da suspensão da diferença, tratando-se de uma manifestação relativamente à vontade moderna capitalista de racionalização e controle. A par da expansão horizontal e concentração vertical, os avanços tecnológicos a nível construtivo, permitiram que a construção do edificado pudesse atingir alturas superiores até às então vividas, permitindo a construção de um maior número de vivendas sobrepostas. Aumentou a densidade na ocupação do solo e essa alteração estimulou o valor especulativo nas transações e negócios de imóveis e terrenos. O congestionamento na cidade pela densificação do terreno, permitiu ainda como fator aliciante para os especuladores, o aumento do número de pisos do edificado, valorizando as condições de habitação em altura. Em Manhattan, desde a década de 1870, o elevador foi o principal emancipador de todas as superfícies horizontais sobre o piso térreo, visto que quanto maior é a distância ao solo, mais estreita é a comunicação com o que ainda resta da natureza (o ar e a luz).43 É, então, a princípios da década de oitenta que o elevador encontra, a par da estrutura de aço, capacidades para suster os territórios recém-descobertos sem que ela mesma ocupe espaço.44 Graças ao reforço mútuo destes dois avanços, qualquer edifício poderia multiplicar-se indefinidamente para produzir esta proliferação de superfície útil. A possibilidade de construção em altura e, sobretudo, a necessidade que se pode ter de construí-los em determinada zona, é então para o feliz proprietário no interior dessa zona, uma fonte de lucro desmedido.45 A partir da possibilidade de expansão da cidade produziu-se o máximo de oportunidades de obtenção de lucro. A especulação tornou-se um meio de auferir rendimentos altos que, segundo Mumford, apenas o céu e o horizonte seriam os únicos limites.46 43 KOOLHAAS, Rem - Delirio de Nueva York – un manifiesto retroactivo para Manhattan. Barcelona: Gustavo Gili, 2004. [1978] P.82 44 Idem. 45 AUZELLE, Robert – Chaves do Urbanismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. P.57-59 46 MUMFORD, Lewis – A cidade na história: suas origens, desenvolvimento e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1982. [1961] P.460 1.3.2 A alternância das normativas | O crescimento das cidades caracteriza-se, como verificou Jane Jacobs, por um imenso laboratório de ensaio e erro, fracasso e êxito, para a construção e o desenho urbano.47 São então as destruições48 e demolições, expropriações e bruscas mudanças do uso do solo, assim como especulação e obsolescência, os meios mais conhecidos de dinâmica urbana.49 As entidades que controlam o parcelamento desde as oficinas municipais, que produziram um plano de expansão urbana com um traçado sobredimensionado que gerou uma expetativa desmedida sobre o real crescimento da cidade no futuro imediato, criaram a oportunidade para a especulação. O plano é gerador de especulação, que a suscita imediatamente onde ela não existia, e, o que é ainda pior, levando-a mesmo aos próprios limites da urbanização. Fenómeno que desencadeia especulação marginal na esperança de uma extensão territorial a ser utilizada através de múltiplas pressões junto às autoridades.50 Cada cidade evolui através de modificações da sua forma. As mais simples modificações podem alterar significativamente a dinâmica de crescimento de uma cidade, onde atuam variadíssimas forças de natureza económica e política, que representam as condicionantes dos diversos planeamentos urbanísticos que deixam uma marca na imagem urbana. A sobreposição dos modelos criados na cidade, com origens distintas e diferentes conceções, são visíveis na cidade do presente, através de múltiplas ações parciais.51 A forma urbana é o resultado de uma série de ações: algumas centralizadas, outras coordenadas, outras independentes. A generalidade e 47 JACOBS, Jane – Muerte y Vida de las Grandes Ciudades. Madrid: Capitán Swing, 2011. [1961] P.32 48 GOITIA, Fernando Chueca – Breve História do Urbanismo. Lisboa: Presença, 2006. P.189 A cidade constrói-se dia-a-dia mas não esqueçamos que toda a construção se processa a par de uma destruição, e que tudo na vida, segundo um destino inelutável, tem como pano de fundo uma morte. 49 ROSSI, Aldo - A arquitectura da cidade. São Paulo: Martins Fontes Editora, 2001. [1966] P.4 50 AUZELLE, Robert – Chaves do Urbanismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. P.57-59 51 DIEZ, Fernando - Buenos Aires y Algunas Constantes en las Transformaciones Urbanas. Buenos Aires: Fundación Editorial de Belgrano, 1996. P.166 32|33 Capítulo I. A Medianera #20 | O tecido urbano como o resultado de um sistema de forças ao longo do tempo. #21 | Avenida Cabildo. O tecido segmentado de Buenos Aires. autonomia destas ações são aproximadamente inversas. São mais numerosas e independentes as decisões tomadas à escala do edifício, menos numerosas e menos independentes as que são tomadas ao nível do lote, e ainda menos aquelas que se referem aos quarteirões. Com incapacidade de compreensão dos diferentes tempos da cidade, a alteração das normativas promove irremediavelmente uma ausência de relação entre o edificado, denegrindo de forma geral as condições de habitabilidade e da própria imagem dos edifícios existentes. As alterações aos códigos das normativas urbanísticas encontram- -se vincadas de forma explícita na imagem da cidade através de uma série de depósitos, representadas pelos diversos estratos de sedimentação.52 Estas alterações são as principais causas de exposição da medianera na imagem urbana convertendo-a num facto quotidiano e permanente nas nossas cidades.53 O facto das entidades urbanísticas competentes, através das diferenças de critério,54 divergirem nos diferentes planeamentos e regulamentação do edificado, provocam que as medianeras fiquem à vista, mesmo que não estivessem previstas para isso. A medianera converte-se, assim, em fachada principal, denominada terceira fachada, alterando a hierarquia urbana tendo em conta a visibilidade das construções em espaço urbano. Todavia, a terceira fachada adquire uma importância e preponderância que, na altura do seu projeto e consequente construção não estariam preparadas para assumir.55 52 MUMFORD, Lewis – La cultura de las ciudades. Buenos Aires: Emecé, 1945. P.12 As épocas pretéritas, sobrepondo-se como camadas umas das outras, conservam-se na cidade até que a vida mesma ameace perecer por asfixia. 53 GOLLER, Bea – Andamios y Medianeras: Laboratorios Urbanos. In Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme, 1999, nº224, P.92 54 ACEBILLO, Josep in OLARTE, Ivan; TEIXEIRA, Luis - Mitgeres Barcelona: de l’oblit al projecte. Barcelona, 2007 55 TEIXIDOR, Pepita in OLARTE, Ivan; TEIXEIRA, Luis - Mitgeres Barcelona: de l’oblit al projecte. Barcelona, 2007 34|35 Capítulo I. A Medianera #24 | Cidades em quadrícula segundo a data do seu plano original. #23 | Mies Van der Rohe, Museum for a Small City, 1942. #22 | Alternativas e variedade do volume edificável na quadrícula. 1.3.3 O lote como fator de crescimento | Deve ser em suma um quadro variado de infinitos acidentes; uma grande ordem nos detalhes; confusão, estrépito e tumulto no conjunto. (…) A planta da cidade é distribuída de tal modo que a magnificência da totalidade seja subdividida numa infinidade de belezas particulares, todas de facto diferentes. (...) Deve reinar nela a ordem, mas entre uma espécie de confusão […] e da multidão de partes regulares deve resultar no conjunto uma certa ideia de irregularidade e de caos, que tanto convém às grandes Cidades.56 Pelas ruas e pelo plano57 a cidade conhece permanência, com poucas alterações significativas. A beleza do seu resultado, o que faz legível edificação distinta, apenas se pode compreender através da expressão formal da ordem infraestrutural primogénita,58 que surge representada pelo traçado, capaz de manter a tensão da dialética contínua entre conceito e forma.59 O traçado em retícula, pela capacidade que detém em ordenar o seu traçado viário na relação com a área edificável, similar em cada unidade representada pelo quarteirão, é o principal fator neutralizador que estrutura os diferentes episódios da cidade.60 A forma do traçado possibilita a obtenção de um equilíbrio entre a regra, representada pela matriz como unidade mínima, e a exceção que permite os diferentes acontecimentos dentro do quarteirão. A disciplina bidimensional da reticula cria também uma liberdade inesperada para a anarquia tridimensional. A retícula define um novo equilíbrio entre o controle e o descontrole, segundo o qual a cidade pode ser ao mesmo tempo ordenada e fluida, ou seja, uma metrópole do caos estrito.61 56 TAFURI, Manfredo – Projecto e Utopia: arquitectura e desenvolvimento do capitalismo. Lisboa: Presença, 1985. [1973] P.24 57 ROSSI, Aldo - A arquitectura da cidade. São Paulo: Martins Fontes Editora, 2001. [1966] P.52 58 SOLÀ-MORALES, Manuel - Las formas de crecimiento urbano. Barcelona: Ediciones UPC, 1997. P.20 59 Ibidem. P.22 60 KOOLHAAS, Rem - Delirio de Nueva York – un manifiesto retroactivo para Manhattan. Barcelona: Gustavo Gili, 2004. [1978] P.105 61 Ibidem. P.20/21 36|37 Capítulo I. A Medianera #25 | Plano de Mohenjo-Daro, 3000 a.C. #26 | Plano de Kahun, 2670 a.C. #27 | Plano de Mileto, 470 a.C. #28 | Plano de Timgad, 100. #29 | Plano de Montpazier, 1284. 0250m 050m 060m 060m 050m Na história do urbanismo, são vários os testemunhos de cidades onde é possível identificar o traçado ortogonal como forma de conceber o planeamento urbano e a estrutura de uma cidade a partir de um ponto de vista que privilegia a funcionalidade, como por exeplo em Mohenjo-Daro (3000 a.C),62 em Kahun (2670 a.C),63 nas cidades gregas com destaque para Mileto (470 a.C.),64 nos acampamentos militares romanos como em Timgad (100),65 na fundação de bastides no início da Idade Média como em Montpazier (1284),66 nas cidades fundadas pela coroa espanhola nos descobrimentos, entre outros vários exemplos. Na cidade industrial, o desequilíbrio entre oferta e procura de alojamento abriu caminho à sobreposição dos interesses económicos sobre o equilíbrio montado pelo desenho urbano.67 Os processos de loteamento tornaram-se meros instrumentos de preparação do solo para o investimento e construção. 62 Nas cidades do Indo, onde se destaca Mohenjo-Daro (3000 a.C) como o exemplo mais remoto de uma cidade ortogonal, o plano foi preconcebido e premeditado. A cidade estaria disposta em planta retangular, com três ruas paralelas de dez metros de largura norte-sul e duas de este-oeste, formando bairros de 364 por 182 metros, onde estariam dispostas vivendas retangulares. 63 Nas cidades do Nilo, como em Kahun (2670 a.C.) também é possível constatar o traçado ortogonal, contudo este surge mais como um meio para lograr um fim, o alojamento mais rápido possível para alojar obreiros que tinham a tarefa de construir a pirâmide de Sesostris II. Deste modo a planta é puramente ocasional e circunstancial. 64 O primeiro exemplo de uma grande cidade de urbanismo regular sistematicamente traçado é o de Mileto (470 a.C.) na Grécia. É utilizada uma quadrícula ortogonal para o tecido residencial, mas essa grelha não é utilizada nos espaços públicos e centrais, embora alguns destes ocupem a totalidade de um quarteirão. Esta quadrícula sobrepõese indiferentemente à topografia, obrigando à construção de terraços e plataformas. Na parte setentrional da cidade, os quarteirões de 20,75 metros por 17,70 metros tinham menores dimensões que na meridional 51,60 metros por 29,50 metros. 65 Nas conquistas militares, os campos romanos eram estabelecidos em estrutura ortogonal por razões fundiárias, pela facilidade de construção e utilização da mão-de-obra. O castrum era dividido através de duas ruas axiais, o decumanus e o cardo; no encontro destas artérias surgia o acampamento militar de maior importância, sendo ocupado posteriormente com o fórum. Os grandes edifícios e espaços públicos integravam-se no sistema de quadrícula, ocupando por vezes vários quarteirões mas sem interromper os traçados que os delimitavam. Um dos exemplos que melhor reflete o sistema de traçado adotado é o de Timgad (100 d.C.), com forma quadrada de 350 metros de lado e doze hectares de superfície, onde surgiam 11 ruas em cada direção, formando insulae quadradas de 21 metros de lado. 66 No início da idade média é possível descobrir o traçado regular e geométrico, com o retângulo como base da subdivisão, na fundação das bastides ou cidades novas. Umas das bastides mais perfeitas quanto à regularidade do plano é a de Montpazier (1284), que contava com 4 ruas com direção este-oeste três ruas norte-sul, formando vinte quarteirões, um deles reservado para um mercado, com parcelas residenciais de 7 metros de frente por 22 metros de profundidade, nas ruas de 6 metros de largura. 67 GOITIA, Fernando Chueca – Breve História do Urbanismo. Lisboa: Presença, 2006. P.20 Graças à quadrícula, o aproveitamento dos terrenos era máximo, e a importância igual das ruas fazia com que todos fossem igualmente valiosos. (…) Não era já a quadrícula dos ideólogos nem dos colonizadores, mas sim a dos traficantes de solos 38|39 Capítulo I. A Medianera #31 | Wallace K. Harrison, A Cidade da Luz. Pavilhão da empresa Consolidated Edison na feira mundial de Nova Iorque, 1939. #30 | A expansão ilimitada da cidade através da quadrícula. Plano de Great Falls, 1891. Surgia, então, uma nova espécie de ordem urbana, na qual os negócios tinham precedência sobre todas as outras espécies de atividades.68 O traçado em retícula surgiu para ser ilimitado, para se estender quarteirão após quarteirão, em direção ao exterior, à medida do crescimento da cidade, independentemente do local. A ausência de adaptações mais específicas por parte do desenho à paisagem e à escala do ser humano, apenas aumentou através da sua indefinição a sua utilidade geral para a troca. A estrutura reticular caracteriza-se como o diagrama do poder absoluto do mercado;69 qualquer departamento municipal, ou qualquer negociante de terrenos, poderia efetuar o parcelamento e avaliar matematicamente o seu futuro rendimento, em que o lote de edificação individual se tornou a unidade fundamental. | O Commissioner’s Plan de Nova Iorque Em Nova Iorque, a povoação original estabeleceu-se na parte sul da ilha no século XVII70. Contudo, face ao rápido crescimento da cidade e à necessidade de higienização, considera-se o crescimento da cidade para norte. O Commissioner’s Plan de 1811 propunha para os 3,5 por 21,5 quilómetros da ilha de Manhattan uma retícula absolutamente uniforme, baseada em 12 avenidas de 30 metros de largura com direção norte-sul e 155 ruas com direção este-oeste com 18 metros de largura. O traçado deste modo definia quarteirões de 60 por 240 metros a oeste e 60 por 127,5 metros a este, com lotes de 7,5 por 30 metros. Os edifícios deveriam ter pelo menos três pisos nas avenidas e dois pisos nas ruas.71 Este plano não fazia caso à topografia, não previa uma proporção 68 MUMFORD, Lewis – A cidade na história: suas origens, desenvolvimento e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1982. [1961] P.458 69 SENNET, Richard – The conscience of the eye: the design and social life of cities. London: Faber and Faber, 1990. P.60 A grelha era um espaço de competição económica na qual se jogava como sobre um tabuleiro de xadrez. 70 KOOLHAAS, Rem - Delirio de Nueva York – un manifiesto retroactivo para Manhattan. Barcelona: Gustavo Gili, 2004. [1978] P.17 Descoberta em 1609 por Henry Hudson representando a Companhia Holandesa das Indias Orientais, Manhattan foi colonizada à imagem do urbanismo realizado na época na Holanda, de uma maneira relativamente desordenada face às condicionantes geográficas da ilha. 71 MORRIS, A. E. J. – História de la forma urbana: desde sus origenes hasta la revolución industrial. Barcelona, Gustavo Gili, 2007. [1979] P.415 40|41 Capítulo I. A Medianera #42 | Comparação dos quarteirões de Nova Iorque, Barcelona e Buenos Aires, respetivamente. #41 | Le Corbusier, comparação de Buenos Aires a Nova Iorque. Embora o quarteirão de Buenos Aires se assemelhe, na sua forma e dimensão, ao quarteirão de Barcelona, a ausência de um plano de expansão não permitiu um parcelamento adequado à evolução do edificado. A área inicial construída ocupava o centro do quarteirão, apesar de tentativas de alteração deste fenómeno.82 A cidade nunca conseguiu desenvolver um interior de quarteirão livre que permitisse melhores condições de salubridade e de iluminação às habitações. A densificação do edificado ao nível do quarteirão em Nove Iorque, face à necessidade de crescimento em altura, realizou-se através da expropriação e justaposição do loteamento. Todavia, em Buenos Aires, as condicionantes do parcelamento iniciais mantiveram-se. Como constata Adrián Gorelik, existiram diversas tentativas de modificar os sistemas de expropriação em favor de uma maior flexibilidade para a reforma urbana,83 contudo essas tentativas foram muito pontuais,84 cuja responsabilidade se deve à inércia dos órgãos municipais na renovação do edificado, e às pretensões dos especuladores dos terrenos que viam na dimensão mínima do parcelamento uma margem de lucro superior. A liberalização da construção aproveitada pelo poder especulativo, que advém do seu traçado em matriz ortogonal, e a constante alternância de normativas de edificação durante o século XX, impulsionaram o aumento progressivo da densidade na cidade de Buenos Aires. A convivência entre a permanência e a mudança do construído, em Buenos Aires, caracteriza-se pela inconstância ao nível de cércea do edificado, no interior de um mesmo quarteirão. Existindo um edifício com altura superior em dois lotes contíguos, é criada, inevitavelmente, uma parede medianera, pelo que, face às condicionantes do parcelamento, surge em quantidade assinalável nesta cidade. 82 Referência ao Código de Edificação de 1944, explorado no Capítulo II, na evolução do edificado de Buenos Aires. 83 GORELIK, Adrián - La grilla y el Parque: Espacio Público y Cultura Urbana en Buenos Aires. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes, 2005. P.42/43 84 Referência às expropriações realizadas para a abertura das Avenidas de Mayo e 9 de Julho, no final do século XIX e ínicio do século XX, respetivamente. 48|49 EM BUENOS AIRES Capítulo II. Em Buenos Aires #1 | Plaza de Mayo com Cabildo original, 1867. 2.1 HISTÓRIA E MORFOLOGIA | As duas fundações de Buenos Aires Recordo uma gravura de Buenos Aires, da época da fundação. Também aí não há figuras, a paisagem é inóspita: alguns edifícios, um palácio e uma igreja poisados num chão de terra, detritos, uma ou outra árvore – o nascimento de uma cidade maravilhosa.85 Os navios de Pedro de Mendonza, ao serviço da coroa espanhola, chegaram à ilha de San Gabriel frente à atual cidade uruguaia Colónia de Sacramento, em 1536. Após o reconhecimento de ambas as margens do rio, foi decidido estabelecer um porto e um pequeno assentamento na margem sul do rio. A sua localização, numa planície limitada a este por uma barranca, que se elevava entre oito a doze metros sobre a costa pantanosa do Rio de la Plata, estaria nas proximidades do Riachuelo86 atual Parque Lezama, que teria aproximadamente um hectare de superfície. Este assentamento foi batizado como Santa Maria del Buen Ayre em 2 ou 3 de Fevereiro de 1536.87 Contudo, a 24 de Junho de 1536, foi invadida pelos indígenas querandíes88 que incendiaram barcos e casas, pelo que, em 1541, foi ordenado aos escassos soldados restantes a retirada para Assunção, nesse tempo a única cidade permanente e estável da região. A 11 de Junho de 1580, Juan de Garay envia sessenta e três homens, maioria de filhos nascidos na América,89 por terra e mar, para fundar novamente Buenos Aires como cidade da Santisima Trinidad y Puerto de Nuestra Señora de los Buenos Aires. O sítio eleito foi praticamente o mesmo, a umas centenas de metros a norte da primeira fundação, atual Plaza de Mayo, evitando assim possíveis inundações e contribuindo como elemento defensivo. O traçado desenhado por Garay com base no modelo de cidade 85 SIZA VIEIRA, Álvaro - 01 Textos. Porto: Civilização, 2009. P. 223 86 Pequeno caudal de água que desagua no rio de la Plata e que atualmente define a sul o limite da Capital Federal de Buenos Aires. 87 Tanto a data da ocorrência como o próprio local carecem de dados com exatidão pelo que são uma estimativa partilhada pelos historiadores deste facto. 88 Índios que viviam de forma nómada na região de Buenos Aires. 89 MOLINA Y VEDIA, Juan - Mi Buenos Aires Herido: Planes de Desarollo Territorial y Urbano (1535-2000). Buenos Aires: Ediciones Colihue, 1999. P.65 52|53 Capítulo II. Em Buenos Aires #2 | Buenas Aeres, gravado em cobre, 1599. #3 | As fundações de Pedro de Mendonza, 1534, e Juan de Garay, 1580. #4 | Juan Fontana, As fundações de Buenos Aires, 1999. hispano-americano é composto por nove quarteirões, de este a oeste, e dezasseis quarteirões, de norte a sul, com um total de cento e quarenta e quatro quarteirões de cento e quarenta varas (121,24 metros) de lado, separadas por ruas de onze varas de largura (9,526 metros).90 Garay colocou cada coisa no seu lugar e destinava um lugar para cada coisa,91 ao reservar um quarteirão para Plaza Mayor onde se localizavam as instituições mais importantes como o Cabildo,92 a prisão, a igreja maior e a casa do governador. Os quarteirões mais próximos foram divididos em quatro lotes de 62 por 62 metros e os mais afastados em dois ou três lotes ou mesmo sem divisão. A subdivisão dos terrenos aumentava à medida que também aumentava o valor da terra, devido à proximidade destes ao centro da cidade, até chegar a lotes mínimos com a medida de frente de 10 varas (8,66 metros).93 A escolha deste local deveu-se à sua posição estratégica, próximo da foz do rio de La Plata. Com as suas dimensões e localização, era propício ao comércio com as províncias do interior, Tucumán, Assunção e Alto Perú, com Espanha. À coroa espanhola interessava controlar o rio de La Plata de qualquer invasão através, essencialmente, do Oceano Atlântico. Só o podia fazer ocupando o território e fixando povoadores, sendo por esse motivo fortificada a partir de 1594. Buenos Aires tornou-se, assim, no esquema territorial espanhol, chave de uma rede estratégica de cidades, ponto de transferência de cargas.94 Este facto determinou o futuro histórico da cidade. | A cidade colonial (Séculos XVII e XVIII) Buenos Aires viveu de um grande isolamento até meados do século XVIII. Condenada a ser um porto encerrado face ao monopólio estabelecido por Espanha que beneficiava os comerciantes de Lima na intermediação com as metrópoles comerciais da Europa. Sem recursos minerais próximos e sem 90 GUTMAN, Margarida; HARDOY, Jorge Henrique - Buenos Aires 1536-2006 – Historia Urbana del Área Metropolitana. Buenos Aires: Infinito, 2007. P. 31 91 MOLINA Y VEDIA, Juan - Mi Buenos Aires Herido: Planes de Desarollo Territorial y Urbano (1535-2000). Buenos Aires: Ediciones Colihue, 1999. P.13 92 O Cabildo de Buenos Aires, desde 1580 a 1821, funcionou como a entidade máxima municipal, de administração pública, judicial e económica, representando os interesses da coroa espanhola na cidade. 93 PANDO, Horacio Jorge - Historia Urbana de Buenos Aires: 1536-2007. Buenos Aires: Diseño, 2014. P.139 94 MOLINA Y VEDIA, Juan - Mi Buenos Aires Herido: Planes de Desarollo Territorial y Urbano (1535-2000). Buenos Aires: Ediciones Colihue, 1999. P.53 54|55 Capítulo II. Em Buenos Aires #5 | D. Joseph Bermudéz, planta da cidade de Buenos Aires com o seu castelo, terrenos e parte do rio de La Plata que lhe pertence, 1708. #6 | Plano da cidade e praça da S. S. Trinidad Puerto de S. Maria de Buenos Aires. Anónimo, 1782. #7 | Plano topográfico da cidade de Buenos Aires, 1840. povoação indígena, Buenos Aires estagnou durante quase cento e cinquenta anos desde a sua formação. A única riqueza que encontrava saída através do pequeno embarcadouro que se começava a formar no Riachuelo, eram os couros e a gordura da criação de vaca e cavalo. A escolha do Riachuelo respondia, sobretudo, a razões de segurança, uma vez que as suas características físicas garantiam uma melhor proteção às embarcações, vítimas constantes de tentativa de extorsão de mercadoria. A necessidade de parar o avanço estrangeiro na zona, principalmente pela chegada dos portugueses à margem oriental do rio em Colónia de Sacramento, e de evitar o contrabando que enfraquecia os interesses da coroa, criava-se, em 1776, o Virreinato de la Plata,95 sendo Buenos Aires a capital. A partir desta decisão, a cidade experimentou um importante crescimento comercial e demográfico, passando Buenos Aires de uma posição marginal para uma posição marcante dentro da colónia. Até finais do século XVIII, as ruas da cidade caracterizavam-se por uma arquitetura homogénea, formada por simples fachadas de casas de um só piso, com paredes de tijolo caiadas e cobertura de telha. As casas do centro eram amplas e encontravam-se bem conservadas. Estruturavam-se em torno de pátios, estabelecendo a hierarquia dos espaços da casa e, consequentemente, dos seus ocupantes. | A cidade republicana (1810-1880) Em 1806 um acontecimento importante antecipou a independência da Argentina; a vitória sobre as tropas inglesas que tentaram invadir Buenos Aires.96 Aproveitando o facto da coroa de Espanha estar sob a soberania das tropas francesas (quando do império) lideradas por Napoleão Bonaparte e motivados pela vitória sobre os ingleses, em 1810, a Revolução de Maio 95 Entidade territorial criada pela coroa espanhola que continha os territórios atuais da Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai, bem como área do sul do Brasil, norte do Chile e sudeste do Perú. 96 MARCOS, Martin - Cuatro claves para descubrir y entender Buenos Aires y su Arquitectura – Primer Encuentro, La Ciudad. Buenos Aires: Museo de Arquitectura y Diseño, 5 de Março de 2015. Deveu-se essencialmente a dois fatores: a pouca profundidade do rio que obrigava as tropas inglesas a desembarcar a uma certa distância do destino de ataque e prosseguir por terra, evitando assim o ataque através dos canhões dos navios; e a forte consolidação do edificado em relação à rua que criava uma espécie de muralha a partir da qual a população local atacava as tropas invasoras através dos terraços dos edifícios. 56|57 Capítulo II. Em Buenos Aires #17 | A elevada densidade de edificado da cidade de Buenos Aires. #14 | Processo de expansão da mancha urbana de Buenos Aires no período 1950-2000. Expansão anterior a 1947 Expansão entre 1947-1972 Expansão posterior a 1972 #15 | Frente de rio da cidade em Retiro. #16 | Visita de Le Corbusier a Buenos Aires, 1929. Nas últimas décadas surgiram outros fenómenos de referência à cidade norte-americana com a incorporação dos primeiros edifícios altos escalonados, e grandes espaços abertos e de transporte rodoviário,113 bem como a fuga da população para terrenos privados denominados barrios cerrados114 com a perspetiva de maior segurança da família e consequente melhor qualidade de vida.115 Em contrapartida, aumenta a desigualdade social da cidade com o aumento das villas miseria, incrementadas com a crise vivida no país em 2001, situadas essencialmente ao longo das linhas férreas e do percurso do Riachuelo, compostas por residências de imigrantes com condições insuficientes de higienização e salubridade.116 Um terço dos 40 milhões de habitantes da Argentina, cerca de 13 milhões, reside na Província de Buenos Aires. O centro da metrópole obteve autonomia política em 1994, designando-se Ciudad Autónoma de Buenos Aires e possui cerca de 3 milhões de habitantes e uma densidade populacional de cerca de 15 800 habitantes/km². 113 LETEMENDIA, Sebastián - Buenos Aires: el escenario urbano. Buenos Aires: Letemendia Casa Editora, 2003. P.29. Buenos Aires nasceu como assentamento colonial, cresceu com estilo europeu e está em processo de norte americanização. 114 Condomínios fechados, onde vigoram diferentes normas, localizados essencialmente na periferia, que se caracterizam pelo isolamento através da restrição de entrada e do limite criado pela construção de muros. 115 MUXI, Zaida - La Arquitectura de la Ciudad Global. Barcelona: Gustavo Gili. 2004. P.67. Nas cidades latino-americanas, onde a inseguridade é de toda índole, económica, física, laboral e social, impõem-se o modelo da fuga da realidade e do isolamento. Quem tem dinheiro para isso, abandona a cidade para se refugiar nos lugares míticos. 116 DAVIS, Mike - Planet of Slums. London: Verso, 2007. P.39 64|65 Capítulo II. Em Buenos Aires #18 | Avenida Santa Fe com Riobamba. 2.2 EVOLUÇÃO DO EDIFICADO O solo de Buenos Aires está dividido em lotes estreitos e com pouca superfície. Isto reduz o tamanho dos edifícios ao mesmo tempo que os multiplica e os diversifica, gerando deste modo um cadastro vivo, em constante movimento.117 A cidade de Buenos Aires é caracterizada por uma enorme variedade de edifícios de vivenda. Ao contrário das cidades europeias, principal referência para a arquitetura realizada na cidade porteña, em que a sua formação foi realizada ao longo de vários séculos, Buenos Aires efetuou o seu crescimento num curto período de tempo. Face a isto, um tipo ou modelo de edificado não teve capacidade de consolidação pois o perfil da rua alterava-se rapidamente com as novas influências e mão-de-obra que chegava à cidade. Compreender a evolução tipológica do edificado permite entender a imagem atual da cidade e a razão da existência de pátios de ar e luz cuja higienização permanece em débito e a partir dos quais se debruçam vários compartimentos das casas. Outros ainda permanecem encerrados provocando a abertura de janelas, ilegais, nas medianeras. A evolução do edificado varia à medida que a densificação da cidade vai produzindo a redução do número e tamanho dos lotes disponíveis, provocando depois, a densificação em altura originando o edifício de vivenda plurifamiliar. Em termos gerais, a evolução do edificado divide-se em quatro períodos como enumera Fernando Diez: o primeiro deve-se à densificação na horizontal e extensão dos limites da cidade e ocorre desde a fundação até finais do século XIX; o segundo momento dá-se através da densificação na vertical de finais de século XIX a 1944; O terceiro situa-se a partir dessa data até finais do século XX, caracterizando-se por sucessivas tentativas de dirigir o processo de densificação através de modelos edificatórios promovidos pelas próprias normas de edificação; e por último, desde a década de 90 até ao presente, quando se tenta corrigir algumas dificuldades causadas pelos regulamentos, sem significado concreto no conjunto normativo existente.118 117 ADAMO, Sebastián; FAIDEN, Marcelo - Buenos Aires, una descripción elemental. In Circo, nº 197, Madrid, 2014. P.4 118 DIEZ, Fernando in BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009. P.184 66|67 Capítulo II. Em Buenos Aires | Densificação na horizontal Inicialmente, a transformação dos tipos edificatórios é gradual, comandada pelas limitações de espaço que impõe o crescimento populacional da cidade. Os colonizadores espanhóis trouxeram às margens do rio de La Plata uma versão da casa romana estruturada por pátios, com poucas alterações na sua estrutura compositiva. Com algumas variantes entre si, aquele foi o tipo dominante da casa no período colonial. Tratava-se de uma casa com frente contínua sobre a rua e que, através de um grande portal e corredor, dava acesso ao primeiro pátio, rodeado pelos compartimentos principais da casa. Um segundo corredor dava acesso ao segundo pátio, rodeado pelos compartimentos de serviço e cozinha. Esta disposição necessitava de lotes profundos e amplos, considerando o seu desenvolvimento em extensão, ou seja, em planta. O quarteirão quadrado, do traçado de Garay para Buenos Aires é, deste modo, uma resposta totalmente adaptada a esta circunstância tipológica, pois a forma quadrada garantia a maior superfície com o menor perímetro. A partir do século XIX, face à escassez crescente de terra, iniciou-se o processo de subdivisão dos terrenos. A redução dimensional dos lotes culmina na segunda metade do século XIX numa largura de 10 varas (8,66 metros) produzindo uma nova tipologia, a Casa Chorizo (1870-1915). A planta da Casa Chorizo é o resultado da participação visual do eixo da casa colonial de pátios. O acesso da casa sobre a rua coloca-se num extremo da fachada sendo a galeria o elemento principal da casa. De uma grande estabilidade formal e compositiva, foi durante mais de quarenta anos, o referente de uma grande variedade de edificado de vivenda coletiva na cidade, que resultou da necessidade de conservar uma composição que se ajustasse convenientemente às necessidades sociais sobre a vivenda, dentro das limitações que impunha o terreno mínimo. Esta etapa, na transformação do edificado na cidade, foi impulsionada pela densificação no plano horizontal entre 1870 e princípios do século XX. Marca, também, o fim da possibilidade de redução de largura dos lotes como meio de colocar maior número de vivendas no interior dos quarteirões. 68|69 Desta maneira, o processo de densificação desenvolve-se através da diminuição do tamanho da vivenda, alojando várias casas no mesmo lote. Esta operação, denominada de redução-multiplicação funcionou como marco no nascimento da vivenda coletiva na cidade, que consistiu, basicamente, na colocação de maior número de vivendas no mesmo lugar e, deste modo, com progressivamente menores dimensões. As unidades de vivenda reduziram-se a uma mínima expressão e multiplicaram-se tantas vezes quanto possível dependendo da profundidade do lote que dispunham. A primeira manifestação surgiu com a justaposição de duas Casas Chorizo, na Vivienda en Hileras (1890-1940). Esta consistia na sucessão de pequenas vivendas, em que cada uma tinha conceptualmente as características compositivas da Casa Chorizo, acedendo a um pequeno pátio que dava acesso e conexão aos compartimentos principais, através de um corredor sobre uma das laterais do lote. Simultaneamente, iniciou-se também a densificação na vertical, substituindo-se os edifícios de um só piso por dois ou mais pisos. Este processo, chamado de empilhamento, conservou o tamanho e a composição do seu referente, a Casa Chorizo, com mínimas modificações impostas pela colocação dos acessos verticais. O pátio perdeu importância e deixou de ser o elemento funcional determinante da casa uma vez que, com o acréscimo de pisos, perdia- -se a privacidade do pátio no piso térreo. O processo de densificação por empilhamento evoluiu até se iniciar o Edifício Chorizo de Renta (1895-1920), onde se incorporou o elevador que permitiu aumentar o número de pisos, geralmente de cinco, em que o piso térreo ficava reservado para comércio. Os quartos viravam-se para a galeria encerrada com janelas, funcionando como espaço exterior e, sobre o fundo da casa, encontrava-se a cozinha e os sanitários principais e de serviço. Visto que a galeria, nesta situação, tinha uma dupla função: pelo interior permitia a ligação dos quartos com os sanitários, como da área de refeições com a cozinha; pelo exterior permitia a ventilação dos espaços; surgiu como necessário inverter a posição da galeria, convertendo-se num corredor na medianera oposta à do pátio, permitindo que os quartos se abrissem para o exterior, para o pátio de ar e luz. A planta do Edifício entre Medianeras sofrerá uma pressão de uma Capítulo II. Em Buenos Aires #19 | Evolução desde a Casa de Pátios ao Departamento Cajón. Capítulo II. Em Buenos Aires Casa de Pátios (1700-1880) Casa Chorizo (1870-1915) Vivenda em Hileras (1890-1940) Vivenda em Hileras Doble (1900-1945) Vivenda em Hileras de Altos (1900-1945) Departamentos Cajón (1935-1965) Casa Chorizo de Altos (1880-1925) Edificio Chorizo de Renta (1895-1925) Edificio Chorizo de Renta Invertido (1915-1940) Galeria | 1 Sala de estar | 2 Sala de jantar | 3 Quarto | 4 Cozinha | 5 Sanitários | 6 4 6 4 4 2 3 4 4 4 4 4 4 4 2 3 Área de Serviço Área Comum 010m 5 1 1 6 5 6 5 6 5 1 65 4 4 2 2 3 4 4 4 4 4 4 6 6 33 22 11 6 56 1 4 4 4 4 4 4 4 2 3 4 4 65 6 5 65 65 65 1 1 1 1 14 4 4 4 4 4 4 2 3 4 4 6 5 65 65 65 65 1 1 1 1 1 4 4 4 4 4 4 4 2 3 4 4 6 5 65 6 5 6 5 6 5 1 1 1 1 14 4 4 4 4 4 2 4 4 65 1 4 4 5 4 4 4 4 4 4 4 2 36 5 1 6 5 4 2 6 5 4 426 5 6 425 5 6 2 4 6 54 42 5 6 4 2 1 65 6 5 65 65 4 4 4 4 4 4 2 4 4 1 4 4 6 5 6 5 6 5 6 5 6 5 1 1 70|71 redução-multiplicação, isto é, a planta que inicialmente era ocupada por uma única vivenda, ou piso, fraciona-se para dar lugar a dois apartamentos mais pequenos em cada piso. A partir das Vivendas en Hileras, que se caracterizaram pela sua estabilidade, surgiram as Vivendas em Hileras Doble (1900-1940), tratando-se da mesma planta que se espelhou sobre si mesma para ocupar um duplo lote. Esta situação duplicou a largura do corredor, o que permitiu assimilá-lo a uma rua. Evidencia-se a melhoria que a duplicação provocou na iluminação da passagem e dos pátios das vivendas e, com isso, iniciou-se a abertura de janelas para a passagem, o que provocou a alteração da posição dos pátios, agora sobre as medianeras. Esta inversão de posição, somado à situação de ar e luz que se vê reduzido o pátio nos pisos superiores, impediu a sua utilização como distribuidor nestes pisos. O apartamento ficou mais compacto, similar, em planta, ao Edifício de Apartamentos Cajón (1935-1965), que se desenvolveu de modo global por toda a cidade satisfazendo a procura de vivendas económicas deste período.119 | Processo de densificação em altura A densificação na vertical foi potenciada pela utilização corrente do elevador, que a tornou a densificação na horizontal menos apelativa. A oportunidade para transformar tipologicamente o edificado estava criada dada a incapacidade evidente dos pátios iluminarem os pisos inferiores dos edifícios com cinco pisos. O desafio encontrava-se em dar solução à ocupação em altura de um quarteirão quadrado, que tinha sido concebido inicialmente como um sólido ocupado por casas pátio de baixa altura com extensão até ao interior do quarteirão. Multiplicam-se os edifícios de vivenda coletiva em vários pisos, batizados instintivamente como casas de apartamentos - porque se procurava 119 Todos os dados específicos verificados in DIEZ, Fernando - Buenos Aires y Algunas Constantes en las Transformaciones Urbanas. Buenos Aires: Fundación Editorial de Belgrano, 1996.; BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009.; MARCOS, Martin - Cuatro claves para descubrir y entender Buenos Aires y su Arquitectura – Segundo Encuentro, Las Casas. Buenos Aires: Museo de Arquitectura y Diseño, 12 de Março de 2015. Capítulo II. Em Buenos Aires Casa Chorizo Vivenda em Hileras Vivenda em Hileras de Altos Pasaje Vivenda Cajón em Hileras Pasaje de Altos #20 | Geneologia da Vivenda em Hileras. Edificio Chorizo de Renta Edificio Chorizo de Renta Invertido Edificio entre Medianeras Edificio entre Medianeras depois de 1945 Casa Chorizo Vivienda en Hileras Conventillo Chorizo Casa Chorizo Superpuestas CASA CHORIZO O DE 1/2 PATIO CASA CHORIZO DE ALTOS CASAS CHORIZO SUPERPUESTAS EDIFICIO CHORIZO DE RENTA EDIFICIO CHORIZO DE RENTA INVERTIDA EDIFICIO ENTRE MEDIANERAS EDIFICIO ENTRE MEDIANERAS S77 VIVIENDAS EN HILERAS VIVIENDAS EN HILERA DE ALTOS PASAJE PASAJE DE ALTOS VIVIENDAS CAJON EN HILERA EDIFICIO DE DEPARTAMENTOS CAJON EDIFICIO TORRE EDIFICIO TORRE 77 CASA COLONIAL DE PATIOS 1700 1880 1890 1900 1910 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 #21 | Evolução da vivenda plurifamiliar em Buenos Aires. Departamentos Cajón #22 | Cronologia tipológica de vivenda plurifamiliar na cidade de Buenos Aires. 010m 010m 72|73 destacar que, apesar de formar parte de um edifício coletivo, cada unidade estava autocontida, com a sua privacidade assegurada - ou casas de renda - dado que, de forma geral, eram construídas para serem alugadas.120 O regime de propriedade horizontal tornou acessível a vivenda individual a um grande número de proprietários de classe média que então encontraram no conforto de viver em altura um novo estímulo para habitar o espaço doméstico citadino, visto que, no auge da propriedade horizontal, comprar um apartamento era também comprar um estilo de vida mais prático, mais confortável e sobretudo mais moderno.121 O modelo produtivo da propriedade horizontal tornou-se a principal atividade de desenvolvimento profissional e arquitetónico da época, definindo, deste modo, o futuro da arquitetura porteña, marcada pela presença do mercado imobiliário como moderador de hábitos e condutas.122 | Importância das normas de edificação Na segunda metade do século XX um conjunto de regulamentos foram implementados, interrompendo o processo que até então tinha sido desenvolvido pelos arquitetos que projetavam edifícios inovadores, para ser depositados nas mãos dos reguladores que ocupavam as oficinas municipais. Da legislação produzida, o que importa referir para o tema são dois códigos que impulsionaram o edificado em altura em locais de densificação mais baixa: o Código de Edificação de 1944 e o Código de Planeamento Urbano de 1977 (intercedidos pela permissão em 1957 da construção de edifícios torre). Estes códigos não consideraram o decorrer do tempo, limitaram-se a planificar rigidamente a cidade, dentro de uma mesma tendência histórica considerada como eterna.123 120 BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009. P.141 121 LIVINGSTON, Rodolfo - Arquitectura y Autoritarismo. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 1993. P.39 122 ROJAS, Ricardo Fernández - “Taxonomías de la modernidad”. In Revista 2G, nº 65. Barcelona: Gustavo Gili, 2013. P.17 123 SZÉCSI, Alberto - Reciclado de Ciudades: Nuevas Herramientas de Planificación y Diseño Urbano para Intervenir en Ciudades Existentes. Buenos Aires: Nobuko, 2006. P.64 Capítulo II. Em Buenos Aires 1944 1957 1977 #29 | Modelos resultantes da máxima ocupação permitidos pelos sucessivos regulamentos. Na coluna da esquerda os modelos implícitos em cada regulamento; na do centro sobreposição aleatória dos distintos tipos de uma mesma normativa; na direita, sobreposição dos distintos modelos das sucessivas normativas num mesmo quarteirão. #30 | The Archigrams (com adaptação ao tema em questão). agora permitida, pelo descuido com que se tratava a compatibilização entre os diferentes tipos de edificado preexistentes que, pela sua maior exploração do solo, obviamente iam subsistindo. Como o FOT fixava o volume máximo de construção e os edifícios não poderiam ter uma profundidade maior que trinta metros, resultava em edifícios mais altos no centro do perímetro do quarteirão. Por sua vez, como a altura se encontrava relacionada com a distância da fachada ao eixo da rua, os edifícios tendiam a recuar cada vez mais do alinhamento da rua à medida que o edifício se aproximava do centro do quarteirão. O resultado, ainda no hipotético caso que um quarteirão tivesse exclusivamente este novo modelo de edificado, seria a completa destruição do alinhamento do espaço público. Do ponto de vista da forma do espaço urbano, provocou a desmaterialização da rua com o indiscriminado recuo dos edifícios, acumulando variações de altura dos edifícios e descontinuidade do plano de fachadas, ainda com edifícios nas esquinas com menor densidade. Buenos Aires é o resultado de uma soma de documentos legislativos, que tentaram sucessivas correções no tecido urbano. Em linhas gerais, menor FOT apresenta problemas estéticos com o tecido existente, e um maior FOT impulsiona conflitos com os usos gerais e ambientais.129 Esta situação teve a sua máxima expressão nos edifícios que foram construídos a partir de 1944 e também a partir de 1977, cuja influência no tecido se estende à imagem atual, não só pela presença dos seus edifícios, mas também porque determinam uma densidade maior na sua envolvente próxima. De forma geral, nas últimas décadas, existiu uma tentativa de alteração do código em vigor no que diz respeito ao cálculo de fator de ocupação total nas esquinas dos quarteirões. Através do debate arquitetónico promovido pela Sociedad Central de Arquitectos, Clorindo Testa e Mario Roberto Alvarez130 procuraram identificar este problema de modo a permitir a construção do 129 SZÉCSI, Alberto - Reciclado de Ciudades: Nuevas Herramientas de Planificación y Diseño Urbano para Intervenir en Ciudades Existentes. Buenos Aires: Nobuko, 2006. P.171-173 130 DAGNINO, Tomás; BREA, Ana de - Señores Arquitectos… Diálogos con Mario Roberto Alvarez y Clorindo Testa. Buenos Aires: UBROC, 1999. P.195 80|81 Capítulo II. Em Buenos Aires #31 | Lacroze e Luis Maria Campos. Situação típica do tecido em Buenos Aires resultante da sobreposiçao no edificado da máxima ocupação permitida entre 1900 e 1980. 197719441957 #32 | Efeitos da alteração da altura máxima permitida de construção dos códigos 1944, 1957 e 1977. edificado nos lotes de esquina igualando as alturas do edificado contíguo. Ao não aplicar os fatores de ocupação, valorizar-se-ia a imagem destas esquinas, que atualmente espelham uma falha da normativa em vigor. Procuraram-se também atenuar algumas das mais rígidas medidas do regulamento anterior, tais como as relações entre os lados dos pátios. Melhoraram-se algumas situações no que se refere à consolidação do tecido, como sucedeu com as chamadas normas de enrase que permitiram igualar a altura dos edifícios vizinhos.131 Este processo foi interrompido de forma global com a crise que se viveu no país no ano de 2001. Apesar de reformuladas as preocupações da sociedade nos últimos tempos, carece, ainda, a relação complementária entre o existente e o novo, o necessário compromisso entre modernização e preservação ainda não encontrou as normas capazes de fazê-los complementários.132 A heterogeneidade da cidade e do seu tecido edificado não permitem, atualmente, regulamentos com o critério genérico como sucedeu durante o século XX. Só um estudo desenvolvido rua por rua e quarteirão por quarteirão seria capaz de controlar adequadamente o tecido edificado. 131 VERDAGUER, Fernando - Normativa Urbanística III – Código de Planeamento Urbano. Buenos Aires: Universidad de Belgrano – Facultad de Arquitectura y Urbanismo. A norma de enrase, através do recuo do piso superior em relação à rua permitia a construção com densidade superior, respeitando o alinhamento de cércea do edifício contíguo. 132 DIEZ, Fernando in BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009. P.197 82|83 Capítulo II. Em Buenos Aires #35 | A medianera em Buenos Aires. 3.1. A MEDIANERA EM BUENOS AIRES 3.1.1. Atmosferas | Cada cidade tem uma atmosfera própria e quem projeta tem de entender, captar uma coisa que todas as cidades têm, que é uma espécie de vocação da forma, que está escrita através dos séculos.133 A cidade de Buenos Aires apresenta certas características que produzem atmosferas, dado que comunicam com os observadores, habitantes, visitantes e, também, com a vizinhança.134 A sedimentação, a acentuada diferença da imagem produzida pelo piso térreo de uso comercial e os planos superiores de caráter residencial, a alternância de cércea, bem como a edificação dos lotes em esquina permitem identificar Buenos Aires, adquirindo deste modo uma importância considerável na imagem urbana da cidade. O cenário urbano produzido pela medianera ou conjunto de medianeras dão conta da presença e convivência de diferentes atmosferas que se vivem na cidade. Face ao desenvolvimento através do lote como unidade de crescimento, esta característica, apesar de não ser exclusiva desta cidade, ganha em Buenos Aires uma importância considerável pela quantidade de manifestações no espaço urbano. | Sedimentação Buenos Aires é um museu de diversas épocas da arquitetura reunidas na mesma cidade.135 A cidade, ao longo da sua história, sofreu, de forma constante, uma influência internacional, maioritariamente europeia, com referências norte- -americanas nas últimas décadas do século XX, que identificam a sedimentação 133 SIZA, Álvaro in CRUZ, Valdemar – Retratos de Siza. Porto: Campo das Letras, 2005. P.61 134 ZUMTHOR, Peter – Atmosferas: entornos arquitectónicos – as coisas que me rodeiam. Barcelona: Gustavo Gili, 2006 P.7 135 Conversa com Alberto Petrina durante a frequência da disciplina Arquitetura Argentina realizada no ano letivo 2013/2014 na Facultad de Arquitectura, Diseño y Urbanismo de Buenos Aires 84|85 Capítulo II. Em Buenos Aires #34 | Sedimentação. como uma das suas características. Atualmente, essa influência ainda se verifica nos costumes da sua população, e que está de forma explícita na arquitetura da cidade. A semelhança com as realidades internacionais leva Gorelik a afirmar que Buenos Aires é uma cidade da Europa Latina, que poderia ser como Paris, sem dúvida… não fosse pelas malditas linhas retas do seu plano quadriculado.136 Também Carlos Fuentes considera este facto quando escreve que os mexicanos descendem dos aztecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos,137 para explicar que um país de imigração europeia só pode produzir arquitetura de igual inspiração. As referências internacionais devem-se, sobretudo, à mão de obra imigrante que ao longo da história da cidade chegou ao porto de Buenos Aires com esperança de melhore qualidade de vida, e à vontade de construção da cidade à semelhança das capitais europeias que serviam como referência. Na contemporaneidade, a edificação recente, de maior densidade, convive com o edificado mais antigo, pelo que, face à diferença de altura entre estes, produz um impacto considerável prejudicando os edifícios que perduraram ao longo da história da cidade. A supressão de luz e de perspetiva impossibilitam que estes adquiram uma importância urbana equivalente à qualidade patrimonial da sua arquitetura. Esta caraterística, apesar de criticável, enriquece a heterogeneidade e dinâmica da cidade de Buenos Aires. | O contraste de uso comercial e residencial Ao percorrer diferentes avenidas da cidade, verifica-se um contraste explícito entre o piso térreo de uso comercial e os pisos superiores de uso residencial. O plano do piso térreo constitui-se de um contínuo de estabelecimentos comerciais que produz uma imagem contaminada através da difusão publicitária, 136 GORELIK, Adrián - Miradas sobre Buenos Aires: historia cultural y critica urbana. Buenos Aires: Siglo XXI Editores Argentina, 2004. P.89 137 LARRAÑAGA, Maria Isabel de; PETRINA, Alberto - “Arquitectura e identidad en la Argentina” in TOCA, Antonio - Nueva Arquitectura en América Latina: presente y futuro. Naucalpan: Gustavo Gili, 1990. P.168 86|87 Capítulo II. Em Buenos Aires #35 | O contraste de uso comercial e residencial. onde cada espaço comercial chama a atenção para sobreviver e prosperar,138 e da afluência de pessoas, que diariamente utiliza esses mesmos espaços, provocando um tráfego desmedido. Nos pisos superiores de caráter residencial possibilita-se a perceção da identidade do edifício, dado que apenas com o piso térreo, esta surge de forma deturpada e não corresponde ao verdadeiro caráter dos edifícios porteños. A valorização do afastamento em altura em relação ao plano da rua é, portanto, uma realidade. À medida que o indivíduo se aproxima do topo do edifício mais se separa da complexidade de acontecimentos reinantes no solo que nesta cidade, de forma geral, é conotada de forma negativa. A opção pela habitação nos pisos superiores intensifica-se. O mercado imobiliário aproveita esta consideração como fator aliciante de distinção social e qualidade de vida. Senhoras e senhores, desde o coração da cidade pode-se ver o rio (…) sob o azul do céu! É um espetáculo grandioso. A 25 metros, em Buenos Aires, o ar é seco. (…). Muitos dos que trabalham no centro da cidade, poderiam escapar a esta estufa, respirar de forma sã e ver o rio.139 | A alternância de cércea do edificado A imagem da linha do horizonte da cidade caracteriza-se por um constante recortado em que raras são as vezes em que as cérceas do edificado adquirem uma altura uniforme: os edifícios altos e baixos, os baixíssimos e os muito altos coexistem em companhia contínua e sempre repetida.140 Esta alternância de altura do edificado é atualmente incentivada pelos códigos urbanos da cidade que, na sua história, passou por diversas crises económicas que impediram a consolidação do edificado e que, em épocas economicamente favoráveis, permitiram a construção de vários edifícios com uma altura difícil de igualar. 138 MARTINEZ, Alfonso Corona in BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009. P.209 139 LE CORBUSIER - Precisiones: Respecto a un Estado Actual de la Arquitectura y del Urbanismo. Barcelona: Poseidon, 1978. [1930] P.237 140 ESCARDO, Florencio - Geografía de Buenos Aires. Buenos Aires: Eudeba, 1968. P.35 88|89 Capítulo II. Em Buenos Aires #39 | A passagem do tempo representado nas paredes medianeras. os eixos principais da cidade como um sistema de montanhas e vales, cujos picos de maior altura ou densidade se situam sobre os traçados das infraestruturas.148 É esta proliferação de segmentação do edificado que evidencia as dificuldades de coexistência dos edifícios, afetando de forma recíproca as condições de habitabilidade. Tudo isto contribui para que a imagem produzida na rua, por parte do edificado, seja fragmentada e poliédrica, em vez de um plano teórico, em que os atores que partilham a cena urbana ganham protagonismo sobre os atores principais. Deste modo, os pátios laterais do edificado, também denominados pátios de ar e luz, característicos de Buenos Aires, face à necessidade de construção do programa habitacional numa estreita largura de lote em contraste com o elevado comprimento devido à forma quadrada dos seus quarteirões, sobressaem-se de forma constante incorporando-se no limite da rua. Janelas de lavandarias, roupa estendida, canos de ventilação não previstos, escadas e recuos por vezes mínimos, que retratam o código vigente, permitem constituir de forma pública, junto com as janelas ilegais abertas nas medianeras, uma imagem característica da cidade de Buenos Aires. A medianera tem, por isso, um impacto digno de assinalar em Buenos Aires. Considerada, de forma generalizada, a cidade das medianeras, basta levantar o olhar, para que a imagem urbana captada seja proliferada pela sua presença. Deste modo, no limite, as medianeras acabam por retratar episódios que, em conjunto, formam a evolução da imagem urbana da cidade, são o modo de numa situação de construção e destruição, de crescimento e renovação, representar a história da cidade e das pessoas que aí viveram.149 A qualidade da imagem produzida não é consensual. Se, por um lado, 148 MUXI, Zaida - La Arquitectura de la Ciudad Global. Barcelona: Gustavo Gili. 2004. P.69 149 FORN, Hernán Alvarez - “Medianeras”. In Nuestra Arquitectura, nº 367. Junho1960. P.32 Agora as medianeras ficaram desnudas, radiografadas com certo ar heroico de bombardeio de guerra. Já não ocultam nada: mas sim ostentam com a ingenuidade de um desenho de criança os empapelados das habitações que aí existiram, restos da madeira que cobria o comedor, o sítio fumado da chaminé; o perfil das escadas compensadas, a absurda disposição de níveis, as molduras em importância social decrescente, desde os salões às peças de fundo. (…) A existência destas medianeras é curta. Rapidamente nesse sitio se inicia a construção (…). O betão cresce, as medianeras voltam à sua sombra, e por fim são emparedadas por todo e ficam ali como ressabio orgulhoso para que quando sejam demolidas alguma vez o que se está construindo, reapareçam alegremente mais velhas e mais importantes, quiçá para ser veneradas – se passou tempo suficiente – como curiosidade antiga. 96|97 Capítulo II. Em Buenos Aires #40 | Projeto Duo. A apropriação da medianera para a prática artística. #41 | Monumento ao ataque terrorista à embaixada de Israel em Buenos Aires, 1992. #42 | Soluções para as medianeras. Exercício realizado pelo Conselho Profissional de Arquitetura e Urbanismo CPAU. a proliferação desta imagem é criticada por arquitetos em que se destaca a figura de Rodolfo Livingston, face à exposição dos equívocos na interpretação do desenvolvimento da cidade por parte das diferentes normativas urbanísticas, por outro lado, esta imagem é considerada como um fator de fascínio dada a sua heterogeneidade, bastante mais interessante e variada que as fachadas insípidas e rotineiras que respondem aos restos de decoro da composição das fachadas.150 Clorindo Testa (1923-2013) que disfrutava da luz que inundava o seu estúdio na interseção das Avenidas Callao e Santa Fe, graças aos raios de sol que refletiam nas medianeras próximas, considerava que a sua presença na cidade serviria como um respiro no seio do caos formal de Buenos Aires. Segundo Testa, a medianera pode ser um dos elementos, que ao serem trabalhados, podem valorizar a cidade de Buenos Aires. Deste modo, ao contrário da opinião negativa relativamente a este facto urbano, potencia uma característica dinâmica da cidade que surgiu de uma conjuntura de normativas urbanísticas que o próprio criticou durante a sua prática profissional.151 Estas medianeras, invariavelmente, surgem apropriadas de distintos modos. A posição que ocupa em cada quarteirão varia o grau de perceção em cada caso pelo espetador, sendo os lotes de esquina aqueles que são talvez o máximo expoente desta realidade urbana. Uma das apropriações mais comuns, assemelhando-se de certa forma à ocorrência de forma generalizada noutras cidades, recai sobre a procura de exposição de anúncios publicitários ou campanha política, face à leitura e presença destes planos no espaço público. As práticas artísticas nutrem um interesse particular por este tipo de suporte, como se verifica em alguns exercícios recentes na cidade como a realização do filme Medianeras,152 ou projetos de arte urbana que pretendem reciclar estes muros, como o programa Projeto Duo153 em medianeras do bairro de Palermo através de artistas internacionais. Outro programa atual, mais próximo à prática arquitetónica, surge 150 MARTÍNEZ, Alfonso Corona in BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009. P.210 151 DAGNINO, Tomás; BREA, Ana de - Señores Arquitectos… Diálogos con Mario Roberto Alvarez y Clorindo Testa. Buenos Aires: UBROC, 1999. P.195 Referência à presença do arquiteto e sua opinião no debate arquitetónico promovido pela Sociedad Central de Arquitetos de modo a colmatar lacunas no código de planificação urbana em vigor. 152 TARETTO, Gustavo - Medianeras. Argentina, 2011. (95 min.) 153 LOPEZ, Leo - Proyecto Duo. Buenos Aires, 2015 (2.07 min.) 98|99 Capítulo II. Em Buenos Aires #43 | Fotogramas do filme de Claude Faraldo, Themrock, o cavernícola urbano, 1973. #44 | Gordon Matta-Clark, Conical Intersect, 1975. através da convocatória lançada pelo Conselho Profissional de Arquitetura e Urbanismo para a discussão e análise de diversos exercícios que abordam o tema, onde foram apresentadas distintas respostas de modo a potenciar a imagem da medianera através do espaço urbano.154 Contudo, estas manifestações surgem de modo isolado e, em grande parte, de forma individual, pelo que o impacto na mudança de paradigma da sociedade é praticamente nulo, pois uma tomada de posição de modo a valorizar esta manifestação real carece de debate e reflexão. O modo de apropriação que mais individualiza a medianera acaba por ser realizado pelo habitante através da construção de vãos clandestinos de modo a usufruir de melhores condições nas suas residências, que devido à realidade desta problemática de forma geral na cidade se demonstra de forma comum como manifestação na imagem urbana de Buenos Aires. 2.3.2 A apropriação da medianera através da abertura de vãos | As medianeras (…) refletem a inconstância, as fendas, as soluções provisórias. (…) Para a opressão de viver em apartamentos minúsculos existe uma saída. Uma rota de fuga. Ilegal como todas a vias de escape. Em clara desobediência às normas de planeamento urbano, abrem-se umas minúsculas, irregulares e irresponsáveis janelas que permitem que alguns milagrosos raios de luz iluminem a escuridão em que vivemos.155 Os indivíduos na urbe são condicionados pelos espaços reduzidos, que surgem pela acumulação dos habitantes em gigantescas caixas verticais,156 pelos construtores e especuladores. O sufoco, causado pela ausência de espaço, desenvolve nos indivíduos comportamentos cada vez mais compulsivos em que aumentam os níveis de stress e ansiedade, tal como a irritabilidade, de tal modo que a exigência de espaço não para de crescer na função inversa da sua 154 MONTANER, Berto Gonzalez – “Que se puede hacer con las Medianeras?”. In Clarin, Agosto de 2014. 155 TARETTO, Gustavo - Medianeras. Argentina, 2011. (95 min.) 156 HALL, Edward T. – A Dimensão Oculta. Lisboa: Relógio D’Água, 1986. [1966] P.147 100|101 Capítulo II. Em Buenos Aires #45 | Leon Ferrari, Cidade, 1980. #46 | Antonio Segui, Sugiriendo el Desastre, 2001. (Original, Cuando Pasó el Avión Negro, 1998). disponibilidade.157 Na cidade de Buenos Aires, somado a esta falta de espaço, fruto do aumento da densidade do edificado e da população, é visível a falta de condições de habitabilidade provocadas pela falta de iluminação natural. Tanto os palácios da classe mais alta, as casas de renda da burguesia, como os conventillos da classe mais pobre demonstram a fragilidade dos elementos vitais como o ar e luz, produzindo deste modo homens asfixiados.158 Nesta cidade é constante o stress, a acumulação de estímulos, a massificação, a alienação, a desumanização e a loucura,159 abordadas como tema na obra de dois artistas de grande importância na história da arte argentina, ainda que com consideráveis diferenças expressivas: Antonio Segui e Leon Ferrari. As formas dos edifícios e seus recortes na imagem de Buenos Aires têm sempre um valor simbólico porque são a expressão física de uma realidade social, da mesma maneira que os gestos e a roupa expressam os indivíduos.160 Os edifícios representam em cada um dos seus rasgos os valores e crenças da sociedade, (…) os modos de vida, a organização social, económica e cultural dos seus habitantes.161 Face a esta crise individual e às condições precárias de habitabilidade, os habitantes exercem uma ação pessoal e intempestiva no seu espaço diário. São esses detalhes, marcados de forma muito pessoal, demonstradores de um imenso depósito de fadigas.162 Irremediavelmente, esta ação provoca alterações significativas na leitura da cidade de Buenos Aires, a partir da qual se evidencia a marca provocada pelos seus habitantes no edificado urbano. É a partir da abertura de vãos que os habitantes procuram atenuar as crises pessoais, e é a partir destas manifestações que se constrói a imagem visível da cidade. A cidade é a manifestação da vida que existiu e que há nela, 157 IHALL, Edward T. – A Dimensão Oculta. Lisboa: Relógio D’Água, 1986. P.148 158 LIENDIVIT, Zenda - “La Modernidad en Buenos Aires”. In Contratiempo: revista de pensamiento y cultura – La cultura critica en América Latina, nº2. Buenos Aires, Outono - Inverno 2007. 159 PANDO, Horacio Jorge - Historia Urbana de Buenos Aires: 1536-2007. Buenos Aires: Diseño, 2014. P. 518 160 LIVINGSTON, Rodolfo - Arquitectura y Autoritarismo. Buenos Aires: Ediciones de la Flor, 1993. P.43 161 TELLA, Guillermo [et. al.] - Hacer Ciudad: La Construcción de la Metrópolis. Buenos Aires: Nobuko, 2006. P.15 162 ROSSI, Aldo - A arquitectura da cidade. São Paulo: Martins Fontes Editora, 2001. [1966] P.22 A cidade e a região, (…) tornam-se coisa humana porque são um imenso depósito de fadigas, são obra das nossas mãos. 102|103 Capítulo II. Em Buenos Aires #47 | A abertura de um vão numa parede medianera. consequência do drama da vida quotidiana,163 o produto de muitos construtores que constantemente modificam a sua estrutura porque têm os seus motivos para isso.164 A medianera, como forma de apropriação através da abertura de vãos ilegais, demonstra a brutalidade165 da vida em Buenos Aires. Nela há uma descrença exacerbada e contínua da população relativamente ao respeito pelas leis e normas vigentes no país. A abertura de vãos ilegais espelha uma sociedade em conflito que prioriza o fazer face ao debate, pela extensa burocracia levantada de forma constante pelas entidades fiscalizadoras e políticas que gerem a cidade. Deste modo, quando uma norma pesca o porteño dentro dela, o porteño fará, com segurança, maneira de safar-se ou de anular a norma.166 O código vigente afirma que todas as fachadas ou ornamentos exteriores de um edifício pertencerem ao bem estético da Cidade e que nenhum edifício ou parte dele com frente à via pública poderá contrariar a harmonia do conjunto edificado,167 pelo que estando colocada esta questão relativamente às fachadas, sobre a frente de rua do edifício, e visto que a medianera surge como um alçado não formal, encontra-se aqui uma oportunidade de apropriação pelos seus habitantes de forma anárquica168 e com total despreocupação em relação à imagem que esta ação produz no espaço público. Por isso, o olhar pelas avenidas de Buenos Aires identifica nas medianeras toda uma montra, um catálogo de janelas recortadas de forma arbitrária pelos seus ocupantes, ainda que de forma ilegal. Os habitantes dos apartamentos condenados à ausência de iluminação natural reagem através da abertura da janela ilegal, ou aceitam a obscuridade. Através de janelas culposas um elevado número de famílias tenta capturar algum raio de sol, ou apenas alguma relação visual com o exterior que os alivie da visão 163 DIEZ, Fernando - Buenos Aires y Algunas Constantes en las Transformaciones Urbanas, Buenos Aires: Fundación Editorial de Belgrano, 1996. 164 LYNCH, Kevin – La Imagen de la Ciudad. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. [1960] P. 10 165 TAGLIABUE, Benedetta in OLARTE, Ivan; TEIXEIRA, Luis - Mitgeres Barcelona: de l’oblit al projecte. Barcelona, 2007 166 ESCARDO, Florencio - Geografía de Buenos Aires. Buenos Aires: Eudeba, 1968. P. 98 167 Código de Edificación de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Buenos Aires. 168 KOOLHAAS, Rem - Espacio Basura. Barcelona: Gustavo Gili, 2007. Rem Koolhaas referese à anarquia como uma das últimas maneiras tangíveis que temos de experimentar a liberdade. 104|105 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo #2 | Localização das avenidas Santa Fe e Cabildo na cidade, província, país e continente. Argentina Ciudad Autonoma de Buenos Aires Província de Buenos Aires As Avenidas Santa Fe e Cabildo 03000m Da génese da avenida Santa Fe, a Plaza San Martin, até ao seu término, a Plaza Italia, a consolidação e densificação do edificado é considerável face à proximidade ao centro da cidade. Deste modo, diversas épocas de construção são visíveis nesta parte da artéria e os edifícios referem-se a diferentes códigos de planeamento demonstrando a heterogeneidade como uma das suas principais características. A Plaza Italia surge como momento de distinção na consolidação do edificado, visto que representa o espaço público de maiores dimensões deste eixo. Aí situam-se importantes complexos de apoio à cidade como o Jardim Botânico, o Jardim Zoológico e a La Rural173. Confluem, neste ponto, um número considerável de habitantes e turistas que o permitem considerar dos locais mais importantes de funcionamento da cidade. Na interseção entre a Plaza Italia e uma perpendicular à avenida Santa Fe, surge a avenida Sarmiento, que permite conectar o eixo em análise com os parques públicos de maior dimensão de Buenos Aires, antes de se encontrar com o rio de La Plata, na avenida Rafael Obligado, também conhecida como Costanera Norte174. Durante o percurso em direção ao bairro de Belgrano surgem duas interseções com as vias de caminho-de-ferro, que cruzam de forma perpendicular as avenidas. A partir desta última, o eixo adquire a denominação que se mantém até ao limite da capital federal, avenida Cabildo. A alternância de cércea do edificado é superior nesta área, o que provoca uma maior segmentação na consolidação do tecido urbano. À medida que o afastamento da área central é maior, a altura do edificado, de forma geral, diminui. Esta continuidade é interrompida pontualmente por edifícios de maior dimensão que deste modo adquirem uma escala determinante na imagem desta parte do eixo. O objeto de estudo do trabalho recaiu sobre este eixo, isto é, o conjunto das duas avenidas, pela importância que adquiriram no desenvolvimento da cidade: a presença constante do fenómeno medianera e pelo contraste entre os diferentes momentos referidos ao longo da avenida no que diz respeito à medianera e sua apropriação. 173 Centro de exposições e infraestruturas desportivas onde se realizam eventos díspares com elevado grau de importância para Buenos Aires. 174 Avenida que acompanha o rio de La Plata, construída a partir de 1923 estendendo a área construída em terrenos artificiais sobre o rio. 112|113 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo A Santa Fe A San Isidro El Retiro Plaza Monserrat Plaza Mayor Al Puente de Marquez A la guardia de Luján A Quilmes A San Vicente Puente de Barracas A la Magdalena Camino del Oeste Camino del Bajo Camino a Santa Fe Calle Largo Calle Sola Belgrano Camino del Oeste Floresta Flores Puente Alsina Constitución Puente de Barracas Camino a Quilmes Camino a San Vicente Camino al Puente Alsina Camino a San Martin Camino Real a San Isidro El Retiro Puente Alsina Boulevard de circunvalación propuesto por Alvear en 1882 (trazado aproximado) Limite del municipio hasta 1887 Belgrano Flores La Boca Barracas #3 | Vias e meios de comunicação 1780 | Incorporação de Flores e Belgrano na cidade, 1887 | Vias de comunicação com os limites definitivos, 1887. 03000m 02000m 03000m | Densificação do Bairro Norte Em Buenos Aires, o percurso em direção a norte tem e teve uma importância vital no desenvolvimento da cidade. Desde sempre, as classes mais assalariadas procuraram escapar da densificação da área central, adquirindo terrenos na parte norte da cidade, para colmatar a carência de espaços exteriores das suas residências e ostentar deste modo todo o seu poder económico. Contudo, são três os fatores com maior preponderância na mobilização da população para esta área da cidade que, nos anos finais do século XIX, demonstram a importância do Bairro Norte. O primeiro deve-se ao êxodo de grande parte da população datado de 1871, pela propagação da febre-amarela na zona sul da cidade, que em registos históricos da época indicava que estaria próxima do Riachuelo175. Este foi um dos pontos principais para a discrepância económica e social vivida nessa época pela população argentina que, embora com caráter distinto, decorre ainda nos dias de hoje com a localização dos assentamentos exclusivos de elevada potencialidade económica na faixa norte da cidade e territórios da província adjacentes. O segundo fator de mobilização da população para norte deve-se, em 1874, a Sarmiento, presidente da Argentina à data, quando inaugura o Parque 3 de Fevereiro,176 conhecido vulgarmente como os Bosques de Palermo. Este parque caracterizava-se por um extenso corredor verde dedicado à recreação da população, à imagem dos parques europeus da época, como o Bosque de Bolougne, em Paris,177 visto que nessa época, importantes famílias percorriam as artérias nesta direção ostentando as suas riquezas ao longo das avenidas. O terceiro fator, em 1887, deve-se à cedência do governo da província de Buenos Aires ao governo nacional de uma parte adicional de território para ampliar a capital, através da federalização da cidade de Buenos Aires. Um ano depois, traçaram-se os limites definitivos da atual General Paz e Riachuelo a sul. No momento da ampliação territorial, nos catorze mil hectares anexados, não havia mais de vinte e cinco mil habitantes, e apenas estavam traçados e 175 PUCCIA, Henrique Horacio - Avenida Santa Fe: Ayer y Hoy. Buenos Aires: Fundación Banco de Boston, 1989. P.18 176 Data que comemora a derrota do General Rosas, dono dos terrenos utilizados para a construção do parque. 177 GORELIK, Adrián - La grilla y el Parque: Espacio Público y Cultura Urbana en Buenos Aires. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes, 2005. P.13 114|115 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo #4 | Localização em Buenos Aires das avenidas Santa Fe e Cabildo, bem como dos bairros que estas percorrem. #6 | Plaza Italia, 1912. #5 | Avenida Santa Fe com Riobamba, 1920. Avenida Cabildo Avenida Santa Fe Belgrano Palermo Recoleta Retiro #7 | Avenida Cabildo com Juramento, 1940. 03000m edificados alguns quarteirões dos povoados de Flores e Belgrano, este último criado no ano de 1855. Após cinco décadas, este território encontrava-se completamente urbanizado, sem denotar diferença entre o município original e esta nova área anexada. Neste período, a população da capital ascendeu a dois milhões e meio de habitantes, dos quais, aproximadamente, um milhão vivia nos setores correspondentes ao velho município e um milhão e meio na área recente da cidade.178 Mantém-se associado a este setor da cidade, um movimento contínuo da população que, durante os dias úteis da semana, liga as zonas residenciais a norte com a área de caráter laboral e comercial do centro da cidade. Sendo o setor de ligação aos Bosques de Palermo permite também que, na ausência de compromissos laborais, mantenha um tráfego contínuo e, em consequência disso, confere-lhe uma importância reconhecida ao longo da sua história. | Contexto histórico das avenidas A avenida Santa Fe, denominada Grande Via do Norte, nasceu estreita como muitas outras partindo praticamente do rio e abrindo-se sobre o enorme descampado que se mostrava como tal, inóspito e deserto.179 Atualmente cruza uma parte ricamente urbanizada do bairro de Retiro, e atravessa, em todo o seu cumprimento, os bairros Recoleta e Palermo. A avenida Santa Fe teve como denominação inicial, em 1769, San Gregorio. Em 1808 o Virrei Santiago de Liniers deu-lhe nome de Pio Rodriguez180, e já nessa altura se conhecia como a rua Estreita. Em 1822, Bernardino Rivadavia, mediante um decreto, outorgou-lhe o seu nome atual. A partir deste período, a denominação da avenida é a que melhor corresponde à sua funcionalidade, ou seja, é a avenida que permite alcançar diretamente a Província Santa Fe, de importância vital na história do país, visto 178 GORELIK, Adrián - La grilla y el Parque: Espacio Público y Cultura Urbana en Buenos Aires. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes, 2005. P.14 179 PUCCIA, Henrique Horacio - Avenida Santa Fe: Ayer y Hoy. Buenos Aires: Fundación Banco de Boston, 1989. P.7 180 Cabo reconhecido pela população porteña face ao perecimento de forma heróica na antiga praça de touros contra as tropas inglesas. 116|117 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo que sete anos antes da chegada de Juan de Garay a Buenos Aires, tinha sido fundada pelo mesmo, em 15 de Novembro de 1573, com o nome de Santa Fe de la Vera Cruz, como ponto de importância considerável no percurso entre Assunção e a cidade porteña.181 A avenida Santa Fe, inicialmente percorrida por mulas que em pouco tempo foram substituídas pelo cavalo, figurou como uma das primeiras em que surge o elétrico. Antigo caminho de vinculação com o então periférico povoado de Belgrano consolidou-se no seu caráter residencial e comercial. Segundo o historiador Manuel Bilbao, o caminho de maior importância de conexão à zona norte de Buenos Aires era o chamado caminho a San Isidro, por ser o primeiro povo que atravessava, sendo o seu percurso atual a avenida Santa Fe em toda a sua extensão.182 Foi a partir de 1930 que a avenida incorporou a sua atual fisionomia. Uma parte das anteriores casas, com pouca densidade, e os terrenos desocupados deram lugar a novas edificações que foram adquirindo um traçado mais cuidado e distinto, com todos os avanços da época. A avenida Cabildo, em tempos pretéritos, ostentou o glorioso nome de avenida 25 de Maio. Hoje detém uma denominação intensamente enraizada nos sentimentos argentinos:183 avenida Cabildo.184 Esta entra na parte central do tradicional bairro de Belgrano. Com cerca de cinco quilómetros, estende-se a partir do fim da avenida Santa Fe, uns metros após a passagem em Puente Pacifico, local por onde passa transversalmente a linha de comboio, já com um ritmo mais pausado, mas sempre senhorial, resplandecente e transitada, deixando antever um magnífico futuro,185 e a avenida General Paz que a separa da província. A avenida Cabildo acaba por ser uma extensão da avenida Santa Fe. A 181 LLANES, Ricardo - Biografia de la Avenida Santa Fe. Buenos Aires: Municipalidad de la Ciudad de Buenos Aires, 1978. P.10 182 PUCCIA, Henrique Horacio - Avenida Santa Fe: Ayer y Hoy. Buenos Aires: Fundación Banco de Boston, 1989. P.18 183 Ibidem. P.7 184 Referência ao Cabildo de Buenos Aires, que se utilizava como sede das autoridades do Virreinato do Rio de la Plata.. 185 PUCCIA, Henrique Horacio - Avenida Santa Fe: Ayer y Hoy. Buenos Aires: Fundación Banco de Boston, 1989. P.21 sua densificação concretizou-se ao longo dos anos como um processo natural de uma zona da cidade que, devido ao comércio e tráfego contínuo, despoletou uma especulação imobiliária (desmedida) nos princípios do século XX. Não existem, por isso, dados históricos importantes desta avenida, sendo apenas de considerar, como datas de relevo, aquelas profundamente ligadas à formação do bairro de Belgrano, em 1855, e ao limite da cidade através da General Paz em 1887. A importância deste percurso reside na ligação do Bairro Norte ao centro da cidade, em primeira instância e, também, como via de circulação direcionada para os bairros a norte da periferia alterando-se aí a sua denominação para avenida Maipú já na Província de Buenos Aires. Por razões históricas, morfológicas e sociais, determinou-se a importância de considerar estas duas avenidas em conjunto, uma vez que associadas representam o eixo de maior interesse e fluxo na história da cidade ligadas irreversivelmente à formação do Bairro Norte. 118|119 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo #8 | As avenidas Santa Fe e Cabildo, localizadas na cidade de Buenos Aires e representadas através de planta, corte e axonometria. B A’ 03000m AA’ BB’ B’ A 0 100 500 120|121 La Rural Jardim Zoológico Plaza Italia Jardim Botânico Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo #16 | Bernd e Hilla Becher, Twelve Water Towers, 1978-85. #18 | Horacio Coppola, Medianeras, 1931. #17 | Bea Goller, Medianeras: Laboratorios del Paisaje Urbano. | A imagem fotográfica Apercebi-me então da agudeza das objetivas – em mãos de quem saiba ver – e da sua capacidade de captar o que depois fascina. Estou certo que quando Le Corbusier – ele próprio um fotógrafo, como Picasso, como Brancusi – dizia “des yeux qui ne voient pas”, pensava por oposição, na multiplicada capacidade de ver dos olhos cultivados de um fotógrafo.199 A fotografia é uma representação200 parcial, elaborada e técnica, capaz de proporcionar-nos acesso a estratos da realidade (…) construída e humana, que é a moderna metrópole.201 Vários são os exemplos de trabalhos em torno da fotografia que recolhem sistemática e conscienciosamente, sem preconceitos, com a qualidade e distanciamento de quem melhor sabe ver (descobrir) a singularidade das coisas eruditas ou banais.202 Talvez um dos exemplos com maior número de publicações e que explorou essas singularidades, através da catalogação essencialmente de edifícios e estruturas industriais, pertence ao casal de fotógrafos alemães Bernd e Hilla Becher nos anos cinquenta,203 essencialmente a sua obra Twelve Water Towers, 1978-1985. A aproximação à cidade de Buenos Aires e à realidade a demonstrar, da configuração variável das medianeras, surge pelo trabalho Medianeras, de Horacio Coppola. Fazer, experimentar, olhar204 através da fotografia de modo a registar os objetos e a relação entre estes, acaba por ser o veículo de registo e estruturação capaz de comunicar e transferir o pensamento do autor para o leitor. A fotografia é, assim, o método utilizado para explorar a dinâmica produzida pela heterogeneidade da imagem urbana porteña produzida pelo edificado. A perceção do fenómeno e da sua variabilidade altera-se consoante o ângulo visual e o movimento pelo percurso. 199 SIZA VIEIRA, Álvaro - 01 Textos. Porto: Civilização, 2009. P.183 200 BARTHES, Roland – A câmara clara: Nota sobre a fotografia. Lisboa: Edições 70, 2009. [1980] P.96 A essência da fotografia é ratificar aquilo que representa. 201 SOLÀ-MORALES, Ignasi de - Territorios. Barcelona: Gustavo Gili, 2002. P.183 202 Ibidem. P.305 203 COTTON, Charlotte - The Photograph as Contemporary Art. London: Thames & Hudson, 2009. P.15 204 BARTHES, Roland – A câmara clara: Nota sobre a fotografia. Lisboa: Edições 70, 2009. [1980] P.17 Uma foto pode ser o objeto de três práticas (ou de três emoções, ou de três intenções): fazer, experimentar, olhar. 128|129 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo A amplitude de exemplos presentes nas avenidas e o tempo disponível para a elaboração desta parte do trabalho motivou o registo fotográfico em detrimento do registo à mão através do esquisso. As imagens fotográficas permitiram ainda, um registo célere face a alguma insegurança da cidade, em que a artéria selecionada não surge como exceção. Deste modo, estas imagens carecem de um período de preparação, pelo que o exercício realiza-se com a decisão no momento das medianeras consideradas como exemplares da imagem que se pretende transmitir. A posição da foto na vertical assume a referência direta às Twelve Water Towers, pelo que nos diferentes exercícios se procurou respeitar essa formatação. Os registos fotográficos foram alvo de tratamento, face à captura em momentos com distintas condições de iluminação, de modo a valorizar e potenciar as imagens capturadas. Contudo, assinala-se a ausência de uma manipulação com objetivo de produzir uma imagem equívoca e enganadora da realidade urbana de Buenos Aires. A par da vivência real do espaço urbano e a partir do registo fotográfico, houve necessidade de entender o fenómeno medianera através da leitura de desenhos, plantas e outras produções gráficas existentes da cidade de Buenos Aires. Os desenhos disponibilizados pelo Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires, pelo estúdio Adamo-Faiden e pelos docentes de Proyecto Urbano, Linder- -Iribarne, continham a informação cadastral da cidade de Buenos Aires, com o parcelamento dos vários quarteirões. A ausência da implantação do edificado, bem como do desenho de alçados e secções pelas avenidas Santa Fe e Cabildo, incentivou à produção gráfica complementar, essencial para o entendimento da parte do território em estudo. Foi através do registo pessoal ao nível da rua, complementado pelo desenho gráfico digital, que permitiu uma aproximação à altura do edificado e área de implantação, representados nos cortes, axonometrias e plantas realizados para o trabalho. 130|131 Face à carência de informação sobre a topografia das avenidas e sabendo que a cidade não apresenta um desnível acentuado no território em estudo, optou-se por considerar o plano de terra com ausência de declive. Representa-se a análise em cinco exercícios: a apropriação da medianera por outdoors; a apropriação da medianera pela abertura de vãos ilegais; as diferentes formas assumidas pelas medianeras; a presença da medianera em diferentes densidades de edificação; e o estudo da observação da medianera em movimento. A numeração contínua das fotografias, com cores distintas, surge de modo a uma maior facilidade de correspondência entre a imagem de cada um dos exercícios e a sua localização em planta. A divisão do eixo em três partes nos diferentes desenhos (em planta, alçado e axonometria) permite identificar três momentos de densidade de edificado distintos. Surge representada neste exercício a marcação em planta da amplitude visual do observador. A opção da representação do percurso efetuado no estudo da observação da medianera em movimento, num segmento da planta de forma isolada, permite uma leitura mais simples e clara deste exercício, pelo que apenas se considera a numeração relativa a estas imagens. Para uma melhor leitura do exercício, aconselha-se a manutenção da folha desdobrável aberta até ao término do capítulo. 11 12 13 14 15 16 17 18 28 29 30 31 32 33 34 35 36 47 48 49 50 51 52 53 54 64 65 66 67 68 69 70 71 72 90 89 88 87 86 85 74 73 01 03 05 06 07 08 09 10 02 04 19 20 2221 23 24 25 26 27 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 55 56 57 58 59 60 61 62 63 83 82 81 80 79 78 77 76 75 84 0100 500m 123 321 Área de estudo em movimento. A’ A A-A’ #19 | As diferentes componentes de estudo indicadas em planta, corte e axonometria. 3 2 1 Apropiação por outdoors Apropiação pela abertura de vaõs As diferentes formas Diferentes densidades de edificação Estudo em movimento Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo #20 | A apropriação através de outdoors e da abertura de vãos; As distintas formas das medianeras; A presença em três momentos de diferentes densidades de edificação. A perceção através do movimento pelo centro da rua. 3.3 CASO DE ESTUDO 132|133 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo 01 02 03 07 08 09 13 14 15 #21 | A apropriação através de outdoors. 04 05 06 10 11 12 16 17 18 134|135 Capítulo III. As Avenidas Santa Fe e Cabildo 19 20 21 25 26 27 31 32 33 #22 | A apropriação através da abertura de vãos. 22 23 24 28 29 30 34 35 36 136|137 A ARQUITETURA PORTEÑA Capítulo IV. A Arquitetura Porteña #1 | Da direita para a esquerda, edíficios dos Arqs. Alejandro Virasoro, Mario Roberto Alvarez, Wladimiro Acosta e Jorge Ferrari Hardoy, inseridos no Bairro de Palermo. 4.1 A ARQUITETURA MODERNA ARGENTINA Nos anos trinta, Buenos Aires cobre-se de modernidade. Os arquitetos compõem edifícios modernos. Os capitalistas encomendam edifícios modernos. A gente enlouquece por viver em edifícios modernos. Alguns – os mais informados e melhor localizados socialmente – até vivem uma vida moderna.205 Até aos anos 30 do século XX, a influência das Beaux Arts206 de Paris teve impacto nos padrões de ensino da escola da Universidade de Buenos Aires. Naquele momento surgiu a tentativa de romper com a vanguarda através das correntes modernistas aspirando encarnar uma elegância alternativa.207 Os edifícios modernos impõem-se na cidade através da quantidade de exemplos, de tal modo que setores inteiros da cidade, como o Bairro Norte, mudaram a sua fisionomia de forma tão drástica como definitiva. Não se tratavam de exemplos isolados, mas de toda uma produção cuja lógica exibe uma coerência generalizada e homogénea, um standard médio elevado.208 Este fenómeno converterá Buenos Aires, na opinião de Alberto Petrina, como uma das três capitais do racionalismo internacional (a par de Nova Iorque e Brasília).209 Aquele período é considerado como uma das fases da arquitetura argentina com excecional grau qualitativo, visto a quantidade de edifícios que permanecem na cidade, dignos de interesse de estudo, pela suas qualidades reconhecidas, bem como dos seus arquitetos, que se tornaram como referência obrigatória para o estudo e prática de trabalho atual na cidade. Posso dizer que os exemplos são de arquitetura quase atual. (…) Pela sua qualidade arquitetónica muitos destes edifícios formam parte da fisionomia de Buenos Aires. (…) A grande maioria destes exemplos não perderam atualidade 205 PETRINA, Alberto - “Introducción a Buenos Aires”. In PETRINA, Alberto – Buenos Aires: ocho recorridos por la ciudad. Guía de Arquitectura. Sevilla: Conserjería de Obras Públicas y Transportes, 1994. P.15 206 A Beaux Arts refere-se ao estilo arquitetónico conhecido comummente como academicismo francês, com origem do ensino na École de Beaux Arts de Paris. 207 BORTHAGARAY, Juan Manuel - Habitar Buenos Aires: las manzanas, los lotes y las casas. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitectos, 2009. P.148 208 ROBINSOHN, Gustavo; TORRADO, Martin - Arquis: Patrimonio Moderno 1940-50-60. Buenos Aires: Universidad de Palermo, 2012. P.11 209 PETRINA, Alberto - “Introducción a Buenos Aires”. In PETRINA, Alberto – Buenos Aires: ocho recorridos por la ciudad. Guía de Arquitectura. Sevilla: Conserjería de Obras Públicas y Transportes, 1994. P.15 146|147 Capítulo IV. A Arquitetura Porteña #4 | Antonio Bonet, Ateliers para Artistas, Buenos Aires, 1938. #2 | Jorge Ferrari Hardoy e Juan Kurchan, O’Higgins 2319, Buenos Aires, 1940/41. #3 | Jorge Ferrari Hardoy e Juan Kurchan, Virrey del Pino, Buenos Aires, 1941. apesar do tempo decorrido.210 Continuamente, ao percorrer a cidade, é possível constatar uma série de edifícios modernistas que surgiram no período da história onde a arquitetura argentina tornou-se madura, culta, otimista, elegante e precisa, comprometida com as vanguardas plásticas, com uma especial sensibilidade visual e um refinado e muito cuidadoso tratamento estético dos edifícios.211 Foi a nova publicação Nuestra Arquitectura (1934) o seu principal agente de difusão na época, tendo sido o exercício realizado pela Universidad de Palermo, Arquis: Património Moderno 1940-50-60, o dossier de catalogação e divulgação dos exemplos da arquitetura moderna argentina. Uma das principais manifestações desta arquitetura surgiu através da existência do grupo Austral, composto, numa fase inicial, por Jorge Ferrari Hardoy (1914-1977), Juan Kurchan (1913-1972) e Antonio Bonet (1913-1989), que tinham colaborado no estúdio de Le Corbusier, durante a redação do Plano Diretor para Buenos Aires, em 1938. Este grupo manteve-se entre Setembro de 1937 a Julho de 1941 e o seu trabalho foi amplamente divulgado pela revista Nuestra Arquitectura em junho de 1939.212 Todos desejavam reconstruir uma dimensão cultural, crítica e, em certo modo, utópica proveniente da disciplina arquitetónica. Contou ainda com nomes importantes da cultura arquitetónica argentina como Amancio Williams (1913- 1989) e Wladimiro Acosta (1900-1967). Com a perspetiva temporal identificam-se os edifícios projetados pelo grupo, cujos modelos funcionaram para o desenvolvimento e evolução da vivenda coletiva em Buenos Aires, tais como os edifícios O’Higgins 2319 e Virrey del Pino 2446. A produção arquitetónica do grupo Austral caracteriza-se por articular o compromisso estético, que conjuga as ambições privadas com a urgência ética de dar resposta imediata às necessidades públicas e objetivas da demanda social.213 Em finais de 40, com a lei de propriedade horizontal, devido ao 210 ALVAREZ, Mario Roberto - “Vigencia y actualidad” in ROBINSOHN, Gustavo; TORRADO, Martin - Arquis: Patrimonio Moderno 1940-50-60. Buenos Aires: Universidad de Palermo, 2012. P.15 211 ROBINSOHN, Gustavo; TORRADO, Martin - Arquis: Patrimonio Moderno 1940-50-60. Buenos Aires: Universidad de Palermo, 2012. P.11 212 LIERNUR, Jorge Francisco - Arquitectura en la Argentina del siglo XX. La construcción de la modernidad. Buenos Aires: Fondo Nacional de las Artes, 2001. P.229 213 ROJAS, Ricardo Fernández - “Taxonomías de la modernidad”. In Revista 2G, nº 65. Barcelona: Gustavo Gili, 2013. P.16 148|149 Capítulo IV. A Arquitetura Porteña #5 | Wladimiro Acosta, Figueroa Alcorta 3020, Buenos Aires, 1942. #6 | Rúben Cherny, Federico Lacroze 1968, Buenos Aires, 1980. #7 | Mario Roberto Alvarez, Posadas 1695, Buenos Aires, 1957-59. #8 | Mario Roberto Alvarez, Panedile I, Buenos Aires, 1964-69. período de extraordinário crescimento económico do país, principal exportador de alimentos à Europa do pós-guerra, são criadas as condições para uma transformação do edificado a grande escala. É a partir deste momento que se torna possível a subdivisão do edifício em frações com diferentes proprietários. Destaca-se uma particular sensibilidade na inserção urbana dos edifícios, unificando vazios com os pátios dos vizinhos, alinhando alturas e recuos e dissolvendo os limites que a realidade concreta da parcela impunha. O cuidado pelas envolventes dos edifícios, em relação à qualidade dos materiais usados e uma estética ligada à forte composição de influência abstrata e neoplástica das vanguardas pictóricas, percorriam o uso variado de materiais de revestimento e uma variedade de texturas e cores características do purismo da década de 30. A estrutura de pilares aparece geralmente incorporada nos muros com a mesma largura, soltando-se nos pisos térreos para conferir maior espacialidade dos espaços ligados ao espaço público. As novas disposições do código permitiram uma altura útil de 2,60 metros de pé direito e consolas de 1,20 metros sobre a linha de edificação, gerando varandas em forma de galerias semicobertas que serviriam de espaço intermédio e de expansão na relação interior/exterior das vivendas.214 Esta fase encontrará a sua expressão mais genuína nas obras de Mario Roberto Alvarez (1913-2011), que estabeleceu uma valiosa tradição construtiva: o extremo cuidado no detalhe e atenção aos aspetos de execução convertem as obras deste estúdio numa espécie de clássicos modernos. Foi esta a oficina que, pelo reportório utilizado, se vinculou com maior eloquência aos paradigmas norte-americanos.215 Edifícios como Posadas y Schiaffino, Figueroa Alcorta 3010 ou Panedile refletem a capacidade de articulação com o modelo de desenvolvimento e de crescimento da cidade, assimilando tanto critérios de continuidade como de rutura, revelando uma panóplia de recursos técnicos e uma versatilidade na organização do programa funcional inédita, até então, na cidade. 214 ROBINSOHN, Gustavo; TORRADO, Martin - Arquis: Patrimonio Moderno 1940-50-60. Buenos Aires: Universidad de Palermo, 2012. P.12 215 LIERNUR, Jorge Francisco - Arquitectura en la Argentina del siglo XX. La construcción de la modernidad. Buenos Aires: Fondo Nacional de las Artes, 2001. P.238 150|151 Capítulo IV. A Arquitetura Porteña #9 | Mario Roberto Alvarez, Centro Cultural San Martín, Buenos Aires, 1962-70. 4.2 O TEMA DA MEDIANERA EM EDIFÍCIOS EXCECIONAIS 4.2.1 Mario Roberto Alvarez | Mario Roberto Alvarez (1913-2011) formou-se como arquiteto pela Facultad de Arquitectura de la Universidad de Buenos Aires, onde foi distinguido com a medalha de ouro em 1936. Através de uma bolsa de mérito, viajou pela Europa durante dois anos permitindo-lhe entrevistar vários arquitetos entre os quais Walter Gropius, Eric Mendelsohn e Albert Speer. Entre várias distinções ao longo da sua carreira profissional, destacam-se o doutoramento honoris causa pela Universidad de Buenos Aires, em 1980, pela sua trajetória profissional, e em 2007 foi declarado Ciudadano Ilustre pelo governo da Ciudad Autonoma Buenos Aires. Mario Roberto Alvarez é uma referência sólida e inevitável no princípio do racionalismo na sua fase internacional na arquitetura de Buenos Aires. Através da sua vasta obra, os conceitos de síntese, permanência e forma entendida como consequência de respostas funcionais e construtivas, elevam os edifícios reconhecendo uma obra evolutiva, coerente, perdurável.216 A sua obra mantém-se como uma referência sólida para os arquitetos contemporâneos que trabalham atualmente na cidade, a universalidade das suas soluções geraram um vasto catálogo, cujo material é uma necessária referência para grande parte dos seus colegas.217 Por outro lado, face às circunstâncias do momento económico, cultural e social que se vivia na época, a obra deste arquiteto é vasta, e portanto percursora de várias soluções em diferentes condicionantes formando-se um exemplo específico reconhecido pela comunidade arquitetónica local e internacional. Foi conferido ao arquiteto a responsabilidade de desenhar programas excecionais no centro da cidade, não só através de contratos privados mas, em grande parte, 216 CASARES, Alfredo Carlos - Serie Itinerarios Nº2: Mario Roberto Alvarez y Asociados. Buenos Aires: do autor, 1990. P.6 217 FAIDEN, Marcelo - Guitars, bottles, pipes, Álvarez. Buenos Aires, 2009. 152|153