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Modalização e construção do humor nas crónicas de Ricardo Araújo Pereira

Pinto, Alexandra Guedes,Pinto, Carla

Abstract

O presente trabalho incidiu sobre a análise de um conjunto de crónicas humorísticas e satíricas da autoria de Ricardo Araújo Pereira, publicadas entre Dezembro de 2011 e Março de 2013, na revista de grande informação Visão, com o objetivo de isolar um conjunto de recorrências enunciativo-pragmáticas no discurso do autor. Das recorrências identificadas, foram selecionadas para este trabalho aquelas que mais de perto se relacionam com o tema 'modalização e géneros discursivos', tais como certos marcadores de modalização, epistémica, deôntica e apreciativa, usadosna construção do tom irónico. Outras recorrências, como a intertextualidade e interdiscursividade, e a invocação de 'vozes' de outros, voltadas, ora para a validação do seu próprio discurso, ora para adesqualificação do discurso do Outro, dão cumprimento à dimensão pragmática de sátira das suas crónicas. Também as marcas de um registo informal oralizante contribuem para um estilo de escrita dialogal e expressivo. Os contrassensos (non-senses), ora resultantes da combinação sintagmática de expressões paradigmaticamente distantes, em termos de registo de língua, ora, da aproximação sintática de realidades semântica e pragmaticamente incompatíveis, contribuem, em conjunto com asrestantes características, para configurar o estilo de escrita das crónicas de Ricardo Araújo Pereira.

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redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014 Modalização e construção do humor nas crónicas de Ricardo Araújo Pereira pinto, alexandra guedes mapin[email protected].pt palavras-chave: modalização; humor; recorrências enunciativo-pragmáticas; crónicas jornalísticas. resumo: O presente trabalho incidiu sobre a análise de um conjunto de crónicas humorísticas e satíricas da autoria de Ricardo Araújo Pereira, publicadas entre Dezembro de 2011 e Março de 2013, na revista de grande informação Visão, com o objetivo de isolar um conjunto de recorrências enunciativo-pragmáticas no discurso do autor. Das recorrências identificadas, foram selecionadas para este trabalho aquelas que mais de perto se relacionam com o tema ‘modalização e géneros discursivos’, tais como certos marcadores de modalização, epistémica, deôntica e apreciativa, usados na construção do tom irónico. Outras recorrências, como a intertextualidade e interdiscursividade, e a invocação de ‘vozes’ de outros, voltadas, ora para a validação do seu próprio discurso, ora para a desqualificação do discurso do Outro, dão cumprimento à dimensão pragmática de sátira das crónicas do autor. Também as marcas de um registo informal oralizante contribuem para um estilo de escrita dialogal e expressivo. Os contrassensos (non-senses), ora resultantes da combinação sintagmática de expressões paradigmaticamente distantes, em termos de registo de língua, ora, da aproximação sintática de realidades semântica e pragmaticamente incompatíveis, contribuem, em conjunto com as restantes características, para configurar o estilo de escrita das crónicas de Ricardo Araújo Pereira. abstract: This study focused on the analysis of a set of satirical chronicles of Ricardo Araújo Pereira, published between December 2011 and March 2013, in the newsmagazine Visão, in order to isolate a set of enunciative-pragmatic recurrences in the author’s discourse. Amongst the isolated recurrences we selected for this paper the most closely related to the topic ‘modality and the genres’ such as the markers of epistemic, deontic and appreciative modality, used to construct Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal Investigadora e membro do Conselho Científico do Centro de Linguística da Universidade do Porto, Portugal pereira, carla [email protected] Pós-graduanda em Consultoria e Revisão Linguística na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Portugal Investigadora do Centro de Linguística da Universidade do Porto, Portugal keywords: modalization; humour; enunciative-pragmatic recurrences; journalistic chronicles redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014 the ironic tone pervasive throughout his speech. Other recurrences such as intertextuality and interdiscursivity and the invocation of other ‘voices’ are either directed to the validation of his own discourse, or to the disqualification of the discourse of the other, in compliance with the pragmatic dimension of social satire of his chronicles. Similarly, the marks of an oral informal register contribute to a dialogical and expressive writing style. The nonsenses, either resulting from the syntagmatic combination of paradigmatic distant expressions in terms of language registers, or from the syntactic combination of semantic-pragmatic incompatible realities, contribute, together with the rest of the markers, to the writing style of Ricardo Araújo Pereira’s humorous articles. 110 pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 introdução O presente trabalho incidiu sobre a análise de 62 crónicas humorísticas e satíricas da autoria de Ricardo Araújo Pereira (RAP), conhecido humorista e cronista português, publicadas entre Dezembro de 2011 e Março de 2013, na rubrica Boca do Inferno da revista de grande informação Visão, nas quais se abordam os mais diversos temas da atualidade política, económica e social do país e do mundo. O objetivo do trabalho, partindo de uma análise de cada um dos artigos em particular, foi o isolamento de recorrências enunciativo-pragmáticas no discurso do autor que permitissem detetar um padrão na sua escrita e na forma de construção do humor. Do levantamento destes marcadores, etapa da qual resultou uma extensa lista de regularidades, demos prioridade neste trabalho a alguns de entre eles, a saber, àqueles que mais de perto se relacionam com o tema das jornadas em que o mesmo foi apresentado, a saber: “Modalização e géneros discursivos”. 1 Traço transversal a todas as crónicas de RAP é o tom irónico e sarcástico, que se confunde com / que contribui para o efeito humorístico dos seus textos. Assim, embora estes conceitos se encontrem implícitos em toda a nossa reflexão, a questão delicada da distinção conceptual entre os mesmos - a ironia, a sátira, o sarcasmo e outras formas de derrisão linguística - não será aprofundada neste trabalho, dada a complexidade desta distinção num quadro enunciativo-pragmático, enquadramento teórico que tomamos como referência neste estudo. 1. interdiscursividade e intertextualidade na construção do humor Do conjunto dos marcadores isolados, começamos por referir a presença expressiva na escrita do autor dos mecanismos da intertextualidade e da interdiscursividade. 1. Este trabalho foi apresentado nas Jornadas Internacionais de Análise do Discurso III - JADIS III - realizadas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em novembro de 2013. pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 111 Para Charaudeau e Maingueneau (2002), na esteira de outros autores, todo o discurso é um interdiscurso, já que todo ele estabelece um diálogo real ou virtual com outros discursos já produzidos e apenas ganha sentido pleno dentro desse universo de outros discursos face aos quais ele se posiciona. A interdiscursividade é, assim, um fator constitutivo do próprio conceito de discurso, comparável ao conceito de dialogismo constitutivo recuperado de Bakhtine (1977, 1984) e formalizado, por exemplo, por Authier-Revuz (1985), Moirand (1988) e Fairclough (1992), entre outros. Com efeito, noções centrais na própria definição de discurso, a intertextualidade e a interdiscursividade conhecem propostas de delimitação conceptual variáveis, de acordo com os autores. O conceito de intertextualidade introduzido nos estudos da Teoria Literária pela mão de Júlia Kristeva, na década de 1960, tem por base o dialogismo bakhtiniano e pretende formalizar a noção de que cada texto constitui um intertexto numa sucessão de textos já escritos. De facto, para Kristeva (1967: 440), (…) tout texte se construit comme mosaïque de citations, tout texte est absorption et transformation d'un autre texte. A la place de la notion d'intersubjectivité s'installe celle d'intertextualité, et le langage poétique se lit, au moins, comme double., conceção que é prolongada por Roland Barthes (1973): Tout texte est un intertexte; d'autres textes sont présents en lui, à des niveaux variables, sous des formes plus ou moins reconnaissables : les textes de la culture antérieure et ceux de la culture environnante ; tout texte est un tissu nouveau de citations révolues. […] L'intertexte est un champ général de formules anonymes, dont l'origine est rarement repérable, de citations inconscientes ou automatiques, données sans guillemets. Fairclough (1992) propõe uma clarificação entre os conceitos de intertextualidade e interdiscursividade, distinguindo entre uma intertextualidade manifesta e uma intertextualidade constitutiva ou interdiscursividade. Esta última diferencia-se da primeira porque se relaciona com o cruzamento entre géneros e estilos discursivos. 112 pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 Para Charaudeau e Maingueneau (2002: 327), o termo intertextualidade designa o conjunto de relações explícitas ou implícitas que um determinado texto ou grupo de textos mantém com outros textos. Estes autores distinguem uma intertextualidade interna de uma intertextualidade externa (ibidem: 329), consoante estejamos perante a ligação entre um determinado discurso e outros do mesmo campo discursivo ou uma ligação entre discursos de campos discursivos distintos, por exemplo entre um discurso teológico e um discurso científico. Realçam também a questão de que se tende a falar de intertextualidade quando se trata de uma relação entre textos-fonte precisos (citação, paródia…) e de interdiscursividade nos casos em que as recuperações são mais difusas (ibidem). Fiorin secunda esta tendência de separação entre os conceitos intertexto/interdiscurso e intertextualidade/interdiscursividade, defendendo que a intertextualidade é “um processo de incorporação de um texto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”, e a interdiscursividade, “o processo em que se incorporam percursos temáticos ou figurativos, temas e/ou figuras de um discurso em outros.” (Fiorin, 2003: 35). A presença mais ou menos explícita, sob a forma de citação ou alusão, de outros textos no discurso de RAP – intertextualidade - ou a incorporação de uma estrutura, de uma “armação textual” alheia num texto seu - interdiscursividade – como veremos nos exemplos abaixo, ativa a convocação de lugares comuns que apelam à memória discursiva do leitor, facilitando a sua aproximação, através de um conhecimento partilhado, implícito no dito. Importa sublinhar que se estes diálogos intertextuais/interdiscursivos instaurados pelo autor não forem reconhecidos pelo leitor, este pode não conseguir reconstituir o sentido do dito, perdendo-se assim o efeito humorístico e, com ele, as intenções do locutor. É de referir também que o diálogo que se cria entre diferentes textos e discursos permite a RAP estabelecer analogias jocosas entre duas realidades que o autor aproxima para comparar: a realidade atual, objeto de crítica por parte do autor, e uma realidade que o autor convoca para viabilizar a crítica social de forma atenuada e humorística, como podemos constatar pelos exemplos abaixo: pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 113 1) “Todo o mundo é composto de mudança, eu sei. Jamais te banharás duas vezes nas águas do mesmo rio, e tal.” (in O mundo não quererá fazer o favor de estar quieto?, de 17/01/2013); 2) “Todas as cartas de amor são ridículas, mas não tanto como as saudações natalícias entre altos dignatários do Estado.” (in Um mediano Natal e um ano novo cheio de moderada felicidade, de 03/01/2013); 3) “…permitam-me que lance eu aqui o alerta do costume: Desapareceu de seu palácio Aníbal Cavaco Silva. Quando foi visto pela última vez, vestia fato escuro e gravata azul.” (in O fantasma do Cavaco passado, de 14/11/2012); 4) “Adão pecou e transmitiu-nos o pecado original, e ao mesmo tempo terá contraído uma dívida (provavelmente, junto do proprietário da macieira), transmitindo-nos também o endividamento original.” (in A culpa morre poliândrica, de 13/09/2012); Como vemos, a partir dos exemplos de 1) a 4), recuperando a distinção proposta pelos autores entre intertextualidade e interdiscursividade, encontramos casos explícitos de intertextualidade na recuperação de fragmentos de textos anteriormente produzidos e reconhecíveis, por exemplo em 1) e 2), e casos de interdiscursividade, entendido este fenómeno enquanto a recuperação de um modelo textual prototípico, nos exemplos 3) e 4). Nestes últimos exemplos de interdiscursividade, a intertextualidade encontra-se simultaneamente presente na recuperação de construções léxico-gramaticais prototípicas do género textual “borrowed” em cada um dos casos (Schroder & Vertergaard, 1989: 62). No exemplo 3) concentram-se marcas linguísticas de um subgénero do aviso: o aviso de desaparecimento; e, no caso 4), marcas temáticas e lexicais da lenda bíblica de Adão e do pecado original. 1.1. intertextualidade: reciclagem de ‘fórmulas fixas’2 A reciclagem de fórmulas fixas, a maior parte das vezes com modificação da fórmula original, atua também como subfenómeno da intertextualidade. Ao integrar no seu discurso expressões fixas que se cristalizaram na memória de uma comunidade, o autor apela à ‘memória discursiva’ dessa comunidade3, tornando-a mais próxima de si. 2. Utilizamos aqui a expressão ‘fórmulas fixas’ no sentido que lhe foi conferido por Grunig (1990:121). 3. Tomamos este conceito de ‘memória discursiva’ no sentido de Foucault (1969:130). 114 pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 Courtine alude ao efeito de amplificação do sentido - a que nós acrescentamos a amplificação de efeitos acionais - decorrentes deste diálogo intertextual e/ou interdiscursivo que as fórmulas estabelecem entre si. Aliás, é deste diálogo que estas passagens de RAP retiram uma grande parte da sua espessura significativa e do seu efeito humorístico. A este efeito de amplificação, Courtine (1981:53) dá o nome de “effet de mémoire”: Les objets que nous avons appelés ‘énoncés’ (…) existent dans le temps long d’une mémoire, alors que les ‘formulations’ sont prises dans le temps court de l’actualité d’une énonciation. C’est donc bien le rapport entre interdiscours et intradiscours qui se joue dans cet effet discursif particulier à l’occasion duquel une formulation- -origine fait retour dans l’actualité d’une ‘conjoncture discursive’, et que nous avons designé comme effet de mémoire. Ao mesmo tempo, ao operar modificações sobre as fórmulas cristalizadas, o autor gera um efeito de contraexpectativa de natureza composicional, ou seja, referente à estrutura interna da própria fórmula e à probabilidade de aparição dos segmentos da lexia complexa numa determinada composição já pré-construída e fortemente inscrita na memória dos sujeitos. Grunig (1993), no quadro de uma reflexão sobre o aproveitamento de ‘lugares comuns’ no texto publicitário, propõe como conceitos analíticos o ‘efeito de banalidade’ e o ‘efeito de surpresa’ para explicar que a desmontagem de uma ‘fórmula fixa’ produz, por um fenómeno de contraexpectativa, um ‘efeito de surpresa’ inteiramente desejado no slogan publicitário. Dentro das expectativas exploráveis, a autora distingue entre a expectativa interna e a expectativa externa (ibidem: 104), consoante se trata de uma questão de natureza composicional da fórmula ou de uma questão contextual, ou seja da probabilidade de aparição da fórmula numa dada situação. No caso das crónicas de RAP, encontramos os dois efeitos de contraexpectativa combinados, pois, por um lado, o autor recupera fórmulas fixas em que produz alterações internas, estruturais pela inserção de palavras não existentes no constructo original ou pelo completamento das fórmulas através de sequências não existentes no constructo original; mas, por outro lado, o cotexto semântico e o contexto de inserção das fórmulas - em termos do género discursivo e da sua adequação pragmática - também é inesperado, gerando um efeito de non-sense e estranheza. pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 115 Estas modificações surtem assim um efeito de surpresa por contraposição a um efeito de banalidade fazendo subir o grau de informatividade e, logo, a ‘temperatura das mensagens’ (Pignatari, 1968: 44,45). Exemplos deste subfenómeno são as seguintes citações: 5) “…Passos Coelho interveio ainda a repressão ia no adro.” (in Um segurança tipo Serra, de 20/12/2012); 6) “Via verde ao peito a muitos fica bem” (in Via verde ao peito a muitos fica bem, de 10/05/2012); 1.2 intertextualidade e polifonia A polifonia é também um marcador importante no discurso do autor que ora assume a função de sátira social, ora se encontra ao serviço da autocredibilização. Entendendo a noção de polifonia num sentido mais alargado, relativamente ao que lhe foi imputado por Ducrot (1984) e, dessa forma, mais próximo do conceito de dialogismo de Bakhtine, verificamos que, ao invocar outras vozes no seu discurso, algumas credenciadas, outras nem tanto, o autor suporta e valida o que vai referindo. De notar que a polifonia permite por vezes a autenticação do dito e a salvaguarda da face do autor, ao se desresponsabilizar daquilo que diz; encontrando-se, outras vezes, ao serviço da sátira social, promovendo justamente a descredibilização da voz do Outro. Por vezes, o autor convoca ainda a voz “anónima” do mundo com o objetivo de envolver o leitor e reduzir a distância entre os dois. Os exemplos que se seguem ilustram várias instâncias do uso da polifonia em RAP: 7) ““Que farei quando tudo arde?”, perguntou Sá de Miranda no século XVI. “Nada”, respondeu Cavaco em 2013.” (in Sacudir o sangue do capote, de 21/03/2013); 8) “E deu-se como exemplo a recente intervenção de António Borges, segundo o qual os empresários portugueses críticos da TSU não passariam do primeiro ano do curso que lecciona na universidade.” (in E, quando nada o faria prever, um insulto, de 11/10/2012); 116 pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 9) “Como disse Paulo Portas numa altura em que não fazia parte do Governo, não há alternativa credível a esta coligação.” (in Portas ao poder, abaixo Portas, de 27/09/2012); 10) Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas de oportunidade e de se atirar cá para baixo.” (In Carta aos 19%, de 27/03/2913); 11) “Alguém substituiu a cortina de ferro por aquela cortina que, nos aviões, separa a ralé da primeira classe.” (in O mundo não quererá fazer o favor de estar quieto?, de 17/01/2013); 12) “Quando se diz que o sistema político português é semi-presidencialista, o aspecto fundamental a reter é aquele “semi”. (in O semicavaco, um conceito ignorado pela ciência política, de 27/12/2012); É de notar que em muitos dos exemplos extraídos das crónicas do autor verificamos a presença de um ‘nós inclusivo’, que atua como mecanismo de solidariedade do autor com o leitor. Atendendo ao último exemplo referido acima, 12) “Quando se diz que o sistema político português é semi-presidencialista, o aspecto fundamental a reter é aquele “semi”. Neste momento, o nosso semipresidencialismo deve-se ao facto de termos um semipresidente…” (in O semicavaco, um conceito ignorado pela ciência política, de 27/12/2012), verificamos que este mecanismo de solidariedade resulta numa estratégia de aproximação, pois o leitor é envolvido no discurso transformando-se em co-enunciador do mesmo4. Esta seria, de acordo com Brown & Levinson (1987), uma das estratégias de “claiming common ground with the addressee”, uma estratégia de delicadeza positiva orientada para o destinatário. 2. registo coloquial e construção do humor Outra estratégia de geração do humor e de aproximação do leitor que RAP utiliza na sua es- -crita é o uso do registo coloquial informal. A lexemas e expressões mais elaboradas, o autor opõe expressões mais coloquiais que desenvolvem um estilo oralizante. Exemplos disso são as citações seguintes: 4. Verificar a este propósito Charaudeau (1995: 102). pinto, alexandra guedes & pereira, carla; modalização e construção do humor nas crónicas de ricardo araújo pereira redis: revista de estudos do discurso, nº 3, ano 2014, pp. 108-124 123 referências Adão, T. (2008). O lado mais sério do humor – uma perspectiva sociolinguística do discurso humorístico. (1.ª ed.). Penafiel: Editorial Novembro. Authier-Revuz, J. (1984). Hétérogénéité(s) Énonciative(s). Langages, (73). 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