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Percepções de conflito e violência conjugal

Cidália Duarte

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UNIVERSIDADE DO PORTO Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação Instituto de Consulta Psicológica, Formação e Desenvolvimento PERCEPÇÕES DE CONFLITO E VIOLÊNCIA CONJUGAL Dissertação apresentada para a obtenção do Grau de Doutor em Psicologia pela Universidade do Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, sob a orientação da Professora Doutora Maria Emília Costa. Cidália Maria Neves Duarte 2005 PERCEPÇÕES DE CONFLITO E VIOLÊNCIA CONJUGAL Dissertação apresentada para a obtenção do Grau de Doutor em Psicologia pela Universidade do Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, sob a orientação da Professora Doutora Maria Emília Costa. Resumo Este trabalho centra-se em duas dimensões das relações conjugais: o conflito e a violência conjugal. Sendo este um domínio de investigação relativamente recente, constatamos que as abordagens conceptuais e metodológicas ainda emergem. Assim, optamos por não nos focalizar em nenhuma perspectiva particular, apresentando antes os modelos teóricos que nos parecem mais significativos na explicação da génese do conflito e violência conjugais, nomeadamente, os socio-estruturais (perspectivas feministas, diferenças de género, aprendizagem social), tipologias do casamento (e.g. Fitzpatrick, 1988; Gottman, 1994), e os modelos sistémicos. A teoria da Vinculação é apresentada considerando a relevância dos resultados dos estudos, para a compreensão do fenómeno. Especificamente, com base numa metodologia quantitativa, o estudo propõe-se analisar: a) as variáveis e dinâmicas relacionais subjacentes ao conflito e à violência conjugal, analisando as diferentes estratégias de resolução de conflito e de violência usados por casais; (b) estudar o papel que as variáveis género, nível sócio – económico e cultural, idade, parentalidade, religiosidade, duração da relação, padrões conjugais e estilos de vinculação possuem nessas mesmas estratégias; (c) as (des)continuidades entre os dois membros do casal no que concerne aquelas estratégias e comportamentos. Junto de 250 casais foram utilizados: o Questionário de Vinculação ao Pai e à Mãe (QPVM; Matos e Costa, 2001); o Questionário de Vinculação Amorosa (QVA; Matos e Costa, 2001); o Inventory of Specific Relationship Standards-III (ISRS; Baucom, Epstein, Rankin & Burnett, 1993) Conflict Resolution Inventory (IRC; Kurdek, 1994), e a Non-Physical Abuse of Partner Scale e a Partner Abuse Scale (NPAPS/PASPH; Garner & Hudson, 1997). A validação dos diversos instrumentos incluiu a análise das propriedades psicométricas da estrutura factorial através da análise factorial confirmatória. Dos resultados, destacamos que as mulheres se percepcionam a si mesmas como mais envolvidas nos conflitos (assim sendo percepcionadas pelos homens) enquanto os homens se percepcionam a si próprios como mais retirantes (sendo da mesma forma reconhecidos pelas mulheres); o mais frequente estilo de vinculação nas relações românticas é o seguro, sendo associado a utilização de estratégias construtivas de resolução de conflitos; as mulheres percepcionam os seus companheiros como mais violentos em associação com o álcool e, finalmente, a centralidade dos padrões conjugais tende a diminuir com o tempo de relação, sugerindo que o tempo seja um importante pacificador das relações de intimidade. Abstract The present study concentrates on two dimensions of marital relationships: marital conflict and violence. Since research in this area is relatively recent, conceptual and methodological approaches are still emerging. Therefore, we choose not to emphasize a particular perspective, reviewing the various models that explain the origins of marital conflict and violence, including socio-structural perspectives (feminist perspectives, gender differences), marriage typologies (e.g. Fitzpatrick, 1988; Gottman, 1994), and systemic models. The contributions of attachment theory are also referred given the research results within conflicting and violent couples that show its relevance for this phenomena The study aims to analyze a) relational dynamics underlying marital conflict and violence, namely different conflict resolution strategies and violent behaviors; b) the role of variables such as gender, socio-economic level, age, parenting, religiosity, length of marriage, marital patterns and attachment styles in those strategies and behaviors; © the (dis)continuities between the two members of the couple regarding those strategies and behaviors. 250 couples were observed with the following questionnaires: Questionnaire of Father and Mother Attachment (QPVM; Matos e Costa, 2001); Questionnaire of Love Attachment (QVA; Matos e Costa, 2001); the Inventory of Specific Relationship Standards-III (ISRS; Baucom, Epstein, Rankin & Burnett, 1993), the Conflict Resolution Inventory (IRC; Kurdek, 1994), the Non- Physical Abuse of Partner Scale and the Partner Abuse Scale (NPAPS/PASPH; Garner & Hudson, 1997). The validation of the various questionnaires included the analysis of their psychometric properties and factorial structure using confirmatory factor analysis. Results show that women see themselves (and are perceived by men) as more engaged in conflict, while men see themselves (and are perceived by women) as more using withdrawal as a strategy for dealing with conflict. The most frequent attachment style in loving relationship is the secure, which is associated with positive strategies for solving conflicts. Women perceive their companions as more violent in association with alcohol. The centrality of marital patterns tends to dilute with length of marriage, suggesting that time is a relevant relationship pacifier. Résumé Cette étude se centre en deux dimensions concernant les relations conjugales: conflit et violence. On constate, parce que ce domaine d’investigation est relativement récent, que les abordages conceptuels et méthodologiques émergent encore. Donc, on a choisi de ne rehausser aucune perspective en particulier, présentant plutôt les plusieurs models théoriques qui semblent plus significatifs selon les explications sur l’origine du conflit et de la violence conjugale, englobant les perspectives socio-structurales (perspectives féministes, différences de genre, apprentissage sociel), typologies des mariages (e.g. Fitzpatrick, 1988; Gottman, 1994, et les models systémiques. La théorie de l’attachement est aussi présentée, étant donné l’importance des résultats des études pour la compréhension du phénomène. Basé sur une méthodologie quantitative, cette étude se propose d’analyser: a) les dynamiques relationnelles sous-jacentes au conflit et à la violence conjugale, à savoir les différentes stratégies utilisées par le couple pour résoudre le conflit et la violence conjugale;b) le rôle qui assument en ces stratégies des variables comme le genre, niveau socioéconomique, age, parentalité, religiosité, durée de la relation, types de comportements conjugaux et prototypes d’attachement; c) les (dis)continuités entre les deux éléments du couple concernant ces stratégies et comportements. 250 couples on été observés avec les questionnaires: Questionnaire d’Attachement à la Mère et au Père (QPVM; Matos e Costa, 2001); Questionnaire d’Attachement Amoureux (QVA; Matos e Costa, 2001); L’Inventaire des Standards Spécifiques des Relations-III (ISRS; Baucom, Epstein, Rankin & Burnett, 1993); L’Inventaire de Résolution du Conflit (IRC; Kurdek, 1994); L’ Echelle d’Abus Non-Physique du Partenaire et L’ Echelle d’Abus Physique du Partenaire (NPAPS/PASPH; Garner & Hudson, 1997). La validation des plusieurs instruments comprend l’analyse des propriétés psychométriques de la structure factorielle en utilisant l’analyse factorielle confirmatoire. Les résultats démontrent que les femmes se voient à elles mêmes (et sont vus par les hommes) plus engagées dans les conflits, pendant que les hommes se voient à eux mêmes (et sont vus par les femmes) comme plus utilisateurs de stratégies de retraite face aux conflits. Le style de attachement plus fréquent dans les relations romantiques est le secure, qui s’associe à des stratégies positives de résolution de conflits. Les femmes voient ses partenaires comme plus violents en association avec l’alcool. La centralité des prototypes conjugaux a une tendance à diminuer avec le temps de la relation, ce qui suggère que le temps se révèle un important pacificateur des relations intimes. Agradecimentos À Professora Doutora Maria Emília Costa, antes de mais, pela infinita paciência em me orientar e ser referência segura nos momentos de desespero e angústia. Acima de tudo porque o faz com amizade e carinho inexcedíveis, que sabe serem a essência da vida. Porque como poucos, consegue ir ao âmago do ser humano, como pessoa, professora e terapeuta constituindo-se numa referência pessoal e profissional impar no exercício da Psicologia, conferindo-lhe identidade. Porque constitui, sempre, um desafio e um privilégio ouvi-la simplificar o que é complexo, arriscando um saber fazer generativo com sensibilidade, questionamento e humildade únicas, que estão para além das teorias, que não vêm nos livros e que são apanágio dos verdadeiros professores. Às Professoras Doutoras Isabel Menezes e Paula Mena Matos, de quem tenho o enorme privilégio de poder afirmar ser amiga e colega, e que desempenham um papel central na minha vida como pessoa e como profissional. Às quais agradeço, justamente, os exemplos de absoluto profissionalismo, de desafio e estímulo constantes face às minhas recorrentes dúvidas sobre questões de investigação e pela oportunidade de me terem confiado tarefas desafiantes. À Professora Doutora Paula Mena Matos agradeço, ainda, a oportunidade da discussão de casos, por vezes com perspectivas diferentes mas complementares, o sentido de humor e jeito discretos de prestar atenção, que a tornaram num porto seguro. Finalmente, à Professora Doutora Isabel Menezes, agradeço e reconheço, o apoio único e incondicional, o brilho, a força, o incomparável sentido de humor, porque, inevitavelmente, tem estado e estará sempre presente. À Dra. Graça Silva, minha amiga, porque possuímos valores semelhantes, e porque com o seu humanismo e, simultaneamente, lado pragmático me fez voltar, repetidas vezes, às questões essenciais. Agradeço também, pelo apoio entusiástico nas pesquisas bibliográficas tendo, aliás, dado o “pontapé de saída”, e pela boa disposição permanente e contagiante. Ao Dr. Rui Alves, pelo prazer partilhado da docência em anos recentes, pelo incentivo amigo, sereno e constante, em última instância, pela amizade. Ao Professor Doutor Joaquim Luís Coimbra, pelo carinho e postura humanistas demonstrado de modo permanente ao longo de todo o meu percurso académico e profissional, através da oportunidade de aprendizagens únicas, no decurso das suas aulas, algumas das quais tive o privilégio de partilhar. À minha colega Dra. Raquel Barbosa, pelo disponibilidade permanentemente dispensada para a realização de alguns procedimentos estatísticos e apoio em actividades pontuais de docência, pelo incentivo, constante e discreto; ao Dr. Carlos Gonçalves, colega de longa duração do tempo da intervenção comunitária, pelo percurso partilhado, tanto em termos profissionais como pessoais. Ao Dr. Hugo Cruz, um duplo agradecimento pelo apoio na administração de questionários a casais e por ser o meu companheiro nos últimos anos na aliciante tarefa da intervenção em terapia conjugal, pela cumplicidade terapêutica revelada em aprendizagens mútuas com os “nossos casais” e, ainda, por estar sempre disponível a partilhar outras aprendizagens. À Dra Tânia Gouveia, pelo apoio nas tarefas logísticas deste trabalho, sobretudo pela introdução de todos os dados, pelo sentido de humor inteligente manifestado nas conversas acerca da investigação e do exercício da psicologia, pela capacidade de se questionar, pelo modo, sempre discreto, quase a querer passar despercebido, de saber estar sempre tão presente. À “quase Dra.” Joana Dolgner, pela infinita paciência de aceder com bom humor, genuinidade e carinho a todos os pedidos, nem sempre bem formulados, confusos e imprecisos que foram apanágio destes últimos meses. À Luísa Santos, pela permanente boa disposição aquando da marcação das consultas dos “meus” casais e pela prontidão com que amigavelmente atende os meus (e de todos) pedidos. Pela paciência… Ainda, às Dras Ema Loja e Mariana Martins pelo incentivo constante e apoio concedidos em tarefas pontuais. Finalmente, ao Dr. António Santos Pereira com quem tive a oportunidade de trabalhar, pela simplicidade e brilhantismo das suas (nossas) aulas e, inevitavelmente, pelo incomparável e desconcertante sentido de humor acerca de tudo mas, principalmente, do que é sério e, por vezes, excessivamente pesado. E, ainda, obviamente à minha família dos quais revelaria alguns nomes: a madrinha Mariana, a Mariazinha, o Zé Luís pela presença definitiva na minha formação pessoal, pelo exemplo de carinho e amor; do mesmo modo, ao Eugénio, à Guida, à Sofia; e, aos amigos, sendo que os aqui designados representam as suas famílias que são, também, a minha família: especialmente à Fátima Menezes. Margarida Reis, Carmo, Paulo, Teresa, Domingos, Jorge, Alberto… Naturalmente, porque me (re)conduzem, sempre, ao que é verdadeiramente importante: Aos meus pais Ao Zé, à Ana e à Sara i ÍNDICE GERAL INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1: O CONFLITO NA CONJUGALIDADE 1. As alterações sociais do casamento 2. Satisfação conjugal 3. O processo de formação do casal 3.1.Os afectos e a conjugalidade 3.2. Famílias de origem e apoio social 4. A emergência dos conflitos nas relações conjugais 5. As variáveis cognitivas e o conflito conjugal 6. Tipologias de Reacção ao Conflito 6.1.Tipologia de Fitzpatrick (1988) 6.2. A teoria da Acomodação (Rusbult, 1987; Rusbult, Yovetich & Verette, 1996; Verette, Whitney, Slovick & Lipkus, 1991) 6.3. Modelo de “Boa Comunicação” e Modelo “Adequado de Gestão de Conflitos”(Fletcher et al, 1999) 6.4. Tipologia de Canary e Cupach (1988) 6.5. Modelo da Cascata para a Ruptura Conjugal 6.6. O Padrão Exigência- Retirada ou Ataque - Evitamento 7. O poder e o conflito na relação conjugal 7.1. As estratégias de influência 7.2. Distribuição de responsabilidades 7.3. As diferenças de género na reacção ao conflito 8. Comunicação e Conflito Conjugal 9. Constrangimentos ao estudo do conflito conjugal Em síntese… 1 5 6 8 10 11 17 18 26 31 32 34 37 44 45 52 59 61 65 67 75 82 87 Quadro 6.19 Quadro 6.20 Quadro 6.21 Quadro 6.22 Quadro 6.23 Quadro 6.24 Quadro 6.25 Quadro 6.26 Quadro 6.27 Quadro 6.28 Quadro 6.29 Quadro 6.30 Quadro 6.31 Quadro 6.32 Quadro 6.33 Quadro 6.34 Quadro 6.35 Quadro 6.36 Quadro 6.37 Quadro 6.38 Quadro 6.39 Quadro 6.40 Quadro 6.41 Quadro 6.42 Quadro 6.43 Quadro 7.1 Quadro 7.2 Quadro 7.3 Quadro 7.4 Quadro 7.5 Quadro 7.6 Quadro 7.7 Quadro 7.8 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de resolução de conflitos Médias e erros padrão para as estratégias de resolução de conflitos em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Notas z para os clusters da vinculação ao par amoroso Distribuição dos clusters da vinculação romântica em função do género Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para a vinculação aos pais Médias e erros padrão estilos de vinculação aos pais em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos estratégias de conflito próprias Testes dos efeitos principais inter-sujeitos estratégias de conflito próprias Testes dos efeitos principais inter-sujeitos estratégias de conflito do outro Testes dos efeitos principais inter-sujeitos estratégias de conflito do outro Testes dos efeitos principais inter-sujeitos comportamentos de violência Testes dos efeitos principais inter-sujeitos comportamentos de violência Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Testes dos efeitos principais inter-sujeitos satisfação com os padrões conjugais Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para a satisfação com os padrões conjugais Notas z para os clusters da percepção de violência do companheiro Distribuição dos clusters da vinculação romântica em função do género Médias e desvios padrão para as diferentes dimensões em função dos clusters de violência do companheiro Funções discriminantes canónicas Coeficientes discriminantes estandardizados Matriz estrutural Médias dos grupos (centroides) nas duas funções Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação aos pais em que há diferenças Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação ao par amoroso em que há diferenças Médias e erros padrão para as dimensões das estratégias de resolução de conflito em que há diferenças Médias e erros padrão para os comportamentos de violência em que há diferenças Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Médias e erros padrão para a satisfação com os padrões conjugais em que há diferenças Médias e erros padrão para a perturbação com os padrões conjugais em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as dimensões da vinculação aos pais 278 278 279 279 284 285 286 287 288 288 289 290 291 291 292 292 293 293 294 294 296 297 297 298 298 304 305 307 308 310 311 312 314 Quadro 7.9 Quadro 7.10 Quadro 7.11 Quadro 7.12 Quadro 7.13 Quadro 7.14 Quadro 7.15 Quadro 7.16 Quadro 7.17 Quadro 7.18 Quadro 7.19 Quadro 7.20 Quadro 7.21 Quadro 7.22 Quadro 7.23 Quadro 7.24 Quadro 7.25 Quadro 7.26 Quadro 7.27 Quadro 7.28 Quadro 7.29 Quadro 7.30 Quadro 7.31 Quadro 7.32 Quadro 7.33 Quadro 7.34 Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação aos pais em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de conflitos próprias Médias e erros padrão para as estratégias de resolução de conflito próprias em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de conflitos do outro Médias e erros padrão para as estratégias de resolução de conflito do outro em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as dimensões da violência Médias e erros padrão para as dimensões da violência em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Distribuição dos casais do estudo em função das percepções de violência do cônjuge (N=250) Testes dos efeitos principais inter-casais para as dimensões da vinculação aos pais Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação aos pais em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as dimensões da vinculação ao par amoroso Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação ao par amoroso em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de conflitos próprias Médias e erros padrão para as estratégias de resolução de conflito próprias em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de conflitos próprias e do outro Médias e erros padrão para as dimensões das estratégias de resolução de conflito em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para a satisfação e a perturbação com os padrões conjugais Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e a vinculação ao pai Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e a vinculação à mãe Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e vinculação ao par amoroso Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e as estratégias de conflito (Eu) 315 318 318 319 320 321 321 323 323 325 325 326 327 327 328 329 330 330 331 331 332 332 334 335 336 337 Quadro 7.35 Quadro 7.36 Quadro 7.37 Quadro 7.38 Quadro 7.39 Quadro 7.40 Quadro 7.41 Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e os padrões conjugais Médias e desvios padrões para as várias dimensões nos vários clusters da violência (N=250) Médias e desvios padrões para as várias dimensões nos vários clusters da violência (N=250) Funções discriminantes canónicas Coeficientes discriminantes estandartizados Matriz estrutural Médias dos grupos (centroides) nas duas funções 338 339 341 341 342 343 344 ÍNDICE DE FIGURAS Figura 5.1 Figura 5.2 Figura 5.3 Figura 5.4 Figura 5.5 Figura 5.6 Figura 5.7 Figura 5.8 Figura 5.9 Figura 5.10 Figura 5.11 Figura 5.12 Figura 5.13 Figura 5.14 Figura 5.15 Figura 5.16 Figura 5.17 Figura 5.18 Figura 5.19 Figura 5.20 Análise factorial confirmatória para a sub-escala inibição da exploração e investimento à mãe, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala qualidade do laço emocional à mãe, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala ansiedade de separação à mãe, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala inibição da exploração e investimento ao pai, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala qualidade do laço emocional ao pai, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala ansiedade de separação ao pai, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala confiança, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala dependência, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala ambivalência, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a sub-escala evitamento, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a vinculação ao par amoroso, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para o envolvimento negativo no conflito, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a resolução positiva de problemas, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a retirada, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a submissão, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para o envolvimento no conflito pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a resolução positiva de problemas pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a retirada pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a submissão pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a violência física, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 228 228 229 230 230 231 235 236 237 237 238 241 241 242 242 243 243 244 244 250 Figura 5.21 Figura 5.22 Figura 5.23 Figura 5.24 Figura 5.25 Figura 5.26 Figura 5.27 Figura 5.28 Figura 5.29 Figura 5.30 Figura 5.31 Análise factorial confirmatória para a violência associada ao álcool, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para a violência não física, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala fronteiras, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala controlo, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala investimento instrumental, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala investimento expressivo, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para as sub-escalas dos padrões conjugais, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala controlo e dimensão perturbação, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala fronteiras e dimensão perturbação, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala investimento expressivo e dimensão perturbação, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Análise factorial confirmatória para sub-escala investimento instrumental e dimensão perturbação, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 251 251 256 257 258 258 259 260 260 261 261 ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 6.1 Gráfico 6.2 Gráfico 6.3 Gráfico 6.4 Gráfico 6.5 Gráfico 6.6 Gráfico 6.7 Gráfico 7.1 Gráfico 7.2 Gráfico 7.3 Gráfico 7.4 Gráfico 7.5 Gráfico 7.6 Médias do envolvimento no conflito do eu e do outro para homens e mulheres Médias da resolução positiva de problemas do eu e do outro para homens e mulheres Médias da resolução positiva de problemas do eu e do outro para os diferentes NSEC Médias da retirada do eu e do outro para homens e mulheres Médias da submissão pelo eu e pelo outro Clusters da vinculação ao par amoroso Distribuição dos clusters pelas duas funções discriminantes canónicas Médias intra-casal para as dimensões da vinculação ao par amoroso Médias intra-casal para as dimensões violência percebida Médias intra-casal para as dimensões dos padrões conjugais Médias intra-casal para a satisfação com os padrões conjugais Médias intra-casal para a perturbação com os padrões conjugais Distribuição dos clusters pelas duas funções discriminantes canónicas 280 281 281 282 282 284 299 306 309 312 313 313 344 INTRODUÇÃO Neste trabalho, falamos sobre um dos contextos relacionais tidos como mais significativos para os seres humanos: a conjugalidade, elegendo duas das suas dimensões mais íntimas: as percepções de conflito e de violência. As mudanças ocorridas no século passado ao nível histórico e social produziram mudanças significativas no seio da família e, consequentemente, na forma de encarar as relações conjugais. Desde logo, a acepção de que os fundamentos do casamento repousam no amor, pelo menos nas sociedades ocidentais que são aquelas que, no nosso caso, efectivamente estudamos, aportou novos olhares sobre as relações conjugais e tornou as pessoas mais exigentes com as relações, libertando-as de constrangimentos meramente contratuais e emergindo-as no complexo mundo dos afectos e das emoções. Ao mesmo tempo, e porventura devido às diferenças significativas com que são encaradas as expectativas face ao casamento, assiste-se, cada vez mais, à dissolução das relações e à emergência de novas formas de viver a conjugalidade e em família. Ainda assim, contrariando visões fatalistas e pessimistas que temem o desmoronar definitivo da família, para a maior parte dos indivíduos o casamento ou a união com outro continua a ser idealizado como um projecto de vida central para as suas vidas. Por isto, podemos dizer que, apesar das mudanças estruturais a que tem sido sujeita, a família permanece como a grande responsável pelo desenvolvimento psicológico dos indivíduos, que se pressupõe saudável e harmonioso. Talvez porque esta seja a imagem de marca das famílias, seja particularmente difícil abordar duas dimensões carregadas de negatividade do relacionamento conjugal e, na medida em que este acontece por amor, parece paradoxal a existência de comportamentos violentos no seio do mesmo. Contudo, o estudo das relações familiares e conjugais teve os seus primórdios na análise das razões que conduziram à disfuncionalidade e ruptura familiares emergindo, neste contexto, a maior parte das teorias acerca da conjugalidade e de dimensões especificas das mesmas, sendo de realçar o progressivo ênfase em teorias de complexidade crescente como é o caso das sistémicas. Esta 1 mudança é consonante com a transição a que se tem assistido na Psicologia em que após a centralidade no estudo das características individuais do ser humano se assiste ao reconhecimento ou à emergência dos processos relacionais e se reconhece também a relevância das relações para a construção da identidade e para conferir sentido à acção individual. Com efeito, no decurso deste trabalho teremos oportunidade de nos apercebermos da diversidade de modelos desenvolvidos e dos distintos enfoques concedidos às dinâmicas conjugais, bem como os significados atribuídos às mesmas. Nem sempre o relacionamento do casal, ou as suas dinâmicas internas, vão no sentido da funcionalidade dado que o desenvolvimento dos cônjuges pode não ocorrer de maneira congruente, isto é, nem sempre os processos de desenvolvimento são convergentes ou ocorrem no mesmo sentido e no mesmo tempo, para cada membro do casal. Por isto, e não exclusivamente, os conflitos emergem naturalmente, nas relações conjugais (porque são apanágio das relações humanas), mesmo naquelas que não tendem para a dissolução e, apesar do enforque permanentemente negativo atribuído aos conflitos veremos como existem alguns mitos acerca de aspectos relacionais do casamento. No caso da violência conjugal, a questão toma contornos de maior complexidade, como veremos. Finalmente, constataremos que não existe uma teoria particular para explicar um ou outro fenómeno mas antes um conjunto de abordagens muito diversas, sendo, aliás, amplamente criticado o facto do estudo destas dimensões se fazer de modo quase ateorético (não esqueçamos que as terapias familiares e conjugais se iniciaram pela pratica, construindo-se as teorias a posteriori), deste modo, não tomamos como ponto de partida para este trabalho nenhuma perspectiva em particular, embora concedamos particular atenção a algumas em detrimento de outras, por considerarmos serem mais abrangentes e perspectivarem os temas em análise de modo desenvolvimental. No fundo, procuramos situar-nos numa perspectiva construtivista e ecológica do desenvolvimento humano, daqui decorrendo a necessidade de atender a processos individuais de construção do conhecimento, a processos relacionais, sociais e necessariamente contextuais do desenvolvimento das pessoas e dos fenómenos que no decurso das suas 2 interacções emergem, como são o caso das dimensões que constituem o objecto deste estudo. Assim sendo, o primeiro capítulo deste trabalho inicia-se com uma introdução alargada sobre as questões centrais que afectam os relacionamentos conjugais, por se tratarem de aspectos necessariamente transversais aos outros temas assinalados neste trabalho, assumindo-se como uma espécie de grelha de leitura dos mesmos. Seguimos com a apresentação dos conceitos adjacentes ao conflito conjugal, e das variáveis que mais frequentemente lhe estão associadas. Apresentamos um conjunto de tipologias que procuram descrever e interpretar as estratégias de resolução de conflitos e terminamos com a alusão às dificuldades de investigação neste domínio. O segundo capítulo versa sobre violência conjugal e acerca dele começaremos por expor as dificuldades, confusões conceptuais e polémicas que habitualmente povoam este domínio de investigação da psicologia. Consideramos, desde logo, essencial definir o âmbito do trabalho, nesta dimensão específica, uma vez que tratando-se de um assunto carregado de polémica, a clarificação acerca do tipo de violência que constitui objecto do nosso estudo advém obrigatória. Seguidamente, apresentamos as variáveis que têm estado na base do estudo dos comportamentos e atitudes conducentes à violência entre casais, desde a consideração de variáveis individuais até modelos sistémicos de análise do fenómeno. Finalmente, procuramos relatar pontos de convergência entre conflito e violência para reflectir sobre o processo de escalada que eventualmente os associa. Terminamos com as dificuldades de investigação e questões de intervenção junto destes casais, mas também no que concerne aos casais em que o conflito, e não necessariamente a violência, é tido como problemático, e das ilações que lhe estão associadas, nomeadamente no domínio ético. No terceiro capítulo fazemos uma breve alusão a algumas teorias psicológicas da conjugalidade mas, essencialmente, apresentamos os estudos que com base na teoria da vinculação têm sido um contributo importante para a compreensão do conflito e violência conjugais. Destacamos, ainda, a necessidade de se adoptarem modelos sistémicos de análise deste tipo de problemas, assinalando a alteração de paradigma subjacente ao estudo do casamento: a deslocação da ênfase dos processos intrapsiquicos, para a 3 ênfase em processos relacionais e em processos sistémicos. Esta opção devese ainda ao facto de termos elegido os estilos de vinculação (Bartholomew, 1991) como uma das dimensões centrais do nosso estudo. Do quarto ao oitavo capítulos, apresentamos e discutimos os dados referentes à parte empírica deste trabalho realizado junto de uma amostra de casais portugueses com o objectivo de abordar e aprofundar algumas das questões enunciadas no decurso da revisão da literatura, no domínio das percepções de conflito e violência conjugais. Concretamente, o quarto capítulo visa apresentar os grandes objectivos do estudo, bem como as questões de investigação subjacentes à sua emergência e que serviram de base à constituição das hipóteses colocadas. Seguem-se a descrição do processo de recolha de dados e as informações relativas à amostra em que o estudo incidiu. No quinto capítulo descrevemos os instrumentos utilizados, no sentido de avaliar a sua utilidade, validade e fiabilidade para o estudo de algumas dimensões das relações conjugais e, portanto, para serem usados junto de indivíduos adultos, de expressão portuguesa. No capítulo seguinte, o sexto, analisamos, para a amostra total, as diferenças inter-sujeito nas várias dimensões do estudo, a saber: a vinculação aos pais e ao par amoroso, as estratégias de resolução de conflitos, os comportamentos de violência e os padrões da relação. Consideraremos, ainda, as diferenças intra-sujeito nas percepções das estratégias de conflito utilizadas pelo próprio e pelo companheiro. No sétimo capítulo, uma vez concluída no capítulo anterior a exploração das diferenças inter-sujeito, consideramos as continuidades e descontinuidades intra-casal relativamente às dimensões centrais no nosso estudo. Finalizamos, no oitavo e último capítulo, com a discussão dos principais resultados do estudo à luz dos principais contributos da investigação sobre estas matérias, entre outras explicações que nos pareçam igualmente verosímeis e consistentes. As principais conclusões do trabalho procuram apontar algumas críticas ao mesmo e destacar algumas questões e reflexões que nos parecem determinantes para a continuidade da investigação neste domínio, assim como para a intervenção junto de casais, seja por parte de terapeutas, como de outros agentes comunitários interventivos neste domínio. 4 tempo na construção do “nós”: desde características pessoais, relacionais, emergência de situações conflituosas, acontecimentos de vida, normativos e não normativos (porventura mais determinantes), ou seja, o processo de coconstrução do “nós” é determinado pelas capacidades pessoais, relacionais, contextuais e comunitárias dos cônjuges (Alarcão, 2002; Costa, 1994; Relvas, 1996). Por isto, “todo o casal se faz de três elementos: eu, tu e nós” (Caillé, 2002, p.65) e cada elemento do casal possui uma identidade e vida própria que a transição para o casamento não pode fazer desaparecer. Deste modo, os conceitos de autonomia, partilha e negociação passam a ser conceitos – chave, entre outros, no processo de construção e desenvolvimento do casal, tendo que ser considerados, inevitavelmente, como alicerces estruturais do percurso – trajecto de vida comum – que o casal, “o nós”, percorre ao longo do seu projecto de vida a dois. Vejamos, pois, algumas das mais prementes variáveis: 3.1.Os afectos e a conjugalidade Existem inúmeras definições de amor bem como de outros sentimentos que a ele estejam associados. De qualquer modo, a literatura é consensual em considerar que é o amor que une as pessoas e é pela sua ausência que muitas relações se dissolvem. É, portanto, o amor que preside às relações conjugais embora nem sempre assim tivesse acontecido. Ainda assim, o estudo do amor, tem sido relativamente esquecido na investigação em Psicologia, sendo apenas a partir da década de setenta que ele toma um carácter mais sistemático. A sua conceptualização, por outro lado, tem sido imensa existindo dezenas de teorias sobre o amor, algumas com cariz mais filosófico e divergindo também na sua operacionalização. Por outro lado, este sentimento é muitas vezes evocado e associado a outros conceitos que não sendo sentimentos, são inerentes à natureza de um e de outro, como são o caso da intimidade e do compromisso. Ou seja, movemonos num terreno pleno de complexidades em que muitas vezes o amor é 11 emoção, ou sentimento, ou paixão, ou ambos, sendo seguramente uma configuração de sentimentos (Narciso, 2001/2002, p.49) que pode vestir diversas formas no percurso relacional em função do tempo e da história idiossincrática daquela relação, e tendo a sua expressão contornos distintos, tonalidades ora mais fortes (como a paixão inicial) ora mais ténues, mas nunca deixando à deriva o “absoluto do casal” (Caillé, 1991). Por isto, o amor é relacional e necessariamente imbuído de processos cognitivos, de posturas sobre a vida, de filosofias de vida, …é porventura muito mais, é o que por vezes é indizível3. Deste modo, o amor é apaixonado quando existe “um estado de intenso desejo de união com o outro” (Hatfield, 1988,p. 191; é companheiro quando envolve “amizade, compreensão e preocupação com o bem estar do outro” (Hatfield, 1988, p.191); é romântico quando existe “uma apaixonada vinculação espiritual-emocional-sexual entre duas pessoas” (Branden, 1988, p.220), numa imensidão de definições em função dos modelos teóricos que as sustentam e que não cabe aqui continuar a referir. Contudo, falar de amor, ainda que com contornos de almejada cientificidade, deixa sempre a sensação de que procurar uma definição perfeita e suficientemente abrangente será sempre uma tarefa eterna e impossível! Felizmente, aliás, porque os afectos humanos não são compatíveis com regras ou definições espartanas. Além de diversas, as teorias psicológicas acerca do amor diferem na forma de o avaliar: ora o consideram um constructo estático, ora dinâmico e uni ou multidimensional. Abstemo-nos de referir as teorias4, apenas destacando os Estilos ou Padrões de Vinculação Hazan & Shaver, 1987; Bartholomew, 1991) e o Modelo de Gottman (1994) que ainda que sejam por nós utilizados como referências para a análise das relações conjugais no que concerne aos 3 De resto, o amor é um processo que se vai aprendendo deste que nascemos, na família e, posteriormente, no decurso do processo de desenvolvimento através da emergência de “novos encontros de amor” (Costa, 1998). 4 Amor apaixonado, amor companheiro (Berscheid e Walster, 1974); amor como emoção (Solomon, 1981); teoria triangular do amor e amor ao longo da vida (Sternberg, 1986, 1994, amor romântico (Branden, 1988); e estilos de amor Lee, 1977) são alguns dos inúmeros exemplos (in Blanchard-Fields, Chen & Hebert, 1997). 12 conflitos e à violência, serão posteriormente desenvolvidos e, nesse contexto, teremos oportunidade de voltar a falar, de novo e inevitavelmente, de amor. Associados ao amor, coexistem inúmeros e diversos conceitos e ainda que não existindo uma definição objectiva do que é o amor, existem conceptualizações do mesmo que nos merecem destaque. Concretamente, relembremos a teoria triangular do amor de Sternberg (1986) na medida em que esta perspectiva assume a existência de três dimensões ou vértices como fazendo parte da relação amorosa, a saber: a intimidade, a paixão e o compromisso (ou decisão)5. A referência a Sternberg surge justamente para falar de diferentes conceitos associados ao amor, dos quais destacaríamos, como Narciso (2001/2002) o de intimidade na medida em que ela será a “essência da relação” e, por isso, compreensivelmente, um dos conceitos mais estudados nas relações românticas. Das diversas definições de intimidade proporíamos a sua analogia com “…um tecido relacional entretecido por dois fios nucleares – partilha e autorevelação - os quais se ligam a outros fios – apoio emocional, confiança, mutualidade, interdependência e sexualidade” (ibd.,p. 93), chegando, mais uma vez, a uma definição que implica outros conceitos, realçando a complexidade natural deste tema. A intimidade, contudo, só se define num processo construído a dois dando forma ao “nós” relacional ao longo do tempo da relação e não existe sem um conjunto de processos adjacentes. Falamos da auto-revelação, processo de se dar a conhecer um ao outro (self-disclosure), inicialmente pontuado por informações mais pragmáticas para passar para as revelações mais pessoais e intimas como história de vida, valores, sonhos; da partilha que significa o darse um ao outro em termos psicológicos mas também na comunhão de bens de cuidados, de apoio no sentido pragmático do termo; do apoio emocional, que significa sentir-se compreendido, aceite, valorizado, respeitado e protegido; da confiança, ou seja, a capacidade de acreditar no outro e ter expectativas face a um futuro que se prevê comum; da mutualidade que consiste no sentido do 5 Com base nestas três componentes, que não precisam existir em simultâneo, o autor propõe oito tipos de amor o que expressa bem a ideia da complexidade de tentar definir este conceito e da infinidade de formas de ser vivido. 13 reconhecimento de que a história que se vai construindo é a dois, é partilhada e tem carácter de comutabilidade (assim como de igualdade e equidade na relação) e, finalmente, da interdependência que representa a capacidade de dosear independência e autonomia (questão de resto muito investigada no domínio das relações conjugais, e especificamente associada ao conflito e violência, como veremos). Obviamente que a construção da intimidade do casal só é possível a partir das histórias individuais de cada cônjuge, sendo estas, construídas e reconstruídas no percurso histórico de cada indivíduo ao longo de um processo desenvolvimental que vai do nascimento à morte, onde se pressupõe que sejam ultrapassados uma série de estádios de desenvolvimento e tomando novos contornos com o tempo e com as relações (Costa, 2005). Por tudo isto, o conceito de intimidade é, a nosso ver, um dos pilares, senão o cerne da conjugalidade, mas é também o mais controverso e complexo ainda que seja dos que melhor define a satisfação conjugal. Por isso, é interessante constatar que este conceito poderá não ter o mesmo sentido para homens e mulheres: para eles significa proximidade, partilha de actividades, e sexualidade e, para elas, tem um significado de diálogo, revelação de sentimentos e opiniões pessoais, expressão de afecto e compreensão recíproca. De resto, a intimidade tem sido, justamente, estudada para compreender alguns dos conflitos entre cônjuges (Christensen & Shenk, 1991; Duck & Wright, 1993; Markman & Kraft, 1989). Mas, ao falarmos de intimidade, falamos de autonomia porque a satisfação da necessidade de se sentir ligado (vinculação) e cuidado pelo outro implica que se respeita a sua autonomia, ou seja, “…o encontro entre dois selves com uma história de vida própria implica de ambas as partes a consciência da sua individualidade e da do outro…” (Costa, 2005, p. 10). Deste modo, contrariamente às relações de vinculação na infância, na idade adulta a reciprocidade das funções de vinculação é essencial a um equilíbrio entre proximidade e distância (Berman & Sperling, 1994). “É preciso ter cada vez mais confiança em si à medida que se desenvolve um amor partilhado, já que 14 dois seres só se tornam um quando se mantêm dois” (Andreas-Salomé, 1990; in Alarcão, 2002, p.72). Ainda que com um enfoque distinto, a dicotomia autonomia/proximidade tem sido das mais estudadas nas relações conjugais e pode ser resumida à questão de como conseguir manter a individualidade numa relação a dois. Sobretudo, como fazê-lo em relações criticadas por muitos, como aprofundaremos, de pouco igualitárias numa época em que, paradoxalmente, se valoriza a independência e a realização pessoal. Ou seja, como conseguem os casais conciliar diferentes papéis dentro e fora do casamento. Esta é esta é uma questão central da conjugalidade e, independentemente da nossa cultura ser intrinsecamente afectada pela noção de género e de o poder nas relações repousar neste paradigma (Blanton & Vandergriff-Avery, 2001), cremos que as expectativas face às relações conjugais têm vindo a alterar-se substancialmente e não apenas no sentido de uma maior exigência quanto às questões afectivo-emocionais, mas também no que concerne à conciliação de papéis diferenciados, tanto por parte dos homens como das mulheres em ordem a que as relações conjugais sejam percepcionadas como mais satisfatórias por ambos os parceiros (Steil, 1997). Apesar disto, reconhecemos que esta é uma das questões mais em foco nas investigações sobre casais, das mais transversais a todos os domínios específicos em análise da vida conjugal, como constataremos, e das mais controversas. A ideia global é a de que, a questão da conciliação de papéis ainda se coloca de forma menos pacífica para as mulheres do que para os homens. Mais comummente se fala de conflito de papéis relativamente a mulheres do que a homens que, quando conseguem harmonizar diferentes papéis, são avaliados positivamente. As mulheres, por seu lado, são quase sempre percepcionadas pelos outros como estando ansiosas e em conflito, ou com elas próprias ou com um meio que, por vezes, não é muito complacente, com praticas igualitárias. Finalmente, apesar das dificuldades inerentes à vivência da conjugalidade, o querer permanecer numa dada relação depende, antes de mais e acima de tudo, da vontade dos cônjuges. Introduzimos, desta forma, outra dicotomia recorrentemente estudada, a do compromisso vs. investimento. 15 Este querer estar significa o sentido de compromisso na relação que se distingue do ser na relação que designaria a componente de investimento. Esta diferenciação entre conceitos investe-se de alguma complexidade (a que não fazemos aqui referência). Contudo, poderemos ver que existem casais mais ou menos envolvidos na relação e outros em que apenas a dimensão do compromisso (que pode ser meramente formal e social) está presente. Ao examinarmos as diferentes tipologias de casamento, fica patente que a relação entre estes conceitos do ser e do estar na relação são essenciais para compreender as nuances e particularidades dos relacionamentos conjugais (Costa, 2005). Por outro lado, acreditamos que esta dicotomia pode acrescentar um enfoque útil à leitura das situações de conflito e de violência conjugais no sentido de melhor compreender a sua génese e processo. Falar de afectos sem finalmente falar de sexualidade não faria sentido já que se trata, naturalmente, de uma dimensão fundamental das relações românticas ou amorosas sendo as dificuldades a ela associada cada vez mais relacionadas com problemas de intimidade e de amor na relação. Como refere Fletcher “… a actividade sexual pode ser elevada a uma mais intensa e exaltada expressão quando integrada com níveis elevados de compromisso e intimidade. O acto de proporcionar prazer sexual, pode tornar-se tão importante como recebê-lo” (Fletcher, 2002, p.215). Contudo, os homens parecem ser capazes, mais do que as mulheres, de separar a sexualidade das dimensões referidas. Contudo, estudos vão assinalando resultados vários nem sempre no sentido dos estereótipos e assinalando essencialmente que a sexualidade evolui ao longo do ciclo de vida do indivíduo e do casal. Finalmente, veremos como os afectos têm um papel determinante na forma de resolução de conflitos de casais satisfeitos, papel reconhecido por diversos estudos. Destaquemos apenas, o modelo de Gottman e Silver (1999/2000) que através da metáfora da “conta bancária” reconhecem da existência, nos casais satisfeitos, de um conjunto de afectos e experiências emocionais vividos a dois e que servem como um escudo que é usado em momentos de desacordo e conflituosidade. Voltaremos a este modelo, pela sua relevância. 16 3.2. Famílias de origem e apoio social Referíamos ainda há pouco que existem dimensões da vida conjugal que são influenciadas pelo meio ou, se preferirmos, pelos contextos mais ou menos amplos em que o casal se movimenta na medida em que ele não se constitui como uma célula isolada do mundo que o rodeia. Nomeadamente, quando dissemos que o contexto familiar e/ou social pode ser mais ou menos complacente com práticas igualitárias entre homens e mulheres. Ou seja, na constituição de uma nova família, os cônjuges transportam consigo, por um lado, aspectos inerentes à sua história pessoal, história esta que decorreu numa determinada família e cujos efeitos se repercutem para além do tempo que a ela é confinado e, por outro, as suas relações com o meio circundante e especificamente com as famílias de origem do sub-sistema conjugal possue uma preponderância significativa no seio do relacionamento intra casal. De resto, muitos dos conflitos que emergem no casamento relacionam-se com a dificuldade em gerir diferentes ideias de família, além da tarefa árdua de gerir o tipo de relação que a nova família, por ora formada, tem de estabelecer com as famílias de origem que possibilitaram a sua criação, com a família alargada e com o desempenho de outros papéis familiares e sociais que se impõem naturalmente aos cônjuges. Por tudo isto, o estudo da família de origem revela-se fundamental para a compreensão do modo de transmissão de diversos padrões de funcionamento para os indivíduos em gerações posteriores e que, como sabemos, pode ter efeitos nas mais diversas áreas da nossa vida, com efeito, não nascemos do vazio, mas antes de um pai e mãe e, assim, de uma relação que mais ou menos intencionalmente foi construída. A qualidade do relacionamento da família de origem tem sido estudada à luz de diversos modelos teóricos e no que concerne aos casais, em ordem a perceber os efeitos na descendência e na forma como tal interfere na génese do seu próprio casamento. No entanto, fruto das modificações sociais do último século, o casal tende a estar mais dependente de si mesmo e o apoio anteriormente concedido pela 17 família de origem é, nos nossos tempos, menos presente ou contínuo ou mesmo inexistente. Veremos, como, além do cônjuge, a família de origem constitui, por um lado, a maior fonte de apoio para os casais mas, por outro, a gestão da relação do casal com as mesmas é muitas vezes percepcionada por um ou por ambos os cônjuges como causas de conflito relacional. Finalmente, a questão do apoio social em termos mais vastos é também de relevância notável na medida em a gestão diária de diferentes papéis, nomeadamente o da parentalidade, parece fazer emergir desacordos entre os cônjuges que facilmente poderiam ser solucionados através de apoios consistentes. Do mesmo modo, quando existem situações mais delicadas (como as de violência) daremos conta de que prevalece uma sensação de vazio no que concerne a apoios contextuais e comunitários. Veremos, pois, como o apoio social tem cada vez mais tomado um papel de destaque nos estudos sobre conjugalidade, na medida em que se constata da sua influência positiva nas tomadas de decisão dos cônjuges (Amato, 2000; Story et al, 2004). 4. A emergência dos conflitos nas relações conjugais O conflito é inevitável e abarca todos os domínios da vida podendo assumir-se que ele é inerente à espécie humana, independentemente da cultura ou do momento histórico considerado. No trabalho, em casa, nos mais diversos contextos sociais, os conflitos são a prova irrefutável de que as pessoas são diferentes e têm diferentes (e por vezes opostos) objectivos, interesses, desejos, responsabilidades, percepções, ideias e, podendo as suas imensas manifestações ocupar uma grande parte da nossa vida relacional e afectar-nos profundamente como indivíduos, como parceiros e como participantes na sociedade (Davis, Copobianco & Kraus, 2004). Nas famílias, especificamente, os conflitos podem ocorrer entre os diversos subsistemas e dentro deles, entre irmãos, pais e filhos, família alargada…, contudo, a maior parte da investigação tem-se devotado ao conflito nas relações românticas, sejam de namoro ou conjugais, emergindo, cada vez 18 mais estudos em que se analisam as relações homossexuais (Kurdek, 1999). Dada a sua complexidade, o conflito, tem tido a atenção de diversas disciplinas ao ponto de algumas das observações acerca do conflito conjugal, familiar ou de relações de namoro terem sido generalizadas a outros tipos de relacionamento e, alguns dos conceitos que estes domínios utilizam foram aportados de outras áreas de investigação do conflito que não a da Psicologia da Família (Cupach, 2000). Apesar do conflito ser um elemento natural da vida humana, paradoxalmente, na maior parte das situações, não estamos preparados para lidar com ele. Uma brevíssima associação livre sobre o que o conceito de conflito nos suscita levar-nos-ia a palavras carregadas de negatividade; mágoa, medo, luta de poder, escalada, e, raramente, associamos conflito a oportunidade, a melhor comunicação, criatividade, aprendizagem, descoberta e inovação. Contudo, sem conflito, sem diferentes pontos de vista, sem divergências não haveria nem inovação, nem novas descobertas (Gold, 1992). Várias são as definições de conflito6. Pode, por exemplo, ser definido como o processo que se inicia quando uma das partes envolvidas percebe que a outra parte está frustrada com algo, quando a acção de um interfere com as acções do outro, quando são manifestadas diferenças latentes que interferem com interesses e necessidades individuais (Donahue & Kolt, 1995; in Greeff & Bruyne, 2000). Neste trabalho, salientamos, necessariamente, a dimensão interpessoal do conflito na medida em que “não é possível conceber uma relação entre pessoas (de amizade, de casamento, familiares ou outras) em que não haja divergências. Pensar diferente e sentir diferente é inerente às relações humanas e potencialmente fonte do seu enriquecimento. Discutir 6 Embora o conflito possa ser definido de diversas maneiras e tenha sido igualmente definido em diversas áreas disciplinares, tratamos aqui dos conflitos que ocorrem quando existem “incompatibilities or antagonism of ideas, desires, and actions between the two partnres” (Rubin et al, 1995, p.64), também no domínio social se entende conflito como uma divergência de interesses percebida, ou a crença de que as aspirações das partes envolvidas não podem ser alcançadas simultaneamente. 19 essas diferenças, aduzir argumentos, mostrar que não pensamos da mesma forma é absolutamente saudável” (Costa, 1998, p.34/35). Como constatamos, as relações românticas têm na intimidade um dos seus fundamentos e centralidades (Fitzsimons & Bargh, 2003), apesar disso é consensual reconhecer que os conflitos estão presentes nas relações conjugais dependendo da forma como os casais lidam com eles constituir-se como construtivos ou destrutivos para a relação). A maior parte dos autores, aliás, defende que, independentemente da natureza dos conflitos e dos seus conteúdos, é a forma como os casais lidam com os conflitos que os diferencia entre casais satisfeitos e casais insatisfeitos (Markman, Renik, Floyd, Stanley, & Clements, 1993; Weiss & Heyman, 1997). Deste modo, a relação entre os conceitos de intimidade e conflito é fundamental, ainda que este seja preferencialmente estudado e tido como um forte indicador do funcionamento conjugal e que pareçam ter significados opostos para as relações: a intimidade seria um incentivo e o conflito uma ameaça (Fincham & Beach, 1999). Contudo, um estudo recente de Laurenceau, Troy e Carver (2005)7 postula que sentimentos de excitação devem derivar de experiências de intimidade (mas não da ausência de conflito) e sentimentos de ansiedade devem derivar de experiências de conflito (mas não de níveis baixos de intimidade), formulação que associa profundamente os dois conceitos, quase afirmando que um não existe sem o outro, e introduz uma perspectiva inovadora para a investigação. Nos casais, os conflitos podem ocorrer por causalidades muito diversas ainda que alguns conteúdos pareçam estar mais relacionados com o surgimento de conflitos do que outros, a saber: criticas, injustiças, situações de rejeição e de aborrecimento ou tensão acumulados entre os cônjuges são 7 O estudo é realizado com namorados e pretende analisar as flutuações diárias entre afecto positivo e ansiedade e os níveis de intimidade e conflito percebidos pelos casais durante 10 dias. Os resultados revelaram que quanto mais a pessoa estava perto de altos níveis de intimidade, e maior a percepção de movimento para a intimidade, mais elevados eram os valores de afecto positivo. Quanto mais próximo do conflito, e maior a percepção de movimento para o conflito, maiores eram os níveis de ansiedade. 20 - Standards: envolve as características que o indivíduo acredita que o parceiro e a relação devem ter. Diríamos que eles são moral e eticamente uma espécie de guias para o relacionamento (valores) ainda que problemáticos se demasiado rígidos e extremados se se tornam uma centralidade na vida das pessoas em detrimento de tudo o resto (perfeccionismo exacerbado, por exemplo). - Percepções: são inferências que se fazem do comportamento do outro, podem contribuir para o desajustamento conjugal porque podem ser distorcidas, as percepções são processos activos de selecção da informação tornando-a compreensível para o sujeito. O viés perceptivo é muito comum na medida em que cada sujeito (e, numa relação, cada parceiro) julga que a sua percepção corresponde à única informação disponível no momento e parte portanto do princípio que está correcta!). - Atribuições: são as explicações causais para os acontecimentos pessoais ou relacionais. Como é sabido, muita investigação tem sido desenvolvida com base neste constructo sobretudo através das suas dimensões (global - específica; estável - instável; interno - externo; conceito de abandono aprendido) e a partir dela alguns desenvolvimentos teóricos são de destacar como é o caso do modelo de desânimo aprendido que referiremos quando se falar da permanência das mulheres em relações violentas. - Expectativas: Bandura e Rotter (1986) foram pioneiros no domínio da teoria da aprendizagem social e desenvolveram este conceito que significa a antecipação de prováveis consequências do nosso comportamento e o modo como se deve alterar de acordo com as mesmas. Por exemplo, um dos cônjuges pode antecipar que ser assertivo licitará no outro a critica, podendo, então, optar por escolher uma resposta submissa. As expectativas podem referir-se a uma situação particular ou a domínios mais genéricos da vida. Desta forma, os indivíduos desenvolvem estruturas cognitivas que representam regularidades nos seus relacionamentos, sendo a organização parcimoniosa desses factores feita em duas categorias: (i) representações do self e (ii) representações do parceiro (Kurdek, 2003a). Diversas são as designações e interpretações destas estruturas cognitivas e do seu papel na 27 relação. Para Baldwin (1992) estes esquemas relacionais ou scripts são estruturas onde se representam o self e o outro, e os padrões relacionais, são uma espécie de mapas que permitem a navegação na relação, permitindo, a integração de informações congruentes com o mesmo e ignorando informações que não correspondam ao mapa. Este modelo de processamento de informação, enfatiza a componente motivacional no que concerne à experiência subjectiva de se estar numa relação, ou seja, os parceiros geralmente tendem a confirmar as suas expectativas relacionais e a evitar ameaças que tendam a desestabilizar a relação. Assim, alguma tendência para evitar os problemas seria explicada pela defesa da relação ou pelo medo da sua desestabilização (in Simpson, Rholes & Philips, 1995). Os esquemas relacionais são, no fundo, as representações que a maior parte dos indivíduos possui acerca da relação. Por exemplo, no que concerne ao casamento, a representação mais comum consiste em considerá-lo uma relação de proximidade e exclusividade baseada na verdade, carinho, comunicação, conforto e segurança com e face ao outro. Estão implícitos nesta representação a importância dos ideais, das percepções e da avaliação das relações (Fletcher, Simpson, Thomas & Giles, 1999). Neste sentido, alguns estudos têm-se focalizado na forma como os cônjuges processam informação sobre o companheiro e sobre a relação, sendo de enfatizar que os parcos resultados sugerem que os parceiros respondem a questões sobre o cônjuge e sobre a relação em função do sentimento dominante face aos mesmos, existindo uma associação entre satisfação conjugal e parceiros com representações mais positivas de si e do outro (Whisman & Delinsky, 2002). Coerentemente, outras investigações revelam que parceiros que apresentam desajustamento conjugal são mais propensos de terem visões ou percepções negativas deles e dos companheiros, por exemplo, percepcionarem que ambos têm sintomas de depressão (Kurdek, 2003b). Estas observações parecem, ainda, ser confirmadas em contexto terapêutico onde se constata serem os casais insatisfeitos os que mais fazem apelo às memórias, atitudes e informações negativas dos parceiros (Baucom & 28 Epstein, 1990) contrariamente a casais satisfeitos em que acontece, justamente, o oposto, revelando que crenças, atribuições e expectativas negativas são negativamente associadas com satisfação conjugal (Baucom et al, 1989; Gottman, 1994). Assim, as investigações parecem confirmar a relação entre menor satisfação conjugal e atribuição dos problemas a causas estáveis e internas do parceiro (Bradbury & Fincham, 1992; Fincham & Grych, 1991; Sayers & Baucom, 1995) e, ainda, que as teorias locais da relação – aquilo em que se acredita da e na relação - influenciam o modo como se investe na mesma, e como se luta pelo seu crescimento apesar dos problemas que possam surgir (Carrère, Buehlman, Gottman, Coan & Ruckstuhl, 2000; Knee, Patrick, Victor & Neighbors, 2004). Neste contexto, um estudo de Fitness e Fletcher (1993) realizado com casais, pretendia avaliar o papel das emoções nas situações de conflito tendo os resultados revelado o ódio e a raiva como as emoções negativas mais próximas do conflito sugerindo, ainda, que os parceiros com menor poder na relação, menor poder de auto-controlo e que percepcionam muitos obstáculos na relação, são aqueles que mais atribuem a si mesmos sentimentos de raiva e se envolvem em relações insatisfatórias (podendo envolver abuso físico e emocional). Para concretizar ainda mais estas questões, vejamos outro estudo, desta vez de Coyne, Tohmpson e Palmer (2002) realizado junto de 63 casais e em que se procurou analisar a associação entre depressão, conflito e satisfação conjugal. Os resultados revelaram que mulheres deprimidas usam a autoculpabilização e o desespero mais do que as não deprimidas; que nas mulheres a atribuição de culpa ao parceiro é influenciada pela associação entre discordância conjugal e pela disposição após as discussões e que, nos maridos, o desespero medeia a relação entre desconforto conjugal e depressão. Note-se que embora os autores do estudo não façam essa distinção a culpa (de si e do outro) e o desespero (de si e do outro) também são sentimentos, e não fica claro se os podemos entender como cognições ou como sentimentos ou, ainda, se é possível distingui-los desta forma, ou seja, 29 constata-se que para conceitos iguais os processos subjacentes podem ser diferentes ou coincidentes, ou que, no mínimo, interagem entre si. Será que os seres humanos têm esta capacidade de discernimento quando envolvidas em teias relacionais? Deste modo, a culpa e o desespero são dois tipos de cognições que incrementam a vulnerabilidade à depressão. Com efeito, uma das principais características da discordância conjugal é a culpa atribuída directamente ao parceiro pelos problemas da relação ou o uso da auto-culpabilização e, por outro lado. o desespero significa o reconhecimento de que as situações não podem melhorar (Bradbury & Fincham, 1990). Não esqueçamos, no entanto, que generalizações do tipo “casamentos de pessoas deprimidas são casamentos insatisfeitos e conflituosos” são necessariamente simplistas na medida em que casamentos disfuncionais, em si mesmos, reduzem as oportunidades de os parceiros se envolverem em actividades de prazer, conduzindo as pessoas deprimidas a uma situação ainda mais gravosa (Bradbury & Fincham, 2000; Whisman & Delinsky, 2002). Assim, esta tendência culpabilizante na presença de eventos negativos parece estar associada a depressão e hostilidade, ou seja, os cônjuges que se envolvem em maiores sentimentos de culpa (própria ou mútua) - sobretudo se essa culpa é para o próprio uma característica de personalidade – apresentam um maior risco de depressão, maior tendência de evitamento nas interacções e menores capacidades de resolução de problemas. Paralelamente, o desespero está associado à expectativa de que os acontecimentos negativos, como os conflitos conjugais, ocorrem e não é possível fazer com que as situações melhorem sendo esta uma característica que potencia a presença de depressão. Finalmente, um estudo de Sayers, Kohn, Fresco, Bellack e Sarwer (2001) demonstrou justamente uma associação entre conflito conjugal e a presença de traços depressivos em ambos os cônjuges e as cognições acima referidas, constatando-se da circularidade de influências entre diferentes tipos de variáveis (in Metz & Epstein, 2002). Assim sendo, as situações potencialmente conflituosas são um contexto ideal para analisar as relações entre confiança e processos atribucionais no 30 casal devendo considerar-se nas atribuições o significado que os parceiros concedem às situações de conflito (Miller & Rempel, 2004). Finalmente, vejamos como as percepções da relação desempenham um papel crucial na relação conjugal. Num estudo efectuado por Showers e Zeigler-Hill (2004) pretendeu-se averiguar o papel do conhecimento do companheiro amoroso e a evolução da relação ao longo de um ano tendo-se concluído que o conhecimento que se tem do companheiro (ou as representações mentais) se vai alterando com o tempo, sendo que aquelas que permanecem estáveis, ainda que não satisfatórias (desde que as percepções sejam verdadeiras), podem criar um efeito protector (ou contra) as preocupações acerca da relação, mesmo sob condições de conflito elevado. Refira-se que este estudo é efectuado com jovens namorados e, portanto, o peso institucional e quotidiano do casamento não está aqui presente. No mesmo sentido da avaliação do efeito das percepções no casamento, Neff e Karney, (2003) efectuaram um estudo junto de 82 casais ao longo de três anos e verificaram que a tendência para percepcionar os aspectos positivos da relação como os mais importantes contribui para um aumento da satisfação e estabilidade relacional. Ao mesmo tempo, estes casais possuíam a capacidade de alterar percepções acerca de assuntos ou temas específicos, sobretudo, encarando-os como passíveis de mudança com o tempo, destruindo desta forma o seu potencial efeito negativo para a relação. Finalmente, parece que nestes casais, as relações românticas são percepcionadas pelos cônjuges como uma oportunidade de gerir semelhanças e diferenças, e encarados como diferenças, os conflitos constituem uma oportunidade de crescimento pessoal e desafio comunicacional para ambos os cônjuges (Baxter & West, 2003). 6. Tipologias de Reacção ao Conflito O tipo de resposta dada a situações de conflito é dependente de uma panóplia de variáveis: desde individuais, relacionais, contextuais e 31 desenvolvimentais, na medida em que o processo histórico de desenvolvimento de cada individuo e de cada relação molda as estratégias que vão sendo utilizadas no lidar com as situações conflituosas, contribuindo para a complexidade do tema. Na análise desta questão, ainda assim, julgamos que os diversos modelos de reacção ao conflito que seguidamente apresentamos têm contribuído para uma melhor compreensão dos processos subjacentes aos conflitos conjugais. 6.1.Tipologia de Fitzpatrick (1988) Fitzpatrick (1988) apresenta-nos uma teoria tipológica que procura analisar e aceder ao modo como as pessoas reagem em situações de conflito no seio de relações íntimas. Este modelo apresenta quatro estratégias de reacção ao conflito – evitamento, acomodação ou cedência, colaboração e competição – definidas em função de duas componentes principais: a assertividade, entendida como um conjunto de atitudes e comportamentos que servem a satisfação das próprias preocupações ou necessidades e a cooperação, entendida como as atitudes e comportamentos que são direccionados para o parceiro no sentido da satisfação das suas preocupações e necessidades. Assim, o evitamento do conflito é não assertivo e não cooperativo na medida em que se pauta pelo evitar ou pelo abandono da situação através da negação, explicita ou implícita, do tema, de comentários de gozo ou de brincadeira, de afirmações teóricas abstractas e não contextualizadas. A acomodação ou cedência é não assertiva mas é cooperativa na medida em que pressupõe a cedência em benefício do outro, em detrimento das suas próprias necessidades e preocupações. Contudo, a cedência pode ocorrer porque um dos cônjuges decide que aquele aspecto “afinal não era assim tão importante” para ele ou simplesmente “por amor”…, ou outros processos. Por seu lado, a colaboração pressupõe assertividade e cooperação em níveis elevados. Nestas situações ambos os parceiros procuram soluções que 32 agradem a ambos e têm que estar presentes estratégias positivas como é o caso do compromisso, procura de informações relevantes para a resolução do problema, informações sobre sentimentos, pensamentos, causas, experiências passadas relevantes para a análise da situação em causa; feitos num ambiente de não hostilidade, de flexibilidade e aceitação de criticas, de compreensão, apoio e aceitação do outro, de partilha, de aceitação de responsabilidades, de mutualidade. Finalmente, a última estratégia desta tipologia – a competição – implica alta assertividade mas baixa cooperação. Com esta estratégia, os cônjuges tendem a impor as suas soluções, um ao outro. Pressupõe-se a utilização de estratégias como a rejeição de opiniões do parceiro feitas de modo mais ou menos subtil, a avaliação negativa do parceiro, as ameaças, as exigências, a persuasão mais ou menos discreta para que o outro mude o seu comportamento, o sarcasmo e a ironia depreciativa, a atribuição de pensamentos e responsabilidades exclusivas ao parceiro; numa ampla variedade de estratégias que visam atingir os objectivos do próprio. Desta forma, Fitzpatrick e colaboradores (1988) sugerem que na segunda parte do século XX, fruto de um conjunto diversificado de mudanças, se pode constatar da existência de diversos tipos de casais. Apresentam assim a seguinte tipologia: os casais tradicionais que se caracterizam pela sujeição de ambos os esposos às convenções de género, gozam de interdependência e pouco espaço pessoal; os casais independentes, caracterizam-se por uma igualdade de valores e crenças, desejo de conexão psicológica e por vezes autonomia e negoceiam acerca de quase tudo; os casais separados parecem ser emocionalmente divorciados e confiam no casamento como forma de manter uma ideologia tradicional sem interdependência afectiva; os mistos representam casais em que existem parceiros de diferentes protótipos, ou seja que aderem a diferentes modelos de casamento prevalecendo a “dupla” marido do tipo separado e mulher do tipo tradicional. Curiosamente, este modelo aproxima-se de alguns conceitos de um modelo antigo, mas clássico, apresentado por Thomas (1976; in Greeff & Bruyne, 2000) e que destacava duas dimensões nos comportamentos em 33 situações de conflito: assertividade (atender aos seus interesses) e cooperação (atender aos interesses do outro). Com base nelas, aquele autor estabeleceu cinco estilos de lidar com o conflito: competição; o comportamento é assertivo e não cooperativo, associado a um padrão relacional do tipo vencedor-perdedor; colaboração, comportamento assertivo e cooperativo associado com o confronto de desacordos para encontrar soluções; compromisso, que está entre a assertividade e cooperatividade e é associado a propostas intermédias; evitamento; comportamentos não assertivos e não cooperativos e é associado com retirada e falhanço; acomodação que é não assertivo e cooperativo, é visto para acalmar o outro e procurar harmonia. Na maioria das situações, todos os estilos, com excepção do colaborativo, são correlacionados negativamente com satisfação conjugal. No fundo, apesar de se terem alguns processos, parece que as tipologias não variam de modo significativo (Thomas & Kilmann, 1978; in Greeff & Bruyne, 2000). 6.2. A teoria da Acomodação (Rusbult, 1987; Rusbult, Yovetich & Verette, 1996; Verette, Whitney, Slovick & Lipkus, 1991) De acordo com Rusbult et al (1991, 1996) todas as pessoas tendem a assumir, ainda que pontualmente, comportamentos mais negativos quando estão envolvidas em relações de proximidade (que são relações de intimidade) contrariamente ao que acontece nas relações interpessoais em que um certo carácter de distanciamento tende a prevalecer. Para estes autores é justamente o modo como, nas relações de intimidade, se reage aos comportamentos potencialmente destrutivos do parceiro que marca a diferença entre relações satisfeitas e relações não satisfeitas. A esta capacidade de responder a um comportamento negativo do parceiro com um comportamento construtivo, os autores propõem o termo e/ou conceito de “acomodação”13 Ainda que o termo em si faça apelo, em termos de senso comum, a uma 13 Note-se que Gottman, Markman & Notarius tinham proposto em 1977 o conceito de “editing” para significar o mesmo. 34 conotação de conformismo negativa, neste caso, significa, justamente, a capacidade de reagir de forma construtiva e adaptada inibindo os impulsos do companheiro e alterando-os. Os mesmos autores propõem um modelo ou tipologia que traduz um conjunto de comportamentos sistemáticos, identificando quatro categorias básicas de resposta, analisadas ao longo de duas dimensões: construtividade vs. destrutividade (Rusbult et al, 1991; Rusbult, Yovetich & Verette, 1996;). As estratégias propostas são as seguintes: (i) saída que inclui comportamentos de destruição activa da relação como o ameaçar sair da relação ou efectivamente abandoná-la, abusar activamente (e intencionalmente?) do parceiro, gritar, abusar (comportamentos tidos como de violência física e/ou psicológica); (ii) resolver/voz, inclui estratégias activas que procuram a solução do conflito como as de tentar discutir os problemas, sugerir alternativas e soluções, procurar ajuda externa (seja de familiares, amigos ou técnicos), ou ainda, tentar alterar mudanças em si próprio e no cônjuge; (iii) lealdade, manifestada pela manutenção do compromisso com esperança em que a situação melhore, muitas vezes com recurso a crenças religiosas, mas sem nada fazer no sentido objectivo da resolução do conflito e, finalmente, (iv) a negligência que consiste em evitar o conflito, ignorar o parceiro, criticá-lo por questões irrelevantes sem sugerir soluções alternativas, envolver-se com terceiros ou outras situações potencialmente destrutivas e frustrantes para o parceiro e, eventualmente, para o próprio. Rusbult (1987, 1991) refere que estes diferentes tipos de resposta se situam ao longo de um contínuo, isto é, o mesmo indivíduo pode em momentos, situações, relações e contextos diferentes apresentar diferentes modos de resposta. A dimensão construtivo vs. destrutivo diz respeito aos efeitos que as estratégias possuem na relação e não no cônjuge. Exemplificando, quando um dos cônjuges, por exemplo, resolve divorciar-se esta estratégia tem um impacto negativo na relação embora para o próprio esta possa ser uma estratégia construtiva e, a segunda dimensão, activo vs. passivo, refere-se ao impacto que a resposta tem no problema, isto é, quando um dos cônjuges resolve sair de casa para evitar uma discussão, embora a 35 estratégia, em si mesma, seja activa, tem para a resolução do problema em causa uma conotação passiva. Desta forma, pessoas mais centradas em si próprias e nos seus desejos (egocentrismo), a acomodação parece ser menor, isto é, existem menos respostas construtivas; contrariamente, a acomodação aumenta quando associada a maior satisfação conjugal, a compromisso e investimento, e à assumpção da relação como central para o bem-estar pessoal e a características orientadas para a relação (Attridge, Berscheid & Simpson, 1995; Rusbult et al, 1991). Em suma, os estudos de Rusbult e colegas (1993, 2000) revelam que: casais insatisfeitos apresentam mais comportamentos negativos de resolução de problemas, o evitar de respostas destrutivas parece ser mais importante e determinante do que o maximizar das respostas construtivas, casais menos satisfeitos demonstram comportamentos verbais e não verbais negativos, apresentam maior criticismo, rejeição e hostilidade e envolvem-se em menor grau em actividades recreativas e de lazer, quando os parceiros se envolvem num ciclo destrutivo com respostas negativas de um para o outro, o seu bemestar reduz-se dramaticamente (ou seja, entra no processo de escalada). Contrariamente, casais cujos parceiros são capazes de se acomodar aos actos negativos um do outro não respondendo do mesmo modo e, portanto, não entrando no processo de escalada, promovem a estabilidade futura do casal (note-se que, com outro modelo teórico, Gottman (1994) chega às mesmas conclusões…). Assim, a acomodação pode ser conceptualizada como uma estratégia de manutenção relacional (Pasley et al, 2001)14. Finalmente, parece que as mulheres têm mais probabilidade de dar respostas de “lealdade” ou de “voz” e, nos homens, são mais prováveis respostas de tipo “negligência” e 14 Um estudo de Fincham, Beach & Davila (2003) considera o perdão como uma estratégia possível de resolução de conflitos assemelhando o seu papel nas relações íntimas ao de acomodação proposto de Rusbult. Os resultados indicam que a retaliação e o evitamento por parte dos homens e a falta de benevolência por parte das mulheres estão fortemente relacionados com interacções conjugais problemáticas. 36 outros estudos como o de Ridley e Surra (2001), digam que ambos os sexos podem optar por esta resposta. Voltaremos a esta questão. Neste cenário, quem opta pela retirada pode fazê-lo em ordem a acalmar-se, a controlar o conflito ou porque emocionalmente já está fora da relação. Outro tipo de perfil assimétrico é aquele em que um dos cônjuges cede ao outro, seja para o acalmar seja por acomodação. Gottman (1994), por exemplo, sugere que as mulheres optam por estas respostas porque precisam de “ler” as atitudes dos seus companheiros em ordem a prevenir a escalada. Como referem Rusbult e colegas (1991), um dos cônjuges pode escolher uma resposta positiva para reduzir a tensão adjacente ao comportamento do parceiro (conceito de acomodação). Um parceiro pode, pois, aprender que através da sua resposta pode acalmar as atitudes do outro. Finalmente, um terceiro cenário que ajuda a compreender os perfis assimétricos sugere que as relações conjugais reflectem que a vida conjugal não é estática, antes pelo contrário, é construída de momentos distintos pontuados por períodos melhores e outros piores sendo, justamente, nos piores períodos que um dos cônjuges pode ter que aprender a atenuar as incompatibilidades conjugais em ordem a estabilizar a relação. Outro estudo recente de Richard, Butler e Cross (2003), sugere que no decurso das interacções conflituosas entre os casais, as memórias da relação são sempre evocadas através do processo de regulação das emoções. Os autores chamam a atenção para o facto de que, ainda que a literatura proclame os benefícios de se enfrentarem os desacordos para as relações, emocionalmente, não é fácil a nenhum dos parceiros expressar o que sente ao outro. E que, independentemente dos temas geradores de conflito no casal serem profundos ou mundanos serão, sempre, pautados por sentimentos intensos e diversos. Desta forma, se numa situação conflituosa, for possível evocar memórias agradáveis da relação (trazendo à mente gestos, palavras acontecimentos em que o parceiro “estava lá” para o outro) as emoções associadas geram um estado de espírito positivo e tenderão a fazer decrescer a tensão permitindo a adopção de perspectivas e significados mais razoáveis e 43 impedindo a entrada em situações potencialmente negativas e agressivas (Jackson, Hoekstra, Scott, Sanbom, Karafa & Brandenburg, 2000; Richards et al, 2003). Por outro lado, quando o processo de regulação das emoções é evocado a posteriori, assim que um evento desagradável se revela, surge a supressão expressiva ou seja, os parceiros estão demasiado atentos ao seu estado de aparência e querendo parecer neutrais suprimem expressões, caretas, olhares carregados que queiram significar o contrário mas acabam, justamente, por fazer o que mais querem evitar (Gross & Levenson, 1983;in Richard et al, 2003). Em suma, estas duas estratégias têm um impacto diferente nos recursos atencionais disponíveis para os cônjuges durante as situações de conflito, assim: (i) a supressão expressiva faz decrescer a atenção que os parceiros conferem aos conflitos, degradando a memória do que é dito; (ii) a evocação de memórias positivas faz aumentar a extensão da atenção que os parceiros conferem às conversas conduzindo ao efectivo e construtivo envolvimento dos parceiros nas situações de conflito. Parece, assim, que indivíduos que não conseguem evocar situações agradáveis do passado, consciente ou inconscientemente, preenchem essas lacunas, através da reconstrução de cenários negativos e em que não é valorizado o processo de mudança relacional no decurso do tempo, nem o estado actual da relação (Holmberg & Veroff, 2000). 6.4. Tipologia de Canary & Cupach (1988) Outras tipologias existem, ainda que menos relevantes, das quais destacaríamos a de Canary, Cupach e Messman (1995) Estes autores identificam, fundamentalmente, três tipos de estratégias em situação de conflito, a saber: integrativas, distributivas e evitantes. As primeiras são mais frequentes em casais satisfeitos e incluem estratégias como a partilha, a colaboração, a negociação e a mutualidade. As estratégias distributivas referem-se ao uso da crítica descontextualizada, sarcasmo e outras manifestações agressivas, finalmente, as estratégias evitantes referem-se ao 44 desvio ao conflito ou aos temas que estão na sua génese, à negação do conflito, ou a centrar-se nas formas de discussão do conflito em detrimento dos seus conteúdos. Digamos que não é, pois, surpreendente que as estratégias integrativas se relacionem positivamente com a resolução de conflitos, maiores níveis de intimidade com o parceiro e de satisfação com a relação. Neste âmbito, num estudo realizado pelos mesmos autores com 100 casais, pretendeu-se perceber as diferenças de género e o tipo de estratégias de resolução de conflito utilizadas considerando as integrativas (cooperativas e directas); distributivas (competitivas e directas) e evitamento (tácticas indirectas). Os casais foram avaliados em dois momentos distintos e a única diferença significativa encontrada foi a de que as mulheres usaram mais tácticas distributivas nos dois momentos de análise, enquanto os homens usaram significativamente mais tácticas integrativas e de evitamento. E, ainda, mais surpreendente foi constatar que as mulheres associavam a competência dos maridos ao uso de estratégias integrativas e evitantes, e eles percepcionaram a competência das esposas em função do seu uso de estratégias integrativas. Canary & Emmers-Sommer (1997) numa revisão de mais de três dezenas de estudos sobre os estilos de lidar com o conflito constatam também uma maior tendência dos homens para usar tácticas ou estratégias competitivas e as mulheres usam mais tácticas de compromisso. Contudo, sobre diferenças de género falaremos mais tarde. 6.5. Modelo da Cascata para a Ruptura Conjugal Ao longo de uma série de anos de trabalho com casais Gottman, (1994) desenvolve dois modelos que podemos considerar profundamente relacionados, um que lhe permitiu descrever e distinguir casais felizes - Modelo de Sucesso Conjugal de Gotman e Silver (2000), e outro que descreve os casais infelizes - o Modelo da Cascata para a Ruptura Conjugal - que identifica um conjunto de variáveis que podem predizer a dissolução da relação. 45 Gottman e Silver (2000) consideram que existem nos casais felizes duas particularidades assinaláveis: por um lado, entre os cônjuges existe um sentimento de profunda amizade e respeito mútuos, de busca do conhecimento íntimo, da procura da partilha de pequenos momentos expressos no dia a dia através da afectividade e, por outro lado, estes casais conseguem que no seu relacionamento os sentimentos e pensamentos negativos não ofusquem ou anulem os positivos, por isso, estes casais são definidos pelos autores como sendo emocionalmente inteligentes. Desta forma, contrariamente aos casais que caminham face à dissolução das suas relações, os casamentos felizes e emocionalmente inteligentes, regem-se por Sete Princípios ainda que nem sempre sejam activados de forma consciente pelos cônjuges. Vejamos, a descrição que Gottman faz de cada um deles: - Enriquecer o mapa de afecto do casal: estes casais conhecem efectiva e intimamente o universo do seu cônjuge, conhecem os seus pensamentos e sentimentos acerca das coisas, conhecem o seu quotidiano mas também a sua história passada, mesmo a que não foi vivida em comum, interessam-se por ela, são casais que reservam um lugar de destaque para a sua vida a dois sendo, por isto, mais capazes de enfrentar os desacordos e acontecimentos de vida stressantes e/ou não normativos, bem como os normativos, obviamente. - Cultivar a ternura e a estima recíprocas: na medida em que esta é a melhor forma de bloquear o caminho para a ruptura. Curiosamente embora Gottman não explicite claramente como se operacionalizam estes processos, deduzimos do seu modelo que são essenciais na dinâmica relacional conjugal os pequenos nadas como o conferir atenção ao outro, não deixar passar pormenores significativos, ter dias ou momentos carinhosos 19 em que se faz qlguma coisa pelo parceiro (põe exempli telofonar duarante o dia,…). - Virar-se um para o outro em vez de se afastar - “os casais que têm o hábito de se virarem um para o outro aumentam o crédito da sua contapoupança (…) aqueles que deverão enfrentar um conflito, ou numa das crises 19 Gottman reconhece a importância dos momentos de afecto positivo ao longo do dia para a satisfação conjugal, sendo que este afecto positivo deve ser cultivado ao longo do tempo. Fredrikson (2001) chamalhes “caring days” (in Drive & Gottman, 2004) 46 da vida (…) podem assim manter uma percepção positiva mútua sobre a relação, mesmo durante os períodos difíceis” (Gottman, 2000, p.94). Esta metáfora com a conta bancária é significativa da importância dos pormenores insignificantes da vida quotidiana e da sua relevância em termos relacionais. - Deixar-se influenciar pelo parceiro – nas relações felizes o poder é partilhado e os desacordos são enfrentados construtivamente, assim, tem que existir um padrão de influência mútuo nestes casais. Os estudos realizados por Gottman (2001) referem que homens que se deixam influenciar pelas suas mulheres são mais felizes e têm menor probabilidade de se separar. - Resolver os problemas solúveis: para que os problemas sejam resolvidos é necessário um processo que inclua a capacidade de iniciar as discussões calmamente, ser capaz de fazer compromissos (e cedências), ter tolerância com os erros do outro, estar atento aos sinais fisiológicos em ordem a conseguir parar a discussão perante os primeiros sinais desproporcionados de stress e ainda, aceitar e propor tentativas de reconciliação. Obviamente que falamos de problemas específicos e que sejam passíveis de ter solução porque para outros Gottman propõe o principio seguinte - Ultrapassar os impasses – os impasses são os problemas insolúveis e perante estes o objectivo não é o de os resolver mas antes o de viver com eles sem mágoas e ressentimentos, dialogando sobre eles e assumindo-os. Naturalmente que este tipo de problema/impasse pode estar associado a conflitos mais profundos ou a situações mais intensas e que provocam maior sofrimento no casal. Este autor considera que os impasses são os sonhos de cada um dos parceiros que não estão a ser satisfeitos ou respeitados pelo outro ou pela relação. Os sonhos podem ser mais ou menos profundos ou concretos e significam aspirações, expectativas, desejos que cada cônjuge possui às quais confere um sentido particular para a sua vida. Ultrapassar o impasse significa identificar o sonho que está escondido atrás do conflito e para isso cada cônjuge tem que ser capaz de o desvendar, de o partilhar. - Caminhar no mesmo sentido: significa a partilha de um projecto comum, mas projecto entendido ao nível espiritual, com sentimentos que dizem respeito à filosofia de vida dos cônjuges, é uma “cultura de casal” (ibd., p. 253). 47 Em suma, estes casais caracterizam-se pela capacidade de reconhecer que o amor não é feito apenas a partir de grandes momentos e de sentimentos mais intensos como a paixão, mas antes de pequenos detalhes, de subtilezas, de uma vivência comum partilhada que permita a existência de uma atmosfera de positividade. A amizade representa aqui o papel de grande defensora desta positividade. Simultaneamente, esta conceptualização assume a existência de pensamentos e sentimentos negativos e de desacordos em casais felizes e infelizes, ou seja, todos os casais têm momentos de satisfação e insatisfação, felicidade, infelicidade, desacordos, problemas… inevitáveis à vida e à conjugalidade Este clima de positividade leva a que os casais satisfeitos tendam a utilizar estratégias de resolução de conflitos positivas como a empatia, a escuta activa, possibilidade de chegar a acordos, cedências, aceitação e humor que, por si mesmas, contribuem para o crescimento da relação, incrementam o sentido de liberdade pessoal, a sensação de amar e de ser amado e a capacidade de resolução de conflitos (Gottman & Silver, 2000). Parece estabelecer-se, pois, uma espécie de “ciclo vicioso positivo” nestes casais em que se pressente uma capacidade de aprendizagem por parte daqueles que utilizam estas estratégias de resolução positiva do conflito (Hatfield & Hopson, 1993). De qualquer modo, a resolução positiva de conflitos está associada à capacidade de chegar a acordos reconhecendo-se a dificuldade deste desiderato para alguns casais na medida em que se exige por parte de ambos os cônjuges a capacidade de ceder em situações diversas e, eventualmente alternadas, seja no tempo, seja no que concerne aos conteúdos das situações conflituosas, donde a relevância da capacidade de negociar assumindo que não há, em quaisquer circunstâncias, vencedores e vencidos e que cada solução encontrada encerra, para um e para o outro, custos e benefícios, mas, em última análise, traz mais-valias para o casal.20 Este processo só é possível 20 O próprio Gottman fala-nos da metáfora da “conta bancária” em que cada cônjuge deposita afecto e carinho e que vem no sentido de outras metáforas como a dos “caring days” de que falaámos. 48 desde que exista uma clara e objectiva definição dos problemas o que implica uma atitude de flexibilidade por parte dos elementos do casal em tudo oposta a uma postura egocêntrica. Contrariamente aos casais felizes, os infelizes caracterizam-se por evidenciar um conjunto de sinais, concretamente nas situações de conflito, que evidenciam uma possível dissolução futura da relação, sinais que Gottman sintetiza no seu modelo “Cascata para a Ruptura Conjugal”: - São casais que no início de uma discussão revelam imediatamente níveis elevados de crítica, de sarcasmos, de afirmações de menosprezo, num tom ameaçador e negativo face ao outro. - Estão presentes os quatro cavaleiros - que se referem a quatro formas especificas de interacção negativa entre o casal: a crítica global, que se destina sempre à personalidade do cônjuge e não a situações especificas; o menosprezo, sob a forma de sarcasmo ou cinismo diminuindo o outro e envenenando a relação; as atitudes defensivas, que são tomadas por aquele que se sente agredido e que instigam no outro a escalada do conflito, por norma, através de censura dissimulada e, finalmente, a fuga que consiste no abandono recorrente das situações por um dos cônjuges, o que significa para o outro também o abandono da relação. - O afogamento – significa o início progressivo de um processo de desinvestimento afectivo da relação, marcado justamente pelos níveis crescentes de negatividade e hostilidade para que os quatro cavaleiros concorrem21. 21 Em 1994, Gottman já define conflito hostil ou adverso como um modelo de interacção negativa nos casais que inclui argumentação “quente” frequente, insultos, chamar nomes, incapacidade para ouvir, fraco envolvimento emocional e finalmente um ratio de comportamentos positivos inferiores aos negativos (in Tophan & Holman, 2005) O autor considera a identificação das variáveis que estão na génese destes comportamentos como uma ajuda substancial para os casais em ordem, a que eles possam ultrapassá-los, considerando ainda serem necessários mais estudos nesta área especifica da intervenção. 49 - A linguagem corporal22 – Gottman destaca as alterações fisiológicas patentes em situações de conflito dos casais como constituindo um bom indicador da perturbação provocada nos cônjuges. Estas alterações físicas são evidenciadas por sinais diversos como o ritmo cardíaco, alterações de tensão arterial, alterações hormonais, e têm implicações a nível cognitivo fazendo diminuir a capacidade para o envolvimento construtivo nas discussões. Deste modo, o leque de respostas possível ou de estratégias utilizadas face à situação de conflito fica limitado e, muitas vezes, consiste apenas no silêncio, no abandono da situação ou no envolvimento na mesma mas com contornos negativos (usando o menosprezo, a crítica…). - As más recordações – Nas relações marcadas por este clima de negatividade a percepção que os cônjuges possam ter relativamente ao seu passado comum, ao início da sua história relacional torna-se, compreensivelmente, negativo. Gottman refere neste sentido que é possível identificar casais que se encaminham para a ruptura conjugal pela forma como eles narram a história da sua relação - O insucesso das tentativas de reconciliação – Neste clima relacional as tentativas de inverter o percurso escolhido por parte de um dos cônjuges ou por ambos revelam-se infrutíferos, isto é, na presença dos quatro cavaleiros, Gottman considera que a ruptura conjugal é a saída possível na esmagadora maioria dos casos (80 a 90%). Deste modo, contrariamente aos casais satisfeitos, as estratégias de resolução de conflito negativas ou aversivas utilizadas preferencialmente pelos casais insatisfeitos, contêm uma intenção de auto-protecção por parte do sujeito e despoletam ciclos interactivos rígidos e fechados na medida em que solicitam por parte do parceiro respostas ou atitudes e comportamentos complementares e simétricos: controlo, cedência e distanciamento ou indiferença. Nestes casais ocorre, então, indiferença, rancor, aborrecimento, apatia, tristeza, lutas de poder, sentimentos de desafeição ao outro, de rejeição 22 Veremos que o sentido das diferenças entre os sexos, provocado pelas alterações fisiológicas, não tem sido consensual. Contudo, é claro que tanto a nível físico e psíquico, ambos os cônjuges são afectados pelas discussões hostis. 50 (Hatfield & Rapson, 1993; Kayser, 1993). Já vimos que as pessoas podem proteger-se de diversas formas nas reacções à situação conflituosa: evitar o conflito cedendo; submetendo-se porque negam as suas próprias vontades, desejos e valores com medo de ser rejeitado pelo outro; impondo o seu controlo obrigando o outro, pelo medo ou culpa, a obedecer às suas vontades e desejos; mostrando indiferença como forma de ignorar o conflito e afastar-se da situação. Note-se que o limiar da diferença entre estes comportamentos e o uso de violência psicológica são extraordinariamente ténues23. Por outro lado, a revisão dos estudos torna visível que os casais insatisfeitos se envolvem particularmente em sequências negativas e rígidas de comunicação (Gottman, 1994; Griffin, 1993), ou seja estes parceiros tem maior probabilidade de emitir mensagens negativas e de se envolver em ameaças, manipulações diversas. Baseado na observação de casais em conflito Gottman (1994) propõe a existência de três tipos de casais funcionais e dois tipos disfuncionais. Assim, os três primeiros vêem de encontro à tipologia sugerida por Kirkpatrick: casais validantes – são como os tradicionais no que concerne às emoções mas neutrais quando lidam com o conflito; casais voláteis - que fazem lembrar os independentes na forma de se envolverem nos assuntos do outro; casais que minimizam o conflito que lembram os separados na distância emocional que conseguem manter nestas situações problemáticas. Segundo Gottman, os restantes casais são disfuncionais e tal manifesta-se no uso de defensibilidade, retirada/evitamento e desprezo (seriam sobretudo os casais mistos). Assim, as diferenças de género estão patentes nos casamentos de tipo tradicional e separado e emergem com especial significado nos casais mistos do tipo tradicional/separado (o que está aparentemente de acordo ao padrão exigência-retirada de que falaremos seguidamente) 23 Já em 1989, Gottman e Krokoff referiam que só o envolvimento positivo no conflito tem consequências positivas no relacionamento conjugal porque o conflito que apela a evitamento, defensividade e subordinação têm efeitos longitudinais disfuncionais para as relações conjugais, podendo causar violência psicológica e até física, com grande sofrimento para estes casais. 51 Curiosamente, Kayser (1993) considera igualmente que a inabilidade em resolver conflitos é o maior contributo para o crescimento do processo de desafeição numa relação (a par da falta de mutualidade e da insatisfação de necessidades intimas). Por norma, esta incapacidade é reveladora de problemas de comunicação e de atitudes como o evitamento ou retirada das situações de conflito, nomeadamente porque gera frustração no outro parceiro ou são conotados como uma espécie de punição pelo parceiro que não se retira dos conflitos. Sobre estas especificidades falamos no padrão seguinte. 6.6. O Padrão Exigência- Retirada ou Ataque - Evitamento Falar de conflito no relacionamento conjugal sem falar do padrão exigência-retirada ou ataque-evitamento24 é absolutamente impossível. Com efeito, este é um “modelo clássico” na tentativa de compreensão das diferenças entre homens e mulheres e, em última instância, dos casais no modo de lidar com os conflitos. Um dos estudos pioneiros sobre casamento data de 1938 (in, Tannen, 1990) e já reconhecia que as mulheres se queixavam mais do que os seus maridos sendo estes emocionalmente e fisicamente mais evitantes nas discussões. Em 1985, Margolin & Fernandez também lhe fazem referência e, nos nossos dias, a investigação dos conflitos na conjugalidade tem, igualmente, destacado o mesmo padrão; que tem sido avaliado sobretudo através de questionários de auto-relato (Eldridge & Christensen, 2002; Heavey, Christensen & Malamuth, 1995; Verhofstadt, Buysse, Clerq e Goodwin, 2005). O padrão aqui discutido não se trata exactamente de um modelo ou tipologia (por isso, inicialmente, o colocamos entre aspas), contudo, acaba por tentar explicar um conjunto de regularidades nas reacções conjugais ao 24 Estas duas terminologias são utilizadas na literatura, indiscriminadamente. Tentaremos usálas em consonância com os estudos e autores a que, a cada passo, fazemos referência. De qualquer forma, a sua utilização é pontuada por críticas conceptuais a que faremos referência (Roberts, 2000). 52 que o vai fazer. Mas, para alguém que esteja muito envolvido na relação estas são saídas impensáveis, nomeadamente para as mulheres que estão ética, pessoal e estruturalmente mais envolvidas nas relações (Johnson & Kapinus, 1995). A algumas particularidades relacionadas com o que temos vindo a discutir acerca do padrão exigência-retirada, voltamos necessariamente no ponto seguinte. 7. O poder e o conflito na relação conjugal O poder29 é seguramente uma das características indissociáveis das relações humanas e especificamente das relações íntimas, inclusivamente as conjugais. Aliás, a luta pelo poder é de igual modo comum a todas as relações. A forma como o poder está distribuído na conjugalidade tem sido alvo de estudo nas décadas recentes nomeadamente no que concerne ao uso de estratégias de influência, distribuição de poder e às diferenças de género (Larson, Hammond & Harper, 1998). O poder pode ser assumido com base nos estereótipos de género na medida em que estes se socorrem de diferenças assinaláveis de poder, na nossa sociedade. Com efeito, tradicionalmente, os homens detêm um maior controlo em áreas consideradas mais valorizadas pela sociedade, desta forma são-lhes concedidas mais oportunidades e dado que as expectativas são superiores espera-se que eles sejam mais competentes (Fiske & Stevens, 1998). Não tem sido fácil alterar este padrão, independentemente das mudanças sociais a que temos assistido nas últimas décadas. Estas diferenças de estatuto tendem a ser perpetuadas numa assimetria de poder e prestígio e a 29 A noção de poder é na nossa cultura intrinsecamente afectada pelo género ao ponto de Blanton e Vandergriff-Avery, (200, p.137) referirem que “just as one cannot not communicate, one also cannot do gender” e que, ignorando o género enquanto construção psicossocial que organiza as nossas vidas familiares e sociais, estaríamos a despolitizar os conflitos entre os cônjuges. 59 permanecer desvalorizados os traços ditos femininos (emotividade) contrariamente aos masculinos (competência). Ou seja, falamos do clássico duplo padrão largamente difundido para explicar as relações entre homens e mulheres. As dimensões do poder e da influência mútuas são essenciais para se compreenderem as dinâmicas relacionais. Alguns autores denominam o poder exercido na relação por controlo relacional (Szinovacz, 1987). Com efeito, numa determinada relação o comportamento de cada pessoa influencia o comportamento do outro. As trocas comunicacionais que servem para definir a relação designam-se de manobras comunicacionais e nelas podemos incluir pedidos, ordens, sugestões, instruções, informações, etc. (Gulota, 1976). Permanente e continuamente os casais negoceiam, de forma mais ou menos explicita, as questões do domínio, submissão, entre outras, definindo deste modo a natureza da relação. O poder tem também sido conceptualizado em três domínios distintos, a saber: as bases do poder, refere-se aos contributos económicos e pessoais como situação económica, compromisso, desejo de intimidade; os processos do poder, referem-se às estratégias de interacção como persuasão, modo de resolução de problemas, exigências utilizados de modo a controlar a relação e, finalmente, o poder final que se refere àquele que tem a última palavra, ou seja qual dos cônjuges determina o resultado final, a forma de resolver os problemas e/ou a tomada de decisões, (fortemente associado à parentalidade e à distribuição de tarefas domésticas) (Byrne & Carr, 2000). No entanto, de um modo mais pragmático, o poder associa-se a recursos embora estes tenham um carácter de subjectividade (dinheiro, amor, prestígio, são alguns exemplos).30 De uma forma geral, parece que os homens utilizam preferencialmente poder de recompensa e coercivo enquanto as mulheres usam mais poder de referência (Steil, 1997). Finalmente, os autores consideram que os homens 30 Relativamente aos recursos ou bases de poder a tipologia de French e Raven (1988) continua clássica: recompensa, coercivo, legítimo, perito, referente e informacional são diversos tipos de poder e diversos estudos têm revelado que entre os casais o poder coercivo é o que se associa a resultados mais negativos e o referente aos resultados mais positivos (in Byrne & Carr, 2000) 60 recorrem a um maior número de bases de poder, contudo tal não significa que as mulheres não tenham poder, correcto será dizer que denotam falta de autoridade e exercem o poder através de estratégias de influência junto dos homens. Relativamente ao poder exercido através da influência, parece que as mulheres são mais facilmente influenciáveis que os homens porventura devido à posição de subordinadas que habitualmente têm desempenhado nas relações (Eagly, 1998). 7.1. As estratégias de influência O poder está, então, associado à quantidade de recursos que determinada pessoa possui e ligados ao tipo de influência que determinado indivíduo consegue exercer. Se os recursos são concretos (estatuto, dinheiro, conhecimento) a pessoa exerce maior influência e exerce-a directamente porque detém um poder que é socialmente valorizado aumentando-lhe a autoconfiança através de estratégias como o uso da lógica, afecto e atracção, entre outras. Pelo contrário, os que não têm acesso a recursos concretos apresentam menor auto-confiança e utilizam estratégias de influência indirectas como insinuar, chorar, mostrar desespero, afastar-se ou intimidar (Instone, Major & Bunker, 1983). A investigação revela que existem diferenças significativas no que concerne à utilização de diferentes estratégias parecendo que, a longo prazo, indivíduos que utilizam modos de influência pessoais e indirectos, apresentam menores níveis de auto-estima, dependência e maior probabilidade de se situarem numa posição de subordinação (Doyle & Paludi, 1995). No que se refere a casais e, independentemente do tipo de relação, a utilização de estratégias directas e bilaterais tem uma relação significativa com satisfação e altos níveis de intimidade relacional enquanto as estratégias unilaterais, manipulativas e indirectas estão associadas a níveis baixos de intimidade e maior insatisfação conjugal (Aida & Falbo, 1991; Steil, 1997). 61 Dizer que os casais demonstram um equilíbrio na relação no que concerne ao poder não significa, ainda assim, que ambos os cônjuges tenham igual voz em todas as matérias. Com efeito, o poder pode ser exercido de forma tradicional, de acordo com as linhas de actuação clássicas (os homens na gestão financeira e as mulheres na gestão doméstica) o que reflecte uma disparidade de poder objectivo, sobretudo para as mulheres (Sprecher & Felmlee, 1997). Por isso, Gray-Little e Burks (1983) falam-nos de dois tipos de relação igualitária: sincrática e autonómica, a primeira descreve uma relação em que ambos os cônjuges exercem poder e tomam decisões, conjuntamente, em todas as áreas das suas vidas. Já na relação autonómica, o poder é exercido em áreas separadas. Ainda os mesmos autores, ao fazerem uma revisão de estudos notam que quando as mulheres têm maior poder há menor satisfação conjugal talvez porque este tipo de relação não tenha a aprovação cultural conduzindo a que estes sujeitos se vejam afastados da norma31. É um facto que em numerosas investigações o poder nas relações conjugais aparece associado à emergência de conflito. Deste modo, em casais onde existe igual poder estão mais associados ao aparecimento de conflitos do que relações em que o poder é desigual para ambos os cônjuges (Brandon, 1996). Outros estudos, contudo, revelam que a desigualdade de poder pode promover conflitos violentos, nomeadamente tal pode acontecer em relações abusivas amorosas (Thompson & Walker, 1989). A desigualdade de poder pode também estar na origem da escolha de uma ou outra estratégia para a resolução dos conflitos. Por exemplo, mulheres que possuem um estatuto na relação de subordinação tenderão ou a evitar o conflito ou a utilizar as emoções como resposta. Acresce ainda o facto de, provavelmente por razões de índole cultural, as mulheres serem tidas como as 31 Uma investigação de Thompson & Walker (1989) revela a existência de uma relação curvilínea entre salário auferido pelas mulheres e o seu poder na relação conjugal, ou seja, à medida que o salário das mulheres cresce aumenta o seu poder na relação até ao momento em que auferem salários iguais porque a partir do momento em que têm salários superiores o seu poder decresce 62 responsáveis pela manutenção das relações, facto que presumivelmente explica o aumento da sua ansiedade (se comparadas com os seus companheiros), e ainda o facto de, insistentemente, serem elas a levantar a maior parte das questões ou problemas justamente com a intenção de os solucionar, dado que cuidar das relações é uma tarefa que, supostamente, lhes cabe (Cancian, 1987; Hendrick, 1981). As tarefas domésticas são, também, frequentemente, associadas ao poder na relação conjugal. Com efeito, diversos estudos revelam ser este o domínio que, conjuntamente com o da parentalidade, parece ser da alçada primordial das mulheres (Steil, 1997) e mesmo em relações igualitárias e equitativas o nascimento dos filhos faz reactivar uma lógica tradicionalista. Peplau (1983; in Steil, 1997) distingue três tipos de casais: tradicionais em que a dominância compete ao marido no que concerne ao processo de tomada de decisões e em que a atribuição de responsabilidades se processa de acordo com o género; igualitários, onde encontramos casais em que, tanto a tomada de decisões como a atribuição de responsabilidades são equitativos e, finalmente, os modernos; caracterizados por relações que representam uma forma intermédia das anteriores. Outra tipologia fala-nos de casais tradicionais em que a responsabilidade doméstica é exercida pela mulher; casais participantes em que ambos os elementos trabalham e partilham responsabilidades ainda que as domésticas permaneçam das mulheres e, por último, casais com papéis partilhados formados por casais onde ambos os parceiros tudo partilham (Gilbert, 1985; in Steil, 1997). Também Scanzoni, Polonko, Teachman e Thompson (1989), falam acerca de três modos diversos de viver o casamento nos dias de hoje. Distinguem, então, parceiros iguais, tipo senio-junior e parceiros complementares tendo como dimensão principal de análise e diferenciação o estatuto e poder económico dos cônjuges. Assim, no primeiro tipo de relação existe uma co-responsabilidade em todos os domínios da vida conjugal ainda que os salários possam ser desiguais; o segundo define-se pela secundarização das mulheres face aos seus maridos porque consideram o próprio emprego menos importante e, o último tipo, refere-se aos casais em 63 que os homens são os únicos sustentos da casa porque as mulheres não trabalham. De qualquer modo, a satisfação conjugal parece estar associada à equitatividade e à equidade das relações bem como a maior compromisso, bem-estar pessoal, maior satisfação sexual e intimidade (Larson,et al, 1998; Steil, 1997). A tomada de decisão dentro do casal é influenciada por outros factores, designadamente o prestígio profissional e económico sendo que, como referimos, tendencialmente, este é superior nos homens. Saliente-se que as mulheres, de um modo geral, ainda valorizam mais a carreira profissional dos maridos do que a sua e mesmo aquelas que valorizam a sua carreira tendem a atribuir-lhe menor relevância quando se tornam mães; ainda que aufiram um salário de nível superior e sejam diminutas as suas responsabilidades domésticas. Ou seja, se de um modo geral a salário mais elevado corresponde uma diminuição do trabalho doméstico para as mulheres que advêm mães isso deixa de se verificar (Henggeler et al, 1988; Steil, 1997). Ainda no que concerne à tomada de decisão, verifica-se que o domínio das mulheres parece ser menos frequente e surge associado a menor satisfação conjugal em ambos os cônjuges. Também os homens expressam menor satisfação conjugal quando as esposas apresentam maior poder de decisão ou quando é mais elevado nos homens por oposição ao que ocorre quando os homens percepcionam que têm relações com poder equitativo Gottman, 1998; Henggeler et al, 1988; Hinde, 1984; Steil, 1997), Mais, numa revisão efectuada por Gray-Little & Burks (1983, in Steil, 1997) de doze estudos, os autores fazem notar que os cônjuges que se percepcionam em relações em que as tomadas de decisão são feitas por ambos, são os mais satisfeitos com a sua relação. Este equilíbrio na tomada de decisões parece estar também associado a uma comunicação positiva e construtiva nos casais, comunicação pautada por empatia, escuta activa, assertividade, respeito pela opinião do outro. Finalmente, parece que aqueles que se consideram a si próprios como os que detêm mais poder na relação se auto avaliam mais favoravelmente do que ao 64 parceiro mas apresentam menor satisfação sexual e estão menos satisfeitos com a sua relação. (Kipnis et al, 1976, 1979; in Steil, 1997). 7.2. Distribuição de responsabilidades Tradicionalmente, este continua a ser um factor gerador de potencial conflito, constatando-se serem as mulheres quem mais assume as responsabilidades domésticas e parentais e os homens mais responsáveis pela gestão financeira (Greenstein, 1996; Regan & Spretcher, 1995; Zvonkovic, Greaves, Schmiege e Hall, 1996). Ainda assim, a tendência nos últimos anos tem sido a de uma alteração neste registo verificando-se cada vez mais uma maior predominância de casais em que a gestão das responsabilidades é mais igualitária (Leslie & Anderson, 1988; Regan & Sprecher, 1995; Twiggs, McQuillan & Ferree, 1999). Em muitos casos, cada vez mais frequentes, assiste-se mesmo a uma inversão de papéis na assumpção dos papéis ditos tradicionais, sendo que a participação masculina em todos os domínios, tem aumentado em sobretudo para aqueles homens que possuem maior nível de escolaridade e filhos pequenos (Steil, 1997). Contudo, acerca da distribuição de responsabilidades, os estudos não são exactamente consensuais no que se refere à distribuição de trabalho doméstico e à percepção de satisfação conjugal. Para alguns autores (Clark & Reis, 1988; Fowers, 1998; Larson et al, 1998; Steil, 1997) tal também se deve à confusão existente entre os conceitos de equidade e de equitatividade. Enquanto o primeiro tem que ver com uma percepção pessoal de justiça, o segundo é um conceito objectivo que define igualdade entre os parceiros nas contribuições associadas aos papéis de género. Esta é outra questão de especial interesse uma vez que a literatura revela que as pessoas, de um modo geral, preferem comportar-se de acordo com os estereótipos de género. Deste modo, quer homens quer mulheres parecem valorizar nos homens atributos ditos “masculinos” como uma profissão bem remunerada e, nas mulheres, atributos ditos “femininos” como por exemplo a responsabilidade pelos 65 cuidados parentais e pela prestação de cuidados, de um modo geral (Regan & Sprecher, 1992; Voydanoff & Donneelly, 1999). Também num estudo realizado junto de casais em que se procurava perceber a influência da equidade na intimidade conjugal, Larson e colegas (1998) concluem que a injustiça é associada para as mulheres a valores baixos de intimidade mas que esta relação não acontece para os homens, embora relacionamentos onde existe equidade sejam considerados mais satisfatórios. No entanto, encontramos estudos em que este padrão não é tão visível na medida em que as mulheres não valorizam o aumento da responsabilidade dos maridos nas tarefas domésticas a não ser que estas sejam tradicionalmente encaradas como tarefas “tipicamente femininas” (casos de limpar a casa e cozinhar) (Benin & Agostinelli, 1988). Nestas situações, o aumento da satisfação conjugal das mulheres pode dever-se ao facto de considerarem que este tipo de envolvimento dos seus parceiros é efectivamente justo e revela apoio emocional e partilha, contrariamente ao envolvimento em tarefas como ir às compras tidas como passíveis de serem realizadas pelos homens, mas com uma vertente de “ajuda” em detrimento de uma percepção de justiça (Blair & Johnson, 1992). As percepções das mulheres relativamente à divisão do trabalho doméstico têm sido confirmadas em bastantes estudos como um bom preditor de conflito conjugal, nomeadamente em estudos em que se verifica que as mulheres experimentam menor satisfação conjugal devido ao acréscimo das responsabilidades domésticas sobretudo após o nascimento dos filhos. Parece então que, tendencialmente, as mulheres valorizam a participação dos homens na realização das tarefas domésticas e parentais e que tal vai de encontro às suas expectativas. Por seu lado, para os homens a questão parece ter outros contornos e o peso da responsabilidade que eventualmente desempenhem nas tarefas domésticas é independente da sua satisfação conjugal32 (Acitelli & Antonucci, 1994; Leslie & Anderson, 1988; Pina & Bengtson, 1993; Steil, 1997). 32 A gestão desta dupla carreira tem sido uma das áreas de conflito conjugal mais estudadas recentemente pelas implicações que tem na partilha de actividades e numa diferente gestão de papéis familiares e pessoais entre e para os cônjuges. Quando tal não 66 Finalmente, vários estudos confirmam uma forte associação entre satisfação conjugal e a percepção de justiça na atribuição de responsabilidades das tarefas domésticas e parentais, (Blair & Johnson, 1992; Pina & Bengtson, 1993; Voydanoff & Donnely, 1999); e, ainda, que mulheres que expressam o desejo de que os maridos participem mais no trabalho doméstico, se sentem menos satisfeitas com o casamento e que são, igualmente, mais deprimidas (Byrne & Carr, 2000). 7.3. As diferenças de género na reacção ao conflito A questão do género parece ser indiscutível quando se fala de conjugalidade e ainda que sejam usadas idiossincraticamente pelos casais tal significa que eles se envolvem ao longo do tempo numa espécie de coreografia que mantém a dinâmica e o papel destas identidades de género, e que tem implícitas negociações na relação. O interessante é que estas coreografias pertencem a cada casal, são idiossincráticas, complexas e por vezes incoerentes (Paslet, Kerpelman & Gilbert, 2001) e existe uma variabilidade enorme nas suas performances. Para estes autores é indiscutível que a forma como os casais assumem os estereótipos de género é influenciado por um diverso conjunto de factores donde destacam a influência da família de origem, interacção conjugal, estatuto económico e nível de educação, interfaces trabalho-família, entre outros.33 acontece podem surgir para as mulheres alienação da família e exaustão emocional (Sénecal, Vallerand & Guay, 2001). 33 Num estudo de Tannen (1990) a frequência e conteúdos dos conflitos não sofrem alterações significativas em função da orientação sexual dos casais, seja homo ou heterossexual. Aquilo que mais os diferencia parece ser a forma como comunicam acerca dos problemas, com os homens a considerar essencial do processo de comunicação a recolha de informação e, as mulheres, a privilegiarem do mesmo processo as linhas emocionais e a possibilidade de interacção. Estes resultados também se podem explicar através de processos de socialização dos géneros diferenciados. 67 As diferenças ao nível de gestão dos conflitos parecem, existir, desde logo, ao nível fisiológico: os homens demonstram uma maior activação fisiológica (taquicardia, pressão sanguínea, suor…) do que as mulheres em situações de conflito e, além disso, permanecem mais tempo activados. Dai serem compreensíveis as estratégias de evitamento e de retirada em situações conflituosas o que se poderia explicar como uma forma de auto-defesa tendo por função a diminuição da ansiedade que tais situações acarretam. (Gottman & Levenson, 1999; Levenson, Carstensen & Gottman, 1994). De qualquer forma, é inegável o papel que estas respostas dos homens têm enquanto factor preditor da insatisfação conjugal ao longo do tempo. Sobretudo no que às mulheres diz respeito, a diminuição das respostas de retirada e evitamento ao conflito por parte dos maridos parece estar fortemente associada a um incremento na sua satisfação conjugal (Griffin, 1993; Gottman & Levenson, 1999). Vimos que a tendência dos indivíduos se centrarem em focos mais individuais vs sociais está habitualmente ligada ao género, ou seja, que os homens são geralmente associados a independência, autonomia e objectivos pessoais e as mulheres focadas no interpessoal, na responsabilidade e realização dos desejos dos outros. Contudo, actualmente, existe um grande consenso acerca de considerar que estas duas orientações são excessivamente polarizadas ou dicotómicas e que, o que realmente ocorre é que ambos os géneros se balanceiam na integração destes dois conceitos (Neff & Harter, 2002). Ou seja, vários estudos revelam que homens e mulheres apresentam um estilo mútuo entre conexão e autonomia e que estes indivíduos parecem ser mais ajustados psicologicamente sobretudo no que concerne ao seu verdadeiro self comparados com aqueles que se situam em extremos mais opostos. Uma manifestação central destes “novos” conceitos pode ser observada nas estratégias de resolução de conflitos entre casais e entre as necessidades e desejos de cada parceiro. Assim, o foco na mutualidade nas relações envolve a tendência para o compromisso em situações de conflito porque as necessidades de cada parceiro são valorizadas. Um enfoque exagerado em 68 8. Comunicação e Conflito Conjugal A satisfação conjugal está positivamente relacionada com a capacidade para lidar com os conflitos e com a qualidade da sua comunicação (Markman, 1990), bem como com a presença de outros indicadores como compromisso, investimento e intimidade (Acitelli, 1996; Narciso, 1994). Contudo, a comunicação interpessoal desempenha também um papel fulcral neste processo e se, habitualmente, esse processo não é simples, em relações íntimas pode ser pautada por dificuldades acrescidas. Recordemos, apenas, que o primeiro axioma 35da comunicação humana é o de que “é impossível não comunicar” donde, pode considerar-se que tudo é comunicar, que na comunicação humana estão presentes as dimensões digital e analógica, as intenções mais ou menos visíveis dos emissores, os efeitos perversos da comunicação paradoxal (por vezes benéficos se usados no contexto clínico), entre uma teia de outras variáveis possíveis de assinalar e que demonstram, sem dúvida, a complexidade deste processo, no entanto, é necessário que os casais sejam capazes de metacomunicar sobre as suas relações porque, no processo comunicacional, além de sentimentos e conteudos diz-se, sempre, qualquer coisa sobre o interlocutor (metacomunicação); deste modo, pode acontecer que os parceiros pretendam discutir conteúdos mas, no fundo, estão a definir a relação. Justamente, alguns estudiosos reconhecem que uma das dificuldades em aceder ao conflito conjugal está na comunicação na medida em que o desenvolvimento do conflito é pontuado por pensamentos subjectivos, por palavras, gestos e sinais ambíguos que requerem interpretação. Desta forma, apreciar a complexidade e subtileza da comunicação em situações de conflito é 35 O segundo axioma defende que toda a comunicação tem dois níveis, o conteúdo e a relação; o terceiro axioma postula que os desacordos entre parceiros tanto existem ao nivel dos conteudos, dos processos ou mesmo da forma como as sequências comunicacionais ou de acontecimentos ocorrem; o quarto axioma postula que comunicamos através de dois tipos de códigos, um, objectivo e racional e, o outro, afectivo e do lado do imagético; o quinto axioma, finalmente, refere-se às trocas, simétricas ou complementares. 75 indispensável. Numa determinada situação cada pessoa extrai, deduz ou distorce conclusões acerca da fonte do conflito, dos acontecimentos que conduziram ao conflito e do significado dos seus comportamentos interaccionais. Aliás, em certos casos a comunicação pode contribuir para a divergência de perspectivas. Contudo, falar acerca do conflito tem sempre o potencial de trazer mais perspectivas, tornar explicitas as percepções e assumpções, ainda que existam excepções em que a comunicação reforça pensamentos divergentes (Sillars, 1998; Sillars, Leonard & Roberts, 2002). Os autores sintetizam as principais dificuldades de comunicação em situações de conflito conjugal do seguinte modo: - A tremenda selectividade ou atenção necessária para se analisar (e viver) a comunicação interpessoal. Como referem Watzlawick, Beavin e Jackson (1967) pioneiros no estudo da comunicação humana, é plausível que dois parceiros mesmo que intensamente envolvidos em comunicar um com o outro, estejam frequentemente pensando em assuntos diferentes. Ou seja, as pessoas atendem a diferentes potenciais objectos no decorrer da comunicação o que poderá explicar porque retiram distintas conclusões de uma mesma interacção (ibd.). - Os participantes na comunicação têm necessidade de compreender o curso da mesma, ou seja, perceber de modo pragmático as intenções do outro: se o parceiro procura informação, se critica, se quer mudar o tópico da conversação, Quanto mais estas inferências são concretas e objectivas menos atribuições abstractas e ambíguas se formam e menos inferências subjectivas se retiram para ambos os cônjuges. - No sentido de manter o respeito na interacção muitas das inferências daquilo que é dito são julgamentos rápidos que são expressos sem questionamento prévio, ou seja, de modo tão rotineiro e automático, que são imediatamente sentidos como observações. Raramente, com efeito, um indivíduo pode adoptar uma posição reflexiva e questionante no decurso da comunicação. Deste modo, as atribuições decorrentes podem conter a relação paradoxal entre uma certa ambiguidade da comunicação e uma certa subjectividade inferencial. 76 - Por último, a natureza desordeira da comunicação humana durante a situação conflituosa convida ainda mais a uma percepção selectiva. Com efeito, a ambiguidade, desorganização e confusão são características básicas do conflito resultantes de diversos factores: (i) a fonte de conflito pode ser difícil de identificar, porque os relacionamentos conflituosos envolvem diferentes temas e diferentes níveis de abstracção (desacordos fundamentais em domínios mais abstractos como a igualdade, o afecto vs domínios concretos da conjugalidade como a gestão da casa, o dinheiro…); (ii) os desacordos centrais provocam conflitos em muitas áreas especificas e as discussões possibilitam o salto de uma área ou tema problemático para outra ou, outras vezes propiciam o foco numa delas; (iii) o processo de comunicação é muitas vezes caracterizado por uma oscilação vacilante entre tendências evitantes e de comprometimento. Deste modo, o conflito relacional constitui-se num campo extraordinariamente complexo, que naturalmente incrementa a possibilidade de cada individuo participante atender preferencialmente a uns aspectos em detrimento de outros. - Constata-se, também, a existência de imensos factores contextuais, sejam distais ou proximais, podem inibir ou afectar o processo de interacção conflitual. Fincham e colaboradores (1990) e Forgas (1996) destacam o afecto e o stress como dois factores com um peso considerável. A atmosfera afectiva pode fazer com que um dado parceiro recorra preferencialmente às memórias negativas do parceiro e da relação, por exemplo, contudo estes diversos scripts do casal são automaticamente processados no decurso das interacções conflituosas Outra confusão comunicacional muito frequente prende-se com a confusão entre conteúdos e processos: Satir (1965) dá provavelmente a melhor destas definições e distinções: conteúdo é aquilo que é discutido enquanto o processo é a forma como se discute. Acontece, com efeito, que alguns casais têm conflitos acerca dos processos, outros acerca dos conteúdos e outros têm conflito acerca de ambos – seja sequencialmente ou simultaneamente. Alguns ainda ficam confusos acerca do que estão a discutir, assim um dos parceiros pode estar a tentar resolver algo acerca de um conteúdo, enquanto o outro 77 tenta resolver algo acerca do processo. Desta forma, os dois comunicam sobre diferentes facetas do seu conflito, e talvez apenas um deles ou mesmo nenhum se aperceba desta disparidade ou incongruência. Muitas vezes, ainda, um dos parceiros pode interromper o conteúdo de uma discussão para se queixar acerca do processo (“não é o que disseste mas como disseste!”) – mudando, desta forma, o assunto daquilo que estava a ser falado para a forma como estava a ser dito/comunicado. Isto ocorre frequentemente entre casais, e a segunda questão pode gerar tanta discussão que pode não se voltar à questão inicial. Esta sequência pode ser inconsciente ou consciente no sentido estratégico de evitar um determinado assunto que este parceiro não quer ver discutido. A este propósito, os mesmos Sillars e colegas (2002) efectuaram um estudo junto de casais, tendo os resultados revelado que, tanto homens como mulheres abusivos, consideram a sua comunicação de modo mais favorável que a dos parceiros e, nas relações não agressivas, as estratégias de comunicação atribuídas a ambos eram mais semelhantes e mais congruentes. Parece então que a qualquer momento, no decurso de uma interacção comunicacional conflituosa, existe uma panóplia de factores pessoais, relacionais e contextuais que interferem na resposta de cada um dos parceiros. Constatam ainda que, em relações mais perturbadas e em conflitos mais sérios e profundos, os parceiros podem atribuir significados antagónicos significativamente e subjectivamente divergentes, contribuindo para a escalada e entrincheiramento do conflito. A comunicação é pois uma das chaves mestras na resolução positiva e construtiva dos desacordos. Desta forma, comunicação positiva é marcada pela presença de: validação e suporte, afecto positivo (também manifestado por comportamentos não-verbais como a qualidade e o tom de voz, a expressão facial e a posição corporal), capacidade de resolver problemas da comunicação. A comunicação negativa entre cônjuges, por seu lado, é caracterizada pela presença de: níveis de tensão, hostilidade, antagonismo, dominância, negação, retirada ou evitamento e afecto negativo (Cox, Drigotas, Lange & Rusbult, 1997). Ainda assim, os mesmos autores destacam que as 78 estratégias de resolução de conflito construtivas não são possíveis sem se atender a determinados princípios da comunicação e, consequentemente, do relacionamento humano entre as quais, essencialmente as seguintes: (i) escuta activa que implica empatia, linguagem corporal adequada, reflexões e sumarizações e (ii) criatividade, flexibilidade e abertura de pensamento para além do uso do humor e diminuição da critica exacerbada, muitas vezes exageradamente usada em domínios que nem se relacionam com os temas em discussão36. Constatamos, pois, que comunicar sobre os conflitos é algo que pode, em si mesmo, gerar conflitos, ou seja o conflito pode aparecer sobre como comunicar sobre os desacordos: um dos elementos pode, por exemplo. não querer falar, o outro quer; um pode falar de forma racional e o outro pode expressar sentimentos de raiva, zanga ou outros…Neste processo interferem os estereótipos de género na medida em que os homens tenderão a pensar sozinhos sobre os problemas, de forma a não deixar transparecer inseguranças e receios e, as mulheres, também por questões culturais, tendem a discutir os problemas, mesmo que para tal seja necessário a interferência de terceiros no intuito de procurar consensos, acordos (como vimos no modelo da acomodação de Rusbult, 1987, 1991). Segundo outros estudos, este sentimento de ser ouvida é suficiente para as mulheres independentemente de depois se agirem ou não, o que parece não acontecer para os homens (Buss, 1991; Philpot, Brooks, Lusterman & Nutt, 1997). Obviamente que são colocadas dúvidas, pelo menos pela nossa parte, a estas formulações, por um lado, seriam necessários mais estudos para aprofundar a questão, por outro, sabemos como estas constatações devem ser relativizadas no que concerne às generalizações que a partir delas podem ser feitas. 36 Existem múltiplos modelos de resolução de conflitos (mesmo em termos organizacionais) que se baseiam nestes princípios da comunicação e que destacam que em situações de conflito ambas as partes precisam ser ao mesmo tempo firmes e flexíveis, será esta visão possível para os casais? E será desejável? Existe nestas questões uma margem de subjectividade da qual, felizmente, nunca nos poderemos abstrair (Carnevale & Pruitt, 1992). 79 Um estudo de Sagrestano e colegas (1998) revela que rapazes e raparigas diferem entre si quanto ao objectivo crucial da linguagem. Assim, parece que raparigas usam a linguagem para obter confirmação e reforço íntimo, sobretudo em grupos pequenos, enquanto que os rapazes fazem uso da linguagem para proteger o seu nível de interdependência e negociar o seu status. Os mesmos autores referem que não só usam a linguagem diferenciadamente como interpretam as conversações de modo diverso. Aquilo que parece ofensivo para uns é lógico para os outros, facto, por si só, gerador de conflito, sendo necessário que ambos os sexos reconheçam estes diferentes estilos. Contudo, estes estudos não foram realizados com adultos e as generalizações para esta faixa etária podem ser abusivas, além de que outros contestem que homens e mulheres usem a linguagem de modo diferente, sugerindo antes que estas diferenças são transitórias, não existem em função do género mas antes devido a situações e interacções divergentes que encorajam determinado tipo de comportamentos em detrimento de outros (Crawford, Houts, Huston & George, 1995). Naturalmente, que também nesta matéria está presente a influência das questões culturais na medida em que as diferenças de género não nascem do vazio conceptual, antes são fomentadas por praticas diferenciadas face a rapazes e raparigas, desde o seu nascimento no decurso desenvolvimental do seu processo de socialização. De uma forma geral, vimos anterirmente, que os padrões comunicacionais podem ser: simétricos, relações em que existe uma troca recíproca de comportamentos semelhantes; complementares; quando a interacção revela a oposição de comportamentos e, transitórios; relações em que há combinação de comportamentos de submissão com comportamentos de igualdade mantendo um clima de neutralidade no controlo relacional. No que se refere aos dois primeiros padrões há a assinalar os riscos de disfuncionalidade nos processos de escalada simétrica e de complementaridade rígida que conduzem à ruptura relacional. (Watzlawick et al, 1967; Zietlow & Vanlear, 1991) Estas manobras comunicacionais são constantes nas relações conjugais ainda que marcadas pela necessidade constante de reequilíbrios e redefinições. 80 A questão central da comunicação humana consiste em sentir-se compreendido. Existem inúmeras razões pelas quais sentir-se compreendido pelo parceiro está associado com altos níveis de satisfação conjugal, desde logo porque as pessoas parecem sentir-se atraídas por quem valida o seu self (Swann, De La Ronde & Hixon, 1994; in Weger, 2005) até ao facto de, ser-se aceite e compreendido ser uma característica das relações de intimidade e de a verdade desenvolvida no seio de ralações de intimidade ser o resultado de uma verificação mútua das identidades dos cônjuges feita pelos próprios. Na medida em que o self é construído na interacção com os outros, as relações românticas são bastante sensíveis à necessidade da verificação do self e, no caso de relações duradouras, o conhecimento do outro, o sentir-se compreendido e aceite valorizam como pessoa cada cônjuge (Christensen & Shenk, 1991; Weger, 2003) Este processo de validação do self e de aceitação do outro nem sempre é bem expresso, sendo muitas vezes pontuado por uma espécie de “comunicação desconfirmatória” (Cissna & Sieburg, 1981; in Weger, 2005). Os autores referem, então, três tipos de comunicação desconfirmatória através das quais se pode transmitir ao outro mensagens distintas. Vejamos: (i) indiferença, inclui distância e fraco envolvimento com o parceiro através de evitar contacto ocular e/ou outro tipo de contacto físico, respostas irrelevantes ou que apenas tocam em aspectos tangenciais relativamente ao assunto em causa, uso de linguagem impessoal;…(ii) impenetrabilidade, marcada por uma falta de compreensão das percepções e perspectivas do outro através de comportamentos como a negação das experiências do outro (“tu não sentes de facto assim…”) ou negando o direito do outro a essas experiências (“como podes sentir-te zangada quando fazes a mesma coisa?”) e, finalmente, mensagens que significam (iii) desqualificação, em que se rejeita as qualificações do outro para ser um participante válido impedindo-o de participar na discussão ou considerando-o pouco claro, ambíguo e incongruente. Os cônjuges podem confirmar o self um do outro mesmo em situações de conflito se cada parceiro comunicar de um modo que expresse aceitação e compreensão acerca das posições do outro como alternativas 81 válidas mesmo que hajam desacordos acerca de factos específicos, crenças, …Um exemplo de comunicação desconfirmatória existe nos conflitos em que o padrão exigência/afastamento é recorrente através de mensagens de indiferença e impenetrabilidade (evitar tópicos da discussão, evitar o envolvimento no conflito, minimizar a sua importância. Assim, o afastamento dos conflitos mais não quer dizer do que o afastamento do parceiro e a incompreensão dos seus desejos, necessidades e motivações pelos quais quer prosseguir na discussão. Considerando este padrão de exigência/afastamento como uma forma de comunicação desconfirmatória, vários estudos, confirmam a associação entre aquela estratégia de resolução de conflitos e a insatisfação conjugal e ainda como um padrão que é bom preditor de separação futura (Gottman & Levenson, 2002 a,b; Heavey et al, 1995). 9.Constrangimentos ao estudo do conflito conjugal O estudo da conjugalidade e especificamente o do conflito conjugal é afectado por um conjunto de constrangimentos que temos necessariamente que referir na medida em que podem desempenhar um papel preponderante nos resultados e conclusões encontrados. Comos recorrentemente temos assinalado, o estudo do conflito conjugal tem sido efectuado sem modelos teóricos explicativos assinaláveis parecendo que nos movemos num terreno movediço ou, no mínimo, caracterizado por um imenso emaranhado conceptual. Basicamente, existem investigações que têm constatado um conjunto de respostas ou de padrões que variam entre casais, privilegiando alguns estudos perspectivas mais individuais (por exemplo, encontrando razões para as diferenças de lidar com o conflito sobretudo nas variáveis dos indivíduos e menos nas da relação) e, outros, valorizando preferencialmente as variáveis da interacção procurando explicá-las com base num ou mais modelos (por exemplo, nas diferenças de género e/ou nas teorias da aprendizagem social). Tanto nuns como noutros casos, não existem 82 modelos teóricos consistentes mas apenas o enfoque num conjunto de variáveis mais ou menos alargado. Se tivéssemos que fazer uma síntese destes “modelos teóricos” (ou antes da ausência deles) diríamos que existem cinco comportamentos básicos de reacção ao conflito que têm sido estudados e descritos pela investigação, e que variam ao longo de duas dimensões – o conceito do self e o conceito do outro (e, por vezes, ainda, o conceito da relação). Os cinco comportamentos são agressão ou coerção; resolução de problemas; condescender; evitamento e compromisso. Além destes, alguns autores salientam o padrão exigência/retirada como um outro tipo de estratégia que deve ser tida em conta. Donde, verificamos que o estudo do conflito conjugal se faz à custa de uma prática ateorética o que vem sendo criticado recentemente por diversos estudiosos que consideram, de resto, que esta deve ser uma preocupação permanente neste domínio. (Noller, Feeney & Sheehan, 1997 ; Noller, Beach & Osgarby, 2000). Desta forma, permanecemos relativamente ignorantes acerca de muitas das variáveis que estão na génese dos conflitos e, sobretudo ao processo que as associa e como os mesmos conduzem à deterioração ou crescimento das relações conjugais (Fincham & Beach, 1999). Para Ridley e Surra (2001) a idiossincrasia do tema em causa, o imenso número de variáveis e factores que lhe estão associados e o seu carácter de privacidade, são constrangimentos que tornam particularmente difícil a investigação neste domínio (o que de resto também acontece relativamente às percepções de violência). Vejamos alguns dos constrangimentos mais comummente referenciados na literatura: - O conflito é um processo complexo com, pelo menos, quatro dimensões interrelacionadas: resultado do conflito (a natureza da resolução, como aproximou ou não emocionalmente os cônjuges); as orientações do conflito (refere-se às atitudes, orientações, tolerância e aceitação do conflito nas relações); o conflito de interesses (quando opiniões, perspectivas, objectivos são incompatíveis com os do parceiro), as respostas ao conflito (tácticas, estratégias de resolução dos conflitos, formas de lidar com os conflitos de interesse....Inclui os comportamentos que podem manter, escalar 83 ou resolver o conflito); reconhecendo-se a complexidade na análise destas interacções conflituosas e, sobretudo relevando que a esmagadora maioria dos estudos não as tem em causa ou apenas consegue aproximar-se do estudo de algumas delas. Assim, parece que estudar os conflitos conjugais na sua globalidade, pelo menos com os desenhos metodológicos actuais, parece ser tarefa impossível - Consequentemente, muitas são as críticas plausíveis à investigação, nomeadamente a artificialidade dos estudos: os estudos exploram comportamentos após uma situação de conflito provocada e apresentada aos casais (com intervalos de tempo curtos de 10 a 20 minutos, em média) em situações fictícias nas quais se avaliam os problemas dos casais; contudo, os problemas reais são bem distintos, muitos deles podem nem envolver desacordos (podem emergir, por exemplo de medos não expressos como o “tenho medo que ele não goste de mim…”) e, na vida diária, os cônjuges reagem de forma diferente e muitas vezes sobrelevando o conflito (ou porque o esquecem ou porque perdoam…). Por outro lado, é a literatura neste domínio que reconhece e enfatiza a importância da verbalização e das trocas verbais, no entanto sabemos que a comunicação humana é mais extensa e complexa, e, não raras vezes, os conflitos não se expressam desta forma mas antes através do silêncio, do afastamento, (podendo tratar-se de estratégias intencionais) (Buysse, De Clerq, Verhofstadt, Heene, Roeyers & Van Oost 2000). Parece-nos que aquilo que estes autores pretendem destacar é o facto de que a investigação que habitualmente tem por foco de análise as trocas verbais entre cônjuges não se compadece minimamente com a realidade do dia a dia dos casais. - Outra crítica, refere que os investigadores têm estudado o conflito relacional de várias perspectivas, partindo de um leque diversificado de conceptualizações e de apenas dois procedimentos metodológicos essenciais: observação de comportamentos e instrumentos de auto-relato.37 Ambos os 37 E, ainda, a maioria das investigações têm carácter laboratorial, agrupando muitas vezes os parceiros por sexo e não por pares/casais pelo que se destaca a eventual veleidade na generalização de resultados (Ridley & Surra, 2001). 84 Capítulo 2 A VIOLÊNCIA NA CONJUGALIDADE Este capítulo versa sobre violência conjugal e acerca dele começaremos por expor as dificuldades, confusões conceptuais e polémicas que habitualmente povoam este domínio de investigação da psicologia da Família. Seguidamente, apresentamos as variáveis que têm estado na base do estudo dos comportamentos e atitudes conducentes à violência entre casais, desde a consideração de variáveis individuais até modelos sistémicos de análise do fenómeno. Finalmente, procuramos relatar pontos de convergência entre conflito e violência para reflectir sobre o processo de escalada que eventualmente os associa. Terminamos com a referência a aspectos associados às dificuldades de investigação e questões de intervenção junto destes casais, mas também no que concerne aos casais em que o conflito, e não necessariamente a violência, é tido como problemático, e das ilações que lhe estão associadas, nomeadamente no domínio ético. 1. Introdução Da mesma forma que os conflitos conjugais, ainda que com contornos significativamente distintos, a violência conjugal não é um fenómeno recente, embora o interesse da comunidade científica no mesmo se possa situar também na década de setenta. Deste modo, um conjunto de dados sociológicos que revelaram o aumento significativo de rupturas conjugais e, concomitantemente, o abuso de crianças e de outros elementos da família contribuíram para alterar a concepção de família enquanto lugar exclusivo de suporte emocional, de afecto e de transmissão de normas culturais. A constatação de que a violência familiar seria um problema de saúde pública surgiu, inicialmente, nos países de expressão anglo-saxónica, sobretudo nos Estados Unidos, muito por força dos movimentos feministas que em larga medida mediatizaram o fenómeno, pese embora as dificuldades em obter dados objectivos1 neste domínio, por se tratar de um assunto relativo à esfera 1 Acerca da objectividade desta matéria vamos falando ao longo do texto, muito em função de acesas polémicas que abundam nesta área. 92 do privado. Tratando-se de um conceito abrangente, a violência familiar inclui domínios diversificados como sejam a violência conjugal, a violência sobre as crianças, o incesto, a violação no casamento, bem como o abuso dos pais, de irmãos ou de outros familiares (Alexander, 1993; Emery & Laumann-Billings, 1998). Neste trabalho, contudo, falamos apenas (das percepções) de violência conjugal ainda que, em determinados momentos, façamos breves incursões por outras áreas da violência na família através da análise das relações existentes entre vários subsistemas familiares. Se, de um modo geral, a violência na família é absolutamente intolerável (e por vezes inexplicável), especificamente, a violência entre cônjuges é alvo de um olhar incrédulo, na medida em que não seria de esperar que relações assentes nos afectos e no amor (decorrente da mudança de paradigma conjugal como referimos no capitulo anterior) possam enveredar por percursos diversos de agressão. Como anteriormente analisamos, os conflitos conjugais são inevitáveis, como de resto os conflitos entre as pessoas. Nem sempre, também, são solucionados de forma cordata e sabemos que existe um contínuo de estratégias que vão de formas construtivas a formas mais destrutivas de resposta aos conflitos, sendo a diferenciação entre estas últimas e alguns comportamentos tidos como violentos, difícil de concretizar. Contudo, a distância entre estas formas destrutivas, mas ainda passíveis de serem consideradas dentro das estratégias possíveis de resolução de conflitos, e a emergência de violência podem significar um passo de gigante na dinâmica conjugal ou, pelo contrário, serem quase imediatas. Este tipo de distinção não é passível de ser feita sem polémica, na medida em que, já o dissemos, não há teoria explícita ou implícita que explique a existência de actos de violência entre familiares e, ainda, sem se fazer referência a alguma confusão conceptual. Contudo, defendem alguns autores, como Rybarik, Dosch, Gilmore e Krajewski (1995), este é um desmesurado paradoxo das relações de intimidade na medida em que nelas se pode assistir a actos cujos significados, se fossem cometidos por estranhos, seriam considerados actos de extrema gravidade. É então a intimidade que nos permite enveredar pelas estratégias destrutivas de resolução dos nossos 93 desacordos? Será porque nos sentimos protegidos que fazemos coisas que improvavelmente faríamos a estranhos? Ou será porque, ao conhecermo-nos melhor, atingimos o outro nos seus pontos mais frágeis? Através de uma leitura, de algumas publicações neste domínio somos inevitavelmente confrontados com polémicas constantes. Desde logo, no que concerne à dimensão do fenómeno. Veremos, também que, para muitos, este é um problema das mulheres vitimas e os homens são sempre tidos como agressores. Assim, as discussões à volta de quem é mais violento têm sido comuns e constituem um debate aceso e permanente neste domínio (será que frutífero?). Em particular, assinalemos as posições de Archer (2000a) que numa meta análise realizada considera que ambos os géneros cometem agressão física. Este autor defende que, frequentemente, os dados expressos são de algum modo “viciados” pela sua proveniência, ou seja, são variáveis em função dos modelos teóricos subjacentes. Isto é, o autor constata que os defensores das perspectivas feministas suportam os seus resultados em amostras seleccionadas de homens com altos níveis de violência (homens encarcerados por terem cometido crimes graves) e de mulheres que vivem em asilos (mulheres batidas) e, por outro lado, os estudiosos do conflito familiar realizam estudos apenas com base em amostras de casais e de famílias da população global. Ou seja, tendem a comparar o que não é comparável, na medida em que estarão a falar de diferentes tipos de violência. Assim sendo, será importante dirimir entre a existência dos “common couple violence” na comunidade em geral, referindo-se àqueles indivíduos que, ocasionalmente, perdem o controlo nas suas vidas quotidianas2 não sendo, por isso, imunes ao envolvimento em estratégias de resolução de desacordos violentas e situações de outra gravidade Johnson (1995). Do mesmo modo, 2 O mesmo autor refere que muitas vezes as estatísticas apresentadas nos estudos não são claras e apresentam números catastróficos, não se sabendo a que universo se referem. Também, Steinmetz (1987) considera que não foram os níveis de violência que aumentaram (provavelmente até poderá ter acontecido o inverso) mas que, isso sim, a atenção para tudo aquilo que é especialmente dramático se tornou mais eficaz e persistente. 94 Straus (1992) e Gelles (1995) falam-nos da teoria catártica de violência e da existência de uma violência severa versus violência ordinária. Este tipo de violência surgiria na continuidade da escalada (de que falaremos minuciosamente mais tarde) após os desacordos, surgindo ocasionalmente, e não se tratando de um padrão recorrente ou permanente nas famílias e nos casais. O processo de escalada, justamente, quer significar que a violência emerge como uma última estratégia de resolução de conflitos após a sequência de trocas hostis, agressivas e desesperadas entre os parceiros. Esta violência “menor” resultaria de variadas, prolongadas e infrutíferas tentativas em resolver os conflitos e afecta cerca de dois terços das famílias (nos Estados Unidos), e não se verificam praticamente diferenças de género na sua utilização, ocorrendo em média, uma vez de dois em dois meses (Straus, 1992; Gelles, 1998)3. Ainda assim, e considerando somente a denominada violência ordinária, as percentagens que diversos estudos apresentam são impressionantemente elevadas! Outra questão, portanto, e bem diferente, é a que tem que ver com violência severa! A este nível referimo-nos à violência cujas dimensões são mais severas e brutais, que inclui comportamentos, de um indivíduo sobre o outro, como abusos sexuais, físicos, psicológicos – uso da coerção, do poder, da impossibilidade do outro usufruir da sua liberdade pessoal, …até ao homicídio. Dizíamos que estas distinções são fundamentais e, especificamente neste trabalho, elas impõem-se para clarificarmos o objecto do mesmo. Concretamente, procuramos avaliar a violência dita moderada, comum, ocasional e ordinária que pode acontecer entre cônjuges, ainda que fazendo obrigatoriamente alusões por outras expressões mais violentas das relações, dada a associação sistemática (diríamos melhor a não dissociação sistemática) dos dois tipos de violência na maior parte da literatura a que recorremos. 3 Alguns estudos encontram fortes relações entre o uso deste tipo de violência e falta de competências sociais por parte daqueles que a utilizam (o que é muito discutido) (Margolin, 1989; O`Leary & Vivian, 1992) e ainda entre a sua utilização por casais que manifestam raiva e reciprocidade negativa na resolução dos seus desacordos. 95 Uma das razões da confusão nesta área reside justamente na indiferenciação entre as duas situações por parte de muitas investigações o que tornaria os números apresentados excessivamente dramáticos (Johnson, 1995), existindo uma imensidão de artigos em torno desta questão. Não queremos, com isto, afirmar que padecemos de uma ingenuidade amorfa e acrítica, mas, reconhecemos que em muitos estudos as estatísticas apresentadas efectivamente não esclarecem de que violência falam e parecem por vezes enquadrar todos os tipo de violência num só tipo, sem dirimir a severidade dos diferentes tipos ou, inclusivamente, falando de estratégias de gestão de conflitos mais extremadas como sinónimos de violência grave ou severa. Situemo-nos perante outra confusão conceptual, que julgamos necessário tentar dirimir, ainda que justificada em determinados modelos teóricos, como sejam as perspectivas feministas. Assim, a maior parte dos investigadores nesta área parece defender a tese de que “os homens são o problema”, tornando-o no domínio preferencialmente estudado. Com efeito, constata-se habitualmente que homens e adolescentes que praticam actos violentos contra as mulheres têm em comum a aceitação da violência, atitudes negativas sobre as mulheres e competências deficitárias em áreas distintas (Greenfeld et al, 1998; in Barak, 2003). Contudo, existem estudos, ainda que com menor expressão, que revelam que as mulheres também usam a violência, e em muitos casos o mesmo tipo de violência, que os homens. O reconhecimento de que as mulheres também podem ser violentas não tem sido fácil de assumir (é célebre, aliás, o episódio em que Murray Straus foi expulso pela audiência numa conferência quando referia que as mulheres cometem actos violentos…) mesmo quando se trata de analisar um fenómeno de um ponto de vista científico, para além da mera visibilidade das estatísticas. Com efeito, parece que de um modo geral, entre homens e mulheres existe “…uma fonte de diferenças de poder que resulta do tamanho físico relativo de homens e mulheres, estando elas mais sujeitas a vários tipos de violência, quer no contexto de relações íntimas, quer no contexto mais vasto da sociedade. Para além disso, os actos de violência de homens relativamente às mulheres 96 provocam, habitualmente, mais danos físicos do que os mesmos actos infligidos das mulheres para os homens. Investigação diversa revela que níveis elevados de violência masculina estão, também, associados a elevada violência feminina (Magdol, Moffin, Caspi, Newman, Fagan & Silva, 1997), a níveis superiores de conflito, a níveis reduzidos de qualidade conjugal percebida e a desequilíbrios de estatuto na relação (níveis superiores de estatuto sócio-económico ou de poder de tomada de decisão) (Babcock et al, 1993).” Assim sendo, mesmo assumindo que os homens são mais violentos do que as mulheres, certo é que existem também mulheres violentas e, em última instância, relações violentas pelo que parece óbvio que as dinâmicas relacionais entre ambos sejam objecto de estudo, independentemente, de questões de natureza ética que podemos associar ao estudo deste fenómeno, que mais tarde assinalamos (Holtzwoth- Munroe e Stuart (1994). Frieze (2000) a este nível expressa que se deveria alterar a terminologia e em vez de violência conjugal se deveria dizer violência nas relações íntimas ou violência intima… De qualquer modo, se existe paradigma clássico do estudo da violência conjugal (e familiar) é o de que os homens são tidos como agressores e, por isso mais estudados, e as mulheres como vítimas. Deste modo, a violência conjugal é essencialmente encarada como um problema cuja magnitude afecta sobretudo as mulheres, quer estejam envolvidas em relações de namoro, de casamento ou de união de facto (Alexander, 1993; Warren & Lanning, 1992). De resto, parece existir um contínuo entre relações violentas de namoro e relações conjugais violentas, sendo este facto motivo de estudo e debate na medida em que a incidência de violência em relações de namoro e união de facto, parecer ser superior àquela que ocorre entre maridos e mulheres (Greenfeld et al, 1998; in Barak, 2003). Finalmente, e ainda que tanto homens como mulheres se envolvem em violência, parecem ser os homens a apresentar maiores níveis de violência ofensiva e as mulheres maiores níveis de violência defensiva. Nas relações de namoro, por vezes, os resultados não apontam diferenças significativas (Beyers, Leonard, Mays & Rosen, 2000). 97 Finalmente, os estudos realizados são maioritariamente de origem anglo saxónica (embora surjam, progressivamente mais estudos europeus, canadianos, australianos), alguns feitos com minorias étnicas em comparação com os autóctones (Coelho, 2005; Johnson & Bunge, 2001; Date & Ronan, 2000) e são prioritariamente efectuados com indivíduos de raça branca ou em comparação destes com indivíduos de raça negra. As investigações são basicamente efectuadas a partir dos relatos de amostras clínicas, se desta forma quisermos entender as mulheres hospitalizadas, a viver em abrigos, homens agressores que estejam prisioneiros e homens que estejam obrigatoriamente a participar em programas de reabilitação. Ainda que escassos, temos que afirmar que os estudos são maioritariamente feitos com base em questionários de auto-relato (neles também assentam a maior parte dos inquéritos nacionais que são dirigidos à população dita normal). Assim, estima-se que cerca de 30% das mulheres são batidas pelos seus companheiros, sendo estes valores ainda superiores em amostras de mulheres hospitalizadas ou que vivem em asilos (Straus, 1992). Em média, 1,8 milhões de mulheres são batidas pelos seus parceiros e 50% dos assassínios de mulheres é cometida por homens com quem elas estão intimamente envolvidas (McKenny, 1993; Walker, 1979). Em Portugal, dados da Comissão para a Igualdade dos Direitos das Mulheres referem que 30% das utentes desta instituição são efectivamente vítimas de violência doméstica sendo, em 98% dos casos, o agressor o marido ou companheiro. A nível nacional, 19,3% das mulheres são vítimas deste tipo de mau trato. Interpretem-se estes dados a luz das reservas anteriormente apresentadas. 2. Definições e clarificação de conceitos Straus, Gelles e Steinmetz (1980) definem violência como um acto carregado de intenção e que pretende causar dor física ou injúria numa outra 98 pessoa4. Existe além desta, uma variedade de possíveis definições de violência, muitas vezes, nem sempre pacíficas. Concretamente, DeKeseredy (2000), critica o facto de alguns estudos falarem de violência física contra as mulheres, reportando-se apenas a violência física e/ou sexual, quando associadas estão, sempre, outros tipos de violência, nomeadamente a psicológica ou simbólica, tidos vulgarmente como sinónimos. Com efeito, a existência de diferentes formas de violência ou abuso (vulgarmente tidos como sinónimos na literatura da especialidade ou, noutros casos, com tentativas de separação superficiais) torna mais complicada a tarefa de as definir, e de as dirimir, nomeadamente, aquelas que poderão ter um enquadramento subtil como a violência emocional ou o abuso verbal. Por norma, no entanto, no abuso ou violência emocional são incluídos os ataques verbais, a excessiva possessividade, o forçar o parceiro ao isolamento, a destruição de bens físicos e económicos (Alexander, 1993). Na violência sexual e física são imensos os comportamentos que a traduzem5. Frequentemente se assinala a impossibilidade em separar as diferentes formas de abuso: na violência física não estarão também presentes aspectos da violência simbólica ou psicológica? A negligência não será sentida por algumas pessoas como uma forma brutal de violência psicológica? Concretamente, no que concerne às formas de violência psicológica, porque mais aceitáveis em termos sociais, podem nem sequer ser consideradas estratégias de violência. Qualquer que seja a definição de violência considerada, directa ou indirectamente, está implícita a severidade da mesma, conceito difícil de operacionalizar na medida em que é complicado distinguir alguma violência de muita violência. Deste modo, as escalas que tentam avaliar as estratégias de 4 Existem várias definições de mulher batida, desde alguém que sofre repetidos e severos ataques físicos por parte daquele que com ela vive (Scott, 1974); ou, como uma mulher que recebe deliberadamente severas e repetidas injúrias por parte do companheiro (Gayford, 1975). 5 A Conflict Tactics Scale (Strauss, 1993) pode considerar-se a escala clássica (e a mais célebre) de avaliação de violência entre os diversos sub sistemas familiares e contém, justamente, um conjunto de itens que pretende traduzir desde actos de violência psicológica a actos de violência física moderada e severa. 99 violência utilizadas pelos sujeitos são constituídas por itens que se vão agrupando numa ordem crescente de severidade. A distinção de severo ou menos severo torna implícitos os conceitos de aceitável ou não aceitável, por si só polémicos. Esta distinção significa apenas a assumpção de que a violência dita ordinária faz parte da vida das famílias, ainda que ocasionalmente. Da mesma forma, aliás, que os conceitos de normalidade e de desvio, até porque a gravidade da situação depende de inúmeras variáveis, quer sejam intra, interpessoais ou contextuais (a mesma pessoa pode reagir de forma diferente em situações diversas...) o que origina que o significado atribuído à violência pode variar. Tínhamos constatado algo similar na análise das situações de conflito conjugal. Simultaneamente, a frequência e intencionalidade do abuso são constructos basilares mas de reconhecida complexidade, para se aceder ao significado do acto violento. Donde, as noções de frequência, severidade e intencionalidade devessem ser objecto de análise, na medida em que são fundamentais para perceber a forma e o tipo de violência. Destas noções será a de severidade, a mais visível devido às situações que implicam injúrias físicas, requerendo a prestação de cuidados médicos6. A dimensão da intencionalidade será a que, decisivamente, contribui para a avaliação de um comportamento como violento e é aquela que carrega mais subjectividades, porque mais escondida, e porque aquilo que é mais violento para um dos cônjuges pode não o ser para o outro, além de que as intenções não são objectiváveis. Assim, objectivar o conceito de violência é particularmente complexo, na medida em que a sua representação mental faz apelo ao conceito de força, seja física ou verbal, (Vale & Costa, 1994) e o facto de estas realidades não poderem ser observadas de outra forma que não seja através do relato dos intervenientes nas mesmas, acarreta possíveis e compreensíveis idiossincrasias próprias a cada situação particular. Aliás, em determinadas situações, a violência psicológica pode ser mais severa do que alguns tipos de violência física. 6 Sabemos que muitas vezes estas situações não são identificadas como consequência de actos violentos. 100 representam um aumento de probabilidade do uso de comportamentos de abuso verbal e físico (Dutton, Saunders, Starzomski & Bartholomew, 1994). Desta forma, parece que algumas relações violentas estão significativamente associadas com desordens do tipo stress pós-traumático nos agressores, sobretudo quando se trata de violência severa (Houskamp & Fox, 1991). Tolman e Bennett (1990) apontam, ainda, para características associadas aos agressores, como psicopatologias, deficits de comportamento, papéis sexuais rígidos e depressão, além de eventuais problemas com álcool e drogas. Um outro estudo de Hurlbert (1991) considera que os homens abusadores apresentam maiores problemas com consumo exagerado de bebidas, atitudes mais rígidas face às mulheres, menor satisfação conjugal e consideram as suas parceiras pouco atraentes se comparados com homens não agressores. Não existem, contudo, diferenças ao nível da auto-estima entre agressores e não agressores. No que concerne às vítimas, mencionámos alguns estudos que avaliavam o uso de álcool por parte das mulheres, todos eles referindo que estas mulheres alcoólicas estão mais predispostas a experimentar situações de violência conjugal do que a população feminina em geral (Miller, 1990) e, ainda, que o consumo de álcool pode estar associado à existência de violência na família de origem, sobretudo se estas mulheres, enquanto crianças, foram alvos directos da mesma (Miller & Down, 1993). Desta forma, poderemos afirmar que o estigma associado à mulher alcoólica pode contribuir para a ocorrência de violência entre os parceiros, ou seja, ser um percursor de maior violência contra elas (Barnett & Fagan, 1993) também porque, como refere Walker (1984) as mulheres com problemas de álcool estão geralmente envolvidas em relações com homens que abusam igualmente desta substância, como vimos anteriormente. Deste modo, parece que a relação entre variáveis como os problemas económicos, o desemprego, ciúme, problemas com as crianças, desigualdade de status no casal, podem estar relacionados com a emergência de violência conjugal, ou estarem eles próprios na origem do problema do abuso de álcool que, por sua vez, parece potenciar a probabilidade de violência entre cônjuges 107 (Byrne, Resnick, Kilpatrick, Best & Saunders, 1999).10 Assim, o uso de álcool não constitui uma causa linear para a emergência de violência (O'Leary & Jouriles, 1995) como provavelmente acontece com a maior parte das variáveis, se consideradas individualmente. Ainda no que concerne ao perfil das potenciais vítimas, a depressão (e a ideação suicida que, por vezes, lhe está associada) tem sido frequentemente estudada (Mitchell & Hodson, 1983). Tendemos a pensar que as mulheres vítimas de violência passam por experiências comuns ou, pelo menos, bastante similares, contudo, nem todas apresentam depressão parecendo que, mais uma vez, outras variáveis, como a escassez de recursos e de apoio, o isolamento social, relações conjugais insatisfatórias, devam ser consideradas para explicar a génese de traços depressivos nestas mulheres (Rodriguez et al, 2001). Aqueles estudos que evidenciam um aumento dos sintomas depressivos e uma diminuição da auto-estima nestas mulheres salientam, de igual modo, que tal acontece para as que se culpabilizam pela situação (Cascardi & O’Leary, 1992). Concretizando ainda mais esta relação, Sato e Heiby (1992) num estudo efectuado com uma amostra de 136 mulheres batidas - recolhidas voluntariamente de diversos grupos de mulheres e de abrigos - procuraram estudar que variáveis estão associadas à presença de depressão. Assim, os resultados sugerem que mulheres que apresentam fracas competências de auto-reforço, história de perdas, depressões anteriores e que estão conscientes, de forma realista, do que se passa com a sua relação, estão em maior risco de apresentarem sintomatologia depressiva. Contudo, este quadro nem sempre emerge, constatando-se, pelo contrário, que mulheres com uma percepção clara e realista da sua situação, estarão mais aptas a atribuir a agressão ao seu parceiro e a assumir a responsabilidade de deixar a relação, 10 De qualquer forma, existe uma clara associação entre alcoolismo e agressão física contra as mulheres em amostras clínicas e não clínicas (Kantor & Straus, 1987) e em cerca de 1/4 dos casos o uso de álcool é assumido por ambos os parceiros. Contudo, nestes casais, a maior parte dos episódios violentos aconteceu quando nenhum deles tinha bebido, parecendo estarem envolvidos outros factores como o ajustamento conjugal (Leonard & Blane, 1992). 108 por elas próprias, o que é inconsistente com outros resultados. Parece, assim, que algumas cognições destas mulheres não estão distorcidas, apenas reflectem o "lado negativo da realidade" (Krantz, 1985; in Sato & Heiby, 1992, 213). Se as ilusões têm, por vezes, um valor adaptativo em muitas circunstâncias, parece que em relações abusivas a sua função é contraproducente: podem proteger as mulheres da depressão mas não dos seus parceiros! Finalmente, se as mulheres batidas e deprimidas encaram o seu quotidiano de uma forma mais realista importaria avaliar em que medida estão mais ou menos preparadas para abandonar este tipo de relações do que outras mulheres e, é um facto, não existem estudos significativos nesta área. De resto, vimos no capítulo anterior o papel das percepções no aumento de sintomas depressivos. Com efeito, Chistian, O’Leary e Vivian (1994), num estudo em que associam depressão e violência conjugal verificaram que existem correlações entre sintomatologia depressiva e a discórdia conjugal para ambos os sexos sendo, no caso dos homens, a baixa capacidade para resolução de problemas como principal causa da sintomatologia depressiva, e nas mulheres essas causas são a falta de assertividade, o desemprego e crenças disfuncionais acerca da relação. Por outro lado, a depressão parece ser, também, um factor que gera violência contra as mulheres, pela forma como os traços depressivos provocam o homem (Gayford, 1975; O`Leary, Curly & Rosenbaum, 1985; Rosenbaum & Leisring, 2003). Finalmente, segundo Stith, Smith, Penn, Ward & Tritt (2003) constatam a partir de uma revisão de estudos, o abuso emocional, sexual, e consumo de drogas são factores de risco elevado na perpetuação da violência enquanto que a ideologia tradicional dos papéis de género, depressão, hostilidade, consumo de álcool e stress parecem ser factores de risco moderado para a emergência de violência conjugal. 109 4. As atribuições de agressores e de vitimas No que concerne às variáveis individuais que tenderiam a encontrar um perfil para agressores e para vítimas, as atribuições parecem desempenhar um papel relevante. No entanto, e do mesmo modo que afirmamos no capítulo anterior, estas variáveis são consonantes com o que cada indivíduo pensa acerca de si, do outro, mas também da relação expandindo-se, cada vez mais, o nível de análise relativo à tentativa de explicar a génese da violência entre cônjuges. Ainda assim, os estudos sobre a relação entre variáveis cognitivas e a violência são inconclusivos como veremos seguidamente. De modo genérico, se há estudos que referem que as mulheres batidas percepcionam as suas vidas como sendo mais controladas por factores externos se comparadas com mulheres não agredidas (Brown, 2003). Outros não encontram diferenças entre elas (Long & Olson, 1986). E, outros, ainda, apontam para o facto de os agressores tenderem a atribuir o seu comportamento a causas externas projectando os seus efeitos negativos nos maus-tratos incutidos às mulheres ou procurando "desculpas" em factores contextuais e temporários. Por seu lado, as vítimas, mulheres, atribuem o abuso a defeitos delas próprias ou a causas situacionais que afectam os esposos. De qualquer forma, variáveis como a frequência, intensidade e duração do abuso, entre outras, influenciam o processo de atribuição (Overholser & Moll, 1990).11 Vejamos um estudo em que se compararam percepções de factores de vida stressantes, consumo de álcool e percepção da qualidade na relação íntima de um grupo de homens que já abusou das mulheres e um grupo de homens sem historial de abusos, tendo-se verificado que existem diferenças relativamente às percepções dos factores de stress, percepção da qualidade 11 Contrariamente, outro estudo refere que tanto homens como mulheres atribuem o comportamento violento destas ao homem - dado curioso, já que assume a existência de violência por parte das mulheres - e estas tendem a atribuir a responsabilidade dos actos violentos cometidos pelo companheiro ao próprio (Holtzworth-Munroe, JAcobson, Feherenbach & Fuzzetti, 1992). Será de acentuar a quase inexistência de estudos sobre a violência por parte das mulheres dentro do sub -sistema conjugal. 110 conjugal, raça e depressão. Assim, percepções negativas da relação íntima, ser da raça negra, e níveis elevados de depressão eram indicadores significativos da violência masculina sobre a companheira (Julian & McKenry, 1993). Outros estudos, examinam a capacidade da selecção cognitiva e as medidas interpessoais de forma a diferenciar casais onde a mulher é agredida daqueles em que tal não acontece. Os resultados indicam uma associação entre um ajustamento conjugal baixo, elevados níveis de conflito conjugal e sobre os filhos, e percepção negativa de auto-controlo como fazendo parte dos maridos que se consideram violentos (Edleson, Eisikovits, Guttmann & Sela- Amit, 1991). Cantos, Neidig e O’Leary (1993) pretenderam estudar as atribuições de culpa no primeiro e último episódio de violência junto de uma amostra de 139 casais que foram referenciados para um programa de intervenção de violência doméstica. Os resultados revelaram padrões atribucionais mais complexos do que os referidos habitualmente na literatura. Assim, parece não haver consensos entre o casal acerca da atribuição da culpa. Ambos apresentam níveis elevados de atribuições de culpa ao companheiro pelos dois episódios de violência, mas os homens apresentam níveis mais baixos quando se trata de se culpabilizarem pelo último episódio de violência. Do mesmo modo, Byrne e Arias (1997) concluíram de um estudo junto de 66 casais que, para as mulheres, as atribuições de culpa moderam a relação entre a satisfação conjugal e a agressão (o que não acontece nos homens). Especificamente, a satisfação conjugal e a agressão física estão significativamente relacionadas com elevadas atribuições de culpa nas mulheres, mas não nos homens ou mulheres no caso de atribuições negativas. Também, Holtzworth-Munroe e Hutchinson, (1993) concluem que os maridos violentos tendem a atribuir intenções negativas, motivação egoísta e culpa à mulher aquando dos conflitos. Com efeito, as atribuições possuem implicações em todas as dimensões das nossas vidas. Assim, Monson, Langhinrichsen-Rohling e Binderup (2000) num estudo realizado com 200 indivíduos, procuraram avaliar em que medida o 111 género influencia as percepções e atribuições dos sujeitos, numa situação hipotética em que se avaliava a probabilidade de ocorrência de uma violação sexual. Os resultados revelaram que os sujeitos consideram essa probabilidade é significativamente menor quanto maior o conhecimento (em termos relacionais) entre o agressor/violador e a vítima. Tal parece estar de acordo com um estudo que revela que o “efeito empático” com os agressores faz com que sejam atribuídos a factores do meio culpas referentes ao comportamento violento do companheiro (em vez de o atribuir às qualidades e características do mesmo), e que o mesmo “efeito empático” em relação à vítima faz com que as atribuições acerca do comportamento da vítima se direccionem para os factores situacionais (Skiffington, Parker, Richardson & Calhoun, 1984). Na mesma ordem de ideias, Bergman e Brismar (1993) realizou um estudo em que compara homens agressores com homens batidos (o que constitui, desde logo, uma novidade), concluindo que ambos os grupos apresentam um "background" similar: problemas com álcool e drogas, pertença a classes baixas, presença de abuso conjugal e/ou parental na família de origem. Assim, o mesmo tipo de antecedente, associados a outros factores precipitantes, conduzem estes homens a serem agressores ou agredidos/vitimas, ou, mais provavelmente, a ambos. Finalmente, sujeitos com atitudes mais tradicionais em diversas áreas do seu relacionamento, tendem a culpabilizar a vítima em detrimento do agressor pelo episódio violento (Hillier & Foddy, 1993). Eckhardt & Dye (2000) consideram que os processos cognitivos ajudam a explicar porque é que alguns homens reagem violentamente em algumas situações e outros, em situações idênticas, não o fazem. Tal acontece segundo os autores devido aos pensamentos elementares que os indivíduos têm acerca de si, dos outros e das relações. Desta forma, os homens agressores têm crenças que os levam a considerar aceitável a agressão no casamento e a atribuir às mulheres a culpa pelos conflitos, ao mesmo tempo, as mulheres percepcionam a agressão por parte dos maridos devido a factores internos. Feldman (1997) num estudo sobre cognições em homens violentos constata que estes apresentam, por norma, maiores níveis de 112 disfuncionalidade de pensamento, de interpretação de situações o que conduz à agressão verbal e à física nos homens. Mas, ao mesmo tempo, estes homens provêm, mais que outros, de famílias onde foram expostos a violência e tendem a desenvolver um estilo de vinculação em adultos inseguro (Feldman, 1997). Assim em conclusão, traços internos de ansiedade, medo do abandono, e falhas de interpretação cognitivas estão positivamente relacionadas com o padrão de violência para alguns homens. Ainda, Clements e Sawhney (2000) investigaram a influência dos julgamentos de controlo e dos estilos de gestão nas reacções à violência doméstica, tendo constatado que o aumento da disforia estava associada com elevados níveis de auto-culpabilização e estratégias de gestão evitante e baixos níveis de estratégias de gestão centradas no problema. O aumento das respostas de gestão centradas no problema está associado a um decréscimo da desesperança. Elevadas expectativas de controlo sobre situações futuras estão associadas a um aumento da disforia. Finalmente, mesmo no que concerne às razões que determinam o desacordo entre os companheiros e ao seu decurso, Armstrong, Heideman, Corcoran e Fisher (2001) constataram que homens e mulheres se lembram da situação de maneira diferente, as mulheres recordam-na melhor do que os homens, ambos seleccionam aquilo que querem lembrar da mesma, e ambos se lembram daquilo que fizeram bem na situação de conflito mas não dos aspectos negativos. Saliente-se que, como na esmagadora maioria dos casos, este estudo não é efectuado com casais. Gostaríamos de salientar a inexistência de estudos que atribuam a responsabilidade dos episódios violentos a causas próximas que tenham eventualmente despoletado o conflito, estando a investigação nesta matéria específica restrita à atribuição da responsabilidade entre os cônjuges. Vários estudos apontam, numa variabilidade enorme (de 20 a 80 %) que as mulheres batidas também cometeram, pelo menos uma vez, um acto violento contra o companheiro, quer seja ofensivo ou de natureza defensiva (Pagelow, 1992; Sanders & Hanusa, 1986). A forte correlação entre infligir e experimentar violência sugere, assim, que a vítima também agride nem que seja por defesa 113 pessoal e que o agressor é agredido neste contra-ataque (eventualmente, a força masculina leva a que os ataques dos homens sejam superiores). Parece, portanto, que as mulheres, tal como os homens, são capazes de escolher a violência física para resolver conflitos conjugais (Christensen et al, 1999) Finalmente, julgamos poder concluir que os diversos estudos apontam para a não existência de um perfil psicológico ou sócio cultural pré-existente nas mulheres batidas (Carden, 1994; Rhodes, Sprenkle, 1992). Ou seja, não são confirmadas diferenças consistentes entre as mulheres vítimas ou não de violência, nem do ponto de vista da personalidade prévia, nem do contexto de pertença, nem da tipologia familiar de origem, sendo que, de um modo geral, o mesmo se pode afirmar relativamente aos agressores (Sagrestano, Paikoff, Holmbeck & Fendrich, 2003). 5. Diferenças de género e violência conjugal Do mesmo modo que no estudo do conflito conjugal, as diferenças de género têm sido amplamente estudadas partindo de enfoques e perspectivas teóricas muito distintas, Ainda que, por isso mesmo, lhes façamos, inevitavelmente referência transversal ao longo de todo o trabalho, julgamos pertinente reflectir um pouco sobre o que a este propósito se tem escrito e debatido. Desde logo, relativamente à existência de violência e àqueles que a cometem, percebemos como esta é uma das questões, ou porventura a questão que mais polémicas transporta para o estudo específico desta área. A este propósito, Ben-David (1993) considera a existência de diferenças no comportamento das mulheres em função da sua ocorrência nos domínios público e privado. Especificamente, o autor refere que será na intimidade da vida privada que as mulheres expressariam atitudes violentas, motivadas fundamentalmente por razões de ordem emocional e de grande impulsividade, tensão e solidão, na medida em que a relação e a qualidade de vida na família constituem as suas principais preocupações, de acordo com as expectativas sociais face ao papel de género. De resto, o mesmo autor postula que a inconsistência e dificuldade em encontrar mais estudos que assumam as 114 mulheres como violentas, se devem justamente ao facto de os seus comportamentos acontecerem no espaço privado mas, também, porque o tipo de violência que vulgarmente lhe é atribuído - violência simbólica, verbal, psicológica – é a de mais difícil operacionalização. As perspectivas feministas, por seu lado, consideram que as diferenças de género são impostas por uma sociedade patriarcal em que a distribuição desigual de poder e riqueza, estrutura, sócio e politicamente, as nossas sociedades de forma a violentar mulheres e crianças considerando inclusivamente que o “poder” do homem é transversal aos domínios público e privado. Neste contexto, que acentua as diferenças de género como claramente prejudiciais para as mulheres, uma variedade de investigações têm sido efectuadas. Nestas, as hipóteses recorrentes são as de que é a discrepância do poder/controlo nas relações conjugais que constituem, o principal factor de risco na violência conjugal (Hearn, 1996; Mazurana & Mckay, 2001; Schwebel & Chistie, 2001). Outros autores constatam que a violência do marido em relação à mulher pode ser uma resposta compensatória das situações ou áreas da relação conjugal onde o homem não tem controlo/poder (Babcock et al, 1993). Porventura, deveriam generalizar-se os resultados encontrados no estudo de Smith, Ellis, e Benson (2001) que concluíram ser a assumpção de um papel de androginia por parte dos cônjuges nas relações, isto é, em que ambos os géneros tivessem características ditas “femininas” e “masculinas” que conduziria a um decréscimo da violência nas mesmas. Neste contexto, um estudo de Harris e Miiller (2000), considerou as diferenças de género para avaliar as percepções de situações de perigo, de risco e os conselhos dados a uma potencial vítima. Os resultados vão de encontro aos estereótipos de uma maior agressividade por parte dos homens, maior receio nas mulheres e uma maior percepção de perigo por parte destas. Como era esperado, os sujeitos percepcionam maior perigo em relação aos outros do que a eles próprios, e em relação a estranhos (por oposição a pessoas conhecidas). 115 Ainda no que concerne aos papéis sexuais, controlo e isolamento social, as investigações sugerem que as mulheres batidas são tidas como mais femininas (no sentido tradicional) no seu papel sexual e mais tolerantes ao controlo externo (ou seja, mais aptas a submeterem-se a regras definidas por outrem, mesmo contra os seus desejos) do que outras mulheres (Holtzworth- Munroe & Stuart, 1994). Parece, então, que as mulheres batidas são prejudicadas pela falta de traços ditos como masculinos na sua personalidade, isto é, teriam a beneficiar com qualidades instrumentais como a independência e a asserção (Warren & Lanning, 1992). Em relações abusivas, parecem faltar o mútuo respeito, a veracidade e confiança, uma visão positiva do companheiro, bem como actividade sexual satisfatória, self-disclosure e tendência para resolver conflitos através da negociação (Waring et al, 1980). Tal deve-se, essencialmente porque os maridos afirmam a sua posição de dominância pelo uso da força não sendo a satisfação das mulheres considerada importante. Outros estudos evidenciam também que as mulheres abusadas apresentam menores níveis de intimidade e compatibilidade com os seus companheiros, assumem papéis sexuais de uma forma mais tradicional e uma disposição negativa face ao sexo. Contudo, algumas destas mulheres revelam ter maior frequência de interacções sexuais do que as outras, eventualmente porque a tal são obrigadas (Apt & Hurlbert, 1993) ou porque possam eventualmente estar a vivenciar o período de "lua-de- mel" de que falaremos adiante, período que se caracteriza pela acalmia e pelo romance entre os cônjuges e que poderá predispor a este tipo de envolvimento sexual (Walker, 1979). Recentemente alguns estudos vêem confirmar que as mulheres descrevem o abuso emocional como o aspecto mais ansiogénico da sua relação (Follingstad, Brennan, Hause, Polek & Rutledge, 1991), acompanhando frequentemente a violência física. Este tipo de abuso, que pela sua natureza é controlador, desempenha um papel central nos sentimentos de inferioridade e desespero existentes nas mulheres batidas o que, compreensivelmente, contribui para dificultar o fim da relação. Contudo, apesar de diferentes tipos de abuso co-ocorrerem, parece não existir homogeneidade no grupo das mulheres 116 da violência, é o álcool que surge como um indicador importante da violência física (contra o cônjuge) (Merril, Hervig & Milner, 1996). De um modo geral, os homens parecem ser mais propensos a tornarem-se violentos quando observaram violência em crianças, do que as mulheres (Rosen, Bartle-Haring, & Stith, 2001), Ainda Stith e Farley (1993) procuram testar um modelo preditivo da violência conjugal severa baseado na teoria da aprendizagem social e na análise que tinham efectuado sobre outras investigações. Os resultados encontrados, sugeriram que um papel sexual igualitário e a aprovação da violência conjugal têm um efeito directo no uso da violência conjugal. A violência conjugal tem um efeito negativo na auto-estima que, por seu lado, influencia o stress conjugal e os níveis de alcoolismo, e ambos têm efeitos na aprovação da violência conjugal. A observação, enquanto criança, de violência conjugal, tem um efeito directo na aprovação da violência e um efeito negativo na percepção de papéis de género igualitários. 5.2. A vítima e as suas reacções Convém que nos demoremos um pouco num dos aspectos recorrentemente investigados quando se trata da violência em relações de intimidade conjugal. Com efeito, uma das questões centrais é a de saber porque permanecem as mulheres neste tipo de relacionamentos. Ainda que já tenhamos feito referência a explicações para este facto, tentemos aprofundar aqui outras razões explicativas, sintetizando-as. Invariavelmente e apesar se serem quase sempre percepcionadas como vítimas, as mulheres nem sempre são tidas como inocentes ou indefesas neste processo e, em algumas situações, são encaradas com suspeição por parte de terceiros. Muitas vezes, os comentários vão no sentido de não se perceber o porquê da permanência destas mulheres em determinadas relações, sendo tal atribuído a traços de masoquismo. Outras vezes, refere-se que terão sido elas a provocar ou a incitar o outro ao comportamento 123 agressivo. Relembremos aqui algumas teorias que assentam na patologia da vítima - numa perspectiva fortemente psicodinâmica - e que postulam que as mulheres agredidas, de alguma forma, incitam ou provocam o abuso (Brannon, 1996), que as mulheres são masoquistas e adoram ser abusadas e, ainda, que têm predisposição para a violência. Ou seja, parece aplicar-se a estas mulheres o "rótulo" de codependentes assumindo-as como criaturas ainda mais perturbadas (mesmo com características de cariz psicopatológico) que os seus companheiros agressores (Carden, 1994). Ainda que se encontrem na literatura alguns laivos destas ideias, a maior parte dos estudos referencia outras causas para a permanência das mulheres vítimas de violência nestas relações (Campbell, Miller, Cardwell & Belknap, 1994). Justamente, Strube (1991), faz uma tentativa de síntese da forma das razões que levam as mulheres a permanecer ou não nas relações abusivas do seguinte modo: (i) impedimentos psicológicos (a mulher permanece na relação devido a handicaps individuais), (ii) modelo do abandono aprendido (“learned hopelessenss” significa que a mulher interioriza uma atitude de passividade e culpabiliza-se a si própria pelo que lhe acontece), (iii) teoria da troca (a mulher encontra-se perante o dilema entre continuar numa relação abusiva ou tornarse num cidadão marginal, sem apoios pessoais e comunitários) e (iv) teoria do comportamento planeado – que significa que a decisão de abandonar ou permanecer numa relação abusiva segue regras precisas e que apesar de parecer que as mulheres permanecem na relação, interior e conscientemente, avaliam a forma mais adequada e o momento mais oportuno para abandonar o companheiro. Desta forma, muitas mulheres parecem estar envolvidas num processo de reflexão acerca da relação e dos apoios que podem obter em ordem a testar recursos internos e externos que lhes possibilitem a autonomia tratando-se, assim, de um processo de crescimento pessoal, que inclui um processo de luto acerca de um ideal de relação não concretizado (Sullivan, Basta, Tan, & Davidson, 1991). Ainda o mesmo autor, (Strube, 1991) sugere a "teoria da troca" (Exchange Theory) para explicar que estas mulheres, por vezes, permanecem na relação porque a escolha que se lhes coloca consiste em optar entre um 124 violento e perigoso casamento e o desconhecido, o medo de uma educação monoparental, com dificuldades económicas (Gelles, 1993), tendo em conta a pobreza no feminino ainda existente. Roberts (1976; in Walker, 1999) diz tratarse da escolha entre "um casamento perigoso e a possibilidade de se tornar numa pessoa marginal" (p.163). Ainda a este propósito, Kennedy, Ford, Smith e Dutton (1991) referem o isolamento dos amigos e dos familiares, sobretudo nas grandes cidades, e a inoperância da comunidade como as principais razões que conduzem as mulheres a adoptarem mecanismos para lidar com a violência e estratégias para a evitar. Ou seja, em vez de apelar a características individuais a ênfase é deslocada para as questões estruturais, de natureza sócio-política, que contribuem para perceber de forma mais adequada as reacções de algumas mulheres. Como acabamos de referir, segundo a perspectiva teórica denominada de "abandono aprendido" (Walker, 1979) as mulheres batidas ou agredidas interiorizam uma atitude passiva, culpam-se a elas próprias e acomodam-se ao comportamento do parceiro; algumas reconhecem o perigo em que vivem mas são optimistas, esperando que o comportamento do marido se altere e permanecendo nesta situação ambígua que pode durar décadas. A literatura sugere, aliás, que os casais violentos frequentemente passam por períodos de "lua-de-mel" (de três ou quatro meses) entre episódios violentos caracterizados pela sua ausência, mesmo sem intervenção terapêutica (Walker, 1979). Esta autora denomina este fenómeno de ciclo da violência composto pelas fases de tensão, ocorrência de episódios violentos e fase da reconciliação ou lua-de-mel, sendo a duração destes períodos variável em função do tempo de vitimação. Congruente com esta análise poderá estar o facto de apenas uma minoria de mulheres colocarem os maridos em tribunal e procurarem assistência legal, seja porque o período de lua-de-mel está a decorrer, seja porque exista a esperança da não repetição dos episódios de violência. Outra variável que contribui para a compreensão da atitude destas mulheres, ou pelo menos de algumas, poderá ser o significado que elas atribuem à violência assim como o significado dos companheiros ou pela 125 comunidade em geral. Esta assume, por vezes, uma certa permissividade ao atribuir à violência um sentido quase educativo: alguma violência é permitida como estratégia disciplinadora, crença seguramente interiorizada por muitos homens e mulheres. Ademais, para algumas vítimas esta situação é marcada por sentimentos de vergonha devidos ao fracasso da sua relação e percepcionam-se a si próprias como tendo falhado na missão mais relevante das suas vidas: cuidar da família (Silva, 1995). Existem, a nosso ver, dois estudos interessantes que corroboram a perspectiva acima descrita. O primeiro, realizado por Willis, Hallinan e Melby (1996) decorreu junto de estudantes universitários de ambos os sexos e pretendeu observar o papel dos estereótipos de género na atribuição de responsabilidades na violência conjugal (tendo para o efeito que avaliar uma situação em que o homem era o agressor). Os resultados, consistentes com estudos anteriores, revelaram que os sujeitos com uma visão tradicional dos papéis percepcionam os homens como menos abusivos, apresentam maior tendência a considerar que a violência ocorre pontualmente e tendem a desprezar os seus efeitos ou o seu grau de severidade, contrariamente aos sujeitos com uma visão igualitária dos papéis atribuídos aos géneros. Acresce ainda que, em casais efectivamente casados, estes sujeitos tradicionais tendem a considerar ainda menos que o homem é abusivo. A outra investigação foi também realizada com uma amostra de estudantes universitários visando observar como os estereótipos de género e o poder se associam com as percepções dos papéis em casais violentos. Assim, os homens são habitualmente encarados como tendo performances elevadas em "actuação" (assertividade, motivação para tarefas de chefia e liderança) ao passo que as mulheres são encaradas como muito dotadas para a "comunhão" (acomodação e preocupação com os outros, excessivo altruísmo e vulnerabilidade). Este estudo expôs os sujeitos a duas condições (i) aquela em que o marido é violento contra a sua mulher e (ii) aquela em que a mulher é violenta contra o seu marido, invertendo o tradicional desequilíbrio de poder na relação. Os resultados revelam que tanto homens como mulheres violentos são percepcionados como possuindo valores altos em "actuação" e baixos em 126 “comunhão”, alterando-se estes valores para as vítimas, homens ou mulheres, apesar destas serem percepcionadas como mais pobres em "actuação" do que os homens nas mesmas circunstâncias (igualmente abusados) (Gerber, 1991). Outras razões poderão justificar a permanência das mulheres nestas relações: desde as preocupações com o sustento dos filhos, factores económicos, os factores emocionais e pessoais, a baixa auto-estima, a ausência de redes de apoio, quer pessoais quer comunitários e sociais, ao desejo de proteger o esposo e preservar a família unida. Além destas, parece que cerca de 50% dos maridos continuam a aterrorizar as suas mulheres após a separação. Pior, quando são assassinadas pelo seu parceiro, a maior parte delas encontra-se em processo de separação, ou seja, parece que o risco de serem vitimizadas aumenta ao separarem-se do agressor (Mallock & Webb, 1993). Estes crimes quando cometidos por mulheres são resultado de anos de violência psicológica e física e abuso sexual por parte dos companheiros (D`Ardenne & Balakrishna, 2001). Baseado no modelo de Análise Transaccional de Berne, Bicehouse e Hawker (1993), definem diferentes níveis no comportamento de controlo dos homens e consequentes ou paralelos estádios na vitimação das mulheres. Assim, (i) o primeiro passo ocorre quando face a situações concretas o homem toma o controle das mesmas, usando estratégias aceites socialmente, (ii) recorre a ameaças e a estratégias de intimidação da companheira, nesta fase estas pedem muitas vezes ajuda junto de significativos mas apenas são encorajadas a serem melhores esposas e, (iii) finalmente, o homem torna-se violento, a mulher sente-se abandonada, transfere a raiva para si própria, diminui a sua auto-estima, deprime e surgem, por vezes, comportamentos de auto-mutilação. Contudo, vimos como este modelo é contestado por imensos estudos, alguns previamente referenciados. Finalmente, Pelod e Edleson (1994) concluem de um estudo de âmbito nacional realizado nos Estados Unidos, da relevância de serviços comunitários e sociais de apoio às mulheres assim como de advogados para mulheres pela variedade de actividades que podem desenvolver em diferentes contextos, nomeadamente na pressão exercida junto de entidades governamentais para o 127 suporte e criação de serviços para mulheres batidas. Os autores destacam a importância do papel destes profissionais no apoio individual e na contribuição para a ocorrência de mudanças sociais, inclusive ao nível das mentalidades. Diríamos, em síntese, que existe algum consenso acerca de que as mulheres com recursos pessoais e comunitários são efectivamente mais capazes de abandonar a relação ou de encontrar meios para pôr fim à violência de que são alvo, mesmo não abandonando as relações, o que desde logo nos remete para a existência de outras dimensões presentes na compreensão da manutenção destas relações e para a circularidade das mesmas. Vejamos, então que contribuições podem dar as perspectivas sistémicas de análise da violência conjugal. 6. Da inevitabilidade dos conflitos à emergência de violência: que regularidades? Temos vindo a constatar da necessidade de serem consideradas variáveis da relação não é possível aceder ao processo que conduz à emergência de violência moderada, seja física ou não física, nos casais. Para que estes processos relacionais fossem melhor compreendidos seria muito importante conseguir estudar efectivamente casais, contudo sobre as limitações e dificuldades que se colocam a este nível já nos referimos no primeiro capítulo e, por isso, apenas queríamos enfatizar que muitas vezes as conclusões evidenciadas pelos estudos são abusivas na medida em que as investigações são feitas com homens e mulheres e não com casais. Ainda assim, à medida que fomos apresentando tipologias de casais, padrões comunicacionais, modelos de casamentos diferentes, formas de gerir conflitos distintas, entre outros processos, constatamos que existe (para além das polémicas, por vezes demasiado visíveis e contraproducentes) o reconhecimento progressivo da necessidade do estudo das variáveis relacionais nestes processos. E, ainda, que o envolvimento em estratégias de 128 conflito e de violência, nos moldes referidos, podem ser considerados num continuo. Neste âmbito, o constructo de escalada é prolífero e frequentemente utilizado por diversos autores mas nem sempre bem definido. Saliente-se que desde logo nele estão contidos diversos conceitos: por um lado, a ideia de que se parte de estratégias mais simples para outras de complexidade superior, a ideia de que o grau de severidade aumenta e diminui o controlo dos participantes e a ideia de que está implícito uma relação. Donde a escalada é, por natureza, relacional e processual porque depende da interacção de, pelo menos, duas pessoas. Daí ser muitas vezes usada como sinónimo de reciprocidade negativa. Ou seja, finalmente, numa perspectiva sistémica de análise dos conflitos, a escalada insere-se nas relações simétricas (Christensen & Walczynsky, 1997). Neste sentido, aliás, Revenstorf, Hahlweg, Schindker e Vogel (1984) consideram os seguintes tipos de estratégia utilizadas pelos casais em situações de conflito: distanciamento (que pode constituir uma alternativa para resposta negativas potencialmente geradoras de maiores níveis de conflito e estimulantes da violência); aceitação (encarar o conflito e procurar respostas positivas alternativas); concordância (considerar apenas respostas positivas) e, finalmente, a escalada (alternar entre a descrição recorrente do problema e as respostas negativas ao mesmo). Estes autores referem que a negatividade do processo de escalada consiste numa tendência que estes casais têm em ir procurar recorrentemente o passado (fenómeno de vingança) ou processo coercivo, nunca deixando que determinados acontecimentos morram de vez, nomeadamente os mais ameaçadores de acordo com a grelha de leitura que cada cônjuge faz da relação, estando sempre a ressuscitá-los morbidamente. Por seu lado, Wile (1993) fala-nos de cinco níveis de ataque muito comuns entre os casais numa situação de escalada dos conflitos: o primeiro nível consiste em criticar o comportamento do outro (com frases do tipo “nunca falas comigo”); no segundo nível criticam-se sentimentos (dizer ao outro o que deve ou não sentir ou como deveria senti-lo); o terceiro nível corresponde a criticar o carácter do outro (chamar nomes, atribuir características negativas ao 129 parceiro); o nível quarto corresponde a fazer interpretações acusatórias (a sensação de estar sempre a psicanalizar o outro…) e, finalmente, o quinto e último nível corresponde à crítica de intenções. O que convém destacar é que cada passagem para o nível subsequente significa o aumento da frustração, dos sentimentos de mágoa, rejeição, abandono e ressentimento. Contudo, este autor é crítico quanto à capacidade de os casais fazerem apelo, ainda que o tentem, às regras da comunicação para impedir a escalada na medida em que as emoções e o calor adjacente a algumas situações conflituosas, o impediriam, assim, o processo de escalada só termina quando surge violência, ou através da retirada de afastamento intencional de um dos parceiros. Esta opção é, porém, também geradora de ansiedade na medida em que pressupõe para o outro, o afastamento e a indiferença face à tentativa de solucionar os conflitos por parte da pessoa que se considera mais próxima14. Finalmente, Ridley e Feldman (2003), consideram que a escalada é inevitável nos casais (i) se os parceiros se fecham ou entram em posições do tipo “muro de pedra”, com padrões recíprocos de dominância e defensividade; (ii) se há uma imensa probabilidade de retaliação em ordem a prever futuros ataques, sobretudo quando o receptor acredita que o ataque inicial foi intencional e ilegitimado (iii) se está presente afecto negativo e fisiológico num dos parceiros (Gottman & Levenson, 1988). Constata-se, assim, que os argumentos utilizados pelos cônjuges contêm três níveis: o nível referente ao tema do conflito, o da personalidade de cada cônjuge e o da relação (que implica as especificidades e particularidades de cada casal) o que convenhamos complexifica o nível de análise. Evidentemente, que cada casal será diferente de outros, como em todas as situações referentes aos comportamentos humanos. De qualquer modo, faríamos apelo a uma leitura dos modelos de Gottman que, apesar da sua 14 Evitar ou retirar-se dos conflitos é conotado de forma negativa para a relação a longo prazo porque os conflitos não resolvidos tendem a ficar mais carregados emocionalmente (de modo negativo…) com o tempo; como os temas não resolvidas se vão amontoando, é provável que os cônjuges comecem a ser menos tolerantes ou mais sensíveis a qualquer novo desacordo, ou seja, o limiar de tolerância decresce. 130 estonteante simplicidade, são prolíferos na quantidade de reflexões acerca da conjugalidade. Especificamente, sabemos que a estratégia de afastamento pode ser de extraordinária utilidade para conseguir impedir que a escalada tenha como consequência a violência, nomeadamente física. Porém, existem casais em que a escalada é frequente e mantida em níveis aceitáveis (apetece dizer politicamente correctos) para ambos os cônjuges e para a relação. Para alguns, aliás, parece ser a chama que os alimenta, de qualquer modo, nem sempre acesa, porque mais cedo ou mais tarde os conflitos profundos e não solucionados emergem de modo negativo. O mais intrigante, então, é tentar descortinar porque razões casais que discutem frequentemente nunca passam para uma fase mais grave e, por outro lado, nunca se saber verdadeiramente quando o abuso emocional pode anteceder o abuso físico. Jacobson e Gottman, (1998)15 adiantam que os casais não violentos parecem possuir uma espécie de “ritual de evitamento ou retirada” que os leva a que em determinado ponto da escalada consigam parar e/ou reverter o seu modo de envolvimento no processo crescente de conflito ou de violência. Alguns destes casais fazem pausas, outros assumem compromissos, outros fazem as duas coisas. Nos casais onde há agressão física pelo contrário, os autores consideram que podem ocorrer duas situações distintas: a primeira consiste na retirada ou afastamento de um dos cônjuges; a segunda, consiste na capacidade, por norma das mulheres, de conseguirem parar de instigar o outro na medida em que os companheiros uma vez “activados” tendem a persistir nas situações e os episódios de violência acontecem. Parece inevitável voltar a falar das diferenças de género, uma vez que os autores assumem que são os homens que, tendencialmente ficam mais e mais agressivos, até ao ataque final (é destes autores a analogia deste tipo de homem com os cães “Pit Bulls”) e que constituem em cerca de 80% dos casos os agressores conjugais. Estes são homens que frequentemente no padrão 15 Estas constatações são como sabemos fruto de estudos longitudinais realizados com casais, onde os autores fazem uma série de anotações entre as quais as que concernem às discutíveis diferenças de reacção fisiológica de homens e de mulheres. 131 exigência-retirada se caracterizam por, ao mesmo tempo, assumir os dois papéis. Outros estudos têm confirmado este duplo padrão por parte dos homens e a sua associação ao comportamento violento dos mesmos, concretamente, Berns, Jacobson e Gottman (1999a, b) constatam junto de 47 casais que os homens agressores são mais propensos a, simultaneamente, exigir e retirar-se das situações problemáticas que os outros homens não violentos. As mulheres vítimas também são diferentes, exigem mais dos maridos e estes não se retiram tanto do conflito como os maridos não agressivos. Parece deste modo inevitável a conclusão de que outros processos ou variáveis estão subjacentes. Concretamente, quanto à questão do poder parece que em relações extremamente simétricas, os seus membros estão nela envolvidos de forma inflexível. Assim, os resultados podem ser associados a um jogo competitivo que, anexado às situações de conflito, implica a procura da culpa em doses iguais para ambos os cônjuges. Ainda que existam casos extremos em que é claro que um parceiro é mais responsável que o outro – os casos de violência são deste tipo – na maior parte das situações, Buss (1991) considera a inevitabilidade de se lidar com o conflito de forma sistémica e entender que existe uma responsabilidade partilhada. Do mesmo modo, não é possível esquecer as variáveis individuais. Aliás, ainda o mesmo autor considera que a maior certeza decorrente de mais de cinco décadas de investigação neste domínio é a de que existem características de personalidade inevitavelmente associadas ao conflito entre as quais o autor realça os baixos níveis de agradabilidade e de instabilidade emocional como os mais determinantes para o aparecimento de abuso e negligência. Um estudo de Sagrestano, Heavey e Christensen (1999) tornou-se num clássico porque, por um lado, estuda casais e, por outro, constata a existência de níveis semelhantes de violência entre géneros associados à percepção de poder e à resolução ineficaz de conflitos por parte dos cônjuges. De resto, os resultados deste estudo são os seguintes: baixos níveis de poder conjugal por parte do marido e elevado por parte das mulheres estão associados com a 132 permite, exactamente, optimizar a proporção entre o número de inquéritos e o número de parâmetros a estimar na AFC (Hagtvet & Nasser, 2004; Hau & Marsch, 2004). Os 13 itens referentes à sub escala confiança, organizam-se de acordo com o modelo proposto. A figura 5.7 apresenta os itens e respectivos conteúdos, bem como os valores de ajustamento que são aceitáveis. GFI = 0,923; RMR = 0,045; RMSEA = 0,923 Figura 5.7 Análise factorial confirmatória para a sub-escala confiança, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Quanto à sub-escala dependência os respectivos 13 itens obedecem igualmente aos critérios estabelecidos, como se pode constatar na Figura 5.8, e apresentam valores de ajustamento razoáveis. 235 GFI = 0,934; RMR = 0,103; RMSEA = 0,099 Figura 5.8 Análise factorial confirmatória para a sub-escala dependência, com os valores das saturações e os índices de ajustamento De forma similar, também os itens referentes à sub-escala ambivalência, obedecem aos critérios estabelecidos, revelando valores de ajustamento do modelo teórico aos dados aceitáveis (Figura 5.9). 236 GFI = 0,938; RMR = 0,071; RMSEA = 0,080 Figura 5.9 Análise factorial confirmatória para a sub-escala ambivalência, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Finalmente, para a sub-escala evitamento também foram encontrados valores de ajustamento do modelo teórico aos dados aceitáveis (Figura 5.10). GFI = 0,914; RMR = 0,051; RMSEA = 0,085 Figura 5.10 Análise factorial confirmatória para a sub-escala evitamento, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 237 O alfa de Cronbach, que avalia a consistência interna das escalas, apresenta valores muito elevados para as 4 sub-escalas: confiança, α=0.92; dependência, α=0.83; evitamento, α=0.83; e ambivalência, α=0.90. Deste modo, podemos concluir que a estrutura factorial do questionário é válida. Procedeu-se, então, à AFC de segunda ordem dado que estas quatro dimensões avaliam o constructo vinculação ao par amoroso1. Como se pode observar na Figura 5.11, os valores de ajustamento são aceitáveis e os valores de saturação são congruentes com o modelo teórico: positivos para a confiança e a dependência, e negativos para a ambivalência e o evitamento. Assim, é possível afirmar que este modelo teórico da vinculação ao par amoroso se ajusta aos dados empíricos deste estudo. GFI = 0,977; RMR = 0,023; RMSEA = 0,148 Figura 5.11 Análise factorial confirmatória para a vinculação ao par amoroso, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 1 Seria defensável sugerir que esta estratégia fosse repetida para todos os instrumentos. No entanto, o QVA repousa fortemente num modelo teórico cuja consistência tem sido empiricamente suportada por múltiplos estudos. Assim, optamos por utilizar esta análise relativamente aos instrumentos que avaliam um constructo teórico único – a outra situação em que esta análise será utilizada é a do instrumento de avaliações dos padrões conjugais. 238 3. O Conflict Resolution Inventory (IRC; Kurdek, 1994) A Escala de Resolução de Conflitos foi idealizada por Kurdek (1994) no sentido de avaliar o tipo de estratégias (ou estilos) de resolução de conflitos utilizadas por casais (sejam hetero ou homossexuais) aquando da presença de problemas entre eles. A escala é composta por 16 itens e pressupõe a existência de quatro factores, com quatro itens cada, a saber: Envolvimento Negativo no Conflito, Resolução Positiva de Problemas, Retirada e Submissão (Quadro 5.3). A cada sujeito respondente e, portanto, a ambos os cônjuges, é solicitado que avalie o seu tipo de resposta, mas também que avalie a resposta do seu/sua companheiro(a) (o eu e o outro) em situações de “tensão ou conflito” avaliando a frequência da sua utilização. A escala de resposta é composta por cinco pontos de “Nunca“ a “Sempre”. Desta forma, a escala permite-nos a comparação das percepções relativamente a si próprio e ao cônjuge. Assim, é pedido ao respondente que avalie quantas vezes em situações de desacordo costuma “atacar o meu companheiro” e quantas vezes “o meu companheiro me ataca”. Quadro 5.3 Dimensões e itens constituintes do CRI Dimensões Itens Envolvimento Negativo no Conflito Atacar o meu companheiro. Explodir e perder o controle. Ficar fora de mim e dizer coisas que não quero realmente dizer. Insultar e empurrar o meu companheiro. Resolução Positiva de Problemas Centrar-me no problema em causa. Sentar-me e conversar sobre as nossas diferenças. Procurar alternativas que sejam aceitáveis para ambos. Negociar e tentar chegar a um acordo. Retirada Permanecer calada por longos períodos de tempo. Recusar falar mais sobre o assunto. Desligar. Afastar-me e agir com distância e desinteresse. Submissão Desistir de defender a minha posição. Ser demasiado condescendente. Não defender a minha posição. Fazer poucas tentativas para apresentar o meu ponto de vista. Ainda que sem um modelo teórico explícito subjacente à escala, pelo menos assumido pelo autor, a escala parece tentar avaliar um dos padrões 239 mais estudados no domínio do conflito conjugal nas últimas décadas. Referimonos, obviamente, ao padrão Exigência-Retidada ou Pedido/Evitamento onde estão patentes alguns dos comportamentos mais estudados no contexto da interacção conjugal conflituosa. De resto, o autor denomina os quatro factores da escala de forma exemplificativa disto mesmo (conflict engagement, positive problem solving, withdrawal, avoidance). A escolha desta escala deveu-se a duas razões principais. Em primeiro lugar, a clareza na formulação dos itens que remetem para estratégias imediatamente reconhecidas como fazendo parte do nosso quotidiano relacional. Em segundo lugar, ao facto de permitir estudar as percepções que os cônjuges têm do seu comportamento e do comportamento do parceiro. A comparação destas percepções permite avaliar as “célebres” e recorrentemente evocadas diferenças de género entre homens e mulheres no que concerne às estratégias utilizadas na gestão dos conflitos. Temos ainda a oportunidade de verificar ou não essas diferenças no padrão Exigência- Retirada junto de uma amostra de casais portugueses, o que permite explorar diferenças de género em geral e intra-casal. A análise da distribuição de frequências em cada nível de cotação revela uma distribuição equilibrada das respostas, apontando um bom poder discriminativo dos itens; apenas em 6 itens há concentrações superiores a 50% no nível “às vezes” ou “nunca”. Tendo em conta este modelo conceptual deduzido da escala de Kurdek, decidimos efectuar uma AFC para testar a estrutura factorial em 4 sub-escalas. Na medida em que a escala é respondida por cada cônjuge em duas dimensões (“dual concern model”), na perspectiva do eu e na perspectiva do outro, efectuamos AFC em separado para as percepções das estratégias utilizadas pelo próprio (a percepção daquilo que eu faço) e para as percepções das estratégias utilizadas pelo outro (a percepção que eu tenho do que ele/a faz). 240 a) percepções das estratégias de resolução de conflito próprias O agrupamento de itens da sub-escala envolvimento negativo no conflito revela índices de ajustamento razoáveis aos dados, como se pode observar na Figura 5.12. GFI = 0,976; RMR = 0,028; RMSEA = 0,154 Figura 5.12 Análise factorial confirmatória para o envolvimento negativo no conflito, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Também é bom o nível de ajustamento do agrupamento dos 4 itens relativos à sub-escala resolução positiva de problemas (Figura 5.13). GFI = 0,999; RMR = 0,007; RMSEA = 0,000 Figura 5.13 Análise factorial confirmatória para a resolução positiva de problemas, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Na Figura 5.14 apresentam-se os valores das saturações e os índices de ajustamento da sub-escala retirada, que sugerem um bom ajustamento aos dados. 241 GFI = 0,994; RMR = 0,021; RMSEA = 0,065 Figura 5.14 Análise factorial confirmatória para a retirada, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Finalmente, os 4 itens da sub-escala submissão revelam índices de ajustamento muito positivos (Figura 5.15). GFI = 0,995; RMR = 0,012; RMSEA = 0,054 Figura 5.15 Análise factorial confirmatória para a submissão, com os valores das saturações e os índices de ajustamento A consistência interna das sub-escalas relativas às estratégias de resolução de conflitos utilizadas pelo próprio apresenta os seguintes valores de alfa de Cronbach: envolvimento no conflito, α=0.81; resolução positiva de problemas, α=0.69; retirada, α=0.81; e submissão, α=0.79. De salientar que as sub-escalas são compostas por apenas 4 itens, e mesmo assim os valores do alfa de Cronbach são satisfatórios o que nos permite concluir da validade desta estrutura factorial. 242 Tendo em conta os dados destas análises, podemos afirmar que a CRI é uma escala válida para avaliar as estratégias de resolução de conflitos próprias. b) percepções das estratégias de resolução de conflito do outro De forma análoga, foram realizadas AFCs para as quatro sub-escalas do IRC na versão “outro”. Como se pode registar na Figura 5.16, os índices de ajustamento para a escala envolvimento negativo no conflito revelam um bom ajustamento aos dados. GFI = 0,971; RMR = 0,031; RMSEA = 0,179 Figura 5.16 Análise factorial confirmatória para o envolvimento no conflito pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento No que respeita à sub-escala de resolução positiva de conflitos, tendo em conta a percepção das estratégias do outro, os resultados revelam um bom ajustamento dos dados ao modelo teórico (Figura 5.17). GFI = 0,999; RMR = 0,006; RMSEA = 0,000 Figura 5.17 Análise factorial confirmatória para a resolução positiva de problemas pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 243 Os índices de ajustamento para a sub-escala retirada enquanto estratégia utilizada pelo outro revelam, também, uma forte adequação dos dados ao modelo, como se pode observar na Figura 5.18. GFI = 1,000; RMR = 0,000; RMSEA = 0,000 Figura 5.18 Análise factorial confirmatória para a retirada pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Finalmente, como se observa na Figura 5.19, há um bom ajustamento do agrupamento de itens relativos à submissão enquanto estratégia do outro aos dados. GFI = 0,999; RMR = 0,007; RMSEA = 0,000 Figura 5.19 Análise factorial confirmatória para a submissão pelo outro, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 244 GFI = 0,997; RMR = 0,004; RMSEA = 0,023 Figura 5.21 Análise factorial confirmatória para a violência associada ao álcool, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Finalmente, a sub-escala de violência não física agrupa 13 itens cujo ajustamento aos dados é adequado (Figura 5.22). GFI = 0,903; RMR = 0,057; RMSEA = 0,093 Figura 5.22 Análise factorial confirmatória para a violência não física, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 251 A análise da consistência interna destas sub-escalas relativas à violência revela valores do alfa de Cronbach satisfatórios: violência física, α=0.91; violência associada ao álcool, α=0.83; e violência não física, α=0.86. Assim, o conjunto das análises efectuadas permite-nos afirmar a fiabilidade das dimensões deste questionário, que ademais se pode revestir de utilidade acrescida para a compreensão do fenómeno da violência conjugal. 5. Inventory of Specific Relationship Standards-III (ISRS; Baucom, Epstein, Rankin & Burnett, 1993) O Inventory of Specific Relationship Standards4 de Baucom, Epstein, Rankin e Burnett (1993/1999) é uma escala que pretende basicamente avaliar as crenças subjacentes ao relacionamento conjugal, especificamente aquilo que os cônjuges consideram que a relação deveria ser. Enquadra-se deste modo num racional teórico que valoriza as cognições no seio das relações íntimas, na medida em que se reconhece a interferência das dimensões cognitivas, obviamente a par das afectivas e emocionais, para melhor compreender a complexidade da vida conjugal. Com efeito, dimensões como os padrões, as expectativas, as atribuições e os pressupostos, entre outros, são variáveis com uma influência considerável no funcionamento conjugal. O ISRS viria, assim, colmatar uma lacuna na investigação deste domínio: concretamente, os padrões conjugais parecem ter um efeito preponderante na manutenção de relações disfuncionais. O ISRS é, portanto, uma escala de auto-relato sobre padrões conjugais, cuja estrutura pretende avaliar três dimensões centrais da conjugalidade: fronteiras, poder/controlo e investimento (expressivo e instrumental). Os 4 Mantivemos as mesmas iniciais do Inventário (ISRS) mesmo aquando da sua administração junto dos sujeitos. 252 autores consideram que a escolha destas dimensões é decorrente da revisão teórica efectuada, da percepção constante da sua identificação pelos casais em contextos clínicos, da provável aplicabilidade dos seus constructos à prática, na medida em que se podem identificar um conjunto diverso de padrões conjugais passíveis de serem modificados terapêuticamente. A primeira dimensão – fronteiras – refere-se ao tempo e actividades partilhadas do casal e ao espaço individual que cada cônjuge pode manter, constituindo-se numa dicotomia (independência vs. partilha) cujo equilíbrio dinâmico é difícil de ser conseguido para os casais. Falamos do tempo passado em conjunto, de actividades partilhadas. As fronteiras têm, de resto, sido alvo de estudo por diferentes modelos teóricos e revelam consequências divergentes: isto é, fronteiras mais rígidas favorecem o sentido de independência em determinados domínios mas diminuem o sentimento de interdependência, de auto-revelação e de partilha (por muitos, considerados os componentes essenciais da intimidade conjugal). Por seu lado, a segunda dimensão considerada na escala – poder/controlo – refere-se justamente ao poder e controlo que os cônjuges pensam ser seu direito e dever exercer na sua relação. Na revisão da literatura podemos constatar, como estas dimensões do poder e do controlo são amplamente estudadas e associadas ao conflito, sendo igualmente dimensões frequentemente referenciadas na terapia conjugal (Greene & Bogo, 2002; Gottman & Silva, 2000) Concretamente, falamos do poder, partilhado ou não, do processo de tomada de decisões, e do eventual domínio de um dos cônjuges relativamente ao outro. Finalmente, a terceira dimensão em causa – investimento – pode ser subdividido em duas dimensões: a que respeita ao investimento expressivo e a que concerne ao investimento instrumental. Pressupõe-se que este factor avalia o investimento na relação, que significa dar e receber, contribuir para a relação, no sentido de fazer com que ela funcione e tenha qualidade, cabendo esta tarefa a ambos os cônjuges. Estas dádivas podem adquirir um carácter de índole expressiva (o cuidado com o outro, a expressão de sentimentos, 253 positivos ou negativos) ou instrumental (o desempenho concreto de tarefas: o lado funcional e pragmático da relação). Este factor acabou por ser dividido em dois (independentemente da sua estrita relação) e actualmente considera-se que a escala é formada pelos factores: Fronteiras, Controlo, Investimento Instrumental e Investimento Expressivo. A versão actual da escala é o fruto de ajustamentos anteriores realizados pelos autores que conduziram, por exemplo, à alteração das cinco dimensões iniciais (fronteiras, processo de controlo, controlo/poder, investimento instrumental e investimento expressivo) para as actuais quatro, em virtude de estudos de validação da escala terem considerado inadequada a consistência interna da sub-escala Processo de Controlo (Baucom et al, 1999). Utilizou-se, neste estudo, a versão portuguesa desenvolvida por Ribeiro (2002). Assim, as três dimensões do ISRS expressam-se em 48 itens distribuídos igualmente por quatro sub-escalas com 12 itens cada, na medida em que a sub-escala Investimento se subdivide em duas (Investimento Expressivo e Investimento Instrumental). Tendo em conta, como referimos, os aspectos mais comuns do funcionamento conjugal, Baucom e colegas (1996) estruturaram o ISRS para avaliar doze áreas distintas: a comunicação negativa, a comunicação positiva, o relacionamento sexual, o relacionamento com família de origem, o relacionamento com amigos, a parentalidade, o investimento no trabalho/carreira, a religião, as tarefas domésticas, as finanças, o lazer e a afectividade conjugal. Em diversos estudos efectuados com esta escala, encontram-se alfas de Cronbach de 0.69 a 0.85 para os homens nas várias dimensões, e de 0.65 a 0.87 para as mulheres (Baucom et al, 1996; Holtzworth-Munroe & Stuart, 1994). A escala foi construída de forma a dar diversas informações numa só questão o que a torna particularmente complexa. Assim, cada membro do casal responde a três questões para cada item: inicialmente manifesta-se sobre aquilo que a sua relação deveria ser (padrão) numa escala tipo Likert (de “nunca” a “sempre”), seguidamente situa-se quanto à satisfação sobre se o padrão em causa está ou não a ser alcançado na sua relação (assinalando 254 “sim” ou “não”) e, finalmente, refere o seu grau de incómodo ou perturbação quando o padrão não é alcançado (assinalando três respostas possíveis: “nada”, “algo” e “muito”). Vejamos a título exemplificativo um dos itens: Deveríamos gastar o dinheiro extra que temos em algo de que gostamos enquanto casal. Está satisfeito(a) com o modo como este padrão está a ser alcançado na sua relação? Quão perturbador é para si quando este padrão não é alcançado? Desta forma, obtêm-se quatro padrões relacionais referentes a Fronteiras, Controlo, Investimento Instrumental e Investimento Expressivo, quatro graus de satisfação referentes às mesmas dimensões e quatro resultados de perturbação correspondentes aos mesmos padrões quando eles não são alcançados. Para além de ser possível analisar se os padrões dos elementos do casal, referenciados às dimensões consideradas, são ou não extremos ou se existe convergência ou divergência entre eles, Baucom e colaboradores (1996) procuraram que o ISRS avaliasse ainda aspectos como a satisfação dos cônjuges e o impacto que o não cumprimento de determinados padrões possui nos mesmos. Pretende-se, ainda, avaliar com esta escala o tipo de padrões que são centralizados nas relações ou seja casais “que manifestassem muita partilha ou poucas fronteiras; papéis igualitários na tomada de decisões; níveis elevados de investimento expressivo e instrumental” (Baucom et al, 1996, p.76), aspecto curioso na medida em que se associa às teorias locais que cada parceiro possui da relação. Em geral, os itens do ISRS relativos aos padrões da relação parecem revelar um bom poder discriminativo, muito embora haja a registar alguma tendência (aproximadamente 50%) de concentração de respostas em metade dos itens, nos níveis “habitualmente” ou “às vezes”. Embora tal possa estar 255 relacionado com a natureza dos próprios itens (“as nossas opiniões deveriam ser igualmente consideradas relativamente às coisas em que gastamos o nosso dinheiro”), note-se que este instrumento foi tendencialmente o último a ser preenchido o que pode ter gerado algum cansaço nos respondentes, na medida em que face aos anteriores era também o mais extenso. Naturalmente, a natureza dos itens e do seu formato de cotação inibe a utilização de AFCs para todas as questões. Começaremos por apresentar os resultados para os vários padrões da relação, após o que – tal como fizemos para o QVA – procederemos a uma AFC de segunda ordem; com efeito, o ISRS avalia padrões da relação e as sub-escalas correspondem a dimensões desse constructo, tendo particular sentido avaliar se estes pressupostos teóricos se ajustam aos dados recolhidos. Na Figura 5.23 regista-se que o agrupamento de itens da sub-escala fronteiras apresenta um bom nível de ajustamento com os dados do estudo. GFI = 0,919; RMR = 0,032; RMSEA = 0,101 Figura 5.23 Análise factorial confirmatória para sub-escala fronteiras, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 256 Como se pode observar na Figura 5.24 também a sub-escala controlo revela um bom nível de ajustamento com os dados do estudo. GFI = 0,922; RMR = 0,022; RMSEA = 0,090 Figura 5.24 Análise factorial confirmatória para sub-escala controlo, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Os índices de ajustamento para as sub-escalas relativas ao investimento instrumental (Figura 5.25) e investimento expressivo (Figura 5.26) são igualmente bons, embora no caso do investimento expressivo tenha sido necessária a eliminação do item 2, que apresentava uma saturação muito baixa no factor (<.100). 257 GFI = 0,931; RMR = 0,030; RMSEA = 0,086 Figura 5.25 Análise factorial confirmatória para sub-escala investimento instrumental, com os valores das saturações e os índices de ajustamento GFI = 0,919; RMR = 0,031; RMSEA = 0,092 Figura 5.26 Análise factorial confirmatória para sub-escala investimento expressivo, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 258 Finalmente, a análise factorial de segunda ordem viria a revelar, de forma análoga, um muito bom ajustamento do modelo teórico – que pressupõe que as quatro sub-escalas são dimensões dos padrões conjugais – aos dados. GFI = 0,996; RMR = 0,001; RMSEA = 0,084 Figura 5.27 Análise factorial confirmatória para as sub-escalas dos padrões conjugais, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Os valores do alfa de Cronbach, enquanto indicadores da consistência interna das diferentes sub-escalas, são muito satisfatórios: fronteiras, α=0.85; controlo, α=0.91; investimento instrumental, α=0.85; e investimento expressivo, α=0.86. Na globalidade, portanto, as análises efectuadas validam não apenas a estrutura factorial da escala como também indiciam que as quatro dimensões remetem para um mesmo constructo de padrões conjugais. Embora a escala tenha sido já utilizada num outro estudo no nosso país (Ribeiro, 2002), esta é a primeira vez em que a sua estrutura factorial é validada. Finalmente, realizamos análises factoriais confirmatórias para as dimensões de Perturbação que avaliam, para cada padrão de relação, o grau de desconforto emocional quando este não é atingido. Na Figura 5.28 pode-se constatar que o agrupamento de itens da subescala controlo apresenta um bom nível de ajustamento com os dados do estudo relativamente às dimensões da perturbação. 259 GFI = 0,924; RMR = 0,016; RMSEA = 0,082 Figura 5.28 Análise factorial confirmatória para sub-escala controlo e dimensão perturbação, com os valores das saturações e os índices de ajustamento Na Figura 5.29 o agrupamento de itens da sub-escala fronteiras apresenta igualmente um bom nível de ajustamento com os dados do estudo relativamente às dimensões da perturbação. GFI = 0,894; RMR = 0,018; RMSEA = 0,103 Figura 5.29 Análise factorial confirmatória para sub-escala fronteiras e dimensão perturbação, com os valores das saturações e os índices de ajustamento 260 301 Capítulo 7 PERCEPÇÕES DA VINCULAÇÃO, DO CONFLITO, DA VIOLÊNCIA E DOS PADRÕES CONJUGAIS: DIFERENÇAS INTRA-CASAL 302 Uma vez concluída no capítulo anterior a exploração das diferenças inter-sujeito nas várias dimensões do estudo para a amostra total (N=500), há agora que considerar as continuidades e descontinuidades intra-casal (N=250). Para este efeito, começaremos por proceder a análises de variância em medidas repetidas, tomando as percepções de cada cônjuge como dimensões do factor intra-casal, e considerando o nível sócio-económico do casal e o tempo de duração da relação como factores de diferenciação inter-casais. Seguidamente, e a partir dos clusters construídos para a vinculação ao par amoroso no capítulo 6, serão identificados grupos de casais caracterizados em função do estilo de vinculação dos cônjuges. Esta tipologia de casais com estilos de vinculação diferente estará na base da exploração das diferenças inter-casais através de análises de variância uni e multivariada para as várias dimensões do estudo. Finalmente, e também a partir dos clusters construídos, no capítulo anterior, para as percepções de violência do companheiro, serão criados grupos de casais com percepções diferenciadas de violência. Novamente, a análise discriminante será utilizada para detectar as variáveis – relativas ao casal e aos estilos de vinculação dos conjugues – que melhor diferenciam estes grupos. 1. Continuidades e descontinuidades intra-casal No sentido de explorar as semelhanças e diferenças nas percepções dos conjugues foram realizadas análises de variância em medidas repetidas tomando o nível sócio-económico-cultural do casal e a duração da relação como factores de diferenciação inter-casais. Embora as análises sejam realizadas para cada sub-escala separadamente, apresentar-se-ão quadros conjuntos organizados em função das dimensões do estudo, tal como aconteceu nos capítulos anteriores 303 a) diferenças na vinculação aos pais A análise do valor do traço de Pillai para as várias dimensões da vinculação aos pais permite constatar que: i. não existem diferenças entre os cônjuges nas percepções de inibição da exploração e investimento da mãe, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação; ii. há diferenças significativas [F(1, 234)= 17.582; p< .001] nas percepções dos cônjuges sobre a inibição da exploração e investimento do pai, com valores mais elevados para os maridos; não há efeitos de interacção do factor intra-casal com o nível sócioeconómico ou a duração da relação (Quadro 7.1); iii. não há diferenças significativas nas percepções dos cônjuges sobre a qualidade do laço emocional à mãe; há efeitos de interacção do factor intra-casal com o nível sócio-económico [F(2, 234)= 3.980; p< .050], sendo que apenas nos casais de nível baixo há diferenças entre cônjuges favorecendo as mulheres; não há efeitos de interacção do factor intra-casal com a duração da relação (Quadro 7.1); iv. há diferenças significativas [F(1, 234)= 14.119; p< .001] nas percepções dos cônjuges sobre a qualidade do laço emocional ao pai, favorecendo as mulheres; há efeitos de interacção do factor intra-casal com o nível sócio-económico [F(2, 234)= 4.444; p< .050], sendo que este padrão de diferença não é confirmado nos casais de nível alto; não há efeitos de interacção do factor intra-casal com a duração da relação (Quadro 7.1); v. há diferenças significativas [F(1, 234)= 5.029; p< .050] nas percepções dos cônjuges sobre a ansiedade de separação e dependência à mãe, com valores mais elevados para as mulheres; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação (Quadro 7.1); 304 vi. não existem diferenças entre os cônjuges nas percepções de ansiedade de separação e dependência ao pai, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação. Quadro 7.1 Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação aos pais em que há diferenças Factor Casal Média Erro padrão Inibição da Exploração e Investimento_Pai Mulher 2,317 ,052 Marido 2,638 ,073 Qualidade do Laço Emocional_Pai Mulher 5,364 ,057 Marido 5,152 ,056 NSE Mulher 5,541 ,112 baixo Marido 5,115 ,110 Mulher 5,288 ,084 médio Marido 5,067 ,083 Mulher 5,262 ,100 alto Marido 5,273 ,098 NSE Qualidade do Laço Emocional _Mãe Mulher 5,538 ,114 baixo Marido 5,191 ,087 Mulher 5,377 ,086 médio Marido 5,286 ,065 Mulher 5,346 ,102 alto Marido 5,451 ,077 Ansiedade de Separação e Dependência _Mãe Mulher 3,394 ,068 Marido 3,225 ,064 No geral, quando se verificam diferenças, estas parecem favorecer as mulheres relativamente aos maridos: são elas que registam percepções de maior qualidade do laço emocional tanto ao pai como à mãe, e experienciaram menos inibição da exploração por parte do pai; no entanto, os níveis de ansiedade de separação à mãe são, também, mais elevados. De notar alguns resultados interessantes na interacção com o nível sócio-económico do casal. 305 b) diferenças na vinculação ao par amoroso Para a vinculação ao par amoroso, a análise do valor do traço de Pillai permite registar que: i. não existem diferenças entre os cônjuges na confiança, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação; ii. há diferenças significativas [F(1, 234)= 35.865; p< .001] no evitamento, com valores mais elevados para os maridos; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação (Quadro 7.2); iii. há diferenças significativas [F(1, 234)= 7.642; p< .050] na ambivalência, com valores mais elevados para as mulheres; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação (Quadro 7.2); iv. não existem diferenças entre os cônjuges na dependência, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação. Quadro 7.2 Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação ao par amoroso em que há diferenças Casal Média Erro padrão Evitamento Mulher 1,623 ,035 Marido 1,889 ,046 Ambivalência Mulher 2,446 ,069 Marido 2,308 ,056 Parece-nos de registar a inexistência de interacções com os factores nível sócio-económico e duração da relação, bem como a congruência intracasal na confiança e na dependência (Gráfico 7.1.). 306 Vinculação ao par amoroso intra-casal 1,0 2,0 3,0 4,0 confiança evitamento ambivalência dependência mulher marido Gráfico 7.1 Médias intra-casal para as dimensões da vinculação ao par amoroso c) diferenças nas estratégias de resolução de conflitos Na sequência de análises de variância em medidas repetidas, o valor do traço de Pillai permite verificar que: i. há diferenças significativas [F(1, 234)= 13.080; p< .001] no envolvimento no conflito do próprio, com valores mais elevados para as mulheres; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócioeconómico ou a duração da relação (Quadro 7.3); ii. não existem diferenças entre os cônjuges no envolvimento no conflito do outro, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócioeconómico ou a duração da relação; iii. não existem diferenças entre os cônjuges na resolução positiva de problemas do próprio, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação; iv. há diferenças significativas [F(1, 234)= 7.271; p< .050] na resolução positiva de problemas do outro, com valores mais elevados para os 307 maridos; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócioeconómico ou a duração da relação (Quadro 7.3); v. há diferenças significativas [F(1, 234)= 7.271; p< .050] na retirada do próprio, com valores mais elevados para os maridos; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação (Quadro 7.3); vi. há diferenças significativas [F(1, 234)= 38.078; p< .000] na retirada do outro, com valores mais elevados para as mulheres; não se verificam efeitos de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação (Quadro 7.3); vii. não existem diferenças entre os cônjuges na submissão do próprio, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócioeconómico ou a duração da relação; viii. não existem diferenças entre os cônjuges na submissão do outro, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação. Quadro 7.3 Médias e erros padrão para as dimensões das estratégias de resolução de conflito em que há diferenças Casal Média Erro padrão Envolvimento no conflito do eu Mulher 2,381 ,051 Marido 2,129 ,058 Resolução positiva de problemas do outro Mulher 3,327 ,040 Marido 3,461 ,035 Retirada do eu Mulher 2,159 ,064 Marido 2,405 ,067 Retirada do outro Mulher 2,564 ,072 Marido 2,000 ,056 308 É interessante constatar que os maridos reconhecem as companheiras como mais positivamente envolvidas na resolução de conflitos e que a opção dos maridos pela retirada é reconhecida pelos próprios e pelas companheiras. d) diferenças nos comportamentos de violência percebida A análise do valor do traço de Pillai para as percepções dos comportamentos de violência permite constatar que: i. há diferenças significativas [F(1, 234)= 10.013; p< .050] nas percepções sobre a violência não-física do cônjuge, favorecendo as mulheres; há efeitos de interacção do factor intra-casal com o nível sócio-económico [F(2, 234)= 3.554; p< .050], sendo que este padrão de diferença não é confirmado nos casais de nível médio; não há efeitos de interacção do factor intra-casal com a duração da relação (Quadro 7.4); ii. há diferenças significativas [F(1, 234)= 10.013; p< .050] nas percepções sobre a violência associada ao álcool do cônjuge, favorecendo as mulheres; não há efeitos de interacção com o nível sócio-económico ou a duração da relação (Quadro 7.4); iii. não existem diferenças entre os cônjuges nas percepções de violência física, nem qualquer efeito de interacção com o nível sócioeconómico ou a duração da relação. Quadro 7.4 Médias e erros padrão para os comportamentos de violência em que há diferenças Casal Média Erro padrão Violência não física Mulher 1,839 ,062 Marido 2,004 ,054 NSE do casal baixo Mulher 1,661 ,121 Marido 2,020 ,106 médio Mulher 2,040 ,092 315 Quadro 7.9 Médias e erros padrão para as dimensões da vinculação aos pais em que há diferenças Vinc_casal Média DP N 1 2,2220 ,65365 41 2 2,3569 ,62040 51 3 2,5094 ,62139 96 Inibição da exploração_MãeF 4 3,0452 ,94932 62 1 2,0415 ,76517 41 2 2,4118 ,65746 51 3 2,1979 ,47815 96 Inibição da exploração_PaiF 4 2,6258 ,76414 62 1 5,5732 ,75731 41 2 5,2686 ,67335 51 3 5,4740 ,66050 96 Qualidade do laço emoc._PaiF 4 4,9774 ,84163 62 1 5,7732 ,21216 41 2 5,5706 ,46100 51 3 5,3885 ,86205 96 Qualidade do laço emoc._MãeF 4 4,9952 ,86828 62 1 2,5902 ,72554 41 2 3,1922 ,65752 51 3 3,3802 ,97458 96 Ansiedade de separação_PaiF 4 3,1226 ,96520 62 1 2,8927 ,74746 41 2 3,5510 ,76246 51 3 3,4083 ,94185 96 Ansiedade de separação_MãeF 4 3,2258 ,97408 62 1 1,9707 ,51877 41 2 2,2824 ,66082 51 3 2,7656 ,71566 96 Inibição da exploração_MãeM 4 2,7065 ,74721 62 1 1,8098 ,46250 41 2 2,3608 ,68588 51 3 2,8601 ,84427 96 Inibição da exploração_PaiM 4 2,9468 1,18884 62 1 5,6683 ,20909 41 2 5,3510 ,61004 51 3 5,0406 ,59957 96 Qualidade do laço emoc._PaiM 4 4,7274 ,94612 62 1 5,7732 ,16435 41 2 5,5333 ,52026 51 3 5,1008 ,58745 96 Qualidade do laço emoc._MãeM 4 5,0565 ,55946 62 316 Vinc_casal Média DP N 1 2,6146 ,65290 41 2 2,8843 ,63004 51 Ansiedade de separação_PaiM 3 3,5199 ,72783 96 4 2,7161 ,85069 62 1 2,7659 ,73743 41 2 3,0725 ,51578 51 3 3,5573 ,73524 96 Ansiedade de separação_MãeM 4 2,9516 1,01315 62 Deste modo, no que às mulheres diz respeito verifica-se que as mulheres provenientes de relações desinvestidas recordam maior inibição da exploração e individualidade na relação com a mãe e na relação com o pai, comparativamente com os três restantes grupos. Este padrão replica na relação com o pai com excepção da diferença entre casais mistos e desinvestidos. Do mesmo modo, as mulheres inseridas em casais desinvestidos apresentam valores inferiores de qualidade do laço à mãe e ao pai comparativamente com os restantes grupos (mais uma vez com uma excepção que consiste na inexistência de diferenças entre casais mistos e desinvestidos). Além disso, as mulheres de casais seguros apresentam maior qualidade do laço emocional à mãe comparativamente com as mulheres de casais inseguros. No que toca à ansiedade de separação as mulheres de casais seguros recordam menor ansiedade de separação na relação com os pais quando comparadas com as mulheres dos restantes grupos, excepção feita na relação com a mãe à diferença entre casais seguros e desinvestidos. Olhando para as diferenças nas representações dos homens verifica-se que os homens de casais seguros recordam menor inibição na relação com a mãe comparativamente com os casais inseguros e os casais desinvestidos. Por sua vez, os homens oriundos de casais mistos também recordam menor inibição comparativamente com os casais inseguros e casais desinvestidos. Na relação com o pai todas as diferenças entre grupos são significativas com 317 excepção da diferença entre os casais inseguros e os casais desinvestidos. Note-se que são os homens de casais seguros que apresentam os valores inferiores de inibição seguidos dos casais mistos, dos casais inseguros e, finalmente dos casais desinvestidos. Quanto à qualidade do laço emocional, o padrão de representação da relação com o pai e com a mãe é próximo, com pequenas excepções: os homens de casais desinvestidos apresentam os valores mais baixos de qualidade do laço comparativamente com todos os outros grupos (exceptuando o contraste com os homens dos casais inseguros, que não é significativo na relação com o pai). Além disso, os homens de casais seguros apresentam valores superiores de qualidade do laço com ambas as figuras parentais comparativamente com os homens de casais inseguros; e na relação com a mãe os homens de casais mistos apresentam valores superiores face aos de casamentos inseguros. Finalmente, no que concerne à ansiedade de separação, verifica-se que os homens de casais inseguros recordam mais ansiedade de separação face ao pai e à mãe, comparativamente com todos os restantes grupos. Por sua vez os homens de casais mistos recordam menor ansiedade comparativamente com homens de casais inseguros. b) diferenças relativamente às estratégias de conflito Relativamente às estratégias de conflito próprias, a MANOVA (traço de Pillai) revelou um efeito principal do cluster (F(24.723) = 4,383, p < 0.001) responsável pelas diferenças observadas no envolvimento negativo nos conflitos, retirada e submissão por parte das mulheres; e, nas dimensões envolvimento negativo do conflito, retirada e resolução positiva de problemas por parte dos homens (Quadros 7.10. e 7.11). 318 Quadro 7.10 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de conflitos próprias Fonte Variável Dependente Σ dos Quadrados GL Quadrado Médio F Sig. vincasal2 Envolvimento no conflito_euF 17,946 3 5,982 10,175 ,000 Resolução positiva de problemas_euF 4,171 3 1,390 5,482 ,001 Retirada_euF 10,264 3 3,421 3,838 ,010 Submissão_euF 7,198 3 2,399 4,789 ,003 Envolvimento no conflito_euM 3,609 3 1,203 1,907 ,129 Resolução positiva de problemas_euM 3,671 3 1,224 5,718 ,001 Submissão_euM 8,331 3 2,777 7,544 ,000 Retirada _euM 18,547 3 6,182 12,596 ,000 Quadro 7.11 Médias e erros padrão para as estratégias de resolução de conflito próprias em que há diferenças vincasal2 Média Desvio Padrão 1 1,8110 ,60410 41 2 2,1814 ,71428 51 3 2,0599 ,81495 96 Envolvimento no conflito_euF 4 2,6008 ,82415 62 1 3,3659 ,56208 41 2 3,2696 ,41786 51 3 3,4288 ,50998 96 Resolução positiva de problemas_euF 4 3,1048 ,51722 62 1 2,3720 ,91706 41 2 2,8039 1,13833 51 3 2,3880 ,92542 96 Retirada_euF 4 2,7782 ,80483 62 1 2,4451 ,84134 41 2 2,1912 ,94682 51 3 2,1328 ,61017 96 Submissão_euF 4 1,9113 ,49194 62 1 3,6707 ,40093 41 2 3,5539 ,48814 51 3 3,3984 ,41450 96 Resolução positiva de problemas_euM 4 3,3306 ,54279 62 1 1,939 ,5471 41 2 2,353 ,6767 51 3 1,958 ,5327 96 Submissão_euM 4 2,286 ,6863 62 1 1,7073 ,62476 41 2 2,2059 ,79010 51 3 1,8099 ,55576 96 Retirada_euM 4 2,3911 ,85486 62 319 Assim as mulheres de relações seguras, apresentam valores inferiores de retirada comparativamente às mulheres de todos os outros padrões conjugais considerados. O mesmo acontece na estratégia de submissão, importando apenas realçar que as mulheres de relações desinvestidas apresentam valores mais elevados de submissão do que as mulheres de relações inseguras. Finalmente, as mulheres de relações mistas apresentam valores mais elevados de submissão do que as mulheres de relações inseguras. Relativamente aos homens, aqueles que estão envolvidos em relações seguras apresentam valores mais elevados de resolução positiva de problemas do que homens de relações inseguras; homens de relações desinvestidas apresentam valores superiores de envolvimento negativo nos conflitos comparativamente aos homens de relações seguras e de relações mistas. Finalmente, os homens de relações desinvestidas apresentam valores superiores de retirada face àqueles que estão em relações inseguras e relações do tipo misto. No que se refere às estratégias de conflito do outro, a MANOVA (traço de Pillai) revelou um efeito principal do cluster (F(24.723) = 4,592, p < 0.001) responsável pelas diferenças em todas as dimensões exceptuando no envolvimento negativo para os homens (Quadros 7.12. e 7.13). Quadro 7.12 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as estratégias de conflitos do outro Fonte Variável Dependente Σ dos Quadrados GL Quadrado Médio F Sig. vincasal2 Envolvimento no conflito_outroF 17,946 3 5,982 10,175 ,000 Resolução positiva de problemas_outroF 4,171 3 1,390 5,482 ,001 Retirada_outroF 10,264 3 3,421 3,838 ,010 Submissão_outroF 7,198 3 2,399 4,789 ,003 Envolvimento no conflito_outroM 3,609 3 1,203 1,907 ,129 Resolução positiva de problemas_outroM 3,671 3 1,224 5,718 ,001 Submissão_outroM 8,331 3 2,777 7,544 ,000 Retirada_outroM 18,547 3 6,182 12,596 ,000 320 Quadro 7.13 Médias e erros padrão para as estratégias de resolução de conflito do outro em que há diferenças vincasal2 Média Desvio Padrão Envolvimento no conflito_outroF 1,00 1,8110 ,60410 41 2,00 2,1814 ,71428 51 3,00 2,0599 ,81495 96 4,00 2,6008 ,82415 62 Resolução positiva de problemas_outroF 1,00 3,3659 ,56208 41 2,00 3,2696 ,41786 51 3,00 3,4288 ,50998 96 4,00 3,1048 ,51722 62 Retirada_outroF 1,00 2,3720 ,91706 41 2,00 2,8039 1,13833 51 3,00 2,3880 ,92542 96 4,00 2,7782 ,80483 62 Submissão_outroF 1,00 2,4451 ,84134 41 2,00 2,1912 ,94682 51 3,00 2,1328 ,61017 96 4,00 1,9113 ,49194 62 Resolução positiva de problemas_outroM 1,00 3,6707 ,40093 41 2,00 3,5539 ,48814 51 3,00 3,3984 ,41450 96 4,00 3,3306 ,54279 62 Submissão_outroM 1,00 1,939 ,5471 41 2,00 2,353 ,6767 51 3,00 1,958 ,5327 96 4,00 2,286 ,6863 62 Retirada_outroM 1,00 1,7073 ,62476 41 2,00 2,2059 ,79010 51 3,00 1,8099 ,55576 96 4,00 2,3911 ,85486 62 Assim, verificamos que as mulheres de relações desinvestidas percepcionam nos seus companheiros valores mais elevados de envolvimento negativo nos conflitos do que as mulheres de todos os outros padrões; por sua vez, as mulheres envolvidas em relações inseguras, percepcionam valores mais elevados de resolução positiva de problemas por parte dos seus companheiros quando comparadas com mulheres de relações desinvestidas. Finalmente, mulheres envolvidas em relações seguras percepcionam valores mais elevados de submissão dos companheiros face a mulheres de relações desinvestidas. 321 Os homens de relações seguras percepcionam valores mais elevados de resolução positiva de problemas das suas companheiras do que homens de relações inseguras e relações desinvestidas. Os mesmos homens de relações seguras consideram que as suas companheiras usam menos estratégias de submissão e de retirada do que os homens de relações desinvestidas e homens de relações do tipo misto. Finalmente, os homens de relações desinvestidas percepcionam valores superiores de submissão e retirada por parte das companheiras comparativamente aos homens de relações inseguras. Estes, apresentam igualmente percepções inferiores de submissão e retirada por parte das suas companheiras quando comparado com os homens de relações em que um é seguro e o outro é inseguro. c) diferenças relativamente à violência A MANOVA (traço de Pillai) revelou um efeito principal do cluster (F(18,729) = 6,190, p < 0.001) responsável pelas diferenças observadas em todas as dimensões (Quadros 7.14 e 7.15). Quadro 7.14 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para as dimensões da violência Fonte Variável Dependente Σ dos Quadrados GL Quadrado Médio F Sig. vincasal2 viol_não física F 33,602 3 11,201 20,268 ,000 viol_alcool F 18,509 3 6,170 13,186 ,000 viol_física F 5,055 3 1,685 9,195 ,000 viol_ não física M 12,243 3 4,081 8,858 ,000 viol_alcool M 1,213 3 ,404 7,270 ,000 viol_ física M 2,456 3 ,819 3,971 ,009 Quadro 7.15 Médias e erros padrão para as dimensões da violência em que há diferenças vincasal2 Média Desvio Padrão N 1,00 1,4991 ,40890 41 2,00 1,7873 ,69155 51 3,00 1,6404 ,64305 96 viol_ não física F 4,00 2,4739 1,04066 62 1,00 1,4024 ,42895 41 2,00 1,5931 ,57654 51 3,00 1,3125 ,56312 96 viol_alcool F 4,00 1,9919 ,99997 62 322 vincasal2 Média Desvio Padrão N 1,00 1,1179 ,23642 41 2,00 1,2451 ,35016 51 3,00 1,2049 ,42542 96 viol_ física F 4,00 1,5134 ,56564 62 1,00 1,6734 ,52497 41 2,00 1,8044 ,52786 51 3,00 2,0777 ,66402 96 viol_ não física M 4,00 2,2940 ,87301 62 1,00 1,2073 ,28995 41 2,00 1,1078 ,18878 51 3,00 1,0964 ,20638 96 viol_alcoo lM 4,00 1,2581 ,27149 62 1,00 1,2276 ,28323 41 2,00 1,2386 ,31315 51 3,00 1,2694 ,43747 96 viol_ física M 4,00 1,4785 ,63266 62 Relativamente às percepções de violência não física as mulheres de casamentos seguros apresentam valores inferiores quando comparadas com as mulheres de todos os outros grupos, a saber, casais em que um dos elementos é seguro e o outro inseguro, casais inseguros e casais desinvestidos. O mesmo acontece relativamente à violência associada ao álcool e à violência física. No que diz respeito aos homens, o padrão parece ser o inverso, isto é, os homens de relações seguras apresentam valores mais elevados de violência não física que os homens de relações inseguras e desinvestidas; e os homens que pertencem a relações do tipo misto também apresentam níveis mais elevados do que os de relações desinvestidas. Na violência associada ao álcool, os homens que pertencem a relações em que ambos são desinvestidos apresentam valores inferiores se comparados aos homens de relações inseguras e aos casais em que um é seguro e o outro inseguro. Finalmente, na violência física encontramos uma diferença entre homens de relações desinvestidas e homens de relações inseguras, apresentando estes valores superiores. 323 d) diferenças quanto aos padrões conjugais A MANOVA (traço de Pillai) revelou um efeito principal do cluster (F(24,723) = 5,855, p < 0.001) responsável pelas diferenças encontradas em todos os padrões conjugais(Quadros 7.16. e 7.17). Quadro 7.16 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Fonte Variável Dependente Σ dos Quadrados GL Quadrado Médio F Sig. vincasal2 ControloF 6,646 3 2,215 9,086 ,000 Inv_ExpressivoF 6,613 3 2,204 9,490 ,000 Inv_InstrumentalF 11,077 3 3,692 19,351 ,000 FronteirasF 11,376 3 3,792 20,793 ,000 ControloM 5,126 3 1,709 8,864 ,000 Inv_ExpressivoM 6,847 3 2,282 12,274 ,000 Inv_InstrumentalM 7,308 3 2,436 13,706 ,000 FronteirasM 7,092 3 2,364 16,245 ,000 Quadro 7.17 Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Variável Dependente vincasal2 Média Desvio Padrão ControloF 1 2 3 4 3,9472 3,8693 4,1525 3,7527 ,32046 ,36334 ,49276 ,65547 41 51 96 62 Inv_ExpressivoF 1 2 3 4 3,7785 3,8203 3,9467 3,5296 ,31766 ,36945 ,50382 ,60283 41 51 96 62 Inv_InstrumentalF 1 2 3 4 3,6519 3,5850 3,8898 3,3562 ,32561 ,31732 ,46492 ,52988 41 51 96 62 FronteirasF 1 2 3 4 3,7400 3,6970 3,8637 3,3212 ,28655 ,31784 ,40576 ,58515 41 51 96 62 ControloM 1 2 3 4 3,8415 3,9080 3,9361 3,5847 ,31002 ,47501 ,44486 ,47031 41 51 96 62 Inv_ExpressivoM 1 2 3 4 3,7114 3,6193 3,8181 3,3978 ,24374 ,41575 ,50365 ,41746 41 51 96 62 Inv_InstrumentalM 1 2 3 4 3,5711 3,5915 3,7587 3,3185 ,23612 ,41841 ,46930 ,44006 41 51 96 62 FronteirasM 1 2 3 4 3,6870 3,6533 3,7553 3,3333 ,19876 ,42350 ,40324 ,40093 41 51 96 62 324 Verificamos que, no padrão controlo, as mulheres de casais mistos, apresentam valores inferiores comparativamente às mulheres de casais inseguros, no entanto, estas mulheres apresentam valores superiores quando comparadas às mulheres de casais desinvestidos. No que diz respeito às mulheres de casais seguros possuem valores superiores no investimento instrumental comparativamente às mulheres de casais desinvestidos, mas inferiores quando comparadas com mulheres em relações inseguras. Finalmente, as mulheres de relações inseguras possuem valores mais elevados de investimento instrumental e expressivo comparativamente às mulheres de relações desinvestidas. No que concerne ao investimento expressivo verifica-se ainda que mulheres de casais mistos, possuem valores mais elevados do que mulheres de relações desinvestidas. De igual modo as mulheres de casamentos inseguros apresentam valores superiores relativamente às mulheres de casais desinvestidos. Por fim, as mulheres envolvidas em relações seguras apresentam níveis mais elevados no padrão fronteiras comparativamente a todas as outras. Relativamente aos homens, verificamos que quando fazem parte de casamentos em que ambos os elementos são seguros apresentam sempre valores mais elevados em todas as dimensões dos padrões conjugais comparativamente aos casais desinvestidos, inseguros e mistos. 3. Grupos de casais para as percepções de violência A conjugação da análise de clusters realizada para os indivíduos relativas às percepções de comportamentos violentos permitiu identificar 3 grupos de casais que percebem diferencialmente os comportamentos dos seus parceiros: violência moderada, quando um ou ambos dos cônjuges percebem níveis de violência moderada, violência ligeira, quando um ou ambos dos 331 d) diferenças nos padrões conjugais A MANOVA (traço de Pillai) revelou um efeito principal (F(16, 462) = 10, 331 p < 0.001) responsável pelas diferenças das percepções do casal em todas as dimensões dos padrões conjugais (Quadro 7.27 e 7.28). O padrão de diferenças é similar para homens e mulheres em todas as dimensões: os cônjuges de casais não violentos ou ligeiramente violentos apresentam valores superiores aos cônjuges de casais moderadamente violentos. Para os homens, nas dimensões investimento instrumental e expressivo, este padrão sofre uma ligeira alteração com a emergência de diferenças significativas entre homens de casais não violentos e ligeiramente violentos. Quadro 7.27 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para os padrões conjugais Fonte Variável dependente Σ dos Quadrados GL Quadrado Médio F Sig. Controlo _F 8,756 2 4,378 19,482 ,000 Inv_Expressivo _F 10,254 2 5,127 25,001 ,000 Inv_Instrumental _F 5,707 2 2,854 14,448 ,000 Fronteiras _F 6,766 2 3,383 17,366 ,000 Controlo _M 9,784 2 4,892 28,944 ,000 Inv_Expressivo _M 12,512 2 6,256 40,785 ,000 Inv_Instrumental _M 9,973 2 4,987 32,376 ,000 Clusters de violência no casal Fronteiras _M 4,995 2 2,497 16,735 ,000 Quadro 7.28 Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Variável dependente violência casal Média Erro padrão 1 4,104 ,046 2 4,009 ,058 ControloF 3 3,656 ,057 1 3,944 ,044 2 3,831 ,055 Inv_ExpressivoF 3 3,458 ,054 1 3,778 ,043 2 3,686 ,054 Inv_InstrumentalF 3 3,413 ,053 1 3,759 ,043 2 3,795 ,054 FronteirasF 3 3,405 ,053 1 4,012 ,040 2 3,812 ,050 ControloM 3 3,529 ,049 332 Variável dependente violência casal Média Erro padrão 1 3,862 ,038 2 3,634 ,048 Inv_ExpressivoM 3 3,316 ,047 1 3,788 ,038 2 3,501 ,048 Inv_InstrumentalM 3 3,311 ,047 1 3,722 ,038 2 3,669 ,047 FronteirasM 3 3,388 ,046 Finalmente, no que concerne à satisfação global e à perturbação global com os padrões, a MANOVA (traço de Pillai) também revelou um efeito principal (F(8, 470) = 8,410 p < 0.001) responsável pelas diferenças das percepções do casal (Quadro 7.29 e 7.30). O padrão de diferenças é análogo ao dos padrões para homens e mulheres: os cônjuges de casais não violentos ou ligeiramente violentos apresentam valores superiores de satisfação e perturbação aos cônjuges de casais moderadamente violentos. Quadro 7.29 Testes dos efeitos principais inter-sujeitos para a satisfação e a perturbação com os padrões conjugais Fonte Variável dependente Σ dos Quadrados GL Quadrado Médio F Sig. Satisfação _F 238,958 2 119,479 49,285 ,000 Satisfação _M 134,756 2 67,378 33,061 ,000 Perturbação _F 1,461 2 ,730 5,296 ,006 Clusters de violência no casal Perturbação _M 3,305 2 1,652 18,351 ,000 Quadro 7.30 Médias e erros padrão para os padrões conjugais em que há diferenças Variável dependente violência casal Média Erro padrão 1 11,277 ,152 2 11,296 ,191 Satisfação _F 3 9,091 ,186 1 11,362 ,139 2 11,375 ,175 Satisfação _M 3 9,720 ,171 1 2,069 ,036 2 2,077 ,045 Perturbação _F 3 1,901 ,044 1 2,048 ,029 2 2,004 ,037 Perturbação _M 3 1,776 ,036 333 4.Correlações entre as díades Apresentam-se de seguida um conjunto de análises de correlações de Pearson, que permitem evidenciar de que forma as percepções do casal se associam entre si, no que diz respeito à relação entre as percepções de violência e as restantes variáveis em estudo. Recorde-se que o instrumento da violência solicita aos participantes que indiquem os comportamentos que ocorrem por parte dos companheiros, ou seja trata-se da percepção da violência exercida pelo(a) companheiro(a). a) vinculação aos pais Da observação do Quadro 7.31 constatamos a existência de algumas correlações diádicas significativas entre as percepções da violência e a vinculação ao pai, quer quando cruzamos as percepções das mulheres quanto à violência exercida pelos companheiros e a vinculação ao pai dos homens, quer quando cruzamos as percepções dos homens quanto à violência exercida pelas companheiras e as percepções das mulheres quanto à vinculação ao pai. Note-se, porém, que apenas a inibição da exploração e individualidade aparece correlacionada com todas as dimensões da violência, assistindo-se, porém, a algumas diferenças para homens e mulheres. Assim, exemplificando, a recordação dos homens da inibição da exploração e individualidade na relação com o pai encontra-se correlacionada a um valor mais elevado (r=,306) com a percepção das mulheres relativamente à violência não física quando comparada com o cruzamento oposto (r=,204). Aliás, é a dimensão da percepção da inibição da exploração e da individualidade na relação com o pai, na perspectiva dos homens, que mais se correlaciona quando cruzada com a percepção de todos os tipos de violência por parte das mulheres. De destacar, ainda, que a percepção de qualidade do laço emocional ao pai por parte dos homens se correlaciona no sentido negativo com a percepção de violência não física por parte das mulheres, ou seja, quanto melhor a qualidade do laço emocional aos pais dos homens, tanto menor a violência não física relatada 334 pelas mulheres. Repare-se, no entanto que este cruzamento não é significativo para as mulheres, isto é, a qualidade do laço emocional com o pai não se associa à percepção dos homens sobre a violência não física, mas associa-se, ainda que com uma magnitude baixa, à violência associada ao álcool percebida pelos companheiros. Por sua vez, quanto mais ansiedade de separação nas mulheres recordam na relação com o pai, mais violência física da parte delas é percepcionada pelos maridos. Quadro 7.31 Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e a vinculação ao pai Percepções das mulheres Violência não física Violência - álcool Violência física Inibição da exploração e individualidade Qualidade do laço emocional Ansiedade de separação Percepções dos homens Violência não física ,204** -,022 ,030 Violência - álcool ,180** -,148* -,047 Violência física ,253** -,032 ,136* Inibição da exploração e individualidade ,306** ,295** ,140* Qualidade do laço emocional -,261** -,030 ,011 Ansiedade de separação ,093 ,074 ,120 Nota. * p<0.05; ** p < 0.01. Quando observamos a vinculação à mãe, verificamos que para as mulheres, o padrão é na generalidade idêntico ao da vinculação ao pai, ainda que com a excepção relativa à qualidade do laço emocional que, desta vez, não se associa à percepção de violência do companheiro (Quadro 7.32). Para os homens, no entanto, o padrão é distinto, sendo que a ansiedade de separação à mãe se associa, embora com magnitudes baixas, às percepções das mulheres quanto à violência física e não física exercida pelos homens. Por outro lado, é de realçar que a inibição da exploração e da individualidade na relação com a mãe apenas se associa à percepção de violência física das mulheres e já não às restantes dimensões da violência. 335 Quadro 7.32 Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e a vinculação à mãe Percepções das mulheres Violência não física Violência - álcool Violência física Inibição da exploração e individualidade Qualidade do laço emocional Ansiedade de separação Percepções dos homens Violência não física ,321** -,097 -,005 Violência - álcool ,218** -,124 -,026 Violência física ,397** -,017 ,165** Inibição da exploração e individualidade ,146 ,092 ,135* Qualidade do laço emocional -,060 ,102 ,104 Ansiedade de separação ,210** ,108 ,145* Nota. * p<0.05; ** p < 0.01. b) vinculação ao par amoroso Como podemos observar através do Quadro 7.33, existem bastantes correlações diádicas entre as percepções da violência e os padrões conjugais, embora as magnitudes sejam na generalidade baixas. Ainda assim, vejamos as diferenças respeitantes a estas associações. Todas as dimensões da vinculação ao par amoroso do homem se correlacionam a valores mais elevados quando consideramos as percepções dos homens nestas dimensões e as cruzamos com as percepções das mulheres sobre a violência, nomeadamente no que concerne à percepção de violência não física. Ou seja, quanto mais evitantes e ambivalentes e quanto menos confiantes e dependentes são os homens, tanto mais são percepcionados pelas mulheres como exercendo vários tipos de violência. Note-se, no entanto, que a ambivalência é a dimensão que obtém uma magnitude superior. Curioso é igualmente verificar que a dependência parece ter um significado diferente para os homens e para as mulheres, na medida em que o sentido da correlação é inverso. Enquanto que a dependência dos homens está positivamente associada com ausência de violência percepcionada pelas mulheres, na 336 dependência das mulheres assiste-se ao contrário. Embora a magnitude seja baixa, quanto mais dependentes as mulheres forem, mais violência não física é percebida pelos homens. Repare-se que para a violência física e a associada ao álcool, o padrão das correlações já é idêntico aos dos homens, ou seja quanto menos dependentes as mulheres forem, maior é a violência percebida pelos homens. Quadro 7.33 Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e vinculação ao par amoroso Percepções das mulheres Viol. não física Violência álcool Violência física Confiança Dependência Evitamento Ambivalência Percepções dos homens Violência não física -,058 ,176** ,059 ,304** Violência - álcool -,100 -,184** ,149* ,237** Violência física -,237** -,180** ,197** ,337** Confiança -,143* -,185** ,-111 Dependência -,262** -,364** -,230** Evitamento ,360** ,323** ,245** Ambivalência ,438** ,225** ,214** Nota. * p<0.05; ** p < 0.01. c) percepções das estratégias de conflito próprias Através da análise do quadro Quadro 7.34, verificamos que a maioria das correlações diádicas entre as percepções da violência e as estratégias de resolução de conflito do próprio são significativas, quer quando cruzamos as percepções das mulheres quanto à violência exercida pelos companheiros e as percepções dos homens das estratégias de resolução de conflito por eles usadas, quer quando cruzamos as percepções dos homens quanto à violência exercida pelas companheiras e as estratégias de resolução de conflitos usadas pelas mulheres. Vejamos, no entanto, mais uma vez quais as diferenças a que se assiste nestas associações. O primeiro aspecto que se salienta é o facto da submissão nas mulheres estar correlacionada com a percepção da violência 337 por parte dos homens, mas o contrário já não se observar. Ou seja, quanto mais submissas as mulheres, tanto mais os homens as percebem como violentas nos três domínios avaliados pelos questionário. Por sua vez, é o envolvimento negativo no conflito dos homens que mais se associa às percepções das mulheres do comportamento violento destes. Finalmente, a retirada e a resolução positiva de conflitos associam-se com as percepções da violência de forma significativa e na direcção esperada, para ambos os cruzamentos. Isto é, menor retirada e maior resolução positiva de conflitos estão associados a percepções de comportamentos menos violentos. Quadro 7.34 Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e as estratégias de conflito (na perspectiva do eu) Percepções das mulheres Violência não física Violência - álcool Violência física Envolv. no conflito Retirada Resolução de conflitos Submissão Percepções dos homens Violência não física ,074 ,233** -,171** ,387** Violência - álcool ,186** ,222** -,220** ,269** Violência física ,115 ,392** -,242** ,432** Envolvimento no conflito ,426** ,369** ,377** Retirada ,345** ,290** ,214** Resolução conflitos -,181** -,214** -,212** Submissão ,041 -,024 -,029 Nota. * p<0.05; ** p < 0.01. d) padrões conjugais Finalmente todas as correlações diádicas entre as percepções da violência e os padrões conjugais são significativas (Quadro 7.35) para ambos os cruzamentos. No entanto, mais uma vez assiste-se a algumas diferenças nestas associações, designadamente as seguintes: As dimensões dos padrões conjugais correlacionam-se todas a valores mais elevados quando consideramos as percepções dos homens nestas dimensões e as cruzamos com as percepções das mulheres sobre a violência. Excepção é feita à 338 percepção da violência física, em que são as percepções das mulheres quanto aos padrões conjugais que se correlacionam de forma mais elevada com a percepção dos homens da violência exercida por elas. A título de exemplo note-se a percepção dos homens quanto à dimensão do controlo na relação que se encontra correlacionada a um valor de r = -,502 com a percepção das mulheres relativamente à violência não física. Ou seja, quanto mais os homens percepcionam controlo nas suas relações, menos as suas companheiros os percebem como sendo violentos do ponto de vista não físico. No entanto, notese que para as mulheres esta dimensão do controlo não parece ser tão significativa, na medida em que se correlaciona apenas a r=-,238 com as percepções dos seus companheiros acerca da violência não física exercida por elas. Quadro 7.35 Correlações de Pearson nas díades entre a percepção da violência e os padrões conjugais Percepções das mulheres Viol. não física Violência álcool Violência física Controlo Invest. Expressivo Invest. Instrumental Fronteiras Percepções dos homens Violência não física ,624** ,516** ,613** -,238 -,260 -,224 -,173 Violência - álcool ,432** ,316** ,443** -,325 -,375 -,249 -,270 Violência física ,644** ,683** ,781** -,500 -,540 -,386 -,438 Controlo -,502 -,395 -,404 Inv_Expressivo -,536 -,450 -,403 Inv_Instrumental -,475 -,455 -,370 Fronteiras -,365 -,367 -,302 Nota. Todas as correlações são significativas p < 0.01. 339 5. Que variáveis contribuem mais para explicar as diferenças entre casais mais ou menos violentos? Tal como no capítulo anterior, também aqui recorremos à análise discriminante para perceber que variáveis contribuem mais para as diferenças entre estes grupos. A opção foi a de utilizar variáveis que remetem para as percepções do casal, construídas a partir das percepções de cada cônjuge, tomadas assim como indicadores parcelares da percepção conjugal – procedimento sugerido por (Nauta & Kluwer, 2004) quando a unidade de análise é a díade. Adicionalmente, foram também usadas as variáveis da vinculação ao par amoroso, considerando aqui que não faria sentido fazer uma síntese de uma estrutura, por definição, idiossincrática. As variáveis do casal são as seguintes: as percepções do casal sobre os padrões conjugais, a satisfação com os padrões e a perturbação com os padrões, e as percepções do casal sobre as estratégias de gestão dos conflitos do homem e da mulher (resultantes, portanto, da médias das percepções do próprio e do cônjuge). As médias de todas as variáveis para os clusters constam do Quadro 7.36. Quadro 7. 36 Médias e desvios padrões para as várias dimensões nos vários clusters da violência (N=250) Clusters Dimensões Média Desvio Padrão N Satisfação do casal 11,3458 ,83351 107 Padrões do casal 3,8782 ,33168 107 Perturbação do casal 2,0606 ,34214 107 Envolvimento no conflito da mulher 2,2336 ,70126 107 Envolvimento no conflito do homem 1,9229 ,65957 107 Resolução de problemas da mulher 3,5631 ,44720 107 Resolução de problemas do homem 3,5580 ,46587 107 Retirada da mulher 1,8762 ,54120 107 Retirada do homem 2,2465 ,77674 107 Submissão da mulher 1,9428 ,42659 107 Submissão do homem 2,1857 ,68624 107 Confiança da mulher 3,9044 ,25770 107 Evitamento da mulher 1,6671 ,50073 107 Ambivalência da mulher 2,2788 ,73145 107 Dependência da mulher 3,5140 ,60639 107 1 Confiança do homem 3,8634 ,27560 107 340 Clusters Dimensões Média Desvio Padrão N Evitamento do homem 1,7556 ,52106 107 Ambivalência do homem 2,1152 ,68838 107 Dependência do homem 3,5421 ,86407 107 Satisfação do casal 11,3297 ,79288 69 Padrões do casal 3,7513 ,32191 69 Perturbação do casal 2,0469 ,27282 69 Envolvimento no conflito da mulher 2,2844 ,50041 69 Envolvimento no conflito do homem 2,1504 ,56903 69 Resolução de problemas da mulher 3,4928 ,33683 69 Resolução de problemas do homem 3,2536 ,38585 69 Retirada da mulher 2,0109 ,71767 69 Retirada do homem 2,3297 ,76395 69 Submissão da mulher 2,1848 ,49101 69 Submissão do homem 2,1938 ,58298 69 Confiança da mulher 3,8339 ,29161 69 Evitamento da mulher 1,5240 ,44017 69 Ambivalência da mulher 2,1839 ,76597 69 Dependência da mulher 3,9465 ,74045 69 Confiança do homem 3,8138 ,21573 69 Evitamento do homem 1,9287 ,53283 69 Ambivalência do homem 2,2834 ,65294 69 2 Dependência do homem 3,8428 ,73492 69 Satisfação do casal 9,4054 1,95064 70 Padrões do casal 3,4317 ,36444 70 Perturbação do casal 1,8368 ,28301 70 Envolvimento no conflito da mulher 2,4786 ,73689 70 Envolvimento no conflito do homem 2,5893 ,81792 70 Resolução de problemas da mulher 3,2839 ,34178 70 Resolução de problemas do homem 3,0964 ,36625 70 Retirada da mulher 2,6036 ,72262 70 Retirada do homem 2,9661 ,92419 70 Submissão da mulher 2,6179 ,68462 70 Submissão do homem 2,2625 ,70619 70 Confiança da mulher 3,7275 ,31313 70 Evitamento da mulher 1,8538 ,38587 70 Ambivalência da mulher 3,0516 1,02031 70 Dependência da mulher 3,4033 ,41236 70 Confiança do homem 3,8111 ,30657 70 Evitamento do homem 2,1626 ,70981 70 Ambivalência do homem 2,7440 ,75525 70 3 Dependência do homem 3,1681 ,76333 70 Capítulo 8 DISCUSSÂO DOS RESULTADOS 347 Procedemos, neste último capítulo, à discussão dos principais resultados encontrados no estudo empírico que acabamos de apresentar. Procuraremos, sempre que possível, avançar com explicações consistentes para os mesmos, ainda que naturalmente alguns resultados sejam mais consonantes do que outros com o que tem sido reiterado pela investigação neste domínio. Ainda assim, não deixaremos de avançar com algumas explicações que nos pareçam plausíveis e consistentes para compreender os resultados encontrados, também em função, julgamos, das características da nossa amostra. Do mesmo modo, paralelamente, vamos indicando em que medida as nossas hipóteses foram ou não confirmadas. Finalmente, organizamos a discussão dos resultados em função das principais dimensões avaliadas no nosso estudo, agrupando os resultados relativos à amostra global e de casais, para cada uma delas, porque tal nos parece possibilitar uma leitura mais coerente dos mesmos. a) Percepções de Vinculação aos Pais Uma das dimensões centrais do nosso estudo diz respeito à vinculação aos pais, tendo-se constatado serem os homens que apresentam maior inibição da exploração e individualidade e menor qualidade do laço emocional na relação com a figura paterna. Não existem para a idade adulta estudos sobre esta dimensão para podermos referir se está ou não de acordo com a literatura, de qualquer modo relembremos que esta relação (de igual modo para a figura materna) é avaliada no nosso estudo de modo retrospectivo e, por ambas as razões ,estudado com carácter exploratório. Cremos, no entanto, que este resultado pode ser lido à luz de questões de índole cultural. Com efeito, na nossa sociedade a figura paterna é marcada por um carácter de autoridade e de um certo distanciamento durante o período de infância (sabemos que tem cabido às mulheres uma maior responsabilidade e proximidade aos filhos, nomeadamente no que concerne ao tempo que lhes disponibilizam e interferindo os pais, tradicionalmente quando se trata de tomar decisões de 348 maior responsabilidade). Desta forma, parece-nos que nesta visão retrospectiva dos sujeitos o pai pode ser visto como uma figura tendencialmente mais autoritária e exterior. Note-se, ainda, que por se tratar de uma análise retrospectiva da relação com as figuras parentais os sujeitos da nossa amostra respondem relativamente a acontecimentos passados pelo que esta divisão tradicional de papéis poderia ainda fazer mais sentido. Finalmente, a nossa amostra é maioritariamente constituída por sujeitos compreendidas entre os 30 e os 50 anos o que pode significar que estes indivíduos tiveram pais que vivenciaram modificações sócio-culturais significativas no nosso país, cuja magnitude afectou os período de infância e de adolescência dos participantes no nosso estudo; mudanças salientes sobretudo para as mulheres que foram as mães dos nossos sujeitos. Cremos que esta análise pode ser significativa para a leitura de alguns dos resultados obtidos. È interessante constatar que não encontramos diferenças significativas para as mulheres nas dimensões da vinculação aos pais. Estes resultados, porque não esperados, ainda que as questões de ordem cultural acima mencionadas possam sustentar uma explicação para os mesmos, precisariam de estudos adicionais para melhor descrever as percepções de vinculação aos pais em idades adultas. No que respeita ao nível sócio económico e cultural, a única diferença encontrada é a de serem os indivíduos do nível médio a apresentar níveis inferiores de qualidade do laço emocional à mãe. Ora, na nossa amostra os sujeitos de nível médio perfazem 22% da mesma (contra apenas, 4,8% de sujeitos da classe baixa e 63,3% das classes média-alta e alta). Por isso, se trata de uma amostra claramente diferenciada e acima do nível médio dos adultos portugueses. Assim sendo, talvez este resultado seja o corolário desta situação, por um lado, e, por outro, manifeste que estes indivíduos possuam uma visão retrospectiva da relação com a figura materna influenciada pelo tipo de vida actual. Ou seja, as mulheres podem ter uma vida de dupla carreira, isto é, trabalharem fora de casa e ainda terem a seu cargo as tarefas domésticas. Este padrão pode inclusivamente estar a repetir o que aconteceu com as suas mães (que podem ter sido das primeiras mulheres a trabalhar fora de casa em 349 ordem a melhorar o seu nível de vida e em consequência da autonomia das mulheres). Finalmente, considere-se a possibilidade de estas mulheres e homens terem tido menores informações acerca da importância das questões relacionais para o desenvolvimento psicológico dos filhos. Note-se, para finalizar que tradicionalmente são as mulheres aquelas a quem cabe a tarefa mais desagradável de impor regras e de transmissão de algumas normas dai não ser surpreendente que estes sujeitos representem menor ligação emocional à mãe devido, justamente, a esta presença quotidiana e excessivamente impositiva (Saunders et al, 2005; Tophan & Holman, 2005). Curiosamente, não se verificam diferenças no que diz respeito aos pais, talvez esta não diferenciação se deva ao facto de o papel dos pais não ter mudado tanto como o das mães na nossa sociedade. Ao considerarmos o padrão de vinculação de cada indivíduo, sem diferenciação de género, verificamos serem os indivíduos do padrão seguro que apresentam recordações de menor inibição da exploração e individualidade na relação com ambas as figuras parentais face a todos os outros padrões, e os desinvestidos são os que apresentam menor qualidade do laço emocional com o pai face a todos os outros padrões, o que é de resto absolutamente consonante com a investigação no domínio (Zeanah et al, 1997). Do mesmo modo, podem ser lidos os dados que referem que na relação com a mãe, os sujeitos do estilo amedrontado recordam menor qualidade do laço emocional do que os seguros; no que concerne à ansiedade de separação; os seguros possuem menores valores com os outros padrões mas não se diferenciam dos desinvestidos; são os homens que referem valores mais elevados de inibição da exploração e individualidade ao pai; as mulheres revelam maior qualidade do laço emocional ao pai e ansiedade de separação e dependência à mãe, o que também é consonante com explicações de natureza sócio-cultural. Estes resultados são absolutamente consonantes com a literatura e estão igualmente de acordo com a definição dos próprios estilos de vinculação (Bartholomew, 1991; Cassidy & Berlin, 1994). Ou seja, quando diferenciamos os sujeitos em função do género, no geral, os resultados parecem favorecer as mulheres relativamente aos homens: são elas que registam percepções de maior qualidade do laço emocional tanto 350 ao pai como à mãe, e experienciaram menos inibição da exploração por parte do pai; no entanto, os níveis de ansiedade de separação à mãe são, também, mais elevados. Aliás, o mesmo sugerem alguns estudos relativos à influência da família de origem no que concerne às mulheres (Ségrin et al, 2005; Story e tal, 2004). Quando consideramos a tipologia do casal no que concerne ao padrão de vinculação dos cônjuges, destacamos que são as mulheres de relações desinvestidas que recordam maior inibição da exploração e individualidade na relação com ambas as figuras parentais. (Relembremos que nesta tipologia, ambos os cônjuges são desinvestidos). Do mesmo modo, estas mulheres apresentam valores inferiores de qualidade do laço emocional à mãe e ao pai e, finalmente, as mulheres de casais seguros apresentam maior qualidade do laço emocional à mãe e menor ansiedade de separação na relação com os pais. De igual modo, os resultados estão de acordo como que seria esperado no contexto da teoria da vinculação (Dutton et al, 1994; Carnelley et al, 1996). No que concerne aos homens é de destacar serem os oriundos de casais seguros que recordam menor inibição na relação com a mãe comparativamente com os casais inseguros e os casais desinvestidos. Note-se, ainda, que são os homens de casais seguros que apresentam os valores inferiores de inibição seguidos dos casais mistos e dos casais inseguros e, finalmente dos casais desinvestidos; resultados consensuais, mais uma vez, com a investigação no domínio (Henderson et al, 1999; Treboux et al, 2004). Além disso, os homens de casais seguros apresentam valores superiores de qualidade do laço com ambas as figuras parentais comparativamente com os homens de casais inseguros; e na relação com a mãe os homens de casais mistos apresentam valores superiores face aos de casamentos inseguros. Ou seja, estas relações são de tal modo coincidentes com o esperado que podemos hipotetizar ser a relação actual determinante para a visão que os sujeitos possuem da relação com os pais. Isto é, existe uma manutenção do estilo de vinculação? E, por outro lado, não serão, antes, os modelos internos dinâmicos construídos na relação com as figuras parentais que determinam a escolha de determinados(as) parceiros(as)? (Costa, 2005). E, ainda, por outro 351 lado, o estado da relação amorosa actual interfere nessa visão retrospectiva? Ainda, visto noutro sentido, podemos afirmar que o estilo de vinculação tido em criança na relação estabelecida com os pais transita para a vida adulta, existindo desta forma uma continuidade do estilo de vinculação? (Collins & Read, 1992; Mikulincer, 1998, Backock et al, 2000). Julgamos que os dados tornam possíveis argumentar neste sentido, ainda que fossem necessárias outras condições (estudos longitudinais, por exemplo) para poderem serem mais afirmativos ou conclusivos. Finalmente, no que concerne à ansiedade de separação, verifica-se que os homens de casais inseguros recordam mais ansiedade de separação face ao pai e à mãe o que parece confirmar a hipótese de que os modelos internos construídos na relação com as figuras parentais possuem um papel preponderante nestes processos. Por sua vez os homens de casais mistos recordam menor ansiedade comparativamente com homens de casais inseguros; o que poderá significar que o facto de existir um elemento no casal com um padrão de vinculação seguro influencia a visão retrospectiva da relação com as figuras parentais. Este dado parece-nos também de extraordinário interesse porque está de acordo com alguma investigação produzida a este nível (Treboux et al, 2004). Finalmente, se consideramos os casais quanto ao tipo de violência constatamos que, tanto mulheres como maridos, de casais moderadamente violentos (que constituem o expoente máximo de violência na nossa amostra) recordam valores superiores de inibição às figuras paternas, que homens de relações moderadamente violentas registam maior ansiedade de separação à mãe do que os oriundos de casais não violentos; o padrão oposto é verificado na qualidade do laço emocional ao pai. Finalmente, na ansiedade de separação ao pai são os maridos de casais ligeiramente violentos (violência média) que apresentam valores mais elevados face aos de casais nada violentos (Brown, 2003). Note-se que estamos a falar de níveis moderadíssimos de violência ou se preferirmos, níveis quase incipientes. Ora, assim sendo, mais curioso se torna verificar que é mantido um padrão linear que aponta apara a existência de 352 maior violência quando as ligações com as figuras paternas são de menor qualidade. Desta forma, estes resultados são consonantes com diversas formulações teóricas tanto no domínio da teoria da vinculação (Pistole, 1996) como nas de aprendizagem social (Amato, 1996; Andrews, 1994). Finalmente, ao cruzar as percepções de violência com estilos de vinculação ao pai e à mãe, apenas a inibição da exploração e individualidade aparece correlacionada com todas as dimensões da violência, assistindo-se, porém, a algumas diferenças para homens e mulheres, ou seja, quanto melhor a qualidade do laço emocional aos pais dos homens, tanto menor a violência não física relatada pelas mulheres, sendo este resultado significativo para os homens e não para as mulheres Por sua vez, quanto mais ansiedade de separação as mulheres recordam na relação com o pai, mais violência física da parte delas é percepcionada pelos maridos. Note-se que pode existir a manutenção de uma relação desconfortável com a figura masculina por parte destas mulheres não se sabendo também se é a relação actual que interfere nesta visão ou, mais uma vez, os modelos internos dinâmicos construídos na infância servem de guião à escolha de determinados(as) parceiros (as). Se, por um lado se trata de dados consensuais com o que havíamos exposto, por outro entram um pouco em contradição com a investigação de que são as mulheres as mais afectadas pelo que ocorre na família de origem (Klein & Milardo, 2000; Weger, 2005). Contudo, cremos que seriam necessários mais estudos para clarificar a questão. Quando observamos a vinculação à mãe para os homens, a ansiedade de separação à mãe associa-se às percepções das mulheres quanto à violência física e não física exercida pelos homens. Por outro lado, é de realçar que a inibição da exploração e da individualidade na relação com a mãe apenas se associa à percepção de violência física das mulheres e já não às restantes dimensões da violência. Ou seja, de novo estes dados podem querer significar uma relação ansiosa com a figura materna que se mantém num padrão ansioso face à companheira actual e se traduz em maiores níveis de violência (Goldner et al, 1990; Wallace & Nosko, 1998). 353 b) Percepções de Vinculação ao Par Amoroso No nosso estudo pudemos confirmar, a través da análise de clusters ao par amoroso o modelo de padrões de vinculação proposto por Bartholomew (1990) sendo a sua organização exactamente consonante com a literatura. No entanto, a distribuição encontrada a partir dos sujeitos da nossa amostra não revela diferenças no género quanto ao padrão mais representativo: o desinvestido; isto é, encontramos valores superiores do padrão desinvestido tanto para homens como para mulheres e em segundo lugar, um maior número de mulheres preocupadas. Recomendamos, contudo uma análise demorada dos valores encontrados para destacar que estas diferenças são por vezes mínimas e, por outro lado, a maior prevalência de desinvestidos é praticamente idêntica à dos seguros, nos homens, tal pode ter que ver com questões culturais, O facto de termos mais indivíduos desinvestidos poderá eventualmente relacionar-se com as mudanças sócio culturais das últimas décadas a que fizemos referência inicialmente, e no que concerne às relações de intimidade produziram mudanças significativas para as mulheres que passaram ter um papel mais activo o que eventualmente se relacionará com a emergência de um modelo positivo de si. Por outro lado, a sociedade tornou-se mais individualista e desconfiada face aos outros. Estas explicações, hipotéticas, necessitam de mais estudos para serem eventualmente confirmadas. No que concerne à vinculação ao par amoroso as únicas diferenças encontradas foram as de que os homens possuem valores superiores de evitamento relativamente às mulheres o que está de resto de acordo com o esperado (Leonard & Senchak, 1998); as diferenças quanto ao nível sócio económico revelam que os sujeitos de nível médio possuem níveis superiores de ambivalência comparativamente a todos os outros, sendo este resultado, do nosso ponto de vista, concordante com a explicação que anteriormente avançamos (22% da amostra é de nível médio contra apenas 4,8 % de nível baixo e 63,3 dos restantes, sendo que estes últimos possuem apoios 354 consistentes na sua vida diária) e ainda com o facto de terem uma maior representação do que os sujeitos de níveis baixos (4,8%); ou seja, trabalham mais, possuem dupla carga o que pode reflectir-se em sentimentos de ambivalência face ao desejo de estar com o outro mas ao mesmo tempo não o poderem fazer. Seria, no entanto, interessante percebermos qual o nível sócio económico das suas famílias de origem bem como os valores educacionais das mesmas (por considerarmos que viveram um período de transição histórico no nosso país). Quando consideramos a tipologia dos casais no que concerne à violência verificamos que mulheres de relações nada violentas apresentam valores mais elevados de confiança relativamente às mulheres de casais, ligeira e moderadamente violentos e que mulheres de relações com índices de violência moderados apresentam valores significativamente mais elevados de evitamento e de ambivalência. Finalmente, mulheres de relações com violência ligeira apresentam valores superiores de dependência face às restantes. Curiosamente, repete-se o padrão que acima referenciávamos, isto é, apesar de falarmos apenas de indícios moderados de violência, o padrão encontrado é consensual com alguns estudos que corroboram a ideia de que as mulheres que estão em relações violentas apresentam maiores níveis de dependência face aos seus parceiros (Dutton, 1999, Walker, 2003). Ou seja, uma das duas situações seguintes pode ocorrer: ou as mulheres são mais dependentes e, por isso, não deixam a relação ou a maior dependência aumenta a tensão relacional e portanto é maior a violência (Adams, Towns & Gavey, 2003). No que aos homens diz respeito, verificamos que os homens de relações nada ou ligeiramente violentas apresentam valores superiores de dependência quando comparados com os homens de relações com índices de violência moderada. Estes, com violência moderada, por sua vez, apresentam valores superiores de evitamento e ambivalência comparativamente aos restantes, o que também é consensual na literatura (Grou & Doll, 2002). Curiosamente, este dado não é excluído de investigações recentes que colocam em causa os tradicionais papéis de género, nomeadamente um estudo de Marchand (2004) que revela que mulheres com maridos mais próximos emocionalmente se sentem mais satisfeitas. 355 Finalmente, parece que quanto mais evitantes e ambivalentes e quanto menos confiantes e dependentes são os homens, tanto mais são percepcionados pelas mulheres como exercendo vários tipos de violência. Curioso é, igualmente, verificar que a dependência parece ter um significado diferente para os homens e para as mulheres, na medida em que o sentido da correlação é inverso. Enquanto que a dependência dos homens está positivamente associada com ausência de violência percepcionada pelas mulheres, na dependência das mulheres assiste-se ao contrário. Embora a magnitude seja baixa, quanto mais dependentes as mulheres forem, mais violência não física é percebida pelos homens. Repare-se que para a violência física e a associada ao álcool quanto menos dependentes as mulheres forem, maior é a violência percebida pelos homens. Este padrão também é consensual com alguns estudos que apontam para as diferenças de género. neste sentido pouco usual (Simpson, 2000) e que, no fundo, expressam que os padrões de masculinidade e feminilidade se podem estar a alterar ou que pelo menos a visão tradicional das diferenças não basta para ler todos os resultados. Aqui acontece que, por um lado, os homens parecem não se sentir confortáveis com mulheres dependentes, e, por sua vez as mulheres parecem gostar de homens dependentes, o que, além do significado que se pode atribuir a dependência, pode querer significar que nestas situações as mulheres têm mais poder (isto é cultural?) (Bookwala & Zdaniuk, 1998). Contudo, estes resultados levantam uma questão deveras interessante e que tem que ver com o significado que se atribui à dependência pelo menos para as mulheres, na nossa cultura. Explicitando mais, interrogamo-nos se a dependência não será lida e percebida como maior proximidade e, por isso, coma maior satisfação para a relação conjugal. Portanto, será esta dependência masculina encontrada na nossa amostra passível de ser lida do mesmo modo devido a questões culturais? 356 realizada no âmbito de diferentes modelos teóricos. (Caughlin & Vangelisti, 2000; Heavey et al, 2001). Ainda no que concerne à submissão, estes dados fazem apelo ao modelo de Rusbult (1991) e relembram a questão daqueles que não têm voz, ou seja, o ser-se excessivamente submisso pode significar que não se está na relação, que não se investe ou que existem níveis excessivos de acomodação ou sacrifício nem sempre bem vistos pelo parceiro. d) Percepções de Violência Quanto à violência não física constatamos, como esperado, que os homens percepcionam maiores níveis daquela por parte das mulheres e estas percepcionam maior violência associada ao álcool por parte dos homens. De resto estes são, de novo, resultados absolutamente concordantes com a maior parte da literatura (Goldner, 1999; Walker, 2003), destacamos o facto de falarmos de níveis moderados de violência (ou se preferirmos a violência ordinária e comum de que Gelles e Johnson falam, respectivamente). Mais uma vez, sem surpresas, os sujeitos do padrão seguro percepcionam os seus companheiros como usando menor violência não física, associada ao álcool e violência física face aos do padrão desinvestido e preocupado; por sua vez os do padrão amedrontado consideram que os seus companheiros apresentam menores níveis de violência não física face aos do padrão desinvestido. Quanto à violência associada ao álcool, constatamos que os sujeitos do padrão preocupado percepcionam menor uso destes comportamentos por parte dos seus companheiros face aos do padrão amedrontado; ainda no que toca à violência física é de destacar que são os desinvestidos aqueles que percepcionam maior violência não física por parte dos companheiros e os amedrontados são os que percepcionam maior violência física por parte dos companheiros. Estes resultados explicam-se à luz do modelo do eu e do outro, no entanto, ainda que consonantes com diversas investigações salientam que os indivíduos seguros se caracterizam sempre por uma abordagem positiva dos conflitos (Rodriguez et al, 2001; Simpson, 1990). 363 Assim, os homens consideram as suas mulheres como mais violentas do ponto de vista não físico e elas percepcionam os maridos com maiores níveis de violência associada ao álcool (Byrne & Árias, 1997). Relativamente às percepções de todos os tipos de violência, as mulheres de casamentos seguros apresentam valores inferiores quando comparadas com as mulheres de todos os outros grupos. No que diz respeito aos homens, o padrão parece ser o inverso, isto é, os homens de relações seguras apresentam valores mais elevados de violência não física que os homens de relações inseguras e desinvestidas; e os homens que pertencem a relações do tipo misto também apresentam níveis mais elevados do que os de relações desinvestidas. Neste caso, será porque a relação é segura que existe permissão para se ser mais violento? Existem aqui questões culturais? Note-se com efeito, que na nossa sociedade e portanto nas relações tidas como funcionais e seguras, é esperado que a teoria da relação subjacente seja a de que os homens possuam o poder ou se preferirmos trata-se da normalidade da prepotência do homem latino em relações seguras… Contudo, não esqueçamos que falamos de níveis moderados de violência, que neste trabalho constituem o maior grau de violência e, deste modo, somos concordantes com autores diversos como Johnson, Gelles, Straus, que reconhecem (que é contrário de defender!) a existência deste tipo de violência comum. Ainda assim, atrevemo-nos a afirmar que os níveis de violência de que falamos são inferiores aos mencionados por eles nos seus estudos. Na violência associada ao álcool, os homens que pertencem a relações em que ambos são desinvestidos apresentam valores inferiores se comparados aos homens de relações inseguras e aos casais em que um é seguro e o outro inseguro. Finalmente, na violência física encontramos uma diferença entre homens de relações desinvestidas e homens de relações inseguras, apresentando estes valores superiores. De novo, estes resultados são compreensíveis tendo em conta que os desinvestidos por vezes, se ausentam das questões relacionais e, quando o casal é inseguro existe maior tensão e portanto eventualmente maiores indícios de violência. É de notar que a 364 insegurança tende ao aumento da violência, mesmo que seja moderada (Cobb, Vines & Bradbury, 2003; Simpson, 1996). Finalmente, as mulheres de casais moderadamente violentos apresentam valores inferiores de resolução positiva de problemas face às de casais não violentos e ligeiramente violentos; o inverso acontece para as estratégias de submissão e de retirada. Ou seja, se as relações são violentas parece que tanto a retirada como a submissão são estratégias de manutenção da relação ou pelo menos de evitar a escalada (como reconhece Gottman, (2001), sendo segundo o mesmo autor, preferencialmente, utilizadas pelas mulheres, nestas situações. No que diz respeito aos homens, verificamos que os provenientes de casais não violentos apresentam valores superiores de resolução positiva de problemas em comparação com os de casais ligeiramente violentos ou moderadamente violentos; estes últimos destacam-se tanto no envolvimento negativo no conflito como na retirada. Julgamos que este ultimo dado é curioso na medida em que vem revelar que os homens também se envolvem negativamente no conflito (do mesmo modo que as mulheres, como vimos anteriormente, também se retiram), o que parece acontecer, no entanto, em circunstâncias diversas. Tal poderá dever-se ainda a questões referentes ao poder nas relações que pode muitas vezes não ser simétrico (Ariés, 2003; Ben - David, 1995) Os padrões de diferenças são similares para homens e mulheres: se oriundos de casais moderadamente violentos percebem os/as companheiros/as como recorrendo significativamente mais ao envolvimento no conflito e à retirada, do que oriundos de casais não ou ligeiramente violentos; inversamente, estes/as últimos/as percebem os/as companheiros/as como utilizando menos a resolução positiva de problemas. Na estratégia de submissão apenas há diferenças para os homens que em casais não violentos percebem as companheiras como menos submissas do que os restantes. Finalmente, tanto para homens como para mulheres existe quase que uma linearidade na utilização das estratégias de resolução de conflitos aqui consideradas, no sentido de que à medida que aumenta a violência, maior é a 365 prevalência das estratégias de resolução de conflitos negativas, tanto do próprio como do outro. Ou seja, estamos claramente na presença do fenómeno da escalada ou da reciprocidade negativa, podendo assim concluir-se que entre estratégias de conflito e emergência de violência existe efectivamente um contínuo. e) Percepções de Padrões Conjugais Encontramos no nosso estudo resultados extraordinariamente consistentes com a literatura que aponta para a inequívoca expressão das diferenças de género. Assim, no que concerne aos padrões conjugais (e repetimos que se trata de conjugar as diversas áreas do relacionamento conjugal), constatamos que as mulheres apresentam maiores valores de controlo e de investimento expressivo o que claramente parece significar serem as mulheres, ainda, as principais responsáveis pela manutenção da relação. Com efeito, apesar das mudanças a que temos assistido nas últimas décadas, parecem ainda existir resquícios – do nosso ponto de vista impostos pelo processo de socialização que afecta gerações, e que levam outras gerações a modificar-se – das diferenças de género! Finalmente, como que a confirmar o que acabamos de referir, verificamos que as mulheres também apresentam valores mais elevados de insatisfação (perturbação) nos padrões conjugais controlo, fronteiras e investimento instrumental parecendo ser consensual admitir que as mulheres têm a seu cargo a relação ou, por outro lado, que os homens lidam de modo mais pragmático com as questões relacionais. Quanto à diferença encontrada no nível sócio económico e cultural, verificamos serem os indivíduos de nível alto que apresentam menores valores de perturbação em todos os padrões conjugais, ou seja apresentam maior satisfação nas dimensões do investimento instrumental e expressivo, face aos de nível médio e, no padrão fronteiras face aos de nível baixo e médio. Consideramos que uma explicação provável se deve ao facto de os participantes de nível alto possuírem, como já referimos, apoios que lhes 366 possibilitam uma certa despreocupação acerca das questões instrumentais da relação e, desta forma, as razões do desacordo e discórdia para inúmeros casais não emergirem nestes indivíduos. Voltemos, assim, às questões pragmáticas do apoio social, que parecem estar presente nos sujeitos de nível médio alto e alto, mas não nos restantes níveis sócio económico cultural. Finalmente, o apoio social tem sido das variáveis mais estudados nos tempos recentes (e negligenciada no nosso estudo!) parecendo ter um papel predominante na forma como os casais resolvem alguns dos seus conflitos contribuindo para a satisfação conjugal, ainda que indirectamente (Perrone & Worthington, Jr, 2001). As diferenças encontradas no padrão fronteiras também poderão relacionar-se com questões culturais na medida em que tendo melhores condições de vida os sujeitos tenham as fronteiras melhor definidas. Finalmente, relembremos, evidentemente, que vivemos num mundo em que as transformações sócio-culturais a que os casais e as famílias têm sido sujeitas não são, nem têm sido, homogéneas e, mesmo não nos reportando a outras culturas, na sociedade ocidental existem vários ritmos e vários modelos de conjugalidade. Da análise dos padrões de vinculação e padrões conjugais é de realçar que os indivíduos seguros apresentam níveis superiores de controlo face aos amedrontados e desinvestidos mas não face aos preocupados. Estes também revelam maiores níveis de investimento instrumental e expressivo e fronteiras face a todos os outros. Diríamos que este aspecto é absolutamente consonante com a investigação, com efeito os preocupados são indivíduos com um modelo negativo de si e positivo do outro e, portanto, tendencialmente centrados de forma ansiosa na relação. Constatamos, ainda a existência de diferenças significativas nas percepções de todos os padrões conjugais controlo; investimento expressivo; investimento instrumental, fronteiras, favorecendo sempre as mulheres; o que é consensual com o referido anteriormente. Do mesmo modo, são os homens os mais satisfeitos com a relação: nomeadamente na satisfação com o investimento expressivo, por seu lado, as mulheres apresentam valores superiores de perturbação com o controlo, no investimento instrumental e nas 367 fronteiras o que parece indiciar que o maior peso das tarefas da família estão sobre os ombros das mulheres e que não se vive ainda em relações absolutamente igualitárias. (Steil, 1997) É interessante constatar que as mulheres parecem atribuir maior importância aos padrões conjugais, o que se traduz numa maior perturbação quando estes não são atingidos. No entanto, não há diferenças na maior parte destes padrões no que concerne à satisfação – excepção para o investimento expressivo em que são os maridos os mais satisfeitos. Verificamos que, no padrão controlo, as mulheres de casais mistos, apresentam valores inferiores comparativamente às mulheres de casais inseguros, no entanto, estas mulheres apresentam valores superiores quando comparadas às mulheres de casais desinvestidos (note-se que nestes casais ambos os elementos possuem modelo positivo de si e negativo do outro). No que diz respeito às mulheres de casais seguros possuem valores superiores no investimento instrumental comparativamente às mulheres de casais desinvestidos, mas inferiores quando comparadas com mulheres em relações inseguras. Finalmente, as mulheres de relações inseguras possuem valores mais elevados de investimento instrumental e expressivo comparativamente às mulheres de relações desinvestidas. Deste modo, parece que a insegurança pode conduzir a uma maior preocupação com a relação quer no sentido positivo quer no negativo. No que concerne ao investimento expressivo verifica-se ainda que mulheres de casais mistos, possuem valores mais elevados do que mulheres de relações desinvestidas. De igual modo as mulheres de casamentos inseguros apresentam valores superiores relativamente às mulheres de casais desinvestidos. Por fim, as mulheres envolvidas em relações seguras apresentam níveis mais elevados no padrão fronteiras, comparativamente a todas as outras. Ou seja, à medida que existe pelo menos um elemento com padrão seguro, a relação torna-se mais gratificante em, termos afectivos o que indicia a questão da influência da relação em função da vinculação de um dos elementos, sobretudo se o seguro é a mulher. Por outro lado, relações em que 368 [Document text truncated for crawler view.]