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A CASA, PEQUENO LABORATÓRIO DA IDENTIDADE Marta Alpuim Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Orientadora: Doutora Arquitecta Marta Cruz Setembro 2013
Gostaria de agradecer a todos que, de algum modo e nos mais diversos momentos, me acompanharam e tornaram possível a concretização deste trabalho. À Doutora Arquitecta Marta Cruz, pela exigência, o acompanhamento e o apoio, e por acreditar que podemos fazer sempre melhor. Ao Arquitecto e Professor Manuel Botelho, que me fez perceber a essência da arquitectura e me transmitiu o gosto pela disciplina. Aos meus amigos: aos de sempre, aos que estão longe, aos que estão perto, porque de uma forma ao de outra, todos estão presentes. Ao Bruno, pelos momentos que guardo. Aos meus tios, António e Lídia, com quem pude sempre contar durante estes anos de curso. E por fim, à minha mãe, Amélia, pessoa que mais admiro e a quem devo tudo.
RESUMO A presente análise sobre o espaço doméstico, tem como suporte a habitação plurifamiliar corrente. O estudo desenvolve-se em torno da questão da identidade e do papel da arquitectura doméstica na formação identitária individual. Através da interacção do indivíduo com a sua habitação e, reciprocamente, da astúcia desta no apoio dado ao habitante durante o seu processo identitário, processo contínuo, mas variável ao longo da vida, é possível estabelecer ou evidenciar correspondências entre identidade e espaço. A interiorização da vida quotidiana atribuiu mais relevo ao espaço doméstico, e o protagonismo crescente da domesticidade leva a um questionamento sobre a sua influência efectiva na construção dos indivíduos. O trabalho desenvolvido pretende indicar quais são os elementos presentes nas habitações que permitem tanto a adaptação dos diversos indivíduos e das famílias ao seu espaço, como uma vida doméstica familiar em que a identidade de cada um é respeitada e potenciada. A assimilação prévia dos recentes fenómenos sociais, familiares e individuais do ponto de vista das ciências humanas, nomeadamente da sociologia, foi indispensável à construção desta problemática e assim, procurou-se no espaço da habitação os dispositivos capazes de criar ambientes próprios às necessidades emergentes dos novos indivíduos. Para o efeito, após a compreensão das bases teóricas, construi-se uma análise prática com base na planta de várias habitações, cujas características serviram de “prova” para a demonstração da competência da arquitectura doméstica neste campo. Dois aspectos positivos para os indivíduos foram salientados e defendidos: a complexidade e a ambiguidade espacial, vistas como um instrumento de resolução dos modos de habitar cada vez mais diversos e das necessidades crescentes dos indivíduos em termos identitários.
ABSTARCT The analysis of the domestic space is based on standard multifamily housing. This study addresses to the question of identity and to the role of the domestic architecture on the formation of individual identity. Through the individual’s interaction with his/her house and with the support of the latter to the inhabitant throughout his/her continuous identity process, it is possible to establish evidences or correspondences between identity and space. The interiorizing of the daily life has given more relevance to the domestic space, the growing role of the domesticity leads to a questioning about its affective influence on the individuals. This work aims to point out which elements inside of the houses allow for adaptation of the diverse individuals and families to their space, such as a family’s domestic life where each individual identity is respected and potentiated. The prior assimilation of the recent social, familiar and individual phenomenon from the social sciences point of view, including sociology, was indispensable to the construction of this issue. Thus this study sought for the devices capable of creating suitable environments to the emerging necessities of the new individuals. After understanding the theoretical basis, it was built a practical analysis based on the plans of several dwellings, whose characteristics have served as a “proof” to the competency of the domestic architecture in this field. Two positive aspects to the individual’s were highlighted and defended: the spatial complexity and ambiguity, seen as an instrument of solving the increasingly diverse modes of dwelling, and of the growing needs in terms of identity of individuals.
ÍNDICE Agradecimentos Resumo Abstract INTRODUÇÃO A HABITAÇÃO, UM ESPAÇO DE LIBERDADES? A habitação no cruzamento das alterações sociais e individuais A casa no quotidiano O espaço doméstico, lugar do banal O doméstico na modernidade Casa como polo aglutinador: lugar do lúdico e do dinâmico I. O ESPAÇO DA HABITAÇÃO E O SEU PAPEL NO QUOTIDIANO DO HOMEM 1. A COMPLEXIDADE ESPACIAL 1.1. Complexidade vs. Simplicidade 1.2. Vazio e indefinição 1.3. Interacção habitante – espaço – habitante 2. O HABITAR. CORRESPONDÊNCIAS ENTRE O ESPAÇO E O INDIVÍDUO 2.1. A estabilidade 2.2. Construir o espaço, construir-se a si próprio 2.3. Habitar de forma activa. Apropriação pela prática 2.4. Habitante – Actor e controlo do espaço 10 10 13 13 14 15 17 18 29 21 24 28 29 29 30 31
II. OS ESPAÇOS DA HABITAÇÃO: SUPORTE E INSTRUMENTO 1. METODOLOGIA 2. INTRODUÇÃO ÀS NOVAS CONSIDERAÇÕES SOCIAIS E FAMILIARES 2.1. A identidade 2.2. Nova hierarquia da modernidade: do indivíduo para o grupo Primeira modernidade Segunda modernidade 2.3. O indivíduo plural 2.4. Diminuição do tamanho da família 2.5. Sucessão de privacidades. Privado do privado 2.6. Revisão da função do quarto 2.7. Do estabelecimento da intimidade à dissociação funcional 3. DISPOSITIVOS E CONCEITOS ESPACIAIS NA CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA QUOTIDIANA Interpretação e modificações dos parâmetros da habitação 3.1. MUTABILIDADE 3.1.1. Compartimentos com potencial de flexibilidade 3.1.2. Isotropia 3.1.3. O vazio 3.1.4. Fixo – Móvel 3.1.5. Área de serviço 3.1.6. Extensão de uma zona sobre outra: Cedência Aumento de área reservada à parte privada Aumento da área reservada à parte colectiva 3.1.7. Reposicionamento e deslocações de compartimentos: Troca 36 43 44 45 46 47 49 50 51 52 54 57 57 59 61 63 65 67 67 69 69
3.2. HIERARQUIZAÇÃO E DISSOCIAÇÃO ESPACIAL 3.2.1. Tripartição espacial 3.2.2. Separação Dia – Nwoite 3.2.3. Elementos autónomos 3.2.4. Quarto da empregada 3.3 DISTÂNCIA 3.3.1. Novos núcleos 3.3.2. Criação de distância Caixa de ar entre zonas diferentes Caixa de ar dentro da mesma zona 3.3.3. Zona autónoma 3.4. PERCURSOS – MOBILIDADE 3.4.1. Percursos abertos – Percursos fechados 3.4.2. Dupla entrada 3.4.3. Zona independente 3.4.4. Desmultiplicação de percursos Alternativa vs. Sobreposição Paralelismos 3.4.5. Múltiplos acessos ao mesmo espaço 3.5. O QUARTO: COMPARTIMENTO ESPECIAL NA HABITAÇÃO 3.5.1. Sucessivas etapas de acesso ao quarto 3.5.2. Posição do quarto relativamente à entrada 3.5.3. Alteração das características originais CONCLUSÃO ANEXOS Corpus de fichas Tabela REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CRÉDITOS DE IMAGENS 73 75 77 79 81 85 87 89 89 91 93 97 99 101 103 107 107 109 111 115 117 119 121 125 132 134 158 162 166
16 dinâmico do habitar marcado pelas actividades e os actos que alberga mas também pelos seus indivíduos. A casa é, doravante, um espaço plural. Como já foi referido, o indivíduo manifesta-se na modernidade através do genuíno das coisas simples do dia-a-dia e, visto a casa ser também “um equipamento expressivo” (Pinto, 1998:40), contribui para a formação do indivíduo. Pois o quotidiano tem duas vertentes: a da construção identitária mas também a da organização e gestão da vida de cada um. Questão decisiva no que toca à arquitectura doméstica já que está omnipresente no dia-a-dia, a habitação é a “âncora da vida quotidiana” (Segaud, et al,1998:294). Como tal, o habitante pretende que a sua casa funcione consoante o seu padrão de organização para que possam ser estabelecidas correspondências entre ele, o indivíduo e um lugar, o seu espaço, já que estão implícitos no domínio do habitar outros factores decisivos, pois este não é apenas um envelope físico. Para Molénat (2006:34), “a habitação não é um produto, deve nos proporcionar um prazer quotidiano, estimular os nossos sentidos e ajudar os indivíduos, ao longo da sua transformação e evolução, a encontrarem-se”. Para o efeito, pretende-se que, à semelhança da sociedade, exista uma participação de todos os seus elementos: o espaço e o(s) indivíduo(s), criando uma vida mais dinâmica na habitação. Tentaremos esclarecer de que forma a habitação fornece o seu contributo na construção identitária dos indivíduos, indivíduos que, face à crescente urbanização das sociedades, vivem na sua maioria, em habitações estandardizadas. Esta normalização da habitação é uma condicionante no desenvolvimento de cada indivíduo no seu processo identitário e na liberdade da qual dispõe para a organização dos seus espaços domésticos. Embora se trate de espaços e configurações normalizadas e que devem cumprir certas regras, queremos no presente estudo e na análise decorrente do mesmo, demonstrar de que forma, apesar da sua regularidade, a habitação corrente alberga múltiplos dispositivos capazes de conciliar estandardização e divergências de gostos e necessidades das famílias, como de favorecer a necessária construção identitária dos indivíduos. Como tal, trabalharemos sobre a evidenciação do papel da habitação no quotidiano com base no cruzamento de disciplinas: a arquitectura e as ciências sociais, bastante esclarecedores relativamente aos novos paradigmas individuais, para poder, num segundo tempo, desvendar e interpretar certas modificações dos espaços da habitação, favoráveis à construção identitária do indivíduo e a uma melhor adaptação às necessidades das famílias contemporâneas.
I. O ESPAÇO DA HABITAÇÃO E O SEU PAPEL NO QUOTIDIANO DO HOMEM
18 1. A COMPLEXIDADE ESPACIAL
19 1.1. Complexidade vs. simplicidade O projecto de arquitectura configura a relação entre uma unidade espacial - a habitação - e uma unidade social - a família ou o indivíduo. É assim um meio para realizar um projecto pessoal ou familiar, suporte de uma vida desejada (Cruz, 2009:39). Idealmente a correspondência entre os modos de habitar e o espaço permite e fomenta a fabricação identitária. “As famílias pretendem construir a sua própria história sobre o espaço arquitectónico e através do espaço arquitectónico” (Cruz, 2009:110). Este trabalho propõe entender como a habitação pode ser um instrumento de construção pessoal e familiar e demonstrar que é através de determinados dispositivos que se pode tornar um impulso durante este processo. Procuramos salientar que, embora com condicionantes formais e organizacionais bem presentes, a habitação corrente pode adaptar-se, com a ajuda de elementos implícitos ou explícitos do espaço doméstico, às alterações individuais e sociais, e assim responder às necessidades de todos numa sociedade individualizada. Face à desregulação e difusão das práticas individuais e à interiorização das actividades quotidianas, é no entanto possível encontrar um consenso para chegar a uma vida em conjunto coesa no espaço da habitação, pois a regularidade espacial é necessária e positiva, quando é possível a sua aplicação como suporte de projecto(s) de vida doméstica idealizada. Assim, a padronização necessária da habitação poderá encarar o desaparecimento constatado da família padrão e lidar com modos de habitar heterogéneos (ver O indivíduo plural , p.47) A partir do espaço privado do doméstico, as famílias distinguem-se com base nos indivíduos que as compõem, diferenciação dos indivíduos que resulta de uma multiplicidade de factores, nomeadamente, culturais, sociais ou económicos (como veremos ao longo do capítulo II.2), assim nenhuma combinação pode ser semelhante a outra. “A partir do fim dos anos sessenta, podemos observar uma diversificação dos comportamentos familiares que multiplica o crescimento da procura de habitação. Esta diversificação está ligada, tanto à liberalização dos hábitos familiares e pessoais, como à melhoria das situações económicas individuais, em particular as das mulheres” (Segaud et al, 1998:102). A liberalização dos comportamentos familiares e individuais em conjunto com o acesso à habitação por uma maioria, mas também a banalização de novas configurações familiares anteriormente marginais, levam à procura de modelos
20 habitacionais diversos. Assim, as expectativas relativamente à habitação divergem de uma família para outra. O que poderá para uma família ser um ideal de organização e estrutura espacial pode não corresponder ou até mesmo contrariar as aspirações de outra. Segundo a psicóloga Y. Bernard (1995:30), um modo de habitar é “uma relação alimentada por uma pessoa ou uma família com a sua habitação, podendo esta relação ser essencialmente analisada através da avaliação do tempo passado na habitação, do interesse que lhe é atribuído mas sobretudo das práticas que nela se desenvolvem”. As necessidades evoluem e diversificam-se e a arquitectura doméstica tem como objectivo acompanhar estas mudanças e garantir uma adaptação aos novos modelos, cada vez mais difusos, propondo outros dispositivos espaciais nas mutações da habitação. As necessidades, tal como os desejos, são mais diversos mas também mais presentes, visto os indivíduos estarem inseridos numa sociedade de consumo. “As sensibilidades evoluem e os objectos e os dispositivos espaciais materializam estas evoluções e perpetuam-nas, fazendo descobrir a todos novos prazeres, nomeadamente o do chez-soi, e transformando estes prazeres em necessidades” (Segaud et al, 1998:73). No que toca à arquitectura, esta ideia evidencia a relevância do espaço doméstico como resposta às exigências do indivíduo, para que a habitação não seja apenas uma simples barreira entre o exterior e o interior mas antes um envelope com uma matéria humana mas também simbólica e espacial, um instrumento de ligação entre vários campos. Para Monique Eleb (2011:6), “a concepção das divisões e a sua disposição (os espaços de trabalho, de descanso, de isolamento, de recepção, o número e a localização das tomadas eléctricas, dos arrumos), tal como a consideração das possíveis evoluções da estrutura do lar, o simples envelhecimento ou o aparecimento de uma enfermidade e as adaptações que assim se tornam necessárias, criam o valor de uso da habitação”. Ou seja, a adaptabilidade é um factor decisivo na avaliação da qualidade de uma habitação. O seu “valor” já não é apenas estimado através de características quantitativas, tais como a superfície ou de qualificativos formais, é atribuído mais importância à “troca” implícita na relação habitante - espaço, ou seja à resposta que este último é capaz de dar quando surgem novos desafios, por efeito de correspondências tanto formais como simbólicas. A complexidade, como factor propício a uma acção frutífera a nível pessoal,
21 impulso de produtividade, é um dos meios através dos quais o indivíduo pode encontrar a sua maneira própria de ver e de viver o espaço doméstico. Pois, espaços demasiado simplistas não incitam à acção do indivíduo. Esta ideia já foi salientada pelo arquitecto francês Jean Renaudie (Eleb et Bendimérad, 2011:87), apologista da complexidade, segundo o qual, o “inesperado, a descoberta, a diversidade, a complexidade na organização das formas da habitação são condições favoráveis para que nos tornemos actores (nem que seja através do imaginário) e apenas existe percepção do espaço na acção”. O arquitecto defende, através desta afirmação, a criação de espaços lúdicos em detrimento de uma arquitectura doméstica por vezes monótona dada a sua carência em certos níveis de complexidade, como veremos. De um ponto de vista mas prático, o sociólogo francês Henri Raymond afirma que a geometria simplificada das habitações é em parte responsável pela pobreza da arquitectura doméstica (Léger, 1996:98), juntamente com outros factores que reflectem uma escassez de potencial do espaço e a impossibilidade de colaborar eficazmente num projecto de vida, dificultado a nível doméstico pela não cooperação do espaço. A crítica não está dirigida às formas simples, mas sim às simplistas: organizações e estruturas espaciais que se tornam estéreis, interferindo nas práticas e na construção do modo de vida idealizado pelo indivíduo. É nesta complexidade que o indivíduo encontra um equilíbrio com o espaço que o rodeia, servindo-se e apropriando-se deste para fins pessoais. É assim ao longo desta adaptação que o indivíduo se torna ele próprio, por poder moldar os espaços aos modos de habitar e de vida que tinha idealizado. “O espaço adaptável define a possibilidade de uma fabricação, ou seja a existência de um poder de decisão cujo exercício marca fortemente o espaço” (Raymond et al. 1966:74). 1.2. Vazioeindefinição. Para tornar possível a conquista do homem sobre o espaço, é necessário a sua prédisponibilidade. O vazio, é neste aspecto um auxiliar de definição. Espaços que não são predestinados a uma função ou uma pessoa, indeterminados, aqueles que o indivíduo tem a liberdade de definir e de marcar. Estes são elementos de máxima relevância no processo de apropriação já que a indefinição coincide com a opção, a liberdade de escolha e de definição. A atribuição de uma função ou a escolha de um destinatário para determinado compartimento fica assim ao critério do habitante, este pode exercer o seu livrearbítrio e afirmar o seu controlo sobre o espaço doméstico e a sua organização. Estes compartimentos são primordiais no que toca à acção do homem na
22 habitação, expressão da sua apropriação do espaço, pois se tudo se encontra inicialmente definido, se todos os compartimentos estão predestinados, é uma parte da liberdade do indivíduo como habitante activo que se encontra condicionada. “Parece-nos então um erro excluir do projecto arquitectónico a expressão de fenómenos cuja supressão provoca uma falta mais ou menos consciente no habitante : não tanto a falta de um espaço para “bricolar”, que é perfeitamente consciente, mas antes uma falta mais geral e imprecisa de um espaço a marcar” (Léger, 1990:76). Para além da existência deste tipo de compartimento “extra”, cuja caracterização está ainda por estabelecer, a indefinição provém igualmente da semelhança de espaços uns em relação aos outros, deixando a escolha não só da caracterização mas também da sua localização, ou seja do posicionamento de cada um segundo preferências pessoais. Pode ser através destes métodos de desenho do espaço que se alcança uma maior igualdade em relação à hierarquia dos compartimentos. Sem atribuir mais ou menos valor a cada um, dotando-os apenas de atributos semelhantes. Deixa-se esta decisão ao habitante que irá defini-los posteriormente, podendo até alterar a sua escolha inicial, se necessário. “Imaginar um espaço mais isótropo através da definição de compartimentos semelhantes nas suas dimensões e funcionalmente não pré-determinadas, favorecendo deste modo movimentos diversos de ocupação e uso, como um xadrez virtual concebido desde a oposição entre o fixo e o móvel, o estrutural e o dinâmico” (Gausa, 2002:31). A isotropia dos compartimentos (ver p. 59) pode assim ser uma ferramenta e fomentar a diversificação das configurações espaciais consoante os gostos do habitante, as suas necessidades e a sua sensibilidade. Mas criatividade e liberdade total não podem ser confundidas. A primeira não decorre da segunda. A planta livre, muitas vezes considerada como um ideal para a apropriação do espaço pelo homem, não parece ser necessariamente uma resposta adequada. Não é o objectivo do habitante construir ele próprio a integralidade do seu espaço doméstico. Pode existir uma fracção de “indefinido”, no entanto, a definição pessoal da habitação tem limites e esta é a função do arquitecto, saber estabelecer, enquadrar de forma equilibrada esta fronteira entre o que deve ser fixo e estável (permanente) e o que deve ser possível alterar (variável). De facto, a liberdade em “excesso” também pode causar desconforto e vir a ter o efeito contrário do pretendido (uma adaptação facilitada) e assim tornar-se contra produtiva. “A liberdade de apropriação e planificação que o arquitecto tem muitas vezes tendência a confundir com a planta livre” (Raymond
23 et al. 1966:6), pode até ser inibidora na acção e no uso do espaço, quando se trata de um espaço desprovido de atributos elementares (Segaud et al. 1998:310). Estes consistem na competência dos espaços da habitação, que através de determinados atributos conseguem uma maior adaptação aos usos de cada habitante e acompanham tanto a curto como a longo prazo as transformações dos indivíduos e as suas necessidades no espaço doméstico, estes atributos serão descriminados e estudados de forma minuciosa na parte da análise interpretativa (pp. 54 a 124). No entanto, uma estrutura em “grelha” (Gausa, 2002:31) pode manter uma parte fixa, áreas com estabilidade obrigatórias tais como os serviços, cozinha e casas de banho (dadas a actividades que albergam) mas deixando livre a repartição dos restantes compartimentos, ao critério do habitante (ver Fixo-Móvel, p. 63). Pois a disposição das diferentes áreas entre si, apenas define um padrão organizacional (mais ou menos forte ou por vezes imperativo) não significando que este não venha a ser desviado ou seja, que o habitante não possa fugir à sua estrutura préestabelecida, directrizes úteis também como impulso e ponto de partida de uma criação autónoma posterior. Trata-se. segundo a dupla de arqutiectos Lacaton & Vassal, de um guião aberto a todas as eventualidades, suficientemente amplo para poder albergar outros, atribuindo ao utente do espaço, que o arquitecto não conhece, a capacidade de viver outra história (Dana, 2002:19). Uma vez mais salienta-se a ideia de morador-actor, que através da sua acção ou actuação neste guião, se afirma como habitante e como pessoa, em adição ao trabalho do arquitecto, “por um lado estaria o que os arquitectos oferecem como possibilidade extra e, por outro, a resposta do habitante a quem se permite transformar, dividir, recompor e montar uma situação espacial no contexto do seu quotidiano” (Dana, 2002:20). Como já vimos, dentro do espaço doméstico vive-se, a habitação é um lugar dinâmico, com agitação (ver introdução p. 15). No entanto, existe um paradoxo nas transformações recentes do espaço doméstico quando a superfície por habitante tem tendência a aumentar e o número de divisões tende a diminuir, chegando algumas mesmo a desaparecer, nomeadamente aquelas destinadas a uma função específica tal como a despensa, a lavandaria, os arrumos ou o escritório (Ariès in Villanova, 1996:156). A existência de compartimentos que possibilitam esta variedade de acontecimentos é de maior relevo dada a realização das mais diversas actividades no espaço da habitação. Segundo Jean Nouvel, “uma boa casa, é uma casa espaçosa” (Eleb et Bendimérad, 2011:29) mas, se por um lado esta visão é legítima já que expressa uma maior necessidade de espaço de um ponto de vista quantitativo, por outro esquece a
24 vertente qualitativa da habitação. Os próprios habitantes, eles também conscientes das suas necessidades, requerem habitualmente o aumento do número de compartimentos e não o aumento das áreas já existentes (Léger, 1990:71). Esta aspiração, para além de evidenciar uma necessidade, a de dispor de espaço a nível funcional para determinadas práticas, salienta também um desejo, a de ter a possibilidade de “marcar” um espaço, desejo proveniente de uma privação, uma carência neste campo (ponto anterior, “Vazio e definição”). 1.3. Interacçãohabitante–espaço–habitante. Os desejos do habitante apenas são alcançados através da diversidade e riqueza implícitas na complexidade, que oferece uma multiplicidade de alternativas de combinações e de configurações, sendo o espaço doméstico visto como um auxiliar na construção quotidiana do indivíduo. Para tornar possível esta variedade e até divergência de estilos de vida e consequentes modos de habitar consoante os indivíduos em questão, é necessário flexibilidade, mas flexibilidade de hoje, a que pretendemos para o indivíduo contemporâneo que já não é aquela “caricatura do homem bricoleur ” (Gausa, 2002:31). Traduz-se por uma maior polivalência e versatilidade dos espaços, para conseguir uma maior indeterminação, indeterminação propícia tanto à acção do homem na caracterização espacial como à adaptação aos vários modos de vida doméstica como veremos adiante ( Mutabilidade, p. 57). Ao falar de polivalência ou versatilidade referimo-nos não tanto à ideia de que um determinado lugar possa servir várias funções (simultaneamente ou não), mas ao facto de que o mesmo espaço possa ser sucessivamente palco das mais diversas actividades. Ou seja, que este seja capaz, consoante os hábitos do seu utilizador, de se adaptar às suas aspirações e necessidades. A versatilidade espacial pode ser umas das ferramentas para a realização de um ideal e um melhor enquadramento da vida doméstica familiar com o espaço da habitação. Na diversificação da procura, o peso respectivo do que é colectivo ou do que é privado na casa, varia. Para enfrentar estas variações, e as diferenças de importância e influência de um sobre o outro, consoante o desejo particular de cada núcleo familiar (diferente ou não de qualquer outro), existem “maneiras” de resolver estas problemáticas. Da crescente individualização da sociedade e da família resulta muitas vezes uma
25 perda da importância dos espaços de estar colectivos pelo facto da vida pessoal se centrar mais no espaço íntimo de cada um, tornando os encontros familiares mais esporádicos ou pontuais como para as refeições por exemplo. Já no século XIX (Eleb et Debarre, 1989:284), constata-se “reequilíbrio das diferentes partes constituintes da habitação: a importância atribuída ao conforto da vida quotidiana em família, leva à ampliação da parte privada (...), em detrimento da parte pública”. Se a preponderância notável do indivíduo é hoje em dia aceite, a necessidade de atribuir um quarto a cada pessoa do núcleo assim como dispor de uma área suficiente para os espaços privados é portanto de senso comum. Para o efeito, se a casa não o propõe à partida, é possível que esta seja alterada, quando necessário, através de dispositivos de flexibilidade, até obter o resultado desejado (ver p. 57). Embora se tenha verificado um aumento da importância atribuída ao indivíduo, este não é regra porque nenhum fenómeno pode ser generalizado e existem sempre excepções. Se a vontade ou a necessidade de ampliação dos espaços colectivos se faz sentir porque corresponde melhor aos modos de vida ou à configuração do núcleo familiar em questão, espera-se do espaço que colabore. A habitação poderá assim ser um instrumento de concretização das alterações pretendidas e, favorecer a disposição e repartição esperadas dos compartimentos. No entanto, outras possibilidades de mudanças existem sem o ganho de área de uma zona em detrimento de outra. Podem caracterizar-se apenas pela vontade de alteração da localização de uns compartimentos em relação a outros, cuja hierarquização ou valorização fica ao critério do morador, ao dar-lhe a possibilidade de inverter a organização espacial e funcional da casa. Neste jogo de deslocações e encaixes o habitante encontra a configuração que lhe corresponde graças a uma combinação pessoal, é assim dada a oportunidade ao indivíduo de escolher (exercendo o seu direito e poder de acção) e afirmar a sua posição pessoal assim como a possibilidade de criar um espaço adaptado ao seu estilo de vida. Estão aqui salientadas duas ideias essenciais (ambas tratadas adiante, I. 2.4. p. 31 e II. 3.. p. 571) no que toca ao indivíduo: primeiro o controlo do espaço como decisivo na sua construção identitária, segundo a flexibilidade como instrumento de adequação ao quotidiano de cada um na habitação. Esta liberdade de composição expressa, um desejo, o de viver consoante padrões pessoais e particulares e assim imprimir no espaço a maneira de ver, e de ser própria ao indivíduo: a sua subjectividade. O habitante efectua um trabalho sobre o espaço, este é assim suporte da sua construção pessoal à medida que o indivíduo intervém sobre ele. Esta ideia salienta o papel do espaço como elemento criador de personalidade partindo de um “objecto” anónimo para chegar a um ambiente pessoal, particular como veremos no próximo capítulo.
32 que qualquer casa é sempre um produto inacabado, uma história interminável” (Delgado, 2002:43). Para os arquitectos Lacaton & Vassal, este imaginário remete para a ideia de guião. Através deste expõem as suas directivas espaciais e organizacionais, indicações superficiais já que cabe ao indivíduo como habitante activo completar e interpretar este guião. Pelo facto de ser uma história perpétua, vai necessariamente englobar modificações inerentes à evolução da sociedade, do indivíduo, das suas necessidades e das suas exigências. A habitação deve então ser capaz de se conformar a estas, nomeadamente pela sua versatilidade. Assim, o espaço e os compartimentos que o compõem, dão ao indivíduo a possibilidade de construir algo, de agir segundo o seu critério, pondo assim à prova a sua “performance” enquanto habitante em sua casa, habitante cada vez mais imprevisível, como veremos ao abordar o tema da identidade (p. 43). A ideia aqui sugerida por estes arquitectos é a de folga, uma largueza sugestiva que permite ao habitante, com as suas ferramentas pessoais, pensar e fabricar outros panoramas. Este controlo e a liberdade de opção são decisivos para que as exigências pessoais possam ser resolvidas pela forma. “O elemento determinante no sentimento de possuir um espaço privado é o controlo : controlo dos estímulos, controlo dos acessos, controlo das escolhas” (Segaud et al, 1998:375). Sabemos que o indivíduo se define sobretudo por um sistema de oposições e compatibilidades e, a ideia de domínio também subentende o carácter de resistência, neste caso entre o homem e o seu espaço. Ao poder afirmar-se em relação a este, expressa e põe em prática a sua maneira de ver e de ser. “Para os etólogos, estar no chez-soi designa em primeiro lugar a situação na qual o homem exerce um controlo sobre um espaço” (Segaud et al, 1998:375). Tamanha afirmação só é possível no espaço que lhe é próprio, a sua habitação. Para dar a oportunidade ao habitante de moldar o espaço à sua imagem e lidar com a imprevisibilidade crescente dos indivíduos, é preciso atribuir mais profundidade e consistência ao espaço da habitação dando-lhe maior polivalência, nomeadamente pela “coabitação de diversos subtipos” e uma melhor “articulação entre usos, técnicas e espaços previstos” (Gausa, 2002:21). O poder de decisão e execução, sobre o seu ambiente, que reflecte o dinamismo da interacção dos moradores com a sua habitação, é benéfico e propício a um equilíbrio na relação espaço-homem. Para o efeito, espera-se do arquitecto que crie um envelope, uma caixa com “fundo duplo” (Lacaton et Vassal in Dana, 2002:21) com potencialidades dissimuladas, que o habitante vai desvendar à sua
33 maneira, surpreendendo-se ao criar os seus próprios cenários. Esta acção decisiva na afirmação do homem sobre o espaço e consequente construção de um modelo idealizado, depende da liberdade da qual dispõe o indivíduo para ser criador de espaço e esta realização ser, reciprocamente, criadora de personalidade. De facto, quando as pessoas não podem alterar ou ajustar o seu ambiente doméstico, “uma importante via para o autoconhecimento é fechada” (Coelho, 1998:146). Para poder agir na sua habitação, para que esta possa ser ajustada é necessário a sua pré-disposição. Só assim é que a “conquista” do homem sobre o espaço é plausível e realizável. Veremos a seguir quais são as características espaciais (Cap. II. 3. Análise. p. 54) e os elementos arquitectónicos necessários para dar vida e potenciar este “fundo duplo” mas também como a complexidade é neste caso, motor de criação e de particularização. Em ambientes domésticos normalizados, é a acção de caracterização e organização espacial que, através da apropriação activa do habitante, cria um chez-soi particular, diferente de qualquer outro. “São as dialécticas dos usos e das representações que determinam as significações sucessivas dos lugares e convertem um contexto anónimo num lugar personalizado que adquire o valor de um chez-soi ” (Segaud et al, 1998:379), um lugar onde prevalece um sentimento de eternidade (Segaud et al, 1998:380). “À travers l’analyse des liens affectifs que l’habitant établit avec sa chambre personnelle, Barbey tente de saisir le processus de conversion d’un simple espace physique, la chambre, en un univers mental, le chez-soi. La spatialité propre de la chambre instaure une conscience différente du temps aux yeux de l’habitant. Bachelard écrit que l’espace “tient le temps comprimé”. L’espace est donc récipient du temps et, par conséquent, refuge pour les souvenirs du passé. (...) Pour Barbey, le chez-soi est un espace totalisant, le seul qui parviennent à articuler simultanément les lieux et les épisodes de la vie” (Segaud, et al, 1998:380).
II. OS ESPAÇOS DA HABITAÇÃO: SUPORTE E INSTRUMENTO
36 1. METODOLOGIA
37 Este estudo pretende observar o espaço da habitação como suporte do quotidiano, nomeadamente as ferramentas que oferece ao habitante para praticar e desenvolver um estilo de vida que o serve ao longo da sua formação identitária. Para o efeito, interessam-nos dois aspectos da habitação: a sua capacidade de acolher e potenciar modos de habitar diversos, mas também as qualidades espaciais que oferece aos seus habitantes e que promovem a identidade de cada um, individualmente, em paralelo com uma vida familiar coesa e harmoniosa tendo em conta as recentes alterações sociais. Em primeiro lugar pretendeu-se tomar conhecimento das reformas recentes da sociedade e do lugar do indivíduo. A revisão das referências bibliográficas permitiu-nos perceber, na fase inicial do trabalho, os motivos destas mudanças, quer sejam históricas, sociais ou políticas. A primeira abordagem ao tema do ponto de vista das ciências sociais, nomeadamente através da leitura de várias obras do campo da sociologia, tornou possível realçar certos aspectos da habitação, de maior relevo nestas questões, e assim observar o espaço com uma vertente social indispensável à compreensão dos paradigmas espaciais. Num segundo tempo, a procura de múltiplos exemplos de habitações permitiu destacar certos elementos que se repetiam consoante as épocas. Durante esta pesquisa pretendeu-se encontrar soluções espaciais cujas particularidades se adaptam ao indivíduo e à família contemporânea, focando-se mais precisamente na questão identitária. Fixou-se como objectivo o de encontrar as correspondências entre o que é necessário ao indivíduo durante a sua construção identitária e o que o espaço doméstico tem para lhe propor como mais valia durante este processo (que se estende ao longo da vida). Após ter entendido as mudanças do indivíduo no campo social tentou perceberse de que forma o espaço poderia ser um instrumento válido de resolução das novas problemáticas da vida em conjunto. O espaço da habitação é utilizado para assegurar as novas necessidades e aspirações do homem na sua indispensável afirmação pessoal. Assim, procuraram-se elementos arquitectónicos capazes de promover a construção identitária de cada membro do núcleo familiar na sua habitação. Para além de valorizar e destacar determinados dispositivos nas habitações em análise, poderemos também evidenciar a ambivalência destes modelos, garantida pela sua capacidade de adaptação às consecutivas transformações dos indivíduos. Pretende-se revelar de que forma os arquitectos projectaram (nos casos a estudar) a habitação corrente com um carácter mais abrangente, capaz de responder a
38 diversas problemáticas, carácter conferido por certos dispositivos espaciais cujo valor e utilidade procuraremos salientar, uma vez que tenderam a desaparecer ao longo do tempo. Poderemos assim, estabelecer um paralelo entre um período e outro, criar correspondências que permitam ligar dispositivos espaciais cada vez menos comuns, com as problemáticas actuais relacionadas com a construção identitária e com os fenómenos de individualização. Iremos perceber de que forma certas características dos espaços da época em questão poderiam perfeitamente adaptar-se à actualidade para melhor servir os indivíduos contemporâneos no seu desenvolvimento identitário, através da sua inserção nos novos modelos de habitação, com propósitos correspondentes aos recentes contextos sociais e familiares. Para o estabelecimento desta correspondência foi realizado um estudo que consistiu na análise de várias habitações que demonstrassem, através das suas propriedades, de que forma o espaço pode ser um auxiliar relativamente a esta questão identitária. Após uma primeira pesquisa, ajustaram-se os critérios de selecção. Foi assim tomada a decisão de focar a análise em casos portugueses, com o objectivo de evidenciar e insistir na qualidade da sua arquitectura e no seu potencial quanto à resolução de diversas questões sociais. Com o objectivo de tirar conclusões pertinentes relativas à questão identitária, focalizou-se o estudo na habitação corrente e não em casos excepcionais. Quisemos referir-nos aos standards porque o que nos interessa perceber é a possibilidade de apropriação do espaço por um habitante que o arquitecto não conhece. Esta arquitectura que, sendo repetida e reproduzida a grande escala, surge como base de um projecto mais particular, próprio, já que se dirige as vivências dos mais diversos indivíduos ou configurações familiares, podendo o espaço destas habitações servir qualquer um, os indivíduos comuns. Assim, a escolha da habitação corrente revelou-se evidente, focando mais particularmente edifícios de habitação plurifamiliar no meio urbano. Para o efeito, a pesquisa efectuou-se essencialmente com base em fogos de tipo T2 e T3 embora, em menor número, também façam parte da amostra habitações do tipo T3+1 (e excepcionalmente um caso do tipo T4+1). Uma vez a selecção das habitações a tratar efectuada, iniciou-se um trabalho interpretativo com base na análise dos elementos do projecto de arquitectura: planta, cortes e alçados, com um focagem particular na planta. Foram encontradas habitações dotadas de dispositivos espaciais propícios a uma maior adaptação e correspondência com os hábitos e estilos de vida diversificados no âmbito doméstico. Ora, constatamos a recorrência de certos elementos em determinadas
39 épocas, nomeadamente na produção arquitectónica das décadas de 50 e 60 ainda com alguns exemplos num período mais abrangente, incluindo as décadas de 40 e 70 (pois veremos que os casos aqui apresentados datam do período de 1945 a 1973), nas cidades do Porto e de Lisboa, onde se localizam todos os exemplos de habitação aqui apresentados. Este trabalho baseia-se essencialmente na observação das características originais da planta das habitações, propriedades pelas quais foram seleccionadas para integrar esta análise. No entanto, outra vertente importante do trabalho consiste na alteração de algumas componentes da habitação para demonstrar a possibilidade de adequação às novas aspirações dos indivíduos e assim corroborar a ambiguidade destes espaços, quer na sua forma original quer pela transformação da mesma. Após a junção de todos os elementos imprescindíveis à compreensão de cada caso, iniciou-se o tratamento da planta de cada habitação. Tendo em conta as disparidades dos desenhos originais dos arquitectos, nomeadamente da planta (base deste estudo), que variam tanto no seu aspecto (mais envelhecido ou em bom estado, dado o período de tempo abrangido) como na sua expressão (muita detalhada ou mais clara, à medida que nos adiantamos no tempo), encontrou-se um padrão representativo capaz de uniformizar e chegar a um consenso na expressão das plantas. Optou-se por um desenho esquemático, permitindo uma abordagem clara e uma compreensão rápida das características gerais do espaço da habitação. Para tornar possível esta leitura global optou-se pela colocação das plantas à mesma escala (1:500) ao longo do desenvolvimento da análise. O trabalho mais aprofundado sobre as características de cada habitação foi organizado num corpus de fichas de identificação (ver anexo). Através do cruzamento de duas disciplinas: a arquitectura e as ciências sociais, pretendeu-se construir uma reflexão que permita relacionar a habitação com as suas vivências ao longo do tempo. Assim, a análise realizada sobre a planta das habitações foi aprofundada através de uma tabela (ver em anexo) que procura ser um instrumento para uma correspondência entre os resultados da investigação em Ciências Sociais conduzida sobre a temática da construção identitária e determinados dispositivos espaciais, nomeadamente: Dupla entrada, Elemento/ zona autónoma, Percursos abertos, Percursos fechados, Separação noite – dia, Isotropia, Mutabilidade. Este trabalho pretende evidenciar a competência de certos elementos do espaço doméstico por corresponder às transformações sociais e às novas necessidades do indivíduo, como por exemplo o seu desejo crescente de independência ou de
40 intimidade assim como dispositivos indispensável à adequação dos espaços da habitação aos mais diversos modos de habitar e ambições do núcleo familiar. O estudo crítico das plantas reparte-se em dois temas, sempre com bases em dados teóricos, sobretudo sociológicos. O primeiro trata essencialmente da adaptação do espaço da habitação dado o papel crescente atribuído à habitação no quotidiano dos indivíduos e a diversificação dos modos de habitar. O segundo pretende salientar as diversas formas de potenciar a identidade e autonomia de cada indivíduo do núcleo familiar, quer seja pela identificação dos dispositivos originais dos fogos quer por alterações criadas nesta análise. Os elementos que se consideram como sendo relevantes nas questões de apropriação e de construção individual consistem, por exemplo em dispositivos que oferecem a possibilidade de escolha entre um encerramento maior ou menor dos espaços, a hipótese de criação de um compartimento adicional ou a ampliação de uma zona em relação a outra. Estes são elementos tais como: portas ou paneis de correr, compartimentos com as mesmas propriedades (isotropia dos espaços), ou ainda outros sem função pré-definida, dando a oportunidade de uma caracterização espacial mais livre e aberta, resolvida pelo habitante. Mas também outras propriedades que acreditamos serem importantes para a autonomização do indivíduo e de maior relevo e eficácia enquanto auxílio na sua construção quotidiana no espaço doméstico. Considera-se que este auxílio passa pela presença de características tais como: o sistema de dupla entrada, zonas ou compartimentos mais autónomos (tipo quarto de empregada), a variedade de circulações dentro da habitação ou ainda vários núcleos de quartos. Estas alterações, com um carácter interpretativo, levaram à transformação da natureza de certos compartimentos quer da sua função, quer nas suas dimensões ou localização. Foi estabelecido um padrão organizacional da habitação por zonas (muitas vezes referido ao longo do estudo), cada uma com um carácter próprio: zona de noite, zona de dia e zona de serviço. Na zona de noite incluem-se os quartos e as casas de banho que lhes são directamente adjacentes salientando o carácter privado destas quando existe uma casa de banho suplementar, de “serviço”, destinada a um uso de carácter mais público. Diz respeito a todos os espaços cujo uso é restrito e destinado apenas aos indivíduos da casa. Na zona de dia integram-se todos os espaços destinados ao convívio, ao encontro, tanto do núcleo familiar como com pessoas externas ao grupo, geralmente com um uso diurno quotidiano ou mais pontual.
41 Na zona de serviços encontram-se todos os compartimentos destinados a actividades de serviços ou seja, preparação de refeições, arrumos, tratamento de roupa, mas também em vários casos, o quarto da empregada. Optou-se pela colocação do mesmo neste grupo por se tratar de um compartimento directamente associado aos serviços e por funcionar de forma independente relativamente às zonas noite e dia. Veremos a seguir (objectivo deste estudo) como, pelas suas propriedades, alguns compartimentos podem vir a passar de um grupo para outro, e quais são as características que permitem esta transferência e as sucessivas alterações espaciais que respondem aos novos paradigmas ou desafios sociais e individuais. No entanto, é importante perceber quais foram essas alterações, ver concretamente em que consistiram e constatar a existência de um “antes” e um “depois”, porque só assim é que o potencial da habitação se torna mais óbvio, através da percepção da sua ambiguidade por vezes implícita, ambiguidade que queremos divulgar. Assim, como já referimos, a familiarização do leitor com os casos de estudo também foi uma preocupação. Para o efeito, a informação que respeita os casos analisados foi organizada em fichas de “identificação”. As fichas, apresentadas em anexo, estruturam-se da seguinte forma: - Implantação e informações gerais permitindo a leitura do contexto urbano e os dados do edifício (Data do projecto, localização, autoria e área). - Planta e legenda da habitação à escala 1.400 evidenciado de forma mais pormenorizada as suas características espaciais. - Planta do edifício permitindo evidenciar a inserção da habitação no conjunto e características principais: tipo de acesso, tipo de fogos que constituem o edifício, número de pisos e função à qual se destina cada piso (habitação, escritórios, comércio). - Alguns dados acerca das particularidades do projecto, nomeadamente pormenores de realização ou da linguagem do edifício. A partir desta informação foi possível realizar a análise, sendo esta a base do desenvolvimento interpretativo do presente trabalho. Ao longo do estudo irão surgir as plantas dos casos de estudos, ilustrando e explicando os conceitos abordados. É também importante salientar que a apresentação das habitações seguiu um critério de ordem cronológica, permitindo não destacar nenhum arquitecto em particular, nem edifício ou cidade. Para uma compreensão rápida e facilitada, cada habitação é designada por um número (consoante a sua posição na barra cronológica) e acompanhada pela sua localização (o nome da rua/avenida onde se encontra) ou o nome do edifício onde se insere.
48 do que este lhe propõe, uma singularidade que resulta de uma composição de vários elementos. Karl Marx (Molénat, 2006:1) já designava em 1844 o indivíduo como um “ser social”, que interage com o seu meio, meio que tende inevitavelmente a influenciar o indivíduo. Logo, através da sua diversidade e eclectismo crescentes, dada a inclusão de novos horizontes e perspectivas diversas, ajuda o homem a criar algo pessoal e afinar a sua subjectividade. É precisamente este contexto que possibilitou a diversificação das identidades e a desmultiplicação das práticas individuais, dos gostos e interesses de cada um. O contexto aqui referido é o resultado de vários fenómenos que alteraram fortemente o panorama social da actualidade como vimos na introdução (e ao longo deste desenvolvimento). Trata-se de um universo que se abriu e está agora ao alcance de cada homem. A “matéria social” (Kaufmann, 2004:49), proposta ao indivíduo é ela também cada vez maior, e neste contexto os homens “apropriam-se cada vez mais dos diversos repertórios das práticas culturais” (Molénat, 2006:4), porque vivem num campo de influências cada vez mais diverso. Como afirma o sociólogo polaco Zygmunt Bauman (Molénat, 2006:121), o individuo, diferentemente do sucedido nos séculos passados está a tornar-se um híbrido cultural. O advento da sociedade de consumo (e aparecimento da classe média), uniformizou os hábitos e, desta forma, tendeu a anular as distinções entre “classes”, podendo hoje em dia, duas pessoas de meios socioprofissionais ou de localizações geográficas totalmente distintas ter os mesmos hábitos, interesses ou estilos de vida. Mais recentemente, a globalização contribuiu para a atenuação de alguns determinismos sociais antigos persistentes, e os comportamentos, nomeadamente domésticos já transcendem e atravessam as divisões de classes. “A diversidade dos modos de vida que se torna óbvia para qualquer observador pode deixar pensar que estes são doravante autónomos das categorias sociais“ (Léger, 1990:20). O desenvolvimento do ocidente, após a segunda guerra mundial, permitiu numa época próspera tanto a nível social como económico, a emancipação pessoal se não de todos, pelo menos de uma maioria (Kaufmann, 2004:81). A massificação do consumo, sem manifestações explicitas, revolucionou a vida dos indivíduos, propondo-lhes novos meios de expressão pessoal. Esta liberdade permitiu ao indivíduo obter a identidade desejada, embora esteja inserida dentro de certas condicionantes que o superam, como já vimos. O acesso a outros mundos, outras visões deu ao indivíduo um leque variado de opções, é no cruzamento de várias influências que resulte a sua “hibridez” (Bauman in Molénat, 2006:121). Se, ao nível da personalidade esta se reflecte
49 numa maior abertura e diferenciação pela adesão a tendências divergentes, ao nível da casa ela reflecte-se nos usos diferenciados do espaço consoante os indivíduos, na diversificação das práticas dos seus membros, assim como pelo desejo próprio a cada um de viver segundo os seus padrões, as suas regras. São estas as noções em causa quando nos referimos à imprevisibilidade do habitante. 2.4. Diminuiçãodotamanhodafamília. A diminuição do tamanho das famílias no geral, é também um factor determinante que influencia a emancipação da cada indivíduo relativamente ao grupo. As famílias numerosas, mais comuns antigamente, são agora excepções. Em França, por exemplo, assistiu-se à constante diminuição do número de filhos até à década de noventa (Segaud et al, 1998:100). O controlo da natalidade é a causa principal desta alteração, mas alia-se à entrada da mulher no mundo do trabalho, ao crescimento da população urbana e a uma aposta maior no futuro dos filhos, reduzindo a proporção de famílias numerosas (Segaud et al, 1998:102). No entanto, ao nível social, foram as mudanças de mentalidades que precipitaram esta quebra. Na sociedade ocidental defendem-se agora princípios igualitaristas (Cruz, 2009:63) e a vontade de satisfazer as necessidades pessoais de cada indivíduo, o que se traduz na família pela diminuição do número de filhos. Existe um paradoxo entre o aumento das capacidades económicas e a diminuição do número de pessoas dentro do núcleo familiar. Mas este fenómeno apenas demonstra e confirma a importância atribuída ao indivíduo como unidade singular e o peso do individual em relação ao colectivo. Pretende-se desta forma atribuir mais tempo e espaço a cada pessoa, estimular o desenvolvimento de todos os elementos do grupo, respeitar o seu espaço, ou seja promover a sua qualidade de vida. No espaço doméstico este fenómeno reflecte-se na procura de maior conforto e bem estar, logo na atribuição de um lugar próprio a cada um. Conceder um lugar a cada indivíduo da casa, fazendo assim a apologia da privacidade, é sinónimo de aceitação da particularidade de cada membro da família. Reconhece-se através desta repartição a necessidade de espaço, tanto físico como psíquico, pois a noção de propriedade de si, no que toca ao indivíduo, decorre da propriedade privada ou seja da possibilidade de intervir e ter margem de manobra naquilo que é seu, tanto na vida em geral como no espaço em particular já que, “a consagração do indivíduo não pode ser dissociada de um movimento mais geral, que passa pela propriedade privada e pela propriedade
50 de si (...) Ao tornar-se proprietário, o indivíduo torna-se dono de si mesmo, apropriando-se o seu trabalho e os seus meios de existência” (Molénat, 2006:7). Enquanto que para o sociólogo R. Castel (Kaufmann, 2004:307), “a propriedade privada foi a base material que tornou possível a propriedade de si”. Possuir o seu espaço, o quarto, significa usufruir da sua privacidade e consequente intimidade. Esta resulta do isolamento do espaço, da sua protecção relativamente ao exterior e aos restantes espaços da habitação. Os dispositivos arquitectónicos da casa oferecem esta protecção, resguardando o espaço privado de predilecção do indivíduo dos outros membros do grupo, das suas actividades e do possível carácter invasivo do exterior, do público. 2.5. Sucessãodeprivacidades.“Privadodoprivado.” Segundo de Singly (Molénat, 2006:185), “foi na família que aconteceram as principais mutações da vida privada. Primeiro afirmou-se como um lugar fechado, separado do mundo exterior. A seguir, os indivíduos desprenderamse dela, reivindicando uma vida privada separada da vida familiar. Esta última tendência não parou de se acentuar desde os anos sessenta”. Este fenómeno de desdobramento é uma consequência natural e directa da individualização da sociedade e da família. Esta, já não é tanto o impulso da construção pessoal mas sim o seu resultado, resultado da participação de cada parte que a compõe. Esta nova hierarquia não implica, como já vimos, a dissolução da família mas apenas um esquema organizacional diferente, inverso. Procura-se então um novo equilíbrio nas “diferentes partes constituintes da habitação que leva à ampliação da parte privada (…) em detrimento da parte pública” (Eleb et Debarre, 1989 :284). Como já sabemos, a vida privada ocupa um lugar primordial e o domínio do privado tem ganho cada vez mais peso em relação ao exterior, ao público. É principalmente neste campo que o indivíduo se constrói. Na esfera privada o indivíduo torna-se realmente ele próprio ou pelo menos tem o direito e a possibilidade de o fazer, de estar em adequação consigo mesmo. Como já foi referido previamente neste estudo, a vida privada como refúgio da vida pública é um factor importante no quotidiano, uma “condição para a felicidade do homem moderno” (Molénat, 2006:203). É neste refúgio, no seu “universo pessoal”, um espaço que lhe pertence e onde faz o que quer, que o indivíduo se desenvolve à margem do resto da casa na qual domina, não o social, é certo, mas o colectivo da família. Assim, nos anos 60, “a intimidade familiar (...) tem que coexistir com a intimidade pessoal” (Molénat,
51 2006:187). No espaço doméstico, família e indivíduo são os actores principais. As variações na importância dos seus papéis respectivos tendem não só a modificar as suas relações e a estruturação do lar, como também a organização espacial do seu habitat. Segundo o historiador francês A. Prost, “o século XX consagra o privado do indivíduo dentro do privado familiar” (Molénat, 2006:199). Ter o seu espaço pessoal dentro do que já é do domínio do privado: privado pessoal dentro do privado familiar, é a característica da família moderna que respeita e faz prevalecer os interesses de todos, individualmente, sobre a unidade do conjunto. São estes interesses que participam na coesão do grupo. Procura-se mais liberdade e intimidade do indivíduo já que estas qualidades são propícias à harmonia do “todo”. A nova conjuntura familiar reflecte a vontade de estar e de ser livre embora sempre inserido dentro de um grupo, “Être libre ensemble” (Molénat, 2006:196) ou “ensemble mais séparément” conceito tão prezado por Monique Eleb. Procura-se assim um equilíbrio entre privacidade e socialização. Com uma crescente necessidade de espaço para explorar a sua identidade, já que na segunda modernidade a intimidade pessoal cohabita e quase se sobrepõe com a familiar mas sem se confundirem, “assistimos à ruptura da ligação que associa intimidade familiar e intimidade pessoal” (Molénat, 2006:186), atribuindo mais liberdade ao indivíduo e criando “um individualismo emancipador, que permite uma identidade aberta, ecléctica (...) que não estagna ao longo da vida, nem durante o dia ou a noite” (Singly, 2005:15). Como já sabemos a atribuição de um quarto a cada indivíduo do núcleo familiar (excepto casal) já não é questionável. No entanto, o conceito de “privado do privado” prende-se com a procura da intimidade máxima dentro dos espaços privados do fogo. Esta pode ser alcançada de várias formas com veremos ao tratar da análise dos casos de estudo. 2.6. Revisãodafunçãodoquarto O quarto já não é exclusivamente o lugar do privado, “o quarto de criança é hoje considerado como um local de jogo, de descanso, de trabalho, de recepção dos amigos : é deste modo tanto privado como público” (Segaud et al, 1998 :70). Enquanto que na adolescência por exemplo, existe um “jogo entre autonomia e dependência” (Segaud et al, 1998:73), em que o quarto é utilizado como instrumento para o isolamento mas pode igualmente ser um espaço de convívio, atribuindo-lhe um carácter mais público do que o inicialmente suposto para este tipo de compartimento.
52 “O quarto pessoal é (...) o lugar do domicílio familiar no qual cada um se pode tornar ele próprio” (Singly, 2006:33), em oposição aos espaços colectivos onde primam as características do grupo. Para além de ser o lugar mais íntimo da casa, este alberga todo o tipo de actividades e esta multifuncionalidade só é possível por se tratar de um espaço pessoal, onde não interferem várias autoridades. O quarto é marcado pelo controlo do espaço proporcionado pela liberdade que nele existe. Este é como uma subdivisão da casa, elemento autonomizado, com as suas próprias regras e organização, contido numa estrutura maior, com outras normas. Define um universo pessoal cujo ambiente é, ou pode ser, diferente das directrizes gerais em vigor no resto da casa. Possuir um quatro é poder exercer livremente os seus modos de habitar e praticar um estilo de vida próprio. Cada um habita e age sem interferir nas vivências dos restantes moradores, no quarto mas também noutro tipo de compartimentos como estes “ compartimentos de isolamento (...), esta insula , espécie de alcova que permite isolar-se enquanto o resto do apartamento permanece bastante aberto, (...). Impõe-se a ideia segundo a qual o diferentes habitantes que partilham o mesmo apartamento são indivíduos que coabitam e não um casal unido ou uma família com objectivos unificados e desejos do mesmo género. Um compartimento por habitante tornase imprescindível” (Segaud et al, 1998:73). Hoje em dia, cada membro do grupo tem uma certa autonomia, mais ou menos forte consoante a sua personalidade, a sua idade ou actividade profissional. Os horários de cada um divergem e quando todos estão em casa tendem a ocupar o seu espaço respectivo, muitas vezes, a sala ou o quarto. A divergência espácio-temporal leva os indivíduos do grupo a viver “ao seu próprio ritmo”, assim, “um quarto individual que permite a realização de actividades diversas, nomeadamente ruidosas, é uma aspiração” (Eleb et Bendimérad, 2011:33). Pois sabemos que a intimidade aumenta o poder de acção e de escolha do indivíduo e que a possibilidade de exercer um controlo sobre um espaço privativo é um factor decisivo para o equilíbrio e o bem estar (Segaud et al, 1998:375). 2.7. Doestabelecimentodaintimidadeàdissociação funcional. A fixação da intimidade como necessária é um dado adquirido, requer-se agora uma maior fragmentação dos compartimentos consoante as actividades que acolhem. A dissociação funcional do espaço doméstico permite dar mais independência ao indivíduos e viver em grupo de forma coesa, assim “a atribuição dos espaços aos membros da família em vez da sua concessão a actividades
53 precisas como na fase anterior” (Cruz, 2009:134), é preferível. Criou-se um novo esquema de atribuição dos espaços consoante o tipo de usos que respeita a diversidade das práticas individuais de cada membro da família. Veremos mais adiante que este desmembramento do espaço não é o único factor determinante na autonomização do indivíduo, pois segundo M. Segaud (Coelho, 1998:146) “no interior de uma habitação o carácter e a localização do “recanto pessoal” reflecte uma necessidade de isolamento e caracteriza-se a partir de parâmetros distintos e característicos de: ordem/desordem; tensão/calma; comunhão social mais ou menos larga/intimidade”. Esta mudança reflecte a primazia pessoal em detrimento do colectivo. As famílias, agora compostas por indivíduos diferenciados pelos seus modos e estilos de vida, participam na constituição de um todo, o núcleo familiar, invertendo o esquema de formação identitária, anteriormente com base neste. “A grande sala multifuncional, a sala onde todo a gente vivia sujeita ao olhar de todos, caracterizou o habitat da idade média, até ao final do século XVI. A divisão em compartimentos especializados apareceu com a ascensão do individualismo” (Eleb et Bendimérad, 2011:32). Esta afirmação faz o retrato das várias etapas constituintes da compartimentação do espaço da casa. Primeiro, a intimidade revelou-se como indispensável para preservar a família essencialmente do exterior e, num segundo tempo, desagregar o indivíduo do núcleo familiar foi decisivo para a sua emancipação. É assim permitido ao indivíduo praticar e desenvolver a sua subjectividade, uma identidade individual que segundo afirma J-C. Kaufmann, apenas se começou a afirmar há menos de meio século (Molénat, 2006:178). A afirmação da identidade, decorrente da individualização da sociedade é positiva, segundo R. Castel (Singly, 2003:216), “apenas sob duas condições: oferecer a cada indivíduo as capacidades para que se possa individualizar (...), permitir uma vida em conjunto tanto no espaço privado como no espaço público”. Ora, para permitir esta vida em comunidade é necessário que a habitação possa dar a todos o espaço desejado para as práticas das actividades pretendidas, mantendo a sua privacidade e liberdade sem interferir na dos restantes membros do grupo. Veremos de que forma a hierarquização e dissociação dos espaços são um elemento chave na concretização deste ideal, assim como a distância entre compartimentos, os percursos que os unem (e separam) ou o isolamento dos espaços privados, que participam também na sua realização e se revelam essenciais como criadores de privacidades e instigadores de uma vida em grupo coesa.
54 3. DISPOSITIVOS E CONCEITOS ESPACIAIS NA CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA QUOTIDIANA. Análise: Interpretação e modificação dos parâmetros da habitação
55 Pretende-se ao longo deste estudo perceber de que forma a habitação pode acompanhar as alterações sociais no que toca à posição do indivíduo e ser um impulso na consolidação de uma identidade. Queremos para o efeito, determinar de que modo certos dispositivos do espaço doméstico permitem a construção identitária de cada membro da família. Pois como já vimos, a necessária emancipação do indivíduo dá-se cada vez mais dentro da habitação, reforçando a ideia segundo a qual o espaço seria um instrumento influente no processo identitário. Iremos salientar dois aspectos nos quais acreditamos que o espaço e seus atributos podem actuar ou influir eficazmente, ambos com repercussões produtivas na formação identitária dos indivíduos. Primeiro, tema abordado no ponto 1 ( Mutabilidade ) , a ambivalência dos espaços como ferramenta de adaptação às diversas expectativas das famílias, salientando a destreza destes modelos a longo prazo por terem a capacidade de auxiliar projectos individuais e familiares diversos, apesar das modificações sociais e da nova procura habitacional que produzem. Segundo, tema tratado nos restantes pontos, (Hierarquização espacial, Distância, Percursos, O quarto ) , a utilização do espaço para uma maior adequação às recentes necessidades individuais, com o objectivo de conciliar privacidade e vida em comunidade. O espaço é assim visto como um instrumento capaz de fornecer certas propriedades indispensáveis à construção individual. As habitações em questão na análise que se segue, aliam estes dois aspectos que, como vimos no desenvolvimento anterior, são decisivos para o bem estar do indivíduo, quer como habitante, quer como pessoa. Estes consistem na possibilidade de exercer um controlo sobre o seu espaço pessoal até à obtenção de uma home e no facto de alcançar um sentimento de plenitude no espaço, que fomenta a construção e evolução de todos os membros do grupo. Veremos de que forma ambos se concretizam e com a ajuda de que dispositivos e conceitos espaciais.
56 2 6 7 8 9 10 11 15 Compartimento adaptáveis
57 1. MUTABILIDADE Este conceito espacial é da máxima relevância na adaptação das famílias ao espaço da habitação. Designa a possibilidade de transformação de um lugar e permite ajustar, através de diferentes dispositivos que iremos revelar, a forma ou o uso de um espaço, criando uma correspondência imprescindível no processo de apropriação do indivíduo e da sua família com um lugar, a habitação. Esta pode ser alcançada de diversas formas, nomeadamente duas que veremos adiante e que defende a acção e o poder de decisão do indivíduo como habitante – actor. A primeira é conseguida graças ao “vazio” ou à isotropia dos compartimentos que iremos tratar posteriormente. Ambos, compartimentos sem função préatribuída (vazio) e a semelhança nas propriedades de diversos espaços (isotropia), mantêm a configuração original dos espaços. A segunda, é efectuada através de elementos arquitectónicos de flexibilização espacial tais como, paneis ou portas de correr que, ao contrário do primeiro método, mudam formalmente o espaço e a estrutura da habitação. Esta adaptabilidade tem igualmente vantagens no que toca à rapidez de execução, tratando-se apenas de aberturas ou encerramentos capazes de responder de forma eficaz a um desejo ou necessidade súbita, imediata. Estes dispositivos são um aliado da imprevisibilidade e da efemeridade, e permitem também a realização de actividades divergentes de forma muito próxima no espaço. Possibilitam a escolha da função do compartimento em questão mas também do seu carácter, ou seja se este acolhe uma determinada actividade de forma permanente ou ocasional, potenciando tanto a diversidade como a alterabilidade espacial. 1.Compartimentoscompotencialdeflexibilidade. Iremos salientar estes dispositivos através das plantas das habitações escolhidas enquanto casos de estudo, por possuírem características pertinentes relativamente aos conceitos espaciais abordados neste estudo. Estes compartimentos, com capacidade de flexibilização do espaço, estão presentes no seguintes casos de estudo: Rua da Constituição (2), Rua Marquês da Fronteira (6 e 7), Av. Infante Santo (8), Edifício Parnaso (9, 10 e 11) e na Av. M. Bombarda (15). Nestas habitações aparecem dispositivos tais como paneis e portas de correr ou ainda grandes cortinados.
64 8 18 20 421 3 19 21 23 Proporção importante da zona de serviço.
65 Como já vimos, muitos dos compartimentos alteráveis pertenciam-se inicialmente à zona de serviço, como é o caso do quarto da empregada por exemplo. Ora, sabemos que os compartimentos destinados a usos do tipo “serviços” tais como: lavandaria ou zona de secagem de roupa, despensa ou o quarto de serviço (para a empregada ou para passar a ferro por exemplo), tendem a desaparecer. Com efeito, nas habitações em análise, estas áreas ocupam uma porção importante do espaço. 5.Áreadeserviço. As áreas respectivas aos compartimentos de serviço têm vindo a decrescer ao longo das décadas. Nos exemplos aqui expostos a zona de serviço é, em muitos casos, praticamente semelhante às restantes zonas (sobretudo nos fogos com superfícies maiores), como se verifica nas habitações do edifício da Carvalhosa (1), Av. Infante Santo (8), Edifício Luso-Lima (18), Rua da Constituição (2), Rua Senhora da Luz (21, 22), Av. Brasil (3), e nos dois casos da Pasteleira (19, 23). O que poderia hoje em dia ser considerado como um “excesso” de área, devese principalmente à existência quase sistemática do quarto da empregada, ou “criada” como era denominada. A este é normalmente associado uma lavandaria com tanque para lavar roupa à mão, um espaço exterior de secagem mas também, facto de maior relevo, uma casa de banho particular, que juntamente com a cozinha, autonomizam esta zona do resto da casa (ver Zona autónoma p.93). Autonomia enfatizada e levada até à independência aquando da sua justaposição com a entrada secundária, tema que iremos tratar mais adiante relativamente à Mobilidade (ver p.103). A presença desta área de serviço generosa, para além de ser propícia a realização de todo o tipo de actividades na casa, nomeadamente algumas que têm vindo a ser excluídas do espaço da habitação (como as áreas destinadas ao tratamento da roupa), permite que alguns dos seus compartimentos sejam atribuídos a outras zonas se necessário. A possibilidade de realização desta transferência insiste no carácter mutável do espaço, tema em destaque neste capítulo. Como veremos no seguimento desta analise, é muitas vezes nesta zona que se vêm buscar novos compartimentos, que se recuperam espaços ao proveito de outros zonas a fim de criar novas correspondências entre forma e uso, dada a diversificação das famílias e dos hábitos individuais.
66 20 15 12 18 20 821 3 19 23 13 20 Ampliação da zona privada pela atribuição de uma nova função a um compartimento “vazio”. Ampliação da zona privada pela atribuição de uma nova função a um compartimento da zona colectiva. 5 6 9
67 6.Extensãodeumazonasobreoutra:cedência. Aumento da área reservada à parte privada. Como já vimos, a recente valorização social do indivíduo, atribui-lhe igualmente um lugar privilegiado no núcleo familiar, posição que se reflecte no espaço da habitação. A lógica: um pessoa - um quarto generalizou-se, é assim atribuído um quarto a cada indivíduo do grupo. É possível no entanto, que a habitação não cumpra originalmente com esta condição, assim, através dos dispositivos acima referidos, exista a possibilidade de alteração espacial até a habitação responder às expectativas dos seus habitantes. Este objectivo (dar mais espaço ou compartimentos à zona privada) é alcançado através de duas formas: a transformação da função de uma divisão (isotropia e vazio: liberdade na definição do espaço, p.59) ou pela atribuição de uma parte de um compartimento com função inicialmente diferente da pretendida, a de quarto ou espaço privado em geral (elementos de flexibilidade, p. 57). A primeira, se não altera fisicamente ou formalmente o espaço da habitação, altera-o funcionalmente. A segunda modifica a organização espacial da habitação pela descaracterização de uma zona para o proveito de outra. Primeiro caso: Edifício da Carvalhosa (1), Rua da Constituição (2), Av. Brasil (3), Av. Infante Santo (8), R. Escola Politécnica (12), Av. Duque de Ávila (13), Av. M. Bombarda (15), Edifício Luso-Lima (18), edifícios da Pasteleira (19, 23), Rua do Molhe (20), R. Senhora da Luz (21). Segundo caso: Rua da Soc.Farmacêutica (5), Rua Marquês da Fronteira (6), Edifício Parnaso (9). Através destes exemplos não pretendemos mostrar que os novos espaços criados ou alterados estão bem ou que dispõem de qualidades excepcionais, apenas pretendemos valorizar o facto desta transformação ser possível e assim salientar a competência dos espaços na sua adequação com o quotidiano das famílias contemporâneas e das suas consequentes exigências. Para além de ser benéfico do ponto de vista da adequação às necessidades dos indivíduos, esta extensão ou propagação dos espaços privados permite a criação de novos núcleos de quartos, tema que abordaremos no capítulo Distância, p. 85. Como já sabemos, a ideia de família padrão está ultrapassada. As necessidades e os desejos de cada uma varia e as suas expectativas em matéria de habitação divergem. Assim, a ampliação da zona privada, embora se tenha difundido ao longo das décadas, pode não ser uma aspiração para todas as famílias, dada a
68 7 10 14 a11 14 b Ampliação da zona colectiva pela agregação de um quarto.
69 diversificação da sua composição e estrutura e dos seus desejos em matéria de espaço. Aumento da área reservada à zona colectiva. Nos exemplos seguintes, um dos quartos é cedido à área colectiva muitas vezes para ampliar o espaço da sala ou criar um espaço distinto dos pré-existentes, como uma zona de refeições por exemplo. A alteração da função de um compartimento inicialmente destinado a actividades de carácter privado pode também ter como objectivo a criação de um espaço de dia com um uso diferente dos compartimentos existentes, como uma área de trabalho, tipo escritório, por exemplo (caso 14 a). À semelhança do sucedido na ampliação da zona privada, no caso dos espaços colectivos, esta ampliação faz-se da mesma forma, ou seja através de duas ferramentas espaciais: a flexibilidade e a isotropia. Esta modificação pode ser realizada através da abertura de uma parede móvel como no caso da Rua Marquês da Fronteira (7) e do edifício Parnaso (10 e 11), alargando o espaço público da habitação e permitindo muitas vezes a criação de uma ampla sala de estar, ou ainda pelo prolongamento da sala sobre um quarto como no caso da Rua A. Vidal (14 b). No entanto, outras possibilidades de mudanças existem sem o ganho de área de uma zona em detrimento de outra. Podem caracterizar-se apenas pela vontade de alteração da localização de uns compartimentos em relação a outros, cuja hierarquização e valorização fica ao critério do morador, ao dar-lhe a possibilidade de inverter a organização espacial e funcional da casa. 7.Reposicionamentoedeslocaçãodecompartimentos:Troca. Neste jogo de transferências e encaixes o habitante encontra a organização que lhe corresponde graças a uma combinação pessoal. Ao desarticular a configuração inicial dos compartimentos, expressa a sua vontade e determina uma organização espacial segundo o seu livre-arbítrio. Uma vez mais, o espaço é visto como um instrumento ao serviço do indivíduo no quotidiano, por trazer respostas satisfatórias e conseguir estar em sintonia com os modos de habitar praticados ou desejados, é assim permitido ao habitante criar um espaço dotado de um carácter pessoal.
70 44 a 4 b 17 17 a 17 b 16 16 a 12 12 a Inverção da função dos compartimentos. À esquerda, organização original, à direita, as possíveis combinações.
71 Nos casos apresentados, os quartos podem ser salas ou escritórios e vice-versa. Aqui as quantidades e as componentes são as mesmas, apenas se altera a posição das peças deste “puzzle” por se adequar a um determinado estilo de vida e consequentes modos de habitar. Casos: Rua da Soc. Farmacêutica (4), Rua da Esc. Politécnica (12), Av. G. Roçadas (16, 17). A possibilidade de criação de espaço e de ambientes decorre de duas propriedades dos compartimentos que constituem a habitação: a sua capacidade de mudança através de engenhos de flexibilização do espaço ou pela semelhança de propriedades entre divisões (supostamente com funções diferentes), tais como, a área, a orientação, a localização, o(s) acesso(s) ou a privacidade, como já vimos. Assim, alguns compartimentos que poderiam anteriormente integrar-se na parte “fixa” (ver plantas fixo-móvel, p.63), ou seja com uma função predeterminada e invariável, como o quarto da empregada por exemplo, são hoje em dia “reaproveitados” para propósitos ou necessidades mais actuais. Esta translação testemunha da riqueza arquitectónica destas habitações, por permitir a “reutilização” de um espaço para outros fins, sem que este venha a cair em desuso apesar das alterações sociais e dos hábitos domésticos. Um compartimento mutável não é somente um espaço que sabe responder às sucessivas exigências mas também um espaço que tem a capacidade de atravessar as épocas e permanecer actual pela sua adequação tanto às novas tendências ao nível social e habitacional como as divergências de uso dos seus consecutivos ocupantes. Partiu-se da planta original do arquitecto para um interpretação pessoal sobre o que poderiam vir a ser alguns compartimentos dada a procura habitacional actual e as novas necessidades pessoais, consequência da evolução social e do novo esquema de interacção entre pessoas. Desta análise interpretativa surgiram modificações do carácter ou da função original de certos compartimentos, e destas alterações decorrem uma sucessão de consequências no espaço. Na sua organização, estrutura e hierarquia, provocando repercussões nos itinerários na casa (como iremos ver ao abordar os temas “distância” e “mobilidade”), no uso de certas divisões mas também um impacto forte na possibilidade de emancipação do indivíduo que ganha em autonomia e pode, através de certos dispositivos, independentizar-se não só psicologicamente mas também fisicamente graças a liberdade de movimentos e de acção no espaço doméstico e na sua relação com o mundo exterior. Assim se não existe originalmente na planta um compartimento que se insira nesta definição, existe a possibilidade de provocar o seu aparecimento na planta.
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73 2. HIERARQUIZAÇÃO E DISSOCIAÇÃO ESPACIAL/ FUNCIONAL Afastar certos compartimentos de outros pode ser uma mais valia para um bom funcionamento, ou coordenação da vida doméstica e entre os indivíduos que a compõem, propícia à coesão do grupo e ao respeito das aspirações e das actividades dos seus elementos. Com a evolução da sociedade, e a transformação dos seus indivíduos, os comportamentos de todos foram-se alterando, não só no domínio público como também e sobretudo no espaço privado, na habitação que se viu atribuir funções que antes não tinha. O homem abre-se para o mundo e, numa sociedade de massas globalizada, os seus interesses e gostos diversificam-se. Esta variedade e ramificação de interesses pessoais leva à modificação, das actividades praticadas por cada um, dos estilos de vida logo, dos modos de habitar. Viver em conjunto tornou-se, se não mais difícil, pelo menos mais complexo, com problemáticas recentes, que não se aplicavam apenas há algumas décadas. A dissociação em questão nesta análise resulta da classificação dos espaços por “tipos” e pela distância entre estes. Surgem dois tipos de afastamento entre compartimentos: - Entre compartimentos de diferentes categorias, que albergam actividades opostas. Entre espaços de estar colectivos e zonas de serviços por exemplo. - Entre compartimentos do mesmo tipo, uns em relação aos outros, entre dois quartos por exemplo, como veremos mais à frente (ao tratar a questão dos vários núcleos, p.87). Ambos participam da privacidade de cada indivíduo no grupo e fomentam a liberdade de uso do espaço consoante a vontade de cada um, potenciando e valorizando a sua liberdade. No primeiro destaca-se o isolamento do indivíduo em relação ao grupo (privadopúblico) enquanto no segundo é o desejo de intimidade e privacidade de cada um entre si que é respeitado e possibilitado (privado-privado. ver, Sucessão de privacidades, p. 50). Assim, procura-se o bem-estar de todos, em conjunto, tal como satisfazer as necessidades inerentes a cada um. Em certos fogos, os diferentes compartimentos destinados à mesma função ou a usos de carácter semelhante agrupam-se em zonas: zona de quartos ou zona privada, zona de serviço, zona de estar ou colectiva. Estas são hierarquizadas, estratificadas por categorias: práticas/actividades nelas desenvolvidas, pessoa à qual correspondem, horários durante os quais são ocupados. Diferentes características que permitem a sua classificação e o seu ordenamento.
80 1 2 3 12 8 18 2320 19 21 1513 22 Quarto da empregada independente da cozinha. Quarto da empregada dependente da cozinha.
81 seja quando o percurso que leva até ele não interfere com outros compartimentos. A sua autonomia em relação a outras zonas também é um factor decisivo na sua inclusão nesta categoria. É portanto um compartimento que “vive” de forma desfasada e que pode ou não pertencer a uma das três zonas da casa. Pode, consoante as necessidades, estar integrada na zona de dia, de noite ou de serviço. Como vimos na primeira parte deste estudo ( Mutabilidade ), este tipo de compartimentos é também uma mais valia no que toca à adaptação da forma ao uso, podendo o mesmo espaço ter funções diversas consoante a procura em termos habitacionais. Por este motivo é que o quarto da empregada inserido na cozinha não está aqui considerado. Com efeito, a sua (re)caracterização permanece limitada, pela sua localização ou pelos compartimentos que lhe são directamente adjacentes. 4. Quarto da empregada. Situado na zona de serviço, justaposto à cozinha ou ligado a esta, o quarto da empregada usufrui muitas vezes de um área semelhante à dos restantes quartos. Existem no entanto dois casos muito distintos, e é segundo esta diferenciação que se constitui o critério de selecção sobre o que poderá ou não transformar-se num quarto, com todas as características que este implica (área, conforto, isolamento, privacidade, sossego etc.). Primeiro tipo, quarto independente cozinha: edifício da Carvalhosa (1), Rua da Constituição (2), Av. Brasil (3), Av. Infante Santo (8), Rua da Esc. Politécnica (12), edifício Luso-Lima (18), edifícios da Pasteleira (19, 23), rua do Molhe (20), Rua S. da Luz (21). Segundo tipo, quarto dependente cozinha: Av. Duque de Ávila (13), Av. M. Bombarda (15), Rua S. da Luz (22). Ambos podem vir a ser quartos, no entanto o primeiro tipo demonstra uma qualidade muito maior por cumprir com as características requeridas para este propósito, tornando possível a criação de um novo núcleo de quartos. Como já vimos a dissociação funcional é uma mais valia na organização espacial e iremos ver como a criação de novos núcleos é positiva do ponto de vista da adaptação às necessidades e desejos dos sucessivos habitantes de uma habitação. Para além de vantagens de adequação às expectativas diversas, a possibilidade de formação de outros núcleos colabora na adaptação às recentes transformações do núcleo familiar e dos hábitos (divergentes) do seus membros. Actualmente as famílias encarnam a subida da individualização, assim, cada membro do grupo dispõe de uma certa autonomia, e aspira a um lugar próprio onde possa agir como quer.
82 Tratamos anteriormente da separação noite-dia (dissociação por zonas), mas no caso da criação de diferentes núcleos salienta-se a separação dentro da mesma categoria de espaços: noite - noite. Quando se trata de compartimentos pertencentes à mesma zona (serviços, dia ou noite), pressupõe-se que estes vão ser usados e ocupados em simultâneo, nomeadamente os quartos, de dia (pelos mais jovens) mas sobretudo no final do dia e durante a noite. Como já vimos, a intimidade e o isolamento são propícios ao desenvolvimento identitário do indivíduo por ser-lhe dada a oportunidade de agir como quer. No entanto, ao cohabitar contiguamente com compartimentos de carácter idêntico (quarto), este vê a sua liberdade e autonomia reduzidas pela proximidade de outros indivíduos. Acrescentando o facto dos indivíduos divergirem do ponto de visto das práticas e dos horários, entrar e sair, como também fazer barulho por exemplo pode tornar-se uma entrave ao bem-estar dos outros como à independência do indivíduo. A distancia, como veremos na continuação deste desenvolvimento, pode ser um factor decisivo na resolução deste “dilema”.
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85 3. DISTÂNCIA Segundo G. Barbichon, “a distância é criadora de identidade individual territorial, identidade de si, identidade do outro.” (Leite, 1998:129). Fazer a apologia da privacidade é admitir a distância como positiva para o indivíduo num primeiro tempo, e para a sua inclusão no núcleo familiar. Distância sobretudo necessária dada a diversificação dos hábitos e dos modos de estar de cada um. Na habitação existem várias forma de criar esta distância. Isolar o indivíduo pode fazer-se através de dispositivos diversos tais como a localização dos compartimentos individuais uns em relação aos outros, a sua colocação mais ou menos próxima dos espaços comuns ou da entrada, elementos criadores de interrupção tais como vestíbulos ou corredores ou ainda outros compartimentos destinados a outros usos. Depois de uma emancipação conseguida e afirmada, o indivíduo procura maior autonomia, se esta já foi alcançada no seu espaço próprio (o quarto individual) pretende-se a mesma à escala do fogo, dando-lhe a oportunidade de viver e agir de forma livre no espaço da habitação. No ponto anterior, Hierarquização espacial , abordamos um dos modos de criar distância, pela dissociação funcional e o afastamento físico entre compartimentos. Existem outras formas mais subtís de a criar, já que, o isolamento aparece como factor imprescindível na criação de privacidade(s). Uma delas consiste na interposição de uma divisão entre os compartimentos ou as zonas que se pretendem distinguir. A interiorização da vida quotidiana e consequente coabitação entre indivíduos e/ ou actividades que este fenómeno implica dentro do espaço doméstico, despertou o desejo de privacidade, criando como já vimos uma sucessão de privacidades na habitação, o distanciamento entre compartimentos parece ser uma das respostas possíveis e este paradigma, favorável tanto ao indivíduo como ao grupo. Tratar-se-ão dois tipos de distanciamento, entre compartimentos pertencentes à mesma zona mas também a zonas diferentes.
86 1 2 3 19 8 15 23 20 18 21 119 23 20 18 21 Criação de um núcleo de quartos suplementar. Passagem de ligação quarto - espaços colectivos.
87 1. Novos núcleos Resultante de vários conceitos, a criação de outro núcleo de quartos estabelece a ligação entre distância e dissociação. Alguns dos compartimentos autónomos acima referidos (dos quais fazem parte certos quartos de empregada) podem também transformar-se em quartos, participando na criação de um novo núcleo. Para que esta mudança de função seja plausível, estes têm que cumprir com determinados pré-requisitos. Fazer corresponder o quarto de empregada com um quarto “clássico”, só é possível se este respeitar certas exigências tais como, a presença de iluminação natural, a proximidade com uma casa de banho, uma área suficiente, a sua relação directa necessária com o resto da casa e um mínimo de sossego ao longo do dia (excluindo deste modo as que dependem demasiado da cozinha). As habitações com possibilidade de criação de um novo núcleo são as seguintes: edifício da Carvalhosa (1), rua da Constituição (2), Av. Brasil (3), Av. Infante Santo (8), Av. M. Bombarda (15), edifício Luso-Lima (18), edifícios da Pasteleira (19, 23), Rua do Molhe (20), rua Senhora da Luz (21). A relação directa com o resto da casa, depende da existência de uma passagem de acesso ao quarto que não o segrega do resto do ambiente doméstico, ou o confine na zona de serviço quando se trata originalmente de um quarto de empregada. O acesso a esta divisão resulta decisivo para ser-lhe possível a atribuição de um carácter de quarto dito “normal”. Existe nos exemplos acima referidos um dispositivo espacial capaz de englobar duas características: o sossego ou isolamento e a ligação com os restantes espaços da casa. Caracteriza-se aqui pela criação de um espaço de circulação que, sem atravessar a cozinha consegue conectar este quarto com a sala (e/ou as áreas de circulação). Assim, este pequeno percurso (como qualquer outro), combina os conceitos de aproximação e distanciamento. - Casos com passagem empregada-estar: edifício da Carvalhosa (1), Rua da Constituição (2), Av. Infante Santo (8), edifício Luso-Lima (18), edifícios da Pasteleira (19, 23), Rua S. da Luz (21). A criação de diferentes núcleos potencia a autonomia de cada um, destes relativamente aos outros, e leva também à ruptura com a estrutura clássica de divisão dos compartimentos por zonas (tripartição) sem haver interpenetração entre tipos. Por outro lado esta separação provocada pela quebra da continuidade funcional entre compartimentos adjacentes, estabelece em primeiro lugar as premissas da autonomia do novo quarto criado, por beneficiar das mesmas condições que os outros, mas com uma mais valia adicional, o isolamento.
88 8 7 9 19 1 15 20 18 22 13 14 23 Elementos criadores de distância entre a zona dia e os quartos: corredores, átrios ou vestíbulos.
89 Ambos, isolamento e distanciamento (que iremos analisar no próximo ponto, Percursos - Mobilidade , p.97), são indispensáveis para a autonomização e emancipação futura do indivíduo. O novo núcleo, por estar associado a outro tipo de espaços, não terá muito provavelmente, um uso do mesmo género nem nos mesmos horários que os compartimentos vizinhos, atribuindo-lhe desta forma uma autonomia da qual os restantes quartos não usufruem. No entanto, esta autonomia que tende a crescer pode vir a transformar-se em independência aquando da colocação do quarto junto à entrada de serviço, como veremos na análise das circulações na habitação. Esta separação, alonga os percursos e cria distância física, factor importante na emancipação individual por participar no isolamento necessário de cada um. 2.Criaçãodedistância Destacam-se dois tipos, dois níveis de privacidade: uma perante os restantes indivíduos (quando se encontram na mesma zona) da habitação outra em relação as outras zonas da casa e ao exterior, às suas influências e “agressões”. Neste último, o termo agressão é utilizado em referência a função primária da arquitectura que é a de protecção relativamente ao mundo exterior. Quanto mais longe, quantas mais barreiras existem entre o momento em que se penetra no ambiente doméstico e o local mais privado deste, que é o quarto, mais intimidade é criada (ver Sucessivas etaps de acesso ao quarto, p.117). Átrios, corredores, vestíbulos, portas ou ainda casas de banho (a separar dois quartos por exemplo) são tantos dispositivos que produzem e fomentam a privacidade e levam à intimidade individual. Como uma caixa de ar na parte construtiva de um edifício, que tem como função a de transição entre dois ambientes diferentes, um exterior outro interior, e de protecção de um em relação ao outro, estes dispositivos constroem eles também, através de sucessivas barreiras, estas privacidades. Vários níveis, estratificações que à medida que vão evoluindo atingem um grau mais elevado de intimidade, dando a máxima segurança, à vontade e liberdade de emancipação ao indivíduo na sua formação pessoal. Caixa de ar entre zonas diferentes Importa não apenas o distanciamento e vedação entre a entrada e o espaço íntimo, mas também entre as diferentes áreas constituintes da habitação, dando a oportunidade a cada um de praticar todo o tipo de actividades, quer privadas quer colectivas, sem perturbar o funcionamento do resto da casa, nem ser uma
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97 4. PERCURSOS - MOBILIDADE Se depois do século XVII, os arquitectos trabalham sobre o tema “proximidade espacial – distância social” (Eleb et Debarre, 1989 :283), estabelecendo sistemas de circulação complexos para prevenir o encontro de pessoas de classes diferentes (os empregados doméstico e membros da família), agora o problema tem outro carácter. A coabitação com indivíduos de classes diferentes é marginal. No entanto a bipolarização desta problemática ainda é pertinente. Sabemos que no espaço doméstico, coabitam pessoas diferentes, embora pertencentes ao mesmo grupo. As duas faces desta problemática podem então transformar-se em “proximidade espacial-distância mental (ou identitária)”. A capacidade de circulação no espaço é também um factor decisivo na aplicação da liberdade individual no âmbito da domesticidade. A habitação não é apenas constituída por compartimentos mas sim por espaços de ligação entre eles, conexões igualmente importantes no que toca à vivência do espaço e ao relacionamento entre os vários indivíduos do grupo. Estes percursos podem, com efeito, distanciar ou aproximar, dar independência ou favorizar o convívio. É sobretudo, tema decisivo neste estudo, a forma mais consensual de estabelecer barreiras, de intercalar os diversos espaços, criando e atribuindo intimidade e privacidade, dois conceitos indispensáveis para a vida em conjunto e o bem-estar pessoal dos indivíduos que habitam o espaço. A diversidade de movimentos e de alternativas apenas provém da separação funcional e/ou individual dos espaços ( Hierarquização e dissociação funcional, p. 73). Esta diferenciação leva à necessária junção dos compartimentos por espaços de passagem sem carácter de permanência mas com o objectivo de ligação e separação em simultâneo. Se num primeiro tempo acontece a repartição temática dos compartimentos por zonas, provocando movimentos unidireccionais na casa, agora uma repartição mais flexível dos espaços leva a trajectórias multidireccionais por ser possível a coabitação e justaposição de divisões com funções diferentes ou opostas, lado a lado. Assim, o fim da repartição clara por funções (em tripartição por exemplo) é propício à definição de novas trajectórias na casa e potencia a criação de percursos diversificados.
82 11 6 135 10 18 19 20 21 23 6 1 17 4 127 9 13 14 16 22 Percursos fechados. Percursos abertos.
99 1.Percursosabertos-Percursosfechados. Dois tipos de percursos podem ser distinguidos: os percursos abertos e os fechados. Os que são ditos “abertos”, consistem numa demarcação menos forte dos percursos e dos espaços destinados à circulação, muitas vezes delimitamos por paredes. São espaços mais permeáveis, ao contrário dos “fechados” que afirmam o seu carácter de percurso, “trincheira” distributiva que atravessa a casa. Fechados: trata-se de espaços de distribuição totalmente vedados e definidos, meramente de circulação sem comunicação com espaços de permanência (sala, quartos ou cozinha). Funcionam muitas vezes através de um átrio ou hall de entrada que consegue servir imediatamente as diferentes categorias de espaços. Não se passa por uns para chegar a outros. Não há interpenetração, ou mistura de tipos, cada compartimento pertence à sua zona, juntamente com os outros sem se intrometer ou interferir nas restantes zonas. Estes percursos encontram-se no edifício da Carvalhosa (1), Av. brasil (3), Rua Soc. Farmacêutica (4, 5), Rua Marquês da Fronteira (6, 7), edifício Parnaso (9), Av. Duque de Ávila (13), Av. G. Roçadas (16), edifício Luso-Lima (18), edifícios da Pasteleira (19, 23), rua do Molhe (20) e Rua Senhora da Luz (22). Abertos: consistem em zonas de transição mais permeáveis, não estritamente definidas, podendo estabelecer contacto de uma zona para a outra sem serem necessariamente dependentes. Existe mais proximidade ou contacto visual (podendo até haver atravessamentos). A inclusão de um compartimento numa determinada zona é clara por estar delimitado por estas circulações no entanto os limites e transições entre estes ou as zonas às quais pertencem não se afirmam da mesma forma, parecem “diluírem-se” por vezes umas nas outras. Paredes, átrios, corredores e portas estão mais presentes no grupo anterior do que neste, doqual fazem parte os seguintes casos: rua da Constituição (2), Av. Infante Santo (8), edifício Parnaso (10, 11), Av. G. Roçadas (17), rua S. da luz (21). As circulações no interior da casa ocupam um lugar importante na relação dos compartimentos entre si e na estruturação da vida doméstica. Assim, participam na definição das relações interpessoais na habitação. Os percursos tem como função principal a de ligar, mas também distanciar como analisámos anteriormente. Através de uma organização complexa possibilitam trajectórias múltiplas, dotando o espaço de uma riqueza vivencial mais forte. Estas podem expor, dirigir ou resguardar consoante o seu carácter, mais aberto ou mais fechado. Cada percurso tem um função clara, e a escolha da sua localização não é anódina, assim, a existência de circulações múltiplas não serve apenas funcionalmente mas subentende outros propósitos. Na relação interior-exterior as circulações também são primordiais e participam
100 81 18 2 7 46 13 14 15 19 20 Entradas próximas. Entradas que servem zonas distintas.
101 fortemente na independência dos indivíduos, de certos compartimentos ou zonas relativamente aos espaços domésticos e direcciona-os mais para o mundo público/ exterior, factor não negligenciável dada a aspiração crescente dos membros da família a mais liberdade, nomeadamente de movimentos e circulação. Inicia-se este estudo pela ligação interior-exterior dado que muitos dos percursos do interior da casa decorrem, à partida da entrada da habitação, dando início ao itinerário do indivíduo aquando da sua chegada no espaço interior. 2. Dupla entrada A entrada, ponto de partida da casa, dá origem ao espaço doméstico e é a partir desta que se desenvolve. A sua localização, central, num extremo da casa ou noutro, diz-nos muito sobre o funcionamento e a propagação futura dos movimentos que acolherá. A sua posição em relação a certos compartimentos ou zona também define a distribuição dos percursos (principais ou secundários) dentro da casa, e reflecte, como já vimos anteriormente a importância ou a privacidade atribuída a determinados espaços por estarem mais ou menos próximos desta. Mas nesta abordagem trata-se dos casos com apenas uma entrada. Quando a casa está dotada de um segundo acesso, estas questões desmultiplicam-se e as problemáticas em relação aos itinerários domésticos crescem exponencialmente. A inserção de uma segunda entrada remete para um leque de alternativas muito mais abrangente a nível do espaço e da movimentação do indivíduo, num primeiro tempo entre exterior e interior e num segundo entre compartimentos da habitação, dotando-o de mais autonomia. Casos com dupla entrada: Carvalhosa (1), rua da Constituição (2), rua da Soc. Farmacêutica (4), rua Marquês da Fronteira (6, 7), Av. Infante Santo (8), Av. Duque de Ávila (13), rua A. Vidal (14), Av. M. Bombarda (15), edifício Luso-Lima (18), edifício da Pasteleira (19), rua do Molhe (20). Constatamos que a dupla entrada não é apenas concedida a habitações muito amplas, pois existem de facto, fogos com dimensões muito variadas a possuir duas entradas. Esta é na maioria dos casos uma consequência directa da existência de um quarto de serviço. No entanto podem existir casos com quarto de empregada e zona de serviço claramente definida sem dupla entrada como acontece no fogo na Av. Brasil (3) ou ao contrário fogos com dupla entrada sem uma área de serviço generosa por se tratar de habitações com dimensões mais reduzidas (casos 4 e 14). Nesta classificação de fogos com duas entradas podem ainda serem distinguidos dois grupos. Os fogos do primeiro possuem entradas próximas ou que servem espaços ou zonas contíguas. Enquanto que, no segundo as entradas se situam em lados opostos, acedem a espaços distintos ou outras zonas mais afastadas do
102
103 acesso principal da casa. No primeiro caso, como se vê no edifício da Carvalhosa (1), rua da Constituição (2) e Av. Infante Santo (8), tratam-se de entradas muito próximas embora separadas por um móvel que define duas áreas (serviço/estar) e orienta o habitante para espaços distintos. A entrada principal para os quartos e a sala, a entrada secundária para os serviços (que inclui o quarto da empregada). No segundo, como aconteca na rua da Soc. Farmacêutica (4), rua Marquês da Fronteira (6, 7), Av. Duque de Ávila (13), rua A. Vidal (14), Av. M. Bombarda (15), edifício Luso-Lima (18) e Pasteleira (19) e na rua doMolhe (20), as entradas correspondem a zonas claramente distintas da casa. Em certos casos, como no simplex da rua Marquês da Fronteira (7), o acesso secundário faz-se directamente pela cozinha, quando o outro se direcciona mais para a zona da sala (em primeiro) e dos quartos (em segundo lugar). Situações semelhantes acontecem nos casos 4, 14, 18, 19, 20 e 23, em que o segundo acesso se faz directamente por um compartimento de serviço do género semi-interior tipo marquise ou lavandaria. Nestes exemplos do segundo grupo prima o lado prático da localização da entrada, muitas vezes preferida no quotidiano, mas também a divergência de hábitos já que cada entrada se destina a usos diferentes, potenciando deste modo a privacidade mas sobretudo a independência de cada indivíduo na sua relação com o exterior. Deixa igualmente a liberdade de opção sobre que acesso logo, que percurso tomar. Encontra-se a ideia de independência no seu paroxismo no caso do dúplex da Rua marquês da Fronteira (6) com uma entrada em cada piso, criando um acesso para os quartos independente do piso inferior, libertando o vai-e-vem de entrada e saídas na casa, podendo repartir-se pelo dois pisos. Esta independência também é notável no caso do quarto isolado da habitação 14 (rua A. Vidal) que, para além de usufruir de um máximo de intimidade em relação ao resto da casa, também dispõe do privilégio da independência, uma liberdade de acção na relação com o exterior. É o que acontece quando os quartos se situam antes da sala, mais próximos da entrada, são mais independentes do resto da casa e do grupo, para entrar e sair, sem perturbar, como veremos no próximo ponto, Posição do quarto relativamente à entrada (p. 119). 3. Zona independente Quando um quarto ou o núcleo de quartos se situa próximo da entrada permite uma relação com o exterior mais livre e proporciona mais autonomia ao indivíduo em relação aos restantes membros da família já que não se depara com os espaços
104 Zona independente: Entrada+quarto+casa debanho+cozinha. 81 2 13 15 18 19 20
105 colectivos durante o seu trajecto interior-exterior (e vice-versa). Quando existem duas entradas no fogo, o potencial de independência das diferentes áreas para com o exterior é duplicado. Nas zonas “autónomas” o habitante goza de um máximo de autonomia e a associação destas com a entrada secundária vem reforçar esta característica dando-lhe mais independência em relação aos outros indivíduos do núcleo, ao resto da habitação, ao seu funcionamento e aos seus horários. Esta pequena associação de compartimentos dissocia-se do resto da sua envolvente graças à existência de uma entrada própria e da possibilidade de se fechar integralmente em relação ao espaço ao qual pertence. Quando nesta zona existe um quarto, o que resulta desta conjugação de compartimentos é um pequeno estúdio, podendo assim ser estabelecida a analogia deste com um T0. Usufrui de uma auto-suficiência forte e assumida que o distingue ou pode vir a distingui-lo (se necessário) do resto da casa. Aqui o indivíduo pode entrar e sair sem interferir no espaço global da casa e este não vêm imiscuir-se nesta organização autónoma se considerarmos a família como uma organização democrática que tende a respeitar a privacidade e a independência de cada um dos seus membros. Na maioria dos casos, esta zona resulta da junção dos seguintes compartimentos: a cozinha, uma casa de banho, um quarto. Podendo haver também um espaço exterior, varanda/lavandaria visto o quarto em questão ser originalmente o quarto destinado à empregada. Estas zonas do tipo T0 encontram-se nos seguintes casos: Carvalhosa (1), rua da Constituição (2), Av. Infante Santo (8), Av. Duque de Ávila (13), Av. M. Bombarda (15), edifícios Luso-Lima (18) e Pasteleira (19), e na rua do Molhe (20). A dupla entrada é em grande parte “responsável” por esta autonomização, porque ao partilhar o mínimo possível das condicionantes e regras do resto do espaço e dos indivíduos que o caracterizam, o indivíduo desfaz-se das suas influências e pratica apenas as suas. Estes dispositivos contribuem par a construção voluntária do indivíduo (Cruz, 2009:117) a quem é dado o direito de se isolar quando necessita. É ele quem escolhe de se abrir ou de se fechar aos outros, de conviver e que selecciona quando, e com quem se quer relacionar. Esta liberdade de acção e de movimentos reflecte-se consequentemente nas circulações no âmbito doméstico. Se os compartimentos se alteram, alteram-se os caminhos e as diversas opções para os alcançar.
112 uma porta). Para quem se encontra do lado exterior do escritório, apenas uma porta aparece, já que a separação publico-privado é clara neste exemplo. O mesmo acontece no escritório da habitação da Avenida Miguel Bombarda (15). Esta particularidade permite a escolha entre um uso mais público deste espaço, assim associado ao exterior, ou mais privado aquando da sua fusão com o espaço dito privado, dependendo das necessidades de privacidade e do livre-arbítrio do utente do espaço. Esta abordagem à mobilidade revela que as circulações são de uma importância determinante na distribuição dos espaços da habitação e na atribuição de mais ou menos privacidade ou independência a uma zona. O tratamento dos espaços de circulações faz parte integrante do projecto de arquitectura e a sua influência não pode ser negligenciada, pois o espaço doméstico não resulta apenas da junção de diversos compartimentos. A arquitectura da habitação é precisamente um trabalho de associação harmoniosa e funcional dos espaços por ligações complexas, mas complexas num sentido positivo, por oferecer soluções diversas entre si. Resulta desta “rede” complexa uma riqueza de percursos propícia à riqueza vivencial e ao bem-estar de todos.
113
114
115 5. O QUARTO, COMPARTIMENTO ESPECIAL DA HABITAÇÃO A singularidade deste compartimento resulta da junção de vários factores, de conceitos espaciais que o elevam a este nível e materializam a sua especificidade. Lugar de predilecção da construção identitária, o quarto merece uma atenção particular. Este reúne todos o elementos essenciais ao desenvolvimento do indivíduo e concentra várias dimensões tanto simbólicas como funcionais, formando um “todo” indispensável ao indivíduo, uma unidade espacial totalizante (Barbey, 1993:122). No que toca à construção individual no quotidiano, a competência desta unidade não se prende apenas com a composição do seu interior, pois o que pode ou não acontecer dentro das suas paredes varia em função do que o rodeia. As vivências e actividades que alberga dependem não só da sua superfície, da luz que recebe ou do seu mobiliário mas também da sua relação com o exterior e com os restantes compartimentos da habitação onde se encontra, pois a sua definição é condicionada por outras especificidades inerentes ao espaço da habitação no seu todo. É nesta qualifiação que entram em jogo todos os conceitos espaciais abordados ao longo do estudo: dissociação, distância e mobilidade influem na qualidade do quarto e a mutabilidade é uma componente determinante e decisiva do espaço através da qual a alteração de um dos factores acima referidos se torna possível. A capacidade de alteração permite dar mais ênfase a um ou outro aspecto do espaço, consoante as necessidades e aspirações dos indivíduos em determinados momentos. Trata-se de um equilíbrio entre inserção no conjunto e resguardo em relação ao mesmo e aos seus habitantes. Para potenciar o quarto ao dar mais intensidade a um dos seus atributos, é possível valorizar ou reduzir traços do espaço como a privacidade (em relação ao exterior público mas também aos indivíduos do âmbito doméstico), o isolamento, a autonomia ou independência e assim garantir, por exemplo, mais ou menos exposição, para um desenvolvimento identitário em adequação com as expectativas individuais quotidianas na habitação, expectativas variáveis ao longo do tempo, nomeadamente ao longo do dia e da noite. A alteração de uma, ou de várias condicionantes espaciais (afectação dos compartimentos, distanciamento e criação de circulações) tem consequências nas propriedades interiores do quarto e todas podem ser utilizadas para fins diversos com o objectivo de alcançar o tipo de espaço esperado. Partindo das características originais das habitações, veremos como a alteração de um ou vários dos seus elementos influi na transformação da condição de este
71 5 9 12 13 16 22 4 6 8 18 19 20 17 2 143 15 14 21 1110 Duas etapas de acesso ao quatro: Átrio de entrada + porta. Duas etapas de acesso ao quatro: Átrio de entrada + vestíbulo ou corredor Uma etapa de acesso ao quarto: Átrio de entrada. Mais de duas etapas de acesso ao quarto: Átrio de entrada+sucessão de portas. Transições indefinidas. Acesso aos quartos por outros compartimentos. 15 Cores utilizadas neste capítulo: Vermelho: quarto, verde:espaço de transição, azul escuro: entrada, azul claro: sala
117 compartimento. Sendo o indivíduo e o espaço que lhe é próprio, o tema central deste estudo, cabenos perceber o seu itinerário desde a entrada até ao quarto e ver, por exemplo, se deve ou não cruzar-se ou até atravessar outras zonas ou compartimentos para alcançar o seu próprio espaço e perceber quais são os espaços e elementos que se sucedem para assegurar a sua protecção ou isolamento. 1.Sucessivasetapasdeacessoaoquarto Nos casos das habitações com bipartição mais marcada, a distribuição para as diferentes zonas faz-se o quanto antes, muitas vezes com um hall de entrada ou átrio que serve directamente a zona dia e a zona noite, sem haver a necessidade de se adiantar mais para o interior do espaço doméstico, considerando o átrio como uma antecâmera e não ainda como um espaço interior-privado, propriamente dito. Mais ou menos etapas, espaços intermédios entre a entrada e o quarto: - Duas etapas: átrio de entrada que leva ao quarto através de um corredor/vestíbulo, ou de uma porta. Esta é a situação que se repete mais vezes, encontra-se nos casos seguintes: Carvalhosa (1), rua Soc. Farmacêutica (5), rua Marquês da Fronteira (7), Av. Infante Santo (8), edifício Parnaso (9), rua Esc. Politécnica (12, com dois vestíbulos), Av. Duque de Àvila (13), Av. M. Bombarda (15, núcleo da direita), Av. G. Roçadas (16), Luso-Lima (18), Pasteleira (19, 23), rua do Molhe (20), rua Senhora da Luz (22). No dúplex da Marquês da Fronteira (6) a segunda “etapa”, faz-se pelas escadas que tem aqui o papel de corredor - Uma etapa: hall de entrada (sob a forma de um corredor) leva directamente aos quartos. Vê-se nos casos da rua da Constituição (2), Av. Brasil (3), rua A. Vidal (14, no quarto junta à entrada), Av. G. Roçadas (17). - Mais de duas etapas: átrio de entrada, portas ou vestíbulos sucessivos., como nos casos da rua A. Vidal (14) e da Av. M. Bombarda (15). Um sucessão de elementos espaciais limitam e resguardam o acesso aos quatros. Átrios, corredores e portas no caso 14 e vestíbulos, portas e átrio no caso 15. Deste modo, é garantida a máxima privacidade dos quartos em relação ao exterior, aos espaços colectivos logo, aos eventuais visitas. - Espaços não claramente definidos. No caso dos T2 do edifício Parnaso (10, 11), a passagem para os quartos faz-se através da sala, existindo num deles (10) a possibilidade de criação de um percurso alternativo para os quartos que no entanto se inicia pela sala. No caso do fogo da rua Senhora da luz (21), a entrada para o átrio dos quatros também é feita pelo
118 22 15 9 19 23 3 814 15 818 20 Entrada equidistante dos espaços colectivos e dos quartos. Quartos antecedem os espaços colectivos.
119 espaço de estar, embora seja no seu limite, já pertence efectivamente à sala. Quanto mais longe e resguardado da entrada (e dos espaços colectivos) mais os quartos e os espaços privados em geral, são preservados. Quanto mais próximos desta, quanto mais directa for a relação entre a entrada e o quarto, mais autonomia é atribuída ao espaço intimo, logo ao seu ocupante (ver tema Percursos-Mobilidade p. 97). Cada um tem vantagens a nível pessoal, o primeiro afasta o individuo da cena pública e permite-lhe sossego para a sua construção identitária. O segundo afasta os indivíduos do núcleo familiar entre si, dotando-os individualmente de mais autonomia, pré-requisito para uma emancipação futura. A escolha da localização dos compartimentos tem um impacto no uso do espaço e na relação entre as pessoas, sendo esta também importante para a construção do indivíduo do ponto de visto pessoal mas também para a interacção com quem o rodeia. 2.Posiçãodoquartorelativamenteàentrada. A sucessão de ideias abordadas no tema anterior reflecte um pensamento que parte de fora para dentro ou seja, desde o público visto como um eventual “agressor” ao mais interior, o quarto, que desempenha um papel “protector”. No entanto pode ser estabelecido o raciocínio inverso. Se considerarmos o exterior como a expressão de um desejo de emancipação para com o grupo doméstico, e se tivermos em conta a procura de uma relação livre do indivíduo como exterior, então a colocação dos quartos pode ser preferível noutro sítio. Para a emancipação e libertação do indivíduo (neste preciso aspecto) é mais vantajosa outro localização do quarto relativamente à entrada (do a que foi vista no ponto enterior), o indivíduo desfaz-se assim mais facilmente das imposições e da repressão dos que o rodeiam. No entanto, a característica decisiva não é tanto a questão da proximidade mas antes de posição, ou seja se o quarto (ou núcleo de quartos) aparece antes ou depois dos espaços colectivos. Distinguem-se 3 colocações diferentes dos compartimentos privados e colectivos, relativamente à entrada. A primeira cria uma distribuição intermédia (equidistante), acontece quando a entrada se situa entre as das duas zonas (diúrna e nocturna). Na segunda, os quartos antecedem os espaços colectivos enquanto na terceira, é a sala que precede os quartos, podendo até ser necessário o seu atravessamento para chegar aos compartimentos mais íntimos. Casos pertencentes ao primeiro tipo (equidistante): Carvalhosa (1), Av.
120 127 11 13 14 15 10 16 17 21 Quartos no seguimentos dos espaços colectivos.
121 Brasil (3), rua Soc. Farmacêutica (5), rua Marquês da Fronteira (6), Av. Infante Santo (8), Parnaso (9), Av. G. Roçadas (17), Pasteleira (19, 23). Casos que se referem ao segundo tipo (quarto precede): rua A. Vidal (14), Av. M. Bombarda (15), Luso-Lima (18), rua do Molhe (20), rua Senhora Luz (22). No terceiro grupo (quarto sucede sala) encontram-se os casos: rua da Constituição (2), rua da Esc. Politécnica (12), rua A. Vidal (14), Av. M. Bombarda (15), Av. G. Roçadas (16), rua Senhora Luz (21). Pode acontecer o mesmo fogo estar presente em duas categorias diferentes, devese à existência de dois núcleos de quartos com posições diferentes relativamente à entrada. No primeiro tipo evidencia-se um equilíbrio entre colectivo e privado na sua relação com o exterior. O segundo, defendido neste ponto, retrata a independência do privado perante os espaços colectivos. Por fim, o último vê os compartimentos pessoais sujeitados “ao olhar” público dos espaços colectivos. No entanto esta exposição varia de intensidade, dependendo da existência de um espaço de circulação expressamente criado para o acesso aos quartos. 3.Alteraçãodascaracterísticasoriginais Duas variáveis entram em conta na trilogia “entrada - espaços diúrnos - quarto“ que se refere, de uma forma simplificada, à relação entre espaços de carácter colectivo (tanto sala de estar como cozinha por exemplo) com o espaço privado por excelência, o quarto, durante o trajecto quarto - exterior da habitação (e vice-versa). Estas duas são a entrada escolhida (principal ou de serviço) e o quarto (compartimento original ou nova afectação desta função a outro espaço). A alteração de um destes, possibilitando várias combinações, influi sobre o carácter mais ou menos autónomo do quarto. Três novas combinações são possíveis. Primeiro, a entrada principal com “novo“ quarto, segundo, a entrada de serviço com quarto original ou, terceira, a entrada de serviço com quarto “novo”. A mudança de localização de um compartimento (a entrada será aqui referida como um compartimento), cria distância, neste caso entre o acesso ao espaço da habitação e o quarto, dissocia funcionalmente e ao dissociarem-se e distanciaremse provocam a criação de percursos. Consoante a sua extensão ou redução, os percursos podem relacionar mais directamente dois espaços ou ao contrário, acentuar uma separação. Trata-se concretamente da separação do quarto relativamente ao resto dos compartimentos da habitação, nomeadamente os que
128 Importou-nos decifrar o papel aberto e transigente da espacialidade como suporte para a diversidade, mas existe um factor neste estudo do qual não nos podemos esquecer, sempre que nos referimos a estas questões sociais. Estivemos perante habitação estandardizada, condicionsda por diversas normas e regulamentos (nomeadamente de dimensões, atribuição e disposição de compartimentos) e foi através desta, que tentámos perceber a forma como a padronização obrigatória não é necessariamente um entrave à adequação aos novos modelos sociais e às diversas formas de apropriação do espaço: ao habitar, no pleno sentido da palavra. Este verbo reflecte a relação entre um lugar e uma pessoa em que existe uma correspondência entre o ideal e o real. A questão do ideal não se refere ao extraordinário mas sim a um ideal modesto, que saiba simplesmente condizer com um estilo de vida, um lugar para o banal do quotidiano ( O espaço doméstico, lugar do banal , p.14). A habitação corrente analisada reflecte e comprova a intuição inicial que se prendia com a possibilidade de encontrar respostas arquitectónicas múltiplas para as necessidades dos indivíduos e das famílias contemporâneas. Reconheceuse esta aptidão através dos dispositivos que um olhar focado apenas nas questões meramente físicas do espaço não poderia decifrar. É aqui que entra a interpretação do estudante em arquitectura, previamente sensibilizado com as questões sociais. As respostas arquitectónicos subentendidas nas premissas deste trabalho foram ganhando forma até se tornarem claras. Tratam-se de dispositivos aparentemente anódinos, cujo potencial se foi revelando à medida que o estudo se compunha. O conceito de dispositivo enunciado por Monique Eleb e Anne Debarre (1984:12) como sendo a “organização de elementos associados de uma forma particular com o objectivo de produzir um efeito”, refere-se a questões de dimensão, de localização, de justaposição de compartimentos e de elementos espaciais, tal como noções de estrutura e organização da habitação. Ora, a finalidade desejada, o “efeito” varia (cada vez mais) de indivíduo para indivíduo, logo de família para família, e a combinação destes dispositivos é que permite alcançar uma interpretação pessoal dos espaços. Os dispositivos analisados tiveram como propósito criar, ou acentuar, um carácter do espaço de acordo com as necessidades singulares de cada indivíduo do núcleo familiar na habitação. Consoante a agregação dos elementos em causa será possível atribuir mais privacidade, autonomia ou independência aos indivíduos, conceitos decisivos para a sua emancipação e liberdade de afirmação como pessoa única e com necessidades próprias.
129 Os dispositivos em questão, para alcançar os conceitos anteriormente referidos, foram a dupla entrada, a dissociação dos compartimentos destinados a usos da mesma ordem ou nos mesmos horários, mas também a interposição de outro compartimento entre estes, a existência de zonas ou compartimentos autónomos tal como de zonas independentes, uma rede diversa de percursos e de acessos ao mesmo espaço. Mas outro tipo de dispositivos revelou-se igualmente proveitoso no que toca à apropriação do espaço que o indivíduo recebe ao instalar-se na habitação, um espaço comum que, através da sua acção indispensável, o habitante vai transformar num espaço correspondente às suas aspirações iniciais, e assim, fazer deste espaço, o seu chez-soi. É neste aspecto que entra em conta a complementaridade do trabalho do arquitecto com o do habitante. Se os primeiros dispositivos referenciados têm como objectivo lidar com a crescente necessidade de autonomia dos indivíduos (também dentro da esfera familiar), dado o contexto de sociedade individualizada, o segundo tipo de dispositivos oferece a possibilidade ao habitante de pôr em prática a sua subjectividade. Estes são elementos que lhe permitem conformar o espaço segundo um desejo pessoal de habitação ideal. A existência de outras possibilidades, de alternativas confere liberdade ao indivíduo, um campo de acção onde é soberano. Estas possibilidades são criadas através de espaços com propósitos indiferenciados, que admitem a permutação de usos ou de funções e que criam, desta forma, uma multiplicidade de opções. São compartimentos com características semelhantes, isotrópicos, que, pelas suas propriedades físicas neutras, deixam livre a escolha do seu uso. Ou ainda, compartimentos “extra” que acrescentam mais uma possibilidade de criação, em adição aos compartimentos com uma função subjacente. Mas a liberdade de opção pode ser constituída também pela capacidade de alteração imediata ou por períodos breves de certos compartimentos, assim os elementos de flexibilidade revelaram-se igualmente importantes para a individualização do espaço. O diálogo entre o projecto e as necessidades dos habitantes baseia-se nestes dispositivos e permite uma correspondência entre indivíduo e espaço ao longo do tempo. Assegurar uma habitação preparada para o longo prazo é muito importante. Através da interpretação das plantas das habitações projectadas nas décadas de 50 e 60, quisemos evidenciar todo o potencial envolvido em componentes a priori simples. Dispositivos como o quarto de empregada, compartimentos “extra”, o vazio, a
130 presença forte de áreas de serviço, ou ainda a dupla entrada permitem a adaptação da habitação às necessidades de uma sociedade contemporânea em que famílias e indivíduos aspiram a uma habitação em adequação com o seu estilo de vida. É neste aspecto que o espaço doméstico, como lugar do quotidiano, tem um papel determinante na construção identitária, ao propor uma multiplicidade de combinações espaciais, contribui para a diversidade dos indivíduos. Todos estes dispositivos espaciais decorrem de uma arquitectura rica e plural. Uma arquitectura que inclui o indivíduo como interlocutor de projecto. Através destes, a ambivalência inerente aos diferentes espaços da habitação é realçada, criando a complexidade indispensável à realização das consecutivas adaptações do espaço ao longo do tempo. Essa complexidade fomenta também uma vida em conjunto dinâmica, que respeita todos os membros do grupo, por oferecer uma grande versatilidade na resolução das suas diversas problemáticas. A possibilidade de (re)interpretação das propriedades originais das habitações revela a riqueza dos projectos ambivalentes aqui apresentados, cuja eficácia perdura e cuja qualidade como suporte de projectos de vida (cada vez mais) diversos ao longo do tempo se perpetua. Estes projectos, em particular, não sofrem das inevitáveis condicionantes inerentes à repetição dos modelos de apartamento nos edifícios urbanos de habitação plurifamiliar. Esta repetição é um suporte imprescindível do projecto de arquitectura mas também pode ser um suporte passível de reformulações pelos indivíduos, consoantes as suas particularidades e a singularidade do projecto de vida ao qual se dedicam. A complexidade permite que, no mesmo espaço, sejam possíveis diferentes interpretações porque cada família é em si mesmo uma realidade única. Trata-se da aproximação à habitação idealizada, do ponto de vista das vivências no espaço e da sua organização, de acordo com modos de habitar próprios, possibilitada por um certo grau de independência relativamente à habitação originalmente projectada. O estudo permitiu concluir que esta complexidade não depende de conceitos espaciais inovadores, como se poderia supor inicialmente, mas sim de dispositivos simples que podem ser integrados em todo o tipo de habitação. O processo de trabalho que estruturou a análise, permitiu salientar a qualidade da habitação pela complexidade dos seus espaços e assim estabelecer ligações com as necessidades dos indivíduos, de acordo com características vistas como positivas para a construção de um quotidiano mais rico e dinâmico, onde a identidade do indivíduo tem um papel motor.
131 Entre espaço e identidade individual, quisemos perceber tanto a complexidade como o potencial de cada um na produção de uma relação mútua enriquecedora. Pois, acreditamos que a Arquitectura está no limiar entre o concreto do domínio do físico e a vastidão dos sentimentos e das exigências relativas às questões humanas, por vezes imperceptíveis ou implícitas. A Arquitectura pretende encontrar uma ligação entre estes dois aspectos, um estritamente necessário - o material – porque é de construção que se trata, e outro - o impalpável e variável - que representa o domínio das emoções, do humano em geral. É neste ponto que reside toda a sua riqueza e complexidade, dimensões que quisemos aprofundar com a realização deste trabalho.
132 ANEXOS Corpus de fichas e Tabela
133 1 2 18 9,10,11 19 23 20 21, 22 3 8 12 4, 5 6, 7 16, 17 14 15 13 0 500 Vistas aéreas das cidades do Porto e de Lisboa. Localização e número dos casos de estudo
134 DATA 1945-1950 LOCALIZAÇÃO Rua da Boavista, 571-583. Porto ARQUITECTOS Arménio Losa - Cassiano Barbosa ÁREA 150 m ² 1- Átrio de entrada 2- Entrada serviço 3- Copa 4- Cozinha 5- Quarto empregada 6- Sala de jantar 7- Sala de estar 8- Quarto 9- Terraço 10- Casa de banho EDIFÍCIO - 5 pisos e uma cave. - Acesso central, distribuição esquerdo-direito - 2 fogos T3+1 por piso-tipo, idênticos e simétricos e 2 fogos T3 no piso térreo. Trata-se de um dos primeiros prédios de rendimento no Porto. Denota-se a preocupação modernista de recuo do edifício de 5 metros com pequeno jardim a fazer a transição com a rua, resguardando o primeiro piso, elevado em relação à cota do passeio. A linguagem da fachada destaca duas áreas distintas, a de serviços com pequenos vãos, e dos espaços colectivos com grandes panos de vidro. Fig. 1. Vista aérea Fig. 3. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 4. Fachada Rua da Boavista Fig. 2. Planta do piso de entrada 1 1 2 3 4 5 6 7 8 8 89 10 10 11 1 10
135 DATA 1950 LOCALIZAÇÃO Rua da Constituição, 27-63. Porto ARQUITECTOS Arménio Losa - Cassiano Barbosa ÁREA 150 m ² 1. Hall de entrada 2. Entrada serviço 3. Sala de jantar 4. Sala de estar 5. Quarto 6. Casa de banho 7. Cozinha 8. Copa 9. Quarto empregada EDIFÍCIO - 4 pisos - 4 fogos por piso tipo, dois T2 e dois T3+1 2 T3+1 e 2 T1 no piso térreo - 3 entradas. Acesso esquerdo-direito para os T2 e caixa de escadas própria os cada T3+1. Edifício extenso que se destaca pela regularidade do seu alçado. Na sua implantação resulta da junção de três lotes portuenses, trata-se de um projecto exclusivamente habitacional. Rés-do-chão elevado em relação à cota da rua. Edifício com diversas tipologias, do T1 ao T3+1. Os seus interiores destacam-se pela sua flexibilidade nomeadamente na configuração dos espaços comuns. Fig. 5. Vista aérea Fig. 6. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 8. Fachada da Rua da Constituição 2 10. Lavandaria 11. Varanda 1 2 345 6 6 9 7 8 10 11 5 5 Fig. 7. Planta do piso tipo 1 10
136 DATA 1952-1954 LOCALIZAÇÃO Avenida Brasil, 136. Porto ARQUITECTO Fernando Távora ÁREA 150 m ² 1. Hall de entrada 2. Sala de estar 3. Sala de jantar 4- Cozinha 5. Quarto e casa de banho empregada 6. Casa de banho 7. Quarto 8. Varanda 9. Pátio de ventilação EDIFÍCIO - 5 pisos. 3 pisos-tipo com 1 fogo T3+1 por piso - Restantes pisos: rés-do-chão com garagens e terraço no último piso. - Caixa de escadas interior. Edifício de habitação implantado num lote típico do Porto: estreito e comprido. Forma à qual se deve a abertura de uma “caixa de ar“ no seu interior para permitir a iluminação dos espaços interiores. A linguagem da fachada, muito clara, afirma a sua horizontalidade, com uma varanda em todo o comprimento do edifício. A sua forma, juntamente com a presença da caixa de ventilação e de uma caixa de escadas central, permite uma repartição distinta dos espaços principais, em cada extremidade do volume. Fig. 9. Vista aérea Fig. 10. Planta do fogo - Esc. 1/400 Planta do piso tipo Fig. 11. Fachada da Avenida Brasil 3 1 2 3 4 5 6 7 7 7 8 8 9 1 10
137 DATA 1953 LOCALIZAÇÃO Rua da Sociedade Farmacêutica, 40. Lisboa ARQUITECTO Sérigo Gomes ÁREA 87 m² 1. Hall de entrada 2. Entrada de serviço Lavandaria 3. Cozinha 4. Sala comum 5. Quarto 6. Casa de banho 7. Dispensa 8. Varanda EDIFÍCIO - 7 pisos - Acesso central, distribuição esquerdo-direito - 3 fogos diferentes por piso - Rés-do-chão com comércios Fig. 12. Vista aérea Fig. 13. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 15. Fachada da Rua da Sociedade Farmacêutica Fig. 14. Planta do piso tipo Edifício de habitação em gaveto. Possui uma linguagem de fachada sóbria, um pano de parede pontuado por vãos e rematado em cada extremidade por um envidraçado. Cada piso é marcado no alçado pela saliência da laje. Existe uma diversidade na resuloção dos vários fogos, estes com áreas relativamente pequenas. 4 1 23 4 5 5 6 67 8 1 10
144 1. Hall de entrada 2. Cozinha 3. Lavandaria 4. Quarto 5. Casa de banho 6. Sala de jantar 7. Varanda Fig. 40. Planta do fogo. Esc. 1:500 11 1 34 2 5 6 4 7 DATA 1955 LOCALIZAÇÃO Rua Nossa Senhora de Fátima, 231. Porto ARQUITECTO José Carlos Loureiro ÁREA 70 m ² Fig. 39. Vista aérea EDIFÍCIO - 6 pisos - 5 pisos tipo - Distribuição em galeria, acessos verticais numa extremidade - 3 fogos por piso. 1 T3, 2 T2. Fig. 42. Fachada da Rua Nossa Senhora de Fátima Fig. 41. Planta do piso tipo Este edifício de habitação e de comércio tem a particularidade de englobar também uma escola de música. Este projecto soube destacar-se pela sua ousadia, numa época em que o estilo do Regime ainda predominava (Loureiro, 2012:56), tanto no seu aspecto exterior como na organização dos seus fogos. Prima a sua expressão moderna, quer interior com a flexibilidade dos espaços, quer exterior pela linguagem da fachada e acesso aos fogos por uma galeria voltada para a rua. 1 10
145 DATA 1956 LOCALIZAÇÃO Rua da Escola Politécnica, 80. Lisboa ARQUITECTO Manuel Laginha ÁREA 110 m ² 1. Hall de entrada 2. Cozinha 3. Lavandaria 4. Sala comum 5. Quarto e casa de banho empregada 6. Casa de banho 7. Quarto 8. Escritório 9. Varanda EDIFÍCIO - 6 pisos (incluindo 1 recuado) - Acesso central, distribuição esquerdo-direito - 2 fogos diferentes por piso Este edifício cujo desenho de fachada é muito cuidado, afirma o seu carácter moderno pela sua forte tensão horizontal mas também pelos panos de vidros apenas interrompidos por pilares, as varandas recuadas e a demarcação evidente dos pisos. Trata-se de um edifício implantado num lote um pouco irregular, daí a necessidade de um desenho do espaço menos comum (Agarez, 2009:172). Fig. 43. Vista aérea Fig. 44. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 46. Fachada da Rua da Escola Politécnica Fig. 45. Planta do piso tipo 12 8 1 3 4 2 7 6 5 7 9 9 1 10
146 DATA 1956 LOCALIZAÇÃO Avenida Duque de Ávila, 61. Lisboa ARQUITECTO Sérgio Gomes ÁREA 175 m ² 1. Hall de entrada 2. Entrada serviço 3. Quarto e casa de banho empregada 4. Cozinha 5. Copa 6. Sala de jantar EDIFÍCIO - 8 pisos - Acesso central, um fogo T4+1 por piso Este edifício fazia parte de um conjunto maior não realizado que previa, nomeadamente, blocos em pilotis (Agarez, 2009:121). A fachada decorre da organização interior do fogo e participa na sua definição. Esta é composta por elementos tipicamente modernos, como a sobreposição assumida dos pisos com a marcação da lajes e os elementos horizontais, ou com uma varanda em “negativo”, por exemplo. 7. Sala de estar 8. Escritório 9. Quarto 10. Casa de banho 11. Varanda Fig. 47. Vista aérea Fig. 48. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 49. Fachada da Av. Duque de Ávila Planta do piso tipo 13 9 1 3 4 2 5 6 7 8 10 9 9 10 11
147 DATA 1956 LOCALIZAÇÃO Rua Angelina Vidal, 31. Lisboa ARQUITECTO Bento d’Almeida ÁREA 107 m² 1. Hall de entrada 2. Entrada serviço 3. Marquise 4. Cozinha 5. Dispensa 6. Sala de estar/jantar 7. Quarto 8. Casa de banho 9. Varanda EDIFÍCIO - 4 pisos - Acesso central, hall de distribuição - 3 fogos diferentes por piso. Edifício de habitação situado numa zona mais periférica da cidade. A irregularidade do lote leva à complexidade dos interiores. A tensão horizontal das linhas directrizes do alçado e a clareza da linguagem simples da fachada expressam o seu carácter moderno. 14 Fig. 50.Vista aérea Fig. 51. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 53. Fachada da Rua Angelina Vidal Fig. 52. Planta do piso tipo 1 7 3 6 5 7 2 7 8 7 8 9 9 4 1 10
148 DATA 1959 LOCALIZAÇÃO Avenida Miguel Bombarda, 93. Lisboa ARQUITECTOS Maurício Trindade Chagas - João Maria de Braúla Reis ÁREA 200 m ² 1. Hall de entrada 2. Entrada serviço 3. Cozinha 4. Lavandaria 5. Quarto e casa de banho empregada 6. Sala de jantar 7. Sala de estar 8. Quarto 9. Casa de banho EDIFÍCIO - 7 pisos - Acesso central - 1 fogo T3+1 por piso Trata-se de um edifício que se distingue dos outros exemplos das avenidas novas da cidade pela organização atípica dos seus interiores (Agarez, 2009:127). O alçado, embora muito cuidado, prima pela sua sobriedade, com as varandas e os seus envidraçados como elemento central e janelas médias em cada extremidade. Contrapondo a sua verticalidade assumida aos elementos horizontais do alçado. No que toca aos interiores, prima a flexibilidade do espaço, facilitada pela suas dimensões generosas. Fig. 54. Vista aérea Fig. 55. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 56. Fachada da Av. Miguel Bombarda Planta do piso tipo 15 5 89 43 2 1 6 7 8 8 9
149 DATA 1960 LOCALIZAÇÃO Avenida General Roçadas, 36. Lisboa ARQUITECTOS Manuel Martins Garrido e Jorge Costa Maia ÁREA 66 m ² 1. Átrio de entrada 2. Cozinha 3. Dispensa 4. Lavandaria 5. Sala comum 6. Quarto 7. Casa de banho 16 EDIFÍCIO - 4 pisos - Acesso central, apenas com caixa de escada. Distribuição por um pequeno corredor interior - 4 fogos T2 diferentes por piso tipo Este edifício faz frente a um pequeno largo no cruzamento de duas ruas, numa zona menos nobre da cidade. Esta condicionante económica, embora presente na elaboração do edifício, não impediu a inserção de elementos modernos na linguagem da sua sóbria fachada. Os projectistas tiveram especial atenção na inserção urbana do edifício mas também na valorização de cada divisão dos fogos, preocupados com as práticas domésticas. Fogos com dimensões relativamente reduzidas em que a localização e superfícies dos espaços foram especialmente cuidadas (Agarez, 2009:168). Fig. 57. Vista aérea Fig. 58. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 60. Fachada da Av. General Roçadas Fig. 59. Planta do piso tipo 1 3 4 2 5 6 7 6 1 10
150 1. Átrio de entrada 2. Dispensa 3. Quarto 4. Cozinha 5. Sala comum 6. Casa de banho Fig. 62. Planta do fogo. Esc. 1:400 1 3 4 2 5 6 3 DATA 1960 LOCALIZAÇÃO Avenida General Roçadas, 36. Lisboa ARQUITECTOS Manuel Martins Garrido e Jorge Costa Maia ÁREA 76 m ² 17 Fig. 61. Vista aérea EDIFÍCIO - 4 pisos - Acesso central, apenas com caixa de escada. Distribuição por um pequeno corredor interior - 4 fogos T2 diferentes por piso tipo Este edifício faz frente a um pequeno largo no cruzamento de duas ruas, numa zona menos nobre da cidade. Esta condicionante económica, embora presente na elaboração do edifício, não impediu a inserção de elementos modernos na linguagem da sua sóbria fachada. Os projectistas tiveram especial atenção na inserção urbana do edifício mas também na valorização de cada divisão dos fogos, preocupados com as práticas domésticas. Fogos com dimensões relativamente reduzidas em que a localização e superfícies dos espaços foram especialmente cuidadas (Agarez, 2009:168). Fig. 64. Fachada da Av. General Roçadas Fig. 63. Planta do piso tipo 1 10
151 DATA 1962 LOCALIZAÇÃO Rua da Alegria, Porto ARQUITECTOS José Carlos Loureiro - Luis Pádua Ramos ÁREA 120 m² 1. Hall de entrada 2. Entrada serviço Lavandaria 3. Cozinha 4. Quarto casa de banho empregada 5. Copa 6. Sala de jantar 7. Sala de estar EDIFÍCIO - 6 pisos - Divisão em 4 blocos justapostos com acesso central esquerdodireito - 2 fogos por piso, praticamente idênticos e com uma simetria parcial. Fig. 65. Vista aérea Fig. 66. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 68. Fachada da Rua da Alegria Fig. 67. Planta do piso tipo 18 9 1 3 4 2 5 6 7 888 9 10 8. Quarto 9. Casa de banho 10. Varanda Este edifício pertence a um complexo maior implantado no Campo do Luso e serve de remate do lado Nascente. Insere-se num arborizado, um espaço tranquilo onde o volume de mais de 100 metros de extensão (Loureiro, 2012:80), está protegido da envolvente. 1 10
152 DATA 1964-1967 LOCALIZAÇÃO Rua João Baptista Lavanha, Porto ARQUITECTOS Pedro Ramalho - Sérgio Fernandez ÁREA 130 m ² 1. Átrio de entrada 2. Entrada de serviço Lavandaria 3. Quarto empregada 4. Cozinha 5. Casa de banho 6. Sala de jantar 7. Sala de estar 8. Quarto 9. Varanda EDIFÍCIO - 6 pisos - 2 acessos verticais situados na fachada, distribuição esquerdo-direito - 4 fogos T3+1 por piso tipo Fig. 70. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 72. Fachada traseira Fig. 71. Planta do piso tipo À semelhança do edifício do fogo 18, este encontra-se implantado de forma livre e independente em relação aos arruamentos principais, fazendo desta forma relembrar alguns princípios da cidade jardim, visto estes estarem também rodeados de vegetação. No entanto, o edifício está aqui mais directamente relacionado com a rua, embora se distancie desta com uma superfície ajardinada. Praticamente a totalidade dos edifícios da envolvente reproduzem este esquema de blocos independentes. 19 1 3 4 2 56 7 88 8 5 9 Fig. 69. Vista aérea 1 10
153 DATA 1966 LOCALIZAÇÃO Rua do Molhe, .Porto ARQUITECTOS José Carlos Loureiro - Luis Pádua Ramos Maria Noémia Coutinho ÁREA 130 m² 1. Átrio de entrada 2. Entrada serviço 3. Quarto-casa de banho empregada 4. Lavandaria 5. Cozinha 6. Escritório 7. Sala de jantar 8. Sala de estar EDIFÍCIO -4 pisos-3 blocos justapostos -3 acessos, distribuição esquerdo-direito -5 fogos por piso tipo Este edifício, que desenha o cruzamento de duas ruas, reparte-se em três blocos justapostos, um deles recuado em relação à rua, cujas amplas varandas fazem a transição com os blocos vizinhos. Trata-se de uma fachada com um jogo de negativos e positivos realçado pela profundidade das varandas, mas sempre com a constante horizontal que marca cada piso, alusão ao moderno. Fig. 73. Vista aérea Fig. 74. Planta do fogo. Esc. 1:400 Fig. 76. Fachada da Rua de Gondarém 20 9 1 34 2 567 8 10 99 10 Fig. 75. Planta do piso tipo 11 9. Quarto 10. Casa de banho 11. Varanda 1 10