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A Arquivística como disciplina aplicada no campo da Ciência da Informação

Ribeiro, Fernanda

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ARTIGOS DE REVISÃO Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011. http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/pgc. ISSN: 2236-417X. Publicação sob Licença . A ARQUIVÍSTICA COMO DISCIPLINA APLICADA NO CAMPO DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Fernanda Ribeiro Doutora em Ciências Documentais pela Universidade do Porto, Portugal; Professora da Universidade do Porto, Portugal E-mail: [email protected] Resumo Apesar de os arquivos terem origens muito remotas, que se podem confundir com as origens da própria escrita, a Arquivística como disciplina só no século XIX e no quadro do historicismo e do positivismo, se começou a afirmar, numa perspectiva de “ciência auxiliar” da História. Esta perspectiva historicista e custodial adquiriu novos contornos por alturas da viragem do século, graças à afirmação da vertente tecnicista, que se desenvolveu ao longo de todo o século XX, por efeito das condições sociais, económicas e culturais derivadas da revolução tecnológica em curso. Neste texto põe-se em confronto o tradicional paradigma historicista, custodial e tecnicista da Arquivística com um novo paradigma emergente, apelidado de pós-custodial, informacional e científico que entende esta disciplina como um saber aplicado do campo da Ciência da Informação, sendo apresentados os fundamentos epistemológicos, teóricos e metodológicos da abordagem proposta. Palavras-chave: Arquivística. Ciência da Informação. Paradigma. 1 DAS ORIGENS À REVOLUÇÃO FRANCESA: UMA EVOLUÇÃO SEM SOBRESSALTOS Durante um largo período de desenvolvimento, que decorreu praticamente desde as origens da escrita ao fim do Antigo Regime, os sistemas de arquivo evoluíram de uma forma natural, acompanhando as necessidades dos respectivos organismos produtores/utilizadores da informação por eles custodiada. Na verdade, a origem dos arquivos confunde-se com o próprio surgimento da escrita, o que demonstra a ideia de que eles sempre foram encarados como bases e veículos de informação. Os primeiros arquivos reuniam já ingredientes que vieram a tornar-se clássicos e que hoje são ainda assumidos pela disciplina: estrutura orgânica coerente, em correspondência com as funções e com a actividade das entidades produtoras; regras de controlo e matriz diplomática eficazes, como forma de garantir a identidade e a autenticidade dos documentos; valor como testemunho e como instrumento de informação. A prática das civilizações pré-clássicas já assentava em princípios intuitivamente assumidos e o desenvolvimento da administração e da jurisprudência, bem como a afirmação da cultura greco-latina, permitiram avanços muito significativos no domínio da organização arquivística. Na transição do Mundo Antigo para a Idade Média deu-se a cristalização do conceito e a vulgarização do termo arquivo. Contudo, existe um grande vazio de conhecimentos sobre o processo arquivístico até quase à Época Moderna, o qual resulta da fragilidade dos suportes documentais utilizados (como o papiro) e da usura do tempo, contribuindo para que o mais importantes arquivos fossem completamente destruídos ou desarticulados, restando poucas notícias a seu respeito. Desde muito cedo, a instabilidade política e social levou à mutilação e à transferência de arquivos, conduzindo a uma quebra da sua estrutura sistémica original. A migração de Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 60 arquivos deu-se, em parte, pelo reconhecimento da sua importância estratégica, como meio de informação e como um produto/recurso das sociedades. A evolução do sistema administrativo contribuiu também para a instabilidade dos arquivos. No século XIV voltam a desenvolver-se os arquivos da administração e, nas grandes cortes europeias, assiste-se à nomeação de arquivistas oficiais, incumbidos de organizar inventários, garantir a autenticidade dos documentos e elaborar as “memórias” dos seus patronos. A experiência dos Estados peninsulares demonstra existir um processo evolutivo, sem sobressaltos, da Idade Média para a Época Moderna. No século XVII, começaram a aparecer diversos manuais, portadores de uma concepção jurídica da realidade arquivística. O trabalho nos arquivos passou a assentar em normas escritas, que contribuíam para a organização do saber. Com o movimento iluminista, que suscitou a intensificação da procura dos arquivos, começa a enfatizar-se o chamado “valor secundário” dos documentos. Uma das consequências nefastas desta nova curiosidade pelos arquivos foi o desvio introduzido pelas classificações metódicas e a preferência pela ordenação cronológica dos documentos, sem atender ao seu contexto produtor, mas indo de encontro a interesses externos. Na área administrativa surgiram, contudo, algumas propostas isoladas sobre matérias que iriam dar corpo à disciplina: classificação dos acervos por departamentos de origem, organização de incorporações trienais e selecção por amostragem (SILVA et al., 2002). 2 A REVOLUÇÃO FRANCESA: AS ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS NOS ARQUIVOS E O SURGIMENTO DA ARQUIVÍSTICA COMO DISCIPLINA Com a Revolução Francesa, os arquivos sofreram o efeito modelador da viragem estrutural ocorrida no processo histórico, com particular destaque para as implicações políticoideológicas, institucionais e jurídico-administrativas. Os chamados arquivos históricos (serviços públicos) surgem ao serviço da memória do novo Estado-Nação e formaliza-se, pela primeira vez, o propósito de liberalização do acesso aos arquivos pela generalidade da população. A criação de um órgão nacional, especificamente vocacionado para a superintendência dos arquivos, foi outro importante contributo da Revolução Francesa. A política concentracionista do novo regime teve, porém, consequências desastrosas, ao promover incorporações em massa, às quais se sucedeu uma reordenação metódica dos documentos, a partir de classificações anti-naturais que adulteraram a sua orgânica original. A desorganização instaurada pelas reclassificações provocou um inevitável alarme e fez com que o governo francês, em 1841, emitisse uma circular para repor a ordem nos arquivos departamentais e comunais1. Pela primeira vez, se consagrou, a título oficial, o “princípio do respeito pelos fundos”, o qual tem sido considerado como o fundamento clássico da Arquivística. No entanto, os resultados não foram, de início, tão efectivos como seria de supor, dado que veio a ser adoptada uma solução híbrida: o “fundo” era considerado uma entidade indivisível, mas a sua ordem interna ficava sujeita a critérios alheios à respectiva organicidade. A constatação desta incongruência levou a que, em Itália, se propusesse a adaptação daquele princípio de acordo com o chamado “método histórico” (1867). Era, assim, defendido, também, o “respeito pela ordem original”, ou seja, a preservação dos critérios organizativos praticados pela entidade produtora. 1 Referimo-nos à circular do Ministério do Interior francês, intitulada Instructions pour la mise en ordre et le classement des archives départementales et communales, que foi redigida pelo arquivista e historiador, Natalis de Wailly. Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 61 O século XIX caracterizou-se pela ocorrência de novas deturpações sobre a função dos arquivos e sobre os princípios de organização. A Arquivística emerge como disciplina, mas com o estatuto de “auxiliar” da Ciência Histórica, ligando-se à Paleografia e à Diplomática, dentro dos parâmetros metodológicos do conhecimento histórico. Os arquivos passaram, muitas vezes, a ser geridos por pessoas sem formação administrativa, que, activamente, provocaram a desagregação de muitos acervos documentais. Embora se deva reconhecer os benefícios da recolha de fontes e da produção de instrumentos de pesquisa, que marcaram amplamente este período, os efeitos perversos são evidentes. Começou, então, a acentuar-se o primado discriminatório do valor dos documentos de interesse histórico e, para além disto, o desenvolvimento dos arquivos destinados a incorporar esse tipo de documentos fez com que crescessem, de forma artificial, serviços especializados, cuja exclusiva função passou a ser a de preservar e tornar acessível a documentação que custodiavam, num crescente e nocivo afastamento das administrações produtoras. A edição do “Manual Holandês”, da autoria de S. Muller, J. H. Feith e R. Fruin (1898), marcou o início de um novo período, em que o predomínio da vertente técnica se vai afirmar definitivamente, libertando a teoria e a prática dos arquivos da dependência directa das concepções historiográficas. E não terá sido por acaso que, nessa época, se começou a vulgarizar o termo Arquivística, para definir um campo de saber específico, dirigido a funções técnicas que se, por um lado, valorizavam a custódia, por outro, incidiam sobre o controlo e a avaliação dos documentos (da fase corrente até à definitiva). Esta nova perspectiva não tardou a ser confrontada com o impacte da industrialização e da complexificação burocrática, que acarretaram novos desafios para a disciplina. No período entre Guerras, a Arquivística descritiva, desenvolvida em torno da noção instrumental e incorporacionista de “fundo”, começou a dar espaço a outro tipo de preocupações, nomeadamente ao nível da gestão de arquivos e da cooperação. O problema das eliminações tornou-se, também, um tema emergente ao longo deste período, devido ao considerável aumento da produção documental. Com o agravar da situação pelo aumento incomensurável de documentos nas administrações, após a 2ª Guerra Mundial, generalizou-se o apodítico princípio das “três idades do arquivo”, que pode ter tido origem em Itália, no início do século XX, por meras razões práticas de instalação dos documentos. Se é certo que esta pretensa teoria parece apontar para uma cadeia relativamente ininterrupta no ciclo de vida dos documentos, a verdade é que gerou um efeito perverso, ao levar à criação de serviços e de depósitos, a maior parte das vezes desarticulados entre si, provocando, assim, distorsões contra-naturam em unidades sistémicas que, desde há milénios, possuíam uma sólida coerência interna. Nos Estados Unidos da América, por razões de ordem pragmática, apareceu o conceito operatório de record group e a actividade profissional do records management. Em tal quadro, a gestão documental começou a afirmar-se como uma nova área disciplinar, num estreito vínculo com a administração, num certo repúdio pela arquivística (disciplina auxiliar da História) e num perigoso corte epistemológico entre diacronia e sincronia da informação social. O nascimento do Conselho Internacional de Arquivos, em 1948, permitiu um debate mais alargado sobre os fundamentos da disciplina. A separação que se estabeleceu entre records e archives, sobretudo na tradição cultural anglo-saxónica, acabou por gerar, forçosamente, novas preocupações de índole teórica. Nos anos mais recentes, começou a ser defendida a inserção da Arquivística no campo da Ciência da Informação. Foi o início da era “pós-custodial” em que os arquivos emergem como sistemas de informação, cuja complexidade nem sempre se confina à ordem material dos documentos e cuja organicidade transcende as vicissitudes da sua tradição custodial. Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 62 Com efeito, a partir dos anos 80, a nova revolução tecnológica e social, ilustrada pela vertiginosa evolução em curso, sobretudo, no domínio do audiovisual e da telemática, forçou a emergência de uma situação transitória, anunciadora de um novo ciclo, concretamente para as disciplinas, como a Arquivística, relacionadas com o fenómeno social da informação. A percepção do impasse e do salto epistemológico, que afectam, hoje, o conhecimento empírico construído em torno de tal fenómeno, não é ainda partilhada por muitos cientistas da informação, porque não é ainda muito nítida a fundamentação epistemológica das suas respectivas ciências e, em especial, das até agora chamadas “ciências documentais”. 3 A TRANSIÇÃO DE PARADIGMAS NA ERA PÓS-CUSTODIAL Neste percurso evolutivo da Arquivística, brevemente delineado nos pontos anteriores, podemos considerar três fases, que a seguir se caracterizam de forma esquemática, devidamente enquadradas no devir do processo histórico (ver Fig. 1): - a fase sincrética e custodial; - a fase técnica e custodial; e - a fase científica e pós-custodial. As duas primeiras fases enquadram-se no paradigma que se desenvolveu e consolidou após a Revolução Francesa e que apelidamos de custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista; a última insere-se no novo paradigma, em consolidação, que denominamos informacional, científico e pós-custodial. O paradigma custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, que se afirmou, desenvolveu e consolidou ao longo das centúrias de oitocentos e novecentos e que, por força da revolução tecnológica, entrou em crise e começou a gerar, no seu próprio seio, os factores de mudança que o iriam abalar fortemente a partir da década de oitenta do século passado, pode ser caracterizado, em traços gerais, da seguinte forma (SILVA et al., 1999; SILVA; RIBEIRO, 2002; SILVA, 2006): - sobrevalorização da custódia ou guarda, conservação e restauro do suporte, como função basilar da actividade profissional de arquivistas e bibliotecários; - identificação do serviço/missão custodial e público de Arquivo e de Biblioteca, com a preservação da cultura “erudita”, “letrada” ou “intelectualizada” (as artes, as letras e as ciências), em antinomia mais ou menos explícita, com a cultura popular, “de massas” e de entretenimento; - enfatização da memória como fonte legitimadora do Estado-Nação e da cultura como reforço identitário do mesmo Estado e respectivo Povo, sob a égide de ideologias de viés nacionalista; - importância crescente do acesso ao “conteúdo”, através de instrumentos de pesquisa (guias, inventários, catálogos e índices) e do aprofundamento dos modelos de classificação e indexação, derivados do importante legado tecnicista e normativo dos belgas Paul Otlet e Henri La Fontaine, com impacto na área da documentação científica e técnica, possibilitando a multiplicação de Centros e Serviços de Documentação/Informação, menos vocacionados para a custódia e mais para a disseminação informacional; - prevalência da divisão profissional decorrente da criação e desenvolvimento dos serviços/instituições Arquivo e Biblioteca, indutora de um arreigado e instintivo espírito corporativo que fomenta a confusão entre profissão e ciência (persiste a ideia equívoca de que as profissões de arquivista, de bibliotecário e de documentalista geram, naturalmente, disciplinas científicas autónomas como a Arquivística/Arquivologia, a Biblioteconomia/ Bibliotecologia ou a Documentação) (SILVA, 2006). Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 63 Figura 1 - O Processo Informacional relativo aos Arquivos Fonte: elaboração própria Estes traços não esgotam a caracterização possível do modo de ver e de agir dos profissionais da documentação/informação, uma vez que se vêem confrontados, na actualidade, com alterações estruturais propiciadoras da emergência de um novo paradigma FASE SINCRÉTICA E CUSTODIAL Arquivista - Paleógrafo Arquivista auxiliar da História SÉC. XVIII – 1898 - Incorporação maciça da documentação de organismos extintos - Arquivo Nacional - Noção de fundo (1841) FASE TÉCNICA E CUSTODIAL Especialização Profis - sional do Arquivista 1898-1980 - Arquivos históricos - Arquivos administrativos - Gestão de Documentos - Normalização (terminologia, classificação) - Reformulação crítica da noção de fundo FASE CIENTÍFICA E PÓS-CUSTODIAL Arquivista pro fissional da Informação Emergência do arquivista / cientista da Informação 1980- …. - Arquivos como Sistemas de Informação - Conhecimento arquivístico - Normalização do acesso aos arquivos e à Informação - Revolução industrial - Revoluções políticas e sociais - Racionalismo, Positivismo, Historicismo - Estado-Nação - 2.ª e 3.ª vagas de industrialização - Evolução tecnológica e científica - Democracia e Totalitarismos - Consequências da pós-industrialização - Sociedade da Informação - Globalização da economia PROCESSO HISTÓRICO Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 64 (informacional, científico e pós-custodial), que começou a despontar, há umas décadas, através do reforço da componente tecnicista do paradigma custodial, patrimonialista e historicista. Tal componente acentuou-se, a partir dos anos sessenta do século XX, com a generalização do legado de Paul Otlet e Henri La Fontaine e com a intensificação de políticas centradas na difusão da informação científica e técnica e com a afirmação do Estado Cultural. Na actualidade, não se perspectiva o fim do Estado Cultural, democrático, intervencionista e modelado pelo capitalismo financeiro e informacional, mas é cada vez mais evidente, de acordo com David Lyon, o impacto da Era da Informação ou Era Digital, pela realização de tarefas relacionadas com a informação editando, reunindo, armazenando, consultando e disseminando os dados disponíveis, porquanto os dados processados são formas de informação simbólica (LYON, 1992, p. 141). Ainda segundo David Lyon, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) vêm contribuindo para o desmoronamento de barreiras entre as categorias clássicas da informação, bastando para tal notar que um mesmo meio electrónico pode transportar a voz, o vídeo, dados técnicos ou financeiros, imagens fotográficas ou textos escritos, polivalência ou simultaneidade de funções que abatem velhas distinções, nomeadamente no caso da “edição electrónica” em que os papéis de escritor, de editor e de impressor se fundem num só (LYON, 1992, p. 141-142). É, pois, no contexto da era da informação em pleno desenvolvimento e no quadro da revolução digital que o novo paradigma informacional, científico e pós-custodial se tem vindo a afirmar e a substituir o paradigma anterior. Contrapondo ao que anteriormente foi dito em jeito de caracterização do paradigma custodial, historicista e tecnicista, também se pode, em linhas gerais, enunciar uma série de características que ajudam a compreender a nova perspectiva que está em consolidação. Vejamos, então, como se caracteriza o novo paradigma informacional, científico e pós-custodial: - valorização da informação enquanto fenómeno humano e social, sendo a materialização num qualquer suporte um epifenómeno; - constatação do incessante e natural dinamismo informacional, oposto ao “imobilismo” documental, traduzindo-se aquele pelo trinómio criação/selecção natural/acesso-uso, e o segundo, na antinomia efémero versus permanência; - prioridade máxima dada ao acesso à informação por todos, em condições bem definidas e transparentes, pois só o acesso público justifica e legitima a custódia e a preservação; - imperativo de indagar, compreender e explicitar (conhecer) a informação social, através de modelos teórico-científicos cada vez mais exigentes e eficazes, em vez do universo rudimentar e fechado da prática empírica composta por um conjunto uniforme e acrítico de modos/regras de fazer, de procedimentos só aparentemente “assépticos” ou neutrais de criação, classificação, ordenação e recuperação; - alteração do actual quadro teórico-funcional da actividade disciplinar e profissional por uma postura diferente, sintonizada com o universo dinâmico das Ciências Sociais e empenhada na compreensão do social e do cultural, com óbvias implicações nos modelos formativos dos futuros profissionais da informação; - substituição da lógica instrumental, patente nas expressões “gestão de documentos” e “gestão da informação”, pela lógica científico-compreensiva da informação na gestão, isto é, a informação social está implicada no processo de gestão de qualquer entidade ou organização e, assim sendo, as práticas informacionais decorrem e articulam-se com as concepções e práticas dos gestores e actores e com a estrutura e cultura organizacionais, devendo o cientista da informação, em vez de ou antes de estabelecer regras operativas, compreender o sentido de tais práticas e apresentar dentro de certos modelos teóricos as soluções (retro ou) prospectivas mais adequadas (SILVA, 2006). Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 65 4 A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO É no quadro do novo paradigma que assumimos a emergência da Ciência da Informação (CI), numa evolução natural das disciplinas práticas que a antecederam (Biblioteconomia, Arquivística, Documentação), isto é, sem rupturas radicais, mas antes numa perspectiva transdisciplinar que as integra como componentes aplicadas. Os diagramas que se seguem ilustram, precisamente, esta perspectiva e pretendem cartografar o campo científico e delimitar as fronteiras da CI, ao mesmo tempo que ilustram as suas relações inter e transdisciplinares (ver Fig. 2 e 3). Figura 2 - Diagrama do Campo da Ciência da Informação Fonte: SILVA, 2006, p. 28. Arquivística SOCIEDADE condições políticas, técnicas, económicas, culturais, etc. acção humana interdisciplinaridade transdisciplinaridade Biblioteconomia Sistemas de Informação DIAGRAMA DO CAMPO CIENTÍFICO DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO Ciências da Administração e Gestão Ciências da Comunicação INFORMAÇÃO SOCIAL Informática Computação Electrónica História Sociologia Património Cultural Museologia Psicologia Cognitiva Linguística Semiótica Física Química e outras Ciências Naturais aplicadas aos suportes OBJECTO MATERIAL Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 66 Figura 3 - Diagrama da construção trans e interdisciplinar da Ciência da Informação Fonte: SILVA, 2006, p. 28. Ao pensarmos e fundamentarmos a CI, além do estabelecimento das suas fronteiras, é crucial a definição do seu objecto de estudo e a assunção de um método ajustado às características do fenómeno da Informação (social), enfatizando a sua componente qualitativa (embora não descurando os aspectos passíveis de análise e de investigação quantitativa), como, aliás, é próprio e específico das ciências sociais. No que toca ao objecto da CI – a Informação –, ter como ponto de partida uma definição é, a nosso ver, um requisito indispensável, pois funciona como conceito operatório matricial. No já referido ensaio epistemológico, Das “ciências” documentais à Ciência da Informação, foi definida como segue: Informação – conjunto estruturado de representações mentais codificadas (símbolos significantes) socialmente contextualizadas e passíveis de serem registadas num qualquer suporte material (papel, filme, banda magnética, disco compacto, etc.) e, portanto, comunicadas de forma assíncrona e multidireccionada (SILVA; RIBEIRO, 2002, p.37). E, neste sentido, assume-se como o objecto de estudo e de trabalho da CI. Complementando a definição, amplia-se a caracterização do fenómeno ‘informação’ pelo enunciado das suas propriedades, que, embora já mencionadas por Harold Borko em 1968 (BORKO, 1968), ou mesmo por Yves-François Le Coadic no seu livro intitulado A Ciência da Informação (LE COADIC, 2004), não haviam sido formuladas, a nosso ver, de uma forma Fernanda Ribeiro Perspectivas em Gestão & Conhecimento, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 59-73, jan./jun. 2011 67 clarificadora. Assim, esse enunciado das propriedades da informação apresenta-se do seguinte modo: estruturação pela acção (humana e social) – o acto individual e/ou colectivo funda e modela estruturalmente a informação; integração dinâmica – o acto informacional está implicado ou resulta sempre tanto das condições e circunstâncias internas, como das externas do sujeito da acção; pregnância – enunciação (máxima ou mínima) do sentido activo, ou seja, da acção fundadora e modeladora da informação; quantificação – a codificação linguística, numérica ou gráfica é valorável ou mensurável quantitativamente; reprodutividade – a informação é reprodutível sem limites, possibilitando a subsequente retenção/memorização; e transmissibilidade – a (re)produção informacional é potencialmente transmissível ou comunicável. Podemos, pois, considerar, de forma sintética, estes elementos caracterizadores da Informação, aliados à definição acima apresentada, como as bases mínimas e fundamentais para o discurso científico sobre o que consideramos ser o objecto de estudo e de trabalho da CI, área teórico-prática em consolidação, que dá sustentação a competências profissionais multifacetadas, em consonância com os contextos e as exigências do desempenho profissional. Quanto à componente metodológica da CI, também em breves palavras, podemos compulsar o que desenvolvemos na obra Das “ciências” documentais à Ciência da Informação (SILVA; RIBEIRO, 2002). Consideramos o método de investigação quadripolar, concebido por Paul de Bruyne e outros autores (DE BRUYNE ; HERMAN ; SCHOUTHEETE,1974), como o dispositivo mais adequado às exigências do conhecimento da fenomenalidade informacional, uma vez que não se restringe a uma visão meramente instrumental. Trata-se de uma proposta na qual é recuperada a ideia essencial de ‘Método’ como conjunto completo de etapas indispensáveis para que o processo de identificação do problema, formulação de hipóteses, adopção de teorias e/ou modelos, comprovação destes através de operações ou procedimentos técnicos como a observação, o inquérito e respectivo tratamento quantitativo (estatístico), as entrevistas semi-estruturadas, a análise de conteúdo, etc., e a formalização final dos resultados. A sua dinâmica investigativa resulta de uma interacção entre quatro pólos – o epistemológico, o teórico, o técnico e o morfológico – permitindo uma permanente projecção dos paradigmas interpretativos, das teorias e dos modelos na operacionalização da pesquisa e na apresentação dos resultados da mesma (LESSARD-HÉBERT; GOYETTE; BOUTIN, 1994). No pólo epistemológico – instância superior imbricada no aparato teórico e institucional (a comunidade científica dos especialistas em Informação, as suas escolas, institutos, locais de trabalho e ainda os seus referentes políticos, ideológicos e culturais) – opera-se a permanente construção do objecto científico e a delimitação da problemática da investigação, ou seja, dá-se a reformulação constante dos parâmetros discursivos, dos paradigmas e dos critérios de cientificidade (objectividade, fidelidade e validade) que norteiam todo o processo de investigação. No pólo teórico manifesta-se a racionalidade predominante do sujeito que conhece (se relaciona e se adequa com) o objecto, bem como a respectiva postulação de leis, formulação de conceitos operatórios, hipóteses e teorias (plano da descoberta) e subsequente verificação ou refutação do "contexto teórico" elaborado (plano da prova). Este pólo respalda a componente técnica e instrumental e dá sentido à explanação de resultados que consubstancia o pólo morfológico. No pólo técnico o investigador toma contacto, por via instrumental, com a realidade objectivada. No domínio da Arquivística descritiva e da Biblioteconomia, tal como têm sido