As Determinantes do Empreendedorismo: O Caso Português
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Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto As determinantes do empreendedorismo: o caso português Ana Maria Barbosa Ferreira Rosas V ERSÃO FINAL Dissertação realizada no âmbito do MIETE - Mestrado em Inovação e Empreendedorismo Tecnológico Orientador: Prof. Dr. Francisco Vitorino da Silva Martins Porto, 30 de Novembro de 2012
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iii Abstract A dinamização do empreendedorismo é, hoje, um elemento central do crescimento económico de todos os países, desenvolvidos ou emergentes, principalmente quando articulada com a inovação. A criação de novos negócios ou projetos e a promoção do autoemprego têm sido estimulados pelas mais diversas organizações públicas e privadas. Neste trabalho de investigação pretendeu-se, a partir do inquérito do Global Entrepreneurial Monitor (GEM) realizado em Portugal em 2010, avaliar quais as determinantes do envolvimento ativo dos indivíduos em atividades de empreendedorismo na fase inicial (variável TEA), como também na concretização de start-ups. A partir da literatura científica propõe-se um modelo de análise para investigar como as variáveis sócio demográficos, as competências e qualificações, a experiência anterior, o risco, a maior perceção do valor da inovação e a maior valorização social do empreendedor nos media determinam o ato individual de empreender. Através de modelos “Logit”, validou-se estatisticamente que a idade, as competências e qualificações, a aversão ao risco, a ocupação e a inovação na perceção individual influenciam o nível inicial de atividade empreendedora, bem como o envolvimento em start-ups. No entanto em relação à explicação do envolvimento em start-ups é de acrescentar duas variáveis adicionais – o género (atitude mais favorável nos homens) e a experiência anterior na criação de um novo negócio. The promotion of entrepreneurship is nowadays considered a nuclear component of economic growth in all countries, developed or emerging, especially when combined with innovation. The creation of new businesses or projects and the promotion of selfemployment have been stimulated by various public and private organizations. This research work, based on the survey of Global Entrepreneurial Monitor (GEM) held in Portugal in 2010, determines what triggers individuals to be actively involved in entrepreneurial activity in the initial phase (variable TEA) and in the subsequent phase (achieving start-ups). Based on scientific literature, an analytical model is proposed to investigate how socio-demographics, skills and qualifications, previous experience, risk, higher perceived value of innovation and greater appreciation of the social entrepreneur in
iv the media, determine the act of individual undertaking. Through "Logit" models, it is statistically proven that age, skills and qualifications, risk aversion, occupation and innovation in individual perceptions, influence the initial level of entrepreneurial activity, as well as the involvement in start-ups. However, two additional variables related to the explanation of involvement in start-ups were added: gender (a more favourable attitude of men) and previous experience in creating a new business.
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vi Agradecimentos Agradeço a todos os professores do MIETE e ao Professor Doutor Carlos Oliveira da disciplina de Laboratório Multimédia, pelo acompanhamento ao longo do mestrado. Um especial agradecimento vai para os colegas de grupo, Daniel, Raquel, João e Tiago com quem foi sempre um prazer trabalhar; para o Professor Manuel Firmino, por nunca desistir de mim e me acompanhar nos momentos mais complicados destes últimos dois anos; para o diretor do mestrado Professor Doutor João José Pinto Ferreira pela atualidade e rigor que impõe no mestrado; para o meu orientador de estágio Professor Doutor Francisco Vitorino Martins pela imensa paciência e conhecimentos generosamente partilhados e para o Dr. Ricardo Jorge Silva pela total disponibilidade pessoal e profissional e amizade. À Professora Doutora Cristina Rodrigues, arguente na defesa de dissertação, agradeço todo o cuidado de leitura e as acertadas sugestões de melhoria. À Professora Doutora Sara Medina da SPI e respetiva equipa de trabalho e ao Dr. Sousa Branca da SPGM agradeço a disponibilização de informação. Agradeço também aos meus colegas de trabalho particularmente à Rita Seabra, ao Francisco Pegado e também à Maria José Faria e à Maria do Céu Boulhosa pela motivação em momentos de excesso de trabalho e desalento e, por fim, à minha família, ao Francisco, ao Afonso, à Margarida e ao Vasco e ainda e sempre ao Jorge, à minha mãe e aos meus irmãos, por aceitarem o excesso de dedicação de tempo a tudo mais alguma coisa menos a eles.
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viii Índice Abstract ............................................................................................ iii Agradecimentos ................................................................................... vi Índice ............................................................................................. viii Lista de figuras .................................................................................... x Lista de tabelas .................................................................................. xi Abreviaturas e Símbolos ........................................................................ xii Capítulo 1 Introdução ............................................................................ 1 Capítulo 2 Revisão da literatura ............................................................... 3 2.1. O empreendedorismo e o empreendedor .............................................................. 3 2.1.1. Risco e incerteza ..................................................................................... 5 2.1.2. Inovação ............................................................................................... 6 2.1.3. Eficiência económica ................................................................................ 8 2.2. Fatores determinantes de empreendedorismo ..................................................... 10 2.2.1. Fatores sociodemográficos ....................................................................... 12 2.2.2. Fatores/variáveis percetuais ..................................................................... 19 2.2.3. Fatores Agregados ................................................................................. 25 Capítulo 3 Metodologia ......................................................................... 30 3.1. Empreendedorismo: o processo - da ideia à empresa ............................................. 30 3.2. Empreendedorismo: a variável dependente ........................................................ 32 3.3. Hipóteses de investigação .............................................................................. 35 3.4. População, amostra, base de dados .................................................................. 36 3.5. Modelo LOGIT ............................................................................................. 37 Capítulo 4 Resultados ........................................................................... 39 4.1. Análise Descritiva ........................................................................................ 39 4.2. Modelos LOGIT Estimados .............................................................................. 46 4.2.1-Variáveis explicativas .............................................................................. 46 4.2.2. Processo de Modelização ......................................................................... 47
ix 4.2.3. Modelo “Start-Up” ................................................................................. 47 4.2.4. Modelo “TEA” ....................................................................................... 50 Capítulo 5 Conclusão ............................................................................ 54 Referências Bibliográficas ...................................................................... 59 ANEXO 1 | Variáveis / 1 ...................................................................................... 65 ANEXO 1 | Variáveis / 2 ...................................................................................... 66 ANEXO 2 | Importância do Empreendedorismo e do seu fomento .................................... 67 ANEXO 3 | Qual a importância da educação para o empreendedorismo? ............................ 68 ANEXO 4 | United Nations Conference on Trade and Development .................................. 70 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 1- Inicial ............................................... 71 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 1 - Final ................................................ 72 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 2 - Inicial .............................................. 73 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 2 - Final ................................................ 74 ANEXO 6 | TEA: Modelos Estimados FASE 1- Inicial ...................................................... 75 ANEXO 6 | TEA: Modelos Estimados FASE 1 - Final ....................................................... 76 ANEXO 6 | TEA : Modelos Estimados FASE 2 - Inicial .................................................... 77 ANEXO 6 | TEA: Modelos Estimados FASE 2 - Final ....................................................... 78 ANEXO 6 | TEA: Modelos Estimados FASE 2 - Final+BUSANG ........................................... 79
4 Conforme Mark Casson, Bernard Yeung, Anuradha Basu e Nigel Wadeson, (2006) o conceito moderno de empreendedorismo surge com as revoluções agrícola e industrial dos séc. XVIII e XIX, correspondendo à imagem moderna e multifacetada do empreendedor. O homem de negócios do séc. XIX representa um novo fenómeno social. E é este back ground histórico que conduz a um entendimento muito lato do conceito de empreendedorismo: “o pequeno comerciante e vendedor ambulante, o auto empregado artesão, … o inovador e diferenciador, bem como o criador de uma tecnologia ou indústria inteiramente nova, todos são vistos como empreendedores.” Adam Smith na abertura do seu The Wealth of Nations, relaciona o crescimento da riqueza com a divisão do trabalho. Assim, aquele que emprega o seu capital na contratação da força de trabalho está a induzir um efeito não esperado por ele, a riqueza da nação. David Ricardo no seu Principles of Political Economy and Taxation, de 1817 relaciona os 3 fatores económicos, terra, trabalho e capital com recompensas, respetivamente nas formas de renda, salários e lucros. Dizia David Ricardo que a tendência seria a importância da 1a crescer, da 2a diminuir com o aumento da população e da 3a diminuir com a acumulação de capital. E não é clara ainda a função do empreendedor. Talvez que com Thomas Malthus, à época, se pudesse confundir o empreendedor com o fornecedor de capital (confusão entre o empreendedor e o capitalista). Richard de Cantillon, John Stuart Mill e Jean-Baptiste Say são os primeiros a referirem o termo francês entrepreneur no âmbito de uma classificação económica. É efetivamente Richard de Cantillon quem o faz primeiro no seu “Essai sur la Nature du Commerce en Général”, de 1755(?) (escrito entre 1730 e 1734): "They [entrepreneurs] pay a fixed price for them at the place where they are purchased, to resell wholesale or retail at an uncertain price ... These entrepreneurs never know how great the demand will be in their city ..." e ainda “All the rest are Undertakers, whether they set up with a capital to conduct their enterprise, or are Undertakers of their own labour without capital, and they may be regarded as living at uncertainty;...”, e é atribuído a John Stuart Mill a introdução da palavra empreendedor no léxico inglês, apesar de apenas apontar, no seu “Princípios da Economia Política” escrito em 1848, a atenção para a função de superintendência do empreendedor. E, no entanto, é John Stuart Mill quem prefere a palavra "undertaker" em vez de "manager" e suporta o facto de ver a função empreendedora como algo qualitativamente diferente da função capitalista ou trabalhadora. Empreendedor é então aquele que assume o risco e a gestão de um negócio. A partir destas primeiras referências ao termo empreendedor e por forma a melhor acompanharmos a evolução do termo ao longo da história, abriremos três subcapítulos relativos a características ou preocupações nucleares subjacentes ao conceito de
5 empreendedor, referimo-nos a: risco e incerteza (2.1.1), inovação (2.1.2.) e eficiência económica (2.1.3.). 2.1.1. Risco e incerteza Na sequência de John Stuart Mill, a associação do empreendedor ao risco é uma tendência que permanece até aos dias de hoje, mas que deu azo a grande controvérsia. Já no século XX Joseph Schumpeter tem um entendimento contrário quanto a quem assume o risco, porque, defende que as perdas só são efetivamente sentidas pelo detentor do capital e portanto é o financiador (o capitalista) que corre o risco, não o empreendedor. "Para Joseph Schumpeter, o fornecedor de capital e o prestador do serviço de empreendedorismo são distintos, e é ao primeiro, o financiador, e não ao segundo que a palavra risco deve ser ligada."- Mark Casson, Bernard Yeung, Anuradha Basu, Nigel Wadeson (2006). De qualquer forma tanto John Stuart Mill como Joseph Schumpeter construíram as suas teorias sobre a escola francesa e mais especificamente o trabalho de Richard de Cantillon do séc. XVIII e de Jean-Baptiste Say, início do sec. XIX. Richard de Cantillon, o primeiro a introduzir o termo "entrepreneur" como conceito económico, define-o como “um agente que contrata com fornecedores, a preços certos, para produzir coisas que serão posteriormente vendidas a preços incertos." O lucro é entendido como residual, é o que resta após o cumprimento de todos os compromissos. Joseph Schumpeter considera feliz esta definição porquanto acentua os elementos de direção e especulação que com certeza fazem parte da atividade empreendedora. No entanto, coloca-se em desacordo quanto à assunção do risco dado considerar que este não está ligado ao empreendedor, mas antes ao agente capitalista. Antes ainda de Joseph Schumpeter, no âmbito da teoria neoclássica, William Stanley Jevons, na sua The Theory of Political Economy, escrita em 1871, estabelece o fundamento para uma nova interpretação da economia (subjetiva) ao dizer "o valor depende integralmente da utilidade (referindo-se a utilidade marginal)". Cria assim o ponto de partida para a interpretação da economia baseada numa teoria de valor subjetiva e na análise marginal, ao contrário de uma teoria objetiva (trabalho). Este entendimento resulta numa compreensão diferente do empreendedorismo. A importância do mercado na definição do preço, e particularmente a influência dos participantes no mercado para a definição do preço, recentram a questão da criação de valor no mercado, e a competitividade do mercado passa a ser entendida como uma questão social. É relevante neste âmbito a moderna escola austríaca que reinterpreta a
6 questão da incerteza e acrescenta a do “não conhecimento”, com Friedrich August Hayek, George Lennox Sharman Shackle, e Israel Kirzner (1973 e 1979). Conceitos centrais ao empreendedorismo parecem então ser também o desconhecimento, a incerteza e a capacidade de lidar com estes. Já Frank H. Knight, em 1921 tinha proposto a descentralização da visão Marshalliana (que aos 3 factores económicos clássicos (capital, trabalho e recursos naturais) introduz a organização e o conhecimento (Alfred Marshall – Principles of Economics)) de "business manager" e acentua o elemento empreendedor ao cruzar o conceito de empreendedorismo com estudos sobre o conhecimento e comportamento. Para Frank H. Knight o lucro não estava relacionado com a assunção do risco mas com o assumir da incerteza (risco = medível, difere de incerteza = risco não medível). O assumir de que o mundo é incerto e que assim será, deu então lugar a um novo empreendedor, no qual se realça, não tanto a capacidade de fazer, mas antes a de decidir o que fazer e como fazer. A particularidade do empreendedor é essencialmente a de que decide face à incerteza: “It is this true uncertainty which by preventing the theoretically perfect outworking of the tendencies of competition gives the characteristic form of "enterprise" to economic organization as a whole and accounts for the peculiar income of the entrepreneur.” - Imperfect competition through risk and uncertainty, Part III, Chapter VII, III.VI.48, The meaning of risk and uncertainty,«Frank H. Knight. 2.1.2. Inovação Um outro grande contributo para a definição de empreendedor é-nos trazida por Joseph Schumpeter pela via da inovação. Para Joseph Schumpeter o efetivo contributo do empreendedor está na introdução de novos produtos e processos (o que pressupõe competências e conhecimentos diferentes do manager) e a sua é uma função dinâmica de exploração e inovação. “The Entrepreneur (Unternehmer) is our Man of Action in the area of the economy. He is an economic leader, a real and not only an apparent leader as the static leader” de Joseph Schumpeter, em 1911. Ou, apresentado sob a perspective de Richard Swedberg. “What is characteristic of the entrepreneur is that he does something qualitatively new; and in the area of the economy this means that he recombines or makes a new combination of already existing resources.” Sintetizando com Joseph Schumpeter: “The carrying out of new combinations we call ‘enterprise’; the individuals whose function it is to carry them out we call ‘entrepreneurs’” Joseph Schumpeter vê assim o empreendedor como o inovador revolucionário "o papel do empreendedor é reformar ou revolucionar o padrão de produção ao explorar uma invenção ou, mais genericamente, uma possibilidade tecnológica anteriormente não
7 tentada" = "gale of creative destruction". Mais ainda, para Joseph Schumpeter o empreendedor é a força que resiste constantemente ao estado clássico estático e previne a economia de ruir. Assim, particularmente interessante na proposta de definição de Joseph Schumpeter são dois contributos: 1. A importância da inovação disruptiva (descontinua e revolucionaria); 2. A crença de que, a longo prazo, a inovação tem tendência a ser apropriada pelos grandes grupos económicos que usurpam a função empreendedora originalmente associada a indivíduos extraordinários e energéticos. Este segundo aspeto leva-o a afirmar em 1942 que "o progresso económico tende a ser despersonalizado e automático". Numa análise crítica sobre este contributo, Mark Bidé, em 2000, conclui que empresas de dimensões variadas desempenham um papel na inovação: "empreendedores individuais e grandes empresas desempenham papéis complementares e isto ajuda a explicar porque novas combinações se desenvolvem de uma forma gradual mais do que uma forma descontínua". A propósito do tema inovação, vale a pena interromper a linha condutora sobre empreendedorismo para analisar a questão da inovação em si, de forma breve, e precisar este conceito. Stephen J. Kline e Nathan Rosenberg no capítulo An Overview on innovation do livro The Positive Sum Strategy, Harnessing Technology for Economic Growth, começam por dizer que “Inovação é complexa, incerta, de alguma forma desordenada, e sujeito de diversas mudanças. Inovação é também difícil de medir, e requer coordenação próxima, conhecimentos técnicos adequados e excelente julgamento de mercado … . O processo de inovação tem de ser visto como uma série de alterações num sistema completo não só de hardware, mas também de ambiente de mercado, equipamento produtivo e conhecimento, e o contexto social da organização da inovação”. Estes investigadores definem inovação como: “the creation and marketing of the new”. E concluem, mais à frente: “An improved model of Innovation, …, indicates not one, but rather five major pathways that are all important in innovation processes. These paths include not only the central-chain-of-innovation, but also the following: • Numerous feedbacks that link and coordinate R&D with production and marketing; • Side-links to research all along the central-chain-of-innovation; • Long-range generic research for backup of innovations; • Potentiation of wholly new devices or processes from research; and • Much essential support of science itself from products of innovative activities, i.e., through the tools and instruments made available by technology.” • E acrescentam: “Two variables that provide major assistance in thinking about the nature of appropriate innovations are the degree of uncertainty in achieving success and the life-cycle stage of the product concerned.”
8 Podemos concluir com estes autores que: “Inovação bem sucedida requer um desenho que equilibre os requisitos do novo produto e o seu processo de fabrico, as necessidades de mercado e a necessidade de manter uma organização que possa continuar a suportar todas estas atividades de forma efetiva.” 2.1.3. Eficiência económica Analisando o empreendedorismo na perspetiva da eficiência económica, enquanto Joseph Schumpeter se foca no empreendedor como utilizador de tecnologias inovadoras, de forma complementar, podemos concentrar-nos no processo de decisão. É Mark Christopher Casson quem, em The Entrepreneur: An Economic Theory, (1982), afirma: "empreendedor é quem se especializa em tomar decisões (“taking judgmental decisions”) acerca da coordenação de recursos escassos", o empreendedor faz a re-alocação de recursos. E, de volta a Israel Kirzner, para recentrar o empreendedor em torno do conceito de eficiência -"o empreendedor é o instigador de alterações que promovem a eficiência", ou seja, o empreendedor alerta para oportunidades de negócio não exploradas. E, como vimos, a escola neo-austríaca introduz a importância do conhecimento: "empreendedor pode ser um generalista, não um especialista, mas introduz um conhecimento, que pode ser das condições locais, das circunstâncias, das pessoas, pode mesmo ser um conhecimento tácito. Influencia o mundo de baixo para cima.” Se aqui juntarmos a perspetiva da estratégia do oceano azul, apresentada no livro “Blue Ocean Strategy”, de W. Chan Kim e Renée Mauborgne, (2005) aprofundamos o conceito de empreendedorismo no sentido de incorporarmos uma preocupação de posicionamento no mercado, na terminologia do livro, “não sangrenta”. Atos de empreendedorismo passam então também a ser aqueles que, partindo da análise da concorrência e mais especificamente das suas áreas de aposta e investimento, permitem ao empreendedor posicionar-se de uma outra forma, identificar outras formas de estar e agir para a sua empresa, investindo de forma diversa (aumentando, diminuindo, eliminando) em fatores de competitividade do negócio que identifica como cruciais, permitindo-lhe assim abrir novos mercados (oceanos azuis) em vez da afirmação através de luta sangrenta (oceano vermelho) num mesmo mercado. Por fim, no âmbito da teoria da firma, Ronald Coase – The Nature of the Firm, publicado em 1937, parte da constatação de que não é necessário criar firmas para operar nos mercados, para se perguntar porque é que os empreendedores as criam, porque contratam pessoas e constituem organizações que operam nos mercados, Ronald Coase identifica diversos custos de transação no mercado. A título exemplificativo: custos de procura e de acesso a informação, custos de negociação, custos com a manutenção de
9 segredos de negócio. Assim, as firmas aparecem quando é mais eficiente criar uma organização para operar no mercado (com os respetivos custos de transação internos) do que suportar os custos de transação externos. A teoria proposta evolui ao longo do tempo através de Edwards e Townsend e Jack Wiseman e Basil Yamey. Mark Casson reorienta a teoria vendo a firma mais como a entidade que produz e acelera fluxos de informação, do que como produtora e recetora (inputs e outputs) de bens físicos. Num trabalho publicado em 2002, Mark Casson cita Mark Granovetter, explicando que: “The conventional view of the real economy is highly materialistic, and the legacy of this view is still reflected in the theory of the firm. It emphasises the flow of tangible resources such as physical products, rather than intangible resources such as information. It fails to emphasise sufficiently that the coordination of tangible flows require major flows of information to support it.” – Mark Casson, Entrepreneurship and Theory of the Firm, Department of Economics, University of Reading, 24 de Setembro de 2002. Mark Casson considera que um papel crucial do empreendedor é pois o de coordenador de informação que, dada a grande proliferação, é sintetizada na firma. Citando o trabalho agora referido: “Entrepreneurs implement their coordination projects by borrowing money and exchanging it for ownership or rental of productive resources, using their firm as a legal shell. In negotiating for command over resources, entrepreneurs are careful not to give away crucial information on which their synthesis is based. Entrepreneurs are organisers too. Because they cannot patent their own ideas, and cannot sell them as secrets either, they are obliged to internalise the market for their ideas. This involves them in the design of organisational structures - the most notable example being the organisation of intermediation effected by the marketmaking firm.” Em jeito de conclusão, podemos então afirmar que empreendedorismo é “ … the manifest ability and willingness of individuals, on their own, in teams within and outside existing organizations, to perceive and create new economic oportunities (new products, new production methods, new organisational schemes and new product-market combinations) and to introduce their ideas in the market, in the face of uncertainty and other obstacles, by making decisions on location, form and the use of resources and institutions.” – Wennekers e Thurik (2004) E ainda que: “Invention and entrepreneurship are the heart of national advantage” (Porter 1990:125). – (em complemento, ver por favor o anexo 2)
10 2.2. Fatores determinantes de empreendedorismo O que faz um empreendedor assumir o risco de um negócio ou empresa? Que fatores determinam a tomada de decisão empreendedora? O que despoleta ou promove o ato de empreender? É sobre esta questão, expressa em três formas distintas, mas sempre a mesma, que se centra o presente subcapítulo. Partimos da análise de quatro documentos que, após pesquisa alargada, nos parecem resumir melhor as tendências de estudo atuais daquilo a que chamaremos os fatores empreendedores, e juntamos-lhe, documentação que nos foi sendo sugerida pela leitura, ou que aprofundamos por curiosidade nesta ou noutra afirmação de um autor referenciado. Os 4 documentos são: 1. O estudo de Paul D. Reynolds e Richard T. Curtin: “Business Creation in the United States: Panel Study of Entrepreneurial Dynamics II Initial assessment”, (2008) – centrado nos EUA; 2. O estudo de Pia Arenius e Maria Minniti: “Perceptual Variables and Nascent Entrepreneurship”, (2005) – abrangendo 28 países; 3. O estudo de Michael Fritsch, Alexander Kritikos e Alina Rusakova. “Who starts a business and who is self employed in Germany”, (2012) – centrado na Alemanha; 4. O estudo de Frederik Delmar e Per Davidsson. “Where do they come from? Prevalence and characteristics of nascent entrepreneurs”, (2000) – centrado na Suécia (mas fazendo a comparação com a Noruega e os EUA). 1 Destes 4 “papers” básicos, selecionamos a organização dos fatores proposta por Pia Arenius e Maria Minniti, por melhor se aproximar da que seguiremos na análise econométrica que faremos nesta dissertação sobre os dados do GEM – Global Entrepreneurship Monitor, de 2010, sobre o caso português. 1 Nota: estes estudos encontram-se integralmente referenciados no índice de referências
11 Pia Arenius e Maria Minniti, (2005) propõe no trabalho citado a arrumação dos fatores determinantes de empreendedorismo em 3 “compartimentos”, dois especificamente relativos ao indivíduo – fatores sociodemográficos e fatores percetuais ou de preferência – e um terceiro relativo a fatores agregados – fatores ambientais ou de contexto, exógenos à pessoa do empreendedor. E enumera diversos sub-fatores em cada uma destas tipologias, conforme a tabela abaixo: Tabela 1 – determinantes analisadas por Pia Arenius e Maria Minniti no estudo: “Perceptual Variables and Nascent Entrepreneurship” Fatores Sociodemográficos Fatores/Variáveis Percetuais Fatores Ambientais Idade Perceção de oportunidade Tecnologia Sexo Confiança nas próprias capacidades e habilitações Desenvolvimento económico Educação Medo de falhar e consequente aversão ao risco Cultura Experiência e “Estado” profissional Conhecimento de outros empreendedores e networking pessoal Instituições Acesso e Disponibilidade de recursos financeiros Ambiente Macroeconómico Defendem estas duas investigadoras que aos tradicionais fatores sociodemográficos e ambientais ou de contexto devem ser adicionados os fatores percetuais (mais próximos das disciplinas da psicologia e da sociologia) dado ser do conhecimento geral, corroborado pela análise alargada a empreendedores de 28 países, que a perceção que o ser humano tem de si próprio, das suas capacidades, apetências e habilitações e do mundo em que se move em geral, altera substancialmente o modo como age e, portanto, também altera o seu comportamento empreendedor.
12 2.2.1. Fatores sociodemográficos Centrando-nos na análise dos fatores sociodemográficos e, num primeiro momento, nos dados demográficos, idade e sexo, os autores genericamente apontam para o fato de o empreendedorismo ser um “negócio de jovens homens”. Idade Hector Levesque e Maria Minniti, Paul D. Reynolds, David Blanchflower, Frederick Dielmar, Per Davidsson, Richard T. Curtin, Michael Fritsch (et al.) apontam para o fato de a probabilidade de um jovem adulto empreender ser superior à de outras faixas etárias o fazerem. Maioritariamente, os autores, apontam a faixa etária dos 25 aos 34 anos como sendo a mais provável para estar envolvida na criação de um novo negócio. Paul D. Reynolds e Richard T. Curtin, no seu estudo relativo aos anos 1999 a 2006, nos EUA (PSED I e II) apontam para uma relação fortíssima entre o fator idade e a probabilidade de empreender, concluindo que 80% dos empreendedores têm entre 25 e 54 anos, sendo que as subfaixas, 25-34 e 35-44 apresentam pesos muito próximos, na ordem dos 27%, decrescendo substancialmente o peso para 20% na subfaixa 45-54 anos. Já ao analisar a população empreendedora alemã, os investigadores Michael Fritsch, Alexander Kritikos e Alina Rusakova (2012) apontam uma dinâmica de envelhecimento interessante: detetando que entre os anos de 1991 e 2009, as faixas etárias mais jovens, até aos 34 anos, decresceram de importância, tendo a representatividade descido de 21 para 14%, e, ao contrário, todas as faixas etárias superiores a 34 anos evoluíram de forma positiva, especialmente relevante na faixa etária superior a 65 anos, a qual aumentou, no mesmo período, para 6,2%. De qualquer forma, estes autores apontam que cerca de 2/3 de todas as start ups são iniciadas por pessoas entre os 25 e os 44 anos, sendo que em anos mais recentes a subfaixa 25 a 34 e 35 a 44 têm percentagens muito próximas. Sexo De forma clara, o fator sexo parece ser aquele que tem maior relevância. Em qualquer dos estudos apontados, este é o fator que claramente se evidencia com uma prevalência clara dos homens.
13 Candida G. Brush, Nan S. Langowitz, Maria Minniti, Patricia G. Greene e os 4 estudos base apontam nesse sentido. E, no entanto, os restantes fatores demográficos, económicos e percetuais influenciam da mesma forma homens e mulheres. É Patricia G. Greene (citado por Maria Minniti e Pia Arenius (2005) quem, ao analisar este fator de sistemática prevalência masculina, sugere que talvez uma das causas resida em diferenças médias de capital humano e capital social. No mesmo trabalho é também citado Cohen que aponta o papel da mulher na educação dos filhos como sendo uma das principais causas para esta discrepância relevante, e outros autores apontam complementarmente a acrescida dificuldade de acesso das mulheres a crédito bancário, mas este parece ser um argumento passível de discussão com autores com opiniões diversas (Candida G. Brush, S. Carter e P. Rosa, S. Marlow). De qualquer forma o fator demográfico género, deve ser analisado em conjunto com outros fatores demográficos como o estado civil e a nacionalidade e ainda com fatores ambientais como a cultura. Conforme Frederik Delmar e Per Davidson (2000), na Suécia, 67% de todos os negócios são iniciados por homens, 28% por mulheres e 5% por ambos em conjunto. Na Alemanha, Michael Fritsch, Alexander Kritikos e Alina Rusakova (2012) apontam complementarmente que o papel das mulheres no âmbito do empreendedorismo, no intervalo temporal de 1991 a 2009, cresceu de 25% para cerca de 31%. Aliás, se nos concentrarmos nos fundadores das empresas e deixarmos de lado o autoemprego, as mulheres representavam 33,3% em 1996 e representam 41,6% em 2009, representando no entanto 0,7% da população feminina empregada (percentagem que se manteve ao longo do tempo). De uma forma grosseira poderemos talvez dizer que nas várias culturas analisadas, as mulheres representam um pouco mais de 1/3 e os homens um pouco menos de 2/3 dos empreendedores. Não criamos aqui um subcapítulo específico para outros fatores demográficos mas, talvez seja interessante analisar conjuntamente a questão do estado civil /matrimonial, e o fator da imigração. Poder-se-ia pensar que para além de homem e jovem o empreendedor típico também é solteiro e sem filhos. Mas esta possível intuição não é constatada cientifica nem empiricamente. No âmbito do PSED I, relativo ao ano de 1999, constata-se que cerca de 70% dos empreendedores são casados. Este número decresce claramente para cerca de 57% no PSED II, relativo ao ano de 2006, mas continua a ser uma percentagem relevantemente maioritária. No mesmo sentido, o PSED I aponta para 54,1% dos empreendedores terem filhos (17% têm mesmo mais de 3 filhos); e no PSED II deteta-se que 51,1% têm filhos (14% têm mais de 3 filhos). O agregado familiar do empreendedor composto por mais de 3 pessoas representa aproximadamente 60% nos trabalhos PSED I e PSED II.
20 entre um organismo vivo e o mundo, através da psicologia cognitiva, classicamente a perceção pode ser “definida como o processo de extrair informação” (Forgus, 1971, p.1). Assim, e especialmente no ser humano a perceção é tida como um processo contínuo que varia desde os eventos que são de natureza simples, elementar, até aos de maior complexidade que exigem aprendizagem e pensamento mais ativos. Além disso, a realidade percecionada varia individualmente devido à influência de muitas variáveis intra e inter-individuais. Como é que as perceções e preferências humanas influenciam a tomada de posição empreendedora? E que perceções determinam esses atos? São estas as questões que procuramos responder nesta revisão da literatura mais recente disponível quanto ao tema. Procurando relacionar o conceito de perceção com o de empreendedorismo, corrobora-se a perspetiva de Pia Arenius e Maria Minniti (2005) na qual se defende que sendo o empreendedorismo realizado por pessoas, a especificidade das suas perceções e auto-perceções e preferências é relevante, apesar de geralmente este fator não ser analisado em estudos sobre empreendedorismo na perspetiva económica. No presente estudo, adota-se a abordagem desenvolvida por aquelas autoras sobre as 4 variáveis percetuais propostas: perceção de oportunidade; confiança nas suas capacidades e competências; medo de falhar e aversão ao risco; conhecimento de outros empreendedores (familiares e outros) e networking pessoal. Perceção de oportunidade Na revisão da literatura constata-se que existe uma vasta produção científica sobre este objeto de estudo. Assim, Israel Kirzner em 1973, em 1979 e (1999) – Creativity and/or Alertness: A Reconsideration of the Schumpeterian Entrepreneur, Review of Austrian Economics, 11: 5-17, Kluver Academic Publishers), considera a perceção de oportunidade como o fator mais distintivo e fundamental das características empreendedoras. A postura de alerta a oportunidades não exploradas é, segundo Israel Kirzner (1999), uma condição necessária ao empreendedor. Grande parte da produção científica deste autor centra-se aliás nesta capacidade percetiva do empreendedor e na função do empreendedor na economia em geral. É sobre este trabalho que Pia Arenius e Dirk De Clerq constroem uma abordagem ao reconhecimento de oportunidades em rede, A Network-based Approach on Opportunity Recognition, publicado em 2005 no Small Business Economics, Volume 24, Number 3.
21 Pia Arenius e Maria Minniti, no estudo citado, Perceptual Variables and Nascent Entrepreneurs (2005), concluem que esta variável percetual, está positivamente relacionada com o empreendedor nascente, conforme esperado. A visão positiva parece pois influenciar a postura empreendedora, o que se reflete não só na criação de novos negócios, mas ao longo de todos os atos tendentes à criação da empresa e depois à sobrevivência do projeto empresarial. Assim, Alexander Ardichvili, Richard Cardozo e Sourav Ray, A theory of entrepreneurial opportunity identification and development (2003), desenvolvem, conforme as duas tabelas, abaixo a presentadas uma visão global do processo de deteção e desenvolvimento de oportunidades de negócio levado a cabo pelo empreendedor: Figura 1- Contexto do sucesso empresarial Fonte: Alexander Ardichvili, Richard Cardozo e Sourav Ray, A theory of entrepreneurial opportunity identification and development, (2003) Os autores retratam, na figura 1, diretamente retirada do texto citado, que partindo da deteção das necessidades de mercado e da recombinação de recursos subaproveitados, o empreendedor entra num processo que culmina na empresa bem sucedida. Os passos intermédios da definição do modelo de negócio adequado, do planeamento do negócio e da constituição da empresa, constituem assim a ponte entre a oportunidade e o sucesso empresarial almejado. A figura 2, seguinte, centra-se na fase inicial da deteção da oportunidade. A combinação dos traços de personalidade, com relevo para a criatividade e o otimismo; os conhecimentos e competências prévios; o networking (rede de relações fracas, parcerias, circulo próximo); e o alerta/abertura para a oportunidade, conduz a um processo nuclear de perceção, descoberta e criação, que se desenvolve e possibilita a avaliação.
22 Figura 2 - Processo de deteção e desenvolvimento de oportunidades de negócio Fonte: Alexander Ardichvili, Richard Cardozo e Sourav Ray, A theory of entrepreneurial opportunity identification and development, (2003) Confiança nas próprias capacidades e habilitações A perceção positiva de si próprio e das suas capacidades e habilitações também está positivamente relacionada com o ato empreendedor. Reuben M. Baron afirma, em 2000, que a decisão de empreender relaciona-se com a intencionalidade do ato e com a perceção de controlo. No mesmo sentido William B. Gartner em 1985, acrescenta ainda a necessidade de experimentação (várias vezes) para que o controlo efetivamente exista e a perceção de controlo cresça (e/ou se desenvolva). Além disso, D. Harper em 1998, encontra um eixo relacional entre a confiança em si próprio e a transformação do alerta empreendedor em efetiva criação de empresa. No estudo de Pia Arenius e Maria Minniti (2005), é constatada uma forte relação entre a confiança nas próprias capacidades e competências (conhecimento, capacidades e experiência) e o ato empreendedor. Perante os resultados obtidos, as investigadoras afirmam: “Those who perceive themselves as possessing the necessary skills are almost 6.4 times more likely to be nascent entrepreneurs than those who do not believe to have the necessary skills.” Em 2004, P. Koellinger afirmava já que no momento da tomada de decisão sobre a criação de uma empresa, a confiança nas capacidades próprias é a mais
23 importante componente decisória. Os resultados referendam pois o conhecimento prévio e estão conformes à teoria da expectativa que sugere que “um indivíduo que acredita nas suas capacidades para executar uma tarefa e a consequência dessa tarefa, afetam se a tarefa vai ou não ser cumprida.” Medo de falhar e aversão ao risco Este fator tem uma relação clara e fortemente negativa com o empreendedorismo. R. E. Kihlstrom e J. J. Laffont em 1979 criaram um modelo, baseado num anterior que Frank H. Knight criou em 1920, e partem do pressuposto que todos os indivíduos têm as mesmas capacidades para empreender e para trabalhar, apenas diferindo a sua capacidade para aceitar o risco. “Workers receive fixed wages while entrepreneurs receive risky profits. Individuals decide whether to become entrepreneurs or workers by comparing the risky returns of entrepreneurship with nonrisky wage determined in the competitive labor market.” Neste modelo cabe ao empreendedor decisões empreendedoras e a assunção de risco associado à produção. A aversão ao risco (ou aceitação do risco) pode, segundo estes autores, estar ligada à capacidade financeira própria inicial. Segundo Pia Arenius e Maria Minniti (2005) é intuitivo que a maior parte dos indivíduos têm aversão ao risco e, dado que o medo percebido de falhar é uma componente importante do risco de iniciar um negócio, uma reduzida perceção da hipótese de falhar poderia resultar no aumento da probabilidade de um indivíduo iniciar um negócio. Mas este ponto de vista é contrariado por uma investigação no campo da psicologia, “Risk as a Primitive in Decision” – Joanna Sokolowska, (2004) Psychology.info, segundo a qual, no dia a dia a assunção de risco é uma constante e o risco faz parte do conceito primitivo, sendo essencial à tomada de posição. A perceção do risco altera as preferências, isto é, numa situação de risco as pessoas avaliam-no mas avaliam também os ganhos suplementares por tomarem esse risco e tomam decisões baseadas nesse cálculo. Neste sentido, Joseph G. Johnson, Andreas Wilke e Elke U. Weber conceptualizam o assumir do risco como uma troca entre o risco (medo) e a expectativa do retorno (esperança). Assim, Elke U. Weber e Richard A. Milliman, em 1997 sugerem que diferentes atitudes na assunção do risco podem ter mais a ver com causas situacionais, relacionadas com diferenças na perceção do risco do que com atitudes contrarias ao risco (ou, em sentido contrario, de propensão ao risco). O medo de falhar é, como Pia Arenius e Maria Minniti (2005) comprovaram nos inquéritos realizados durante o seu estudo, um forte fator negativo empreendedor.
24 Conhecimento de outros empreendedores e networking pessoal Diversos autores analisam de forma diferente este fator, isto é, uns tratam especificamente o tema no âmbito familiar, centrando-se na questão de se os pais tiveram ou não experiências empreendedoras e se o novo empreendedor trabalhou ou não com eles; enquanto outros entendem este fator de uma forma mais lata, referindo-se ao fato de o potencial novo empreendedor conhecer ou não outros empreendedores e fazer parte de redes de networking. De uma forma sintética, tentaremos rever a literatura consultada em relação a cada uma destas duas perspetivas. Relativamente ao caso dos familiares (pais) empreendedores, Frederik Delmar e Per Davidsson, no seu estudo sobre o mercado sueco (2000), procuram evidências que relacionem de forma fortemente positiva pais empreendedores com filhos empreendedores, particularmente no caso de pais empreendedores bem-sucedidos. Os resultados confirmam uma relação positiva, extensível também ao contacto com outros, não familiares, empreendedores bem-sucedidos, que servem como modelo de referência. Imbuídos também da mesma questão, os investigadores Paul D. Reynolds e Richard T. Curtin, autores do estudo PSED I e II (2008), sobre o comportamento empreendedor nos EUA, verificam que entre 48% (PSED I) e 47% (PSED II) dos inquiridos nascentes empreendedores reportam que os seus pais não foram autoempregados ou proprietários de um negócio (ou seja, cerca de 50% dos novos empreendedores têm pais empreendedores). E, de uma forma mais próxima, destes, 33% em 1999 e 25% em 2005 informam não terem trabalhado com os pais. Pia Arenius e Maria Minniti (2005), abrem o fator a modelos exteriores à família e questionam se efetivamente modelos positivos de empreendedores são fator relevante para nascentes empreendedores. Sobre a importância de modelos de referência (rolemodels) R. A. Baron em 2000 e T. M. Begley e D. P. Boyd em 1987 relacionam a importância dos modelos de referência com a possibilidade de acentuarem a perceção de auto-eficácia. Maria Minniti refere especificamente a hipótese de modelos de referência melhorarem a autoconfiança e reduzirem a ambiguidade. Já Howard E. Aldrich em 1999 centra a questão nas networks e na sua capacidade de proporcionarem aconselhamento, apoio e exemplos. Pia Arenius e Maria Minniti (2005) confirmam com o seu trabalho a forte relação entre conhecer outros empreendedores e o nascimento de um novo empreendedor, dado que reduz a ambiguidade e confere informação útil. Concluindo: é clara a relevância das variáveis percetuais no surgimento de novos empreendedores, apesar de serem talvez as mais difíceis de alterar de um ponto de vista externo.
25 2.2.3. Fatores Agregados A decisão de criar uma empresa é complexa e influenciada por diversos fatores, como temos estado a verificar. Conforme Elizabeth Chell e Stephen B. Baines (2000), o contexto no qual a decisão é tomada também a influência. Estes investigadores analisam especialmente a importância das redes (networking), essencialmente compostas por relações fracas, em momentos críticos da vida das empresas, mas outros autores como Roy Thurik et al., Paul D. Reynolds et al., David Blanchflower em 2004, Zoltan Acs e David Audretsch (1993) e outros, apontam outros fatores agregados como sendo de grande importância para a tomada de decisão empreendedora. Conforme Roy Thurik (2002), Pia Arenius e Maria Minniti (2005) propõem, para além de uma análise dos fatores pessoais socioeconómicos e percetuais, também uma análise dos fatores ambientais ou de contexto, organizando-os em 4 temas: tecnologia, nível de desenvolvimento económico, cultura e instituições. Nesta abordagem à literatura seguiremos esta sua proposta. No entanto, não queremos deixar de apresentar também a perspetiva das Nações Unidas (que por sua vez se influencia na posição da OCDE) e que colocamos em anexo. (vide p.f. Anexo 4) Tecnologia A propósito da evolução ocorrida entre os anos 70 e 90 no tecido económico dos países mais desenvolvidos Martin A. Carree e Roy Thurik (2002) demonstram que ao contrario dos anos imediatamente a seguir à II Grande Guerra Mundial, a tendência não é de crescimento do número e importância económica das grandes empresas, mas de crescimento da importância e número das micro, pequenas e médias empresas. E afirmam: “There are several well-documented reasons for the revival of small business and self-employment in Western economies. First, the last 25 years of the 20th century may be seen as a period of creative destruction…. Second, new technologies have reduced the importance of scale economies in many sectors. Small technology-based firms started to challenge large companies that still had every confidence in mass production techniques...” Já David Audretsch e Roy Thurik (1998) apontavam a evolução para uma economia de conhecimento (impulsionada pela globalização e pelos avanços tecnológicos) como a força orientadora por trás desta inversão de tendência do crescimento das empresas para o surgimento de empresas mais pequenas. A propósito da importância do fator tecnologia para o empreendedorismo, Vinod Khosla, afirma numa aula em 24 de Abril em Stanford, disponível em http://www.academicearth.org/lectures/technology-as-driver-change, que a tecnologia terá uma cada vez maior importância na vida, na sociedade, na economia (é um
26 constante “driver of change”), e que grande parte da evolução tecnológica é levada a cabo por empreendedores. Assim, o fator tecnologia é um fator de empreendedorismo e por sua vez o empreendedorismo é um fator de desenvolvimento tecnológico. Desenvolvimento Económico Defendemos já a este propósito a influência do desenvolvimento do mercado financeiro e de capitais para a renovação saudável do tecido económico, especificamente a criação de novas empresas. Tratamos já também da importância de conhecimento de outros empreendedores, sejam eles familiares ou outros (e da pertença a networkings), que possam servir de modelo de referência e como tal apaziguadores de ambiguidades e fonte de conhecimentos práticos úteis. Agora analisamos o desenvolvimento económico como fator de empreendedorismo sob um outro ponto de vista. Sander Wennekers e Roy Thurik et al. defendem que o nível de desenvolvimento económico de um país, o seu rácio de crescimento económico e o seu sistema de segurança social influenciam o grau de empreendedorismo do país (não de uma forma direta). Assim, se por um lado em regiões mais desenvolvidas, os empreendedores têm acesso a recursos, conhecimento e tecnologia pelo que podem mais facilmente inovar e empreender, por outro lado, em países mais desfavorecidos, os empreendedores poderão depender mais da sua empresa para sobreviverem (será esta a motivação básica, enquanto em países mais desenvolvidos a independência é a motivação mais comum). Especificamente quanto ao nível de crescimento económico de um país, Roy Thurik (2008) defende que é expectável uma relação positiva entre o desenvolvimento económico e as aspirações empreendedoras dos empreendedores, particularmente ao nível do empreendedorismo inovador e de potencial de crescimento acrescido. Quanto à relação entre a segurança social de um país e o empreendedorismo, analisaremos a literatura no âmbito do ponto, relativo ao fator instituições. Cultura Um clássico da relação cultura e desenvolvimento económico é o trabalho elaborado por Max Weber sobre a relação da cultura protestante e o capitalismo, sugerindo que a
27 racionalidade e disciplina, subjacente ao espírito capitalista, resulta da enfase na piedade, zelo e indústria do calvinismo. Mais recentemente Sander Wennekers e Roy Thurik (1999 e 2004) sugerem uma relação possível entre a cultura subjacente e o empreendedorismo. A cultura pode ser entendida como essencialmente composta por valores (outros autores chamam-lhe atitudes) e superficialmente por rituais, heróis e símbolos (Geert Hofstede em 1995). Destes valores ou atitudes, os mais relevantes para o desenvolvimento económico propostos por Sander Wennekers e Roy Thurik (2004) são: a atitude perante o trabalho, a produtividade, o posicionamento perante a riqueza e a poupança, a abertura a nova informação, às novas invenções e a estranhos e ainda posicionamento perante o risco e o insucesso. Do trabalho de Sander Wennekers e Roy Thurik (2004) citamos: “Jane Jacobs has made some additional observations about culture and economic growth. In her view: “In its very nature, successful economic development has to be open-ended rather than goaloriented, and has to make itself up expediently and empirically as it goes along” (Jacobs, 1984, p. 221). Entrepreneurs have to find improvised solutions for unforeseeable problems. And this has little to do with “long-range planning” and meeting “targets”. Jacobs also cites Cyril Stanley Smith from MIT, who points out that the roots of invention are to be found in curiosity, and especially “esthetic curiosity”.” Este é um tema próximo do tratado por Richard Florida nos seus livros “The Rise of the Creative Class: And How It's Transforming Work, Leisure, Community And Everyday Life” (2002), e Cities and the Creative Class (2005), onde fala da importância dos espaços de liberdade onde as pessoas se sintam livres e bem para criarem, ou seja, para irem para além da norma. Tecnologia, talento e tolerância são para Richard Florida os 3 “t” (os 3 fatores determinantes) do florescimento de indústrias criativas Com Sander Wennekers e Roy Thurik (2004) podemos resumir que apesar do impacto da dimensão cultural no empreendedorismo e no crescimento económico ser forte, este não é imediato. Instituições Relativamente ao fator “instituições” e à forma como estas influenciam o ato empreendedor, distinguiremos instituições resultantes de grupos organizados de pressão - de instituições públicas, em particular o sistema de segurança nacional (pela impossibilidade de analisarmos todas as instituições com influência no mundo económico e especificamente no âmbito do empreendedorismo). Mancur Olson em 1982 e Joel Mokyr em 1990 consideram que grupos de pressão podem diminuir o empreendedorismo de um país, ao dificultarem o acesso a novas
28 tecnologias, profissões e recursos. Estes grupos de pressão podem ser sindicatos, organizações patronais e profissionais ou cartéis definidores de preços. O enquadramento jurídico destas organizações permitirá a sua saudável influência no tecido económico ou não. O próprio sistema jurídico é aliás um dos fortes fatores que interferem com o grau de empreendedorismo de um país, podendo encorajar ou desencorajar empreendedores, ao impor funcionamentos como taxas, regulamentação do mercado de trabalho ou sistema educativo (M. Henrekson em 2007) e J. Levie e E. Autio em 2008). Quanto às instituições públicas são muitas vezes vistas como estruturas muito burocratizadas, lentas ou mesmo inoperantes, que impedem o normal funcionamento económico de um país e são barreira de entrada de novos empreendedores. E, no entanto, as instituições públicas têm como meta regular e fazer funcionar melhor uma sociedade e é por isso que são aceites pelos cidadãos. Portanto, não podemos afirmar que as instituições públicas em geral impedem ou cerceiam o aparecimento de novos empreendedores, mas o seu disfuncionamento pode efetivamente ser um impedimento. Conforme M. Henrekson (2007): “It can be argued that the supply of entrepreneurship as well as its allocation across productive and unproductive activities is likely to be affected by the institutional setup of societies.” Especialmente a segurança social em estados sociais avançados tem sido identificada pela literatura como fonte de distorção (influencia) sobre comportamentos empreendedores, mas os autores divergem quanto às conclusões. Isto é, apontam o facto de uma segurança social protetora criar a rede de suporte útil ao empreendedor e portanto incentivar o empreendedorismo, mas apontam também que o mesmo tipo de proteção desencoraja o empreendedorismo porque acrescenta custos aos novos empresários e, por outro, o impulso empreendedor por necessidade não é tão forte (por vezes aumenta os custos de oportunidade do empreendedorismo, popularmente, porque o desempregado “ganha” o suficiente para não ter de “se esforçar”). Neste sentido, Sander Wennekers e Roy Thurik (1999) afirmam: “A generous social security system may lead to fewer but also to more self-employed.” E ainda “policy-makers face the challenge of designing social security systems in such a way that they do provide sufficient income security combined with incentives for innovative and growth-oriented behavior.” Surpreendentemente e contrariando não só o comumente aceite como alguma literatura, no seu estudo, Sander Wenneker e Roy Thurik (1999), detetam uma forte e positiva relação entre segurança social e a incidência do empreendedorismo por necessidade (e perguntam-se se a razão não residirá no facto de segurança social forte implicar altas taxas de emprego e portanto dificuldade de acesso a novos postos de trabalho); nenhuma relação entre a segurança social e a motivação “aumento de riqueza”; e uma forte relação negativa entre segurança social e a motivação “independência” (o que eventualmente poderia ter como causa o facto de seguranças
29 sociais elevadas não incentivarem a responsabilidade e portanto o motivo independência não ser entendido como essencial). Concluímos, a revisão da literatura sobre os fatores determinantes de empreendedorismo. Analisamos o que de mais relevante a literatura nos diz sobre os fatores determinantes sociodemográficos, percetuais e ambientais ou de contexto. Avançamos agora para uma análise do caso português, definindo quais as determinantes que melhor suportam o ato empreendedor.
36 H22) nível de educação. O nível de educação mais elevado, aumenta a probabilidade de ação empreendedora, atendendo a uma melhor formação e desenvolvimento de competências sociais. H23) experiência anterior com novo negócio. A participação em atividades empreendedoras constitui um estímulo adicional, pela experiência, redução da incerteza, conhecimento de situações específicas, vontade de vencer, reconhecimento social para executar uma ação empreendedora, fazendo aumentar a sua probabilidade. H3) A maior aversão ao risco faz diminuir a probabilidade de ação empreendedora. Esta relação justifica-se pelo receio de falhar nos negócios, que leva muitos indivíduos a não se envolverem em atividades que atendendo ao seu perfil procuram atividades profissionais alternativas que sejam mais estáveis. H4) A maior perceção do valor das inovações aumenta a probabilidade de ação empreendedora. H41) A atribuição de um maior valor à importância das inovações para o indivíduo faz aumentar a probabilidade de ação empreendedora, pois os indivíduos sentem-se melhor preparados para aceitar novas situações e lidar com elas, o que é importante no mundo dos negócios. H42) A melhor avaliação que os indivíduos fazem da importância das inovações nas organizações, embora não os afete tão diretamente como o caso anterior, tem como consequência o aumento da probabilidade da ação de empreender do indivíduo, pois ele reflete no seu comportamento o valor que atribui às inovações organizacionais. H5) A maior difusão de casos de empreendedorismo nos meios de comunicação social aumenta a probabilidade de ação empreendedora. O sentido de variação justifica-se pela maior valorização social que é atribuída ao ato de empreender e também à maior visibilidade da ação e aumento da autoestima de quem empreende. 3.4. População, amostra, base de dados Os dados usados na presente dissertação são de natureza secundária, tendo assim sido recolhidos por outras entidades por razões específicas que se prendem com o conhecimento e desenvolvimento da atividade empreendedora. Atendendo à sua importância e credibilidade
37 foram usados na presente dissertação. A população e amostra aqui usados confinam-se portanto à base de dados referida que é a GEM 2 National Adult Population Surveys, para o ano de 2010, à data o ano mais recente com dados disponíveis. Desta base de dados usou-se a informação para Portugal sobre a população adulta dos 18 aos 64 anos. O número de inquiridos (dimensão da amostra) é de 2002 indivíduos. Concebida em 1997 3 , o primeiro relatório da GEM (em 1999) abrangeu apenas dez países, quando o relatório de 2010 já se estende a 59 países, incluindo Portugal, distribuídos pelos 5 continentes. A equipa responsável pela realização do inquérito em Portugal é a SPI Ventures 4 , tendo sido auscultados 2002 inquiridos em Portugal, sendo o total da base de dados de 176699 inquiridos de todas as nacionalidades e 283 variáveis. Face ao número de respostas obtidas, algumas variáveis foram eliminadas, ficando o ficheiro de trabalho reduzido a 113 variáveis. Utiliza-se neste trabalho em termos de software os programas Excel, SPSS e EVIEWS para efetuar o tratamento e análise estatística de dados. 3.5. Modelo LOGIT Por ser o objetivo de investigação a avaliação de que certas variáveis explicativas são determinantes da ação de empreendedorismo, o método de análise seguido recorre ao modelo econométrico LOGIT. Este método caracteriza-se por admitir várias variáveis explicativas em simultâneo (é pois múltiplo), sendo que estas variáveis podem ser quer métricas quer não métricas (nomeadamente variáveis qualitativas). Outra característica essencial deste método é a de permitir analisar variáveis dependentes que são binárias, ou seja que assumem apenas duas alternativas qualitativas - sim, houve ação empreendedora versus não, não houve ação empreendedora, o que corresponde exatamente à característica da variável dependente do nosso estudo. Consideram-se duas variáveis a explicar em alternativa – o envolvimento ativo numa start-up (AStart-up) e o envolvimento numa atividade empreendedora inicial (TEA). Tecnicamente as duas variáveis são de natureza qualitativa e são codificadas através de variáveis binárias, em que o valor 1 representa que 2 GEM-Global Entrepreneurial Monitor. 3 Por Michael Hay (London Business School) e Bill Bygrave (Babson College). 4 Equipa: Augusto Medina, Douglas Thompson, Sara Medina, João Rodrigues e Nuno Gonçalves. www.spi.pi Financiadores: IAPMEI-Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação e FLAD-Fundação Luso-Americana para Desenvolvimento
38 o indivíduo está envolvido na atividade empreendedora (Start-up ou TEA), correspondendo o valor 0 ao caso contrário. O método de estimação utilizado nos modelos LOGIT é o da máxima verosimilhança que permite a verificação das propriedades estatísticas dos estimadores – consistência e eficiência assintótica (verificadas consoante os pressupostos admitidos). Os testes estatísticos usados são os testes de significância individual em que os estimadores seguem uma distribuição aproximada à normal, tendo-se usado no processo de análise da capacidade explicativa das variáveis os níveis de significância estatística de 5% e 10 % (admitindo-se testes unilaterais sempre que o sentido de variação entre cada uma das variáveis explicativas e a variável explicada é conhecido). Assim, o modelo LOGIT seguido para cada uma (Y) das duas variáveis dependentes representa-se da seguinte forma com as variáveis explicativas agrupadas: P(Y=1) = f (sociodemográficas; competências e qualificações; grau de aversão ao risco; tendência para a inovação; difusão de empreendedorismo nos media). Este modelo, Gujarati (2003), de uma forma genérica, contempla duas equações, a primeira refere-se a uma variável latente (Z), influenciada por um conjunto de variáveis explicativas (X), e a segunda permite o cálculo das probabilidades relativas ao acontecimento “ação de empreender”. Assim, sendo Z a “ação de empreendedorismo latente” (variável não observável), temos para a primeira equação: Z i = β 1 + β 2 X 2i + ... + β k X ki + u i A probabilidade de haver ação empreendedora (ou seja de Y=1), calcula-se neste modelo através da segunda equação, P(Y i =1)=1 1+e −Z i em que Y é a variável dependente observável com dois valores, se o inquirido respondeu sim (Y=1) ou não (Y=0) à ação de empreender e i representa cada um dos inquiridos. A variável Y representa as duas situações em estudo através da variável dependente relativa ao envolvimento com a criação de uma start-up (AStart-up) e TEA. As variáveis X são as variáveis explicativas que se enunciam junto dos modelos estimados.
39 Capítulo 4 Resultados Começa-se pela análise estatística descritiva das principais variáveis disponíveis no GEM-Portugal, 2010, seguindo-se a estimação dos modelos explicativos da atitude empreendedora. Para facilitar a compreensão e identificação dos resultados a variável SUBA do inquérito passa a ser referida como AStart-up e TEA10 por apenas TEA. 4.1. Análise Descritiva Neste ponto analisa-se o inquérito GEM para Portugal, em relação às seguintes variáveis associadas ao empreendedorismo: género; ocupação, dimensão do agregado familiar, nível de rendimento, nível de educação, região, grau de aversão ao risco, existência de oportunidade e sentimento face à inovação em termos individuais e sentimento face à inovação por referência à organização. Constata-se uma diferença clara da atitude empreendedora em relação ao género dos envolvidos, quer na variável AStart-up, quer TEA. Sendo que as mulheres representam 48% dos inquiridos (962 em 2002), só 25% estão envolvidas ativamente numa start-up e 34% numa atividade empreendedora inicial. Deste modo, a percentagem de empreendedores é mais de 2 pontos percentuais (pp) superior nos homens do que nas mulheres. Tabela 3 | Atividade empreendedora e o género
40 Em termos da ocupação atual, os inquiridos que têm autoemprego são os que apresentam uma atitude mais empreendedora, nos dois níveis de análise, seguidos dos que estão num emprego a tempo inteiro e dos que estão à procura de emprego. Tabela 4 | Atividade empreendedora e a ocupação Os agregados familiares entre 2-4 elementos representam mais de 70% dos que expressam uma iniciativa empreendedora. Tabela 5 | Atividade empreendedora e o agregado familiar
41 No entanto é de realçar que são nas abas destes agregados (dentro das parcelas mais representativas dos inquiridos), os que são formados por 1 e 5 elementos, que se situam das mais elevadas taxas de empreendedorismo (percentagem dos inquiridos que respondem afirmativamente) com níveis superiores a 4%. Avaliamos a atitude empreendedora a partir do escalão de rendimento mensal do agregado familiar. Esta determinante apresenta desde logo um elevado nível de não-resposta em relação aos que apresentam uma atitude empreendedora – 28% em relação a AStart-up e 41% de TEA, o que constitui o grupo com maior frequência da amostra. Dos que respondem, a atitude empreendedora, superior a 10%, é assumida sobretudo em 4 escalões de rendimento mais representativos, entre 750 e 1000€, 1251 e 1750€, 2500 e 3500€ e superior a 3500€. Os dois últimos escalões são aqueles onde a taxa de empreendedorismo é mais elevada, devendo-se, no entanto, ter algum cuidado na generalização, dado que o nível de inquiridos é mais reduzido – menos de 100 inquiridos. Tabela 6 | Atividade empreendedora e o nível de rendimento Destacam-se em termos de educação, 3 níveis de escolaridade – licenciatura universitária, frequência completa do ensino secundário e frequência de apenas cinco anos do ensino secundário, por ordem de importância. Estes agregados representam mais de 70% dos empreendedores, sendo de sublinhar que a escala educativa constitui de certa forma uma escala de atitude empreendedora. No entanto, é interessante verificar, mesmo com o baixo nível de inquiridos, que é no nível intermédio de formação que surge a maior taxa empreendedora – 8% em relação a AStart-up e 10% em relação a TEA.
42 Tabela 7 | Atividade empreendedora e a educação A região do Grande Porto, do Litoral Centro e da Grande Lisboa representam pelo menos 70% dos que apresentam uma atitude empreendedora em TEA e 81% de AStart-up. É também nestes locais onde a taxa empreendedora é mais elevada – no Grande Porto 3,8% nos AStart-up e Litoral Centro no TEA com 6,3%. Tabela 8 | Atividade empreendedora e região A atitude empreendedora, nos dois níveis em análise, não está condicionada pelo receio de falhar, dado que mais de 70% exprime que esse risco não condiciona a sua intervenção.
43 Tabela 9 | Atividade empreendedora e a aversão ao risco A oportunidade revela-se determinante para empreender. No entanto, no inquérito a distribuição entre aqueles empreendedores que vislumbram nos próximos 6 meses uma boa oportunidade para começar um negócio não é discriminante entre as duas possibilidades – 44% contra 42% em AStart-up e em TEA – 35% contra 51%. Tal realidade parece indiciar o nível mais avançado de intervenção em relação ao arranque do projeto em AStart-up e daí apresentar uma taxa de empreendedorismo claramente superior, 6,95 contra 1,74%. Tabela 10 | Atividade empreendedora e a oportunidade Por último, analisa-se a atitude empreendedora e o sentimento face à inovação a dois níveis – individual e da organização em que está inserido. Basicamente questiona-se ao nível individual se nos próximos 6 meses se vai adquirir (7A1 e 7B1), utilizar produtos com novas tecnologias (7A2 e 7B2) ou se estes melhoram a qualidade de vida pessoal (7A3 e 7B3). Enquanto em relação à organização mantêm-se os 3 tipos de questões (itens) e, portanto, no terceiro item a melhoria em termos de vida refere-se ao trabalho (working life).
44 Tabela 11 | Atividade empreendedora e a Inovação Posição Individual É interessante verificar a elevada percentagem dos inquiridos, mais de 50%, que a nível individual expressa concordância (fortemente e de alguma forma) e que considerandose os empreendedores esta percentagem se reforça drasticamente, atingindo nos 3 itens valores próximos de 70%.
45 Tabela 12 | Atividade empreendedora e a Inovação Posição Organizacional Constata-se que relativamente à organização, o sentimento face à inovação baixa consideravelmente. Desde logo, a percentagem dos inquiridos que revela concordância no primeiro item reduz-se para 27% e no segundo e terceiro itens para 52%. Estamos perante níveis de sentimento claramente inferiores aos registados a nível individual.
52 Tabela 16 | Modelo Explicativo da TEA: fase 2
53 Na segunda fase acrescentam-se as duas variáveis de inovação, apresentando-se os resultados no lado esquerdo da Tabela 16, para chegarmos (após validação estatística) ao modelo final explicativo da atividade empreendedora, que é apresentado no lado direito da Tabela 16. A análise dos resultados permite concluir que são cinco as variáveis significativas (admitindo-se o nível de significância de 10%, em teste unilateral): − idade (AGE), sendo que as pessoas mais jovens têm maior envolvimento ativo na criação de start-ups; − competências e experiências para envolvimento na atividade empreendedora (RD_SUSKIL); − grau de aversão risco (RD_FEARFAIL), também no limite estatístico de não rejeição da variável; − ocupação (R_OCCU=3) em que o autoemprego se revela determinante; − atitude individual face à inovação (INDINNOV). Em relação ao modelo “start-up” é de notar que o género e a experiência anterior na participação num negócio deixam de constituir fatores explicativos do envolvimento ativo inicial na atividade empreendedora (TEA), revelando que quando se está mais próximo da decisão final (criação da empresa) aquelas duas variáveis se tornam decisivas.
54 Capítulo 5 Conclusão A dinâmica económica a vários níveis – regeneração do tecido económico, inovação e emprego – passa pela capacidade empreendedora dos indivíduos e das empresas instaladas. Mais conhecimento e criatividade, mais emprego e mais riqueza é o ciclo virtuoso que se tenta dinamizar. Potenciar o envolvimento dos cidadãos e empresas nas diversas fases dos processos empreendedores – desde a ideia à concretização do projeto e constituição de uma nova empresa – é, hoje em dia, um claro objetivo da política económica duma forma transversal a todos os países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Conhecer os fatores que determinam a tomada de decisão individual, aparece como elemento crítico do desenho de políticas públicas para a dinamização do empreendedorismo e é nesse âmbito que se insere esta investigação. Tendo como ponto de partida a revisão da literatura, identificam-se neste trabalho de investigação os “fatores empreendedores”, ou seja que elementos conduzem à intervenção dos indivíduos na constituição de novos negócios. De uma forma geral podem ser referenciados 3 tipos de fatores: - sociodemográficos: onde aparecem variáveis como idade, género, educação, ocupação ou estado profissional; - percetuais: que incluem variáveis como a oportunidade, confiança nas próprias capacidades e habilitações, aversão ao risco e conhecimento de outros empreendedores; - e ambientais: como sejam tecnologia, desenvolvimento económico, cultura, instituições e ambiente macroeconómico e acesso a recursos financeiros. A partir do inquérito internacional GEM, concentramo-nos nos fatores sociodemográficos e percetuais para determinar, em Portugal, o que está por detrás da intenção empreendedora e neste âmbito numa dupla vertente, do envolvimento da atividade empreendedora inicial (TEA) e no envolvimento ativo em start-ups (AStart-up) ou seja fomos investigar que variáveis determinam a realização/concretização dessa atitude empreendedora, em geral e com a constituição das start-ups. Aliás, a própria análise
55 descritiva demonstra que os dois níveis são bem distintos, pois enquanto estão 4,97% dos inquiridos envolvidos em atividades relacionadas com o empreendedorismo, só 2,6% estão ativamente empenhados em start-ups. Projetando os resultados da amostra, para o universo da população portuguesa, em que existem 7 milhões de indivíduos no escalão etário dos 15- 64, diríamos que 347 mil indivíduos estão envolvidos em atividades empreendedoras, mas apenas 182 mil estão ativamente empenhados na criação de start-ups. Neste trabalho a grande maioria das hipóteses sob investigação pôde ser confirmada para o caso português. Com base nas teorias mais atuais sobre empreendedorismo, a análise dos resultados obtidos para Portugal, através dos modelos econométricos estimados para explicação do envolvimento inicial da atividade empreendedora, resume-se nas seguintes conclusões: - idade: confirma-se a probabilidade de um jovem adulto empreender ser superior às de idades mais avançadas. Variando as duas variáveis em sentido inverso, implica que em idades superiores há uma redução da dinâmica empreendedora; - competências e qualificações: uma perceção positiva de si próprio e das suas capacidades e habilitações influencia positivamente o ato de empreender. Este resultado acompanha as conclusões dos estudos internacionais; - aversão ao risco: a exemplo do que apontam alguns estudos internacionais, confirmase que a aversão ao risco ou medo de empreender influenciam negativamente a atitude empreendedora, mas, sobretudo porque a hipótese de sucesso da possível nova empresa ainda não é suficientemente percetível nesta fase tão inicial de preparação (relembramos a este propósito Joanna Sokolowska, (2004) Psychology.info, segundo a qual, no dia a dia a assunção de risco é uma constante e o risco faz parte do conceito primitivo, sendo essencial à tomada de posição; e ainda Joseph G. Johnson, Andreas Wilke e Elke U. Weber que informam que numa situação de risco as pessoas avaliam-no mas avaliam também os ganhos suplementares por tomarem esse risco e tomam decisões baseadas nesse cálculo. Neste sentido, conceptualizam o assumir do risco como uma troca entre o risco (medo) e a expectativa do retorno (esperança).) - ocupação: a teoria indicia que existe uma probabilidade maior de pessoas empregadas – aquelas que têm maior rendimento e melhor acesso a fontes de financiamento – criarem o seu negócio. Em Portugal, são os indivíduos em autoemprego que apresentam um maior envolvimento na atividade empreendedora; - inovação: a principal característica do empreendedor “é que faz algo qualitativamente novo”. É de notar que esta variável no estudo aplicado a Portugal aponta para o facto de ser a inovação na perspetiva individual que está associada ao ato empreendedor, em oposição à perspetiva do inquirido sobre o grau de inovação da organização em que está inserido.
56 Quando analisamos a atitude empreendedora ao nível do envolvimento em start-ups há fatores adicionalmente relevantes, ou seja, para além dos considerados anteriormente em TEA, constata-se que há duas variáveis que adicionalmente passam a discriminar a atitude empreendedora ao nível das start-ups, a saber: - género: os homens, quando se avança em termos de projeto empresarial e estamos perante a sua concretização, apresentam uma atitude realizadora superior à das mulheres. Neste âmbito, podemos referir que as mulheres não demonstram taxas de empreendedorismo francamente mais baixas que as dos homens no momento TEA (inicial), mas só na fase mais próxima da constituição do novo negócio Astartup se distinguem claramente quanto à concretização da atitude empreendedora. A causa da quebra de envolvimento por parte das empreendedoras femininas entre estas duas fases preparatórias carece de um aprofundamento e, sobretudo para quem acompanha empreendedores nestas fases, é importante que possam ser encontradas formas de apoio úteis ao público feminino sob pena de o grande investimento de tempo e trabalho resultar em vão. - experiência anterior: a experiência nos EUA indica que 60% dos empreendedores não têm experiência anterior, o que não se verifica em Portugal, onde o facto de já ter estado associado a uma start-up (como business angel, isto é, como financiador e participante no esforço de criação e gestão de uma empresa) tem impacto positivo e estatisticamente significativo, aliás a exemplo do que os estudos apontam para outros países europeus, nomeadamente a Suécia. Constata-se também que há uma variável que deixa de ser explicativa ao nível das start-up: - aversão ao risco: situa-se abaixo mas próxima do limite mínimo de relevância aceite neste trabalho. Neste momento de proximidade à criação da empresa e após todo o trabalho preparatório, é já possível ao empreendedor ter um quadro mais coerente e completo do possível sucesso da empresa, pelo que este se torna mais relevante na comparação com o risco de empreender. A troca entre o risco (medo) e a expectativa do retorno (esperança) reequilibra-se, deixando o medo de ser relevante de per si. Não tendo sido introduzidos neste trabalho como fatores explicativos os de natureza ambiental e macroeconómica, por se analisar apenas um país, uma extensão possível para trabalhos futuros é introduzir estas variáveis em estudos que incorporem mais que um país. Também efetuar a comparação internacional dos modelos explicativos propostos nesta dissertação com outros países com uma dimensão próxima de Portugal, que se sabe terem melhores dinâmicas empreendedoras, é um desenvolvimento natural da presente investigação e pode ser um trabalho relevante de benchmarking.
57 O presente estudo pode ainda ser estendido a outras fases do empreendedorismo, por exemplo através de inquirição aos empreendedores que já criaram as suas start-ups, procedendo-se à avaliação do processo, nomeadamente da importância das questões financeiras e de apoio e aconselhamento. Depois de as empresas estarem a operar cerca de 3 anos, pode também fazer-se uma análise económico-financeira e comercial do sucesso do projeto.
58
59 Referências Bibliográficas [1] Ardichvili, A., Cardozo, R. e Ray, S. (2003). A theory of entrepreneurial opportunity identification and development, Journal of Business Venturing, Volume 18, Issue 1,pages 105 -123. [2] Arenius, P. e Minniti, M. (2005). Perceptual Variables and Nascent Entrepreneurship, Small Business Economics, Springer 24: 233-247, DOI 10.101007/s11187-005-198 in http://business2.fiu.edu/1660397/www/Participation%20in%20Entrepreneurship/Arenius_M inniti_2005.pdf. [3] Bates, T. (1990). Entrepreneur Human Capital inputs and small Business longevity, The review of Economics and Statistics, Vol LXXII, Number 4, MIT Press http://www.jstor.org/discover/10.2307/2109594?uid=3738880&uid=2&uid=4&sid=21101069 040143. [4] Cantillon, R. (1959). Essai sur la Nature du Commerce en Général (Essay on the Nature of Trade in General), (first published in 1734, London), Library of Economics and Liberty, Frank Cass and Company Ltd. [5] Carree, M. A. e Thurik, R. (2002). The Impact of Entrepreneurship on Economic Growth, Centre for Advanced Small Business Economics (CASBEC) at Erasmus University Rotterdam,EIM Business and Policy Research, Zoetermeer, Faculty of Economics and Business Administration, University of Maastricht,Chapter prepared for the International Handbook of Entrepreneurship Research, edited by Zoltan Acs and David Audretsch. [6] Carter, N. M., Gartner, W. B., Shaver, K. G. e Gatewood, E.J. (2003). The career reasons of nascent entrepreneurs, Journal of Business Venturing 18. [7] Casson, M. (1982). The Entrepreneur, An Economic Theory, Library of Congress Cataloging in Publication Data, Barnes & Noble Books, - http://www.google.pt/books.
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68 ANEXO 3 | Qual a importância da educação para o empreendedorismo? A Comissária Europeia responsável pela Educação, Cultura, Multilinguismo e Juventude, Androulla Vassiliou, disse: «A educação para o empreendedorismo é um motor de crescimento futuro e ajudar-nos-á a inspirar os empresários de amanhã. Se a Europa se quiser manter competitiva terá de investir nas pessoas, nas suas competências e nas suas capacidades de adaptação e inovação. Significa isto que temos de promover uma verdadeira alteração das mentalidades na Europa para favorecer o empreendedorismo, começando por promover esse espírito desde os níveis precoces de educação.»” http://europa.eu/rapid/pressReleasesAction.do?reference=IP/12/365&format=HTML&aged=0&lang uage=PT&guiLanguage=en Conforme é questionado num texto de Anthony K. Tjan (co-autor do livro Heart, Smarts, Guts and Luck), publicado na Harvard Business Review, online, de 15 de Agosto de 2012: Pode o empreendedor ser feito (be made)?” O autor conclui que sim, mesmo que a resposta possa depender de pessoa para pessoa. Considera o autor que o cerne do empreendedorismo é: o coração (heart), a inteligência (smart), a coragem (guts) e a sorte (luck) e que estes podem ser ensinados, nutridos e desenvolvidos. Mesmo a sorte é passível de ser cultivada pela atitude perante os outros e a vida, e pela criação de redes favoráveis. O coração, traço comum mais forte nos empreendedores entrevistados para a elaboração do texto, entendido como paixão interior ou propósito, é algo com que eventualmente já cada um nasce, mas seguir essa paixão, esse propósito, é uma decisão explícita. E para agir é necessário coragem. Existem sempre riscos e decidir, iniciar, perseverar, adaptar, evoluir, são atos de coragem. Como se desenvolve a coragem, pergunta-se o autor, respondendo que se desenvolve a coragem em 3 momentos cruciais: experiências da infância precoce (mesmo os insucessos); treino para o risco (análise e treino para a mitigação do risco); apoio dos companheiros e fiabilidade (suporte dos amigos). Anthony K. Tjan defende que o empreendedorismo nasce no coração, na paixão e desejo, mas para se tornar realidade é necessário coragem. É pois a atitude que tem de ser alterada, é o encorajar mais pessoas para que realizem os seus sonhos, que tem de ser feito. A importância da educação para o empreendedorismo deve então estar fundeada na mudança de atitude e na transmissão de conhecimentos e experiências do como fazer (qualificação para o empreendedorismo). Em “Examining the formation of human capital in entrepreneurship: A meta-analyses of entrepreneurship education outcomes”, Martin B.C. (2012) realiza uma meta-análise cobrindo grande número de estudos sobre a matéria e centra-se no esclarecimento do porquê das análises sobre a importância da educação para o empreendedorismo obterem resultados equívocos quanto ao impacto deste tipo de educação (EET – entrepreneurship education and training) sobre dois out-
69 puts: ativos( competências) de capital humano relacionados com o empreendedorismo e atos de empreendedorismo (“entrepreneurship-related human capital assets and entrepreneurship outcomes”). Se bem que um grande número de estudos aponte uma relação positiva entre a educação para o empreendedorismo e ambos os out-puts (Kuratko, em 2005; Pittaway and Cope em 2007; Weaver et al. em 2006, Galloway and Brown em 2002; Kolvered and Moen, em 1997; De Tienne and Chandler, em 2004), outros estudos de relevo não apontam essa força positiva e alguns concluem até por uma relação negativa (Oesterbeck et al. em 2010, Mentoor and Friedrich em 2007) e especificamente quanto à relação negativa entre o treino da elaboração de planos de negócio e a performance na área do empreendedorismo (Honig and Karlsson em 2004; Honig and Samulsson em 2008). A teoria do capital humano, desenvolvida por Becker em 1964 e Mincer em 1958 tem potencial para explicar o porquê do impacto positivo da educação para o empreendedorismo e o comportamento empreendedor. Esta teoria defende que indivíduos ou grupos que possuem um maior grau de conhecimento, capacidades e outras competências atingirão melhores resultados do que aqueles que possuem níveis mais baixos. A meta-análise é favorável à noção de que a formação de ativos de capital humano relacionados com o empreendedorismo podem ser influenciados pela educação específica para o empreendedorismo, o que pode suportar o grande número de investimentos que estão a ser feitos e publicamente suportados na educação para o empreendedorismo. Também dois investigadores da Universidade da Beira Interior, Mário Raposo e Arminda do Paço concluem no seu trabalho, “Entrepreneurship education: Relationship between education and entrepreneurial activity”, apoiados em Peter Drucker, em 1985, que o empreendedorismo não é misterioso, ou místico, nem mesmo depende de causas genéticas mas é uma disciplina que se aprende. Reforçam esta posição com Kuratko e Hodgets que em 2004 defendem que o empreendedorismo é um processo dinâmico de visão, alteração e criação. Kuratko em 2005 defende que a perspetiva empreendedora pode ser desenvolvida nos indivíduos, e que a mesma é mais do que o esforço de criação de uma empresa podendo demonstrar-se dentro ou fora das organizações. Por outro lado, os mesmos autores defendem, com Landström e Sexton em 2000 que as crianças são desde logo empreendedoras e que portanto a educação para o empreendedorismo deve iniciar-se tão cedo quanto possível. Centrando-se a educação e o treino do empreendedorismo na alteração de atitudes pessoais mais do que na transmissão de conhecimentos e ferramentas, dada a amplitude que assim pode atingir a educação.
70 ANEXO 4 | United Nations Conference on Trade and Development Transcrição de parte de texto sobre: United Nations Conference on Trade and Development – Entrepreneurship and Economic Development: The EMPRETEC Showcase, Geneva, May 20014 Most economic, psychological and sociological research points to the fact that entrepreneurship is a process and not a static phenomenon. Entrepreneurship is more than just a mechanical economic factor (Pirich 2001: 14–15). Entrepreneurship has to do with change and is also commonly associated with choice-related issues. Existing definitions of entrepreneurship often relate to the functional role of entrepreneurs and include coordination, innovation, uncertainty bearing, capital supply, decision making, ownership and resource allocation (Friijs et al. 2002: 1–2; Jääskeläinen 2000: 5). Indeed, three of the most frequently mentioned functional roles of entrepreneurs are associated with major schools of thought on entrepreneurship: Risk seeking: the Cantillon or Knightian entrepreneur willing to take the risk associated with uncertainty ß Innovativeness: the Schumpeterian entrepreneur accelerating the generation, dissemination and application of innovative ideasß Opportunity seeking: the Kiznerian entrepreneur perceiving and seizing new profit opportunities (OECD 1998: 11; Carree and Thurik 2002: 8) One operational definition of entrepreneurship that successfully synthesises the functional roles of entrepreneurs is that of Wennekers and Thurik (1999):"…the manifest ability and willingness of individuals, on their own, in teams within and outside existing organizations, to perceive and create new economic opportunities (new products, new production methods, new organisational schemesand new product-market combinations) and to introduce their ideas in the market, in the face of uncertainty and other obstacles, by making decisions on location, form and the use of resources and institutions." (46–47)
ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 1- Inicial
72 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 1 - Final
73 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 2 - Inicial
74 ANEXO 5 | AStart-up: Modelos Estimados FASE 2 - Final
75 ANEXO 6 | TEA: Modelos Estimados FASE 1- Inicial
76 ANEXO 6 | TEA: Modelos Estimados FASE 1 - Final
77 ANEXO 6 | TEA : Modelos Estimados FASE 2 - Inicial