Diplomacia e conflitos internacionais
Abstract
A Diplomacia e os Conflitos Internacionais constituem o tema genérico deste volume 5, da IV série da História - revista da FLUP, relativo ao ano de 2015. De facto, este ano completam‑se 200 anos sobre a assinatura da Ata Final do Congresso de Viena e 70 anos sobre o fim da IIª Guerra Mundial.
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9 Diplomacia e conflitos internacionais Introdução A Diplomacia e os Conflitos Internacionais constituem o tema genérico deste volume 5, da IV série da História – revista da FLUP, relativo ao ano de 2015. De facto, este ano completam ‑se 200 anos sobre a assinatura da Ata Final do Congresso de Viena e 70 anos sobre o fim da IIª Guerra Mundial. Ambos os conflitos tiveram a Europa como palco privilegiado, embora envolvessem outros continentes, facto este mais notório e gravoso no caso da IIº Guerra Mundial, do que nas guerras napoleónicas. No entanto, em ambos os casos, o fim das hostilidades deu origem a uma nova ordem europeia e mundial, provocando transformações políticas, sociais e económicas, em que a Diplomacia teve nos dois casos um papel de primeiro plano. Em 1815, após pouco mais um ano de negociações, ao mais alto nível, na capital austríaca, sob a batuta do Príncipe de Metternich, chegou ‑se a um tratado que restabelecia a paz na Europa e se tentava um regresso aos regimes vigentes antes da Revolução Francesa. Refira ‑se que Portugal contribuíra para a derrota final de Napoleão e fora um dos signatários da Paz de Paris em 1814, pelo que ganhara o direito a estar presente neste Congresso. No entanto, as quatro grandes potências vencedoras (Reino ‑Unido, Prússia, Áustria e Rússia) queriam ‑no impedir de participar nesta reunião. A habilidade dos diplomatas portugueses presentes em Viena, nomeadamente do conde de Palmela, conseguiu reverter esta situação, apesar de Portugal nesta altura, já ser tratado como uma “potência de segunda ordem1” e da dualidade da diplomacia da corte do Rio de Janeiro, conforme refere Jorge Borges de Macedo, dividida entre os interesses lusos na América e na Europa2. Ainda de mencionar que a elevação do Brasil, a reino, com a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, a 16 de dezembro de 1815, segundo Ana Leal de Faria, foi também aprovada neste fórum internacional3. O ano de 1945, por seu lado, marca o fim das ações armadas contra a Alemanha, bem como contra o Japão e o começar de um afã de negociações diplomáticas entre os denominados “Três Grandes” (Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido) para reorganizar o mundo. 1 Österreichisches Staatsarchiv, Haus ‑, Hof ‑ und Staatsarchiv. Stk, Kongressakten, (Monarchencongresse und Ministerialconferenzen) (1814/15 – 1822), Kart 1, (Fz. 1, 2), Kongressakten 1 (fls. 1 ‑254). Nota do conde Palmela para Lord Castlereagh, datada de Viena, 30 de setembro de 1814. 2 Jorge Borges de Macedo, História Diplomática Portuguesa. Constantes e linhas de força (2ª ed., Lisboa: Tribuna da História), 2006, p. 428 ‑430. 3 Ana Leal de Faria, Arquitectos da Paz. A Diplomacia Portuguesa de 1640 a 1815 (Lisboa: Tribuna da História), 2008, p.156 ‑157. Jorge Martins Ribeiro Diplomacia e conflitos internacionais
10 Jorge Martins Ribeiro ‑ Diplomacia e conflitos internacionais História. Revista da FLUP. Porto, IV Série, vol. 5 ‑ 2015, 9‑10 Neste conflito, e nas negociações que se lhe seguiram, Portugal desempenhou um papel menor, mantendo ‑se neutral e oscilando entre as simpatias pró ‑nazis ou a aliança britânica, por parte das elites políticas e económicas portuguesas. Finalmente os desenvolvimentos e resultados das ações militares levaram Lisboa a decidir ‑se pelo campo dos aliados, pelo que apesar da natureza antidemocrática do regime, Portugal pode contar ‑se entre os membros fundadores da OTAN e da ONU. Nestes dois eventos, a diplomacia e os diplomatas tiveram um papel relevante, nos seus múltiplos aspetos de representação, negociação e proteção. Tudo isto com o fim último de preservar a Paz, na Europa e no mundo, mas também de garantir vantagens para os vencedores. Assim, tendo como ponto de partida o tema deste dossiê temático, conforme foi referido na apresentação deste número, diversos autores responderam ao repto lançado e apresentaram vários contributos em que refletem sobre os conflitos internacionais e a forma como a diplomacia e os diplomatas, ao longo dos séculos, vêm lidando com eles. Reflexão, sem dúvida importante, nestes meados da segunda década do século XXI, em que conflitos e crises ameaçam a estabilidade mundial, com novos desafios à ordem estabelecida, e onde as negociações diplomáticas devem desempenhar um papel relevante, para evitar o alastrar da violência e acabar com as tragédias humanas que vem assolando a época atual. Agora e mais que nunca o conhecimento da História revela ‑se imprescindível para compreendermos o nosso tempo e servir de bússola para nos guiar, rumo a um futuro incerto e desconhecido. Coordenador do dossiê temático Jorge Martins Ribeiro