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Ver passar a vida num campo de refugiados: quotidiano e significação psicológica

Cátia Moreira de Carvalho

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I Cátia Moreira de Carvalho VER PASSAR A VIDA NUM CAMPO DE REFUGIADOS QUOTIDIANO E SIGNIFICAÇÃO PSICOLÓGICA Junho, 2014 Dissertação apresentada na Faculdade de Psicologia e de Ciência da Educação da Universidade do Porto, para obtenção do grau Mestre em Psicologia, na área de especialização em Psicologia do Comportamento Desviante e Justiça, sob a Orientação da Professora Doutora Marta Pinto. II Resumo Esta Dissertação é um estudo exploratório que pretende compreender o quotidiano vivido num campo de refugiados, os seus problemas inerentes, os significados atribuídos a essa experiência e ainda encontrar, junto das pessoas entrevistadas, formas de os contornar. Para a realização da investigação recorreu-se a entrevistas qualitativas, observação participante e gravação de fotografias e vídeos. Foram entrevistados oito refugiados e a observação foi feita com alguns dos entrevistados e técnicos do ACNUR, que acompanhavam as visitas ao campo. Assim, como resultados mais salientes e com necessidade de melhoria são a educação, a alimentação e certeza quanto ao futuro. É de notar, ainda, que estes refugiados viviam na capital da República Centro-Africana, Banghi, e, antes da fuga, eram pessoas que tinham emprego, estudos universitários e objetivos de vida que foram bloqueados pelo despoletar da guerra e consequente deslocamento. Por último, este estudo decorreu no campo de refugiados de Molé na República Democrática do Congo em fevereiro de 2014. Palavras-chave: refugiados, campos, obstáculos diários, condições de vida. Abstract The present Thesis is an exploratory study which aims to understand the daily life lived in a refugee camp, its inherent issues, the meaning attached by refugees to this experience and, together with them, to find ways to overcome these issues. To accomplish the investigation we used qualitative interviews, participant observation and photos and video record. Eight refugees were interviewed and some of them helped with participant observation, as well as some professionals from UNHCR. The most important results are concerns with education, food and uncertainty of future. Before war, these refugees lived in Banghi, the capital of Central African Republic and they had job, university education and life goals that and been interrupted by war and displacement. This study was carried out in Molé refugee camp in Democratic Republic of the Congo in February 2014. Keywords: refugees, camps, daily hassles, life conditions. III Résumé Cette dissertation est une étude exploratoire qui prétend comprendre le quotidien vécu dans un camp de réfugiés, ses problèmes inhérents, les significations attribuées à cette expérience et aussi trouver auprès des personnes interviewées des manières de les esquiver. Pour la réalisation de l’investigation nous avons effectué des interviews qualitatives, pratiqué l’observation participante et réalisé l’enregistrement de vidéos et photos. Huit réfugiés ont été interviewés et l’observation a été faite avec quelques interviewés et techniciens d’ACNUR qui accompagnaient les visites au camp. Ainsi, les résultats les plus frappants et par conséquent les champs qui ont besoin d’amélioration sont l’éducation, l’alimentation et la certitude de l’avenir. Nous avons pu aussi constater que les réfugiés vivaient dans la capitale de la République Centro-Africaine – Banghi, et qu’avant la fuite ils étaient des personnes qui avaient un emploi, des études universitaires et des objectifs de vie qui ont été bloqués par le début de la guerre et conséquemment le déplacement. Enfin, cette étude s’est déroulée dans le camp de réfugiés de Molé dans la République Démocratique du Congo en février 2014. Mots-clés : réfugiés, camps, obstacles quotidiens, conditions de vie. IV AGRADECIMENTOS Professora Doutora Marta Pinto, para si peço uma grande salva de palmas! Ensinou-me os valores e princípios orientadores de um psicólogo de Comportamento Desviante e Justiça, através do fascínio e entrega total com que lecionou as aulas e orientou o meu trabalho. Obrigada por isso e por ter acreditado sempre em mim! Afinal de contas, fomos “as duas únicas tolinhas a acreditar nos sonhos”! Dr. João Serrão Lopes, cônsul na Embaixada de Portugal em Kinshasa, não tenho palavras que cheguem para te dizer o quanto te agradeço por tudo o que fizeste! Foi, sem dúvida, marcante para mim a dedicação e empenho que demonstraste para me ajudar. Obrigada pelo acolhimento, amizade e por me teres aberto a porta para o maravilhoso mundo novo que descobri! Professora Doutora Cristina Santinho, obrigada por ter sido a minha “teacher” a fingir, por ter manifestado sempre interesse no meu trabalho, mesmo quando eu não tinha experiência nenhuma. Obrigada por ter acompanhado sempre os meus passos na RDC com tanto entusiasmo e por me ter deixado partilhar consigo toda esta experiência! Cá estarei para ser consigo uma “outsider” no tema dos refugiados em Portugal! Bernardo Ortigão, meu querido, tu que estiveste sempre comigo com sensatez e que andaste sempre ao meu lado a ajudar-me, foste o meu apoio, o meu braço direito, o meu alicerce para eu ter chegado onde cheguei, É inefável a gratidão e admiração que sinto pelo Homem que és…! Nunca esquecerei isto: “E porque não? Foi assim que chegámos à Índia!”. Mãe, mesmo tendo o teu “coração negro” por saberes que eu ia para “um campo de refugiados no meio de África”, tu estiveste sempre lá para tudo o que precisei. Admiro-te como Mãe e Mulher porque nunca me fechaste a porta aos meus sonhos e ainda a abriste e, apesar de tudo, sempre me apoiaste firmemente! Aos refugiados que conheci, vocês são mesmo um exemplo de resiliência e bondade! Ultrapassaram as expectativas que tinha em relação à vossa capacidade de Humanidade e mostraram-me que os sonhos têm lugar em qualquer sítio, desde que estejam dentro de nós! Stefano Severe, diretor regional do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados na RDC, César Pastor, administrador do campo de Molé, e Désiré Mbandianga, oficial de proteção, obrigada por terem tornado o meu sonho real e por me terem disponibilizado tudo o que eu precisei para concretizar este maravilhoso projeto! V Aos portugueses em Kinshasa, Inês, Armando, Custódio, Paulo e Miguel, vocês tornaram a minha ida à RDC alegre, acolhedora e recheada de bons encontros. Jamais esquecerei esses momentos que transporto comigo com carinho e saudade no meu peito! E a todas as outras pessoas que me apoiaram: Irmãos e Pai, Fafá e Manel, Vânia Sousa, Renata Oliveira, Teresa Vieira, Gil Pereira, grupo do Francês, Dra. Catarina Ribeiro e Dra. Mariana Barbosa e outros que não estão aqui contemplados, mas não são esquecidos: agradeçovos! VI See the nation through the people's eyes, See tears that flow like rivers from the skies. Where it seems there are only borderlines Where others turn and sigh, You shall rise There's disaster in your past Boundaries in your path What do you desire when lift you higher? You don't have to be extraordinary, just forgiving Those who never heard your cries, You shall rise And look toward the skies. Where others fail, you prevail in time. You shall rise. You may never know, If you lay low, lay low You shall rise See the nation through the people's eyes, See tears that flow like rivers from the skies. Where it seems there are only borderlines Where others turn and sigh, You shall rise Sooner or later we must try... Living Mattafix, Living Darfur ÍNDICE INTRODUÇÃO…………………………………………………………………....1 PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO…………………………………....3 1.Origem e Evolução Histórica do Problema dos Refugiados………………..........3 As Três Soluções Duradouras para a Causa dos Refugiados………………………5 2.Duplamente Vítimas: refugiados e espetadores num campo……………………..6 3.Viver num campo de refugiados…………………………………………….........8 4.Fugas, violações e perdas: o impacto na saúde mental e a resiliência…………....13 4.1.Stress e Obstáculos da Vida Diária……………………………………………..13 4.2.Impacto na Saúde Mental……………………………………………………....15 4.3.Evidências de Trauma e Stress Pós-Traumático………………………………...17 4.4.Violência Doméstica como Consequência do Deslocamento………………......18 4.5.Resiliência………………………………………………………………………19 PARTE II - METODOLOGIA……………………………………………………..22 1.Enquadramento Metodológico……………………………………………………22 1.1.Entrevistas Qualitativas…………………………………………………………23 1.2.Observação Participante………………………………………………………...24 1.3.Fotografias e Vídeos como Métodos Complementares………………………....25 2.As Três Componentes da Recolha de Dados e seus Contributos…………….......26 3.Campo de Refugiados de Molé, República Democrática do Congo……………..27 4.Análise Categorial dos Dados Recolhidos……………………………………….29 PARTE III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADODS ……………… 31 1.Resultados das Entrevistas Aprofundadas……………………………………….31 1.1.Passado………………………………………………………………………...31 1.2.Presente………………………………………………………………………...33 1.3.Futuro…………………………………………………………………………..43 2.Observação Participante…………………………………………………………44 3.Síntese dos Dados Recolhidos……………………………………………….......50 4.Discussão dos Resultados………………………………………………………..52 PARTE IV – CONCLUSÃO……………………...………………………............59 PARTE V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS….…………………………...62 ANEXOS………………………………………………………………………….72 ANEXO I – Projecto de investigação apresentado ao ACNUR para obtenção de autorização para estudar um campo de refugiados………………………………...73 ANEXO II – Grelha de observação participante…………………………………..75 ANEXO III – Temas das questões das entrevistas………………………………...77 ANEXO IV – Dados da observação participante………………………………….78 ANEXO V – Grelha de análise das entrevistas……………………………………97 ANEXO VI – Grelha de análise da observação participante……………………...101 LISTA DE ACRÓNIMOS ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados CNR – Commission Nationale pour les Réfugiés RCA – República Centro-Africana RDC – República Democrática do Congo ONU – Organização das Nações Unidas PAM – Programa Alimentar Mundial UNICEF – United Nations International Children’s Emergency Fund UNHCR – United Nations High Commission for Refugees WHO – World Health Organization 7 um conflito que se tornou sem sentido para eles, estes seres humanos em prorrogação e meramente sobrevivendo, são como perfeitas vítimas (Agier, 2008). Portanto, como tal, cada pessoa em fuga traz consigo a experiência de ser indesejável e sem lugar. Isto porque o seu governo recusa-se a registar ou a assistir as populações deslocadas dentro dos seus próprios países, ou ainda outros governos, mais ou menos obrigados a deixar os refugiados chegarem ao seu território, recusam dar-lhes o estatuto nacional de refugiado e tentam negociar a sua partida com as organizações internacionais (Agier, 2008). Apesar da população de refugiados ser heterogénea em termos de condições particulares do seu êxodo, na sua espera nos campos ou nos limites das cidades, nos termos de estatuto legal de pessoa deslocada, refugiado, ou imigrante ilegal, como também são heterogéneas as causas da guerra e da violência na origem da partida, uma unidade essencial constitui esta população num mundo à parte e uma relativamente unificada: uma identidade de existência que é imprevista, inominável e nas margens da humanidade comum (Agier, 2008). E como se não bastasse, uma identidade de vítimas. Longe de qualquer glória, é uma acumulação de perdas, rejeições e fugas, confusões de família, administrativas e materiais, sendo que o único resultado disso, é aceitarem-se como vítimas e receberem ajuda humanitária ou viverem clandestinamente (Agier, 2008). Para além disso, como por vezes o exílio em países vizinhos se torna um problema, o grupo das pessoas internamente deslocadas formam a maior categoria de deportados, a menos protegida e a que cresce mais rápido. Isto porque não é uma população incluída na proteção e assistência do ACNUR, apesar deste tentar quantificar estas pessoas (Agier, 2008). São as ONG’s que de facto gerem os campos de pessoas internamente deslocadas, após uma atribuição indireta da sua gestão ao ACNUR, que tomou interesse nesta questão para evitar um problema de refugiados noutro sítio (Agier, 2008). Apesar de totalmente preparados e disponíveis para qualquer atividade que poderia reanimar as pessoas internamente deslocadas como simples cidadãos, a sua fragilidade social é tão grande como a dos refugiados no estrangeiro, mesmo que o facto de não terem deixado o seu país faça delas menos “estrangeiros” em relação ao ambiente do campo. À parte os problemas de simples segurança física num contexto violento, a ausência de proteção legal e social transforma os campos das pessoas internamente deslocadas em reservas regulares desprotegidas de poder de trabalho, tanto 8 dócil como forte. A demografia do campo, na verdade, é por vezes particularmente atrativa para potenciais empregadores, como é a docilidade social dos deslocados (Agier, 2008). 3. Viver num campo de refugiados “E ver passar a vida faz-me tédio.” Álvaro de Campos, Opiário Os refugiados que são estudados em campos são alvo de análise de variáveis singulares ou em interação com o passado (ex: Pavlish, 2005, 2012; Johnson, 2011; Miller, 1996; Rasmussen, 2009; Feseha et al, 2012; Horn, 2010; De Jong, Scholte, Koeter, Hart, 2000; Oh & Stouwe, 2008; Cooper, 2005; Fiddian-Qasmiyeh, 2011), mas a presente investigação pretende explorar de uma forma mais alargada o que é, de facto, viver num campo e tudo o que isso implica. Neste sentido, o autor que melhor fundamenta e estuda esta condição é Michel Agier e nenhum outro contribui de uma forma tão precisa e global para a compreensão da vida num campo. Portanto, seguindo a sua lógica de pensamento e investigação, esta Dissertação pretende, a par deste autor, contribuir para a compreensão e melhoria das condições de vida dos campos de refugiados e dar voz e reconhecimento a estas pessoas. Assim, de acordo com Agier (2008), os campos constituem um programa de ação para vigiar, alimentar e cuidar da saúde de uma população a quem é oferecido refúgio para se abrigar de mortes violentas derivadas da guerra ou da fome. Apesar de tudo, estes espaços representam incontestavelmente a melhor solução de emergência em operação: tornam possível agrupar pessoas efetivamente, assegurar proteção e um nível mínimo de cuidados para exilados que chegam em massa, com fome, destituídos e frequentemente em pobres condições de saúde. Estes campos tomam uma forma estandardizada, planeada e oficial e, embora seja visitado pelos representantes das agências da ONU tempos a tempos, ou jornalistas, e frequentemente fotografado pelas suas qualidades estéticas dramáticas, os campos de refugiados não são completamente visíveis no seu dia-a-dia, uma vez que estão localizados fora de tudo e o seu acesso é supervisionado. Para além disso, nada de fundamental acontece lá (Agier, 2008). Mais uma vez, refugiados são a prova e um exemplo emblemático de uma condição humana que é moldada e fixada nas margens do 9 mundo e um dos seus fundamentos mais tenazes é a nossa ignorância disso (Agier, 2008). Para além disto, os campos são de facto a quarta solução não oficial do ACNUR para resolver o problema dos refugiados – uma solução massiva e duradoura, e claramente a preferida em África e Ásia, em detrimento das três outras soluções já faladas (Agier, 2008). É de referir que as diferenças que se verificam em refugiados que vivem em campos e refugiados que vivem integrados num terceiro país são consideráveis. A adaptação a uma nova cultura e integração é um assunto que preocupa mais os refugiados urbanos do que os que vivem em campos, pois estes sentem a sua experiência como temporária e o facto de estarem agrupados numa comunidade caraterística dificulta a sua integração local. Contudo, os campos são localizados relativamente perto do cenário de violência, ao contrário de refugiados urbanos, o que promove a contínua vulnerabilidade destas pessoas. E ainda se verifica uma última grande diferença que se refere ao acesso a serviços, como saúde, justiça e educação. Nos campos estes serviços limitam-se, tipicamente, a prestação de cuidados básicos, alimentos e escola primária (Miller, 1996). Relativamente à localização do espaço do campo, os responsáveis oficiais da ONU admitem, atualmente, que a distância tem de ser estabelecida, por razões de segurança, a pelo menos 50 km de uma fronteira (Agier, 2005; Reich, 2008), contudo este intervalo não parece diminuir alguns ataques (Reich, 2008). Para isto, o ACNUR desenvolveu linhas orientadoras para a segurança de um campo, baseadas em três níveis diferentes: soft, médio e alto, conhecidas como “Escada de Opções”. Ou seja, a segurança física deve ser garantida pelo Estado anfitrião para prevenir ataques, conflitos internos e militarização de refugiados. Contudo, muitos Estados não são capazes ou não estão dispostos a assumir essa responsabilidade (ACNUR, 2000). Os níveis “médio” e “alto” envolvem o desenvolvimento de forças policiais ou militares pela comunidade internacional e estas opções são bastantes dispendiosas (Johnson, 2011). Johnson (2011) analisou o comportamento de grupos armados e a vulnerabilidade dos campos de refugiados, baseado na premissa de que os campos são alvos atrativos, pois as organizações humanitárias fornecem comida e bens, enquanto que os Estados anfitriões não são sempre capazes de oferecer segurança adequada (UNSC, 1998; Achvarina & Reich, 2006). O resultado desta prestação de bens 10 essenciais reflete-se com os refugiados na posse de materiais desejáveis, mas sem os meios para se protegerem. Essencialmente, os ataques armados nos campos de refugiados ocorrem devido a quatro razões: conflito ambiental, saques, recrutamento forçado e/ou genocídio (Mtango, 1989; Blavo, 1999; Turk, 2003) e a motivação subjacente a estes ataques relaciona-se com a alocação de recursos naturais ou materiais (Johnson, 2011). Estes ataques dependem também dos grupos armados, dos seus objetivos e nível de violência (Mtango, 1989). Mesmo assim, apesar desta combinação ser atrativa para os grupos armados, nem todos os campos são atacados (Johnson, 2011). Este autor encontrou que a distribuição de homens versus mulheres, o nível de refugiados adolescentes e o tamanho global da população influencia a probabilidade de um ataque. À medida que os campos aumentam o tamanho, aumenta também a probabilidade de um ataque ou recrutamento forçado. Contudo, quando a percentagem de homens no campo aumenta, a probabilidade de um ataque ou recrutamento forçado diminui. Por outro lado, distribuir a população nos campos por um nível mais baixo de idade diminui também a probabilidade de um ataque (Johnson, 2011). Johnson (2011) conclui, então, que, quando se desenham estes espaços, se deve ter em consideração a demografia dos campos. Segundo Hannah Arendt o deserto é o oposto da mudança social e política, que une todos os seres humanos, juntando-os e distinguindo-os ao mesmo tempo. Fazendo o paralelo, o campo de refugiados é construído como um deserto, não só porque está localizado nos confins de África ou Ásia e longe das cidades. Ou seja, o espaço comum dos refugiados, o seu mundo, não é desejado ou procurado. E, em nome do bem-estar e eficácia das intervenções de sobrevivência das vítimas, cria-se um ambiente em que as conversações e liberdade são um problema (Agier, 2008). Isto porque, a ambição de um campo de refugiados é assegurar a proteção e sobrevivência de pessoas deslocadas, mesmo quando a guerra está próxima, mas este tipo de responsabilidade é verdadeiramente instável e depende do desenvolvimento dos conflitos. Mas, segundo Agier (2008), o verdadeiro fundamento dos campos de refugiados é ser um lugar de espera longe da sociedade e um sítio de pessoas deslocadas e refugiados que habitam zonas periféricas de ocupação temporária ou ilegal, de tal forma que as pessoas vivem das relações particulares, privadas de outras e sem experiências de diferentes. Ainda de acordo com este autor, os campos estão localizados fora do mundo comum, em que se aplica um regime excecional, normalmente reservado para um 11 marginal, um limite do mundo mantido à parte e direcionado para a sobrevivência, que não necessita ser pensado de modo que nenhuma consideração sobre si precisa de ser elaborada. Assim, lida-se com o surgir rápido de campos e marginais que partilham o destino de refugiados. Desta forma, os refugiados estão num estado de espera e geralmente não têm direito de poder trabalhar a terra onde estão, ou de ter emprego, uma vez que a vida é oferecida pelo princípio humanitário (Agier, 2008). A inatividade domina, então, o campo. Este problema é o corolário do sentimento de abandono e afeta todos, embora afete mais quem tinha emprego reconhecido antes do êxodo. Sofrimento moral e problemas psicológicos relacionados com inatividade profissional ocupam um importante lugar entre os problemas dos refugiados. De uma forma repetitiva, estas pessoas expressam, acima de tudo, sentimentos de impotência e inutilidade (Agier, 2008). Segundo um oficial do ACNUR (Agier, 2008) não há mercado de trabalho oficial nos campos, e como os refugiados são vistos como estrangeiros e não têm permissão para trabalhar, os que trabalham fora do campo são ilegais. Por consequência, os refugiados veem as organizações humanitárias como fonte de emprego e de rendimentos, mesmo que seja pouco: a sua ligação é uma função da penúria em que vivem. Contudo, todos os trabalhos são precários, vistos como missões, um contrato ou oportunidade que não será renovada (Agier, 2008). E, para as ONG’s, a atividade comercial cedida aos refugiados é uma forma de combater a inatividade e, acima de tudo, fornece um valor educacional e social (Agier, 2008). A proibição de trabalhar e, mais geralmente, a ausência de direitos fora do campo no país anfitrião, frequentemente conduz os refugiados à inatividade, apatia e dependência de caridade humanitária e assistência, ou em alternativa em busca de redes de trabalho e comércio informal e inevitavelmente ilegal (Agier, 2008). Nos campos, como noutros sítios, a prostituição e abuso sexual contra minorias floresce, não só devido a privação de materiais, mas também devido ao desaparecimento ou deslocação do ambiente social para a maioria dos refugiados (Agier, 2008). Ou seja, os campos de refugiados são sempre organismos híbridos, que não reproduzem qualquer forma socio-espacial já existente; eles são novas experiências para o local onde se estabelecem, senão o permanente paradoxo que a sua existência 12 expressa, entre uma indefinida temporalidade e espaço que são transformados, porque os seus ocupantes apropriam-se necessariamente para viverem nele. Concebidos originalmente sem algum projeto para além da simples sobrevivência, ou o estacionamento provisório de uma população deslocada e controlada, estes campos foram transformados ao longo do tempo e com os múltiplos usos que os seus ocupantes fizeram para eles dos recursos que a assistência humanitária representa. A formação de campos-cidade ou largos distritos urbanos - os campos palestinianos representam hoje o modelo mais desenvolvido deles - é a culminação de um desenvolvimento lógico das instalações de refugiados. Mas a existência de refugiados também tem sido marcada em parte por uma diferente forma, particularmente em África – espaços rurais e vilas de refugiados. Este tipo de estabelecimento foi visto como uma solução para a “assimilação local” dos refugiados, mas também como uma forma de preenchimento de zonas rurais pobres e pouco povoadas, que pode ser resultado direto do interesse do país anfitrião (Agier, 2008). Regra geral, os campos são estabelecidos em terras virgens como uma incursão violenta e repentina, por vezes, no meio local. Depois de primeiro serem instaladas tendas grandes, os refugiados constroem, à volta destas tendas coletivas, barracas e cabanas feitas de tijolos de barro e madeira, com telhados de tecido plastificado ou palha, sendo o material fornecido pelas ONG’s. Habitações familiares ou individuais de uma ou duas divisões rodeiam a tenda central, que é retirada quando todas as cabanas são construídas. Simultaneamente, em poucos meses ou um ano, há um aumento de ruas sujas, sistemas de fornecimento de água (poços, cisternas, redes de tubulação e fontanários), latrinas, fossas séticas, bem como alguns edifícios públicos (clínicas, escolas, administração do campo). Em paralelo com o material de construção do campo, uma forma social original surge (Agier, 2008). Finalmente, a questão mais geral dos campos de refugiados – assim que a sua existência persiste para além do momento de emergência e é estabelecida para um período mais longo – é a transformação em espaços de identificação, relações e até memórias para aquelas mulheres e homens que vivem lá (embora à espera de retornarem a casa) por anos e décadas, ou que nasceram e casaram lá, enterraram os seus mortos e estabeleceram um leque de relações com a população local (Agier, 2008). 13 4. Fugas, violações e perdas: o impacto na saúde mental e a resiliência Saúde é um estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doença ou enfermidade (WHO, 1946). Os estados de apatia e depressão, expressões de agressividade ou intolerância, que são verificados por psicólogos em pessoas deslocadas, são o reflexo de uma falta de definição derivada da sua condição de refugiado, e a anomia mais ou menos durável no tempo e espaço: uma vida sem nomos, sem lei estável, que integre o seu destino na humanidade geral. A ausência de projetos - individuais, familiares ou comunitários - é mais um aspeto típico desta falta de leis. A decomposição de famílias é observada no deslocamento e na chegada - insegurança e fragilidade das relações do dia-a-dia no novo contexto leva a separações, dispersão de crianças e conflitos (Agier, 2008). 4.1. Stress e Obstáculos da Vida Diária Recentemente, dois estudos abordaram o impacto dos obstáculos da vida diária em populações afetadas pela guerra. Miller, Omidian, Rasmussen, Yaqubi & Daudzi (2008) encontraram que entre os homens e mulheres que viviam em Cabul, Afeganistão, o stress provocado pelos obstáculos da vida diária contava tanto para a variância nos sintomas psicológicos e défice funcional, como quanto as experiências de guerra. E, com mais obstáculos no quotidiano, a influência das experiências de guerra no stress diminuía. Ou seja, o efeito das experiências de guerra é moderado negativamente pelos problemas da vida diária. Por outro lado, ao contrário de Miller et al (2008), modelos multivariados indicam que os obstáculos do quotidiano medeiam o efeito dos acontecimentos potencialmente traumáticos no stress, em vez de os moderar (Rasmussen, 2009). Para além disto, os acontecimentos potencialmente traumáticos reduzem a tolerância dos refugiados para os obstáculos do quotidiano, parecendo estes mais stressantes do que são para aqueles que experienciaram menos eventos traumáticos. Perante estes dados, estes obstáculos parecem ser preditores fiáveis de stress entre populações afetadas pela guerra e, por isso, podem também ser alvo de intervenção (Rasmussen, 2009). Rasmussen (2009) estudou o stress relacionado com necessidades básicas e segurança em campos no Darfur e descobriu que a localização dos residentes nos campos está relacionada com stress para algumas seções da população. Quanto ao 14 género, os refugiados homens são mais influenciados pelos fatores estruturais, por causa dos deveres culturais prescritos pela cultura, e as mulheres pelo número de filhos, devido à responsabilidade de educação destes. Ou seja, os homens relatam sentir mais stress e isto deve-se a um papel cultural em que eles são responsáveis por assegurar recursos para a família e não conseguem, devido à ausência de emprego e dinheiro. Quanto a dificuldades de movimento, os residentes portadores de deficiências que viviam na periferia dos campos estavam mais preocupados com a segurança do que os que viviam no interior dos campos. Isto sugere que a localização de residência é um fator para os que são menos capazes fisicamente (Rasmussen, 2009). E, quanto à idade, os residentes mais velhos não têm mais stress que os mais novos, surpreendentemente. A idade foi um fator com peso apenas na presença de escolas, onde os residentes perto destas manifestavam menor preocupação pela segurança do que os que vivem longe. A escola é vista pelos pais como um ambiente protetor para as crianças, reduzindo as preocupações em relação à segurança (Rasmussen, 2009). Para além destes dados, as agências internacionais de ajuda e o ACNUR reconhecem que o stress psicológico que acompanha o deslocamento em massa pode ser debilitante e, por isso, uma barreira para aceder a serviços destinados a famílias. E, quando os sintomas incluem comportamentos agressivos pode ser uma verdadeira ameaça para a segurança dos residentes dos campos, técnicos de ajuda humanitária e populações dos países anfitriões (Sphere Project, 2004). Os dados deste estudo indicam que o desenho dos campos e da localização dos refugiados deve ter em conta o género, deficiência e idade (Rasmussen, 2009). Perera et al (2013) estudaram fatores demográficos associados a stressores e sintomas em refugiados africanos. Com este estudo demonstraram que, embora o stress do tempo da guerra fosse relatado, as vidas dos refugiados são mais sobrecarregadas pela falta de necessidades básicas, intimidação e perseguição no campo, e ainda por dificuldades de ajustamento, falta de habitação adequada e procura de emprego durante o restabelecimento. As associações entre os sintomas de perturbação de stress póstraumático (PTSD) e o stress da exposição ao percurso da fuga demonstram que as dificuldades que os refugiados encontram durante o processo de trânsito, incluindo campos, têm relevância para a sua saúde mental. Portanto, estes resultados sublinham a importância de avaliar compreensivamente a exposição ao stress através da experiência 15 de ser refugiado quando se trabalha com comunidades, quer na investigação, quer na prática clínica (Perera et al 2013). 4.2. Impacto na Saúde Mental É de conhecimento geral que a prevalência de desordens psiquiátricas entre refugiados é relativamente alta. Esta é uma população em risco, exposta a influências específicas destrutivas para a saúde mental, quer provenientes do trauma do passado, quer das dificuldades atuais do exílio (Lavik, Hauff, Skrondal & Solberg, 1996; Hauff & Vaglum, 1995). Os estudos de refugiados reportam uma ampla estimativa da prevalência de desordens psiquiátricas e esta larga variação pode ser causa de retaguardas culturais diferentes nas amostras e de sítios em que estes estudos foram concretizados (Mollica,Wyshak & Lavelle, 1987; Kroll, Habenicht & Mackenzie, 1989; Kinzie, Boehnlein, Leung, Moore, Riley & Smith, 1990; Hinton, Chen & Du, 1993; Mollica, Donelan & Tor, 1993; Clarke, Lack, Goff & Three, 1993; Hauff & Vaglum 1994, 1995; Weine, Beckher & McGlashan, 1995; Lavik, Hauff, Skrondal, Solberg, 1996). Ou seja, muitas investigações foram levadas a cabo em lugares relativamente seguros num país de restabelecimento e esta é uma matéria que não satisfaz o objetivo desta Dissertação. Para colmatar esta falha, de Jong et al (2000) estudaram a saúde mental de refugiados a viver em condições muito pobres e inseguras em campos, recorrendo à versão GHQ de 28 itens. Neste estudo, em que foram estudados 854 refugiados, a prevalência de problemas de saúde mental é, aproximadamente, 50 %, contudo, a percentagem de pessoas com problemas psicológicos é superior. Perante este resultado, as principais conclusões constatam que, dado o elevado número de pessoas em necessidade de ajuda, não é fiável providenciar apoio individual a todos e que as intervenções psicossociais devem focar-se em estruturas que fortaleçam a comunidade e deem apoio a grupos maiores. Para além disto, métodos específicos de intervenção devem ser desenvolvidos para determinadas categorias de casos (de Jong, 2000). Cardozo, Talley, Burton & Crawford (2004) avaliaram as questões psicológicas e a prevalência de doenças mentais relacionadas com experiências traumáticas e ainda identificaram fatores mitigantes e de risco entre refugiados birmaneses que vivem em três campos na Tailândia. Concluíram que estes refugiados continuam a viver incerteza acerca da sua segurança e do seu futuro no país de abrigo e que a prevalência de sintomas culturais específicos pode indicar depressão ou ansiedade nessa cultura ou a 16 expressão física de queixas psicológicas (sintomas psicossomáticos). Concluíram também que a prevalência de taxas de sintomas de depressão e ansiedade nestes refugiados é, significativamente, maior do que a população geral dos Estados Unidos. Entre os fatores psicossociais de risco, alguns podem ser modificados através de mudanças na política dos campos. Em particular, a ração de alimentação pobre em nutrientes, em combinação com a política de movimento proibido, emprego e cultivo de terras fora dos campos parecem afetar negativamente o funcionamento social e a saúde mental destas pessoas (Cardozo et al, 2004). De acordo com outros autores, este estudo demonstrou taxas elevadas de prevalência de depressão, ansiedade e queixas psicossomáticas, sugerindo que a comunidade de refugiados birmaneses beneficiaria de uma intervenção psicossocial e dirigida para a saúde mental (Cardozo et al 2004). Um grupo particularmente em risco e pouco estudado é o das crianças. Embora as consequências do trauma sejam usualmente discutidas em torno de questões de Perturbação de Stress Pós-Traumático, existem outras consequências possíveis que decorrem dos acontecimentos potencialmente traumáticos – um largo espectro de sintomas psicológicos existe, como depressão, ansiedade, medo de re-ocorrência, culpa, preocupação e, acima de tudo, luto (Eth & Pynoos, 1985; Goodwin, 1988; Herman, 1992; Pynoos & Nader, 1987; Richman, 1993). Num estudo levado a cabo por Paardekooper, de Jong & Hermanns (1999) que comparou crianças refugiadas sudanesas e crianças ugandesas, as primeiras relatam mais acontecimentos traumáticos, mais stressores diários, suporte social menos satisfatório e mais queixas psicológicas. Para além disto, ainda manifestavam mais consequências associadas a Perturbação de Stress Pós-Traumático, como problemas em dormir, nervosismo, memórias traumáticas e problemas comportamentais, assim como sintomas depressivos e sintomas psicossomáticos. Miller (1996) avaliou os efeitos do terrorismo de Estado e do exílio em crianças refugiadas indígenas em dois campos ao longo da fronteira Guatemala – México. Foram identificados neste estudo sintomas que refletem a externalização e sintomatologia depressiva, contudo, os resultados baixos no CBCL 36 itens sugerem que estes sintomas são relativamente infrequentes e não interferem com o funcionamento no seu quotidiano. De uma forma geral, o grupo analisado neste estudo reportou a existência de pesadelos com soldados a entrarem no campo para matar e medo de soldados à noite e durante o dia. Contudo, estes pesadelos e medo não parecem interferir com o 23 entrevistadas, percebendo aprofundadamente as suas experiências. Para além disto, a metodologia tem por base um pressuposto ontológico, que se relaciona com o Relativismo, pois este tem por base a filosofia de que há múltiplas realidades construídas se podem aceder através da investigação (Braun & Clarke, 2013). Por fim, a posição epistemológica baseia-se no “ato humano em contexto” (Popper, 1959), não assumindo uma única realidade e compreendendo o conhecimento como proveniente de contextos e refletindo a posição do investigador. Assim, ele é local e sempre provisional (Braun & Clarke, 2013). 1.1. Entrevistas Qualitativas De forma a cumprir com todos os objetivos do presente estudo e compreender todas as questões inerentes a ele, as entrevistas qualitativas possibilitam uma aventura que trará nova informação e abrirá janelas para as experiências das pessoas em estudo (Rubin & Rubin, 1995). De forma a absorver o novo mundo que servirá de interpretação para esta investigação, uma forma ampla de o fazer será através de um estudo inspirado na etnografia, que combinará este tipo de entrevistas e observação participante. Ou seja, os tópicos de interesse centram-se em espaços particulares e preocupam-se em estabelecer padrões comuns ou temas entre tipos particulares de respondentes. Desta forma, os mundos culturais e biográficos são iluminados e abrangidos pelo presente estudo (Gubrium & Holstein, 2001). As entrevistas qualitativas baseiam-se na conversação (Kvale, 1996), com ênfase nas perguntas dos investigadores e nas respostas dos entrevistados (Rubin & Rubin, 1995). O propósito desta ferramenta é fornecer interpretações em detrimento de factos ou leis (Gubrium & Holstein, 2001) e, através dela, poder-se compreender experiências e reconstruir acontecimentos. Assim, através do que se ouve e se aprende, pode-se estender a compreensão intelectual e emocional através do tempo, classe, raça, sexo e divisões geográficas, que é precisamente o objetivo deste estudo de carácter amplo e exploratório. Neste sentido, as entrevistas qualitativas constroem-se a partir de conversas informais, mas diferem delas em dois pontos importantes. O primeiro é que este instrumento é uma ferramenta de investigação, uma forma intencional de aprendizagem de sentimentos, pensamentos e experiências das pessoas. Esta informação será mais tarde analisada pelo investigador e partilhada através de livros, relatórios e artigos. A 24 segunda diferença refere-se ao facto das entrevistas serem guiadas por um entrevistador, que intencionalmente introduz um número limite de questões e pede ao entrevistado para explorar essas questões em profundidade. Assim, os entrevistados são convidados a refletirem em detalhe nos acontecimentos que viveram (Rubin & Rubin, 1995). Contudo, as entrevistas são mais do que um conjunto de competências, são uma filosofia e uma abordagem ao conhecimento. Nesta filosofia, o conhecimento é alcançado encorajando as pessoas a descreverem os seus mundos nos seus próprios termos, através de uma relação entre entrevistador-entrevistado com obrigações para ambos, que levará a uma definição do que é interessante e ético e fornecerá padrões para avaliar a qualidade da investigação, a humanidade desta relação e a plenitude e precisão da transcrição (Rubin & Rubin, 1995). Um outro aspeto importante refere-se ao facto dos entrevistadores não serem atores neutros, mas antes participantes numa relação de entrevista, que levam consigo as suas emoções e compreensão cultural, sendo que o único propósito das entrevistas qualitativas é ouvir e compreender o que os entrevistados pensam e oferecem (Rubin & Rubin, 1995). 1.2. Observação Participante Lofland (1971) aponta que as entrevistas e a observação participante andam de mãos dadas e muitos dos dados recolhidos recorrendo à observação provêm de entrevistas informais no terreno (Denzin & Lincoln, 2000). A observação participante surgiu nos anos 20 e 30 do século XX com os investigadores da Escola de Chicago, sendo uma tradição particular de sociologia urbana, usada frequentemente como um procedimento de recolha de dados juntamente com entrevistas e outros métodos (Flick et al, 2004). De entre tantas definições possíveis e similares, Jorgensen (1989) oferece talvez a mais completa. Ele define a observação participante em sete características distintas: o ponto de vista do investigador, o desenvolvimento de teorias interpretativas, um processo aberto de inquérito, uma abordagem aprofundada a um caso de estudo, o envolvimento direto dos investigadores na vida dos informandos e observação direta como o primeiro dispositivo de recolha de dados. Para Jorgensen (1989), o objetivo último da observação participante é “gerar verdades práticas e teóricas sobre a vida humana fundamentadas na realidade humana”. A razão fundamental para se usar a 25 observação participante em detrimento de outras técnicas está relacionada com a significância cultural do contexto para dar resposta à questão de investigação conduzindo à compreensão dos processos, acontecimentos e relações, do contexto de uma situação social (Crabterr & Miller, 1992). É imperativo notar que a observação participante raramente envolve um ato único, é antes uma série de passos. O primeiro passo é a seleção do sítio, que pode ser escolhido para responder a uma questão teórica, ou porque representa um assunto de preocupação corrente, ou porque é conveniente. E, enquanto faz a observação, o investigador toma notas dos dados recolhidos. O antropólogo James Spradley (1980) referiu que os estágios de observação são como um funil porque o processo gradualmente estreita e direciona a atenção do investigador mais aprofundadamente nos elementos do sítio que emergem como essenciais, tanto no nível teórico como empírico. Assim as observações continuam até um ponto de saturação teórica. Isto significa que as características dos novos dados replicam consistentemente as anteriores (Angrosino, 2007). Esta caraterística torna a observação participante flexível, metodologicamente plural e relacionada com o contexto, incorporando amplamente diferentes procedimentos, sendo estas as razões que fazem deste método um elemento essencial de investigação para esta Dissertação de Mestrado, providenciando novas formas de conhecimento que podem ser pistas para questões de entrevistas ou até para futuras investigações. 1.3. Fotografias e Vídeos como métodos complementares Há duas razões que explicam o sentido da utilização de recursos visuais: a primeira é que as imagens estão omnipresentes na sociedade e, por causa disto, alguma consideração da representação visual pode, potencialmente, ser incluída em todos os estudos da sociedade; a segunda razão refere-se ao facto do estudo das imagens ou algo que as incorpore na criação ou recolha de dados pode revelar insights sociológicos que não são acessíveis com outros meios (Banks, 2007). Sendo assim, este estudo irá incluir a dimensão visual, já que esta forma de pesquisa peculiar tem duas qualidades de registo opostas: aparentemente despida de interpretação e ao mesmo tempo imbuída de subjetividade profunda (Flick et al, 2004), registando o que os sentidos percebem. 26 2. As três componentes da recolha de dados e seus contributos Para a concretização deste estudo realizaram-se sete entrevistas aprofundadas com refugiados que habitam o campo de Molé, na República Democrática do Congo. Cada entrevista, que focava os vários objetivos de estudo, tem uma duração média de trinta minutos e foram gravadas em vários sítios do campo, desde a tenda central (clube), uma palhota ou no exterior do campo, todos os dias da recolha de dados. Todas as gravações foram acompanhadas por outros refugiados que queriam assistir à conversa, ver ou simplesmente apontarem algum pormenor ou pedirem ajuda. Mesmo com muitas pessoas sempre presentes, as condições de gravação foram muito boas. Os únicos obstáculos que estiveram presentes foram o limite de tempo para se estar no campo e proceder à recolha dos dados necessários e a gravação das entrevistas em inglês. Antes de iniciar a gravação explicou-se sempre o propósito do estudo e das entrevistas, nunca tendo havido qualquer entrave. Pelo contrário, a população-alvo deste estudo mostrou-se sempre muito solidária e recheou as entrevistas de pormenores. As pessoas entrevistadas foram cinco homens e duas mulheres. Um refugiado é invisual, aspirante a Bispo e pertencente à geração da terceira idade; outro era um extradutor francês-inglês e Mestre em Literatura Americana no seu país de origem; depois foi entrevistado o vice-presidente do comité para a violência sexual e de género; um consumidor de drogas com 52 anos; e, por fim, um ex-estudante universitário e basquetebolista profissional da seleção nacional Centro-Africana. Relativamente às mulheres, foi contactada uma mãe de família, que pertence à primeira vaga de refugiados naquele campo; a sua filha que tem 16 anos e vai repetidamente à escola frequentar o primeiro ciclo, pois é o único nível de educação no campo; e outra mulher que é ex-estudante universitária. Estas pessoas foram escolhidas pelos oficiais do ACNUR que acompanhavam a recolha de dados, consoante as caraterísticas que eram requeridas para as entrevistas. Ou seja, foi-lhes pedido para entrevistar duas mulheres, uma criança, um estudante universitário, dois homens, um consumidor de drogas e o representante do comité SGBV. Quase todas estas pessoas ajudaram a recolher dados, também, para a observação participante, permitindo ter uma visão global e compreensiva do quotidiano do campo. Para a observação, também contribuiu um oficial do ACNUR, que fazia sempre questão de contextualizar todos os passos que eram dados, e ainda duas enfermeiras que 27 trabalham no centro médico e maternidade. A observação do campo, que seguia uma grelha, foi acompanhada de vídeos, fotografias e notas de campo que registaram as características mais importantes para a compreensão do dia-a-dia dos refugiados. Neste sentido, foi-se tentando perceber quais os sítios principais e as suas funções, permitindo ter uma noção global do espaço e das suas relações com a experiência no campo. Isto é, com os refugiados e com os técnicos, foi possível perceber exatamente todos os componentes físicos, os procedimentos desde o momento da chegada até ao estabelecimento e ainda descrições dos serviços providenciados e do quotidiano. É de salientar, contudo, que a observação participante concretizada não o é no sentido estrito, pois, devido a constrangimentos de tempo e de esta Dissertação não o permitir, não houve envolvência profunda nem permanência no terreno, não permitindo a saturação dos dados. Ou seja, a observação era feita todos os dias no final das entrevistas, pouco antes da hora de sair do campo, ao início da tarde. No entanto, todos os dados recolhidos através deste método refletem a sua essência e procurou-se mimetizá-lo nas condições oferecidas, o que contribuiu para a compreensão do objetivo do estudo. Relativamente ao recurso a fotografias e vídeos, estes complementaram e acompanharam a observação participante, na medida em que registaram os vários espaços e atividades de relevância para o conhecimento do quotidiano. Contudo, foi uma atividade com pouca expressão devido aos constrangimentos já aqui mencionados. Porém, mesmo assim, forneceu dados importantes para a análise. O diário de campo foi também uma ferramenta que guiou a observação e estava dividido em descrição dos lugares e dos entrevistados e ainda continha o registo emocional da investigadora. É de notar, ainda, que todos estes dados foram recolhidos com prévio consentimento informado dos participantes. 3. Campo de Refugiados de Molé, República Democrática do Congo O campo de refugiados de Molé situa-se próximo da vila do Zongo, região do Equateur, na República Democrática do Congo. O Zongo está separado de Banghi, capital de República Centro-Africana, apenas pelo rio Ubanghi e é este rio que serve de fronteira e travessia para a fuga de milhares de pessoas que entram no Zongo à procura de proteção e segurança. O conflito, que se iniciou neste país em dezembro de 2012, 28 tinha como opositores o governo e o grupo rebelde Seleka (em sango 2 significa “aliança”), que acusaram o presidente Bozizé de não cumprir os acordos de paz assinados desde 2007. Em março de 2013 o líder do grupo Seleka, Djotodia, assumiu-se como presidente do país, após a fuga de Bozizé. Contudo, os conflitos não abrandaram, mesmo depois de Djotodia ter anunciado o desmantelamento das milícias em setembro do mesmo ano. Assim, o uso de violência aumentou, opondo agora muçulmanos – Seleka - e cristãos – Anti-Balaka (“anti-espada” em sango), colocando o país à beira do genocídio, de acordo com as palavras de François Hollande. Na sequência desta guerra, muitas pessoas foram forçadas a abandonar a República Centro-Africana e procurar proteção em países vizinhos, como a República Democrática do Congo. Então, no Zongo, inicialmente, dava-se abrigo aos refugiados num campo localizado a apenas 100 m de Banghi, porém, pela sua proximidade e vulnerabilidade a ataques, as pessoas foram relocalizadas para Molé, que dista 35 km da vila. Sendo assim, este novo campo existe desde 10 de Junho de 2013 e comporta uma extensão de 10 km por 5 km (Xinhua News Agency, 2014). Em dezembro de 2013 o campo duplicou em tamanho e número de pessoas, com a fuga massiva de centro-africanos e, à data da recolha de dados, o número de refugiados era cerca de 10151, com 4484 mulheres e 5609 homens, para 5593 famílias. É de notar que muitas das vítimas de deslocamento forçado são jovens e existem cerca de 650 crianças que frequentam a escola primária (UNHCR, 2014). É importante também ressalvar que os refugiados vêm maioritariamente de Banghi, portanto trazem consigo um passado com qualidade de vida incomparavelmente superior às condições oferecidas pelo campo. 2 Um das línguas faladas na República Centro-Africana. 29 Ilustração 1. Entrada do campo de Molé Ilustração 2. Entrada do campo de Molé 4. Análise categorial dos Dados Recolhidos Para analisar os dados recolhidos das entrevistas, recorreu-se à análise de conteúdo, que é um conjunto de técnicas de análise de comunicações (Bardin, 1977). E, como Berelson definiu, esta é “uma técnica de investigação que através de uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto nas comunicações, tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações” (Bardin, 1977). Foi feita uma análise categorial temática, que funciona por operações de desmembramento do texto em categorias segundo reagrupamentos analógicos temáticos e que foi utilizada para análise dos dados, pois considera a totalidade do texto, classifica-o em categorias e 30 estas, alinhadas segundo critérios, conferem sentido ao material analisado de acordo com aquilo que se procura ou se espera encontrar (Bardin, 1977). Como diz Bardin, o interesse não reside nos conteúdos, mas no que estes nos poderão ensinar após serem tratados. Quanto à Observação Participante, foi redigido um diário de vordo de temas que foi, posteriormente, também submetido a uma análise de conteúdo do mesmo tipo. Assim, nesta Dissertação o material resultante das entrevistas foi analisado em três grandes categorias: Passado, Presente e Futuro. A categoria Passado pretende dar sentido e compreender como era a vida antes do início da guerra e as consequências desta. A categoria Presente tem como objetivo compreender como se vive e quais os maiores obstáculos no quotidiano na vida num campo e está dividida em várias subcategorias que conferem unidade e sentido a este fim. Finalmente, a categoria Futuro explora os desejos e vontades dos refugiados em relação ao seu futuro, esperando encontrar aqui alguma indefinição própria de quem habita numa zona de trânsito. O material recolhido através de observação participante foi classificado em categorias que distinguem os vários componentes físicos do campo, bem como as atividades mais frequentes. Desta forma, espera-se desta análise compreender com algum nível de aprofundamento como se passa o dia-a-dia. 31 PARTE III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 1. Resultados das Entrevistas Aprofundadas Da análise das entrevistas resultaram três grandes categorias que, por sua vez, estão divididas em subcategorias com vários níveis, que têm como objetivo a interpretação e análise dos dados de forma construtiva e com significado. 1.1. Passado República Centro-Africana Em comparação com a experiência atual no campo, os refugiados entrevistados consideram que as condições de vida que tinham no seu país de origem eram melhores. Assim, dos cinco entrevistados que se expressaram em relação às condições de vida antes da guerra, quatro referem que tinham emprego, tal como a seguinte frase sugere: “In Banghi, the women they are doing their own activity, they have some resources for getting their own money and also the man is having also his own resources to get something for helping the family.”. Ainda destes entrevistados, J. conta que em Banghi havia possibilidade para se comprar brinquedos e ainda computadores, com o intuito de ocupar as crianças e desenvolver a sua criatividade (“Because we are from town, there is a possibility that the parents can do their best to keep their children busy and also to have, to become creative, then they can buy some toys then they can play toys, sometimes also they can play on the, on the computer, for the people who have the level so they can play on the computer. They teach their children how you can use the computer in school also”). Dois entrevistados eram estudantes em Banghi e os dois posicionam-se em relação às condições de vida nessa cidade. P. diz que as condições eram boas e que a comida era incomparavelmente melhor e o B. refere que tudo o que queria ele tinha. Para além destes dados, JP. menciona que possuía uma cama confortável, P. diz que a sua casa era bonita e J. destaca o facto de ter advogada quando vivia em Banghi. Contudo, com o chegar da guerra essas condições mudaram. Três refugiados descrevem como era o ambiente vivido no país na sua ótica e o seguinte excerto é um bom exemplo: “Because family, our families, young people like this, some parents are killed in front of them. Your parents killed like this in front of them. And you see the blood, you cannot support this. As a human, you cannot support this.”. Desta forma, 32 estas pessoas referem bombardeamentos, perseguições e a necessidade de recurso a esconderijos em sítios, como igrejas, para proteção. Então, as consequências deste conflito foram, segundo os entrevistados, de várias ordens. J. relata que destruíram a sua casa, que perseguiam o seu marido com o intuito de o matar e a única solução que lhe restou foi fugir e que, por causa dos tiros, os seus dois bebés morreram antes de pedir abrigo na República Democrática do Congo. Enquanto fugia, refere que não tinha nada (“Because, by that time we lost everything, no money, we were just running, staying the… where we were felling like it was a bit safe, it was not easy.”). Há ainda outros refugiados que se manifestam em relação a este tópico e P. conta que não sabe nem do seu filho nem da sua mulher, e B. relata que teve de fugir pelo facto do seu pai ser político. Por essa razão, B. foi perseguido, capturado e sentenciado com pena de morte. Contudo, um amigo conseguiu libertá-lo e foi por isso que ele conseguiu fugir para a República Democrática do Congo. Foi quando aqui chegou que soube, através de uma mensagem de um irmão, que o seu pai tinha sido assassinado na sua própria casa (“He sent me a message to, to tell that he, that he died”/ “the soldiers went at our home to kill my father.”). Também F. descreve como foi abusada sexualmente por cinco homens, após o assassinato do seu marido e do seu filho. Estes refugiados também se posicionam em relação às emoções que sentem quando falam do seu país. J. conta que foi uma má experiência e que lhe traz más memórias, P. diz que se sente muito desiludido com a situação e que quando pensa nela chora, e B. refere que tem pena do que está a acontecer e que tem maus sentimentos. Isto porque, segundo ele, muitas pessoas morreram, como família e amigos, e o barulho também o afeta, rematando que não conseguia suportar ver aquilo. Relativamente à fuga para o país vizinho, três refugiados contam que atravessaram de barco a meio da noite e P. refere a existência de pessoas que também atravessam a nado. Segundo eles, não foi fácil (“It was not easy”). Assim, P. relata que fugiu o mais depressa possível, com medo do que estava para trás, e JP diz que tinha emoções tristes. J. descreveu a sua fuga com os seus quatro filhos e outras pessoas e descreve como não tendo sido fácil pois, passou o tempo todo da viagem a retirar água que entrava para o barco (“Long distance, I’m carrying babies and the other children they were also staying on my legs and there is water between us”). 39 para suplantar a escassez de água é ir buscá-la ao rio, que fica distante do campo, o que, segundo J., comporta alguns perigos (“Now in the camp there is a problem for water. And I see there is a problem for water, like women they go long distance to go to get water and there’s a problem also for being exposed to many danger”). Outra das necessidades básicas refere-se à saúde. J. diz que há crianças com problemas de subnutrição e que a sua própria saúde foi afetada com a experiência do campo (“I became very sick. I had heart attack. Depression, because every time I need to think of how I can help my children”). Contudo, há um centro médico para os refugiados onde estes podem ser tratados (“This is where refugees are treated, medically.”), porém um JP. diz que mora longe e que precisa de uma ambulância (“I’m so far from health center, I need that HCR bring an ambulance for those who live far from health center.”). Por último, há problemas associados à educação escolar no campo. P. diz que não há ensino secundário nem universitário e que, mesmo assim, as crianças continuam a frequentar a escola. J., que tem uma filha que frequentava o ensino secundário no seu país de origem, conta que precisa de motivá-la para ela não esquecer o que aprendeu e para continuar a ter sentimentos positivos em relação à escola, pois frequenta repetidamente o ensino primário no campo e isto torna-se difícil (“Repeating becomes too much for her. She has a problem for continuing in the same situation, because in Central Africa she’s already in secondary school, but here since there is no secondary school it is difficult”). Para J., a educação é um grande problema, já que as crianças pertencem à sociedade e precisam de ser educadas (“The child belong to the society. So they need to get educated.“). No entanto, diz que com tudo o que lhe aconteceu, não tem dinheiro para pagar o ensino congolês (“So, I want if there is a way to get money, because here the schools here they need to pay money. That I can able to send them to school, I pay the teachers to help me, because we need to have good relationships with the teachers.”). Ela menciona também as queixas dos seus filhos em relação à repetição das matérias estudadas. Estas crianças acusam a inexistência de diferenças entre anos letivos e perdem a motivação. Esta necessidade é tão valorizada que J. conta que há refugiados que arriscam e saem do campo para continuar os seus estudos, mas o ACNUR vai buscá-los (“Because they feel their life is like in danger and they feel their living it is useless. Like they are in hopeless situation and most of the students they feel they have to risk their lives maybe to go in different areas, like other they go to Kinshasa then they bring them back. Then other they go to other areas to see how they 40 can continue their studies by their own self, because they don’t get permission here officially, again if there are found they bring them back“). B. e F., por seu lado, salientam o desejo de terminarem os seus cursos (“I want continue my study and finish it”; “The important problem of my study, I would like to keep on my study, I want to finish my study, this year, I want to go to study.”). C) Problemas Sociais Um dos entrevistados, S., é consumidor de drogas. O seu consumo é prévio à estadia na República Democrática do Congo e as substâncias são por ele conseguidas fora do campo. Segundo ele, a razão pela qual usa substâncias psicoativas tem que ver com os tempos livres e com aproveitar a vida (“when I have nothing to do, to be relax, to have sweet ideas, yeah to see world better than it does.”). Embora não tivesse estabelecido uma ligação direta entre o uso das drogas e a sua vida no campo, S. acaba por conectar ambos pela forma como justifica a sua utilização. P., J. e VP. pronunciaram-se em relação a abusos sexuais e violência doméstica no campo. P. contou que há técnicos que se relacionam sexualmente com refugiados e isso, na sua perspetiva, é muito, muito mau (“To go in, to get sex relation with some refugees. Woman or man. In the name of moral, professional awareness, very, very bad. That is very, very bad. “). J. acrescenta que o ACNUR fornece apenas uma cama para cada família e quando esta é numerosa a cama é dividida em duas. Para ela há o perigo de pais abusarem de filhas e conta que não há proteção para estes casos (“The father can rape the daughter when the daughter don’t want!”). Por último, o representante do comité SGBV explica que a violência doméstica no campo começa por razões associadas à comida (“it is about the problem for food”). Nas suas palavras, o problema desenvolve-se da seguinte forma: o marido decide vender a comida do PAM e não dá dinheiro à mulher, que quer ter rendimento para cuidar da família e cumprir a sua obrigação. Então, por consequência, a violência surge (“The husband decide to sell this product. When he sell this product, sometime the man don’t want to give the money to the wife, so that they can use it for domestic affairs, to help the family. So if the woman say that “no, I have my right, because I need to take my responsibility in the family” this become a problem then the husband and wife start to fight”). Segundo VP., a violência doméstica começa no campo (“it is here in the camp”) 41 e a estratégia que se utiliza para lidar com estes casos é chamar o casal, ouvi-lo, dar-lhe conselhos e depois decidir qual é a melhor forma de acabar com o desentendimento (“Then, after knowing the problem, then they see how they can treat for not continue to having the misunderstanding from each other, by giving them the example of living in the life. They start to give them like a story, for making them to cool down their temper”). Se as agressões continuarem há punições previstas pelo comité SGBV.. Ainda sobre esta matéria, no ano de 2013 foram registados, por esta entidade, cerca de 113 casos (“Last year, 2013, they registered about these cases, people who came with these cases, about 113.”). VP. também referiu que à noite, junto ao armazenamento de água, há rapazes que violam raparigas, pois é um local escuro e distante das tendas (“in this darkness time, the boys use this opportunity for violating girls.”). Segundo eles, quando casos como estes acontecem, a vítima é levada ao hospital para averiguar a veracidade da história e, se esta for confirmada, a CNR procede ao julgamento do agressor (“they judge them”). J. conta que para ela o uso de preservativos é perigoso. O hospital oferece contracetivos aos refugiados, que na sua opinião os usam por prazer, quando deviam de os usar apenas no âmbito do casamento como forma de prevenir gravidezes indesejadas. E o problema maior, para ela, é que os deixam, depois de usados, em qualquer sítio do campo, podendo as crianças pensar tratar-se de balões e usá-los para brincar (“They do but I feel it is dangerous because they don’t know how to use the condom. Because if they use is like they are free for sex then they pour the condom everywhere, then a small children if they get they think it is a balloon then they start to blow. So for this I feel it is dangerous for the new generation to get contaminated with unwanted diseases because it can cause a lot of diseases and the children can die”). E, ainda nas suas palavras, isto é perigoso pois as crianças podem ser contaminadas com doenças. Ainda assim, J. conclui que se as pessoas souberem usar adequadamente o preservativo não há problema. D) Condições Físicas do Campo Dois refugiados contam como é a vida dentro de uma tenda e JP. diz que a sua cama é muito pequena e que precisa de uma maior, acrescentando que a tenda não é adequada para ele, pois sente muito calor (“this home is not suitable for me because 42 inside I feel myself very, very hot.”). P., por sua vez, conta que vivem no chão e que precisam de casas, em detrimento das tendas (“We need to live in house, we need to live in the house, to change this, this tent with a real house. Because sometimes when it rains, it rains, there is some disorder.”). Este homem refere que no seu abrigo guarda a sua mala, roupas, sapatos, kit de cozinha, comida fornecida pelo PAM e o materal que usa para dormir. Relativamente à construção do campo, J. conta que no início não havia nada e que agora se parece com uma cidade (“But now it is like a town.. before it was just bush. Without anything.”). B. aponta as más condições do campo de basquetebol e JP. diz que para ele o pior são as casas de banho, que são de uso comum. Na sua opinião, cada família devia ter a sua (“Like this we use it, we have common WC but some persons does not take care of this. The reason why I need for hygienical conditions, I need that each family, each WC”). Perceção da Necessidade de Ajuda J. diz que precisa de ajuda, assim como as novas gerações e os idosos. Esta mulher considera que precisa de alguém com quem falar para ser capaz de esquecer o passado (“I need somebody to talk with. So that, I can be able to forget the past. But forgetting sometimes it’s not easy. Because it is like a cassette which is always playing in your head. And you’re always recall the past. Can you forget the old songs? You cannot. Even if you say “ok, let me forget the past”. No! It is like a history, which it can make you to remember what has passed.”). S. apela à compreensão dos refugiados por parte das outras pessoas (“But people need to understand more”) e sugere à entrevistadora que passe um tempo com eles. E VP. diz que precisa de ajuda para lidar com os casos de violência doméstica. Relativamente à necessidade de intervenção psicológica, quatro refugiados questionados sobre este tópico referem que precisam de psicólogos e um fundamenta: “We need them, we need most of psychologists just to try to talk to people to give them opportunity to feel that life will not stop here”. No que concerne a ajuda prestada pelos técnicos, P. diz que estes costumam falar com as pessoas sobre o sofrimento que sentem, que ajudam na construção das 43 tendas, fornecem assistência médica e material para cozinhar, mas considera que esta ajuda poderia ser melhorada (“It could be improved.”). B. contou que ponderou voltar para Banghi, mas que um técnico o aconselhou a permanecer no campo para salvar a sua vida (“I would go back to Banghi, but and.. A. of UNHCR give me many, advise me to stay here because I’m going to protect my life, UNHCR is going to protect my life. I agree with him to stay. And I stay until here.”). J. contou que teve um problema grave de saúde que poderia ter conduzido à morte, mas a ajuda de um técnico contribuiu para que recuperasse (“He was concerned, he said “no, I don’t want you die”. I said “let me go”. He said “I don’t want you die I have to do all my best so that you can have life”. So he also contributed in… my surviving. So he is always near us, and to know our living condition.”). F. diz que todos os dias pede ajuda aos técnicos para acabar o seu curso, mas, segundo ela, eles recusam (“because everyday we tell them, we tell our partners to, to aid, to aid and to aid something but they refuse”). Por ultimo, um JP. conta que gosta dos técnicos porque eles têm soluções no que concerne os cuidados de saúde e fornecem comida. Atividades Fora do Campo B. e P. contam que saem do campo para se deslocarem à vila do Zongo para telefonar a familiares e amigos, na tentativa de conseguirem notícias (“Even I use to go to Zongo, to try to, to call my parents, to know where they are, the situation of the country. I use to go to Zongo”). J. diz que quando sai do campo é para conhecer o espaço em redor e fazer novas amizades (“Because I like nature, and I like people. I visit people to make new friendship with them… And to see the way they are living and to share with them. Because it is a new place, I need to be friendly with them.”). 1.3. Futuro Em relação ao futuro, J. aponta a sua incerteza em relação à permanência na República Democrática do Congo, pois, pelo que diz, é um país que não é muito estável, e que gostava de ir para outro país. Acrescenta também que não sabe o seu futuro e que este está nas mãos de Deus (“We don’t know. It is like a dream. A dream is not reality, is like a hope. Is only God who know what he can prepare plan for us. As now I’m 44 saying we are now on zero. So, we are just living for the sake of God’s grace. So we trust in God, God is the one who can fight for us, God is the one who have the solution for us, and my family. We trust in God.”). FJ. revelou que o seu sonho era estudar nos Estados Unidos da América, F. quer sair do campo para acabar o seu curso (“To go away, to keep on my study”) e B., ambiciona ingressar noutro país, onde possa terminar os seus estudos e conseguir um contrato para jogar basquetebol profissional. P. conta que quer sair do campo, ir para qualquer sítio e continuar estudos, arranjar emprego e aproveitar a vida (“To go somewhere. To continue my study, to look for a job, and to try to live, to enjoy my life.”). Por ultimo, JP. menciona que lhe contaram que as Nações Unidas costumam enviar os refugiados para países desenvolvidos e o que ele deseja para ele é poder ir para a Suíça, como a seguinte frase mostra: “We have been told that if there is a situation like this in a country UN use to send people to another country, like in Ruanda, like in Syria and so on, in Canada… I need that Central African who are here they must be in Canada, in USA, in UK and for myself I wish to go in Swiss to follow the training of blind man to come like a bishop in my country one day”. Três refugiados expressaram-se ainda sobre a possibilidade de voltarem ao seu país, a República Centro-Africana, contudo os três dizem que não querem. J. aponta razões emocionais (“I don’t have feeling to go back”) e B. diz que, para um dia se mudar o sistema político do país, os jovens devem estudar em países fundadores da democracia (“We want change a politic system of our country and…. If we change it we must study in a good condition, we must learn near the creators of democratic, we must learn near with them, coming back change political system of our country.”). 2. Observação Participante Este fragmento de texto assenta num resumo dos dados provenientes da análise do material contido no diário de terreno e que pode ser visitado no Anexo IV da tese. Na entrada do campo veem-se muitas tendas brancas espalhadas por uma extensão muito longa, perdendo-se o seu fim. À medida que se foi explorando este espaço percebeu-se que se assemelha a uma pequena cidade, com centro médico, maternidade, cyber-café, clube, campos de jogos, escola, tendas e casas de banho. 45 Ilustração 3. Vista da entrada das primeiras tendas Apesar da existência de recursos, estes caracterizam-se pela deficiência das suas condições ou pela inoperância. Por exemplo, o cyber-café, que é o único edifício construído em tijolo e com telhado de metal, embora tenha sido desenhado para o uso de computadores e para se constituir como a plataforma de acesso ao mundo exterior através de internet, até ao momento ainda não funciona por falta de financiamento para os recursos tecnológicos. Ilustração 4. Cyber-Café do Campo de Molé Um outro exemplo é o da maternidade e o do centro médico, que não possuem condições sanitárias para um funcionamento com o mínimo de qualidade. A maternidade, cuja tenda é ampla, possui uma divisão com várias camas onde estavam, na altura da observação, deitadas as mães e os seus filhos. Mais nada havia lá dentro. O chão é em terra e não existem as condições adequadas ao nascimento de bebés. 46 Além disso, devido à escassez de espaços disponíveis e adequados, os poucos que existem prestam-se a uma utilização multifuncional, como é o caso da sala de Ilustração 5. Interior da maternidade Ilustração 6. Exterior da maternidade Ilustração 7. Centro médico 47 registo, que serve para registar os refugiados que chegam ao campo mas também para que durmam enquanto não lhes são atribuídos os seus abrigos. O mal-estar associado às condições físicas de existência no campo ficou bem expresso no discurso dos entrevistados, mas é também visível nas imagens recolhidas e que retratam a observação levada a cabo. Uma das causas do desconforto é o calor que se faz sentir naquela região do mundo e a desproteção das tendas em que se vive a esse nível. É por isso que, por exemplo, várias delas, como aquela em que os refugiados organizam as missas de domingo e a da sala de registo, têm rasgos feitos no plástico pelas pessoas de forma a facilitar a circulação do ar e tornar o ambiente mais fresco. As tendas habitacionais são, como todas as outras, feitas com paus de madeira e tapadas por plástico branco com o logotipo “UNHCR” azul e são todas do mesmo tamanho, não havendo diferenciação, exceto um código escrito, composto por números e letras e estão alinhadas, separando-as pequenas ruas. A porta é feita de plástico e podem existir ou não janelas, também elas tapadas por esse material. No interior de uma tenda observada, existe uma cama com rede mosquiteira, uma mesa pequena onde se guardam alguns pertences, e, à frente, existem vestígios de uma fogueira, no chão de terra. Ilustração 8. Sala de registo Ilustração 9. Tendas habitacionais 48 Outra das causas de desconforto são as casas de banho. Estas dividem-se em dois espaços distintos pequenos: duche e casa de banho e ambos caraterizam-se pelas condições sanitárias inadequadas. Isto é, são tapados por plástico, o chão é em terra, existe apenas um buraco no solo, o teto está a descoberto e são de uso comum. Os espaços de movimentação social são o mercado e o clube, pois é onde se veem mais pessoas a circular e em convívio. O mercado corresponde a palhotas e mesas onde estão expostos alguns produtos para venda, como frutas e conservas. O clube, que é uma tenda gigante com janelas recortadas no plástico, possui bancos compridos e, ao fundo, um ecrã, onde se veem filmes e notícias. Este espaço também serve para ouvir música e dançar. Ilustração 10. Interior de uma tenda Ilustração 11. Casas de banho e duche Ilustração 12. Duche 55 da observação deste espaço, estava a decorrer uma reunião de técnicos e as crianças estavam do lado de fora “encostadas ao “portão”, simplesmente à espera. E ainda há o caso flagrante do cyber-café. Este espaço, desenhado para guardar computadores e ser o acesso dos refugiados ao mundo, foi construído em tijolo, pintado e recebeu um telhado de metal, com vista à criação de um nível de conforto e segurança que escasseia no campo. Contudo, está fechado e não existem computadores nem acesso à internet. A justificação avançada por um técnico é falta de financiamento. Perante estas condições, os refugiados avançam com sugestões para a sua melhoria e, tal como um entrevistado mencionou, se fosse cumprido o que pedem – que não é muito – o campo seria um paraíso. Esses pedidos assentam em elementos básicos como: mais comida, algum dinheiro, possibilidade de criar pequenos negócios para gerar rendimento, acesso a níveis superiores de educação e oportunidade de ingresso na faculdade. Desta forma, os refugiados esperam reunir todas as armas para poderem sair do campo para outro sítio. Um deles espera voltar para a República Centro-Africana com o conhecimento que lhe permita mudar o regime político para uma democracia. Relativamente à vida no campo, os refugiados estão simplesmente a vê-la passar. Como eles apontaram, e bem, não há atividades suficientes e satisfatórias nem emprego. Os adultos, e mesmo jovens, passeiam-se pela entrada do campo, pelo centro médico e sala de registo e conversam com outros refugiados no mercado ou à porta das suas tendas, debaixo de palhotas. Todo o dia, todos os dias. Mais uma vez, um sinal claro de monotonia e de paralisação no tempo e espaço. A vida dentro de uma tenda é, como é possível observar nas fotografias, miserável, sem privacidade, higiene ou conforto, sendo um aglomerado difuso e sem ordem daquilo que devia ser uma casa para uma família. É uma divisão só e pequena, onde todos os familiares e os seus pertences cabem. Perante uma tenda e aquilo que ela é e representa, pode-se afirmar que a vida dos refugiados e de cada ser individual e família se alastra por todo o campo. Isto porque uma tenda só serve para dormir e para guardar alguns pertences. O resto passa-se do lado de fora das tendas, no campo, onde, mais uma vez, a identidade de refugiado é construída em coletivo e no meio. Para agravar, esta identidade construída é tão débil, que, metaforicamente, uma tempestade com ventos fortes pode destruir uma tenda e tudo o que estava lá guardado. Por tudo isto, o “ambiente expetável médio” (Ticho, 1971, cit in Rothe, 2008) da família é 56 quebrado de várias formas, incluindo mudanças nas rotinas diárias das crianças e interrupção da escola (Rothe, 2008). As crianças e jovens, à semelhança dos adultos, também se dispersam pelo campo. Mas com uma diferença: no rosto delas é possível sentir e ver alegria genuína e um sorriso capaz de fazer esquecer a realidade vivida. Porém, a entrevista com J. reflete a angústia vivida por uma mãe que tudo quer dar aos filhos, mas nem a educação que deseja consegue providenciar-lhes. Como afirmam vários autores, a guerra pode criar experiências diretas de trauma e indiretamente causa prejuízo económico e afeta a capacidade dos pais em cuidar dos filhos (Gibbs, 1989; Jensen & Shaw,1993; Richman, 1993; Straker, Mendelsohn & Tudin, 1995; Vitaliano, Maiuro, Bolton & Armsden, 1975, cit in Paardekooper et al., 1999). No entanto, esta mulher, apesar de, como ela própria afirmou várias vezes no seu discurso, estar afetada pelo passado, preocupa-se em continuar a viver e ser forte pela sua vontade de educar os filhos para viver em sociedade e num mundo melhor. E, assim, pretende ser todos os dias um exemplo para eles e para a comunidade do campo, lutando contra as condições que lhes deram e arranjando formas de as ultrapassar, pois J. afirma ser seu propósito, ser um exemplo para um mundo melhor e com paz. Esta refugiada, que também é presidente do comité para as mulheres, sabe a importância do comportamento dos pais para o desenvolvimento estratégias de coping eficazes para os filhos lidarem com o trauma (Elbedour, ten Bensel & Bastien, 1993; Jensen & Shaw, 1993; Silber, Perry & Block, 1957; cit in Paardekooper et al, 1999). Nesse sentido, insiste para que frequentem a escola, procura motivá-los e organiza-lhes horários com tarefas para fazerem. Desta forma, ela espera poder manter os seus filhos ocupados e esquecidos do trauma e, assim, longe de perigos e de dispersão, transmitindo, como ela disse, “lei e ordem na família”. Relativamente ao sentido de comunidade e interajuda dos refugiados, o que foi possível verificar está de acordo com um estudo de Cardozo et al (2004) que explica que, apesar de experiências traumáticas extensivas, como elevada taxa de sintomas de ansiedade e depressão, os refugiados Karenni parecem funcionar relativamente bem como um todo. E, de facto, no campo de Molé, à semelhança dos refugiados no estudo, as pessoas utilizam as mais variadas estratégias em prol da adaptação ao campo em comunidade. Dividem refeições e alimentos, ensinam inglês, procuram pessoas com deficiências e idosos para ajudar, utilizam a religião para unir os refugiados e para lhes transmitir valores morais como o amor, reconciliação, perdão, união. 57 E, assim, a comunidade que se criou aqui tem por base uma atitude pacífica, de aceitação e paciência, mas não de conformação, como acontece quando se reúnem algumas pessoas para debater, unir e fazer escutar as suas necessidades. Estas estratégias também são usadas individualmente, pois os refugiados têm noção da situação perigosa em que se encontram e, perspetivam-se como irmãos, para que juntos ultrapassem as dificuldades e sobrevivam. Uma forma individual de ultrapassar as muitas lacunas que existem, é o recurso à agricultura de subsistência para que se mantenham ocupados e para que acedam a uma maior variedade de alimentos, diminuindo assim stress e sofrimento associado à fome e subnutrição. Esta é uma estratégia de adaptação, mas há outras, como a aceitação em nome das circunstâncias - o facto de haver uma guerra na República Centro-Africana, obriga-os, como eles referem, a aceitar viver num campo e desta forma, esta experiência transforma-se numa “escola” e numa “lição diária” para eles. Ainda encontrou-se negligência das condições de vida no campo em nome de Deus, vista como uma oferta do sacrifício e vivida como algo que os ajuda a ultrapassar os problemas com amor e humildade. Através destas estratégias de coping que eles esperam poder ajudá-los, os refugiados gerem melhor as suas emoções associadas à experiência no campo. Relativamente ao sofrimento psicológico vivenciado, os refugiados pedem ajuda e quando questionados sobre o papel de um psicólogo, mencionam imediatamente a necessidade desse recurso. Além disso, a ajuda que dizem precisar tem que ver com a adequação da vida no campo às suas necessidades básicas. Ora, a ajuda humanitária foca-se tradicionalmente na assistência aos stressores de deslocamento, mas recentemente, tem havido reconhecimento nas esferas da investigação e ajuda humanitária que ambos os tipos de stressores - já mencionados - devem ser considerados (Rasmussen et al., 2010). E já se percebeu o importante papel que os stressores de deslocamento têm na fenomenologia do stress psicológico nos lugares pósconflito e quanto à interação destes dois stressores afetam o bem-estar dos refugiados (Rasmussen et al., 2010). Ou seja, as conclusões de Rasmussen et al (2010) sugerem que as intervenções que se focam nos eventos passados e no stress derivado dos problemas do campo são mais propensas a suavizar o sofrimento dos refugiados. Para além disto, condições socioeconómicas difíceis estão associadas a níveis significativos de problemas de saúde mental (WHO, 2010 cit in Bardin et al., 2013), especialmente em situações de refugiados prolongados (Porter & Haslam, 2005; McDougal & Beard, 58 2011 cit in Bardin et al., 2013). Assim, providenciando as condições de que eles precisam, fazendo-os sentir-se pessoas com plenitude de direitos, uma parte dos problemas que experienciam seria resolvida e evitar-se-ia a sua vitimização secundária. Por fim, há pouco a dizer sobre o futuro, pois nem os refugiados sabem bem como se exprimir. Mas, há uma frase de uma mulher que expressa bem aquilo que torna o futuro como algo que não faz parte da vida num campo: “We don’t know. It is like a dream. A dream is not reality, is like a hope”. A única coisa que sabem é que querem estudar e ingressar noutro país que lhes ofereça mais oportunidades. É, por isto e pela ausência de soluções, que os refugiados sentem desamparo e desânimo quando questionados sobre o seu futuro, não acreditando numa solução nem em alguém que os possa ajudar. E, assim, as suas forças vão-se esgotando gradualmente em manter a chama viva de uma vida que poderá voltar a existir. E, como um ciclo, é preciso fazer com que acreditem, ainda que pareça difícil, que há vida para além do campo, não deixando que se esqueçam de si próprias e do seu potencial. 59 PARTE IV – CONCLUSÃO A conclusão mais importante – e preocupante - que este estudo permitiu tirar foi que os refugiados do campo de Molé têm a decisão das suas vidas nas mãos de outras pessoas. Com base no que dizem e na defesa dos seus direitos, esse poder deve, na medida do possível, ser-lhes devolvido. Deve ser-lhes oferecida a possibilidade de escolher receber comida ou dinheiro, de ter emprego, de ter acesso à educação. E estes tópicos são parte da origem da frustração, indignação e sofrimento no campo e impõem uma vida focada no presente. Desta forma, o desenho de intervenções mais flexíveis e assentes em metodologias participativas, permitiria a gestão adequada às necessidades específicas de cada família e também a resolução de muitos problemas originados pelos stressores de deslocamento. Outra intervenção importante seria desenvolver esforços para se criarem estruturas de saúde física e mental que integrem e desenvolvam o potencial destas pessoas. Isto porque, a ajuda humanitária pode, iatrogenicamente, contribuir para a diminuição da autonomia. Assim, a criação de estruturas e apoios que contribuam para o intervalo compreensivo dos refugiados, pode torna-los mais capazes de gerir as suas vidas e de tomar decisões. Para complementar este tópico, é importante intervir nos stressores de deslocação e problemas associados ao passado. No período de “salvamento psicológico” (Shaley, 2002, cit in Rothe, 2008), que corresponde à chegada a locais de transição 5 como os campos, as intervenções baseiamse nas necessidades básicas, como alimentação, abrigo e segurança. Neste ponto, os sintomas podem não refletir a psicopatologia e os limites entre refugiados e técnicos tendem a ser “permeáveis”, dado que ambos enfrentam dificuldades e que o caos envolvente pode contribuir para ofuscar esses limites. As intervenções nesta fase vão ser levadas a cabo por agências de assistência com serviços uniformizados e os técnicos de saúde mental podem não ser chamados, ou então sê-lo-ão apenas mais tarde. Assim que estes chegam, os seus objetivos devem ser delineados e devem incluir a redução dos stressores de deslocação e o fornecimento de segurança, proteção da integridade da família e promoção de laços sociais, identificação de indivíduos em risco e avaliação psiquiátrica (Rothe, 2008). 5 Expressão utilizada na literatura científica a propósito destes lugares. 60 Segundo Bastin, Bastard, Rossel, Melgar, Jones e Antierens (2013) tratar desordens mentais o mais cedo possível, holisticamente e perto da comunidade das pessoas leva a melhores resultados (WHO, 2009, cit in Bastin et al., 2013) e isso também deve ser feito logo no início da estadia no campo. Esta investigação teve como uma das preocupações centrais ouvir as sugestões que os refugiados davam para as suas condições de vida serem melhoradas. Ora, segundo a mensagem que os refugiados passaram, uma intervenção holística iria de encontro às suas necessidades. Uma intervenção no âmbito da saúde mental num campo com estas caraterísticas deveria, tendo em conta as necessidades expressas pelos participantes, assentar numa abordagem consonante com os princípios e práticas da Psicologia Comunitária, envolvendo participativamente todos os atores-chave e contribuindo ativamente para o empowerment dos sujeitos e para o desenvolvimento da comunidade. Como nos foi dado ver, há motivação e iniciativa dos entrevistados para a intervenção na qualidade de “pares” (no sentido em que se encontram na mesma condição) e uma intervenção psicológica teria de prever não apenas um atendimento individual, mas a própria capacidade da comunidade residente para agir no sentido da melhoria das suas condições de vida e de cidadania. Paralelamente, seria essencial trabalhar no sentido da prevenção da violência doméstica e sexual e minimização das consequências psicológicas da guerra e da vida no campo. Assim, abordar-se-ia, por um lado, a capacidade da comunidade se autoorganizar no sentido da resolução das causas estruturais do seu mau-estar e, por outro lado, o impacto traumático do passado recente e da situação atual. Este estudo teve, porém, algumas limitações. A primeira prende-se com o facto de existirem poucas investigações de caráter exploratório em campos de refugiados e que, sobretudo, registem os obstáculos do quotidiano. A segunda tem que ver com as limitações da língua (era falado o francês e inglês, línguas não nativas da investigadora) e a estadia no campo, que acabou por se revelar curta. A terceira refere-se a diferenças culturais. Apesar das suas limitações, esta Dissertação pretende lançar as bases para futuras investigações similares, em que se avaliem as necessidades e se estudem as medidas necessárias para compreender e melhorar as condições de vida nos campos. E 61 ainda pretende ser uma base interpretativa para planos de intervenção ao nível da saúde mental nestes contextos. Por último, o seu maior objetivo é dar voz e reconhecimento a pessoas denominadas de refugiadas que querem as suas vidas de volta. 62 PARTE V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Achvarina, V. Reich, S. (2006). No place to hide: Refugees, displaced persons and the recruitment of child soldiers. International Security. Vol. 31, pp. 127-164. Adamson, F. (2006). Crossing borders: international migration and national security. International Security. Vol. 31, pp. 165-199. Agier, M. (2008). On the Margins of the World: The Refugee Experience Today. Cambridge: Polity Press. Agier, M. (2011). Managing the Undesirables: Refugee Camps and Humanitarian Government. Cambridge: Polity Press. Akhtar, S. (1999). Immigration, identity: Turmoil, treatment and transformation. Northvale, NJ: Jason Aronson. Aljazeera (2013). Looting and Gunfire in captured CAR capital. 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Descrever situações de violência doméstica, abuso sexual, consumo de álcool e substâncias 1.2. Descrever como se desenvolve a procura/fornecimento de alimentação, o (des)emprego, educação escolar e cuidados de saúde 1.3. Descrever como se desenrolam as relações sociais e familiares 1.4. De que forma é prestado (ou não) apoio social a pessoas com deficiência, crianças e idosos 1.5. Compreender a demografia e estrutura do campo e possíveis limitações. 2. De que forma o motivo da fuga tem impacto no quotidiano vivido no campo? 2.1. Perceber as condições de vida atuais no campo e a vida deixada para trás – o que mudou? 2.2. Compreender as necessidades psicológicas decorrentes do processo de adaptação (ou não) ao campo. 3. Compreender e identificar a eventual necessidade de ajuda psicológica para os refugiados 4. Contribuir com conhecimento produzido para a melhoria das condições de vida no campo e para a resolução dos problemas que mais limitam os refugiados. 74 Metodologia: 1.Entrevistas aprofundadas com alguns membros representativos da população e técnicos que atuam no terreno 2.Observação participante do quotidiano vivido no campo de refugiados 3.Recurso a fotografias e gravação de vídeos 4.Métodos aplicados com base no consentimento informado 75 ANEXO II – Grelha de Observação Participante Grelha de observação participante Enquadramento sugerido por Spradley (1980) a utilizar para as notas de campo adequado ao objetivo do estudo. • ESPAÇO: os sítios físicos como as tendas e a construção do campo. De que material são feitas as tendas? São construídas por quem? Quem fornece os materiais? O que está à volta das tendas? Como é o interior das tendas? Quem vive nas tendas? Quantas pessoas? O que existe de "edifícios" para além das tendas? Para que servem esses edifícios? Quem está lá? O que faz lá? • ATOR: as pessoas envolvidas na vida de um campo e suas funções. • ATIVIDADES: conjunto de atos relacionados que as pessoas fazem. O seja, como se desenrola a vida doméstica dos refugiados? Que passatempos usam para passar o tempo? Quem? Que materiais utilizam? • OBJETO: as coisas físicas que estão presentes. Apreender os objetos todos que estão presentes no espaço físico e que contribuem para a vida diária dos refugiados. • AÇÕES: ações singulares que as pessoas fazem. Observar o que os refugiados fazem sozinhos e qual a utilidade disso, como cozinhar. • ACONTECIMENTOS: conjunto de atividades que as pessoas executam e que têm relevância para a compreensão do quotidiano no campo. Aqui também quero observar as relações sociais e familiares e possíveis problemas, como discussões e motivo, violência doméstica, abuso sexual e consumo de substâncias. Qual a imagem social que isso dá para os outros refugiados e como são resolvidos estes problemas? Observar a forma como se dá educação a jovens nas escolas, a religião que é praticada e como se fornecem cuidados de saúde e apoio psicológico. • TEMPO: a sequência temporal do quotidiano dos refugiados. • OBJETIVOS: que objetivos os refugiados tentam atingir com as tarefas diárias, passatempos, trabalho, etc. • SENTIMENTOS: apreender todas as emoções e sentimentos expressos em todas as categorias acima mencionadas. 76 A reflexão das notas de campos está dividida em cinco pontos: • Reflexão sobre a análise • Reflexão sobre o método: refletir sobre como e porquê selecionei novas estratégias (ou não) ou como lidei com novas dificuldades. Fornece, no fim, um registo preciso do que o estudo realmente implica. • Reflexão em dilemas éticos e conflitos • Pontos de clarificação 1. Reflexões sobre a estrutura da mente do observador: refletir sobre os sentimentos, só assim percebo como sou influenciada pela experiência de campo. 77 ANEXO III – Temas das questões das entrevistas Depois de consentimento informado obtido e de os objetivos do estudo serem esclarecidos procede-se à entrevista com os seguintes tópicos: 1. Dados pessoais 2. Descrição da vida na República Centro-Africana antes de guerra 3. Descrição da fuga 4. Motivos na origem da fuga 5. Chegada e estabelecimento no campo 6. Descrição aprofundada do quotidiano no campo e os serviços 7. Principais atividades 8. Principais obstáculos do quotidiano 9. Sugestões para ultrapassar esses obstáculos 10. Estratégias de adaptação 11. Estados emocionais associados à vida na R.C.A. e campo 12. Relações pessoais, com técnicos e vizinhos 13. Vida fora do campo 14. Futuro 15. Necessidade de intervenção psicológica 78 ANEXO IV – Dados da observação participante Na entrada do campo veem-se muitas tendas brancas espalhadas por uma extensão muito longa, perdendo-se o seu fim. À medida que se foi explorando este espaço percebeu-se que é como uma pequena cidade, com centro médico, maternidade, cyber-café, clube, campos de jogos, escola, tendas e casas de banho. Ilustração 18. Entrada do campo O campo não tem limites e possui apenas uma cancela em madeira para a entrada de viaturas do ACNUR. Ilustração 19. Cancela e tenda do porteiro Logo a seguir tem um abrigo para um guarda do governo congolês. J. contou que existem mais e que estão lá dia e noite e denunciou abusos de poder e aprisionamentos. À medida que se entra no campo e se desce em direção às primeiras tendas vê-se do lado direito o cyber-café, que é o único edifício de um andar construído em tijolo e com telhado de chapa. Embora tenha sido desenhado para o uso de 79 computadores e para se constituir como a plataforma de acesso ao mundo exterior através de internet, até ao momento ainda não funciona por falta de financiamento para os recursos tecnológicos. Ilustração 20. Cyber-café e caixote do lixo Do lado esquerdo encontram-se uma tenda grande, a sala de registo, a maternidade e o hospital. A tenda tem bancos compridos e é nela os refugiados organizam a missa ao domingo, como foi observado; a sala de registo serve para registar os refugiados que chegam ao campo e para estes dormirem enquanto não possuem os seus abrigos. Ambas têm rasgos feitos no plástico pelas pessoas de forma a facilitar a circulação do ar e tornar o ambiente mais fresco. Ilustração 21 Tenda onde se organiza a missa 80 Na maternidade, situada na perpendicular com estas tendas, está uma enfermeira que presta cuidados de saúde a grávidas, mães e recém-nascidos. Esta tenda é ampla, com uma divisão onde existem várias camas onde foram observadas as mães e os seus filhos. Mais nada havia lá dentro. O chão é de terra e não existem as condições sanitárias adequadas ao nascimento de bebés. Contudo, J. e F. contaram que se oferecem roupas e medicamentos aos bebés. Do lado de fora, durante uma observação, estava uma mulher a dar banho a uma criança com um balde e havia um fio com roupas penduradas a secar. Ilustração 22. Sala de registo Ilustração 23. Interior da maternidade 87 As tendas habitacionais são, como todas as outras, feitas com paus de madeira e tapadas por plástico branco com o logotipo “UNHCR” azul e são todas do mesmo tamanho, não havendo diferenciação, exceto um código escrito no plástico, composto por números e letras. A porta é feita de plástico e podem existir ou não janelas, também elas tapadas por plástico. No interior de uma tenda observada, existe uma cama e uma mesa de madeira para guardar alguns pertences, como o kit de cozinha que o ACNUR fornece aos refugiados, roupas e alimentos – porém alguns objetos encontram-se no chão. Em cima da cama está uma rede mosquiteira azul, também fornecida pelo ACNUR. Uma mulher que acompanhou a observação contou que uma cama normalmente dá para toda a família, mas, no caso de ser numerosa, é dividida em duas. O chão é em terra e ainda continha vestígios de fogueiras para cozinhar os alimentos, com pedras a formar um círculo e no meio cinza. Ilustração 338. Tendas habitacionais alinhadas. Ilustração 39. Tendas habitacionais com utensílios de culinário no exterior e mesa para venda de produtos. Ilustração 40 Mesa com bens pessoais, alimentos e material de culinária. Ilustração 41. Cama com rede mosquiteira e roupas penduradas 88 Nas traseiras desta tenda, estava uma horta com plantações de cebolas, tomates, beringela e mandioca. Aqui existia algum lixo pelo chão. Todas as tendas estão alinhadas e existem pequenas ruas que as interligam, que não tinham lixo – só se observaram apenas dois caixotes de lixo na entrada e no mercado, portanto, relativamente longe das tendas. Ao longo destas ruas existem pequenas ervas no chão e quase não há árvores para se ter um pouco de sombra face as temperaturas elevadas próprias da região do equador. Para combater este problema, e porque as tendas de plástico são muito quentes, os refugiados recolhem paus e constroem palhotas, onde existem bancos de madeira e onde se costumam reunir durante o dia para escreverem provisões acerca das suas necessidades endereçadas ao Ilustração 342. Vestígios de fogueira ao lado da caama. Ilustração 43. Horta. 89 ANCUR, para falar sobre religião e socializarem. À volta das tendas e em convivência com as pessoas existem algumas galinhas e patos. Ilustração 44. Jovem com paus para construir palhota. Ilustração 45. Pato. As mulheres passam o dia juntas e, por vezes, acompanhadas por crianças, quer seja a trabalhar no mercado ou na horta, quer seja a tomar conta dos filhos e fazer tranças a meninas. Vestem, normalmente, vestidos com padrões geométricos e cores garridas e algumas usam um lenço na cabeça e calçam chinelos, mas, de forma geral, sempre de forma pobre e descoordenada. Apesar disto, F, que contribuiu para a observação participante, tinha os olhos maquilhados a azul e os lábios com baton 90 brilhante, transportava uma carteira de mão e usava sandálias de salto alto. Num dos momentos de observação, J. contou que iam preparar os festejos do Dia Internacional da Mulher - 8 de março - com danças e culinária tradicional para apresentar no clube. Ilustração 46. Mulheres a serem entrevistadas. Os homens vestem igualmente roupa suja, desarranjada e pobre e usam chinelos. Contudo, ao domingo para assistirem à missa, vestem a sua melhor roupa, chegando a ser possível observar um refugiado de fato. Os homens e rapazes são quem frequenta, maioritariamente, o clube e fazem desporto nos campos de basquetebol, futebol e voleibol, que ficam próximo desta tenda. Contudo, estes espaços não são próprios nem adequados para se jogar competitiva e profissionalmente um desporto, como é o desejo B. - o campo é em terra e desnivelado. Observou-se também adolescentes com auscultadores para ouvir música. Ilustração 35. Homem com tese de mestrado. 91 Ilustração 48. Jovens no campo de basquetebol. Os jovens e crianças, normalmente, andam sozinhos, sem a companhia de adultos. Igualmente para esta geração mais nova, as condições de vida do campo e do passado refletem-se na sua forma de vestir, que é desorganizada, suja, roupas largas e pés cobertos de terra e poeira. A expressão nas suas faces era alegre, curiosa e tímida, ao contrário de algumas mulheres e homens, que carregavam um semblante triste e com um sorriso arrancado. Ilustração 49. Crianças. 92 Ilustração 50. Crianças com o único brinquedo observado. Ilustração 51. Jovens na sala de registo. A geração mais nova tem dois espaços no campo que são dedicados para eles: a escola primária e o “Espace Ami des Enfants”. Assim, existem duas escolas primárias com cinco salas, compostas por mesas, bancos e um quadro numa parede do fundo. São divisões amplas e feitas de paus de madeira, que deixam entrar alguns raios de sol. 93 Ilustração 52. Sala de aula. Ilustração 53. Sala de aula, quadro e técnico do ACNUR ao lado. Ilustração 54. Exterior da escola. 94 O “Espace Ami des Enfants” é um espaço “murado” com o mesmo plástico das tendas e paus, com um “portão”. Supostamente, é para aqui que as crianças que não estão em idade escolar vão, mas lá dentro só existem três tendas com bancos, duas balizas feitas de pau e nada mais. O objetivo futuro para este espaço, segundo o que se apurou, é conseguir financiamento para possuir baloiços e outros brinquedos, que de momento não existem. É de referir que no dia que se observou este espaço estava a decorrer uma reunião com elementos da UNICEF e que as crianças estavam do lado de fora dos “muros”. Ilustração 55. “Espace Ami des Enfants”. Ilustração 56. Interior do “Espace Ami des Enfants”. 95 Os refugiados, geralmente, deslocam-se para a tenda de registo, centro médico e outras durante o dia, mesmo sem necessidade de algum serviço, dando a sensação que o fazem para passar o tempo. Ilustração 57. Refugiados Ilustração 58. Jovens na sala de registo. Por fim, o sistema de extração de água localiza-se longe das tendas e da entrada e consiste em sacos empilhados em cima de outros, cobertos por uma tenda e, destes sacos, saem mangueiras que ligam a um mecanismo de extração com torneiras, em frente. Devido à sua distância, J. e VP. mencionaram o perigo de haver abusos sexuais à noite e ainda de ser de difícil acesso para pessoas portadoras de deficiência. 96 Ilustração 59. Extração de água e incêndio Ilustração 60. Reservatório de água. fora do campo.