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Projeto de centro interpretativo da Culltura Kwanyama (Cuanhama)

Jorge Fernando Silva Teixeira

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FACULDADE DE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO Jorge Fernando Silva Teixeira 2º Ciclo de Estudos em História e Património, Ramo de Mediação Patrimonial Projecto de Centro Interpretativo da Cultura Kwanyama (Cuanhama) 2014 Orientador: Professora Doutora Alice Duarte Co-Orientador: Professor Doutor Maciel Santos Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/ Projeto/IPP: Versão definitiva II FACULDADE DE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO III Resumo A presente dissertação, intitulada: Centro Interpretativo da Cultura Kwanyama, surgiu como parte de um projeto de investigação conduzido pelo CEUAP. Esta linha de investigação desenvolveu-se também em resposta face a algumas necessidades e intenções locais Para que tal fosse possível, recorreu-se ao estudo da região geográfica do sul de Angola, cuanhama, da sua morfologia, demografia, história e património cultural. Numa primeira fase investigou-se a região como elemento geográfico, clima, fauna e flora. Posteriormente foi estudado os kwanyamas, o seu eumbo, as suas atividades e organização social, a razia, e os seus contatos com a potência colonizadora. E por fim, concretizou-se a nossa proposta de mediação, um planeamento de um Centro Interpretativo para a Sociedade Kwanyama, onde será empregue todo o conhecimento adquirido ao longo da investigação. Este será encarado como um polo dinamizador da região e da história local. Palavras-chave História de Angola Kwanyama Centro Interpretativo IV Abstract The present dissertation, entitled: Interpreter Centre of the Kwanyama Culture, developed as part of a scientific investigation lead by CEAUP. This line of investigation was developed also in response to some needs and locals intentions. For that to became a reality, a serious study of the geographic region of the south of Angola, the cuanhama, its morphology, demographics, history and cultural heritage, was conducted. To complement this study, another one was conducted, it focused on the kwanyamas, the eumbo, and its social activities and hierarchy, the razia, and their contact with the colonization powerhouse. With this study, we wre able to make a mediation proposal, an Interpreter Centre for the Kwanyama Society, were all of the knowledge gathered in the study, will put to use. Thus this centre will be a dynamic centre for the region and for its history. Key-Words Angola History Kwanyama Interpreter Centre V Résumé La présente thése s´intitule: Centre d'Interprétation de la Culture Kwanyama. Cette recherche émerge d'un projet d´investigation menée par CEUAP. Le projet a étè également développé a partir des besoins et intentions locales. La zone géographique du sud d´Angola est le domaine de l´étude: Cuanhama, leur morphologie, démographie, histoire et patrimoine culturel. Dans une première étape, la région a étè étudiée comme un element geographique, climatique, faune et la flore. Postérieurement, les kwanyamas on étè l´objet de la recherche, son eumbo, leurs activités et leurs organisation sociale, le raid, et leurs contacts avec le pouvoir colonial. Finalment, la proposition de la médiation ce réalise: la planification d'un centre d'interprétatif pour la sociéte Kwanyama se produit, où toutes les connaissances acquises de l'enquête seront appliquées. Ce centre peut être considérer comme un pôle dynamique de la région et de l'histoire locale. Mots-clés: Histoire de l'Angola Kwanyama Centre d'interprétation VI Agradecimentos A realização desta dissertação só foi possível devido ao incansável apoio, auxílio e constante incentivo de algumas pessoas, como tal deixo aqui umas breves palavras de apreço e agradecimento. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos meus pais pela educação e formação que me transmitiram ao longo de toda a vida. Por nunca me cortarem as asas! Por me terem apoiado nos meus momentos de maiores incertezas, e por compreenderem e incentivarem a minha busca pelos meus sonhos. Deixo aqui também uma palavra de apreço aos meus irmãos Hélder e Ricardo e também ao meu primo João Pedro, pelo constante incentivo e pelas horas que perdemos a falar, sobre tudo e sobre nada. Aos meus primos Bruno e Tiago. Aos meus familiares Marina Pinhal, seus filhos e marido pelo seu incentivo e encorajamento. Em segundo lugar gostaria de aqui deixar o meu agradecimento à Doutora Alice Duarte por ter me ter orientado, por me ter incentivado e por acreditar que eu conseguiria mais e melhor. E por ter ajudado a suprimir as minhas dúvidas e por ter, muitas vezes, me ter chamado “à terra”, aquando dos meus momentos de divagação. Gostaria de agradecer ao meu co-orientador, Doutor Maciel Santos, que incentivou o desenvolvimento deste projeto, como uma nova linha de investigação, dentro do projeto de arqueologia em Angola, a ser desenvolvido no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Agradeço também ao Doutor Maciel Santos por me ter introduzido ao mundo da história de África. À minha equipa de trabalho André Serdoura e Jorge Guimarães. A toda a minha turma de mestrado, mas em especial à Sara Godinho, Ana Faria, Stephanie Cruz, Joana Amoroso, Fabíola Franco Pires, Mariana Pinto e à Mónica Salgado. Aos meus amigos: Márcia Jesus, pelas suas constantes críticas e incentivos, e pelas horas que perdemos a estudar e a rever os textos. À Sandra Santos, ao Marco Nunes, à Ana Santos, ao Fábio Silva, ao Rúben Soares, à Marina Araújo, à Ana Patrícia Ramalho, ao Sr. Jorge Mendes, à Rute Sacramento, à Jéssica Rodrigues, à Francisca Pinheiro, ao Tiago Ferreira, ao Bruno Resende, à Diana Serdoura, ao Alfredo Palmeira, ao Diogo Duarte e à Carina Oliveira por me terem incentivado e encorajado, aos seus conselhos, pareceres, sugestões e opiniões, que em muito contribuíram para a conclusão deste trabalho. VII Dedicatória A ti que partiste demasiado cedo, espero que estejas orgulhoso. VIII Índice Resumo..............................................................................................................................III Abstract............................................................................................................................ IV Résumé .............................................................................................................................. V Índice de imagens ............................................................................................................. IX Introdução .......................................................................................................................... 1 Capítulo I. Conceitos e Teorias .................................................................................................. 6 1. Cultura e Património ......................................................................................................... 7 1.1. Cultura ............................................................................................................................... 7 2. Património ....................................................................................................................... 12 2.1. Património ....................................................................................................................... 21 2.2. Património Material vs Matrimónio Imaterial? ............................................................... 26 Capitulo II. Estudo da Cultura Kwanyama e da Região Cuanhama ................................... 30 1. Apresentação do caso de estudo ...................................................................................... 31 1.1. Cuanhama como Região Geográfica ............................................................................... 33 1.1.1. Clima ................................................................................................................... 35 1.1.2. Fauna ................................................................................................................... 36 1.1.3. Flora natural e flora "aproveitada" pelos kwanyamas ......................................... 36 1.1.4. Atividade agro-pastoril ........................................................................................ 38 1.2. Kwanyama como Povo .................................................................................................... 41 1.2.1. O eumbo .............................................................................................................. 42 1.2.2. Descrição da composição de um eumbo ............................................................. 44 1.2.3. Estrutura hierárquica do eumbo .......................................................................... 47 1.2.4. Divisão do trabalho ............................................................................................. 48 1.2.5. Razia .................................................................................................................... 49 1.2.6. Práticas Sociais .................................................................................................... 49 1.2.7. Organização social .............................................................................................. 51 2. A Ação Portuguesa .......................................................................................................... 52 2.1. Angola, a nova fronteira .................................................................................................. 55 2.1.1. Metodologia de expansão: as Missões Religiosas ............................................... 57 2.1.2. Os primeiros ensaios e os temores do avanço em direção ao sul e o estabelecimento da "Zona Neutra" ...................................................................................... 60 2.2. I Guerra Mundial em Angola .......................................................................................... 63 2.3. A estratégia e o Teatro de Operações da Campanha de 1915-1917 ................................ 66 2.4. Início da Campanha de 1915-1917 e o caminho até Batalha da Môngua ....................... 67 IX Capitulo III. Proposta de Mediação ........................................................................................ 71 1. Proposta de Mediação ..................................................................................................... 72 1.1. Património cultural e desenvolvimento local? ................................................................ 72 1.2. A cultura, o património e a mediação cultural ................................................................ 77 1.3. Mediação cultural ............................................................................................................ 78 1.4. Interpretação patrimonial ................................................................................................ 81 2. Centros Interpretativos .................................................................................................... 87 2.1. Centro Interpretativo da Cultura Kwanyama .................................................................. 89 2.2. Proposta de organização da sala dedicada à atividade guerreira ..................................... 94 Conclusão ......................................................................................................................... 96 Bibliografia ...................................................................................................................... 98 Recursos Online ............................................................................................................. 102 Anexos ...................................................................................................................................... 104 Glossário................................................................................................................................... 116 Índice de imagens Figura 1- Tabela com informação sobre sítios históricos classificados, na Província do Cunene90 Figura 2- Localização Geral de Angola; Fonte: Google Earth .................................................... 105 Figura 3- Fotografia de Satélite, Sul de Angola; Fonte: Google Earth,, Escala 1/146km .......... 105 Figura 4- Mapa com a sobreposição das três grandes unidades administrativas: a linha azul representa os limites das Províncias; as linhas vermelhas representam os limites dos Municípios, e as linhas negras representam os limites das comunas. Fonte: http://www.ineao.com/ibep/AMOSTRAGEM_texto.htm retirado no dia 20/12/2012, às 20h21 .................... 106 Figura 5- Cunene (Chanas; Mufitos e Ecangos); Fonte: Google Earth, Escala 1/23,6 km ......... 107 Figura 6 – A caldeira da Etocha. Fonte: (Silva,1975:pp.104) ..................................................... 107 Figura 7-Chana e Mufito. Fonte: Google Earth- Escala:1/804m; Altitude de visualização: 4,74 Km ............................................................................................................................................. 108 Figura 8- Map 1. Agricultural Macroregions and Regions of Angola, Fonte: (Carvalho,1974, pp. 204) ........................................................................................................................................... 108 Figura 9-Mapa Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro); Fonte: (OLIVEIRA, 2011), consultado online no dia 23/02/2013.......................................................................................................... 109 Figura 10-Eumbo Kwanyama, de um homem com quatro mulheres. Fonte: (Amaral, 2002:pp.73) ............................................................................................................................... 109 6 Capítulo I. Conceitos e Teorias 7 1. Cultura e Património Este primeiro capítulo destina-se à sustentação teórica, através do debate dos conceitos de cultura e património, essencialmente discutindo se se justifica uma visão separada e distinta entre património imaterial e património material. Este capítulo tenta desta forma, estabelecer a base da argumentação para a defesa do projecto de um Centro Interpretativo para a cultura kwanyama. Este capítulo encontra-se dividido em duas partes, a primeira destina-se à clarificação da noção de cultura, sendo que na segunda se desenvolvem as questões relativas à da noção de património. 1.1. Cultura Na atualidade, uma vez que se tornou indiscutível que o “património” é um dos produtos da “indústria cultural”, importa encontrar a resposta à pergunta: o que é a cultura? Qual a sua relação com o património? Numa primeira abordagem, a noção coloca diversas dificuldades na sua definição, o que, obriga, portanto, a uma compreensão do que se entendeu e entende por cultura. A primeira utilização desta noção, fez-se durante o Iluminismo, com a ideia da cultura do espírito. No seguimento disso, a cultura surge como o saber acumulado das Humanidades, nas suas expressões literárias e artísticas, nomeadamente na pintura, escultura e arquitetura. Não é este o sentido de cultura aplicado neste trabalho, mas importa mencioná-lo uma vez que ainda é uma das utilizações possíveis para o termo. Essa visão iluminista é uma visão limitadora da noção de cultura, mas é uma das maiores manifestações do pensamento ocidental. Tem implícita a ideia de que cultura é adquirida, através da instrução socialmente instituída e aceite 3 . Esta está ligada aos cânones clássicos, criando assim a noção de uma cultura elitista, hierarquizada, que não é acessível a todos. É uma cultura destinada às elites sociais, uma vez que são estas as únicas que têm os meios capitais necessários para aceder às instituições que a transmitem, como por exemplo as Universidades. Convém ficar claro que não é este o sentido da noção de cultura utilizado neste trabalho; tal sentido irá ser clarificado posteriormente. 3 Embora saibamos que para a época instrução instituída e aceite é também a instrução transmitida nos mais variados ofícios, tais como pedreiro, joelheiro, ourives, escultores, pintores, arquitetos…a cultura de espírito reportava-se unicamente ao Ensino Universitário 8 Neste período uma das razões para a elitização da cultura, reside não apenas na dificuldade em aceder às instituições de transmissão, mas principalmente na língua em que o conhecimento se encontrava inscrito e transmitido. Considerada como uma língua nobre, até à valorização das línguas vernaculares, o latim dominava todos os meios de difusão escrita. As elites sociais eram as únicas também que se encontravam habilitadas a ler e a escrever em latim. A Reforma Protestante no centro e norte da Europa deu início ao movimento que levaria à afirmação das línguas vernaculares, mas o grande passo dado, foi a imprensa. Aquele elitismo começa a ser contestado no século XVI, graças a Martinho Lutero que começou a traduzir a Bíblia para alemão, uma língua vernacular. A tradução para línguas populares do mais sagrado livro do ocidente europeu possibilitou a massificação da sua leitura, privilegiando-se as línguas vernaculares e novos leitores. Isso abre o caminho para a massificação do conhecimento, não apenas literário mas também científico. Com o aparecimento e desenvolvimento das novas ciências durante o século XIX, e em particular da Antropologia, desenvolveu-se uma nova visão do Mundo, que veio alargar a visão limitadora da noção de cultura das Humanidades. Ao inverso da noção iluminista, que apenas considerava como cultura as expressões artístico-literárias, os defensores desta nova visão tentam abarcar a generalidade dos conhecimentos, os modos de vida e formas de raciocinar e expressar dos atores sociais, deixando de considerar apenas e exclusivamente os cânones clássicos. A noção de cultura passa a remeter para a atribuição de significados e de sentidos presentes em todos os atos de um indivíduo, ou grupo de indivíduos. Neste sentido, todos os seres humanos são essencialmente seres de cultura, na perspetiva de que são seres produtores de significados, atribuindo sentido aos objetos que produzem, agindo e orientando-se em torno dos significados atribuídos e com eles. Nessa acepção não há uma hierarquização dos elementos que compõem a cultura. Apesar de continuar a subsistir a noção proveniente do período iluminista, na noção defendida pelas ciências socias, e sobretudo pela antropologia, deixa de haver cânones e hierarquizações, e principalmente, deixa de ser entendida como algo que separa os atores sociais entre detentores e não-detentores de cultura. É este o sentido de cultura, o das ciências 9 sociais, que subescrevemos, defendemos e utilizaremos ao longo deste projeto de Centro Interpretativo. A realidade cultural apresenta-se, não como algo estanque, mas sim como algo fluido, variável no tempo e no espaço, é adaptável, e até criada, pelas diferentes realidades sociais, pelos diferentes atores sociais, pelos diferentes grupos sociais e pelos confrontos entre atores, atores e grupos sociais, e entre grupos sociais. A cultura não é um dado adquirido e retransmitido de forma inalterada. A cultura é uma construção quotidiana, assim como é uma construção histórica. É um processo dinamicamente construído no tempo e no espaço, e que se alarga a cada confronto social. A cultura nasce, renasce, é interpretada e reinterpretada sempre que dois ou mais atores/grupos sociais se confrontam, desde o nível local ao nível internacional, numa cadeia de troca e avaliação sem princípio e sem fim. Uma vez que as relações sociais são sempre relações de poder, e nem sempre igualitárias, podemos afirmar que a cultura é assim uma constante troca entre indivíduos e/ou grupos sociais. Este confronto proporciona aos atores sociais uma oportunidade de avaliarem os seus sistemas de valores, de atribuições de valor, de emoções, através da comparação com os demais grupos em confronto. Destes confrontos resultarão maiores ou menores mudanças nos sistemas de valores, de atribuições de emoções, devido à assimilação parcial ou total de vários elementos dos demais grupos sociais Por isso, é possível afirmar que a cultura é um produto da atividade humana e que toda a atividade humana é cultura. A realidade cultural traduz a aplicação e atribuição de valores positivos e/ou negativos a algo pelos atores sociais, enquanto elementos singulares e enquanto grupos. Podemos também afirmar que as diferentes realidades sociais afetam de forma direta a cultura, uma vez que a principal atividade humana baseia-se na troca e no confronto social. O confronto social encontra-se presente desde o confronto político-partidário à simples troca de argumentos e nas atividades mais mundanas, como a afirmação pessoal de um grupo por contraposto a um outro grupo. Assim não podemos falar de diferentes graus de cultura, mas sim de diferentes perspetivas culturais. 10 Um outro aspeto que podemos referir é que a cultura não corresponde, portanto, a ter um grau académico ou escolar. A produção de significados ocorre em todos os níveis sociais, incluindo os níveis sociais ditos mais baixos, ou com baixos índices escolares ou de escolaridade. O facto de se pertencer a um destes grupos, não implica que se deixe de ter, produzir e atribuir significados. Estes ocorrem sempre uma vez que são intrínsecos à atividade humana. A produção dos sistemas de valores, de atribuições de valor e de emoções não deixa de existir por parte de nenhum grupo social, ainda que possa ocorrer segundo diferentes perspetivas. Estas diferenças resultam das constantes produções, trocas e confrontos, não só entre grupos do mesmo estatuto social, mas também com grupos de diferentes estatutos sociais. “Podemos resumir isto da seguinte forma: não vale a pena encarar a cultura como substancia, é melhor encará-la como uma dimensão dos fenómenos, uma dimensão que releva da diferença situada e concretizada“ (Appadurai, 2004: 26) Constatamos, então, que cultura é a base que sustenta todas as formas de expressão material e imaterial de um determinado grupo, num determinado espaço, e num determinado tempo “Sugiro, portanto, que a cultura é uma dimensão penetrante do discurso humano que explora a diferença para gerar diversas concepções da identidade de grupo” (Appadurai, 2004: 27). Os referentes culturais são as práticas, as produções e os significados permeáveis e mutáveis, que são socialmente transmitidos e/ou produzidos e que variam no tempo e no espaço. Trata-se dos sistemas de valores, de atribuições de valor, e emoções, criados, interpretados e reinterpretados consoantes os contextos históricos, políticos e ideológicos em que vive ou se forma um determinado grupo social, num determinado espaço e num determinado tempo. É algo que não se delimita por balizas estanques, como cânones e regras mestras, nem se encontra estritamente ligada a movimentos e a espaços concretos e bem delimitados (Appadurai, 2004). O mundo atual encontra-se dominado por uma crescente alteração das paisagens sociais devido à grande mobilidade espacial sempre crescente. Esta mobilidade carateriza-se por grandes migrações internas e externas, ocasionais ou perpétuas 4 , de grandes 4 O termo perpétuo é utilizado com o sentido de uma estadia prolongada, acima dos 24 meses 11 quantidades de pessoas. As migrações perpétuas traduzem a procura pelos atores/grupos sociais de novos locais para habitar, movidos pela procura de melhores condições sociais-económicas, mais e melhores meios de comunicação, etc… As migrações ocasionais são originadas por motivos ocasionais e de lazer. Estes motivos conduzem os atores/grupos sociais a deslocações em busca de algo, que não encontram, ou que não existe, no espaço em que habitam, normalmente conduzidos por razões lúdicas ou simples curiosidade. Tais movimentações conduziram a um único desfecho, que é o fim do isomorfismo entre cultura e lugar (Appadurai, 2004). A fácil possibilidade de movimentação entre muitos locais encurtou as distâncias, abrindo e facilitando as conexões e os confrontos, dos atores e dos grupos sociais com novas realidades, novas interpretações e novos modelos de atribuição de significados e emoções. O fim do isomorfismo entre cultura e lugar permitiu que várias perspetivas culturais fossem exploradas e reexploradas. Transportando as suas perspetivas culturais consigo quando se deslocam, os atores/grupos sociais são os principais promotores desta nova realidade, promovendo o fim do isolamento cultural e da estrita relação da cultura com o seu local de origem e/ou desenvolvimento. Ainda por cima este fenómeno não ocorre apenas no dito mundo físico. O ciberespaço e as novas realidades tecnológicas contribuíram de uma forma ainda mais cabal para o fim dos isolamentos culturais, promovendo de forma ativa a comparação, a troca e o conflito dos atores/grupos sociais com ainda mais realidades. Em suma “A cultura é um conjunto de ideias comuns a determinado grupo que são retrabalhadas continuamente de maneira imaginativa, sistemática e explicável, mas não previsível. É a teia de significados, que o próprio Homem tece vivendo em sociedade e que permite aos membros de um grupo interpretar a sua experiência e guiar as suas acções” (Geertz, 1973: 64). A cultura é algo omnipresente, mas também constantemente mutável e maneável, indispensável e indissociável do quotidiano de um individuo ou grupo social. Assim, como já demonstramos, a realidade cultural abarca uma multiplicidade diversa de 12 elementos, que não podem ser conservados imutáveis, uma vez que estamos em presença de um processo dinâmico. A cultura é algo que é vivido no quotidiano pelos atores sociais, algo que pode não ser diratamente visível, mas que se manifesta constantemente. É do seio deste emaranhado complexo que os grupos sociais seleccionam, o conjunto de elementos a que atribuem significados particulares e os identificam como seus, como marca da sua identidade, que os demarcam como um grupo específico e autónomo. Essas marcas identitárias são utilizadas das mais variadas formas, e delegadas às respetivas futuras gerações de qualquer grupo social como símbolos culturais. “cultura não destaca simplesmente a posse de determinados atributos (materiais, linguísticos ou territoriais), mas a consciência desses atributos e a sua naturalização como essenciais à identidade de grupo. […] Cultura 1, constituindo um arquivo de diferenças em aberto, molda-se conscientemente em Cultura 2, o subconjunto dessas diferenças que constitui o diacrítico da identidade de grupo.” (Appadurai, 2004: 27-28). É esse conjunto de elementos pensados como identitários que constituem o património de um grupo, mesmo quando não é designado dessa forma. Definir então o património como herança coletiva da humanidade que foi legada por gerações anteriores às gerações futuras não chega. O que é então o Património? 2. Património De acordo com o Carlos Alberto Ferreira de Almeida, “Património é o que tem qualidade para a vida cultural e físico do homem e para a existência e afirmação das diferentes comunidades, desde a vicinal e paroquial, à concelhia, à regional, até à nacional e internacional. (...) Hoje o Património estende-se a muitos outros domínios, cada 13 vez mais amplos, então insuspeitados” (ALMEIDA; 1993: 407-408). O que devemos compreender destas palavras é que a noção de património tem sido grandes alargamentos deixando de estar confinada às suas dimensões históricasarquitetónicas e artísticas. A ideia de que há bens culturais que devem ser protegidos e salvaguardados para as gerações futuras sofrem grande expansão desde o início da Modernidade 5 . Esta trouxe consigo o culto da preservação e da nostalgia preservacionista (Duarte, 2010: 3). David Lowenthal (1985) defende que a emergência da noção de património cultural, como a encaramos hoje, é uma criação da Modernidade. Isso dever-se-ia ao facto das sociedades ocidentais do pós-revoluções industriais se caracterizem por uma rebelião contra a tradição herdade e por uma adoração da ideia de progresso e avanço tecnológico. Esta atitude conduziu nalguns casos à destruição de edifícios e locais históricos. Confrontados com a possibilidade de perda de identidade, alguns indivíduos e/ou entidades, na posse dos meios necessários para o fazer, tentam preservar aquilo que encaram e designam como património, iniciando o culto preservacionista de bens culturais. Assim o património surge “quando um individuo ou grupo de indivíduos identifica como seus um objecto ou um conjunto de objectos” (Ballart; 1997: 17). Radicado nessa noção de perda de identidade, começaram a proliferar nas sociedades ocidentais, locais destinados exclusivamente à preservação desses bens, como arquivos, bibliotecas e museus. Com a criação destas pontes artificiais, criou-se uma quebra entre a memória real e a realidade histórica. A consciencialização desta quebra induz a necessidade de “salvar” da destruição e do esquecimento “todos” os bens patrimoniais. Numa primeira fase, todos os bens físicos e, atualmente, bens patrimoniais não físicos também. Isto é uma característica sobretudo da sociedade Ocidental. Incorporando os desenvolvimentos atrás mencionados, o património será assim a consciencialização de um conjunto finito, seleccionado e valorizado de elementos 5 Os termos Modernidade e Moderno serão aqui utilizados no enquadramento que lhes é dado pelas ciências sociais em geral ao período temporal entre o fim da Idade Média (1453) e os dias atuais. Alguns autores adjetivam os últimos 60 anos de diversas formas, por exemplo Marc Augé (1994) denomina esse período como “sobemoderdinada” e Anthony Giddens (1994) como “modernidade tardia” 14 culturais por um determinado grupo de atores sociais, ou seja, é uma pequena porção de referentes culturais, que expressa a identidade desse grupo de atores sociais. Património implica assim, uma seleção de elementos culturais que são escolhidos porque entendidos como significantes em termos da identidade de um ator/grupo social. Por isso podemos afirmar sem margem para dúvida, que património e identidade são duas noções estreitamente selecionadas (Peralta & Anico, 2006). Assim, de modo idêntico à cultura, podemos afirmar que o património também é dinâmico. Isso porque o património se encontra sujeito às alterações de sentimentos e valores dos atores sociais, que por sua vez são influenciados pelos contextos, preconceitos, sentimentos e paradigmas dos períodos históricos e dos locais em que esses grupos existem, e das relações internas/externas dos grupos sociais e das sociedades. Assim, considerando este fator, é possível concluir que o património, não é algo que foi construído no passado e detido como testemunho histórico. Património é algo que os atores socais valorizam e/ou com que se identificam, e com o qual mantem laços emocionais e/ou sentimentais. Nesta visão, património é algo que os atores sociais interpretam, reinterpretam, sentem, constroem e reconstroem, consoante a sua visão do mundo, e interpretações do seu passado. Em última análise, podemos afirmar que é parte da identidade do grupo. Portanto, o património tem obrigatoriamente de produzir identificação para poder ser considerado como património. Estabelece-se, assim, uma relação inquestionável entre património e identidade, uma vez que “são entendidos como uma extensão óbvia um do outro: a identidade como a “essência” de um determinado colectivo humano; o património como a sua manifestação “natural”, que sobrevive ao decurso do tempo e que é preciso resgatar e preservar a todo custo.” (Peralta & Anico; 2006: 1). Importa agora esclarecer que quando falamos de construção de património falamos de construções conscientes, e não de algo que é natural e que não tem valor intrínseco. Trata-se sim de algo que é valorizado, construído e reconstruído, consoante as 15 necessidades e os contextos político, económicos e sociais em que vivem e se desenvolvem os grupos e as sociedades (Gans, 1979). A auto-identificação com os conjuntos patrimoniais seleccionados, ou a oposição a eles permite ao ator social e ao formarem uma imagem concreta e tangível da sua identidade, dentro de uma determinada sociedade. Tendo em conta que uma sociedade é um conjunto de múltiplos grupos não homogéneos, encontramo-nos perante uma situação de criação de múltiplas identidades a coexistirem ao mesmo tempo e no mesmo espaço, que podem, ou não, valorizar o mesmo património (Berger & Luckmann, 1966). “Essas identificações são-nos dadas pelos símbolos e as representações de pertença. É através deles que assinalamos a semelhança e a diferença. Ao seleccionarmos símbolos e representações para nos categorizarmos a nós próprios e nos apresentarmos aos outros, imaginamo-nos colectivamente. Nesse sentido, a construção da identidade é sempre um acto de imaginação […] que depende da imbricação em contextos específicos. É, por isso, social, histórica e culturalmente contingente e passível de revisão, o que permite enfatizar o carácter relacional e situacional da identidade.(...) é, por isso, um processo dinâmico de negociação radicado no presente, sugerindo a constante construção e reconstrução das suas fronteiras simbólicas” (Peralta & Anico; 2006: 2). Portanto, a grande ênfase que pauta a defesa e a necessidade de preservar o património encontra-se ligado ao sentimento de perda traumática de identidade, relacionada com a mudança social rápida. É esse sintoma que obriga e condiciona à sua salvaguarda (Peralta & Anico, 2006: 1). Os sentimentos de perda originam uma “intensa activação de repertórios patrimoniais, tendo sempre como justificação a necessidade de preservação ou revificação da experiência cultural, tida como única e irrepetível, que semelhantes repertórios encerram em si mesmos, no sentido da salvaguarda de uma identidade comum e partilhada.” (Peralta & Anico; 2006: 1). 22 Como marcas exclusivas daquele povo. O património surge imbuído neste nova forma de pensar, sendo utilizado para glorificar a nova forma governativa. Na segunda metade do século XX o património é local e supranacional, mas mais crepuscular. O mundo do pós II Guerra Mundial abraça um desenvolvimento social numa escala nunca antes vista. O impacto das duas guerras mundiais, a emergência de novas potências e de novas ciências conduziu a uma nova interpretação do património cultural. São levantadas várias questões, sendo uma delas se o bem tem valor intrínseco ou não. É questionada a hierarquização cultural. O património deixa de ser exclusivamente marca de um povo, para ser encarado como um património de toda a humanidade, um património sempre em risco de desaparecer. O fim do século XIX e o início do século XX viu acontecer um avanço tecnológico sem precedentes e movimentações populacionais em massa. Dentro de cada país: dos centros rurais para os centros urbanos verifica-se um intenso êxodo rural. Este êxodo é a mais importante movimentação em massa. Massas e massas de vagas de população rural deixaram os centros rurais e contribuíram para que as populações das cidades mais do que duplicassem em muito pouco tempo. Com o tamanho das cidades a aumentar foi necessário encontrar novos espaços para construção, para circulação e para as atividades de lazer. Para fora dos países, nomeadamente europeus, as movimentações de população são também muito significativas. O desenvolvimento dos meios e vias de comunicação deu origem a um novo paradigma de procura de trabalho e lazer. Esta nova forma civilizacional assentava na premissa do capitalismo, do desenvolvimento tecnológico, do consumismo, mas de um consumo rápido. Um consumo que se alimentava de curtos e rápidos ciclos de produção-compra-venda-produção, que aumenta a sua velocidade a cada novo ciclo. (Santos Silva, 2002: 26-31) Assim o processo de desenvolvimento dos séculos XIX-XX passou a assentar na premissa de que o futuro é muito mais importante que o passado. Os novos conceitos de conforto chocavam de frente com aqueles marcos do passado (Torrico, 2006: 23). Em contraciclo, as elites com mais instrução e já antes com maiores “índices de conforto” desenvolveram esforços no sentido de parar a destruição do património arquitectónico e artístico. Assim, o primeiro modelo desenvolve-se a par com as revoluções ditas “burguesas”, que instauram um novo sistema político na Europa. 23 Este primeiro modelo defende o património como criador e agregador de uma comunidade. É a chamada visão romântica e nacionalista do património. Esta visão defende que o património deve ser protegido porque é a marca de uma determinada civilização num determinado espaço físico e temporal (Torrico, 2006: 23). É uma noção que surge no final do século XIX e início do século XX, pré-guerras mundiais, e é a expressão final do nacionalismo. Os nacionalismos vão defender uma rutura com o passado, tradicionalista, porém, buscam neste uma identidade legitimadora da sua presença naquele espaço 7 . Para a defesa da identidade comum, num determinado espaço, o Estado-Nação socorrese de uma série de monumentos e obras de artes e, em especial, de uma língua comumente escrita e falada. Estes elementos facilitaram a defesa destes Estados. Apresentando uma longa lista de feitos históricos, vincadamente marcados na paisagem e na memória dos atores sociais daquele espaço, reivindicando-os como as marcas dos seus antepassados, apresentavam-se como os herdeiros naturais daquele território. Isto resultou na consolidação do Estado-Nação. Uma nação, um povo, uma língua, uma cultura “É necessário demonstrar que existe uma cultura específica (diferenciada e diferenciadora) que dá vida e explica as particularidades de um povo enraizado no território que sustenta a nação” (Torrico, 2006: 23). Um Estado independente, com uma cultura que assenta num acervo histórico de feitos monumentalizados. Estes deveriam ser monumentalizados e preservados, como testemunho dos grandiosos feitos daquele povo 8 . Esta valorização do património, feita por especialistas, excluiu as populações em si. Daí resulta uma relação com um passado visto pela óptica dos especialistas, que as populações não compreendem ou não entendem como algo importante, sendo descartado e “esquecido”, ignorado ou até alterado. O património vai ser retirado às 7 Por exemplo na Alemanha Nazi estabeleceram-se ligações com as tradições nórdicas e germânicas. A Itália de Mussolini buscou ligações com o antigo Império Romano (Torrico, 2006: pp.23) 8 Este tipo de “nacionalismo” apela ao populismo, à aglomeração de massas que, dentro do mesmo território, encontra vários grupos culturalmente distintos. Contudo, tenta agregar numa única nação, numa única forma de cultura, todas estas manifestações culturais. “Tesouros que deviam reflectir, através da singularidade, grandeza e antiguidade dos testemunhos seleccionados, tanto na origem e a continuidade da nação-povo, inseridos num discurso homogeneizador para o qual os grandes estilos e períodos oferecem um cenário ideal pela sua condição interterritorial a nível interno e pela sua capacidade de aceitação de nuances que afirmem a particularidade da própria evolução histórica” (Torrico, 2006: pp.24) 24 populações, estagnado no tempo para ser exposto em locais estanques e controlados. É neste contexto que surgem museus especializados, que expõem peças recolhidas, sem atenderem aos seus contextos sociais e geográficos. Começam também a proliferar arquivos e acervos documentais de acesso limitado. Em comum têm o facto de se tratar de locais onde peças e documentos estão expostos em locais estanques e controlados, quer nas suas condições de preservação quer de acesso. Em suma, o património cultural é construído segundo um modelo afastado por completo das populações, e é imobilizado na forma teórica idealizada, que não permite desvios da visão dominante dos ditos especialistas. Era uma forma de impedir a sua perda, a sua destruição, de preservar certos bens culturais (de um património cuidadosamente selecionado e escolhido, dentro de um conjunto pré-existente e reconhecido como valioso). O segundo modelo de patrimonialização surge no pós IIª Guerra Mundial (Torrico, 2006: 24). Este modelo contestará o modelo anterior, questionando a relação entre sujeito social e objecto cultural. Levanta, portanto, a questão de saber se os objectos culturais têm valor intrínseco, ou não (Torrico, 2006: 24). Este modelo assenta na consciencialização global de que todas as manifestações arquitectónicas e artísticas são a marca de um grupo de atores sociais num determinado espaço, mas também da Humanidade como um todo. É uma corrente de pensamento que exemplifica a nova atitude cultural: nega a hierarquização dos bens culturais e das culturas; aceita e incentiva a diversidade cultural relativa a todas as camadas sociais (Torrico, 2006: 25). Este novo modelo de patrimonialização propõe que se olhe com um olhar inquiridor para as relações entre atores sociais, e para as relações com os objetos culturais. De igual modo, este modelo, propõe também uma nova visão sobre as relações com as áreas rurais, encontrando “novas” formas de expressões culturais. É desta consciencialização que surge, em 1945, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Estes dois modelos de patrimonialização entram em conflito uma vez que têm uma raiz político-institucional diferente e divergente. Isto apesar de terem a mesma intenção de proteger e salvaguardar o património para as gerações futuras. O primeiro modelo tenta 25 salvaguardar a identidade de “um povo”, como entidade única e indivisível, que primou por algo patente na sua forma de construir e no que construiu. Desenvolveu-se num contexto político, económico e social que privilegiava a hierarquização social, a superioridade do mundo europeu e o expansionismo económico assente no capitalismo. O segundo modelo concentra-se, não só no fator local e regional, mas também enfatiza o caráter supranacional. O património não pertence apenas e exclusivamente àquele povo, mas sim a toda a humanidade como marca da sua presença. Defende a diversidade cultural, não apenas fora do contexto ocidental e ocidentalizado, mas inclusive dentro dos próprios países ocidentais e ocidentalizados. Nega a hierarquização das expressões culturais, dos grupos sociais, dos territórios (rural/urbano). Questiona a forma como as expressões culturais são tratadas, conservadas e utilizadas (Torrico, 2006: 26). Em sucintas linhas, podemos afirmar que a noção de património tem sofrido constantes alterações, consoante a visão que os atores e os grupos sociais têm do mundo, como o interpretam e como este afeta os sujeitos individual e colectivamente. Assim, nos períodos históricos anteriores à Revolução Francesa, o património era encarado apenas como algo que pertencia juridicamente a um proprietário. O mundo pós-Revolução Francesa trouxe consigo uma nova visão. Nessa visão, o património deveria ser utilizado para a construção dos vários grupos sociais. Eram marcos e símbolos, formadores de memórias e fonte de instrução para que o passado não fosse esquecido. Era algo de utilidade pública. Os nacionalismos e os Estados-Nação dos séculos XIX e XX olham para o património como a justificação da sua existência, e utilizam património cultural como um elemento agregador da população dentro dos seus limites territoriais. São os marcos da existência de um povo. O Estado-Nação vai sacralizar o património e conferir-lhe um estatuto muito específico e concreto. É um conjunto selecionado e valorizado por especialistas. Procura-se conservar os elementos selecionados estancando sem atender aos seus contextos sociais e geográficos de forma a legar a história (selecionada) às gerações futuras. Mas este património será sempre, um conjunto bastante selecionado e bastante retrabalhado, por especialistas, para que adquira um novo sentido, um sentido favorável ao Estado-Nação e aos nacionalismos. Algo diferente acontece a partir da segunda metade do século XX. O património cultural é visto como marca de um povo num determinado espaço, num determinado tempo, mas acima de tudo é a marca da Humanidade no seu todo. Passando a defender-se assim a diversidade cultural. Questiona-se a forma como as expressões culturais são tratadas, 26 conservadas e utilizadas. O património cultural é a nossa marca no mundo, como tal deve ser utilizado por todos, mas nos seus contextos, pois só assim é possível compreender o património na sua totalidade. 2.2. Património Material vs Matrimónio Imaterial? A sociedade ocidental focou-se, durante muito tempo, da importância na materialidade do património, desvalorizando as suas vertentes imateriais. A preocupação era na conservação apenas do património visível e palpável. As mais variadas instituições, como museus, arquivos bibliotecas, locais históricos e arqueológicos, focalizaram sempre a sua atenção nos objetos, não reconhecendo os seus contextos de produção, nem os contextos de utilização. Já pudemos concluir que o património é sempre uma (re)construção, elaborada pelos atores sociais no seu quotidiano. Estes buscam no património elementos identitários e sentimentos de pertença. Para tal constroem em seu torno histórias e noções que poderiam, ou não, existir quando esse património foi projetado e criado. O património traduz o que se faz, o que se cria, o que se interpreta e o que se sente na atualidade. É o espelho dos tempos presentes e uma imaginação daquilo que ele foi/é/será. Tendo sempre em conta que o património nasce da atribuição de valores e sentimentos por parte dos atores sociais, compreende-se que ele terá sempre uma dimensão imaterial, mesmo quando se manifesta materialmente. O património é algo que deve ser encarado como tendo sempre duas vertentes inseparáveis, uma material e uma imaterial. Um objeto não tem apenas uma forma material. A sua emergência como património nasce a partir de uma nuvem conceptual de significados e associações que lhe dão um sentido particular Mas se esse objeto não criar laços ou despertar sentimentos com os atores sociais, então ele não será conservado, independentemente das suas características históricas, artísticas ou arqueológicas. Há sociedades onde a enfâse não é colocada de forma tão evidente na materialidade. Tomemos como exemplo algumas sociedades não ocidentais. Estas sociedades não encaram o produto final, o obejto como algo que tenha valor por si só. O processo de fabrico é que é considerado como o verdadeiro legado, sendo meticulosamente mantido. 27 Mantêm a capacidade produtora de objetos manufacturados, em processos de fabrico que podem remontar a períodos arcaicos. O exemplo do Japão dos dias de hoje é um caso paradigmático. Apesar de durante a II Guerra Mundial terem sido fabricadas katanas 9 através de fundição e injeção em moldes, o processo artesanal de produção ainda se mantém vivo, existindo ainda a classe de mestre fundidor das ligas de aço especial, a classe de mestre forjador da arma em si e o mestre polidor da lâmina. São três processos distintos, que requerem um conjunto de conhecimento vasto e diferenciado, assim como equipamentos e ferramentas. O fabrico demora dependendo da qualidade que se pretende obter, entre três e seis meses. Assim, podemos afirmar que o verdadeiro valor de qualquer objecto se encontra na sua vertente imaterial e material “O Património, pode, não só incluir qualquer objecto, mas qualquer coisa-não apenas física, mas também ideacional; não apenas as coisas que são ideias, mas também as ideias que são coisas” (Thompson, 1979). Com esta noção podemos alargar a base do que consideramos património para além dos objetos e edifícios. Podemos incluir nesta categoria locais, cantares, costumes, lendas e mitos, histórias e contos, processos criativos, danças, músicas (escritas e tocadas), marchas (populares e militares), alimentos, processos de confeção de comida, caça, jogos… O património é o reino do imaterial, das ideias antes de ser o mundo material. É a documentação e registo das realizações humanas, mas o que o torna em património é a importância sentimental (Feilden & Jokiletho, 1993). Sem este impacto sentimental é impossível preservar ou conservar. Assim, contestamos a ideia de haver dois patrimónios, um material e um outro imaterial. Os bens culturais só se tornam património quando são reconhecidos dentro de um conjunto particular de valores culturais e sociais, os quais são por definição imateriais “Os aspectos materiais do Património evocam as representações imateriais que dão ao Património o seu significado. O Património Material serve de ponto de contacto ou de ocasião para o nosso trabalho imaginativo” (Byrne, 2009: 246). 9 Sabre japonês 28 Podemos, assim, definir como património cultural imaterial as tradições e expressões orais, incluindo as línguas, uma vez que são a principal plataforma de expressão da imaterialidade; também as artes preformativas, as práticas sociais, os rituais, todo o conhecimento dito popular e as práticas relativas a esse conhecimento. A UNESCO desde o ano de 1997 que vinha a desenvolver trabalhos e propostas com intuito de aumentar o leque do que consideramos património. Sob a tutela do japonês Koїchiro Matsuura, o leque do que é considerado património cultural aumentou. Em Outubro de 2003, durante a 32ª Sessão da Conferência Geral da UNESCO, em Paris, foi finalmente votada, e aprovada, a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (PCI), que entrou em vigor a 20 de Abril de 2006 e à qual Portugal aderiu em Agosto de 2008 (Duarte, 2010: 1). Mas, apesar dos grandes avanços no alargamento do que se entende como património desde a criação da UNESCO, a tónica ainda se encontra sob o lema: proteger para não se perder. Atualmente, o património cultural imaterial é uma noção aceite a nível mundial, mas a visão materialista da sociedade ocidental aliada ao sentimento de perda, conduziu a que o património cultural imaterial fosse encarado da mesma forma que o património material, ou seja, como perecível senão for protegido e preservado (Duarte, 2010). A atenção dada ao património imaterial assenta sobretudo na sua percepção como estando em risco pelo que é necessário salvaguardar, criando para tal registos físicos da sua existência. Lendas e cantares são escritos e guardados, costumes são registados e documentados e estancados em museus. Isso conduz a um maior afastamento entre objetos culturais e atores sociais, uma vez que os registos não asseguram a criação de emoções, nem identificações com esses objetos (Duarte, 2010). Sem a compreensão dos bens culturais nos seus contextos, apenas os condenamos à destruição num futuro próximo. O afastamento relativamente aos seus contextos conduz inevitavelmente a uma queda de ligação sentimental e, posteriormente ao questionamento do seu valor como bens identitários, uma vez que os atores sociais deixam de os poder compreender na sua plenitude. Defendemos uma conservação que atenda aos seus contextos, para uma eficaz proteção e para que se continue a compreender e a estabelecer emoções e conexões com esses bens culturais e patrimoniais. 29 Continuarmos a insistir na tónica de que património imaterial e património material são bens culturais distintos, sem qualquer conexão, é insistir num erro que conduzirá à destruição e perda num futuro próximo de património, invalidando todos os esforços encetados até aos dias de hoje. Temos de aceitar que um não existe sem o outro, e que ambos não existem sem os seus contextos produtores, sem os laços sentimentais e emocionais e as valorizações por parte dos atores sociais. Essas são as duas dimensões que formam o património cultural. Outro tipo de ação conduzirá à sua real destruição. 30 Capitulo II. Estudo da Cultura Kwanyama e da Região Cuanhama 31 1. Apresentação do caso de estudo Tendo debatido no capítulo anterior as noções teóricas, pretende-se com este capítulo II apresentar o nosso estudo da cultura kwanyama. Para alcançar esses objetivos o presente capítulo será dividido em dois subcapítulos. O primeiro destina-se à apresentação do estudo realizado, abrangendo o estudo do Cuanhama como região geográfica e dos Kwanyamas como povo. No segundo subcapítulo discutiremos a ação da potência colonizadora, Portugal, em concreto da sua ação no estabelecimento de fronteiras e no contacto com os kwanyamas. Na consulta de documentos diversos notámos que existem duas grafias aceites para Kwanyama. Procurando evitar confusões, optamos por utilizar as duas grafias em referência a coisas diferentes. Empregamos o termo kwanyama para a “sociedade”, e o termo Cuanhama para a “região geográfica”. O país com o nome oficial de República de Angola (figura1- assinalado por seta negra), foi até ao ano de 1975 uma colónia de Portugal. Trata-se de um país localizado na costa ocidental do continente africano, tendo como fronteira, a nordeste, a República Democrática do Congo e a República do Congo, a leste, a República da Zâmbia e República Democrática do Congo, a sul, a República da Namíbia, e a oeste o Oceano Atlântico. A sua principal cidade é Luanda, que é ao mesmo tempo sede de município, capital de província, e capital do país. Em Angola, a Província corresponde à maior unidade administrativa. Uma Província é subdividida em Municípios e este, por seu turno, é dividido em Comunas. Depois temos as Cidades, as Vilas e as Aldeias. Dependendo se nos encontramos em meio urbano ou meio rural, ainda encontramos mais duas subdivisões: nas cidades a unidade mais pequena é o bairro; nos meios rurais, a divisão mais pequena é a povoação. Angola encontra-se dividida em 18 Províncias, 174 Municípios, 618 Comunas e cerca de 34 Cidades (figura 2). Apesar de ser um país com cerca de 19 milhões de habitantes, apenas metade vive nas cercas de 34 cidades existentes. É um país com grandes disparidades socioculturais. Os seus principais centros urbanos são: Luanda, Lobito, Benguela, Huambo e Lubango. O 38 Em termos de gramíneas são aproveitados dois tipos. No início da época das chuvas, nos mufitos nasce a mbidzi, (nome científico chama-s Jynandrapsis gynandra (L.) Brig.) É uma planta que não ultrapassa os 50 cm de altura. A outra planta que é aproveitada é uma gramínea que nasce em Angola e é comestível, ao contrário das que nascem nos jardins europeus (nome cientifico Amaranthus sp. Ramo da família Amarantáceas). Descritas as principais espécies da flora angolana na Provincia do Cunene, pode-se concluir que esta é uma flora caracterizada por espécies de climas típicos de savana. Em termos de solo, este pauta-se por ter camadas arenosas na superfície e camadas argilosas por debaixo das camadas arenosas. Há presença de sal em camadas profundas e não existem depósitos de pedra. 1.1.4. Atividade agro-pastoril Angola passou por uma prolongada guerra civil (1975-2002) que alterou a paisagem económica do país, mas encontramos a seguinte descrição para a Província do Cunene, nas fontes que consultamos. A principal atividade económica era a actividade agropastoril “Angola pode ser dividida em quarto macrorregiões com base na importância do gado para as estruturas agroeconómicas tradicionais. Estas macrorregiões encontram-se representadas no mapa 1” (Carvalho, 1974: 203) 17 Conforme mostra o mapa (figura 7), a Macrorregião D, inclui a Província do Cunene. A importância da atividade agro-pastoril relacionava-se também com o facto de o gado ser a base em que a riqueza era medida. Quanto maior a quantidade de cabeças de gado detidas, mais poderoso seria o seu detentor. Como a fauna não permite grandes pastagens, imperava a prática da transumância. “A macrorregião D (sudoeste angolano) inclui todas as nove regiões onde a criação de gado é um marco importante das culturas locais. As populações locais possuem um conjunto susbstancial de cabveças de gado (cerca de 1 600 000 cabeças ...) e são os principais fornecedores de produtos 17 Figura 7 39 derivados. A principal característica do sistema tradicional de criação de gado no sudoeste angolano é o uso e o consumo de produtos derivados nas dietas das populações, o que requer uma ocupação territorial semidispersa e uma complexa rede de relações socioeconómicas entre donos e detentores do gado 18 , o que assegura uma distribuição equalitativa dos produtos” (Carvalho,1974: 203-205). A fraca qualidade e quantidade de pastagens obrigavam à prática da transumância. O gado era conduzido para regiões situadas além do espaço do eumbo, para fora do cuanhama. Isto limita em muito o uso do gado e dos seus derivados. A dieta tradicional cuanhama não contempla a carne de bovino, excepto em casos festivos, ou quando os animais morrem (Lino Silva, 1975: 69-70). Dentro do eumbo existe um local específico para a recolha do gado bovino, neste caso vacas e vitelos. E existe no exterior do eumbo um local próprio para a guarda do gado bovino masculino-bois. Ter uma vasta manada de gado bovino ao seu dispor à qual pode recorrer para pagar resgates e/ou em trocas comerciais com os europeus, indica-nos que a posse e detenção de gado bovino era um elemento de distinção social, de demonstração de poder e riqueza. Nas técnicas agrícolas tradicionais kwanyamas não era utilizado o pousio nem a rotação de culturas, também não era necessário proceder à constante adubação dos solos. A adubação tradicional recorria aos excrementos dos currais e às cinzas regadas em urina dos urinóis. Realizava-se uma agricultura intensiva assente na cultura de um cereal, gramíneas e leguminosas (Lino Silva, 1975: 67). Este cereal é o massango (nome cientifico Pennisetum sp.), que necessita de poucas condições para ser cultivado. Necessita de pouca água e adapta-se à irregularidade das chuvas. Não necessita de um solo muito rico. Requer apenas calor e solos fracos. Tendo em consideração que o solo cuanhama é constituído, em grande parte por areia, é um cereal que se adapta bastante bem a este meio. É um cereal que tem um ciclo vegetativo bastante rápido, de fácil produção em grandes quantidades, e com uma elevada resistência à acividade de insetos. E é um cereal bastante nutritivo. Era transformado 18 No texto original pode ler-se “ …between owners and holders…” 40 numa farinha, e com ele se fazia o pirão, que é uma espécie de massa cozida, sem sal. Também é utilizada na produção da brolunga, uma bebida, uma espécie de cerveja. Uma outra cultura cerealífera é o massambala (nome cientifico Sorghum caffrorum, Beauv.), que pode ser comido depois de fervido com água. Porém a sua utilização mais comum é na produção de uma cerveja pouco alcoólica. O cultivo de cucurbitáceas tem uma dupla funcionalidade: alimentar os animais e servir para a alimentação humana. Aos primeiros eram destinadas as frutas insipidas, muito semelhantes a melancias. Estas culturas nascem de forma espontânea nos terrenos e não necessitam de grandes cuidados. As leguminosas também são de dois tipos: as plantas locais e as plantas importadas. Dentro das plantas locais, destaca-se o makunde, uma espécie de feijão frade. Esta planta “tão importante é que deu o nome a uma terra próxima da fronteira sul: Namacunde" (Lino Silva, 1975: .68-69). Nascem naturalmente no meio dos campos de cereal, mais duas plantas locais, a mbidzi e a lombwa. Outra planta local é a Voandzeia subterranea que produz os seus frutos no subsolo. As plantas introduzidas são plantas muito delicadas que requerem um controlo mais apertado, por isso são plantadas em menores quantidades. Tradicionalmente em torno do eumbo existiam campos por cultivar. Isso não significava que estivessem em repouso, mas simplesmente, que não tinha havido a necessidade de abrir aquele campo, uma vez que as necessidades agrícolas do agregado familiar, eram satisfeitas com os campos cultivados. Tradicionalmente o trabalho agrícola era feito pela mulher “A agricultura tradicional é feita pela mulher, à enxada; o homem derruba, de início, o mato, poupando as árvores de fruto e construindo a vedação, à volta. […] Uma vez lavrado o solo, o restante trabalho pertence à mulher” (Lino Silva, 1975: 69). Tradicionalmente o terreno desmatado em torno do eumbo é vedado e toma o nome de ongubo. Os campos agrícolas tomam a forma circular em torno do eumbo, localizandose este no centro. Os terrenos eram divididos em duas secções: a metade sul que 41 pertencia em exclusivo ao chefe da família, e metade norte era dividido por entre as suas mulheres. O terreno era preparado para ser cultivado pelo homem tendo a mulher por função escavar e plantar a semente. Depois de plantado, a mulher devia tratar da germinação do cereal em todas as suas fases de crescimento, assim como do resto dos cultivos (Lino Silva, 1975: 76-77). O homem também preparava as eiras onde os cereais iriam ser transformados. Cabe-lhe construir as mutalas, ou estrados de madeira, enquanto a mulher limpa, nivela e prepara o solo com uma pasta que o endurece (Lino Silva, 1975: 77). 1.2. Kwanyama como Povo Primeiramente temos de afirmar que esta sociedade se encontrava organizada num reino com poder centralizado na figura do rei. Devido à criação de uma fronteira entre Portugal e a Alemanha, foi dividida em dois grupos. Do lado português ficaram os principais locais políticos e históricos, como por exemplo N’Giva e Namakunde, as embalas 19 reais e toda a família real kwanyama. Estes dois fatores explicam, em parte, o motivo da elevada resistência que as forças portuguesas encontram deste lado da fronteira, ao contrário do grupo que ficou do lado da então colónia alemã, que rapidamente foi integrado na administração colonial alemã. Podemos também afirmar que este povo se consegue adaptar com relativa facilidade às introduções europeias (Neto, 1963: 51). Um dos melhores exemplos que podemos apresentar é o seu eficaz domínio do armamento de fogo, como ficou patente nas Campanhas de 1915-1917 contra a administração portuguesa. A sociedade kwanyama ocupou a região que ainda hoje designamos como Cuanhama, “Situa-se essa região no Sul de Angola e norte do Sudoeste Africano 20 , sendo cortada a meio pelo paralelo 17º S, entre Ruacaná e Cuangar; limita-se, grosseiramente, entre os paralelos 16º30’ e 17º30’ de latitude sul (Lino Silva, 1975: 53). 19 Residência do Rei em termos ocidentais 20 Sudoeste Africano Alemão ou Deutsch-Südwestafrika foi uma colonia alemã entre 1884-1915, ficando sob administração da União Sul Africana até 1946 devido a um mandato da Liga das Nações. Em 1946 o mandato não foi renovado pela ONU e o espaço foi efetivamente ocupado pela Africa do Sul. Entre 1966- 1988 ocorreu neste espaço uma guerra de guerrilha entre a SWAPO (South-West Africa People’s Organisation- Organização dos Povos Africanos do Sul e Oeste) e as forças da Africa do Sul, que terminaria com um acordo de paz mediado pela ONU. Em 1990 este espaço torna-se independente correspondendo à actual Namíbia 42 Os antecedentes históricos desta sociedade ainda permanecem um mistério para os investigadores. Existem várias teorias que apresentam visões de como se formou esta sociedade. Uma delas afirma que os kwanyamas descendem de uma mistura de sociedades de caçadores e pastores que terá emergido na região do sul de Angola e norte da Namíbia. Dessa mistura de povos teriam surgido os Ambó, de entre os quais se sobressaem os subgrupos dos Kwanyamas e Cuamatos, como os mais numerosos “Na verdade, ovakwanyama é um povo que ocupa uma área significativa da Província do Kunene, Sul de Angola, e da região de Owambo, Norte da Namíbia. Eles pertencem ao grande grupo étnico de ovawambo, composto de 12 subgrupos, cabendo-lhe aproximadamente 37% da totalidade deste grupo” (Yakuleinge; 2012: 6). Na tradição oral da região é possível encontrar mais explicações sobre a origem da sociedade kwanyama. Neste ponto o que pretendemos reter é a sua presença na região, como também atestam os vários relatos orais sobre os seus confrontos com as demais etnias da região. 1.2.1. O eumbo Os kwanyamas são uma sociedade em que o chefe do agregado familiar é a entidade máxima dentro dos limites da sua unidade territorial, denominado como eumbo 21 . O eumbo não é mais do que um grande complexo habitacional, residência de uma única família. É a unidade mais básica da estrutura social da sociedade kwanyama. Assim sendo, é importante compreender o que é um eumbo, a sua distribuição espacial e organização hierárquica. Como observámos no ponto anterior, a região do Cuanhama é uma região árida e plana em que predominam uma sucessão de chanas e mufitos. Assim, a população kwanyama construia as suas unidades territoriais nas zonas que permitissem alguma habitabilidade e terra arável. Ou seja, os eumbos são normalmente construídos nos mufitos. O eumbo é uma estrutura orgânica que crescia consoante o número de pessoas que nele habitava. Podia ser uma estrutura simples como se apresenta no figura 13, mas também 21 Eumbo é o termo utilizado para designar uma unidade residencial. 43 podia ser uma estrutura bastante complexa. Era também um símbolo de poder, uma vez que um novo eumbo só pode ser construído mediante a aprovação do chefe do eumbo de onde é originário o jovem que pretende construir o novo eumbo. Toda esta estrutura ilustra a forma como a sociedade kwanyama se organizava. Sendo uma sociedade de cariz guerreira, obrigou a que a estrutura do eumbo correspondesse a uma construção que potenciava a autonomia das unidades. Era uma estrutura circular, planeada para ser mais facilmente defensível. Ou seja, é uma construção que abriga espaços construídos de forma a terem uma total autonomia e auto-suficiência, por isso o eumbo é um conjunto de células individuais, equipadas com todas as estruturas necessárias à sobrevivência. Cada célula do eumbo é designada por epata e não têm mais do que três metros de diâmetro (Lino Silva, 1975: 93). Todas as epatas têm apenas as estruturas necessárias para um mínimo conforto do seu ocupante. Cada uma destas células é separada por paliçadas de madeira, do mesmo modo que o acesso ao eumbo é protegido por uma paliçada de madeira, rodeada por espinhos. Cada uma das estruturas da epata era construída por partes. Primeiro, era construído o telhado de forma cónica e reforçado que, quando terminado, seria levantado à força braçal para cima de uma estrutura de madeira, cuidadosamente escolhida. Isto limitava a forma como o kwanyama constrói, pois a forma e o peso do telhado impede que as estruturas tenham grandes áreas, mesmo com paredes de adobe. O Eumbo obedecia assim à lógica da individualização dos espaços, sendo todas as suas partes rodeadas pelas sebes de separação e os locais bem definidos para cada elemento do agregado familiar e suas funções específicas. “Pode-se encarar a célula individual de dois pontos de vista: o da posse ou usufruto e o da composição.” (Lino Silva, 1975: 80). Por outras palavras, cada célula dentro do eumbo tem uma função específica, e destina-se a um elemento específico do núcleo familiar. Dentro do eumbo existe um espaço específico para o chefe, para a sua primeira mulher, para a segunda, para as restantes mulheres, para os filhos e para o gado. Existem espaços específicos para receber convidados, para se proceder a julgamentos, para guardar o gado, para o armazenamento dos cereais. 44 Cada epata era composta por três a seis espaços, todos com uma função. Uma "casa" para dormir, um pátio de recepção individual, que se encontrava adjacente à "casa" de dormir, e três arrecadações. Na célula individual das mulheres, existiam duas estruturas muito específicas: uma cozinha para a época seca, que consiste apenas num toldo assente numa paliçada, e uma cozinha para a época das chuvas, que era uma construção típica de arrecadação, mas com um maior cuidado para não haver incêndios. Tinha apenas uma entrada. A "casa" de dormir apresentava uma orientação este-oeste. Existia uma área específica para urinar e para celeiros. Quando um dos filhos casava ainda podia manter residência no eumbo do pai. À sua epata de solteiro seriam acrescentadas mais duas arrecadações, uma que serviria como cozinha do tempo das chuva, outra que serviria como arrecadação. Numa segunda fase, seria construído um muro que individualizaria esta epata do resto do eumbo. Esta epata não poderia crescer mais. Para concretizar maior crescimento desta nova unidade familiar seria necessário o filho construir o seu próprio eumbo, dando origem a nova unidade territorial e política. 1.2.2. Descrição da composição de um eumbo A primeira grande estrutura construída, muito provavelmente ligada à prática da Razia, é a cerca exterior, também designada como cerca do arima, construída para dificultar o acesso ao interior. Trata-se de uma cerca alta com as partes superiores afiadas, uma espécie de paliçada “Fere igualmente a atenção o seu aspecto de fortificação, toda cercada, numa extensa circunferência, de paus grossos, colocados a pique, muitas vezes com a extremidade superior aguçada. A entrada estreita tem o acesso dificultado pela existência de uma forquilha que se destina a impedir a penetração dos bovinos” (Lino Silva;1975: 74). Esta paliçada divide a zona habitacional dos terrenos destinados à prática da agricultura. Este também tem uma cerca a demarcar os limtes exteriores do eumbo “Chama-se ongubo este terreno desmatado, vedado com ramos de árvores, especialmente de 45 espinheiras, destinado às culturas e a abrigar, também, no seu interior, pessoas e animais domésticos” (Lino Silva, 1975: 76). O abastecimento de água é feito por poços (cacimbas), dentro ou próximo do eumbo. A entrada do eumbo encontra-se voltada sempre para nascente e a alameda que aí nasce chama-se oluvanda. Esta conecta os campos em redor do eumbo com o coração deste. Nos seus lados encontram-se filas de plantas espinhosas e é um espaço bastante largo, suficiente para ai caminharem pessoas e animais. Após este corredor, no sentido contrário aos ponteiros do relógio, existe um espaço, que serve para reter os animais: chama-se omudingililo. As suas portas de entrada são consideradas sagradas. Tem duas, mas a principal, a entrada que desagua no corredor principal, chama-se oñu. Existem dentro do eumbo vários tipos de pátios. O olupale, pátio principal, é o grande pátio que está no centro virtual do eumbo, tem uma panóplia de estruturas próprias. Merecem também referência os pátios de passagem, os epatalakola, e os pátios interiores de cada célula individual. “é um pátio que ocupa pouco mais ou menos o centro geométrico do eumbo; quase inteiramente nu, com as suas duas passagens, grosseiramente abrindo a norte e a sul (com um ângulo aproximadamente de 150º); imperfeitamente circular […] no lado esquerdo da porta dessa casa no olupale está um pequeno tronco de árvore, ramificado, no qual se colocam os bucrâneos dos bois que se abateram. O olupale tem sempre aquelas duas entradas que, quase diametralmente dispostas, não são bem opostas; além disso, a linha que as une é grosseiramente perpendicular à que une a porta de casa ao lugar do homem. […] a poente, está o lugar habitual do dono do agregado, no olupale. Os habituais bancos, formados por troncos deitados, oipunde, encontram-se aí, formando um U, com a base encostada à vedação de paus-a-pique, pelo lado poente; à volta do olupale, e encostados a essa vedação existem mais bancos desses […] Normalmente, no quadrante que fica a noroeste do olupale, e dando entrada para ele, encontra-se, depois da 46 entrada principal do eumbo, um corredor, olukala, no qual pode haver um outro pátio mais pequeno, epatalakola. É aí que esperam as visitas formais, isto é, os indivíduos que vêm pela primeira vez ou que não sejam das relações do dono da casa. Não é forçoso que exista. […] Também pode haver, num dos espaços para que dão as entradas do olupale, geralmente do lado norte, uma outra casa que funciona de olupale, quando chove.” (Silva, 1975: 84). Depois da entrada principal existe um recinto em cuja preparação trabalham ambos os sexos. O homem constrói as estruturas de madeira e a mulher trata de aplanar, limpar e revestir o chão com “uma pasta de terra de salalé” (Lino Silva, 1975: 87). É nesta zona em que as mulheres pisam o cereal com os osini, pilões de madeira usados para pisar as sementes dos cereais. No lado de fora do recinto da primeira mulher, na vertente sul do olupale, existe um recinto que serve exclusivamente como celeiro, cuja designação é etambu, enquanto para os celeiros em geral é manda. Tem-se acesso ao etambu através de uma porta, no curral das vacas, osunda. Este é o único curral de gado que se encontra dentro do perímetro habitacional, fica à seguir à epata da primeira mulher. Este curral tem duas entradas, uma para o interior do agregado, e uma outra que dá acesso ao curral dos bois, ou seja para fora do agregado. Dentro dele existe ainda uma zona destinada aos vitelos, o enhana. O curral dos bois fica fora do perímetro habitacional e chama-se ohambo yahove. Após a alameda oluvanda, que liga os campos agrícolas e o eumbo, no sentido dos ponteiros do relógio encontram-se os currais das cabras, osiñongo so ikombo. Perto destes existe ainda o ohambo yo kalukilo, um curral especial, destinado a guardar os bois dos que viajaram para o eumbo para o festival do gado. Por fim, o osikuku, é um estrado em madeira dentro do eumbo encostado ao curral das vacas, destinado às galinhas. Os urinóis ou osihuhwilu encontram-se em locais afastados ou em corredores que não tenham qualquer saída. A sua principal função é serem os depósitos das cinzas e local para os habitantes do eumbo urinarem, em segurança, à noite. As cinzas mascaram o 47 cheiro a urina e a urina serve para apagar as cinzas, e em conjunto servem para criar fertilizante natural para os campos. 1.2.3. Estrutura hierárquica do eumbo O eumbo apresenta a seguinte estrutura hierárquica: O chefe, ou pai, ou iniciador do eumbo, tem a sua célula individual na zona nascente, podendo estender-se até à zona nordeste (marcado na figura 13 com o nº 4). Sendo a figura máxima dentro eumbo, ele tem as funções de receber as visitas no seu espaço. É a autoridade local, podendo ou não ter outras funções sociais. Normalmente passa a vida no olupale, o coração do eumbo, o seu pátio ptincipal. É também sua função receber e acolher na sua epata algum membro da família que regresse ao seu eumbo, ou de recolher alguma visita importante. O espaço demarcado com o nº 5 na figura 13 é o espaço da primeira mulher. Em termos de importância social é a “que ele «muficou», isto é, a mulher casou sendo solteira. De qualquer forma, é a esposa mais antiga e é a autoridade máxima do agregado, na ausência do marido.” (Lino Silva, 1975: 86). A sua epata chama-se epata elombe, e fica a sudoeste da área do marido. É por esta epata que se tem acesso à osuna, ao curral das vacas (nº 6 na figura 13) e aos celeiros (nº 13 na figura 13), e é nesta epata que se guardam os produtos alimentares derivados do leite. Seguindo o sentido dos ponteiros do relógio, depois da epata da primeira mulher encontramos a epata ehaka, a epata da segunda mulher, assinalado com o nº 7. A seguir a esta encontra-se o espaço da terceira mulher, a epata ende, que já fica a poente do olupale. Continuando no sentido dos ponteiros do relógio, o último grande espaço, antes do se encontrar de novo a epata do chefe do agregado familiar, é o epata pokati k’eumbo. Nele então situados as epatas das restantes mulheres, se existirem. Em ambos os lados da entrada principal, olukala, ficam as habitações dos filhos, casados e solteiros, sendo estas as primeiras estruturas antes de se entrar no coração do eumbo (Lino Silva, 1975: 86-87). 13 54 fosse uma guerra entre Portugal e Inglaterra. Uma embarcação de guerra britânica, estava já pronta e à espera de ordens para atacar a capital portuguesa. Portugal não detinha uma força militar capaz de fazer frente a uma potência como a Inglaterra. Por isso, e apesar da elevada contestação pública, cedeu 31 . Com isto, ver-se-á que se abria o caminho para o fim da monarquia e para a implantação da República em Portugal. Entretanto, em Angola, Portugal, detinha um contingente militar diminuto, cuja influência se limitava à costa, centralizada em Luanda e Benguela. O Ultimatum inglês foi o ponto de ignição para uma mudança súbita, que se iria fazer sentir em Angola e nas restantes colónias. Portugal procurava antes de mais pacificar os territórios. A primeira coloónia a ser pacificada foi a Guiné. Em Moçambique, depois da queda do Reino de Gaza e das Campanhas dos Namarrais 32 , não houve mais insurgimentos significativos contra Portugal. Angola era um caso completamente diferente, em especial na região Sul. Nesta região destacam-se vários povos que se mantêm insubmissos. Primeiro: os Nano, que obrigam a uma primeira intervenção militar numa escala digna de menção, nos finais do século XIX. A segunda etnia a resistir são os Cuamatos, nas Campanhas que vão de 1904 até 1907. Nestas Campanhas militares emergem figuras de relevo do lado português, e entre elas, destaca-se Pereira d’Eça, que será o general da Campanha contra o último grande grupo resistente, os Kwanyamas em 1915-1917. Estas Campanhas de 1915-1917 são as últimas grandes campanhas militarem portuguesas até à Guerra Colonial e vão culminar com o anexamento do último grande reino do sul de Angola. Num mundo cada vez mais industrializado, a procura de mercados tornava-se a prioridade número um de qualquer nação industrializada, sustentando jogos de poder e influências cada vez mais importantes. Todos estes interesses e disputas fizeram com que no início do seculo XX a Europa estivesse novamente à beira de uma guerra em larga escala. Esta viria a eclodir a 28 de julho de 1914 e prolongar-se-ia até 11 de novembro de 1918, ficando conhecida na História como a I Guerra Mundial. 31 Em termos de armamento, Portugal tinha adotado, em 1886, a espingarda Kropatscheck, a primeira arma de tiro de repetição, empregue em massa por um exército. Não tinha os efetivos necessários para combater, nem uma Marinha capaz de fazer frente à Inglaterra. O sistema de defesa (fortes ou fortificações) existente para proteger Portugal não conseguiria parar qualquer avanço inglês. 32 Reino estabelecido por uma etnia no norte de Moçambique, conquistado militarmente por Portugal em 1913 55 2.1. Angola, a nova fronteira Angola enquanto colónia portuguesa manteve-se praticamente na obscuridade até ao século XIX. O território efetivamente ocupado por Portugal situava-se na costa, sendo que a influência portuguesa se estendia de Gaconda no sul, a Andongo a norte. As principais cidades eram Luanda, Benguela e Moçâmedes, todas cidades costeiras. Designada como Reino de Angola no século XIX “Lopes Lima descreve-nos o reino de Angola dessa época, tendo dependente mas autónomo o reino de Benguela” (Bessa, 2004: 271), encontrava-se organizado em seis presídios e quatro distritos, enquanto que o reino de Benguela era divido em três presídios e quatro distritos. Os grandes interesses económicos encontravam-se nas mãos dos negreiros e nas mãos dos sobas, que agiam de forma livre dentro dos seus pequenos feudos. As principais trocas eram de produtos como o álcool, pólvora e panos por “de escravos, cera e marfim” (Bessa, 2004: 272). Todas as tentativas preconizadas por Portugal para alargar a sua esfera de influência em Angola encontrava nos grandes interesses económicos dos mercadores e lideres locais, um poderoso entrave. Um outro problema era as poucas forças militares portuguesas estacionadas nesta colónia 33 . Sá da Bandeira começaria por combater o tráfico negreiro, conseguindo impor a sua vontade no porto de Luanda, tornando tal prática ilegal. Em 1846, através dos esforços de Rodrigues Graça, Portugal consegue estender a sua esfera de influência até à Lunda, estabelecendo um entreposto em Cassangue, por onde passava obrigatoriamente o comércio vindo desta região para Luanda. Em 1854, o poder administrativo português atingiu o Cuango. Depois de um recuo da linha administrativa de cerca de 200 quilómetros em 1863, Portugal tenta ocupar a região do Ambariz, em 1881, entrando assim em conflito direto com as intenções inglesas e belgas, que disputavam o controlo do rio Zaire e da região do Congo. Este conflito implicará uma mediação externa. Em 1883, a mediação francesa é favorável às pretensões portuguesas, mas a situação só viria a ser resolvida definitivamente em 1907 por João d’Almeida. As dificuldades e tensão sentida por Portugal só podiam aumentar no pós-Conferência de Berlin. Com o estabelecimento “da liberdade de comércio na bacia convencional do Zaire e da neutralização de navegação do Zaire e do Níger, da repressão da 33 Grande parte concentrada em Luanda e Benguela, o seu total perfazia um número de cerca de 1600 oficias e soldados de primeira linha 56 escravatura, da liberdade de propaganda religiosa na África e, sublinhe-se, o da ocupação efectiva a substituir o dos direitos históricos” (Bessa, 2004: 276), Portugal, viu-se forçado a avançar para uma ocupação efetiva, tendo para tal de enfrentar também oposições externas. A 14 de fevereiro de 1885 consegue estabelecer um pacto com a Associação Internacional Africana acerca dos seus direitos sobre Cabinda e Molembo. Em 1886, na Convenção de Lisboa, Portugal reconhece os direitos da Bélgica ao Massassi, em troca das conceções feitas na Guiné. A fronteira nordeste da colónia de Angola estabeleceu-se com mais um ato negocial. De novo a Bélgica mostrava pretensões a anexar territórios, ocupando regiões da Lunda. Portugal reclamou perante as entidades oficiais e, depois de uma arbitragem imparcial, a linha de fronteira foi restabelecida a favor de Portugal, passando a encontrar-se entre os “paralelos 6º e 12º de latitude Sul” (Bessa, 2004: 276). As fronteiras de Angola com a possessão inglesa da Rodésia foram as mais sensíveis de estabelecer. A questão do Ultimatum e a recusa da ligação por terra entre as duas grandes colónias africanas portuguesas, ainda se encontravam bem presente no pensamento dos portugueses. Por isso foi necessário haver novas mediações, uma delas preconizada pelo Rei da Itália, resolvendo-se esta questão apenas em 1905: “fixando a linha recta entre os rápidos de Catima do Zambeze até ao ponto em que a aldeia de Andara encontrava o Cuando, seguia a margem oriental deste rio até à intersecção com o meridiano de 22º leste, este meridiano até ao paralelo de 13º, este paralelo até ao ponto da sua intersecção com o meridiano de 24º leste e este até à fronteira com o Estado Independente do Congo.” (Bessa, 2004: 276-277). O ponto decisivo foi a ocupação de Moxico em 1895, pelo capitão Trigo Teixeira, impedindo que a Inglaterra avançasse mais para o interior, a partir da região do Barotze. Com a necessidade de encontrar novos mercados e novas fontes de matérias-primas, e apoiadas no pseudo-ideal de “levar a civilização”, as nações europeias lançaram-se na exploração do continente africano. A corrida a África criou várias tensões entre as várias potências europeias, nomeadamente contra Portugal que defendia os seus "direitos históricos" sobre as colónias africanas, direito que era fortemente contestado. 57 Portugal foi, assim, forçado a estabelecer acordos políticos de forma manter as suas posses em África. A tensão na Europa era de tal forma elevada e o interesse por África crescente, que foi necessário convocar uma Conferência Internacional. A Conferência de Berlim de 1884-85 estabeleceu as regras de partilha de África, mas criou ainda mais tensão. Esta tensão viria a revelar-se de uma forma plena durante o estabelecimento das "fronteiras". Ainda durante as negociações na conferência, Portugal apresentou uma proposta que viria desencadear uma resposta agressiva por parte da Inglaterra. Esta última apresentou um Ultimatum a Portugal, exigindo-lhe que retirasse as suas forças militares dos territórios entre Angola e Moçambique, ou então a Inglaterra declararia guerra contra Portugal. O nosso país cedeu e este acontecimento foi um dos pretextos para a implantação da Republica. Como já foi dito, as tensões criadas durante a Conferência de Berlim revelar-se-iam especialmente durante o processo de estabelecimento das fronteiras das colónias africanas portuguesas. Portugal foi obrigado a recorrer várias vezes à mediação internacional para resolver questões com a Bélgica e a Inglaterra relativas ao estabelecimento das fronteiras norte e noroeste de Angola. Portugal, antes do início das vagas exploratórias, controlava apenas pontos na costa. Com a vaga expansionista, Portugal começou por tentar expandir-se em direção ao interior norte e noroeste, mantendo-se afastado dos grandes reinos do sul de Angola. 2.1.1. Metodologia de expansão: as Missões Religiosas Como já referenciamos a Conferência de Berlim estabeleceu o fim das perseguições religiosas e a instauração da liberdade religiosa no continente africano. Com estas duas medidas abriu-se o caminho para que as potências europeias alargassem ainda mais a sua influência, através da ação de várias congregações religiosas. A ação das missões protestantes basear-se-á numa forte presença no terreno e na elevada qualidade dos serviços que conseguem disponibilizar “E a fama da competência dos médicos protestantes e da sua abnegação, propagada pelas centenas de vozes dessa gente humilde, que nas missões desse credo encontrou o que noutra parte não poderia encontrar…” (Dias,1946: 45). Nestas missões existiam médicos e enfermeiros de excelente qualidade, professores e escolas, toda uma panóplia de missionários religiosos e não-religiosos, devotados ao serviço das necessidades das comunidades, tendo sempre em vista os interesses políticos dos Estados. 58 A única Missão religiosa favorável aos portugueses era a Congregação do Espirito Santo, mais conhecidos por espiritanos. Esta congregação católica será a ponta de lança em termos de avanços diplomáticos. Através da construção de centros que funcionavam como “catequese, escola, e granja agropecuária […] abre em 1881 uma missão na Huíla, que se tornará um centro de irradiação em direcção ao Sul, a um ritmo prudente mas seguro: Jau (1889), Chivinguiro (1892), Quihita (1894), Gambos (1985), Munhino (1986), Cuahama (1900) e Chipelongo (1901)” (Caldeira, 2011: 14-15). A missionação do lado português encontrava-se mais dependente da força e perseverança de indivíduos que pertenciam a entidades colectivas, do que à ação de uma entidade colectiva por si. Mais, as Missões portuguesas tinham de “lutar” contra a influência das Missões Protestantes, que conseguiam uma maior e mais rápida adesão dos povos locais, devido à sua panóplia de serviços que conseguia prestar às populações. Outro entrave à ação religiosa era supersticiosidade das sociedades locais, que conduziram a vários confrontos físicos entre as populações e os missionários católicos, que eram acusados principalmente da prática de magia. Devido ao elevado número de confrontos, de vítimas e da experiência pessoal de vários missionários, foi pedido ajuda ao Governo português 34 . Alertados para o facto de que a junção de esforços seria benéfico para ambos os lados, Portugal enviou tropas para reforçar a segurança, enquanto que as Missões religiosas passaram a ser construídas após a zona ter sido pacificada. Assim o estabelecimento e construção das Missões religiosas ficaram irrevogavelmente conectadas com a ação militar portuguesa. A construção de missões só acontecia após a pacificação militar da zona. Isso mesmo pode ser exemplificado através da Missão do Bié que sofreu um adiamento na sua construção, em virtude de complicações de ordem militar. A campanha militar, que deveria ser liderada por Paiva Couceiro, acabaria por ser interrompida dado que uma das principais figuras portuguesas da região, Silva Porto, se suicidara, obrigando a uma nova intervenção pelas mãos de Artur de Paiva. A Missão estabelecida no Cuanhama, de nome S. Miguel do Cuanhama era a mais ambiciosa e mais perigosa Missão religiosa estabelecida em território angolano. Encontrava-se em território que permanecia hostil às forças portuguesas à data da sua 34 Este pedido foi elaborado pelo Padre Lecomte em 1885 depois da Missão S. Miguel do Cuanhama ter sido destruída e os sus missionários, incluindo o próprio Padre Lecomte, terem sido presos e torturados. 59 construção, e permaneceria hostil até ao ano de 1915. A missão tinha de contar não apenas com a oposição local, mas também com a oposição das Missões protestantes alemãs, que tentavam subverter o poder de Portugal, em prol do poder alemão. A influência alemã sobre a região, que sempre se fez sentir, levou a um primeiro confronto político em julho de 1901 (Dias, 1946: 52). Uma força militar alemã ergueu a sua bandeira em território português, em N’Giva, capital do Reino Kwanyama. Esta força militar acabaria por ceder aos esforços diplomáticos do Padre Lecomte e retirou a 21 de julho. A partir do ano de 1885 esta Missão contava com a presença do Padre Lecomte, uma das figuras politicas mais importantes favoráveis aos interesses portugueses. Lecomte dedicou-se ao estudo das línguas locais, deixando um vasto e precioso registo linguístico no periódico Portugal em Africa 35 . Esse registo e o seu estudo tornaram-se uma importante «arma», uma vez que facilitava o trabalho dos missionários. O domínio da língua indígena resultava numa maior aproximação às comunidades locais e numa maior facilidade de evangelização e comunicação. Com grande parte das regiões angolanas dominadas e pacificadas, com a excepção do Kwanyama, cuja Missão São Miguel do Cuanhama, fora destruída em 1885 e onde o controlo militar era precário, as Missões assumiram uma outra função, tornando-se polos de desenvolvimento dando origem a várias obras linguísticas e estudos geográficos publicadas nos Boletins da Sociedade de Geografia de Lisboa (Dias, 1946: 28-29).Tinha sido alcançado a pacificação de grande parte das regiões angolanas, com a excepção dos grandes reinos do sul. Ação missionária dos Espiritanos encontrou entraves e atritos nas forças políticas portuguesas, que através de esforços do padre Lecomte, tentaram reerguer a sua Missão no kwanyama, que fora destruída em 1885, mas foram esforços em vão, uma vez que ação militar portuguesa não conseguiu acompanhar esses esforços. Em 1903 a situação política agudizou-se e os reinos do sul começaram a constituir-se como o grande problema que Portugal temera. Em 1904, uma tentativa falhada por parte dos portugueses, de ocupação do Cuamato resultou no desastre do Vau do Pembe a 25 de setembro, onde as forças portuguesas foram devastadas e parte delas chacinadas. A 35 Passível de ser consultado na Biblioteca Municipal do Porto, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 60 missão que se encontrava no kwanyama foi obrigada a sair, e refugiar-se no Evale, e daí foi obrigada a regressar a Catôco. A partir daquele momento a influência militar portuguesa, nesta região, sofreu um rude golpe, demonstrando ser uma força que era possível derrotar em combate. 2.1.2. Os primeiros ensaios e os temores do avanço em direção ao sul e o estabelecimento da "Zona Neutra" Para começar este ponto gostaríamos e queremos salientar o seguinte, “A carta geopolítica da Africa actual foi sendo moldada por força de acordos estabelecidos entre essas potências 36 , que em regra geral, ignoram os direitos dos povos africanos, as suas realidades históricas, linguísticas e religiosas, e, por vezes, até mesmo a reconhecida importância de bem visíveis acidentes geográficos. A Europa (…) achava-se em condições privilegiadas para definir as fronteiras dos «seus territórios» africanos, sem os africanos” (Amaral, 1982: 10). A grande maioria das fronteiras africanas ficou estabelecida entre 1885 e 1900, havendo casos que só ficariam resolvidos após a II Guerra Mundial. A fronteira de que falamos é um excelente exemplo desta situação, uma vez que separou em dois grupos a sociedade kwanyama, submetendo-a a dois tipos de poderes coloniais e a dois ritmos de desenvolvimento distintos. E conduziu a um permanente estado de guerra. Essa divisão artificial criou constantes conflitos entre potências colonizadoras e sociedades locais, e entre as potências colonizadoras. O estado de guerra era permanente, praticavam-se jogos de influências e manipulações, havia provocações mútuas e transgressão do previamente acordado, complicando e complexificando uma situação de si já bastante complexa. Em comparação com os avanços militares no resto da colonia de Angola, o sul de Angola foi um caso bastante mais difícil. Os reinos do sul, bem mais organizados e mais belicosos levantaram bastantes problemas à colonização portuguesa. 36 Potências Europeias presentes na Conferencia de Berlim 61 Até ao início das campanhas militares, que viriam a pautar todo o fim do século XIX e inicio do XX, a máquina administrativa portuguesa pouca influência tinha para além dos limites dos seus fortes. Apesar de serem uma marca dominante na paisagem, os fortes eram os primeiros alvos a serem atacados quando havia uma revolta das populações locais. Um dos melhores exemplos é o Forte do Humbe, várias vezes abandonado. Os grandes intervenientes portugueses na ocupação do Sul foram João d’Almeida, Artur de Paiva, Paiva Couceiro, Alves Roçadas, Norton de Matos e Pereira d’Eça, que através de ações militares conseguiram impor o domínio português cada vez mais para sul. Construindo fortes e estabelecendo linhas logísticas que reforçavam a presença militar portuguesa na região, aproximavam-se assim cada vez mais dos grandes reinos do sul, o Cuamato, Kwanyama e Evale. Como já tivemos oportunidade de referir nos pontos anteriores, os Kwanyamas enquanto etnia muito guerreira constituíram um grande problema para as forças portuguesas. O grande temor dos portugueses era uma potencial coligação políticomilitar entre as três grandes etnias do sul. Os kwanyamas eram especialmente temidos, devido ao facto de serem influenciados pelas forças alemãs do Sudoeste Africano, onde recebiam treino militar básico e armamento militar. Uma possível coligação militar com intenções pro-alemãs nesta região, colocaria Portugal na iminencia de entrar em confronto direto com a Alemanha, podendo assim perder todos os territórios do sul. Mais, este confronto poderia ser uma porta aberta para uma invasão alemã em Angola, podendo Portugal perder toda a sua colónia. Assim a intenção de colonizar o sul partiu de uma base agrícola. As férteis planícies da Huíla foram a plataforma de entrada dos colonos. Em 1857, formou-se uma colónia na Huila, com colonos portuguese e alemães. Em 1861 formou-se outra em Capangombe. Cerca de 60 famílias Boers 37 , fugindo da repressão britânica no Transval, receberam autorização para entrar na colónia portuguesa, e foram instaladas pelas autoridades portuguesas na Humpata, criando a colónia de São Januário. No ano de 1885, na atual Lubango, antiga Sá da Bandeira, e na Chibia, foram instaladas cerca de 500 colonos madeirenses. Estes colonos continuariam a chegar até ao ano de 1892. 37 Boers eram os descendentes de colonos holandeses que ocuparam previamente localizações na África do Sul, e que foram expulsos e perseguidos pelas autoridades ingleses, depois da ocupação da colónia da África do Sul 62 Em termos fronteiriços, em 1886, Portugal estabeleceu um acordo com os alemães, fixando as fronteiras da seguinte forma: “como fronteira o rio Cunene, da foz, até às cataratas de Ruacaná e, a partir daí, o paralelo das cataratas até ao rio Cubango. No entanto, os limites nunca foram determinados com rigor e, embora tenha sido aceite, em 1911, uma faixa de 11 quilómetros de largura como “zona neutra”, os alemães continuaram a olhar muito interessadamente para Norte.” (Caldeira, 2011: 16) Esta fronteira foi alvo de intensas negociações entre as autoridades portuguesas e as autoridades alemãs. Tendo sido apresentadas várias propostas e contrapropostas por ambas as partes 38 (Amaral,1980: 32), o acordo final estipulou as fronteiras da forma acima descrita. Acrescentava-se apenas que depois de encontrar o rio Cubango, a fronteira voltaria a seguir o curso do rio até Andara, depois ao longo de uma linha reta até aos rápidos de Catima, no rio Zambeze (Amaral, 1980: 32). Desde a sua ratificação até ao final dos trabalhos de marcação no terreno distam cerca de 42 anos. Durante esses 40 anos, houve novos acordos, novos confrontos e conflitos entre ambos os outorgantes. As autoridades alemãs, que pretendiam anexar partes da região do Cuanhama, insistiram em alterar o ponto de partida do primeiro paralelo, visando revindicar as cataratas como suas, tendo em vista o seu potencial energético. Mais tarde, a construção do Forte do Cuangar, por João d’Almeida, foi um novo ponto de conflito. Como já havia missões religiosas alemãs no interior do Cuanhama 39 , a construção do forte era visto como uma tentativa de efetiva anexação por parte dos portugueses. De todos os incidentes a situação mais crítica, foi a tentativa de ocupação de Chimenha por parte das forças alemãs. À beira de uma guerra indesejada, foi necessário uma resolução diplomática. Para a resolução do conflito surgiu uma proposta alemã, aceite pelas autoridades portuguesas. Essa proposta estabelecia a então designada “Zona Neutra” entre os dois rios (Cunene e o Cubango), que seria patrulhada por ambas as potências colonizadoras. Mas mesmo após o estabelecimento desta fronteira e da dita “Zona Neutra”, a situação política não acalmou. Há relatos da constante transgressão por parte de oficiais alemães, 38 A proposta final foi ratificada por decreto publicado em Diário da Republica, nº 159 e 160 de 21 e 22 de Julho de 1887 39 A nomear: Namakunde, Matamba, Mupanda e N’Giva 63 que entram e saem dos territórios coloniais portuguese, e da Zona Neutra sem qualquer respeito pelos acordos estabelecidos, sem avisos e notificações oficiais. Este comportamento será um dos pontos de ignição para o conflito armado em 1914 entre Portugal e a Alemanha, assunto que será tratado no próximo ponto. 2.2. I Guerra Mundial em Angola Relembramos de que toda a descrição acima apresentada e as que são apresentadas nos próximos pontos, são necessárias para a melhor compreensão dos eventos que colocaram em marcha a sublevação contra a potência colonizadora por parte dos Kwanyamas e na sua consequente luta pela liberdade e independência contra Portugal. Retomando a nossa descrição, não se pode afirmar, no sentido efetivo da palavra, que Portugal entrou em guerra aberta com a Alemanha em Angola. Apesar de tensa, a situação nunca degenerou em conflito aberto e prolongado entre ambas as potências europeias. No entanto, houve de facto confrontos na região da fronteira sul. A 19 de outubro de 1914 ocorre o que é conhecido como o incidente de Naulila, sobre o qual muita coisa ainda permanece uma incógnita. É um mistério o que realmente aconteceu, sendo um trabalha hercúleo conseguir perceber e compreender o cerne e evolução do incidente, uma vez que as fontes, de ambos os lados, discordam entre si apresentando várias versões dos acontecimentos. Seguiremos apenas os factos comprovados. O primeiro facto comprovado é a entrada em território angolano de um grupo de oficiais alemães (Southern, 2010: 189 & Caldeira, 2011: 24). Este grupo comandado pelo administrador de Outjô foi interceptado por um esquadrão de Dragões 40 portugueses, que reconduzirá o grupo alemão em direção ao comando militar do Cuamato. No posto militar de Naulila surgem complicações que resultam numa escaramuça entre as forças portuguesas e o grupo alemão, resultando na morte do administrador e de dois tenentes alemães (Pélissier, 2006: 352). Os sobreviventes alemães conseguem escapar e passar a fronteira em direção ao Sudoeste Africano. Passados doze dias, as forças alemãs atacam e massacram o contingente militar português do Forte do Cuangar, conseguindo os sobreviventes fugir em direção ao norte, deixando Portugal de ter presença militar naquela região do rio Cubango. 40 Infantaria montada, armada com armas de fogo 70 repelidas as forças atacantes, é ordenado um avanço à baioneta, com o intuito de verificar se o terreno em volta estava seguro. Contagem: 17 mortos entre oficiais e praças; 13 Oficiais e 54 praças feridos entre os portugueses. A coluna mantem-se no local, uma vez que não possui condições para avançar. Espera por uma força de reforço e mantimentos, que só chegará na tarde de 24 de Agosto de 1915, na forma da Coluna do Cuamato. Esta, ao receber informações do Humbe, de que se haviam perdido as comunicações com a Coluna do Cuanhama 52 , inverteu a marcha regressou ao Forte do Humbe em marcha forçada. Aí reabasteceu e avançou novamente em marcha forçada, durante cerca de 130 quilómetros, até ao encontro da Coluna do Cuamanha (Southern, 2010: 217). Com a coluna reforçada e a batalha ganha, a Campanha prossegue a sua marcha em direção a N’Giva, principal embala do Cuanhama e centro de poder de Mandume. Esta é tomada a 4 de setembro de 1915. Mandume havia fugido de N’Giva, em direção a Namakunde, procurando a ajuda inglesa (Southern, 2010: 220-221). Apesar dos portugueses terem capturado N'Giva as lutas não terminaram. Muitos homens ainda leais a Mandume continuaram a praticar atos de agressão contra as forças portuguesas. Este factor conduzirá a que a região do Cuanhama seja primeiramente organizada na forma de região militar. Sob a alçada inglesa, uma vez que a antiga colónia alemã do Sudoeste Africano ficou sob proteção inglesa, Mandume continuou a combater e a resistir dentro e fora das áreas de influência inglesa não reconhecendo também a autoridade inglesa. Apesar dos vários esforços diplomáticos por parte dos ingleses, previamente e durante as confusões, primeiramente perante as autoridades portuguesas, e depois perante Mandume, para que uma solução diplomática fosse encontrada, esses esforços encontraram uma vaga determinada de não cedência em ambos os lados. Até à sua morte a 6 de Fevereiro de 1917, Mandume continuou a ser uma fonte séria de problemas para as forças coloniais portuguesas e inglesas. Segundo a tradição oral, preferiu a morte ao cativeiro. Encontrando-se cercado por forças inglesas, e acompanhado apenas por um pequeno punhado de homens ainda leais, depois de ter sofrido uma derrota militar às mãos das forças britânicas, Mandume e o seu séquito cometem suicídio (Southern, 2010: 223). 52 As comunicações devido à inexistência de uma linha de telégrafo eram feitas através de mensageiros enviados das colunas até à base de operações. Estas podiam ser enviadas através das linhas de abastecimento dos camiões Fiat 71 Capitulo III. Proposta de Mediação 72 1. Proposta de Mediação Tendo nos capítulos anteriores sido debatidas as noções teóricas e apresentado o nosso estudo da cultura kwanyama, pretende-se com este terceiro capitulo apresentar a nossa proposta de mediação. Assim, para alcançar esses objetivos, o presente capítulo será dividido em dois subcapítulos. O primeiro destina-se à apresentação do que entendemos por mediação e o processo de mediação, tendo em conta a matéria desenvolvida nos dois primeiros capítulos, desta dissertação de mestrado. No segundo subcapítulo, será concretizada uma proposta de mediação para uma das salas do Centro Interpretativo a constituir. “A sua presença poderá ser representada através de bens culturais, bens naturais ou bens mistos […] Uma das formas de transmitir a importância do património é através da sua exposição, que permite a transmissão de valores que necessitam de ser preservados e transmitidos para que estes não permaneçam em esquecimento.” (Gerardo & Pinheiro, 2010: 209). 1.1. Património cultural e desenvolvimento local? Antes de podermos avançar mais com o nosso trabalho, temos e devemos, de nos interrogar se podemos utilizar o património como um recurso de desenvolvimento económico. Se devemos olhar o património como, uma forma de sustentabilidade e de desenvolvimento local e regional. É imperativo questionarmos se o património, deva e possa, ser utilizado pelas populações locais como forma de revitalização do tecido socioeconómico e ambiental. Não pretendemos, no entanto, com estas questões debruçar-nos e lançarmo-nos num debate sobre o tópico. Pretendemos apenas encontrar, ou não, respostas simples e concisas às perguntas enunciadas. Como defendemos no Capítulo I não devemos afastar o património das populações, devemos sim, mantê-lo nos seus contextos de origem. Defendemos inclusive que as 73 populações deveriam ser convidadas a participarem ativamente no processo de construção e valorização patrimonial; valorizando o comum e o quotidiano. Defendemos também que uma sociedade, e por extensão uma nação, é composta por grupos sociais diferentes, únicos, bem definidos e concretamente identificáveis. No ponto abaixo desenvolvido nota-se claramente a importância do acima citado. À homogeneidade criada pelos nacionalismos e pelos centralismos, que ajudaram na criação e no desenvolvimento dos Estados-Nação modernos 53 opõem-se atualmente a valorização da diversidade 54 cultural dentro dos espaços dessas mesmas nações. Esses grupos sociais desenvolveram-se e vivem em ambientes únicos, desde o seu meio natural ao ambiente económico, social, histórico, e aos seus bens e contextos culturais valorizados e produzidos. São todos esses fatores que permitem fazer uma distinção clara e uma diferenciação concreta entre, o sítio do grupo A e o sitio do grupo B. É toda essa panóplia que contribui para a riqueza, para a exclusividade e para a impossibilidade de uma igual vivência das experiências vividas no sitio A e para, uma impossibilidade de replicar ou de as duplicar no sitio B. Esses contextos são únicos e incomuns, apesar de serem uma valorização do quotidiano e do comum. São estes os contextos procurados por uma nova tendência do turismo mundial. (de Carvalho, 2010: 124). Assim assiste-se hoje a um reavivar de regiões, sítios e locais, devido a uma nova forma de procura turística e de um novo tipo de "turismo" e um novo perfil de "turista". Um turismo cultural e um turista cultural preocupado com as questões culturais, ecológicas e ambientais (de Carvalho, 2010: 126). Neste novo paradigma o património tem um papel fundamental e centralizador na vertente do dito turismo cultural (de Carvalho, 2010: 124). Esse novo perfil de "turista" e o novo tipo de "turismo" são o reflexo de uma nova mentalidade mundial. Este, o "turista", deixou de procurar apenas e exclusivamente, o lazer e o ócio durante os seus tempos livres. Atualmente o novo "turista" procura "com o intuito de alargar os seus horizontes, de procurar conhecimentos e emoções através da descoberta e do contacto com os bens culturais, materiais ou imateriais" (Moiteiro, 2010: 141) uma nova realidade. Procura novas formas de experiência pessoal. Procura 53 Usamos o termo moderno no sentido das ciências antropológicas 54 No nosso caso de estudo observamos a afirmação da cultura e sociedade Kwanyamas e por extensão a Provincia do Cunene 74 formar novas memórias através do contato e exploração pessoal e independente, mas ao mesmo tempo acompanhado por meios de mediação cultural, dos bens e equipamentos culturais e dos bens naturais e ambientais. O novo "turista" pretende inserir-se em novos contextos culturais, de experienciar e de usufruir desses novos contextos, tentando extrair deles o máximo de experiências possíveis e alcançáveis. Para atingir esse objetivo insere-se no seio do tecido social. O novo "turista" deixou de procurar produtos culturais produzidos em massa. É mais exigente e participativo, tem interesses bem definidos e bem estruturados mas, ao mesmo tempo, procura diversificar, explorar e sair da sua zona de conforto de forma a realmente sentir e experienciar (de Carvalho, 2010: 126). Procura o único, no sentido de que procura algo diferenciador, que seja exclusivo de uma região, que não posa ser experienciado em mais nenhum outro lugar. O património é assim um dos elementos mais procurados por esse novo tipo de "turismo". Pode-se assim definir esse "turismo" como turismo cultural, que enfatiza o único, as experiencias pessoais, a adição de novos conhecimentos através do contato como novas e diferentes realidades (Endresen, 1999: 2 & 6). Um dos bens explorados em termos turísticos são os bens patrimoniais. Como referido previamente existe atualmente um leque cada vez maior de bens e referentes culturais, passiveis de serem transformados em património (UNESCO, 2006). Deve-se então empregar os bens patrimoniais, à luz desse renovado interesse, como um meio de desenvolvimento local e uma forma de revitalizar, não só o meio em que se insere o património, mas também como uma forma de revitalizar o património (de Carvalho, 2010: 123). Alargando neste processo o número de atores sociais que o vêm e compreendem como património. Deve-se assim pensar e utilizar o património para que não se torne um fardo para as populações detentoras. Só assim é que esse património cultural pode tornar-se uma fonte de revitalização do tecido económico e social local, mas também de requalificação e revitalização territorial. Esse processo só é possível com uma eficaz gestão patrimonial (de Carvalho, 2010: 126) em que a tónica seja colocada na "definição de políticas e acções integradas direccionadas para os múltiplos problemas (...) e indo de encontro das expectativas e interesses dos diversos grupos que gravitam em torno" (de Carvalho, 2010: 124). Não pode haver uma gestão eficaz do património sem haver uma gestão eficaz do território. 75 A gestão deverá ser centrada na organização territorial, para o enriquecimento do conhecimento e para a valorização do capital humano e cultural. Esta gestão territorial implica um conhecimento de excelência de todas as vertentes territoriais. Assim a densidade territorial tem um direto impacto na forma como se procede à investigação e ao estudo desse território, e na futura forma como deverá ser gerido. Nunca esquecendo que o trabalho de gestão deve ser feito em formato de rede de parcerias públicas e privadas, tendo como objetivo principal uma constante inovação e renovação dos bens e equipamentos culturais, através de sistemas e sentimentos de concorrência entre grupos e regiões (de Carvalho, 2010: 124). Antes de se avançar com uma proposta de gestão, depois de se conhecer a área, e de forma a podermos potencializar eficazmente o património, deve-se proceder a uma investigação séria e completa sobre o património. Este estudo deve orientar-se numa cadeia lógica de procedimentos que envolva profissionais e as populações locais, no qual sejam empregues metodologias científicas, e que se desenvolvam esforças de proteger o património de forma clara e conclusiva, para que este possa ser estudado, interpretado, conservado e devolvido às populações locais, e devidamente difundido nos meios científicos e nos mass média (Moiteiro, 2010: 142-143). Não esquecendo que nessa gestão deve-se incluir sempre as populações locais. É imprescindível encontrar aquilo que é mais necessário para as populações locais, e é importante afastar a ideia e a noção mítica e mitificante do fora de comum, do herói lendário. Deve-se dar valor ao quotidiano e ao vulgar, só assim é que consegue afastar de noções e preconceitos pré-estabelecidos que mitificam e afastam os atores sociais das entidades produtoras de conhecimento, e do património. É extremamente importante estabelecer e manter um diálogo constante com as populações. Estabelecido este diálogo cria-se assim uma base de apoio mútuo entre profissionais, populações locais e demais atores sociais que usem o património. Torna-se mais fácil responder às necessidades locais, e potencializar o território e o património. (Duarte, 2010: 7-8). É essa procura, em parte, que motiva, que é a motivação e o motivador para um crescente incremento, incentivo e produção de recomendações internacionais na forma de cartas e convenções, de legislação e ações nacionais de âmbito público, no sentido de defender a devolução do património aos seus contextos e às populações de origem, do 76 seu carácter de utilidade pública e de inclusão social (de Carvalho, 2010: 125-126) mas não só. Esta preocupação advém do facto que "turismo" em todas as suas formas, mas em especial o turismo cultural, acarreta consigo perigos para os bens e equipamentos culturais. Se por um lado traz grandes benefícios, como por exemplo a reativação da malha social e económica, devido a um crescente afluxo de visitas, e do crescimento comercio e atividades equiparadas, por outras palavras significa a criação de uma nova forma de entrada de capitais financeiros (Gerardo & Pinheiro, 2010: 208). Por um outro lado a exploração constante conduz a uma degradação e a uma exaustação desses bens e equipamentos culturais (Gerardo & Pinheiro, 2010: 207). Pode, ainda, criar mais tenções na malha socioeconómica das comunidades detentoras desses bens e equipamentos (Endresen, 1999: 7-8 & Gerardo & Pinheiro, 2010: 208-210). Assim um procedimento lógico que devemos evitar é a transformação deste património numa plataforma de lucro constante (Gerardo & Pinheiro, 2010: 210). A obtenção de lucro através da venda de bilhetes para a visita a certos equipamentos culturais ou sítios, ou de angariações de fundos através de leilões, avaliações de peças, ou exposições temporárias, não deve ser transformada numa prática corrente. Este procedimento é uma forma de reverter qualquer processo social, criando barreiras e criando elitização do património. Deve-se defender sempre um desenvolvimento sustentado, que promova uma utilização e consumo deste património de forma igualitária, sem barreiras elitistas ou hierarquizantes. Museus, bibliotecas, arquivos, centros interpretativos, equipamentos culturais são ativos económicos, e fazem parte de um processo de valorização, não são e não podem ser um fim em si mesmos. Devesse promover um "turismo" sustentável, de forma a minimizar todo e qualquer impacto negativo, em termos da conservação dos bens patrimoniais e do tecido social e económico, potenciando os impactos positivos (de Carvalho, 2010: 127). A lógica da exploração sem planeamento resultará no seguinte: os ganhos económicos obtidos no curto prazo, tornar-se-ão em perdas no médio-longo prazo (Endresen, 1999: 8-10). Assim para atingir-se esse objetivo, deve-se apostar na formação e informação dos visitantes e das populações locais. Promover formas interpretativas do património, uma vez que essas formas conseguem e permitem transmitir mensagens que promovem o 77 respeito pela utilização correta e cívica dos bens culturais e patrimoniais. Um outro benefício da interpretação patrimonial é a capacidade, de criação de percursos interpretativos dentro do património ou do bem cultural, permitindo fechar zonas específicas, devido a motivos de conservação, de forma a perturbar o mínimo possível a exploração por parte do visitante (Moiteiro, 2010: 150-151). 1.2. A cultura, o património e a mediação cultural Compreendemos através da abordagem feita no Capitulo I que um dos grandes problemas da mediação patrimonial é o possível afastamento e alienação das populações do seu património, na medida em que este deixa de ser uma fonte geradora de sentidos e sentimentos, de criação de memórias e de sentido de identidade. Estes fatores são o cerne para que um grupo de atores sociais olhe para um conjunto de elementos culturais e se identifique com eles, ou que os encare como seus, como elementos geradores de sentimentos de pertença, identificadores e identificantes da sua noção de identidade. Sem eles, assiste-se a um total desinteresse pelo património, em todas as suas vertentes, porque deixa de ser uma marca, um símbolo, um signo para as populações enquanto grupo e como símbolo identificador desse grupo específico em relação aos demais grupos sociais. De forma a reintegrar o património no seu contexto e em articulação com a população local, sem contudo pôr em causa a sua integridade estrutural, as suas propriedades e a preservação do mesmo, é necessário que o património volte a ser criador de sentimentos, novas memórias e sentido de identidade e identificação. Sem estes quatro fatores chaves é impossível semelhante empreendimento. (Moiteiro, 2010. 143) É necessário compreender que o património se encontra irrevogavelmente ligado ao espaço físico, social, cultural e emocional (UNESCO, 2006 & Moiteiro, 2010. 142). Para uma tal tarefa ser exequível, é necessário primeiramente proceder-se a um estudo desse conjunto patrimonial em questão, para que possamos perceber a razão do afastamento desse património, das populações locais e dos seus sistemas geradores de sentidos, de atribuição de sentimentos da sua noção de identidade. Se o afastamento tiver sido provocado por motivos “artificiais”, como por exemplo o enclausuramento do património em museus sem atender aos seus contextos de produção e populações de origem, será necessário reaproximar esses elementos patrimoniais, aos seus contextos de 78 origem, e encontrar novas formas de reaproximar esse conjunto de elementos para com as populações suas detentoras. “A prática museológica convencional normalmente concretiza a remoção das representações do património das suas comunidades e territórios, localizando-as num edifício. (…) a “cultura” ou o “património” não existem como tal mas apenas através da mediação humana, a deslocação do Museu centrado nos objectos para um outro centrado nas pessoas deve querer dizer a inclusão do conhecimento das práticas e significados do património sustentados pelas suas comunidades de praticantes, numa base de criação e renovação constantes. (…) olhar para além das suas colecções materiais, mas também, de as equacionar não apenas em termos do passado, deixando-se implicar pelas realidades contemporâneas e identidades em mudança das respectivas comunidades. Levando as pessoas a confrontarem-se, não apenas com os materiais históricos da sua identidade, mas também, e de forma renovada, a conectarem-se com as facetas mais contemporâneas das suas identidades culturais (…)” (Duarte, 2010: 7). Surgiu assim uma necessidade de se estabelecer uma ponte entre património, os seus profissionais e as populações detentoras desse património. Com isto em mente, torna-se claro de que é necessário estabelecer um processo de mediação entre os três elementos. Importa perguntar o que é, e como, podemos definir mediação? 1.3. Mediação cultural O termo “mediação” aplica-se e é usado, alargadamente, para identificar qualquer situação em que um elemento partido trabalha ativamente para que os demais elementos encontrem uma solução para um problema. O emprego da expressão “mediação” identifica a necessidade de se chegar a um acordo entre as partes, ou incapacidade de 79 alcançar esse acordo, recorrendo apenas à negociação direta. O mediador age como um elemento neutro durante o processo de mediação, tentando encontrar um equilíbrio entre as necessidades dos demais elementos, estabelecendo-se uma negociação não direta. Este processo tem de ser e deve ser ativamente aplicado ao património. Trata-se de facilitar uma ligação entre os interesses e necessidades das populações locais e interesses dos especialistas e profissionais do património, através de um processo conduzido por um mediador que passaremos a designar como mediador cultural. Viver em sociedade é sempre um processo de mediação (Silva, 2009: 1). O melhor exemplo que podemos mencionar são os conflitos sociais de que já falamos no Capítulo I. Será sempre necessário estabelecer processos de negociação/mediação quando surgem conflitos entre os diversos grupos sociais. Mas este processo é mais relevante quando é necessário formar um novo elemento no seio ou para o seio de um grupo social. Poderíamos designar esse processo como instrução ou transmissão de conhecimento, mas na verdade trata-se de um verdadeiro processo de mediação. Reduzindo a complexidade dessa situação aos seus termos mais simples, encontramos a seguinte ação: temos o ator social A que irá entrar em contacto com o contexto B. Este contexto B é complexo, irá apresentar bastantes dificuldades para ser compreendido. Logo o ator social A será ajudado por um terceiro elemento, um mediador, o elemento C (Silva, 2009: 1). O mediador empregará signos e outros instrumentos que, em teoria, ajudarão no processo de integração do elemento A. O processo de mediação neste caso é dotar o elemento A, dos meios necessários à sua integração no contexto social B, meios esses elaborados e transmitidos pelo mediador. Os atos de mediação encontram-se presentes em todas as atividades humanas. Os atores sociais são introduzidos em processos de mediação momentos após a sua inserção num grupo social, na grande maioria dos casos ainda durante a infância. Estes processos, como já salientamos, implicam a utilização de signos e estruturas pré-concebidas e em constante utilização pelo grupo. Podemos definir como signos e estruturas pré-concebidas todos os sistemas que facilitem a integração num grupo, onde se destaca a língua comumente falada e escrita pelo grupo social (Silva, 2009: 1). Mas não só, podemos também incluir gestos, ações específicas, pinturas, escultura, edifícios, complexos arquitectónicos (Silva, 2009: 1), memórias, emoções e todos os bens culturais. 86 e à crítica. No entanto nunca se deve esquecer que são processos que se destinam a públicos mais alargados, do que os ditos especialistas. A sua função é transmitir uma mensagem em concreto sobre algo, que conduza a uma avaliação critíca. Uma das principais criticais adiantadas é a de que essas atividades e projetos colocam em perigo a conservação e preservação dos sítios (Moiteiro, 2010: 151). Como vimos uma preservação e conservação afastada das populações, sem utilização e sem a compreensão conduzirá ao mesmo desfecho. Respondendo de uma forma direta às questões, tudo é possível de ser interpretado, mas nem tudo irá ser alvo de projetos interpretativos (Moiteiro, 2010: 152). Neste sentido todas as áreas naturais e culturais são passíveis de serem interpretadas: “A interpretação poderá, assim, ser desenvolvida em monumentos, sejam de carácter religioso, militar ou civil; em sítios arqueológicos; em museus; em lugares de produção artesanal e de ofícios tradicionais [e industriais]; em jardins históricos; nos centros históricos ou em determinadas localidades, independentemente da sua dimensão; em roteiros temáticos, em festivais e outro tipo de eventos de carácter histórico-cultural; em parques naturais, áreas naturais protegidas ou paisagens humanizadas, onde a natureza e a cultura se cruzam frequentemente, no fundo, em lugares de memória, no sentido mais amplo do termo.” (Moiteiro, 2010: 153). Mas nem tudo será alvo de projetos interpretativos. Antes de se avançar com um projeto é necessário realizar um estudo minucioso, é através desse estudo que se saberá se o bem ou equipamento patrimonial é passível, ou se tem um interesse acrescido para ser alvo de um projeto de interpretação (Moiteiro, 2010: 153). Bens patrimoniais que se encontrem em elevado risco de degradação, em que o expor eleva ainda mais esse risco de destruição, ou então bens em que os seus significados são explícitos, não poderão ser alvos de qualquer tipo de projeto de interpretação, porque tal não se justifica (Moiteiro, 2010: 153). 87 2. Centros Interpretativos Atualmente existem vários espaços exclusivamente dedicados à interpretação. Podemos no entanto enquadrá-los em quatro grandes tipologias: 1-centros culturais especializados; 2- centros de património in situ; 3-centros interpretativos; 4- territórios- Museu (Moiteiro, 2010: 153). O projeto defendido nesta dissertação de mestrado é um centro interpretativo, por isso focaremos a nossa atenção a tipologia 3- centros interpretativos. Estes centros apostam numa valorização e conservação do património através de uma interação direta entre o património e os atores sociais (Baeyens, 2005: 31). Recorrem ao uso de várias técnicas e metodologias de interpretação, nunca se vinculando ao uso exclusivo de objetos locais (Moiteiro, 2010: 154). Neste modelo de interpretação o ator social é incentivado a explorar por si, não apenas o património, mas também todo o meio envolvente. Para tal os centros interpretativos encontram-se dotados de um discurso expositivo simples e conciso, acompanhados de elementos gráficos. Uma das principais estratégias é a criação de exposições temáticas e cenográficas, orientadas para facilitar e melhorar a experiência vivida pelo visitante. Passando uma mensagem de como são únicos estes espaços, através dos meios utilizados na interpretação (Baeyens, 2005: 31). Um outro fator que distingue estes centros das restantes fórmulas museológicas é o de não serem centros de acumulação de reservas, utilizando uma amostra muito pequena, se necessária à transmissão de uma mensagem muito simples e eficaz (Baeyens, 2005: 31). A sua missão principal, tal como já foi mencionada, é alertar e consciencializar para a necessidade de preservar os locais onde estão instalados. Para tal não se inibe de utilizar outros tipos de infra-estruturas como lojas, bares, inclusive unidades de restauração. Não se destinam apenas a existir e a serem usados em locais e sítios arqueológicos, históricos, ou eventos exclusivos. São modelos que podem ser utilizados para interpretar regiões, períodos históricos, e usado dentro de unidades museológicas inclusive (Baeyens, 2005: 31). “Centros de Interpretação patrimonial são edifícios especificamente criados para a avaliação do património 88 cultural e/ou natural de uma determinada área e a na transformação do património cultural em produtos educacionais, culturais e turísticos. Proporcionam aos visitantes uma percepção única dos parques naturais, de território específico ou um evento, através de uma mensagem que realça o que os torna únicos e específicos. Ao contrário dos museus, não tem como função principal recolher, preservar e estudar objetos (apesar de poderem o fazer). Na verdade a sua principal função é facilitar o acesso e a apreciação pública do valor de uma especifica cultura ou espaço culturais naturais, através da consciencialização publica e oferecer meios de educação. A sua principal estratégia é a utilização de exposições cenográficas, apoiadas por meios técnicos, meios audiovisuais para incentivar e estimular o processo de autodescoberta.” (Baeyens, 2005: 41). Existem diversas formas e estratégias de conseguir transmitir essa mensagem. Todavia, apesar de existir uma panóplia bastante alargada, é necessário encarar caso a caso. As estratégias são de dois tipos: as pessoais e as não pessoais. Enquanto a primeira forma privilegia o contato com guias e demais staff dos centros interpretativos, demonstrações, conferencias, mesas redondas e atividades com monitores, a segunda emprega a utilização de meios impressos e meios digitais (Moiteiro, 2010: 153). Deve-se proceder a um levantamento dos principais condicionalismos e das necessidades. Para além disso, é necessário ter em conta o teor da mensagem que se pretende transmitir. Só depois de realizado esse levantamento e equacionado todas as possibilidades é que é possível potencializar ao máximo o centro interpretativo (Moiteiro, 2010: 155). 89 2.1. Centro Interpretativo da Cultura Kwanyama Respondida a todas as perguntas e discutidos todos os conceitos e teorias resta-nos, por fim descrever a nossa proposta. Chegamos à conclusão de que as principais características da sociedade kwanyama são as marcas que queremos destacar como património. Essas características são o Eumbo e os olupale o principal espaço de convívio do eumbo, o território do Cuanhama e o seu espirito guerreiro. O eumbo porque é o símbolo de tudo o que esta sociedade representa e é a sua forma mais básica de organização. O olupale é o coração do eumbo, é o local onde as visitas são recebidas, onde a vida social e política do eumbo é mais fervilhante. O território porque é uma microrregião única, com características únicas e especificas e pelo que conseguimos perceber, é parte da razão da organização social e do seu espirito guerreiro. Por fim o espirito guerreiro porque é a marca mais visível de toda a sociedade. Depois de estudado a região Cuanhama no Capitulo II, avançar com a seguinte escolha para a localização do Centro Interpretativo da Cultura Kwanyama, a cidade N’Giva/Onjiva. Tal como foi mencionado no Capitulo II N'Giva/Onjiva é a única cidade da região, detendo o conjunto de edifícios de apoio necessários à atividade turística, a nomear um aeroporto, uma via de ligação terrestre, que liga Angola à Namíbia no sentido norte-sul, e no sentido sul-norte conecta a Província do Cunene ao resto de Angola. Possui ainda uma unidade hospitalar. N'Giva/Onjiva era também o local da embala dos reis kwanyamas, fazendo ainda mais sentido para a nossa proposta de mediação ser aí localizada. Registamos ainda que esta localização favorece a criação de uma rede turística. Uma vez que seria um ponto de passagem obrigatório, não apenas em viagem, mas também em visita a outros locais como o Campo de Batalha da Môngua, Namakunde e o túmulo monumentalizado do rei Mandume. Depois de uma pesquisa elaborada, no site oficial do Ministério da Cultura do Governo Angolano, foram encontrados seis locais, na Provincia do Cunene, possíveis de integração nessa futura rede de turismo. 90 Província de: Cunene 1- TÚMULO DO REI MANDUME (Local onde está sepultado o Rei dos Kwanyamas); Classificado pelo Despacho nº 17, de 18 de Abril de 1994. 2- OMBALA GRANDE DO REINO DO HUMBE (Centro político do Reino Humbe), Classificada pelo Despacho nº 18 de 18 de Abril de 1994. 3- SÍTIO HISTÓRICO DO VAU DO PEMBE (Local da Histórica Batalha do Kuamato em 25 de Setembro de 1904), Classificado pelo Despacho nº 19 de 18 de Abril de 1994. 4- SÍTIO HISTÓRICO DO MUFILO (Local da Batalha do Mufilo em 27 de Agosto de 1907, Classificado pelo Despacho nº 20, de 18 de Abril de 1994. 5- OMBALA GRANDE DO REI SHETEKELE (Centro Político do Rei Kuamato), Classificada pelo Despacho nº 21, de 18 de Abril de 1994. 6- SÍTIO HISTÓRICO DO MÔNGUA (Local da Batalha do Môngua em 20 de Agosto de 1915), Classificado pelo Despacho nº 22, de 18 de Abril de 1994. 7- OMBALA GRANDE DO REI MANDUME (Centro Político do Reino Kwanyama), Classificada pelo Despacho nº 102 de 11 de Novembro de 1994. A escolha deste sítio também é simbólica representando, de uma certa forma, um meio de afirmar a cultura kwanyama como um dos principais grupos sociais de Angola e por extensão a Provincia do Cunene, em especial a região do cuanhama, a terra onde esta sociedade se desenvolveu. Concluído o nosso estudo da cultura kwanyama chegamos à conclusão de que a melhor opção, de forma a minimizar o impacto na paisagem e de criar um espaço que proporcione uma melhor experiência sobre a própria cultura em si, era a construção de um edifício que em muito se assemelhasse a um Eumbo kwanyama, utilizando uma Figura 1- Tabela com informação sobre sítios históricos classificados, na Província do Cunene 91 planta simplificada utilizando o esquema representado na página 110 figura 13. Um edifício de planta circular, dividido em cinco salas distintas com um discurso e uma lógica expositiva continua e encadeada, que respeitasse a forma de vida social dos kwanyamas. Transformando no processo o eumbo numa das marcas da cultura, e como o seu principal bem patrimonial imaterial. Este formato permitiria ao visitante entrar em contato, logo à entrada, com a sua forma de construir assim como de organização territorial. Como já afirmamos o Eumbo é uma das principais e mais identificáveis características dos Kwanyamas. Os espaços interiores obedeceriam à lógica da individualização e autonomia dos espaços, outra característica kwanyama. Ou seja, funcionária com a mesma lógica que uma epata, provida de estruturas individuais no interior das salas, que funcionariam como salas no interior de uma sala. Aumentando com isso o leque de estruturas de apoio ao discurso expositivo. Utilizando esse tipo de organização do espaço, consegue-se a criação de um percurso não retilinear no interior de cada célula, abrindo ainda mais os espaços, permitindo que o visitante escolha como explorar aquele espaço, como vivenciar o espaço. Cada sala terá um tema específico e o acesso às salas far-se-ia através do olupale, o pátio central do eumbo kwanyama, transformado no primeiro grande espaço do centro interpretativo. Uma sala de recepção dos visitantes ao ar livre. Neste espaço dar-se-á primazia ao convívio social através da criação de uma zona de convívio, de uma praça alimentar de uso comum em regime de self-service, onde seria apresentada a gastronomia tradicional kwanyama. Propomos também uma zona comercial onde estarão à venda réplicas de produtos e objetos tradicionais kwanyamas, assim como mapas e imagens da Provincia do Cunene, e literatura sobre esta sociedade e sobre a região. O acesso à primeira sala seria dada através de uma porta ao fundo do olupale, imitando assim o acesso à epata do chefe do eumbo. Nessa primeira epata a primazia do discurso expositivo é atribuída à geografia, ao clima, à fauna e à flora, introduzindo o visitante no contexto geográfico e ambiental, em que se desenvolveu esta sociedade. O ambiente único do Cuanhama é outra das marcas desta sociedade. Assim sendo é necessário introduzir o visitante à realidade da extensa planície do Cuanhama, explicando que a principal dificuldade é encontrar recursos hídricos potáveis, e onde não há acidentes geográficos, onde a principal marca são as chanas, os mufitos e os ecangos. Uma 92 planície com poucos recursos naturais, onde os únicos sítios aproveitáveis para a construção são os mufitos das chanas. Recursos visuais e audiovisuais nessa sala terão de ser uma constante tentando recriar o meio ambiente do Cuanhama. O acesso à segunda sala será feito através de uma porta lateral, na primeira sala. Esta sala é representação da epata da primeira mulher. Utilizando a organização interna do eumbo esta sala é a mais indicada para apresentar as atividades agro-pastoris e organização do trabalho no seio da sociedade kwanyama. Relembrando o nosso estudo do Capitulo II é através da epata da primeira mulher que se tem acesso aos armazéns dos produtos derivados do leite, mas também aos currais das vacas e dos vitelos. Relembrando que a sociedade kwanyama é uma sociedade que pratica a poliginia e que divide o trabalho social entre homens e mulheres, esta sala seria assim perfeita para a explicação de todas estas visões sobre o mundo kwanyama e de destacar a importância do gado como um elemento de riqueza e diferenciação social. Um outro tópico a abordar nesta sala são as tradições kwanyamas e a sua exploração e transformação, em particular a sua alteração de forma a servir a mitificação de algumas figuras. Como por exemplo a atribuição da elaboração de um conjunto de leis, que proibiam os kwanyamas de andar armados após o consumo de determinadas bebidas alcoólicas ao líder Mandume, quando na realidade essas leis já existiam antes de o Mandume nascer. O acesso à terceira sala será feito da mesma forma que o acesso à segunda. Nesta far-se- á a exploração do Eumbo, da organização social do Eumbo e da organização da sociedade kwanyama. No compêndio geral do eumbo esta seria a epata da terceira mulher. Seguindo a lógica anterior esta sala é perfeita para explicar o eumbo em todas as suas vertentes. O poder e o prestígio social de um homem kwanyama é marcado pelo número de mulheres que pode suportar no seu eumbo. Assim esta sala é a mais indicada para se falar da família kwanyama, e da expansão e da organização social. Podemos com isso extrapolar para o crescimento do eumbo, para a constituição de unidades territoriais devido à construção dos eumbos dos filhos. Constituindo as libtas e as mukundas. As lutas internas pelo poder e a constituição do poder centralizado na figura do rei e da transformação do seu eumbo na embala real. Nesta sala também serão abordados os temas das relações diplomáticas entre os chefes locais, os Lengas e a importância do olupale como o principal sitio dentro do eumbo. 93 A sala que se segue é sinónima da sociedade kwanyama a atividade guerreira. Esta sala reveste-se de um significado ainda maior que as restantes salas. Marca e símbolo dos kwanyamas, a atividade guerreira é a atividade social que destacamos como património cultural imaterial desta cultura. É inquestionável a sua importância e da qual avançaremos como uma proposta de mediação concreta no ponto seguinte. Mas desde já destacamos a importância de desenvolver nesta sala os conflitos internos, entre lengas, os conflitos contra as etnias em torno dos kwanyamas, e por fim os seus confrontos militares com as potências europeias. Outro ponto a ser abordado nesta sala é a sua fácil adaptação a novas formas de combater e a novas tecnologias de combate, como por exemplo as armas de fogo. Por fim uma quinta e última sala destinada às interações com os povos europeus. Nesta é importante sublinhar a criação da fronteira entre Portugal e a Alemanha, que resultou na divisão do território da etnia kwanyama. É importante perceber que a luta entre as potências colonizadoras se alastrou aos kwanyamas que nunca aceitaram submeter-se a uma autoridade que não fosse a sua. E que este comportamento, em última analise, conduziu a uma vincada e constante luta pela sua liberdade. É importante referir nesta sala os acontecimentos de Naulila e dos confrontos entre as forças portuguesas e alemãs. Uma vez que como resultado desses confrontos, que custaram caro para Portugal, toda a região da atual Provincia do Cunene, se revoltou numa última tentativa de se libertar da autoridade portuguesa. Desta ter-se-á acesso de novo ao pátio central convidando o visitante a explorar a região, usando como ponto de partida o centro interpretativo. Queríamos só destacar que, seria uma mais-valia para o centro interpretativo, não empregar guias profissionais, mas sim empregar elementos das comunidades locais. Isto com o intuito de não formatar a visita a uma tónica discursiva formal e formalizante, mas sim, utilizar a experiência de vida e todo o conhecimento sobre o imaterial e material kwanyama. Criando dessa forma um ambiente de visita informal e não padronizado. Transmitindo com isto uma cunha informal na visita, que a nosso ver, seria bastante mais enriquecedor e interessante para o visitante. Assim a visita não se tornaria em algo formal, compassada e cronometrada. Seria ao envés algo informal, movida ao ritmo que o grupo imporia à visita, suscitando e criando um ambiente de diálogo, de troca de informações e dúvidas, que só enriqueceria a experiência vivida. 94 Seria interessante dotar as salas do centro interpretativo com alguma tecnologia de forma a serem mais interativas com o visitante, como por exemplo mesas e projectores imbuídos de tecnologia touchscreen. Contudo, defendemos o emprego de meios mais convencionais como mapas em papel. A utilização desses equipamentos resultaria na criação de um ambiente interessante e único, tentando recriar um ambiente de época “transportando” o visitante ao ambiente da I Guerra Mundial em África. Uma outra estratégia que deve ser empregue é a aposta nos meios de comunicação electrónicos, na web 2.0, nas novas plataformas e redes sociais. Destacamos que a criação de uma visita virtual ao centro interpretativo é crucial, uma vez que permitirá abrir as portas do centro a mais visitantes, mesmo que virtuais. Esta visita pode ser um dos cartões-de-visita da região no Mundo, abrindo as portas de entrada do turismo cultural na região, permitindo assim a criação e a expansão de redes e equipamentos turísticos, favorecendo um turismo sustentável que poderá traduzir-se em um maior crescimento e desenvolvimento da Provincia do Cunene. 2.2. Proposta de organização da sala dedicada à atividade guerreira O espirito guerreiro é uma das mais importantes marcas da sociedade kwanyama, é por este motivo que decidimos destacá-lo como património cultural imaterial. A sociedade em questão desenvolveu-se num ambiente hostil à vida humana. Assim, desde muito cedo que esta sociedade se viu obrigada a entrar confrontos por recursos naturais. Ao mesmo tempo, o sentimento de liberdade e de autonomia tornou-se importante, ficando patente na sua forma de organização espacial e social. Um comportamento e um sentimento que induziu temor e respeito na potência colonizadora. É uma sociedade que lutou pela sua liberdade de forma afincada e aguerrida, não se deixando submeter a não ser pela força. E mesmo pela força só caiu quando o seu último rei pereceu. Assim sendo é necessário planear com cuidado esta sala. Seguindo a lógica das epatas, este espaço será composto por um pátio e três a cinco estruturas de apoio. Será um zona onde será empregue a ilusão óptica da separação através paliçadas. Esta ilusão é importante na medida que, introduzirá o visitante a um mundo visto pela óptica guerreira. Mas mais do que efeitos visuais, esta sala tem de primar pela utilização de sons de confronto, de descargas de armamento de fogo e da entoação do cântico rei bayete inkose. 95 O espaço e discurso expositivo têm de ser organizados de uma forma que permita a manipulação e o toque das peças expostas por parte dos visitantes. Esta manipulação e toque complementaria o som e as ilusões de óptica criadas no interior da sala. Pretendese, deste modo, recriar uma simulação de um teatro de operações, contada segundo uma prespectiva kwanyama. Pedindo ao visitante que sinta o que é combater. As paredes desta sala serão divididas em dois polos. Um polo representa a paliçada de eumbo, o outro polo um combate em terreno aberto. A perspetiva do visitante será sempre do centro para a periferia. Em partes específicas das pinturas serão colocados textos explicativos sobre, a composição e modo de combater dos kwanyamas, canções e hinos de guerra, rituais e ritos associados à prática da guerra, contra quem se combatia, à procura de que recursos e por fim eventos e atos de negociações após o assalto e confronto. Sempre acompanhadas de material gráfico, exposto em formatos informáticos para uma melhor e mais fácil compreensão. Para a exposição de peças mais sensíveis e de carácter mais formal ou religioso será necessário recorrer ao uso de vitrines. Estas peças estarão no interior dos edifícios de apoio à célula. Devem ser usadas vitrines que permitam criar ambientes favoráveis à preservação e conservação das peças expostas, mas que ao mesmo permitam um visionamento de 360° destas. Acompanhas sempre por pequenos textos informativos e vídeos expositivo-informativos, explicando as suas funções. Em relação à manipulação de armas, aconselhamos a utilização de réplicas históricas de qualidade. Reservando um pequeno conjunto de peças originais a serem expostas em vitrines. Recomendamos a exposição de armas contundentes, de corte, de estoque e de fogo. A manipulação de armas de fogo requer cuidados especiais. Primeiramente estas têm de perder a sua capacidade de fogo, através da remoção do mecanismo de disparo. E em segundo lugar um técnico tem de estar presente para assegurar a seguração dos visitantes e técnicos do centro. Para finalizar, estas peças estarão expostas em bancos ou mesas de forma a facilitar o livre acesso. 102 Tilden, Freeman (1977) Interpreting Our Heritage. 3ª ed. Chapell Hill: The University of North Carolina Press Torrico, Juan Agudo (2006). Património e discursos identitátios in Peralta, Elsa; Anico, Marta (org). Patrimónios e Identidades: Ficções Contemporâneas. Oeiras: Celta Editora. 21-34 Thompson, Michael (1979). Rubbish Theory: The Creation and Destruction of Value. Oxford: Oxford University Press. Turismo Cultural, Territórios & Identidades (2010). Santos, Maria da Graça Poças (Org). Instituto Politécnico de Leiria & Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Edições Afrontamento. Tylor, Edward (1871). Primitve Culture. Researches into the development of Mythology, Philosophy, Religion, Language, Art, and Custom. Vol. I. Londres Tylor, Edward (1871). Primitve Culture. Researches into the development of Mythology, Philosophy, Religion, Language, Art, and Custom. Vol. II. Londres Yakuleinge, Gaudêncio Félix (2012) O sacro-religioso nos ritos de infância e adolescência de ovakwanyama. Tese de Doutoramento. 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Fonte: http://www.ine-ao.com/ibep/AMOSTRAGEM_texto.htm retirado no dia 20/12/2012, às 20h21 107 Figura 5- Cunene (Chanas; Mufitos e Ecangos); Fonte: Google Earth, Escala 1/23,6 km Figura 6 – A caldeira da Etocha. Fonte: (Silva,1975:pp.104) 108 Figura 7-Chana e Mufito. Fonte: Google Earth- Escala:1/804m; Altitude de visualização: 4,74 Km Figura 8- Map 1. Agricultural Macroregions and Regions of Angola, Fonte: (Carvalho,1974, pp. 204) 109 Figura 9-Mapa Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro); Fonte: (OLIVEIRA, 2011), consultado online no dia 23/02/2013 Figura 10-Eumbo Kwanyama, de um homem com quatro mulheres. Fonte: (Amaral, 2002:pp.73) 110 Figura 11-Eumbo kwanyama do Aimbódi, antigo chefe de uma mukunda. Um homem com nove mulheres. Fonte: (Amaral, 2002:pp.73) Figura 12 – Esquema simplificado de uma Epata. Fonte (Silva, 1975:pp.105) 111 Figura 13- Esquema simplificado de Eumbo. Fonte: (Silva, 1975:pp.106) Figura 14- Forma organizativa do poder régio. Fonte: (Oliveira, 2011) consultado online no dia 23/02/2013