Relatório de Estágio - Jornalismo na redação do Público
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ÍNDICE: I – NOTA DO AUTOR: ..................................................................................................................... 1 II – INTRODUÇÃO: ......................................................................................................................... 2 METODOLOGIA: ............................................................................................................................ 3 III - EMPRESA: ................................................................................................................................ 4 JORNALISMO E IMPRENSA: ........................................................................................................... 6 ROTINAS DE REDACÇÃO: ............................................................................................................... 7 IV – TRABALHO EFECTUADO: ........................................................................................................ 8 V – REFLEXÃO SOBRE OS RESULTADOS ....................................................................................... 20 V - CONSIDERAÇÕES FINAIS: ....................................................................................................... 21 VI - BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................ 23 VII - ANEXOS ................................................................................................................................ 23
1 I – NOTA DO AUTOR: Este relatório de estágio relata a passagem do aluno David Pinheiro Silva, do Mestrado de Ciências da Comunicação, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pela redacção do Público, no Porto, entidade que o acolheu durante três meses e uma semana. Fica a nota de agradecimento a todos os intervenientes sem os quais não teria sido possível cumprir este estágio curricular. Um obrigado ao orientador Professor Doutor Hélder Bastos pelo acompanhamento académico, assim como aos editores Álvaro Vieira, Abel Coentrão e Amílcar Correia, que me guiaram dentro da redacção do jornal Público.
2 II – INTRODUÇÃO: ―Falar sobre um campo é dar um nome a esse microcosmos, que também é um universo social, mas um universo social livre de um certo número de constrangimentos que caracterizam o universo social abrangente, um universo que se encontra um pouco à parte, dotado das suas próprias leis, do seu próprio nomos, da sua própria ordem de funcionar, sem ser completamente independente de leis externas.‖ (Bourdieu 2005: 33) O sociólogo francês Pierre Bourdieu explica desta forma, em The Political Field, The Social Science Field, and Journalistic Field, o conceito de uma sociedade, dentro de uma sociedade maior. No seu estudo, Bourdieu teoriza sobre campos dentro de campos (culturais), mais concretamente sobre o universo do “escritor” dentro do universo maior “campo literário”. De acordo com o autor, cada campo ou cada universo tem as suas próprias regras e maneira de funcionar, mas não deixam de estar inseridos num plano maior, estando por isso também sujeitos às leis desse plano. O mesmo acontece com o jornalista, que sendo um universo em si próprio obedece às leis de uma redacção. A redacção por sua vez , sendo também um universo muito particular em si, com maneiras muito próprias de funcionamento, não deixa de estar inserida num plano maior, numa sociedade, tendo por isso que obedecer a determinadas leis uniformes a todos os campos e sectores. Este relatório destina-se a relatar a experiência de um estágio curricular na redacção do Público (no Porto), através de uma perspectiva etnográfica, de forma a tirar conclusões sobre as noções de redacção e produção noticiosa na imprensa moderna, tendo em conta implicações culturais e sociais no trabalho diário de um jornalista. Alguns dos conceitos que serão explorados neste relatório incluem as rotinas jornalísticas, o capital intelectual, agenda mediática, contacto com fontes, valor notícia, pack journalism, agências noticiosas e os novos media na imprensa. Tudo isto experienciado em primeira mão, ao longo de sensivelmente três meses de estágio. No fim segue-se uma pequena reflexão sobre os resultados do trabalho realizado, assim como algumas considerações pessoais do estagiário relativamente ao estágio e ao Público.
3 METODOLOGIA: Segundo Born (2005: 15) observou em estudos dos media e não só, o trabalho de campo etnográfico tem sido “uma ferramenta afiada para discernir não apenas as qualidades unificadoras mas também as divisões, os limites, e os conflitos da sociedade objecto de estudo”. No que toca ao conhecimento sobre jornalismo, produção noticiosa e cultura das redacções, a pesquisa etnográfica tem contribuído muito desde os anos 70, providenciando descrições detalhadas das formas de vida e de trabalho dos jornalistas. Etnógrafos de produção de notícias têm mapeado as culturas das redacções e os processos de produção dessas redacções, clarificando as rotinas, valores e práticas profissionais dos jornalistas (Wahl – Jorgensen, 2010: 21) O mesmo se passa neste relatório onde a metodologia empregue - etnografiadá lugar ao relato de alguns momentos chave deste estágio, que decorreu entre o dia 2 de Novembro de 2010 e o dia 7 de Fevereiro de 2011, na redacção do jornal Público, no Porto. O relato dará lugar a reflexões teóricas com bases bibliográficas, sobre temas relacionados com a produção noticiosa.
4 III - EMPRESA: O jornal Público foi dado pela primeira vez à estampa a 5 de Março de 1990, embora a fundação da Público, Comunicação Social S.A. tenha acontecido cinco meses antes, a 31 de Outubro de 1989. É parte integrante da Sonaecom, sub-holding do grupo Sonae, propriedade do empresário Belmiro de Azevedo. Dispõe de uma redacção principal em Lisboa e tem uma delegação situada na cidade do Porto – com primazia aos níveis redactorial, financeiro e administrativo da redacção na capital portuguesa - , além de uma série de correspondentes posicionados por todo o território nacional e em locais internacionais de importante fluxo noticioso, como são os casos de Bruxelas e Washington. No dia 22 de Setembro de 1995 iniciou a publicação online diária da sua edição impressa em versão integral, colocando-se assim no mapa digital dos meios de comunicação nacionais. Note-se que o público.pt tem um estatuto editorial próprio, criado em Março de 2000. O jornal, na sua versão impressa, primou desde sempre pela grande variedade de temáticas, suplementos e cadernos publicados, onde ao longo dos anos se destacaram: P2, Público Imobiliário, Inimigo Público, Ípsilon, Fugas, Pública e, em breve, lançará o P3. O segundo caderno do jornal é o P2, onde são publicados temas relacionados com a sociedade, artes e cultura em formato de reportagem ou entrevistas. Para além das bandas desenhadas Bartoon de Luís Afonso e a série Calvin & Hobbes, de de Bill Watterson, também publica os habituais jogos (palavras cruzadas) e a agenda cultural e programação de televisão do dia. Foi impresso pela primeira vez a 12 de Fevereiro de 2007. À quarta-feira uma análise do mercado imobiliário é publicado no suplemento Público Imobiliário. Às sextas é publicado o Inimigo Público, um suplemento de humor que sai com o jornal, sendo uma parceria entre o Público, Produções Fictícias e o Estado de Sítio. No mesmo dia sai o Ípsilon, o suplemento de artes do jornal. Existe também um suplemento (em formato revista) de viagens, prazeres e motores chamado Fugas, publicado com o jornal aos sábados. Ao sábado é importante dizer que o P2 é substituído pelo Cidades que aborda temas de acordo com a área geográfica de publicação (Lisboa / Porto).
5 Ao domingo sai ainda a Pública, a revista principal do jornal Público. Para além destes suportes físicos, o Público existe também na Internet, tendo apostado no online desde 1999 com serviço autónomo de notícias, actualizadas várias vezes por dia. A partir de 2001 começou a publicar a edição impressa em PDF, reservada a assinantes. - De todos estes constituintes, foi no primeiro caderno ou P1, e mais precisamente na secção Local, que a produção noticiosa e restante experiência de redacção foi mais substancial durante este estágio, embora tenham existido algumas excepções que serão apontadas mais à frente no relatório – O Público, do qual a actual directora é Bárbara Reis, foi liderado durante 11 anos por José Manuel Fernandes, que sucedeu a Nicolau Santos, Francisco Sarsfield Cabral e Vicente Jorge Silva. Uma das marcas que distinguiu o jornal ao longo dos anos foi a criação do Provedor do Leitor, cuja função é receber e analisar as críticas, comentários e sugestões dos leitores e defender o interesse superior da comunidade. O Provedor do Leitor também conta com estatuto próprio. Já ocuparam esta função Jorge Wemans, Joaquim Fidalgo, Joaquim Furtado, Rui Araújo e Joaquim Vieira, sendo actualmente desempenhada por José Queirós. O Estatuto Editorial do Público prevê a criação de “um jornal de grande informação, orientado por critérios de rigor e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica”, inserindo-se numa “tradição europeia de jornalismo exigente e de qualidade, recusando o sensacionalismo e a exploração mercantil da matéria informativa”. Segundo o mesmo documento, a “aposta numa informação diversificada, abrangendo os mais variados campos de actividade e correspondendo às motivações e interesses de um público plural” são exigências do próprio jornal, sendo “responsável apenas perante os leitores, numa relação rigorosa e transparente, autónoma do poder político e independente de poderes particulares”. Para além da habitual regência pelo Código Deontológico dos Jornalistas, os profissionais deste meio têm um prontuário de Princípio e Normas de Conduta Profissional sob o qual devem orientar a sua actividade. Destacam-se linhas directivas sobre temas como: os direitos dos outros, os direitos dos acusados, o exercício do jornalismo e a sua responsabilidade, relações com as fontes, conflitos de interesse, recusa de favores, anonimato e off-the-record, entre outros.
6 No seguimento do apresentado no início deste capítulo, o Público enquadra-se num contexto económico e social bastante preciso, por via de ser propriedade da Sonaecom, sub-holding do grupo Sonae. A Sonaecom, que se apresenta como uma empresa orientada para os serviços de comunicações, inovadora e com responsabilidade social, detém, para além do Público, a Optimus, empresa de telecomunicações, e empresas de software e sistemas de informação, como a Bizdirect, a Mainroad, a WeDo e a Saphety. Criada em 1994, a Sonaecom é detida em parte pela France Telecom. No Relatório e Contas referente ao ano de 2009, a empresa apresentou, na área de media, uma baixa de 9,8 % na circulação paga do Público em comparação com o ano anterior, uma diminuição de 11 colaboradores e a subida de 0,1 % na quota de mercado, posicionando-se naquele momento nos 4,4 %. Pelo seu lado, a um nível já mais abrangente, a Sonae faz do retalho alimentar a sua área de negócio preferencial, mas detém empresas na área do material informático, calçado, vestuário, equipamento vestuário e electrodomésticos. JORNALISMO E IMPRENSA: Jornalismo é a prática de recolher, redigir, editar e publicar informações sobre acontecimentos, na maioria dos casos, relativos à actualidade. A actividade tem origem na antiguidade mas não foi até ao século XIV, com a invenção da imprensa de caracteres móveis, de Johannes Gutenberg, em 1456, que o conceito começou a ganhar o significado que viria a ter hoje. Os primeiros jornais apareceram na Europa no século XVII. Em 1641 surgiu o primeiro jornal português, a Gazeta da Restauração. O primeiro jornal diário, o Daily Courant, apareceu em 1702 e continuou a ser publicado durante mais de trinta anos. Com Industrialização, nos séculos XVIII e XIX, os líderes políticos começaram a perceber que os jornais podiam ser uma ferramenta de poder, um meio para influenciar a população, e começaram a surgir os jornais de facções e partidos políticos. No século XIX, os empresários descobriram o potencial comercial do jornalismo como negócio lucrativo e surgiram as primeiras publicações parecidas com os diários actuais. Nos Estados Unidos, Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst fundaram grandes jornais destinados às massas. Em 1833, foi fundado o New York Sun, o primeiro jornal
7 “popular” vendido a um centavo de dólar. Da mesma forma já tinha surgido o The Guardian, em 1821 que se tornou num dos jornais mais vendidos no Reino Unido até hoje. Por esta altura os jornais europeus e americanos começaram a organizar os seus processos de produção num espaço físico designado de redacção, com disposições similares às que existem nas organizações dos média de hoje (Wahl-Jorgensen, 2006: 24). ROTINAS DE REDACÇÃO: Como se irá perceber ao longo deste relatório, a produção noticiosa dentro de uma redacção como a do Público, ou outro jornal desta dimensão, assemelha-se a uma linha de montagem. Isto significa que a matéria prima que compõe um jornal diário, passa por vários intermediários que a tratam de acordo com a sua função: agenda, jornalista, editor, gráfico. Na redacção do Público, no Porto, o director Manuel de Carvalho e os editores do nacional, têm uma reunião todas os dias, pelas 11 da manhã, com a redacção de Lisboa, para decidirem quais os temas que serão tratados ao longo do dia. Os editores do Local chegam por volta das 11:30 e as 12:00, para decidir o que será feito e por quem, caso não tenham marcado serviços no dia anterior. Os jornalistas chegam à redacção entre as 9:00 e as 11:00 caso não tenham serviços marcados para a manhã. Quando chegam à redacção, a primeira coisa que os jornalistas fazem é ler as notícias do dia, no Público e nos outros jornais diários, dando também uma vista de olhos pelo Online. O serviço vem quase sempre da agenda e é marcado pelo editor, em acordo com o jornalista que o vai cobrir. Uma vez pronto, o texto passa para as mãos do editor que o vai modificar conforme achar necessário. Depois de editado, o texto é recambiado para os gráficos que o vão colocar na representação gráfica digital do que será o jornal no dia seguinte. As rotinas de um estagiário na redacção são semelhantes à de qualquer jornalista. Para além disso deve fazer as rondas (liga para a Protecção Civil, GNR, PSP, Bombeiros) na eventualidade de ter acontecido alguma coisa que de outra forma não se saberia. Claro que nem tudo é a preto e branco, especialmente numa redacção como a do Público, onde a iniciativa é encorajada. Nas próximas páginas estas rotinas e outras vão exemplificar o percurso de três meses de um estagiário na redacção, e as particularidades deste universo.
8 IV – TRABALHO EFECTUADO: Começou no dia 2 de Novembro de 2010, uma terça-feira, visto que no dia anterior tinha sido feriado. Na semana anterior o estagiário encontrou-se com o director adjunto do Público, Manuel Carvalho, para uma reunião sobre o estágio que estava prestes a começar. Aí foi-lhe explicado que iria escrever para o Local, mas que conforme a sua apetência e iniciativa poderia também escrever sobre outros assuntos, para outras secções. Terça-feira, às 11 da manhã o estagiário chegou à redacção (conforme as indicações do director). Um dos jornalistas, e editor do Local, Abel Coentrão encarregou-se de fazer as apresentações na redacção e indicou a estação de trabalho, onde o estagiário foi introduzido ao sistema informático da redacção. Mais tarde outro dos editores do Local, Álvaro Vieira explicou que seria com ele quem os estagiários lidariam normalmente, visto ser ele o “orientador” dos estagiários dentro da redacção, o que não impedia que se lidasse também tanto com o Abel Coentrão, ou outro dos editores do Local, Amílcar Correia. O que saltou primeiro à vista foi sem duvida a disposição dos jornalistas na redacção, de acordo com as respectivas secções para as quais estavam destacados, normalmente sempre perto uns dos outros (jornalistas de cultura estavam todos em estações de trabalho paralelas, o mesmo com os editores e a secção de desporto). É importante dizer que a invenção da redacção coincidiu com o aparecimento de uma imprensa profissionalizada e comercialmente viável, fortemente competitiva e dependente de publicidade (Tuchman 1978:19). Desta forma, a redacção nasce com a ideia de uma cultura profissional com práticas de trabalho únicas, o que transpareceu desde cedo no estágio. No primeiro dia de estágio, o estagiário foi destacado para fazer uma notícia sobre um assalto ao Gaiashopping. Acabou por ser publicada como uma breve (pequena coluna de aproximadamente 500 caracteres), mas serviu para um primeiro contacto com as rotinas jornalísticas que fariam parte do quotidiano de trabalho nos próximos meses: contacto com a agenda e fontes. Como Gaye Tuchman diz no livro “Making News” (1971), jornalismo é uma pratica rotineira de hábitos civilizacionais, sendo que o jornalista está limitado no acesso á informação quanto ao tempo (ritmo diário no caso deste estágio), e ao território (Porto, neste caso). Uma das tarefas rotineiras do estagiário
15 ambas as publicações com edição na redacção de Lisboa. Em meados de Janeiro, Joana Amaral Cardoso, uma das editoras da revista Pública, revelou interesse no tema. e contactou o estagiário para comunicar que já há algum tempo tinha planeado fazer uma estória sobre o tema dos hipsters e sugeriu que se juntassem esforços para um artigo na revista semanal do Público. Assim começou uma construção bipartida que seria posteriormente “cozida” num só texto. Segundo Rogério Santos (Santos, 1997) existe uma “cultura de redacção” que delimita o grau de autonomia do jornalista. Neste caso tratou-se de duas pessoas em redacções diferentes a trabalhar no mesmo artigo, comunicando quase todos os dias por telefone ou e-mail. Isto delimitou ainda mais a autonomia, tanto a do estagiário como a da jornalista, em Lisboa. Perto do fim, antes de o estagiário enviar a respectiva parte, foi necessário reescrever o texto. O único tempo livre que surgiu para realizar esta tarefa foi à noite, por isso o estagiário acabou por pernoitar na redacção para terminar o texto. desta forma é fácil perceber que uma redacção nunca fecha e que o jornalista não tem necessariamente um horário fixo. O resultado final é um artigo noticioso, mas também é uma construção social da realidade de acordo com as molduras ideológicas do jornalista (de dois, neste caso), como defende Gaye Tuchman. “Hipsters sem causa” foi terminado durante a penúltima semana de estágio (publicado dia 30 de Janeiro). Nessa mesma semana, e na seguinte, o estagiário fez parte da cobertura das 13 inaugurações em 13 dias em Vila Nova de Gaia, para a secção Local. Estas últimas semanas foram, de certa forma, a prova dos três como estagiário numa redacção de um jornal: saídas da redacção, com o conhecimento de que para onde o estagiário ia, tinha a obrigação de apanhar a informação e decifrar a notícia, sem takes de agências, e sem background às vezes. Deadlines diários: ir ao campo, apanhar a informação, decifrar o que é a notícia, voltar para a redacção e escrever. Foi curioso estar em campo e reparar que a noção de pack journalism ou “jornalismo de manada” é uma realidade bastante comum. No dia 1 de Fevereiro o estgiário foi a a uma conferência de imprensa com Luís Filipe Menezes, que resultou na notícia (presente em anexo, pág. 57) “Luís Filipe Menezes classifica de “ridículo” fecho da repartição de Finanças dos Carvalhos”, publicada dia 2 de Fevereiro no Local. Uma vez lá, os jornalistas estavam todos juntos, a trocar comentários sobre o que se estava a dizer e a tirar apontamentos. No fim da conferência trocavam ideias uns com os outros sobre o que iriam escrever, e ali, entre jornalistas de diferentes meios de comunicação, decidia-
16 se o que ia ser a notícia. A mesma notícia para todos. Ou seja, repórteres iniciam discursos entre eles, nos quais as notícias são definidas consensualmente (Bertrand, 2003; Gans, 1980; Tuchman, 1978). O processo e consequências estão de acordo com o que Shaw classificou de jornalismo consensual (Biagi, 2007), e o que Crouse (1972) chamou de pack journalism ou jornalismo de manada. O que tem valor notícia e porquê, bem como a interpretação em causa, é uma questão de decisão colectiva, que resulta por sua vez num produto indiferencial, contextualizado de acordo com os constrangimentos ideológicos e normativos impostos pelos donos e directores, e aprendidos pelos jornalistas (Schudson, 2005; Glitin, 2003). Esta definição consensual das notícias elimina a necessidade de um exercício custoso de iniciativa na procura de perspectivas alternativas. Desta forma é assegurada uma conformidade de conteúdos com editoria implícita de gestão e detenção, com níveis subordinados de gatekeeping que funcionam como intermediários entre a minoria dominante, relativamente à pirâmide de produção noticiosa, e o consumidor final do produto, o público civil (Baran, S., e Davis, D., 2003). Esta última notícia, como a maior parte das realizadas ao longo do estágio, não foi auto proposta, mas sim atribuída de acordo com a agenda. Quando os editores chegavam à redacção destacavam algo que estava marcado na agenda e atribuíam esse acontecimento aos jornalistas, que por sua vez iriam ao campo cobrir e fazer a notícia. Também podia ser marcado no dia anterior antes do fim do dia de trabalho ou até, como também chegou a acontecer, já depois de o jornalista (ou estagiário, neste caso) ter saído da redacção. Quando algo tinha hora marcada para a manhã do dia seguinte, por exemplo, era frequente o estagiário receber uma chamada da redacção entre as 19:00 e as 21:00 para marcar o serviço. Relativamente à agenda mediática, de acordo com a Teoria do Agendamento de McCombs e Shaw (1972), ela é o produto de compromissos ideológicos partilhados por elites económicas, incluindo os media e as forças políticas e sociais dominantes, cujas influencias limitam outras possibilidades temáticas. Onde, como consequência, a agenda mediática emerge como um produto noticioso homogeneizado, ela torna-se a agenda pública, reflectindo uma confluência hegemónica de interesses externos e internos, tipificados pelas posições conservadoras daqueles que ocupam um status sénior na hierarquia do gatekeeping, e subscrita como uma maneira de eficácia organizacional e auto preservação, pelos que funcionam em papeis subordinados de gatekeeping (Tunstall, 2008; Gans, 2003; Gitlin, 2003; Tuchman, 1978). As notícias insulares e paroquiais são caracterizado por uma
17 esterilidade temática e ideológica, impondo aos consumidores um conjunto restrito de filtros cognitivos e perceptivos. A consequente privação de informação dá origem a condições em que o controlo social por influência mediática, pode ser ligado a uma ignorância plural, uma espiral de silêncio, e um discurso público “dissecado” (Noelle- Neumann, 1984; Gans, 1979). A maneira que jornais como o Público encontram para, de certa maneira, fugir a esta agenda mediática homogénea é através de suplementos como a Pública ou cadernos como o P2 ou o Cidades, onde, como o estagiário teve a oportunidade de experienciar, há lugar para a publicação de temas fora da agenda mediática, propostos inclusive por jornalistas (ou estagiários) mesmo com um nível de gatekeeping subordinado. Assim foi o caso da reportagem sobre o Jazz no Porto, no Cidades, ou o artigo sobre os Hipsters, na Pública, durante este estágio. No entanto, é irrefutável a homogeneidade dos conteúdos nos media. Esta realidade é perpetuada não só pela agenda mediática, mas também por outros factores como a dependência dos meios de comunicação pelos serviços das agências noticiosas. Durante o estágio, muita da informação sobre a notícia que o estagiário iria escrever encontrava-se nos takes da agência Lusa. Por vezes a dependência da informação do take era tão forte que as notícias podiam ser assinadas com o nome do jornalista e “com Lusa”, como aconteceu no estágio pelo menos em duas ocasiões. A primeira foi em Novembro, com a notícia “Bombeiros Profissionais acusam Câmara do Porto de ignorar ―insegurança‖ na cidade”, publicada Sexta-feira, dia 19, no Local. O mesmo aconteceu com a notícia “Governo disse que não fecharia a 3ª repartição de Gaia”, publicada na Quinta-Feira dia 16 de Dezembro, também no Local. Outros meios de comunicação terão utilizado os mesmo takes da Lusa para estas e outras notícias, logo é fácil de adivinhar a homogeneidade no tratamento destes assuntos. Desta forma, os serviços de agências noticiosas são uma espada de dois gumes para o jornalista. É uma maneira fidedigna de adquirir a informação mas vai tornar o texto inevitavelmente homogéneo ao discurso de outros jornalistas, de outros meios de comunicação. Segundo Rantanen e Boyd-Barret (2004) e Gitlin (2003), as agências contribuem para a homogeneização das notícias. como exemplo notável desta realidade, a Associated Press detem um monopólio de influência nos Estados Unidos da América, assim como uma presença extensa internacionalmente (Tunstall, 2008). A AP distribui 24 horas por dia, sete dias por semana, o mesmo conteúdo para 1,700 diários, semanários e jornais universitários norte americanos, 5000 rádios e estações de
18 televisão, 330 broadcasters internacionais e 8500 subscritores internacionais em 121 países, e faz isto em cinco idiomas diferentes: inglês, alemão, holandês, francês e espanhol. Com a Reuters, outra grande agência noticiosa internacional, as circunstâncias são similares, ela própria colocando-se “entre as fontes noticiosas mais lidas... alcançando milhões”. A subscrição destes serviços é determinada pelo imperativo do lucro. Fica mais barato a um órgão de comunicação assegurar conteúdos noticiosos, em vez de instalar redacções ou correspondentes por todo o mundo. Se nos Estados Unidos, a Associated Press detém um monopólio de influência no que toca à informação, o mesmo acontece em Portugal com a agência Lusa, ainda que a uma escala mais pequena. Uma particularidade da redacção do Público no Porto é o facto de não existir (pelo menos durante os três meses de estágio) uma secção de ciência/tecnologia, temas que, no jornal, seriam publicados na editoria Mundo. Acontece que, apenas em Lisboa é que estes temas são tratados, o que tornou impossível qualquer investida da minha parte nestes campos. Pelo menos duas vezes foram propostos trabalhos sobre estas temáticas, mas como os editores destes assuntos se encontravam apenas na redacção de Lisboa, o estagiário tinha que ligar por telefone, o que tornava a comunicação muito mais impessoal (especialmente quando se trata de um estagiário de outra redacção, a propor temas que, por natureza não são os mais fáceis de explicar). O mesmo aconteceu para qualquer trabalho direccionado para o Online, como foi o caso dos dois vídeos realizados durante o estágio, sendo que apenas um foi publicado. O primeiro foi realizado em Novembro de 2010 na Semana do Japão, ou Japan Week, que teve lugar no Porto, e publicado no dia 23 do mesmo mês. Consistiu na captação e edição de uma série de imagens captadas no Palácio de Cristal, com vários exemplos e rituais da cultura nipónica, desde a cerimónia do chá até à caligrafia. O segundo vídeo foi realizado um mês mais tarde, dia 22 de Dezembro, sobre uma festa de Natal alternativa chamada Matanças, que decorreu pela terceira vez na Casa Viva, no Porto. No entanto, este último vídeo não foi publicado. Embora o contacto com o Online não tenha sido muito, acabou por existir nestas duas ocasiões (apesar de o segundo vídeo não ter sido publicado, houve contacto com os responsáveis pelo Online, em Lisboa.), que foram elucidativas quanto à exigência deste tipo de conteúdos nos tempos que correm, e quanto à importância dos novos media para um jornal como o Público. A Internet veio inequivocamente mudar o jornalismo e a forma de comunicar com o público. Concretamente, veio alterar, por exemplo, a
19 natureza do conteúdo noticioso que está a mudar inexoravelmente devido à emergência de tecnologia dos novos media. Também veio mudar a maneira como os jornalistas fazem o seu trabalho, que foram introduzidos a novas ferramentas na era digital. As próprias estruturas da redacção e da indústria dos media estão a passar por transformações fundamentais. Por fim, os novos media estão a mudar as relações entre organizações noticiosas, jornalistas, e os seus múltiplos públicos: audiências, fontes, competidores, publicitários e governos. Segundo John Vernon Pavlik (Pavlik, 2001), os desenvolvimentos nos novos media estão a dar lugar ao desenvolvimento de novas técnicas de narrativa, que permitem um conteúdo noticioso mais contextualizado e navegável. Este tipo de narrativa abrange um espectro maior de modalidades de comunicação (texto, imagens, vídeo, gráficos); escrita não linear ou hipermedia, maior costumização e maior envolvimento da audiência. As notícias vão-se tornando cada vez mais fluídas. Quando se trata de médias analógicos, a estória é normalmente publicada por um jornal ou coberta pelo telejornal da noite e talvez actualizada no dia seguinte. Hoje, as notícias estão num estado de fluxo continuo. Actualizações são feitas continuamente. Quando se está num website, a primeira coisa que o utilizador faz é ver quando foi actualizado pela ultima vez e, se isso não aconteceu recentemente, o utilizador continua para um website diferente. Mas a Internet não veio mudar apenas a maneira como as notícias são consumidas. Os novos média vieram mudar o próprio trabalho dos jornalistas. Ferramentas digitais para recolha de notícias, comunicação, edição e produção tornaram-se incrivelmente portáteis, poderosas e mais económicas, o que dá aos jornalistas em campo a mesma capacidade de um jornalista que esteja numa redacção central. Estas ferramentas permitem ao jornalistas, técnicas cada vez mais eficientes para encontrar fontes diversas e seguras, confirmar factos e cumprir deadlines.
20 V – REFLEXÃO SOBRE OS RESULTADOS Depois do período passado na redacção do Público a desempenhar tarefas diárias de um jornalista, conclui-se que a prestação do estagiário foi positiva. Graças às 33 peças publicadas, um vídeo, e restantes tarefas não assinadas que não entram em anexo (redacção quase diária de destaques para o P2 e ÍPSILON), o estagiário entrou e adaptou-se ao ritmo de trabalho esperado por qualquer jornalista de uma redacção como a do Público. De ressalvar que algumas notícias/reportagem, por natureza, demoravam mais tempo a realizar do que as hardnews do dia-a-dia. Desta forma, este tipo de estágio não deve ser encarado numa perspectiva quantitativa relativamente à produção, mas sim qualitativa. Pegando em dois exemplos que claramente saltam à vista em relação ao resto do trabalho realizado, percebe-se que o estagiário não se limitou a efectuar o trabalho que era esperado, envolvendo-se em mais do que uma vez num processo criativo e de iniciativa própria. Foi o caso da reportagem sobre o Jazz na cidade do Porto e, mais uma vez, a reportagem sobre os Hipsters. Temas que marcaram pela diferença, sendo que a reportagem do Jazz originou outras do género em meios de comunicação como a Time Out Porto. Quanto à reportagem sobre Hipsters, o tema nunca tinha sido abordado pelos média antes em Portugal. Foi a primeira vez que a palavra saiu da Internet para ser explorada como fenómeno sócio-cultural num órgão de comunicação tradicional português. Este trabalho já foi citado por exemplo no blogue Indústrias Culturais, do professor da Universidade Católica de Lisboa, Rogério Santos, num post sobre o mesmo tema: “A revista Pública dedicou atenção a este tema na edição de 30 de Janeiro último, com assinatura de David Pinheiro Silva e Joana Amaral Cardoso. Para os autores, o hipster é um estilo, uma escolha de visual com base cultural, em que capitalismo, internet, música e moda ajudam a definir o estilo da cultura jovem actual. O texto ajuda a compor o que a Wikipedia não engloba...” 2 Foi neste sentido que o estagiário tentou guiar o seu percurso dentro do jornal, ou seja, através da realização de trabalhos que marcassem pela diferença e não só pelo volume de notícias produzidas, que acabariam por não ter grande repercussão. Assim é possível interpretar os três meses de trabalho na redacção do Público como um período bem aproveitado, com o sentido de missão cumprida por parte do estagiário. 2 http://industrias-culturais.hypotheses.org/13135
21 V - CONSIDERAÇÕES FINAIS: Como foi dito no inicio deste relatório, a redacção de um jornal é um universo próprio, dotado das suas próprias leis, com uma maneira própria de funcionar, mas que não é completamente independente de leis externas. Ao longo dos três meses, esta realidade foi confirmada empiricamente através do desempenho jornalístico do estagiário, na redacção do Público, no Porto. O estágio realizado neste órgão de comunicação foi proveitoso no sentido em que permitiu ao estagiário a oportunidade de realizar todas as tarefas competentes a um jornalista numa redacção como a do Público. A responsabilidade depositada no estagiário e o incentivo à auto iniciativa foram grandes pontos a favor do desenvolvimento do estagiário dentro da redacção. No entanto, apontam-se algumas falhas, facilitadas talvez pela dimensão de um meio de comunicação como o jornal Público. Um dos problemas é o facto de não haver, pelo menos na altura, uma unidade dedicada ao Online, no Porto. O facto de a redacção do Online ser apenas em Lisboa tornou muito difícil qualquer investida neste campo, o que à partida desencorajava propostas para esta plataforma. Não seria preciso uma redacção no sentido de uma equipa inteira, no Porto, dedicada ao Online (até porque já existe uma equipa em Lisboa), mas alguém com poder de decisão nesta redacção facilitaria a contribuição de estagiários, jornalistas ou colaboradores, do Porto, na produção de conteúdos para o Online. Outro lapso é o facto de não existir ninguém, na redacção do Porto, destacado para temas de ciência e tecnologia (mais uma vez, durante o período de estágio). Em parte ligado ao facto de não existir ninguém directamente ligado ao Online na redacção, pois muitas notícias relacionadas com estes temas enquadram-se melhor num plataforma online por variadas razões como, por exemplo, o público alvo, em princípio mais habituado ao consumo destes conteúdos através da Internet. No entanto, é importante ressalvar que estes “buracos” estavam em vias de ser colmatados com o projecto P3, na altura (Novembro de 2010 – Fevereiro de 2011) ainda em desenvolvimento. Este novo suplemento do Público trata-se precisamente de uma plataforma online, com redacção no Porto, destinado a um público alvo jovem. Desta maneira os conteúdos teriam também um forte pendor tecnológico, de maneiras que é compreensível a redacção do Público, do Porto, não ter investido na altura numa
22 solução mais modesta (ainda que imediata) uma vez que seria algo provisório e possivelmente pouco produtiva. Com este relatório pretendeu-se a dar a conhecer um pouco da realidade deste órgão de comunicação, ao nível do seu funcionamento interno, tendo como observador participante o estagiário e o objecto de estudo a redacção do Público, no Porto. As tarefas realizadas dentro e fora da redacção incluíram tudo aquilo que se pode esperar da actividade profissional de um jornalista dentro de uma redacção de um jornal diário, com excepção da edição, reservada, claro está, aos editores. Estes três meses foram por isso pertinentes na formação e integração do aluno de Mestrado em Ciências da Comunicação na vida profissional, pelas práticas jornalísticas realizadas. O trabalho individual e em equipa, a capacidade de proposta, de pesquisa e de execução do trabalho que lhe era designado e, sobretudo, o cumprimento de deadlines diários, traduz-se num conhecimento adquirido muito valioso para o aluno a começar agora a sua carreira profissional.
23 VI – BIBLIOGRAFIA BARAN, S., e DAVIS, D. Mass Communication Theory: Foundations, ferment, and future. Belmont, CA: Thomson/Wadsworth. 2003 BERTRAND, J., (Ed). An Arsenal for Democracy: Media accountability systems. Hampton Press: Cresskill, NJ. 2003 BIAGI, S. Media/Impact: An introduction to mass media. Thomson Wadsworth: Belmont, CA. 2007. BOURDIEU, Pierre. The Political Field, the Social Science Field, and Journalistic Field. Pp. 29-47 em: Bourdieu and the Journalistic Field, R.Benson e E. Neveu (Eds.). Cambridge CB2 1 UR, UK: Polity Press. 2005 CROUSE, T. The boys on the bus: Riding with the campaign press corps. Random House, New York. 1972 FONTCUBERTA, Mar de. A notícia: pistas para compreender o mundo. Editorial Notícias, Lisboa. 1999 GANS, Herbert J. (1979). Deciding What’s News. A Study of CBS Evening News, NBC Nightly News, Newsweek and Time. Northwestern University Press, Evanston, 2004. GITLIN, T. The whole world is watching: mass media in making and unmaking of the new left. Berkley: University of California Press. 2003 MCCOMBS, M., e SHAW, D. The agenda setting function of mass media. Public Opinion Quarterly, 36. 1972. NOELLE-NEUMANN, E. The spiral of silence: Public Opinion – Our social skin. University of Chicago, Chicago. 1984.
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