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Vida e Morte nos Carcinomas Mamários Caninos: Estudo Imunohistoquímico da Atividade Proliferativa e Apoptose

Ariana Sousa Martins

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Relatório Final de Estágio Mestrado Integrado em Medicina Veterinária VIDA E MORTE NOS CARCINOMAS MAMÁRIOS CANINOS: ESTUDO IMUNOHISTOQUÍMICO DA ATIVIDADE PROLIFERATIVA E APOPTOSE Ariana Sousa Martins Orientador(es) Prof. Doutora Patrícia Carla Araújo de Faria Dias Pereira Co-Orientador(es) Prof. Doutor Augusto Manuel Rodrigues Faustino Porto 2014 Relatório Final de Estágio Mestrado Integrado em Medicina Veterinária VIDA E MORTE NOS CARCINOMAS MAMÁRIOS CANINOS: ESTUDO IMUNOHISTOQUÍMICO DA ATIVIDADE PROLIFERATIVA E APOPTOSE Ariana Sousa Martins Orientador(es) Prof. Doutora Patrícia Carla Araújo de Faria Dias Pereira Co-Orientador(es) Prof. Doutor Augusto Manuel Rodrigues Faustino Porto 2014 iii AGRADECIMENTOS À Professora Doutora Patrícia Dias Pereira, minha orientadora, professora e grande exemplo de profissional, por todas as oportunidades de aprendizagem que me proporcionou, por me apoiar e orientar nesta etapa. Quero também expressar a minha imensa gratidão por todas as sugestões científicas, pelos comentários pertinentes e discussão crítica dos resultados e acompanhamento e incentivo constantes. Ao Professor Doutor Augusto Faustino pela atenção, disponibilidade e auxílio ao longo destes meses, pelas críticas ao trabalho, pela preocupação e pela simpatia. Obrigada também por me ter dado a oportunidade de passar uma temporada em Milão, de ter aprendido com os seus colegas e por ter vivido uma das melhores fases da minha vida. À Professora Doutora Fátima Gärtner por ter autorizado a minha circulação pelo Laboratório de Patologia Veterinária e também pela cedência de material bibliográfico para a realização do meu trabalho. À Doutora Ana Canadas pela ajuda e apoio constantes, por estar sempre disponível para responder às minhas dúvidas e pela dedicação. Ao Professor Doutor Júlio Carvalheira pela disponibilidade em me ajudar na análise estatística dos resultados deste trabalho e pelo tempo concedido para o esclarecimento das minhas questões. Às técnicas do Laboratório de Patologia Veterinária, Alexandra Rêma e Soraia Gonçalves, pela forma paciente e dedicada com que me ensinaram a técnica de imunohistoquímica. Obrigada pela ajuda dada ao longo deste estágio. À D. Luísa Mariano pela simpatia, amizade e ajuda que me deu sempre que pôde. À minha companheira de estágio, Leonor, pela amizade, pela ajuda prestada, pelos tempos de descontração e de conversa animada. A todos os meus grandes amigos que partilharam comigo estes anos na veterinária, por tornarem tudo mais divertido. Tenho a certeza que muitos vão ficar para a vida inteira. Ao Hugo pela motivação e incentivo, por tornar as coisas complicadas em coisas simples, pela paciência para aturar a minha má disposição e por muito mais que só ele sabe. Mesmo distante, não deixou de ser o meu maior apoio. A toda a minha família, em especial aos meus pais por terem acreditado sempre em mim, me terem proporcionado a oportunidade de estudar veterinária e por serem as pessoas mais importantes desde sempre. Obrigada ao meu pai que é um grande pai e que está sempre lá quando eu preciso e por nunca ter permitido que me faltasse nada. À minha mãe pelo apoio que me dá, pela amizade, por ser um pilar na minha vida e um grande exemplo para mim. iv LISTA DE ABREVIATURAS AIF – Apoptosis inducing factor APES - 3-aminopropyltriethoxysilane em acetona ATP – Adenosina trifosfato BSA - Bovine serum albumin CA - Carcinoma anaplásico CS – Carcinoma sólido CTP - Carcinoma tubulopapilar DAB - Cromogéneo 3,3-diaminobenzidina DP - Desvio padrão HE - Hematoxilina-eosina HER-2 - Human Epidermal growth factor Receptor 2 HPF – High Power Field ICBAS - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar IHQ - Estudo/análise imunohistoquímico/a MIMV - Mestrado Integrado em Medicina Veterinária OMS - Organização Mundial de Saúde OVH – Ovariohisterectomia SAS - Statistical Analysis System T - Temperatura TBS - Tris buffered saline TMC – Tumores mamários caninos v RESUMO A proliferação e a morte celular são aspetos chave na dinâmica da transformação neoplásica. A utilização de marcadores de proliferação celular surge como um método bastante objetivo e de elevada especificidade na avaliação da atividade mitótica em neoplasias e a identificação de células em processo apoptótico mostra-se de elevada importância pois durante o crescimento tumoral existe um equilíbrio entre a proliferação e a morte celular, no qual, o processo de apoptose se encontra envolvido. O objetivo deste projeto consistiu na avaliação imunohistoquímica da atividade proliferativa e apoptose em carcinomas mamários caninos e no estudo da correlação entre ambos os eventos. Foi também estudada a associação entre os seus níveis de expressão com o tipo e grau histológico das lesões, assim como com os critérios histológicos utilizados pelo método de Nottingham para a gradação histológica dos carcinomas mamários. Este trabalho revelou um aumento gradual nos valores médios de positividade para o Ki- 67, partindo do tecido mamário normal e culminando nos carcinomas malignos de grau III. A Caspase-3 apresentou elevada imunoexpressão nas amostras de mama normal e, nos carcinomas, foi aumentando a sua expressão à medida que estes se tornavam mais indiferenciados. Para além disso, nos carcinomas foi possível observar que a marcação com o Ki-67 e com a Caspase-3 estava associada de forma estatisticamente significativa com o grau histológico, pleomorfismo nuclear e índice mitótico mas não com o tipo histológico e com a formação tubular. Foi possível constatar que tumores com maior atividade proliferativa apresentam, também, um maior número de células em apoptose. Outro dos objetivos propostos para este período de estágio consistiu na aquisição de competências práticas no domínio da patologia veterinária e na realização do diagnóstico histopatológico, mediante o acompanhamento da rotina do Laboratório de Patologia Veterinária do ICBAS. vi ÍNDICE ! ! AGRADECIMENTOS .................................................................................................................. III! LISTA DE ABREVIATURAS ........................................................................................................ IV! RESUMO ...................................................................................................................................... V! INTRODUÇÃO/REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ................................................................................ 1! NEOPLASIAS MAMÁRIAS EM CADELAS ............................................................................... 1! PROLIFERAÇÃO CELULAR E KI-67 ........................................................................................ 2! APOPTOSE E CASPASE-3 ...................................................................................................... 4! MATERIAL E MÉTODOS ............................................................................................................. 6! RESULTADOS ............................................................................................................................. 9! CLASSIFICAÇÃO HISTOPATOLÓGICA .................................................................................. 9! GRAU HISTOLÓGICO ............................................................................................................ 10! IMUNOEXPRESSÃO DO KI-67 E DA CASPASE-3 EM TECIDO MAMÁRIO CANINO ........... 10! IMUNOEXPRESSÃO DO KI-67 .............................................................................................. 10! Tecido mamário normal ....................................................................................................... 10! Neoplasias malignas ........................................................................................................... 11! IMUNOEXPRESSÃO DA CASPASE-3 ................................................................................... 13! Tecido mamário normal ....................................................................................................... 13! Neoplasias malignas ........................................................................................................... 14! DISCUSSÃO .............................................................................................................................. 15! PERSPETIVAS FUTURAS ......................................................................................................... 22! ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NO DECORRER DO ESTÁGIO CURRICULAR ................... 23! BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................... 24! 1 INTRODUÇÃO/REVISÃO BIBLIOGRÁFICA NEOPLASIAS MAMÁRIAS EM CADELAS Os tumores mamários são a neoplasia mais frequente em cadelas (Engingler et al. 2013; Beck et al. 2013; Pawlowski et al. 2013) e representam, aproximadamente, 50% de todas as neoplasias nesta população animal (Sorenmo 1998). A maioria das neoplasias da glândula mamária das cadelas são de origem epitelial e cerca de metade são malignas (Bostock 1986). A maioria afeta cadelas com idade entre os 8 e os 10 anos (Queiroga & Lopes 2002), sendo rara a sua ocorrência em cadelas com idade inferior a 4 anos (Lana et al. 2007). Os tumores mamários caninos (TMC) apresentam características similares aos tumores de mama da mulher (Matos et al. 2012; Pinho et al. 2012) mas a taxa de incidência entre cadelas apresenta-se três vezes superior (Egenvall et al. 2005; Pawlowski et al. 2013). A ocorrência destas neoplasias é reduzida através da prática de ovariohisterectomia (OVH) em cadelas jovens, especialmente se realizada antes da maturidade sexual ser atingida (Jones et al. 1997; Sorenmo et al. 2000). No entanto, este efeito protetor que a OVH exerce sobre o desenvolvimento dos TMC desaparece ou torna-se mais atenuado quando a cirurgia é realizada em cadelas com mais de dois anos e meio de idade (Rutteman & Kirpensteijn 2003; Sorenmo et al. 2000). A OVH em idades mais tardias parece não afetar o desenvolvimento de tumores mamários malignos, no entanto, parece haver uma redução no número de tumores benignos (Lana et al. 2007; Misdorp 2002; Rutteman & Kirpensteijn 2003). A invasão tumoral e metastização são as principais causas de mortalidade em mulheres com cancro de mama (Walker et al. 1997) e em cadelas com tumores mamários malignos (Lana et al. 2007; Santos et al. 2011). A formação de metástases pode observarse a nível regional (nos gânglios linfáticos regionais) ou pode ocorrer disseminação sistémica, ocorrendo por via linfática ou sanguínea. Do ponto de vista clínico, os TMC podem ter uma apresentação muito variável. Os TMC podem ser únicos ou múltiplos, envolvendo uma ou mais glândulas mamárias em simultâneo. Estas neoplasias podem surgir como pequenos nódulos não infiltrativos ou como nódulos de elevadas dimensões por vezes ulcerados, com aderências aos planos mais profundos e com sinais de metastização ganglionar e/ou metastização à distância. (Pérez-Alenza et al. 2000; Hellmén et al. 1993). Esta variabilidade na apresentação clínica é acompanhada por semelhante variedade a nível histológico. Existem vários sistemas de 2 classificação de neoplasias mamárias propostos por diferentes autores, cada um com as suas fundamentações. Clinicamente, a importância do sistema de classificação histológica reside na sua capacidade de prever o comportamento biológico de determinado tumor (Sarli et al. 2002). Atualmente, o sistema de classificação histológica consensualmente mais utilizado é o proposto pela OMS. Este sistema organiza os tumores em quatro grandes grupos: tumores malignos, tumores benignos, tumores não classificados e hiperplasias/displasias mamárias. Os tumores malignos dividem-se em carcinomas não infiltrativos (in situ), carcinomas complexos, carcinomas simples, carcinomas de tipo especial, sarcomas, carcinossarcomas e carcinomas ou sarcomas em tumores benignos (Misdorp et al. 1999). Os carcinomas (tumores de origem epitelial) apresentam-se como os tumores malignos mais comuns em cadelas. Dentro dos carcinomas, os carcinomas simples, constituídos por apenas um tipo celular, são aqueles que registam maior frequência, (Misdorp et al. 1999; Lana et al. 2007) podendo ser divididos em três tipos: tubulopapilares, sólidos e anaplásicos (Misdorp et al. 1999). Estes tumores têm tendência a infiltrar os tecidos e vasos circundantes (Misdorp 2002). Os carcinomas complexos distinguem-se dos simples por envolverem a componente epitelial luminal mas também a mioepitelial (Misdorp et al. 1999). Os carcinomas de tipo especial são pouco frequentes. Os sarcomas mamários representam também uma baixa proporção de casos (10 a 15 %) e estão descritos como sendo os tipos histológicos de pior prognóstico (Else & Hannant 1979; Hellmén et al. 1993; Sorenmo 2003). Os carcinossarcomas são neoplasias extremamente raras constituídas por componente epitelial (carcinomatosa) e por tecido mesenquimatosa (sarcomatosa) (Lana et al. 2007). PROLIFERAÇÃO CELULAR E KI-67 Durante a carcinogénese é possível reconhecer determinadas características essenciais para que ocorra transformação celular, todas elas interligadas e que devem ser entendidas de forma integrada: aquisição de sinalização proliferativa autónoma, resistência à apoptose, inibição dos supressores de crescimento, potencial replicativo ilimitado, capacidade de invasão e metastização e de angiogénese (Hanahan et al. 2000). Os tecidos normais têm a capacidade de controlar meticulosamente a produção e libertação de sinais promotores de crescimento que possam induzir a progressão no ciclo celular, assegurando assim o controlo do número de células e portanto a manutenção da arquitetura e função habitual. Os mecanismos de controlo da proliferação celular são profundamente alterados no decorrer do processo de transformação neoplásica, 3 verificando-se que as células tumorais adquirem capacidade de manter uma proliferação crónica e desregulada (Hanahan et al. 2011). A avaliação da proliferação celular tem-se mostrado útil para a previsão do comportamento biológico e potencial malignidade dos tumores (Sarli et al. 2002). Os métodos de IHQ são os mais utilizados na sua avaliação pois esta insere-se num contexto morfológico, o que permite identificar facilmente a população tumoral e diferenciá-la dos tecidos normais adjacentes, obtendo-se assim informações mais precisas acerca da atividade cinética exclusiva das células neoplásicas. A taxa de proliferação determinada por IHQ pode também ser importante na determinação da susceptibilidade do tumor à quimioterapia, uma vez que a maioria dos fármacos antineoplásicos atua em células que se encontram em divisão celular. Tumores com alto índice proliferativo são mais sensíveis a estes fármacos (Abadie et al. 1999). Quanto maior a atividade proliferativa de um tumor, pior será o seu comportamento biológico (Weidner et al. 1994). O crescimento de uma massa tumoral deve-se, não só ao aumento da taxa de proliferação, mas também à diminuição da taxa de morte celular, podendo esta resultar da diminuição de células em apoptose (Carson & Ribeiro 1993; González-Cámpora et al. 2000). O anticorpo anti-Ki-67 é um dos principais marcadores imunohistoquímicos utilizados para avaliar a atividade proliferativa de um tumor (Dias Pereira et al. 2004) e existem evidências de que a sua marcação apresenta boa correlação com outros marcadores de proliferação celular (Hall et al. 1990). O anticorpo monoclonal anti-Ki-67 descrito inicialmente por Gerdes et al. (1993) era utilizado apenas em cortes histológicos congelados ou centrifugados. A pesquisa da proteína Ki-67 em tecidos fixados em formol e incluídos em parafina começou a ser realizada com a introdução do anticorpo monoclonal MIB-1 que reconhece o epítopo do antigénio Ki-67 (Lee et al. 2004; Cattorretti et al. 1992). O Ki-67 é um marcador capaz de reconhecer uma proteína nuclear com peso molecular de 345 a 395 kDa (Gerdes et al. 1983; Ermiah et al. 2012) cuja expressão está associada à proliferação celular, encontrando-se presente durante as fases ativas do ciclo celular (G1, S, G2 e M) e estando ausente nas células quiescentes (G0) (Gerdes et al. 1983). O Ki-67 começa a ser expresso na fase S, aumentando a sua expressão durante as fases S e G2, tendo o seu nível mais elevado durante a mitose. Após a divisão, as células retornam à fase G1 e o nível de Ki-67 diminui progressivamente (Gerdes et al. 1983). Valores aumentados de Ki-67 têm correlação positiva com metástases, morte devido à neoplasia e menor esperança de vida (Peña et al. 1998). O anticorpo anti-Ki-67 é um marcador imunohistoquímico seguro, rápido e surge como um bom indicador do grau de agressividade tumoral. Vários autores referem o Ki-67 10 Diagnóstico Histopatológico Nº de casos Mama normal 5 Carcinoma tubulopapilar 24 Carcinoma sólido 18 Carcinoma anaplásico 3 Metástases ganglionares 14 Tabela 3. Diagnóstico histopatológico das amostras de tecido mamário canino, segundo os critérios definidos pela OMS (Misdorp, 1999). GRAU HISTOLÓGICO Dos 45 carcinomas mamários caninos incluídos neste estudo 14 (31,1%) foram classificados como de grau I, 16 (35,6%) foram classificados como de grau II e 15 (33,3%) como de grau III (tabela 4). As metástases ganglionares incluídas neste estudo eram provenientes dos carcinomas de grau III. Grau Histológico Tipo Histológico Nº de casos Grau I Grau II Grau III Carcinoma Tubulopapilar 24 11 9 4 Carcinoma Sólido 18 3 6 9 Carcinoma Anaplásico 3 0 1 2 Total 45 14 16 15 Tabela 4. Distribuição do número de casos em função do tipo e grau histológico dos carcinomas mamários. IMUNOEXPRESSÃO DO KI-67 E DA CASPASE-3 EM TECIDO MAMÁRIO CANINO IMUNOEXPRESSÃO DO KI-67 Tecido mamário normal No tecido glandular mamário normal verificou-se que a imunoreatividade ao anticorpo MIB-1 era reduzida, variando entre 0,4 e 4,1%, com um valor médio de 2,34% (±1,58DP). A marcação ocorreu principalmente a nível do epitélio luminal, concentrando-se nas estruturas alveolares, sendo menos frequente a nível ductal (Figura 1). 11 Neoplasias malignas Verificou-se que a imunoreatividade ao anticorpo MIB-1 variava entre 3,1 % e 42,9 %, tendo sido registado um valor médio de 21,2 % (±9,94DP). (Tabela 5) As diferenças na atividade proliferativa dos diversos tipos histológicos de carcinoma foram discretas (Figura 2 e 3); efetivamente, nos carcinomas tubulopapilares (CTP) obtevese um valor médio de 19,95% (±2,05DP), nos carcinomas sólidos (CS) de 22,46% (±2,37DP) e nos anaplásicos (CA) de 24,33% (±5,81DP). Já nos diversos graus histológicos pôde observar-se algumas diferenças consideráveis; nos carcinomas de Grau Figura 3. CS de grau I (100x). Marcação da população epitelial com o anticorpo MIB-1. Figura 2. CTP de grau I (100x). Marcação da população epitelial com o anticorpo MIB-1. Figura 1. Glândula mamária normal (200x). Marcação nuclear do MIB-1 presente nas células epiteliais luminais. 12 I a atividade proliferativa registou um valor médio de 14,37% (±2,31DP), nos carcinomas de Grau II de 21,64% (±2,16DP) e nos de Grau III de 27,23% (±2,23DP) (Figura 4). Figura 4. CS de grau III (200x). Elevada marcação da população epitelial com o MIB-1. Diagnóstico MIB-1 (%) Média ± Desvio padrão Intervalo de variação Caspase-3 (células por campo) Média ± Desvio padrão Intervalo de variação Mama Normal 2,34±1,58 (0,4-4,1) 6,42±7,38 (2,5-19,6) CTP 19,95±2,05 (3,1-42,9) 3,67±0,42 (0,4-6,7) CS 22,46±2,37 (9,7-40,1) 3,56±0,52 (0,5-7,7) CA 24,33±5,81 (6,2-29,3) 4,27±1,16 (3,1-6,2) Grau I 14,37±2,31 (3,1-25,2) 2,4±0,45 (0,4-6,6) Grau II 21,64±2,16 (9-37,6) 3,76±0,42 (0,5-6,7) Grau III 27,23±2,23 (11,2-42,9) 5,15±0,51 (1,4-7,7) Tabela 5. Avaliação da atividade proliferativa e apoptose do tecido mamário canino normal e neoplásico, através da expressão dos anticorpos MIB-1 e Caspase-3. Em nove das catorze metástases ganglionares observadas (64,29%), foi possível observar uma diminuição da fração de células neoplásicas marcadas para o MIB-1 relativamente aos valores encontrados nos respetivos tumores primários; nas restantes 13 cinco (35,71%) houve um aumento no número de células neoplásicas marcadas, comparativamente ao tumor primário (Figura 5 e 6). IMUNOEXPRESSÃO DA CASPASE-3 Tecido mamário normal Nas amostras de tecido mamário normal, verificou-se que a imunoreatividade à Caspase-3 variou entre 3 e 19,6 células por campo, com um valor médio de 6,42 (±7,38DP). A marcação, que interessava o epitélio luminal e as células mioepiteliais, concentrava-se nas estruturas alveolares (Figura 7). Figura 7. Glândula mamária normal (200x). Marcação com o anticorpo anti-active caspase-3. Figura 5. Tumor primário: CTP de grau III (200x). Marcação da população epitelial com o anticorpo MIB-1. Figura 6. Metástase ganglionar do carcinoma da figura 5 (40x). Observou-se número de células marcadas superior à lesão original. Marcação com o anticorpo MIB-1. 14 Neoplasias malignas Nos carcinomas avaliados verificou-se que a imunoreatividade à Caspase-3 variava de 0,4 a 7,7 células/campo, tendo-se registado um valor médio de 3,67 células/campo (±1,97DP). As diferenças na apoptose dos diversos tipos histológicos de carcinoma foram muito ténues; nos CTP obteve-se um valor médio de 3,67 células/campo (±0,42DP), nos CS de 3,56 células/campo (±0,52DP) (Figura 8) e nos CA de 4,27 células/campo (±1,16DP). Relativamente ao grau histológico, foi possível observar que os carcinomas de Grau I apresentavam um valor médio de células em apoptose de 2,4 células/campo (±0,45DP), os carcinomas de Grau II de 3,76 células/campo (±0,42DP) e os de Grau III de 5,15 células/campo (±0,51DP) (Figura 8). Figura 8. CS de grau III (400x). Marcação elevada da caspase-3 nas células epiteliais luminais. Nas catorze metástases ganglionares de carcinomas analisadas, sete casos (50%) registaram uma diminuição da fração de células neoplásicas marcadas para a caspase-3 relativamente aos valores encontrados nos respetivos tumores primários (Figura 9 e 10); as restantes sete metástases observadas registaram um aumento da fração neoplásica comparativamente ao tumor primário. 15 DISCUSSÃO A avaliação da atividade proliferativa é de extrema importância para a compreensão do comportamento biológico dos carcinomas e para prever o comportamento clinicopatológico e evolução dos tumores (Xiao et al. 2013). O MIB-1 é um dos marcadores mais estudados na carcinogénese mamária. Este anticorpo monoclonal reconhece o epítopo do antigénio Ki-67 em tecidos fixados em formol e incluídos em blocos de parafina (Cattorretti et al. 1992). Nos últimos anos, vários estudos forma realizados sobre o processo de apoptose e a sua associação com o crescimento e progressão tumoral (Soini et al. 1998). A apoptose, sendo um processo de morte celular programada, é um mecanismo perfeitamente regulado responsável por remover células que se encontrem danificadas ou disfuncionais. Na presença de sinais que evidenciem que possa existir danos celulares, as caspases são ativadas tendo como objetivo final a eliminação da célula danificada. A caspase-3 é um membro desta família de proteases e está presente numa variedade de tecidos, incluindo a glândula mamária (Hadjiloucas et al. 2001). A avaliação da apoptose é, portanto, de grande interesse para a análise da cinética tumoral, do comportamento biológico das lesões e prognóstico da doença clínica (Maciorowski et al. 2001; Schöndorf et al. 2004). Neste sentido decidiu-se investigar a atividade proliferativa e a apoptose em carcinomas mamários caninos através do estudo da expressão imunohistoquímica do Ki- 67 e da Caspase-3. Relativamente à atividade proliferativa, os resultados obtidos com este trabalho revelaram um aumento gradual nos valores médios de marcação para o MIB-1, partindo do tecido mamário normal e culminando nos carcinomas de grau III. No tecido mamário normal foi possível verificar que a atividade proliferativa era reduzida nas células epiteliais luminais e mioepiteliais, à semelhança dos resultados Figura 9. Tumor primário: CA de grau III (100x). Marcação elevada da caspase-3. Figura 10. Metástase ganglionar de CA (100x). Observou-se um número inferior de células marcadas com a caspase-3 relativamente ao tumor primário. 16 apresentados em estudos similares (Faustino 1999; Geraldes et al. 2000). Num dos casos estudados, a imunoreatividade ao anticorpo MIB-1 foi extremamente reduzida (0,4%), o que poderá estar relacionado com as variações descritas na atividade proliferativa no decorrer das diferentes fases do ciclo éstrico (Rudland 1991). Era possível observar involução marcada das estruturas ductais (Figura 11) e alveolares da glândula, diminuição da espessura do epitélio ductal, colapso dos alvéolos (Figura 12), passagem de células epiteliais para o lúmen alveolar, vacuolização epitelial e diminuição da atividade proliferativa. Todas estas características estão descritas como sendo específicas de uma fase de regressão do ciclo éstrico da cadela, mais concretamente do anestro em fase inicial (Santos et al. 2010). Nos restantes casos, a marcação apresentava valores ligeiramente superiores e concentrava-se nas estruturas alveolares, à semelhança de outros estudos elaborados anteriormente (Rudland 1991; Russo et al. 1999). Foram realizadas comparações entre a atividade proliferativa nos diferentes graus e tipos histológicos de carcinoma mamário canino, cujos resultados se encontram sumariados na tabela 6. Figura 11. Glândula mamária normal (100x). Involução marcada dos ductos. HE Figura 12. Glândula mamária normal (200x). Colapso alveolar. HE 17 Parâmetro Contraste ± Erro-Padrão (%) Carcinoma Grau II vs Carcinoma Grau I 7,27±3,17* Carcinoma Grau III vs Carcinoma Grau I 12,86±3,22** Carcinoma Grau III vs Carcinoma Grau II 5,60±3,11 Carcinoma sólido vs Carcinoma tubulopapilar 2,51±3,14 Carcinoma anaplásico vs Carcinoma tubulopapilar 4,39±6,16 Carcinoma anaplásico vs Carcinoma sólido 1,88±6,27 Tabela 6. Diferença e significância estatística entre a atividade proliferativa (percentagem de células marcadas com o anticorpo MIB-1) nos diferentes graus e tipos histológicos de carcinomas mamários caninos. *p<0,05 **p<0,01 Os carcinomas tubulopapilares, sólidos e anaplásicos apresentavam um índice de proliferação médio de 19,95%, 22,45% e 24,33%, respetivamente. Não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa (p=0,63) entre a atividade proliferativa e o tipo histológico dos carcinomas estudados, à semelhança de estudos realizados anteriormente em carcinomas mamários de gatas (Dias Pereira et al. 2003) e de cadelas (Santos et al. 2013). Estes resultados demonstram que provavelmente, a forma como as células se organizam num tumor não depende da sua capacidade de proliferar. Foi possível estabelecer uma associação estatisticamente significativa (p=0,001) entre a atividade proliferativa e o grau histológico dos carcinomas, tal como em estudos anteriores realizados em carcinomas mamários caninos (Matos et al. 2006). Foi também possível verificar que a atividade proliferativa dos carcinomas de grau I (tumores bem diferenciados) era significativamente inferior (p=0,02) à dos carcinomas de grau II (tumores moderadamente diferenciados) e de grau III (tumores pouco diferenciados) (p=0,0003). Não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa entre a atividade proliferativa dos tumores de grau II e os tumores de grau III (p=0,0792), sugerindo que não existem diferenças suficientes na capacidade de proliferação dos carcinomas analisados para os separar em graus distintos. Foi também avaliada a relação entre a marcação imunohistoquímica com o Ki-67 e os diferentes critérios morfológicos tidos em conta no método de Nottingham (Elston & Ellis 1996): formação tubular, pleomorfismo nuclear e número de mitoses em 10 campos de grande ampliação. Os resultados encontram-se sumariados na tabela 7. 18 Critérios utilizados no método de Nottingham Ki-67 Contraste±Erro-Padrão Caspase-3 Contraste±Erro-Padrão Túbulos Pontuação 2 vs Pontuação 1 5,92±4,47 1,33±0,90 Pontuação 3 vs Pontuação 1 8,90±4,67 1,58±0,95 Pontuação 3 vs Pontuação 2 2,98±3,18 0,25±0,67 Pleomorfismo Nuclear Pontuação 2 vs Pontuação 1 5,88±3,51 1,87±0,68 Pontuação 3 vs Pontuação 1 11,61±3,97** 2,64±0,79 Pontuação 3 vs Pontuação2 5,73±3,30* 0,77±0,68 Mitoses Pontuação 2 vs Pontuação1 6,86±3,33* 0,86±0,65 Pontuação 3 vs Pontuação 1 9,54±3,39** 2,22±0,73** Pontuação 3 vs Pontuação 2 2,68±3,44 1,37±0,74 Tabela 7. Diferença e significância estatística entre a atividade proliferativa e apoptótica nos 3 parâmetros utilizados no Método de Nottingham. *p<0,05 **p<0,01 Não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa (p=0,17) entre a atividade proliferativa e a formação de túbulos. Em relação ao pleomorfismo nuclear foi possível verificar que existe uma associação estatisticamente significativa (p=0,02) entre a atividade proliferativa e este critério histológico. Foi verificado que a atividade proliferativa dos carcinomas constituídos por células com núcleos pequenos e uniformes (1) era significativamente inferior (p=0,005) à dos carcinomas constituídos por células que apresentavam elevada variabilidade na dimensão e forma dos núcleos (3). Figura 13. CTP de grau III com elevado pleomorfismo nuclear (200x). HE Figura 14. Marcação pelo MIB-1 de CS de grau III com elevado pleomorfismo nuclear (200x). 19 Por último, considerando o número de mitoses, foi possível confirmar que existia uma associação estatisticamente significativa (p=0,02) com a atividade proliferativa dos carcinomas determinada por imunohistoquímica, sugerindo que tanto o método de Nottingham como o estudo IHQ representam procedimentos válidos para inferir acerca da capacidade de proliferação de um tumor. Para além disso, foi também possível verificar que a atividade proliferativa dos carcinomas avaliada por imunohistoquímica considerados de reduzido índice mitótico de acordo com o método de Nottingham (0-8 mitoses) era significativamente inferior (p=0,0458) à dos carcinomas de moderado índice mitótico (9-17 mitoses), assim como era também significativamente inferior (p=0,007) à dos carcinomas de índice mitótico elevado (>18 mitoses). No entanto, não foi possível estabelecer uma associação estatisticamente significativa entre os carcinomas de índice mitótico moderado e os de índice elevado. Relativamente à caspase-3 a marcação positiva foi pouco pronunciada nas áreas observadas quando comparada com o anticorpo anti-Ki-67. Foi possível constatar que a mama normal apresentava valores elevados de apoptose (6,42 células por campo). No entanto, este valor foi influenciado por um caso especial que apresentou uma média de 19,6 células por campo, revelando que várias células se encontravam em apoptose no momento em que a amostra foi colhida. Anteriormente este caso foi mencionado como tendo imunoreatividade extremamente reduzida ao anticorpo anti-Ki-67. Os achados encontrados, elevada apoptose e reduzida atividade proliferativa, reforçam a ideia de que a cadela em questão poderia encontrar-se numa fase inicial do anestro, devido à involução das estruturas alveolares e ductais glandulares e também às características regressivas proeminentes. Omitindo este caso, a mama normal apresentava um valor médio de 3,13 células por campo (±0,54DP) marcadas para a caspase-3. Em relação ao tipo histológico, os carcinomas tubulopapilares, sólidos e anaplásicos apresentavam contagens de células em apoptose de 3,67 células/campo, 3,56 células/campo e 4,27 células/campo, respetivamente. Tal como observado com o anticorpo MIB-1, também não foi possível associar estatisticamente (p=0,86) o tipo histológico com a marcação com a caspase-3 (Tabela 8). Estes resultados demonstram que, provavelmente, os diferentes tipos histológicos de carcinomas apresentados são um grupo heterogéneo de neoplasias com índices apoptóticos distintos igualmente distribuídas entre os 3 grupos. 26 Hail JRN, Carter BZ, Konopleva M, Andreeff M (2006) Apoptosis effector mechanisms: A requiem performed in different keys. 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