scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Os Primeiros Testemunhos da Tradução Galego-Portuguesa do Romance Arturiano

Simona Ailenii

Full text

Simona Ailenii Os Primeiros Testemunhos da Tradução Galego-Portuguesa do Romance Arturiano Dissertação de Doutoramento em Literaturas e Culturas Românicas sob a Orientação do Professor Doutor José Carlos Ribeiro Miranda e do Professor Doutor Constantin Frâncu Faculdade de Letras da Universidade do Porto Faculdade de Letras da Universidade “Alexandru Ioan Cuza” de Iași 2012 ! 2! Iubi-Te-voi, Doamne, vîrtutea mea. Domnul este întărirea mea și scăparea mea și izbăvitorul meu. ! 3! Nota Prévia A viagem enquanto aluna Erasmus para as belíssimas longínquas terras lusitanas proporcionou-me em 2004 um encontro inesquecível com o Professor Doutor José Carlos Ribeiro Miranda no âmbito do Curso de Estudos Pós-Graduados da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Deste encontro resultou um longo e profícuo percurso de (in)formação em torno da literatura medieval ocidental. A sua dedicação e o seu rigor científico no estudo da literatura medieval ocidental veio ao encontro do meu entusiasmo pelo estudo dos testemunhos de literaturas e línguas românicas, que se concretiza neste trabalho, com o estudo da materialidade e da textualidade dos primeiros testemunhos da tradução galego-portuguesa do romance arturiano. Os meus agradecimentos são para ele, Professor Miranda, sempre paciente e disponível para esclarecer as minhas dúvidas, dando-me conselhos sábios e apoiandome como Orientador, mas também como amigo com quem sempre pude contar. Uma palavra de agradecimento vai igualmente para o meu Orientador da Universidade “Alexandru Ioan Cuza” de Iași, o Professor Doutor Constantin Frâncu, a quem devo o entusiasmo pelo estudo da história das línguas neolatinas. Agradeço a sua compreensão e apoio neste projecto ao longo dos anos com paciência e competência científica. Não poderia deixar de agradecer também à Professora Doutora Ana Sofia Laranjinha que seguiu sabiamente este trabalho linha a linha. Agradeço a sua dedicação e incessável disponibilidade para me ouvir, corrigir e acolher ao longo destes anos. Uma preciosa orientação com tino e doçura, cuja memória estará sempre presente. Uma palavra de agradecimento deve ser dirigida à Professora Outi Merisalo da Universidade de Jyväskylä, cuja disponibilidade em seguir e corrigir o meu trabalho em torno de questões de paleografia é memorável. Queria também agradecer ao Professor Doutor Alexandru Gafton, a quem devo a paixão pela paleografia. Agradeço a sua disponibilidade em fazer comentários certeiros quanto às minhas dúvidas ao longo destes anos, bem como a oportunidade de leccionar na Faculdade de Letras da Universidade “Alexandru Ioan Cuza” de Iași. Também queria agradecer aos meus colegas e amigos do Seminário Medieval, Literatura, Pensamento e Sociedade que contribuíram decisivamente para a ! 4! realização desta tese. Os longos seminários de doutoramento dirigidos pelo nosso Orientador, o Professor Miranda, proporcionando a partilha de medos, alegrias e reflexões científicas, serão gravadas na memória desta tese, bem como os nomes dos seus participantes, a Professora Maria do Rosário Ferreira a quem sempre agradecerei as críticas certeiras e sorriso encorajador, Isabel Correia a quem não poderia esquecer de agradecer a disponibilidade de me corrigir e animar, Rafaela Silva, a quem sempre agradecerei a amizade e partilha da fé, Rita Braga, a quem sempre agradecerei a leitura meticulosa do meu trabalho, Mariana Leite, Joana Gomes, Elsa Vieira e Filipe Morreira a quem não deixaria de agradecer a amizade, apoio amigo e partilha de reflexões em torno deste trabalho e de vida. Também queria agradecer os ensinamentos pacientes e marcantes, principalmente no início do processo, das Professoras Doutoras Fátima Marinho, Clara Barros e Fátima Outeirinho da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Outro agradecimento em especial para a Professora Cristina Marinho da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, cujo apoio, inestimável compreensão e atenção paciente foram tão importantes quando dava ainda os primeiros passos na investigação. Uma justa palavra de agradecimento deve ser dirigida à minha amiga Marta Afonso, tanto apoio profissional e amigo e tanta disponibilidade em seguir igualmente linha a linha este trabalho, corrigir, animar e partilhar dúvidas, ansiedades e alegrias que me impediram, também, de desistir em muitos momentos difíceis. Também agradeço aos pais da Marta Afonso o caloroso acolhimento de muitas tardes de domingo. Há ainda outras pessoas cuja presença na minha vida ao longo deste percurso teve um imensurável contributo para esta tese. Assim, aos meus amigos, Elena Gott, Fátima Teixeira, Roman e Irina Chertovskih, Paula Barbosa, Laura Bădescu, Brîndușa Grigoriu, Feodor Stoicev, agradeço as palavras de amizade e confiança em mim. Agradeço também à minha prima Paula Ciocârlău e ao meu amigo Nelson Bandeira o empenho na leitura atenta de inúmeras tabelas desta tese. Aos meus pais agradeço os irmãos que me deram. Finalmente, ao Rui, cuja presença na minha vida faz toda a diferença, agradeço a paciência e o sorriso, sem os quais este trabalho teria sido muito mais árduo em muitos momentos. ! 5! Devo à Fundação para a Ciência e a Tecnologia o apoio financeiro para poder realizar esta dissertação, deslocar-me a bibliotecas e arquivos onde pude consultar e estudar vários manuscritos medievais, bem como participar em vários congressos da especialidade. ! 6! Introdução A matéria arturiana representa uma página muito significativa na história da literatura e da língua em romance e, já desde o século XIX, se tem reflectido sobre o papel fulcral que os romances arturianos desempenharam também no conhecimento do mundo medieval. Esta matéria narrativa configura-se nas primeiras duas décadas do século XIII como uma organização cíclica em prosa designada por Ciclo da Vulgata. Este conjunto cíclico conhece, entre 1230-1240, uma versão expandida ou condensada, de acordo com diferentes estudiosos que se debruçaram sobre o problema, designada por Pseudo Robert de Boron. Originário de solo francês, o romance arturiano conta desde a segunda metade do século XIII com expressões transpirenaicas. A Península Ibérica será o primeiro berço das traduções da matéria arturiana e os testemunhos preservados atestam também versões em três línguas: galego-português, castelhano e catalão. Este trabalho propõe-se realizar um estudo interdisciplinar dos primeiros testemunhos da tradução galego-portuguesa do romance arturiano conservados nos arquivos e nas bibliotecas hispânicas — os fragmentos da Estória do Santo Graal, do Livro de Merlin e do Livro de Tristan que chegaram até nós. Para avançar solidamente neste estudo, considerámos oportuno a análise pormenorizada da sua materialidade física e textual. O carácter arcaico dos textos arturianos transmitidos nas traduções galegoportuguesas tem sido debatido com base em testemunhos tardios (a Demanda portuguesa, o Livro de José de Arimateia), que revelam um substrato de língua muito antigo (Nunes, 1908, Castro, 1984). Ora, a confirmação deste pressuposto veio com a descoberta, como veremos, de alguns dos manuscritos literários mais antigos em galego-português, que atestam um estado da língua literária muito antigo, configurando-se como os mais antigos testemunhos do ciclo do Pseudo Robert de Boron. O nosso trabalho está dividido em quatro partes. As primeiras duas partes centram-se na descrição do suporte material dos testemunhos e as últimas duas no estudo do texto destes testemunhos. Devido ao paradeiro desconhecido durante décadas do manuscrito do Livro de Tristan, a primeira parte inclui uma descrição codicológica completa de apenas dois ! 7! testemunhos, ou seja, do manuscrito da Estória do Santo Graal, que será referido como manuscrito de Santo Tirso (ST), conservado no Arquivo Distrital do Porto (ms. NOT / CNSTS 01 / 001 / 0012) e do manuscrito do Livro de Merlin, conservado na Biblioteca da Catalunha (ms. 2434), referido como manuscrito da Catalunha (LM). Todavia, em relação ao manuscrito do Livro de Tristan, é necessário referir que, infelizmente, tomámos conhecimento da notícia da sua redescoberta através da BITAGAP e do portal do Arquivo Histórico Nacional de Madrid num momento posterior ao trabalho já realizado em torno de descrição codicológica e paleográfica. Assim sendo, a parte dedicada a questões de codicologia inclui, no que diz respeito a este manuscrito, apenas a descrição de itens observáveis através das imagens disponibilizadas pelo Arquivo Histórico Nacional de Madrid, onde se conserva. Em relação à descrição paleográfica do manuscrito, baseamo-nos, na medida do possível, no fac-símile incluído na edição de Pensado Tomé de 1962. Na segunda parte, ocupamo-nos da descrição paleográfica dos testemunhos medievais. Esta parte divide-se em quatro capítulos. Os primeiros três capítulos debruçam-se sobre a descrição paleográfica de cada um dos três testemunhos arturianos. No quarto capítulo, propomos um estudo paleográfico comparativo entre seis documentos do scriptorium de D. Dinis e o manuscrito BC, 2434 (Livro de Merlin). Tendo disponíveis para a análise documentos régios datados, localizados e assinados, considerámos relevante levar a cabo um estudo paleográfico comparativo, no sentido de adiantar hipóteses sobre o lugar de produção e até o possível responsável da cópia do códice arturiano. Não pretendemos, contudo, com este estudo, realizar uma abordagem exaustiva desta questão, mas apenas chamar a atenção para a possível relação entre a produção documental e librária coeva e incentivar futuras investigações mais específicas e detalhadas, baseadas num corpus mais vasto. Assim, nas duas secções iniciais em que se descreve o suporte material dos primeiros testemunhos da tradução galego-portuguesa do romance arturiano e a representação física do texto traçado, tentámos iluminar o percurso destes testemunhos ao longo dos séculos. O estudo das características da letra e o seu enquadramento na tipologia da escrita gótica no momento em que esta alarga o âmbito do seu uso no Reino de Portugal constitui um outro objectivo deste trabalho. ! 8! A terceira parte desta dissertação dedica-se às questões de collatio. Esta parte divide-se, igualmente, em três capítulos que tratam o problema da colação entre os primeiros testemunhos galego-portugueses do romance arturiano e os correspondentes da tradição textual francesa. O primeiro capítulo incide sobre a tradução galegoportuguesa da Estória do Santo Graal transmitida em dois testemunhos, um datado dos finais do século XIII-inícios do século XIV e outro do século XVI, comparando-os com dois correspondentes franceses (trata-se do manuscrito editado por Oskar H. Sommer (1909), que transmite a redacção breve e o editado por Jean-Paul Ponceau (1997), que representa a redacção mista da Estoire del Saint Graal). No segundo capítulo desta terceira parte, propõe-se a análise comparativa entre a tradução galego-portuguesa do Livro de Merlin, que se conserva em testemunho único (eds. Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António, 2001), e o texto correspondente em três testemunhos da tradição francesa. Trata-se do ms. Add. 7071 de Cambridge University (trans. Amadeu-J. Soberanas, 1979), do ms. Huth (ed. Gilles Roussineau, 1996) e do ms. BNF, fr. 112 (ed. Gilles Roussineau, 1996). O terceiro capítulo debruça-se sobre o caso da tradução galego-portuguesa do Livro de Tristan (eds. Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António, 2001), em comparação com cinco testemunhos da tradição textual francesa, a saber, os mss. BNF, fr. 99, fr. 750, fr. 756; 2542, Viena (ed. Philippe Ménard, 1987) e 404, Carpentras (ed. Renée Curtis, 1963-1985). Na última parte do nosso trabalho, dividido em quatro capítulos, abordamos o processo de tradução. Nos primeiros três capítulos, comparam-se os três textos traduzidos em galego-português com o texto/modelo francês representado pelos mesmos textos utilizados na análise de collatio, distinguindo-se um conjunto de técnicas e procedimentos de tradução (ausência, amplificação, reformulação, adaptação, modificação estrutural) que será apresentado em função de cada texto. Um quarto capítulo trata de casos comuns aos três textos galego-portugueses e/ou casos afins nos textos franceses e com soluções distintas de tradução nos galegoportugueses (expressão idiomática com cariz religioso, formas de tratamento social, “travailliez et si navres”, “compaignons”, “grant piece” / “granment”, “meismes”, “on”, “morteus home”). O estudo de colação, na terceira parte, pretende mostrar a relação entre os testemunhos galego-portugueses e os correspondentes da tradição textual francesa, ! 9! evidenciando a antiguidade do texto que se transmite no primeiro, segundo o caso, e a configuração da fonte francesa que originou a tradução peninsular. Com o estudo de tradução pretendemos ainda ilustrar as possibilidades da língua de chegada de exprimir os conteúdos da língua de partida, as características individuais dos três textos traduzidos em galego-português, bem como delinear o(s) perfil(s) do tradutor e o seu comportamento perante o seu modelo. 16 na fase de preparação do próprio códice porque, na superfície do pergaminho que ocupa, se encontra texto redigido escondido. Por outro lado, a forma como se encontra o documento notarial, que o bifólio em pergaminho encadernava, não indica sinais de utilização do respectivo nó neste conjunto material. Por isso, é difícil vislumbrar a verdadeira funcionalidade deste elemento auxiliar. Tratar-se-á provavelmente de um indício de um percurso intermédio do próprio bifólio, entre a fase em que se integrava no códice arturiano e a fase em que serviu de encadernação ao documento notarial oriundo do cartório notarial de Santo Tirso. Descrição interna 2. Incipit. [f. 1r] osta m[...] de que podya. E ffezeralhe hũa camara | per tam grã soteleza ... [f. 2r] tẽ […]g[…] [...] [...] […] | […] […] [...] […] | onde nõ pode ho[…] [...] […] | […]aue nõ ousa de pass[…] […] | parte podyã [...] […] […] | yto de Ssiujlha Aquel […] […] | uos uydes ... 3. Explicit. [f. 1v] Er[…]ã[…] [...] ey [...] | disse ermo[…] aquele [...] e por Deus | [….]guntar que he Ca ey [...] […] […] | [f. 2v] Ca eu querya auer tẽpo e logar | de ffalar cõtjgo e de sser em tua cãpanha | E sse tu nõ quiseres rreçear mjnha cõpa | 5. Observações sobre o conteúdo. Trata-se de alguns episódios — a destruição do objecto idólatra, a cristianização do rei Mordão e do seu povo, várias experiências oníricas do rei Mordão — da primeira parte da tradução galego-portuguesa do ciclo do Pseudo-Robert de Boron, a Estória do Santo Graal, também designada por Livro de José de Arimateia. Mais exactamente, esta matéria corresponde à parte final do capítulo 57, ao capítulo 58 integral, ao início do capítulo 61, ao capítulo 62 integral e ao início do capítulo 63 do manuscrito 643 quinhentista do Arquivo Nacional da Torre do Tombo que transmite integralmente a Estória do Santo Graal. Os parágrafos do manuscrito tirsense são marcados apenas por 17 uma capital de cor vermelha, mas sem corresponder às rubricas do texto contido no manuscrito lisboeta. 6. Datação. Finais do século XIII-início do século XIV10. 7. Historial. 7.2 Antigos possuidores ou procedência O trabalho do aluno Nuno Garcia Guina11, realizado em 1992, no âmbito da Disciplina de Codicologia do Instituto de Paleografia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sob a responsabilidade do Professor Doutor Saul António Gomes, apresenta um levantamento de manuscritos encontrados em capas de livros notariais dos fundos dos cartórios de Santo Tirso e de Penafiel conservados no Arquivo Distrital do Porto. No respectivo levantamento, o autor identifica vários fragmentos de pergaminho servindo de encadernação para documentos notariais. A pedido do Professor Saul António Gomes, Aida Fernanda Dias analisou as fichas codicológicas com informação geral sobre o material recolhido pelo autor, informação que diz respeito à datação do livro notarial, ao nome do notário, à tipologia do texto que o respectivo pergaminho contém, à língua do texto do pergaminho, ao tipo de letra, ao formato do texto, à datação do próprio pergaminho, às dimensões do pergaminho e à legibilidade do texto. Assim, quanto ao manuscrito em análise, o autor fornece os seguintes dados codicológicos: a datação do livro notarial (1632), o nome do notário (João da Costa), a tipologia do texto que o respectivo pergaminho contém (Literário — Crónica (Real) ?), a língua do texto do pergaminho (português), o tipo da letra (gótica), uma sucinta 10 Ver também Philobiblon, BITAGAP / Bibliografia de Textos Antigos Galegos e Portugueses, Manid 3747: http://ucblibrary4.berkeley.edu:8088/saxon/SaxonServlet?source=BITAGAP/Display/3747MsEd.xml&st yle=BITAGAP/templates/MsEd.xsl (29.III.2012). Ver também os trabalhos de Dias, Aida Fernanda (2003-2006), “A matéria da Bretanha em Portugal: relevância de um fragmento pergamináceo”, Revista Portuguesa de Filologia, Miscelânea de estudos in memoriam José G. Herculano de Carvalho, Coimbra, vol. XXV, tomo I, pp. 145-221 e Nascimento, Aires A. (2008), “As voltas do Livro de José de Arimateia: em busca de um percurso, a propósito de um fragmento trecentista recuperado”, Península. Revista de Estudos Ibéricos, n.o 5, pp. 129-140. Este assunto será ainda debatido na segunda secção deste trabalho. 11 Guina, Nuno Garcia (1992), Levantamento de manuscritos em capas de livros notariais do Arquivo Distrital do Porto, cartórios de Santo Tirso e Penafiel, [texto policopiado], Coimbra, Universidade de Coimbra. 18 descrição do formato do texto (texto a duas colunas com iniciais a vermelho), a datação do próprio pergaminho (os séculos XIII-XIV), as dimensões (280x400) e breves observações sobre a legibilidade do texto (parte verso bastante legível; parte recto em mau estado)12. Um estudo mais atento deste material leva Aida Fernanda Dias a identificar correctamente o texto do pergaminho que serviu como encadernação ao livro notarial de João da Costa de Santo Tirso13: trata-se, como atrás indicámos, de várias passagens narrativas com correspondência parcial nos capítulos 57, 58, 61, 62 e 63 do testemunho quinhentista conservado no Arquivo Nacional da Torre de Tombo (ms. 643), que transmite integralmente a respectiva obra medieval. A divulgação da notícia da descoberta do pergaminho medieval vem a lume mais tarde, em encontros científicos de 2002 e de 2003, quando a investigadora portuguesa torna público o pergaminho conservado no Arquivo Distrital do Porto14. No levantamento atrás mencionado, Nuno Garcia Guina identifica várias línguas em que são redigidos os textos dos respectivos pergaminhos oriundos dos fundos de Santo Tirso e Penafiel. Assim, o autor identifica pergaminhos pertencentes a obras medievais, transmitindo texto em latim, inglês e galego-português15. Um trabalho recente de Isabel Sofia Calvário Correia e José Carlos Ribeiro Miranda16 vem divulgar a existência de duas tiras de pergaminho conservadas na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra que transmitem, desta vez, um texto em francês de uma obra muito apreciada pelos leitores medievais, o Lancelot en prose. Estas duas tiras de pergaminho serviram de reforço a uma encadernação de um livro jurídico do século XVI, informação que se encontra registada com letra do século XX, segundo os autores, na margem esquerda de um dos fragmentos: “Joannes Corasius (encadernado em frança?), Varia in Varia Iuris, Lugduni, 1546”17. 12 Ibidem. 13 Dias, Aida Fernanda (2003-2006), op. cit., p. 153. 14 Trata-se dos encontros científicos de 2002, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de 2003, em Coimbra, na homenagem ao Professor Costa Pimpão e do mesmo ano, 2003, em Lisboa, em comunicação apresentada na Academia Portuguesa da História. Cf. Philobiblon, BITAGAP / Bibliografia de Textos Antigos Galegos e Portugueses, http://bancroft.berkeley.edu/philobiblon/bitagap_po.html (22.III.2012). 15 Guina, Nuno Garcia (1992), op. cit. 16 Correia, Isabel Sofia Calvário / Miranda, José Carlos Ribeiro (2011), “Os fragmentos A19 da BGUC e a tradição textual do Lancelot”. Guarecer on-line. Disponível em www.seminariomedieval.com (3.I.2012). 17 Idem, p. 4. 19 Estes factos permitem formular algumas hipóteses sobre o historial dos manuscritos medievais usados em encadernações de livros impressos. A primeira apontará para que os manuscritos já se encontrassem em território ocidental hispânico em bibliotecas régias ou privadas e, só a partir do século XVI, altura em que o comércio de pergaminho era muito dinâmico, estas obras se tenham tornado um material vendável para fins secundários da imprensa como, por exemplo, servir de encadernação ou de reforço de encadernação. Uma segunda hipótese aponta para a possibilidade de estes manuscritos terem circulado já cortados nos países de proveniência e, em seguida, terem sido comercializados, para serem, finalmente, utilizados nas encadernações ou como reforço de encadernações18. Com base em documentação do distrito de Leiria, o estudo de Ana Bela Vinagre constata, também, o mesmo fenómeno19. Estes factos vêm assim revelar uma fase da história do pergaminho após o advento da imprensa. B. O manuscrito da Catalunha (ms. BC, 2434) Título: [Livro de Merlin] Autor: desconhecido Língua: galego-português Lugar de conservação e cota: Biblioteca da Catalunha, ms. 2434 Descrição externa 1. Códice. 1.1 Fragmento de códice. 2. Material. 2.1 O material do fragmento é o pergaminho. 18 Várias visitas ao Arquivo Distrital de Braga proporcionaram-nos, também, a consulta de 175 pergaminhos aí conservados que serviram de encadernação para várias obras. Os pergaminhos transmitem, em exclusividade em latim, texto religioso (bíblico, antifonário, missários). Estes fragmentos de pergaminhos são guardados no Arquivo de Braga sob a designação Fragmentos, encontrando-se já separados dos livros que encadernavam. 19 Vinagre, Ana Bela (1995), “Manuscritos de capas de livros paroquiais e notariais do distrito de Leiria do séc. XII e XIX: inventário preliminar”, Actas do II coloquio sobre a história de Leiria e sua Região, Leiria, Câmara Municipal de Leiria, pp. 13-54. 20 3. Fólios. 3.1 Trata-se de um meio fólio e de um bifólio. 3.3 Dimensões dos fólios. Devido aos cortes dos lados exteriores dos fólios e a outras marcas dos acidentes sofridos, os fólios apresentam dimensões irregulares: f. Lxvij f. Cxxij f. Cxxiij 290-292 x 136-139 mm 288-298 x 209-210 mm 284-289 x 207-209 mm 4. Numeração. 4.1 A. É utilizada a numeração romana no centro da margem superior do lado verso dos fólios. As letras romanas aparecem traçadas num quadro da mesma tinta castanha utilizada na redacção do texto. O meio fólio apresenta a numeração Lxvij e o bifólio atesta a numeração Cxxij e Cxxiij. 6. Página. 6.1 Número de colunas. O texto está disposto em duas colunas. 6.2 Dimensões da caixa de escrita. O meio fólio (f. Lvij): f. Lvij r f. Lvij v col. I col. II col. I co. II — 220-247x71-75mm 220-231x72-75mm — O bifólio (ff. Cxxij - Cxxiij): f. Cxxij r f. Cxxij v col. I col. II col. I col. II 220-229x~65mm 227-233x~70mm 226-231x~71mm 225-231x~71mm 21 f. Cxxiij r f. Cxxiij v col. I col. II col. I col. II 219-227x62-69mm 222-229x66-70mm 218-232x67-69mm 221-229x68-70mm 6.3 Interlocunas. O espaço entre colunas é irregular devido à presença da capital. Assim, observam-se as seguintes dimensões: O meio-fólio f. Lvij: f. Lvij r f. Lvij v 18-19 mm 10-19 mm O bifólio ff. Cxxij - Cxxiij: f. Cxxij r f. Cxxij v ~19 mm 14-17 mm f. Cxxiij r f. Cxxiij v 16-24 mm 13-19 mm 6.4 Número de linhas20. f. Lvij r col. I 31 col. II f. Lvij v col. I 31 col. II 20 A diferença tão grande entre o número de linhas dos fólios 67, por um lado, e 122 e 123, por outro, poderia explicar-se como uma consequência de um cálculo impreciso no que diz respeito à quantidade de pergaminho que iria ocupar o texto. Ou seja, é possível que tenha ficado menos texto a ser redigido no epaço que devem ter oferecido os fólios com a numeração 122 e 123 e daí o alargamento entre as linhas e menos linhas na coluna. 22 f. Cxxij r col. I 25 col. II f. Cxxij v col. I 26 col. II f. Cxxiij r col. I 26 col. II f. Cxxiij v col. I 25 col. II 6.5 Rubricas. 6.5.1 Tipo. O texto está dividido por rubricas traçadas a tinta de cor vermelha. Existem cinco rubricas ao longo do material analisado com o seguinte texto: Como Anasten con pauor de Asen seu padre fez a camara na pena. (f. Lvij r / col. II) Como a donzela do Lago disse Merlyn que lhy mostrarya a camara. (f. Lvij v / col. I) Como a donzela disse que a dona non era uelha ante era muy fremosa. (f. Cxxij v / col. I) Como Marot e Galuan acharon .os xij. yrmaas adeuiadores na pena que metera y merlyn por encantamento. (f. Cxxij v / col. II) Como as donzelas da pena diseron a Gal<...> a morte e de se<...>yo R<...>rtur. (f. Cxxiij v / col. II) Tendo observado os manuscritos da obra de Chrétien de Troyes do século XIII e posteriores à esta datação e os romances em prosa, num estudo dedicado às rubricas e à recepção do romance, leva Keith Busby21 a concluir que a disposição da matéria por rubricas evolui progressivamente a partir do século XIV, dado que manuscritos anteriores a esta data deste autor não apresentam este tipo de estruturação textual. Ou seja, trata-se de uma prática tardia no romance arturiano também estudada por Cedric E. 21 Busby, Kieth (1999), “Rubrics and the Reception of Romance”, French Studies, LIII (2), Society for French Studies, pp. 129-141. 23 Pickford22, com base em manuscritos datados dos séculos XIV e XV. Ora, o ms. BC, 2434 vem atestar uma prática que, ao mesmo tempo, se torna indício da sua datação. Os mesmos elementos estarão também presentes, como veremos adiante, no ms. AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7. 7. Escrita. 7.1 Mãos. Os fragmentos do manuscrito que transmite matéria do Livro de Merlin registam uma única mão. 7.1.2 Tipo(s) de letras e características. A segunda parte desta dissertação é dedicada a um estudo paleográfico em que são apresentadas as características da gótica cursiva bastante semelhante à documental coeva em que se encontra traçado este manuscrito. 7.1.3 Uso das tintas. É utilizada tinta castanha para o texto e tinta vermelha para desenhar as capitais e as rubricas. 7.2 Correcções É adoptado um sistema comum na época na prática das correcções, ou seja, a letra subponteada indicando a sua eliminação. Um outro sistema de correcção consiste em palavra riscada. Exemplos da primiera categoria são “ca” (f. Lvij r/col. II/l.2) e “a” (f. Lvij r/col. II/l. 9) e da segunda a palavra “donas”, que é riscada e substituída por “molheres” (f. Cxxij v/col. I/l.11). Estas formas de execução das correcções representam um outro critério diferenciador das fases de preparação do texto. Ora, a forma como é executada a correcção da palavra “donas” e a sua substituição por “molheres” na mesma linha constitui o critério diferenciador das fases a que pertencem as correcções legíveis no manuscrito. Ou seja, esta correcção deve pertencer à fase de redacção efectiva do texto e não à fase de revisão final do texto que normalmente segue 22 Pickford, Cedric Edward (1960), L’évolution du roman arthurien en prose vers la fin du Moyen Âge d’après le manuscrit 112 du fond français de la Bibliothèque Nationale, Paris, A. G. Nizet, pp. 154-175. Sobre este assunto, ver também Petrucci, Armando (1995), Writers and Readers in Medieval Italy: studies in the history of written culture, Yale University Press. 24 à fase de conclusão da redacção do texto (ver acima exemplo da forma de corrigir por letra subponteada). É, assim, revelador o acto interveniente da parte do copista/redactor deste manuscrito, dado que se assume que nos situamos perante uma copia da tradução do Livro de Merlin. A mão executante das correcções apresenta características similares à do texto. Na execução das correcções é utilizada a cor de tinta idêntica à do texto. 8. Capitais. Ao longo do material conservado registam-se capitais simples (E, Q) e estendidas (A, Q). Além dos traços estendidos ou simples, cada capital é igualmente ornada no seu interior com motivos florais e/ou circulares, acompanhando o texto encolunado e prolongando-se até às margens inferior e superior dos respectivos fólios. As capitais marcam a divisão do texto por parágrafos. 10. Observações sobre o estado de conservação. O excelente trabalho de restauro das tiras de pergaminho em discussão permite ainda vislumbrar os traumas que os fólios sofreram no manuseamento do próprio códice e, posteriormente, na fase em que os fólios, retirados do códice, foram utilizados como reforço na encadernação da edição de 1491 do Chronicon do arcebispo de Florença Antonino Pierozzi (1389-1459). Trata-se, então, de quatro tiras com as quais foi possível, graças ao trabalho de restauro, reconstituir um bifólio e um meio-fólio. Segundo a indicação do investigador Amadeu-J. Soberanas23 e a nossa observação empírica do respectivo material, as tiras de pergaminho situavam-se no interior da lombada da encadernação de dois volumes do referido incunábulo. Cada tira apresenta, então, os sinais dos três orifícios em que encaixavam as partes cosidas da lombada. São ainda visíveis vários orifícios que podem ter sido consequências do manuseamento do próprio códice, bem como do processo da manufactura da encadernação em cuja composição entrou. Os fólios parecem ter sido cortados, também, nas margens superiores, apresentando dimensões muito irregulares. A humidade deve ter sido um outro factor exterior que deixou fortes marcas nestes fragmentos de pergaminho. O lado 23 Soberanas, Amadeu-J. (1979), “La version galaïco-portugaise de la Suite du Merlin”, Vox Romanica, XXXVIII, pp. 177-178. 25 verso do meio-fólio Lxij apresenta alguns sinais de apagamento do texto, o que pode indicar marcas de humidade ou até consequências da utilização de qualquer material específico na manufactura da própria encadernação do lado em que encaixava a respectiva tira de pergaminho. Descrição interna 2. Incipit. [f. 67r/col.II] terra hũu Rey que chamauan | Asen. muy bõo cạ home. e muy bõo | caualeiro. E auya hũu mançebo ffilho ... [f. 122r] que se conbatyan esteue e conheçeus | logo nas armas e marauilhousse | porque esta guerra naçera an|treles ... 3. Explicit. [f. 67v/col.I] Qvando A donzela do | lago oyo estas nouas | ffoy muy leda. e ouue ende | gram prazer. ca logo penssou || que Al<...> [f. 123v] Enton <...> cuydaron e ouuiron | o que hũa <...> disse. Se|nhor destes dous caualeiros que <...> 5. Observações sobre o conteúdo. Trata-se de dois episódios — a história de amor do príncipe Anasten e parte da narrativa da Roche aux Pucelles — da segunda parte da tradução galego-portuguesa do ciclo do Pseudo-Robert de Boron, o Livro de Merlin. Este testemunho é particularmente importante para o estudo da tradição manuscrita do Merlin por não existir nenhum outro em galego-português, francês ou espanhol que contenha os dois episódios em conjunto. 6. Datação. Primeira metade do século XIV24. 24 Ver também Philobiblon, BITAGAP / Bibliografia de Textos Antigos Galegos e Portugueses, Manid 1604: http://ucblibrary4.berkeley.edu:8088/saxon/SaxonServlet?source=BITAGAP/Display/1604MsEd.xml&st yle=BITAGAP/templates/MsEd.xsl (29.III.2012). Ver também o trabalho de Soberanas, Amadeu-J. (1979), “La version galaïco-portugaise de la Suite du Merlin”, Vox Romanica, XXXVIII, p. 174-193. Este 32 tarde, em 1962, José L. Pensado Tomé33 identifica correctamente o texto e inclui, na sua edição, um fac-símile parcial do fragmento. O paradeiro do manuscrito permaneceu durante décadas desconhecido até 30 de Outubro 2009, quando o fragmento foi relocalizado através do portal do Arquivo Histórico Nacional de Madrid por Pedro Pinto, com uma nova cota acima indicada. Como cotas antigas do manuscrito registamse: Leg. 1267, n. 10 (2); Leg. 1762, n. 8 (7)34. A descrição codicológica deste manuscrito limitou-se a apresentar os itens observáveis através das imagens disponibilizadas pelo Arquivo Histórico Nacional de Madrid. 33 Pensado Tomé, José L. (ed. 1962), op. cit. 34 Cf. Philobiblon/ BITAGAP: http://ucblibrary4.berkeley.edu:8088/saxon/SaxonServlet?source=BITAGAP/Display/1483MsEd.xml&st yle=BITAGAP/templates/MsEd.xsl (29.III.2012). 33 Parte II Descrição paleográfica Tomando em consideração a escassa investigação paleográfica que existe sobre os três mais antigos manuscritos arturianos em galego-português, de que nos temos vindo a ocupar, propomos, nesta parte do nosso trabalho, uma abordagem paleográfica, enquadrando os testemunhos em estudo no âmbito geral do fenómeno da escrita gótica no ocidente da Península Ibérica. Com esta abordagem procuraremos reunir os factos mais relevantes que permitirão, por um lado, situar os três manuscritos estudados na tipologia da escrita e no período cronológico em que se enquadram (mais especificamente, a escrita dos séculos XIII e XIV, no âmbito hispano-ocidental) e, por outro lado, possibilitar um conhecimento mais aprofundado da escrita em vernáculo em Portugal, cujas origens já se devem colocar, segundo revelam os estudos dos últimos anos35, na segunda metade do século XII no âmbito da produção documental. Os manuscritos em estudo vêm, assim, testemunhar o alargamento dos âmbitos do uso do romance em Portugal. Assim, em primeiro lugar, a nossa atenção incidirá sobre a análise paleográfica individual dos fragmentos dos códices arturianos de Santo Tirso (ADP, NOT/CNSTS01/001/0012), da Catalunha (ms. BC, 2434) e de Madrid (AHNM, Códices. Leg. Carp. 1501 B, n. 7), dando especial destaque aos elementos gráficos mais relevantes da escrita gótica revelada neste material. Em segundo lugar, realizar-se-á uma análise comparativa entre a escrita gótica atestada no manuscrito BC, 2434 e a exemplificada por seis cartas régias do scriptorium de D. Dinis, datadas entre 1293 e 1313. Propomos, assim, uma comparação entre a escrita de um fragmento de códice e alguns exemplos de escrita documental. Quais serão as razões para uma tal comparação? 35 Souto Cabo, José António (2003), “Nas origens da expressão escrita galego-portuguesa. Documentos do séc. XII”, Diacrítica. Ciências da Linguagem 17, pp. 329-385; Souto Cabo, José António (2004), “Novas perspectivas sobre a génese da escripta romance na área galego-portuguesa. Textos e contextos”, Aemilianense 1, pp. 569-599; Martins, Ana Maria (2007), “O primeiro século do português escrito”, Na nosa lyngoa galega: a emerxencia do galego como lingua escrita na Idade Media, ed. Ana Isabel Boullón Agrelo, Santiago de Compostela: Consello da Cultura Galega, Instituto da Lingua Galega, pp. 161-184; Souto Cabo, José António (2011), “A cessão do mosteiro de Armeses à condessa Dª Sancha Fernandes (1222). Intercecções escriturais no primeiro documento romance na Galiza”, Revista Galega de Filoloxía, 12, p. 220. 34 Em primeiro lugar, chamou a nossa atenção a aproximação em nota de rodapé entre a escrita do ms. BC, 2434 e a escrita de um documento dadato de 130936 do scriptorium de D. Dinis no estudo de Amadeu-J. Soberanas37. Em segundo lugar, um olhar atento sobre a escrita do fragmento de códice e algumas cartas38 assinadas pelos escribas do scriptorium do rei revelou-nos também a presença de traços bastante similares. Em terceiro lugar, uma outra tentativa de aproximar a escrita de um manuscrito do âmbito librário da escrita de um documento do âmbito administrativo do espaço ocidental peninsular vem consolidar a ideia do paralelismo entre estas duas realidades paleográficas distintas de forma que se identifique e/ou se aproxime o lugar de produção. Referimo-nos aos fragmentos que transmitem sete cantigas d’amor de D. Dinis, descobertos em 1990 por Harvey L. Sharrer na encadernação de um livro do Cartório Notarial de Lisboa39. Ora, estes fragmentos revelam, segundo o investigador americano, “dois estilos caligráficos diferentes”40. O aspecto de considerar é que Harvey L. Sharrer afirma que o segundo estilo de escrita é comum aos documentos régios na época de D. Dinis, ilustrando-o através de um documento do rei, datado de 129941. Observamos, assim, uma vez mais, a atenção que se centra sobre a possível similaridade entre a letra de fragmentos de factura librária e a de factura documental dos scriptoria de D. Dinis. Ora bem, apesar de ser mais lógico fundamentar a execução de um manuscrito contendo produção lírica atribuída a D. Dinis num scriptorium régio ou de ponderar a 36 O documento encontra-se reproduzido na estampa n.º 91: 1309 Ag. 26, Torres Vedras - Inquérito sobre os rendimentos das quatro freguesias da vila de Torres Vedras (T. T., Colegiada de S. Miguel de Torres Vedras, <<Livro das emquirições>>, fl.1) em Costa, Avelino de Jesus (1997), Álbum de Paleografia e Diplomática portuguesas, 6ª ed., Coimbra, IDP da FLUC. 37 Soberanas, Amadeu-J. (1979), op. cit., p. 177, n. 10. 38 A oportunidade de incluir neste estudo os seis documentos régios surgiu como continuação das investigações na área da paleografia da Professora Cristina Cunha da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e ao incentivo do Professor José Carlos Miranda da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, orientador da presente dissertação. 39 Sharrer, Harvey L. (1991), “Fragmentos de Sete Cantigas d’Amor de D. Dinis, Musicadas — uma Descoberta”, Actas do IV Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval, vol. I, Sessões Plenárias, Lisboa, Edições Cosmos, pp. 13-29. 40 “O primeiro, uma letra gótica francesa minúscula usada para o texto de cada primeira estrofe acompanhada de notação musical, é uma letra comum aos textos literários da zona ocidental da Península que já é utilizada no século XIII e continuará a sê-lo no século sequinte. Por ser um estilo constante e duradoiro, é difícil datá-lo com precisão. O segundo estilo, usado nas estrofes não acompanhadas de notação musical, também é letra gótica minúscula, mas trata-se de outro estilo caligráfico comum aos documentos régios da época de D. Dinis” Cf. Sharrer, Harvey L. (1991), op. cit., p. 16. Sobre este assunto, ver também Guerra, António J. R., “Contribuições para a Análise Material e Paleográfica do Fragmento Sharrer”, Actas do IV Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval, vol. I, Sessões Plenárias, Lisboa, Edições Cosmos, pp. 31-34. 41 O documento encontra-se reproduzido na estampa n.º 88: 1299 Nov. Portalegre — D. Dinis doa à Ordem de Avis o padroado da igreja de Santa Maria do Castelo de Portalegre e de todos os templos sujeitos a ela. (T. T., Ordem de Avis, m. 2, n.º 82) em Costa, Avelino de Jesus (1997), op. cit. 35 hipótese de ter existido também scriptoria privados onde a cópia do códice arturiano poderá ter sido realizada, não invalida, porém, a possibilidade de encontrar no paralelo entre a escrita do códice conservado na Biblioteca da Catalunha e várias cartas assinadas pelos escribas de D. Dinis elementos paleográficos que conduzam a um numidor comum no que concerne ao lugar de produção e até ao responsável pela escrita do códice arturiano. Assim, ao incentivo das referências adiantadas nos estudos mencionados e com base numa observação empírica tanto dos fragmentos do códice arturiano como dos seis documentos régios acima referidos, desenvolviremos num quarto capítulo desta parte uma reflexão sobre alguns factos paleográficos. Como vimos na descrição codicológica dos três manuscritos objecto de estudo deste trabalho, trata-se de suportes materiais fragmentários de pergaminho sobre os quais se tem adiantado a datação de finais do século XIII e a segunda metade do século XIV. Recorde-se que os nossos comentários codicológicos e paleográficos sobre o manuscrito Leg. Carp. 1501 B, n. 7, AHNM são limitados pelo facto de, na altura em que desenvolvemos esta investigação, termos tido disponível para a análise apenas o fac-símile da edição de Pensado Tomé de 1962. Como já dissemos atrás, o paradeiro deste manuscrito permaneceu muitas décadas desconhecido depois de ter sido estudado e editado pelo investigador espanhol. Assim, apesar destas limitações em termos de acessibilidade ao material, pelas razões já expostas, considerámos relevante manter destacadas as letras do manuscrito Leg. Carp. 1501 B, n. 7, AHNM na forma como aparecem no mencionado fac-símile, tendo em conta a utilidade da exemplificação paleográfica. Num futuro trabalho de índole codicológica e paleográfica o material poderá ser observado a partir do original. Já desde a segunda metade do século XX que vários estudiosos se dedicaram à organização de uma nomenclatura da escrita gótica, nem sempre chegando a conclusões consensuais. Com o objectivo de definir uma nomenclatura para a escrita gótica librária, Gerard Isaac Lieftinck42 participou em 195343 num congresso em que propôs uma classificação em quatro tipos: textual, notular, cursiva e bastarda. Cada categoria apresenta subdivisões. É importante mencionar que este autor entende utilizar o termo 42 Lieftinck, Gerard I. (1954), “Pour une nomenclature de l’écriture livresque de la période dite gothique”, Nomenclature des écritures livresques du IXe au XVIe siècle, Premier colloque international de paléographie latine (Paris, 28-30 avril 1953), Paris, Colloques internationaux du C.N.R.S., Sciences humaines, 4, 1954, pp. 15-33. 43 Ver http://www.palaeographia.org/cipl/colloq.htm 36 textualis com aplicação ao âmbito da escrita librária. No que diz respeito ao tipo textual, o autor apresenta as subdivisões littera textualis formata (mais caligráfica), littera textualis simples (“tout court”, para livros comuns “de bonne facture”), littera textualis currens (para manuais e glosas). Em relação à segunda categoria, a escrita notular, o autor afirma que é utilizada para pequenos apontamentos no corpo do livro, nas glosas e até em documentos administrativos. Quanto à cursiva, presente nos livros efectivamente depois do século XIII, são indicadas as categorias seguintes: littera cursiva formata (mais caligráfica), littera cursiva textualis (menos caligráfica), littera cursiva currens (em registos e actas). E, finalmente, no que concerne à bastarda, derivada da littera textualis e da cursiva, será dividida em littera cursiva bastarda e littera cursiva bastarda currens44. No sentido de complementar o sistema de Gerard Isaac Lieftinck e de definir uma nomenclatura da escrita gótica aplicável a nível europeu, o estudo de Albert Derolez revela-se, até aos nossos dias, a mais abrangente e mais precisa contribuição45. A letra bastarda do sistema do autor holandês será substituída por Albert Derolez pela designação Cursiva formata46, hibrida formata ou semihibrida formata. E, tendo em conta a morfologia da letra a com dois compartimentos na cursiva e com um só compartimento na textualis, o autor entende utilizar para o primeiro caso a designação cursiva antiquior e para o segundo, semitextualis47. Assim, baseando-se na escrita dos livros europeus (região centro-oeste), a partir do século XIII até ao início do século XVI, o autor propõe a nomenclatura seguinte: textualis, semitextualis, cursiva recentior (cursiva)48, cursiva antiquior, semihibrida e hibrida. Albert Derolez destaca no âmbito da textualis outras duas subdivisões: uma variante frequente no Norte (Inglaterra, França, Países Baixos, Alemanhã, Centro e Leste europeu), designada também por textualis simples e outra no Sul (zona mediterrânea), conhecida por rotunda49. A primeira subdivisão caracteriza-se por um traçado caligráfico e vertical, enquanto a segunda por um traçado redondo e angular. Também como características gerais da textualis se destacam o perfil grosso da escrita e a ausência de hastes descendentes e de arco nas hastes ascendentes. A segunda divisão, semitextualis, mantém as características idênticas da textualis, evidenciando-se, neste caso, o uso do a com um só 44 Idem. 45 Derolez, Albert (2003), The Paleography of Gothic Manuscript Books, Cambridge, Cambridge University Press. 46 Utilizaremos os termos em latim quando não há correspondente em português. 47 Derolez, Albert (2003), op. cit., pp. 23-24. 48 Adoptaremos a designação cursiva em vez de cursiva recentior, segundo o mesmo uso que o autor dá no início do capítulo referente a este tipo de escrita gótica. Cf. Derolez, Albert (2003), op. cit., p. 142. 49 Derolez, Albert (2003), op. cit., p. 73. 37 compatimento. Em relação às cursivas, mencionamos entre as características gerais: a extensão das hastes ascendentes e descendentes, a introdução do arco nas hastes ascendentes, o desenvolvimento de ligaduras, o tratamento extendido das hastes inicial e final do m e n. Por sua vez, a cursiva conhece duas subdivisões: cursiva antiquior e cursiva recentior (cursiva), com traços distinctos. Ou seja, no primeiro caso, o autor destaca o uso do a com dois compartimentos, arco à direito nas hastes de b, h, k e l e o s extendido abaixo da linha, enquanto, o segundo caso, difere apenas no uso do a com um só compartimento. O tratamento das hastes ascendentes define a divisão designada como hibrida, isto é, distinguem-se como traços específicos: a extensão abaixo da linha do f e s, o arco das hastes ascendentes, bem como o uso do a com um só compartimento. Esta letra representa, de facto, a conjugação de formas típicas da cursiva e da textualis. Segundo a prática dos escribas, o autor considera relevante delinear uma fase intermédia entre a cursiva e a hibrida designada por semihibrida, tomando em conta a forma aleatória no traçado em arco das hastes ascendentes das letras. Para a análise dos manuscritos em estudo seguiremos, em geral, a nomenclatura do trabalho de Albert Derolez, o mais recente e mais completo sobre a classificação da escrita gótica. Esta escolha baseia-se também numa descrição estrutural sistemática dos elementos paleográficos que o autor faz, bem como numa ampla exemplificação do âmbito europeu da escrita gótica, o que faz com que a referência seja um instrumento imprescindível para a análise empírica dos códices europeus. A partir dos anos 80 do século XX destacam-se estudos de grande fôlego sobre a escrita gótica e a sua evolução no espaço ibérico, como por exemplo, o Tratado de paleografia española de Agustín Millares Carlo e José Manuel Ruiz Asencio (1983)50 ou Da visigótica à carolina. A Escrita em Portugal de 882 a 1172 (Aspectos técnicos e culturais) de Maria José Azevedo Santos (1988)51. Distinguem-se, também, outros investigadores que se dedicaram ao estudo da escrita gótica baseando-se em material paleográfico espanhol, como é o caso de Jesús María Torrens Álvarez (1995, 2002) ou, no espaço português, Maria João Oliveira e Silva (2010)52, que se debruçou sobre a 50 Millares Carlo, Agustín / Ruiz Asencio, José Manuel (1983), Tratado de paleografia española, Madrid, Espasa-Calpe. 51 Santos, Maria José Azevedo (1988), Da visigótica à carolina. A Escrita em Portugal de 882 a 1172 (Aspectos técnicos e culturais), Dissertação de doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra. 52 Torrens Álvarez, Jesus María (1995), “La paleografía como instrumento de datación. La escritura denominada littera textualis”. Cahiers de linguistique hispanique médiévale, 20, pp. 354-380; Torrens Álvarez, Jesus María (2002), Edición y estudio linguistico del Fuero de Alcalá (Fuero Viejo), Alcalá, Fundación Colegio del Rey; Silva, Maria João Oliveira (2010), op. cit. 38 escrita gótica da chancelaria da Sé do Porto entre 1247 e 1406. Estes trabalhos constituirão, assim, guias de referência para o estudo da escrita gótica documental, representada por seis cartas avulsas régias, analisada comparativamente com a escrita do ms. BC, 2434. Ainda como ponto de referência serão considerados os elementos que Agustín Millares Carlo enuncia como relevantes na datação da escrita de códices. Rerefimo-nos às formas das letras d e r e da presença da união de traços curvos opostos das letras que se encontram em contacto, como por exemplo, be, bo, pe, po, oc53. Na mesma linha, encontramos entre as características mais importantes da escrita cursiva, também presentes no campo librário, como referimos atrás, segundo Maria José Azevedo Santos54, a perda do traço à esquerda da letra a, o uso predominante do d uncial, a forma em traços de arranque na base das letras m e n, a mesma união de curvas opostas, resultando em conexão, referida pelo autor espanhol 55 . Trata-se, assim, de características típicas de qualquer escrita considerada gótica. Poucas e inseguras são as linhas dedicadas à descrição paleográfica dos três fragmentos de códice arturiano. Aida Fernanda Dias afirma, num estudo anterior, que no manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012 (Estória do Santo Graal), estamos perante uma gótica cursiva “datável [...] do fim do séc. XIII, início do XIV”56, observação, a nosso ver, insuficientemente fundamentada quanto ao tipo de escrita gótica, por carecer de uma apresentação prévia de argumentos paleográficos. Aliás, a simples observação dos três fragmentos pergamináceos permite constatar que cada um atesta um tipo de escrita gótica com características diferentes, como veremos adiante. Amadeu-J. Soberanas57 afirma, com reservas, que, no manuscrito BC, 2434 (Livro de Merlin) se atesta uma escrita gótica cursiva formata, remontando à primeira metade do século XIV. Ora, sobre esta letra, Gerard Isaac Lieftinck afirma que aparece apenas por volta de 1400 e que no século XIV só na Itália se poderia encontrar uma “cursive stylisée”58. Por conseguinte, este dado inviabiliza a indicação de a letra do manuscrito BC, 2434 ser uma cursiva formata. Quanto ao manuscrito Larg. Carp. 1501 B, n. 7, AHNM (Livro de Tristan), José L. Pensado Tomé (1962) não se pronuncia em relação ao tipo de escrita em que se 53 Millares Carlo, Agustín / Ruiz Asencio, José Manuel (1983), op. cit., vol.I, p. 185. 54 Para uma descrição detalhada sobre o tema, ver Santos, Maria José Azevedo (1988), op. cit., pp. 187-194. 55 Trata-se, de facto, da conhecida lei de Meyer que se refere, não só à regra da fusão das letras com barriga em contacto (bo, oc, po), mas também à utilização do r redondo em contacto com letras com barriga ou traço vertical (b, d, h, p, v, y). 56 Dias, Aida Fernanda (2003-2006), op. cit., p. 154. 57 Soberanas, Amadeu-J. (1979), op. cit., p. 177. 58 Lieftinck, Gerard I. (1954), op. cit., p. 22. 39 enquadra a letra deste manuscrito. O autor retoma quase literalmente a informação de carácter geral oferecida pelo investigador que trouxe à luz a existência do manuscrito, Manuel Serrano y Sanz (1928): <...> los caracteres de su letra, debe atribuirse a mediados del siglo XIV59. La fecha que Serrano y Sanz ha atribuído al texto, mediados del siglo XIV, es perfectamente válida y puede demostrarse facilmente su semejanza con otros textos contemporáneos. La letra, según nuestras observaciones, puede centrarse mejor hacia el último tercio del siglo XIV que hacia mediados60. Sobre a escrita gótica sabe-se que abrange os séculos XII-XV e que se divide em dois tipos principais: a gótica librária e a gótica cursiva. O primeiro tipo de escrita gótica é utilizado em códices. No que concerne ao segundo tipo, apesar de ser usado maioritariamente em documentos, também está presente em códices ou livros. É importante mencionar-se, por conseguinte, também, que o fenómeno de invasão pela escrita cursiva no campo librário esteve na base da evolução da última durante os séculos XIV e XV61. Ora, este é também o período em que se dá o grande florescimento das literaturas em línguas vernaculares, factor que, segundo alguns especialistas62, deve também ter contribuído para a intromissão da cursiva no traçado dos códices. Não é nosso propósito rastrear este tema, mas, à luz destas observações, num primeiro momento, será provavelmente necessário colocar a hipótese de recuar em relação à presença das articulações cursivas na escrita librária testemunhada em vernacular ocidental peninsular e, num segundo momento, indagar como se concretizou esta intromissão da cursiva no campo librário no caso dos fragmentos dos códices em estudo e quais são as características desenvolvidas desta escrita, tendo em mente a distinção que Albert Derolez faz em relação às escritas cursiva e documental, partindo dos dois significados do termo cursiva: um refere-se à técnica rápida de execução de qualquer escrita opondo-se, assim, a uma execução caligráfica e o outro aplica-se às escritas derivadas desta técnica rápida, mas com características de cursividade ou rapidez 59 Serrano y Sanz, Manuel (1928), op. cit., p. 307. 60 Pensado Tomé, José L. (1962), op. cit., p. 12. 61 Lieftinck, Gerard I. (1954), op. cit., p. 16; Stiennon, Jacques (1973), Paléographie du Moyen Âge, Paris, Librarie Armand Colin. 62 Sanz Fuentes, Mª Josefa (1991), “Paleografía de la baja Edad Media castellana”, Anuario de Estúdios Medievales, vol. 21, Barcelona, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, p. 531. 40 reduzidas a fim de obter uma escrita formal destinada tanto aos documentos como aos livros63. Em trabalhos da área dedicados ao estudo da escrita gótica documental avançouse a hipótese de a intromissão do modelo cursivo no campo librário se dever à realização de códices nos scriptoria em que se executavam os documentos64. Ou seja, aquilo que provavelmente poderíamos vir a constatar nos casos dos manuscritos BC, 2434 e AHNM, Leg. Carp. 1501 B, n. 7, que representam dois fragmentos de códices, mais exactamente, um bifólio e um meio fólio, no caso do primeiro, e um bifólio, no caso do segundo, atestando uma letra completamente distinta do que veremos no manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012. Partimos então, num primeiro momento, para a análise da escrita gótica documentada nos três fragmentos de códices arturianos e, num segundo momento, para a análise comparativa entre um destes fragmentos e seis cartas avulsas do scriptorium de D. Dinis, tendo em mente duas questões essenciais: aferir quais são as categorias da escrita librária documentada nos três fragmentos de códice e quais são as possibilidades de identificar como lugar da produção de um fragmento de códice arturiano o scriptorium de D. Dinis. A. O manuscrito de Santo Tirso (ADP, NOT/CNSTS01/001/0012) 1. A representação do <a> No manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012 (Estória do Santo Graal), a letra a desperta a atenção pelo seu traço particular em determinados contextos gráficos. Trata-se, de uma forma geral, de um a com um só compartimento. À primeira vista poderíamos ter a impressão de que estamos até perante traçados distintos desta letra, mas uma observação mais atenta revela que se trata de uma mera alteração do primeiro traço à esquerda do a com um só compartimento, em contacto com letras com haste 63 Derolez, Albert (2003), op. cit., p. 123. 64 Silva, Maria João Oliveira (2010), A Escrita na Catedral: A Chancelaria Episcopal do Porto na Idade Média (Estudo Diplomático e Paleográfico). Tese de doutoramento, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p. 242. 41 superior inclinada à direita (c, f, r longo duplo, s, t) (Figura 1: “coberta”, “sarraua”). Deste encontro resulta uma conexão ou uma mera ligação, sugerindo uma abertura do compartimento superior da letra a. Esta ligação entre a e uma letra anteposta com haste inclinada à direita não é uma constante no material estudado. Um exemplo disto, pode ser observado no contexto com r longo simples (Figura 2). Contudo, há casos isolados de a, sugerindo uma vaga forma com extensão à esquerda em contacto com r longo (Figura 3). Este facto poderia indicar vestígios de hábitos do traçado da textualis. Figura 1: Exemplo de conexão de letras contendo a: “coberta” (ST/f.2v/col.II/l.13), “sarraua” (ST/f.1r/col.I/l.11) Figura 2: Exemplo de a + r longo: “brauo” (ST/f.1r/col.II/l.33), “crauo” (ST/f.1r/col.I/l.18) Figura 3: Exemplo de a: “estranha” (ST/f.1r/col.I/l.28) Em todo o caso, em relação à escrita do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012 teremos a oportunidade de observar traços híbridos tanto em relação à letra a, já referida, como ao r longo, f e s iniciais duplicados ou à extensão descendente das hastes de s longo e f, o que faria deste manuscrito um testemunho de uma escrita híbrida, segundo a classificação de Albert Derolez que atrás referimos65. Mais adiante exporemos outros elementos. 2. A representação do <d>: d uncial Apesar de a letra d uncial (d de haste inclinada à esquerda) ser a forma normal na texrtualis e a única utilizada no ms. ADP, NOT/CNSTS01/001/0012, considerámos 65 Derolez, Albert (2003), op. cit. 48 genitivo plural da segunda declinação latina (-orum)69 (Figura 8: “ssouberom”, “partyrom”) ou através do traço horizontal indicando o m (Figura 8: “oyrom”). Outras formas de abreviatura serão objecto de estudo mais adiante. Figura 8: Exemplos de abreviaturas da terceira pessoa plural do pretérito perfeito: “ssouberom” (ST/f.1r/col.II/l.7), “partyrom” (ST/f.1r/col.II/l.13), “oyrom” ST/(f.1r/col.I/l.27) Os fenómenos detectados não têm necessariamente um carácter inovador no que à escrita gótica diz respeito, mas a relevância desta descrição reside na observação do processo gráfico do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012 em relação aos outros dois que veremos adiante. A partir desta comparação serão, também, observadas com facilidade outras características híbridas da littera que este manuscrito testemunha. 6. A representação do <s>: s alto, s de dupla curva Duas são as formas que representam a letra s neste manuscrito: um s alto e um s de dupla curva ou redondo. O alógrafo alto utiliza-se nas posições inicial e interior, enquanto o de dupla curva está presente em posição final (Figura 1). Contudo, existem situações excepcionais em relação à regra enunciada. Deparamo-nos com um único caso ao longo deste material do s alto final na palavra “mais” (Figura 2). É ainda de assinalar o emprego do s alto no interior de sequência gráfica: “as portas” (Figura 3). Figura 1: Exemplo de s redondo final: “Josephes” (ST/f.1r/col.I/l.8), “Jornadas” (ST/f.1r/col.II/l.18) Figura 2: Exemplo de s alto final: “mais” (ST/f.1r/col.II/l.19) 69 Derolez, Albert (2003), op. cit., pp. 98-99. 49 Figura 3: Exemplo de s alto no interior de sequência gráfica: “as portas” (ST/f.1r/col.I/l.15) Quanto à forma alta da letra s, observe-se o tratamento gráfico da terminação em bengala do seu traço vertical num exemplo isolado: “esto” (Figura 4). Figura 4: Exemplo de s alto com terminação em bengala: “esto” (ST/f.1r/col.I/l.16) Em relação ao s de dupla curva ocupando a posição final, é interessante observar o seu traçado em “Josephes”, por exemplo, (Figura 1). Sobre este traçado, os especialistas dizem que era utilizado por razões de economia do espaço na escrita textualis e Albert Derolez regista o respectivo traçado na textualis encontrada na Itália70. Contudo, a extensão da haste vertical do s alto abaixo da linha da escrita não se encontra na textualis, o que nos leva a crer que se trata de uma característica híbrida da escrita do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012. 7. A representação do <g> A morfologia da letra g deste manuscrito apresenta a cauda simples inclinada à esquerda, sublinhando a palavra até ao seu início (Figura 1). Nos manuscritos BC, 2434 e AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7 veremos uma elaboração ainda mais estilizada da cauda desta letra. Figura 1: Exemplo de g: “delgado” (ST/f.1r/col.I/l.12) 70 Idem, p. 107. 50 Entre as particularidades da escrita hibrida da Península Ibérica, o estudioso Albert Derolez menciona o traçado do g com cauda muito prolongada à esquerda71 que o manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012 também revela. 8. As fusões O fenómeno gráfico da fusão favorecido pelo aspecto redondo da escrita gótica consiste na junção de duas letras em curva, de que resulta a perda de um traço. Um exemplo é o uso do d uncial que permite a fusão de letras pospostas, com preponderância para e e o (Figura 1). Também se regista fusão entre o b em contacto com o: “ende”, “todos”, “coydo”, “cabo” (Figura 2). Figura 1: Exemplos de fusões de, do: “ende” (ST/f.1/col.II/l.30), “todos” (ST/f.1/col.I/l.21), “coydo” (ST/f.1r/col.I/l.2) Figura 2: Exemplo de fusão bo: “cabo” (ST/f.2v/col.II/l.28) 9. As ligaduras de letras As letras cuja morfologia apresenta uma haste vertical inclinada à direita estabelecem uma ligadura com a letra posposta. No manuscrito estudado, deparámo-nos com uma expansão desta prática gráfica no manuscrito estudado que é favorecida, como no caso das fusões, pelo carácter redondo da escrita gótica. Assim, além da comum ligadura do grupo st, no manuscrito analisado observámos outros contextos: c + r / o / y; ç + a / e / o; g + a / e / r / u / y; r + a / e / o / y; s alto + e / c / p / t / y; t + a / e / i / j / o / r / u / y e, finalmente, a geminação de f, s e r (Figura 1). 71 Idem, p. 172. 51 Figura 1: Exemplo de ligaduras de letras: ca, ce, co, cr, cy, ga, ge, rre, ss, st, ta, ff: “camara” (ST/f.1r/col.I/l.1), “esqueceron” (ST/f.2v/col.I/l.31), “coydo” (ST/f.1r/col.I/l.2), “crauo” (ST/f.1r/col.I/l.12), “parecya” (ST/f.2v/col.II/l.15), “delgado” (ST/f.1r/col.I/l.12), “engenho” (ST/f.1r/col.I/l.11), “rrecear” (ST/f.2v/col.II/l.33), “sseestra” (ST/f.2v/col.II/l.11), “coberta” (ST/f.2v/col.II/l.12), “ffezeralhe” (ST/f.1r/col.I/l.1) 10. As abreviaturas Segundo Jacques Stiennon72, o recurso às abreviaturas não era uma prática necessariamente motivada pela economia de tempo ou de suporte material. Contudo, em relação à razão da economia do espaço, consideramos a questão em aberto, pois poderá conjugar-se com a economia do texto, de que nos vamos ocupar na quarta parte desta dissertação, pelo menos no caso do manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7. O exame dos documentos mostra um uso sistemático dos mesmos processos abreviativos, afectando os mesmos contextos gráficos. Seria possível, neste sentido, explicar este fenómeno como uma tendência, generalizada na escrita gótica, para manter uma tradição gráfica do sistema abreviativo. Detenhamo-nos agora no sistema abreviativo desenvolvido no manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012, a fim de observar os aspectos mais interessantes deste comportamento gráfico. O escriba utiliza um sistema bem definido para abreviar a letra r e as sílabas em que esta está presente. Atesta-se, em primeiro lugar, a prática comum das letras sobrepostas com a seguinte função e repartição: 72 “Un peu de pratique enseigne néanmoins que le tracé de certains signes abréviatifs prend autant de temps, sinon plus, que celui des lettres qu'il remplacent et qu'ils occupent parfois sur le feuillet le même espace que ces dernières. Il y a donc quelque mystère dans les abréviations, et la raison de leur emploi peut avoir des origines dont le souvenir s'est perdu ou altéré au cours des âges.” Cf. Stiennon, Jacques (1973), op cit., p. 125. 52 — um derivado do a aberto visigótico com a primeira haste desenvolvida à direita é utilizado na abreviatura de sílabas com a vogal a: a sílaba “ra” e o ditongo “ua” — “trabalhes”, “quando” (Figura 1). Contudo, uma situação peculiar verifica-se no exemplo “esquaecerom” em que se nota a sobreposição do mesmo a aberto entre q e e (Figura 2). Tendo em conta os exemplos em que esta sobreposição significa a abreviatura do grupo “ua”, inferir-se-á a forma “esquaecerom” em que o e seria grafado com o ditongo latino “ae”. Figura 1: Exemplos de a aberto sobrescrito: “trabalhes” (ST/f.2v/col.I/l.28), “quando” (ST/f.1r/col.I/l.31) Figura 2: Exemplo de a aberto sobrescrito: “esquaecerom” (ST/f.2v/col.I/l.31) — um derivado do i curto sobrescrito apresenta a mesma situação de múltiplas significações tendo todas em comum a inclusão da vogal i, ou seja, esta aparece em expoente com o valor do ditongo “ui” e da sílaba “ri”: “abria”, “quisesse” (Figura 3) Figura 3: Exemplos de i sobrescrito: “abria” (ST/f.1r/col.I/l.19), “quisesse” (ST/f.1r/col.II/l.31) — a letra o sobrescrita indica a sílaba ro: entrou (Figura 4) Figura 4: Exemplos de o sobrescrito: “entrou” (ST/f.1r/l.I/l19) 53 — o alógrafo r redondo de módulo menor sobrescrito indica a letra r: “partyr”, “por” (Figura 5) Figura 5: Exemplos de r menor redondo sobrescrito: “partyr” (ST/f.1r/col.II/l.4), “por” (ST/f.1r/col.II/l.16) Em segundo lugar, evidencia-se o recurso à prática da modificação literal73 do p com o traço vertical cortado, tendo o significado de “per” (Figura 6) e q com o traço horizontal com valor de “que” (Figura 6). Figura 6: Exemplos de modificação literal do p e q: “per” (ST/f.2v/col.II/l.30), “pero” (ST/f.2v/col.II/l.20), “que” (f.1r/col.II/l.22), “aquela” (ST/f.1r/col.II/l.23) Em terceiro lugar, sublinhe-se o uso da letra tironiana em forma de 9 com valor de “us” em “Deus” (Figura 7). Figura 7: Exemplo de letra tironiana em forma de 9: “Deus” (ST/f.2v/col.II/l.9) A importância de detalhar as características do traçado do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012 deveu-se, em primeiro lugar, ao facto de considerarmos que, tratando-se provavelmente de um dos primeiros manuscritos que atesta literatura em vernacular do ocidente peninsular, mereceria que conhecêssemos a letra que o seu copista teceu. Em segundo lugar, tendo em análise outros dois manuscritos — BC, 2434 e AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7 — que documentam a mesma literatura em romance com textos diferentes, foi possível observar, à primeira vista, que a sua letra se enquadra num tipo completamente distinto do primeiro, em primeiro lugar pelo ductus e pelo perfil da letra. 73 Sobre o sistema abreviativo intitulado “modificação literal” cf. Santos, Maria José Azevedo (1988), op. cit., p. 185. 54 Assim sendo, depois de termos observado com detalhe as características do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012, é possível adiantar algumas hipóteses sobre o tipo da escrita que nele se documenta. Em primeiro lugar, destaca-se uma característica dominante que é o seu perfil grosso resultante naturalmente da utilização de uma pena de bico largo. Esta é, segundo Albert Derolez74, a característica dominante da textualis ibérica. Em segundo lugar, a forma do d uncial é também específica da textualis, embora a ausência de arco nas hastes verticais de d, h e l seja uma particularidade da cursiva, como teremos a oportunidade de observar na análise dos manuscritos seguintes. Entre outras características distintas no manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012, registámos o uso do j anteposto ou posposto a i e às letras com haste vertical (m, n, u), bem como o desenho das hastes verticais curtas das letras m e n dentro da linha da escrita, observáveis nos exemplos destacados. O traçado longo das hastes verticais de f e s, excedendo a linha da escrita, indica uma hibridização, dado que a textualis se destaca pela menor extensão das hastes superiores e inferiores. Também, a utilização do r longo, em primeiro lugar, do f, r, s duplos no início da palavra, em segundo lugar, e do g com a cauda estendida excessivamente à esquerda, em terceiro lugar, define o carácter híbrido desta escrita que se deveria ter desenvolvido no campo librário, comum na Península Ibérica75. Por último, em relação à datação do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012, é possível formular duas hipóteses. Em primeiro lugar, como referimos atrás, a intromissão no âmbito librário da escrita normalmente utilizada no campo administrativo é invocada como base da evolução da librária durante os séculos XIV e XV. Em segundo lugar, o surgimento da literatura em vernacular é, também, invocado como factor que contribuiu para a invasão do campo librário pelo modelo cursivo. Por outro lado, tem sido defendido que o ciclo arturiano teria entrado na Península Ibérica em meados do século XIII, aquando o regresso de Afonso III ao Reino de Portugal e que a tradução para português teria sido realizada nos finais deste século76. Assim, podemos pôr duas hipóteses: ou na Península Ibérica existem desde os finais do século XIII tendências de cursividade na escrita librária atestada no manuscrito em estudo ou este é um dos primeiros testemunhos de escrita librária que atesta traçados cursivos 74 Derolez, Albert (2003), op. cit., p. 113. 75 Idem, pp. 172-173. 76 Castro, Ivo (1983), “Sobre a Data da Introdução na Península Ibérica do Ciclo Arturiano da Post- Vulgata”, Boletim de Filologia, XXVIII, 1, pp. 81-98; Miranda, José Carlos Ribeiro (1996), “Como o Rei Artur e os Cavaleiros da sua Corte Demandaram o Reino de Portugal”, Colóquio-Letras, 142, pp. 83-102. 55 estilizados no início do século XIV. O estudo do texto que o fragmento encerra, objecto de estudo das secções seguintes, terá, também, o objectivo de equacionar estes dados. Em relação à escrita atestada nos manuscritos BC, 2434 e AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7, que analisaremos adiante, documenta-se, sem dúvida, uma escrita cursiva. Trata-se assim do segundo sentido da palavra, como referimos atrás, ou seja, de um desenvolvimento formal da escrita derivado da técnica de execução rápida específica da escrita do campo documental. Assim, parafraseando Albert Derolez77, a cursiva utilizada na execução dos códices junta a velocidade da execução com o formalismo da textualis. Contudo, os dois manuscritos seguintes revelarão aspectos distintos no tocante à forma redonda e contínua da cursiva que cada um documenta. Prosseguiremos com a análise individual dos dois manuscritos que procurará pôr em evidência as particularidades da cursiva que neles se revela. B. O manuscrito da Catalunha (ms. BC, 2434) Procurando identificar as características da escrita cursiva do manuscrito BC, 2434 (Livro de Merlin), centremos a atenção na análise dos elementos gráficos mais relevantes em função da sua posição e outras condicionantes gráficas. 1. A representação do <a> Neste fragmento, destaca-se um a angular com um compartimento (Figura 1). Em dois dos as representados nesta figura, é possível observar um a angular em dois traços que estará presente ao longo do material estudado. É de assinalar uma variante esporádica de a aumentado em posição inicial de palavra ou sequência gráfica (Figura 2). Figura 1: Exemplos de a: “chamaua” (LM/f.67r/col.II/l.1) 77 Derolez, Albert (2003), op. cit., p. 124. 56 Figura 2: Exemplo de a aumentado inicial: “a donzela”(LM/f.67v/colI/l.1), “algũu” (LM/f.67r/col.II/l.29) 2. A representação do <d> Entre as principais características da gótica cursiva é costume mencionar-se a forma em arco fechado da haste superior das letras b, d, h, k, l. No manuscrito BC, 2434, a única letra desta série que se integra neste tipo gráfico é a letra d. O uso exclusivo e em qualquer posição da letra d com traçado em arco é um primeiro critério na classificação desta escrita como cursiva. Em determinados contextos gráficos, ou seja, d seguido pelas vogais a, e e o, realiza-se a fusão de letras (Figura 1). Figura 1: Exemplos de fusões d+a, d+e, d+o: “verdade” (LM/f.122r/col.II/l.10), “podesse” (LM/f.123r/col.II/l.8), “donas” (LM/f.123r/col.II/l.4) 3. A representação do <i>: i curto, j Como já vimos na análise anterior, no manuscrito BC, 2434 encontramos também um i breve e um i caudado ou j. Este manuscrito não conhece a configuração da letra j como grafia da consoante pré-palatal, ao contrário do que se observou no manuscrito anterior. O alógrafo i curto está presente em qualquer posição. Como sucedeu na descrição anterior, a utilização do alógrafo j é reduzida às sequências “mj” de “amjgos” e “ij” de “xij” (Figura 1) por se encontrar em contextos com letras de morfologia similar. Figura 1: Exemplos de j em contextos gráficos com letras de morfologia similar: “amjgos” (LM/f.67v/col.I/l.6), “uijr” (LM/f.123r/col.I/l.24), “xij” (LM/f.122v/col.I/l.9) 57 4. A representação do <y> Como já se referiu na descrição do manuscrito ADP, NOT/CNSTS01/001/0012, o uso do diacrítico do y indica vestígios da escrita carolíngia em que esta letra aparecia assinalada com um ponto na entrelinha superior78. Esta forma está presente nas posições interior e final da palavra na proximidade ou não de uma letra com haste vertical (Figura 1) e é tem um largo uso neste manuscrito. Figura 1: Exemplo de y: “muy” (LM/f.67r/col.II/l.2) “uyu” (LM/f.67r/col.II/l.15); “mays” (LM/f.67r/col.II/l.12) 5. A representação do <r> Existem dois tipos de r no manuscrito BC, 2434: o r redondo com um uso esporádico e o r longo que acaba por se impor em qualquer posição e será usado independentemente do contexto gráfico, inclusivamente, depois de letras com curvas contrapostas (o, p). Observámos, assim, a utilização reduzida do alógrafo redondo em contacto com o o e outras letras cuja morfologia apresenta uma curva contraposta (p) (Figura 1). Figura 1: Exemplo de r redondo atrás de o, p: “mayor” (LM/f.123v/col.I/l.1), “prezado” (LM/f.67r/col.II/l.4) Contudo, a exclusividade do r redondo manifesta-se em posição final quando este é posposto à letra o (Figura 1). Em qualquer outro contexto e posição, como referimos atrás, o r redondo alterna com o longo. Assim, teremos o alógrafo longo também presente no interior da palavra posposto ao o (Figura 2). 78 Derolez, Albert (2003), op.cit., p. 95. 64 Figura 8: Exemplos de er sobrescrito na final da linha: “creer” (LM/f.67v/col.I/l.14) Voltamos a atenção, em seguida, para algumas situações de índole escritural específicas deste manuscrito. Ao contrário do que observámos no manuscrito anterior em relação ao sistema de abreviar as formas verbais, o manuscrito BC, 2434 oferece as formas verbais da segunda pessoa do plural do presente do indicativo sobrescritas com um sinal especial em forma de vírgula: “demandades”, “auedes”, “ueedes” (Figura 9) e as formas verbais da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito: “pedreçeron”, “podreçeran” (Figura 9) assinaladas com um traço horizontal indicando a nasalidade. Figura 9: Exemplos de abreviatura de formas verbais: “demandades” (LM/f.122r/col.II/l.1), “auedes” (LM/f.122r/col.II/l.14), “ueedes” (LM/f.123r/col.II/l.3), “pedreçeron” (LM/f.67v/col.I/l.24), “podreçeran” (LM/f.67v/col.I/l.25) É de notar que são duas as maneiras de assinalar a síncope de e em função das formas em que este fenómeno ocorre. Por exemplo, o sinal especial em forma de vírgula indicando a síncope de e aplica-se nas formas verbais, enquanto nas formas nominais e pronominais se utiliza o traço horizontal variável no seu comprimento. Exemplos destes fenómenos encontram-se em “eles”, “donzela”, “conpasadores”, “<...>adores” (Figura 10). Figura 10: Exemplos de sinais de abreviatura indicando a síncope de e: “auedes” (LM/f.122r/col.II/l.14), “eles” (LM/f.122v/col.I/l.19), “donzela” (LM/f.67v/col.I/l.28), “(conpa)-sadores” (LM/f.123r/col.I/l.26) 65 A variedade de sistemas abreviativos encontrados no manuscrito BC, 2434 poderia reflectir, além da atestação de uma tradição taquigráfica, outros hábitos escriturais específicos do copista desenvolvidos talvez à luz da execução rápida da letra. Procurando também averiguar os fundamentos paleográficos da similitude, acima referida, entre a escrita dos fragmentos do códice BC, 2434 e a de um documento do scriptorium de D. Dinis no estudo de Amadeu-J. Soberanas, verificámos, de facto, mais diferenças do que semelhanças. Mencionemos, a título de exemplo, duas das dissemelhanças mais relevantes: em primeiro lugar, o uso alternativo, na escrita do documento, de dois tipos da letra d (o d uncial e o d em arco), enquanto no manuscrito BC, 2434, como temos vindo, se utiliza apenas o alógrafo em arco; em segundo lugar, a ausência neste manuscrito de arco nas hastes ascendentes das letras b, l ou h, como se pode apreciar no fac-símile do documento reproduzido na estampa noventa e um do Álbum de Paleografia e Diplomática portuguesas82. Assim, a classificação de Amadeu- J. Soberanas quanto ao tipo de escrita do ms. BC, 2434 como cursiva formata carece de fundamentos paleográficos. Para concluir, podemos também dizer que a maioria dos elementos gráficos destacados, como o uso geral de um a angular em dois traços; o predomínio do alógrafo longo da letra r, mesmo em contextos de fusão de curvas com as letras o, b, p; o d em arco inclinado à esquerda; a cauda em arco fechado muito largo do g; a abundância das fusões; as hastes verticais excessivamente estendidas das letras s longo e f; a mesma extensão da haste inferior inclinada à esquerda das letras n, h e s em dupla curva final, permitem-nos classificar a escrita deste manuscrito como cursiva. Além da extensão descendente, foi possível observar sinais horizontais com uma função meramente ornamental. Esta característica estará, também, presente no manuscrito AHNM, Códices. Leg. Carp. 1501 B, n. 7. Dada a ausência no manuscrito BC, 2434 de arco fechado nas hastes das letras b, h, f e l, que também define a cursiva segundo Albert Derolez83, seria ainda necessário considerar que outros traçados, como por exemplo, o a aumentado, — que, como veremos, é também frequente na produção documental84 —, ou a excessiva extensão da cauda de s final poderiam representar particularidades da cursiva desenvolvida no campo librário na Península Ibérica. 82 Ver estampa n.º 91 em Costa, Avelino de Jesus (1997), op. cit. 83 Derolez, Albert (2003), op. cit., p. 142. 84 Infra, p. 79-80. 66 Uma análise exaustiva da presença da gótica cursiva com as suas particularidades no campo da librária e a sua especificidade no campo administrativo da Península poderia levar a uma classificação mais concludente deste tipo escritural. C. O manuscrito de Madrid (AHNM, Códices. Leg. Carp. 1501 B, n. 7) (fac-símile, ed. Pensado Tomé, 1962) Apesar de termos disponível apenas um fac-símile, é possível observar que no manuscrito AHNM, Códices. Leg. Carp. 1501 B, n. 7 (Livro de Tristan) se atesta um tipo de cursiva distinto do que temos vindo a analisar no manuscrito anterior (ms. BC, 2434). Por exemplo, a escrita do manuscrito AHNM, Códices. Leg. Carp. 1501 B, n. 7 apresenta a particularidade de uma forma redonda mais acentuada e contínua, resultante da execução com uma maior velocidade de ductus. Também se notam as excessivas ligaduras e o traço vertical da base do s longo em curva inclinada à esquerda. Não tendo, todavia, a possibilidade de observar empiricamente o material paleográfico, limitámo-nos a supor, com reservas, que se poderia tratar de tendências comuns ao novo tipo de cursiva redonda desenvolvido no campo documental em Castela e Leão no século XIV85, modelo escritural que poderia ter sido encontrado, de um modo estilizado, na escrita librária. Assim, a análise limitar-se-á apenas a apresentar os elementos gráficos, sendo inseguro avançar hipóteses sobre o tipo de cursiva atestado. Centremos a atenção, como nos casos anteriores, na análise dos elementos gráficos da escrita cursiva documentada no manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7, em função da sua posição e determinação gráfica contextual. 85 Millares Carlo, Agustín / Ruiz Asencio, José Manuel (1983), op. cit., vol. I, pp. 221-236; Sanz Fuentes, Mª Josefa (1991), op. cit., p. 533 e ss. 67 1. A representação do <a> No manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7 distinguem-se duas grafias de a: um a com um só compartimento (Figura 1) — em qualquer posição e independente do contexto gráfico — e, esporadicamente, um a inicial aumentado (Figura 2). Figura 1: Exemplo de a com um só compartimento: “Brandeliz” (LT/f.1r/col.II/l.14) Figura 2: Exemplo de a inicial: “assy” (LT/f.1r/col.II/l.12), “andou” (LT/f.1r/col.II/l.16), “ay” (LT/f.1r/col.II/l.4), “ao” (LT/f.1r/col.II/l.8), “ardidos” (LT/f.1r/col.II/l.22) 2. A representação do <d> Neste manuscrito, surpreendemos uma dupla grafia da letra d: o d de haste em arco inclinado à esquerda e o d uncial. A alternância dos dois alógrafos parece constituir uma característica da cursiva testemunhada neste manuscrito. Embora a distribuição dos alógrafos não responda a critérios claros, tentemos descrever, em seguida, a sua repartição começando pela determinação da posição e dos contextos em que estes aparecem. No material paleográfico de que dispomos, pode constatar-se que o alógrafo uncial ocupa, de um modo geral, a posição inicial nos contextos gráficos da-, di-, do- (Figura 1). Contudo, contam-se dois casos em que este alógrafo aparece em posição interior no contexto gráfico -de-: o primeiro encontra-se numa das ocorrências do nome próprio “Brandeliz” (Figura 2); o segundo caso apresenta uma situação particular pela mudança da linha no interior da palavra, o uso do alógrafo uncial coincidindo por isso com o início da linha no exemplo “ue-des” (Figura 2). O alógrafo uncial documenta-se em posição inicial em 4 casos de um total de 10 da sequência gráfica da-, em 5 dos 18 casos do contexto gráfico di e em 3 das 18 ocorrências do contexto do-. Pode observarse que o alógrafo de haste em arco inclinado à esquerda predomina neste manuscrito em qualquer dos contextos referidos. O uso alternativo de dois alógrafos diferencia este 68 manuscrito do anterior (ms. BC, 2434), em que, como vimos, se documenta exclusivamente o alógrafo de haste em arco inclinada à esquerda. Figura 1: Exemplos de d uncial inicial: “das” (LT/f.2v/col.II/l.32), “disse” (LT/f.2v/col.I/l.19), “dos” (LT/f.2v/col.II/l.15) Figura 2: Exemplos de d uncial interior: “Brandeliz” (LT/f.1r/col.II/l.14), “(ue)-des” (LT/f.2v/col.II/l.37) 3. A representação do <i>: i curto, j De acordo com os comentários anteriores em relação à forma j, observámos que esta entra na composição dos numerais (Figura 1) e, noutros casos, pelos critérios paleográficos da proximidade de uma letra de morfologia similar (i, n, u), é utilizada para evitar a confusão gráfica: “crija”, “njnhuu”, “sanguj” (Figura 2). Este material paleográfico oferece, por outro lado, outros casos em que se observa o emprego do i curto em contextos gráficos com letras de morfologia similar a esta letra, como podemos observar nas sequências in de “Glingaym”, iu de “sobiu” , ui de “todauia” e uiu de “uiuo” (Figura 3). Figura 1: Exemplos de j no numeral romano: “iiij” (LT/f.2v/col.II/l.16), “vj” (LT/f.2v/col.II/l.25) Figura 2: Exemplos de j em contacto com i, n, u: “crija” (LT/f.1r/col.I/l.3), “njnhũu” (LT/f.1r/col.I/l.9), “sanguj” (LT/f.2v/col.II/l.25) 69 Figura 3: Exemplos de i curto nas sequências in, iu, ui, uiu: “Glingaym” (LT/f.1r/col.I/l.8), “sobiu” (LT/f.2v/col.II/l.29), “todauia” (LT/f.1r/col.I/l.12), “uiuo” (LT/f.1r/col.I/l.10) 4. A representação do <y> O comportamento gráfico do y é semelhante aos anteriores. Observámos, assim, que y aparece nos contextos yn, ym, uy, yu (Figura 1), evitando a confusão gráfica na vizinhança com letras de hastes curtas verticais. Contudo, como vimos atrás, em contextos gráficos similares ocorre o alógrafo i curto. Daí resulta a irregularidade na importação dos hábitos da escrita cursiva que se atesta neste manuscrito. Ao contrário do que constatámos nos hábitos escriturais da letra y nos manuscritos anteriores, em AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7 não parece marcada em cima com o ponto. Figura 1: Exemplos de y nas sequências yn, ym, uy, yu: “Reyna” (LT/f.1r/col.I/l.6), “Glingaym” (LT/f.1r/col.I/l.8), “muytas” (LT/f.2v/col.I/l.11), “ssayu” (LT/f.2v/col.II/l.21) 5. A representação do <r> No manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7, a repartição dos dois alógrafos da letra r, o redondo e o longo, seguem critérios claros. A variante redonda documentase em dois tipos de contexto: em posição final, independentemente da vogal precedente (Figura 1); e em qualquer posição, quando precedido pela vogal o com uma única excepção (Figura 2). Quanto ao alógrafo longo, nota-se a sua utilização em todos os outros contextos gráficos e em qualquer posição, excluindo a final, governada pelo r redondo (Figura 3). Como se pode notar, este manuscrito selecciona o alógrafo redondo exclusivamente depois da curva o, evidenciando-se o r longo depois de qualquer outra curva documentada, como, por exemplo, b (Figura 4). 70 Figura 1: Exemplos de r redondo final depois de a, e, o: “caualgar” (LT/f.1r/col.I/l.31), “saber” (LT/f.2v/col.I/l.21), “por” (LT/f.1r/col.II/l.9) Figura 2: Exemplo de r longo interior depois de o: “mayores” (LT/f.2v/col.I/l.27) Figura 3: Exemplos de r longo interior: “marauilla” (LT/f.2v/col.I/l.14), “escudeyros” (LT/f.1r/col.II/l.18) Figura 4: Exemplo de r longo interior depois da curva b: “braados” (LT/f.2v/col.II/l.10) 6. A representação do <s> Uma particularidade deste manuscrito prende-se com o traçado do s alto. Por um lado, observa-se que em alguns casos — sem determinação contextual — o s desenvolve uma extensão da haste inferior em forma de gancho, cuja descrição mais adequada seria s longo em vez de s alto (Figura 1). Noutros casos, o s alto corresponde à descrição com “bengala”. Quanto ao traçado do s de dupla curva larga, também denominado “s redondo”, em posição final, acontece, por vezes, que as curvas se unem formando um 8, e noutros casos, em contacto com o o, dá-se uma modificação morfológica ainda mais profunda, de que resulta a eliminação da parte superior do traçado do s. Este par de alógrafos, s alto e s de dupla curva, conhece uma distribuição praticamente regular. De facto, o exame do material paleográfico revela uma constância do s alto em posição inicial e interior e do s de dupla curva larga, em final de palavra. Contudo, é necessário ressalvar que o alógrafo alto não apresenta uma total regularidade de repartição, ocupando a posição final em alguns casos isolados. Resumindo, de um 71 total de 129 casos de s final, em 12 documenta-se o alógrafo alto e nos restantes, o alógrafo de dupla curva larga. Relativamente aos 12 casos isolados de s alto final, podese dizer que se trata de seis formas monossilábicas, das quais duas formam sequências gráficas, de que resultam ligaduras de letra: sp, su (Figura 2). Figura 1: Exemplo de s longo: “di-ssesse” (LT/f.1r/col.I/l.9) Figura 2: Exemplos de s alto final nas sequências gráficas sp, su: “taes parados” (LT/f.2v/col.II/l.16), “dos uossos” (LT/f.2v/col.II/l.15) 7. A representação de <g>, <m>, <n> O exame paleográfico deste manuscrito revela um traçado muito particular de outras três letras: g (Figura 1), e m e n finais (Figura 2). Existem duas concretizações da extensão do segundo traço vertical do m como se pode observar na Figura 3. Por um lado, esse traço final do m prolonga-se à esquerda numa ondulação e, por outro, sai da pena sem qualquer estilização, apenas estendido à esquerda. Em relação à letra g, repare-se numa diminuição do arco inferior em relação ao documentado no manuscrito BC, 2434, diminuição que pode reflectir o ductus específico da letra deste manuscrito. (Figura 1). Figura 1: Exemplo de g: “logo” (LT/f.1r/col.I/l.7); (LM/f.67v/col.I/l.5) Figura 2: Exemplos de m e n: “Glingaym” (LT/f.1r/col.I/l.8), “son” (LT/f.2v/col.II/l.16) 72 Figura 3: Exemplos de m final: “Glingaym” (LT/f.1r/col.I/l.8), “dom” (LT/f.1r/col.I/l.25) 8. As fusões O fenómeno das fusões está, também, presente neste testemunho. Na cursiva, como na hibrida, atestadas nestes manuscritos, são utilizadas as mesmas fusões. No manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7 são visíveis as fusões seguintes: be, bo, da, de, di, do, ho, pe, po (Figura 1). Do exame deste material, ressalta esporadicamente a fusão de e, ainda que pouco presentes, as fusões di e ho. É de notar, ainda, a realização da fusão entre a maiúscula R e as vogais e e o, favorecida pela linha em curva do segundo compartimento da maiúscula R (Figura 2). Figura 11: Exemplos de fusões be, bo, da, de, pe, po: “soubessen” (LT/f.1r/col.I/l.10), “bõo” (LT/f.1r/col.I/l.21), “todauia” (LT/f.1r/col.I/l.12), “uerdade” (LT/f.1r/col.II/l.9), “peça” (LT/f.2v/col.I/l.20), “porque” (LT/f.1r/col.II/l.23) Figura 2: Exemplos de fusões entre r maiúscula e e, o: “Reyna” (LT/f.1r/col.I/l.14), “Rogou” (LT/f.1r/col.I/l.21) 9. As ligaduras Sendo uma escrita rápida, por excelência, por razões de ordem pragmática, a cursiva caracteriza-se por uma abundância de ligaduras de letras e de abreviaturas. Estudaremos, pois, estes aspectos paleográficos no manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7. A ligadura mais frequente é st, mas outros grupos começando por s alto inicial e, esporadicamente, em posição interior estão também presentes. 73 No material paleográfico aqui estudado, são ainda visíveis outras ligaduras em que se implica a letra o: or, to. A letra g, pela linha horizontal desenvolvida na parte superior do primeiro compartimento, propicia, também, este tipo de ligação em contacto com o o (Figura 1). Figura 1: Exemplos de ligaduras to, or, og-go: “tornada” (LT/f.1r/col.I/l.7), “logo” (LT/f.1r/col.II/l.25) 10. As abreviaturas Ressalta a existência dos mesmos padrões dos sistemas abreviativos que temos visto nos outros manuscritos: modificação literal, letras sobrescritas, sinais especiais, contracção; mas o factor diferenciador dos manuscritos reside na técnica de execução dos respectivos sinais e letras. Um exemplo disto oferece o manuscrito AHNM, Larg. Carp. 1501 B, n. 7, cuja análise revela vários sistemas abreviativos, que enunciamos em seguida: — modificações literais do p com valor de “par”, “per”, “por”, “pre”, “pro” (Figura 1) e q com significado da conjunção “que” e da respectiva sílaba (Figura 1). Observem-se, neste manuscrito, dois comportamentos distintos no desenho da letra q, com valor de conjunção “que”: , .. O segundo traçado do q com a cauda formando um arco seria, assim, uma característica distinta da cursiva que se documenta neste manuscrito. Esta característica não se encontra contemplada na descrição nem da cursiva antiquior, nem da cursiva requentior (cursiva) de Albert Derolez, o que faria deste traço uma particularidade próxima à documental presente na Península Ibérica no século XIV86. 86 Millares Carlo, Agustín / Ruiz Asencio, José Manuel (1983), op. cit., pp. 221-236; Sanz Fuentes, Mª Josefa (1991), op. cit. 80 1303 “Algarue” (l.1) “ano” (l.10) “aquantos” (l.1) 1305 ”Amen” (l.1) ”aquantos” (l.1) 1313 “Algarue” (l.2) “a Reya” (l.2) “Affonso” (l.2 ms. BC, 2434 “a donzela”(LM/f.67v/colI/l.1) “algũu” (LM/f.67r/col.II/l.29) Figura 4: Exemplos de a aumentado Este facto leva-nos a crer que se trataria de uma característica da documental que está também presente na librária, com as suas especificidades. Contudo, consideramos que uma análise baseada num material paleográfico vasto da Península poderia ser mais concludente neste aspecto. 81 2. A representação do <d> Nos documentos analisados, constata-se o emprego de dois alógrafos: o d uncial e o d em arco. Em quatro destes, mais exactamente, os datados de 1293, 1300, 1302 e 1303, atesta-se a alternância de duas formas que ocorre até dentro da mesma palavra (Figura 1: 1293), enquanto noutros dois documentos, ou seja, os datados de 1305, 1313, se verifica a exclusividade do alógrafo em arco (Figura 2). Sublinha-se ainda que, no documento de 1300, a forma uncial se atesta em três ocasiões num total de 34 (Figura 3). Figura 1: Exemplo de alternância entre d uncial e d em arco na mesma palavra: “deuisado” (1293/l.10) Figura 2: Exemplo de d em arco: “dona” (1305/l.2), (1313/l.2) Figura 3: Exemplo de d uncial e em arco no documento de 1300: “dou” (l.3), “herdeyro” (l.3) No manuscrito BC, 2434 dá-se o uso exclusivo do alógrafo d em arco fechado em qualquer posição, o que faz com que se aproxime do segundo grupo dos documentos datados de 1305 e 1313 (Figura 4). Figura 4: “ende” (LM/f.67r/col.II/l.20), “toda” (LM/f.67r/col.II/30), “a donzela” (LM/f.67v/colI/l.1) 82 3. A representação do <i>: i curto, i longo Nos documentos régios, constata-se a utilização dos mesmos alógrafos analisados anteriormente, cuja repartição, porém, não apresenta a mesma coerência. Analisemos, em seguida, os diferentes casos em função da posição e do contexto gráfico em que estes aparecem. Tratando-se de documentos régios, deparámo-nos com um repertório lexical comum. Este repertório inclui três casos de i em posição inicial apenas em três dos seis documentos em análise. A grafia das palavras “j/iur”, “j/ir”, “j/iugadas”, ocorridas nos documentos de 1302, 1305, 1313 será aqui comentada. Dos três exemplos referidos, no documento de 1302, ocorre apenas “jugadas” traçado com o alógrafo longo (Figura 1). No documento de 1305 aparece a variante breve em “iur”, “ir” (Figura 2). À luz da regra já referida em relação à presença do diacrítico em cima do i duplo ou à extensão da haste do segundo, quando se encontra em contacto com letra de morfologia similar (u) para se evitar a confusão gráfica, observemos, então, as situações da carta de 1305, em que o alógrafo breve inicial ou interior seguido por letra de forma parecida aparece marcado com diacrítico (Figura 3), enquanto, noutras ocasiões, não leva o sinal por se encontrar seguido por letras de morfologia diferente (Figura 10: exemplo “ir”). No documento de 1313, utiliza-se, em posição inicial, o alógrafo longo no exemplo “jur” (Figura 4). Figura 1: Exemplo de i longo no documento de 1302: “jugadas” (l.3 e 5) Figura 2: Exemplos de i inicial breve no documento de 1305: ”iur” (l.6, 8), “ir” (l.9) Figura 3: Exemplos de i curto com diacrítico no documento de 1305: “iur” (l.6, 8), “Auis” (l.3) 83 Figura 4: Exemplo de i longo inicial no documento de 1313: “jur” (l.3, 6) A posição interior é dominada em todos os testemunhos régios aqui examinados pelo alógrafo i breve, enquanto o i longo conhece uma distribuição esporádica condicionada pelos contextos gráficos de duplo i ou letra de hastes curtas (m, n). De facto, examinando o material paleográfico, verificámos que três documentos se destacam pelo uso constante do alógrafo j em contextos gráficos com duplo i e com letras de morfologia similar: 1293, 1300, 1313 (Figura 5). Figura 5: Exemplos de j: “aluazijs” (1293/l.8), “trijnta” (1300/l.8), “uijr” (1313/l.12) O alógrafo i breve interior não se encontra regularmente marcado com diacrítico quando ocorre em contexto gráfico com letra de morfologia similar. Exemplo disso mesmo oferece o documento de 1313 (Figura 6). Figura 6: Exemplo de i breve interior no documento de 1313: “liure” (l.3) Em posição final de palavra, regista-se, esporadicamente, o i longo e, numa única ocasião, o i breve no documento de 1293: “assi” (Figura 7). Mais uma vez, os casos de i longo justificam-se, como norma geral, por critérios paleográficos, ou seja, pela presença de letras de morfologia parecida. Em três documentos vê-se “mȷ"” (Figura 8). Há, também, a registar outras ocasiões que não se podem justificar pelos mesmos critérios paleográficos, mas, provavelmente, pela preferência do escriba (Figura 9). Figura 7: Exemplo de i breve final no documento de 1293: “assi” (l.10) Figura 8: “mȷ"” (1293/l.7), (1305/l.4), (1313/l.7) 84 “recebj” (1302/l.2; 1303/l.2) “lhj” (1302/l.6) “ordi”/”ordj” (1305/l.3, 5) Figura 9: Exemplos de i longo e breve final No manuscrito BC, 2434, a utilização da variante j é reduzida às sequências “mȷ"” e “xij” (Figura 10) para evitar as confusões gráficas quando o i aparece em contacto com outras letras de morfologia similar. Figura 10: Exemplos de i longo: “amjgos” (LM/fol.67v/col.II/l.6), “xij” (LM/f.122v/col.II/l.9) Concluindo, observe-se que nos documentos régios, i longo alterna com i breve tanto em posição inicial, como no interior de palavra. Este último aparece condicionado nesta posição pelos critérios paleográficos já referidos, tanto nos documentos régios, como no manuscrito BC, 2434. 4. A representação do <y> O final da palavra é marcado em todos os documentos por y encimado por um ponto (“Rey”, “ffrey”), grafema que também ocupa a posição interior. No manuscrito BC, 2434 ocupa as mesmas posições. 85 5. A representação do <r>: r redondo, longo, e curto Nos documentos examinados evidenciam-se três tipos de letra r: r redondo, longo e curto. A forma redonda ocorre em posição interior e final nos documentos de 1293, 1302, 1303, 1313 e noutros dois, de 1300 e 1305, atesta-se unicamente no interior da palavra. É de assinalar como este alógrafo se evidencia exclusivamente nos contextos gráficos com letras em curva (o, b, h, p, y). Em todos os documentos se atestam os contextos gráficos or e br. O contexto gráfico pr regista-se apenas em dois documentos (1293, 1313). O documento de 1305 singulariza-se pelo registo de um caso do contexto yr e o de 1300 por um de hr em que o r é grafado na variante redonda. Relativamente à forma longa, observa-se a seguinte configuração: os documentos de 1302 e 1313 agrupam-se pelo uso do alógrafo em qualquer posição, enquanto os de 1293, 1300, 1305 reduzem a sua utilização à posição interior e final. O documento de 1303 é o único em que se utiliza em posição inicial e interior de palavra a variante longa. A situação do alógrafo de haste curta diferencia-se pelo facto de se atestar apenas em três documentos: em 1293 aparece em todas as posições, em 1305 no começo e no interior da palavra, enquanto em 1300 surge no interior e no final (Figura 1). Figura 1: Exemplo de r redondo, curto e longo na mesma palavra: “correger-mos” (1293/l.7) No manuscrito BC, 2434, são dois os alógrafos que traçam a letra r: o r redondo e o r longo. Este último acaba por se impor em qualquer posição e independentemente do contexto gráfico, incluindo em contexto com uma letra em curva contraposta (o, p). É de assinalar ainda que, nos documentos, o alógrafo longo não se regista após o o, como notámos no manuscrito BC, 2434. Quanto às variantes longa e curta, note-se o seu emprego em quaisquer posições, com excepção da ausência da última no manuscrito BC, 2434. 86 6. A representação do <s>: s alto e s redondo largo Nos documentos analisados atestam-se dois alógrafos da letra s: o s alto e o s redondo largo. Em posição inicial e em interior da palavra documenta-se em exclusividade o alógrafo alto em todos os documentos. A constância da variante redonda em posição final individualiza três documentos da presente análise: 1302, 1303 e 1313. O uso alternativo dos dois alógrafos dá-se nos documentos datados de 1293, 1300 e 1305, ou seja, em documentos assinados por Francisques Anes. No primeiro documento (1293) nota-se esporadicamente a forma redonda em posição final de palavra, ou seja, de um total de 71 casos de s final apenas em 4 (Figura 1) se atesta o respectivo alógrafo. Contando os casos do documento de 1300, verifica-se o predomínio da variante redonda em 8 de um total de 11 situações (Figura 2). No documento de 1305 a alternância gráfica é razoavelmente equilibrada: em 22 casos de um total de 36 se documenta o s largo final. Figura 1: Exemplos de s final redondo no documento de 1293: “uelhos” (l.3), “eles” (l.5), “casos” (l.6), “sas” (l.9) Figura 2: Exemplos de s final redondo nos documentos de 1300 e 1305: “todos” (l.4), “pecados” (l.4) No manuscrito BC, 2434 dá-se o uso exclusivo do alógrafo alto em posição inicial e interior. A mesma regularidade não se aplica em posição final, em que ocorre a alternância das duas formas. Contudo, é importante especificar que a forma alta aparece anteposta às vogais a, e, i e, num único caso, atrás do o. Assim, constata-se que, de um modo geral, se utiliza a variante alta no início e no interior de palavra em todo o material analisado, enquanto a forma redonda ocupa a posição final e, esporadicamente, inicial (1293, 1300, 1305). É importante observar que uma vez mais o grupo dos documentos datados de 1293, 1300 e 1305, tendo como assinante o nome idêntico Francisque Anes apresenta uma tendência comum. Recorde- 87 se que em duas desta cartas, isto é, as datadas de 1293 e 1305, se atesta o tipo caligráfico e na datada de 1300 o cursivo documental. Assim, pode inferir-se, nesta fase da análise, que o mesmo assinante terá executado cartas em cursiva e em caligráfica. 7. A representação de <g>, <m> e <n> No tocante à letra g, podemos dizer que em todas as cartas avulsas se regista a forma em haste de arco largo bastante semelhante ao que temos vindo a observar no manuscrito BC, 2434 (Figura 1). (1305/l.3) (LM/f.123v/col.1/l.3) (1293/l.1) (LM//f.67r/col.II/l.16) (1300/l.3) (1302/l.3) Figura 1: Exemplo de g Não deixa de ser interessante também observar o ductus das letras m e n finais. Apesar da estilização do seu traçado no manuscrito BC, 2434 estas letras apresentam o mesmo arranque na base, específico da cursiva, que permitirá uma comparação com as encontradas nos documentos em estudo (Figura 2). A letra n não ocorre em posição final em todas as cartas avulsas consultadas; por isso, foi possível destacá-la apenas na datada de 1300 (Figura 3). Também o m final se encontra, por exemplo, nas cartas de 1293, 1300, 1313 (Figura 4). Figura 2: Exemplos de m e n finais: “Galuam” (LM/f.123v/col.I/l.18), “morressen” (LM/f.123v/col.I/l.12) Figura 3: Exemplo de n: “don” (1300/l.2) 88 Figura 4: Exemplo de m: “elegam” (1293/l.3), “doaçom” (1313/l.12), “dom” (1300/l.3) 8. As fusões Em função dos casos encontrados, os documentos examinados separam-se em três grupos. O primeiro é formado pelos datados de 1293, 1300, 1305, 1313, em que se realizam as seguintes fusões: be, de, do, ho, os (em que o s é largo), pe, po. Em relação a este grupo, observamos que, para além dos exemplos mencionados, no documento de 1293 atesta-se, ainda, a fusão bo, no de 1300 he, no de 1305 ba, e no de 1313 as fusões bo e da. O segundo grupo representado pelo documento datado de 1303 praticamente não atesta este fenómeno e, finalmente, o terceiro grupo, constituído pelo testemunho de 1302, regista, de forma esporádica, as seguintes fusões: da, de, do, os. A cursiva do manuscrito BC, 2434 evidencia-se pela frequência do fenómeno das fusões de letras em curvas. Todas as letras que apresentam este tipo de morfologia criam um nexo com a letra posposta: ba, be, bo, da, de, do, ha (esporadicamente), ho, og, os, or, pa, po. Portanto, aqui o manuscrito BC, 2434 está mais próximo do primeiro grupo de documentos régios em que se agrupam, também, os assinados com o nome Francisque Anes. 9. As ligaduras Este fenómeno gráfico é muito frequente em todos os documentos régios e, como já vimos, também no manuscrito BC, 2434. De uma forma geral, as características morfológicas das letras proporcionam a realização de ligadura. Assim sendo, observa-se que a haste horizontal superior das letras r, g, t, c se liga às letras pospostas. O alógrafo s alto cria, com regularidade, ligadura com t posposto, fenómeno geralmente atestado, e o r redondo realiza conexão com outra letra em curva (o, b). Com a letra p atestam-se ligaduras apenas nos documentos de 1305 e de 1313 e no manuscrito BC, 2434. Outros casos assinaláveis são as geminadas ss, ligadura comum a todo o material paleográfico em análise, enquanto as geminadas ff e rr ligadas estão presentes apenas no manuscrito BC, 2434. 89 10. As abreviaturas e sinais Nos documentos de D. Dinis92, com excepção do datado de 1293, assim como observámos atrás, no manuscrito BC, 2434, observa-se um uso abundante de abreviaturas e sinais. O vasto repertório conhecido93 de abreviaturas e sinais observado nos textos em Latim encontra-se abundantemente adoptado no material paleográfico em vernáculo aqui analisado. Trata-te, pois, dos seguintes procedimentos abreviativos94: A. Abreviaturas: — por contracção (ms. BC, 2434/DD) — por suspensão (ms. BC, 2434/DD) B. Sinais especiais: — o sinal de origem taquigráfica representa a conjunção e: várias formas (ms. BC, 2434/DD) — o til (titulos) dá-se na elisão de um m ou n e assinala as abreviaturas por contracção e por suspensão (ms. BC, 2434/DD) — a letra tironiana em forma de 9 tem o valor de con- ou -us/-os (ms. BC, 2434/DD) — sinais de abreviação de sílabas formadas por r+e ou e+r (ms. BC, 2434/DD) C. Modificações literais: — d indica a preposição “de” ou a respectiva sílaba na palavra (DD) — p indica “per”, “por”, “pro” ou as respectivas sílabas nas palavras (ms. BC, 2434/DD) — q indica a conjunção “que” ou a respectiva sílaba nas palavras (ms. BC, 2434/DD) 92 Adiante serão referidos pela sigla DD. 93 Cf. Nunes, Borges E. (1981), op. cit., Stiennon, Jacques (1973), op. cit., Derolez, Albert (2003), op. cit. 94 Ver Apêndice 7. 96 que o novo ciclo é mais condensado do que o primeiro, desenvolvendo-se sobretudo em torno do rei Artur. 1.2 O Ciclo do Pseudo-Robert de Boron segundo José Carlos Ribeiro Miranda A tese do investigador portuense contraria em dois pontos principais a da estudiosa de Manchester. Em primeiro lugar, José Carlos Miranda discorda da denominação Post-Vulgata, considerando que a Queste transmitida pela Demanda portuguesa não deve ter derivado da Queste Vulgata, mas que as duas representam descendentes paralelos de um original comum perdido designado Queste Primitiva114. Não concordando com a designação “Post-Vulgata”, José Carlos Miranda prefere utilizar a denominação “ciclo do Pseudo-Robert de Boron” tendo em conta o facto de vários romances desta reescrita do ciclo, nomeadamente a Suite du Merlin, atribuirem a sua autoria a Robert de Boron115. Em segundo lugar, a tese de José Carlos Miranda colide com a de Fanni Bogdanow no que concerne à configuração do ciclo do Pseudo-Robert de Boron. Ou seja, o autor considera que do ciclo também fariam parte o Lancelot e ainda uma versão do Tristan en prose. Este autor defende que o ciclo do Pseudo-Robert de Boron era maior do que o designado por Vulgata, interpretando as referências à tripartição do ciclo como uma estratégia de organização dos manuscritos. Temos, no entanto, dúvidas de que o redactor tenha pretendido ir tão longe naquela sua alegação proferida nos fólios da SUITE DU MERLIN. A referência à tripartição pode ter a ver apenas com o modo de organizar a escrita de um tão vasto conjunto de textos, que obrigaria a que certos deles devessem permanecer juntos, porque tratavam matéria tida como de maior afinidade e ainda porque a respectiva dimensão não justificava que ocupassem cada um o seu livro, problema que não se colocaria relativamente ao LANCELOT, romance imponente e unitário por si, ao qual teria de corresponder, naturalmente, um livro próprio116. Assim, o ciclo do Pseudo-Robert de Boron teria, segundo o autor portuense, a seguinte configuração: 114 Na sua tese dedicada à Demanda do Santo Graal, José Carlos Miranda (1998a) constata que o testemunho peninsular se divide em dois níveis de escrita. O nível primitivo, A, conserva um texto bastante próximo do que teria sido a Queste Primitiva e o segundo, B, encerra as interpolações de matéria narrativa oriunda da Suite e do Tristan en prose. 115 A própria Fanni Bogdanow refere em 1959 no estudo “The Suite du Merlin and the Post-Vulgate Roman du Graal”, Arthurian Literature in the Middle Ages, ed. Loomis Roger, Oxford que “The Suite du Merlin, which repeatedly claims Robert de Bor(r)on as its author, has given rise to a prolific literarure about its relation to the other versions and has led to much speculation about a ‘pseudo-Robert de Bor(r)on’ cicle”, p. 326, remetendo também para o trabalho de Wechessler (1895), Über die verschiedenen Redaktionen des Robert von Borron zugeschriebenen Graal-Lancelot- Cyklus, Halle. Contudo, a autora adopta a designação Post-Vulgata. 116 Miranda, José Carlos Ribeiro (1998a), op. cit., p. 18. 97 - a Estoire del Saint Graal com pequenas interpolações que a integram no novo ciclo - o Roman de Merlin e a sua Suite atribuída a Robert de Boron - uma versão do Lancelot en prose - a Folie Lancelot - uma versão do Tristan en prose anterior a todas as conhecidas - uma versão da Queste cujo representante mais completo é a Demanda portuguesa. A tese de Ana Sofia Laranjinha117 que retoma a configuração cíclida defendida por José Carlos Miranda, aduz novos dados em relação ao papel do conjunto dos episódios publicados por Fanni Bogdanow sob o título de Folie Lancelot, referido atrás. Ao contrário do que defende a estudiosa de Manchester, a investigadora portuguesa, com base numa exaustiva comparação de textos, entende a Folie Lancelot como um grupo de episódios oriundos do Tristan en prose, mais especificamente da fase designada 4-A da redacção deste longo romance. A identificação de diversas temáticas e estratégias de escrita permite a esta autora concluir que a redacção do Tristan en prose terá sido efectuada em várias fases, que não se podem confundir com as versões manuscritas identificadas por Emmanuèle Baumgartner118, todas tardias. Depois de identificar a primeira fase de redacção, que se concentra em torno da história dos amantes da Cornualha, e a segunda, onde as aventuras cavaleirescas e as personagens se multiplicam, levando o Tristan en prose a transformar-se num verdadeiro romance dos cavaleiros da Távola Redonda, a investigadora portuguesa distingue a terceira fase de redacção do Tristan en prose, onde está presente o tema do ódio entre as linhagens de Lot e Pelinor (proveniente da Suite du Merlin), em que Galvão é uma personagem negativa e Lamorat é amante da rainha de Orcanie, mãe de Galvão. As fases seguintes são já desenvolvimentos da terceira fase, visando preparar a Demanda do Santo Graal. As conclusões de José Carlos Miranda e de Ana Sofia Laranjinha são imprescindíveis para a compreensão da configuração do ciclo e do processo da reescrita que nele se revela. A investigação recente de Isabel Correia119, indagando sobre o lugar do Lançarote do Lago, no âmbito da tradição textual do Lancelot en prose, revelou novos dados quanto ao relacionamento que este texto estabelece com outros da composição do ciclo do Pseudo-Robert de Boron, como a Suite du Merlin e o Tristan en prose. Com base num confronto textual, a investigadora coimbrã identifica no Lançarote de Lago 117 Laranjinha, Ana Sofia (2010), op. cit. 118 Baumgartner, Emmanuèle (1975), Le Tristan en prose: essai d'interprétation d'un roman médiéval, Genève, Librairie Droz. 119 Correia, Isabel Sofia Calvário (2010), Do Lancelot ao Lançarote de Lago: tradição textual e difusão da versão do ms. 9611 BNE, [tese policopiada], Porto, Universidade do Porto. 98 alusões a personagens e episódios sem correspondente no Lancelot en prose (para além dos episódios dos fólios finais do Lançarote de Lago120, que já tinham sido identificados anteriormente), facto que lhe permite concluir que a operação de conjointure é da responsabilidade do redactor da versão francesa que deu origem ao Lançarote de Lago e tinha o objectivo de aproximar o Lancelot en prose do universo romanesco representado pelo ciclo do Pseudo-Robert de Boron. Tese que vem ao encontro das defendidas por José Carlos Miranda e Ana Sofia Laranjinha. Antes de partir para a reflexão sobre os primeiros testemunhos da tradução galego-portuguesa do romance arturiano, viramos mais uma página na nossa apresentação, dando a conhecer os testemunhos que atestam a difusão do ciclo na Península Ibérica. 2. O Romance Arturiano na Tradução Peninsular Ibérica121 Os testemunhos materiais conservados em arquivos e bibliotecas europeias revelam três línguas alvo, do espaço peninsular ibérico, em que se realizaram as traduções do romance arturiano a partir do Francês. Referimo-nos a Galego-Português, Castelhano e Catalão. É nas primeiras duas línguas que se transmitem versões do ciclo do Pseudo-Robert de Boron. É provável que o contexto histórico da vinda de Afonso III para o Reino de Portugal, em meados do século XIII, tenha marcado a divulgação deste ciclo no Ocidente peninsular122. Os testemunhos conservados atestam também o Catalão e o Castelhano como línguas de chegada em que se transmitiu o ciclo da Vulgata, difundido no território hispânico a partir da Catalunha. Assim, do ciclo do Pseudo- Robert de Boron conservam-se em Português: - um fragmento da Estória do Santo Graal, oriundo de Santo Tirso e conservado no Arquivo Distrital do Porto, objecto de estudo desta dissertação123; - uma versão integral da Estória do Santo Graal, também designada como Livro de José de Arimateia, transmitida num manuscrito do século XVI124; 120 Idem, pp. 329-330. 121 Descrição detalhada dos testemunhos que apresentamos pode encontrar-se na base de dados Philobiblon, BETA / Bibliografia Española de Textos Antiguos; BITAGAP / Bibliografia de Textos Antigos Galegos e Portugueses; BITECA / Bibliografia de Textos Antics Catalans, Valencians I Balears, http://bancroft.berkeley.edu/philobiblon/index_po.html. 122 Castro, Ivo (1983), op. cit.; Miranda, José Carlos Ribeiro (1996), op. cit. 123 Aida Fernanda Dias apresenta um estudo sobre este manuscrito e uma transcrição do texto em Dias, Aida Fernanda (2003-2006), op. cit., pp. 204-212 e há ainda outra transcrição do texto em Apêndice 3 desta dissertação. 124 Ivo Castro apresenta um estudo e uma edição parcial deste texto em Castro, Ivo (1984), op. cit. 99 - um fragmento do Livro de Merlin, conservado na Biblioteca da Catalunha, objecto de estudo do presente trabalho125; - um fragmento do Livro de Tristan, conservado no Arquivo Histórico Nacional de Madrid, objecto de estudo desta dissertação126; - uma versão integral da Demanda do Santo Graal, datada do século XV e conservada na Biblioteca Nacional de Viena127. Em Castelhano conhecem-se também traduções de vários romances do ciclo do Pseudo-Robert de Boron que mencionamos: - três fragmentos do Libro del Santo Grial, do Libro de Merlin e da Morte de Artur, datados do século XV e conservados no ms. 1877 da Biblioteca da Universidade de Salamanca128; - duas versões impressas do Baladro del Sabio Merlin con sus profecias, uma em Burgos (1498)129 e outra em Sevilha (1535)130; - duas versões impressas da Demanda del Sancto Grial con los maravillosos fechos de Lanzarote y de Galaz su hijo, uma em Toledo (1515) e outra em Sevilha (1535)131; - um fragmento do Tristan, datado de finais do século XIV e conservado na Biblioteca Vaticana132; - um fragmento do Tristan composto por cinquenta e nove fólios133, datado do século XV e conservado na Biblioteca Nacional de Madrid; - três versões impressas do Tristan de Leonís134. 125 Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. A. (eds. 2001), op. cit. 126 Ibidem. 127 Nunes, Irene Freire (ed. 2005), Demanda do Santo Graal, 2.ª ed. revista, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 128 Pietsch, K. (1924-1925), Spanish Grail Fragments: El Libro de Joseph Abarimathia, la Estoria de Merlin, Lançarote, Chicago, Univ. Press, The Modern Philology Monograpfs of the Univ. of Chicago; Garcia de Lucas, Cesar (1997), La Materia de Bretaña del Manuscrito 1877 de la Biblioteca Universitaria de Salamanca (tesis doctoral), Alcalá, Universidad de Alcalá. 129 Bohigas Balaguer, Père (ed. 1957-1962), El baladro del Sabio Merlín según el texto de la edición de Burgos de 1498, Barcelona, Selecciones Bibliófilas, Segunda Serie, 3 vols; 130 Bonilla y San Martín, Adolfo (ed. 1907), El baladro del Sabio Merlín, primera parte de la Demanda del Sancto Grial, Libros de caballerías. Primera parte: Ciclo artúrico, Madrid, Nueva Biblioteca de Autores Españoles 6, (réédition de l'édition de Séville, 1535) e há ainda uma edição em Bishop, Tracy Van (ed. 2002), A Parallel Edition of the Baladro del sabio Merlin: Burgos 1498 and Seville 1535. A dissertation submitted in partial fulfillment of the requirements for the degree of Doctor of Philosophy (Spanish) at the University of Wisconsin-Madison. 131 Bonilla y San Martín, Adolfo (ed. 1907), El baladro del Sabio Merlín, primera parte de la Demanda del Sancto Grial, Libros de caballerías. Primera parte: Ciclo artúrico, Madrid, Nueva Biblioteca de Autores Españoles 6, (réédition de l'édition de Séville, 1535). 132 Lucía Megías, José Manuel (2005), “Literatura Caballeresca Catalana: de los Testimonios a la Interpretación (un Ensayo de Crítica Ecdótica)”, Caplletra (Revista Internacional de Filologia), 39, Tardor, pp. 231-256. Disponível em: http://eprints.ucm.es/6514/1/2005Literatura_caballeresca_catalana_(Caplletra).pdf (12.IX.2012) 133 Descobertos e editados por Carlos Alvar e José Manuel Megías em 1999. Cf. Alvar, C. & Lucía Megías, J. (eds. 1999), “Tristán de Leonís”, Revista de Literatura Medieval, IX, pp. 9-135. 134 Conhecem-se as edições de 1501, 1528 e 1534. 100 Em Catalão existem também dois fragmentos do Tristan compostos cada um por quatro fólios135: um datado da segunda metade do século XIV, conservado no Arxiu Històric Nacional (Andorra) e um outro, cujo paradeiro permanece desconhecido. Quanto ao ciclo da Vulgata, mencionamos a sua atestação em Castelhano pela composição da Demanda, já aludida, e os testemunhos seguintes em Catalão: - dois fragmentos do Lancelot, datados do século XIV136; - uma versão integral da Queste, datada do século XIV137; - um fragmento da Morte d’Artur, incluído num incunábulo conservado na Biblioteca da Catalunha138. Neste momento impor-se-ia conhecer a matéria narrativa contemplada nos primeiros testemunhos fragmentários da tradução galego-portuguesa do romance arturiano, de cujo suporte material nos ocupámos nas primeiras duas secções. 3. A matéria narrativa dos Primeiros Testemunhos da Tradução Galego- Portuguesa do Romance Arturiano 3.1 O manuscrito de Santo Tirso (Estória do Santo Graal) A tradução galego-portuguesa da Estória do Santo Graal, transmitida por um bifólio pergamináceo oriundo de Santo Tirso, objecto de estudo nas primeiras secções deste trabalho, contém dois segmentos narrativos que têm como protagonista o rei Mordão. O primeiro episódio conta o momento da destruição do ídolo com qual o rei Mordão pecava em segredo e a conversão ao cristianismo do rei e do seu povo. O segundo episódio narra a história da penha do mar, para onde o rei Mordão teria sido levado miraculosamente e onde ainda teria tido outras visões significativas. O primeiro episódio corresponde à matéria que se pode ler no primeiro fólio de que é constituído o manuscrito fragmentário de Santo Tirso e o segundo à que se encontra no segundo fólio. 135 Lucía Megías, José Manuel (2005), op. cit. 136 Para mais informações ver Lucía Megías, José Manuel (2005), op. cit. e Correia, Isabel Sofia Calvário (2010), op. cit., pp. 11-70. 137 Para mais detalhe ver Lucía Megías, José Manuel (2005), op. cit. 138 Ibidem. 101 3.1.1 O primeiro episódio: a destruição do ídolo e a cristianização do rei Mordão e do seu povo O suporte material conservado permite a leitura integral do texto infelizmente apenas de um lado, ou seja, do lado que constituiu o interior da encadernação. Por conseguinte, a leitura da parte menos legível deste fólio do manuscrito de Santo Tirso só foi possível graças ao auxílio do manuscrito quinhentista 643 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que transmite o mesmo texto numa versão integral. Assim sendo, o primeiro episódio inicia-se com o relato de como o rei Mordão, seguindo o conselho de Josefes, destrói, pelo fogo, o seu objecto idólatra, cuja descrição integral se conserva apenas no material quinhentista: “aquela ymagẽ que el Rey aly tynha naquela camara era de paao e a mays fermosa que numca fora per homẽ vysta feyta ẽ forma de homem e jazia el Rey com ela carnallmẽte e vestia muy ricamẽte”139. É descrito com muito detalhe o local secreto que Mordão construíra para guardar este objecto, “hũa camara por tam grã soteleza que bem coydo que hũa coussa terreal lhe podese achar porta”140. Após o rei Mordão ter queimado o objecto idólatra diante todos, dá-se o momento da conversão do rei e do seu povo à fé cristã. No dia seguinte, Josefes parte das terras do rei, deixando saudades. Após a partida de Josefes, o rei Mordão experimenta uma grande tristeza e, permanecendo no seu leito, preocupa a rainha com o seu silêncio. É narrado o sonho que originara o estado de espírito do rei Mordão, em que lhe surge um conjunto de elementos oníricos, nomeadamente, um cordeiro que lhe trazia comida e um lobo que lha retirava. Mordão combate e vence o lobo. Um outro elemento do sonho relaciona-se com a sua coroa. Aparece-lhe, ainda, o sobrinho da rainha, filho de Nascião, Celidones — nome que identificamos pela leitura do texto integral do manuscrito lisboeta —, de cujo ventre saía um lago de que derivavam ainda nove rios. Num outro momento da visão uma águia leva-o, pelos ares, até uma montanha estranha. No verso do primeiro fólio é ainda possível ler como a rainha insiste que Nascião, seu irmão, vá perguntar ao rei a razão da inquietude em que está. 139 Cf. ed. Carter, Henry Hare (ed. 1967), op. cit., p. 163/l.22. 140 Ver transcrição nossa em Apêndice 3. 102 3.1.2 O segundo episódio: as experiências oníricas do rei Mordão A segunda parte do bifólio está muito danificada. O texto refere a penha do mar para onde, de acordo com o testemunho quinhentista, o rei Mordão teria sido levado miraculosamente. Narra o encontro do rei Mordão com um homem de uma beleza extraordinária, que surge numa pequena barca de prata, com uma vela branca assinalada com uma cruz vermelha “moy ffremosa”. O texto prossegue com fragmentos, muito danificados, do diálogo entre o rei Mordão e o homem belo da nave. Seguidamente, e numa porção de pergaminho mais bem preservado, o diálogo continua, versando questões teológicas. Após esta conversa o homem da nave desaparece, deixando o rei confuso e com dúvidas sobre a realidade do evento, mas seguro de ter presenciado uma intervenção divina. Finalmente, Mordão tem outro encontro com uma mulher que lhe surge, igualmente, numa barca e que o convida para a sua casa, propondo-lhe companhia e… O testemunho galego-português da Estória do Santo Graal não conserva mais texto a partir desta passagem. 3.2 O manuscrito da Catalunha (Livro de Merlin) Apesar de ser constituído por um meio fólio e um bifólio, como se referiu, também, na descrição codicológica, o manuscrito da Catalunha não inclui mais matéria narrativa do que o manuscrito anterior, composto apenas por um bifólio. Estes aspectos podem relacionar-se com o tipo de escrita em que o texto se encontra redigido, objecto de estudo da segunda parte deste trabalho141. Assim, o testemunho da Catalunha, transmitindo a tradução galego-portuguesa do Livro de Merlin, inclui dois segmentos narrativos, a saber, a história de amor do príncipe Anasten que Merlin contara à Donzela do Lago — sabemos isso pelo correspondente francês consultado142 —, e uma parte do episódio das donzelas da Roche aux Pucelles e dos cavaleiros andantes, Galvan e Maroth. O primeiro episódio pode ler-se no meio fólio do manuscrito fragmentário da Catalunha e o segundo, no bifólio. 141 Ver a segunda parte deste trabalho. 142 Cf. Roussineau, Gilles (ed. 1996), op. cit. 103 3.2.1 O primeiro episódio: a história de amor do príncipe Anasten A primeira narrativa desenvolve a história de amor do príncipe Anasten, que o opõe ao seu pai, o rei Assen. Por seu pai ter prometido separá-los pela morte da donzela, o príncipe decide esconder a sua amada, filha de um pobre cavaleiro, e manda fazer uma câmara numa “pena nadyua”143 onde, diz a história, viveram felizes e morreram juntos e, ainda hoje, os corpos permanecerão porque “son Balsamados”144. Esta é a história que Merlin conta à Donzela de Lago. Existe ainda o início do diálogo entre a Donzela do Lago e Merlin que lhe promete mostrar-lhe a câmara, mas o testemunho galegoportuguês não contém mais material nesta parte... 3.2.2 O segundo episódio: as donzelas da Roche aux Pucelles A segunda passagem narrativa relata a história das donzelas da Roche aux Pucelles. Reconstituindo-a com base no texto francês já referido, podemos deduzir que a história narra como dois cavaleiros iriam matar-se por terem sido encantados se uma donzela — pelo texto francês acima mencionado, sabemos que era “cousine germaine” da Donzela do Lago145 —, conhecedora desta arte, não os tivesse encontrado e salvo. No início do bifólio lemos que a donzela reconhece, pelas suas armas, Galvan e Maroth como os cavaleiros que combatem e entende que a razão para tal “desamor” era um encantamento. Depois do encontro com uma dona velha e a recusa do pedido do serviço de amor que ela lhes fizera, entre eles desaparecera a paz. Na verdade, esta dona não era velha, mas “muy fremosa”146 e a autora do encantamento entre os cavaleiros. Depois de terem pernoitado numa abadia, a donzela despede-se dos cavaleiros. Dias mais tarde — sabêmo-lo pelo texto francês147 —, os cavaleiros também partem em demanda de aventuras até chegarem a uma penha alta habitada por doze donzelas cuja ocupação era falar das coisas futuras. 3.3 O manuscrito de Madrid (Livro de Tristan) A tradução galego-portuguesa do Livro de Tristan preservada no manuscrito de Madrid inclui três episódios. A primeira passagem conta a alegria da rainha Iseu devido 143 Idem, p. 152/l.21. 144 Idem, p. 152/l.28. 145 Cf. Roussineau, Gilles (ed. 1996), op. cit., §493/5. 146 Cf. Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, António José (eds. 2001), op. cit., p. 154/l.56. 147 Cf. Roussineau, Gilles (ed. 1996), op. cit., §495/l.8-12. 104 às novas de Glingain sobre Tristan, a segunda e a terceira narram as aventuras de Lancelot à procura do Cavaleiro da Saia Mal Tallada. O primeiro episódio corresponde à matéria contida no f.1r/l.1-16, o segundo episódio comparece no f.1r/l.16-1v e o terceiro no f.2r-v. 3.3.1 O primeiro episódio: a alegria da rainha Iseu devido às novas de Glingain sobre Tristan A primeira passagem relata a alegria de Iseu depois de ter recebido as notícias sobre Tristan e o pedido da rainha para Glingain guardar segredo, pois não queria que os de Cornualha soubessem que o cavaleiro estava vivo. 3.3.2 O segundo episódio: o encontro entre Lancelot e dois cavaleiros e o confronto destes com Neroneus Neste episódio, vemos Lancelot partir à procura do Cavaleiro da Saia Mal Tallada depois de se ter despedido da donzela que lhe trouxera as cartas de Tristan. Sobre o cavaleiro procurado sabemos, a partir das edições francesas, que se tinha responsabilizado, na corte, pela aventura do escudo trazido por uma donzela. Nas aventuras que se seguem, Lancelot permanece uma noite numa casa onde tinham pernoitado, também, o Cavaleiro da Saia Mal Tallada e a donzela “maldisente”. O anfitrião pede a Lancelot que, no seu caminho, não combata com o seu filho que se responsabilizara pela guarda de uma ponte. Em seguida, conta-se que, no seu caminho, Lancelot encontra Brandeliz e Queia d'Estrauz, que não o reconhecem. Quando chegam à ponte guardada por Neroneus, o filho do anfitrião, Lancelot, segundo a promessa que fizera ao pai, deixa os dois cavaleiros passarem a ponte. Brandeliz e Queia serão derrubados pelo cavaleiro da ponte... O testemunho galego-português não contém mais material nesta parte. 3.3.3 O terceiro episódio: o combate de Lancelot no Castelo Uter O testemunho contém, no segundo fólio, o relato da aventura de Lancelot que, depois de se ter despedido de Brandeliz e Queia, chega ao Castelo Uter — sabemos o 105 nome do castelo pela leitura da passagem anterior do texto francês148 —, onde combate seis cavaleiros responsáveis pela guarda do castelo. Depois de os vencer, Lancelot combatera também o senhor da fortaleza e o bifólio termina com a consternação dos do castelo, vendo os seus cavaleiros derrubados por um só. Partimos então para a reflexão sobre os primeiros testemunhos da tradução galego-portuguesa do romance arturiano e os correspondentes franceses, procurando configurar a fonte francesa e compreender o seu lugar no stemma codicum da tradição textual das respectivas obras. Esta parte divide-se em três capítulos complementares. Os aspectos de colação referidos serão examinados, no primeiro capítulo, graças à comparação entre dois testemunhos peninsulares da Estória do Santo Graal e dois correspondentes franceses; no segundo, entre o testemunho único galego-português do Livro de Merlin e três correspondentes franceses e, no terceiro, entre o testemunho único galego-português do Livro de Tristan e cinco correspondentes franceses. 148 Cf. Ménard, Philippe (ed. 1987), Le Roman de Tristan en prose: Des aventures de Lancelot à la fin de la Folie de Tristan, vol. I, Genève, Droz, §25/l.18-19. 112 redactor do exemplar da Estória do Santo Graal que o manuscrito de Santo Tirso copia, limitando-se este a reproduzir o respectivo hiatus. De qualquer forma, a falta do episódio intercalado vem reforçar a conclusão de que o testemunho conservado no Arquivo Distrital do Porto não pode ter dado origem ao da Torre do Tombo, ou seja, viabiliza-se a ideia da circulação de mais do que um exemplar desta obra no âmbito galego-português. Por outro lado, confrontando o texto que se lê em ST com o que é transmitido por TT, confirmámos que, “no fundamental, seguem uma mesma narrativa sem variantes substanciais, o que, à partida, pode apontar no sentido de que descendem de uma única tradução”181. Dada esta ascendência comum, considerámos pertinente incluir na nossa análise comparativa os casos que, apesar de serem legíveis apenas em TT, são de relevância para os nossos objectivos. Assim, do confronto dos testemunhos peninsulares com os correspondentes franceses, resultam duas grandes categorias de casos. Referimo-nos, em primeiro lugar, à categoria de casos que contempla a ausência de sintagmas nominais, adjectivais, verbais, adverbiais e de frases e, em segundo lugar, à categoria de casos que indica a afinidade léxico-semântica entre várias unidades sintagmáticas. Ora, estas duas categorias de casos dão lugar a uma variedade de combinações. Ou seja, num primeiro momento, destacar-se-ão os casos de ausência e de afinidade que afastam os testemunhos peninsulares da redacção francesa breve transmitida por So, num segundo momento, evidenciar-se-ão as situações que afastam os testemunhos portugueses da redacção mista lida em Po e, num terceiro momento, assinalar-se-ão os segmentos singulares do lado de ST/TT. Um outro aspecto importante que deve ser mencionado diz respeito à forma de selecção dos casos nesta secção e na secção seguinte que trata o problema do processo de tradução. Dispondo de mais do que um testemunho francês em confronto com cada testemunho peninsular, com a excepção da segunda narrativa do Livro de Merlin182 em que o único elemento de comparação possível é o ms. BNF, fr. 112, seleccionámos para a análise de colação os casos em que o testemunho galego-português se agrupa com um ou mais do que um dos testemunhos franceses na respectiva situação e para a análise de tradução, os casos em que o testemunho peninsular se mostra divergente de todos os franceses estudados. Esta repartição resulta de uma opção metodológica na tentativa de compreender os fenómenos de ausência e de afinidade léxico-semântica. No que toca ao primeiro, por exemplo, caso se detecte como característica específica apenas do 181 Ailenii, S. (2009), op. cit., p. 15. 182 Infra, p. 141. 113 testemunho peninsular, pode explicar-se ou pela redução do texto galego-português produzida no acto de tradução, ou seja, como um procedimento de supressão da expressão redundante ou como resultado de uma amplificação do francês. Esta categoria de casos é assim objecto de estudo na secção dedicada aos aspectos de tradução. Caso se ateste ausência de elementos tanto no testemunho peninsular bem como num ou em mais do que um testemunho francês pode supor-se que se trataria de uma característica que este(s) apresenta(m) em comum com a fonte francesa do testemunho peninsular. Esta categoria de casos entra assim na secção dedicada aos problemas de colação. Relativamente ao fenómeno de afinidade lexical, a repartição segue o mesmo princípio acima exposto com a explicação seguinte: a afinidade lexical pode ser, por um lado, privilegiada pelas semelhanças estruturais das línguas em contacto e, por outro, influenciada pela utilização dos derivados do mesmo étimo (pg. “vergonça”, fr. “vergogne” < lat. vĕrēcŭndia, ae) num ou em mais do que um testemunho francês, facto significativo na configuração da fonte do testemunho peninsular. Estas são questões que o presente estudo se propõe equacionar. É sabido que a transmissão manuscrita de uma obra supõe um conjunto de transformações do texto. Supra classificámos um conjunto de transformações em fenómenos de ausência e de afinidade lexical que condicionam o afastamento ou a proximidade entre os testemunhos aqui colacionados. Ao contrário do que se formulou até agora em torno de práticas ecdóticas, Inés Fernández-Ordóñez183 propõe uma nova abordagem dos fenómenos encarados como variantes textuais. A autora considera mais adequada a interpretação da variante linguística como variação “discursiva” enquanto uma das manifestações da transformação do texto no processo de cópia. Apesar de ser também gerada através de mecanismos linguísticos (morfológicos e sintácticos), a variante “discursiva” surge, segundo afirma a autora, “de los matices interpretativos que introduce el copistahablante al enlazar unas oraciones con otras como parte del discurso que he creado el texto objeto de traslado”184. Tendo isto em mente, tentaremos compreender se os mecanismos linguísticos dos testemunhos peninsulares se relacionam com um ou mais do que um dos testemunhos franceses colacionados de forma que se possa configurar o antecedente que originou o texto lido nos testemunhos galego-portugueses. 183 Fernández-Ordóñez, Inés (2006), “Transmisión manuscrita y transformación “discursiva” de los textos”, J. J. de Bustos Tovar y J. L. Girón Alconchel, Actas del VI Congreso Internacional de Historia de la Lengua Española, Madrid, Arco/Libros, III, pp. 3033-3045. 184 Idem, p. 3036. 114 Vamos ocupar-nos, de seguida, dos casos que ilustram o afastamento entre os testemunhos portugueses e So, de acordo com Po, através de fenómenos de ausência de sintagmas nominais, adjectivais, verbais, adverbiais, frásicos e de afinidade lexical entre as unidades sintagmáticas retidas em ST/TT e Po. Procederemos à colação sistemática dos casos referidos. 1. Afastamento entre ST/TT185 e So 1.1 Ausência de segmentos em So Destacam-se várias situações de ausência do lado de So, testemunho que transmite a versão curta da Estoire del Saint Graal, em relação a ST/TT e Po. 1.1.1 Ausência de segmentos nominais, adjectivais e adverbiais em So Chama-se a atenção para dois casos semelhantes de ausência nominal do lado de So. Os segmentos seleccionados fazem parte do episódio em que o rei Mordaim tem visões e trata-se de curtos momentos em que o rei é levado por uma ave “além mar” a um lugar estranho; chega miraculosamente a uma penha muito alta onde é abordado por um homem que vinha numa barca branca; o “omẽ boo da naue” ensina ao rei a importância do sinal da cruz e da fé em Deus; o rei vê no início oito rios em que um homem, vindo do céu, lava os pés e as mãos e um nono rio onde o rei lava o corpo todo. (i) ST(f.1v/col.I/l.34-35) TT (p.165/l.12) Po (§288/l.4) So (p.84/l.29-30) […]nha aue […] | e poynha y. e a ave ho punha aly e vynha Illuec le metoit l'aigle jus; et quant il estoit a terre, si venoient et illuec le metoit ius et si tost com il lot mis ius si uenoient (ii)186 185 Será utilizado o texto da nosa transcrição paleográfica, ver Apêndice 3 desta dissertação. 186 Outros casos de ausência ou equivalência presentes neste segmento encontram-se assinalados nas devidas secções. 115 ST (f.2r/col.I/l.20-23) TT (p.174/l.36-39) Po (§319/l.9-13) So (p.93/l.14-16) que nõ acha|ua rrem cõ que lhe p[…]ugesse e comẽçou a pen|ssar E pẽssou ẽ sseu coraçõ […] auja todo | perdydo sse a Deus es[...]esse e quamdo vio que nom achava com que lhe aprouve se asemtouse e começou a cudar e cuydou em seu coraçam que hagora avia todo perdido se esqueçese a Deos Et quant il vit ke il ne troveroit nul confort, si s'asist et commencha mout durement a souspirer du cuer et a plourer des iex de la teste et commencha a penser en son cuer ke ore avoit il tout pierdu, se Nostre Sires l'avoit mis en oublianche et en nonchaloir en cheste doleur et en cheste angoisse ke il soustenoit Et quant il uit quil ni auoit nul confort si commencha a plorer et a penser mout durement et dist certes ore ai iou trop perdu se Nostre Sires ne me secuert Tendo em conta que os dois manuscritos peninsulares testemunham uma única tradução é possível, como se referiu acima, conjecturar as lições nas porções danificadas do suporte material do testemunho tirsense a partir do texto integral do manuscrito quinhentista. Assim, note-se, no primeiro exemplo, através das lições de TT e Po, a ausência do correspondente do sintagma “a ave” / “l’aigle” do lado de So. O segundo exemplo, também legível, desta vez, em ST, evidencia uma outra lição ausente em So que consiste no grupo nominal “ẽ sseu coraçõ” registado, igualmente, em TT (“em seu coraçam”) e em Po (“en son cuer”). O contexto mostra que “a ave” é referida numa frase anterior registada por todos os testemunhos (“e que hũa aue”(ST) / “e que huã ave”(TT) / “que vns oisiaus”(So) / “ke uns grans oisiaus”(Po)), por isso, So não se revela necessariamente elíptico neste passo, mas não reitera o respectivo elemento na segunda ocorrência comum a ST/TT e Po. Em todo o caso, trata-se de situações que indicam que a fonte de ST/TT apresenta elementos que se encontram também em Po. O exemplo (iii) evidencia ausências de formas adjectival e adverbial em So. (iii) 116 ST (f.1v/col.II/l.11- 16) TT (p.165/l.21- 24) Po (§288/l.19- 23) So (p.85/l.1-4) […] | esto uijnha hũu ho[…] [...] […]|tymuynha [...] […] […] […] | lago e lauou y sseus p[…]s e ss[...] | nos oy[...] […] […] E […] […] | ele e lauou y todo sse[…] [...] Depoys vynha huũ homẽ descomtra ho ceo que trazia ho testemunho do verdadeiro crucyfixo e veyo ao lago e levou hy seus pes e suas mãos e o[u]trosy nos oyto rios e no novento meteose todo e lavou todo seu corpo Aprés si gardoit, si veoit un home venir de vers le chiel qui portoit le tesmoing del vrai Cruchefi et, quant il estoit venu au lac, si lavoit dedens ses piés et ses mains, et en chascun des .VIII. fluns autresi. Et quant il estoit venus au neufvime, si entroit tous dedens et si lavoit ses piés et ses mains et tout son cors Apres si esgardoit et uit . j . homme uenir de deuers le ciel qui portoit le tesmoig del urai crucefis et quant il en uint as lacs si laua en cascun des . viij . lacs ses pies et ses mains et quant il vint al neufisme si entroit dedens et lauoit illuec son cors No segmento acima destacado, trata-se do determinante indefinido “todo” do grupo nominal “todo” sse[...]” / “todo seu corpo” que se regista nos dois testemunhos portugueses de acordo com Po (“tout son cors”), enquanto So não regista a respectiva lição (“son cors”). A ausência do lado de So da forma adverbial “[u]trosy” do exemplo (iii) vem apontar para a hipótese de ST/TT se terem baseado numa fonte francesa com vocábulos também contidos no antecedente de Po (“autresi” / “[u]trosy”). (iv) 117 ST (f.2v/col.I/l.10-11) TT (p.175/l.34-35) Po (§322/l.4-8) So (p.94/l.13-14) Ca quando Deus ama o homẽ de todo | coraçõ entõ he dereyta rrazõ e quamdo Deos amaa o homem que se a ele chẽga de todo coraçam emtam he direyto e rezão car, puis ke il a mis et le cors et le cuer de tout en tout en la creanche Damedieu, dont est il bien drois ke il s'atende a lui de toutes les choses dont il est besoingneus, car teus est la coustume Damedieu ke il aime plus home et en grignour cierté le tient ke ne fait li hom meïsmes. Dont est il bien raisons Car Diex aime miex lomme qui a li se tient que li homs mismes ne saime. dont est il bien drois Destaque-se, em último lugar, um outro caso de ausência nominal do lado de So. Assim, a lição “de todo coraçõ” de ST, com a variante “de todo coraçam” em TT, ilustra a descendência de um arquétipo francês com lição parecida com a de Po, no registo da expressão “le cuer de tout en tout”. Uma vez mais, em So, esta lição não encontra paralelo directo e pode ilustrar de novo que a fonte francesa dos testemunhos peninsulares apresenta elementos consistentes de Po. Os elementos seleccionados nos exemplos (ii)-(iv) conferem ao texto um enriquecimento estilístico, enquanto o sublinhado em (i) indica uma expressão mais elíptica em So, devida à sua fonte ou ao processo de cópia. 1.1.2 Ausência de segmentos verbais em So Um outro conjunto de casos de ausência em So abrange o grupo verbal e põe, assim, em evidência a afinidade entre a fonte de ST/TT e a versão contida em Po. (i)187 187 Outros casos relacionados com leituras inovadores em ST/TT são assinalados na devida secção. 118 ST (f.1v/col.I/l.24-29) TT (p.165/l.5-8) Po (§287/l.18-21) So (p.84/l.24-26) assy pẽ|ssou que era mal [...] lho sofrya. E disse […] | sse conbaterya cõ [...] dya. E [...] | [...] […] grã [...] Assy f[…]gyu ho | lobo que [...] despoys tolheu sseu mã|gar asy cuydou que era mao por que ho sofria e dyse que se combat[ery]a cõ ele e tamto fez que se combateu com elle hũu dia e vẽceo grão trabalho asy fogio ho lobo que depoys nõ lhe tyrou cousa de seu mamjar en tel maniere, si se pensa ke il ne li soufferoit plus, anchois se conbateroit a lui. Tant fist ke il se conbati un jour et ke il le venqui a mout grant paine. Ensi s'en fui li leus, c'onques puis point de sa viande ne li toli ensi si sapensa quil se combateroit a lui tant quil auint a . j . ior quil se conbatit au leu et le uenqui a moult grant paine et lors sen fui li leus ne onqeus puis ne li toli de sa uiande Na porção de texto acima apresentada relata-se como o rei Mordaim, alimentado por um cordeiro, luta contra o lobo que lhe tirava a comida. Apesar das leituras singulares “mal”(ST) / “mao”(TT) e da sintaxe coordenativa com o predicado “disse”, que teremos oportunidade de comentar numa categoria dedicada a estas questões, ST/TT estão de acordo com o que lemos em Po, ou seja ao segmento “que era mal [...] lho sofria” corresponde “ke il ne li soufferoit plus”. So encontra-se omisso nesta lição. (ii) ST (f.1v/col.I/l.31-33) TT (p.165/l.10-11) Po (§288/l.1-3) So (p.84/l.28-29) E uja seu sobrynho e o a[...] | E que hũa aue que ssemelhaua agea o leua|ua aalem [...] e vyase sobyr no ar e que huã ave que lhe pareceya aguya ho levava alem mar si veoit il un sien neveu, qui estoit fiex Nascien, son serourge, ke uns grans oisiaus en samblanche d'aigle prenoit et si l'enportoit, voiant ses iex, outre la mer si uit . j . sien neueu que vns oisiaus enportoit outre la mer Observando o segmento (ii), damo-nos conta de que a equivalência de um grupo nominal por um grupo verbal em ST/TT pode dever-se ao processo de tradução188. Em todo o caso, a afinidade entre os testemunhos peninsulares e Po revela-se, uma vez mais, no plano da forma, com a lição verbal comum “que ssemelhaua agea” / “que lhe pareceya aguya”189 correspondendo a “en samblanche d’aigle”. Ou seja, em So, nota-se apenas a omissão de um desenvolvimento linguístico, pois a ideia da “ave” está representada pela lição “vns oisiaus”. 188 As questões relativas ao processo de tradução encontram-se tratadas na quarta parte desta dissertação. 189 A forma verbal “parecya” de TT pode dever-se ao processo de cópia quinhentista. Por este tipo de divergências lexicais terem sido objecto de estudo em Dias, Aida Fernanda (2003-2006), op. cit., passarão a ser apenas assinaladas como variantes de ST. 119 (iii) ST (f.1v/col.II/l.8-11) TT (p.165/l.18-19) Po (§288/l.12-13) So (p.84/l.35-36) […] turuo e [...] | do E[...] […] e aquele rio era asy turvo e asy espesso como lama e no meyo asy claro como cristal Chil fluns estoit si tourbles el commenchement et si espés comme boe; et el milieu, s'estoit si clers et si nes comme pierre precieuse cis fluns estoit si troubles al commenchement et el milieu estoit clers comme cristaus (iv) ST (f.2r/col.I/l.26-27) TT (p.175/l.2-3) Po (§320/l.6-7) So (p.93/l.18-19) Aquela barca era moy pequena | e era de prata. E […]uja assy brã[…] aquela barca era muy pyquena e era de prata e a vela asy bramqua Chele nef estoit petite et toute d'argent, et si estoit li mas d'or, et li voiles estoit ausi blanchoians Cele neif estoit petite mais ele estoit a merueilles bele car li mas estoit ausi blans (v) ST (f.2v/col.II/l.18- 20) TT (p.176/l.25-26) Po (§324/l.13-14) So (p.95/l.3-4) e uju ende | ssayr hũa das ffremossas mlheres[sic] que nũca | el ujra e vio de la sayr hua molher a mais fermosa que numca vira si vit hors issir une des plus tres bieles femes ke il onques eüst veüe et des plus avenans Et esraument en issi vne dame la plus bele quil eust onques ueue Com o conjunto dos segmentos (iii), (iv), (v) torna-se também visível a relação entre o antecedente transmitido por ST/TT e o de Po nas respectivas porções de texto. As lições “era (...) asy espesso como lama” (iii), “era de prata” (iv), “uju” de ST/TT mantêm-se apenas em Po (“estoit (...) si espés comme boe”, “estoit (...) toute d'argent”, “vit”), de modo que a sua ausência em So isola novamente este testemunho. (vi) 120 ST (f.2v/col.I/l.17-21) TT (p.176/l.1-3) Po (§322/l.14-16) So (p.94/l.18-20) E aqueste que | esto ffaz cae ẽ desasperãça ca tẽ ha | denydade por mortal. Ca aly onde | diz ca alhur he dentẽder. E esto quer | [...] comẽ sse disese este cay em desesperança que tem a deydade por mortal aly omde diz que em outra parte tem em que emtemder e ysto tamto quer dizer como se dysese Illeuc chiet il en desesperanche, ou il dist et pense cheste desloiauté, car il tient la deïté pour mortel, la u il dist ke il a assés a penser ailleurs. Et che vaut autrestant com se il disoit la chiet li hons en desesperance qui ce dist car il tient la deite a mortel por ce que ce que il dist uaut autant com se il desist No segmento acima destacado assinala-se, desta vez, uma forma verbal mais redutora em So em relação aos restantes testemunhos. Assim sendo, lê-se em ST/TT “Ca aly onde diz ca alhur” / “aly omde diz que em outra parte”, em Po “la u il dist ke il a assés a penser ailleurs”, enquanto em So é retida apenas a forma verbal “il dist”. 1.1.3 Ausência de segmentos frásicos em So (i) ST (f.2v/col.II/l.3-6) TT (p.176/l.12-14) Po (§323/l.10-14) So (p.94/l.31-32) nõ uju a barca nẽ o | homẽ. E comcou[sic] a catar cõtra toda parte | da pena e nõ no pode ueer. E assẽtouse | e comçou[sic] a pẽssar. nom vio a barca nem ho omẽm bom e começou a oulhar a todas as partes da pena e depois que ha nam pode ver asemtou se e começou a cuydar il ne vit onques ne la nef chelui qui dedens estoit venus. Et il se drecha en son estant, si commencha a regarder de toutes pars en la mer. Et quant il vit qu'il ne le porroit en nul sens coisir, si se rasist. Lors commencha mout durement a penser tout de rechief il ne vit la neif ne celui a qui il ot parle et quant il ne uit ne lun ne lautre si sassist (ii) 121 ST (f.2v/col.II/l.16-18) TT (p.176/l.23-25) Po (§324/l.8-13) So (p.95/l.2-3) En tal guissa ueo dereyta aa pena. E quando a | el rrey uju arrybar maraujlhusse que querya hy | buscar. E ergeusse e catoua e uju ende | ssayr hũa das ffremossas mlheres[sic] e veo direyto a pena e quamdo ha el-rrey vio hy aribar maravilhou se muyto e esgeose e esteve oulhamdo ha nao e vio de la sayr hua molher a mais fermosa En tel maniere vint tout droit a la roche; et quant li rois le vit ensi arrivee, si se commencha mout durement a mervillier ke che pooit estre et senefiier et quel chose nef estoit venue querre. Lors se drecha et commencha la nef a regarder d'une part et d'autre et, quant il se regarda si vit hors issir une des plus tres bieles femes et en tel maniere sen uint a la roche . Et li rois se drecha en estant et regarde la neif dune part et dautre Et esraument en issi vne dame la plus bele (iii)190 ST (f.2v/col.II/l.27-31) TT (p. 176/l.30-34) Po (§325/l.1-6) So (p.95/l.9-12) E el | dyse certas dona eu uĩj aqui e nõ ssey como | que jamays ẽde nõ ssayrey ssenõ per aquel que | me aqui meteu. E poys assy ssayras ende | per mȷ" dise a dona Ca eu te trouxe aqui per | meu ssem Ca eu querya auer tẽpo e logar e ele dyse: -Serto, dona, eu vim aquy e nom sey como e jamais daquy nom sayrey se nam por quem aquy me meteo pois sayras por mym, dise a dona. Que eu por meu gram saber te trouxe qua eu querya aver tempo e lugar Et li rois respondi: “Chiertes, dame, je sui chi venus, je ne sai comment, car je ne vi onques chelui qui m'i porta, mais ensi me trovai en cheste roche; ne jamais a nul jor ne quir issir, ce chil ne m'en jete par qui commandement je i fui aportés. - Par foi, dist ele, par le commandement de chelui qui t'i porta t'en istras tu, car je t'i aportai par mon sens et par chou ke je voloie avoir lieu et tans et li rois li respondi. Certes, dame, jou sui chi uenus si ne sai comment et ne sai qui mi aporta par le commandement, fait ele, de celui qui ti aporta uieng iou chi et por chou que jou uoloie auoir lieu et tans Comparando o texto transmitido em ST/TT, Po e So, nos trechos supra destacados, verifica-se uma divergência no que respeita ao registo de unidades frásicas. Assim, a presença em ST/TT e Po dos mesmos segmentos pode explicar-se pelo facto de os antecedentes destes conterem os mesmos elementos. Os excertos (i) e (ii) podem ilustrar, deste modo, a aproximação entre o antecedente dos testemunhos portugueses e 190 Existem elementos diferenciadores derivados do processo de tradução que constituem objecto de estudo da quarta parte desta dissertação. 128 ST (f.2r/col.I/l.30-32) TT (p.175/l.5-7) So (p.93/l.20-23) Po (§320/l.8-12) Aquela ba[...] apo[…] | [...]a pen[…] […]melh[…] el rrey [...] todos hos boõs o|[...]s do mũdo hy quando [...] […] o ssyn[…] | […] da cruz ffoy hũu pouco c[…]ffortado. | Aquela barca aportou na pena e pareçeolhe a el Rey que todos hos bõs cheyros do mumdo hy chegaram e quamdo na vela vio ho synall da cruz foy jaa alguũ tamto comfortado Chele neif arriua a la roce si fu auis au roi que toutes les boines odeurs del monde fuissent amassees en cele neif et quant il uoit el uoile le signe de la crois si en fu plus asseur Et quant ele fu arrivee a la roche, si fu avis au roi ke toutes les boines odeurs ke on peüst deviser ne savoir en herbes et en arbres fuissent en la nef amassees. Et quant il vit el voile le signe de la sainte crois, si fu auques asseürés, car il pensoit bien dedens son cuer ke en compaignie de crois ne pooit mie venir chose dont maus li venist (iii) ST (f.2r/col.II/l.31-33) TT (p.175/l.26-27) So (p.94/l.7-8) Po (§321/l.12-13) Muyto ffalou cõ elrrey ho […] | boo da […] [...]|sse das boas [...] Muyto falou com el Rey ho homem bom da nao e tamtas de boas palavras lhe dyse Moult parla longement li rois al preudome de la neif et tant li dist de boines paroles Mout parla li hom de la nef au roi longement et tant li dist paroles de solas et de confort O conjunto de segmentos acima expostos coloca em relevo a possível relação entre o texto em que se baseia a tradução portuguesa transmitida por ST/TT e uma versão breve que So testemunha. Assim, as expressões nominais “como a frol do bramco lyryo” (i), “todos hos bõs cheyros do mumdo” (ii) e “boas palavras” de ST/TT, encontram correspondência directa no plano semântico na versão que So transmite pelas lições: “blans comme flor de lis” (i), “toutes les boines odeurs del monde” (ii), “boines paroles” (iii), lições estas que se opõem às que se podem ler na redacção mista Po: “comme nois negie” (i), “toutes les boines odeurs ke on peüst deviser ne savoir en herbes et en arbres” (ii), “paroles de solas et de confort” (iii). Na realidade, mais do que um fenómeno de afinidade textual, aqui estamos perante uma correspondência ad verbum entre os testemunhos da tradução galegoportuguesa da Estoire del Saint Graal e a versão breve, como já se mostrou através de outros fenómenos. 129 Estes factos levam-nos a pensar que a fonte de ST/TT se enquadra na redacção breve desta obra. 2.2.2 Afinidade de segmentos verbais e frásicos entre ST/TT e So (i) ST (f.2r/col.I/l.23-24) TT (pp.174/l.39- 175/l.1) So (p.93/l.16-17) Po (§320/l.1-2) Assy como pẽssaua | comẽcou a escuytar [...] […]ya as ondas do mar | ffer[...] e assy como cuydava começou a escutar e ouvio as omdas do mar feryr Ensi com il estoit en cel pense si escouta et oi vne vois des ondes de la mer Ensi com il pensoit en cheste maniere et plouroit, si entroï les ondes de la mer soner No excerto (i) observa-se que ST/TT e So conjugam étimos verbais idênticos: auscultāre e audīre nos derivados “escouta” e “oi” em So e “escutar” / “ouvio” em ST/TT, afastando-se, assim, dos correspondentes, plorāre e intrāre, utilizados em Po, nos derivados “plouroit” e “entroï”. No caso do último deve-se considerar o significado “entendre moitié” do segundo registo do verbo “entroir” do Dictionnaire de l’Ancienne Langue Française et de Tous ses Dialectes du IXe au XVe Siècle de Frédéric Godefroy192. Trata-se, portanto, de uma variação linguística que permite situar os testemunhos peninsulars mais próximos de So. De qualquer forma, “pleuroit” só está em Po sem implicar sinonimia entre as formas registadas em So e ST/TT, mas como variante “discursiva”193 surgida dos valores interpretativos que o copista/redactor introduz no complexo discurso textual. (ii) 192 Cf. Godefroy, Frédéric (1881-1902) Dictionaire de l’Ancienne Langue Française et de Tous ses Dialectes du IXe au XVe Siècle: http://micmap.org/dicfro/chercher/dictionnaire-godefroy/entroir 193 Fernández-Ordóñez, Inés (2006), op. cit., p. 3036. 130 ST (f.2r/col.I/l.12-15) TT (p.174/l.31-34) So (p.93/l.8-12) Po (§319/l.1-7) Diz o cõto que el rrey mordaỹ cato[…] [...] | dessy […]sse nõ [...] nẽh[…] | [...] do mũdo onde […] […] con[…] […]e | [...] […] [...]a el rrey […] Diz o comto que elrrey Mordaym oulhou derredor desy e nom vio de nenhuã parte do mundo omde ouvese que come se que a pena era muy esquyro lugar el-rrey amdou por aderrador da pena Chil endroit dist li contes que li rois Mordrains fu portes en cele roche qui moult estoit haute sauuge . Et quant il i fu mis si esgarda entour lui si ne uit fors mer et ce misme de terre quil i auoit estoit moult hideuse a ueoir . et il ala tout entour le siege de la roce Atant se taist ore li contes de Pompee et si retourne au roi qui est en la roche mout esbahis et mout trespensés de che qu'il ne savoit ou il estoit ne en quel maniere il i estoit venus. Il esgarda entour lui: il ne vit nule riens fors mer et chiel, dont nule garisons li peüst venir ne nule soustenanche. La roche fu haute et en salvaige lieu; et tant d'abitacle com il i avoit, si estoit lais et hideus et escurs. Il ala entour le siege de la roche Apesar de em ST/TT aparecer uma lição mais concisa no exemplo (ii), originada provavelmente no processo de tradução ou na redacção do apógrafo, este excerto exemplifica, uma vez mais, a aproximação por similitude frásica entre os primeiros e So no registo seguinte: “Diz o cõto que el-rrey Mordaỹ” equivalente de “Chil endroit dist li contes que li rois Mordrains” de So, em desacordo com a lição de Po “Atant se taist ore li contes de Pompee et si retourne au roi”. Ora, a variante linguística “dist” de So abona a favor de a versão “diz” de ST/TT colocar estes testemunhos mais próximos de So do que de Po, onde lemos a variação “se taist”. (iii) ST (f.2v/col.I/l.2-6) TT (p.175/l.29-32) So (p.94/l.10-11) Po (§321/l.16-18) Co|mo disse omẽ boo da naue nõ as tu | toda tua crença em Jhesu Cristo. E el lhe | dise que uerdadeyramẽte a auja hy to|da como dise ho homem bom da na[o] nam as tu toda tua forca [sic] em Jhesuu Cristo e ele dise serto verdadeyramemte eu hey hy todo meu bem et comment fait li hons de la neif en as tu toute ta creance en Jhesu Crist . et il dist que uoirement li a il toute “Coument? dist li hom de la nef. Dont ne dis tu ke tu as ta creanche toute en Jhesucrist?” Et li rois respondi ke voirement creoit il de tout en tout en Jhesucrist Sublinha-se neste ponto um outro caso relevante que aproxima a fonte francesa de ST/TT da redacção breve testemunhada por So. Assim, notamos que a sintaxe oferecida 131 pelos testemunhos peninsulares “E el lhe dise que uerdadeyramẽte a auja hy toda” corresponde ad verbum em So ao segmento “et il dist que uoirement li a il toute”, enquanto em Po se transmite “Et li rois respondi ke voirement creoit il de tout en tout en Jhesucrist”. Observamos, desta forma, que Po não se afasta apenas lexicalmente dos restantes textos por utilizar a forma verbal “respondi” correspondendo a “dise”/“dist” em ST/TT/So, mas a respectiva sintaxe centra-se no (f)acto de crer, enquanto nos outros testemunhos se visa a dimensão da crença que o rei teria em Jhesu Cristo. Tal conjunto de aspectos vocabulares e sintácticos torna-se indício de que a redacção francesa da Estoire del Saint Graal representada pela tradução galegoportuguesa em ST/TT se poderia situar, com a porção de texto conservada, no stemma codicum, num ramo das redacções breves. Razões para tal, encontrá-las-emos também no conjunto de casos de que ressalta que a versão testemunhada em ST/TT poderia ser ainda mais breve do que a representada em So. Prosseguiremos com a exemplificação dos casos. 3. Casos singulares em ST/TT Assinalamos um outro conjunto de segmentos que problematiza o lugar do texto que deu origem à tradução portuguesa testemunhada em ST/TT no stemma codicum da Estoire del Saint Graal. A singularidade de ST/TT ilustra-se, num terceiro momento desta comparação, por duas categorias de casos: lições presentes exclusivamente em ST/TT e lições ausentes de ST/TT. É conveniente tentar perceber se estas leituras singulares poderiam significar particularidades que remetem para o texto francês a partir do qual a tradução foi realizada ou especificidades do acto de tradução194. Neste primeiro caso, trata-se de uma unidade adjectival e uma frásica que apenas se encontram em ST/TT. 3.1 Leitura singular de segmento adjectival em ST/TT 194 Quanto à hipótese de especificidade do texto traduzido ver o primeiro capítulo da quarta parte desta dissertação. 132 ST (f.2r/col.I/l.26-29) TT (p.175/l.2-5) So (p.93/l.18-20) Po (§319/l.6-8) Aquela barca era moy pequena | e era de prata. E […]uja assy brã[…] lyreo come | ffrol de […] […] uela […]a hũa cruz | uermelha moy ffremossa aquela barca era muy pyquena e era de prata e a vela asy bramqua como a frol do bramco lyryo e na vela tynha huã muy fermosa cruz vermelha Cele neif estoit petite mais ele estoit a merueilles bele car li mas estoit ausi blans comme flor de lis. Et desus en haut auoit vne crois uermeille Chele nef estoit petite et toute d'argent, et si estoit li mas d'or, et li voiles estoit ausi blanchoians comme nois negie et si avoit el milieu une crois qui estoit toute vermelle Examinando este excerto, verificamos nos testemunhos peninsulares uma simetria na dupla determinação adjectival. Ou seja, os três símbolos que marcam a aparição de um homem numa das visões do Rei, a barca, a vela e a cruz, são realçados pela descrição física com uma forte compontente estética: a barca é “pequena” e “de prata”, a vela é “bramqua” e o seu branco é comparado com “a frol de lyryo” e, finalmente, a cruz é “uermelha” e “moy ffremosa”. Ora, esta simetria realiza-se parcialmente em So e Po. O primeiro texto descreve a barca como “petite”, mas “merveilles bele”, enquanto a cruz é apenas “uermeille”; quanto à descrição da vela deve tratar-se de uma lição redutora em So, porque o adjectivo “blans” e a comparação deste com a “flor de lis” diz respeito a “li mas” enquanto em Po “li mas” é “d’or” e a vela “blanchoians”, cor comparada com “nois negie”. Neste último texto a cruz é igualmente designada apenas como “vermelle”. Assim, observamos que a simétrica determinação adjectival em torno dos três símbolos (“barca”: “pequena” e “de prata”; “vela”: “bramqua” e “a frol de lyryo”; “cruz”: “uermelha” e “moy ffremosa”) se realiza só nos testemunhos peninsulares pela lição adicionada “moy ffremosa” sobre a qual vemos que, no respectivo passo, So e Po são omissos. Todavia, é ainda importante chamar a atenção neste ponto para um aspecto relacionado com a fonte de ST/TT na tradução de duas unidades sintagmáticas. Em primeiro lugar, referimo-nos à descrição da barca, sobre a qual verificamos que todos os testemunhos estão de acordo com a descrição física (“pequena” ST/TT / “petite” So/Po). Não acontece o mesmo com a componente estética da descrição, a saber, ST/TT, de acordo com Po, mencionam “prata” / “d’argent”, ao passo que So regista “merueilles bele”. Decorreria, assim, que a fonte da tradução portuguesa, neste segmento, seria um arquétipo francês que partilhava elementos comuns com Po. Em segundo lugar, no tocante à unidade sintagmática “moy ffremosa”, sem paralelo em Po, podemos avançar duas hipóteses: por um lado, o responsável por esta lição poderia ter sido o próprio arquétipo francês que ST/TT transmitem, ou seja, um arquétipo diferente dos que So e Po testemunham, por estes estarem omissos nesta 133 lição. E, por outro, a fonte possível da tradução portuguesa, neste segmento, poderia ter sido uma versão com lição idêntica a So por esta conter a expressão “merueille bele”, embora este testemunho não seja semelhante na distribuição paradigmática dos epítetos, ou seja, a barca é “(merueille) bele”, enquanto em ST/TT a cruz é “(moy) ffremosa”. Neste último caso, tratar-se-ia, assim, de uma redistribuição de epítetos baseada em So e adoptada em ST/TT seguindo os seus próprios propósitos. Esta característica pode ser resultante quer do processo de tradução, embora não tenhamos aqui dados suficientes para o afirmar, quer da redacção francesa. Este tipo de casos pode revelar que o arquétipo francês que está a montante da tradução galego-portuguesa sofreu contaminações vocabulares de dois ramos distintos. 3.2 Leituras singulares de segmentos frásicos em ST/TT ST (f.1v/col.I/l.14-21) TT (pp.164/l.37- 165/l.3) So (p.84/l.20-22) Po (§287/l.12-16) que | ffilhaua el [...] e leu[…] a hũu moy estranho | logar […] [...] […] […]ara. Em | [...] […] […] e tragyalhe cada dya | de corde[…] [...] m[…]gares que o sseu cora|[…] [...] […] […] despoys uijnha hũu | lobo [...] […] força quanto lhe o cor|[…] [...] Assy que ho tomava e ho levava a huũ muy estranho lugar homde numca nhũ morava nẽ vyvera e hy vynha a ele cada d[y]a hũ cordeyro que lhe trazia todos hos boõs mãjares que seu coração podia cuydar depoys vynha hũu lobo e por força tyrava todo quãto lhe ho Agnho trazia asy si lenportoit en vn mout estraigne lieu. et illuec uenoit a lui cascun iour vns lions qui la aportoit toutes les boines uiandes del monde et apres uenoit vns leus qui lui retoloit si et si l'enportoit en un estrange lieu, mout loing. En chel lieu demouroit mout longement, che li estoit avis, et si venoit a lui chascun jour uns aigniaus et uns leus. Li aigniaus li aportoit toutes les boines viandes et toutes les riches du monde et li leus l'en toloit O segmento supra destacado apresenta duas lições que individualizam novamente os dois testemunhos portugueses. Narra-se neste trecho a visão do Rei Mordaim em que este se encontra num “paço” de onde é ulteriormente levado por “hũ toruão sopramdo” a “huũ muy estranho lugar”. Aqui dá-se a luta pelo alimento entre “hũ cordeyro que lhe trazia” e “hũu lobo e por força tyrava”. As duas subordinadas “homde numca nhũ morava nẽ vyvera” e “que seu coração podia cuydar”, registadas em ST/TT, poderiam atestar um arquétipo francês com estes desenvolvimentos e, por conseguinte, diferente dos evidenciados nas redacções francesas em apreço. Esta hipótese reclama ainda a corroboração de outros elementos de que falaremos de seguida. 134 Observámos, assim, que os testemunhos franceses não carecem, todavia, completamente de conteúdo nestes segmentos. Embora não se relacione semanticamente com ST/TT, no primeiro momento, So limita-se a descrever o respectivo lugar como “estraigne”, enquanto Po desenvolve ainda uma oração: “En chel lieu demouroit mout, che li estoit avis” e, no segundo momento, So menciona, no que ao alimento trazido pelo “lions”, neste texto, diz respeito que era “toutes les boines uiandes del monde” e Po indica “toutes les boines viandes et toutes les riches du monde”. Corroborando os resultados da análise apresentados em 1.1.1 (ii), (iv) em que So se isola também pela ausência de qualquer correspondente de expressões de realce “en seu coração”, a nova ausência de correspondente directo na segunda oração (“que seu coração podia cuydar”) da versão breve poderia colocar em relevo, de facto, que a fonte de ST/TT não partilha os mesmos elementos com a que se lê em So. A ausência de paralelo directo em Po não é relevante, por se ter assumido que este testemunho se coloca num ramo distinto no stemma codicum, dado o seu caractér misto, mas enfatiza a hipótese de a versão francesa de que descendem ST/TT se diferenciar das transmitidas nos testemunhos franceses colacionados. A possibilidade de estes desenvolvimentos representarem mecanismos derivados do processo de tradução não deve ser também posta de parte, dado que o objectivo deste processo é conferir clareza e precisão ao texto resultante, como será avaliado no estudo de tradução. Além disso, assim como se constatou em 2009195, numa outra passagem que visa a designação geográfica “estreyto de Sevylha” e “cordes” — esta última legível apenas em ST —, enquanto os correspondentes franceses mencionam apenas “cordes”, foi possível entender que se trataria de interpolação produzida no acto de tradução. De um modo geral, os testemunhos portugueses ilustram uma tradução fiel à fonte francesa, facto que nos leva a pensar que este tipo de elementos singulares podem significar influências culturais do território peninsular. Resta entender de que tipo são estas singularidades, se são explicativas ou inovadoras no plano de conteúdo. Observámos, assim, que o designativo geográfico “estreyto de Sevylha” é um facto que torna mais evidente o procedimento de interpolação com função explicativa, como específico do acto de tradução. Tratando-se, portanto, da geografia peninsular e sendo oriundo provavelmente deste solo, é provável que tenha sido o tradutor a referir a respectiva designação por razões de clareza e precisão. Ora, este exemplo de amplificatio do lado dos testemunhos peninsulares com a função explicativa, não alinha ao que pode revelar o caso da oração “homde numca nhũ 195 Ailenii, S. (2009), op. cit., pp. 25-27. 135 morava nẽ vyvera” — legível apenas em TT —, sem paralelo directo em So, mas com quaisquer indícios de similar desenvolvimento em Po. Ou seja, o modelo de descrição “estrange lieu, mout loing. En chel lieu demouroit mout longement, che li estoit avis” de Po pode apenas sugerir que o segmento privativo de [ST]/TT — “muy estranho logar homde numca nhũ morava nẽ vyvera” — pode pertencer ao antecedente francês, ou seja, um intermédio entre So e Po. 3.3 Segmentos frásicos e um nominal ausentes em ST/TT (i) ST (f.2v/col.II/l.2-4) TT (p.176/l.11-13) So (p.94/l.30-32) Po (§323/l.9-11) Quando tornou ẽn ssua memorya comcou[sic] | a olhar derredor de ssy e nõ uju a barca nẽ o | homẽ E quamdo tornou em sua memorya começou a oulhar darrador de sy e nom vio a barca nem ho omẽm bom et quant il fu uenus en sa memoire ausi com il estoit deuant. si commencha a regarder enuiron lui . mais il ne vit la neif ne celui a qui il ot parle Et quant il eschapa de chest pensé et il fu repairiés en se memoire, si com il estoit devant, si commencha a regarder environ lui, mais il ne vit onques ne la nef chelui qui dedens estoit venus (ii) 136 ST (f.2v/col.II/l.6-10) TT (p.176/l.14-20) So (p.94/l.32-35) Po (§§323/l.14-324/l.1) E maraujlhouse que era aquel | que cõ ele ffalara que muyto lhe dera grã | cõfforto. Mays tãto entẽdya bẽm que nõ | podya sser sse nõ per poder de Deus. | Mvyto esteue el rrey naquela pena e maravilhou se quem era aquele que tamt[o] com ele falara que muito lhe dera gramde comforto mas tamto que emtemdia bem que nam podia ser se nam por Deos CAP[ITULO] LXIIJ: DE COMO HVMA DONA veio a el Rey Mordaym a pena domde estava e do que com ela pasou Muyto esteve el Rey em seu cudar et sesmerueilla mout en son corage ou il pooit estre deuenus car moult li auoit doune boin comfort. et de tant se connissoit il bien quil i estoit de par Dieu uenus si en ot mout grant joie En ce que li rois pensoit a ceste cose et mout se mervilloit en son cuer qui chil pooit estre qui tant avoit a lui parlé, car mout li avoit doné grant confort; et tant s'aperchevoit il bien — si en avoit mout grant joie — que li hom ne pooit estre se de par Dieu non a qui il avoit parlé, car, s'il fust contraires a la creanche Damedieu, ne il ne portast le signe de la sainte crois en sa compaignie ne il ne parlast si volentiers de Dieu ne de ses commandemens; et se il fust hom morteus, il ne s'en peüst pas estre si tost alés ke il ne l'eüst veü en aucune maniere ou entroï. Mout demora li rois longhement en chest pensé Nos excertos (i) e (ii) desta secção relata-se o momento em que o rei Mordão retorna à realidade depois da experiência onírica com o “omẽ boo da naue” que lhe ensina a fé em Deus. De novo, ST/TT individualizam-se com a diferença de que, nestes casos, o afastamento dos testemunhos franceses se concretiza através do fenómeno de ausência. Desta forma, as orações “ausi com il estoit deuant”, “si en ot mout grant joie” e a expressão nominal “en son courage” (So), com a variante “en son cuer” (Po) não conhecem paralelo directo em ST/TT. A ausência de correspondente directo da primeira oração em ST/TT poderia significar uma redução realizada no acto da tradução por esta não afectar, no fundo, o conteúdo da frase. Em contrapartida, apesar de, no excerto (ii), se verificar que a versão francesa em que se baseia a tradução galego-portuguesa continha os mesmos elementos que Po — “qui chil pooit estre qui tant avoit a lui parlé” correspondente de “que era aquel | que cõ ele ffalara” —, ST/TT surpreende pela ausência de equivalente da expressão “en son courage”(So) / “en son cuer”(Po) e ainda 137 por uma abbreviatio na oração “nõ | podya sser sse nõ per poder de Deus” com o correspondente “quil i estoit de par Dieu uenus si en ot mout grant joie”(So) / “si en avoit mout grant joie que li hom ne pooit estre se de par Dieu” (Po). Ora, tendo em conta que existem expressões com uma componente semântica similar ou idêntica à construção “en son cuer” nos parágrafos 1.1.1 (ii), (iv) e 3.2, dos casos em discussão do segmento (ii) pode inferir-se um arquétipo francês a montante de ST/TT, por não conter um segmento e por abreviar outro, mais breve do que So. Ou seja, uma vez mais, sobressai a hipótese de a tradução galego-portuguesa representar uma versão intermédia entre So e Po. 4. Conclusão Resumindo, a colação de ST/TT e dois testemunhos da obra Estoire del Saint Graal representando as versões breve e mista permite formular algumas hipóteses sobre os parâmetros que definem a fonte francesa que deu origem à tradução galegoportuguesa desta obra. A classificação dos casos em dois tipos (ausência e afinidade) revelou algumas manifestações da transformação do texto em relação ao seu arquétipo no processo de cópia/redacção. Dada a variável proximidade e/ou afastamento através de casos de ausência e afinidade de constituentes entre ST/TT e os testemunhos franceses colacionados, concluiu-se, em primeiro lugar, que nenhum destes serviu como modelo directo da tradução galego-portuguesa. Em segundo lugar, o cotejo dos testemunhos ilustrou, através dos casos de ausência e afinidade de constituentes, que estruturalmente a tradução peninsular se situa no ramo das versões breves. Mais exactamente, dos elementos equacionados depreende-se a posição intermédia entre So e Po do arquétipo francês que deu origem à tradução peninsular. Este perfil condiz com a posição que Fanni Bogdanow196 atribuiu à versão peninsular da Estoire del Saint Graal testemunhada por TT, sendo este o único testemunho conhecido na altura e contemplado na sua análise. A investigadora apresenta duas hipóteses em relação a esta posição intermédia que a versão galego-portuguesa ocuparia. Em primeiro lugar, Fanni Bogdanow considera o facto de poder ser anterior à fase das diversificações das redacções francesas em longa e breve e, em segundo lugar, de poder ser posterior a este processo. A segunda hipótese da investigadora britânica é de certa forma contrariada pelos elementos históricos já referidos: tendo em conta a probabilidade de Afonso III ter 196 Bogdanow, Fanni (1960a), “The relationship of the Portuguese Josep Abarimatia to the extant French MSS. of the Estoire del Saint Graal”, Zeitschrift für romanische Philologie, 76, pp. 343-375. 144 testemunho importante por não se afastar do ms. Huth. e por transmitir uma versão mais completa do que o ms. de Cambridge apesar de ser um testemunho tardio (século XV) e de apresentar uma grafia modernizada219. Tendo em consideração que nenhuma das redacções escolhidas para a edição crítica da Suite du Merlin representa integralmente a matéria e corraborando esta ideia com a referência às narrativas contidas no testemunho galego-português, o editor deduz a existência de uma versão francesa mais completa do que as contempladas na sua edição. E esta versão mais completa deveria ter dado origem ao testemunho peninsular220. Estas observações motivam assim a presente análise a fim de configurar o perfil desta fonte francesa. Após o descobrimento do novo testemunho da Suite du Merlin no domínio galego-português, Amadeu-J. Soberanas 221 , o responsável pelo achado e pela identificação correcta do texto, problematizando, em 1979, a relação entre os testemunhos franceses e os ibéricos avança a hipótese da maior proximidade entre a redacção do texto transmitido pelo manuscrito galego-português e a do manuscrito de Cambridge (Add. 7071, Cambridge University). Sobre as versões castelhanas, o autor espanhol afirma, com boas razões, que a forma amplificada destes textos se deve soit au modèle français qui a servi de base, soit à la technique stylistique d’un remanieur. De toute façon, ces textes castillans n’ont pas les éléments essentiels que les deux français et le galaico-portugais introduisent, tels les noms des personnages Asen et Anasten. Mais le fil de la narration y est222. Mesmo que Amadeu-J. Soberanas não realize uma colação da segunda passagem narrativa do testemunho peninsular por esta ser representada apenas no ms. BNF, fr. 112, um testemunho amplificado devido provavelmente ao trabalho do “scribe du duc de Nemours, le premier possesseur du manuscrit”, segundo este autor, e por o testemunho peninsular seguir “un modèle plus réduit semblable à celui qui a servi dans la comparaison du premier fragment”223, considerámos, todavia, que, além de ser o único a conter também o segundo episódio do testemunho peninsular, o ms. BNF, fr. 112, confrontado com o galego-português, evidencia casos de ausência de correspondente, amplificação de segmentos e divergência na construção narrativa que merecem ser objecto de estudo na presente análise. 219 Roussineau, Gilles (ed. 1996), op. cit., pp. LVII-LXI. 220 Idem, p. LVI. 221 Soberanas, Amadeu-J. (1979), op. cit., p. 178. 222 Idem, p. 185. 223 Soberanas, Amadeu-J. (1979), op. cit., p. 187. 145 Conforme dissemos atrás, para a análise comparativa do primeiro segmento narrativo do testemunho peninsular são considerados os dois testemunhos franceses, isto é, os manuscritos de Cambridge (Add. 7071, Cambridge University)224 e Huth (Add. 38117, British Library, Londres)225. No caso da segunda narrativa do testemunho galego-português é considerado o manuscrito BNF, fr. 112226. A primeira narrativa corresponde aos parágrafos §§380/21-382/4 e a segunda narrativa corresponde os parágrafos §§493/9-496/83 da edição Roussineau. A. Primeiro segmento narrativo Vamos ocupar-nos de seguida das lições da primeira narrativa que separam o testemunho galego-português — que passamos a designar pela sigla LM — e o ms. Huth do manuscrito de Cambridge. 1. Afastamento entre LM227/o ms. Huth e o ms. de Cambridge No breve segmento narrativo, destacam-se algumas situações que afastam LM e o ms. Huth do ms. de Cambridge. Em primeiro lugar, o ms. de Cambridge subordina ao vocábulo “chevalier” duas orações respeitantes à identificação da personagem “que hom apeloit Assen, moult preudome” e “qui rois estoit”, enquanto nos restantes o termo regente é o “rey” / “roi” que subordina uma única oração contendo também o vocábulo “caualeyro” / “chevalier” com determinação adjectival (“muy bõo” / “boin chevalier”), omissa no ms. de Cambridge. Uma segunda situação refere-se a uma construção verbal mais amplificada do lado do ms. de Cambridge. Observa-se que no segmento (ii), o testemunho peninsular é de novo concordante com o ms. Huth, lendo-se duas formas verbais: “trouxeo mal” / “blasma” e “gastygalo” / “chastia” em oposição à tripla estrutura verbal do ms. de Cambridge “blama” “dit” e “chastia”. (i) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.151/l.1-2) ms. Huth (ed. Roussineau, §380/l.21-22) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) 224 Será utilizada a transcrição da respectiva passagem narrativa do ms. Add. 7071, Cambridge University, do estudo de Soberanas, Amadeu-J. (1979), op. cit., pp. 179-180. 225 A edição de referência utilizada é a da responsabilidade de Roussineau, Gilles (ed. 1996), op. cit., vol. II, § 380/21-382/4. 226 A edição de referência utilizada é a da responsabilidade de Roussineau, Gilles (ed. 1996), op. cit., vol. II, § 493/9-496/83. 227 Será utilizado o texto da edição paleográfica de Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit. 146 LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.151/l.1-2) ms. Huth (ed. Roussineau, §380/l.21-22) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) hũu Rey que chamavan Asen. muy bõo cạ home e muy bõo caualeyro un roi que on apieloit Assen, moult preudomme et boin chevalier un chevalier que hom apeloit Assen, moult preudome, qui rois estoit (ii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.151/l.6-7) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.2-3) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp.179-180) en trouxeo mal en gastygalo il l’en blasma moult et moult l’en chastia il l’en blama moult e dit e l’enchastia Além destes dois casos aduzidos também por Amadeu-J. Soberanas228 ilustrando o afastamento entre os testemunhos peninsular e o de Cambridge, o autor menciona ainda uma terceira situação que, a nosso ver, não mostra na totalidade o afastamento entre os respectivos testemunhos. (iii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.19-22) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.15-19) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) e vẽo logo aca, e adusse sigo de seus amjgos aqueles <...> que se mais fyaua. E omẽes que sabyam fazer casas e camaras. E fez fazer logo na pena nadyua. a picões, hũa camara muy bõa e mui ffremosa e muy ben ffeyta Si vint maintenant cha et amena cheus de ses compaignons que il plus amoit et cheus qui de chambre faire et de maisons savoient auchune chose. Si fist maintenant faire dedens la roche naïve a chisel chambre et sale belle Il vint maintenant la e amena od lui ceus de ces compaignons qu’il mieux amoit e gent qi de maison faire savoient. E de masçons si fist maintenant faire dedenz la roche naif une chaumbre bele e cointe Em primeiro lugar, os vocábulos “omẽes” e “camara” com a tripla determinação adjectival “bõa” “ffremosa” e “ben ffeyta” indicam um grau elevado de aproximação entre a versão francesa que LM transmite em tradução e o ms. de Cambridge em que se lê “gent” e “chaumbre” com a dupla determinação “bele” e “coincte”. Enquanto o ms. Huth, na primeira oração, identifica as personagens pelo demonstrativo “cheus” e na segunda oração refere dois tipos de construções: “chambre” e “sale”, das quais apenas a última é descrita como “belle”. Todavia, é importante salientar que as lições “casas e camaras” e “a picões” de LM são concordantes com “chambre [...] maisons” e “a 228 Soberanas, Amadeu-J. (1979), op. cit., p. 185. 147 chisel” lidas no ms. Huth. Por sua vez, o ms. de Cambridge regista, no primeiro caso, “maison [...] masçons” e no segundo caso é omisso. Conclui-se, por conseguinte, que a versão francesa que serviu como modelo ao tradutor de LM apresentava duas lições de acordo com o ms. Huth, “chambre [...] maisons” e “a chisel” alteradas ou omissas no ms. de Cambridge e outras duas de acordo com este último, “gent” e “chaumbre bele, coincte” contempladas em LM. (iv) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.19) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/15-16) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) e vẽo logo aca Si vint maintenant cha Il vint maintenant la (v) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.23-24) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.22-23) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) e adusea aca Il l’aporta cha si l’aporta la Os exemplos acima expostos afastam LM/ms. Huth do ms. de Cambridge por os primeiros apresentarem lexemas afins no plano léxico-semântico. Trata-se de duas ocorrências do advérbio de lugar “aca” de LM, correspondente directo de “cha” no ms. Huth opostos a “la” no ms. de Cambridge (iv, v). 2. Afastamento entre LM/ms. de Cambridge e o ms. Huth Ao contrário do que observámos até agora, desta vez, deparamo-nos com casos que opõem LM e o ms. de Cambridge ao ms. Huth. 2.1 Ausência de segmentos nominal, pronominal e frásico do ms. Huth Salienta-se um conjunto de passos que sustenta a hipótese avançada por Amadeu-J. Soberanas em 1979 quanto ao parentesco dos testemunhos de Cambridge e LM. (i) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.151/l.2-3) ms. Huth (ed. Roussineau, §380/l.22-23) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp.179-180) E auya hũu mançebo ffilho caualeyro. muy bõo e muy prezado et avoit un fil, moult preu et moult vaillant chevalier et avoit un fiz, joven chevalier moult pruz et moult vaillant 148 (ii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.151/l.9-10) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.6-7) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) Se te non quitas dessa conpanha. eu matarey ty /ou/ ẹela Se tu ne laisse briement sa compaignie, je te destruirai Si tu ne lessasse sa compaignie, jeo te destruierai od lui (iii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.19) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.15-16) Ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) e vẽo logo aca, e adusse sigo de seus amjgos Si vint maintenant cha et amena cheus de ses compaignons Il vint maintenant la e amena od lui ceus de ces compaignons (iv) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.10-11) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.7-8) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) Matarme podedes dissel. mays eu non quitarey ende. ante a. amarey senpre mentre eu uyuer Et il dist: Je nel lairai ja ains l’amerai toute ma vie Pur tant, fait il, // me poez destruire, car jeo ne lerrai ja, ainz l’ameroit tote ma vie Observamos, deste modo, que o ms. Huth se encontra omisso nas lições “mançebo” / “joven” (i), “/ou/ ẹela” / “od lui” (ii), “sigo” / “od lui” e “Matarme podedes [...] mays” / “Pur tant [...] me poez destruire, car”, comuns aos testemunhos de Cambridge e LM. 2.2 Afinidade lexical entre LM/ms. de Cambridge (i) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.151/l.8-9) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.5) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp.179-180) E quando o padre uyu que non leixaua rren por seu rrogo Quant li rois vit qu’il ne lairoit riens pour sa priiere Quant li peres vit q’il n’en feroit riens por sa prier (ii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.22-23) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.21-22) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp.179-180) 149 LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.22-23) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.21-22) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp.179-180) que adur o poderya home cre/er/ se a non vuissen qu’a painnes le porroit on croire se on ne la veoit que a paines le porroit home croire si home ne le veoit Os exemplos (i) e (ii) põem em relevo a proximidade entre LM e o ms. de Cambridge baseada em duas situações: no emprego do nome “o padre” correspondente de “li peres” e da forma “home” do ms. de Cambridge, enquanto no ms. Huth se mencionam “li rois” e “on”. No primeiro caso, podemos falar numa afinidade léxicosemântica entre LM e o ms. de Cambridge no uso dos derivados do mesmo étimo pătĕr, patris. No que concerne ao segundo caso, trata-se da utilização do derivado do étimo hŏmo, hominis na mesma varainte gráfica em LM e no ms. de Cambridge: “home”, enquanto no ms. Huth repare-se na forma “on”. Do lado de LM, o derivado português na variante do indefinido “home”229 pode dever-se à ocorrência, no antecedente francês, da mesma forma gráfica, lida também no ms. de Cambridge, e daí provavelemente a forma coincidente “home” nestes dois testemunhos, sendo também comum a grafia “ome” em português arcaico230. Em contrapartida, no passo (i), lê-se a forma verbal “non leixaua” que, desta vez, se relaciona no plano da forma com a correspondente do ms. Huth, “il ne lairoit”. Além disso, é interessante referir também a representação do indefinido “on” / “home” na função de sujeito tanto no testemunho peninsular como nos testemunhos franceses nas duas ocorrências acima destacadas, à excepção da segunda onde a expressão do sujeito, no caso do testemunho galego-português, é assumida pela terminação verbal “non vissen”. Ora, equacionando estes dados, deparamo-nos com o numidor comum que é o uso do indefinido “on” / “home”, o que faz com que estes testemunhos sejam concordantes. Em contrapartida, no ponto em que estão representadas as formas verbais “lairoit” / “leixaua” no ms. Huth e em LM e “feroit” no ms. de Cambridge manifestou-se uma transformação do texto em relação ao seu arquétipo. Esta transformação pode ter surgida no antecedente do testemunho peninsular, concordante com o ms. Huth ou no do ms. de Cambridge. Em todo o caso, estamos, portanto, perante variantes linguísticas que indicam graus diferentes de aproximação entre os testemunhos colacionados. 229 Cf. Dicionario de dicionarios do galego medieval: http://sli.uvigo.es/DDGM/ddd_pescuda.php?pescuda=home&tipo_busca=lema 230 Idem. 150 (iii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.25-26) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.26) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) E sabede que quando morreron que morreron anbos en húúm dya Et fu voirs qu’il morurent tout en un jour E fu voirs qu’il morurent ambdui en un jur (iv) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.152/l.27-28) ms. Huth (ed. Roussineau, §381/l.27-29) ms. Add. 7071, Cambridge Univ. (trans. Soberanas, pp. 179-180) E aynda oie os corpos son que non podreceron. nen podreceran en nossos tenpos ca son Balsamados Et encore i sont li cors, qui ne pourriront pas a mon vivant pour chou que embaussemé furent e oncor i sunt li cors qui ne poriront pas en noz vivanz, pur ceo que enbapsmé furent Outros dois casos evidenciam a afinidade léxico-semântica entre LM e o ms. de Cambridge através das lições “anbos”/“ambdui” (iii) e “en nossos tenpos”/“en noz vivanz” (iv) opostas a “tout” (iii) e “a mon vivant” (iv) no ms. de Huth. Depreende-se que a redacção francesa na base da tradução galego-portuguesa continha provavelmente os elementos “li peres”, “il ne lairoit”, “home”, “ambdui”, “en noz vivanz”. Concluída a colação dos casos do primeiro segmento narrativo, constata-se que a versão francesa que deu origem à tradução galego-portuguesa transmitida por LM se aproxima nesta porção de texto, de um modo geral, da redacção lida no ms. de Cambridge. Não deixa, porém, de ser importante assinalar que esta versão deve também ter incluido elementos contidos no ms. Huth (1.(i)-(v)). B. Segundo segmento narrativo Vamos ocupar-nos de seguida dos casos do segundo segmento narrativo. Como já dissemos, esta comparação incluirá apenas um testemunho do espaço francês, o ms. BNF, fr. 112. Tendo em vista que este testemunho apresenta uma narrativa mais amplificada, destacar-se-ão, nesta secção, casos de divergência na construção narrativa e de elaboração estilística que poderão contribuir para a configuração da versão de que descende a tradução galego-portuguesa231. 231 Os exemplos destacados nesta secção ilustram também situações de amplificação e ausência de equivalente que fazem objecto de estudo da quarta parte desta dissertação. 151 (i) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.153/l.35-37) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau, §493/l.16- 19) Do<...> Galuam onde auẽo este desamor antre uos e Maroth e Galuam disse Non sey mais non a rrem que tanto dessame como el, E poren non que<...> que aia antre nos paz “Monseigneur Gauvain, dont est ceste grant haine venue qui est entre vous et monseigneur le Morholt? –Damoiselle, fait il, ne sçay, mais il n’est riens que je tant hee comme je fais luy, ne jamais ne quier qu’il ait paix entre moy et luy Detenhamo-nos sobre um primeiro caso que exemplifica uma representação divergente do discurso directo. Ou seja, em LM, a intervenção de Gauvain é reduzida à oração intercalada “Galuam disse” oposta a “Damoiselle, fait il” do texto francês. Das lições “como el”, “antre nos” opostas a “comme je fais luy” e “entre moy et luy” decorre uma expressão mais sintética em LM que pode remeter assim para um arquétipo com esta característica, mas também indicar uma tendência de abreviar o texto através do acto de tradução. Situações semelhantes fazem objecto de estudo da quarta parte desta dissertação. (ii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.153/l.38-40) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau, §493/l.23- 26) Enton osmo<...> que eram encantados. e disse Ora quero <…> ca sobeio seerya gr<…> a sy mataren <…> Lors dist a soi mesmes: “Par foi, je cuid que ceulx sont enchantés. Or le me convient savoir, car ce seroit trop grant dommage se ilz s’entreoccioient en tel maniere.” Um segundo caso põe em evidência a segmentação diferente do discurso directo em LM. Uma donzela vê dois cavaleiros a lutar e, pelas armas, reconhece nestes Gauvain e Maroth. Estranhando “o desamor” entre os dois, a donzela apercebe-se do encantamento que os poderia ter levado ao combate. No testemunho francês o inteiro raciocínio da donzela é apresentado em discurso directo, como se pode ler no exemplo acima destacado, enquanto em galego-português adopta-se uma segmentação. A referência ao encantamento transmite-se no discurso indirecto (“osmo<...> que eram encantados. e disse”), enquanto o testemunho parisiense apresenta: “Lors dist a soi mesmes: Par foi, je cuid que ceulx sont enchantés”. (iii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.153/l.41-49) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau, §494/l.6-22) 152 E Maroth disse Amigo, que me demandades E uos a myn disse Galuan, que me demandades Par Deus Non sey disse Maroth. Nen eu ffaço disse Galuam. Poys por que nos conbatemos assy disse Maroth. Par Deus Non sey disse Galuam. Sen ffalha ffomos encantados. a poucas non fomos mortos por máá uentuyra. Verdade. e disse Maroth sen ffalha foy encantamento ca nos conbatemos sem rrazon. Mais como uos sentides Auedes chaga mortal Non disse Galuam ben cuydo. Mais se esta Batalha mays durasse matarades uos myn ou eu uos. Se Deus me aiude disse a donzela “Sire, fait le Morholt, que me demandés vous? –Et vous a moy, beau sire? fait messier Gauvain. Par foy, je ne sçay. –Ne je autressi, fait le Morholt. –Et pourquoy doncques nous sommez nous entrecombatus? –Ne sçay, fait il, se Dieu m’aït. –Ha! Dieu, fait messier Gauvain, nous avons esté enchantés. A pou que nous ne nous sommez entreoccis par mesaventure. –Par mon chief, vous dictes voir, fait le Morholt. Enchantements a ce esté, car nous nous sommes entrecombatus sanz achoison. Et comment vous sentés vous? Avez vous nulle plaie mortelle? –Nenil, fait il, si comme je cuid, mais se ceste bataille eust plus duré, vous m’eussiés occis et je vous, car nous avons ja assés perdu de sang. Et a vous, comment est il? – Il me feust moult mauvaisement esté se ceste bataille eust plus longuement duré, car j’estoie navré durement et si avoie ja assés perdu du sang. –Par mon chief, seigneurs, fait la damoiselle Assinalámos neste segmento narrativo várias oposições na organização interna do estilo directo. Em primeiro lugar, chamámos a atenção para a sistemática indicação do sujeito emissor no texto oferecido pelo testemunho peninsular. O ms. BNF, fr. 112 não partilha a mesma estruturação. Relativamente a esta identificação do sujeito emissor, sublinhámos que em LM o emissor aparece constantemente referido pelo nome próprio (“Gauvain”, “Maroth”), enquanto no manuscrito parisiense, se dá a alternância com a forma pronominal (“il”). Assim, note-se que nas linhas -Par foy, je ne sçay. -Ne autressi, fait Morholt. -Et pourquoy doncques nous sommez nous entrecombatus? -Ne sçay, fait il, se Dieu m’aït. -Ha! Dieu, fait messier Gauvain, nous avons esté enchantés. A pou que nous ne nous sommez entreoccis par mesaventure232 232 Sublinhados nossos. 153 o testemunho francês carece de clareza no que diz respeito à atribuição das réplicas, enquanto em LM se oferece uma distinção clara do protagonismo de cada interlocutor. Cada réplica é devidamente marcada pelo seu emissor. Par Deus Non sey disse Maroth. Nen eu ffaço disse Galuam. Poys, por que nos conbatemos assy disse Maroth. Par Deus Non sey disse Galuam. Sen ffalha ffomos encantados. a poucas non fomos mortos por máá uentuyra233 A organização das réplicas dos interlocutores Gauvain e Maroth, mais clara no testemunho peninsular do que no ms. BNF, fr. 112, leva-nos a postular duas hipóteses: ou estas características pertencem à fonte da tradução galego-portuguesa, ou estes elementos de organização discursiva representam marcas do acto de tradução que farão objecto da derradeira parte desta dissertação. É ainda assinalável neste trecho a reiteração da construção verbal “que me demandades” surgida na primeira intervenção de Gauvain, sem correspondente no testemunho francês. Existem, igualmente, outros elementos lexicais sem correspondente no testemunho parisiense, como, por exemplo, “poys”, “assy”, “sen ffalha”, que podem remeter para uma fonte francesa diferente da transmitida pelo manuscrito BNF, fr. 112. Por outro lado, o testemunho parisiense evidencia, também, leituras singulares, como se pode ler no extenso segmento em que se observa a repetição da mesma informação “car nous avons ja assés perdu de sang. Et a vous, comment est il? – Il me feust moult mauvaisement este se ceste bataille eust plus longuement duré, car j’estoie navré durement et si avoie ja assés perdu du sang”, sem paralelo na tradução galegoportuguesa. Por ora, da análise destes dados notamos, na tradução galego-portuguesa, um texto mais reduzido e, ao mesmo tempo, mais explícito na identificação dos protagonistas. (iv) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, pp.153/l.49-154/l.61) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau, §494/l.22- 48) 233 Sublinhados nossos. ! 256! escudeiro disso Lançarote si soo (a)sen falla de casa de rei Artur soo et conpaneir o da tauola redonda Vallet, fait Lancelot, oïl, (a)sanz faille. De la maison dou roi Artus sui ge et compaignon do la Table Reonde –Vallet, fait Lanselos, oïl, (a)sans doute. De la maison le roi Artu sui je et compains de la Table Reonde Vallet, fet Lancelot, oil, (a)sans faille de la meson le roi Artus sui ge (b)voirement et conpains de la Table Reonde “Vallez, fait Lanceloz, oïl, (a)sanz faille. De la meson le roi Artus sui je (b)voirement et compainz de la Table Reonde Vaslet, fait Lancelot, ouil, (a)sans faille, de la maison le Roy Artus sui je (b)voirement et compains de la Table Reonde Dando continuação à nossa análise, deparámo-nos com outros casos que nos levam a formular hipóteses diferentes. Os excertos seguintes ilustram uma redução parcial dos elementos de amplificação adverbial e, desta vez, apesar de os dois testemunhos de que LT se aproxima mais — 2542 Viena e ms. BNF, fr. 750 — os conterem, o testemunho galego-português selecciona apenas alguns correspondentes. (v) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.83/l.177- 179) ms. BNF, fr.99 (f.150r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.158r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §31/l.15-19) 404 Carpentras (ed. Curtis, §735/l.27-30) ms. BNF, fr.750 (f.136r/col.II) Aly fora esta hũu caualeiro andante que el (b)soo em seu cabo fes esto mays pero (d)tanto sofreu dafam et de traballo que non poderia ia ora durar contra uos la hors est (a)maintena nt venu I chevaliers errant qui par son corps (b)tant seulement a ceste desconfiture faicte mais il est (c)sans faille (d)tant durement travailliez et si navres qu'il n'aura ja duree a vous la hors, est venu (a)maintena nt .I. chevaliers errant qui par son cors (b)tant seulement a ceste desconfiture faite, mes il est (c)sans faille (d)tant durement travallies et si navres que il n'aura ja duree a vous la dehors est (a)orendroit venus uns cevaliers errans ki par son cors (b)tant seulement a ceste desconfiture faite. Mais il est (c)sans faille (d)tant durement navrés et si traveilliés k’il n’ara ja duree encontre vous la hors est (a)mentenan t venuz uns chevaliers erranz qui par son cors (b)tant solement a ceste desconfiture faite. Mes il est (c)sanz faille (d)tant traveilliez et si tres durement navrez qu'il n'avra duree a vos la fors est (a)orendroit venuz uns chevaliers erranz qui par son cors (b)sol a ceste desconfiture faite. Mais il est (c)sanz faille (d)tant durement travailliez et si navrez qu'il n'aura ja cest point duree contre vos ! 257! (vi)363 LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.82/l.158- 160) ms. BNF, fr.99 (f.149v/col.II ) ms. BNF, fr.756 (f.157v/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §30/l.12-14) 404 Carpentras (ed. Curtis, §734/l.10-13) ms. BNF, fr.750 (f.135v/col.II ) Et un caualeiro uello que estaua ante as amẽas et que do começo vira a batalla et uiu que Lançarot daua (d)enton mayores golpes Par sainte croix, fait I chevalier qui sur le creneaux estoit et avoit (a)toujours des le comencemen t (b)moult ententiveme nt regarde la bataille et veoit (c)tout apertement que Lancelot aloit (d)toutes voies plus grans cops donant Par Sainte Crois, fet I des chevaliers qui sor les creneaus estoit (a)tous jors del conmecemen t (b)moult entendiveme nt regardee la bactalle et veoit (c)tot apertement que Lancelot aloit (d)orendroit plus grant cor donant “Par Sainte Crois”, fait uns viex cevaliers, ki desus les cretiaus estoit et qui avoit des le commencem ent (b)mout ententivement regardee la bataille — “Par sainte croiz!” fait uns des chevaliers qui sor les creniax estoit, et avoit (a)toz jors des le comencemen t (b)mout ententiveme nt regardé la bataille, et veoit (c)tot apertement que Lanceloz aloit (d)orandroit plus granz cos donant Qui sus les creniaux estoit et avoit des le conmenceme nt (b)molt ententiveme nt regardee la bataille et veoit (c)tot apertement que Lancelot aloit (d)orendroit donant plus granz cox Nos passos (v) e (vi) está patente um uso abundante de segmentos adverbiais. Nos dois casos, observámos que o texto de chegada censura semanticamente a sua equivalência. Assim, no excerto (v), dos quatro advérbios registados em todos os manuscritos que atestam o texto de partida, apenas dois encontram paralelo no texto de chegada: (v) (b) e (d). Na situação (v) (c), podemos admitir que a construção sinonímica nominal da oração “sofreu d’afam e de traballo” per se se constituir como solução de tradução dos constituentes adjectivais da oração “il est sans faille navrés et si travailliés”, ao assumir a ideia ainda mais realçada pela forma adverbial “sans faille” deste segmento. No que concerne ao excerto (vi), as formas adverbiais do texto de partida estaõ anda mais sujeitas à técnica de redução no texto de chegada. Observámos, por conseguinte, que, à excepção do 2542 Viena, que é omisso na !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 363 Sobre a ausência de equivalente de expressão idiomática, ver o último capítulo desta parte. ! 258! segunda parte da passagem, nos restantes testemunhos franceses existem entre três e quatro registos adverbiais, enquanto em LT lemos apenas o correspondente ao último segmento (d). Esta passagem vem, assim, realçar a hipótese de certas ausências detectadas em relação a estes testemunhos se deverem a uma fonte francesa igualmente omissa nas respectivas lições. Como se pode ler neste excerto, dos cinco testemunhos seleccionados para a análise, nos dois mais próximos de LT — 2542 Viena e ms. BNF, fr. 750 — há uma presença menos consistente do segmento adverbial. Ou seja, LT é concordante com estes dois testemunhos na ausência do advérbio (a). Assim, pelo menos neste caso, a ausência adverbial no texto de chegada pode justificar-se com a hipótese de a fonte francesa ser igualmente omissa neste aspecto. Relativamente às outras formas adverbiais, temos dados diferentes que sustentam a possibilidade de se tratar de mecanismos de tradução. Todos os testemunhos, salvo 2542 Viena, omisso nos segmentos (vi) (c), (d), concordam no registo dos três advérbios seguintes: (b), (c), (d), dos quais LT retém apenas o equivalente do último. Apesar de ser um dos testemunhos que parece aparentar-se com a fonte francesa de LT em várias porções de texto, o texto editado por Philippe Ménard do ms. 2542 Viena, como vimos, não acompanha os restantes testemunhos, incluindo o galegoportuguês, em todos os segmentos do excerto (vi). Este facto impossibilita, assim, formular a hipótese de ser uma fonte francesa com as mesmas características que LT revela, mas permite ponderar a possibilidade de ser este a abreviar, no acto de tradução, a forma de expressão ampla do texto de partida. 1.4 Ausência por redução de frase A categoria de casos sem correspondência no texto de chegada estende-se também ao nível da unidade superior da língua, a frase. (i) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.77/l.80-82) ms. BNF, fr.750 (f.129r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §5/l.10- 16) 404 Carpentras (ed. Curtis, §713/l.9-13) ms. BNF, fr.756 (f.152r/col.I) ms. BNF, fr.99 (f.144v/col.I) ! 259! Enton leixaron yr contra ssy os caualos por çima da ponte E o cavaleiro da ponte, que era mui grande e muito arrizado Aprés icestui parlement laisse corre li uns vers l'autre tant com il puent des chevaux traire par desus le pont. Et sachiez que li ponz estoit biaus et granz et forz et avoit plus d'une lance de lé. Et li chevaliers dou pont, qui granz, chevaliers estoit et de merveillouse force Aprés cestui parlement laisse courre li uns vers l’autre sans faire autre delaiement, tant com il pueent des chavaus traire par desus le pont. Et saciés que li pons estoit biaus et grans et fors et avoit plus d’une lance de lé. Li chevaliers du pont, ki grans estoit et de merveilleuse force Aprés cesti parlement lesse corre li uns vers l'autre tant com il pueent des chevax traire par desus le pont; et sachiez que li ponz estoit biax et granz et forz, et avoit plus d'une lance de lé Et li chevaliers dou pont, qui granz estoit et de merveilleuse force Apres cestui parlement laissent corre li uns en contre l'autre tant come il poent des chevaus traire par dessus le pont. Et sachies que li pont estoit biax et fors et avoit plus d'une lance de le. Et li chevaliers del pont qui grans estoit et de merveilleuse force Apres cestui parlement laissent courre li uns vers l'autre tant come ilz puent dez chevaux par dessus le pont. Et sachies que le pont estoit biaux et grans et fors et avoit plus d'une lance de le. Et le chevaliers du pont qui grans estoit et de merveilleuse force (ii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.82/l.157- 159) ms. BNF, fr.750 (f.135v/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §30/l.7- 13) 404 Carpentras (ed. Curtis, §734/l.6-11) ms. BNF, fr.756 (f.157v/col.II ) ms. BNF, fr.99 (f.149v/col.II ) ! 260! disseron que nunca tal caualeiro uiran como aquel E un cavaleiro vello que estava ante as amẽas il dient tot apertement qu'il ne virent onques mais un preudome com celui est. Il lor est bien avis que au darrien ne porront il contre lui durer, ainz les metra toz quatre a mort ou a desconfiture . Qui sus les creniaux estoit il dient tout apertement k’il ne virent onques mais a nul jour un si preudome n’ausi boin cevalier com chis est. Il lour est bien avis sans doute que au daerrain ne porront encontre lui durer li .IIII. chevalier du castel, ains les metra tous a mort et a desconfiture . “Par Sainte Crois”, fait uns viex cevaliers, ki desus les cretiaus estoit il dient tuit apertement qu'il ne virent onques mes un si preudome come cist est. Il lor est bien avis tot plenement que au derrien ne porroient mie durer li chevalier, enz les metra toz quatre a mort ou a desconfiture . Par sainte croix, fait uns des chevaliers qui sor les creniax estoit il dient tuit apertement qu'il ne virent oncques mes I si preudome come cils est. Et il lor est bien avis tout plainement que au derraine porront mie durer li qatre chevaliers encontre lui ains les metra tos .IIII. a mort ou a desconfiture . Par Sainte Crois, fet I des chevaliers qui sor les creneaus estoit ilz dient tuit apertement qu'ilz ne virent oncques mais i si preudome come ceste est. Il leur est bien avis tout plainement que au derrain ne porroit il mie durer mais le mectront toz IIII a mort ou a desconfiture . Par Sainte Crois, fet I des chevaliers qui sor les creneaus estoit No primeiro caso, observa-se a ausência de equivalente da descrição da ponte que um cavaleiro chamado Neroveix guardava e que Queia e o seu companheiro, Brandeliz, queriam passar. No segundo caso, deparamos com a ausência de equivalente, no texto traduzido, das falas do narrador quanto à conclusão do combate entre Lancelot e quatro cavaleiros364. A ausência de equivalente, no texto de chegada, da frase “et sachiez que li ponz estoit biax et granz et forz, et avoit plus d'une lance de lé”, destacada no exemplo (i), pode justificar-se pela característica de economia deste texto. Ou seja, na porção do texto que se pode ler no testemunho peninsular, há !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 364 Outras divergências, como ausências de segmentos nominal ou verbal, são debatidas nas secções anteriores. ! 261! uma menção à ponte que remete, por sua vez, para uma referência ou descrição anterior desta (i) a). (i) a) LT (ed. Lorenzo Gradín/Sou to Cabo, p.76/l.61- 62) ms.BNF, fr.99 (f.144r/col.II ) ms. BNF fr.756 (f.151v/col.I I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §4/l.1- 3) 404 Carpentras (ed. Curtis, §712/l.16- 17) ms.BNF, fr.750 (f.129r/col.I) Et eles en este falando chegaron a aquela ponte que aquele caualeiro guardaua de que vos ia falamos En telle maniere chevauchent li III chevaliers tant qu'ilz sont venus jusqu'au pont que cil garde dont noz avons parle autrefois En tele maniere li tre compaignon tant qu'il sont venu jusques au pont que cil gardoit dont nous avons parler ca arriere autre fois En tel maniere cevaucent li troi chevalier, tant k’il sont venu trusc’au pont que cil gardoit dont nous avom autre fois parlé cha devant En tel maniere chevauchent li troi chevalier tant qu'il sont venu dusqu'au pont que cil gardoit d'ou nos avons parlé autre foiz En tel maniere chevauchent li troi chevalier, tant qu'il vienent dusqu'al pont que cil gardoit dont nos autre foiz avom parle Ora, a partir da leitura do texto francês, por exemplo, da edição de Renée Curtis, encontrámos o episódio para o qual se remete pela indicação redaccional “de que vos ja falamos” / “don’t nos avons parlé autre foiz”, na passagem destacada no exemplo (i) a)365. Trata-se da cena em que o pai do cavaleiro da ponte pede ao Cavaleiro da Saia Mal Talhada para não combater quando chegar à ponte que o seu filho guarda. A ponte é assim descrita como “bel et riche” (§697/l.14). Seriam estes os elementos que determinariam a ausência do equivalente de uma descrição repetida da ponte no texto de chegada, apesar da elaboração de mais dados neste caso: “biaus et granz et forz et avoit plus d'une lance de lé” (i). Dado o uso, nestas porções de texto, do método de tradução centrado no conteúdo do texto de partida, método que pressupõe a selecção de segmentos significantes no acto de tradução, temos razões para atribuir ao tradutor peninsular estes cortes que preservam a semântica textual. No excerto (ii), na oração ausente do texto de chegada, estamos perante uma conclusão, provavelmente não adoptada no acto de tradução, de um conjunto de !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 365 Em LT não é possível ler este episódio, dado que esta porção de texto não está contida no suporte material conservado deste testemunho. ! 262! avaliações anteriores sobre a valentia de Lancelot durante o combate deste com os cavaleiros que guardavam o castelo, como se pode ler nas passagens seguintes — (ii) a); (ii) b) —: (ii) a) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.81/l.148- 150) ms.BNF, fr.99 (f.149v/col.II ) ms. BNF, fr.756 (ff.157v/col.I -157v/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §29/l.30-33) 404 Carpentras (ed. Curtis, §733/l.20-23) ms. BNF, fr.750 (f.135v/col.II ) que disian que era boo Caualeiro darmas a marauilla et o mays arrizado et o mays ardido que nunca entreles entrarara qu'il est bons chevaliers et preudoms et de grant force et de grant pavoir li plus vistes et le plus hardis qu'ilz oncques veissent entre eulx voir ce dient il bien tout parlement qu'il est preudom et bon chevaliers et de grant force et de grant poeir li plus vistes et li plus hardis qu'il oncques veissent entr'els venir, ce dient il bien tot plainement k’il est preudom, boins chevaliers de grant forche et de grant pooir, li plus vistes et li plus hardis k’il onques mais veïssent venir entr’aus, ce dient il bien tout vraiement qu'il est preudons et bons chevaliers et de grant force et de grant pooir, et li plus vistes et li plus hardiz qu'il onques veïssent entr'ex venir, ce dient il bien tot plenement qu'il est proudom et bons chevaliers de grant force et de grant pooir, li plus vistes et li plus hardiz qu'il onques veïssent entr'elx venir, tot ce vont il bien disant (ii) (b) ! 263! LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.81/l.150- 152) ms.BNF, fr.99 (f.149v/col.II ) ms. BNF, fr.756 (f.157v/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §29/l.33-38) 404 Carpentras (ed. Curtis, §733/l.23-27) ms. BNF, fr.750 (f.135v/col.II ) Pero con todo esto porque era soo et eles iiijº cuydaronno a matar ou a uençer et traballaronss e ende quanto poderon mays seu traballo non lles ualuo rren ca mal coñoçeron con quen no auyan Mais pour ce qu'il est tout seul et ilz sont IIII cuident il bien metre a mort ou jusqu'a outrance si s'en travaillent mout durement, mais leurs travail ne leurs vault riens; deceu sont engengue trop malement a trop mauvaiseme nt cognoissent cellui encontre qui ilz se combatent Mes pour ce qu'il est tos cels et il sont .IIII. le cuidoient il metre a mort ou a outrance si se travallent moult durement mes lor travaill ne riens; deceu sont et engigne trop malement. Maiviesemen t conoissent celui encontre qu'il se conbatent Mais pour ce k’il est tous seus et il sont .IIII., le quident il bien metre a mort u a outranche, si s’en traveillent mout durement, mais lour travaus ne lour i vaut. Decheü sont et engingnié trop malement. Mauvaiseme nt connoissent celui encontre qui il se combatent Mes por ce qu'il est toz seus, et il sont quatre, le cuident il bien metre a mort ou a outrance; si s'en travaillent mout durement. Mes lor travax ne lor vaut riens: deceü sont et engignié trop malement. Mauvese/me nt conoissent celi encontre qui il se combatent Mais por ce qu'il est tot sol et il sont quatre, le quident il bien metre a mort ou a oltrance; si s'en travaillent durement, mais lor travaill ne lor i vaut: doceu sont et durement engingnié. Malvaisemen t connoissent celui encontre qui il se combatent (iii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.78/l.86-90) ms. BNF, fr.750 (ff.129r/col.II- 129v/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §5/l.25- 33) 404 Carpentras (ed. Curtis, §713/l.21-27) ms. BNF, fr.756 (f.152r/col.I) ms. BNF, fr.99 (f.144v/col.II) ! 264! (a)senor Caualeiro derrebastesm e mays non me uençestes (c)et o Caualeiro da ponte que auya nume Renoueis disso (d)ssabede ora Caualeiro desauenturos o que non ey ora uoontade de batalla e)ca tal he meu custume de me non conbater Con Caualeiro depoys que o derribo (a)Ge voi bien que vos m'avez abatu. Mais por ce s'il est ensint, ne m'avez vos pas mené dusqu'a outrance. (b)Si vos plaist et vos avez talent de bataille, ge sui appareilliez de combatre a vos. (c)Sertes, sire chevalier aventurox, fait Neroneux, or (d)sachiez bien que puis que ge vos ai abatu, ge n'ai nule volente de combatre a vos, (e)ne la costume de cest pont n'est mie tele que ge ja me doie combate a chevalier puis que ge l'ai abatu (a)“Sire cevaliers, je voi bien que vous m’avés abatu. Mais pour ce se vous m’avés abatu, ne m’avés vous pas mené a outrance. (b)S’il vous plaist et vous avés talent de bataille, je sui apareilliés de combatre a vous. (c)–Sire cevaliers, fait Neroneus, (d)or sachiés tout certainnemen t que je n’ai nule volenté de combatre a vous puis que je abatu vous ai, (e)ne la coustume de cest pont n’est mie tele que je me combate a cevalier puis que je l’ai abatu (a)“Sire chevaliers, je voi bien que vos m'avez abatu. Mes por ce se vos m'avez abatu ne m'avez vos pas mené a outrance. (b)S'il vos plest et vos avez talent de bataille, je sui apareilliez de combatre a vos.” (c)“Certes, sire chevaliers aventureus, fait Neroneus, (d)or sachiez que je n'ai nule volenté de combatre a vos, puis qeu je vos ai abatu; (e)ne la costume de cest pont n'est mie tele que je me combate a nul chevalier puis que je l'ai abatu (a)Sire chevalier, je voi bien que vous m'aves abatu. Mes pour ce m'aves abatu ne m'aves vous pas mene a oultrance (b)se il vous plest, vous aves talant de bataille je sui appareillie de combatre a vous. (c)Certes, Sire chevaliers aventureus, fet Neroneaus, (d)or sachiez que je n'ai ore volente de combatre a vous puis que je vous ai abatu, (e)ne la costume de cest pont n'est mie tele que je me combate a nul chevalier puis que je l'ai abatu (a)Sire chevaliers, je vois bien que voz m'aves abatu, ne m'aves vous pas mene jusqu'a outrance, (b)s'il vous plaist et voz avez talent de la bataille, je sui appareilles de combatre a voz (d)puis que je vous ai abatu, ne m'aves pas mene jusqu'a outrance, (e)ne la coustume de ce pont n'est mie telle que je me combate a nul chevaliers puis que je l'ai abatu No trecho (iii), assistimos a um segundo momento do confronto entre Queia e Neroveix. Trata-se do ritual da passagem da ponte guardada por Neroveix que consiste num combate com este cavaleiro. A oração ausente em LT significa o apelo de Queia a um novo confronto depois de ter sido derrubado por Neroveix, segundo se ! 265! menciona numa passagem anterior (“que outro mal non recebeu senon do caer”366). Este, como lemos no texto de partida, não dá ouvidos ao apelo de Queia. Ora, LT reduz a segunda fala de Queia (b), mas regista a resposta de Neroveix (d). Apesar de em LT não se manter esta fala relativa a um novo combate (b), o texto receptor não carece de coerência. A forma adversativa em que é estruturada verbalmente a constatação de Queia quanto ao primeiro confronto, lido no segmento (a), sugere o convite a um outro confronto com o cavaleiro da ponte que se revela na resposta deste “non ey ora uoontade de batalla” (d). O corte do grupo verbal redundante “puis que ge vos ai abatu” do segmento (d) significa, assim, uma operação realizada no acto de tradução, dada a sua repetição em (e). (iv) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.78/l.94-97) ms. BNF, fr.750 (f.129v/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §6/l.5- 9) 404 Carpentras (ed. Curtis, §714/l.5-8) ms. BNF, fr.756 (f.152r/col.II) ms. BNF, fr.99 (f.144v/col.II ) Caualeiro non passedes a ponte sse migo nom queredes justar et Brandeliz sse leixou veyr por la ponte et neroueix quando uiu que nom queria leixar a passage da ponte Sire chevaliers, ne passez mie lor mon pont, se vos a moi ne volez joster Brandelis ne li respont riens, com cil qui a ce n'entent pas, ainz s'apareille de passer. Et li chevaliers dou pont voit qu'il ne velt laissier a passer “Sire cevaliers, le passage laissiés, se vous a moi ne vous volés combatre!” Brandelis ne li respont nul mot, com cil ki a ce n’entendoit pas, ains s’apareille du passer. Et li cevaliers du pont, quant il voit que chil ne veut laissier cheste voie “Sire chevaliers, lessiez le passaige, se vos a moi ne vos volez combatre.” Brandeliz ne li respont nul mot, come cil qui ni entendoit pas, enz s'apareille de passer. Et quant li chevaliers dou pont voit que cil ne veust lessier le passaige Sire chevaliers, lessies le passage se vous a moi ne vous voules combatre! Brandelis ne li respont nul mot come cil qui ne l'entendoit pas, ains s'appareille de passer. Et quant li chevaliers del pont voit que cil ne velt lessier le pont ne le passage Sire chevaliers, laisses le passage se vous a moi ne voz voulez combatre! Brandelis ne li respont nul mot come cellui qui ni entendoit pas ains s'appareille de passer. Et quant le chevaliers du pont vit que cil ne veult laisser cest passage !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 366!Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op.cit., p. 78/l.85.! ! 272! que uos ia falamos dusqu'al pont que cil gardoit dont nos autre foiz avom parle chevalier, tant k’il sont venu trusc’au pont que cil gardoit dont nous avom autre fois parlé cha devant dusqu'au pont que cil gardoit d'ou nos avons parlé autre foiz jusques au pont que cil gardoit dont nous avons parler ca arriere autre fois tant qu'ilz sont venus jusqu'au pont que cil garde dont noz avons parle autrefois No passo (i), observa-se que o testemunho galego-português parece abandonar completamente o diálogo entre os cavaleiros, Brandeliz, Queia d’Estraux e Lancelot. O início da frase seguinte “E eles en esto falando”, sem correspondente directo nos testemunhos franceses analisados indica, porém, que a supressão do diálogo pode ter sido intencional por parte do tradutor. A estrutura verbal no gerúndio “E eles en esto falando”, por um lado, dá conhecimento de uma continuação dialogal existente provavelmente na fonte francesa e, por outro, oferece, através dessa forma verbal, uma espécie de um resumo da acção abandonada na tradução. Além da redução do desenvolvimento do diálogo, o texto peninsular oferece uma lição divergente, tanto pelo sintetismo da forma verbal no gerúndio “falando”, como pela forma pronominal “eles” na identificação das personagens — “li trois chevalier” —. Todas estas medidas redaccionais poderão ser indícios de que o receptor e as possibilidades da língua de chegada são as prioridades do tradutor, produzindo assim um texto económico e conciso pelas lições conferidas nestes segmentos. É importante assinalar aqui que no texto galego-português surge, numa outra passagem, anterior à sublinhada no excerto (i), também um momento dialogal entre Queia e Neroveix, o cavaleiro da ponte. Trata-se do momento em que Queia é derrubado por Neroveix ao passar a ponte que este guardava. Desta vez, a lição do texto de chegada corresponde, no plano da expressão, à fonte francesa atestada pelos cinco testemunhos, ou seja, “La u li doi cevalier parloient ensamble en tel maniere con je vous cont” é pura e simplesmente traduzido por “Falando eles assy”367. Observe-se, desta forma, que a funcionalidade do gerúndio como modalidade de expressão concisa de acção em curso é muito valorizada no texto peninsular, seguindo os objectivos da tradução. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 367 Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit., p. 78/l.93. ! 273! (ii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.81/l.137- 140) ms. BNF, fr.99 (f.149v/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.157v/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §§28/l.15- 29/l.7) 404 Carpentras (ed. Curtis, §732/l.24-33) ms. BNF, fr.750 (f.135v/col.I) (a)Et o Caualeiro caeu tal como morto (b)Et foy toda a terra en derredor dele mollada do seu sanguj (c)Et lançarote como o (a)Le chevaliers ne puet le cop soustenir come cil qui durement ce sent ferus et pour ce cheis il a terre moult feloinieuseme nt et gist illec ainsi come mors (b)et tout maintenant est la terre entour luy tainte et vemeille de sang. Ciez qui dessus les murs estoient quant ilz voient le chevaliers gesir par terre en tel maniere que il ne fasoit nul semblance de soi relever, ilz cuident tout vraiement qu'il soit mors et pour ce s'escrient il tuit comement a une vois mors est nostre chevaliers mauvaisemen t cest esprouves a ceste fois. (c)Et Lancelot quant il l'a (a)Li chevaliers ne puet le cop soustenir come cil qui durement se sent feru. Et pour ce chiet il a terre moult felonneuseme nt et gist illuec aussi come mors (b)et tout maintenant est la terre environ lui tote tainte et vermelle de son sanc. Cil que desus les murs estoient quant il voient lor chevaliers gesir par terre en tele maniere que il ne fesoit nul samblant de soi relever, il cuidoient tout maintenant qu'il soit mort et pour ce s'escrient il tous comunement a une vois: Est nostre chevaliers mort, mauvesement c'est esprove a ceste jouste! (c)Et Lancelot quant il abatu, (a)Li cevaliers ne puet le caup soustenir, com chil ki se sent durement feru. Et pour ce vole il du ceval a tere mout felenessement et gist illuec autresi conme mors (b)et maintenant est environ lui la tere tainte de son sanc et vermeille. Quant chil ki desus les murs estoient voient lour cevalier gesir par tere, ki ne faisoit nul samblant de soi remuer, il quident tout vraiement k’il soit mors et pour ce s’escrient il tout conmunaume nt a une vois: “Mors est nostres cevaliers! Mal s’est prouvés de ceste jouste!” (c)Et quant Lanselos l’a (a)Li chevaliers ne puet le cop sostenir come cil qui durement se sent feruz; et por ce vole il par terre mout felenessement, et gist illec ausi come morz. (b)Et tot mentenant est la terre environ li tainte et vermeille de son sanc. Cil qui desus les murs estoient, quant il voient lor chevalier gesir par terre en tel maniere qu'il ne faisoit nul semblant de soi remuer, il cuident tot vraiement qu'il soit morz. Et por ce s'escrient il tot comunement a une voiz: “Morz est nostres chevaliers! Mau/vesemen t s'est provez a ceste foiz.” (c)Et Lanceloz quant il l'a (a)Li chevaliers ne puet le cop sostenir, com cil qui durement se sent feru; et por ce chiet il dou cheval a terre molt felonessement et gist iloc ausint comme mort. (b)Et maintenant est environ lui la terre tainte se son sanc et tote vermeille. Cil qui desus les murs estoient, quant il voient lor chevalier gesir par terre qui ne fait nul semblant de soi relever, quident tot maintenant que il soit mort. Et por ce s'escrient il tuit a une voiz Mort est nostre chevalier Malvaisemen t s'est provez a ceste joste (c)Et quant Lancelot l'a ! 274! derribou tantó ó catou como sse o nunca uisse abatu ne le regarde plus que se il ne l'eust oncques vois ne le regarde plus que ce il ne l'eust oncqs veu abatu, il nel regarde plus, non plus que s’il ne l’eüst onques veü abatu il ne le regarde plus que se il ne l'eüst onques veü abatu, il nel garde point, non plus que s'il onques ne 1'eüst veü No trecho (ii) estamos perante o mesmo mecanismo de ausência por redução de expressão reiterativa. O extenso segmento narrativo “Cil qui desus les murs estoient ... Malvaisement s'est provez a ceste joste” significa, no fundo, uma elaboração reiterativa sobre o mesmo tema anteriormente resumido no segmento (a), ou seja, a queda letal do primeiro cavaleiro armado responsável pela guarda do caminho do castelo que Lancelot confronta. O modo de tradução adoptado nos textos arturianos em galego-português encontra-se, de algum modo, contemplado no método que prevalece o conteúdo da teoria de Juan Vives. Este método, como já referimos, é defendido desde São Jerónimo, até aos estudos mais recentes sobre o tema. O autor espanhol, em contrapartida, defende também a técnica de omissão no caso em que o sentido do texto original não sofre alterações e a de amplificação que pode contribuir para um melhor entendimento do conteúdo original. Quanto a esta última técnica teremos a possibilidade de observar exemplos mais adiante. O que revela a análise destes textos é o grau de omissão que se pode atingir no acto de tradução. Observando LT, constatamos que o tradutor deste texto não se limita à redução de constituentes simples da língua, mas também de frases e de segmentos narrativos. Quais seriam as razões destes cortes? A resposta deverá ser o tipo do texto a traduzir e os objectivos do texto traduzido. Quanto à primeira razão, pelo menos no que diz respeito à porção de texto que se conserva de LT, encontrámos, de um modo geral, temas relacionados com combates entre cavaleiros. Dado que o texto de chegada não adopta as descrições em detalhe destes episódios, presumimos que este tipo de relato não tem interesse para o tradutor e/ou para o seu receptor. No que concerne à segunda razão, concluímos que a técnica da redução permite atingir os objectivos da economia, da coerência e da clareza do texto de chegada. Esta análise permitiu-nos observar que LT reproduz, de um modo geral, um texto mais económico em relação aos franceses consultados nas porções de texto estudadas. É importante sublinhar, contudo, que esta característica se manifesta em graus diferentes nas três traduções galego-portuguesas do romance arturiano aqui ! 275! estudadas. Ou seja, LT revela-se mais redutor, de um modo geral, em relação à sua fonte do que ST/TT e LM. Este facto leva-nos a concluir que a redução de expressão redundante é uma característica comum aos textos galego-portugueses. Também, o carácter económico de LT é conferido, além da redução de constituentes redundantes nominais, verbais e adverbiais, por um conjunto de ausências de unidades frásicas e segmentos narrativos mais extensos. O texto de chegada ilustra, assim, uma tendência para a contracção de texto ao contrário do que revela a redacção francesa. Também se pode pôr a hipótese de haver uma tendência para secundarizar pormenores sobre as derrotas dos cavaleiros, dado que as porções de texto afectadas por ausência ou simplificação de equivalente abordam este tema. Não deixa de ser importante considerar, em último lugar, o factor de índole material quanto à economia da versão galego-portuguesa. O pergaminho era um suporte muito dispendioso e o tamanho do texto redigido pode ter-se provavelmente sujeitado, também, às possibilidades de ordem material. 2. Amplificação em LT A amplificatio surge no texto de chegada em grupo nominal, verbal e em frase. Como já referimos no caso dos dois textos anteriormente estudados, esta técnica justifica-se em contextos que pode realçar alguns conteúdos do texto original e segundo a teoria de Juan Vives sobre os métodos de tradução, contribui apenas para o melhor entendimento do conteúdo original. Da análise que se segue veremos como se manifesta este tipo de transformação de texto na tradução galego-portuguesa do Livro de Tristan. Prosseguiremos, assim, com os exemplos que comprovam esta técnica na tradução de LT. 2.1 Amplificação de grupo nominal (i) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.75/l.38-40) ms. BNF, fr.99 (f.144r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.151r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §2/l.1- 6) 404 Carprentras (ed. Curtis, §711/l.1-5) ms. BNF, fr.750 (f.128v/col.I) Depoys que sse lançarote partiu de casa de seu Quant Lancelot se fu partis du preudome a Quant Lancelot se fu departi del preudome a Quant Lanselos se fu partis du preudoume Quant Lanceloz se fu partiz dou preudome a Quant Lancelot se fu parti du preudome a ! 276! ospede non andou muyto que achou dous Caualeiros andantes que tragian senllos escudeyros qui il avoit faite la promesse telle come je vous ai devise, il se mist tout maintenant a la voie entre lui et ses escuers. Il n'ot mie granment ale qu'il atant li chevaliers errans que chevauchoien t tout le grant chemin et menoient avec eulx II escuers qui il avoit fete la promesse cele come je la vous ai devisie il se mist tout maintenant a la voie entre lui et ces escuers. Il n'ot mie granment ale quant il ataint II chevaliers qui chevauchoien t tout le grant chemin et menoient avoec euls II escuers de la Table Reonde a qui il avoit faite la proumesse tele con je vous ai devisee, il se mist maintenant au chemin entre lui et ses esquiers. Dont n’ot mie granment alé quant il ataint deus cevaliers errans ki cevauchoient tout le grant cemin et menoient avoec ax deus esquiers tant seulement qui il ot faite la promesse tele com je vos ai devisé, il se mist tot mentenant au chemin entre li et ses escuiers. Il n'ot mie granment alé qu'il ataint deus chevaliers erranz qui chevauchoien t tot le grant chemin, et menoient avec eus deus escuiers cui il avoit faite la promesse tele com ge vos ai devisee, il se mist maintenant a la voie entre lui et ses escuiers. Dont n'ot mie granment ale quant il ataint deus chevaliers erranz qui chevauchoien t tot le grant chemin et menoient avec elx deus escuiers (i) a) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.74/l.24) ms.BNF, fr.99 (f.144r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.151r/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §1/l.17-19) 404 Carpentras (ed. Curtis, §710/l.13-14) ms. BNF, fr.750 (f.128v/col.I) En outro dia manãa quando quis caualgar A l'endemain quant Lancelot se deust de leans partir entre lui et ses escuers A l'andemant quant il se dut de leenz partir entre lui et ses escuers A l’endemain, auques matin, Lanselos se lieve et apareille. Et quant il se dut de laiens partir entre lui et ses esqueirs A l'endemen quant Lanceloz se dut de leanz partir entre li et ses escuiers A 1'endemain, quant Lancelot se dut de leienz de partir entre lui et ses escuiers Reflectindo sobre o exemplo (i), colocámos a possibilidade de a utilização do lexema “casa”, em LT, na qualidade de amplificatio face aos restantes testemunhos, ! 277! se relacionar com a ocorrência, numa passagem anterior em que o texto de chegada, desta vez, é concordante, no aspecto léxico-semântico, com o de partida, da forma seguinte: “Aa noite lle avẽo que seu camĩo o levou a casa do home boo”368 correspondente à lição “Au suer li avint que ses chemins l'aporta chiex le preudome”369. No caso destacado, a amplificação parece, por um lado, ser induzida pela sua anterior ocorrência, a fim de tornar o texto mais preciso para o seu leitor, e, por outro lado, parece restituir de uma forma explícita a noção subentendida, no texto de partida, do local que Lancelot irá abandonar. Além disso, neste mesmo segmento, é interessante assinalar como o texto de chegada, de novo, não retém a oração relativa “a qui il avoit fete la promesse cele come je la vous ai devisie”370, com a função de interpretar o termo regente (“preudome”)371. Pela mesma técnica, omite-se do texto de chegada a frase “il se mist tout maintenant a la voie entre lui et ses escuers” que realiza uma ditologia sinonímica com a anterior forma verbal “fu partis”. A expressão frequente no texto francês “entre lui et ses escuiers”, a marcar a forma de partida do cavaleiro, encontrase, de facto, solucionada, no texto de chegada, por formas verbais sintéticas como “cavalgar” (i) a) ou, pura e simplesmente, “partir” (i)372. O texto traduzido torna-se, assim, mais específico, nesta porção de texto, através da técnica de amplificação e, novamente, mais redutor face às formas redundantes. Aliás, a tradução do “preudome”, que designa frequentemente e de um modo genérico, no texto francês, figuras masculinas (personagens ligadas à religião, o pai do cavaleiro da ponte), por “ospede” realça, neste caso, o carácter específico do texto de chegada em determinadas situações com relevo para a compreensão e precisão do respectivo segmento. (ii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.79/l.106- ms. BNF, fr.99 (f.149r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.157r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §27/l.3- 5) 404 Carpentras (ed. Curtis, §731/l.3-5) ms. BNF, fr.750 (f.135r/col.I) !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 368 Cf. Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit., p. 74/l.21-22. 369 Cf. Curtis, Renée L. (ed. 1963-1985), Le Roman de Tristan en prose, vol. III, Cambridge, D.S. Brewer, §710/l.9-10. 370 ms. BNF, fr. 756/f.151r/col.II. ! 371 Tivemos oportunidade de observar exemplos disto em 1.4 Ausência por redução de frase, os casos (vii), (viii), (ix). 372 Ver o que dizemos adiante sobre a ausência dos cavaleiros que acompanham Lancelot. ! 278! 107) Et sabede que susu na montana a derredor do Castelo auya hũu fremoso chão que duraua bem duas legoas Et saches que dessus en la montagne avoit une plaine trop belle qui duroit bien de toutes pars II lieues engleces Et sachies que la dessus en la montaigne avoit une plaigne trop bele qui duroit bien de totes pars II liues englese Et saciés que la desus en la montaingne avoit une plaingne trop bele, qui duroit bien de toutes pars deus lieues englesques Et sachiez que la desus en la montaigne avoit une pleigne trop bele qui duroit bien de totes parz deus liues englesches Et sachiez que la desus en la montaigne avoit une plaigne trop bele, qui duroit bien de totes parz trois liues engleches (iii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Sout o Cabo, pp.79/l.117- 80/l.120) ms. BNF, fr.99 (f.149r/col.II ) ms. BNF, fr.756 (f.157r/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §27/l.23-26) 404 Carpentras (ed. Curtis, §731/l.21- 23) ms. BNF, fr.750 (f.135r/col.II ) Senor Caualeiro onde sodes uos Se sodes dos Caualeiros de Casa de Rey artur Escudeyro disso lançarote ssi sóó sem falla de Casa de Rey artur sóó et conpaneiro da tauola redonda le sire chevaliers qu'il estes vous, estes vous de la maison le Roy Artus? Vaslet, fait Lancelot, ouil, sans faille, de la maison le Roy Artus sui je voirement et compains de la Table Reonde Sire chevaliers qui estes vous? Estes vous de la meson le roi Artus? Vallet, fet Lancelot, oil, sans faille de la meson le roi Artus sui ge voirement et conpains de la Table Reonde “Sire cevaliers, ki estes vous? Estes vous de la maison le roi Artu? -Vallet, fait Lanselos, oïl, sans doute. De la maison le roi Artu sui je et compains de la Table Reonde “Sire chevaliers, qui estes vos? Estes vos de la meson le roi Artus?” “Vallez, fait Lanceloz, oïl, sanz faille. De la meson le roi Artus sui je voirement et compainz de la Table Reonde Sire chevaliers, qui estes vos? Estes vos de la maison dou roi Artus Vallet, fait Lancelot, oïl, sanz faille. De la maison dou roi Artus sui ge et compaignon do la Table Reonde Das lições sublinhadas nos excertos (ii) e (iii) sobressai novamente o carácter explícito da tradução em construções em que o texto de partida parece carecer de clareza no respectivo segmento ou ser apenas insuficientemente marcado do ponto de vista léxico-semântico, segundo entendemos pela ênfase que o tradutor dá a questões de teor geográfico (ii) ou identificação das personagens (iii). ! 279! 2.2 Amplificação de grupo verbal (i) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.82/l.160- 163) ms. BNF, fr.99 (f.149v/col.II ) ms. BNF, fr.756 (f.157v/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §30/l.15-18) 404 Carpentras (ed. Curtis, §734/l.14-17) ms. BNF, fr.750 (f.135v/col.II ) disso aos que estauan em derredor uos ueeredes a boa fe que aquel cavaleiro que esta emde os uençera todos ou os desbaratara et se deus me ualla uençeria et mataria taes x. como eles il dist a ceulx qui entour luy estoient: En nom Dieu, il les mectra toz a desconfiture ou mors encore que la nuit venist en occiroit il telx X come sont ceulx IIII i fist a tos cels qui entors lui estoient: En nom Dieu, il les metra tos .IIII. a desconfiture ou a mort et encois que la nuit venist en ocirroit il tiex .X. come sont cils qatre Il dist a chiaus ki entour lui estoient: “Par Sainte Crois, il les metra tous quatre a desconfiture u a mort, et ançois que la nuis venist en ociroit il teus .X. com cist cevalier sont il dist a cez qui entor li estoient: “En non Dieu, il les metra toz quatre a desconfiture ou a mort, et ençois que la nuit venist en ocirroit il tiex dis come sont cil quatre ele dist a celx entor lui estoient: Par Sainte Croiz, il les metra toz quatre a desconfiture ou a mort, et ancors que la nuit venist en ocirroit il telx .x. com cil quatre sunt A amplificação verbal do segmento (i) gera uma modificação de ênfase no conteúdo em relação ao texto francês. Referimo-nos ao facto de lermos na versão francesa três grupos verbais “metra ... a desconfiture ou a mort et ... ocirroit”, enquanto em galego-português se registam quatro núcleos verbais, a saber, “os uençera ... ou os desbaratara et ... uençeria et mataria”. A modificação de ênfase no conteúdo, envolvendo a repetição da forma verbal “vençeria” em LT, consiste no facto de o objectivo do combate ser (re)dirrecionado, ou seja, o objectivo não é matar mas apenas vencer. Em francês, acentua-se a questão de matar pela utilização das construções verbais, exprimindo o mesmo valor semântico “metra ... a mort” e “ocirroit”, enquanto em português se enfatiza “vencer” pela repetição da forma verbal “vençeria” e a conjugação do verbo “desbaratara”. Podemos relacionar este tipo de modificação de ênfase de conteúdo relativo ao objectivo do combate com a redução dos pormenores referentes ao mesmo tema. Assim, notamos uma coerência interna na utilização das técnicas abordadas pelo tradutor de LT. ! 280! 2.3 Amplificação de frase (i) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.77/l.70-71) ms. BNF, fr.750 (ff.129r/col.I- 129r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §4/l.18- 21) 404 Carpentras (ed. Curtis, §712/l.31-33) ms. BNF, fr.756 (f.151v/col.II ) ms. BNF, fr.99 (f.144v/col.I) et ora tanto que uiu o Caualeiro que a ponte guardaua uay ficando detras por nos meter deante et que lle paguemos esta portagen et maintenant lors qu'il apercut chevalier qui cest pont garde, il se mist derriere nos por ce que nos alissom devant et que nos li aquitissom le passage de cest pont et orendroit, tout maintenant k’il aperchut cest cevalier ki chest pont garde, il se mist deriere nous pour ce que nous alissom devant et li aquitissom le passage de cest pont et orandroit tot mentenant qu'il aperçut le chevalier qui cest pont garde, il se mist par derrieres nos por ce que nos alissiens devant et li aquitisiens le passaige de cest pont et orendroit tout maintenant qu'il apercut cest chevaliers qui cest pont garde il se mist derriere nous pour ce que nous alissons devant et li aquitissons le passage de cel pont et orendroit tout maintenant qu'il aparcut cest chevaliers qui cest pont garde il se mist par derrieres nous pour ce que noz alissions davant et li acquictissons le passage de cest pont (i) a) ! 281! LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.77/l.76-79) ms. BNF, fr.99 (f.144v/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.152r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §5/l.4-8) 404 Carpentras (ed. Curtis, §713/l.3-6) ms. BNF, fr.750 (f.129r/col.II) S<…> Caualeiros andantes allur yde <…> ca non passaredes por aqui ca uos non leixarey eu por aqui pa<…> sse ante non pagardes o passo et esta he a paga de justardes conmigo et doutra guisa non podedes yr quites nen eu nom quero yr quite disso queya Seigneurs chevaliers aventureux, autre passage que verez que cestui ce vous a moi ne voulez jouster car bien sachiez que quictement ne povez voz mie passer cest pont. En nom Dieu, Sire chevaliers, fait Kahedin d'Estraux, ne je quictez n'en vueil estre Seignors chevaliers aventureus, autre passage queres autre passage que cestui ce vous a moi ne voles jouster, car bien sachiez que qui revient ne poes vous passer le pont. En non Dieu, Sire, fet Kex d'Estraux, ne je quites n'el vueill passer le pont “Signeur cevalier aventureus, autre passage querés que cestui se vous a moi ne volés jouster, car bien saciés certainnemen t que quitement vous ne poés cest pont passer! – En non Dieu, sire cevaliers, fait Kex d’Estraus, ne je quites n’en voel estre “Seignor chevalier aventurous, autre passaige querez que cesti, se vos a moi ne vos volez combatre, car bien sachez que quitement ne poez vos passer cest pont.” “En non Dieu, sire, fait Kex d'Estrax, ne je quites n'en veil estre Seignor chevalier aventureox, autre passage querez que cestui, se vos a moi ne volez jouster, quar bien sachiez que quitement vos ne poez passer cest pont En non Dieu, sire chevaliers, fait Keux d'Estraux, ne ge quite n'en voill estre Para entender o aumento da frase “sse ante non pagardes o passo et esta he a paga de justardes conmigo et doutra guisa non podedes yr quites” (i) a) é necessário retomar uma passagem anterior em que esta questão é referida pelo lexema “portagen” (i), que parece introduzir a noção de pagamento pecuniário na passagem da ponte. Aqui, Queia, Brandeliz e Lancelot chegam à ponte guardada por Neroveix. Lancelot deixa os dois companheiros ultrapassá-lo e Queia comenta com Brandeliz esta atitude de Lancelot. Na passagem a seguir, que salientamos em (i) a), os cavaleiros já se confrontam com “o pagamento” da passagem da ponte — um combate com o cavaleiro encarregado da guarda deste. Neste exemplo, parece que houve a necessidade de amplificar o texto para corrigir o afastamento do significado que se tinha operado devido à introdução anterior do termo “portagen”, que tem uma ! 288! LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.75/l.38-40) ms. BNF, fr.99 (f.144r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.151r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §2/l.1-6) 404 Carpentras (ed. Curtis, §711/l.1-5) ms. BNF, fr.750 (f.128v/col.I) Depoys que sse lançarote partiu de casa de seu ospede non andou muyto que achou dous Caualeiros andantes que tragian senllos escudeyros Quant Lancelot se fu partis du preudome a qui il avoit faite la promesse telle come je vous ai devise, il se mist tout maintenant a la voie entre lui et ses escuers. Il n'ot mie granment ale qu'il atant li chevaliers errans que chevauchoie nt tout le grant chemin et menoient avec eulx II escuers Quant Lancelot se fu departi del preudome a qui il avoit fete la promesse cele come je la vous ai devisie il se mist tout maintenant a la voie entre lui et ces escuers. Il n'ot mie granment ale quant il ataint II chevaliers qui chevauchoie nt tout le grant chemin et menoient avoec euls II escuers de la Table Reonde Quant Lanselos se fu partis du preudoume a qui il avoit faite la proumesse tele con je vous ai devisee, il se mist maintenant au chemin entre lui et ses esquiers. Dont n’ot mie granment alé quant il ataint deus cevaliers errans ki cevauchoient tout le grant cemin et menoient avoec ax deus esquiers tant seulement Quant Lanceloz se fu partiz dou preudome a qui il ot faite la promesse tele com je vos ai devisé, il se mist tot mentenant au chemin entre li et ses escuiers. Il n'ot mie granment alé qu'il ataint deus chevaliers erranz qui chevauchoie nt tot le grant chemin, et menoient avec eus deus escuiers Quant Lancelot se fu parti du preudome a cui il avoit faite la promesse tele com ge vos ai devisee, il se mist maintenant a la voie entre lui et ses escuiers. Dont n'ot mie granment ale quant il ataint deus chevaliers erranz qui chevauchoie nt tot le grant chemin et menoient avec elx deus escuiers O exemplo (i) revela uma tradução mais concisa, sintética e específica no aspecto léxico-semântico. Em primeiro lugar, o termo “ospede” reproduz os componentes semânticos de substrato dos franceses “leans” e “preudoms”, referindo a personagem em cuja casa Lancelot pernoitará. A opção lexical do galego-português revela, assim, uma tradução sensum de sensu oposta a verbum e verbo. Assinala-se, também, que o texto de chegada designará esta personagem, em quatro ocorrências376, pelo mesmo vocábulo, com a excepção da primeira referência a esta !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 376 “dissolle seu ospede et Rogoo ben assy como rrogara o da ssaya mal tallada” (Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit., p. 74/l.27-28; “Et o ospede llo graçiu muyto” (Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit., p. 75/l.34); “Depoys que sse lançarote partii de casa de seu ospede” (Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001) , ! 289! personagem. Neste último caso emprega-se, no texto de chegada, a construção “home boo”, como equivalente de “preudome” (iii). Poderíamos concluir, neste caso, que os contextos ulteriores permitiram ao tradutor encontrar uma solução que reflecta melhor o conteúdo semântico e, assim, optou, nas ocorrências seguintes, pelo lexema específico “ospede” na designação desta personagem. Assim, o emprego de lexemas específicos como opções de tradução salienta, novamente, o carácter conciso do texto receptor377. (iii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.74/l.21-22) ms.BNF, fr.99 (f.144r/col.I) ms. BNF,fr .756 (f.151r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §1/l.11- 12) 404 Carpentras (ed. Curtis, §710/l.9-10) ms. BNF,fr .750 (f.128v/col.I) Aa noyte lle auẽo que sseu camĩo o leuou a casa do home bóó Au soir li avint en tel maniere que ses chemins l'aporta chiez le preudome Au soir li avint en telle maniere que son chemin l'aporta chies li preudome Au soir li avint en tel maniere que ses chemins l’aporta droitement chiés le preudoume Au suer li avint que ses chemins l'aporta chiex le preudome Au soir li avint en tel maniere que son chemin 1'aporta ches le preudome Em segundo lugar, é de assinalar a estrutura verbal “quis cavalgar” como equivalente de “quant il se dut de laiens partir entre lui et ses esqueirs”. Neste caso, a construção verbal do texto galego-português parece simplificar o ritual da partida do cavaleiro. Por outro lado, como já analisámos atrás, a ausência de equivalente da referida companhia de Lancelot (“ses escuiers”) pode explicar-se por uma tendência para secundarizar estas personagens muito representativas na ideologia cavalheiresca medieval. Note-se, desta forma, que em outras duas passagens ulteriores (ii) (iv), a referência aos escudeiros de Lancelot está novamente ausente na tradução galegoportuguesa, embora a menção aos escudeiros de Brandeliz e Queia, os dois cavaleiros que Lancelot encontra a seguir à sua partida da casa do hóspede, conheça paralelo no texto de chegada (ii). Tratar-se-á de uma eliminação da companhia de Lancelot operada pelo tradutor ou de uma ausência da mesma referência no texto fonte? Em !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! op. cit., p. 75/l.38); “nenbrousse logo do rrogo que lle seu ospede Rogara et esteue quedo” (Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit., p. 76/l.63-64). Sublinhado nosso. 377 Ver, também, o exemplo “portagen” em 2.3 Amplificação de frase (i). ! 290! qualquer das hipóteses, estamos perante uma tendência para distinguir a forma como os heróis se deslocam: Lancelot, neste caso, sozinho, enquanto os outros, Brandeliz e Queia, aparecem acompanhados por escudeiros nas suas demandas. Poderá este ritual denotar, também, a valentia do herói que anda sozinho nas suas aventuras? Em relação às hipóteses levantadas, seria ainda relevante assinalar que no testemunho BNF, fr. 757378, na edição dirigida por Philippe Ménard379, apesar de transmitir uma versão heterogénea do Tristan en prose, regista em várias ocasiões Lancelot acompanhado por escudeiros380, de acordo com o que encontrámos nos exemplos dos testemunhos franceses aqui colacionados. Os episódios em que Lancelot surge acompanhado por escudeiros eviênciam, em geral, o esplendor dos cavaleiros e da corte. Ora, a ausência deste elemento no texto peninsular pode ter resultado de num conjunto de circunstâncias decorrentes do acto de tradução e da época em que se realiza a tradução. Ou seja, além dos factores a língua fonte/a língua alvo, o tradutor/revisor e receptor (leitor ou auditório)381, seria ainda necessário ponderar os de ordem material, o perfil do próprio autor da tradução (social e/ou profissional), a recepção do texto (leitura de lazer ou de (in)formação382), as ideias dominantes, os modelos literários e o mecenas383. Ora, da concorrência destas condicionantes devem ter resultado as limitações temáticas assinaladas em LT. Este facto pode, assim, viabilizar a hipótese, quanto à ausência dos escudeiros da companhia de Lancelot no texto peninsular, que aponta para uma característica que deriva do processo de tradução. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 378 É necessário assinalar que não se deve dizer que o ms. BNF, fr. 757 não inclui a história do Cavaleiro da Saia Mal Talhada, mas que a versão V.1, que este ms. representa, só começa numa fase mais avançada da íntriga, depois do episódio deste cavaleiro. 379 Ménard, Philippe (dir. ed. 1997-2003), Le Roman de Tristan en Prose (version du ms. 757 de la Bibliothèque nationale de Paris), Paris, Champion, vol. I, ed. par Joël Blanchard et Michel Quéreuil (1997); vol. II, ed. par Noëlle Laborderie et Thierry Delcourt (1999), vol. III, ed. par Jean Paul Ponceau (2000), vol. IV, ed. par Monique Léonard et Francine Mora (2003). 380 “Mesire Lancelot estoit toz arméz fors que sien hiaume que uns siens escuiers portoit e prent hastivement et monte en un chevalier”, Cf. vol. I, p. 320; “Lors fet mesire Lancelot aporter [...] il monte sur un cheval fort et isnel, et s’en part leanz, si seul que il n’enmaine en sa conpaignie seulement un escuier”, Cf. vol. I, p. 425; “Mesire Tristan monte ainsi con il puet et mesire Lancelot et li escuiers, si se partent leanz”, Cf. vol. I, p. 435. Sublinhados nossos. 381 Ver Gafton, Alexandru (2005), op. cit., pp. 14-18. 382 Tratar-se-ia das vertentes moral e didáctica do romance arturiano, do cuidado de instruir o leitor? Pois estes são valores que serão reclamados em prólogos e cólofones das edições tardias dos romances em que protagonizam Lancelot e Tristan, por exemplo. Cf. Pickford, Cedric Edward (1960), op. cit., pp. 266-271. 383 Ver Rubio Tovar, J. (1997), “Algunas características de las traducciones medievales”, Revista de Literatura Medieval, IX, p. 203. ! 291! (iv) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.79/l.116- 117) ms.BNF, fr.99 (f.149r/col.II) ms. BNF, fr.756 (f.157r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §27/l.19-21) 404 Carpentras (ed. Curtis, §731/l.17-19) ms. BNF, fr.750 (f.135r/col.II) Enton esteue et fez catar seu Caualo se era ben guisado E el estando assy chegou a el hũu escudeyro Lors s'arreste tout maintenantet fait regarder a son cheval qu'il n'y faille riens que ly escuers puisse amender. Et la ou il c'estoit arestes en telle maniere Lors s'arreste tout maintenant et fet regarder a son cheval qui ni faille riens que li escuiers puissent amander. Et la ou il s'estoit arestes en tele maniere Lors s’areste tout maintenant et fait regarder a son ceval k’il n’i faille riens que si esquier puissent amender. Et la u il s’estoit illuec arrestés en tel maniere Lors s'areste tot mentenant et fait regarder a son cheval qu'il n'i faille riens que si escuier i puissent amender. Et la ou il s'estoit arestez en tel maniere Lors s'arresteet fait regarder a son cheval qu'il n'i faille riens que si escuier puissent amender. Et la ou il s'estoit arrestez en tel maniere (v) LT (ed. Lorenzo Gradín/Sout o Cabo, p.76/l.62-64) ms. BNF, fr.99 (ff.144r/col.I I-144v/col.I) ms. BNF, fr.756 [f.151v/col.II ] 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §4/l.3- 6) 404 Carpentras (ed. Curtis, §712/l.18- 20) ms. BNF, fr.750 (f.129r/col.I) Et tanto que lançarote uiu a ponte nenbrousse logo do rrogo que lle seu ospede Rogara et esteue quedo Tout maintenant que Lancelot voit le pont souvient de la priere que le preudome li avoit faicte il s'areste arrament et laise aler les chevaliers avant Tout maintenant que Lancelot voit le pont, il si souvient de la priere que li preudom li avoit fete, se areste erranment et lesse les chevaliers aler avant Quant Lanselos voit le pont, il li souvient tout maintenant de la proiiere que li preudom li avoit faite. Dont s’areste esranment et laisse les cevaliers aler devant Tout mentenant que Lanceloz voit le pont, il li sovient de la proiere que li preudons li avoit faite; si s'areste erranment, et lesse les chevaliers aler avant Et lors que Lancelot voit le pont, tot maintenant li sovient de la proiere que li preudom li avoit faite. Si s'areste maintenant et laisse les deus chevaliers aler atant avant ! 292! A expressão sintética “esteve quedo”, destacada no excerto (v), em relação à frase “s’areste esranment et laisse les cevaliers aler devant”, realça novamente, no texto receptor, a utilização dos próprios recursos linguísticos na equivalência sintética de conteúdos do texto de partida. Uma vez chegados à ponte, Lancelot lembra-se da promessa que tinha feito ao seu hóspede de não combater o filho deste, responsável pela guarda da dita ponte e, por isso, deixará passar à frente Brandeliz e Queia. Neste contexto, o tradutor parece seguir um mecanismo lógico: ficando Lancelot parado e sem qualquer aviso, os outros cavaleiros naturalmente avançarão. Ora, esta noção explícita em francês em duas orações “si s'areste erranment, et lesse les chevaliers aler avant” passará, através da solução oferecida pelo texto peninsular “et esteue quedo”, para o plano implícito. (vi) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.75/l.45) ms. BNF, fr.99 (f.144r/col.II) ms. BNF, fr.756 (f.151v/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §2/l.22- 23) 404 Carpentras (ed. Curtis, §711/l.18-19) ms. BNF, fr.750 (f.128v/col.II) (a)et tanto que sse chegaron (b)saluaronss e — tant qu'il est jusqua eulx venir (b)Lors le saluent et il leur rent leur salus (a)Quant il voient dex aprocher dels, il s'arestent tout maintenant, il s'arestent en mi le chemin et atandent que il est jusques a els venus. (b)Lors le saluent et a lor rent lor salus (a)Quant il le voient aprochier d’aus, il s’arestent et atendent tant k’il est venus dusques a aus, (b)si le saluent et il lour rent lour salu mout bel et mout cortoisement (a)Quant il le voient d'eus aprochier, il s'arestent tot mentenant et atendent tant qu'il est dusqu'a eus venuz. (b)Lors le saluent, et il lor rent le salu (a)Quant il le voient aprochier d'elx, il s'arestent et l'atendent tant qu'il est venuz dusqu'a elx. (b)Donc le saluent et il lor rent lor saluz molt bel et molt cortoisement Embora o ms. BNF, fr. 99 apresente uma lição reduzida no segmento (a), como LT (indício possível de uma fonte com a mesma característica a montante da tradução peninsular), a repetição sintética do núcleo verbal (b) permite-nos supor que, de facto, se trataria de um mecanismo resultado do processo de tradução. ! 293! Assim, as formas verbais reflexivas “sse chegaron” (a) e “saluaronsse” (b) abrangem, a primeira, três núcleos verbais consequentes do texto de partida “il le voient aprochier d’aus”, “il s’arestent” e “atendent”, e a segunda forma, dois núcleos verbais: “saluent”, “il rent salus”. A forma sintética das opções de tradução reduz, assim, os mecanismos estilísticos verbais do texto de partida que marcam successivamente o desenrolar das acções. A forma elaborada de marcar os momentos da acção não corresponde, por conseguite, aos objectivos da tradução galegoportuguesa. (vii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, pp.83/l.185- 84/l.189) ms.BNF,fr.99 (ff.150r/col.I- 150r/col.II) ms.BNF, fr.756 (f.158r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §31/l.33-46) 404 Carpentras (ed. Curtis, §§736/l.13- 737/l.2) ms. BNF, fr.750 (ff.136r/col.II- 136v/col.I) Ora toste disso dadem e as armas Et poys um soo trouxe tal mal os vjes caualeiros con ele sóó Eu. Or tost, fait li Sirez, aportes moi mes armes puis que les chevaliers de leans sont si honnis et si mal mis qu'ilz sont retornes a recreandise par I seul chevalier estrange. Certes, jamais jour de ma vie n'aurai en eulx fiance. Or, povez ja veoir tout apertement que moi tout seul ai plus de povoir que eulx tous n'ont. Or tost, fet li Sires, aportes moi mes armes puis que li chevaliers de leens sont honis et si mauvesement qui sont tuit torne a recreantise par .I. seul chevaliers estrange. Certes, james a nul jor de ma vie, en euls n'aurai fiance! Or porrois ja veoir tout apertement que je tot seul ai plus de poeir qu'il n'ont tuit. Or tost! fait il. Aportés moi mes armes, puis que li cevalier de chaiens sont si honi et si maumis k’il sont tout mené a recreandise par un seul chevalier estrange! Certes jamais a nul jour de ma vie e naus n’avrai fianche! Or porrés já veoir tout apertement se je tous seus n’ai plus de pooir que il n’ont tout Or tost, fait li sires, aportez vos mes armes, puis que li chevalier de ceanz sont si honi et si maumis qu'il sont torné a desconfiture par un sol chevalier estrange. Certes, jamés a nul jor de ma vie n'avré en eus fiance. Or porrez ja veoir apertement que je toz seus ai plus de pooir qu'il n'ont tuit. Or tost! fait il. Aportez moi mes armes, puis que li chevalier de ceienz sunt si honi et si malmis qu'il sont tuit mené a recreantise par un sol chevalier estrange! Se Diex m'ait jamais miliorde ma vie m'avrai fiance en elx! Or porront il ja veoir tost et tot apertement que ge tot sol ai plus assez de pooir qu'il n'ont trestuit ! 294! .VI.!” continuação LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, pp.83/l.185- 84/l.189) ms.BNF,fr.99 (ff.150r/col.I- 150r/col.II) ms.BNF, fr.756 (f.158r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §31/l.33- 46) 404 Carpentras (ed. Curtis, §§736/l.13- 737/l.2) ms.BNF, fr.750 (ff.136r/col.II- 136v/col.I) Et poys pidiu suas armas dero n llas et armousse et sobiu em seu caualo et preguntou hu estaua aquel caualeiro que lle tal desonrra fezera Tout maintenant qu'il a comande que ses armes ly soient aportees l'en ly aporte tout maintenant. Si l'arment bien et bel essanment au mieulx qu'ilz peuent. Et quant il est bien armes il s'en ist hors de la chambre et vint en mi la court et monte sur un cheval fort et isnel et de grant bonte palin. Et quant il est toz appareilliez qu'il n'y saut que du ferir il demande ou est le chevaliers que ceste honte ly a faicte Tant maintenant qu'il a conmande que ces armes li soient aportees et l'en les li aporte maintenant si l'arment bien et bel erranment au miels qu'il poent. Et quant il est bien armes il s'en ist hors de la chambre et vient en mi la cort et monte sor I cheval fort et isnel et de grant bounte plain. Quant il est tos appareillies qu'il ni faut fors del ferir il demande: Ou est il li chevaliers qui ceste honte nous a fete Si tost com il a conmandé que ses armes li soient aportees, et on li aporte tout maintenant, si l’arment esranment bien et bel a tout le mieus k’il onques pueent. Et quant il est armes, il s’en ist hors de la cambre et vient en mi la court et monte sour un ceval fort et isnel, de grant bonté. Quant il est tous apareilliés k’il n’i faut fors du ferir il demande a ciaus ki entour lui estoient: “U est li cevaliers ki ceste honte nous a faite? Tot mentenant qu'il a comandé que ses armes li soient aportees, en les li aporte, si l'arment erranment bien et bel au mieuz qu'il onques pueent. Et quant il est bien armez, il s'en ist hors de la chambre et vient enmi la cort, et monte sor un cheval fort et inel et de grant bonté plen. Quant il est toz apareilliez qu'il n'i faut fors del ferir il demande: “Ou est li chevaliers qui ceste honte nos a faite?” Si tost com li sires a commande que ses armes li soient aportees, et on l'en li aporte erranment, si l'arment tot maintenant bien et bel a tot le mielz qu'il onques poent. Et il s'en ist fors de la chambre et puis s'en vient en mi sa cort, et monte sor un cheval for et ysnel et de grant bonté. Quant il est toz appareilliez qu'il n'i faut fors dou ferir il demande: ou est li chevaliers qui ceste honte nos a faite ! 295! O excerto (vii) evidencia a técnica do resumo dos respectivos segmentos narrativos sublinhados. Trata-se, de novo, do desenvolvimento do tema relacionado com o combate a que o texto traduzido parece não dar a mesma ênfase que se encontra no texto de partida. (viii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.82/l.168- 169) ms. BNF, fr.99 (f.150r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.158r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §30/l.41 -43) 404 Carpentras (ed. Curtis, §735/l.10-12) ms. BNF, fr.750 (f.136r/col.I) O <…> a viver, quando os das amẽas viron seus [cava]leiros tan maltreitos por ũu soo Et li cris est grant de toutes pars et la huee merveilleuse Et li cris est grant de toutes pars et la huee merveilleuse, car cil qui sor les crencaux estoient quant il voient lors chevaliers Li cris est grans de toutes pars et la huee merveilleuse, car cil ki sour les cretiaus estoient, quant il voient lour chevaliers Li criz est granz de totes parz et la huiee merveilleuse, car cil qui sor les creniax estoient, quant il voient lor chevaliers Li criz est grant de totes parz et la huee trop merueillouse, quar cil qui de sur les murs estoient, quant il voient lor chevaliers Um outro exemplo de reformulação por síntese encontra-se na forma de identificar as personagens: “os das amẽas” corespondendo a “cil qui sor les crencaux estoient” (viii). 3.2 Reformulação por anáfora Os elementos gramaticais deícticos que realizam uma expressão anafórica são as formas pronominal e adverbial. (i) ! 296! LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.75/l.34) ms.BNF, fr.99 (f.144r/col.I) ms.BNF, fr.756 (f.151r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §1/l.30- 32) 404 Carpentras (ed. Curtis, §710/l.25-26) ms.BNF, fr.750 (f.128v/col.I) Et o ospede llo g r açiu muyto desy come n doo a deus Et le preudoms l'en mercie moult de ceste promesse et le comande a Nostre Sires Et li preudons le mercia moult de ceste promesse et le comande a Nostre Seigneur Et li preudom le merchie mout durement de cele proumesse. Atant le conmande a Nostre Signeur Et li preudons le mercie mout de ceste promesse, et le comande a Nostre Seignor, Et le preudom le mercie molt durement de cele promesse et le commande adonc a Nostre Seignor (ii)384 LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.83/l.177- 179) ms. BNF, fr.99 (f.150r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.158r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §31/l.15-19) 404 Carpentras (ed. Curtis, §735/l.27-30) ms. BNF, fr.750 (f.136r/col.II) Aly fora esta hũu caualeiro andante que el sóó em seu cabo fes esto mays pero tanto sofreu dafam et de traballo que non poderia ia ora durar contra uos la hors est maintenant venu I chevaliers errant qui par son corps tant seulement a ceste desconfiture faicte mais il est sans faille tant durement travailliez et si navres qu'il n'aura ja duree a vous la hors, est venu maintenant .I. chevaliers errant qui par son cors tant seulement a ceste desconfiture faite, mes il est sans faille tant durement travallies et si navres que il n'aura ja duree a vous la dehors est orendroit venus uns cevaliers errans ki par son cors tant seulement a ceste desconfiture faite. Mais il est sans faille tant durement navrés et si traveilliés k’il n’ara ja duree encontre vous la hors est mentenant venuz uns chevaliers erranz qui par son sors tant solement a ceste desconfiture faite. Mes il est sanz faille tant traveilliez et si tres durement navrez qu'il n'avra duree a vos la fors est orendroit venuz uns chevaliers erranz qui par son cors sol a ceste desconfiture faite. Mais il est sanz faille tant durement travailliez et si navrez qu'il n'aura ja cest point duree contre vos. (iii) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.83/l.181) ms. BNF, fr.99 (f.150r/col.I) ms. BNF, fr.756 (f.158r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §31/l.20 -21) 404 Carpentras (ed. Curtis, §736/l.1-2) ms. BNF, fr.750 (f.136r/col.II) !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 384 Sobre as situações de ausência de segmentos adverbiais, ver 1.3 Ausência por redução de grupo adverbial. ! 297! Quando o senor do castelo esto oyu non soubo que fezesse Et quant le Sire du chastel entent ceste parole il endement tous esbahis et auques en est espovente Quant li Sires del chastel entent ceste parole il en devient moult esbahis et auques en est espoventes Quant li sires entent ceste nouvele, il devient un poi esbahis et est auques espoentés Quant li sires dou chastel entent ceste parole, il en devient toz esbahiz et auques en est espoentez Quant li sires dou chastel entent ceste novele, il devient un poi esbahiz et est auques espoentez (iv) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.84/l.190- 191) ms. BNF, fr.99 (f.150r/col.II) ms. BNF, fr.756 (ff.158r/col.II -158v/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §32/l.8- 10) 404 Carpentras (ed. Curtis, §737/l.11-13) ms. BNF, fr.750 (f.136v/col.I) Et os das amẽas deron uozes a seu senor et disseronlle uedes aly o bom caualeiro uedelo ali Et quant ilz le voient venir ilz s'escrient tuit a une vois: Veez venir le bon chevalier Et quant il voient venir il s'escrient tuit a une vois: Vees ci venir le bon chevaliers! Vees ci venir le bon chevaliers! quant il le voient venir, il s’escrient tout conmun aument a une vois: “Veés chi le boin chevalier! Veés ci le boin cevalier!” et quant il le voient venir, il s'escrient tuit a une voiz: “Veez ci venir le bon chevalier! Veez ci venir le bon chevalier!” Quant il le voient venir, il s'escriont tuit a une voiz: Veez ici venir le bon chevalier! Veez ici venir le bon chevalier (v) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.76/l.59-60) ms.BNF, fr.99 (f.144r/col.II) ms. BNF fr.756 (f.151v/col.II ) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §3/l.11- 12) 404 Carprentras (ed. Curtis, §712/l.9-11) ms. BNF, fr750 (f.129r/col.I) ca nos disso hũu caualleiro non ha aynda iiijº dias que o viu y I chevaliers noz dist n'a mie encore IIII jours qu'il estoit en ce pais sans faille I chevaliers nous dist n'a mie encore IIII jours qu'il estoit en ceste pais sans faille Uns chevaliers nous dist, n’a mie encore .IIII. jours, k’il estoit en chest païs sans faille Uns chevaliers nos dist n'a encor mie quatre jorz qu'il estoit en cest païs sanz faille Un chevalier nos dist, n'a mie encore quatre iors, qu'il estoit en cest pais sanz faille (vi) LT (ed. Lorenzo ms.BNF, fr.99 ms. BNFfr. 2542 Viena (ed. Ménard, 404 Carprentras ms. BNFfr. ! 304! LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.79/l.109- 113) ms.BNF, fr.99 (ff.149r/col.I- 149r/col.II) ms.BNF fr.756 (f.157r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §27/l.8- 15) 404 Carpentras (ed. Curtis, §731/l.8-14) ms.BNF fr.750 (f.135r/col.I) viu preto da porta (a)vj tendas armadas muy fremosas et Ricas ademays il voit en un pre la davant asses pres de la porte en une grant arbre tenans jusques a (a)VI paveillons biaux et riches. il voit en I pre la devant le chastel asses pre de la montaigne et de la porte del chastel en uns grans arbres tendus jusques a (a)VI pavillons biaus et riches. il voit en un pré, la devant, auques pres de la porte, en une grant arbroie tendus dusc’a (a).VI. paveillons biaus et riches. il vit en une place la devant assez pres de la porte en une grant arbroie tendus dusqu'a (a)sis paveillons biax et riches. il voit en un pre, la devant, assez pres de la porte, en une grant arbroie dusqu'a (a).vj. paveillons tenduz biaus et riches. ! ! ! 305! LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.79/l.109- 113) ms.BNF, fr.99 (ff.149r/col.I- 149r/col.II) ms.BNF fr.756 (f.157r/col.I) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §27/l.8- 15) 404 Carpentras (ed. Curtis, §731/l.8-14) ms.BNF fr.750 (f.135r/col.I) Et ant e Cada hũa tenda estaua hũu Caualo emsselado et guisado (b)p er a subir hũu ome em ele Et sabede q ue era n todos (c)dũas sinaes (d)Quando lançarote uiu os Caualos et os escudos Delez chascun paveillon avoit un cheval tout enselle et tout appareillie (b)de monter et un escu tout nouvel. Et sachies que ly escus estoient (c)tuit d'une semblance et noir come meure, ne nulle autre descognoisse nce n'y avoit (d)Quant Lancelot voit les escus et les chevaux Deles chascun pavillonn avoit I cheval tout ensele et tot appareillie (b)de monter et I escu tot novel. Et sachies que li escu estoient (c)tous de une samblance et noir come meure ne nule autre desconoissan ce il ni avoit (d)Quant Lancelot voit les chevaus et les escus Delés cascun paveillon avoit un ceval tout enselé et tout apareillié (a)pour monter et un escu tout nouvel. Et sachiés que li escu estoient (c)tout d’une samblanche et noir comme meure (d)Quant Lanselos voit les cevaus tous apareilliés et les escus Delez chascun paveillon avoit un cheval tot enselé et tot apareillié (b)de monter, et un escu tot novel. Et sachiez que li escu estoient (c)tuit d'une semblance, et noir come meure, ne nule autre desconoissan ce il n'i avoit (d)Quant Lanceloz voit les chevax et les escuz Delez chascun des paveillons avoit un cheval tot ensele et tout apareillie (b)dou monter et un escu tot novel. Et sachiez que li escu estoient (c)tuit d'une samblance et d'une color et noir comme more (d)Quant Lancelot voit les escuz Eis um outro caso em que o texto de chegada se revela inovador em relação ao texto de partida, atestado pelos cinco testemunhos franceses em estudo, através de operações específicas do acto de tradução, que envolvem redistribuição dos componentes semânticos com repercussões no plano estilístico. Em primeiro lugar, atente-se na lição “armadas” (vi) (a), sem correspondente directo no texto francês. É importante procurar no texto os dados que possam explicar esta aparente singularidade da tradução peninsular. Assim, observámos que nesta sequência narrativa existem três ocorrências do lexema “tenda” 392, das quais na primeira se indica o quantificador adjectival “armadas” o que nos leva a pensar numa !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 392 “uiu preto da porta vj tendas armadas” p. 79/l. 109-110; “uiu os Caualoa et os escudos ante as tendas” p. 79/l. 13; “<...> de hua tenda et começoo a tanger” p. 80/l.122. Cf. Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit. Sublinhados nossos.! ! 306! variação linguística introduzida pelo tradutor com base no enlace dos elementos do discurso textual, o que faz de toda a construção “tendas armadas” uma variante discursiva. Contudo, no segmento (b), deparamo-nos com a ausência da referência ao escudo e com uma equivalência dinâmica do grupo de constituentes “guisado pera subir hũu ome em ele” correspondente de “tout apareillie de monter”. A estrutura do texto de chegada tem a particularidade de ser descritiva. As operações efectuadas na transferência de conteúdos semânticos dos segmentos (b) e (c) geram, em primeiro lugar, ausências nos dois, em segundo lugar, uma expressão sintética, nomeadamente em (c). Ou seja, apesar de retirar o equivalente do termo “escu” do segmento (b) o que, por consequência condiciona, logicamente, a ausência da descrição ulterior deste — “tout d’une samblanche et noir comme meure” — do segmento (c), regista-se uma antecipação no plano semântico pela construção “dũas sinaes” de (c). Resta indicar que a ausência de equivalente do vocábulo “escu” do segmento (b) poderia significar, para a economia do texto de chegada, uma redução de repetição, dado que este elemento se lê, também, no segmento (d) e que “dũas sinaes” de (c) devem ser “os cavalos” e “os escudos” mencionados em (d). 5. Conclusão A análise de LT permitiu-nos observar o mesmo conjunto de técnicas de tradução que detectámos em ST/TT e LM. As técnicas de tradução representam manifestações de transformação do texto intrínsecas do processo de tradução, técnicas que se concretizam com base no material linguístico. Assim, a ausência por redução afecta em LT, além do grupo nominal, verbal, adverbial e frase, que também são alvo deste procedimento de tradução em ST/TT e LM, a unidade do segmento narrativo, ou seja, uma quantidade mais significativa de texto se encontra resumida. De acordo com os exemplos, existem graus de probabilidade diferentes no que respeita aos factores que condicionam a ausência de equivalente no texto receptor. O denominador comum das passagens afectadas pela ausência é, em geral, o tema do combate ou pormenores relacionados com este. Este facto pode indicar que estes aspectos não tiveram interesse para o tradutor do texto galego-português ou, podemos também pôr a hipótese de o receptor deste texto, prioridade do tradutor, não se interessar por estes temas do romance em causa. ! 307! A técnica de amplificação parecer tornar o texto de destino mais específico e preciso em contextos em que o francês pode carecer destas características, contribuindo, assim, para uma expressão mais concisa do conteúdo original. Um outro argumento relevante consiste na opção por enfatizar um sentido diferente do que está presente no texto fonte ( por exemplo, “vencer”, e não “matar” como propósito do combate). No caso dos segmentos frásicos, o recurso à amplificatio justifica o uso de termos específicos aplicados ao contexto (“portagem”, “ospede”), termos privilegiados pela língua receptora e que necessitam de uma elaboração explicativa da circunstância dada. A utilização destas técnicas deve ter como objectivo a simplificação do texto de partida e, implicitamente, a economia do texto de chegada. Os recursos estilísticos de redundância (nominal, verbal, adverbial), evidenciando o fenómeno de reiteração de conteúdos, especícifos do texto de partida são alvo dos fenómenos de ausência, reformulação e modificação estrutural, pois estes não correspondem a uma escrita económica que se pretende realizar na tradução galegoportuguesa do romance arturiano. Assim, dispensa-se qualquer elemento que conduz à expansão do texto. As técnicas de ausência, reformulação e modificação estrutural evidenciam tanto a utilização da língua do texto receptor como a construção deste. O factor material é também importante considerar na economia do texto receptor. Havendo, provavelmente, como suporte físico um determinado tamanho de pergaminho, esta condicionante torna-se decisiva na quantidade de texto a ser redigido. 6. Algumas conclusões Se a qualidade da tradução e a sua eficiência se verificam, segundo Alexandru Gafton393, na capacidade de o tradutor encontrar na língua receptora a forma que exprima o mesmo conteúdo da língua original, a análise de ST/TT, LM e LT permitenos constatar que o(s) seu(s) tradutor(es) possui(em) esta qualidade e o receptor do texto resultante do processo de tradução tem acesso ao mesmo conteúdo que o do texto original, com a diferença de em galego-português este ser redigido de uma !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 393 Gafton, Alexandru (2005), op. cit., pp. 13-18. ! 308! forma sucinta. Contudo, é conveniente falar das semelhanças e das dissemelhanças entre a concretização desta forma sucinta nos textos arturianos galego-portugueses em análise. Dadas as características destes textos, foi possível distinguir atitudes diferentes na realização da sua tradução e perfis diferentes dos seus autores. Como referimos atrás, LT oferece, na porção de texto conservada, um texto mais redutor em relação à sua fonte do que ST/TT e LM face às suas fontes. É necessário entender em que consiste este carácter económico da narrativa tristaniana em galego-português em comparação com ST/TT e LM e em que é que se baseiam as medidas redaccionais. As razões para tal poderiam residir no tipo de texto a ser traduzido, por um lado, e, por outro, na atitude e no perfil do tradutor a efectuar a tarefa. Assim, o texto de ST/TT que aborda temas de teor religioso — a conversão ao cristianismo do Rei Evelac e as suas visões — ou de LM que trata da história do príncipe Anasten contada por Merlin à Donzela do Lago ou o desencantamento entre Galvan e Maroth por uma donzela, parece ter tido mais interesse para o tradutor e para o receptor por ter sido reproduzido de uma forma mais fiel no plano da forma e contéudo. Enquanto no caso de LT, que se centra, por um breve momento, na alegria de Iseu provocada pela notícia sobre Tristan e depois desenvolve as aventuras de Lancelot à procura do Cavaleiro da Saia Mal Talhada, observámos que o texto já não é revertido em galegoportuguês com a mesma fidelidade no plano da forma. Quanto ao passo referente à alegria da rainha Iseu, não pudemos verificar cortes, dada a quantidade diminuta de texto conservado. Mas as aventuras com carácter bélico conhecem um tratamento redutor na sua passagem para a língua receptora. Poderia residir, por conseguinte, no aspecto tématico a razão para o recurso às técnicas de redução e de síntese na forma de tradução desta porção de texto. No tocante ao perfil do tradutor, em primeiro lugar, é necessário fazer a referência à figura de Joam Vivas. O nome desta personagem aparece como o do tradutor em dois textos arturianos ibéricos. Referimo-nos à Estória do Santo Graal, também designada como Livro de José de Arimateia, transmitida no manuscrito quinhentista da Torre do Tombo e à versão castelhana da Demanda do Santo Graal394. Os dados históricos recolhidos por Ivo Castro395 e corroborados com a !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 394 Cf. Carter, Henry Hare (ed. 1967), op. cit., pp. 205 e 273; Bonilla y San Martín, Adolfo (ed. 1907), La Demanda del Sancto Grial, Nueva Biblioteca de Autores Españoles 6, Madrid, p. 181. 395!Castro, Ivo (1983), “Sobre a Data da Introdução na Península Ibérica do Ciclo Arturiano da Post- ! 309! referência ao nome Joam Vivas no corpo dos dois textos referidos, permitiram ao autor atribuir a tradução galego-portuguesa daquilo que o autor designa como ciclo da Pós Vulgata no seu todo ao “frade português Joam Vivas que viveu em meados do século XIII com raízes e família em Lisboa e com acesso à corte”396. Falando sobre os meios em que circulavam os textos arturianos depois da chegada ao território peninsular com a corte de D. Afonso III, José Carlos Miranda397 problematiza a possibilidade de Joam Vivas, tradutor assumido de pelo menos dois livros do romance arturiano através das referências metatextuais do Livro de José de Arimateia e da Demanda castelhana, já referidas398, e personagem religiosa pertencente a uma família que circulava na vassalidade daquele rei399, ser o incumbido da tradução integral dos “livros do Graal”. Ora, é nosso objectivo tentar perceber se a atribuição da tradução integral do romance arturiano a um único indivíduo, seja ele qual for, é também sustentada pelos dados linguísticos que foi possível extrair através da análise dos textos traduzidos em comparação com as fontes atestadas em vários testemunhos franceses. Chamamos a atenção aqui para o facto de que não se põe em causa necessariamente a autoria de Joam Vivas cuja historicidade é generalizadamente aceite, mas a atribuição da tradução na íntegra a esta figura histórica. Em primeiro lugar, assinalámos as características afins nos textos traduzidos e, em segundo lugar, as que os separam. O estudo individual dos textos peninsulares em comparação com a fonte francesa permitiu-nos detectar técnicas idênticas de tradução em ST/TT, LM e LT, tendo estes o denominador comum da contracção lexical, no caso das ausências por redução e reformulação, e a melhor explicitação do conteúdo original, no caso das amplificações. A característica comum dos textos traduzidos resultante do procedimento da ausência através da redução das formas de redundância é uma expressão textual menos pesada e económica. Em segundo lugar, como característica diferenciadora entre os textos galegoportugueses mencionamos o facto de ST/TT e LM, nas porções de texto conservadas, se manterem mais fiéis face ao original francês consultado do que se constatou em !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Vulgata”, Boletim de Filologia, XXVIII, 1, pp. 91-98. 396!Idem, p. 97.! 397 Miranda, José Carlos Ribeiro (1998), Conto de Perom, o Melhor Cavaleiro do Mundo, Porto, Granito, p. 18; Miranda, José Carlos Ribeiro (1996), “Como o Rei Artur e os Cavaleiros da sua Corte Demandaram o Reino de Portugal”, Colóquio-Letras, 142, pp. 83-102. 398 Supra, pp. 194-195. 399 Miranda, José Carlos Ribeiro (1998), op. cit., p. 18; Castro, Ivo (1983), op. cit.! ! 310! LT. Apesar de terem sido detectadas as mesmas técnicas de tradução em todos os textos, pelos factos evocados de ausência, de reformulação e de modificação estrutural, concluimos que, em LT, se realizou uma sistemática contracção não apenas de lexemas, mas também de segmentos mais compósitos, o que nos leva a delinear um perfil diferente do tradutor deste livro e/ou uma atitude diferente no acto de tradução do que se verificou em ST/TT e LM. Observámos, assim, que os diálogos são os pontos sensíveis em que LT se destaca dos restantes textos galegoportugueses. A forma como são reproduzidos, por exemplo, em LM os diálogos entre Maroth e Galvan400, revela uma preocupação propositada por parte do tradutor na atribuição das falas a cada personagem, de uma forma até excessiva em relação ao texto francês. Enquanto em LT, nos deparamos com uma redução de texto dialogal entre Lancelot e os dois companheiros, Queia e Brandeliz401 ou nas réplicas de Queia, também, ao dialogar com o cavaleiro da ponte depois de ter sido derrubado por este402. O texto resultante em LT não carece de informação, apenas de elementos de reforço contidos no texto francês. Contudo, por que razão teria o mesmo tradutor revertido integralmente os diálogos na tradução do Livro de Merlin e não do Livro de Tristan? Outra diferença é o conjunto de orações relativas que em LT são suprimidas403, enquanto em ST/TT, por exemplo, até se constituem em lições exclusivas destes testemunhos404. Ainda em relação ao carácter ecónomico da dimensão textual de LT, seria interessante referir o caso do hiatus narrativo detectado em ST405. Uma comparação entre os factores que condicionaram a redução total de um segmento narrativo em ST e os que determinaram a redução de detalhes narrativos em LT pode trazer apoio à ideia de economia textual no caso deste último. Como já dissemos, pelas características paleográficas e codicológicas realçase a hipótese de a ausência do respectivo segmento narrativo de ST ser uma medida redaccional baseada em aspectos de lógica diegética, ou seja, suprimir uma passagem que parece interromper o fio narrativo e não uma técnica de redução de uma narrativa !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 400 Ver 2.2 Casos de afinidade léxico-semântica entre LM/ms. de Cambridge, caso (iii) do estudo de colação referente ao Livro de Merlin. 401 Ver!1.5 Ausência por redução de segmento narrativo, exemplo (i).! 402 Ver 1.4 Ausência por redução de frase, exemplo (iii). 403 Ver 1.4 Ausência por redução de frase, exemplos (viii), (ix). 404 Ver 2.1 Amplificação de segmentos: varia, exemplo (i) do estudo de tradução referente à Estória do Santo Graal e 3.2 Leituras singulares de segmentos frásicos em ST/TT do estudo de colação referente ao mesmo. 405 Supra, pp. 110-112. ! ! 311! por condicionantes de ordem material, enquanto em LT se evidencia a técnica de abbreviatio semântica por razões de economia material e/ou por não existir interesse nos respectivos momentos narrativos quer por parte do tradutor, quer por parte do receptor. Em conclusão, o copista/redactor de ST deve ter considerado adiáfora a respectiva parte textual, enquanto o tradutor de LT valoriza a história, mas sem transferir todos os seus detalhes da fonte francesa. Com o estudo de elementos comuns nas fontes francesas com soluções divergentes nos textos resultantes do processo de tradução, de que nos vamos ocupar de seguida, será possível averiguar mais aprofundadamente a hipótese de estarmos perante mais do que um autor da tradução do romance arturiano. D. Estudo do léxico comum nos textos galego-portugueses O confronto sistemático entre os textos galego-portugueses e os respectivos correspondentes franceses revelou que os primeiros apresentam soluções diferentes de tradução para elementos idênticos nos textos de partida e/ou a mesma solução de tradução corresponde a elementos distinctos nos textos franceses. Assim, começaremos por analisar individualmente estas situações de tradução segundo critérios semânticos e estilísticos406 a fim de delinear o perfil do(s) tradutor(es). 1. “Deus” e expressões idiomáticas A tradução do nome da Divindade difere em função do uso singular da palavra ou em expressões idiomáticas onde o cariz religioso é acentuado. Sublinhamos, deste modo, as situações do uso singular em que deparamos com a mesma forma nos três textos peninsulares (“Deus”), apesar de nos correspondentes franceses se registarem formas distintas, como se pode ver na seguinte tabela: !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 406 Através dos critérios semânticos serão observadas as modificações no plano do conteúdo operadas no acto de tradução que pressupõem a utilização de lexemas com sentido genérico ou o sentido específico em função dos objectivos/preferências do tradutor e as redistribuições dos componentes semânticos. Em relação aos critérios estilísticos referimo-nos, em primeiro lugar, às modificações estruturais que podem conferir mais clareza, concisão ao texto de chegada e, em segundo lugar, ao uso de unidades lexicais com componentes semânticos concordantes que realçam a acção. ! 312! (i) ST/TT: 9 casos So Po ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau) ms. BNF, fr. 750 ms. BNF, fr. 99 LM: 5 casos 2542 Viena (ed. Ménard) LT: 1 caso 404 Carpentras (ed. Curtis) ms. BNF, fr. 756 Deus Jhesu Cris[t] Nostre Sire Dieu Dieux Diex Dieu Diex Dieu Dieu Nostre Sire Nostre Sire Dieu Damedieu - Dieu Diex Damedieu Dieu Dieu Dieux Dieu Dieu Dieux Nostre Seignor Nostre Sires Além da forma “Deus”, a expressão “Nosso Senhor” surge também noutras partes do texto que lemos, por exemplo, em TT como equivalência do nome da Divindade. A fórmula “Nosso Senhor” ocorre também na lírica profana galegoportuguesa407. As várias formas aí recolhidas, são indícios da possibilidade que a língua oferece para variar a respectiva tradução. Além disso, segundo a tradição hebraica, existe o hábito de substituir na leitura em voz alta o nome YHWH, traduzido por Yahve, Yave ou Yahveh por Adonay, com o significado “Senhor”. Assim, do ponto de vista da expressividade, a utilização do nome “Deus” supõe uma relação menos pessoal e menos directa do que a expressão “Nosso Senhor”, segundo consideram os especialistas da tradução do texto bíblico408. Ora, a equivalência do nome da Divindade, nos textos traduzidos, pela mesma forma, nas respectivas passagens, pode entender-se como uma preferência da parte do tradutor baseada nos póprios critérios de nomear o Divino. Partindo destas situações, é interessante examinar as expressões idiomáticas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 407 O TMILG regista várias ocorrências das fórmulas “Nostro Senhor” e “Senhor Deus” de que destacamos “Sennor, sennor, agora vi | de vus quant ’ eu senpre temi! | A ren do mundo que eu mais amava | e mais servia, nen mais desejava, | Nostro Senhor, quant ’ end ’ eu receava | ei! ei! ei!”; “Senhor Deus, que coita que ei | co coraçon! E que pesar” em Brea, Mercedes (coord.) (1996): Lírica profana galego-portuguesa. Corpus completo das cantigas medievais, con estudio biográfico, análise retórica e bibliográfica específica, vol. 2. Santiago de Compostela, Centro de Investigacións Lingüísticas e Literarias “Ramón Piñeiro”, pp. 993-1002. Sublinhado nosso. 408 Nida, Eugene A. / Taber, Charles R. (1986), op. cit., pp. 45-46. ! 313! com acentuado cariz religioso, de forma que delimite os modos de tradução (“correspondencia formal” ou “equivalencia dinámica”409). Temos, assim, em análise as seguintes expressões: “par/por Deus”, “por boa fe”, “Se Deus me ajude”, “No nume de Deus”, “Uos veeredes, a boa fe”, “se Deus me ualla”, “se Deus quiser” a que correspondem formas diferentes nos textos franceses comparados. Em primeiro lugar, observamos a expressão “par Deus” correspondendo a várias fórmulas francesas: “por Dieu” / “pour l’amour del haut Signour ”; “Par foy”, “se Dieu m’aït”, “Par foi”; “por/pour Dieu”, “En non Dieu”. (ii) ST (f.1v/col.II/l.31- 32) TT (p.165/l.35-37) So (p.85/l.13) Po (§289/l.11-12) por Deus | [...]guntar que he Ca ey hyrmão por Deos vos rogo que vos lhe vades pergumtar que he que grã sabor hey deho saber por Dieu leues sus et li ales demander que il a car volentiers le sauroie. Et je vous pri et requier pour l'amour del haut Signour, a la qui creanche vous vous estes dounés [...] (iii) LM ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau) a) Par Deus. Non sey disse Maroth (p.153/l.43) Par foy, je ne sçay. –Ne je autressi, fait le Morholt (§494/l.8-9) b) Par Deus. Non sey disse Galuam (p.153/l.44-45) –Ne sçay, fait il, se Dieu m’aït (§494/l.10) c) par Deus disse Galuan isto semelha dyabrya (p.156/l.92-93) –Par foi, fait messire Gauvain, ce me ressemble deablerie (§496/l.27-28) ! (iv) LT ms. BNF, fr. 750 2542 Viena (ed. Ménard) 404 Carpentras (ed. Curtis) ms. BNF, fr. 756 ms. BNF, fr. 99 a) Ay por Deus disse o padre el he ũu Caualeiro muy meniño (p.74/l.29-30) Ha! por Dieu, sire, ce est uns joeunes chevalier (f.128v/col.I ) Ha! Pour Dieu, sire, fait li peres, ce est uns jovenes cevaliers (vol.I, Ha! sire, por Dieu, fait li peres, c'est uns joenes chevaliers (§710/l.18- 19) Ha! pour Dieu, sire, fet li peres c'est I jeunes chevaliers (f.151r/col.II) Ha! pour Dieu, Sire, fait le pere, c'est un jeunes chevaliers (f.144r/col.I) !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 409 Correspondência formal (palavra por palavra). Equivalência dinâmica pressupõe um afastamento no plano da forma em relação ao original e a adaptação no plano semântico aos contextos culturais e/ou aos meios linguísticos do texto de destino. Cf. Nida, Eugene A. / Taber, Charles R. (1986), op. cit. ! 320! LM (pp.153/l.51-154/l.52) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau, §494/l.25- 32) Enton disse Maroth Donzela bẽeto seia quen uos encantamentoo Ora <...> dizede disse ela sabedes quen uos encantou – Damoiselle, font ilz, benoicte soit l’eure que vous venistes ça et benoit soit Dieux qui ceste part vous amena, car nous sommez de mort eschappez par uostre venue. Et cil qui vous aprist enchantemens, benoit soit il, car il nous a tant valu a cest afaire que nous ne le pourrions contrepeser. – Certes, fait elle, ce m’est bel, mes or me dictes: savés vous par cui vous avés ainsi esté enchantés? (ix) LT (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.80/l.120) ms. BNF, fr. 750 (f.135r/col.II) 2542 Viena (ed. Ménard, vol.I, §27/l.26D28)! 404 Carpentras (ed. Curtis, §731/l.24-25) ms. BNF, fr. 756 (f.157r/col.II) ms. BNF, fr. 99 (f.149r/col.II) No nume de deus disso o escudeyro Benoiez soit Diex, qui l'onor m'en volt consontir a avoir et qui la motroia!En non Dieu, fait li vallez Beneois soit Nostres Sires, ki l’ounour m’en vaut otroiier! –En non Dieu, ce dist li vallés Beneoiz soit Diex qui l'onor m'en vos otroier.” “En non Dieu, danz chevaliers, fait li vallez Benoit soit Diex qui l'onnor m'en volt octroier! En non Dieu, dant chevaliers, fet li vallet Benoit soit Dieux qui l'onneur m'en veult octroier! En nom Dieu, dant chevaleirs, fait le vaslet Dado o tratamento diferente no plano semântico e estilístico destas soluções de tradução, é possível ponderar a hipótese de estarmos perante perfis diferentes dos responsáveis pela tradução dos textos. LT não mantém, por um lado, os elementos estilísticos do texto de partida (ix), e, por outro, apresenta desenvolvimentos lexicais independentes do texto de partida (vii b). LM mostra-se mais fiel ao seu texto de partida mantendo os núcleos semânticos (vii) a); (viii). 2. Formas de tratamento social: “don”, “senor”, “dona”, “donzela”, “molher” O exame dos textos peninsulares revela mais um caso de tradução divergente que merece uma especial atenção. Sendo esta uma literatura de feição cavaleiresca, as formas de tratamento são lexemas muito recorrentes na expressão das personagens. Trata-se das formas “don”, “señor”, cujos correspondentes nos textos de partida são “messire”, “monseigneur”, “sire”, “seigneur”, “dant”, e das formas femininas “dona”, “donzela”, “molher” com os correspondentes franceses “dame”, “damoisele” e ! 321! “femme”412. Os três textos analisados — ST/TT, LM, LT — apresentam um tratamento diferente relativamente às soluções de tradução dos lexemas referidos. Vamos ocupar-nos de seguida dos contextos em que estas diferenças ocorrem e das bases semânticas e estilísticas das mesmas. 2.1 “don” / “senor” // “monseigneur” / “sire” / “seigneur” / “dant” Assinalamos um caso particular de tradução ocorrido em ST/TT. Apesar de ST não ser legível em algumas porções de texto devido ao estado danificado do material, dispomos, para os nossos objectivos, do texto contido em TT, dado que os dois testemunhos transmitem, no fundo, o arquétipo da tradução galego-portuguesa da Estoire del Saint Graal413. Assim sendo, observamos em TT duas situações em que o lexema “el-rrey” corresponde, no texto de partida representado por duas versões, (So e Po), às formas “mon signor” e “ses sires”. A utilização deste título honorífico neste contexto linguístico pode reflectir a relação paradigmática desenvolvida na sociedade medieval, ou seja, uma relação de suserania. Os exemplos destacados mostram que o texto de chegada neutraliza esta relação pela opção “el-rrey” como equivalente das expressões “mon signor” e “ses sires”. (i) ST TT So Po (a) Er[…]ã[…] [...] ey [...] | disse ermo[…] aquele [...] e por Deus | [….]guntar (f.1v/col.II/l.30-32) irmão eu ey grão medo daquele cuydar del rrey hyrmão por Deos vos rogo que vos lhe vades pergumtar (p.165/l.34-36) biaus dous freres iou me dout mout de mon signor quil ne soit cheus en maluaise pensee por Dieu leues sus et li ales demander (p.85/l.11-13) et si li conta l'aventure de son signour, des larmes et des souspirs ke li avoit la nuit jetés “Biaus dous frere, dist ele, pour che criem jou qu'il ne soit cheüs en mauvais pensé. Et je vous pri et requier pour l'amour del haut Signour, a la qui creanche vous vous estes dounés, ke !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 412 É notável, do ponto de vista gráfico, a variabilidade que se verifica nas formas de tratamento: “don” / “dom”, “senor” / “senhor”; “mesire” / “messire”; “monseigneur”; “seigneur” / “seignor” / “signeur” / “signor” / “signour”; “sire”; “feme” / “femme”; “damoisele” / “damoiselle”. 413 Ver Ailenii, S. (2009), “O arquétipo da tradução galego-portuguesa da Estoire del Saint Graal à luz de um testemunho recente”. Seminário Medieval de Literatura, Pensamento e Sociedade 2007-2008, coord. Maria do Rosário Ferreira, José Carlos Miranda e Ana Sofia Laranjinha. Disponível em: http://seminariomedieval.com/ineditos.html (Guarecer on-line) e posteriormente publicado em Revista Galega de Filoloxía, nº 10, 2009, pp. 11-38. ! 322! vous alés a lui et si li demandés (§289/l.8- 12) (b) [...] […] […] […] | mo [...] […] […] el[…] […] | (f.1v/col.II/l.24-25) e a rraynha cuy[d]ou por que el-rrey asy cuydara (p.165/l.29-30) et la roine fu moult esbahie de ce que ses sires estoit en si grant pense (p.85/l.7-8) Et la roïne, qui bien l'avoit veü pensieu et courechié toute nuit, si fu mout espoentee et ne seut comment ele peüst esploitier vers lui tant k'ele seüst son pensé (§289/l.1-3) (ii) ST TT So Po (a) Certas […] elrrey (f.2r/col.II/l.14) Serto, dyse el Rey (p.175/l.17) Certes, dist li rois (p.93/l.32) Chertes, sire, dist li rois (§321/l.1) (b) [...] (f.2r/col.II/l.16) Bem, el Rey dise que era bom nome. Senhor, dise el rey, (p.175/l.19-20) Et li rois li dist quil auoit moult haut non. Puis li dist: Sire (p.93/l.35-36) Et li rois respondi ke mout avoit haut non et haut mestier et si dist: Sire (§321/l.3-4) Em relação a esta solução de tradução, não deixa de ter interesse determo-nos sobre algumas razões que poderiam ter conduzido à neutralização do valor semântico no texto de chegada. Em primeiro lugar, chamamos a atenção para as razões de teor teológico, e em segundo lugar, para as linguísticas. A Estória do Santo Graal é um livro em que predominam temas com uma forte mensagem religiosa: o percurso espiritual dos protagonistas, a evangelização do Oriente e do Ocidente, os milagres e as visões maravilhosas em que são envolvidas as figuras romanescas 414 . Não é nosso propósito considerar estes temas, mas pretendemos evidenciar de que maneira a recepção socio-cultural deste romance, no espaço peninsular, poderia ter condicionado do ponto de vista léxico-semântico a tradução do lexema “seigneur” e a forma do caso sujeito “sire” quando referem outras entidades que não Deus. Assim, observamos casos no texto de partida em que o título honorífico é recorrente na fórmula referente à Divindade (“Nostre Signour”, “Nostre Sires”), ao rei (“mon signor”, “ses sires”) e na função apelativa (“Sire, dist li rois”), !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 414 Cf. Miranda, José Carlos Ribeiro (1998a), A Demanda do Santo Graal e o Ciclo Arturiano da Vulgata, Porto, Granito, pp. 92-108; Correia, Isabel Sofia Calvário (2004), “O Graal no Livro de José de Arimateia, versão Portuguesa da Estoire del Saint Graal”, Espéculo. Revista de estudios literarios, Universidad Complutense de Madrid. Disponível em http://www.ucm.es/info/especulo/numero26/graal.html. ! 323! enquanto no texto de chegada observamos uma distribuição restrita do correspondente deste. Poderia levantar-se, porém, uma pergunta quanto à tradução da fórmula “Nostre Senhor” ou “Nostre Sires” no texto de chegada. Como acima sublinhámos (1. exemplo (i)), na porção de texto conservado em ST, a construção “Nostre Signour” ou “Nostre Sires” corresponde sistematicamente ao nome “Deus” nas ocorrências assinaladas, mas, o exame atento de TT, um testemunho integral da tradução galego-portuguesa da Estoire del Saint Graal, permite-nos verificar que o resto do texto traduz “Nostre Seignour” ou “Nostre Sires” pelo correspondente formal “Nosso Senhor”415. Assim, as ocorrências “mon signor” e “ses sires”, como acima se destacou, encontram o equivalente “el-rey” no texto de chegada. A forma “sire” ocorre uma vez com a sua função apelativa no diálogo entre “hũu homẽ” e o rei Mordão, numa das visões que este experimenta, correspondendo ao lexema “senhor”. Note-se, ainda, que existe uma outra ocorrência, com a mesma função, sem qualquer equivalente no texto de partida (“Certas [...] el-rrey” (ST) / “Serto, dyse el Rey” (TT)), que se situando, assim, de acordo com So (“Certes, dist li rois”) em oposição a Po, o único a registar, neste caso, o termo “sire” (“Chertes, sire, dist li rois”). Este caso, em contrapartida, diz respeito a questões de filiação entre os testemunhos de que tratamos na terceira parte desta dissertação. Notamos, deste modo, que o texto de chegada mantém “senhor” como o equivalente de “sire” apenas na função apelativa. Este uso restrito revela, assim, a língua como o espaço em que se reflecte qualquer comportamento ideológico. As razões linguísticas que poderiam explicar esta utilização restrita do equivalente “senhor” relacionam-se com as preferências lexicais do tradutor na identificação das personagens. Recorre-se à terminologia social em vez de às formas honoríficas na designação das personagens. Nesta perspectiva, não deixa de ter interesse ponderar um outro factor que poderia ter determinado a opção ou a preferência de traduzir “mon seignour” ou “mes sires” por “el-rrey” e não pelo correspondente formal “senhor”. Trata-se da linguagem de amor alternativa trovadoresca. Sendo muito provável que o tradutor tenha sido um conhecedor da produção literária coeva, não nos surpreenderia detectar aqui uma forma de evitar a recepção de uma ambiguidade semântica desenvolvida pela lírica medieval. Ou seja, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 415 Carter, Henry Hare (ed. 1967), The Portuguese Book of Joseph of Arimathea, Chapel Hill, The University of North Carolina Press, p.. ! 324! o lexema “senhor” pode designar a figura amada, masculina ou feminina416. À luz deste conhecimento, poderia ter cumprido o tradutor as exigências socio-linguísticas do seu texto, optando pelo termo “el-rrey” com um âmbito semântico mais restrito do que “senhor” neste contexto, pois “o rei” também é “senhor”, mas nem todos “os senhores” são “reis”. Por outro lado, é pertinente tomar em conta ainda um factor linguístico: TT é um testemunho tardio realizado no século XVI que, sabemos pelo Corregedor Manuel Álvares417, contém actualizações de vocábulos. Assim, apesar de nos parecer pouco provável, as situações em que “el-rey” corresponde aos contextos franceses “mon seignour” ou “mes sires”, poderiam significar, de facto, uma actualização de um potencial “senhor” constante da sua fonte perdida e impossível de ler em ST, o testemunho mais próximo cronologicamente do arquétipo peninsular da Estória do Santo Graal. Este dado poderia invalidar, teoricamente, as hipóteses anteriormente avançadas através da operação linguística assumida pelo Corregedor na cópia quinhentista. Na prática, todavia, as hipóteses avançadas permanecem justificadas dado que é impossível ter em ST uma prova contrária. Em resumo, o leque das hipóteses quanto à equivalência das fórmulas “Nostre Seignour”, “Nostre Sires”, “mon seignour”, “ses sires” no texto de chegada é vasto e digno da nossa atenção. Neutralizar um valor semântico, restringir ou preferir uma área léxico-semântica são opções da parte do tradutor. Os factores que condicionam as diferenças têm, assim, carácter delimitador. Prosseguiremos com a análise da tradução das formas de tratamento em LM e LT. Ao contrário do que se constatou em ST, estes dois textos revelam, em primeiro lugar, um uso recorrente de títulos nobiliárquicos na identificação das personagens e, em segundo lugar, uma particularidade estilística no que à tradução destes diz respeito. A utilização variada destas formas de tratamento prende-se, claramente, com o tipo de texto contido em LM e LT e, implicitamente, com o estatuto das respectivas figuras narrativas. Observamos, assim, a utilização das seguintes formas de tratamento em LM e !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 416 Sobre este assunto, ver Oliveira, António Resende (1994), Depois do Espectáculo Trovadoresco. A estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV, Lisboa, Edições Colibri; Miranda, José Carlos Ribeiro (2004), Aurs mesclatz ab argen. Sobre a primeira geração de trovadores galego-portugueses, Porto, Edições Guarecer. 417 “nõ mudei senã vocabulos inẽteligiueis, que hos que se podem ẽtender na antiguidade daquelle tempo os leixei hir”. Cf. Carter, Henry Hare (ed. 1967), p. 76. ! 325! LT: “don” equivalente de “messire”, “monseigneur” e “senor” correspondente de “seigneur”, “sire”. Chamamos a atenção de seguida para um aspecto estilístico da tradução. Trata-se da ausência em LM, com uma única excepção relativa a uma passgem pouco legível no manuscrito, de qualquer equivalente para as formas de tratamento “messire” e “monseigneur”, acompanhando os nomes próprios “Yvain”, “Gauvain”, “Morholt” (iii) e “seigneur” e “sire” (iv), numa função apelativa, do texto de partida. (iii) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau) a) Ca yuan con quen ela ffal<...>ra aquel dya (p.152/l.33-34) car messire Yvain, auquel elle avoit le jour mesmes parlé (§493/l.12-13) b) Ay Deus disse Maroth que ffassen ala suso ben o podedes uéér disse Galuam (p.156/l.97- 98) – Ha! Dieux, fait le Morholt, de quoi servent elles lasus? – Or le poués veoir, fait messire Gauvain (§496/l.40-41) c) E Galuan lhy preguntou que pensauam (p.156/l.99) et messire Gauvain lui demande qu’il pense (§496/l.43) d) E verdade. e disse Galuam (p.157/l.109) – Est ce voir? fait messire Gauvain (§496/l.60) e) onde auẽo este desamor antre uos e Maroth (p.153/l.35) dont est ceste grant haine venue qui est entre vous et monseigneur le Morholt? (§493/l.16- 18) (iv) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau) a) Se Deus me aiude disse a donzela (p.153/l.49) – Par mon chief, seigneurs, fait la damoiselle (§494/l.22) b) Non uéédes as marauilhas que aca suso esta pena. donas moran y fremosas (p.156/l.89-90) Avés vous veu, sire, merveilles, qu’il a lassus ou sommet de celle roche damoiselles manans belles et coinctes? (§496/l.24-25) Parcialmente legível, o caso de excepção merece a nossa atenção: “do<...> Galuam onde auẽo este desamor antre uos e Maroth” 418 correspondente de “Monseigneur Gauvain, dont est ceste grant haine venue qui est entre vous et monseigneur le Morholt”. (v) LM (ed. Lorenzo Gradín/Souto Cabo, p.153/l.42-43) ms. BNF, fr. 112 (ed. Roussineau, §494/l.6- 8) E Maroth disse Sire, fait le Morholt, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 418 Cf. Lorenzo Gradín, Pilar / Souto Cabo, J. António (eds. 2001), op. cit., p. 153/l.35. [Document text truncated for crawler view.]