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Inovação gerencial e inovação social: pensando para além da inovação tecnológica

Lopes, Daniel Paulino Teixeira,Vieira, Naldeir Dos Santos,Barbosa, Allan Claudius Queiroz,Parente, Cristina

Abstract

O objetivo deste artigo teórico consiste em discutir os avanços mais recentes nos estudos sobre inovação gerencial e inovação social, na busca dos aspectos convergentes e divergentes entre as temáticas. Para alcançar esse objetivo, apresenta-se um panorama teórico, tanto da inovação gerencial, quanto da inovação social, e propõe-se um framework para analisá-las. A temática da inovação gerencial será discutida com base nos trabalhos de Damanpour (1991), Lam (2005), Birkinshaw, Hamel e Mol (2008), Pitsis, Simpson e Dehlin (2012), Volberda, Van den Bosch e Heij (2013), Damanpour (2014), entre outros autores. Serão consideradas perspectivas tanto da criação, quanto da adoção de novas estruturas organizacionais, novos processos de gestão e novas práticas gerenciais. Por sua vez, a inovação social será discutida com base em Mulgan (2006), Pol e Ville (2009), Bignetti (2011), Ezponda e Malillos (2011), Moulaert, MacCallum e Hillier (2013), Defourny e Nyssens (2013), Klein (2013), Parente, Marcos e Diogo (2014) e outros autores. A análise seguirá uma perspectiva ampla, buscando entender a inovação social como resposta dos atores sociais a aspirações, necessidades, problemas ou oportunidades que se reflitam nas relações sociais. As reflexões finais indicam diferenças substanciais nas matrizes teórico-conceituais, nos aspectos ligados aos processos de geração e difusão e nos resultados da inovação gerencial e da inovação social. Ao mesmo tempo, é possível identificar a relevância da tecnologia para ambos os casos. A contribuição do artigo consiste em enxergar a inovação para além da tecnologia, com base em uma discussão sobre o estado da arte nos campos da inovação gerencial e inovação social e nas aproximações e distanciamentos entre ambos.

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1 INOVAÇÃO GERENCIAL E INOVAÇÃO SOCIAL: PENSANDO PARA ALÉM DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA DANIEL PAULINO TEIXEIRA LOPES UFMG, CEPEAD & CEFET-MG, DCSA, Brasil [email protected] NALDEIR DOS SANTOS VIEIRA UFMG, CEPEAD & UFVJM, DEPAD, Brasil [email protected] ALLAN CLAUDIUS QUEIROZ BARBOSA UFMG, CEPEAD, Brasil alla[email protected]r CRISTINA PARENTE FLUP, DS, Portugal [email protected] RESUMO O objetivo deste artigo teórico consiste em discutir os avanços mais recentes nos estudos sobre inovação gerencial e inovação social, na busca dos aspectos convergentes e divergentes entre as temáticas. Para alcançar esse objetivo, apresenta-se um panorama teórico, tanto da inovação gerencial, quanto da inovação social, e propõe-se um framework para analisá-las. A temática da inovação gerencial será discutida com base nos trabalhos de Damanpour (1991), Lam (2005), Birkinshaw, Hamel e Mol (2008), Pitsis, Simpson e Dehlin (2012), Volberda, Van den Bosch e Heij (2013), Damanpour (2014), entre outros autores. Serão consideradas perspectivas tanto da criação, quanto da adoção de novas estruturas organizacionais, novos processos de gestão e novas práticas gerenciais. Por sua vez, a inovação social será discutida com base em Mulgan (2006), Pol e Ville (2009), Bignetti (2011), Ezponda e Malillos (2011), Moulaert, MacCallum e Hillier (2013), Defourny e Nyssens (2013), Klein (2013), Parente, Marcos e Diogo (2014) e outros autores. A análise seguirá uma perspectiva ampla, buscando entender a inovação social como resposta dos atores sociais a aspirações, necessidades, problemas ou oportunidades que se reflitam nas relações sociais. As reflexões finais indicam diferenças substanciais nas matrizes teórico-conceituais, nos aspectos ligados aos processos de geração e difusão e nos resultados da inovação gerencial e da inovação social. Ao mesmo tempo, é possível identificar a relevância da tecnologia para ambos os casos. A contribuição do artigo consiste em enxergar a inovação para além da tecnologia, com base em uma discussão sobre o “estado da arte” nos campos da inovação gerencial e inovação social e nas aproximações e distanciamentos entre ambos. 1. INTRODUÇÃO Ao colocar como tema principal a “inovação para além da tecnologia”, o XVI Congresso da Associação Latino-Iberoamericana de Gestão de Tecnologia (ALTEC) abre novas possibilidades de discutir os mais recentes avanços teóricos e empíricos no campo da inovação. Nessa perspectiva, é necessário reconhecer a contribuição da inovação na contemporaneidade, tanto como um fenômeno social mais geral (Mulgan, 2007; Franz, Hochgerner e Howaldt, 2012; 2 Pol e Ville, 2009), quanto como mecanismo essencial ao desenvolvimento econômico (Baumol, 2004; Freeman e Perez, 1988; Schumpeter, 1988; Tigre, 2006). Em termos teóricos, os primeiros avanços para se compreender a inovação remontam à literatura no campo da Economia. Com sua significação inicial dada nos anos 1930 por Schumpeter (1988), o construto inovação tem forte conotação à obtenção de valor econômico, vindo posteriormente a resultar em diversas significações com a contribuição de uma diversidade de autores. Desse modo, foi em meados do século XX que os estudos em inovação (“innovation studies”) constituíram-se como campo de pesquisa, a partir da realização de trabalhos que objetivavam gerar conhecimento confiável e sistemático sobre como influenciar a inovação e explorar plenamente seus efeitos (Fargerberg et al., 2013). Ao longo dos últimos 50 anos, foram realizados diversos projetos acadêmicos e governamentais com foco em ciência, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e inovação, cujos resultados impactaram a formulação de políticas públicas e o desenvolvimento dos negócios (Fargerberg et al., 2013). Em termos práticos, análises realizadas por instituições como OECD (2013), UNU-MERIT (2014), IBGE (2013) e Panteia/RSM (2013) indicam não somente os progressos que países e organizações têm realizado no campo da inovação, mas também os desafios a serem enfrentados nessa jornada. Em busca de respostas aos desafios, pesquisas recentes têm sido realizadas na tentativa de compreender, de maneira mais adequada, a inovação como um tópico de interesse e os resultados dessas pesquisas se refletem em novas publicações, tais como Dodgson et al. (2014), Fagerberg (2013), Franz et al. (2012), Macaulay et al. (2012) e Pitsis, Simpson e Dehlin (2012). Porém, ainda que esse campo de pesquisa seja caracterizado pela multidisciplinaridade, tradicionalmente o entendimento da inovação esteve fortemente relacionado à inovação tecnológica. Em termos conceituais, a inovação tecnológica pode ser entendida como aquela que “envolve o desenvolvimento situacionalmente novo e a introdução de ferramentas, artefatos e dispositivos derivados do conhecimento, pelos quais pessoas expandem e interagem com seu ambiente” (Tornatzky e Fleischer, 1990, p. 11). Para ser considerada “tecnológica”, uma inovação deve ser baseada em tecnologia ou ser facilitada pela tecnologia, e possui o resultado comercial como critério para avaliar o seu sucesso (Burgelman et al., 2009). A literatura reconhece que os aspectos sociais (em conjunto com os aspectos físicos) são inerentes, em graus variados, às inovações tecnológicas (Tornatzky e Fleischer, 1990). Além disso, estudos clássicos mostram que inovações de quaisquer tipos podem ser vistas como um processo de mudança social universal e que toda inovação traz implicações sociais, diretas ou indiretas, previstas ou não previstas, positivas e negativas (Rogers, 2003). Apesar disso, é possível afirmar que nem toda a inovação tecnológica é também inovação social, como será discutido mais à frente. O que se pretende neste artigo é ir além dessas visões, entendendo que há inovações que trazem os aspectos sociais para o centro do debate (ainda que envolvam tecnologia). Nesse sentido, para “pensar a inovação para além da tecnologia”, é importante recuperar a visão interdisciplinar proposta por Fargerberg et al. (2013), buscando realmente a ligação, combinação e integração de diferentes disciplinas. Assim, novos conceitos vêm ganhando notoriedade nos ambientes acadêmico e empresarial, como os conceitos de inovação gerencial e de inovação social (Bignetti, 2011; Lopes e Barbosa, 2014). Conforme será observado ao longo do trabalho, a inovação gerencial diz respeito à criação ou adoção de novas estruturas organizacionais, novos processos de gestão e novas práticas gerenciais para melhorar a performance organizacional. Por sua vez, a inovação social possui como dimensão chave as respostas encontradas para resolver problemas ou necessidades de pessoas vulneráveis, indo ao encontro às suas aspirações e aproveitando oportunidades, que se refletem em alterações a qualidade de vida e das relações sociais. 3 À primeira vista, é possível perceber que inovação gerencial e inovação social possuem como aspectos comuns alterações no sistema social, respectivamente, das próprias organizações e da sociedade. Sendo que ambas possuem como enfoque diretos alterações no sistema social, procuramos perceber até que ponto é possível encontrar aproximações entre as concepções teórico-conceituais da inovação gerencial e da inovação social? Como diferenciar os objetos, os objetivos e outros aspectos dessas inovações? Como analisá-las diante de diferentes raízes epistemológicas e construtos nem sempre convergentes? Em busca de respostas a essas questões, o objetivo deste artigo consiste em discutir os avanços mais recentes nos estudos sobre inovação gerencial e inovação social, na busca dos aspectos convergentes e divergentes dessas temáticas. Ao propor esse objetivo, o artigo busca contribuir para enxergar a inovação para além da tecnologia, com base em uma discussão sobre o “estado da arte” nos campos da inovação gerencial e inovação social e nas aproximações e distanciamentos entre esses campos. O artigo está estruturado da seguinte forma: as duas seções seguintes trazem um panorama teórico identificando as principais conceituações, frameworks de análise e evidências recentes das pesquisas, respectivamente, para a inovação gerencial e para a inovação social. Na quarta seção, serão discutidos os aspectos convergentes e divergentes das duas temáticas e será proposto um quadro integrador para analisar ambas as inovações. Na quinta seção, serão apresentadas as reflexões finais a respeito da contribuição do artigo e oportunidades de pesquisa nesse campo de estudos. 2. INOVAÇÃO GERENCIAL Cada vez mais a literatura vem chamando a atenção para a importância de inovações que extrapolam os limites da tecnologia, como nos casos da inovação social e da inovação gerencial, a qual será discuta nesta seção. Ainda que autores clássicos não utilizassem o termo inovações gerenciais, mudanças referentes a elas podem ser identificadas nos registros de Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx (Baumol, 2004; Tigre, 2006), a partir da constatação de alterações importantes na organização da produção e na maquinaria, introdução da divisão do trabalho, dentre outras. Nessa perspectiva, mudanças que não fossem estritamente tecnológicas nos produtos ou processos, ou aquelas desvinculadas da dinâmica dos mercados e seus mecanismos de regulação, sinalizavam para o que se entende como inovação gerencial. A essência de uma inovação gerencial está relacionada a novas formas de gestão e organização, muito embora a literatura ainda não tenha encontrado consenso acerca da própria terminologia utilizada – o termo em voga atualmente é management innovation 1 , que pode ser traduzido como inovação gerencial. As pesquisas que abordam esse tipo de inovação ainda deixam lacunas (Volberda, Van den Bosch e Heij, 2013) e, por isso, torna-se importante clarear as matrizes teóricas, o conceito e suas principais dimensões de análise, os processos de geração e difusão, bem como as consequências da inovação. No debate teórico, diversos trabalhos têm buscado construir explicações sobre inovações que modificam a organização e a gestão. Lam (2005), por exemplo, considera três abordagens: teorias de estrutura e design organizacional, com forte presença da teoria contingencial e da economia industrial; teorias de cognição e aprendizagem organizacional, que enfatizam questões no nível micro relacionadas ao processo de inovação; e teorias de mudança 1 Muitos autores consideram inovação gerencial e organizacional como sinônimos. Neste artigo, será adotado o termo inovação gerencial porque o conceito de inovação organizacional pode ser percebido de modo mais abrangente, relacionado à criação ou adoção de uma ideia ou comportamento que é novo para as organizações, como nas visões de Wolfe (1994), Damanpour (1991), Lam (2005), Damanpour e Schneider (2006) e Crossan e Apaydin (2010). Sob esse ponto de vista, qualquer tipo de inovação que ocorre dentro de uma organização pode ser considerada como inovação organizacional – inclusive a inovação gerencial. 4 e adaptação organizacional, que abrangem os processos subjacentes à mudança nos formatos organizacionais. Outros autores apresentam abordagens distintas, embora à primeira vista complementares. Birkinshaw et al. (2008) identificam as perspectivas institucional, dos modismos (fashion), cultural e racional. Já Damanpour (2014) analisa as abordagens racional - incluindo teorias da aprendizagem, da visão da firma baseada em recursos e das capacidades dinâmicas - e dos modismos, incluindo a teoria institucional. No âmbito de cada abordagem teórica, são encontradas diferentes explicações para a inovação gerencial, seus determinantes, atributos, processo de geração e difusão, grau de novidade, entre outros aspectos. Isso pode gerar dificuldades na investigação desse tema, bem como evidências inconclusivas – como a relação entre inovação gerencial e inovação tecnológica (Damanpour, 2014). Além disso, enquanto que os estudos sobre criação estão preocupados com a rapidez e a eficácia do desenvolvimento de uma inovação gerencial, os estudos sobre difusão estão preocupados com a velocidade da disseminação do ponto de vista do provedor da inovação (Damanpour, 2014). Já os estudos sobre adoção focalizam a assimilação e avaliação da resposta ao problema, na visão do usuário/organização (Damanpour, 2014). O fato é que inovação gerencial não é um fenômeno homogêneo e deve ser analisado de forma distinta dos demais tipos de inovação. A diversidade de pontos de vista, associada a lacunas nos conceitos, podem resultar em dificuldades na “conversa” tão necessária entre os estudiosos desse tema. A diversidade teórica acaba se refletindo em múltiplas definições, como fica evidente no Quadro 1, que consolida, cronologicamente, conceitos de inovação gerencial recorrentes na literatura. Nota-se que os autores apresentam visões distintas, muitas vezes sinalizando para questões relacionadas à geração de uma novidade propriamente dita – nova para o estado da arte da gestão – ou adoção de alguma inovação desenvolvida por outra organização. Além disso, nota-se em algumas definições que a inovação gerencial tem como objetivo a melhoria do desempenho organizacional. Independentemente de sua originalidade e outros enfoques trabalhados por cada um dos autores referenciados no quadro, o fato é que a inovação gerencial diz respeito ao sistema social da organização (Damanpour e Evan, 1984) e pode ser desdobrada conceitualmente, em sua maioria, em torno das seguintes dimensões de análise: atividades e práticas gerenciais; estruturas organizacionais e processos de gestão. Inovar nas atividades e práticas gerenciais está relacionado a significativas mudanças nas “diferentes facetas de regras e rotinas pelas quais o trabalho é realizado dentro de organizações” (Birkinshaw et al., 2008, p. 828). Inovações nas estruturas organizacionais são aquelas que influenciam, modificam e trazem melhorias em responsabilidades, accountability (ou responsabilização), linhas de comando, fluxos de informação, número de níveis hierárquicos e divisão de funções (Armbruster et al., 2008). Na vertente dos processos de gestão, a inovação pode abranger processos como planejamento estratégico, orçamentação, gestão da remuneração, comunicação interna, gestão do conhecimento, entre outros (Hamel, 2007). Nota-se que não se incluem processos ligados à operação do negócio, como compras, manufatura, marketing, atendimento de pedidos ou serviço ao cliente. 5 Quadro 1 – Conceitos de inovação gerencial AUTORES DEFINIÇÃO Daft (1978, p. 197) “políticas de recrutamento, alocação de recursos, estruturação de tarefas, autoridade e recompensas”. Teece (1980, p. 464) “Melhorias nas técnicas administrativas e na organização da atividade econômica”. Kimberly (1981, p. 640) “Qualquer programa, produto ou técnica que representa um descolamento significativo do estado da arte da gestão no momento em que aparece pela primeira vez e que afeta a natureza, local, qualidade ou quantidade de informação que está disponível no processo de tomada de decisão”. Damanpour e Evan (1984) São inovações no sistema social da organização (pessoas e ambiente) e podem incluir mudanças em regras, papéis, procedimentos e estruturas. Damanpour (1991) São aquelas que mudam a estrutura organizacional de uma organização ou seus processos administrativos. Chandler (1997, p. 48) “novos métodos e meios de coordenar, avaliar e planejar a efetiva utilização de uma ampla variedade de recursos humanos, financeiros e materiais”. Alänge, Jacobsson e Jarnehammar (1998) “Inovações em práticas de gestão, inovações em processos administrativos ou inovações na estrutura organizacional formal”. Nickell et al. (2001, p. 6; 10) “inovações na forma da firma organizar e operar seus negócios [... que] podem consistir em redução de práticas restritivas aos empregados, introdução de uma nova tecnologia, transformações na estrutura organizacional em direção a uma estrutura mais enxuta, aumento na descentralização, adoção de novas práticas de gestão de recursos humanos, mudanças nas relações industriais e iniciação de novas práticas de Just in Time”. Mikl-Horke (2004, p. 104; 106) “novas teorias e técnicas de gestão [...] podem ser princípios, práticas, desenhos organizacionais, teorias de liderança, ou mesmo concepções quasi-filosóficas como o recente princípio Seis-Sigma”. Hamel (2007, p. 19) “qualquer coisa que altera substancialmente a forma pela qual o trabalho da gestão [princípios e práticas] é executado ou que modifica significativamente formas organizacionais costumeiras [estrutura e função]”. Birkinshaw, Hamel e Mol (2008, p. 825) “invenção e implementação de uma prática, processo, estrutura ou técnica de gestão nova para o estado da arte e intencionada ao avanço de objetivos organizacionais”. Mol e Birkinshaw (2009, p. 1) “Introdução de novas práticas de gestão que são novas para a firma e que têm a intenção de melhorar o seu desempenho”. Damanpour e Aravind (2011, p. 429) “Novas abordagens em conhecimentos para desempenhar o trabalho da gestão e novos processos que produzem mudanças na estratégia, estrutura, processos administrativos e sistemas da organização”. Vaccaro et al. (2012) Implementação de uma prática, processo ou estrutura de gestão que é nova para a organização adotante. Volberda et al. (2013, p. 1) “mudar o formato, práticas e processos organizacionais de uma firma de uma maneira que é nova para a firma e/ou a indústria, e resulta em alavancagem da base de conhecimento da firma e de sua performance em termos de inovação, produtividade e competitividade”. Damanpour (2014, p. 1269) “desenvolvimento e utilização de novas abordagens para realizar o trabalho da gestão, nova estratégia e estrutura organizacional, e novos processos que produzem mudanças nos procedimentos de gestão da organização e nos sistemas administrativos”. Fonte: elaborado a partir de revisão de literatura. Esses conceitos se referem a inovação gerencial, inovação administrativa e inovação organizacional, em linha com a discussão deste artigo. Compreendidas as diferentes dimensões de análise da inovação gerencial, é importante clarificar as diferenças nas formas de geração e difusão da inovação gerencial. Na perspectiva da geração ou criação (e não de difusão), Birkinshaw et al. (2008) propõem um processo envolvendo agentes de mudança internos e externos interagindo nos contextos organizacional e ambiental. Segundo os autores, o processo ocorre em quatro grandes fases distintas, cada uma com atividades não sequenciais e subprodutos, conforme ilustrado na Figura 1. 6 Figura 1 – Modelo de inovação gerencial Fonte: Birkinshaw et al. (2008, p. 832). A Figura 1 mostra que a criação segue um processo não linear devido à complexidade, recursividade e caráter cíclico da inovação gerencial. Descrevendo o modelo de modo breve, observa-se, na primeira fase de motivação, o surgimento de fatores facilitadores e as circunstâncias que levam os indivíduos a considerarem o desenvolvimento da própria inovação gerencial. Na segunda fase, invenção, ocorre o ato inicial de experimentação, do qual uma nova prática de gestão emerge como nova ideia ou prática hipotética. A implementação, fase seguinte, é o processo de estabelecimento dos valores na realidade – em um ambiente real ou de laboratório. Finalmente, na última fase, teorização e rotulagem, ocorre um processo social pelo qual pessoas de dentro e de fora da organização validam a inovação gerencial, legitimando- a. É interessante observar que Birkinshaw et al. (2008) não consideram a difusão como uma etapa do processo de inovação gerencial: o fundamental é a criação – embora isso seja relativamente raro (Hamel, 2007). Na perspectiva da difusão, ou seja, da inovação gerencial como algo novo apenas para a organização adotante (e não para o estado da arte), o processo envolve as fases de iniciação, decisão de adoção e implementação – esta última a fase mais lenta (Damanpour, 2014). Numa linha mais prática, o Manual de Oslo (OCDE, 2005) propõe as etapas de planejamento, desenvolvimento e implementação de métodos organizacionais considerados novos para uma empresa. Segundo Damanpour (2014), o maior desafio da inovação gerencial é a adaptação e assimilação bem sucedidas, o que torna o processo de adoção lento em comparação com inovações tecnológicas. Dessa maneira, a forma como a organização adota uma inovação gerencial depende muito do fenômeno da difusão 2 desse tipo de inovação. 2 O problema da difusão de modismos gerenciais é abordado por Abrahamson (1991), que propõe um quadro de análise para explicar a difusão de inovações ineficientes e a rejeição de inovações tecnicamente eficientes. Abrahamson (1991) aponta a influência de organizações de dentro e de fora de um determinado grupo, além de consultorias e escolas de negócios, mídia, livros sobre negócios e governo. O autor enfatiza também a influência dos interesses comerciais dos atores envolvidos e a imitação na difusão de inovações gerenciais. Contexto organizacional Ações dos agentes de mudança internos Ações dos agentes de mudança externos 1. Novo problema 5. Novas ameaças ou oportunidades 6. Nova ideia 2. Nova prática hipotética 3. Nova prática “in vivo” 4. Nova prática teorizada (em contexto) 8. Prática teorizada (fora do contexto imediato) 7. Experimento pensado “in vitro” Motivação Invenção Implementação Teorização e rotulagem Contexto ambiental Definição de agenda Busca direcionada pelo problema Tentativa e erro Experimentação reflexiva Vinculação da ideia Teste da ideia Vinculação da teoria Contextualização da ideia Refinamento da ideia Teorização reflexiva 7 Finalmente, autores como Birkinshaw et al. (2008), Volberda et al. (2013) e Damanpour (2014) identificam uma série de desafios para as pesquisas sobre inovação gerencial. É comum aos autores a necessidade de se compreender as consequências da inovação gerencial sobre o desempenho da firma – lucratividade, produtividade, crescimento, eficiência e eficácia dos processos, vantagem competitiva sustentável, entre outras – uma vez que tais consequências são complexas e afetam de modo diferente os stakeholders (Birkinshaw et al., 2008). Segundo Damanpour (2014), diversos estudos apontam que a contribuição desse tipo de inovação para o desempenho depende da adoção de múltiplas inovações, interdependentes e síncronas. Por outro lado, é preciso pensar também nas consequências soft para os diversos aspectos identificados por Volberda et al. (2013): capacidades dinâmicas, rotatividade, satisfação de clientes, impacto ambiental, motivação, satisfação de empregados e outros stakeholders, participação, felicidade e saúde. A análise das consequências da inovação pode oferecer pistas sobre possíveis aproximações entre inovações gerenciais e sociais. Para isso, será importante compreender as características da inovação social. 3. INOVAÇÃO SOCIAL Reforçado pelas falhas e inconsistências do modelo de crescimento neoliberal que se alargou a todo o mundo desde 1980 (Klein, 2013), e pelas novas abordagens sobre o processo inovativo, os estudos sobre os impactos da inovação na melhoria da qualidade de vida adquiriu maior relevo na última metade do século XX, tendo em vista o estímulo ao desenvolvimento social. Como resultado, o termo “inovação social” começa a fazer parte das agendas governamentais e de alguns pesquisadores/grupos de pesquisa, multiplicando-se hoje as abordagens à temática. Bignetti (2011) atribui a emergência da temática ao surgimento de cursos e programas de pesquisa como no caso os das universidades de Stanford, Harvard e Brown nos Estados Unidos, do Centre de Recherche sur les Innovations Sociales (CRISES) no Canadá, do The Business School for the World (INSEAD) na França, da Universidade de Cambridge na Inglaterra, e, de iniciativas como o projeto Emerging User Demands for Sustainable Solutions (EMUDE), o Consumer Citzenship Network, o Creative Communities for Sustainable Lifestyles e o Inovation and Social Entrepreneurship in Social Services (ISESS), na Europa. Por sua vez, Parente, Marcos e Diogo (2014) destacam o pioneirismo da organização norte-americana Ashoka, fundada por Bill Drayton em 1980, marcando a introdução do conceito de inovação no contexto da intervenção social. A iniciativa buscava distinguir e apoiar empreendedores que revolucionavam os “padrões de produção” da área social, no sentido schumpeteriano, resultando em mudança social sistêmica. Destacam também outras experiências norte-americanas, como a Echoing Green (1987) e a Skoll Foundation (1999), e europeias, como a Schwab Foundation (1998), que também passaram a reconhecer os indivíduos que se destacavam no desenvolvimento de novas e melhores formas de responder aos problemas ou necessidades sociais, financiando e desenvolvendo as redes de suporte a estas atividades. Como marco inicial dos estudos sobre inovação social, o estudo de Taylor (1970), que buscou analisar a dinâmica do desenvolvimento comunitário em Topeka, Kansas, Estados Unidos, é o mais citado nos estudos subsequentes. No entanto, Moulaert, MacCallum e Hillier (2013) acreditam que o termo tenha sido cunhado no continente Europeu durante as revoltas sociais do final dos anos 1960. Os autores ainda citam o uso do termo invenção social por Weber (1947 [1920]) e por Coleman (1970), usado por este último para descrever novas formas de relações e organizações sociais. Outro termo adotado, “mudança social”, que teve grande inserção no meio acadêmico, foi também utilizado por Drucker (1987) e por Mumford (2002). O uso do termo também foi identificado durante o movimento dos trabalhadores (entre 1960 e início de 1970) em Paris, Berlim e outros países europeus e cidades americanas, ao ser 8 adotado para descrever diferentes tipos de ações coletivas e transformações sociais, alterando o modelo de economia top down para bottom up com o envolvimento de todos os segmentos da população (Moulaert, MacCallum e Hillier, 2013). No entanto, a emergência da temática como campo de estudos, na visão de Defourny e Nyssens (2013) deu-se com o trabalho pioneiro de Chambon et al. (1982) “Les Innovations Sociales” publicado na França. Estudos canadenses, no ano de 1997, quando foi realizada uma investigação pelo Conselho da Ciência e Tecnologia criado pelo Governo de Quebec também são considerados como pioneiros. Estes últimos, no ano de 2000, resultaram em um informe final intitulado Innovation sociale et innovation technologique: l’apport de la recherche en sciences sociales et humaines (Ezponda e Malillos, 2011). Neste relatório, inovação social é definida como todas as novas práticas, abordagens ou intervenções, ou ainda todos os novos produtos desenvolvidos para melhorar uma situação ou solucionar um problema social que se estabeleceu no âmbito das instituições, das organizações e das comunidades (CST, 2000). O novo conceito tem como aspecto distintivo as “novas formas de fazer as coisas com o fim explícito de rearranjar os papéis sociais ou de dar outras respostas para situações sociais insatisfatórias e problemáticas” (Rodrigues, 2007, p. 118). O foco de análise são as ações que objetivam satisfazer as necessidades humanas ainda não supridas pelos sistemas públicos ou organizacionais privados. Como exemplos, são citadas as cooperativas da Economia Social de Quebec, no Canadá, por envolverem a participação dos usuários na implantação de inovações baseadas nos princípios de ajuda mútua, autogestão e participação coletiva. Ainda no Canadá, foi publicado, no ano de 2003, um segundo documento mais detalhado escrito por Julie Cloutier, do grupo CRISES, também considerado como um clássico dos estudos sobre inovação social. Em 2004, destaca-se o informe “Social Innovation in Canada - How the non-profit sector serves Canadians... and how it can serve them better” escrito por Goldenberg que se interessava pelos processos de inovação que surgem da sociedade civil ao nível comunitário. Em sua visão, a inovação social provém do setor não lucrativo por sua ênfase no atendimento de demandas coletivas. Foi esta distinção entre inovação social e inovação empresarial afirmada dois anos depois pela Young Foundation na Grã Bretanha por meio de Mulgan (2007) e que também é adotada pelo National Endowment for Science Technology and Arts (NESTA britânico) que publica inúmeros estudos sobre inovação social, cultural e artística desde 2006 (Ezponda e Malillos, 2011). Ao tratar a inovação social de forma específica, os estudos citados foram fundamentais no apoio teórico ao desenvolvimento de ações governamentais e de instituições voltadas para o desenvolvimento social. Como pode ser observado em Ezponda e Malillos (2011), o documento da Young Foundation influenciou a estratégia política de Tony Blair que criou o Gabinet Office of the Thirth Sector promotor do Social Enterprise Action Plan em 2006. Do mesmo modo, os estudos de Goldenberg (2004) também influenciaram alguns países europeus, como no caso da Suécia que, por meio da Fundación Vinnova, realizou um estudo minucioso sobre as políticas canadense de inovação, adotando-as como exemplo. Destacam-se ainda as ações do presidente Obama nos EUA que criou, em 2009, o Office of Social Innovation en la Casa Branca gestora do Social Innovation Fund e os programas políticos promovidos pela Austrália e Nova Zelândia para promover a inovação social. Enquanto campo de análise, Frazão, Carvalho e Carlos (2015) propõem que um processo ou resultado deve atender a dois requisitos para ser considerado uma inovação social. O primeiro é a sua novidade, por mais que as inovações não precisem, necessariamente, ser única ou original. No entanto ela deve ser percebida como nova para o usuário, o contexto ou a aplicação. De tal modo, ela não precisa necessariamente de ser nova em si, mas nova para o território, setor ou área de intervenção. O segundo critério é a melhoria, ao ser mais eficaz ou mais eficiente do que as alternativas preexistentes. 9 Tais inovações podem ser consideradas como sociais tanto nos seus meios quanto nos seus fins. Tratam-se de “novas ideias (produtos, serviços e modelos) que simultaneamente vão ao encontro de necessidades sociais (de forma mais eficaz que as alternativas) e criam novas relações sociais ou colaborações” (Mulgan, 2010, p. 56). Ao mesmo tempo em que impactam positivamente na sociedade, aumentam a capacidade de atuação desta mesma sociedade. No entanto, dos estudos analisados, observam-se duas principais vertentes para a definição de inovação social. Autores como Mulgan (2007), Pol e Ville (2009), e Ezponda e Malilos (2011) centram-se na finalidade da inovação. O que qualifica uma inovação como social é o seu fim ou objetivo, sendo este a resolução de problemas coletivos, perdendo centralidade o modo que ela foi desenvolvida e os agentes que a conceberam. Nesta perspectiva, há uma concentração em modelos e programas com impacto social e que foram replicados ou possuem potencial de replicabilidade em outros contextos. Já autores como Klein (2013) e Moulaert, MacCallum e Hillier (2013) usam o construto para se referirem, principalmente, a processos de inovação, que além do seu objetivo social, tem origem nas atividades desenvolvidas em redes colaborativas. Neste sentido, inicialmente, as noções de inovação social estão associadas às ações da sociedade civil ou do chamado terceiro setor, porém posteriormente foram incorporadas iniciativas oriundas do setor público e também de algumas empresas mercantis. Apesar das diferentes abordagens, de modo geral, acredita-se atualmente que os três setores podem gerar inovação social, principalmente quando colaboram entre si (Ezponda e Malillos, 2011). “As inovações que começam num sector podem ser assumidas por outros, e com frequência as inovações mais excitantes ocorrem nas fronteiras entre sectores” (Mulgan, 2010, p. 59). Além da importância da parceria entre o setor público (the State, por meio de políticas e de modelos de serviços), o setor privado (the market, como nos exemplos das finanças éticas, da responsabilidade social das empresas e de novos negócios colaborativos) e o terceiro setor (the grant economy) para a inovação social, Mulgan (2010) também dá ênfase ao papel crítico da família (the household) na criação de movimentos sociais como o slow food e os em prol dos direitos dos portadores de necessidades especiais. Com efeito, da perspectiva de Mulgan (2007; 2010), raramente as inovações sociais são apenas top down ou bottom up. É reforçada a necessidade de parceria entre pequenas organizações, grupos e indivíduos, pela elevada criatividade, mobilidade e rapidez e grandes organizações como o governo, empresas e organizações sem fins lucrativos de grande porte, que apesar de serem menos criativas têm elevada capacidade para implementação, resiliência, sustentação e escala para fazerem as coisas acontecerem. Analogamente, as primeiras são comparadas às abelhas e as segundas às árvores em um processo de polinização. Para ser social, a nova ideia implícita à inovação deve ter o potencial de melhorar a qualidade ou a quantidade de vida da população beneficiada. Muda-se o foco da garantia de qualidade de vida para indivíduos isolados, para a qualidade de vida para coletividades. Neste âmbito, a “macro-qualidade” de vida pode ser caracterizada como o conjunto de opções valiosas que um grupo de pessoas tem a oportunidade de selecionar. Em geral, os determinantes da qualidade de vida a nível agregado incluem os seguintes elementos, não necessariamente em ordem de importância: bem-estar material, oportunidades de educação (incluindo a qualidade do ensino e práticas de aprendizagem), domínio da saúde, segurança no trabalho, vida familiar, a vida da comunidade, meio ambiente (clima e geografia), a liberdade política, a estabilidade política e de segurança e, a igualdade de gênero (Pol e Ville, 2009). No que diz respeito ao conceito, em uma análise de 109 documentos, identificados por meio de busca em importantes revistas e banco de dados como o Google Scholar e ISI Web of 16 DIMENSÃO DE ANÁLISE INOVAÇÃO GERENCIAL INOVAÇÃO SOCIAL singularidades convergências singularidades  soft: capacidades dinâmicas, rotatividade, satisfação de clientes, impacto ambiental, motivação, satisfação de empregados e outros stakeholders, participação, felicidade e saúde.  Melhoria de direitos de acesso e inclusão política.  Abandono da ideia ou da prática  Resulta em outra onda de inovação  Esgotamento com a resolução de um determinado problema. Métodos de pesquisa  Surveys comparativos internacionais em larga escala em empresas (mensuração diferenciada em relação aos surveys inovação tecnológica).  Pluralismo de métodos  Diferentes níveis de análise e abstração  Análises diferenciadas para geração, difusão e adoção.  Pesquisa longitudinal  Estudos de casos em profundidade  Ênfase nas pesquisas longitudinais e em estudos de casos em profundidade compreendendo o contexto do seu desenvolvimento ao evitar a sua replicação etnocêntrica, mas facilitando a ressonância das experiências bem-sucedidas. Gaps na literatura  Ausência de: integração teórica, tipologia estabelecida, processos e atributos claros.  Dificuldade de se pesquisar (a criação é um fenômeno raro).  Esclarecimento da relação entre inovação gerencial e tecnológica.  Esclarecimento da relação entre inovação gerencial e desempenho organizacional.  Análise dos resultados de múltiplas inovações, interdependentes e síncronas.  Melhor delineamento e definição de fronteiras conceituais.  Análise dos recursos favoráveis à inovação.  Avaliação das condições ambientais que favorecem a sustentabilidade e difusão da inovação social.  Compreensão das políticas que encorajem a reflexão sobre novas formas de alinhar interesses e atores diversos.  Identificação dos caminhos mais adequados para a otimização de recursos.  Compreensão das características da inovação social que podem favorecer a sua difusão. Fonte: elaborado pelos autores a partir de revisão de literatura. 5. REFLEXÕES FINAIS De forma geral, a discussão ora apresentada mostra que, de fato, há um vasto campo de pesquisa sendo desenvolvido em torno das inovações que possuem aspectos sociais como seu eixo central. Os trabalhos dos estudiosos da inovação gerencial e da inovação social têm avançado na tentativa de superar as lacunas nesses campos de pesquisa, no entanto, ainda são muitos os aspectos a serem compreendidos. Em termos teóricos, a contribuição do artigo consiste em visualizar a inovação para além da tecnologia, com base em uma discussão sobre o “estado da arte” nos campos da inovação gerencial e inovação social e nas aproximações e distanciamentos entre esses campos. De fato, múltiplas matrizes teórico-conceituais são utilizadas na literatura sobre ambos os temas e foi possível encontrar algumas convergentes, como a teoria institucional e dos modismos. Porém, nota-se uma dispersão teórica que, ainda que represente pluralidade, dificulta o consenso sobre as conclusões e, consequentemente, o avanço das pesquisas. Essa dispersão acaba se refletindo em uma multiplicidade de conceitos, para ambos os casos. Com relação aos aspectos tecnológicos, é possível constatar que a tecnologia permanece como um recurso relevante na composição dos conceitos de inovação gerencial e inovação social. A inovação tecnológica pode ser vista, por exemplo, como requisito, como fator facilitador ou como promotor das inovações gerenciais e sociais. Ao mesmo tempo, ambas 17 podem estimular a criação de novas tecnologias que permitam inovar nos aspectos sociais, seja no interior das organizações, seja na sociedade de modo geral. À primeira vista, inovação tecnológica, inovação gerencial e inovação social podem ser entendidas como processos distintos na sua base, pois intervêm em áreas distintas, mas apresentam confluências de áreas de atuação, de processos e de resultados. A inovação gerencial, por exemplo, pode dar ênfase aos esforços gerenciais apoiados por tecnologias da informação que resultam em novas estruturas e relações sociais, alterando as práticas organizacionais. Por outro lado, a inovação social impõe uma reflexão sobre os objetivos a que se prestam a inovação tecnológica, tendo em vista os impactos resultantes de sua implementação. Torna-se necessário, contudo, aprofundar essa discussão e obter evidências empíricas a respeito das relações entre a tecnologia e as inovações gerenciais e sociais. Por mais que as teorias permitam a observação de etapas sobre os processos de inovação gerencial e inovação social, é necessário avançar também no entendimento sobre as etapas destes processos, sobretudo, para se compreender os fatores que atuam como propulsores ou restritivos à inovação. Entender as especificidades de cada processo torna-se necessário diante das diferenças substanciais nos aspectos ligados aos processos de geração e difusão, nos atributos das inovações e nos resultados por elas alcançados. O impacto de diferentes inovações pode variar significativamente em função de suas características e do próprio contexto. É importante destacar que toda inovação pode gerar impactos positivos e negativos, dependendo dos resultados e dos pontos de vista considerados. Nesse aspecto, é possível constatar diferenças importantes entre metas e objetivos de inovações gerenciais e de inovações sociais. Isso pode sinalizar, por exemplo, para a necessidade de que o conceito de inovação gerencial vá além dos objetivos organizacionais hard e incorpore de modo prioritário e definitivo os objetivos soft (por exemplo, ligados à melhoria das condições de trabalho), inclusive objetivos de interesse de stakeholders externos. Tal quadro leva a novos questionamentos que merecem estudos em profundidade, como os apresentados a seguir: com a ampliação do controle social e do número de stakeholders envolvidos na definição dos processos de gestão, caminhamos para inovações gerenciais com características convergentes com os critérios definidores da inovação social? Ou seja, em que momento uma inovação gerencial deixa de sê-lo para se tornar uma inovação social? Da mesma forma, quando uma determinada inovação tecnológica deixa de sê-lo para se tornar uma inovação social? Ou seriam, na maioria das vezes, tais construtos compatíveis? Afinal, por exemplo, há inovação tecnológica que também pode ser considerada ao mesmo tempo inovação social e vice-versa. A convergência em determinados aspectos metodológicos pode representar um bom sinal para buscar essa compatibilidade, na medida em que passa a ser viável empreender esforços conjuntos de pesquisa, pelo menos para inovações gerenciais e sociais. Espera-se que a discussão deste artigo possa estimular futuras pesquisas a esclarecer sobre as temáticas aqui tratadas, sobretudo sobre relações concretas oriundas de dados empíricos sobre os diferentes tipos de inovação: tecnológica, gerencial e social. Todas elas, cada uma à sua maneira, são relevantes a ponto de já estarem na pauta dos eventos acadêmicos, empresariais, governamentais e da sociedade civil. O desafio consiste em articular as discussões entre os diferentes especialistas, de modo a complementar diferentes pontos de vista, segundo critérios de análise comuns. 18 REFERÊNCIAS Abrahamson, E. 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