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AGRADECIMENTOS À Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, por estes extraordinários seis anos da minha vida. Ao Sr. Inácio Pinto Rosário, pela disponibilidade e partilha documental. À Professora Ana Minnaert, pela amizade e ajuda. Ao meu orientador Professor Doutor Luís Sebastião da Costa Viegas, pelo saber partilhado e permanente apoio. Aos meus amigos, pela motivação e companheirismo. À Maria João, pela constante compreensão e apoio. Aos meus pais e irmã, por tudo.
RESUMO A ruína do Sanatório Albergaria localizada em Cabeço de Montachique instituise como objeto de estudo desta dissertação. Antes da caracterização do contexto onde se insere, procuramos entender a sua importância para a localidade, de forma a desenvolver o projeto de transformação da ruína de Cabeço de Montachique. Esta dissertação, organizada em três capítulos interligados e divididos em subcapítulos, corresponde à exposição de uma linha de pensamento estruturada e contínua. Deste modo, num primeiro momento, apresenta-se o enquadramento e contexto histórico da ruína no espaço e no tempo. No que respeita à arquitetura imposta pela ruína Sanatório Albergaria, iremos apresentar uma breve descrição da arquitetura produzida pelo seu arquiteto, Rosendo Carvalheira, integrada numa visão mais alargada da produção de uma arquitetura dita “Antituberculose”. Caracterizada a “história” que a ruína do Sanatório Albergaria transporta, e salvaguardando a sua importância, procuramos, num segundo momento, desenvolver uma reflexão sobre a ruína, paisagem e memória, e entender as diferentes estratégias de abordagem de uma ruína. Estas diferentes formas de encarar a ruína levantam uma série de inquietações teóricas que antecipam o terceiro momento, o desenvolvimento do projeto. Neste terceiro e último momento apresentamos a proposta de intervenção desenvolvida como principal objeto desta dissertação. A descrição do projeto divide-se com base nas três fases da própria evolução, acompanhadas por desenhos e maquetas de trabalho.
RESUMO 1. INTRODUÇÃO 7 2. CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR 13 Cabeço de Montachique 19 3. FILANTROPIA E ARQUITETURA 27 4. ARQUITETO ROSENDO CARVALHEIRA 37 5. A ARQUITETURA ANTITUBERCULOSE 47 A realidade portuguesa 55 6. SANATÓRIO ALBERGARIA 61 A ruína 67 7. RUÍNA | PAISAGEM | MEMÓRIA 71 Ruína inventada 79 Na ruína 81 Ao lado da ruína 83 8. REFLEXÃO SOBRE O LUGAR E RUÍNA 85 9. CASO PRÁTICO 89 Lugar 91 Inquietações 93 Tema 97 Estratégia 99 Projeto 103 10. CONSIDERAÇÕES FINAIS 137 FONTES BIBLIOGRÁFICAS 143 CRÉDITOS DE IMAGENS 149 ANEXOS 153 SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO
| 9 O tema da presente dissertação centra-se na realização de um projeto que visa a recuperação da ruína do Sanatório Albergaria, localizada no Cabeço de Montachique, em Loures. Da autoria do arquiteto Rosendo Carvalheira (1863-1919), a ruína do Sanatório Albergaria corresponde a um gigantesco complexo para o tratamento e recuperação de doentes com tuberculose. Este complexo, como o seu nome indica, enquadrava-se numa grande área temática da filantropia: a luta contra uma das piores epidemias da viragem do século, a tuberculose. Apesar de ter sido um projeto tão emblemático no início do século XX, pelas razões acima referidas, a construção do Sanatório Albergaria nunca chegou a ser finalizada e encontra-se ao abandono desde então. A escolha do referido objeto de trabalho para a elaboração desta dissertação devese ao interesse disciplinar pela ruína (como inacabado) e pelo estímulo da recuperação, assim como pela história que este sanatório arrastou consigo e, particularmente, pela exemplaridade do seu grande autor, o arquiteto Rosendo Carvalheira. Pretende-se, assim, dar solução a uma ruína que corresponde ao abandono da construção do Sanatório Albergaria, transportando para os dias de hoje a memória de um dos mais conceituados arquitetos do fim do século XIX e início do século XX, em Portugal. O principal objetivo deste trabalho é o da realização de uma proposta de intervenção que “dê vida” às ruínas do Sanatório Albergaria, potenciando o que o caracteriza e divulgando a sua existência. O projeto realizado teve como base a compreensão e análise dos dados e factos relevantes de uma pesquisa acerca da história do Sanatório Albergaria e do seu arquiteto, bem como o estudo sobre a região onde se insere a respetiva construção. Antes de refletirmos sobre a intervenção na ruína procurámos estudar algumas obras e arquitetos que envolvessem reflexões e soluções sobre as dicotomias velho/novo e existente/proposto. Iniciou-se, assim, uma pesquisa tanto ao projeto do Sanatório Albergaria como à vida e obra do arquiteto Rosendo Carvalheira. Esta pesquisa caracterizou-se por uma análise dos factos, para dar a conhecer de uma forma objetiva a realidade do 1. INTRODUÇÃO
Planta de acessos e centros urbanos próximos à ruína do Sanatório Albergaria. Legenda: Cabeço de Montachique Loures Lisboa Mafra Vias rápidas 002|
| 17 toestrada (A8, representada a vermelho na figura 002). No entanto, o seu desenvolvimento urbano não acompanhou estas prerrogativas. Trata-se de um território com características “de ar” únicas, dando razão de ser à localização da ruína do Sanatório Albergaria: onde a paisagem se perde no horizonte, entre colinas e pequenos vales. Dado o modelo e intensidade do desenvolvimento urbano, estamos perante uma região onde o “verde” toma conta da paisagem, imperando o silêncio e a calma. Com recurso à figura 003, é percetível a grande área verde e, consequentemente, a (destacada a “branco”) a área urbanizada. Esta área verde divide-se entre zonas “naturais”, sem ou com pouca intervenção humana e a campos de cultivo e parques de lazer. É possível observar que Cabeço de Montachique, apesar da proximidade à capital portuguesa, se encontra deslocado da grande mancha “cinzenta” que a urbanização periférica criou. Estamos perante um território remoto à realidade urbana, rodeado por pequenos povoamentos, como as freguesias de Lousa, Bucelas e Fanhões, encontrando-se o centro urbano mais próximo a oito quilómetros de distância, a cidade de Loures. Todos estes pontos ficam ainda mais distantes devido ao terreno irregular que caracteriza o território, reforçando, mais uma vez, a “tese” de que Cabeço de Montachique é uma pequena localidade onde paira uma calma comparável a uma aldeia isolada. CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR
Áreas urbanizadas e por urbanizar. Cabeço de Montachique 003|
| 19 Neste subcapítulo, após uma breve apresentação da macro estrutura em relação ao caso de estudo selecionado, vamos abordar a ruína e a estrutura que a rodeia, ou seja, as características externas que motivaram a sua implantação e construção. Para esta caracterização foi necessária uma leitura in loco, um levantamento da ruína existente e uma reflexão sobre a estrutura urbana que dá forma a Cabeço de Montachique. Ao visitarmos o lugar de intervenção confrontamo-nos com uma realidade diferente do esperado: um pequeno planalto onde assenta a ruína, rematada por um morro, bem alto e imponente, que se lança sobre a paisagem. Uma identidade singular desenvolvida ao longo de séculos, valorizada particularmente com a presença de um edifício em ruínas que não passa despercebido. Torna-se, assim, importante refletir sobre as modificações que ocorreram num determinado espaço de tempo e que fizeram com que o presente seja, deste lugar único, tão distante do passado. Partimos, agora, para uma caracterização (utilizando uma abordagem pessoal) que refletirá as impressões sobre a localidade próxima da construção. Será a partir dos desenhos e do levantamento fotográfico que se interpretará Cabeço de Montachique, bem como a relação que este lugar mantém com a ruína do sanatório. O lugar Cabeço de Montachique encontra-se rodeado de pequenos aglomerados urbanos, de baixa volumetria e densidade, com predomínio da função residencial. A separar estes pequenos “pontos” urbanos temos vastos territórios arborizados ou de cultivo e pontuais edifícios residenciais ou industriais. Num raio de cerca de seis quilómetros podemos observar quatro pontos que formam a estrutura urbana deste território adjacente a Cabeço de Montachique: Freixial, a este, Fanhões e Casaínhos, a sudeste, e Lousa, a sudoeste (Freguesia à qual pertence). Apesar de serem pouco desenvolvidos, estes lugares apresentam uma coesão na estrutura urbana e um desenvolvimento superior ao de Cabeço de Montachique, encontrando-se em terrenos de altitude inferior. [004] Quando percorremos a autoestrada A8, e, através da sinalização, saímos em direção a Cabeço de Montachique, deparamo-nos com um território de cultivo e arborizado, e, apenas cem metros mais à frente, confrontamos com as primeiras edificações: primeiro apenas moradias “humildes” de um e dois pisos mas, à me- CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR Cabeço de Montachique
Centros urbanos adjacentes a Cabeço de Montachique.004|
| 21 dida que subimos para o alto da ruína, apercebemo-nos de um pequeno aglomerado de serviços e um conjunto maior composto pelas residências que dão forma ao centro (físico e simbólico) de Cabeço de Montachique. Este centro é composto por uma recente escola primária, por um novo empreendimento em banda, moradias (de uma ou duas décadas) e construções dos anos 50, como os correios e algumas residências. Este pequeno centro conjuga um antigo núcleo da velha aldeia, que se deduz ter tido um papel importante para região, devido à presença de antigos edifícios, como os correios, uma fonte de águas locais [005], a antiga Casa da Saúde Guedes e a Quinta de S. Guião ou o antigo Centro Psiquiátrico de Recuperação de Montachique [006]: tudo neste cenário aliado ao Sanatório Albergaria que se encontra cerca de 300 metros, acima, no alto do monte [007]. Não é de estranhar, por isso, que nos finais do século XIX e início do século XX, Cabeço de Montachique tivesse sido uma importante estação de tratamento, muito procurada pelos familiares de doentes com tuberculose de poucos recursos, devido aos seus “bons ares”. Esse fenómeno deveu-se, em parte, à propagação epidémica da tuberculose, que ocorria por toda a Europa nessa época. Criaramse, então, sanatórios dedicados ao isolamento e tratamento da doença. Assim, neste contexto, a localização geográfica de Cabeço de Montachique face a Lisboa, assume um papel importante nos cuidados de saúde contra a tuberculose. De salientar também, que as águas provenientes de Cabeço de Montachique eram, no século XVIII, conhecidas para efeitos terapêuticos. No século XIX este território assume uma maior importância, pois destaca-se como um dos principais pontos das Linhas de Torres, aquando do período das Invasões Francesas, em Portugal. Apesar do seu pequeno desenvolvimento urbano, estamos perante um lugar de grande importância, que arrasta consigo uma herança desde o século XVIII, causada pela qualidade ambiental e pelo lugar privilegiado que tem no território a norte de Lisboa. No início do século XX esta localidade era conhecida como “Cabeça de Montachique”, e o sector primário era o principal fator de desenvolvimento económico. A povoação aqui residente inseria-se na denominada zona saloia que abastecia a cidade de Lisboa com os seus produtos. CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR
Paisagem de Cabeço de Montachique. Quinta de S. Guião.Fonte de águas locais. 007| 005| 006|
| 23 Destacam-se, assim, dois aspetos: o baixo nível de desenvolvimento urbano e a presença de zonas de cultivo. O baixo desenvolvimento urbano deve-se à pobreza da região, apesar do investimento feito na área da saúde. Quem se dirigia a este lugar, na esperança de se curar, acabava por morrer cinco ou seis anos depois. A maior parte dos produtores agrícolas eram levadas a abandonar a localidade na busca por uma vida melhor, tanto em Portugal como no estrangeiro. O que hoje se pode observar no local são familiares de antigos doentes e antigas famílias de agricultores que por aqui se foram fixando. Assim sendo, no que respeita à urbanização nesta localidade, temos o domínio da habitação [008], mais propriamente de vivendas que vão formando pequenos núcleos habitacionais e que foram surgindo desordenadamente pela região. Caracterizam-se por uma arquitetura pobre e de fraca qualidade, tanto ao nível dos materiais como do próprio desenho arquitetónico, onde o uso da horta e do campo de cultivo é muito frequente. No entanto, começam a surgir algumas urbanizações, tanto de vivendas como de habitação “em cadeia” (casas geminadas), com uma arquitetura mais cuidada, correspondendo à criação de uma urbanidade planeada (o que até então não existir). Por outro lado, e não menos importante, temos a indústria como um elemento marcante deste lugar, tanto na paisagem como na própria estruturação urbanística [009], pois, apesar de se encontrar menos presente do que a habitação, trata-se de um fator muito importante, uma vez que se instalou em torno da ruína, resultando assim no único elemento a relacionar-se diretamente com a construção abandonada. Temos, então, a ruína localizada numa região que, apesar de se encontrar na proximidade da cidade de Lisboa, carece de desenvolvimento urbano, predominando o “verde” na paisagem. Apesar desta urbanidade estar marcada pela habitação é a indústria que cria relações físicas mais fortes com a ruína do Sanatório Albergaria. Esta localidade a norte de Lisboa é também palco da cultura ambiental e da vida ao ar livre, como não podia deixar de ser, dadas as suas características tão singulares. Conhecida pelos seus “bons ares”, esta localidade era também procurada pela observação de diferentes espécies de aves, anfíbios e répteis. CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR
Planta representativa da área residencial que envolve a ruína do Sanatório Albergaria. 008| Planta representativa da área inustrial que envolve a ruína do Sanatório Albergaria. 009|
| 25 Aliada a uma flora excecional este território é detentor do Parque Municipal de Cabeço de Montachique, particularmente vocacionado para atividades desportivas, partilhando o contacto com a natureza e o convívio durante todo o ano. É um parque com 32 hectares de floresta, de características mediterrâneas, que está equipado com polidesportivo, quatro campos de ténis, sala para ténis-de-mesa, balneários, espaço para jogos tradicionais, circuito de manutenção, centro de orientação, parque de merendas e restaurante/café. Com várias infraestruturas de apoio integra também, percursos pedonais na zona de floresta tratando-se, assim, de um local excelente para passar um dia em família, onde também é possível organizar piqueniques. [ver imagens em anexo - página 155] Em síntese, podemos dizer que a ruína do Sanatório Albergaria se encontra numa localidade onde o aglomerado urbano, construído sobre a topografia do terreno, permite reconhecer uma simbiose entre edifícios e natureza, e está reduzido à qualidade de “aldeia”, pouco povoada, devido, em parte, ao êxodo provocado pela falta de edifícios habitacionais, oportunidades de emprego e um certo isolamento. Contudo, urbanisticamente, verifica-se um salto na nova construção, nomeadamente no loteamento, que originou a possibilidade da construção da nova escola primária. O núcleo antigo, mais do que nunca, encontra-se votado ao abandono. A presença do parque municipal dinamiza e atrai famílias, funcionando como um estímulo para a recuperação da ruína. A facilidade de acesso à grande artéria de comunicação (A8) é outro fator a ter em conta e que valoriza a localização da ruína. CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR
Estação do Rossio, arquiteto José Luís Monteiro. Sociedade de Geografa, arquiteto José Luís Monteiro. Maternidade Alfredo da Costa, arquiteto Ventura Terra. 017| 016| 015|
| 33 ção de 80” ou, ainda, Raúl Lino e Rosendo Carvalheira. Todos eles executaram várias encomendas de filantropos, e muitos acabaram por participar nos desenvolvimentos sociais da própria República, ficando ligados às grandes reformas do Ministério da Instituição Pública, como a construção de escolas por todo o país, hospitais, bairros e habitações operárias. Assim, surgem no nosso país os testemunhos materiais de tais ações e percursos, em que um conjunto de personalidades apostaram especialmente no desenvolvimento da nossa sociedade. Todas estas obras, de uma forma ou de outra, “relacionaram-se, quer com a campanha higienista do Liberalismo, quer com a Reforma Fontista e Cabralista, e, finalmente, com todo o ideário que deu lugar à implantação da República”6. Da geração dos mestres, José Luís Monteiro é o autor do Mercado Central de Lisboa, da Estação Central dos Caminhos-de-Ferro do Rossio [015] e da sede da Sociedade de Geografia de Lisboa [016] , entre outras obras fundamentais. Ventura Terra, como continuador de José Luís Monteiro, assume o papel de arquiteto maior na passagem dos dois séculos e é autor de algumas obras como a remodelação da Assembleia Nacional e outras de carácter progressista, como é o caso dos Liceus Camões, Pedro Nunes e Amália Vaz de Carvalho, no âmbito da reforma de Passos Manuel. É ainda autor de um dos edifícios mais modelares do seu tempo, a Maternidade Alfredo da Costa [017]. No que respeita à indústria, vilas operárias e bairros, destaca-se o arquiteto Norte Júnior, autor de notáveis desempenhos como os Armazéns Sociedade Abel Pereira da Fonseca. Muito próximo de Francisco Grandella, foi o autor de um dos edifícios de expressão mais marcante do processo associativista operário, o da Sociedade de Instrução e Beneficência “Voz do Operário” de 1912. Recebeu também a encomenda para a Villa Grandella em Benfica [018], não esquecendo o Bairro Estrela d’Ouro em 1907 [019]. No campo do ensino, Adães Bermudes é “autor de algumas das obras mais emblemáticas de arquitetura escolar”7, do Bairro Social do Arco do Cego, da Escola Central de Coimbra e ainda do Instituto Superior de Agronomia, de 1910. Foi ainda autor da Escola Normal Primária de Lisboa. 6. GAVIÃO, op. cit., p.28. 7. GAVIÃO, op. cit., p. 30. FILANTROPIA E A ARQUITETURA
Jardim Escola João de Deus, arquiteto Raúl Lino. Villa Grandella Benfica, arquiteto Norte Júnior. Bairro Estrela d’Ouro, arquiteto Norte Júnior. Escola conde Ferreira, Paredes, arquiteto Adães Bermudes. Cine Royal, arquiteto Raúl Lino. 019|018| 020| 021| 022| Sanatório da Parede, arquiteto Rosendo Carvalheira.023|
| 35 Este arquiteto ficará também associado ao benemérito Joaquim Ferreira dos Santos, conhecido como Conde de Ferreira, um dos grandes impulsionadores da instrução pública em Portugal que promove uma série de edifícios tipo, as conhecidas “Escolas Conde de Ferreira” [020]. Raúl Lino esteve próximo do reformador e maçon José Relvas, projetando a sua casa de Alpiarça, em 1904; foi ele também que deu corpo ao projeto do grande pedagogo, reformador e maçon, João de Deus, no âmbito da construção da rede de Jardim Escola [021]. Na cultura e divertimentos voltamos a ter Norte Júnior, com o primeiro cinema sonoro de Portugal, o “Cine Royal” [022], integrado no Bairro Estrela d’Ouro, na Graça, 1907, mandado construir pelo industrial de confeitaria e filantropo, Agapito de Sousa Fernandes. Na área da saúde, Adães Bermudes é autor de alguns hospitais, como o da Covilhã em 1915, o Hospital de Oleiros, 1916. Outro legado do benemérito Conde Ferreira é o Hospital para alienados, com o seu nome, no Porto, da autoria do arquiteto Manuel de Almeida Ribeiro. Rosendo Carvalheira, sob o financiamento da família Bliester, projeta o Sanatório da Parede [023]. Neste campo da saúde, voltamos a ter Grandella, encomendando a Rosendo Carvalheira o Sanatório Albergaria em Loures. Estes complexos enquadravam-se noutra grande temática da filantropia, a luta contra uma das principais epidemias da viragem do século, a tuberculose. Projeta ainda, em 1905, a sede dos Serviços de Luta Antituberculosa. FILANTROPIA E A ARQUITETURA
4. ARQUITETO ROSENDO CARVALHEIRA
| 39 Rosendo Carvalheira, natural de Arcos de Valdevez, nasceu em 1863, filho de um modesto casal de agricultores, Salvador Garcia e D. Maria José de Araújo. Um ano antes do seu nascimento viviam-se tempos difíceis na região minhota com a “malograda sedição militar de Braga, onde a vida era particularmente difícil”8, sendo que, D. Maria José, mãe de Rosendo Carvalheira, por recomendação, conhece e inscreve-se no círculo de interesses de Alexandre Herculano. Com a morte do marido e pai do futuro arquiteto, em 1866, apresenta-se em Lisboa com o “pequeno Rosendo”, à caridade do ilustre historiador. Recomendada por Alexandre Herculano ao seu futuro cunhado, Francisco Meira, este acolhe ambos em sua casa, a troco de pequenos serviços domésticos, e achando o “garoto vivo, dedica-se à sua educação na leitura, escrita, contas e algum francês”9. Com as visitas a Alexandre Herculano, que se mudara para Vale-de-Lobos, e com a morte de Margarida Herculano, uma filha adotiva do casal, o “pequeno Rosendo” passa a ter toda a atenção de D. Mariana e Alexandre Herculano, que o apelidavam de “moço saudável e mesmo traquinas”10. Mais tarde, por volta de 1874, o casal considerava o “pequeno Rosendo como um verdadeiro filho adotivo”11. Com a morte do seu pai adotivo, D. Mariana, na qualidade de viúva, e Rosendo Carvalheira trocam Vale-de-Lobos por Lisboa, sendo que, em 1882, começa a estudar no Instituto Industrial e Comercial. Apesar do seu curso em estudos de Condutor de Obras Públicas, esta é a fase do despontar literário, em que, com dezanove anos e associado a outros jovens, se torna fundador e presidente da Sociedade Literária Alexandre Herculano. Finaliza o seu curso por volta de 1886/87, e torna-se profissional em 1888, sendo apelidado como “filho adotivo para a arquitetura, de Alexandre Herculano”12. Recém-formado em Condutor de Obras Públicas, a sua imaginação, influenciada pela mística doméstica e obra literária de Herculano (que tão bem conhecia), despertou-lhe um primeiro e profundo culto arqueológico. Deste modo, servido de “natural habilidade para o desenho e desejo de “realizar”13, esta fase da sua car- 8. BAIRRADA, Eduardo - Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes, p. 94. 9. BAIRRADA, idem. 10. BAIRRADA, idem. 11. BAIRRADA, op. cit., p. 95 12. BAIRRADA, op. cit., p. 96. 13. BAIRRADA, idem. 4. ARQUITETO ROSENDO CARVALHEIRA
Frontaria da Tabacaria Mónaco (“Capela de S. João Baptista dos Charutos”), no Rossio. 024| Fachada principal do Liceu Passos Manuel. 025|
| 41 reira credencia-o mais como um arqueólogo, assim como o figurino de Herculano que, igualmente, e como o próprio dizia, “era apaixonado pela matéria e tradicionalista pela afeição amava as coisas antigas, mas não gostava de velharias”14. Interessado pelas obras que se realizavam nos Jerónimos, é proporcionado a Rosendo conhecer o arquiteto Valentim José Correia (1822-1900), autor de um projeto de conclusão do edifício. Esta intimidade criada tornou-o assíduo do atelier de Valentim, onde elaborou projetos para a casa Calleya, acabando Rosendo Carvalheira por casar com D. Carlota Calleya, em 1893. Seria ainda Valentim José Correia que, em 1895, proporia o seu nome para a Real Associação dos Arqueólogos Portugueses, da qual foi fundador. Rosendo, em 1894, finaliza as obras da pequena Tabacaria Mónaco [024], na praça D. Pedro IV, fundada em 1875 e renovada dezanove anos mais tarde, por desejo do seu proprietário, que confiou os trabalhos a Rosendo Carvalheira. A sua entrada na Real Associação dos Arqueólogos Portugueses, constituiu algo de complementar ao trabalho na Tabacaria Mónaco, como arquiteto, “tornando a sua carreira como prometedora e interessante”15. Ingressado, entretanto, nas Obras Públicas, e segundo a revista “Construção Moderna”16, é em 1898, com os conscientes restauros da Sé da Guarda e com o Liceu Central de Lisboa – Passos Manuel [025], que se lhe credencia uma ótima fama, pelo que, quando entrou o novo século, o seu nome já era conhecido e iria confirmar-se, ainda mais, com novas obras, sobretudo para fins assistenciais. Em 1900, começou a publicar na revista “A Construção Moderna”, de cuja direção técnica fazia parte, tornando-se para o “nosso” arquiteto, este, um período de grande atuação jornalística e crítica de arte. Passados dois anos, em 1902, é convidado “por ilustres colegas”17 (já mencionados no capítulo anterior) Arnaldo Redondo Adães Bermudes e Miguel Ventura Terra, para a redação dos estatutos de uma nova corporação dos arquitetos que, através de matérias específicas e sociais, levaram à consciência de uma nova autonomia: “o conhecimento do legado do Visconde de Valmor instituindo prémios de arquitetura e bolsas de pensionamento no estrangeiro; as necessárias reformas 14. Cit. por. BAIRRADA, op. cit., p. 97. 15. BAIRRADA, op. cit., p. 99. 16. Cit. por BAIRRADA, idem. 17. BAIRRADA, idem. ARQUITETO ROSENDO CARVALHEIRA
Helioterapia em Sanatório.028|
| 49 Numa arquitetura pensada para o combate à doença da Tuberculose, faremos uma apresentação das principais premissas, obras e “autores” (arquitetos e médicos) das construções “antituberculose”, particularmente com o objetivo de entender o contexto onde se enquadra o nosso objeto de estudo, o Sanatório Albergaria. Não há dúvida sobre a importância social e o impacto que a Tuberculose teve na vida e nas mentalidades, tanto portuguesas como europeias. Na arquitetura não foi exceção, pois deu-se início à realização de obras muito significativas e à transformação e “assunção de conceitos-chave para a ‹‹renovação-moderna›› da prática construtiva”33. A “arquitetura antituberculose” foi um esforço feito pela negativa, uma vez que todas as ações tinham como objetivo curar os doentes, aumentando a sua capacidade de resistência e, desta forma, extinguir a tuberculose. Todo este esforço tinha como objetivo uma vida mais saudável, contribuindo, assim, “para consolidar uma consciência moderna do corpo, da higiene e do habitar”34. Dada como certa esta estratégia de combate à doença, é necessário entender de que modo a arquitetura e a medicina iriam por em prática tal teoria. No catálogo da exposição Le Sanatorium d’un isolement sublime, publicado em Lausanne em 1992, Quintus Miller defende a existência de uma “arquitetura sanatorial” que, tendo como ponto de partida a “arquitetura termal, se desenvolve num processo articulado entre a medicina e a arquitetura”35. Neste sentido, podem identificar-se dois modelos de tratamento distintos, um na cura de altitude e outros na cura marítima. Pode, ainda, falar-se de uma “geografia de cura”, onde o clima e a topografia, a qualidade da terra e os ventos definem territórios adequados à construção de cada sanatório. Assim, se a altitude era aconselhada para o combate à tuberculose pulmonar e o clima marítimo para as outras formas de tuberculose, a helioterapia (tratamento com recurso ao sol) não se trata apenas de uma ramificação da cura, mas também de um “instrumento de regeneração social”36. Segundo André Tavares, trata-se de um nova forma de habitar, em que as qualidades geográficas e o comportamento individual são os elementos-chave da promessa de um mundo mais equilibrado e justo, e que, por sua vez, se traduz em novas práticas arquitetónicas. 33. TAVARES, André – Arquitectura Antituberculosa, p. 19. 34. TAVARES, op. cit., p. 20. 35. Cit. por TAVARES, op. cit., p. 21. 36. TAVARES, op. cit., p. 24-25. 5. ARQUITETURA ANTITUBERCULOSE
A contagiosidade da doença e a relação entre as práticas terapêuticas e a higiene individual implícita no programa dos sanatórios obrigaram à construção de novos espaços, como as galerias de cura ou a ampliação e multiplicação das áreas dos banhos no interior dos edifícios. Pode então confirmar-se que esta cultura médica específica conduziu à produção de formas arquitetónicas correspondentes e originais, e que o projeto de sanatório exigiu aos arquitetos uma consciência do exercício do projeto distinta, conduzindo assim, à adoção de novas formas de composição, traçado e organização das ferramentas de projeto.37 Neste seguimento da relação da arquitetura moderna com os sanatórios, torna-se importante enunciar uma das características “revolucionárias” defendidas pelos protagonistas “modernos” para qualificar a construção: “a permeabilidade interior/exterior, sendo esta também, uma premissa coincidente com o aspeto fundamental das clínicas helioterapêuticas. A necessidade de ventilação, a adoção de materiais higiénicos, a insolação direta nos espaços da habitação, o combate ao pó, etc., foram exigências sistemáticas da renovação das formas de habitar”38 partilhadas entre a medicina e a política urbana. Neste contexto, que nos conduz à renovação das formas de habitar para atingir uma melhor qualidade de vida, constroem-se numerosas obras com caráter experimental. O objetivo é, na maioria dos casos, pôr em prática novos hábitos para a vida quotidiana, obtendo também condições ambientais de melhor qualidade. Assim sendo, a Europa procura desenvolver um modelo arquitetónico para aplicar na construção terapêutica. Destaca-se nesta área Karl Turban39, médico suíço e especialista em tuberculose, que propõe no final do século XIX, a implantação de cinco teses fundamentais a adotar na criação de sanatórios: serem localizados em zonas de elevada altitude; configurarem-se como grandes estabelecimentos; responderem a exigências higiénicas modernas; condicionarem a admissão a doentes curáveis; e serem dirigidos segundo métodos próprios por médicos especializados. Dividindo-se, assim, em três partes: a escolha do lugar, a construção e respetiva manutenção e a organização do serviço. Na escolha do lugar salienta-se o bom senso, a aplicação dos critérios de acessibi- 37. TAVARES, op. cit., p. 25. 38. TAVARES, op. cit., p. 225. 39. Cit. por TAVARES, op. cit., p. 239.
| 51ARQUITETURA ANTITUBERCULOSE lidade e a relação com aglomerados urbanos. O sanatório teria sempre de ser suficientemente distante das cidades para obter ar puro, mas situar-se suficientemente próximo das localidades onde habitassem médicos e pessoal de serviço, sendo ideal a construção de grandes estabelecimentos que justificassem a existência de uma comunidade isolada. A escolha de um lugar com boa exposição solar era fundamental, sem nevoeiros ou neblinas, em vales abertos a sul e abrigados do vento. Recomendavam-se solos secos e a existência de água de nascente, assim como espaço suficiente para construir um jardim e caminhos de passeio. Segundo Turban40 a proximidade de florestas era tida como desejável. [029] Quanto à forma da construção, as instruções não deixavam dúvidas por parte de Turban. Nelas podia ler-se: “um sanatório deveria ser constituído por uma ala central com duas alas laterais, estando unidas por uma galeria de cura. A sua orientação deveria ser para sul, estando sempre implícito o sentido de orientação dos doentes e de toda a utilização nessa mesma direção. A fachada sul é a fachada principal e a ninguém ocorre olhar a norte. A divisão dos sexos era aproveitada pela simetria dos edifícios, sendo o único espaço de uso comum a sala de refeições.”41 [030]. Os quartos eram objeto de especial atenção, devido aos problemas de contágio que poderiam ocorrer entre os doentes. Todos os quartos deveriam ter entrada de luz solar [031]. A galeria de cura deveria ser coberta e encerrada dos lados e a norte, e toda aberta a sul, com o objetivo de a proteger dos ventos e garantir exposição solar ao longo do dia. Relativamente aos materiais estruturantes do edifício, não há qualquer referência. Turban apenas descreve “materiais de acabamento necessários como as tintas a óleo e os vernizes para permitir uma lavagem eficaz e linóleo sempre que possível nos pavimentos e janelas com bandeiras de ventilação e eixos horizontais.”42 Toda estas premissas, aproximam o discurso da construção senatorial da renovação dos espaços hospitalares, onde se desenvolvem modelos de ventilação e dispositivos de aberturas inovadores. O desenho de Jacques Gros, arquiteto suíço que trabalhava com Turban, acompanha essa tendência de origem hospitalar, que exige cantos arredondados (para “correr melhor o vento”), materiais de revestimento laváveis e que não acumulem poeiras e sistemas de ventilação em todas as portas. 40. Cit. por TAVARES, op. cit., p.241. 41. Cit. por TAVARES, op. cit., p. 242-243. 42. Cit. por. TAVARES, op. cit., p. 242.
Jacques Cross, Sanatório Ideal Turban, projeto de concurso, 1902 - proximidade com a floresta. 029| Jacques Cross, Sanatório Ideal Turban - planta do projeto.030| Jacques Cross, Sanatório Ideal Turban - insolação do quarto.031|
| 53ARQUITETURA ANTITUBERCULOSE Com esta evolução técnica, acabam por surgir novo espaços com qualidades específicas, como a “permeabilidade ambiental entre o exterior e interior, a concentração de espaços de serviço e áreas coletivas comuns nos pisos inferiores, as galerias de cura, agora como locais de repouso coletivo, abertas a sul e independentes dos quartos e a especificidade dos materiais de construção e acabamento, incluído o mobiliário que era reduzido ao mínimo, e por sua vez, facilmente lavável.”43 Esta experimentação de construção de sanatórios na Suíça, sobretudo em Davos, teve um papel importante no debate das práticas terapêuticas, no entanto, o seu significado na adoção de modelos únicos foi relativo. A distinção entre terapêuticas marítimas, de altitude, ou as diferenças entre as duas principais formas de tuberculose, pulmonar e extrapulmonar, foram fatores que contribuíram para a dispersão de soluções e de modelos reprodutíveis. O sucesso internacional da helioterapia a partir de 1905-1906 veio acentuar esta dispersão, e mais uma vez dificultando a adoção de uma lógica “única” para a construção de um “modelo” de arquitetura para a luta antituberculose.44 43. TAVARES, op. cit., p. 243. 44. TAVARES, op. cit., p. 244.
Clínica Heliântica de Francelos, arquiteto Francisco Oliveira Ferreira.032| Clínica Heliântica de Francelos, arquiteto Francisco Oliveira Ferreira.033|
| 55 Em Portugal, na sua realidade antituberculose, destaca-se o nome do médico Joaquim Gomes Ferreira Alves, que estabelece relações com o médico suíço Auguste Rollier, especialista no combate à tuberculose. Esta ligação tinha como principal interesse entender as conexões entre a arquitetura e a medicina. Nesse sentido, a Clínica Heliântica de Francelos (1929), a grande realização sonhada e concretizada por Ferreira Alves junto à praia de Valadares, é a obra que consagra a circulação internacional dos modelos terapêuticos e arquitetónicos entre os dois médicos e, consequentemente, entre os dois países. [032 | 033] Joaquim Gomes Ferreira Alves, era irmão de Luiz Ferreira Alves, herdeiro da direção do negócio da família, a firma Luiz Ferreira Alves & C.ª. Ambos os irmãos eram membros da Maçonaria, destacando-se, no nosso contexto, Joaquim Ferreira Alves pela sua licenciatura médica, com especialidade na helioterapia, facto que o tornou numa pessoa de destaque na luta contra a Tuberculose. Após cinco anos de prática médica na cidade do Porto, estava preparado o terreno para a construção da primeira grande obra de Ferreira Alves, o Sanatório Marítimo do Norte. No entanto, a anteceder a sua criação, Ferreira Alves publicou um brochura sobre a necessidade dos Sanatórios Marítimos no Norte de Portugal, “onde se compreendia o apelo à benemerência para a luta contra o “flagelo social” da tuberculose. O médico constatava também a grave carência de instituições no norte do país e exigia para a sua cidade (Porto) um equivalente ao Sanatório de Sant’Ana, na Parede”45. Projetado em 1900 por Rosendo Carvalheira, e servindo de referência para o Sanatório Marítimo do Norte, Sant’Ana corresponde ao modelo do hospital marítimo inglês, “em que um conjunto de quatro enfermarias com galerias abertas a sul se dispõem em torno de um eixo central constituído com funções complementares, e formando dois pátios de serviço”46. Os dispositivos de ventilação são um dos aspetos mais cuidados no desenho do edifício. Segundo Rosendo Carvalheira, “o médico Sousa Martins terá sido o portador dos modelos de cura e, talvez, dos modelos arquitetónicos, na sequência da sua presença num congresso em Veneza”47. Quanto à influência do médico nos modelos, “o mesmo poderia afirmarse para o projeto de Raúl Lino, nos três pavilhões do Sanatório Sousa Martins”48, 45. TAVARES, op. cit., p. 77-79. 46. TAVARES, op. cit., p. 84. 47. Cit. por TAVARES, op. cit., p. 85. 48. TAVARES, op. cit., p. 87. ARQUITETURA ANTITUBERCULOSE A realidade portuguesa
Alçado frontal do Anteprojeto do Sanatório Marítimo do Norte, arquiteto Francisco Ol. Ferreira.034| Alçado posterior do Anteprojeto do Sanatório Marítimo do Norte, arquiteto Francisco Ol. Ferreira.035|
| 57 em 1907. Neste caso não se trata de um grande edifício que articula diferentes enfermarias através de passagens cobertas, mas sim de vários pavilhões isolados – três pavilhões para três classes, mais seis chalets para famílias – seguindo o modelo alemão de Dettwiller. São dois modelos distintos, para a Cura de Altitude e para a Cura Marítima, um mais adequado para tuberculose pulmonar, outro mais adequado para tuberculose óssea ou dita cirúrgica. No entanto, no Sanatório Marítimo do Norte optou-se pelo modelo de Parede, reproduzindo, à sua escala, o das enfermarias-salão, de um só piso, ligeiramente sobrelevadas para garantir o arejamento dos pavimentos, ligadas às outras funções por galerias envidraçadas e que articulam os diferentes volumes da construção. [034 | 035] O que caracteriza e individualiza este sanatório no contexto dos sanatórios portugueses é a posição e forma da “galeria de cura”, que não é apenas para a cura através do ar, coberta e encastrada, como na Parede, mas sim para helioterapia, descoberta e projetada para o exterior da construção. Esta mudança, ou adaptação, corresponde à resposta arquitetónica “necessária para a adaptação de um modelo a uma nova estratégia terapêutica.”49 No entanto, dado o “êxodo rural”, em conjunto com a “crise da habitação”, que eram tomados como explicação para o aumento dos índices da tuberculose, torna-se necessário agir “atacando em primeiro lugar o problema da tuberculose sob o seu aspeto higiénico e social”, fazendo “o rasgamento dos bairros acumulados”, zelando para que “sejam cumpridas as disposições legais contra a insalubridade das habitações (...) e que se promova, como fizeram a Inglaterra e a Alemanha, a construção de novos bairros e habitações”. O segundo ponto de ação consistia no “problema da assistência no país”, tendo em vista a criação de “Dispensários e Laboratórios de higiene distritais”; “enfermarias e pavilhões de isolamento” e a criação de “Hospitais-Sanatórios e Sanatórios”. 50 Quem conduziu esta ação durante a ditadura do Estado Novo foi Lopo de Carvalho, médico prestigiado pelos avanços da angiopneumografia juntamente com Egas Moniz. Para a luta antituberculose, Lopo de Carvalho construiu uma estratégia que abrangia todo o território nacional e que concentrava o poder e estrutura administrativas num “organismo único a que estejam subordinadas todas as boas 49. TAVARES, op. cit., p. 91. 50. TAVARES, op. cit., p. 216. ARQUITETURA ANTITUBERCULOSE
Sanatório Albergaria, corte longitudinal, arquiteto Rosendo Carvalheira.042|
| 65 também pensada a construção de um moinho de vento automático, “destinado ao abastecimento de água, e, possivelmente, para a produção de energia elétrica”60. Relativamente aos quartos do sanatório, estes eram servidos por “aprazíveis varandas”61, permitindo aos doentes gozarem do benefício da cura de ar e do sol, independentemente da grande varanda coletiva destinada a esse exclusivo fim. Todo o edifício seria circundado de “largos espaços ajardinados”, permitindo o passeio dos doentes, a vida no exterior e o contacto direto com a natureza. O conjunto do projeto, é muito simples, “gracioso e pitoresco, sendo inspirado em motivos portugueses”62, característica muito comum nas obras de Rosendo. 60. COLARES, op. cit., Julho 1918, p 26. 61. COLARES, idem. 62. idem. SANATÓRIO ALBERGARIA
Relação entre a ruína do Sanatório Albergaria e a indústria. 044| Leitura dos alçados na ruína do Sanatório Albergaria.046|045| Alçado frontal da ruína do Sanatório Albergaria, o caminho de acesso em terra batida e atrás o morro. 043|
| 67 As características morfológicas do terreno onde se implanta a ruína do Sanatório Albergaria e a sua própria imponência ajudam, mais uma vez, a entender o papel que este edifício teria para a sociedade e para Cabeço de Montachique, no período da sua construção. Trata-te de um pequeno planalto localizado na zona mais alta, enquadrado por um morro a oeste. [043] A implantação do edifício revela uma leitura atenta do terreno por parte dos seus projetistas (médicos e arquiteto), o que se traduz, naturalmente, na estratégia projetual. O seu posicionamento assegura, por um lado uma ótima exposição solar, dada pela altitude e pela “aridez” do terreno, e, por outro lado, a presença do morro a oeste, oferecendo a proteção contra ventos atlânticos (duas das principais características definidas para a localização “sanatorial”). Esta implantação assegura, também, a proximidade a recursos hídricos, particularmente pela existência de fontes locais. Determinado o lugar de assentamento, o edifício desenvolve-se a partir de um eixo perpendicular à estrada de acesso, no sentido este-oeste, localizando-se desta forma com o morro nas suas “costas”. A uma distância de cerca de cem metros da estrada o edifício cria um afastamento da via de comunicação, e, por sua vez, um grau de autonomia, traduzido na imponência volumétrica, apoiada pelo morro que o enquadra na paisagem. O afastamento necessário do edifício em relação ao núcleo urbano de Cabeço de Montachique vem, também, reforçar a sua autonomia (já que se tratava de um sanatório), construindo, assim, a sua própria realidade, sem qualquer relação (urbana) direta com a envolvente Nos dias de hoje, a realidade urbana envolvente à ruína do Sanatório Albergaria é completamente diferente. O lugar apresenta-se industrializado e sem grande cuidado nas edificações implantadass. Temos um conjunto de realidades distintas que leva à falta de relações entre as edificações, e a um “esquecimento” urbano da ruína do Sanatório Albergaria em relação a estes mesmos edifícios. [044] Apesar deste abandono e “esquecimento vizinho”, quase em sintonia com o abandono da construção do sanatório, a ruína, com quase cem anos, apresenta-se em “ótimo” estado de conservação, sendo ainda identificáveis os alçados e as plantas do projeto inicial [045 | 046 | 047 | 048]. Quando percorremos o caminho em terra batida que nos leva à frente do edifício, é perfeitamente identificável a composição do seu alçado, com a entrada que nos divide o edifício simetricamente, rematado pelas “villas” elevadas nos seus topos. SANATÓRIO ALBERGARIA A ruína
| 69SANATÓRIO ALBERGARIA Apenas as paredes do edifício foram levantadas (nem todas na sua totalidade), mas não existe, assim, muita diferença entre os dois pisos projetados. A ruína encontra-se a “céu aberto” e completamente absorvida pela natureza, na sua forma mais espontânea e natural (trepadeiras e flora local). É totalmente possível identificar cada espaço projetado por Rosendo Carvalheira nesta ruína, pois a resistência das paredes torna fácil interpretar, entre pedras e trepadeiras, a planta e os alçados desenhados pelo arquiteto. A passagem dos anos parece, assim, não ter abalado aquilo que foi o abandono do projeto do Sanatório Albergaria, já que encontramos uma ruína que conseguiu sobreviver às adversidades da ação do tempo. Quase ironicamente, e fazendo já parte da paisagem, o edifício ergue-se e consegue absorver toda a atenção, transformando-se o foco de destaque do lugar.
7. RUÍNA | PAISAGEM | MEMÓRIA | LUGAR
Ruína do Sanatório Albergaria e a paisagem de Cabeço de Montachique.049|
| 73 A arquitetura, enquanto obra construída, é algo instável, pois a sua principal condição é a constante transformação e relação com o tempo. O objeto arquitetónico é muitas vezes idealizado como um passo para atingir a ordem da Natureza, na qual, as formas, o equilíbrio e a proporção estão sempre presentes. A arquitetura, enquanto objeto de criação, não perdura muito tempo no seu estado inicial, tornando-se rapidamente objeto da ação do Tempo, aproximando-se, através de um longo processo, da condição da Natureza. Assim, a ação do arquiteto é simultaneamente confrontada, consomada e degradada por aquela ação. Deste modo, a ruína, enquanto pedaço de uma arquitetura que resta e se degrada, pode ser comparada com a própria Natureza, “nua e vertical, corroída e manchada, desordenada e informe, velha”63 como uma montanha. Esta definição, permite-nos levar mais além da abrangência do conceito de ruína, pois é o resultado de um processo onde o Tempo atua e desgasta a própria matéria. Desta forma, a ruína representa a última etapa de um processo de degradação ao longo do tempo, cuja fase final é o regresso à Natureza, fechando assim, o ciclo natureza-construção-natureza, que se traduz na sua destruição completa. Contudo, antes de atingir a possível condição total da Natureza, a ruína, pode também constituir o material disponível e aberto para novas construções, numa visão mais operativa, onde se sobrepõe um novo uso ou se acrescenta e valoriza a construção obsoleta: que assim continua o seu percurso no tempo num acumular de usos e significados. Colocadas as questões de intervenção no património, e emergindo, assim, a necessidade de estabelecer um conjunto de normas para este tipo de ação sobre os monumentos, a ruína passa a ser reconhecida como um valor arqueológico, enquanto vestígio de um passado que importa conhecer. Com o movimento romântico, “a ruína passa a ser valorizada, sobretudo, como objeto estético que se adequa às novas conceções artísticas do belo, do sublime e também do horrendo”64. Desenvolve-se, assim, um verdadeiro gosto, segundo o qual estas chegam até a ser falsificadas. Neste caso, estamos perante uma coincidência das próprias características físicas da ruína com a estética do pitoresco e também da ruína enquanto símbolo dos valores dessa estética. 63. CARENA, Carlo, Ruína- Restauro, p.111. 64. MONTEIRO, Ana – O Tema da Ruína na Obra de Souto de Moura, p. 5. 7. RUÍNA | PAISAGEM | MEMÓRIA | LUGAR
Pousada Santa Maria do Bouro, arquiteto Eduardo Souto Moura.055|054|
| 81 Na ruína Observando, na obra de Eduardo Souto Moura, a recuperação da Pousada de Santa Maria do Bouro e da Alfandega do Porto, podemos reconhecer a ideia de que fazer novo não significa alterar tipologias ou a própria implantação, mas sim “... dar continuidade, para aproveitar, como que por economia de meios compensada pela qualidade dos materiais e do desenho de detalhe.”77 A linguagem adotada é, portanto, de origem moderna, uma vez que as técnicas não são as do passado (nem tal faria sentido). Aproveita-se, assim, do existente a sua carga histórica, assumindo-a ao exaltar a ruína como se esta permanecesse intacta, apesar de toda a transformação e manipulação. Passamos a ter um novo edifício que mantém, “sempre”, a sua essência do passado. ... Ruskin exigirá quatro ou cinco séculos de corrosão para considerar um edifício no auge da sua importância. 78 A ruína, enquanto “percurso” natural de todos os edifícios, no sentido da perfeição e integração na natureza, é encarada como um processo que “não deve ser interrompido, nem acelerado”79. No projeto da Pousada de Santa Maria do Bouro, Souto Moura realça e defende a imagem de “fim” ao invés do restauro por completo. Uma “morte” que significa a aproximação à Natureza, a um estado de perfeição e completa pertença: “Um crepúsculo que indica fim e princípio, reciclagem, integração no natural, anonimato.”80 [054 | 055] Acontece que Souto Moura, nas obras da Casa de Baião, de Santa Maria do Bouro e da Alfandega, deixando o existente “incólume” ou construindo dentro dele, mantém a vontade de deixar o existente naquele estado de evolução. 77. Costa, Alexandre – Reconhecer e Dizer. p. 73. 78. CARENA, op. cit., p. 119. 79. CASTRO, op. cit., p. 73. 80. CASTRO, idem. RUÍNA
Casa em Baião, arquiteto Eduardo Souto Moura.057|056| Estação do metro 24 de Agosto, arquiteto Eduardo Souto Moura.058|
| 83 Ao lado da ruína Sob a influência de Eduardo Souto Moura escolhemos a obra de Baião como exemplo de uma abordagem à ruína: uma abordagem que passa por reconhecer a ruína no fim de um ciclo, onde o edifício atinge o seu estado maior, porque a ruína deixa de ser Arquitetura e passa a ser Natureza. Neste caso a construção está “ao lado” da ruína, passando a última a fazer parte da casa, mas como jardim de inverno. A ruína é, de facto, apenas consolidada, mas manteve toda a aparência de abandono e de desgaste do tempo, assumindo um caracter fundamentalmente contemplativo. A Natureza consome este espaço, absorve-o com a vegetação, até que qualquer parte do muro e das paredes da antiga casa deixem de ser visíveis. Nesta obra encontramos a intenção de manter o processo natural da ruína até esta se tornar parte da Natureza; encontramos também a vontade de oferecer uma “morte” digna à ruína, deixando-a ao cuidado das intempéries. A ruína não é usada como matéria operativa de projeto nem é uma estrutura inventada por Souto Moura, é apenas consolidada pelas suas características, servindo de jardim fechado, mas que se destaca, principalmente, pelo caráter de ruína contemplativa. [056 | 057] Podemos ainda referir a ruína contemplativa, da Estação do Metro do Campo 24 de Agosto, pois esta foi consolidada e disposta numa espécie de pódio, que a eleva ligeiramente acima do nível do chão; foi reconhecida a necessidade e aproveitada a oportunidade de preservá-la e expô-la no próprio espaço da estação, uma vez que correspondia a elementos com interesse para a memória coletiva da cidade e que se encontrariam, deste modo, facilmente acessíveis à população [058]. A ruína adquire, por isso, nesta situação, um papel evocador de um passado concreto da história da cidade, e está, também, relacionada com o caráter daquele lugar. RUÍNA
8. REFLEXÃO SOBRE O LUGAR E A RUÍNA
Vão da ruína do Sanatório Albergaria.059|
| 87 Uma reflexão sobre o “lugar” permitiu identificar quais os atores que ainda mantêm a nostalgia desta obra abandonada, passados quase cem anos. Do Sanatório Albergaria, cujo programa nunca estivera em funções, e por isso, nunca servira a vida humana, o que resta são os seus fragmentos, a paisagem e o tempo. Para a construção de um nova existência neste passado é necessário que a sua identidade e memória sejam transportadas para uma nova realidade. Nesse aspeto, foram encontrados testemunhos que comprovam o grande significado do “grande Sanatório Albergaria”81. Alguns dos atuais habitantes de Cabeço de Montachique relembram o motivo pelo qual os seus pais e avós se fixaram neste lugar: pois este representava uma esperança de cura da doença da Tuberculose para os seus familiares, que, apesar de não ter sido finalizado, continua a ser lembrado como o símbolo e o ícone da localidade. A existência de fontes e de casas de saúde, que pontuam o caminho entre a ruína e o velho centro da localidade, comprova, mais uma vez, que Cabeço de Montachique era conhecido por ser uma estação de cura, cujo reconhecimento está representado pela nostálgica ruína do Sanatório Albergaria. Esta simbologia e esperança de cura, ainda muito presente nos “bons ares” de Cabeço de Montachique, foram o ponto de arranque para encontrarmos a identidade a dar a este lugar. Depois de percorrer o lugar, conversar com habitantes locais e com o atual proprietário da ruína, bem como pela reflexão feita (depois de toda a pesquisa), emergiu uma particular imagem da ruína naquele lugar. Em síntese, a ruína representa a identidade perdida de Cabeço de Montachique, uma localidade com fins terapêuticos que caiu no esquecimento, a par do abandono do projeto do sanatório. Contudo continua a pairar no ar uma enorme vontade em trazer de volta o velho ex-libris de Cabeço de Montachique, a fim de lhe proporcionar o devido valor, mas com uma nova funcionalidade. Assim, a ruína do Sanatório Albergaria “assume-se” como um símbolo de memória, tanto para aqueles que a recordam como para aqueles que a desconhecem, e a arquitetura tem a imensa capacidade para evocar a memória e as histórias do passado, determinantes de qualidade deste fenómeno. 81. Expressão utilizada por um habitante local. 8. REFLEXÃO SOBRE O LUGAR E A RUÍNA
9. CASO PRÁTICO PROJETO
Contemplação da ruína.064|
| 97 Depois de levantadas algumas questões relativas à forma como encarar o proje- to, concluímos que a ruína do Sanatório Albergaria, mais do que alcançar uma resposta, pode levantar questões que, de algum modo, contribuiem para pôr em prática alguns dos valores teóricos apresentados até ao presente momento neste trabalho. Interessa-nos, assim, projetar para um lugar que perdeu a sua identidade, procurando uma proposta que vise a valorização da ruína do Sanatório Albergaria. Consideramos que através deste projeto é possível trazer de novo uma identidade ao lugar e reconhecer o valor histórico e cultural da ruína. Assim sendo, o tema do projeto passa por respeitar a história do edifício, pois, passados quase cem anos de abandono, a ruína atingiu o seu estado maior, fazendo parte da paisagem e da natureza e deixando, “ (...) de ser Arquitetura e passar a ser Natureza.”83 Neste sentido, e na perspetiva de respeitar a importância que a ruína conquistou ao longo destes anos, propomos mantê-la intacta, criando “ao seu lado” uma nova construção. Assim, a condução do projeto vai seguir o rumo “projetar ao lado” da ruína, tornando-se esta a principal premissa da proposta de intervenção; o que faz com que o tema seja o de contemplação da ruína. 83. Perret Cit. por MOURA, Eduardo - A Ambição à Obra Anónima. p. 32. CASO PRÁTICO Tema
Desenhos relativos à estratégia de projeto.065|
| 99 No primeiro momento de abordagem ao projeto clarificam-se as ideias base (essenciais) que acompanharão o projeto, cujo desenvolvimento sofrerá forçosamente alterações no seu desenho. A estratégia do projeto presupõe, assim, o respeito pela ruína e pela lógica de paisagem. Estas duas premissas estiveram presentes ao longo do processo projetual, tendo sido elas as grandes motivadoras do seu desenvolvimento. A ideia de manter a ruína integrada na paisagem, com a construção de um novo edifício ao seu lado, obriga a desenvolver um pensamento e desenho que as mantenha integradas no terreno e, sobretudo, que potencie a sintonia do conjunto. Neste sentido, fazer do novo edifício parte integrante da paisagem, não afectando a atmosfera da ruína, leva, num primeiro e único gesto, à criação de um socalco que a coloque na cota mais elevada do terreno. Com esta manipulação do terreno pretende-se que a construção se encaixe no socalco, tal como “Uma ‹‹casa portuguesa›› integrada na paisagem, quer dizer, enterrada na paisagem (...)”84. Esta integração concretiza-se através da relação da construção com o terreno, uma vez que esta se assume como parte integrante deste. A importância da relação com a paisagem é essencial como premissa do projeto, uma vez que se pretende valorizar a ruína. A nova intervenção, pretende-se integrada, “invisível” e, de certo modo, discreta. Pretende-se que não perturbe a presença da ruína, elemento já pertencente ao lugar, de forma a manter o seu caráter, valorizando a pré-existência e tornando-a no elemento de destaque. Quando observada a partir da cota superior, onde pousa a ruína, a nova construção não revela a sua presença, senão através da elevação dos muros (parapeitos) do socalco. Pretende-se que a cobertura vegetal deste socalco permita que a nova construção se funda com o resto do terreno. Deste modo, o elemento de destaque a partir de qualquer ponto da paisagem é, precisamente, a ruína, cujas paredes inacabadas se elevam sobre o terreno e atribuem a importância máxima. A este propósito, pode referir-se, novamente, o tema da invisibilidade da intervenção. É preciso fazer chegar o público (da ruína) à ruína e, nesse sentido, propõe-se uma comunicação com a estrada nacional, sendo, mais uma vez, necessário manter a mesma lógica de cuidado com a paisagem: ou seja criar uma transição suave 84. MOURA, Eduardo, Vinte e Duas Casas. MILEIRO, Ana Vaz; AFONSO, João; NUNES, Jorge (ed.) Lisboa, Ordem dos Arquitetos, 2006, p. 61. CASO PRÁTICO Estratégia
entre o automóvel e o acesso pedonal à ruína, sem que isso traga gestos de “brutalidade” e destruição da paisagem. No entanto, com uma abordagem de certa forma distinta da anterior, onde o terreno é moldado “à vontade” do projeto, desenha-se um percurso que acompanha a topografia natural do terreno e que se vai desenvolvendo ao “seu sabor”. Sem alterar a sua topografia, propõe-se um percurso que destaque esta viagem ao passado, contrastando com a rigidez e “peso” da ruína. Uma vez que a ruína conta a sua própria história através da evocação às memórias do passado, pretendemos, também, trasportar para este percurso um conjunto de elementos que relembrem ou reinterpretem essas mesmas memórias que, além de ajudarem a enquadar este percurso na paisagem, envolvam o visitante do projeto numa atmosfera de memórias e reinterpretações do passado, tornando, ainda mais rica, esta viagem até à ruína.
| 101CASO PRÁTICO
Esquisso do projeto066|
| 103 Exposta a estratégia do projeto, onde estão descritas as ideias base, passamos agora a explicar os gestos consequentes dessa mesma estratégia. Esta descrição do projeto está divida em três fases, correspondentes às suas três fases de evolução que se encontram acompanhadas de desenhos e maquetas de trabalho. Através desta descrição e divisão do projeto em diferentes fases, queremos uma exposição desse mesmo processo de forma a expor e explicar os vários momentos pelos quais o projeto passou, e de que modo contribuíram para a sua evolução, até ser atingida a estabilidade e harmonia entre os seus diferentes elementos.Tem de ser entendido o caminho percorrido até à estabilização e solidez do projeto, uma vez que se partiu para o desenho, sem uma ideia de programa. A estratégia surgiu de uma vontade meramente paisagística, e com base em princípios teóricos adquiridos ao longo do trabalho. A vontade em preservar a ruína e construir um socalco que a eleva na paisagem, assim como um percurso que nos insere desde logo numa atmosfera do passado, foram os pontos de partida deste projeto. O programa surge mais tarde, decorrente de um conjunto de desenhos, maquete e diálogo com o orientador, que levaram a uma solução de programa que preenche todos os princípios de projeto até então defendidos. A partir do momento em que o programa está encontrado, o projeto ganha outra força e novas formas. A estratégia consolida-se, torna-se mais fácil ouvir e entender os principais problemas do projeto. Pode-se assim dizer, que se partiu para este projeto, através de uma intuição, de um gesto sem compromisso para com um programa, de um conjunto de princípios descritos ao longo do trabalho, que visam a manutenção e preservação da paisagem e memória do lugar. Apesar da introdução do programa a meio do processo de trabalho, o projeto não fugiu das suas linhas condutoras, assumindo-se assim a ruína do Sanatório Albergaria e a paisagem, como os elementos mais influenciadores e estruturantes deste trabalho. CASO PRÁTICO Projeto
Desenho processual.067| Maqueta da 1ª fase do projeto - relação do socalco com a ruína.068|
| 105 Esta fase inicial do projeto está caracterizada por um conjunto de intenções teóricas, a partir das quais se pretende dar forma a um novo edifício que apoia a ruína. A ruína é mantida e preservada mas o terreno será alvo de intervenções, tornandose na primeira preocupação projetual. A ideia de manter “natural” a intervenção, afetando o mínimo possível a paisagem, para reforçar essa naturalidade, é o principal foco desta primeira fase: onde se destaca, também, alguma despreocupação para com o programa. Com o objetivo de dar resposta à estratégia de projeto (preservar a ruína) o primeiro gesto surge precisamente no elemento que lhe está mais próximo: a criação do socalco. Como uma das primeiras intenções do projeto, parece intuitiva e óbvia: uma linha paralela à ruína, que a antecede e lhe oferece uma frente a uma cota superior. Com a criação deste socalco, o terreno sofre alterações e altera-se a imagem da paisagem com a sua divisão em duas cotas (diferença de quatro metros de altura). O objetivo passa, agora, por tornar invisível e natural esta alteração topográfica (tal como na Casa em Baião, o faz Eduardo Souto Moura). Pretende-se uma imagem de terreno contínua, sem diferenciação do que é novo, ou do que ja lá existia. Assim, a ideia passa por transformar esta plataforma superior num espaço relvado, estando apenas visível a continuação do muro do sucalco que funciona como parapeito. Temos, assim, uma plataforma que dá frente à ruína, que permite que esta se mostre na paisagem, e se coloque num lugar de destaque. A ideia de “naturalizar” a intervenção no terreno tem como objetivo, não só a integração na paisagem, mas, sobretudo não retirar valor de destaque à ruína. Ainda sem ideia de programa, a preocupação passa agora por transportar os visitantes da cota inferior até à cota superior da ruína; criam-se assim, dois acessos verticais nos topos do socalco: um, em forma de rampa, que se desenvolve paralelamente à parede e, outro, em escada que se “agarra” ao terreno em forma de “L”. Apesar da despreocupação programática, é necessário pensar como se desenvolveria um conjunto de espaços no interior deste socalco, pelo que se desenha uma recepção, uma livraria/ loja e uma instalação sanitária, com o intúito de perceber até que ponto esta estratégia de paisagem funcionaria como um edifício. É, assim, possível compreender pela maqueta [068] que a distância do socalco em relação à ruína, e o seu comprimento, são ainda fatores a ser de novo considerados, já que a área subterrânea parece ser pequena para albergar um programa mais denso. CASO PRÁTICO 1ª Fase
Primeiro desenho do interior do solcalco - organização do programa.075|
| 113 Destinado a receber grupos de crianças, este novo edifício faz-se acompanhar de um programa que, pensado na lógica do lugar, tem de servir todo a região, crianças e adultos, estudantes, turistas, etc. Este novo edífício receberá as energias vindas do exterior, absorvendo-as “debaixo” da ruína, e conduzindo-as, posteriormente, até à cota superior. E é nesta lógica de apoio à ruína e de público que surge o seguinte programa: Zonas Comuns Hall/ Recepção 80 m2 Foyer 150 m2 Balcão de atendimento e livraria 25 m2 Bar/ Restaurante 60 m2 Instalações Sanitárias (Mulher, Homem, Mobilidade Reduzida) 45 m2 Zona Administrativa Sala de Espera 15 m2 Instalação Sanitária 10 m2 Gabinetes Administrativos (x2) 10 m2 Sala de Reuniões 15 m2 Zonas da Criança Salas de trabalho/ multiusos (x2) 45 m2 Sala de Exposições 100 m2 Auditório 80 m2 O programa constroi-se, assim, sob a lógica de um centro educacional, para que receba excurções ou famílias que pretendam passar um dia, ou parte do dia, num ambiente didático. Este programa, pode também explorar uma relação com o Parque Municipal de Cabeço de Montachique, uma vez que se trata do principal pólo atrativo do local. Além disso, dadas as suas características ambientais e condições para a prática de atividades ao ar livre, pode servir de complemento às atividades que se venham a desenvolver no edifício proposto e na ruína. Nesse sentido, o programa desenvolve-se, primeiramente, com espaços destinados unicamente para a atividades infantis (salas multiusos), onde as crianças podem desenhar, desenvolver atividades manuais, etc. Estas mesmas actividades poderão ser expostas na sala de exposições, também ela dedicada à didática. Este espaço pode, ainda, receber exposições vindas do exterior, uma vez que o programa é pensado para servir a região e, para além das crianças, servir curiosos que se interessem pela prática arquitónica portuguesa e, por sua vez, pela arte. Programa CASO PRÁTICO
Planta do edíficio - desenho consequente de uma discussão com o Professor Luís Viegas.076| Bar da Casa da Música do Porto, arquiteto Rem Koolhaas.077| Desenho do pátio de entrada - relação com percurso e com a ruína.078|
| 115 Tratando-se de uma plataforma didática, de apoio à ruína do Sanatório Albergaria, faz todo o sentido desenvolver um espaço, onde se possa apresentar aos visitantes, em forma de palestra, a história do projeto do Sanatório Albergaria, bem como, as memórias que a ruína transportou até aos dias de hoje. É fundamental, para o visitante da ruína, independentemente da idade, conhecer a sua história. Neste sentido, desenha-se um auditório com 35 lugares, que para além de reunir crianças da visita de estudo, pode também servir os habitantes locais, ou os serviços públicos da região, na realização de reuniões de freguesias ou municipais, palestras, formações etc. Com esta variedade de utilização, pretende-se um edifício que, para além das crianças de todo o país, sirva também os habitantes e serviços locais, à semelhança do papel que o Sanatório Albergaria iria desempenhar, caso tivesse sido finalizado. Pretende-se um edifício dinâmico, que consiga servir o maior número de pessoas possível, para que também se mantenham vivas as memórias da ruína e o lugar de Cabeço de Montachique. Nesta lógica de dinâmica programática, desenha-se um bar/ restaurante para servir os visitantes do centro educacional e os habitantes locais. Este espaço, à semelhança do Bar dos Artistas da Casa da Música do Porto [077], permite o seu uso de forma independente ao programa do edifício, sendo possível, aos habitantes locais frequentarem o bar de forma livre, para estudar, reunir com amigos, etc. Mais uma vez, o programa procura servir, não só os seus visitantes, mas também a localidade. Não se procura apenas um pequeno bar de apoio ao edifício, mas um elemento de dinamização do mesmo. Todos este espaços, em conjunto com as instalações sanitárias e recepção, encontram-se a sul do pátio de entrada, criado precisamente para dividir todas estas atividades, de uma zona mais privada - a zona administravia. A funcionar de forma independente do resto do edifício, a administração encontra-se a norte do pátio, existindo uma ligação interna que a une à recepção. A própria orientação das paredes sofre uma torção, em relação às paredes do resto do edifício, reforcando, ainda mais, esta ideia de corpo autónomo. Esta torção é imposta pela orientação da parede norte do pátio de entrada, que se alinha com o corredor do percurso de chegada. A criação deste pátio, como elemento de recorte no desenho do socalco, para além da função de antecâmara de entrada no interior do edifício, tem também um papel de organização programática [078]. O seu desenho afunilado, permite que o socaldo (ao contrário da fase anterior) sofra uma torção em relação à orientação da ruína, ficando apenas a parede norte deste pátio sob a sua orientação. [078] CASO PRÁTICO
080| Desenho do pátio de entrada - enquadramento visual com a ruína.079| Maqueta da 2ª fase do projeto - torção do socalco para com a ruína.081| Projeto Praça de Lisboa, atlier Balonas Medano - enquadramento visual com a Torre dos Clérigos.
| 117 De caráter intimista, devido ao seu afunilamento, o pátio da entrada, oferece aos visitantes uma atmosfera fechada e aconchegante, que os fará sentir-se já no interior do edifício. No entanto, este ambiente “fechado” é contrariado pela sua abertura para o céu e com o enquadramento criado, de forma axial, com a frente da ruína, que se encontra na cota superior da plataforma. Esta ideia de enquadramento, deve-se à inspiração encontrada no recente projeto da Praça de Lisboa da autoria do Atelier Balonas Medano, onde é criada uma rua pedonal que se enquadra com a Torre dos Clérigos. [080] Este enquadramento criado com a ruína, deve-se também a uma intenção de projeto, que se arrastou desde a primeira fase. Quando criado o percurso de chegada ao novo edifício, a ruína aparece e desaparece, sem nunca se perceber totalmente a sua forma. Neste seguimento, o visitante, depois de percorrer o corredor cober- to, onde não lhe é permitido visualizar a ruína, finaliza o seu percurso com uma vista sobre a mesma. Esta ideia, motivada pelo projeto da Casa de Chá da Boa Nova, impõe, neste trabalho, um certo mistério e, no visitante, uma curiosidade imensa em chegar até perto da ruína (tratando-se os visitantes de crianças, carregadas de curiosidade por tudo), que é reforçada com este último enquadramento, antes da entrada no edifício. Com a inserção do programa no interior do socalco toda a sua frente avançou no sentido contrário ao da ruína, permitindo entender que a ruína necessita de mais espaço livre à sua volta, para não ser “sufocada” pelo novo edifício, como acontecia na fase anterior. Este avanço do socalco reforça também, a ideia de uma varanda que se lança sobre a paisagem. Pode criar-se, assim, um paralelismo com as varandas de cura utilizadas nos sanatórios, que se caracterizavam pela sua exposição solar e vista sobre a paisagem. No entanto, este afastamento do socalco em relação à ruína, fez-se acompanhar de uma torção que cria a sul um afastamento total e a norte uma aproximação tão contrastante, chegando a criar um momento de tensão (consciente) entre o socalco e ruína [076]. Uma vez, afastada da ruína, a zona sul do socalco carece de um elemento de ligação e remate. Desta forma, estende-se ainda mais a sua construção, para dar lugar a um elemento vertical que possa rematar o final do socalco e, de preferêcia, natural, para fazer um paralelismo com “natureza da ruína”. Num primeiro momento, e inspirado pela fotografia da obra Adega Mayor de Álvaro Siza Vieira [082], pensa-se em plantar uma árvore no vértice da plataforma, por forma a encontrar uma harmonia compositiva entre o contruído e a natureza que, neste caso, seria reinterpretada através da transplantação de uma árvore adulta. CASO PRÁTICO
Adega Mayor, aquiteto Álvaro Siza Vieira.082| Casas de Monção, arquiteto João Paulo Loureiro.083| Pavilhão de Portugal, arquiteto Álvaro Siza Vieira.084|
| 119 Contudo, a área inferior desta estenção do socalco destina-se à esplanada do bar/ restaurante e a um jardim interior, que se encontra descaraterizado. Desta forma, pensa-se em rasgar a plataforma superior, criando uma abertura circular de onde surge luz zenital e de onde surge também um pinheiro manso. Esta árvore “rasga” e ultrapassa esta abertura, como se a natureza invadisse a nova contrução, criando, assim, um paralelismo com as plantas que cobriram as paredes da ruína. Este rasgo na plataforma, assim como a entrada de luz através da mesma, cria uma imagem semelhante à encontrada no projeto das Casas de Monção do arquiteto João Paulo Loureiro [083]. Este rasgo na plataforma superior e a opção do pinheiro manso (como elemento vertical de remate da zona sul do projeto) criam uma harmonia compositiva entre a ruína e o novo edifício. Encontrada, assim, esta harmonia, resta desenhar um alçado para o socalco que mantenha a harmonia entre as partes. Assim sendo, com a inspiração de uma fotografia tirada no terreno, onde a abertura da ruína se evidência, devido à contra luz, desenha-se para o socalco um conjunto de aberturas que mantêm a propoção dos vãos das paredes da ruína. Apenas a abertura mais a sul, que permite a passagem para o jardim da esplanada, assume proporções maiores do que as restantes, de modo a aproximar-se da escala do pinheiro manso e rematar o desenho de alçado. O ritmo criado entre os vãos do socalco deve-se à organização e dimensão dos espaços interiores, mas também a uma gestão entre essa influência interior e um cuidado compositivo da fachada. Tanto a diferença de escala entre a última abertura e as restantes, como o ritmo imposto entre as mesmas, foram consequência de uma memória ainda em criança, aquando da expo 98. A visita ao pavilhão de Portugal ficou sempre marcada na memória, devido à escala e proporções das “portas” de Álvaro Siza [084], servindo, hoje, de inspiração para a composição deste alçado, que encontra numa fotografia do vão da ruína a sua lógica de relação com a paisagem. No entanto, este alçado sofre uma alteração no contacto com o pátio de entrada. Uma vez relacionado com a zona de recepção e entrada do edifício, pretende-se um novo elemento diferenciador, por forma a destacar a entrada e potencializar a relação interior/exterior. Assim sendo, a estratégia de abertura passa, agora, por um grande vão envidraçado, com a altura das outras aberturas, que dobra em ângulo reto até ao fundo do pátio, permitindo a entrada no edifício de forma lateral. Esta entrada, “encontra” no avanço do estrato superior do alçado, em relção ao plano de vidro como mais um factor diferenciador que reforça a sua situação de destaque em todo o socalco. CASO PRÁTICO
Maqueta da 2ª fase do projeto.085| Planta do percurso - desenho consequente de uma discussão com o Professor Luís Viegas.086|
| 121 O percurso, relativamente à primeira fase, sofre uma pequena alteração de estratégia funcional, que acaba por ter muita influência naquilo que é o processo de chegada ao socalco. Apesar destas alterações, as formas das linhas do percurso e a lógica de enquadramentos com a ruína mantêm-se iguais ao que inicialmente foi pensado. O que antes, era um “monte de latas”86 passa, agora, a ser um ponto de paragem, onde o visitante observa o novo edifício e a ruína. O terreiro que estava destinado a receber os automóveis dos visitantes, passa agora a ser um espaço de contemplação, com uma segunda função de plataforma de eventos. É possível assistir a pequenos eventos musicais, lanches, festas de aniversário, actividades desportivas, etc., de forma a dar mais dinamismo ao programa do edifício e a transformar este projeto num espaço multifuncional, que consiga preencher o ano todo com atividades e, por sua vez, manter viva a ruína do Sanatório Albergaria: trazer para este trabalho um pouco do que acontece na Quinta da Conceição, onde se realizam casamentos, festas de aniversário, entre outras atividades. Os lugares de estacionamento passam, agora, a estar distribuídos pela margem da estrada nacional, que contacta com o terreno pertencente ao projeto, e pela primeira linha do percurso que faz o contacto perpendicular com a via pública. Assim, é possivelconsegue-se distribuir de uma forma mais lógica e harmoniosa os carros e autocarros dos visitantes pelo terreno, adequadamente afastados da ruína.[086] 86. Termo utilizado pelo Professor Doutor Luís Viegas, para descrever o terreiro destinado a parque de estacionamento. CASO PRÁTICO
Museu do Louvre - sala sem aberturas para o exterior, apenas uma ténue entrada de uma luz zenital.092| Museu do Côa, arquiteto Camilo Rebelo - relação do auditório com a paisagem.093| Museu do Côa, arquiteto Camilo Rebelo - relação do restaurante com a paisagem.094|
| 129 os diferentes espaços. Este hall de distribuição, de forma alongada e afunilada, encontra a sua extremidade mais estreita no contacto que faz com a recepção, e vai-se abrindo na direção do jardim interior, acabando por se enquadrar com o pinheiro manso e com a paisagem a sul. Para além desta relação com elementos exteriores, e do jogo de enquadramentos, pretende-se que este foyer tenha uma imagem de infância, com a intenção de enquadrar a criança na sua realidade. Numa busca entre velhas memórias, suge uma imagem muito marcante na minha infância, e que ainda hoje recordo sempre que o assunto é abordado. Essa imagem está ligada aos cabides e cacifos onde, no infantário, se colocavam as mochilas, se pousava a lancheira e se trocava de calçado: numa alegria e euforia imensa. Já mais tarde, durante o ensino superior, lembro-me de percorrer o corredor da FAUP com o conjunto de cacifos distribuidos ao longo do mesmo, e a imagem desta velha infância a percorrer-me o olhar. E é precisamente esta imagem que se pretende trasnportar para aquele foyer. Neste sentido, cria-se um conjunto de cacifos ao longo das paredes que separam o foyer das salas multiusos, que permite às crianças sentarem-se, arrumar as suas mochilas e pousar as suas roupas. Assim, oferece-se, não só ao foyer, mas sobretudo ao edifício, um elemento que servirá única e exclusivamente a criança e que permitirá recordar a infância a todos aqueles que por lá passarem. Na sequência dos enquadramentos com a paisagem, encontrados no foyer, pensase em alterar a relação dos espaços, como o bar/ restaurante e salas multiusos, com o exterior: ou seja, a paisagem antes era observada do interior através das pequenas aberturas que limitavam a leitura panorâmica da paisagem, mas agora pretende alterar esta relação, criando espaços interiores com forte ligação ao exterior. Considerando, mais uma vez, a obra do Arquiteto Camilo Rebelo, o Museu do Côa, oferece-se ao restaurante uma vista incrível sobre a paisagem, envolvendo por completo o visitante na realidade exterior [094]. A opção de criar planos de vidro para fortaceler a relação do interior do edifício com a paisagem arrasta consigo consequências tanto na imagem geral do edifício, como na própria estrutura. No caso da estrutura a situação é facilitada com o prolongamento da métrica, anteriormente definida, e com a colocação de pilares nesse mesmo prolongamento. Esta linha de pilares encontrada ao longo dos diferentes espaços está recuada em relação ao plano de vidro, tornando-se menos perceptível a sua presença do exterior. Já com uma consciência de alçado e ritmo da caixilharia ao longo destes CASO PRÁTICO
| 131CASO PRÁTICO Planta de implatação096 | N
Destaque do percurso entre a estrada nacional e o pátio de entrada.097| N
| 133 planos de vidro, faz-se coincidir o caixinho, com o eixo de cada pilar, para minimizar a sua presença em segundo plano. Em relação ao alçado cria-se um primeiro estrato de vidro (onde os verdes da paisagem e o azul do céu se refletem) e um segundo extrato em betão, que se enquadra com a pedra da ruína. Em relação ao desenho dos caixilhos, em madeira, cria-se um ritmo acima dos 2 metros, para alongar o edifício e para aumentar a superfície de vidro presente neste extrato. A escolha destes três materiais para a composição do alçado (vidro, betão e madeira) deve-se à harmonia criada entre si, bem como, à relação de proximidade e integração que estes criam com a paisagem: o vidro pelos reflexos, o betão pelo paralelismo criado com a pedra da ruína e a madeira por se tratar de um material natural existente em qualquer paisagem e, neste caso, presente no pinheiro manso. O alçado da frente do edifício apresenta a mesma lógica de composição apesar de, na extremidade dedicada à administração, se desenhar um pequeno miradouro que, à semelhança do pinheiro manso, remata a construção. Este miradouro serve, também, como ponto de observação da paisagem e da ruína, dada a sua localização estratégica que oferece ao visitante uma visão privilegiada da ruína que se enquadra com a colina, a sul. Localizada ainda mais a norte, e deslocada do edifício, encontra-se a rampa de acesso público à cota superior do socalco. Esta rampa desenvolve-se, anteriormente, adjacente e paralelamente ao edifício e passa agora a autonomizar-se, surgindo como um elemento solto no meio do prado, sem qualquer relação (em termos de orientação) com a ruína ou com o novo edifício. Pretende-se soltar esta peça no terreno, por forma a não perturbar a harmonia criada entre o novo edifício e a ruína: uma vez que o próprio socalco, nesta zona do terreno, já conquistou o equilíbrio entre o novo e o velho, com a criação do pátio. Por fim, passamos, mais uma vez, à reorganização do percurso [097]: num primeiro momento, reorganizam-se os lugares de estacionamento ao longo da primeira linha deste percurso, passando agora a organizar-se na sua margem sul, para que o murete a norte se prolongue até ao terreiro; são inseridos corredores de árvores ao longos dos lugares de estacionamento e, sob estas árvores, criam-se passeios, que permitem o acesso de pessoas ao terreiro. A segunda alteração passa por autonomizar, ainda mais, a peça destinada ao corredor de acesso ao pátio de entrada do edifício. O muro de pedra, que antes se desenvolvia paralelamente a este corredor passa agora a desenvolver-se de forma CASO PRÁTICO
Maqueta da 3ª e última fase do projeto.099|098|
| 135 convergente, afastando-se do corredor no contacto que desenvolve com o terreiro. Esta alteração permite ao visitante deambular entre as suas aberturas e oferecer ao mesmo diferentes experiências de percurso. CASO PRÁTICO
10. CONSIDERAÇÕES FINAIS
| 145 CANNATÀ, Michele – Construir no tempo: Souto Moura, Rafael Moneo, Georgio Grassi. Lisboa: Estar, 1999. CARENA, Carlo - Ruína- Restauro, in Enciclopédia Einaudi –Memória-Histó- ria. Porto: Imprensa Nacional Casa Moeda, 1985. Vol. 1. FRANÇA, J. – A arte em Portugal no século XIX. 3ª Edição. Lisboa: Bertrand, 1966. Vol. 1. GOFF, Jacques –História e Memória. 1ª Edição. Campinas: SP Editora da UNICAMP, 1990. KAHN, Louis I. - Louis I. Kahn, Conversaciones con estudiantes. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2002. MONEO, Rafael – Inquietud Teórica Y Estrategia Proyectual: en la obra de ocho arquitectos contemporâneos. Barcelona: Actar D, 2004. ISBN 978-849-5951-68 7 MOURA, Eduardo – Vinte e Duas Casas. 1ª Edição. Lisboa: Ordem dos Arquitetos e Caleidoscópio, 2005. PORTAS, Nuno - A Cidade como arquitectura. 4ª Edição. Lisboa: Livros Horizonte, 2011. ISBN 978-972-2414-63-0. PORTAS, Nuno; GOMES, Paulo - Casa de Chá da Boa Nova - Álvaro Siza Vieira 1958 - 1963. 1ª Edição. Lisboa: Editorial BLAU, 1992. ISBN 560107300371. PROENÇA, Raúl - Guia de Portugal. 4ª Edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011. Vol. 3. ROSSI, Aldo – Autobiografia científica. 2ª Edição. Barcelona: Gustavo Gilli, 1998. ISBN 978-842-5217-47-0. TAVARES, André – Arquitetura Antituberculose: Trocas e tráficos na construção terapêutica entre Portugal e Suíça. Manuel Mendes (dir.). 1ª Edição. Porto: FAUP Publicações, 2005. ISBN 972-9483-73-6. TÁVORA, Fernando – Da organização do Espaço. 3ª edição. Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 1996. ISBN 972-9483-22-1. FONTES BIBLIOGRÁFICAS MONOGRAFIAS
VIEIRA, Álvaro Siza - Imaginar a Evidência. Lisboa: Edições 70, 2009. ZUMTHOR, Peter - Atmosféras: Entornos Arquitetónicos - As coisas que me rodeiam. Barcelona: Gustavo Gili, 2009. PROVAS ACADÉMICAS CASTRO, Carlos – Fragmento: representação da memória na arquitetura. Por- to: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2005/2006. Prova Final para Licenciatura em Arquitetura. MAIA, Daniel - Abrigo dos Pequeninos desenhar espaços para crianças - Proje- to de recuperação do espaço infantil das crinças das ilhas de S. Vitor. Porto: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2014. Dissertação de Mestrado. MONTEIRO, Ana – O Tema da Ruína na Obra de Souto de Moura: Uma reflexão sobre o valor da memória na prática do projeto. Porto: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2008/2009. Prova Final para Licenciatura em Arquitetura. PINA, Ana – A ruína histórica: qual o papel na cidade contemporânea?. Porto: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2003/2004. Prova Final para Licenciatura em Arquitetura. TEIXEIRA, Luís: Banreses uma ruralidade abandonada: da identidade do lugar à memória da ruína. Porto: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2013. Dissertação de Mestrado. PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS BAIRRADA, Eduardo – Arquiteto Rosendo Carvalheira (1863-1919), Um Filho Adoptivo de Fernando Herculano na Arte de Construir. Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes. 3ª Série, Nº 3 (1981), p. 93- 107. A Arquitetura Portuguesa. Nº 7/ 9 (1918). A Construção Moderna. Nº 12 (1900). COSTA, Alexandre – Reconhecer e Dizer. in Architécti #5: Revista de Arquitetura e Construção. Lisboa: Trifório, 1990.
| 147FONTES BIBLIOGRÁFICAS EL CROQUIS 68/69+95 - Álvaro Siza Vieira 1958 -2000. Madrid, El Croquis Editorial, 2000. EL CROQUIS 146 - Souto de Moura 2005-2009. Madrid, El Croquis Editorial, 2009. EL CROQUIS 154 - Aires Mateus 2002-2011. Madrid, El Croquis Editorial, 2011. GAVIÃO, Andreia [et. al] – Filantropia e Arquitetura: Da 1ª República ao Estado Novo. Revista Arquitetura Lusíada. ISSN 1647-9009. Nº 2 (2011), p.21-31. J.A. Nº 217. Lisboa: Centro Editor Livreiro da Ordem dos Arquitetos, Outubro, 2004. ENTREVISTAS MOURA, Eduardo – A ambição à Obra Anónima. [entrev.] Paulo Pais. Lisboa, Outubro de 1993. in Trigueiros, Luís, [ed.]. 2000. Eduardo Souto Moura. Lisboa: Editorial BLAU, 2000.
| 149 CRÉDITOS DE IMAGENS 001 | http://www.tvciencia.pt/tvccat/pagcat/tvccat02.asp?varcota=CDI-3502-1942&tit=Carta%20 Militar%20de%20Portugal%20:%20Bucelas%20(Loures) 002 | Imagem editada através de captura de ecrã https://www.google.pt/maps/place/Cabeço+de+Montachique,+2670-741+Lousa/@38.8052716,-9.1584306,35817m/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0xd1ed4cd1f48ad- d3:0x4411b349a208b999 003 | Idem 004 | Arquivo pessoal 005 | Idem 006 | Idem 007 | Idem 008 | Idem 009 | Idem 010 | GAVIÃO, Andreia [et. al] – Filantropia e Arquitetura: Da 1ª República ao Estado Novo. Revista Arquitetura Lusíada. ISSN 1647-9009. Nº 2 (2011) 011 | Idem 012 | http://www.arcadenoe.pt/forum/viewtopic.php?p=1338020 013 | GAVIÃO, Andreia [et. al] – Filantropia e Arquitetura: Da 1ª República ao Estado Novo. Revista Arquitetura Lusíada. ISSN 1647-9009. Nº 2 (2011) 014 | http://www.arcadenoe.pt/forum/viewtopic.php?p=1338020 015 | GAVIÃO, Andreia [et. al] – Filantropia e Arquitetura: Da 1ª República ao Estado Novo. Revista Arquitetura Lusíada. ISSN 1647-9009. Nº 2 (2011) 016 | Idem 017 | Idem 018 | Idem 019 | Idem 020 | Idem 021 | Idem 022 | Idem 023 | Idem 024 | BAIRRADA, Eduardo – Arquiteto Rosendo Carvalheira (1863-1919), Um Filho Adoptivo de Fernando Herculano na Arte de Construir. Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes. 3ª Série, Nº 3 (1981) 025 | Idem 026 | Idem 027 | Idem 028 | TAVARES, André – Arquitetura Antituberculose: Trocas e tráficos na construção terapêutica entre Portugal e Suíça. Manuel Mendes (dir.). 1ª Edição. Por- to: FAUP Publicações, 2005. ISBN 972-9483-73-6 029 | Idem 030 | Idem 031 | Idem 032 | Idem 033 | Idem 034 | Idem 035 | Idem 036 | Idem 037 | Idem 038 | Idem 039 | Idem 040 | A Arquitetura Portuguesa. Nº 7 (1918) 041 | Idem 042 | Idem 043 | Arquivo Pessoal 044 | Idem 045 | Idem 046| Idem 047| Idem 048 | Idem 049 | Idem 050 | http://static3.podiumfoto.com/fotos/50241c9138db9.jpg 051 | https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/94/73/3c/ 94733c29588590ad4b9ee21fcfa942af.jpg 052 | https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/ 3d/2d/1f/3d2d1fb216878584da976a54c405ab04.jpg 053 | http://homelessmonalisa.com/arquivo/ sampling/Siza/casabeiresdetalhes4.jpg 054 | https://www.pinterest.com/pin/364932376032065932/ 055 | http://farm1.static.flickr.com/98/238869108_3684c245cb.jpg 056 | http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=585295 057 | Idem 058 | http://br.blouinartinfo.com/news/story/858849/ entrevista-diretor-thom-andersen-vira-suas-lentes-para-o# 059 | Arquivo pessoal 060 | Imagem editada através de captura de ecrã https://www.google.pt/maps/place/Cabeço+de+Montachique,+- 2670-741+Lousa/@38.895567,-9.1884053,912m/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0xd1ed4cd1f48ad- d3:0x4411b349a208b999 061 | Imagem editada através de captura de ecrã https://www.google. pt/maps/place/Cabeço+de+Montachique,+2670-741+Lousa/@38.8949627,-9.1765189,191a,20y,2 76.5h,82.5t/data=!3m1!1e3!4m2!3m1!1s0xd1ed4cd1f48add3:0x4411b349a208b999 062 | Arquivo pessoal 063 | Idem 064 | Idem 065 | Idem 066 | Idem 067 | Idem 068 | Idem 069 | http:// arquiscopio.com/archivo/wp-content/uploads/2013/06/130611_Siza_BoaNova_AereaBN.jpg CRÉDITOS DE IMAGENS
070 | Arquivo pessoal 071 | EL CROQUIS 154 - Aires Mateus 2002-2011. Madrid, El Croquis Edi torial, 2011 072 | Arquivo pessoal 073 | Idem 074 | Idem 075 | Idem 076 | Arquivo pessoal 077 | http://media.iolnegocios.pt/lifecooler/787b586d9c885bb2b74873d6cd65a082/500x329/ 078 | Arquivo pessoal 079 | Idem 080 | http://4.bp.blogspot.com/-g_lxgzV8XAA/Uo0ElVdYBXI/ AAAAAAAAKG4/K8hmnLP0zLk/s1600/portugal+4+020.JPG 081 | Arquivo pessoal 082 | https://barrelsecrets.wordpress.com/2012/03/27/s-o-w-part-17-adega-mayor/#jp-carousel-871 083 | http://www.joaopauloloureiro.com/albums/moncao/ 084 | EL CROQUIS 68/69+95 - Álvaro Siza Vieira 1958 -2000. Madrid, El Croquis Editorial, 2000 085 | Arquivo pessoal 086 | Idem 087 | Idem 088 | Idem 089 | Idem 090 | Idem 091 | Idem 092 | http://www.complexomagazine.pt/wp-content/uploads/2013/04/louvre5.jpg 093 | http://dourovalley.eu/Multimedia/15/46/coa7_1024x768.jpg 094 | http://guiastecnicos.turismodeportugal.pt/pt/museus-monu- mentos/ver/Museu-do-Coa 095 | Arquivo pessoal 096 | Idem 097 | Idem 098 | Idem 099 | Idem
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ANEXOS