Relatório sobre a unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português
Abstract
Relatório de unidade curricular apresentado à Faculdade de Letras da Universidade do Porto para obtenção do título de Agregado em Linguística.
Full text
JOÃO MANUEL PIRES DA SILVA E ALMEIDA VELOSO Professor Auxiliar (Contratado em Funções Públicas por Tempo Indeterminado) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Departamento de Estudos Portugueses e de Estudos Românicos, Secção de Linguística) RELATÓRIO SOBRE A UNIDADE CURRICULAR DE ESTRUTURAS FONOLÓGICAS E MORFOLÓGICAS DO PORTUGUÊS (Apresentado à Faculdade de Letras da Universidade do Porto como requisito parcial para a obtenção do título de Agregado em Linguística – Decreto-Lei nº 239/2007, 19.06.2007, DR, I Série, nº 116, artº 5º, alínea b), artº 8º, nº 2, alínea b)) PORTO Faculdade de Letras da Universidade do Porto Fevereiro de 2010
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3 ÍNDICE Principais abreviaturas e convenções seguidas no texto…………………………………5 INTRODUÇÃO………………………………………………………………………..7 PRIMEIRA PARTE: Considerações prévias acerca da unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português e do seu enquadramento geral 1. Breve apresentação da unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português………………………………………………………………..15 1.1. Inserção curricular da disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português nos cursos de licenciatura da Faculdade de Letras da Universidade do Porto…………...15 1.2. Identificação das principais áreas temáticas abordadas pela disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português………………………………………………….…..17 1.3. Motivação da escolha da disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português para a elaboração deste relatório……………………………………………………….18 1.4. Breves considerações sobre o ensino da linguística em licenciaturas partilhadas com outras áreas……………………………………………………………21 1.4.1. As disciplinas de linguística e o desenvolvimento de conhecimentos aprofundados sobre a estrutura da(s) língua(s) e de competências metodológicas avançadas no domínio do raciocínio científico………………………………………......25 1.4.2. As disciplinas de linguística e o desenvolvimento de competências profissionalizantes no domínio do ensino de línguas…………………………………….31 2. Enquadramento histórico: o ensino e a investigação em linguística na Faculdade de Letras da Universidade do Porto………………………………………..37 2.1. Licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas, de 1977 a 1987: Fonética e Morfologia do Português (disciplina anual)………………………………………….38 2.2. Licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas – Ramos Educacional, Científico e de Tradução, de 1987 a 2002: Linguística Portuguesa I (disciplina anual)…………………..42 2.3. Licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas, regime semestralizado, de 2003 a 2007: Linguística Portuguesa III, Linguística Portuguesa IV e Fonética, Fonologia e Morfologia do Português (disciplinas semestrais)…………………………………...43 2.4. Licenciaturas decorrentes do “Processo de Bolonha”, a partir de 2007 (Ciências da Linguagem; Línguas, Literaturas e Culturas; Estudos Portugueses e Lusófonos): Fonética, Fonologia e Morfologia e Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português………………………..48 2.5. Cursos de pós-graduação…………………………………………………………….. 49 2.6. Considerações finais…………………………………………………………………..52 SEGUNDA PARTE: Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português: Uma proposta desenvolvida de trabalho 3. Considerações preliminares sobre a proposta central deste relatório……………………..59 3.1.Princípios gerais da proposta desenvolvida nos capítulos seguintes .……………………59
4 3.2. Breve definição de partida dos diversos perfis de estudantes que frequentam a unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português em termos de formação linguística prévia………………………………………………………………61 3.3. Planeamento vs. concretização do projecto curricular apresentado neste relatório……..…………………………………………………………....66 4. Objectivos da disciplina……………………………………………………………...……67 5. Programa da disciplina………………………………...…………………………………..91 5.1. Justificação prévia…………………………………………………………………...…..91 5.2. Proposta de programa para a unidade curricular (semestral) de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português…………………………………………………………... ……..….95 5.3. Considerações sobre o programa proposto para a unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português e algumas primeiras indicações metodológicas Sobre a sua implementação em aula……………………………………………………..….103 6. Bibliografia……………………………………………………………………….……...115 7. Planificação das aulas………………………… ………………………………...………137 7.1. Apresentação geral da planificação proposta………………………………...………... 137 7.2. Distribuição das matérias a explorar pelas 15 semanas lectivas do semestre…...……….141 7.3. Exemplos de exercícios para resolução nas aulas práticas e de temas de desenvolvimento para estudo individual……………………………………………..….155 7.4. Textos propostos para os trabalhos de leitura orientada/discussão nas sessões de orientação tutorial…………………………………………………………………….....171 8. Métodos de trabalho a desenvolver na disciplina…..…………………………………......177 9. Modelo de avaliação….…………………………………………………………...……...181 9.1. Avaliação distribuída…………………………………………………………………...182 9.2. Avaliação final……………………………………………………………………...…..189 TERCEIRA PARTE: Observações finais Observações finais…………………………………………………………………………191
5 PRINCIPAIS ABREVIATURAS E CONVENÇÕES SEGUIDAS NO TEXTO Abreviaturas AFI Alfabeto Fonético Internacional CLUP Centro de Linguística da Universidade do Porto ECTS European Credit Transfer and Accumulation System EFMP Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português EPL Estudos Portugueses e Lusófonos FCT Fundação para a Ciência e a Tecnologia FFMP Fonética, Fonologia e Morfologia do Português FLUP Faculdade de Letras da Universidade do Porto FMP Fonética e Morfologia do Português LLC Línguas, Literaturas e Culturas LLM Línguas e Literaturas Modernas OT orientação tutorial SPE The Sound Pattern of English (Chomsky & Halle 1968) UC unidade curricular UP Universidade do Porto NB: Excluem-se desta chave as abreviaturas de uso mais corrente. Convenções Transcrição fonética e transcrição fonológica As transcrições fonéticas serão sempre apresentadas entre parênteses rectos e recorrendo estritamente aos símbolos e convenções do Alfabético Fonético Internacional na versão publicada em International Phonetic Association. 1999. Handbook of the International Phonetic Association. A Guide to the Use of the International Phonetic Alphabet. Cambridge: Cambridge University Press. As transcrições fonológicas, recorrendo aos mesmos símbolos, serão apresentadas entre barras oblíquas. Nomes de línguas e de disciplinas científicas Os nomes de línguas e de disciplinas científicas serão grafados com minúscula inicial. Nomes de cursos e de unidades curriculares Os nomes de cursos serão grafados em tipo redondo; os nomes de unidades curriculares serão escritos em itálico.
6 Referências bibliográficas As referências correspondentes a cada capítulo serão indicadas no final desse capítulo, em secção não numerada à parte. Quando, a respeito de uma referência bibliográfica, for indicada uma tradução, reedição ou reimpressão, esta indicação significa que a edição usada na preparação do trabalho foi a especificada, mesmo que, no corpo do texto e nas entradas da lista alfabética das referências bibliográficas, se refira geralmente a edição original, por uma questão de contextualização histórica da obra em causa.
7 INTRODUÇÃO Este relatório destina-se a cumprir o requisito exigido pelo artigo 5º, alínea b), do Decreto-Lei nº 239/2007, de 19 de Junho, ou seja, é redigido e apresentado para discussão pública no âmbito das provas académicas para obtenção do título de agregado. No caso vertente, é apresentado à Universidade do Porto para obtenção do título de agregado em Linguística. A unidade curricular sobre que incide o relatório é a disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português, incluída no plano curricular de diversos cursos de licenciatura oferecidos presentemente pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Sendo a sua discussão em provas públicas de agregação o desígnio formal deste documento, o relatório cumpre simultaneamente, do ponto de vista substancial, a função de contribuir para uma reflexão (auto)crítica: (i) sobre o trabalho docente desenvolvido pelo autor nesta e noutras disciplinas da sua área científica (dado que esta unidade curricular se insere num quadro institucional e histórico mais amplo no qual o autor tem participado há vários anos, colhendo dessa participação ensinamentos aplicados transversalmente na docência de várias disciplinas); e (ii) sobre o desenvolvimento futuro dessa experiência adquirida. Por outras palavras: este relatório parte, de forma determinante, de trabalho efectivamente realizado e de experiência adquirida ao longo de vários anos lectivos; concomitantemente, com base numa reflexão acerca desse trabalho e dessa experiência, é sistematizada uma proposta de planeamento e execução de conteúdos, procedimentos e actividades inseridas na disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português. O relatório divide-se em três partes, como passamos a explicar.
8 Na I Parte, que engloba os capítulos 1 e 2, reunimos um conjunto de reflexões gerais que, em grande medida, podem não ter a ver directamente com o planeamento concreto do trabalho a desenvolver na disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português. No capítulo 1, são tecidas considerações preliminares que integram esta disciplina nos correspondentes planos curriculares da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e que identificam os principais vectores temáticos trabalhados. Nesse capítulo, são ainda aprofundados alguns argumentos sobre o papel do ensino da linguística a estudantes inscritos em cursos superiores em que esta não é a única área científica, nem, necessariamente, a área científica predominante. Com efeito, pensamos que um correcto planeamento do ensino oferecido aos estudantes da disciplina (bem como aos estudantes de qualquer outra disciplina da área científica da linguística) só poderá ser bem sucedido se, à partida, houver uma consciência explícita e clara das razões pelas quais se opta pela manutenção desta área como um domínio científico integrado nos vários planos de estudo em que ela se encontra presente. No capítulo 2, é traçado um quadro sumário da inserção histórica desta disciplina (e da linguística em geral) no ensino e na investigação praticados na FLUP ao longo das várias fases da sua existência, por considerarmos que esse percurso poderá explicar, até certo ponto, não só o lugar reservado à linguística nos diversos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade, como também algumas características que consideramos distintivas desse ensino, tais como a abrangência, a pluralidade, a exigência e a profundidade das matérias e das áreas disciplinares contempladas. Transparece das observações antecedentes – e tornar-se-á patente no desenvolvimento do relatório – que a análise que fazemos da articulação da disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português com outras unidades curriculares da Faculdade de Letras da Universidade do Porto não pode restringir-se de forma estanque à reflexão sobre a presença
9 das principais áreas contempladas pelo programa desta disciplina (a fonologia e a morfologia do português, num primeiro plano, e, a um segundo nível, a transcrição fonética, a fonética articulatória e a variação dialectal) na oferta formativa da Faculdade. Tal análise deve estenderse, de forma mais lata, a uma reflexão mais geral sobre a presença de outras áreas da linguística enquanto ciência no plano mais global do ensino e da investigação praticados nesta instituição. É este motivo que explica que a contextualização desenvolvida nos capítulos da I Parte enverede, em certos momentos, pelo campo de uma discussão mais alargada, nomeadamente acerca do estatuto reconhecido à linguística no tocante à formação dos estudantes de vários cursos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, indo tal discussão mais além dos limites mais estritos desta disciplina somente. A II Parte do relatório (capítulos 3 a 9) constitui a proposta pormenorizada do trabalho a desenvolver no âmbito da unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português, em todas as suas vertentes e tendo sempre em mente as principais reflexões desenvolvidas na I Parte. Algumas considerações preliminares sobre a orientação geral e os fundamentos mais específicos dessa proposta são enunciadas no capítulo 3. No capítulo 4, são explicitados e desenvolvidos os objectivos que se pretende que os estudantes da disciplina atinjam no final do semestre em resultado da sua participação activa nas aulas e nas restantes actividades previstas, do seu estudo individual e da sua prestação nos momentos de avaliação. A definição dos conteúdos programáticos a abordar, enumerados sob a forma tradicional de um programa universitário, é apresentada, justificada e analisada no capítulo 5. O capítulo 6 é reservado à apresentação crítica da bibliografia que acompanha o programa proposto no capítulo anterior. No capítulo seguinte (capítulo 7), procedemos a uma proposta de planificação das aulas e das actividades com que se pretende dar forma ao trabalho preconizado pelos objectivos e pelo programa apresentados nos capítulos 4 e 5. A descrição e a
16 A disciplina acolhe ainda estudantes de outros cursos que escolhem frequentá-la como disciplina opcional. À disciplina de EFMP cabe, em todos os planos curriculares referidos, a ponderação de 6 créditos ECTS. De acordo com os regulamentos dos cursos em que se insere esta disciplina, o trabalho exigido a cada estudante inscrito em EFMP perfaz um total de 162 horas3. No ano lectivo de 2009/2010, de acordo com a informação formal dirigida aos estudantes inscritos na cadeira através da plataforma electrónica SIGARRA da FLUP, espera-se que essas horas de trabalho se distribuam da seguinte forma4: - Aulas: 56 horas; - Exame final: 2 horas; - Exercícios práticos orientados pelo professor: 50 horas; - Estudo e pesquisa individual: 54 horas. 3 Cf. os diplomas legais citados na nota 2. 4 Cf. a informação disponibilizada na ficha de disciplina correspondente à edição de 2009/2010 desta unidade pela plataforma electrónica SIGARRA da FLUP: http://sigarra.up.pt/flup/disciplinas_GERAL.FormView?P_ANO_LECTIVO=2009/2010&P_CAD_CODIGO =CL005&P_PERIODO=2S (acedido em 11 de Setembro de 2009).
17 1.2 – Identificação das principais áreas temáticas abordadas pela disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português Os dois capítulos centrais do programa de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português são, como decorre da designação oficial desta unidade curricular, a fonologia e a morfologia do português. Além destas duas áreas centrais, e por razões que serão mais amplamente discutidas no capítulo 5 do relatório, o programa desta disciplina concede ainda importância individualizada às áreas da transcrição fonética, da fonética articulatória e da variação dialectal do português. Trata-se, portanto, de uma disciplina da área científica da linguística/linguística portuguesa, como tal reconhecida formalmente nos regulamentos legais que se aplicam aos cursos em que se insere5. A disciplina, como se verá no seguimento destas notas, assume um carácter descritivo, focalizando-se na explicitação, explicação e discussão das principais propriedades fonológicas e morfológicas da gramática do português; tal esforço descritivo assentará nos pressupostos, princípios, conceitos e metodologias da linguística contemporânea. 5 Cf. os diplomas legais citados na nota 2.
18 1.3 – Motivação da escolha da disciplina de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português para a elaboração deste relatório Existindo actualmente na FLUP uma licenciatura em Ciências da Linguagem – Variante de Linguística, poder-se-ia esperar que a escolha de uma unidade curricular para a elaboração de um relatório analítico desta natureza recaísse sobre uma disciplina inserida no plano curricular desse curso. Uma primeira razão para tal expectativa poder-se-ia encontrar no facto de as disciplinas pertencentes ao plano curricular dessa licenciatura permitirem, em princípio, um maior aprofundamento de tópicos teóricos de linguística, porventura mais implicados na investigação científica desenvolvida pelos linguistas que exercem docência nessa licenciatura. No plano curricular da licenciatura em Ciências da Linguagem – Variante de Linguística, insere-se nomeadamente uma disciplina com notáveis afinidades temáticas com o programa de EFMP aqui proposto: Fonologia e Morfologia, disciplina obrigatória do 2º ano – 1º semestre do referido curso. Esta última disciplina, porém, apresenta diferenças fundamentais relativamente à disciplina de EFMP, atribuíveis às diferentes inserções curriculares que lhes cabem e, paralelamente, aos diferentes perfis de alunos6 que as frequentam7. Na verdade, EFMP é aqui apresentada como uma disciplina de descrição linguística do português: é uma unidade curricular frequentada essencialmente por estudantes oriundos de planos de estudos onde as disciplinas das áreas da literatura e da cultura são maioritárias e insere-se num curso que tem os estudos portugueses (nas suas várias dimensões, não esgotadas na língua portuguesa) como 6 Ao longo do relatório, por razões meramente estilísticas e ainda que conheçamos a opção oficial consagrada pelo Glossário Académico da Universidade do Porto (disponível em http://sigarra.up.pt/up/WEB_BASE.GERA_PAGINA?P_pagina=122256, acedido em 6 de Abril de 2009), poderemos esporadicamente utilizar o termo alunos (não consagrado pelo referido Glossário) para designar os estudantes inscritos numa dada unidade curricular ou curso. 7 A este nível, p. ex., parece-nos lícito supor que estudantes provenientes de uma licenciatura em Linguística, frequentando ou tendo frequentado outras disciplinas de linguística em número superior ao das frequentadas por estudantes dos cursos de Línguas, Literaturas e Culturas e de Estudos Portugueses e Lusófonos, manifestariam à partida uma maior inclinação e preparação para as áreas em estudo.
19 área central. Num sentido diferente desse, a referida disciplina de Fonologia e Morfologia, inserida numa licenciatura especializada em linguística, concentrar-se-á mais no estudo dos fundamentos e dos desenvolvimentos da fonologia e da morfologia enquanto ramos da linguística, sendo leccionável, pelo menos até certo ponto, de forma largamente independente de uma só língua e conduzindo, forçosamente, a um aprofundamento das questões teóricas e epistemológicas8 não comparável com o que se consegue (ou sequer pretende) alcançar em EFMP9. O principal motivo que condicionou a nossa preferência por esta disciplina para a elaboração do presente relatório decorre precisamente dos aspectos implicados nestas observações preliminares. Reflectir sobre ensinar numa disciplina com este enquadramento curricular foi aqui assumido como um estímulo a todo o esforço reflexivo empreendido. Com 8 Entendemos por questões teóricas e epistemológicas – exemplificadas como aquelas com maior cabimento, em princípio, nas cadeiras do curso de Ciências da Linguagem e contrapostas às questões “descritivas” – as reflexões acerca de princípios e noções da linguística geral e teórica, largamente independentes da questão da descrição das propriedades estruturais da gramática de uma dada língua. São exemplos dessas questões a discussão em torno da dependência/independência das várias subdisciplinas e domínios de estudo (fonética e fonologia, fonologia e morfologia, linguística e ciências da cognição) ou da natureza lexical ou pós-lexical dos processos fonológicos. No nível de exigência e de complexidade que, em nossa opinião, devem ser respeitadas no ensino universitário – e que procurámos verter para o projecto de disciplina apresentado na II Parte –, consideramos impossível dividir de forma absoluta e definitiva essas duas vertentes ou modalidades de abordagem. A descrição (parcelar) da gramática do português desenvolvida num programa como o aqui apresentado e proposto tomará sempre como ponto de partida os principais avanços e pressupostos teóricos da linguística enquanto ciência. A diferença entre as duas abordagens (teórica vs. descritiva) traduz-se sobretudo, em nosso entender, na ponderação concedida a ambas: disciplinas que optem por um pendor mais teórico dedicarão mais tempo e mais atenção à exploração dessas questões por si próprias, servindo-se da gramática de uma ou mais línguas como exemplificação e comprovação das hipóteses teóricas, ao passo que disciplinas mais descritivas assumirão tais hipóteses como pontos de partida, concentrando-se, de forma mais focalizada, nas questões mais estruturais da(s) gramática(s) particular(es) trabalhada(s) em aula. 9 A diferença entre estas duas disciplinas enquadra-se assim na diferença entre disciplinas de pendor predominantemente teórico e disciplinas de pendor predominantemente descritivo a que foi feita referência na nota anterior. Nesta dicotomia, EFMP exemplificaria uma disciplina “descritiva” e Fonologia e Morfologia exemplificaria uma disciplina “teórica”. Uma outra diferença relativamente aos objectivos e conteúdos das duas disciplinas relaciona-se com a presença da fonética nos respectivos programas. Uma vez que a disciplina de Fonologia e Morfologia da licenciatura em Ciências da Linguagem – Variante de Linguística é frequentada por estudantes que, no semestre anterior, frequentaram a disciplina semestral de Fonética, na qual são aprofundados tópicos de fonética articulatória, acústica e perceptiva, se leva à prática o treino de técnicas básicas de fonética laboratorial e de transcrição fonética e se procede à exploração da questão da variação dialectal em português, estes assuntos não são contemplados (contrariamente ao que se passa com o programa de EFMP, destinado a estudantes sem essa formação curricular prévia) pelo programa de Fonologia e Morfologia. Este último torna-se assim mais disponível para a exploração teórica de tópicos ausentes do programa de EFMP e para um maior aprofundamento ou um diferente enquadramento dos tópicos partilhados pelas duas unidades curriculares.
20 efeito, se bem que ensinar linguística a estudantes de uma licenciatura em Linguística nos tivesse porventura permitido avançar em tópicos de maior complexidade teórica, tal opção não nos teria confrontado com a necessidade de uma interrogação tão profunda, como aquela que aqui pretendemos encetar, acerca da articulação desta área científica com outras e das necessárias adaptações que esta situação acarreta ao nível da definição de conteúdos, métodos de ensino e procedimentos de motivação dos estudantes. Tal questionamento estará ainda presente na definição de opções e procedimentos que propomos no sentido da motivação dos estudantes para esta área científica, de acordo com o exposto nos capítulos da II Parte. A este propósito, desde já se afirma a valorização que este último aspecto assume como orientação geral das propostas desenvolvidas e defendidas no projecto curricular delineado no presente relatório.
21 1.4 – Breves considerações sobre o ensino da linguística em licenciaturas partilhadas com outras áreas Como já foi referido, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto oferece, desde o ano lectivo 2007/2008, uma licenciatura em Ciências da Linguagem, dividida em duas variantes (Linguística e Português Língua Não Materna)10. Esta licenciatura, especializada no estudo aprofundado das várias subdisciplinas que constituem a sua área científica central (a linguística), cria condições muito particulares ao ensino da linguística na FLUP. Uma dessas particularidades foi referida na secção anterior: a expectativa de que os seus estudantes se apresentem à partida mais motivados do que os estudantes de outras licenciaturas para o estudo de temas linguísticos, reforçada ainda pelo facto de tais estudantes frequentarem um número de disciplinas de linguística superior ao das disciplinas de linguística frequentadas por estudantes de outras licenciaturas. Em consequência, e conforme dissemos já, é legítimo também esperar que, no âmbito das disciplinas do curso de Ciências da Linguagem – Variante de Linguística, seja possível abordar temas mais complexos e tratá-los do ponto de vista teórico e descritivo de forma mais aprofundada do que a verificada nos restantes cursos de licenciatura. A par dessa situação, a linguística continua a ser parte integrante das componentes científicas em torno das quais se estruturam outras licenciaturas oferecidas pela FLUP, como se torna especialmente patente nas licenciaturas em que se integra a disciplina de EFMP: Línguas, Literaturas e Culturas, Ciências da Linguagem – Variante de Português Língua Não- Materna e Estudos Portugueses e Lusófonos. 10 Cf. o diploma legal que cria este curso, citado na nota 2.
22 A presença de determinadas áreas científicas em cursos que não as têm como áreas únicas ou dominantes encontra um paralelo frequente em vários domínios do saber. A este propósito, lembramos a transversalidade de áreas “clássicas” do saber científico, como a matemática e a química, cuja presença curricular, nas suas diversas subdisciplinas, se verifica, naturalmente, nas licenciaturas em Matemática e em Química, mas que se verifica também noutras licenciaturas (Engenharia, Medicina, Física, Biologia, etc.), onde são entendidas como áreas do saber com um interesse instrumental indispensável para a aquisição dos conhecimentos específicos desses mesmos cursos. São conhecidos exemplos de licenciaturas que, até determinada época histórica, oferecem formação central em duas ou mais áreas e que, em função de diversas causas, se cindem posteriormente em cursos subdivididos de acordo com essas ramificações. Brito (2001: 23), reflectindo acerca da possibilidade de criação de uma licenciatura em Linguística na Universidade do Porto ainda antes da criação da actual licenciatura em Ciências da Linguagem da FLUP, inventaria alguns destes exemplos: “Na verdade, o progresso científico nalgumas áreas e o avanço de conhecimentos pode justificar, em determinados momentos históricos, a criação de cursos que em décadas anteriores podiam não ter razão de ser. Vejase o caso das Ciências Físico-Químicas, hoje separadas em dois cursos distintos; outro exemplo: há algumas décadas existia um único curso, Histórico- Filosóficas: actualmente, estão disponíveis cursos de História, de Filosofia, de Ciências do Património.” (Brito 2001: 23)
23 Como foi afirmado no início desta secção, a inauguração, na FLUP, do ensino especializado da linguística logo a partir do primeiro ciclo dos estudos universitários, adveniente da criação da licenciatura em Ciências da Linguagem, não implicou que esta área científica tivesse sido excluída dos planos curriculares de outras licenciaturas, nomeadamente daquelas que historicamente têm sido, desde os cursos de Filologia oferecidos no início do século XX pela mesma Faculdade (vd. cap. 2), cursos com uma presença importante desta área: os cursos que integram as áreas da linguística, da literatura e da cultura, com especial destaque para os cursos com uma componente forte de Português e associados de forma determinante (mas não exclusiva) a futuros perfis profissionais relacionados com o ensino de línguas (materna e/ou não-maternas)11. O ensino da linguística integrado numa licenciatura como Ciências da Linguagem – Variante de Linguística ou numa das licenciaturas em que se insere a disciplina de EFMP responde, efectivamente, a particularidades diferentes, como já se afirmou. Destinando-se a públicos diferentes, com formações e expectativas diferenciadas, essas duas modalidades de ensino da linguística seguirão percursos distintos e adoptarão fórmulas diversas. 11 Cf. ainda as seguintes palavras de Brito (2001), pondo em relevo aspectos bastante positivos, historicamente verificados, desta proximidade entre a linguística e outras áreas curriculares na estruturação tradicional de diversos planos de estudos em vigor em Portugal ao longo de diversas épocas: “Os planos de estudos dos cursos de Línguas e Literaturas Modernas com a componente de Português contemplam, desde há várias décadas, muitas […] áreas da Linguística […] Se compararmos os nossos planos de estudo com os de faculdades similares de muitos outros países, como a França, a Inglaterra, a Alemanha, por exemplo, damo-nos conta de que o papel da Linguística na formação dos estudantes das Faculdades de Letras portuguesas é até extremamente favorável; e não é por acaso que a comunidade linguística portuguesa, saída em grande parte desses cursos, é hoje relativamente numerosa e extremamente produtiva.” (Brito 2001: 22).
24 Dado que a disciplina de EFMP se insere precisamente, como já foi explicitado, em cursos em cujos planos curriculares a linguística acompanha outras áreas, deter-nos-emos agora sobre as especificidades implicadas nesta realidade. Discutiremos assim aqueles que são, em nosso entender, os principais argumentos que justificam a inserção curricular desta disciplina (e, a um nível mais amplo, da área científica a que ela pertence) nos cursos de licenciatura em causa. De entre tais argumentos, realçamos, neste momento, os seguintes. 1) As licenciaturas em que EFMP se insere são licenciaturas que, mesmo não fazendo da linguística ou da linguística portuguesa a sua área nuclear, pretendem conferir aos seus estudantes conhecimentos aprofundados de língua portuguesa. Este objectivo não dispensa, naturalmente, uma exploração sólida, rigorosa e abrangente das estruturas da língua, baseada nos conhecimentos e nos métodos desenvolvidos pela linguística enquanto ciência, nem a familiarização dos estudantes com a bibliografia fundamental de linguística portuguesa nos seus diversos domínios de análise. 2) A linguística pode criar junto dos seus estudantes capacidades e competências ímpares a nível do pensamento analítico, o que lhe confere um lugar privilegiado no domínio do treino metodológico e intelectual. 3) Tendo as licenciaturas em que esta disciplina se insere a possibilidade de conferir aos seus estudantes habilitação para a docência de línguas (materna e/ou não-maternas) – ainda que esta componente “profissionalizante” não seja a única de tais cursos –, a área da linguística torna-se imprescindível enquanto domínio verdadeiramente único no tocante ao desenvolvimento da consciência explícita das propriedades e das estruturas da língua, absolutamente necessária ao exercício do ensino.
25 Desenvolveremos, de seguida, algumas breves considerações sobre estes três argumentos12. 1.4.1 – As disciplinas de linguística e o desenvolvimento de conhecimentos aprofundados sobre a estrutura da(s) língua(s) e de competências metodológicas avançadas no domínio do raciocínio científico Relativamente ao papel das disciplinas de linguística enquanto fonte de conhecimentos aprofundados, de natureza científica, sobre as estruturas das línguas e, simultaneamente, enquanto fonte de treino metodológico de capacidades de raciocínio objectivo e analítico, conforme referido nos pontos 1) e 2) supra, voltamos a citar o texto de Brito (2001) anteriormente mencionado. O excerto seguinte distingue, a este propósito, o papel informativo e o papel formativo das disciplinas de linguística. 12 Como afirmámos na Introdução, estas observações, em rigor, não se restringem unicamente à articulação de EFMP com as restantes unidades curriculares dos cursos em que se insere; pelos motivos aí invocados, esta discussão poderia situar-se, neste momento, num plano mais abrangente do que esse. Por outro lado, não nos deteremos, neste relatório, sobre um tópico que, pelas implicações que encerra para a definição desta disciplina, poderíamos todavia aqui aprofundar: o do interesse de um estudo linguístico intimamente associado ao estudo literário. Textos como Fonseca (1993) espelham esse entendimento, enfatizando que um conhecimento explícito aprofundado das estruturas da língua contribui de forma determinante para a capacidade de leitura dos textos literários (ao mesmo tempo que defendem que um conhecimento aprofundado dos usos literários permite um aprofundamento do conhecimento das estruturas linguísticas). Perfilhamos, ao longo de todo o relatório, a ideia de que é possível estudar linguística, nas suas áreas descritivas “centrais” (como a fonologia e a morfologia), independentemente da aplicação de tal estudo a qualquer domínio (como, entre outros, o da análise literária). Tais aplicações deverão ser postas em evidência, em primeiro lugar, pelos respectivos especialistas, justamente em função do interesse e da necessidade que souberem reconhecer aos estudos linguísticos. Assim, ainda que aqui resida um possível argumento suplementar, que não desvalorizamos, em favor da presença da linguística em cursos de pendor “literário”, abdicamos de uma discussão desenvolvida do tópico, por considerarmos que ela cabe, em primeira instância e conforme dissemos, aos especialistas da área da literatura.
32 precisamente o diálogo entre a linguística e a formação de professores, é exemplo desse tipo de argumentação. “Outra das linhas fundamentadoras do trabalho do grupo [de autores do livro de que é retirada a citação] é a defesa de um ensino científico da língua materna [em contexto de formação de professores de Português] que passa por duas vias: (1) a separação da formação dos professores pela área da língua (a cargo de professores do Departamento de Linguística) e pela área da Literatura (a cargo dos professores do Departamento de Literatura); (2) a explicitação dos processos de funcionamento gramatical da língua, em momento apropriado da aprendizagem […].” (Delgado-Martins 1992: 1) Em sentido semelhante vão as seguintes palavras de Fonseca (2001): “O principal papel dessa formação científica básica [=a formação universitária de professores, em geral] […] é justamente reforçar a capacidade de actuação consciente. No caso do professor de língua, é assegurar a aquisição de conhecimentos e de uma capacidade de reflexão sobre a língua que ficam disponíveis para a construção individual de relações fecundas entre a teoria e a prática.” (Fonseca 2001: 22) No seu conjunto, os trechos que acabamos de citar contribuem para a consciência da importância de disciplinas como EFMP enquanto oportunidades únicas de desenvolvimento do conhecimento explícito da língua, indispensável a futuros professores de Português ou de outras línguas. Este aspecto parece-nos muito importante na medida em que: (i) reforça o entendimento do papel das disciplinas de linguística enquanto disciplinas informativas e formativas (no sentido de Brito (2001) – cf. citações supra); (ii) sublinha o interesse e a imprescindibilidade da sua presença nos planos curriculares aqui considerados; e (iii) fornece-nos pistas importantes para a reflexão e as propostas vertidas para este relatório.
33 Ao nível do aproveitamento da informação/formação trabalhada nesta disciplina tendo em vista, numa fase ulterior, um eventual desempenho docente dos estudantes, o objectivo principal não se reduzirá à exploração de conhecimentos, termos ou conceitos isolados. Nesta unidade curricular – como, pensamos, noutras da mesma área científica –, pretende-se sobretudo avivar nos estudantes a consciência explícita para as estruturas da língua e para a forma como a explicitação das respectivas regularidades constitui um desafio intelectual que se consolida progressivamente através do estudo atento dessas mesmas regularidades e de um contacto frequente com técnicas de análise linguística como as trabalhadas durante as aulas. Isto é: o que se pretende, mais de inculcar-se nos estudantes universitários de linguística um domínio mais ou menos automático de uma terminologia técnica destinada a ser posteriormente repetida de forma passiva ou acrítica quando tais estudantes se tornarem professores, é desenvolver neles a consciência da plasticidade das estruturas linguísticas, a capacidade de considerar os produtos linguísticos como objectos passíveis de manipulação, análise objectiva e reflexão activa e um conhecimento amplo da riqueza das abordagens de que essas estruturas podem ser alvo. Encontramos a ilustração e a sustentação deste ponto de vista nas passagens com que encerramos este capítulo. Concordando plenamente com a perspectiva da autora das citações seguintes, diremos que aquilo que se pretende fazer com os estudantes desta cadeira, a um nível evidentemente adaptado ao respectivo contexto e faixa etária, é, de certa forma, uma antecipação do trabalho que nesse sentido é preconizado nas palavras que passamos a transcrever e que põem em evidência justamente os aspectos que acabamos de focar.
34 “[…] [O domínio da metalinguagem gramatical] é tão importante que o seu ensino exige mesmo que seja muito bem dominado pelo professor, que, graças à sua experiência, deve ter a capacidade e o bom senso de só transmitir tais conhecimentos quando achar que chegou o bom momento. […] […………………….……] A linguagem, como qualquer objecto da realidade, tem de ser objecto de conquista/construção e é nessa medida que poderíamos dizer que a criança, na sua escala, também é cientista e prepara dessa maneira a cultura científica […].” (Pinto 1998: 36-37) “Pergunto-me se está nas mãos de todos os professores, independentemente da sua formação, fazer sentir nos aprendentes o pulsar das peças que constituem a linguagem passando pelo necessário despertar de consciências linguísticas a vários níveis. De facto, para que o aprendente sinta que pode ser jogador nesta especialidade, é necessário que ele se dê conta das peças de que dispõe, que conheça as regras, e que se lhe dê, também a nível da linguagem a possibilidade da experimentação.” (Pinto 2009: 51) “De facto, a linguagem [na teoria construtivista inspirada por Piaget] […] toma o lugar de simbolização, mas ela própria, enquanto código, é também objecto de conhecimento, acabando por tornar-se objecto conhecido (“known”). A linguagem, por conseguinte, tanto contribui para desenvolver o conhecimento como faz parte do conhecimento a construir. Talvez resida neste “compromisso” a possibilidade da existência de um programa vivo que se ocupe do objecto-linguagem. Não será importante despertar no aprendente interesse pelo modo como se processa essa parte do conhecimento que é a linguagem e pelo modo como ela é adquirida? Não será interessante observar como o aprendente considera a linguagem enquanto objecto a conhecer e como torna explícito esse processo?” (Pinto 2009: 55) “Cabe […] ao professor de língua portuguesa a tarefa de acompanhar o desenvolvimento da linguagem dos seus alunos tirando partido tanto de textos dos mais diversos tipos de forma e de conteúdo como das mais variadas situações de discurso oral. Além disso, terá de criar nos alunos uma atmosfera que os leve a distanciarem-se do material verbal (oral ou escrito) e a saberem olhá-lo, comentá-lo e trabalhá-lo, no respeitante à sua forma e ao seu conteúdo, de forma crítica e independente.” (Pinto 2009: 86) Referências deste capítulo Angier, N. 2008. The Canon. The Beautiful Basics of Science. London: Faber & Faber. Baayen, R. H. 2008. Analyzing Linguistic Data. A Practical Introduction to Statistics using R. Cambridge: Cambridge University Press. Brito, A. M. 2001. Da multidisciplinaridade do estudo da linguagem à reformulação curricular dos cursos de Línguas e Literaturas Modernas. II Encontro de Questões Pedagógicas. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 21-25.
35 Chomsky, N. 1975. Reflections on Language. New York NY: Pantheon. Chomsky, N. 1978. On the Biological Basis of Language Capacities. In: G. A. Miller, E. Lenneberg (Eds.). Psychology and Biology of Language and Thought. Essays in Honor of Eric Lenneberg. New York NY: Academic Press, 199-220. Chomsky, N. 1984. [trad. port. de F. Xavier]. Linguagem. Enciclopédia Einaudi – Vol. 2: Linguagem-Enunciação. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 11-56. Chomsky, N. 1986. Knowledge of Language. Its Nature, Origin and Use. New York NY: Praeger. Trad. port. de A. Gonçalves, A. T. Alves. O Conhecimento da Língua. Sua Natureza, Origem e Uso. Lisboa: Caminho, 1994. Chomsky, N. 1988. Language and Problems of Knowledge. The Managua Lectures. Cambridge MA: The MIT Press. Crystal, D. 2001. Clinical Linguistics. In: M. Aronoff, J. Rees-Miller (Eds.). The Handbook of Linguistics. Oxford: Blackwell, 673-682. Delgado-Martins, M. R. 1992. Introdução. In: M. R. Delgado-Martins, D. R. Pereira, A. I. Mata, M. A. Costa, L. Prista, I. Duarte. Para a didáctica do Português. Seis estudos de linguística. Lisboa: Colibri, 1-3. Fonseca, F. I. 1993. Quand dire c’est feindre: Théorie linguistique et fiction littéraire. Revista da Faculdade de Letras do Porto – Línguas e Literaturas. X: 55-62. Fonseca, F. I. 2001. Linguística aplicada ou linguística aplicável?. In: F. I. Fonseca, I. M. Duarte, O. Figueiredo (Org.). A Linguística na Formação do Professor de Português. Porto: Centro de Linguística da Universidade do Porto, 15-26. Fromkin, V.; Rodman, R. 1993. An Introduction to Language. 5th international ed. Fort Worth TX: Harcourt Brace Jovanovich. Gee, J. P. 2001. Educational Linguistics. In: M. Aronoff, J. Rees-Miller (Eds.). The Handbook of Linguistics. Oxford: Blackwell, 647-663. Gries, S. T. 2009. Statistics for Linguistics with R. Berlin: Mouton De Gruyter. Halle, M. 1990. Phonology. In: D. N. Osherson, H. Lasnik (Eds.). An Invitation to Cognitive Science. Volume 1: Language. Cambridge MA: The MIT Press, 43-68. Hatch, E. M. 1982. Research Design and Statistics for Applied Linguistics. Rowley MA: Newbury. Hockett, C. F. 1967. Language, Mathematics and Linguistics. The Hague: Mouton. Kornai, A. 2008. Mathematical Linguistics. London: Springer. Lakatos, E. M.; Marconi, M. A. 1991. Metodologia científica. 2ª ed. São Paulo SP: Atlas. Martín-Vide, C.; Mitrana, V. 2000. Where Mathematics, Computer Science, Linguistics and Biology Meet. Dordrecht: Kluwer. ME-DEB. 1997. A Língua Materna na Educação Básica. Lisboa: Ministério da Educação – Departamento da Educação Básica. Miguens, S. 1997. As ciências cognitivas e a naturalização do simbólico. A mente computacional e a mente fenomenológica. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Filosofia. XIV: 385-427. Miguens, S. 1999. Linguistas e filósofos: Maneiras de fazer Teoria da Mente. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – Filosofia. XV-XVI: 327-365. Mounin, G. 1968.Clefs pour la linguistique. Paris: Seghers. Trad. port. de J. Meireles. Introdução à Linguística. Lisboa: Horizonte, 1981. Partee, B. H. 1978. Fundamentals of Mathematics for Linguistics. Dordrecht: Reidel. Payrató, L. 1998. De profesión, linguista. Panorama de la linguística aplicada. Barcelona: Ariel. Pinker, S. 1994. The Language Instinct. London: Penguin. Pinto, M. G. L. C. 1998. Saber viver a linguagem. Um desafio aos problemas de literacia. Porto: Porto Editora.
36 Pinto, M. G. L. C. [textos seleccionados de; org. I. M. Duarte, O. Figueiredo, J. Veloso]. 2009. A linguagem ao vivo. Textos seleccionados de Maria da Graça L. Castro Pinto. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Raposo, E. P. 1992. Teoria da Gramática. A Faculdade da Linguagem. Lisboa: Caminho. Saussure, F. de. 1916. Cours de Linguistique Générale. Edition critique préparée par T. de Mauro. Paris: Payot, 1980. Shuy, R. W. 2001. Forensic Linguistics. In: M. Aronoff, J. Rees-Miller (Eds.). The Handbook of Linguistics. Oxford: Blackwell, 683-691. Sproat, R.; Samuelsson, C.; Chu-Carroll, J.; Carpenter, B. 2001. Computational Linguistics. In: M. Aronoff, J. Rees-Miller (Eds.). The Handbook of Linguistics. Oxford: Blackwell, 608- 636. Whorf, B. L. 1940a. Science and Linguistics. Technological Review. 42(6): 229-231, 247-248. Republicado em: J. B. Carroll (Ed.). 1956. Language, Thought, and Reality. Selected Writings of Benjamin Lee Whorf. Cambridge MA: The MIT Press, 207-219. Whorf, B. L. 1940b. Linguistics as an Exact Science. Technological Review. 43: 61-63, 80-83. Republicado em: J. B. Carroll (Ed.). 1956. Language, Thought, and Reality. Selected Writings of Benjamin Lee Whorf. Cambridge MA: The MIT Press, 220-232. Woods, A.; Fletcher, P.; Hughes, A. 1986. Statistics in Language Studies. Cambridge: Cambridge University Press.
37 2. Enquadramento histórico: o ensino e a investigação em linguística na Faculdade de Letras da Universidade do Porto Uma reflexão aprofundada sobre a unidade curricular de que aqui nos ocupamos não dispensa, pensamos, um olhar histórico sobre a presença das principais áreas temáticas contempladas pela disciplina em análise nos vários planos curriculares oferecidos pela FLUP ao longo das várias décadas de existência dos cursos de graduação e pós-graduação em que a linguística tem sido considerada uma área científica importante. Em nosso entender, mais do que pelo mero interesse histórico ou pelo cumprimento de uma prática comum neste tipo de relatórios, este olhar sobre a evolução ao longo do tempo justifica-se por nos permitir reunir argumentos que serão úteis para uma discussão que nos permita indagar e saber porquê, como e com que objectivos se formou, se desenvolveu e se atingiu o actual ponto da presença da linguística e, concretamente, da fonologia e da morfologia nos vários cursos ministrados na FLUP. Tentar perceber quais foram, em vários momentos da história da FLUP, as razões para esses resultados poderá ainda levar-nos a divisar melhor algumas lacunas e alguns pontos a aperfeiçoar. Para o relance histórico que se esboçará de seguida, deter-nos-emos com particular atenção sobre as estruturas curriculares dos cursos oferecidos pela FLUP a partir da criação, em 1977, da licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas suas diversas variantes (Despacho nº 231/77, Ministério da Educação e Investigação Científica: Diário da República, II Série, nº 239, 15.10.1977)16. 16 O ensino linguístico na FLUP é inaugurado, porém, ainda durante a vigência da “primeira” Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que funcionou entre os anos de 1919 e 1928 e que, nesse período, ofereceu as licenciaturas em Filologia Clássica, Filologia Românica e Filologia Germânica (FLUP 1989b: 9). Da estrutura curricular de tais cursos (comum aos mesmos cursos nas Faculdades de Letras das Universidades de Coimbra e de Lisboa) faziam parte disciplinas intituladas Gramática Comparada do Grego e do Latim (Filologia Clássica), Filologia Portuguesa e Gramática Comparada das Línguas Românicas (Filologia Românica) e Gramática Comparada das Línguas Germânicas (Filologia Germânica), a par de disciplinas “literárias” como História da Literatura Portuguesa e Literaturas Espanhola e Italiana, entre outras (cf.: Decreto nº 6087/1919, Diário do Governo, nº 181, 03.09.1919; e Decreto nº
38 2.1 – Licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas, de 1977 a 1987: Fonética e Morfologia do Português (disciplina anual) O elenco de disciplinas do curso de Línguas e Literaturas Modernas (LLM) (bem como a lista das cadeiras da licenciatura em Línguas e Literaturas Clássicas, que nunca funcionou na FLUP) foi fixado, a nível nacional (ou seja, para todas as faculdades em que foram criadas, na mesma data, estas formações), pelo Decreto nº 53/78 do Ministério da Educação e Cultura (Diário da República, I Série, nº 124, 31.05.1978). É este diploma que determina que, para as variantes de LLM com a componente de Estudos Portugueses17, as cadeiras de linguística obrigatórias (anuais) fossem as seguintes: 4651, de 14.07.1918). Estas designações, bem como uma análise atenta do acervo bibliográfico que compunha a biblioteca dessa primeira Faculdade de Letras do Porto (cf. o catálogo completo em FLUP 1989a), fazem-nos concluir da conformação do ensino linguístico praticado nessa instituição (e então designado como “filológico” ou “glotológico” – cf.: Vasconcelos 1917: 23; Silva 1995: 20, 49; Carvalho e Silva 2002) à tendência dominante, naquela época, neste campo disciplinar (Robins (1990: 180), entre outros), isto é, aos estudos históricocomparatistas. A receptividade da primeira FLUP a essa tendência dominante – bem como ao florescimento dos estudos fonéticos identificável de forma muito clara a partir de finais do século XIX (cf.: Jones 1948; Fromkin 1985; Abercrombie 1985: 15-17, 20 e ss.; Robins 1990: 222 e ss.) –, está de acordo, de resto, com observações de autores como Machado (s/d: 96, 102), Rogers (1940: 69), Camara Jr. (1956: 47 e ss.), Cintra (1973: 7), Ribeiro (1973: 15, 17), Neto (1977: 24 e ss.), Silva (1995: 20, 49) ou Castro & Rodrigues-Moura (2003), entre outros, que sublinham a forma como os estudos linguísticos desenvolvidos à época em Portugal se pautavam por uma grande consonância e actualidade relativamente às principais tendências teóricas europeias suas contemporâneas. Conjugando estes dados com a verificação da amplidão e da variedade de temas contemplados pela biblioteca dessa primeira FLUP (cf. novamente o catálogo disponível em FLUP 1989a), podemos com bastante certeza datar da primeira Faculdade de Letras do Porto uma característica que, como veremos, merece ser realçada como uma marca distintiva da formação aqui praticada: a profusão e a profundidade dos conhecimentos contemplados, assim como a actualização dos mesmos e dos respectivos suportes bibliográficos. Relativamente ao ensino linguístico professado, já na “segunda” Faculdade de Letras do Porto (referimonos ao período inaugurado com a restauração desta instituição em 1962 – 1989a: 5; 1989b: 5), durante o período de vigência das licenciaturas em Filologia Românica (reaberta em 1969/1970 – FLUP 1989b: 9) e em Filologia Germânica (reaberta em 1972/1973 – FLUP 1989b: 9) – ou seja, portanto, entre 1969 e 1977 –, não nos foi possível recolher documentação ou informação relevante em quantidade suficiente 17 De acordo com as listas de disciplinas fixadas pelos diplomas legais citados no texto, a presença da linguística nas variantes de LLM sem componente de Português reduz-se à disciplina anual de Introdução aos Estudos Linguísticos, leccionada no 1º ano. Esta é, dessa forma, a única disciplina obrigatória de linguística inserida nos referidos planos curriculares, que deixam contudo uma pequena margem para a frequência, a título opcional, de outras disciplinas desta área científica.
39 1º ano: Introdução aos Estudos Linguísticos 2º ano: Fonética e Morfologia do Português 3º ano: Sintaxe e Semântica do Português 4º ano: História da Língua Portuguesa. Verifica-se, por conseguinte, a existência de uma disciplina especificamente devotada às áreas com representação no programa de EFMP: Fonética e Morfologia do Português, inserida no 2º ano curricular. Olhando às designações destas disciplinas, verifica-se uma preocupação por contemplar todas as áreas centrais da linguística geral (Introdução aos Estudos Linguísticos), da linguística descritiva do português (Fonética e Morfologia do Português e Sintaxe e Semântica do Português) e da linguística histórica do português (História da Língua Portuguesa). Ainda atendendo às mesmas designações e ao facto de as variantes sem uma componente de Estudos Portugueses não terem, nas suas estruturas curriculares, o mesmo peso de disciplinas da área da linguística, conclui-se que o ensino da linguística se encontra então muito ligado ao ensino da linguística portuguesa (na perspectiva sincrónica e diacrónica)18. Para uma amostra do que seria, neste enquadramento, o ensino das áreas hoje contempladas pelo programa de EFMP, consultámos o programa da disciplina de Fonética e Morfologia do Português que vigorou na FLUP no ano lectivo 1986/1987 (FLUP 1986: 50-53). 18 Este dado reflecte a observação encontrada na citação de Brito (2001: 22) transcrita na nota 11, na qual a autora refere a forte ligação, no contexto universitário português, entre o estudo (ensino e investigação) da linguística e o da língua portuguesa/linguística portuguesa.
40 Verificamos então que esse programa abrange três áreas distintas, enumeradas em secções separadas e sucessivas 19 : a fonética, nas suas principais ramificações (acústica, articulatória e perceptiva); a fonologia; e a morfologia. No domínio da fonologia, são reservados pontos específicos do programa para a abordagem de questões epistemológicas como o “estatuto teórico” da fonologia (FLUP 1986: 50), bem como secções descritivas centradas na descrição da “fonologia do português à luz das várias teorias linguísticas” (FLUP 1986: 50). As teorias assim consideradas são três (FLUP 1986: 51): a “estruturalista-funcionalista”, a “distribucionalista” e a “generativista”. Torna-se relevante mencionar que é no âmbito do capítulo do programa reservado à descrição fonológica do português, e não no âmbito do capítulo mais teóricos do programa (“o estatuto teórico [da fonologia]”, FLUP 1986: 50), que têm lugar, de acordo com esta partição por correntes teóricas, as referências às unidades descritivas e aos conceitos teóricos da fonologia explicitamente considerados pelo programa, como sucede com a apresentação do fonema e do traço distintivo (nas secções reservadas à fonologia estruturalista e à fonologia distribucionalista – FLUP 1986: 51). No capítulo reservado à fonologia generativa do português, procede-se também a um inventário de noções teóricas desenvolvidas no âmbito desta corrente: universais, binarismo e regras fonológicas (FLUP 1986: 51). O capítulo da morfologia obedece a uma orientação similar (FLUP 1986: 51-52): depois de uma secção introdutória reservada à “delimitação do […] objecto [da morfologia] e 19 Apesar de a designação desta disciplina não contemplar explicitamente o domínio da fonologia, é indubitável a presença desta área no trabalho desenvolvido na cadeira, como comprovado pela leitura atenta do programa (vd. nossas observações no corpo do texto). Sobre esta “anomalia terminológica”, igualmente verificada no contexto de outras instituições universitárias portuguesas, debruça-se Rio-Torto (1998: 10 e ss.). Das reflexões desta autora relativas à situação particular da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, transcrevemos as seguintes palavras, que nos parecem muito elucidativas das razões que terão levado à ausência da fonologia do intitulado oficial da disciplina: “A designação da disciplina [Fonética e Morfologia do Português] e a sua ordenação curricular não podem ser dissociadas do momento histórico em que ocorreu a sua génese. Mais do que eventuais reminiscências com a disciplina de “Fonética Geral”, inscrita em anteriores planos de curso, terá sido uma concepção lata e maximalista da Fonética, em que a Fonologia é presumivelmente entendida como uma Fonética Funcional, a que presidiu a esta denominação da cadeira.” (Rio-Torto 1998: 10).
41 […] [à] sua automomia”, o programa propõe, em secções separadas do texto, a descrição dos processos flexionais e derivacionais do português “à luz das teorias linguísticas referidas [no capítulo da fonologia]” (FLUP 1986: 51): o estruturalismo e o generativismo. A bibliografia (“obrigatória mínima”) que acompanha este programa (FLUP 1986: 52- 53) engloba sobretudo obras introdutórias dos vários domínios considerados, publicadas em diversas línguas e reflectindo a pluralidade teórica patente no próprio programa. Nesta bibliografia, podemos encontrar referências quer a obras de carácter teórico (como as obras “clássicas” de Troubetzkoy (1939) e de Chomsky & Halle 196820), quer a estudos descritivos da fonologia e/ou da morfologia do português (como, p. ex.: Camara Jr. 197021, 197122; Mateus 197523; Pardal 1977). Podemos afirmar que este programa encerra características que merecem um especial realce neste momento da nossa análise: - representa um compromisso interessante entre o pendor teórico e o pendor descritivo a que atrás fizemos referência, ao propor uma descrição do português clara e explicitamente apoiada nos contributos e avanços da linguística enquanto ciência; - trata-se de um programa muito abrangente, que trata com profundidade assuntos de natureza muito diversa e complexa (desde a fonética acústica e perceptiva até à análise morfológica); - incorpora, quer na definição de conteúdos, quer nas indicações bibliográficas, tendências então consideradas as mais recentes no domínio da linguística moderna, sendo, por isso, um programa muito actualizado para os padrões da sua época. Essa integração faz-se de 20 O programa citado indica, para a obra de Chomsky & Halle (1968), quer a edição americana original, quer a tradução francesa publicada pelas Editions du Seuil (Paris). 21 No programa analisado, é referida a edição de 1976. 22 No programa analisado, é referida a edição de 1978. 23 No programa analisado, é referida a edição de 1982.
48 Literatura e Cultura da licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas como a antecessora mais directa e mais imediata da disciplina de EFMP sobre que versa o presente relatório. Tal como nos programas anteriores de FMP, Linguística Portuguesa I (anual) e Linguística Portuguesa III e IV (semestrais), é claramente identificável, no programa de FFMP aqui em apreço, o ecletismo teórico referido a propósito da leitura dos programas dessas disciplinas, patente ao nível da menção explícita a várias correntes teóricas e à admissão, na lista bibliográfica que acompanha o programa, de obras provenientes de diversas escolas linguísticas. 2.4 – Licenciaturas decorrentes do “Processo de Bolonha”, a partir de 2007 (Ciências da Linguagem; Línguas, Literaturas e Culturas; Estudos Portugueses e Lusófonos): Fonética, Fonologia e Morfologia e Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português (disciplinas semestrais) Em consequência do quadro legislativo e institucional imposto pelo Decreto-Lei nº 74/2006 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Diário da República, I Série A, nº 60, 24.03.2006), a oferta curricular da FLUP sofreu, a partir do ano lectivo 2007/2008, alterações profundas. A linguística – que, como vimos, era, desde as licenciaturas em Filologia oferecidas pela primeira FLUP, uma componente importante dos cursos que aliavam o ensino da língua e da literatura – passa, a partir desse ano, a ser objecto de uma licenciatura que lhe é inteiramente dedicada, a licenciatura em Ciências da Linguagem – Variante de Linguística. Nessa licenciatura, as áreas contempladas pelo programa de EFMP formam o objecto de unidades curriculares separadas, o que – e atendendo aos objectivos de uma licenciatura com uma especialização inicial em linguística – permite um tratamento mais aprofundado, mais teórico e mais independente do estudo descritivo de uma língua em concreto das questões aqui versadas: Fonética (1º ano – 2º semestre) e Fonologia e Morfologia (2º ano - 1º semestre), havendo
49 ainda lugar para uma disciplina de Sociolinguística (3º ano – 1º semestre) em que supostamente poderão ser tratados alguns tópicos de variação linguística a que se faz alusão, nas aulas de EFMP, no momento do semestre dedicado à variação dialectal do português. Já nos cursos em que se insere a unidade curricular de EFMP – Ciências da Linguagem – Variante Português Língua Não Materna; Línguas, Literaturas e Culturas (LLC); Estudos Portugueses e Lusófonos (EPL) –, esta disciplina é a única em que os estudantes tomam contacto com todos esses tópicos, o que obriga a uma selecção criteriosa dos temas a tratar – sendo dada preferência aos tópicos mais fundamentais e consensuais na descrição do português – e, paralelamente, a um menor aprofundamento das implicações teóricas dos pontos do programa, em favorecimento da vertente “descritiva” desta disciplina. Sobre o conteúdo e as orientações gerais do programa desta unidade curricular não nos deteremos neste momento, já que eles constituem precisamente o objecto central do relatório, sendo, por isso, aprofundadamente discutidos nos capítulos da II Parte. 2.5 – Cursos de pós-graduação A resenha histórica esboçada neste capítulo do relatório concede uma especial importância aos cursos de licenciatura. No entanto, parece-nos relevante reservar algumas observações sobre a presença da fonologia e da morfologia em cursos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutoramento) que a FLUP tem disponibilizado em diferentes momentos da sua existência. A formação pós-graduada em linguística (ou com uma participação curricular determinante da linguística) na FLUP teve início com a entrada em funcionamento do Curso
50 de Mestrado em Linguística Portuguesa Descritiva no ano lectivo 1982/1983, a que se seguiu, em 1985/1986, o Curso de Mestrado em Ensino da Língua Portuguesa (Franco 2003: 15-16). Estes primeiros cursos de nível pós-graduado com uma presença exclusiva ou central da linguística não incluíam, porém, nenhum seminário devotado a questões de fonética, fonologia ou morfologia31. Tanto quanto nos foi dado saber, foi somente no Curso Integrado de Estudos Pós- Graduados em Linguística32, e no ano 2003/2004 (primeiro ano da sua vigência), que se criou pela primeira vez um seminário de Fonologia (com a duração de 30 horas) ao nível do ensino pós-graduado na FLUP. Esse seminário manteve-se em funcionamento até ao ano lectivo 2005/2006. A partir de 2006/2007, o curso passou a oferecer dois seminários semestrais de Fonologia: Fonologia I, destinado a todos os estudantes do curso (das duas variantes), oferecido no primeiro semestre; Fonologia II, exclusivamente destinado ao estudantes da variante de Linguística Portuguesa Descritiva, funcionando do segundo semestre33. A entrada em vigor das disposições legais relativas à implantação do “Processo de Bolonha” nas universidades portuguesas motivou a criação, na FLUP, de dois ciclos de estudos pós-graduados em Linguística: um, conducente ao grau de mestre (Deliberação nº 284/2007 31 Segundo informação pessoal de alguns estudantes da primeira edição do mestrado em Linguística, apesar da inexistência de tais seminários, a direcção do curso promoveu algumas conferências sobre temas de fonética e fonologia para as quais foram convidados linguistas de outras universidades portuguesas. 32 Este curso, cuja primeira edição funcionou no ano lectivo 2003/2004, foi criado pela Deliberação nº 1102/2003 da Comissão Permanente do Senado da Universidade do Porto (Diário da República, II Série, nº 175, 31.07.2003). O curso era constituído por um ano de formação curricular, findo o qual os estudantes com aproveitamento adquiriam um Diploma de Especialização. A esta formação inicial seguia-se um número variável de anos consoante os estudantes pretendessem obter o grau de mestre ou o de doutor em Linguística (havendo a possibilidade de transição imediata do primeiro ano (curricular) do curso para o nível de doutoramento ou de passagem do mestrado para o doutoramento durante a fase de preparação da tese de mestrado). O curso dividiase em duas variantes: Linguística Portuguesa Descritiva e Linguística Aplicada ao Ensino do Português. 33 As observações de carácter histórico mencionadas nesta secção e relativas aos cursos de pós-graduação a partir de 2003/2004 baseiam-se sobretudo no arquivo pessoal do autor do relatório, que participou na leccionação e/ou na organização desses cursos.
51 do Senado da Universidade do Porto, Diário da República, II Série, nº 36, de 20.02.2007), e outro, conducente ao grau de doutor (Deliberação nº 354/2007 da Reitoria da Universidade do Porto, Diário da República, II Série, nº 41, de 27.02.2007). No curso de mestrado, está previsto o funcionamento de dois seminários semestrais de Fonologia (Fonologia I, no primeiro semestre; Fonologia II, no segundo34). Quanto ao curso de doutoramento, este encontra-se dividido em 4 seminários cujo intitulado não restringe de forma estrita os conteúdos disciplinares abordados (Seminários de Doutoramento em Linguística A, B, C e D); desde a sua criação, tem sido prática que os estudantes inscritos neste programa doutoral frequentem, como forma de creditação do Seminário de Doutoramento em Linguística D, o seminário de Fonologia II do curso de mestrado, sendo posteriormente sujeitos a uma avaliação mais aprofundada e mais exigente do que os estudantes de mestrado35. A história do ensino pós-graduado em linguística no quadro da FLUP é, por outro lado, indissociável da história do Centro de Linguística da Universidade do Porto, uma unidade de investigação fundada em 1976 (Franco 2003: 7 e ss.) que, mantendo uma considerável autonomia funcional e financeira face à Faculdade, tem cumprido a missão de criar as melhores condições para o avanço científico da área em que se insere e, em simultâneo, tem assumido como atribuição fundamental “[…] o apoio à orientação de dissertações de doutoramento e de mestrado” (Franco 2003: 15). A este propósito, convém aqui lembrar que o acervo 34 Em alguns anos lectivos, a frequência dos seminários do curso pode vir a ser facultativa. 35 Ainda no quadro dos cursos de mestrado e doutoramento criados ao abrigo das mudanças introduzidas pelo “Processo de Bolonha”, deve ser feita uma referência a outros cursos de mestrado actualmente oferecidos pela FLUP em que a área da linguística detém algum peso curricular (embora tais cursos não prevejam a exploração de tópicos de fonologia ou de morfologia em seminários especificamente dedicados a estas áreas). Exemplificam esta situação os seguintes cursos de mestrado: Tradução e Serviços Linguísticos; Ensino do Português e Línguas Clássicas no 3º Ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário (sucede ao anterior Curso de Especialização em Ensino do Português); Ensino do Português no 3º Ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário e Língua Estrangeira no Ensino Básico e Ensino Secundário (sucede ao anterior Curso de Especialização em Ensino de Português e Língua Estrangeira); Ensino de Português Língua Segunda/Língua Estrangeira (sucede ao anterior Curso de Especialização em Ensino do Português Língua Estrangeira).
52 bibliográfico do CLUP conserva ainda hoje fundos bibliográficos autónomos constituídos por livros e revistas adquiridos propositadamente para edições identificadas dos primeiros cursos de mestrado acima referidos. 2.6 – Considerações finais Ao longo deste capítulo, detivemo-nos sobre a presença da linguística – quer ao nível geral desta área no seu todo, quer ao nível mais específico da presença das subdisciplinas contempladas pelo programa de EFMP – nas várias dimensões da vida académica da FLUP ao longo da sua existência, privilegiando o ensino pré-graduado e a época posterior à criação da licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (1977). Como marcas do percurso histórico assim analisado, compete-nos salientar, neste momento de síntese, os seguintes aspectos: - a linguística corresponde a uma área científica cultivada, a nível do ensino e da investigação, desde a fundação da própria Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1919, como demonstrado pela sua presença curricular nos vários planos de estudos disponibilizados desde então por esta instituição; - em sintonia com a situação verificada em instituições congéneres externas à UP, a presença curricular da linguística na FLUP mostra-se articulada, durante a maior parte do período temporal em causa, com a presença da área da literatura e com o intuito da formação de professores, sendo contudo de notar um percurso paralelo de autonomização, como demonstrado pela criação de cursos de pós-graduação (já a partir da década de 1980) e de graduação (a partir de 2007) especificamente orientados para a linguística;
53 - uma outra ligação importante da linguística nesta instituição (como noutras) é a que a une à linguística portuguesa; com efeito, a maior parte do ensino e da investigação em linguística, conforme vimos nas considerações antecedentes, tem-se fundido em torno do ensino e da investigação em linguística portuguesa. Esta situação tem-se manifestado com particular evidência, p. ex., nas designações e nos conteúdos da diversas unidades curriculares de linguística – que fazem sistematicamente referência ao português como domínio de estudo – e na quase ausência de disciplinas de linguística nos cursos de LLM ou LLC sem a componente de Português, bem como nos actuais cursos de Línguas e Relações Internacionais e de Línguas Aplicadas36; - os motivos que identificámos nesta secção do relatório para a situação resumida nos pontos anteriores prendem-se, de acordo com a interpretação que propusemos, com o entendimento de que um conhecimento aprofundado da língua portuguesa, a nível universitário, exige obrigatoriamente uma fundamentação científica rigorosa, de que a linguística é uma área fulcral para a formação de professores de línguas e, finalmente, de que a linguística fornece aos seus estudantes competências avançadas no domínio do raciocínio científico; - o ensino da linguística nesta instituição pauta-se, em todos os momentos para os quais recolhemos indícios minimamente documentados, por características que avaliamos positivamente e que configuram, em nosso entender, uma marca distintiva do ensino praticado na FLUP. São qualidades associadas a essas características a abrangência e a profundidade dos programas curriculares, a actualização dos conteúdos e das bibliografias, a definição do desenvolvimento do espírito crítico e da autonomia de trabalho dos estudantes como um 36 A este propósito, veja-se novamente a citação de Brito (2001) na nota 11. Acerca dos cursos de licenciatura em Línguas e Relações Internacionais e Línguas Aplicadas, registaremos somente a ausência de disciplinas especificamente consagradas às áreas contempladas pela disciplina de EFMP.
54 objectivo importante a atingir e o ecletismo teórico assumido na delineação de conteúdos, orientações gerais e bibliografias das disciplinas. Todas estas características – verificadas, como dissemos, ao longo das várias décadas sobre que nos debruçámos nesta secção – contribuíram para o estabelecimento de um contexto de fundo em que se situa a disciplina apresentada neste trabalho e que é indissociável de todas as propostas que apresentaremos e defenderemos na II Parte do relatório. Referências deste capítulo Abercrombie, D. 1985. Daniel Jones’s Teaching. In: V. A. Fromkin (Ed.). Phonetic Linguistics. Essays in Honor of Peter Ladefoged. Orlando FL: Academic Press, 15-24. Aronoff, M.; Fudeman, K. 2005. What is Morphology? Malden MA: Blackwell. Aronoff, M.; Rees-Miller, J. (Eds.). 2001. The Handbook of Linguistics. Oxford: Blackwell. Brito, A. M. 2001. Da multidisciplinaridade do estudo da linguagem à reformulação curricular dos cursos de Línguas e Literaturas Modernas. II Encontro de Questões Pedagógicas. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 21-25. Camara Jr., J. M. 1956. Gonçalves Viana and the Phonic Sciences. In: M. Halle, H. G. Lunt, H. McLean, C. H. Van Schooneveld (Eds.). For Roman Jakobson. Essays on the Occasion of His Sixtieth Birthday. The Hague: Mouton, 328-331. Republicado em: Confluência. 23: 46-51. [2002]. Camara Jr., J. 1970. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis RJ: Vozes. Camara Jr., J. 1971. Problemas de Lingüística Descritiva. Petrópolis RJ: Vozes. Carvalho e Silva, M. 2002. A palavra filologia e as suas diversas acepções: Os problemas da polissemia. Confluência. 23: 53-70. Castro, I.; Rodrigues-Moura, E. 2003. Auto-retrato de Leite de Vasconcelos. In: I. Castro, I. Duarte (Org.). Razões e Emoção. Miscelânea de estudos em homenagem a Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, I, 197-202. Chomsky, N.; Halle, M. 1968. The Sound Pattern of English. New York NY: Harper & Row. Cintra, L. F. L. 1973. Prefácio. In: L. F. L. Cintra, J. A. P. Ribeiro (Org.). A. R. Gonçalves Viana. Estudos de Fonética Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 7-10. Clark, J.; Yallop, C. 1990. An Introduction to Phonetics and Phonology. Oxford: Blackwell. Durand, J. 1990. Generative and non-linear phonology. London: Longman. FLUP. 1986. Guia do Estudante. Línguas e Literaturas Modernas. 1986/87. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Conselho Directivo). FLUP. 1989a. «Fundo Primitivo» da Biblioteca Central. 1919-1928. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. FLUP. 1989b. Universidade do Porto. Faculdade de Letras. 1988/1989. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Franco, A. 2003. Historial e actividades do Centro de Linguística da Universidade do Porto. In: Língua Portuguesa: Estruturas, Usos e Contrastes. Volume comemorativo dos 25 anos do Centro de
55 Linguística da Universidade do Porto. Porto: Centro de Linguística da Universidade do Porto, 7-21. Fromkin, V. A. 1985. Introduction. In: V. A. Fromkin (Ed.). Phonetic Linguistics. Essays in Honor of Peter Ladefoged. Orlando FL: Academic Press, 1-14. Goldsmith, J. A. (Ed.). 1995. The Handbook of Phonological Theory. Cambridge MA: Blackwell. Jakobson, R.; Fant, G.; Halle, M. 1951. Preliminaries to Speech Analysis. Cambridge MA: The MIT Press. Jones, D. 1948. The London School of Phonetics. Zeitschrift für Phonetik. 11: 127-135. Reproduzido em: W. E. Jones, J. Laver (Eds.). 1973. Phonetics in Linguistics. A Book of Readings. London: Longman, 180-186. Machado, J. P. s/d. Breve história da linguística. Lisboa: Inquérito. Mateus, M. H. M. 1975. Aspectos da Fonologia Portuguesa. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos. Mateus, M. H. M. 2002. A Face Exposta da Língua Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Mateus, M. H. M.; Brito, A. M.; Duarte, I.; Faria, I. H.; Frota, S.; Matos, G.; Oliveira, F.; Vigário, M.; Villalva, A. 2003. Gramática da Língua Portuguesa. 5ª ed. Lisboa: Caminho. Mateus, M. H.; D’Andrade, E. 2000. The Phonology of Portuguese. Oxford: Oxford University Press. Neto, S. S. 1977. Manual de Filologia Portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro RJ: Presença. Pardal, E. A. 1977. Aspects de la phonologie (générative) du portugais. Lisboa: INIC. Ribeiro, J. A. P. 1973. Introdução. In: L. F. L. Cintra, J. A. P. Ribeiro (Org.). A. R. Gonçalves Viana. Estudos de Fonética Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 11-18. Rio-Torto, G. M. 1998. Fonética, Fonologia e Morfologia do Português. Coimbra: Colibri/Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Robins, R. H. 1990. A Short History of Linguistics. 3rd ed. London: Longman. Rogers, F. M. 1940. Gonçalves Viana and the Study of Portuguese Phonetics. Boletim de Filologia. VII: 17-29. Republicado em: L. F. L. Cintra, J. A. P. Ribeiro (Org.). 1973. A. R. Gonçalves Viana. Estudos de Fonética Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 67-79. Silva, A. C. 1995. Para a História da Linguística em Portugal. Lembrar Adolfo Coelho (1847-1919). Lisboa: Associação Portuguesa de Linguística. Spencer, A. 1991. Morphological Theory. An Introduction to Word Structure in Generative Grammar. Oxford: Blackwell. Spencer, A.; Zwicky, A. M. (Eds.). 1998. The Handbook of Morphology. Oxford: Blackwell. Troubetzkoy, N. S. 1939. Grundzüge der Phonologie. Trad. fr. de J. Cantineau. Principes de phonologie. Paris: Klincksieck, 1970. Vasconcelos, J. Leite de. 1917. Gonçalves Viana. Apontamentos para a sua biographia. Boletim da Segunda Classe da Academia das Ciências de Lisboa. X: 607-630. Reproduzido em: L. F. L. Cintra, J. A. P. Ribeiro (Org.). 1973. A. R. Gonçalves Viana. Estudos de Fonética Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 21-37.
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57 SEGUNDA PARTE Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português: Uma proposta desenvolvida de trabalho
64 - situação epistemológica geral da linguística enquanto abordagem científica, objectiva e não-normativa de todos os fenómenos relacionados com a linguagem verbal humana e com as estruturas das línguas naturais; - identificação genérica das principais propostas correspondentes às várias correntes teóricas da linguística contemporânea; - identificação das principais famílias linguísticas e da situação do português no conjunto das línguas românicas; - familiarização com conceitos teóricos e operatórios básicos da linguística, tais como, entre outros, gramática, sistema, signo, significante/significado, morfema, fonema, sintagma, lexema, par mínimo, universal linguístico; - classificação articulatória tradicional das consoantes e das vogais do português; - classificação morfossintáctica das palavras do português e identificação das principais funções sintácticas admitidas pela gramática desta língua; - conhecimento genérico, activo e passivo, dos principais símbolos e convenções da transcrição fonética do português; - conhecimento dos principais mecanismos flexionais e derivacionais verificados em português. Naturalmente, a co-existência de perfis distintos no que diz respeito ao domínio prévio de conhecimentos explícitos de linguística impõe alguns condicionalismos ao trabalho a desenvolver nesta disciplina: se, por um lado, não podemos assumir como previamente dominados certos conhecimentos mais avançados do que aqueles que resumidamente acabamos de referir, teremos, por outro lado, de procurar formas mais individualizadas de trabalho junto dos estudantes com um nível mais alargado de conhecimentos prévios. Tais
65 modalidades partirão de pressupostos um pouco mais ambiciosos do que estes. Esta procura de um trabalho mais individualizado poderá traduzir-se, p. ex., na escolha de eventuais temas para trabalhos individuais (vd. 9.1), que poderão, no caso de tais estudantes, versar sobre questões mais complexas e assentes em pressupostos teóricos mais avançados. Finalmente, um outro aspecto a ter em conta nesta contextualização dos estudantes prende-se não com a formação em linguística que antecede a sua participação nas actividades propostas no âmbito da disciplina de EFMP, mas com a que se seguirá a esta experiência curricular. Com efeito, também a este nível se nos apresentam perfis distintos: se, por um lado, alguns estudantes não poderão vir a frequentar, de futuro, outras unidades curriculares de linguística a nível da formação pré-graduada, por EFMP integrar o último semestre lectivo dos seus cursos (estão nesta situação os estudantes da licenciatura em LLC)39, outros poderão ainda vir a frequentar, obrigatória ou opcionalmente, outras disciplinas desta área. Para estes últimos, cremos que nos cabe um papel de motivação importante que, pondo em realce o estatuto privilegiado da linguística enquanto disciplina a quem competem as importantes dimensões formativa e informativa a que temos aludido, encoraje a escolha de disciplinas desta área científica sempre que essa opção venha a revelar-se curricularmente disponível. Transmitir o entusiasmo e a consciência da importância da linguística constituirá então um desígnio claramente assumido no âmbito desta motivação. 39 Junto dos estudantes abrangidos por esta situação, julgamos ser pertinente aproveitar esta circunstância para se efectuar um “balanço final”, explícito e sistematizado, que avalie o impacto das várias disciplinas de linguística frequentadas sobre a formação atingida no termo do percurso universitário destes finalistas.
66 3.3 – Planeamento vs. concretização do projecto curricular apresentado neste relatório Antes de procedermos à inventariação dos objectivos da disciplina, sublinhamos um aspecto que se aplica à totalidade deste relatório: a planificação do trabalho aqui proposta no âmbito da disciplina de EFMP, como parece ajustado a um relatório desta natureza, parte de um cenário que poderíamos classificar como ideal. Tal cenário pressupõe, por parte dos estudantes, uma forte motivação para o estudo e para o trabalho, com um envolvimento discente muito significativo na parcela desse trabalho que consiste no trabalho individual de leitura da bibliografia, de estudo, de resolução de exercícios práticos, de elaboração de trabalhos e de participação activa nas aulas. Pressupõe-se ainda, da parte da instituição, a disponibilização das melhores condições de trabalho ao professor e aos estudantes da disciplina (a nível, p. ex., dos recursos bibliográficos e informáticos, da disponibilidade horária do professor para atendimentos individualizados, etc.). Naturalmente, o cenário real em que as propostas de trabalho aqui delineadas ganharão forma diferirá, nuns anos mais do que noutros (em função de condicionalismos externos), da situação ideal em que aqui são contextualizadas tais propostas. Uma adaptação destas e do trabalho efectivamente concretizado às condições reais de trabalho deverá sempre resultar, em cada ano lectivo e em cada turma, de uma avaliação crítica da situação concreta posta à disposição do professor e dos estudantes.
67 4. Objectivos da disciplina Planear o trabalho a desenvolver numa disciplina universitária pressupõe que os estudantes adquiram e desenvolvam um conjunto de conhecimentos e competências que se apresentam, assim, como os objectivos finais do trabalho efectuado no âmbito da cadeira durante o semestre. A consecução de tais objectivos por parte dos estudantes é, de resto, um factor orientador muito importante para a definição dos conteúdos programáticos aqui propostos para a disciplina de EFMP, bem como para a escolha das obras contempladas pela bibliografia que acompanha o respectivo programa, devendo ser também uma variável a ter em conta em toda a actividade pedagógica desenvolvida pelo professor a nível do planeamento e execução das aulas, da preparação de actividades complementares, da elaboração das provas de avaliação e das propostas dos trabalhos sugeridos à turma. Tais objectivos encontram-se enumerados nas secções seguintes do presente capítulo, onde os dividimos em duas categorias principais: - numa primeira categoria, elencamos os conhecimentos e competências mais gerais, relacionadas com questões abrangentes, eventualmente aprofundando alguns aspectos que poderão ter sido introduzidos em disciplinas anteriormente oferecidas a estes estudantes (tais como, designadamente, as unidades curriculares de Bases de Análise Gramatical e/ou Introdução à Linguística). Estes objectivos, de acordo com a presente proposta, deverão ser plenamente atingidos, em princípio, por todos os estudantes com aproveitamento na disciplina; - num segundo nível, incluímos os conhecimentos e competências de carácter mais específico; relativamente a este nível de objectivos, é esperado um aprofundamento rigoroso de aspectos mais especializados que constituirão, em princípio, assuntos nunca abordados
68 anteriormente pelos estudantes. Estes últimos objectivos, naturalmente, dada a dificuldade inerente à maior parte deles, serão atingidos em graus diferentes pelos diversos estudantes, em função dos seus interesses, das suas motivações iniciais e do esforço colocado no estudo e no trabalho para a disciplina, o que deverá por sua vez traduzir-se nas diferentes classificações a atribuir aos estudantes da turma. Uma última ressalva deve ser feita ainda à conveniência de uma visão integrada de todos os objectivos aqui formulados: ainda que tais objectivos sejam de seguida apresentados sob a forma de um inventário de conhecimentos diversos, tais itens não são aqui concebidos como uma lista de conhecimentos avulsos e adquiridos de forma puramente cumulativa. Pelo contrário, procurar-se-á inculcar nos estudantes a consciência da inter-relação entre todos os tópicos contemplados ao longo do semestre, sendo reforçada ainda a ideia de que a aquisição dos conhecimentos presente nesta parte do relatório deve traduzir – e deve resultar de – uma permanente atitude activa e construtiva do estudante perante as matérias com as quais é posto em contacto no contexto da disciplina de EFMP.
69 OBJECTIVOS GERAIS 1 – DOMÍNIO DOS CONCEITOS BÁSICOS DE FONÉTICA, FONOLOGIA, MORFOLOGIA E DIALECTOLOGIA 1.1 – Conhecimentos elementares de fonética articulatória tradicional e transcrição fonética: a) Descrição funcional geral das estruturas contidas no aparelho fonador; b) Distinções articulatórias fundamentais: b.1) Sons surdos e sonoros (funcionamento da glote); b.2) Sons orais e nasais (funcionamento do véu palatino); b.3) Consoantes e vogais (obstrução oral à passagem do ar); b.4) Pontos e modos de articulação (consoantes); b.5) A configuração vocálica (vogais); c) Categorização tradicional dos sons da fala realizados em português com base em propriedades fonéticas articulatórias: consoantes, vogais e semivogais; sons surdos e sons sonoros; sons orais e sons nasais; consoantes obstruintes e soantes; obstruintes oclusivas e fricativas; soantes nasais e líquidas; líquidas laterais e vibrantes; vibrantes simples e múltiplas; os diferentes pontos de articulação consonânticos (consoantes bilabiais, labiodentais, ápicoalveolares, predorso-alveolares, predorso-prepalatais, dorsopalatais, posdorso-velares e posdorso-uvulares); vogais orais e nasais; vogais altas (fechadas), médias-altas (semifechadas), médias-baixas (semiabertas) e baixas (abertas); vogais anteriores, centrais e recuadas; vogais arredondadas e não-arredondadas;
70 d) Principais símbolos e convenções do Alfabeto Fonético Internacional. Vantagens de um sistema de transcrição fonética universal sobre a transcrição ortográfica corrente. 1.2 – As unidades e conceitos centrais da fonologia e da morfologia: a) o fonema; a distinção entre fonema, fone e alofone; b) unidades fonológicas não-segmentais: b.1) infrassegmentais: o traço distintivo; a noção de “autossegmento”; b.2) suprassegmentais: a sílaba e os constituintes silábicos; b.3) propriedades suprassegmentais: o acento; a entoação; b.4) unidades e propriedades não-segmentais verificadas noutras línguas: a mora; o tom; c) o morfema; a distinção entre morfema, morfe e alomorfe; d) diversos tipos de morfema: d.1) morfemas aditivos, reduplicativos, alternativos e subtractivos; d.2) morfemas zero, morfemas vazios, morfemas etimológicos e morfemas supérfluos; d.3) morfemas cumulativos; d.4) morfemas “cranberry” (hapax legomena); d.5) morfemas gramaticais vs. lexicais; d.6) morfemas flexionais vs. derivacionais; d.7) as noções de morfema e forma: formas livres, formas presas e formas dependentes; palavras morfologicamente simples (indecomponíveis) e complexas (decomponíveis);
71 e) raiz derivacional, radical flexional, marcador de classe, tema, afixos derivacionais e morfemas flexionais; f) a palavra; diversos critérios para a delimitação de unidades diferentes – palavra morfológica, palavra morfossintáctica e palavra fonológica; g) o clítico; palavras fonológicas e grupos clíticos; h) o léxico: léxico e gramática; as representações lexicais; o léxico mental; as noções de lexema e forma citacional; i) alomorfia, representação lexical e supletividade; j) formas subjacentes, representações de superfície e realizações fonéticas; k) economia linguística: economia estrutural e economia descritiva; l) as diversas unidades contempladas nesta secção na sua relação com a dupla articulação da linguagem (Martinet). 1.3 – Processos fonológicos: a) a noção de processo fonológico; processos fonológicos e adição, apagamento e modificação de segmentos; b) processos fonológicos, derivação (fonológica) e regras fonológicas; c) representações fonológicas teóricas: estrutura subjacente, representação lexical, estrutura de superfície; d) a natureza lexical ou pós-lexical de certos processos e propriedades fonológicas; e) processos assimilatórios e dissimilatórios: assimilação, dissimilação, metafonia, harmonização vocálica; f) aplicação de regras e processos: a noção de classe natural; g) motivações históricas (diacrónicas) de alguns processos fonológicos.
72 1.4 – Processos de formação de palavras: a) flexão; b) derivação: b.1) derivação afixal – prefixação, infixação, sufixação, circunfixação e parassíntese; b.2) derivação não-afixal – conversão, posverbalização; c) composição: composição morfológica e composição morfossintáctica; d) outros processos de enriquecimento lexical e formação de palavras: d.1) abreviação: acronímia, siglação e truncagem; d.2) amálgama; d .3) empréstimos. 1.5 – A divisão do léxico em classes com base nas propriedades morfossintácticas das palavras e morfemas: a) as “partes do discurso” desde a gramática greco-latina; b) categorias gramaticais na gramática tradicional; c) categorias lexicais e categorias sintagmáticas; d) classes abertas (nome, verbo, adjectivo, advérbio, interjeição) e classes fechadas (pronome, determinante, quantificador, preposição, conjunção) em português. 1.6 – Problematização da distinção tradicional entre derivação e flexão; a representação dos processos derivacionais e flexionais no léxico teórico da língua.
73 2 – DISTINÇÕES TEÓRICAS FUNDAMENTAIS E RELAÇÃO ENTRE OS DIVERSOS DOMÍNIOS DISCIPLINARES CONTEMPLADOS PELO PROGRAMA DE EFMP 2.1 – A distinção entre fonética e fonologia: a) a perspectiva clássica de Nikolai Troubetzkoy; b) a distinção entre contrastes distintivos (fonémicos) e não-distintivos (subfonémicos ou alofónicos); c) algumas problematizações recentes: a fonologia de laboratório; d) bases fonéticas da análise fonológica e implicações fonológicas da investigação fonética. 2.2 – As relações entre a fonologia e a morfologia: a) a explicação de todos os factos morfológicos pela componente fonológica da gramática no quadro SPE (Chomksy & Halle 1968); b) fonologia e morfologia no quadro da fonologia lexical (Mohanan, Kiparsky) e da morfologia prosódica (McCarthy); c) a representação lexical; aspectos fonológicos lexicais e pós-lexicais; d) alguns processos linguísticos que demonstram a inter-relação destes dois domínios: d.1) o acento; d.2) fenómenos a que está sujeita a vogal temática verbal do português: metafonia; apagamento e harmonização vocálica; d.3) alomorfia; d.4) supletividade; d.5) a alternância fonológica;
80 2.1.2.4 – As semivogais: 2.1.2.4.1 – Características fonéticas; 2.1.2.4.2 – O estatuto prosódico das semivogais e ditongos: a) as semivogais como realizações fonéticas de vogais teóricas; b) ditongos crescentes e decrescentes: c) a legitimação prosódica das semivogais dos ditongos decrescentes: núcleos ramificados ou codas preenchidas?; d) as designações contóide/vocóide (de base fonética) e consoante/vogal (de base fonológica/fonotáctica); as semivogais como “consoantes” – comutabilidade com contóides em pares mínimos e ocorrência em margem de sílaba; e) ditongos e hiatos – nível fonético e nível fonológico. 2.1.3 – Padrões distribucionais das consoantes e vogais do português. 2.1.3.1 – Distribuição livre e distribuição complementar das unidades fonológicas em português. Realizações alofónicas dos fonemas. A neutralização de algumas oposições distintivas em determinados contextos: fonemas e arquifonemas em português. 2.1.4 – Alguns casos problemáticos: 2.1.4.1 – O sistema das vibrantes em português; 2.1.4.2 – O estatuto fonológico da vibrante múltipla em português; 2.1.4.3 – O estatuto fonológico das vogais nasais em português; 2.1.4.4 – O estatuto fonológico das semivogais e ditongos em português; 2.1.4.5 – O estatuto fonológico do chevá em português; 2.1.4.6 – O problema da especificação dos segmentos fonológicos nas representações lexicais.
81 2.1.5 – Traços distintivos na organização interna do sistema segmental do português: 2.1.5.1 – A matriz fonológica de Mateus (1975). Redundância e subespecificação no interior da matriz fonológica; 2.1.5.2 – Classes naturais do português; 2.1.5.3 – Questões de subespecificação em português: traços, vogais e consoantes subespecificados em português; 2.1.5.4 – Organização hierárquica dos traços distintivos em português. Referência aos modelos de “Geometria de Traços”. 2.2 – Processos fonológicos em português. Descrição estrutural e formalização dos processos; discussão do carácter lexical ou pós-lexical destes processos; motivação histórica e aspectos diacrónicos de alguns destes processos: 2.2.1 – Velarização de /l/ em coda silábica; 2.2.2 – Fricatização das oclusivas sonoras; 2.2.3 – Especificação de /S/; 2.2.4 – Desvozeamento de sílabas finais átonas; 2.2.5 – Nasalização; 2.2.6 – Metátese; 2.2.7 – Elevação e centralização/recuo das vogais átonas: 2.2.7.1 – Excepções à aplicação das regras do vocalismo átono e o seu contributo para a delimitação da palavra. 2.2.8 – Apagamento das vogais átonas. 2.3 – Aspectos prosódicos do português: 2.3.1 – Regras fonotácticas do português; 2.3.1.1 – Estruturas silábicas do português:
82 2.3.1.1.1 – O ataque em português: ataques iniciais e não-iniciais; ataques vazios, simples e ramificados. O Princípio da Sonoridade e a Condição de Dissemelhança na construção dos ataques ramificados em português. Sequências consonânticas marcadas em português e a hipótese do “núcleo vazio” (Mateus & E. D’Andrade 1998; 2000). Problematização do estatuto prosódico das combinações Obstruinte+Lateral em português; 2.3.1.1.2 – A rima em português. Extensão máxima da rima. Solidariedade interna da rima. Restrições fonotácticas partilhadas entre núcleo e coda: 2.3.1.1.2.1 – O núcleo em português: a) núcleos não-ramificados; b) a hipótese do núcleo ramificado (ditongos decrescentes); c) a hipótese do núcleo vazio (perante sequências consonânticas em violação do Princípio da Sonoridade e/ou da Condição de Dissemelhança); 2.3.1.1.2.2 – A coda em português: a) prevalência das sílabas abertas em português; b) restrições quantitativas e qualitativas ao preenchimento da coda silábica em português; a actuação do Princípio da Dispersão da Sonoridade; c) o esvaziamento da coda silábica como uma tendência histórica da fonologia do português; d) a hipótese de codas ramificadas em português; 2.3.1.2 – Restrições fonotácticas verificadas nos limites esquerdo e direito da palavra em português e o seu contributo para uma melhor avaliação linguística do conceito de palavra.
83 2.3.2 – O acento de palavra em português a) função culminativa e distintiva do acento em português; acento e periferia de palavra em português; b) acento e propriedades morfológicas da palavra em português; acento nominal vs. acento verbal; c) acento e peso silábico em português: a inexistência de proparoxítonos com penúltima sílaba pesada; d) acento e delimitação da palavra fonológica; e) problematização da distinção entre acento principal, acento primário e acento secundário em português; f) modelos rítmicos de atribuição de acento em português; g) acento e redução do vocalismo átono. 2.3.3 – Unidades prosódicas; discussão da sua relevância para a descrição fonológica do português: sílaba (σ); pé (Σ); palavra fonológica (ω); grupo clítico (C); sintagma fonológico (φ); sintagma entoacional (I); enunciado (U): 2.3.3.1 – A palavra fonológica. Critérios para a sua delimitação. Fenómenos sensíveis à delimitação da palavra fonológica: elisão e iodização de chevá final; palavra fonológica e grupo clítico em português; 2.3.3.2 – Interacção prosódica fonologia-sintaxe e fonologia-pragmática: estruturação prosódica dos enunciados; marcas prosódicas associadas à desambiguação sintáctica e à marcação de foco em português; 2.3.3.3 – Ritmo silábico e ritmo acentual na oposição entre português europeu e português do Brasil.
84 3 – MORFOLOGIA DO PORTUGUÊS 3.1 – Estrutura interna das palavras em português: a) raiz derivacional; b) afixos derivacionais; c) radical flexional; d) marcadores temáticos e tema; e) morfemas flexionais. 3.2 – Critérios para a identificação e delimitação da palavra em português: 3.2.1 – Atribuição de acento e palavra fonológica; outras marcas fonológicas associadas à identificação/delimitação da palavra fonológica; 3.2.2 – Categoria morfossintáctica, função sintáctica e palavra morfossintáctica; 3.2.3 – Marcas e processos flexionais e palavra morfológica; 3.2.4 – O caso particular dos advérbios em –mente e dos nomes formados com o sufixo zavaliativo. 3.3 – Processos derivacionais em português: 3.3.1 – Derivação afixal: a) prefixação; b) sufixação; c) diferenças entre processos prefixais e sufixais: selecção categorial e determinação da classe lexical das palavras derivadas; atribuição de acento e de género das palavras derivadas; e) parassíntese; f) problematização da hipótese de infixação na formação de palavras do português;
85 3.3.2 – Derivação não-afixal: a) conversão; b) formação de posverbais (problematização da designação “derivação regressiva”). 3.4 – Composição de palavras em português: 3.4.1 – Discussão das “palavras compostas” à luz das noções de palavra fonológica, palavra morfológica e palavra morfossintáctica. Os compostos morfossintácticos como a aglomeração, numa palavra morfossintáctica, de duas palavras fonológicas e morfológicas; 3.4.2 – Composição morfológica e composição morfossintáctica: 3.4.2.1 – Os compostos morfológicos e os “sufixos eruditos”. Problematização do estatuto destas palavras enquanto “compostos”. 3.5 – Outros processos de enriquecimento lexical: 3.5.1 – Processos de abreviação e de amálgama. Discussão do seu estatuto morfológico; 3.5.2 – Os empréstimos lexicais. 3.6 - Processos flexionais em português: 3.6.1 – Flexão verbal: 3.6.1.1 – As categorias flexionais do verbo em português: modo-tempo e númeropessoa; 3.6.1.2 – A vogal temática como marcador de classe. A divisão tradicional dos verbos do português em três conjugações em função da vogal temática. Problematização desta divisão: “conjugação produtiva” (“primeira conjugação”) vs. “conjugações históricas” (“segunda e terceira conjugações”); marcas formais que distinguem a primeira das segunda e terceira conjugações: pretérito imperfeito do indicativo (-va- vs. –ia-), presente do conjuntivo (-e- vs. –a-), particípio passado (-ado vs. -ido); 3.6.1.3 – Morfemas flexionais verbais em português;
86 3.6.1.4 – Supletividade do radical em português; 3.6.1.5 – Irregularidades da flexão verbal em português: a) verbos defectivos; o caso particular dos impessoais e unipessoais; b) “flexão abundante”; 3.6.1.6 – Fenómenos fonológicos a que está sujeita a vogal temática verbal do português: a) apagamento; b) metafonia; c) harmonização vocálica; harmonização vocálica e abaixamento da última vogal do radical; 3.6.1.7 – Principais fenómenos de alomorfia registados na flexão verbal do português; 3.6.1.8 – A determinação da forma subjacente de alguns morfemas flexionais verbais do português; o caso particular da determinação da forma subjacente do morfema de segunda pessoa do plural; 3.6.1.9 – Interpretação fonológica dos processos de flexão verbal do português. 3.6.2– Flexão nominal em português: 3.6.2.1 – As categorias flexionais do português: flexão de número; problematização das categorias género e grau enquanto categorias flexionais nominais em português; 3.6.2.2 – O género como uma concordância formal dentro do sintagma nominal, independente da categoria biológica sexo e da terminação das palavras; 3.6.2.3 – Marcadores de classe na flexão nominal do português. Problematização da noção de “vogal temática” na flexão nominal do português; 3.6.2.4 – Morfemas flexionais nominais do português; 3.6.2.5 – Casos particulares:
87 3.6.2.5.1 – Nomes terminados em /l/; 3.6.2.5.2 – Nomes com singular terminado em –ão; 3.6.2.5.3 – Nomes formados com sufixo z-avaliativo. 3.6.3 – A flexão do pronome pessoal em português: formas rectas e formas oblíquas. 3.7 – Aspectos morfológicos das “palavras invariáveis” e das formas indecomponíveis do português: problematização da distinção palavra /morfema nas classes dos advérbios, conjunções e preposições: 3.7.1 – Estrutura interna e aspectos prosódicos dos advérbios em –mente. 3.8 – A divisão do léxico do português em categorias morfossintácticas. Classes abertas vs. classes fechadas. Estrutura interna e propriedades morfossintácticas e fonológicas dos itens das classes: 3.8.1 – Nome; 3.8.2 – Verbo; 3.8.3 – Adjectivo; 3.8.4 – Advérbio; 3.8.5 – Interjeição; 3.8.6 – Pronome; 3.8.7 – Determinante; 3.8.8 – Quantificador; 3.8.9 – Preposição; 3.8.10 – Conjunção. 3.9 – Exemplos de interacção fonologia/morfologia: 3.9.1 – Acento nominal e acento verbal em português; 3.9.2 – Alomorfia do morfema de plural nominal;
88 3.9.3 – Metafonia da vogal final de morfemas de pessoa-número e da vogal temática verbal; 3.9.4 – Harmonização vocálica e abaixamento da última vogal do radical na flexão verbal do português; 3.9.5 – Supletividade e opacidade fonológica na determinação da forma teórica de alguns morfemas flexionais do português; 3.9.6 – Alternâncias fonológicas de grau de abertura de /E/ e /O/ motivadas pela classe gramatical em que ocorrem dentro de raízes derivacionais partilhadas por verbo e nome (“harmonização vocálica). 3.10 – A noção de PALAVRA em português: 3.10.1 – Dificuldades inerentes à definição da palavra. Problematização do carácter universal desta unidade linguística; 3.10.2 – Palavra ortográfica, palavra morfológica, palavra morfossintáctica e palavra fonológica; 3.10.3 – Palavra gramatical e palavra lexical; 3.10.4 – Critérios para a delimitação da palavra morfossintáctica: comutabilidade com uma palavra não-composta; núcleo de categoria sintagmática com função sintáctica atribuída; 3.10.5 – Critérios para a delimitação da palavra fonológica: domínio de acento; domínio de processos/regras fonológicas (vocalismo átono, iodização/apagamento de chevá final, …); 3.10.6 – Critérios para a delimitação da palavra morfológica: domínio da aplicação de um processo flexional; 3.10.7 – Fenómenos e condições fonológicas sensíveis à palavra e pertinentes para a sua identificação/delimitação em português: 3.10.7.1 – Restrições fonotácticas particulares sensíveis ao limite (esquerdo ou direito) de palavra; 3.10.7.2 – Minimalidade;
89 3.10.7.3 – Acento e vocalismo átono. 4 - VARIAÇÃO DIALECTAL DO PORTUGUÊS 4.1 – A divisão dos dialectos do português segundo a proposta de Cintra (1971) a) Dialectos setentrionais; b) Dialectos centro-meridionais; c) Dialectos insulares; d) Sub-áreas dialectais delimitadas: Baixo Minho e Douro Litoral; Beira Baixa e Alto Alentejo; Barlavento algarvio. 4.2 – As isoglossas contempladas por Cintra (1971) e a problematização da sua pertinência para a divisão dialectal do português europeu contemporâneo. 4.3 – Algumas mudanças fonético-fonológicas em curso no português europeu. 4.4 – A integração morfológica e fonológica dos empréstimos lexicais em português. 4.5 – Principais marcas que distinguem os dialectos europeus dos dialectos não-europeus do português.
96 2 – Fonética articulatória do português. 2.1 – O aparelho fonador e a produção dos sons da fala. 2.2 – Descrição e classificação articulatória tradicional dos sons do português. 3 – Variação dialectal em português. 3.1 – Norma e variação. 3.2 - A variação linguística como uma característica intrínseca às línguas naturais. Variação: Fenómeno periférico (circunscrito às realizações fonéticas) ou central (presente na própria gramática)? 3.3 – Normativismo vs. descritivismo perante a variação linguística. 3.4 – Linguística e variação linguística. A perspectiva particular da linguística histórica, da sociolinguística e da dialectologia. 3.5 – Factores históricos, sociais e geográficos na variação linguística. 3.6 – Tipologia clássica da variação linguística: variação diacrónica, diatópica, diafásica e diastrática. 3.7 – A variação linguística nos vários níveis da gramática: variação fonético-fonológica; variação lexical; variação morfossintáctica. 3.8 – Noções clássicas de sociolinguística e dialectologia: variação estilística vs. variação estratificada; variação vertical; dialecto, sociolecto e idiolecto; 3.9 – Variedades europeias e não-europeias do português contemporâneo. 3.10 – A divisão dialectal do português europeu contemporâneo de acordo com a proposta de Cintra (1971). 3.11 – Variações em curso no português europeu contemporâneo.
97 4 – Aspectos segmentais da fonologia do português. 4.1 – Inventário segmental. A organização interna deste inventário. 4.1.1 – Oposições funcionais na organização do consonantismo do português: vozeamento; nasalidade; modo de articulação; ponto de articulação. 4.1.2 – Oposições funcionais na organização do vocalismo do português: altura; abertura; avanço/recuo; arredondamento labial. 4.1.3 – A distinção entre vocalismo tónico e vocalismo átono; vocalismo átono pré-tónico e pós-tónico (final e não final). 4.1.4 – Segmentos fonológicos admitidos no inventário teórico da língua e as suas realizações fonéticas e alofónicas. 4.2 – Padrões de distribuição dos segmentos consonânticos e vocálicos do português. Fonemas e alofones. Neutralização de oposições distintivas e arquifonemas em português: /L/, /N/, /R/, /S/ e arquifonemas vocálicos. 4.3 – A distinção entre vogais, consoantes e “semivogais” de um ponto de vista fonético e fonológico. 4.4 – Algumas questões problemáticas do inventário segmental do português. 4.4.1 – O estatuto fonológico das “vogais nasais”. 4.4.2 – O estatuto fonológico das semivogais e dos ditongos. 4.4.3 – O estatuto fonológico da vibrante múltipla. 4.4.4 - O estatuto fonológico do chevá.
98 4.5 – Processos fonológicos em português. Descrição estrutural, formalização e discussão do seu carácter lexical ou pós-lexical. Discussão da motivação diacrónica de alguns destes processos. 4.5.1 - Velarização de /l/ em coda silábica. 4.5.2 – Fricatização das oclusivas sonoras. 4.5.3 – Desvozeamento de sílabas finais átonas. 4.5.4 – Nasalização. 4.5.5 – Elevação e centralização/recuo das vogais átonas. 4.5.6 – Apagamento de vogais átonas. 4.5.7 – Especificação de /S/. 5 – Aspectos prosódicos da fonologia do português. 5.1 – Unidades suprassegmentais: sílaba, pé, palavra fonológica, grupo clítico, sintagma fonológico, sintagma entoacional, enunciado. 5.2 – Estruturas silábicas em português. 5.3 – Restrições fonotácticas e princípios prosódicos aplicados na constituição de: 5.3.1 – Ataques simples (iniciais e não-iniciais) e ramificados; 5.3.2 – Núcleos simples e ramificados; 5.3.3 – Codas finais e não-finais. 5.4 - O acento de palavra em português. 5.4.1 – Acento e periferia de palavra. 5.4.2 – Função culminativa e distintiva do acento de palavra em português. 5.4.3 – Acento e estrutura morfológica da palavra em português: regras de atribuição de acento em formas nominais e em formas verbais do português.
99 5.4.4 – Restrições quantitativas à atribuição de acento de palavra em português. 5.4.5 – Problematização da distinção entre acento principal, acento primário e acento secundário em português. 5.5 – Estrutura prosódica, estrutura sintáctica e estrutura informacional em português. 5.5.1 – Marcas prosódicas associadas à desambiguação sintáctica em português. 5.5.2 – Marcas prosódicas associadas à marcação de foco em português. 5.6 – Ritmo acentual e ritmo silábico no português europeu e no português do Brasil. 6 – Aspectos morfológicos do português. 6.1 – Tipos de morfema em português. 6.1.1 – Morfemas lexicais e morfemas gramaticais. 6.1.2 – Morfemas derivacionais e morfemas flexionais. A distinção entre processos derivacionais e processos flexionais e o seu lugar no léxico teórico da língua. 6.1.3 – Morfemas zero, morfemas cumulativos, morfemas vazios, morfemas etimológicos e hapax legomena na morfologia do português. 6.1.4 – As noções de morfema, morfe e alomorfe na descrição morfológica do português. 6.2 – Morfema, forma e palavra. Palavras plenas/vazias, palavras de conteúdo/funcionais, palavras lexicais/gramaticais. 6.2.1 – Critérios para a definição, identificação e delimitação dos diferentes tipos de palavra em português. Problematização da noção de palavra como unidade pertinente para a descrição linguística. 6.2.1.1 – Palavra morfológica. 6.2.1.2 – Palavra morfossintáctica. 6.2.1.3 – Palavra fonológica.
100 6.2.2 – Palavras simples e palavras complexas. Palavras variáveis e palavras invariáveis. 6.2.3 – As regras (morfológicas) de formação de palavras como diferentes das regras (sintácticas) de formação de frases. 6.2.4 – Classes de palavras em português. 6.3 – Morfologia derivacional do português. 6.3.1 – Raiz e afixos derivacionais. 6.3.2 – Prefixação, sufixação, infixação, circunfixação e parassíntese em português. 6.3.3 – Derivação não-afixal em português: conversão e posverbalização. 6.4 – Processos composicionais em português: composição morfológica e composição morfossintáctica. 6.5 – Outros processos de enriquecimento lexical em português. 6.5.1 – Abreviação: siglação; acronímia; truncação. 6.5.2 – Amálgama. 6.5.3 – Empréstimos lexicais. A integração fonológica e morfológica dos empréstimos em português. 6.6 – Flexão verbal em português. 6.6.1 – Categorias da flexão verbal do português: modo-tempo e número-pessoa. 6.6.2 – Estrutura interna das formas verbais em português. 6.6.3 – Tema verbal, vogal temática e classes temáticas na flexão verbal do português. Fenómenos a que está sujeita a vogal temática verbal do português: apagamento; metafonia; harmonização vocálica (e abaixamento da última vogal do radical). 6.6.4 – Morfemas flexionais verbais do português. 6.6.5 – A forma teórica dos morfemas verbais do português. Principais realizações alomórficas a que estão sujeitos estes morfemas.
101 6.6.6 – Supletividade verbal. 6.6.7 – Principais irregularidades da flexão verbal em português: defectividade; “flexão abundante”. 6.7 – Flexão nominal em português. 6.7.1 – A flexão de número em português. 6.7.2 – Problematização do género enquanto categoria flexional nominal em português. 6.7.3 – Problematização do grau enquanto categoria flexional nominal em português. 6.7.4 – Marcadores temáticos nominais em português. 6.7.5 – A estrutura interna da forma nominal em português. 6.7.6 – Casos especiais de flexão nominal em português: a “flexão interna”; a flexão interna como um caso de harmonização vocálica. 6.7.7 – Particularidades flexionais dos nomes: 6.7.7.1 – terminados em /l/; 6.7.7.2 – terminados em –ão; 6.7.7.3 – formados com o sufixo z-avaliativo. 6.8 – A flexão do pronome pessoal em português. 6.9 – Aspectos morfológicos das “palavras invariáveis” e das palavras indecomponíveis em português. 6.10 – Estrutura interna e aspectos prosódicos dos advérbios em –mente. 6.11 – A divisão do léxico do português em categorias morfossintácticas. 6.12 – Interacção fonologia/morfologia na descrição/explicação dos seguintes fenómenos gramaticais: 6.12.1 – Acento verbal e nominal em português;
102 6.12.2 – Alternâncias fonológicas morfologicamente motivadas: as alternâncias [e]/[D] e [o]/[N] dentro do radical de pares nome/verbo como fenómenos de harmonização vocálica entre a última vogal do radical e o marcador de classe; 6.12.3 – Supletividade verbal; 6.12.4 – Realizações alomórficas; 6.12.5 – Harmonização vocálica; 6.12.6 – Processos assimilatórios (metafonia); 7 – Síntese final: problematização crítica da noção de palavra enquanto noção pertinente para a descrição linguística do português.
103 5.3 – Considerações sobre o programa proposto para a unidade curricular de Estruturas Fonológicas e Morfológicas do Português e algumas primeiras indicações metodológicas sobre a sua implementação em aula De seguida, deter-nos-emos de forma mais demorada na análise dos principais vectores temáticos contemplados pelo programa proposto na secção anterior. Na sequência da sua contextualização geral, discutida em capítulos anteriores, este programa pretende afirmar-se como um programa de linguística descritiva do português que elege a fonologia e a morfologia desta língua como as suas áreas centrais. Não se trata, portanto, de uma disciplina de linguística geral ou de linguística teórica, mas sim de uma disciplina de descrição dos dois capítulos centrais da gramática do português que acabámos de referir. Como decorre do estatuto universitário desta disciplina e de todos os pressupostos discutidos nos capítulos antecedentes, a descrição que se pretende empreender ao abrigo deste programa será porém, necessariamente, uma descrição formatada pela área científica em que se insere o trabalho desenvolvido em EFMP. Isto é, tratar-se-á de uma descrição nos moldes da linguística descritiva, baseada e fundamentada nos conceitos, nas técnicas de análise e na bibliografia mais relevantes dessa área. Como já foi afirmado, optámos por não circunscrever as abordagens desenvolvidas nesta disciplina a uma só orientação teórica, como se torna patente pela leitura do programa apresentado em 5.2 e da bibliografia proposta no capítulo seguinte. Quer no domínio da fonologia, quer no da morfologia, optámos por familiarizar os estudantes com as interpretações da corrente estruturalista e da corrente generativa. Este ecletismo teórico – que
104 se insere numa tradição longa do ensino destas áreas na FLUP, como tentámos demonstrar no capítulo 2 e que nos parece justificado numa disciplina de primeiro ciclo – manifestar-se-á sob duas formas básicas: - nas ocasiões em que se procederá à apresentação de conceitos fundamentais circunscritos a uma escola de pensamento específica, a abordagem a tais conceitos e noções far-se-á com base numa articulação explícita de tais conceitos com a correspondente filiação teórica e epistemológica. Será este o caso, p. ex., da abordagem às noções de oposição distintiva e de fonema, claramente associados ao pensamento estruturalista, ou aos conceitos de forma subjacente e regra fonológica, claramente associados à linguística generativa; - quando estiver em causa a abordagem a análises descritivas de fenómenos da gramática do português feitas em quadros teóricos alternativos, optar-se-á pela apresentação explícita e comparada das diferentes interpretações propostas e das respectivas fundamentações. Um exemplo desta modalidade é encontrado na explicação do estatuto prosódico das sequências consonânticas violadoras do Princípio da Sonoridade e/ou da Condição de Dissemelhança de acordo com o pensamento estruturalista de Camara Jr. (1970: 56-58; 1971: 27 e ss.; 1977: 80-81) – que propõe a existência de uma vogal teórica entre as duas consoantes, frequentemente apagada das produções fonéticas – e com a análise generativa de Mateus & E. D’Andrade (1998; 2000) – que postulam a existência de um núcleo vazio subjacente entre as duas consoantes e a epêntese fonética frequente de um chevá nessa posição prosódica. Os tópicos de fonologia e morfologia do português a trabalhar nesta unidade curricular são os que se encontram explicitados no programa apresentado em 5.2. Para a escolha dos pontos a abordar no âmbito desta disciplina, procurámos incluir neste programa todos os
105 tópicos centrais para a descrição desses dois domínios da gramática desta língua, como tal contemplados quer em obras descritivas do português de carácter geral como, nomeadamente, a Gramática da Língua Portuguesa de Mateus et al. (2003), quer em obras de carácter mais específico, tais como, a título de exemplo, Barbosa (1965; 1994), Camara Jr. (1970; 1971; 1977), Silveira (1986), Laroca (1994), Mateus & E. D’Andrade (2000), Netto (2001), Mateus (2002), Silva (2002; 2003), Bisol (Org., 2005) e Rosa (2006). Como já foi referido, todos os tópicos serão abordados de acordo com mais do que uma perspectiva teórica. As áreas da fonologia e da morfologia do português assumem-se, nesta cadeira e de acordo com este programa, como as áreas centrais do trabalho a desenvolver no semestre. Estas são não só as áreas com uma menção explícita na própria designação oficial desta unidade curricular, como também aquelas a que correspondem um maior número de pontos do programa e o maior número de aulas e sessões lectivas, de acordo com a planificação proposta no capítulo 7. Contudo, a par destes dois capítulos temáticos, o programa de EFMP integra ainda três áreas que podemos considerar “secundárias”42: a fonética articulatória tradicional do português, a transcrição fonética e a variação dialectal do português. A sua presença num programa destinado principalmente ao aprofundamento de tópicos de fonologia e morfologia do português justifica-se pelas razões que passamos a expor. 42 O termo “secundárias” não deve aqui ser lido como uma depreciação do interesse científico das áreas a que se aplica. Este adjectivo pretende traduzir unicamente alguns dados verificados de forma objectiva no tocante à articulação da fonética e da variação dialectal com as restantes componentes do programa: por um lado, tais áreas ocupam uma percentagem menor de horas e aulas, comparativamente com o que se verifica com as áreas “centrais” do programa, não sendo, ao contrário destas últimas, objecto de menção explícita na designação formal da cadeira; por outro lado, como pretendemos deixar expresso no próprio texto desta proposta, entendemo-las aqui como áreas “instrumentais”, cuja inclusão no programa se justifica principalmente pela forma como permitem ou facilitam o acesso dos estudantes aos conhecimentos essenciais de fonologia e de morfologia.
112 Barry, W. J.; Trouvain, J. 2008. Do we need a symbol for a central open vowel ? Journal of the International Phonetic Association. 38(3): 349-357. Bisol, L. (Org.). 2005. Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 4ª ed. rev. e ampl. Porto Alegre RS: EDIPUCRS. Camara Jr., J. M. 1970. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis RJ: Vozes. Camara Jr., J. M. 1971. Problemas de Lingüística Descritiva. Petrópolis RJ: Vozes. Camara Jr., J. M. 1977. Para o Estudo da Fonêmica Portuguesa. Rio de Janeiro RJ: Padrão. Carr, P. 1993. Phonology. London: Macmillan. Chomsky, M.; Halle, M. 1968. The Sound Pattern of English. New York NY: Harper & Row. Cintra, L. F. L. 1971. Nova Proposta de Classificação dos Dialectos Galego-Portugueses. Boletim de Filologia. XXII: 81-116. Clark, J.; Yallop, C. 1990. An Introduction to Phonetics and Phonology. Oxford: Blackwell. Delgado-Martins, M. R. 1988. Ouvir falar. Introdução à fonética do português. Lisboa: Caminho. Denes, P. B.; Pinson, E. N. 1993. The Speech Chain. The Physics and Biology of Spoken Language. 2nd edition. New York NY: Freeman & Co. Emiliano, A. 2009. Fonética do Português Europeu. Descrição e Transcrição. Lisboa: Guimarães. Gil Fernández, J. 1990. Los sonidos del lenguaje. Madrid: Síntesis. Gussenhoven, C.; Jacobs, H. 1998. Understanding Phonology. London: Arnold. International Phonetic Association. 1999. Handbook of the International Phonetic Association. A Guide to the Use of the International Phonetic Alphabet. Cambridge: Cambridge University Press. Katamba, F. 1989. An Introduction to Phonology. London: Longman. Ladefoged, P.; Maddieson, I. 1996. The Sounds of the World’s Languages. Oxford: Blackwell. Laroca, M. N. C. 1994. Manual de Morfologia do Português. Juiz de Fora MG/São Paulo SP: UFJF/Pontes. Lieberman, P.; Blumstein, S. E. 1988. Speech physiology, speech perception, and acoustic phonetics. Cambridge: Cambridge University Press. Malmberg, B. 1954. La phonétique. Paris: Presses Universitaires de France. Trad. port. de O. Figueiredo. A Fonética. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. Martínez Celdrán, E. 1989. Fonética. 3ra. edición. Barcelona: Teide. Martínez Celdrán, E. 1996. El sonido en la comunicación humana. Introducción a la fonética. Barcelona: Octaedro. Mateus, M. H. M. 1975. Aspectos da Fonologia Portuguesa. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos. Mateus, M. H. M. 2002. A Face Exposta da Língua Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Mateus, M. H. M.; Andrade, A.; Viana, M. C.; Villalva, A. 1990. Fonética, Fonologia e Morfologia do Português. Lisboa: Universidade Aberta. Mateus, M. H. M.; Brito, A. M.; Duarte, I.; Faria, I. H.; Frota, S.; Matos, G.; Oliveira, F.; Vigário, M.; Villalva, A. 2003. Gramática da Língua Portuguesa. 5ª ed. Lisboa: Caminho. Mateus, M. H.; D’Andrade, E. 1998. The Syllable Structure in European Portuguese. DELTA. 14(1): 13-32. Mateus, M. H.; D’Andrade, E. 2000. The Phonology of Portuguese. Oxford: Oxford University Press. Netto, W. F. 2001. Introdução à fonologia da língua portuguesa. São Paulo SP: Hedra. Pike, K. L. 1975. Phonemics. [renewed] Ann Arbor MI: The University of Michigan Press [1ª ed.: 1947]. Pullum, G. K.; Ladusaw, W. A. 1986. Phonetic Symbol Guide. Chicago: The University of Chicago Press.
113 Recasens, D. 2009. Response to W. J. Barry & J. Trouvain, Do we need a symbol for a central open vowel? JIPA 38 (2008), 349-357. Journal of the International Phonetic Association. 39(2): 231-233. Rosa, M. C. 2006. Introdução à Morfologia. São Paulo SP: Contexto. Silva, T. C. 2002. Fonética e Fonologia do Português. 6ª ed. São Paulo SP: Contexto. Silva, T. C. 2003. Exercícios de Fonética e Fonologia. São Paulo SP: Contexto. Silveira, R. C. P. 1986. Estudos de Fonologia Portuguesa. São Paulo SP: Cortez. Spencer, A. 1996. Phonology. Oxford: Blackwell. Troubetzkoy, N. S. 1939. Grundzüge der Phonologie. Trad. fr. de J. Cantineau. Principes de phonologie. Paris: Klincksieck, 1970. Veloso, J. 1999. Na ponta da língua. Exercícios de fonética do português. Porto: Granito. Veloso, J. 2007. Variação dialectal e sociolectal na aula de Português Língua Materna. Algumas reflexões e sugestões metodológicas. In: R. Bizarro (Org.). Eu e o Outro. Estudos Multidisciplinares sobre Identidade(s), Diversidade(s) e Práticas Interculturais. Porto: Areal, 262- 268.
114
115 6. Bibliografia Na presente secção, reunimos as obras cuja leitura consideramos importante para uma correcta implementação do programa proposto no capítulo 5 no contexto da proposta de trabalho pedagógico formulada no desenvolvimento deste relatório. Na elaboração desta lista bibliográfica, procurámos assegurar algumas características que reputamos fundamentais e que julgamos em consonância com os restantes aspectos da proposta de trabalho vertida para o relatório: - exaustividade. Procurámos obter uma lista que cobrisse todas as áreas temáticas contempladas pelo programa e que facultasse aos estudantes o acesso a todos os conhecimentos e matérias trabalhados no âmbito da disciplina; neste contexto, procurámos também incluir materiais redigidos em diversas línguas e com diferentes graus de profundidade, a fim de podermos fazer chegar as leituras propostas ao maior número possível de estudantes, considerando a diversidade dos seus perfis; - actualização. A relação bibliográfica que de seguida se propõe procura incluir obras recentes dos vários domínios tratados no programa, por forma a facilitar-se a familiarização dos estudantes com o avanço dos conhecimentos, bem como o seu contacto com as tendências mais recentes na abordagem dos diversos tópicos. Este esforço de actualização materializou-se, na proposta aqui apresentada, em dois aspectos essenciais: na indicação de manuais universitários de linguística geral, fonologia e morfologia editados recentemente, capazes de informar os estudantes dos últimos desenvolvimentos (conceptuais, teóricos, terminológicos e metodológicos) dessas áreas, e na indicação de descrições do português, gerais ou parcelares, desenvolvidas também à luz dos desenvolvimentos teóricos mais recentes. Contudo, o objectivo de actualização aqui assumido não se traduziu, de forma alguma, no
116 apagamento, da lista bibliográfica a seguir proposta, de obras menos recentes respeitantes aos diversos domínios e temas tratados. Assim, continuam a ter lugar na bibliografia aqui proposta obras fundamentais para a compreensão dos tópicos abordados, como, p. ex., as obras clássicas de Troubetzkoy (1939) e Chomsky & Halle (1968), bem como as descrições do português que continuam a ser consideradas imprescindíveis para a caracterização das principais estruturas fonológicas e morfológicas da língua, tais como, entre outras, Barbosa (1965), Camara Jr. (1970; 1971) ou Mateus (1975); - ecletismo teórico. A par do esforço de combinar, na bibliografia da disciplina, obras mais recentes com títulos “clássicos”, a bibliografia que se segue tenta igualmente representar diversas orientações teóricas. Assumimos assim um propósito de pluralidade, que consideramos inteiramente compatível com o objectivo de desenvolvimento do espírito crítico dos estudantes no que toca à capacidade de reunir e avaliar argumentações não inteiramente coincidentes quanto ao entendimento dos tópicos explorados no estudo desta disciplina. Esta pluralidade teórica é exemplificada pela inclusão, no programa da UC, de descrições gramaticais do português de nível universitário desenvolvidas quer à luz das abordagens históricas e/ou tradicionais (Vázquez Cuesta & Luz 1971; Cunha & Cintra 1984), quer à luz de orientações formais (Lopes 1972) e linguísticas recentes, contemplando-se, nestas últimas, diversas escolas teóricas, como a gramática de valências e a gramática de texto (Busse & Vilela 1986; Vilela 1992; 1999) e a gramática generativa (Mateus et al. 2003). Outro exemplo desta pluralidade de orientações pode ser encontrado na presença de descrições da fonologia e morfologia do português desenvolvidas quer no quadro da linguística estruturalista (Camara Jr.
117 1970; 1971; 1977; Barbosa 1965; 1994; Barroso 1999), quer no quadro da linguística generativa (Mateus 1975; 2002; Pardal 1977; Mateus & E. D’Andrade 2000)51. A bibliografia que será de seguida apresentada, justificada pelas opções que explicitámos, não deverá ser vista, naturalmente, como uma lista fechada e definitiva. Designadamente, todos os esforços que os estudantes queiram fazer no sentido de completarem estas sugestões de leitura com consultas resultantes da sua pesquisa individual e original serão amplamente incentivados e reconhecidos. Qualquer relação bibliográfica desta natureza integrará, inevitavelmente, títulos com graus de importância díspares entre si. Tal como, nos objectivos inventariados no capítulo 4, se admitiu que os estudantes os atingissem em níveis diferenciados – em função, nomeadamente, das suas motivações e interesses de partida –, é de prever que o contacto dos estudantes com as diferentes obras da bibliografia aconselhada se concretize em graus diferentes, também em função dessas mesmas motivações e interesses de partida. Neste aspecto particular, não tivemos qualquer dúvida em incluir na lista bibliográfica títulos que, à partida, por se revelarem de leitura mais difícil ou de conteúdo mais especializado, pudessem ser sugeridos apenas a estudantes aspirando a objectivos mais avançados. Tais títulos foram incluídos na bibliografia por dois motivos principais: por um lado, para que tais 51 Outra manifestação de um outro tipo de pluralismo subjacente à bibliografia aqui apresentada prende-se com a presença de obras redigidas não só em português mas também noutras línguas (inglês, francês e castelhano). Julgamos, com efeito, que o contacto dos estudantes com textos académicos escritos em várias línguas, além de potenciar o alargamento dos seus conhecimentos e de poder aumentar o contacto com várias escolas de pensamento, porá em realce o seu espírito de abertura e de receptividade a um conjunto mais amplo de fontes de conhecimento. Este contacto com uma bibliografia plurilingue contribuirá ainda, em nosso entender, para o desenvolvimento das suas capacidades de uso de mais do que uma língua em contexto académico, com evidentes benefícios a nível do enriquecimento de competências profissionais. Finalmente, e conforme foi referido no corpo do texto, a inclusão de obras escritas em várias línguas poderá tornar possível o acesso de todos os estudantes à bibliografia aconselhada, pois alunos que por qualquer razão se vejam impedidos de aceder aos títulos publicados numa dada língua poderão optar, quando possível, pela consulta de materiais redigidos em línguas que lhes sejam conhecidas ou mais familiares.
118 estudantes pudessem conhecê-los (e para que todos os estudantes fossem informados pelo menos da existência de tais obras); em segundo lugar, porque concebemos uma bibliografia universitária também como um instrumento de trabalho cujo alcance pode ultrapassar os limites mais estreitos das circunstâncias externas concretas em que ela é proposta. Isto é: não afastamos a hipótese de que a bibliografia aqui proposta possa ser consultada por interessados não obrigatoriamente inscritos na turma de EFMP, assim como admitimos que estudantes inscritos em dado ano na disciplina venham, mais tarde e noutro contexto, a recuperar estas indicações bibliográficas para uma retoma e/ou um aprofundamento do seu estudo, numa fase ulterior, destas matérias. Para que esta bibliografia possa, de facto, ser usada como um guia de estudo¸ não nos limitaremos a indicar todas as obras por ordem alfabética. Os títulos serão agrupados por temas específicos (podendo haver casos em que a mesma obra, por poder servir ao estudo de mais do que um tema, seja indicada mais do que uma vez) e, dentro de cada tema, dividiremos os vários títulos indicados de acordo com dois graus de importância: obras de leitura essencial e obras de leitura complementar. A avaliação que preside a uma divisão/hierarquização como a que acabamos de explicitar revela-se difícil, delicada e, em certos casos, muito subjectiva. A decisão de a estabelecermos foi muito ponderada. Assumindo o risco de fornecer aos estudantes pistas erradas quanto à importância de certas obras – e assumindo um outro risco, que nos parece mais discutível, que é o de eventualmente desencorajarmos os estudantes da aproximação aos títulos indicados como leituras acessórias –, acabámos porém por manter tal hierarquização. Esta será sempre acompanhada de uma explicação aos estudantes no sentido de os incentivarmos a não reduzirem taxativamente as suas leituras às obras “de leitura essencial” e a procurarem alargar o seu estudo à tentativa de leitura das obras
119 “complementares”. Ser-lhes-á inclusivamente solicitado que discordem, quando lhes parecer oportuno, da classificação de alguma das obras estudadas numa das categorias aqui consideradas e que contribuam regularmente para a reformulação da bibliografia aqui proposta. Referências deste capítulo Barbosa, J. M. 1965. Etudes de Phonologie Portugaise. Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar. 2.ème éd.: Évora: Universidade de Évora, 1983. Barbosa, J. M. 1994. Introdução ao Estudo da Fonologia e Morfologia do Português. Coimbra: Almedina. Barroso, H. 1999. Forma e Substância da Expressão da Língua Portuguesa. Coimbra: Almedina. Busse, W.; Vilela, M. 1986. Gramática de Valências. Coimbra: Almedina. Camara Jr., J. M. 1970. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis RJ: Vozes. Camara Jr., J. M. 1971. Problemas de Lingüística Descritiva. Petrópolis RJ: Vozes. Camara Jr., J. M. 1977. Para o Estudo da Fonêmica Portuguesa. Rio de Janeiro RJ: Padrão. Chomsky, N.; Halle, M. 1968. The Sound Pattern of English. New York NY: Harper & Row. Cunha, C.; Cintra, L. F. L. 1984. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Sá da Costa. Lopes, Ó. 1972. Gramática simbólica do português (um esboço). 2ª ed. Lisboa: Instituto Gulbenkian de Ciência/Centro de Investigação Pedagógica. Mateus, M. H. M. 1975. Aspectos da Fonologia Portuguesa. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos. Mateus, M. H. M. 2002. A Face Exposta da Língua Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Mateus, M. H. M.; Brito, A. M.; Duarte, I.; Faria, I. H.; Frota, S.; Matos, G.; Oliveira, F.; Vigário, M.; Villalva, A. 2003. Gramática da Língua Portuguesa. 5ª ed. rev. e aum. Lisboa: Caminho. Mateus, M. H.; D’Andrade, E. 2000. The Phonology of Portuguese. Oxford: Oxford University Press. Pardal, E. A. 1977. Aspects de la phonologie (générative) du portugais. Lisboa: INIC/Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Troubetzkoy, N. S. 1939. Grundzüge der Phonologie. Trad. fr. de J. Cantineau. Principes de phonologie. Paris: Klincksieck, 1970. Vázquez Cuesta, P.; Luz, M. A. M. 1971. [trad. port. de A. M. Brito & G. Matos, a partir da 3ª ed. esp.]. Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Edições 70. Vilela, M. 1992. Gramática de Valências: Teoria e Aplicação. Coimbra: Almedina. Vilela, M. 1999. Gramática da língua portuguesa: gramática da palavra, gramática da frase, gramática de texto. 2ª ed. Coimbra: Almedina.
120 A. OBRAS DE INTRODUÇÃO GERAL À LINGUÍSTICA MANUAIS UNIVERSITÁRIOS DE INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA OBRAS DE CARÁCTER GERAL SOBRE A NATUREZA DA LINGUAGEM E DO SEU ESTUDO OBRAS SOBRE HISTÓRIA DA LINGUÍSTICA OBRAS DE INTRODUÇÃO A CORRENTES LINGUÍSTICAS ESPECÍFICAS Obras de leitura essencial AKMAJIAN, Adrian; DEMERS, Richard A.; FARMER, Ann K.; HARNISH, Robert M. 2001. Linguistics: An Introduction to Language and Communication. Cambridge MA: The MIT Press. ARONOFF, Mark; REES-MILLER, Janie (Eds.) 2001. The Handbook of Linguistics. Oxford: Blackwell. CARVALHO, José G. Herculano de. 1983. Teoria da linguagem: natureza do fenómeno linguístico e a análise das línguas. Coimbra: Coimbra Editora (2 vols.). CHOMSKY, Noam. 1986. Knowledge of Language. Its Nature, Origin and Use. New York NY: Praeger. Trad. port. de A. Gonçalves, A. T. Alves. O Conhecimento da Língua. Sua Natureza, Origem e Uso. Lisboa: Caminho, 1994. DE BEAUGRANDE, Robert. 1991. Linguistic Theory. The Discourse of Fundamental Works. London: Longman. FARIA, Isabel Hub; PEDRO, Emília Ribeiro; DUARTE, Inês; GOUVEIA, Carlos A. M. (Orgs.) 1996. Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. Lisboa: Caminho. FROMKIN, Victoria. 2000. Linguistics: An Introduction to Linguistic Theory. Oxford: Blackwell. FROMKIN, Victoria; RODMAN, Robert. 1998. An Introduction to Language. 6th edition. Fort Worth: Harcourt Brace Jovanovich. GLEASON Jr., H. A. 1955. An Introduction to Descriptive Linguistics. New York NY: Holt, Rinehart & Winston (revised ed., 1961). Trad. port. de J. Pinguelo. Introdução à Linguística Descritiva. 2ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985. INCM. 1984. [trad. port.]. Enciclopédia Einaudi. Volume 2, Linguagem-Enunciação. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. KRISTEVA, Julia. 1969. Le langage, cet inconnu. Paris: PADEM. Trad. port. de M. M. Barahona. História da Linguagem. Lisboa: Edições 70, 1983. MACHADO, José Pedro. s/d. Breve História da Linguística. Lisboa: Inquérito. MARTIN, Robert. 2002. Comprendre la linguistique: épistémologie élémentaire d’une discipline. Paris: Presses Universitaires de France. MARTINET, André. 1960. Eléments de linguistique générale. Paris: Armand Colin. Trad. port. de J. M. Barbosa. Elementos de Linguística Geral. 10ª ed. Lisboa: Sá da Costa, 1985. MATEUS, Maria Helena Mira. 2006. O essencial sobre Linguística. Lisboa: Caminho. MATTHEWS, P. H. 2003. Linguistics: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press. MIGUENS, Sofia. 2007. Filosofia da Linguagem. Uma introdução. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. MOESCHLER, Jacques; AUCHLIN, Antoine. 2009. Introduction à la linguistique contemporaine. 3ème éd. Paris: Armand Colin. MOUNIN, Georges. 1968. Clefs pour la linguistique. Paris: Seghers. Trad. port. de J. Meireles. Introdução à Linguística. Lisboa: Horizonte, 1981. MOUNIN, Georges. 1985. Histoire de la linguistique des origines au XXe siècle. 4e éd.. Paris: Presses Universitaires de France.
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135 Obras de leitura complementar CARVALHO, José G. Herculano de. 1984. Estudos Linguísticos. Coimbra: Coimbra Editora (3 vols.). DIETRICH, Wolf; NOLL, Volker (Org.). 2004. O Português do Brasil. Perspectivas da pesquisa atual. Madrid/Frankfurt: Iberoamericana/Vervuert. O. OBRAS DE LINGUÍSTICA HISTÓRICA OBRAS DE HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA OBRAS SOBRE MUDANÇA FONÉTICA Obras de leitura essencial CARDEIRA, Esperança. 2006. O Essencial sobre a História do Português. Lisboa: Caminho. CASTRO, Ivo. 1991. Curso de História da Língua Portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta. CASTRO, Ivo de. 2005. Introdução à História do Português. Geografia da Língua. Português Antigo. Lisboa: Colibri. GLESSGEN, Martin-Dietrich. 2007. Linguistique romane. Domaines et méthodes en linguistique française et romane. Paris: Armand Colin. HUBER, Joseph. 1933. Altportugiesisches Elementarbuch. Heidelberg: Carl Winters. Trad. port. de M. M. G. Delille. Gramática do Português Antigo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1984. NETO, Serafim da Silva. 1988. História da Língua Portuguesa. 5ª ed. Rio de Janeiro RJ: Presença/Instituto Nacional do Livro. NUNES, José Joaquim. 1956. Compêndio de Gramática Histórica Portuguesa. Fonética e Morfologia. 5ª ed. Lisboa: Livraria Clássica. SILVA, Rosa Virgínia Mattos e. 2008. O Português Arcaico. Uma Aproximação. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2 vols.). TEYSSIER, Paul. 1980. Histoire de la langue portugaise. Paris: Presses Universitaires de France. Trad. port. de C. Cunha. História da Língua Portuguesa. 4ª ed. Lisboa: Sá da Costa, 1990. WILLIAMS, E. 1938. From Latin to Portuguese. Historical Phonology and Morphology of the Portuguese Language. Philadelphia: University of Pennsylavania Press. Trad. port. (Antônio Houaiss): Do latim ao português. Rio de Janeiro RJ: Tempo Brasileiro, 1975. Obras de leitura complementar BANNIARD, Michel 1997. Du latin aux langues romanes. Paris: Nathan. BOURCIEZ, E.; BOURCIEZ, J. 1967. Phonétique française. Etude historique. Paris: Klincksieck. CARVALHO, José G. Herculano de. 1984. Estudos Linguísticos. Coimbra: Coimbra Editora (3 vols.). MAIA, Clarinda de Azevedo. 1995. História da Língua Portuguesa. Guia de Estudo. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. PAIVA, Maria Helena. 2006. Unidades monoverbais e pluriverbais, diacronia e tratamento informático no corpus metalinguístico do português quinhetista. Linguística – Revista de Estudos Linguísticos da Universidade do Porto. 1(1): 107-142.
136
137 7. Planificação das aulas e das restantes actividades propostas aos estudantes 7.1 – Apresentação geral da planificação proposta O principal objectivo deste capítulo é propor uma distribuição das matérias e assuntos a tratar e dos trabalhos a realizar no âmbito de EFMP pelas 15 semanas lectivas (=60 horas de aula) tipicamente correspondentes ao semestre escolar53. De acordo com os regulamentos dos cursos a que pertence esta disciplina54, as sessões lectivas previstas ao longo do semestre repartem-se por aulas teóricas, aulas práticas e sessões de orientação tutorial. Uma explicação mais detalhada dos diversos tipos de metodologia a adoptar no trabalho realizado em cada uma dessas categorias de diferentes sessões lectivas será desenvolvida no capítulo seguinte deste relatório. Sumariamente, referiremos aqui que as aulas teóricas se prestarão, eminentemente, à apresentação dos principais temas a abordar na disciplina, fortemente baseada na exposição, por parte do professor, dos fundamentos, do conteúdo e das diferentes perspectivas teóricas correspondentes a cada um dos pontos centrais contemplados pelos sumários das aulas. Relativamente às aulas práticas, o planeamento aqui apresentado pressupõe uma significativa (ainda que não exclusiva) componente de resolução de exercícios práticos (uma bateria exemplificativa do tipo de exercícios que são objecto de trabalho nas aulas práticas encontra-se na secção 7.3 deste mesmo capítulo). Desejavelmente, em cada semana, a aula prática deveria oferecer aos estudantes a possibilidade de aplicar, na 53 Correspondendo cada semana lectiva a um total de 4 horas lectivas (=1 aula teórica de 2 horas + 1 aula prática de 1 hora + 1 sessão de orientação tutorial de 1 hora), as 15 semanas escolares do semestre traduzir-se-ão, como é referido no texto, num total de 60 horas lectivas. Salientamos que este valor total não contempla as horas de estudo e de trabalho individual dos estudantes, nem coincide exactamente com o número de horas lectivas anunciado no sistema SIGARRA para esta disciplina no ano lectivo 2009/2010 (vd. secção 1.1 do relatório). Discrepâncias como a que acabamos de referir são atribuíveis a factores como, entre outros, a contabilização ou não da realização de provas escritas de avaliação como horas lectivas. 54 Vd. diplomas legais citados na nota 2.
144 SEMANA 5 AULA TEÓRICA As relações entre as representações fonológicas e as realizações fonéticas. As noções de estrutura subjacente, estrutura de superfície e realização fonética no quadro da fonologia generativa “standard”. A derivação e as regras fonológicas neste quadro teórico. Contextualização histórico-epistemológica: a componente fonológica da gramática em The Sound Pattern of English de Chomsky & Halle (1968). A noção de gramática e o lugar da fonologia na arquitectura do sistema gramatical de uma língua. Aplicações do modelo SPE ao estudo da fonologia do português europeu: Mateus (1975); Pardal (1977). O carácter conjectural das representações fonológicas abstractas. Reconstituição e representação formal das representações fonológicas abstractas. A distinção entre representação subjacente, representação de superfície e realização fonética. As regras fonológicas no estabelecimento das relações derivacionais entre representações subjacentes e representações de superfície. Formalismos associados à explicitação das regras fonológicas. Regras categoriais e regras facultativas. O traço como objecto de aplicação das regras. O traço como unidade fonológica no modelo SPE. Argumentos: carácter universal do inventário dos traços distintivos; traços distintivos e economia descritiva; traços distintivos e delimitação das classes naturais; traços distintivos, classes naturais e processos fonológicos. Antecedentes da conceptualização inerente à noção de traço distintivo: a classificação das oposições fonológicas distintivas de acordo com Troubetzkoy (1939); os inventários de Jakobson, Fant & Halle (1951) e Jakobson & Halle (1956). O sistema de traços distintivos e a matriz fonológica do modelo SPE. Matriz, traço e classe natural. Redundância e implicação (universal e particular) no interior da matriz fonológica. A natureza linear do modelo SPE: as representações fonológicas como sucessões uninivelares de segmentos enquanto colunas de traços e fronteiras de constituintes. A adaptação do sistema de traços e da matriz do modelo SPE ao português europeu empreendida por Mateus (1975). Breve referência aos modelos (não-lineares) de geometria de traços (fonologia autossegmental). AULA PRÁTICA Algumas regras da fonologia do português de acordo com a formulação de Mateus (1975): - elevação e centralização/recuo das vogais átonas; - especificação de /S/ antes de consoante e antes de pausa; - nasalização. Exercícios práticos: a matriz fonológica do português; identificação e explicação de relações de redundância e implicação no interior da matriz fonológica do português; identificação, explicação, exemplificação e formulação de regras fonológicas segundo os formalismos do modelo SPE. SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
145 SEMANA 6 AULA TEÓRICA Representações fonológicas abstractas: a representação lexical. Unicidade das representações lexicais e economia estrutural e descritiva das línguas. Caracterização, identificação e explicitação da informação fonológica contida nas entradas lexicais. Léxico e fonologia. O carácter conjectural das representações lexicais. Reconstituição e representação formal das representações lexicais. Representações lexicais e representações subjacentes. Representações fonológicas das entradas lexicais. A alomorfia e a alofonia nas representações lexicais. O problema da supletividade e a questão da opacidade/transparência fonológicas nas representações lexicais. Alternâncias fonológicas. Processos fonológicos lexicais e pós-lexicais. A subespecificação das representações lexicais. Subespecificação e nãomarcação. Estruturas, unidades e formatos marcados e não-marcados. Contextualização histórico-epistemológica: o modelo da fonologia lexical proposto por Mohanan (1986). AULA PRÁTICA Discussão da natureza lexical ou pós-lexical de alguns processos fonológicos do português: - atribuição de acento de palavra; - velarização de /l/ em coda silábica; - fricatização das oclusivas sonoras; - especificação de /S/; - elevação e centralização/recuo das vogais átonas do português; - apagamento das vogais átonas; - epêntese de chevá; - … Exercícios práticos de reconstituição de representações lexicais e de descrição de processos fonológicos. SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
146 SEMANA 7 AULA TEÓRICA Nível prosódico. A hierarquia prosódica e o Princípio da Legitimação Prosódica. A diferença entre modelos lineares e não-lineares em fonologia. A sílaba enquanto unidade hierarquicamente organizada e legitimador prosódico dos segmentos fonológicos. O carácter não-linear da organização silábica. Inexistência de critérios fonéticos para a definição, identificação e delimitação da sílaba. Critérios empíricos para a aceitação da sílaba enquanto entidade representada no conhecimento fonológico dos falantes: consciência silábica; capacidades metafonológicas precoces e universais; precedência histórica dos sistemas de escrita silábica sobre os sistemas de escrita alfabética; jogos linguísticos de base silábica. Critérios linguísticos para a aceitação da sílaba enquanto entidade representada no conhecimento fonológicos dos falantes: a sílaba enquanto domínio básico da organização fonotáctica; a sílaba enquanto domínio da aplicação de regras e processos fonológicos. Estrutura interna da sílaba: o modelo Ataque-Rima. Justificação da rima enquanto constituinte silábico: a independência das restrições de selecção segmental na relação Ataque-Núcleo vs. as relações de implicação nas restrições de selecção segmental na relação Núcleo-Coda; evidências empíricas – jogos linguísticos de base silábica que tomam a rima como critério de aplicação e a rima poética tradicional ocidental; a solidariedade interna da rima; extensão mínima e máxima da rima em línguas como o inglês e o português; rima e peso silábico. Tipologia dos ataques em português: ataques vazios, simples e ramificados. Tipologia dos núcleos em português: simples e ramificados. A hipótese dos núcleos vazios. Tipologia das codas em português: vazias e simples. Formatos não-marcados na constituição das sílabas das línguas do mundo. A assimetria ataque-coda. Princípios reguladores da constituição silábica: Princípio da Sonoridade; Condição de Dissemelhança; Princípio da Dispersão da Sonoridade. A sonoridade silábica como força estruturante da sílaba. Escalas de sonoridade. A indexação da escala de sonoridade e a Condição de Dissemelhança na fonologia do português segundo Vigário & Falé (1994). Silabificação de base e ressilabificação. O problema da divisão silábica nas representações lexicais. AULA PRÁTICA Exercícios práticos de análise silábica. SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
147 SEMANA 8 AULA TEÓRICA Estruturas silábicas em português. O ataque enquanto constituinte silábico menos sujeito a restrições fonotácticas. Inocorrência de /IK3/ em ataque simples inicial de palavra. Princípio de Sonoridade e Condição de Dissemelhança na legitimação prosódica de sequências consonânticas em ataque ramificado (inicial ou nãoinicial). A configuração típica do ataque ramificado em português: Obstruinte+Líquida. A legitimação prosódica de sequências C1C2 marcadas em português: Obstruinte+Obstruinte, Obstruinte+Nasal, Nasal+Nasal. A proposta descritiva de Camara Jr. (1970; 1971) e de Mateus & E. D’Andrade (1998; 2000): o carácter heterossilábico destas sequências. A hipótese do núcleo vazio como núcleo da sílaba de C1. Problematização do estatuto prosódico das sequências Obstruinte+Lateral (com base em Veloso 2006). A comparação das restrições verificadas nas diferentes possibilidades de silabificação destas sequências à luz da Teoria da Optimidade. Legitimação prosódica dos ditongos crescentes e decrescentes: os ditongos crescentes como hiatos subjacentes; os ditongos crescentes como possíveis núcleos ramificados na silabificação teórica. O português como língua altamente restritiva quanto ao preenchimento segmental da coda. Restrições fonotácticas verificadas no preenchimento deste constituinte silábico. Evidências empíricas e históricas comprovativas da tendência estrutural do português em direcção ao esvaziamento da coda. Restrições fonotácticas associadas ao limite (esquerdo e direito) de palavra e a sua importância para a definição da palavra. AULA PRÁTICA Exercícios práticos: Estruturas silábicas do português. SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
148 SEMANA 9 AULA TEÓRICA O acento. Correlatos fonéticos do acento: incremento da intensidade, da frequência fundamental e da duração. Funções linguísticas do acento: função culminativa; função demarcativa; função distintiva. Posição do acento e periferia de palavra. A distinção entre línguas de acento livre e de acento fixo. A relação do acento com propriedades fonológicas (duração vocálica, peso silábico, …) e com propriedades morfológicas (classe, estrutura interna…) das palavras em diferentes línguas. Exemplos do latim clássico, do húngaro, do finlandês, do francês e do português. A representação lexical do acento de palavra; a atribuição do acento de palavra como parte do conhecimento fonológico dos falantes. O acento como uma propriedade suprassegmental. O português como uma língua de acento livre determinado fundamentalmente pelas propriedades morfológicas da palavra. Restrições quantitativas na atribuição do acento de palavra em português: a inexistência de esdrúxulos com penúltima sílaba pesada. Regras de atribuição de acento de palavra em português nos nomes e nos verbos. O acento e a sua relação, em português, com a identificação/delimitação da palavra fonológica. A atribuição do acento de palavra em português como demonstração da existência das relações entre a fonologia e a morfologia. Outras unidades e estruturas prosódicas em português: sintagma fonológico; sintagma entoacional; enunciado. Marcas prosódicas associadas à desambiguação sintáctica e à marcação de foco em português: a interacção fonologia-sintaxe e fonologia-pragmática. Ritmo silábico e ritmo acentual na oposição entre português europeu e português do Brasil. AULA PRÁTICA Exercícios práticos: estruturas silábicas e acento em português. SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
149 SEMANA 10 AULA TEÓRICA Introdução ao estudo da morfologia. O lugar da morfologia nos estudos linguísticos e na descrição estrutural das línguas. A necessidade da componente morfológica das palavras: uma necessidade da gramática universal ou das línguas indo-europeias? Existe “morfologia” nas línguas isolantes? As noções de forma e morfema. O lexema. Morfema, morfe e alomorfe. Alomorfia morfologicamente motivada (“supletividade”) e alomorfia fonologicamente motivada. O morfema como a unidade mínima de significado. Formativos de palavra. Composicionalidade e motivação/imotivação na formação de palavras e na identificação do seu significado. Tipos de morfemas e a identificação de alguns destes tipos em português: morfemas aditivos, reduplicativos, alternativos e subtractivos; morfemas zero, morfemas vazios, morfemas etimológicos e morfemas supérfluos; morfemas cumulativos (“portamanteau” ou sincréticos); morfemas “cranberry” (“hapax legomena”); morfemas gramaticais e morfemas lexicais; morfemas flexionais e morfemas derivacionais. Critérios clássicos (Nida 1948) para a identificação, delimitação e inventariação dos morfemas da língua. A palavra como uma unidade morfologicamente complexa. Primeira problematização da noção de palavra e da sua delimitação. Formas livres, formas presas e formas dependentes. A noção de clítico e de grupo clítico. Palavra morfológica, morfossintáctica e prosódica. Interacção fonologia-morfologia: alternâncias fonológicas morfologicamente motivadas. O caso das alternâncias de altura/abertura de /E/ e /O/ de raízes derivacionais verbais e nominais em função da classe em que ocorrem (“harmonização vocálica”). Breve referência à morfologia prosódica. Flexão e derivação. A distinção clássica entre processos flexionais e processos derivacionais. O lugar das formas derivadas no léxico teórico da língua. Flexão: adição de informação gramatical a um radical flexional; produção de novas formas gramaticais de um mesmo lexema; externa ao radical; sistematicidade e regularidade. Derivação: adição de informação lexical a uma raiz derivacional; forma de base, forma derivante e forma derivada; produtividade lexical (formação de novas palavras/lexemas na língua); interna ao radical; assistematicidade – o carácter lexical (não gramatical) da derivação. Classificação tradicional dos afixos derivacionais em função da sua posição relativamente à raiz derivacional: prefixos, infixos, sufixos, interfixos e circunfixos. A afixação derivacional em português: prefixação, sufixação e parassíntese. Critérios gramaticais para a identificação da derivação parassintética. A problematização da classificação de algumas categorias gramaticais do português como processo flexional ou gramatical: o grau e o género na flexão nominal do português. A noção de constituinte temático. Marcadores de classe e as tradicionais “vogais temáticas”. Classes temáticas nos verbos e nos nomes do português. A perspectiva estruturalista de Mattoso Camara Jr. em contraposição à perspectiva generativa de Alina Villalva. AULA PRÁTICA Exercícios práticos: análise morfológica. SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
150 SEMANA 11 AULA TEÓRICA Classes de palavras: critérios morfológicos e morfossintácticos para a divisão do léxico em classes. Processos flexionais em português: a flexão nominal. Categorias flexionais do nome em português: o número. Discussão da natureza flexional do género nominal em português. O género como a concordância formal dentro do sintagma nominal. Distinção entre género nominal (propriedade gramatical) e sexo biológico. Independência do género nominal relativamente à terminação formal dos nomes em português. Interpretação gramatical do género em português: a perspectiva estruturalista de Mattoso Camara vs. a perspectiva generativa de Alina Villalva. Estrutura interna das formas nominais. Inventário dos morfemas flexionais nominais do português: formas básicas e realizações alomórficas. Discussão do grau enquanto propriedade gramatical dos nomes do português (substantivos e adjectivos). Discussão da distinção entre nomes “substantivos” e nomes “adjectivos” em português. Índice temático e classes temáticas nos nomes do português. O estatuto morfológico, morfossintáctico e prosódico dos nomes formados com o sufixo z-avaliativo. A “flexão interna” verificada em alguns nomes do português. Fenómenos de harmonização vocálica presentes nestes casos. Aspectos particulares da flexão dos nomes com singular terminado em “-ão” e em /l/ . Aspectos fonológicos e morfológicos da flexão de outros nomes com singular terminado em autossegmento nasal. A atribuição de acento nas formas nominais do português: interface entre a fonologia e a morfologia. Flexão do pronome pessoal em português: formas rectas e formas oblíquas (tónicas e átonas). AULA PRÁTICA Exercícios práticos: análise morfológica SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
151 SEMANA 12 AULA TEÓRICA Processos flexionais em português: a flexão verbal. Estrutura interna das formas verbais. Categorias flexionais dos verbos em português: modo-tempo e número-pessoa. Inventário dos morfemas de modo-tempo e número-pessoa identificados na flexão verbal do português: formas básicas e realizações alomórficas. Divisão tradicional dos verbos do português em três classes temáticas: verbos de tema em /A/, tema em /E/ e tema em /I/. Distinção categorial entre os verbos de tema em /A/ e os verbos de tema em /E/ e /I/: carácter aberto da primeira vs. carácter fechado das duas últimas (“conjugações históricas”); marcas formais desta distinção: presente do conjuntivo (-e- vs. –a-), pretérito imperfeito do indicativo (-va- vs. –ia-) e particípio passado (-ad- vs. –id-). Fenómenos morfologicamente motivados de alomorfia, metafonia, apagamento, harmonização vocálica e abaixamento verificados na flexão verbal do português: interacção fonologia-morfologia. A reconstituição das formas subjacentes dos morfemas flexionais verbais do português. A supletividade verbal: descrição estrutural do fenómeno; a sua formalização; a representação lexical de formas supletivas. A atribuição de acento nas formas verbais do português: interface entre a fonologia e a morfologia. Principais “irregularidades” da flexão verbal em português. AULA PRÁTICA Exercícios práticos: análise morfológica SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
152 SEMANA 13 AULA TEÓRICA Morfologia derivacional do português. Derivação afixal e derivação não-afixal. Derivação afixal: comparação entre a derivação prefixal (não determina as propriedades gramaticais e prosódicas da palavra derivada) e a derivação sufixal (determina as propriedades gramaticais (categoria gramatical: género e número, no caso dos nomes) e prosódicas (acento) das palavras derivadas). Discussão dos critérios necessários à identificação de formas parassintéticas. A distinção entre radical flexional e raiz derivacional. O lugar dos morfemas derivacionais dentro do radical flexional. Derivação não-afixal (reanálise): conversão (derivação imprópria); formação de posverbais. Problematização da noção tradicional de “derivação regressiva”. Processos composicionais em português. Composição morfológica e composição morfossintáctica. Problematização da noção de “composição” no caso dos compostos morfológicos. O contributo dos processos composicionais para a distinção entre palavra morfológica e palavra morfossintáctica. Outros processos de formação de palavras: abreviação (siglação, acronímia e truncagem); empréstimos lexicais. A integração morfológica e fonológicas dos empréstimos lexicais. AULA PRÁTICA Exercícios práticos: análise morfológica SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.
153 SEMANA 14 AULA TEÓRICA Aspectos morfológicos das palavras invariáveis e das palavras indecomponíveis. Problematização da noção distinção palavra/morfema a partir da classificação e análise morfológica destas palavras. Aspectos morfológicos e fonológicos dos advérbios de modo formados com o sufixo –mente. O contributo da reflexão acerca destes advérbios para uma problematização da noção de palavra e da distinção entre palavra morfológica, palavra morfossintáctica e palavra fonológica. Introdução à problematização sistematizada da noção de palavra. O acesso intuitivo à noção de palavra vs. a dificuldade em encontrar critérios formais estáveis e definitivos para a definição/delimitação da palavra. Várias acepções de “palavra”: palavra ortográfica; palavra formal ou morfológica; palavra morfossintáctica; palavra fonológica. Demarcação de palavras em línguas isolantes, aglutinantes e flexionais. Critérios para a definição de palavra: critérios semânticos; critérios morfológicos e morfossintácticos; critérios fonológicos. Evidências psicolinguísticas para a noção de palavra. A palavra como conceito cultural da civilização ocidental; polissemia/homonímia associadas ao termo “palavra”. A tentativa de substituir a noção de palavra pela de morfema. Palavra vs. morfema: critérios de definição/delimitação. A proposta da linguística estruturalista americana. Palavra e lexema.O léxico mental e a representação teórica das palavras da língua. Algumas distinções de base: palavra de conteúdo/palavra funcional; palavra plena/palavra vazia. Palavras e formas livres. Palavras morfologicamente simples e palavras morfologicamente complexas. AULA PRÁTICA Discussão acerca dos diferentes critérios para a definição da noção de palavra em morfologia. Exercícios práticos: análise morfológica SESSÃO DE OT LEITURA ORIENTADA DE TEXTOS CIENTÍFICOS.