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Análise da produtividade na execução associada a diferentes sistemas de alvenaria. Medidas tendentes à sua melhoria

Daniel Ferraz Moreira

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ANÁLISE DA PRODUTIVIDADE NA EXECUÇÃO ASSOCIADA A DIFERENTES SISTEMAS DE ALVENARIA MEDIDAS TENDENTES À SUA MELHORIA DANIEL FERRAZ MOREIRA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO APRESENTADA À FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO EM ENGENHARIA CIVIL - CONSTRUÇÕES M 2014 ANÁLISE DA PRODUTIVIDADE NA EXECUÇÃO ASSOCIADA A DIFERENTES SISTEMAS DE ALVENARIA Medidas Tendentes à sua Melhoria DANIEL FERRAZ MOREIRA Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL — ESPECIALIZAÇÃO EM CONSTRUÇÕES Orientador: Professor Doutor Hipólito José Campos de Sousa Coorientador: Engenheiro Rui Miguel Almeida Vieira de Sousa JUNHO DE 2014 MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL 2013/2014 DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL Tel. +351-22-508 1901 Fax +351-22-508 1446  m[email protected] Editado por FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Rua Dr. Roberto Frias 4200-465 PORTO Portugal Tel. +351-22-508 1400 Fax +351-22-508 1440  [email protected]  http://www.fe.up.pt Reproduções parciais deste documento serão autorizadas na condição que seja mencionado o Autor e feita referência a Mestrado Integrado em Engenharia Civil - 2013/2014 - Departamento de Engenharia Civil, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal, 2014. As opiniões e informações incluídas neste documento representam unicamente o ponto de vista do respetivo Autor, não podendo o Editor aceitar qualquer responsabilidade legal ou outra em relação a erros ou omissões que possam existir. Este documento foi produzido a partir de versão eletrónica fornecida pelo respetivo Autor. Ao meu Irmão Ninguém é tão ignorante que não tenha algo a ensinar. Ninguém é tão sábio que não tenha algo a aprender. Blaise Pascal Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria i AGRADECIMENTOS Agradeço ao meu orientador, Professor Doutor Hipólito Sousa, pelo empenho e interesse que sempre teve em me ajudar na realização deste trabalho e ainda pela disponibilidade e apoio que demonstrou. Agradeço também ao meu coorientador, Engenheiro Rui Sousa, pela disponibilidade em ajudar-me sempre que necessitei e recorri à sua ajuda. Agradeço ao Doutor João Afonso, economista da AICCOPN, ao Economista Nuno Gonçalves, criador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude, e ao Engenheiro Pedro Mêda pela disponibilidade em responder às minhas questões e em esclarecer as minhas dúvidas. Agradeço aos meus Pais por me darem a oportunidade de alcançar esta grande etapa da minha vida, por nunca desistirem de mim, por sempre me apoiarem e me ajudarem a tornar na pessoa que sou. Agradeço aos meus irmãos pelo apoio, carinho e interesse manifestados ao longo da minha vida para comigo e para com meus objetivos. Agradeço à Juliana, minha namorada, pelo apoio, compreensão e motivação nas horas mais difíceis e de maior desânimo. Agradeço aos meus Amigos e Colegas, que me acompanharam ao longo da vida académica, pela partilha e entreajuda que tornaram este percurso mais suave. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria ii Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria iii RESUMO Neste trabalho procurou-se ter noção do estado do setor da construção em Portugal no que respeita à economia e produtividade. Aborda-se a problemática da baixa produtividade do setor, designadamente, na execução de alvenarias e apresentam-se medidas para a sua melhoria. No desenvolvimento do trabalho foram expostos os sistemas de alvenaria mais usados em Portugal, assim como os mais inovadores, identificando-se os aspetos que tornam as soluções correntes ou inovadoras. O tradicionalismo que existe na forma de executar as alvenarias e a resistência do setor a novos materiais e novas formas de trabalhar motivam a baixa produtividade. Mas, o fraco desempenho da construção em conjunto com a falta de investimento do mercado são uma ótima oportunidade para se implementar mudanças e hábitos que aumentem a produtividade da indústria da construção. Posto isto, são apresentadas as medidas definidas pelo autor, resultado do trabalho realizado, como medidas capazes de tornar a execução de alvenarias num processo mais produtivo, valorizando o trabalho e saber dos operários da construção portuguesa que, apesar de terem uma das produtividades baixas da Europa, são bem vistos a nível internacional. PALAVRAS-CHAVE: Alvenaria, Produtividade, Economia, Inovação. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria x Fig.3.9 – Andaime exterior e interior com um nível de altura ................................................................ 30 Fig.3.10 – Espessura dos tijolos usados para compartimentação do interior de edifícios, segundo um estudo estatístico de 1998 ..................................................................................................................... 32 Fig.3.11 – Rendimentos da mão-de-obra na execução de alvenaria de tijolo extraídos da Tabela III.3 do livro de José da Paz Branco ............................................................................................................. 32 Fig.3.12 – Rendimentos da mão-de-obra na execução de alvenaria de blocos de betão extraídos da Tabela III.5 do livro de José da Paz Branco .......................................................................................... 33 Fig.3.13 – Coeficientes (e fatores) de correção dos valores teóricos das tabelas considerando as condições particulares da obra e da eficiência dos quadros de chefia e/ou dos meios disponíveis extraído do Quadro 0.1 do livro de José da Paz Branco ....................................................................... 34 Fig.3.14 – Solução construtiva em alvenaria: Sistema “Isolbloco” ........................................................ 36 Fig.3.15 – Constituição do sistema ETICS ............................................................................................ 37 Fig.3.16 – Doseador de argamassa da “Leca” ...................................................................................... 37 Fig.3.17 – Realização de junta com argamassa cola ............................................................................ 38 Fig.3.18 – Misturadoras de argamassa ................................................................................................. 38 Fig.3.19 – Equipamento de transporte e elevação de cargas ............................................................... 38 Fig.3.20 – Equipamento de manuseamento de unidades de alvenaria ................................................ 39 Fig.3.21 – Utilização de andaime com dois níveis de altura distintos ................................................... 39 Fig.3.22 – Equipamento de nivelamento da base de assentamento da primeira fiada ........................ 39 Fig.3.23 – Serras elétricas de corte de unidades de alvenaria ............................................................. 40 Fig.3.24 – Sistema de auxilio de movimentação das unidades de alvenaria e de espalhamento da argamassa na pré-fabricação de painéis de alvenaria .......................................................................... 40 Fig.3.25 – Sistema robotizado a construir painel de alvenaria.............................................................. 41 Fig.3.26 – Aplicação em obra de painéis pré-fabricados de alvenaria ................................................. 41 Fig.3.27 – Sistema SAM a executar as paredes em alvenaria de um edifício comercial em Victor, Nova Iorque ........................................................................................................................................... 42 Fig.4.1 – Gráfico de evolução da resistência à flexão das argamassas ............................................... 50 Fig.4.2 – Gráfico de evolução da resistência à compressão das argamassas ..................................... 50 Fig.4.3 – Comparação de custos entre argamassa corrente e argamassa pronta ............................... 54 Fig.4.4 – Protótipos de robôs construtores a construir uma estrutura experimental............................. 55 Fig.4.5 – Protótipos de quadrocopters a construir uma torre ................................................................ 55 Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria xi ÍNDICE DE QUADROS Quadro 2.1 – Medidas para melhorar a produtividade .......................................................................... 19 Quadro 3.1 – Divisão das soluções correntes nos seus constituintes possíveis ................................... 25 Quadro 3.2 – Características mais importantes dos blocos de betão correntes em Portugal ............... 26 Quadro 3.3 – Características mais importantes dos tijolos correntes em Portugal ............................... 27 Quadro 3.4 – Sistemas de alvenarias existentes em Portugal para paredes exteriores ....................... 30 Quadro 3.5 – Divisão das soluções inovadoras nos seus constituintes possíveis ................................ 35 Quadro 4.1 – Quadro de síntese das medidas de melhoria .................................................................. 44 Quadro 4.2 – Proposta de medidas de melhoria simples, a curto prazo, das soluções ........................ 45 Quadro 4.3 – Proposta de medidas de melhoria complexas, a longo prazo, das soluções .................. 46 Quadro 4.4 – Campos de avaliação do impacto das medidas de melhoria .......................................... 46 Quadro 4.5 – Matriz de impactos das medidas de melhoria simples, a curto prazo, das soluções ...... 47 Quadro 4.6 - Matriz de impactos das medidas de melhoria complexas, a longo prazo, das soluções . 48 Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria xii Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria xiii SÍMBOLOS, ACRÓNIMOS E CONCEITOS A – Área construída A1 – Argamassa industrial para assentamento de alvenarias A2 – Argamassa corrente traço 1:5 (cimento : areia) para assentamento de alvenarias €/trabalhador – Euros por trabalhador h – Horas kg - Quilograma m/h – Metros por hora m2/h – Metros quadrados por hora m3/h – Metros cúbicos por hora MPa - MegaPascal Nºx – Número de trabalhadores da construção no ano x P – Produção Pax – Produtividade aparente no ano x Pr - Produtividade R – Rendimento R1 – Argamassa industrial para reboco interior R2 – Argamassa corrente traço 1:3,8 (cimento : areia) para reboco interior R3 – Argamassa corrente traço 1:3,3:18,9 (cimento : cal hidráulica : areia) para reboco interior R4 – Argamassa corrente traço 1:1,4:18,9 (cimento : cal gorda : areia) para reboco interior T – Tempo de trabalho Tof – Tempo de oficial Tserv – Tempo de servente U – Coeficiente de transmissão térmica, (W/(m2 ºC) – Watts por metro quadrado grau centigrado) VABx – Valor acrescentado bruto no ano x X – Valor dos bens ou serviços produzidos Y– Valor dos bens ou serviços consumidos AICCOPN – Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas AVA – Análise de Valor Agregado BIM – Building Information Modeling Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria xiv CEE – Comunidade Económica Europeia CPI – Índice de desempenho de custos CSTB – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment CV – Variações de custos DPC – Diretiva dos Produtos de Construção EAC – Estimativa ao término EPS – Poliestireno expandido ETC – Estimativa para o término ETICS – External Thermal Insulation Composite Systems EU – União Europeia EUA – Estados Unidos da América EUROSTAT – Estatísticas da União Europeia EVM – Earned Value Management IENR – Índice da Economia Não Registada INE – Instituto Nacional de Estatística LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil NIOSH – National Institute of Occupational Safety and Health OBEGEF – Observatório de Economia e Gestão de Fraude PIB - Produto Interno Bruto ProNic – Protocolo para a Normalização da Informação Técnica na Construção RCCTE – Regulamento das Características e Comportamento Térmico dos Edifícios SAM – Semi Autometed Mason SPI – Índice de desempenho de prazos SV – Variações de prazos TCPI – Índice de desempenho de recuperação de custos VAB – Valor Acrescentado Bruto VAC – Variação final dos custos XPS – Poliestireno extrudido Produtividade Aparente do Trabalho – indicador da produtividade parcial dos fatores que relaciona o que se produz com o número de trabalhadores, ignorando todos os outros fatores de produção. É obtido pelo rácio entre o valor acrescentado bruto e o número total de trabalhadores. [24] Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria xv Tosco - parte constituída pelas unidades de alvenaria, tijolos ou blocos, dispostas em fiada sobrepostas e unidas por um ligante – argamassa – e por elementos especiais usados em pontos singulares das paredes como por exemplo as caixas de estore. [29] Valor Acrescentado Bruto - Valor bruto da produção deduzido do custo das matérias-primas e de outros consumos no processo produtivo. [24] Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria xvi Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 1 1 INTRODUÇÃO 1.1. ENQUADRAMENTO Desde o início da sua existência que o Homem teve necessidade de criar abrigos para se proteger quer dos animais, quer das condições climatéricas adversas. Embora os primeiros abrigos da humanidade tenham sido cavernas e grutas é necessário recuar até à história longínqua para datar as primeiras construções e com estas, as primeiras alvenarias. As alvenarias foram usadas durante séculos como uma das bases da solução construtiva corrente, sendo usadas como envolvente exterior e separação de espaços interiores. O material constituinte das primeiras alvenarias era a pedra, mas não tardou a aparecer a pedra artificial – o tijolo, ou não fosse ele o material de construção artificial mais antigo inventado pelo homem. Até ao aparecimento do betão, no século XIX, as edificações eram erigidas em alvenaria resistente, acumulando com esta outras funções. Após o aparecimento das estruturas de betão armado e/ou de aço as alvenarias resistentes foram caindo em desuso, passando a exigir-se às alvenarias apenas funções térmicas, acústicas, hídricas e estéticas, isto porque as novas estruturas de betão armado e/ou de aço tornaram-se mais esbeltas, permitindo aproveitar melhor os espaços. O passar do tempo, o repensar a construção, a crise económica e a necessidade de reabilitar voltaram a suscitar um interesse pelas alvenarias, designadamente resistentes. Este interesse provocou múltiplos estudos de aprofundamento de conhecimento quer mecânico, higrotérmico e tecnológico, visando dominar melhor o comportamento das soluções em alvenaria e a sua viabilidade económica. [1] Pelo referido, as alvenarias são dos trabalhos de construção mais tradicionais, sendo atualmente os tijolos cerâmicos um dos materiais mais usados na construção. A construção, nomeadamente de edifícios, é uma atividade de mão-de-obra intensiva, incorporando muitos processos, materiais e tarefas com produtividades relativamente baixas. Há um espaço ainda significativo de melhoria da construção ao nível da produtividade, particularmente nos edifícios. As alvenarias correntes são disso um exemplo. Começam a surgir obras onde, para a mesma função se usam alvenarias simultaneamente com outras soluções, leves e tecnologicamente mais evoluídas, sinal evidente que a dúvida sobre a eficácia das alvenarias no binómio custo/desempenho começa a colocar- -se. A baixa produtividade da alvenaria deve-se, em parte, à incompatibilidade entre os diversos constituintes da mesma, isto porque são fabricados por empresas diferentes, o que leva ao surgimento de muitos improvisos na obra para a integração destes, conduzindo assim a uma fraca produtividade. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 2 Por outro lado, também o tradicionalismo e a falta de incorporação de novas técnicas e novas ferramentas de trabalho no processo construtivo conduzem à referida baixa produtividade. Pelo exposto, e também pela crise que o setor nacional atravessa, faz sentido aprofundar o estudo sobre as causas da baixa produtividade e como esta poderá ser aumentada, designadamente das soluções construtivas mais tradicionais. 1.2. OBJETIVOS E METODOLOGIA O tema deste trabalho tem a ver com edifícios, destes as alvenarias e a análise mais detalhada das causas que mais influenciam a produtividade e como esta pode ser melhorada. Sob este quadro geral o trabalho tem os seguintes objetivos específicos:  Conhecer o estado da construção relativamente à economia, rendimento e produtividade;  Compreender o que pode ser melhorado nos sistemas de execução de alvenaria e o que faz perder produtividade;  Procurar e propor soluções/variantes que permitam obter sistemas de alvenaria mais produtivos e competitivos, hierarquizadas em vários tipos de ações. O desenvolvimento dos objetivos e a pesquisa do estado de arte em Portugal relativamente a este tema será feito através do recurso a referências bibliográficas de vários tipos, revistas cientificas e tecnológicas e ainda contatos com agentes e fornecedores do setor. 1.3. ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO O trabalho divide-se em 5 capítulos. O capítulo 1 diz respeito à introdução expondo-se o enquadramento do trabalho, as razões pelas quais faz sentido desenvolver o estudo do tema e quais o objetivos a atingir, assim como a metodologia adoptada. No capítulo 2 encontra-se uma exposição atual do setor da construção no que respeita a economia, rendimento e produtividade, identificando-se algumas medidas que permitem aumentar a produtividade de um modo geral. No capitulo 3 podem ver-se as soluções construtivas em alvenaria usadas atualmente, tanto as correntes como as inovadoras. O capitulo 4 apresenta a proposta das medidas de melhoria dos sistemas de alvenaria com uma classificação qualitativa das mesmas. O capítulo 5 e último diz respeito à conclusão do trabalho e a considerações futuras que poderão vir a ser desenvolvidas no seguimento do tema tratado durante este trabalho. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 3 2 ECONOMIA, RENDIMENTO E PRODUTIVIDADE DA CONSTRUÇÃO 2.1. NOTA PRÉVIA No presente capitulo são apresentadas as noções de produtividade, rendimento e economia ligadas às obras de construção. As noções acima referidas são de carater geral e habitualmente empregues no quotidiano de qualquer pessoa, contudo, quando utilizadas num contexto específico, verifica-se que podem assumir várias formas, tornando-se importante esclarecer, neste momento, o que cada uma significa no setor da construção e os valores que assume. 2.2. ECONOMIA A construção de obras tem um peso bastante significativo na economia nacional a par do que acontece no resto do mundo. Com o desenvolvimento da economia, o peso da construção vai diminuindo, como podemos ver nas Figura 2.1, Figura 2.2 e Figura 2.3, pois as infra-estruturas e o parque habitacional vão atingindo um nível de satisfação, por parte da população, considerado bom, deixando a construção de ser tão necessária, reduzindo-se assim, também, os investimentos. [2] Figura 2.1 – Peso do VAB do ramo da construção no VAB total em 2000 comparado nos países da EU [3] Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 10 2.4.1. PRODUTIVIDADE DA TAREFA Na construção, a produtividade de uma tarefa é muitas vezes substituída pelo conceito de rendimento. Como apresentado no subcapítulo anterior, o rendimento pode ser traduzido na equação (2.1.), nessa equação tem-se o rácio entre o que se produz e o que se consume para produzir. Ora, como a mão-de- obra é o elemento central na construção a sua produtividade é a mais usada, podendo ,então, traduzirse na equação (2.2.), em que Pr é a produtividade, P a produção – habitualmente em m, m2 ou m3 – e T o tempo de trabalho dispendido para produzir P – habitualmente em h (horas) – logo as unidades de Pr são m/h ou m2/h ou m3/h. T P Pr (2.2.) Ainda quanto ao tempo de trabalho dispendido para produzir – T, na equação anterior – este é muitas vezes, senão sempre, um tempo composto e não simples, pelo facto das tarefas de construção serem efetuadas por uma equipa composta por, pelo menos, um oficial e um servente – raramente existe apenas uma pessoa na realização de uma tarefa. O número de homens da equipa é definido tendo em conta a máxima eficiência, ou seja, o número de elementos de uma equipa é o mínimo que garante a realização do trabalho com a máxima eficiência. A equação (2.3.) mostra a decomposição da variável T, onde se vê que esta é a soma dos tempos de oficial e de servente, Tof e Tserv, respetivamente. [8] TservTofT  (2.3.) Também quando se tratou o tema Rendimento, tocou-se num ponto importante que o influência muito, a ergonomia. No subcapítulo anterior sobre o rendimento justificaram-se os atrasos no planeamento e as discrepâncias entre o valor orçamentado e o valor final da obra recorrendo à ergonomia, embora não se tivesse mencionado o nome ergonomia, propositadamente, por se querer trata-la neste subcapítulo, isto por a ergonomia ser muito relacionável com a produtividade como veremos. 2.4.1.1. Organização do trabalho e ergonomia A ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem. Nesse estudo a ergonomia tem em atenção quatro preocupações específicas que são a segurança, a saúde, a eficiência e a produtividade. Figura 2.10 – Exposições frequentemente experimentadas na construção [15] Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 11 A construção civil é uma atividade que exige muito dos trabalhadores em termos ergonómicos pelas seguintes razões e como ilustra a Figura 2.10:  muito tempo na mesma posição a realizar a mesma tarefa;  manuseamento e transporte de cargas pesadas;  realização de tarefas acima dos ombros e abaixo do nível dos joelhos;  ruído frequente que faz diminuir a capacidade auditiva e perturba psicologicamente os trabalhadores;  queda de pessoas e objetos;  grande libertação de poeiras que criam problemas respiratórios. A falta de condições de trabalho provocam no operário um sentimento de desânimo, fadiga e muitas vezes lesões, passageiras ou permanentes, que diminuem a produtividade. De forma a zelar pela saúde dos trabalhadores foi criada legislação a nível Europeu – a Directiva n.º 90/269/CEE [16] – que foi transposta para o direito interno – o Decreto-Lei n.º 330/93 [17] – que regula as condições mínimas de segurança e de saúde na movimentação manual de cargas, classificando como carga demasiado pesada objetos com mais de 30 kg, para movimentações pontuais, e objetos com mais de 20 kg para movimentações frequentes. As lesões não aparecem por se fazer uma vez esforço excessivo, mas sim por se fazer muitas vezes, durante muito tempo. O NIOSH [15] – National Institute for Occupational Safety and Health – organismo Norte-americano para a segurança e saúde no trabalho, recomenda o limite máximo de 23 kg para o manuseamento de cargas. Este organismo tem ainda uma equação para cálculo da carga máxima admissível atendendo a fatores como a distância horizontal e vertical entre a carga e o corpo, a rotação exercida pelo tronco, a frequência do levantamento da carga, entre outras como é indicado na Figura 2.11. A equação pode ser consultada no Portal Empresarial da Maia [18]. Figura 2.11 – Equação de cálculo da carga máxima admissível de manuseamento segundo o NIOSH [18] Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 12 É na perspetiva de combate e de apoio a melhores condições de trabalho que a ergonomia indica as seguintes medidas, que colaboram também para o aumento da produtividade:  planeamento do trabalho para evitar que o trabalhador tenha de transportar grandes cargas para o poder desenvolver;  utilização de ferramentas e equipamentos mais adaptados ao homem para o trabalho a desenvolver;  utilização de meios de proteção na realização de trabalhos demorados e em posições penosas;  utilização de pegas, que facilitam, o levantamento de pesos;  dar formação aos operários para que estes aprendam posturas de trabalho mais ergonómicas;  formação de equipas de trabalho que permitam a rotatividade e a entre ajuda de forma a quebrar a rotina e a fadiga provocadas pelo trabalho e cansaço. [19] Este tema está intimamente ligado com um outro que é a penosidade do trabalho. A ligação entre os dois temas assenta no facto de a falta de ergonomia conduzir de forma mais célere a um trabalho penoso, pois tem-se por penoso o trabalho árduo, difícil, incomodo e doloroso. Uma forma encontrada pela construção para reduzir a penosidade do trabalho e melhorar a ergonomia conseguindo assim aumentar o desempenho do setor, foi a pré-fabricação. Há muitos anos que o setor da construção, ainda que de uma forma pouco visível, utiliza a préfabricação, senão veja-se o caso das armaduras que são montadas e armazenadas em estaleiro de obra, ou até mesmo, em estaleiro central, sendo transportadas e colocadas no seu local de destino final apenas quando são necessárias, facilitando, deste modo, o trabalho dos armadores de ferro e conseguindo uma forma mais ergonómica de trabalhar, sem necessidade de andar dias completos a trabalhar abaixo do nível dos joelhos ou acima dos ombros, deste modo conseguem também protegerse das diferentes exigências do clima. 2.4.1.2. Pré-Fabricação A pré-fabricação enfrenta dificuldades de implementação devido a mitos criados como a baixa qualidade e a limitação da criatividade conceptual, a verdade é que perante o momento difícil que a construção civil nacional enfrenta, as empresas tem sido levadas a adotarem medidas e condições que lhes melhore a produtividade e a pré-fabricação consegue aumentar a eficiência dos processos de produção, aumentar a qualidade do produto final e diminuir os custos, sendo o caminho mais indicado para a industrialização da construção, levando cada vez mais trabalho e tempo para as fábricas e menos para o estaleiro, como evidencia a Figura 2.12. A pré-fabricação tem as seguintes vantagens:  retira do estaleiro e da obra muitas tarefas, transferindo-as para as fábricas, onde existe pessoal com competências direcionadas para o trabalho a executar;  aumenta a rapidez de execução dos trabalhos no local devido à facilidade de montagem e sistematização, tornando a construção menos dependente das condições atmosféricas;  reduz o número de acidentes de trabalho pois a quantidade de trabalhadores e de tarefas em obra diminui drasticamente;  aumenta a qualidade final dos produtos por o trabalho ser realizado por pessoal especializado e por haver maior controlo;  reduz a área de estaleiro;  diminui a dependência de fornecedores e materiais específicos da região da obra;  permite incorporar as infra-estruturas aquando da fabricação, sem necessidade de abrir roços; Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 13  diminui os gastos em energia. Figura 2.12 – Repartição dos tempos e tarefas na construção [20] Mas a pré-fabricação ainda tem de evoluir em alguns aspetos que funcionam como desvantagens, sendo eles:  forte recurso a elementos de ligação adicionais – parafusos, por exemplo;  necessidade de grande rigor e controlo nas ligações;  pormenorização e exatidão do projeto maiores que consomem mais tempo e dinheiro;  recurso a mão-de-obra mais especializada e mais difícil de encontrar. Na pré-fabricação pode-se ainda ter a vantagem do denominado efeito de aprendizagem, que não é mais do que tirar proveito da experiencia que o trabalhador vai adquirindo com a repetição das tarefas, para melhorar o seu desempenho e a produtividade. A curva de aprendizagem traduz o ganho de produtividade possível com a repetição de uma tarefa mantendo as condições. Como se pode ver na Figura 2.13, esse ganho só é possível até determinado limite, a partir daí estabiliza, sendo apenas possível voltar a aumentar a produtividade adotando sistemas produtivos mais eficientes. Figura 2.13 – Curva de aprendizagem mostrando o ganho de eficiência no tempo [21] A produtividade de uma tarefa, como se pode constatar, é sensível a muitos fatores, pelo que é necessário uma boa gestão para que sejam implementadas medidas assertivas de forma a tirar-se o melhor proveito dos recursos usados na construção. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 14 2.4.2. PRODUTIVIDADE DE UMA OBRA A produtividade de uma obra não pode ser encarada como um valor exato, como acontecia na produtividade da tarefa, pois numa obra existem vários processos produtivos aglutinados, com produtividades diferentes, assim como a quantidade de mão-de-obra usada ao longo de todas as fases é muito flutuante, dificultando o cálculo. Para o cálculo podemos usar a área total construída sobre o número de horas Homem consumidas para tal, como vem na equação (2.4.), em que Pr é a produtividade expressa em m2/h, A é a área construída em m2 e T o tempo de trabalho consumido em h. T A Pr (2.4.) Mas a produtividade de uma obra pode também ser avaliada usando a diferença entre o valor dos recursos empregues e o valor do produto final, ou seja, o VAB – ver a equação (2.5.). XYVAB  (2.5.) Em que seguindo a Figura 2.14, Y representa o valor dos bens ou serviços produzidos e X o valor dos bens ou serviços consumidos. Figura 2.14 – Relação da transformação de recursos em produtos através de um processo produtivo Para uma empresa saber se determinada obra está a ser produtiva tem de ir comparando os dados desta com informações recolhidas em obras anteriores. O cruzamento do planeamento com o ponto de situação real dos trabalhos indicam se os trabalhadores estão a produzir o esperado, ou se pelo contrário estão com produtividades inferiores. Esta avaliação poderá, também, ser feita através do consumo de determinados materiais, nomeadamente o cimento. Deve ainda ter-se em atenção que cada cultura tem as suas exigências e os seus padrões de qualidade, podendo a satisfação desses padrões conduzir a produtividades menores, pelo que a satisfação do utilizador deve ser encarada como uma prioridade e vista como uma forma de combater a baixa produtividade. Por outras palavras, deverá entender-se que se pode tolerar produtividades menores se isso conduzir a uma maior satisfação do utilizador. 2.4.2.1. Metodologia e Software de controlo de projetos EVM O EVM – Earned Value Management – em português AVA – Análise de Valor Agregado – é uma metodologia de gestão de projetos (projetos entendido em sentido lato), que ajuda a controlar e a avaliar a evolução de qualquer projeto de forma objetiva, permitindo quantificar o trabalho realizado até ao momento em que é feita a avaliação, comparar o desempenho real com o planeado e apontar previsões para o futuro do projeto. X Recursos Processo Produtivo Y Produtos Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 15 Esta metodologia alerta o gestor de projeto para os problemas que estão a surgir, de forma a que este possa tomar decisões e resolve-los antes que se tornem irreversíveis, permitindo assim entregar os projetos dentro do tempo e orçamento estipulados. O EVM integra as variáveis do projeto como o prazo, o custo, os objetivos do projeto, entre outros, num único conjunto de medida, o dinheiro. Cada uma das variáveis ou características do projeto ao serem incorporadas criam valor para o projeto, sendo o somatório de todos os valores criados até ao momento da análise chamado de valor agregado, ver Figura 2.15. Para se compreender melhor o conceito de valor agregado pode consultar-se alguns exemplos práticos simples presentes no Anexo A.1. Figura 2.15 – Variáveis intrínsecas da Análise de Valor Agregado [22] A AVA apresenta-se como a melhor metodologia para integrar os prazos, os custos e o progresso do projeto, apoiando-se apenas no orçamento da obra e nos autos de medição. O método permite associar a produtividade e os custos orçamentados. A ferramenta AVA apresenta vários parâmetros como se pode ver na Figura 2.16. Ao relacionar os parâmetros encontram-se três tipos de indicadores que avaliam o projeto e permitem traçar linhas para o futuro, são eles:  Indicadores de estado: - Variações de Prazos (SV); - Variações de Custos (CV);  Indicadores de desempenho: - Índice de desempenho de Prazos (SPI); - Índice de desempenho de Custos (CPI);  Indicadores de previsão: - Estimativa ao término (EAC); - Estimativa para o término (ETC); - Variação final dos custos (VAC); - Índice de desempenho de recuperação de custos (TCPI). Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 16 No Anexo A.1 pode ver-se com detalhe o conceito de cada parâmetro e a informação a retirar de cada indicador. Figura 2.16 – Gráfico com indicadores da Análise de Valor Agregado [22] Esta metodologia também apresenta alguns problemas como os custos de implementação e manutenção, a falta de conhecimento adequado da metodologia e a dificuldade de a utilizar em projetos complexos. Alguns problemas podem ser colmatados, para tal é necessário que as empresas dêem formação ao seus funcionários sobre a metodologia. O número de empresas que utilizam a AVA tem aumentado porque, embora esta tenha custos elevados de implementação e manutenção, os seus benefícios são compensatórios. [22,23] 2.4.3. PRODUTIVIDADE NA MACROECONOMIA – CONSTRUÇÃO Existem várias entidades, internacionais e nacionais, como o INE, a PORDATA e o EUROSTAT que se interessam e tratam este tema. Estas entidades tratam a produtividade numa vertente mais voltada para a economia, senão atente-se nos dados que usam para o cálculo da mesma. Na Figura 2.17 encontra-se representada sob a forma de gráfico a produtividade aparente da construção - no eixo das ordenadas - comparada com a média do total dos setores em Portugal. Para tal é usado o VAB sobre o número de pessoas ao serviço no setor nos anos respetivos. Podendo-se traduzir na equação (2.6.), em que Pax representa a produtividade aparente de um determinado ano – as unidades são €/trabalhador, diferente das unidades, normalmente usadas como visto acima, m2/h ou m3/h –, VABx representa o VAB no ano para o qual se pretende calcular a produtividade aparente assim como o Nºx representa o número de trabalhadores da construção nesse mesmo ano. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 17 xN xVAB Pax º  (2.6.) No gráfico pode ver-se que a produtividade do ramo “construção” é significativamente mais baixa que a média de todas as atividades. Figura 2.17 – Produtividade aparente do trabalho: total e ramo de atividade construção entre 1977 e 2011 [24] Todos os valores de produtividade possíveis de extrair de fontes estatísticas ou de tratamento de dados são deste género, pois apenas têm acesso a valores monetários gerados pelas empresas e não a dados internos relacionados com a eficiência dos sistemas usados. Os valores extraídos do tratamento de dados, tal como os expostos acima, podem ser valores ilusórios e pouco ajustados devido sobretudo à economia paralela. Ora, se em todas as atividades existe a economia paralela, que particularmente num momento de crise tem um peso importante na economia nacional, como se viu anteriormente, no caso da construção verifica-se o mesmo. Como se referiu no final do subcapítulo 2.2 na construção de uma habitação a faturação média deve corresponder a metade do valor total, isto é um ponto muito importante, pois, se segundo a Euroconstruct a construção habitacional tem um peso de 20% no setor da construção e se este, por sua vez, tem um peso de 6% no VAB nacional significa que a construção habitacional pesa 1,2% no VAB do país, mesmo sem contar com a parte não declarada – economia paralela – o que equivale, neste caso, a não faturar 50%, ou seja, o valor real do peso do VAB gerado pela construção habitacional no VAB do país deveria ser cerca de 2,4%, estando a provocar a sensação que o setor tem piores resultados que os que se verificam na realidade. Mas as informalidade e a fuga aos impostos acontece em todas as atividades e embora possa ser mais elevada na construção, esta continuará a ter pior produtividade que as restantes atividades. Esta fraca produtividade da construção portuguesa não é apenas evidente em comparação com as restantes atividades nacionais, pelo contrário, encontra-se abaixo da média da produtividade da Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 18 construção europeia, sendo o seu desempenho cerca de 1/3 desta como se pode ver na Figura 2.18, na qual é comparada a produtividade portuguesa com a europeia nas várias atividades económicas e em que o eixo das ordenadas índica, em percentagem, a relação entre elas, por exemplo, quando se lê que uma produtividade é 50%, significa que é metade da produtividade europeia. [25] Figura 2.18 – Produtividade portuguesa em comparação com a produtividade europeia nas diversas atividades económicas [4] 2.4.4. SÍNTESE A reduzida produtividade da construção não é apenas fruto da falta de interesse por parte das empresas, mas vai mais para além disso. A mão-de-obra não qualificada que encontra facilmente na construção um lugar para trabalhar, sem passar previamente por uma formação mínima para que possa adquirir noções básicas do tipo de trabalho que vai desenvolver e das técnicas existentes, é também um entrave para o aumento do desempenho da indústria, embora pareça uma falha das empresas, não é apenas a elas que deve ser imputada a responsabilidade, mas também ao governo por não exigir que contratem pessoal com o mínimo de formação como acontece em outros setores. O não cumprimento das obrigações por parte das empresas – entre elas, a evasão fiscal, evasão a normas de mercado e evasões a obrigações sociais – tornam a competição desleal e garantem a essas empresas, com piores desempenhos e menos eficientes, uma quota de mercado maior que aquela que conseguiriam caso respeitassem e cumprissem todas as obrigações, fiscais e sociais, pois conseguem, desta forma, preços mais baixos. Pela mesma razão dificultam as condições para a inovação e a implementação de melhores práticas evitando o crescimento e financiamentos. Também o acesso privilegiado a informação sobre projetos e concursos beneficia empresas menos capazes tornando a produtividade menor, assim como a grande burocracia e complexidade processual que leva a grandes tempos de espera, conduzindo a custos elevados. [26] Na expectativa de perceber melhor alguns destes aspetos, relacionados com a produtividade e economia da construção, estabeleceu-se contacto com o Dr. João Afonso, economista da AICCOPN, cuja entrevista se pode ver no Anexo A.2. No Quadro 2.1 pode ver-se o que foi tratado neste subcapítulo e que contribui de forma positiva para se conseguir alcançar níveis de produtividade mais elevados. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 19 Quadro 2.1 – Medidas para melhorar a produtividade Ergonomia Melhoram a: Produtividade da Tarefa O que conduz a uma melhoria da: Produtividade da Obra Pré-Fabricação  Ferramentas e equipamentos mais adequados ao trabalho a desenvolver para tornar o trabalho menos penoso;  Equipa de trabalho que permitam rotatividade e a entre ajuda para diminuir a fadiga;  Formação do pessoal para ensinar posições ergonómicas de trabalho de para evitar lesões;  Mão-de-obra mais especializada e aproveitamento do efeito de aprendizagem;  Prazos de construção mais reduzidos, com menor influência atmosférica;  Maior segurança, quer a nível pessoal quer estrutural;  Diminuição de gastos com energia, estaleiro, entre outros; Sistemas de gestão Melhoram a: Produtividade da Obra O que conduz a uma melhoria da: Produtividade da Macroeconomia (Construção) Melhoria Continua  Gestão e planeamentos capazes de prever e antecipar problemas suscetíveis de diminuir a produtividade;  Controlo através do orçamento e do consumo dos materiais, conseguindo assim saber se a produtividade está a corresponder com o esperado;  Comparação constante do trabalho produzido com dados existentes na empresa sobre obras semelhantes;  Atualização das bases de dados como forma de promover a melhoria da produtividade; Combate à economia paralela Melhoram a: Produtividade da Macroeconomia (Construção) Simplificação processual  Combate à evasão fiscal, à evasão a normas de mercado e às evasões a obrigações sociais;  Combate ao acesso privilegiado a informação;  Simplificação da grande burocracia e complexidade processual;  Facilitar parcerias de empresas nacionais com empresas internacionais, com mais conhecimento e eficiência; Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 26 Os sistemas correntes de alvenaria fundamentam-se na utilização repetitiva da mesma unidade – tijolo, bloco ou pedra – sendo que as unidades base mais comercializadas, em Portugal, são as seguintes:  Tijolo cerâmico de furação horizontal usado quer para paredes exteriores quer para paredes interiores;  Tijolo maciço ou com furação vertical, usado em alguns casos como tijolo de face à vista, aplicado apena em paredes exteriores;  Blocos de betão, normal ou leve, com utilização sobretudo em paredes exteriores;  Pedra natural usada nos panos exteriores em paredes duplas, mas apenas em algumas regiões do país onde abunda este material. De todas as unidades indicadas anteriormente, as mais usadas são os tijolos de furação horizontal, sendo usadas em mais de 90% das alvenarias. O Quadro 3.2 e o Quadro 3.3 mostram, respetivamente, as características mais importantes dos blocos de betão e dos tijolos cerâmicos, quer de furação horizontal, vertical ou maciços [27,32,33]. Quadro 3.2 – Características mais importantes dos blocos de betão correntes em Portugal [27] Dimensão e formas (comp. x alt. x esp.) (cm) Peso aprox. (kg) Furação (%) Resistência à compressão (1) (MPa) (50 ou 40) x 20 x 30 20 – 29 45 – 65 3.5 – 4.5 (50 ou 40) x 20 x 25 20 – 25 45 – 65 3.0 – 4.5 (50 ou 40) x 20 x 20 15 – 22 40 – 50 3.0 – 4.5 (50 ou 40) x 20 x 15 12 – 18 40 –50 4 – 5 (50 ou 40) x 20 x 12 12 – 15 40 – 50 4 – 5 (50 ou 40) x 20 x 10 10 – 13 30 – 50 4 – 5 (50 ou 40) x 20 x 8 8 – 12 30 – 50 4 – 6 (50 ou 40) x 20 x 5 8 – 10 – 6 – 8 (1) Expressa em termos de área aparente, não normalizada por fatores de forma. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 27 Quadro 3.3 – Características mais importantes dos tijolos correntes em Portugal [27] Dimensão e formas (comp. x alt. x esp.) (cm) Peso aprox. (kg) Furação (%) Resistência à compressão (2) (MPa) Furação horizontal 30 x 20 x 22 (1) 7 – 11 55 – 70 1.9 – 3.9 30 x 20 x 15 (1) 5 – 7 50 – 65 2.5 – 4.9 30 x 20 x 11 (1) 4 – 6 50 – 65 2.8 – 5.2 30 x 20 x 9 3.5 – 5.5 40 – 60 3.0 – 5.7 30 x 20 x 7 (1) 3 – 5 40 – 60 3.7 – 7.0 30 x 20 x 4 2 – 3 40 – 50 6.0 – 7.0 Furação vertical 22 x 11 x 7 (1) 1.5 – 2.5 25 – 40 8.0 – 9.5 22 x 11 x 5 1.2 – 1.7 25 – 40 8.0 – 9.5 Sólido 22 x 11 x 7 (1) 2.5 – 3.5 – 17.0 – 48.0 (1) Dimensões de acordo com normalização portuguesa. (2) Expressa em termos de área aparente, não normalizada por fatores de forma. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 28 Quanto à argamassa utilizada no assentamento das unidades de alvenaria, esta é, ainda com frequência nas obras feita no local com recurso a cimento CEM II/B-L 32,5N e areia, tendo caído em desuso a adição de cal, como acontecia no passado. A composição da argamassa é geralmente de 1:3 ou 1:4, cimento: areia, em volume, podendo-se considerar rica. Sobretudo em panos de face à vista é frequente a utilização de um adjuvante hidrófugo para melhorar a estanqueidade da parede. O uso de argamassa pré-doseada em fábrica ou argamassa pronta ainda não é muito usual em Portugal no meio das pequenas e médias empresas, verificando-se contudo, a sua utilização, essencialmente, em obras realizadas pelas grandes empresas portuguesas. Não é usual serem aplicados grampos de ligação entre panos, de ligação à estrutura e armaduras de junta horizontal, embora alguns projetistas especifiquem a sua aplicação em projeto. Como, em Portugal, não existe produção destes dispositivos, recorre-se ao improviso em obra, com a substituição dos mesmos por uma imitação em arame galvanizado ou barras de aço, havendo também obras para as quais se importam os dispositivos, sendo, em qualquer dos casos, a sua correta aplicação duvidosa. De todos os acessórios existentes para as alvenarias, apenas os lintéis são implementados regularmente, principalmente quando a oclusão dos vão é feita com recurso a estores de rolo. No que respeita ao conforto térmico dos edifícios, o Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios [34] – RCCTE – atualizado em 4 de Abril de 2006, tornou-se mais exigente quanto ao isolamento térmico a aplicar nos edifícios, tendo limitado o valor do coeficiente de transmissão térmico – U – máximo admissível em U ≤ 1,45 W/(m².ºC) e o U de referência em U ≤ 0,5 W/(m².ºC), isto nas zonas I3. Devido às exigências do regulamento e do aumento da consciência da população pela necessidade de isolar para obter conforto térmico, tanto de verão como de inverno, recorrendo a gastos de energia menores generalizou-se o uso de isolamento térmico em Portugal. O isolamento é feito através do preenchimento, parcial ou total, da caixa de ar no caso das paredes duplas. No caso das paredes simples, o isolamento é feito pelo exterior, ficando este entre a alvenaria e o revestimento da parede. Os isolamentos mais utilizados são o poliestireno extrudido – XPS – ou expandido – EPS – e ainda a espuma de poliuretano, este último apenas usado em caixas de ar de paredes duplas. O revestimento mais frequentemente utilizado nas paredes de alvenaria é o reboco. Este é realizado após execução do chapisco, com argamassa ao traço 1:4 (cimento:areia), e 3 dias de secagem. A argamassa para execução do reboco deverá ser ao traço 1:5 e deverá conter um aditivo hidrofugante para tornar a parede impermeável. No que respeita à execução dos trabalhos de alvenaria das soluções correntes, estas constituem uma forma de construir ainda pouco industrializada e pouco mecanizada. Muitos dos atrasos e erros das obras devem-se ao tradicionalismo que conduz ao improviso, levando ao aparecimento, no imediato ou no futuro, de anomalias provenientes de má execução. Esta má execução dos trabalhos é, em muitos casos, resultado da soma de dois fatores: inexistência de todos os componentes necessários para a execução do sistema, sendo necessário improvisá-los in sito; inexistência de todas as ferramentas necessárias bem como, utilização de ferramentas e equipamentos desatualizados. Na Figura 3.5 e na Figura 3.6 são apresentadas, respetivamente, as ferramentas mais utilizadas no assentamento e na marcação das paredes de alvenaria. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 29 Como se compreenderá pela observação das ferramentas utilizadas, é necessário ter um bom conhecimento e uma boa prática para se conseguir executar os trabalhos de marcação e assentamento da alvenaria, estando a sua boa execução dependente do conhecimento do operário, ao contrário do que acontece nas soluções inovadoras, como se verá mais à frente. Figura 3.5 – Ferramentas correntes de execução de alvenarias: talocha, colher de pedreira, pincel de pedreira, martelo e balde de pedreiro [35] Figura 3.6 – Ferramentas correntes de marcação de alvenarias: fita métrica, fio de pedreiro, prumo, nível e esquadro [36] Para moldar as unidades a incorporar nos pontos singulares das alvenarias é utilizado o martelo ou a colher de pedreiro – aplicam-se pancadas no local por onde se quer que elas quebrem – não se utilizando qualquer tipo de ferramenta de corte. Figura 3.7 – Execução de argamassa manualmente [37] Figura 3.8 – Execução de argamassa com betoneira [37] Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 30 Como já referido, a argamassa de assentamento é realizada em obra, manualmente ou com o auxilio de uma betoneira. Estes processos são algo morosos e produzem quantidades apreciáveis de argamassa, sendo parte dela aplicada, em alguns casos, apenas algumas horas depois, podendo já não se encontrar em perfeitas condições de utilização. Na Figura 3.7 e 3.8 tem-se a ilustração do fabrico da argamassa manualmente e com betoneira, respetivamente. Os andaimes utilizados na execução de alvenarias são iguais aos andaimes utilizados correntemente para a realização das restantes tarefas, com apenas um nível de altura que serve, simultaneamente, de apoio para o operário conseguir executar a parede e de apoio para colocação dos materiais e ferramentas necessárias. O espaço existente torna-se várias vezes reduzido para a combinação das duas funções que lhe são atribuídas, dificultando a movimentação do operário e obrigando-o a baixar-se constantemente para pegar no material ou ferramenta necessária, diminuindo desta forma a sua produtividade. A Figura 3.9 pretende exemplificar o tipo de andaimes descritos anteriormente. Figura 3.9 – Andaime exterior e interior com um nível de altura [38] O transporte e manuseamento dos materiais é na maioria dos casos manual, recorrendo-se ao carro de mão para o transporte da argamassa, em alguns casos, noutros é feito em baldes ainda carregados a braço. 3.3.1.1. Soluções e sistemas correntes de paredes exteriores No Quadro 3.4 pode ver-se os sistemas de alvenaria, existentes em Portugal, utilizados em paredes exteriores. Quadro 3.4 – Sistemas de alvenarias existentes em Portugal para paredes exteriores [32] Estrutura do edifício Tipo de parede Materiais de alvenaria Unidades Argamassa Componente auxiliares Isolamento térmico Betão Armado Aço Madeira Pano simples Parede dupla Parede cortina Argila Betão Silicato de cálcio Uso geral Cola Leve Grampos Armadura de junta Lintéis Exterior Caixa de ar Interior Unidades largas Pesado Leve Pesado Leve Celular autoclavado Frequente Usado, mas não frequente Raro Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 31 Pela informação retirada do quadro anterior pode dizer-se que as alvenarias correntemente utilizadas em Portugal são [32]:  Paredes duplas em tijolo cerâmico de furação horizontal, em que o pano mais largo tem no máximo 0,15m, o isolamento é colocado na caixa de ar sendo, usualmente, em placas de poliestireno expandido ou extrudido e o assentamento das unidades é feito com o uso de argamassa de uso geral. Os grampos de ligação entre panos ou de ligação à estrutura de betão armado são inexistentes ou colocados de forma pouco cuidada, também a fixação do isolamento térmico é alvo de falhas, assim como o tratamento das pontes térmicas e da impermeabilização da parede;  Paredes duplas com pano exterior em tijolo cerâmico maciço ou em blocos de betão para face à vista, com a colocação de tubos drenantes da caixa de ar, e pano interior em tijolo cerâmico de furação horizontal com 0,11 ou 0,15m de largura, sendo na face voltada para a caixa de ar desta aplicado um impermeabilizante. O isolamento térmico é colocado na caixa de ar podendo ser em placas de poliestireno expandido ou extrudido ou em espuma projetada de poliuretano. O tratamento das pontes térmicas, os grampos de ligação entre panos de parede e a estrutura de betão armado tendem a não ser bem executados;  Paredes duplas com o pano exterior em blocos de betão, em alguns casos com funções estruturais e o pano interior em tijolo. À semelhança das soluções anteriores o isolamento é feito na caixa de ar com recurso a placas de EPS ou XPS;  Paredes simples em blocos de betão leve, betão autoclavado ou argila expandida. À exceção dos blocos de betão autoclavado, todos são de furação vertical e a sua espessura entre 0,25 e 0,30m. Estas unidades tem normalmente o sistema de encaixe macho fêmea, não sendo necessário a realização das juntas verticais com argamassa. Este último tipo de sistema apresentado, embora não sendo correntemente utilizado como os restantes, tem vindo a ganhar importância na execução de paredes exteriores a par com o isolamento pelo exterior, por permitir um melhor tratamento das pontes térmicas, exigido pelo RCCTE. Os regulamentos de edifícios, nomeadamente o de térmica, ruído e segurança contra incêndio influenciam muito as soluções usadas em Portugal para execução de paredes exteriores. 3.3.1.2. Soluções e sistemas correntes de paredes interiores Ao contrário do que acontece nas paredes exteriores, em que são identificados 4 sistemas de execução de alvenaria correntes em Portugal, nas paredes interiores apenas existe um sistema corrente recaindo ele sobre o uso do tijolo cerâmico de furação horizontal como unidade base e a argamassa, de características indicadas no ponto 3.3.1 do presente capítulo, como material de ligação entre unidades. Através dos dados contidos na Figura 3.10, pode ver-se que o tijolo mais usado em divisórias de edifícios é o de 0,07 m de espessura, sendo aplicado para todos os compartimentos; apenas uma minoria, cerca de 8%, utiliza o tijolo de 0,11 m para fazer todas os compartimentos; e ¼ do universo observado utiliza o tijolo de 0,11 m para a compartimentação das zonas húmidas, quarto de banho e cozinha, e o tijolo de 0,07 m nas restantes divisórias. Autores, como Mascarenhas [39], defendem que as paredes interiores não devem ter espessura inferior a 0,15 m, de modo a alojarem as infra-estruturas hidráulicas, elétricas, entre outras, sem colocarem em causa a sua estabilidade e segurança. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 32 Figura 3.10 – Espessura dos tijolos usados para compartimentação do interior de edifícios, segundo um estudo estatístico de 1998 [40] 3.3.1.3. Rendimento dos sistemas correntes Os rendimentos dos sistemas atuais, correntemente usados, podem ser encontrados nas tabelas de rendimentos presentes na publicação do LNEC, Informação Sobre Custos – Fichas de Rendimentos [9] e de José da Paz Branco, Rendimentos de Mão-de-Obra, Materiais e Equipamento em Edificação e Obras Publicas [10], entre outras. Neste ponto utilizar-se-á a publicação do Engenheiro José da Paz Branco. Na Figura 3.11 e Figura 3.12 podem ver-se as tabelas de rendimentos de alvenaria de tijolo e de blocos de betão. Figura 3.11– Rendimentos da mão-de-obra na execução de alvenaria de tijolo extraídos da Tabela III.3 do livro de José da Paz Branco [10] 8% 67% 25% Tijolo de 0,11 m em todas as paredes interiores. Tijolo de 0,07 em todas as paredes interiores. 25 % - Tijolo de 0,11 m nas paredes interiores de casas de banho e cozinha e as restantes em tijolo de 0,07 m. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 33 Figura 3.12 – Rendimentos da mão-de-obra na execução de alvenaria de blocos de betão extraídos da Tabela III.5 do livro de José da Paz Branco [10] As tabelas são constituídas pelas características do material, como dimensões e pesos, e pela sua posição de assentamento, condições estas que influenciam o rendimento da mão-de-obra. Os rendimentos apresentados nas tabelas para além de diminuírem com o aumento do peso das unidades de alvenaria também diminuem com o aumento da quantidade de aberturas, com a execução de panos de parede pequenos e/ou curvos e com a utilização de andaimes. No entanto, não são apenas as características dos materiais que provocam rendimentos da mão-de-obra distintos, também as condições particulares de cada obra e da eficiência dos quadros de chefia e/ou dos meios tecnológicos disponíveis alteram o rendimento na execução das alvenarias. Deste modo, deve consultar-se o quadro da Figura 3.13 que contempla as diferentes condições e particularidades de cada obra, tal como tinha sido mencionado no capitulo 2. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 34 Figura 3.13 – Coeficientes (e fatores) de correção dos valores teóricos das tabelas considerando as condições particulares da obra e da eficiência dos quadros de chefia e/ou dos meios disponíveis extraído do Quadro 0.1 do livro de José da Paz Branco [10] 3.3.2. SOLUÇÕES E SISTEMAS INOVADORES Para se conseguir satisfazer as exigências impostas às alvenarias sem perder a noção da viabilidade económica e produtiva, é necessário inovar os sistemas construtivos. A par destas razões, também a falta de mão-de-obra com muitos anos de treino e de conhecimento das técnicas, devido ao aumento do trabalho temporário na construção, são um fator a favor da inovação dos sistemas, de forma a torna-los mais simples, intuitivos e independentes do conhecimento dos operários. Inovar os sistemas tendo em conta os fatores anteriores permitirá diminuir as patologias nas paredes e aumentar a produtividade. Os sistemas de alvenaria inovadores, foram criados com a mesma base tecnológica dos sistemas correntes, sendo-lhes introduzidas alterações que os tornam mais simples e intuitivos como era o objetivo. Pode verificar-se a inovação das soluções e sistemas construtivos de alvenaria, tal como apresentado no ponto 3.3.1 para as soluções correntes, a dois níveis, sendo eles o sistema e a execução dos trabalhos, como se pode ver no Quadro 3.5. Todos os componentes constituintes das soluções de alvenaria podem sofrer alterações, sendo que as mais significativas são ao nível do sistema, nomeadamente das unidades base e da argamassa. Foram estas mudanças que conduziram a alterações ao nível da execução dos trabalhos, bem como nas ferramentas e equipamentos. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 35 Quadro 3.5 – Divisão das soluções inovadoras nos seus constituintes possíveis Soluções inovadoras Sistema Unidades Tijolo cerâmico de furação vertical Blocos de betão leve Blocos térmicos Blocos acústicos Argamassa de assentamento Argamassa leve Argamassa delgada Revestimentos ETICS Acessórios Grampos de ligação de panos de parede Ligadores de pano de parede à estrutura Armaduras de junta horizontal Fixadores do isolamento Execução dos trabalhos Ferramentas Caixa de espalhamento de argamassa Misturadora Serra elétrica Nível de laser Andaimes Andaimes com dois níveis de altura Forma de fazer a argamassa Pré-doseada Pronta Transporte e manuseamento Equipamento de transporte de carga Equipamento de elevação de carga Pegas para manuseamento das unidades Robotização Pré-fabricação de alvenarias Auxilio na execução de alvenarias Ao nível da evolução das unidades, os sistemas inovadores presentes em Portugal são os seguintes:  Paredes simples em tijolo cerâmico de furação vertical com isolamento pelo exterior em poliestireno expandido – EPS;  Paredes simples em blocos de betão leve, que podem ser usados em paredes interiores ou exteriores, tal como no sistema anterior, no caso das paredes exteriores, o isolamento é feito pelo exterior com recurso a poliestireno expandido – EPS;  Paredes simples em blocos de agregados leves. Enquanto que no caso das soluções correntes, a empresa fabricante fornece unidades de alvenaria todas iguais, à excepção dos blocos de betão corrente que integram no seu fornecimento blocos especiais para partir a meio de forma fácil, os fabricantes das unidades de alvenaria das soluções inovadoras, fornecem sistemas de alvenaria propriamente ditos, pois para além das unidades de alvenaria base fornecem também unidades especiais para a realização de pontos singulares das paredes, todas estas unidades têm sistema de encaixe que facilitam o seu assentamento e permite não realizar juntas verticais. Segundo avaliação de Gouveia e Lourenço [41] a utilização de juntas verticais aumenta 10% a resistência à força de corte efetiva em alvenarias confinadas, considerando ser um ganho muito pequeno. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 42 Após a execução dos painéis em fábrica, estes são transportados para a obra em camiões e colocados no local com o recurso a gruas. A armadura vertical, constituída por varões, utilizada na construção dos painéis serve também para os transportar e movimentar em obra, no caso da armadura horizontal, disposta nas juntas de assentamento, são deixadas uma espécie de pegas pelas quais passará um varão na vertical para ligação de dois painéis adjacentes. Os painéis pré-fabricados são assentes sobre uma camada de argamassa – para evitar que esta reflua e garantir que a camada fica com aproximadamente 3 cm coloca-se uma travessa de madeira a meio – ajudando também ao nivelamento correto do painel, sendo ainda escorado para garantir a sua verticalidade e evitar acidentes. As juntas de ligação entre os painéis são preenchidas por argamassa. Na Figura 3.26 tem-se imagens da aplicação em obra de painéis pré fabricados de alvenaria. Figura 3.27 – Sistema SAM a executar as paredes em alvenaria de um edifício comercial em Victor, Nova Iorque [56] Desde 2007 que em Nova Iorque, nos EUA, existe a Construction Robotics [56], uma empresa que tem por objetivo revolucionar a construção de alvenarias através do uso de novas tecnologias e dos princípios utilizados há décadas em outras indústrias. Em Outubro de 2013, o SAM Alpha – Semi Automated Mason – foi utilizado pela primeira vez numa obra em Victor, Nova Iorque, na construção de um edifício comercial – ver Figura 3.24. Este sistema foi idealizado para trabalhar com o pedreiro, ajudando-o com a tarefa repetitiva e cansativa de levantar e colocar cada unidade, continuando o pedreiro com a função de garantir a qualidade da parede final. Podem identificar-se as seguintes vantagens ao sistema:  economia de trabalho superior a 30%;  diminuição do esforço físico do pedreiro e da sua equipa, concentrando-se estes apenas na incorporação de alguns componentes e na qualidade da parede;  níveis de produção e desempenho constantes;  melhores condições de saúde e segurança. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 43 4 PROPOSTA DE MEDIDAS DE MELHORIA DOS SISTEMAS E AVALIAÇÃO DO SEU IMPACTO 4.1. NOTA PRÉVIA Agora que são conhecidas os sistemas correntes e inovadores utilizados em Portugal, é necessário pensar e propor medidas que a curto/longo prazo introduzam melhorias na produtividade, assim como, avaliar o seu impacto nas soluções. Esta preocupação com a melhoria da produtividade é justificada pelo peso considerável que as alvenarias apresentam no custo total de um edifício, pela elevada importância das funções das alvenarias nos edifícios e pela elevada ocupação de mão-de-obra. Em diversos estudos que permitem perspetivar o peso das paredes de alvenaria desde a década de 70 do século passado até ao início deste século, podemos situar o peso das alvenarias e seus revestimentos entre 13% e 17%. Nota-se que com o aumento relativo das infraestruturas esta importância reduziu-se ligeiramente. [57,58] Verificou-se uma grande dificuldade em obter interesse e informação, por parte das empresas do setor, que ajudasse a desenvolver de forma mais completa o tema tratado neste capítulo. 4.2. MEDIDAS DE MELHORIA DOS SISTEMAS 4.2.1. PROPOSTA DE MEDIDAS DE MELHORIA As medidas de melhoria podem ser propostas para as duas partes constituintes das soluções de alvenaria, ou seja, para os materiais e sistemas e para os processos construtivos. Para além dessa divisão, as medidas de melhoria podem ainda ser divididas quanto ao tempo/evolução necessária para a sua implementação, isto é, se forem medidas fáceis de implementar serão de curto prazo, pelo contrário se forem medidas complexas serão de longo prazo. No Quadro 4.1 pode ver-se, de forma sucinta, a direcionalidade das medidas de melhoria das soluções de alvenaria. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 44 Quadro 4.1 – Quadro de síntese das medidas de melhoria Medidas de melhoria - Materiais e Sistemas - Tosco - Elementos - Argamassas - Acessórios - Acabamentos - Processos de construção - Preparação dos trabalhos - Equipamentos e ferramentas - Ergonomia - Manuseio - Industrialização e prefabricação No Quadro 4.2 e Quadro 4.3 são apresentadas, de forma breve, as medidas de melhoria propostas pelo autor a curto e longo prazo respetivamente e ainda um campo de “Observações/Exemplos” que constituem exemplos ilustrativos de algo que já existe acerca das medidas proposta, seguindo a sequência do quadro anterior. As medidas a curto prazo estão relacionadas com o melhoramento e uso generalizado de materiais, acessórios e equipamentos que já existem nos sistemas, sobretudo nos inovadores, embora em geral com pouca expressão, mas se forem usados correntemente podem constituir uma vantagem na execução das alvenarias por diminuição dos improvisos a que, atualmente, os operários se vêem forçados a recorrer para colmatar a falta de meios necessários à correta execução dos sistemas assim como, constituirão uma vantagem para o melhoramento das condições de trabalho conduzindo a um menor número de lesões. Ver-se-á mais à frente, quando se falar dos impactos das medidas nos sistemas, as vantagens de todas as medidas propostas. No caso das medidas a longo prazo para melhoria dos sistemas de alvenaria, estas estão amplamente relacionadas com a incorporação de materiais inovadores, a inovação tecnológica e a incorporação da robótica na construção. A pré-fabricação de panos de parede utilizando robôs já foi apresentada no capitulo anterior como um sistema inovador, mas este sistema ainda é de rara aplicação, contudo ficou provado que se consegue construir alvenarias com formas praticamente impossíveis de realizar por mão-de-obra humana e em caso de ser possível, seria com uma produtividade certamente muito inferior à conseguida com a robotização. Outros estudo estão em marcha, neste momento, que permitirão dentro de alguns anos construir edifícios apenas com o recurso a robôs. Começam a surgir no mercado e a perspetivar-se que os materiais tendam a simplificar cada vez mais o processo construtivo, permitindo assim construir-se mais rápido, com menos desperdícios, com mais qualidade e com melhores condições de trabalho para os operários. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 45 Quadro 4.2 – Proposta de medidas de melhoria simples, a curto prazo, das soluções Medidas simples de curto prazo Medidas Observações/Exemplos Tosco Elementos - Substituir venda generalizada de tijolos ou blocos por sistema com peças acessórias. www.weber.com.pt www.artebel.pt Argamassa - Generalizar o uso de argamassa pré-doseada em fábrica. www.weber.com.pt www.ddlarg.com Acessórios - Existência de ligadores no mercado para ligação entre panos de alvenaria e para ligação à estrutura. pt.made-inchina.com [59] - Existência no mercado de armadura de junta horizontal. portuguese.alibaba.com [60] - Existência no mercado de fixadores de isolamento térmico à parede. www.techitt.com Acabamentos - Generalização de acabamentos pré-doseados. www.weber.com.pt www.ddlarg.com Preparação dos trabalhos - Preparação prévia dos trabalhos, criando inventário dos materiais necessários. Dominar ou desenvolver novas ferramentas BIM Equipamentos e ferramentas - Generalização do uso de andaimes reguláveis em altura com dois níveis distintos de patamar. www.equipleva.pt - Generalização do uso de caixas de espalhamento de argamassa www.weber.com.pt - Generalização do uso de serras elétricas para corte das unidades. www.husqvarna.com - Generalização do uso de equipamento de nivelamento da base de assentamento com laser. www.unipor.de Ergonomia - Uso de pegas para manusear as unidades. www.artebel.pt - Unidades com pegas que facilitam o seu manuseamento. www.xella.pt Manuseio - Generalização do uso de equipamentos de transporte e elevação de cargas. www.equipleva.pt Industrialização e pré-fabricação - Recurso à pré-fabricação parcial de alvenarias. www.xella.pt Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 46 Quadro 4.3 – Proposta de medidas de melhoria complexas, a longo prazo, das soluções Medidas complexas de longo prazo Medidas Observações/Exemplos Tosco Elementos - Generalizar o uso de unidades de encaixe. bricotijolo.blogspot.pt Argamassa - Generalizar o uso de argamassa delgada ou pronta. www.massadundun.com.br Acessórios - Generalizar o uso de unidades capazes de embeber as instalações. www.artebel.pt (1) Acabamentos - Generalizar o uso de acabamentos pré incorporados. www.hilayes.com Industrialização e pré-fabricação - Robotização da indústria da construção. www.constructionrobotics.com - Pré fabricação quase total. - (1) Este é um dos domínios de desenvolvimento mais interessante. 4.3. AVALIAÇÃO DO IMPACTO DAS MEDIDAS DE MELHORIA 4.3.1. CAMPOS DE AVALIAÇÃO DO IMPACTO DAS MEDIDAS DE MELHORIA As medidas de melhoria, apresentadas anteriormente, provocam a alteração da produtividade na execução das alvenarias. No Quadro 4.4 são apresentados os campos que mais contribuem para a alteração dessa produtividade, pelo que se deverá avaliar o impacto neles provocados pelas medidas expostas. Quadro 4.4 – Campos de avaliação do impacto das medidas de melhoria Campos de avaliação Custo Tempo de execução Qualidade Motivação no trabalho Melhoria da ergonomia 4.3.2. AVALIAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DO IMPACTO DAS MEDIDAS DE MELHORIA No Quadro 4.5 e Quadro 4.6 pode ver-se a classificação das medidas de melhoria, respetivamente, a curto e longo prazo, relativamente a cada um dos campos de avaliação indicados no Quadro 4.4, e a classificação final de cada medida. A classificação foi atribuída com base em estudos e artigos científicos já existentes e por comparações de materiais e equipamentos realizadas pelo próprio autor. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 47 Quadro 4.5 – Matriz de impactos das medidas de melhoria simples, a curto prazo, das soluções Medidas simples de curto prazo Medida Custo Tempo Execução Qualidade Motivação no Trabalho Melhoria da Ergonomia Síntese - Substituir venda generalizada de tijolos ou blocos por sistema com peças acessórias. 2 4 4 4 1 3 - Generalizar o uso de argamassa pré-doseada em fábrica. 3 3 4 3 3 3 - Existência de ligadores no mercado para ligação entre panos de alvenaria e para ligação à estrutura. 3 3 4 3 3 3 - Existência no mercado de armadura de junta horizontal. 3 3 4 3 3 3 - Existência no mercado de fixadores de isolamento térmico à parede. 3 3 4 3 3 3 - Generalização de acabamentos pré-doseados. 3 3 4 3 3 3 - Preparação prévia dos trabalhos, criando inventário dos materiais necessários. 3 3 2 3 3 3 - Generalização do uso de andaimes reguláveis em altura com dois níveis distintos de patamar. 3 3 3 4 4 3 - Generalização do uso de caixas de espalhamento de argamassa 3 4 3 4 4 4 - Generalização do uso de serras elétricas para corte das unidades. 3 3 4 4 4 4 - Generalização do uso de equipamento de nivelamento da base de assentamento com laser. 2 3 3 4 4 3 - Uso de pegas para manusear as unidades. 2 3 3 4 4 3 - Unidades com pegas que facilitam o seu manuseamento. 3 3 3 4 4 3 - Generalização do uso de equipamentos de transporte e elevação de cargas. 3 3 1 4 4 3 - Recurso à pré-fabricação parcial de alvenarias. 3 4 4 4 4 4 Legenda Irrelevante Pouco Relevante Relevante Muito Relevante 1 2 3 4 Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 48 Quadro 4.6 – Matriz de impactos das medidas de melhoria complexas, a longo prazo, das soluções Medidas complexas de longo prazo Medida Custo Tempo Execução Qualidade Motivação no Trabalho Melhoria da Ergonomia Síntese - Generalizar o uso de unidades de encaixe. 2 4 4 4 3 4 - Generalizar o uso de argamassa delgada ou pronta. 4 4 4 4 4 4 - Generalizar o uso de unidades capazes de embeber as instalações. 3 4 4 3 4 4 - Generalizar o uso de acabamentos pré incorporados. 3 4 3 3 3 3 - Robotização da indústria da construção. 4 4 4 4 4 4 - Pré fabricação quase total. 4 4 4 4 4 4 Legenda Irrelevante Pouco Relevante Relevante Muito Relevante 1 2 3 4 Apesar da tentativa de interagir com as empresas de construção de forma a conseguir fazer uma avaliação mais quantitativa e de tentar encontrar outras medidas de melhoria dos sistemas, elas mostraram-se pouco disponíveis e pouco interessadas. Da observação dos dois quadros anteriores pode reter-se que todas as medidas de melhoria são benéficas para a melhoria da produtividade mesmo que, em alguns casos, tenham campos avaliados como “Irrelevante” ou “Pouco Relevante”. A substituição da venda generalizada de tijolos ou blocos por um sistema de alvenaria com peças acessórias é um dos casos referidos no paragrafo anterior, pois apesar de ser avaliado como “Pouco Relevante” no campo do custo a sua classificação final é “Relevante”, querendo dizer que é benéfica para o aumento de produtividade da execução de alvenarias. A avaliação do custo foi feita com base na comparação entre a execução de uma parede corrente – de dois panos de alvenaria em tijolo de furação horizontal, tijolo de 0,15 m + tijolo de 0,11 m, e isolamento na caixa de ar – e uma parede com um sistema integrado inovador – pano simples de bloco megatérmico da “Artebel” [61] sem isolamento – tendo em conta o custo das unidades de alvenaria e do isolamento. Ora, no caso da parede corrente indicada são necessários 17 tijolos de 0,15 m + 17 tijolos de 0,11 m e 1 m2 placa de XPS de 0,03 m de espessura para construir 1 m2 de parede, sendo o custo total destes materiais de 10,75 €/m2, enquanto que a solução inovadora necessita de apenas 15 unidades por m2, custando aproximadamente 22 €/m2, sendo o diferencial entre os dois preços significativo, não se levando em conta, no entanto, o custo da mão-de-obra que cada solução requer, sendo esse o maior Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 49 trunfo da solução inovadora, pois enquanto que para a execução da solução corrente se tem de construir dois panos de parede e colocar o isolamento na caixa de ar, a solução inovadora apenas requer a execução de um pano de alvenaria sem a necessidade de isolamento adicional já que os blocos satisfazem as exigências do regulamento, isto aliado à simplicidade dos processos construtivos – isenção de juntas verticais, menor número de nivelamentos intermédios, entre outras – conseguidos graças à forma dos blocos e das unidades especiais, como os meios blocos, garante tempos de execução bastante menores – segundo Anand e Ramamurthy, autores de um estudo publicado no “Journal of Construction Engineering and Management” [62] a produtividade de uma equipa constituída por 1 pedreiro + 1 servente é de 1,7 m2/h na execução de soluções correntes de alvenaria, enquanto que a produtividade de uma equipa constituída por apenas 1 pedreiro é de 4,1 m2/h na execução de soluções inovadoras de alvenaria –, esta diferença de produtividade permite colmatar a diferença de custos entre as duas soluções ou até mesmo inverte-la. Embora, como já foi dito, esta diferença de produtividades existente entre as duas soluções não tenha sido levada em conta para a classificação do custo, foi importante para a classificação do tempo de execução ao qual se atribuiu nota máxima. Os sistemas integrados de alvenaria conferem às paredes uma qualidade superior, pois o improviso não existe neste tipo de solução, já que há unidades que resolvem cada um dos pontos singulares associados à execução de alvenarias. Por outro lado, também a execução dos trabalhos deixa de estar tão dependente do saber do operário e consequentemente fica menos exposta a erros. O desenvolvimento de trabalhos ou tarefas, que à partida irão apresentar problemas ou conduzir a improvisos, provocam no trabalhador desinteresse e desmotivação, assim do ponto de vista da motivação no trabalho a medida proposta apresenta-se vantajosa. Finalmente, quanto à melhoria da ergonomia, pode dizer-se que esta sairá beneficiada. Se é certo que a maioria dos sistema integrados de alvenaria é constituído por unidades mais pesadas, também é sabido que o operário terá de pegar em menor quantidade de unidades porque estas têm dimensões maiores, sendo necessário menos unidades por m2. No que respeita ao uso generalizado de argamassa pré-doseada em fábrica as melhorias são significativas em todos os campos de avaliação. A argamassa pré-doseada consegue tornar as soluções de construção mais baratas por permitir juntas de assentamento mais finas, economizando argamassa. Esta economia deve-se à utilização de areia com granulometria mais fina e uniforme. Quanto aos tempos de execução, esta por ser pré-doseada torna mais rápida a sua preparação, conseguindo, desde logo, baixar o tempo de execução das alvenarias. No que respeita à qualidade dos sistemas, a influência das argamassas inovadoras é positiva, obtendose ganhos na resistência à compressão, na resistência à flexão, na redução da espessura das juntas de assentamento, reduzindo desta forma, as pontes térmicas criadas pelas juntas, isto de acordo com ensaios apresentados por Almeida, J [63] e para argamassas de assentamento. Na Figura 4.1 e Figura 4.2 podem ver-se os gráficos dos resultados dos ensaios das argamassas obtidos por Almeida, em que A1 representa a argamassa industrial e A2 a argamassa corrente, ambas para assentamento de alvenaria, as restantes argamassas R1, R2, R3 e R4 representam argamassas de reboco interior, sendo a primeira industrial e as outras correntes. Em fábrica conseguem-se misturas exatas entre o inerte e o ligante, bastando apenas em obra juntar a quantidade de água recomendada pelo fabricante e mexer. Tal não é possível na fabricação de argamassa em obra pois as quantidades, de cada elemento da argamassa, são muito flutuantes e Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 50 influenciáveis pelo trabalhador responsável por fabricar a argamassa. Este facto torna a qualidade da argamassa executada em obra inferior. Figura 4.1 – Gráfico de evolução da resistência à flexão das argamassas [63] Figura 4.2 – Gráfico de evolução da resistência à compressão das argamassas [63] A utilização de argamassa pré-doseada torna o trabalho do servente menos penoso, pois este não precisa repetir constantemente o movimento de transporte da areia e do cimento para dentro da betoneira, nem de carregar durante grandes distancias a argamassa. As misturadoras de argamassa são instrumentos mais simples e menos ruidosos, que permitem executar a mistura da argamassa com a água no local de assentamento da alvenaria. Estas condições permitem uma melhoria da motivação no trabalho bem como a melhoria da ergonomia. A existência generalizada, no mercado, de ligadores para ligação entre panos de parede e entre estes e a estrutura, de fixadores do isolamento à parede, bem como de armaduras de junta horizontal fará com que o custo destes materiais seja inferior ao praticado atualmente, devido à sua quase inexistência no Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 51 mercado português, e ao custo da mão-de-obra para criação destes componentes em estaleiro central ou em obra. O tempo de execução da alvenaria será igualmente menor com a utilização dos componentes fabricados industrialmente devido à facilidade e adaptabilidade destes aos sistemas, pois têm as espessuras recomendadas, têm formas de fixação mais fáceis – tipo encaixe ou rosca – e podem-se cortar com uma tesoura para tomarem a dimensão pretendida. Como referido, atualmente no mercado português esses componentes quase não existem e como têm custos relativamente altos e provocam tempos de execução mais elevados é comum na construção portuguesa não se aplicar nenhum dos componentes e se aplicados, são muitas vezes ponto de partida para vários problemas, por exemplo infiltrações de água devido à má colocação dos ligadores entre panos de parede, levando a sistemas de baixa qualidade. Ora com a venda generalizada de todos os elementos a qualidade melhoraria. Quanto à melhoria da motivação no trabalho e da ergonomia, estas também têm a ganhar com a introdução de todos os componentes no mercado. Muitas vezes, o pedreiro não consegue fixar devidamente o isolamento à parede acabando por se lesionar na tentativa de fazer e muitas outras vezes lesiona-se porque não consegue compatibilizar todos os componentes necessários, como o caso do isolamento com os ligadores de panos de parede. Estes acontecimentos provocam uma desmotivação para o trabalho e falta de ergonomia. O uso de argamassa para acabamentos pré-doseada é idêntico ao uso de argamassa pré-doseada para assentamento de alvenaria. Assim, o seu custo continuará a ser mais baixo que no caso do uso de argamassa para acabamentos feita em obra assim como os tempos de execução também são mais baixos com a solução pré-doseada. Apesar da informação dos gráficos da Figura 4.1 e Figura 4.2, mostrarem que a argamassa de reboco pré-doseada tem pior desempenho que as argamassas correntes, ao nível da resistência à flexão e à compressão, não quer dizer, que a argamassa pré-doseada desempenhe pior a sua função, pelo contrário, indica que é uma argamassa mais pobre, levando, assim, à existência de menos fissuras. A argamassa pré-doseada é dotada de aditivos, como o hidrofugante, permitindo que esta se torne mais impermeável, o que nem sempre acontece na argamassa corrente. A preparação prévia dos trabalho é uma mais valia ao nível do custo e do tempo de execução. Com a preparação dos trabalhos, evita-se a compra de unidades de alvenaria em quantidade maior que a necessária, não havendo desta forma um custo superior ao necessário e evita que se coloque em obra quantidades de material abaixo da necessária, não havendo assim perdas de tempo por parte dos operários induzidas por falta de material. Ao saber-se a quantidade exata de unidades necessárias, de cada material, em cada zona da obra, permite que no inicio das tarefas os materiais se encontrem distribuídos corretamente, evitando-se assim que o operário transporte os materiais de uma zona para a outra mais que uma vez, conseguindo um melhoramento da motivação e da ergonomia do trabalho. O uso frequente de andaimes reguláveis em altura com dois níveis distintos de patamar poderá apresentar os mesmos custos se se comparar a diferença de custo de um andaime deste tipo com o custo de um andaime usado atualmente. Contudo, se se levar em conta o ganho de rendimento da mãode-obra com o uso dos andaimes propostos, o custo dos sistemas de alvenaria sairão beneficiados. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 58  A pressão no sentido da redução dos preços de execução provocada pela crise que o mercado português atravessa, ajuda a que componentes singulares necessários à correta execução das paredes e que podiam ajudar à sua produtividade não sejam incorporados, potenciando o aparecimento de anomalias;  Apesar de no mercado de construção em Portugal existirem à disposição das empresas construtoras materiais e equipamentos modernos, mais simples e intuitivos capazes de tornar a qualidade da construção mais independente da qualidade da mão-de-obra, aumentando a produtividade, a inércia e o conservadorismo por parte das empresas não tem facilitado a sua proliferação;  Parece evidente que numa perspetiva de curto prazo, a introdução de medidas relativamente simples, ilustradas neste trabalho, conseguem provocar alterações positivas na produtividade de execução e no desempenho das alvenarias;  A robotização da construção não tardará a tornar-se uma solução competitiva e de alta eficácia a nível produtivo, originando produtos de qualidade bastante elevada, como se pode ver através de estudos experimentais que se tem desenvolvido nessa área. Abordam-se por último algumas pistas do que poderiam ser desenvolvimentos e trabalhos futuros neste domínio:  Fazer um estudo quantitativo sobre a produtividade na execução de alvenarias confrontando a execução de um sistema corrente, um sistema inovador e um sistema executado automaticamente, procurando definir rendimentos de execução dos trabalhos nesses cenários;  Aplicar à construção em geral e a este domínio em particular processos de análise avançados dos efeitos da ergonomia e das condições de trabalho na produtividade. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 59 BIBLIOGRAFIA [1] Sousa, H. Construções em alvenaria. Apontamentos FEUP, Porto, 2003. http://paginas.fe.up.pt/~earpe/conteudos/TPPC/Sebenta.pdf 10/02/2014. [2] Nunes, C. Perspectivas para o Sector da Construção. Boletim Mensal de Economia Portuguesa Nº08. Agosto 2011. Página 35. 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Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 63 Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 64 Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 65 ANEXO A.1 NOÇÕES SOBRE A METODOLOGIA ANÁLISE DE VALOR AGREGADO EXTRAÍDAS DOS APONTAMENTOS DA UNIDADE CURRICULAR GESTÃO DE PROJETOS LECIONADA NA FEUP Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 66 Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 67 ANEXO A.1 – NOÇÕES SOBRE A METODOLOGIA ANÁLISE DE VALOR AGREGADO EXTRAÍDAS DOS APONTAMENTOS DA UNIDADE CURRICULAR GESTÃO DE PROJETOS LECIONADA NA FEUP 1. EXEMPLOS PRÁTICOS De modo a consolidar a ideia da Análise de Valor Agregado apresentam-se os seguintes exemplos práticos. Num projeto com um orçamento de 10M€, ao gastar-se 12M€, é natural pensar-se que houve um sobrecusto de 2M€. contudo, numa análise mais atenta, este acontecimento apenas é verdadeiro se se tiver agregado apenas 10M€ de obra, isto é, se porventura não se tiver realizado mais obra do que estava previsto. Tudo será diferente se realizei mais ou menos obra do que estava previsto. Imagine que na construção de um edifício com 10 andares estão alocados 10 meses e um orçamento inicial de 1M€ para cada andar. Se no quinto mês se gastou 5M€ e se tiver construído 5 andares estamos com controlo de custos e prazo correspondente ao planeado. Mas se tivesse gasto 5M€ e tivesse realizado apenas 3 andares nesses mesmos 5 meses, poderia dizer-se que estava com atraso e com um sobrecusto face ao planeado. A AVA insere um novo conceito que é o chamado Valor Agregado. É a partir da comparação entre o previsto e o agregado, e o valor real e o agregado, que se consegue calcular variações em termos de prazo e de custo, tudo na mesma ferramenta e traduzido em dinheiro. Assim o significado de ter um valor agregado de 10M€ e ter um valor previsto de 8M€ é que até aquele dia obtive um eficiência de tempo. Mas supondo que para o valor previsto de 8M€, e agregado de 10M€, gastou-se efetivamente 12M€, então tem-se um sobrecusto. Só que, ao contrário da primeira impressão, o sobrecusto não é de 4M€ acima do orçamento, mas apenas de 2M€, pois agregou-se 10M€. 2. PRINCIPAIS PARÂMETROS DA ANÁLISE DE VALOR AGREGADO Na Figura 1 podem ver-se representados os principais parâmetros da AVA e na Figura 2 apresenta-se a imagem de um quadro com as siglas usadas na metodologia AVA. Para que se compreenda melhor a metodologia AVA considera-se importante conhecer os seus conceitos fundamentais:  Valor Planeado (PV) é o custo orçamentado no inicio do projeto para a realização das tarefas, sendo determinado pela soma do custo de todas as tarefas essenciais para que o projeto seja bem sucedido. Para além do valor monetário também são definidas as datas de conclusão das tarefas. Após a fixação dos valores e das datas, estes apenas podem ser alterados se o projeto sofrer mudanças.  Custo Real (AC) é custo real dos trabalhos realizados, o que efetivamente se gastou. É calculado através do somatório do custo real de todas as atividades realizadas até à data da análise ou data status.  Valor Agregado (EV) é o acumulado dos custos orçamentados para as tarefas realizadas até à data status. Para tarefas totalmente realizadas à data de análise o EV é igual ao PV, para tarefas por iniciar o EV vale 0 e para tarefas começadas mas ainda não acabadas o valor a atribuir é de difícil atribuição, sendo estimado através da experiência dos gestores do projeto. Análise da Produtividade na Execução Associada a Diferentes Sistemas de Alvenaria – Medidas Tendentes à sua Melhoria 74 como uma forma de aumentar a produtividade, podendo nesse caso as associações ajudarem, dando formações de aprendizagem das ferramentas. Falou-se ainda da reestruturação que a indústria da construção está a ser obrigada a fazer, podendo esta reestruturação não tornar o setor melhor, pois as empresas a laborar de forma legal são as que tendem a desaparecer devido à já mencionada, concorrência desleal, mantendo-se no mercado as empresas incumpridoras. Isto, juntamente com a falta de pagamentos por parte das empresas que fecham, tornam cada vez pior o setor da construção, ajudando para a diminuição, ainda que aparentemente, do valor da produtividade.