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Planejamento Urbano: a cristalização dos processos sociais nas linhas das cidades inteligentes

João Bruno Nogueira Campos

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Universidade do Porto Faculdade de Economia Mestrado em Economia e Gestão de Cidades Dissertação Planejamento Urbano: a cristalização dos processos sociais nas linhas das cidades inteligentes João Bruno Nogueira Campos Orientador: Prof. Dr. Luís Miguel Costa Monteiro de Carvalho Porto, 2012 II" " Dedicatória** Dedico este trabalho à minha família e todos que contribuíram para o desenvolvimento dele. III" " * Epígrafe* “Eu sou é eu mesmo, divêrjo de todo mundo. Eu quase que não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”. Guimarães Rosa IV" " Agradecimentos Em primeiro lugar endereço o meu agradecimento ao meu Orientador, Professor Doutor Luis Miguel Costa Monteiro de Carvalho. Muito obrigado pela enorme disponibilidade e apoio incansável e constante na orientação e concepção deste trabalho de dissertação. Agradeço aos meus pais e minhas irmãs pelo apoio incondicional e incentivo de sempre buscar as minhas metas, por mais distantes que elas estivessem e pela confiança que sempre tiveram em mim. Agradeço a Universidade do Porto e a todos os professores do curso de Mestrado em Economia e Gestão de Cidades pelo conhecimento e experiência transmitidos. Aos meus colegas de curso pela receptividade e apoio. Em especial ao Daniel Lopes, Sara Ferreira, David Sá, Pedro Garrido, Cátia Seabra e Sara Silva. Meu forte abraço de gratidão também à família Ferrão, minha “família portuguesa” pela receptividade, cuidado, atenção, que sempre tiveram. Agradeço também pelo companheirismo Davy Bour, Hèlen, Esther e não poderia deixar de mencionar as meninas Camila, Miruna e Cristina. À vocês o meu muito obrigado. E para finalizar um agradecimento mais do que especial pela parceria, companheirismo e respeito ao Fernando Bertoldi. V" " Resumo** " O homem, desde o início de sua história, mantém uma relação próxima e direta com o espaço em que habita. Inicialmente, aglomerados em grupos de 20-30 pessoas se organizavam de forma precária nas funções de caçadores e coletores, extraindo da terra as suas fontes de sobrevivência sem, entretanto, se fixar a ela. Ao desenvolver as técnicas agrícolas, o aumento da produtividade e a criação de um excedente tornaram mais próxima e fixa ao solo, esta relação estabelecida. A partir de então, o homem molda, adapta, destrói e constrói o espaço de acordo com suas necessidades e as demandas do grupo em que está inserido. É nessa relação dialética de produção e reprodução entre as transformações sociais e formação do espaço que o planejamento urbano ganha vida e vai ao longo do tempo se adaptando ás novas realidades do desenvolvimento humano. Neste trabalho analisaremos dois casos de planejamento urbano que se destacam por romperem com o paradigma da linearidade dos estudos urbanos de suas épocas. No primeiro caso analisaremos Brasília, a cidade do futuro, construída para ser a nova capital do Brasil. Surge, sob as mãos do Estado, como um movimento nacional propulsor de sinergia e avanço econômico do país que se libertava das amarras colonialistas e se inseria na economia mundial globalizada na década de 1960. Por outro lado, encabeçados pela iniciativa privada, o PlanIT Valley, pretende responder aos questionamentos globais, através de sua materialização nas formas eficientes da cidade inteligente que se instalará na região norte de Portugal. " VI" " Abstract* The human being from the beginning of its history, maintaining a close and direct relationship with the space it inhabits. Initially, clustered in groups of 20-30 people organized themselves precariously in the roles of hunters and gatherers, extracting land their sources of survival without, however, fix into it. By developing agricultural techniques, increasing productivity and creating a surplus, this established relationship became closer and fixed to the ground. From now on, man shapes, fits, destroys and builds the space according to their needs and demands of the group to which he belongs. It is this dialectical relationship between production and reproduction of social transformation and space changing, that urban planning comes to life and goes over time adapting to newly emerging realities of human development. In this paper we analyze two cases of urban planning that stand out by breaking the paradigm of linearity of urban studies of their times. In the first case we analyze Brasília, the city of the future, built to be the new capital of Brazil. Surge, under the hands of the State, as a national movement of propellant synergy and economic advancement of the country, that freed itself from the shackles of colonialists and was inserted in the globalized world economy in the 1960s. On the other hand, led by the private sector, the PlanIT Valley, aims to respond to global questions, through its materialization in efficient ways that the smart city will settle in northern Portugal. VII" " Nota*Biográfica** João Bruno Nogueira Campos, brasileiro, da Cidade de Ouro Preto, Minas Gerais. Graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Belo Horizonte no ano de 2009. Durante o mestrado em Economia e Gestão de Cidades da Faculdade de Economia da Universidade do Porto desenvolveu atividades laborais na empresa Living Planit, despertando assim o interesse na temática das cidades inteligentes. Em 2011, convidado pelo seu orientador Luis Miguel de Carvalho, escreveram um artigo na mesma temática, intitulado “ Developing the PlanIT Valley: A view on the governance and societal embedding of u-eco city pilots” a ser publicado no International Journal of Knowledge-Based Development Special issue on “Ubiquitous Built Environments” Atualmente trabalha no Governo do Estado de Minas Gerais, na Secretaria de Planejamento, exercendo a função de gestor de contratos na Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves. Uma iniciativa do programa “Choque de Gestão”. VIII" " Sumário " Dedicatória............................................................................................................................II" Epígrafe ................................................................................................................................III" Agradecimentos ...................................................................................................................... IV" Resumo ................................................................................................................................ V" Abstract............................................................................................................................... VI" Nota"Biográfica................................................................................................................... VII" Lista"de"Ilustrações"e"Tabelas................................................................................................X" 1"–"Introdução...............................................................................................................................1" 1.1"‐"Estrutura"Programada.......................................................................................................5" 2"‐"Os"Processos"de"Urbanização"e"seu"Contexto"na"Estrutura"Social...........................................7" 2.1"–"A"gênese"das"cidades"por"uma"ótica"tradicionalista.........................................................8" 2.1.1"A"Cidade"Agrícola"e"sua"Origem,"o"que"vem"primeiro?..............................................12" 2.2"–"A"Segunda"Revolução"Urbana ........................................................................................14" 2.2.1"‐"A"Nova"Revolução. ...................................................................................................15" 2.2.2"–"A"Nova"Ordem"Urbana ............................................................................................18" 2.3"–"A"Cidade"Pós"Industrial"–"A"Terceira"Revolução"Urbana. ...............................................23" 2.3.1"–"A"Modernidade"e"o"Espaço"Urbano.........................................................................23" 2.3.2"–"A"nova"ordem"industrial ..........................................................................................26" 2.3.3"–"Manchester ..............................................................................................................28" 2.4"–"Contemporaneidade ......................................................................................................33" 2.4.1"‐"Os"pensadores,"as"escolas"e"correntes"do"urbanismo"contemporâneo...................33" 3"‐""Apresentação"dos"casos"–"Brasília"e"PlanIt"Valley .................................................................41" 3.1"‐"O"Paralelo"entre"Brasília"e"o"PlanIT"Valley?.....................................................................42" 3.2"–"Brasília,"a"Cidade"do"Futuro............................................................................................44" 3.2.1"‐"A"Conjuntura"Nacional"e"o"Surgimento"da"Nova"Capital..........................................45" 3.2.2"–"O"Plano"da"Cidade"do"Futuro...................................................................................48" 3.2.3"–"O"Ambiente"Social"da"Cidade"do"Futuro..................................................................55" 3.2.4"‐"Brasília"50"anos"depois"da"construção .....................................................................60" 3.3."PlanIT"Valley"–"A"Cidade"Inteligente.................................................................................61" 3.3.1"‐"A"Conjuntura"Mundial"e"o"Surgimento"da"Living"PlanIT...........................................62" IX" " 3.3.2."O"Plano"da"Cidade"Inteligente...........................................................................................67" 3.3.3"‐"Governabilidade","Governança"e""o"Contexto"Social ................................................71" 3.3.4"‐"Expectativas"da"Living"PlanIT....................................................................................77" 3.4"–"Considerações"Finais ......................................................................................................78" 4"–"Conclusão ..............................................................................................................................79" 5"–"Bibliografia ............................................................................................................................83" " " " " " " " " " " " " " " " " " " " " " " 6" " situando desta forma a conjuntura e o cenário prévios ao surgimento destes empreendimentos; logo serão apresentados elementos centrais da estrutura e dos diferenciais das propostas urbanísticas ressaltando o que fazem destas, cidades diferenciadas; em seguida apresentaremos os contextos sociais e reflexos causados na sociedade diante da implementação destas iniciativas. No primeiro estudo de caso apresentaremos a cidade de Brasília, construída ao longo do final da década de 1950, embebida numa conjuntura econômica marcada pela industrialização tardia, assim como os demais países latinos americanos. O Plano Piloto construído para abrigar a nova capital do Brasil, uma obra de planejamento do urbanista Lúcio Costa e desenvolvimento arquitetônico de Oscar Niemeyer, surge na tentativa de consolidação do mercado brasileiro como um ponto de sinergia da integração das regiões produtoras, irregularmente distribuídas sob o território brasileiro. Sua inauguração se deu sob o governo do presidente Juscelino Kubitscheck em 21 de abril de 1960, período marcado pela grande crise ideológica internacional do modo de produção capitalista. Nosso estudo se baseou numa extensa revisão bibliográfica que vai desde trabalhos acadêmicos, artigos científicos de jornais e revista à consulta ao projeto de Lúcio Costa enviado à candidatura ao Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil. Do outro lado do mundo vem o nosso segundo estudo de caso. O PlanIT Valley surge na região norte de Portugal na tentativa de resposta às novas questões do século XXI. Em associação com a revolução tecnológica deste século, a preocupação ambiental incorpora uma roupagem que integra o caráter econômico e social. O desafio da atualidade é não somente crescer, mas desenvolver de forma sustentável. Nasce então, no ano de 2006, pouco mais de meio século depois da construção de Brasília, a Living PlanIT, em um período de emergência da nova crise do capital internacional. Utilizou-se da possibilidade de geração de aumento da competitividade e de desenvolvimento regional e criação de postos de trabalho para se inserir num país que foi duramente atingido por esta recessão, atribuindo, assim, aos desafios da contemporaneidade a oportunidade de inserção de mercado e de criação de soluções inovadoras para o planejamento urbano. 7" " Nossa análise é baseada em uma grande variedade de dados secundários sobre o piloto (relatórios, press-releases, cobertura da mídia, fóruns de discussão na Web, comunicações pessoais), coletados ao longo de 2010 e início de 2011, bem como no trabalho etnográfico feito pelo autor, que trabalhou internamente na Living PlanIT, a empresa responsável pela criação e gestão do piloto. Para finalizarmos apresentaremos a conclusão do pretendido paralelo entre os estudos de casos do planejamento urbano das duas chamadas “cidade do futuro” e “cidade inteligente”, reconhecendo a importância do período e processos sociais em que estão situadas, amparados pelo marco teórico das correntes do pensamento urbano apresentados no primeiro capítulo. Poderemos, então, dessa maneira, inferir de forma analítica e crítica sobre as formas de desenvolvimento urbano e preocupações necessárias durante o planejamento da geração vindoura das cidades “inteligentes” ou cidades “do futuro”. “ O século 19 foi o século dos impérios, o século 20 foi um século do Estado Nação o século 21 será o século das cidades.” Wellington E. Webb Ex-prefeito de Denver, Colorado , 2010 2*A*Os*Processos*de*Urbanização*e*seu*Contexto*na*Estrutura* Social** * Space is not a “reflection of society” it is society... Therefore, spatial forms, at least on our planet, will be produced, as all other objects are, by human action. They will express and perform the interests of the dominant class according to a given mode of production and a specific mode of development. They will express and implement the power relationship of the state in a historically defined society. They will be realized and shaped by the process of gender domination and by state-enforced family life. At the same time, spatial forms will be earmarked by the resistance from exploited classes, from oppressed subjects, and from dominated women. And the work of a such contradictory historical process on the space will be accomplished on an already inherited spatial form, the product of former history and the support of new interests, projects, protests and dreams. Finally, from time to time, 8" " social movements will arise to challenge the meaning of spatial structure and therefore attempt new functions and new forms. (Castells,1983) Nesta parte do trabalho, apresentaremos o referencial teórico que embasa e fundamenta as críticas e discussões ao longo da apresentação dos estudos de casos aqui propostos. Acompanhando de forma linear a cronologia, faremos uma viagem ao longo da história dos processos de urbanização buscando a cidade desde sua gênese e, de forma concisa, acompanharemos seu desenvolvimento a partir de uma vertente políticoeconômica até os dias atuais, retratando a importância destes processos na definição e estruturação do espaço urbano. 2.1 – A gênese das cidades por uma ótica tradicionalista. " As abordagens mais clássicas sobre a origem das cidades e a sua consequente (e primeira) revolução urbana se baseiam em descobertas recentes e reinterpretações críticas, que normalmente se fundamentam numa sequência evolutiva que se inicia com uma concentração em pequena escala de uma sociedade humana de 25 a 30 pessoas de caçadores e coletores primários, organizada por funções que se distinguem em função de gênero; desiguais, mas igualmente importantes. Os homens eram responsáveis pela pesca, caça e defesa do grupo, enquanto as mulheres eram primariamente responsáveis pela coleta de alimentos, preparação do espaço ocupado e os afazeres do cotidiano do grupo. Articulavam-se sem a definição de uma base geográfica, quase nômades, o que permitia uma grande mobilidade em função do clima e da caça, podendo, de vez em quando, retornar aos lugares ocupados anteriormente (Soja, 2000). A partir de uma visão científica, pautada em descobertas arqueológicas, voltaremos no tempo por um período longo, de aproximadamente 40 mil anos e nos deslocaremos ao sudeste asiático, no vale do Nilo e nas imediações do deserto do Saara. Evidências datadas desta época nos fazem inferir que caçadores e coletores intensificaram o processo de armazenamento de grãos, cereais e animais selvagens 9" " muito provavelmente em resposta à mudança das condições climáticas. Nestas circunstâncias, a caça e a coleta se tornaram mais afixadas ao solo, criando, dessa forma, o que podemos chamar de os primeiros acampamentos permanentes. Esta fixação permitiu, entre outras coisas, a aceleração do processo de domesticação de plantas e animais, o que levaria a definição da sociedade humana fundamentada na economia agrícola, conhecida como revolução agrícola. A transição da caça para a lavoura e a formação das primeiras sociedades agrárias é tipicamente vista como o desenvolvimento e a consequente multiplicação de outros vilarejos, que passam a se articular e conectar através da negociação de alimentos, ideias, instrumentos de pedras e outros bens. Estas novas sociedades “tribais” foram se desenvolvendo e se tornando mais complexas, incorporando a ela cultos religiosos, produções tecnológicas e novos arranjos sociais, baseados não mais só exclusivamente por gênero, mas por idade, experiência, aptidão e conhecimentos militares. Os modos de redistribuição dessa época são os esboços e os fundamentos dos arranjos políticos que orientam a estrutura política dos tempos atuais. Estes vilarejos agrícolas não somente possibilitaram um crescimento da concentração populacional das regiões, obrigando assim a criação de um excedente de alimentos, como também alavancou um importante processo de fomentação da criação de tecnologias inovadoras, como, por exemplo, o desenvolvimento do uso de técnicas de irrigação, possível pelo posicionamento estratégico da região de Suméria, entre os rios Tigres e Eufrates (Soja, 2000). Estes processos, entretanto, não são ainda os definidores das instituições “cidade-estado”, ou divisão social do trabalho e do que chamamos “civilização”. A origem das cidades é normalmente vista como decorrência de uma integração de fatores e suas causalidades: as demandas administrativas da grande escala da irrigação e a tecnologia do controle de fluxo; as novas oportunidades econômicas decorrentes dos negócios em longas distâncias; o desenvolvimento de instituições de controle e poder e da burocracia administrativa; a expansão religiosa e as atividades e cerimônias capazes de manter e reproduzir os princípios sociais; o aumento da necessidade de defesa contra as intempéries da natureza e das invasões por outros grupos e a pressão demográfica trazida tanto pelo aumento do quantitativo populacional quanto pelo aumento da 10" " degradação da natureza. Independente da causa, o resultado foi a criação virtual simultânea de duas formas espaciais humanas: a cidade e o estado; bem como a noção de civilização, advinda do Latim civitas, cidade. Outra vertente histórica ainda aponta outro começo da história das cidades, desta vez partindo-se do desenvolvimento de um estado monárquico e suas extensões imperiais ao invés da cidade e o espaço urbano, como se pode observar em alguns locais na região da Mesopotâmia como Eridu, Uruk e Ur, ou mais claramente na região oeste em Roma e Atenas onde as cidades-estado e as cidades-império são consideradas a forma mais avançada da Europa. Paralelamente, histórias de cidade-estado também aparecem no Egito, na China, no sudeste asiático, nos planaltos mexicanos e mesoamericanos, nos Andes, na costa do Peru, na Etiópia, além de outras nas mais remotas áreas da América do Norte e Eurásia. Com o desenrolar da história, percebe-se que as cidades, devido à sua especificidade espacial e seu sinequismo1 da vida urbana, apresentam funções de estruturação e coesão sociais muito importantes, diminuindo a ideia da importância dos monumentos arquitetônicos e clusters urbanos que existiam Soja(2000). No texto escrito por Charles Keith Maisels, o autor foca suas análises na origem das cidades do Sudoeste da Ásia e na emergência da civilização e suas especificidades espaciais impulsionadas pelo processo de sinequismo, conceito este que é incorporado no centro das análises do autor na explicação dos processos de origem das cidades, civilização e urbanismo, afirmando que este efeito acontece quase que exclusivamente no momento inicial da formação da cidade-estado. “By urban, I mean a population sufficiently numerous and nucleated that the social relations of production mutate to express the principle of synecism itself (which is interdependence arising from dense proximity), the emerge expression of which is the crystallization of government. In turn, government manifests itself as the state through administration based on writing, plus """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 1"Este termo criado e difundido por Edward Soja, busca suas raízes na palavra grega synoikismos: a condição de viver junto em uma casa; somado à palavra oikos: organização e administração de um espaço comum/habitat compartilhado. Em sua definição mais direta: “as interdependências econômicas e ecológicas e as sinergias criativas, bem como as destrutivas, que surgem do agrupamento intencionado e da co-habitação coletiva das pessoas no espaço, em um habitat.” (Soja, 2000)" 11" " monumental building representing the professionalization of ideological, economic, and armed force. It is not coincidental, then that the first form of the city, of for that matter the state, takes the form of the city-state.” Maisels (1993, p.155) Maisels observa que o urbanismo, como sinequismo, funciona como “relações segregadoras de produção, adequadas a uma população densamente interdependente”, sugerindo ainda que a cidade-estado, pelo menos no caso da Mesopotâmia, seria a melhor definição do que Marx descreve como modelo de produção asiático. Segundo Maisels, o modo de produção da cidade-estado da Mesopotâmia é integrado por uma “ideologia de ordem, hegemonia e dependência” da chefia (cacicado) para com sua “ideologia de linhagens e descendência matriarcal” (bem como outros exemplos asiáticos de modo de produção), “estado-vilarejo” alinhados por uma ideologia de “linhagem por descendência patriarcal”. Maisels, na continuação do pensamento de Marx, ainda complementa que nos modelos asiáticos ou de estado-vilarejo, as cidades são “excepcionais” e “pouco produtivas”. Somente a partir da cidade-estado da Suméria se pode observar de fato um desenvolvimento da sociedade urbana estratificada por relações sociais de produção. Assim como a maioria dos autores convencionais, Maisels também define a origem das cidades como um processo de concentrações agrícolas como caminho da formação de uma cidade cristalizada, atribuindo à especificidade espacial do urbanismo um poderoso impulso para o desenvolvimento, capaz de gerar/manter mudanças inovadoras na sociedade humana e nos modos de produção. Trata-se de um processo simultâneo de acontecimentos sociais, históricos e de dinâmica espacial que funcionam como sinergia da aglomeração urbana e dos relativos processos de produção e reprodução do espaço da cidade geograficamente localizado. Only agriculture can sustain a relatively high population density over a wide area thus, at regional level, produce high population number. Under those circumstances it does not take much to crystalize population around a central place, administrative, cultic, military, or commercial in the first instance, and tending over time to incorporate all those functions in 12" " a new synthesis, so developing a further dynamic. A city proposes, then, both a durable nucleation and a fairly stable relationship to hinterland, which, depending on circumstances, need to be very large. (Maisel 1993, p.302) . 2.1.1*A*Cidade*Agrícola*e*sua*Origem,*o*que*vem*primeiro?* O autor Edward Soja em seu livro Postmetropolis:"critical studies of cities and regions, se apropriando dos conceitos escritos por Charles K. Maisels em The Emergence of Civilization e rompendo, entretanto, com a premissa histórica e sequencial, parte de uma leitura que repensa a sequência evocada no texto de Maisels, sugerindo, a partir de dados históricos, a origem das cidades antes da criação dos vilarejos agrícolas. A história vem, segundo ele, demonstrando outras perspectivas para este processo, que levantam no mínimo questionamentos sobre a real origem dos aglomerados. Escavações realizadas no Plateau de Jericho, na Palestina, à beira do rio Jordão e abaixo do nível do mar, apresentam algumas descobertas, datadas de 8350 A.C – possivelmente sinalizando, portanto, o primeiro aglomerado humano – põem em cheque a clássica teoria sobre a origem das cidades. Durante o período de transição entre os caçadores e coletores para vilarejos agrários, Jericho era o maior centro de inovação da cultura do povo Natufian, ainda no período Epipaleolítico, como denominado pelos arqueólogos. Esta civilização estendeu-se ao longo da costa do Mediterrâneo e desenvolveu as formas mais avançadas de caça, pesca e coleta em um território fixo e delimitado. Acredita-se que eles sejam o primeiro tipo de civilização humana a se basear fixamente em um território. A partir de Jericho, que foi ocupado continuamente por diferentes povos por aproximadamente 4.000 anos, desenvolveu-se uma rede de cidades interconectadas na região, sendo algumas delas até maiores do que a própria Jericho, apresentando como característica notória a transição da caça e colheita intensiva para o cultivo organizado e a pecuária. Apesar das evidências de cultivo de trigo, cevada e lentilha encontrados nas 13" " camadas mais profundas da escavação, os primeiros ocupantes eram primordialmente caçadores e catadores e não agricultores, o que se faz concluir que a agricultura provavelmente desenvolveu suas primeiras fazes avançadas nos assentamentos urbanos e a partir deles. Mesmo antes do desenvolvimento dos processo e técnicas agrícolas, mercadorias como pedras, animais vivos e produtos derivados destes eram intercambiados por sementes silvestres (moídas e possivelmente processada de alguma forma dentro dos assentamentos.) Este antigo sistema de comércio, de mesma forma que a agricultura, foi desenvolvido por caçadores, catadores, pastores e pescadores muito antes da formatação de algo que poderia ser chamado de aldeia agrária. (Kathellen Kenyon ,1960 in Soja,2000, p. 30). Desta maneira, Soja (2000) aponta de forma provocativa, baseado em evidências, que “não foi necessário um excedente agrícola para a criação das cidades, mas as cidades é que foram necessárias para a criação do excedente agrícola”. Tal posicionamento inverte a lógica tradicionalmente concebida pela literatura dos estudos urbanos e, desta forma, acaba “Colocando as Cidades Primeiro”, como intitulado o primeiro capítulo do seu livro Jane Jacobs, um dos principais nomes no campos dos estudos urbanos na década de 1960, também antecipa a origem das cidades de forma muito rigorosa, vinculando a formação das aldeias agrárias às primeiras cidades, com o propósito de reorganizar sua própria versão da cidade na história. Baseado em descobertas arqueológicas de James Mellaart(1967), Soja (2000) apresenta peculiaridades nas formas urbanas de Çatal Hu!yu!k do período de 7000 e 5000 A.C, as quais, todavia, não nos estenderemos neste trabalho. O espaço urbano, desde sua origem, foi definido e desenhado a partir de expressão autoconsciente da cultura local e territorial, onde “o real e o imaginário se entre mesclam a fim de compreender, definir e cerimonializar uma escala muito maior de relações sociais e comunitárias, o começo do “urban as way of life”, Soja apud Iain Chamber. Outras questões, sobre religiosidade e poder, são levantadas neste debate, conforme descrito no trecho do artigo da Scientific American: 14" " I would maintain, perhaps wrongly, that the Neolithic religion of Çatal Hüyük… was created by women. In contrast to nearly all other earlier and later “fertility cults of the Near East, it significantly lacks the elements of sexual vulgarity and eroticism that is almost automatically associated with fertility and probably the male’s contribution. If the Çatal Hüyük religion is a creation of women, on the rare opportunity of exploring Neolithic woman’s mind by studying the symbolism she used in her effort to comprehend and influence the mysteries of life and death. Em síntese, podemos concluir neste subcapítulo que o espaço sempre exerceu grande influência na forma como as relações sociais constroem-se, da mesma maneira em que essas relações são fundamentais para a definição do espaço. Apesar das discussões apresentadas a respeito da origem das cidades e de não haver um consenso conceitual sobre a real origem das cidades, a discussão é na práxis a menos importante, cabendo a ela uma posição meramente teórica. O que nos vale, entretanto, são as experiências dela extraídas para a definição do espaço urbano, a evolução destes princípios e suas aplicações na atualidade. Ainda, vale ressaltar que, desde o início da história das cidades, estes espaços foram frequentemente percebidos como um centro de mudança e transformação social, onde o urbano está em constante mudança, traçando e definindo suas formas na tentativa de se adaptar e responder aos problemas daquela época. 2.2 – A Segunda Revolução Urbana As teorias clássicas do urbanismo atribuem ao desenvolvimento da escrita o título de marco da, que consideram a única, revolução urbana, que se cristalizou nas novas cidades da Suméria entre os anos de 5000 e 2000 a.C. Apesar desse fato ter realmente grande relevância no desenvolvimento não só da cidade – por conseguir registrar a história escrita – mas, também, do resto da história da humanidade, considerá-lo como fator exclusivo para o desenvolvimento, leva a segundo plano alguns acontecimentos igualmente importantes e revolucionários que aconteceram nas 15" " terras altas que rodeavam o Crescente Fértil. Deste modo, consideramos mais oportuno apresentar o que acontecia na Suméria há 7000 anos, com o início do que trataremos da Segunda Revolução Urbana. 2.2.1*A*A*Nova*Revolução.** " Ainda que as teorias clássicas considerem as revoluções urbanas como uma única revolução, aqui consideramos a que aconteceu por volta de 7000 anos atrás como a segunda, a qual se possibilitou pelo deslocamento da produção agrícola e dos assentamentos humanos de alta densidade até os vales férteis das margens dos rios, como ocorrido, primeiramente, na Mesopotâmia e, logo depois, no Egito, Pérsia, Índia, China, demais partes da Eurásia e África e, mais tarde, no mundo novo. Esta transição, também reconhecida como o surgimento das civilizações hidráulicas, está diretamente relacionada com a origem das cidades-estado independentes e com a formação de um emaranhado de assentamentos interconectados (sob a forma geométrica de T) que se articulavam para melhor estabelecer a lógica de distribuição de grande alcance do comércio, tecnologia, cultura, conhecimento e poder militar governamental. Estas dinâmicas propiciaram uma notável mudança e evolução em um tempo relativamente curto e em todas as esferas da sociedade. Como exemplo, a invenção da escrita possibilitou a criação da administração e da economia geopolítica urbana. Localizada em uma região estratégica do Golfo Pérsico, no vale fértil entre os rios Tigre e Eufrates, a Suméria apresentava, além das condições evidentes pelo próprio nome do vale, outras conjunturas apropriadas para tornar-se de fato a primeira cidade conhecida. O desenvolvimento de tecnologias e a estruturação do trabalho de irrigação do aluvião fértil nas áridas terras baixas, somados a capacidade de articulação social da vultosa população, formam o grande trunfo da Suméria em relação aos demais assentamentos daquela época. Essas condições foram fundamentais para desenvolver uma forma de agricultura em escala que alimentasse toda a população e criasse um excedente comercializado e distribuído na região. 22" " os depósitos de grãos, se desenvolvia um mercado e as consequentes vantagens políticas e econômicas relacionadas, que contribuíam ainda mais para a formação das classes e a distribuição desigual do poder. Estas áreas foram provavelmente ocupadas pelos comerciantes abastados e representantes do poder estatal. Enquanto que nas áreas mais afastadas, a beira das muralhas, residiam as classes menos favorecidas economicamente, como camponeses, pescadores e artesãos. Esta formação concêntrica foi reproduzida espacialmente pelas quatro avenidas radiais que conectavam as entradas ao centro da cidade. Evidencias demonstram que, dentro da área da cidade, formavam-se áreas especializadas, como “mini clusters” de atividades variadas, como distrito financeiro e mercantil, manufatura, cerâmica e artesanato e até mesmo cabeleireiros e lavanderias. Numa perspectiva regional, era possível perceber a formação, concomitante a do surgimento da cidade, de subúrbios, tanto em forma de vilarejos periféricas como de edificações mais dispersas num raio de 7 km das muralhas de Ur, que eram denominados, em linguagem suméria, “labirintos”, e que desenvolviam relações comerciais e políticas com a “metrópole”. (Soja, 2000) Com o passar do tempo o crescimento urbano continuou ao redor do centro da cidade, intensificando a centralidade não só dentro como também fora das muralhas, que não mais representariam os limites físicos das cidades. A expansão orgânica ou não-planificada se tornava cada vez mais rara a medida que novas formas geométricas eram agregadas ao círculo dividido em quatro quadrantes. Sem renegarem a cosmologia associada ao espaço urbano, as áreas mais seculares adquiriram novo sentido na vida cotidiana urbana, na produção e reprodução social do espaço urbano. É possível concluir que tanto as formas quanto o sistema administrativo dos centros urbanos demonstraram grandes avanços. A produção e reprodução da vida social se tornavam cada vez mais ordenadas e reguladas pelas instituições administrativas, bem como pela “instituição espacial” da cidade-estado, através do desenvolvimento de “tecnologias disciplinárias” que controlavam a trama local do espaço, o conhecimento e o poder. Antes de passarmos à Terceira Revolução Urbana, vale salientar que o modelo de cidade-estado sumério se difundiu globalmente tanto nas formas de governança 23" " territorial, como nos modos de produção. Novas formas foram inventadas, atendendo de forma criativa e inteligente às especificidades espaciais e culturais, não apresentando, entretanto, alterações substanciais das estruturas mesopotâmicas. É importante frisarmos, também, que até o sec. XIV, a grande maioria da polução mundial não habitava os centros urbanos, mesmo que vivessem sobre influência das cidades. 2.3 – A Cidade Pós Industrial – A Terceira Revolução Urbana. Daremos agora um grande passo na história e na geografia, chegando até o século XVI, onde encontramos arcabouços importantes na evolução do processo da produção (e reprodução) social do espaço urbano e o consequente desenvolvimento do capitalismo, que desencadeariam os elementos necessários para o surgimento da terceira revolução urbana. Com berço na Europa pós-feudalista, caracterizada por suas de metrópoles coloniais e cidades mercantis capitalistas, a especificidade espacial do urbanismo passa a ganhar uma roupagem mais racional e científica, amparada pela corrente do Renascimento europeu e do pensamento iluminista que começam a florescer juntamente com o nascimento da consciência coletiva da modernidade. Posto isso, percorreremos rapidamente, neste capítulo, sobre os discursos da modernidade e modernismo capitalista, que embasam esta virada, e chegaremos em Manchester onde se desenvolveu de forma pragmática tanto a metrópole capitalista industrial modernas dessa terceira revolução, como o campo do estudos urbanos. 2.3.1*–*A*Modernidade*e*o*Espaço*Urbano* " Iniciaremos aqui com a definição do dicionário Porto Editora(2011) da palavra moderno: 24" " adj. Que pertence ao tempo presente ou a uma época relativamente recente; hodierno, atual. S.m. Aquilo que é moderno ou de acordo com o gosto moderno. O léxico “moderno” aplicado às ciências sociais , também nesta linha de raciocínio, se refere a uma consciência crítica do que é contemporâneo, de exploração do agora como fonte de conhecimento para que se possa mudar o mundo (para melhor) e não continuar reforçando e reproduzindo fielmente o status quo. Segundo Marshall Berman, a consciência prática da modernidade é produzida e reproduzida pelos indivíduos e pelos movimentos sociais através da interação específica entre modernização (os processos de mudança e desenvolvimento social mais concretos e objetivos) e o modernismo (as diversas respostas ideológicas, culturais e reflexivas a condição contemporânea, aos processos de modernização em curso e, especialmente, a questão generativa intrínseca espaço-temporal daquilo que deve ser feito aqui e agora). Diferentemente da quebra brusca de uma revolução, a modernidade não é algo criado de uma vez e para sempre, mas sim vai se alterando com o passar do tempo e se desenvolvendo espacialmente de forma díspar. Mudanças essas que acontecem com mais intensidade durante os períodos de agitações e crises sociais. Em relação à metrópole moderna Ian Chambers cita Marx no que diz: “o lugar das ruínas do regimes prévios em qual histórias, memórias e traços diversos se entrelaçam e recombinam continuamente na construção de novos horizontes”. Foi no renascimento europeu que as criticas coletiva e da modernidade surgiram de forma sistematizada. Estes movimentos possibilitaram uma avaliação mais racional e pragmática a respeito do desenvolvimento da sociedade, utilizando-se do passado, notadamente as civilizações e cidades-estado européias de Atenas clássica e Roma, para produzirem o presente e pensarem o futuro de forma planejada. De acordo com Soja(2000), a fé cristã foi um pilar fundamental que sustentava o movimento renascentista. Apoiado na história bíblica, a teologia com base urbana faz do Renascimento a primeira expressão autenticamente européia de arte, filosofia e ciência. Que se contrapunha à formação do outro “mundo” não europeu, atrasado nãocristão e semi-bárbaro. Esta conjuntara fundamenta a emergente consciência da 25" " modernidade européia e o conseqüente impacto na produção social do espaço urbano e da academia ocidental durante os últimos quinhentos anos. Pela primeira vez na história, o conhecimento se funda na ciência epistemologia e filosofia. O Iluminismo surge como uma reação à fé teocrática do classicismo renascentista. Baseada na razão, esta corrente utilizava-se da práxis, outra palavra de origem grega que se refere à transformação do conhecimento e uma ação sócio-espacial progressista e benéfica, como pilar de desenvolvimento do discurso da sociedade moderna. Que repercutiu-se na forma de governo e organização da sociedade urbana. Esta forma de desenvolvimento social ocorreu de forma não uniforme dentro do território europeu, expandindo-se de forma regionalizada e ao mesmo tempo exportada às colônias das metrópoles mercantilistas, criando dessa forma, como aponta Soja “o primeiro esboço de um sistema mundial conscientemente moderno, modernista e modernizador”. Conforme descrito por Eric Hobsbawn (1998), o curso da modernidade que já transitava sobe a guia de uma governabilidade territorial definida pelos princípios de Estado-nação, definidos em 1648 pela Paz de Westfalia, foi ainda mais radicalmente estruturado durante o período chamado da Era da Revolução, compreendido entre os anos de 1776 à 1848. De forma inovadora a Revolução Francesa de 1789 pode ser considerada a mais expressiva revolução verdadeiramente moderna, marcando uma nova idade moderna da democracia liberal expressa pelo direito do homem e pelos três emblemáticos discursos dessa revolução: liberdade, igualdade e fraternidade. Esta nova consciência social que impactou, em grande mediada, o ordenamento das cidades, do espaço urbano, da noção de cidadania inspirados principalmente nas palavras e ideais de Jean-Jaques Rousseau, não somente alterou radicalmente as relações sociais e de poder por meio de uma maior democracia urbana daquela época, como definiu o começo de uma nova fase na geo-história do espaço urbano. O que anteriormente se constituía uma associação fluida de cidades estados e suas regiões de tributação que configuravam espacialmente a figura de um Mosaico Imperial, se transformou em um estabelecimento formal do Estado territorial com limites nacionais, concentrado para apagar as fronteiras regionais e identidades culturais 26" " que as cidade-estado haviam abrigado através de seus poderes homegeinizadores e dos mercados em expansão.( Soja,2000) Assim como a “adesão” aos projetos da modernidade, a crise ideológica da modernidade se deu de forma heterogênea dentro do território europeu e global se arrastando até aproximadamente 1850. Neste período a Terceira Revolução Urbana já se apresentava de forma bem desenvolvida em algumas regiões da Europa impulsionada pela nova dinâmica econômica dada pela Revolução Industrial, iniciada a pouco mais de um século distante dos centros urbanos de poder. Dessa forma o processo de desconstrução e reconstrução da modernidade se concretiza na cristalização de um capitalismo industrial urbano e o crescente poder do Estado-nação, redefinindo e modificando de forma radical os centro da teoria política, filosófica e da práxis sócio espacial. (Hobsbawn, 1998) 2.3.2*–*A*nova*ordem*industrial** " É diante desta conjuntura espacial e territorial de organização e reorganização das estruturas políticas administrativas cristalizadas ao longo deste longo século XIX, que encontramos as bases da Terceira Revolução Urbana. Devido a razões estruturais não é nos centros das principais cidades onde acontecem os primeiros casos de produção industrial, mas sim nas periferias, onde o conjunto de condições como as infraestruturas básicas como água e energia eram garantidas pelo Estado e a mão de obra eram consideravelmente mais baratos, vale ressaltar também que a falta de articulação da classe trabalhadora da periferia , serviram como impulso a localização dos parques industriais fora do centro. Diferentemente da adesão dos projetos da modernidade, como referido anteriormente, a Terceira Revolução Urbana se alastrou numa velocidade jamais vista anteriormente. O processo de industrialização nas cidades aconteceu numa escala tão grande que este movimento definiu e caracterizou a forma urbana, que o capitalismo industrial da modernidade se apropriou. Este movimento se explica, em grande medida, 27" " pelo surgimento de duas classes sociais de extrema importância neste processo: o proletariado e a burguesia, ambos tão definitiva e presunçosamente urbanos como o capitalismo industrial urbano. Este processo movimentou um fluxo das zonas rurais para os centros urbanos de tamanho considerável, como por exemplo, podemos ver no caso da Grã Bretanha onde a população passa de 80% rural no ano de 1750 à 80% urbana no ano de 1900.(Soja, 2000) Esta alteração estrutural não representa exclusivamente uma questão de demografia (que é também de grande importância), mas uma alteração na ordem urbana, na organização econômica, política e social da cidade e na representatividade dos centros urbanos. Pela primeira vez na história o excedentes tanto de produtivo como social possibilitado pelo processo de aglomeração acontecia e era coordenado e controlado pela e dentro da estrutura urbana. Representa também uma reestruturação de adaptação espacial das cidades para receberem e comportarem todo o afluxo de milhares de novos cidadãos e para as infraestruturas de produção industrial. Além disso, se fez necessário também uma reestruturação do aparato governamental afim de possibilitar a gerencia e manutenção da economia espacial emergente e reproduzir as relações sociais e espaciais do capitalismo às escalas estatal global, nacional, regional e local. De forma conclusiva Soja aponta a importância destas mudanças na estruturação do que aqui chamamos de a Terceira Revolução Urbana: O longo século XIX pode ser analisado não somente através da interação entre a urbanização e a industrialização, mas também através da extraordinária ascendência e a atribuição de poderes, em uma escala nova, dentro da hierarquia das regiões nodais, compostas de múltiplas capas, que deu forma a espacialidade da vida social, através geração de uma identidade e as “cidadanias” individual e coletiva, construída socialmente localizada entre a cidade-estado e o império mosaico. (Soja, 200; Tradução nossa.) 28" " * 2.3.3*–*Manchester " " "Nesta parte do trabalho apresentaremos de forma concisa a cidade de Manchester, um exemplo pragmático e concreto da consolidação da Terceira Revolução Urbana mostrada neste capítulo. Localizado ao sul de Lancashire, a que até meados de 1750 era uma cidadezinha com uma pequena população, se tornou a primeira cidade e o primeiro espaço urbano de importância socialmente produzido. Manchester no período da Terceira Revolução Urbana se tornou a cidade mais densamente povoada da Inglaterra, depois de sua capital. Isto só foi possível devido a um conjunto de fatores que se convergiram numa localização propícia, constituindo as condições adequadas para esta transformação social tão significativa. Assim como Ur esta para a Segunda Revolução Urbana, Manchester está para Terceira. Nestas mesmas condições, Manchester também se propicia de uma localização geográfica estratégica, entre a intercepção de uma rede de aldeias, vilarejos e fazendas produtoras (caracteristicamente rural ainda que localizadas em territórios urbanos) de tecelagem de algodão, e o porto de Liverpool, que se tronou um dos mais importantes da Europa pela relevante volume de comercialização de escravos e se tornando a principal porta para o novo mundo na época de comercio com a América do Norte, de onde se importava o algodão cru. Assim, Manchester se caracterizava como um importante centro de intercâmbio que teve sua visibilidade ainda mais aumentada depois da criação de estruturas que conectavam a cidade ao porto de Liverpool como o canal construído no ano de 1760 e mais tarde, em 1830, uma linha férrea. De forma descritiva, Edward Soja nos apresenta o panorama da transformação da cidade naquela época: A historia desta notável transformação é bastante complexa, mas pode se localizar ao redor de um conjunto de novos processo de urbanização que ajudam a descrever a Terceira Revolução Urbana. Primeiramente, houve na cidade a introdução do sistema de produção industrial. Em 1830 já existiam cerca de 100 fábricas têxteis à vapor em Manchester, localizados principalmente ao longo dos rios Irwell e Irk, cuja confluência se localizava no centro da cidade. Embora a maioria das fábricas empregava cerca de 100 trabalhadores, em 29" " alguns casos chegou a 1.000. Esta inclusão da produção industrial na malha urbana reorganizou radicalmente o espaço. (...) O que estava acontecendo não era apenas o começo da suburbanização da "classe média", que Fishman (1987) chama a criação das "utopias burgueses" -, mas também o início de um grande inversão de prestígio da localização concêntrica zoneamento do espaço urbano. (Soja, 200, tradução nossa) A forma desestruturada que se dava a organização de poder em Manchester tem também um peso importante para a consolidação deste processo. As aristocracias conservadoras e possuidoras de terra viviam fundamentalmente longe do centro da cidade, nas zonas rurais. Somente um pequeno quartel militar representava o Estado nacional. Dessa maneira, diante de pouca ou quase nenhuma regulação, a nova burguesia não encontrou grandes resistências em estabelecer controle através da autonomia econômica. Com as nova fábricas próximas, ainda que não agrupadas ao redor do centro da cidade, a densa cidade do interior se transformou no lugar da classe trabalhadora. Na mesma região passaram-se a concentrar ainda mais os estabelecimentos comerciais, que mais tarde receberam o nome de Central Busines District, e ampliou-se o mercado que se transformou no principal da cidade. Podemos perceber, ainda em consequência da concentração propiciada pela implantação das indústrias, a formação de um cinturão de bairros residenciais dos trabalhadores, que se entendia a quilômetros do centro da cidade. Este fenômeno desencadeou, pela própria natureza do desempenho do capitalismo urbano-industrial, a formação do que pode ser chamado de bairros urbanos pobres e a conseqüente pauperização das imediações. Esta nova estrutura possibilitou uma condição extremamente importante para a perpetuação deste modelo capitalista industrial, o nascimento de uma subclasse de extrema miséria e pobreza e um excedente de mão de obra que eram utilizadas tanto simbólica como materialmente para ameaçar e manipular as escolhas e comportamentos da classe trabalhadora, de forma a não possibilitar qualquer questionamento às relações sociais estabelecidas, deixando-os não só vinculados como completamente dependentes e amarrados à este processo de produção que se instaurava. Soja ainda completa: (...) o objetivo era não somente criar uma reserva de trabalhadores, em outra palavras, de desempregados, de sem terras, de destituídos, de todos que não teriam outra opção a não ser 30" " se adentrar à cidade, e especialmente ao centro da cidade, para sobreviver. Em nenhuma sociedade urbana anterior, inclusive aquelas baseadas na escravidão, houve uma população semelhantemente tão numerosa e ao mesmo tempo necessitada. (2000,p. 97) São estes processos que explicam porque Manchester e outras importantes cidades britânicas foram os centros urbanos mais densamente povoados da história e experimentaram as piores condições de vida urbana que se experimentou até o momento3. As configurações geo-espaciais foram, desde o principio das cidades industriais, concentricamente definidas e determinadas em função da segregação das novas classes, sociais estas ultimas também pela realidade urbano-industrial que o capitalismos se instaurava. A classe trabalhadora dividia com a multidão de desempregados as zonas mais densas e populosas do centro das cidades. No segundo anel , se encontrava a burguesia, a classe media da piramida social, onde o espaço de organizava de forma mais geograficamente distribuído e por ultimo, o mais distante do centro, estavam, na zona composta por vilarejos jardins, estava a alta burguesia, a classe mais alta da sociedade. Diante dessa nova conjuntura espacial, observa-se uma inversão do sentido geográfico previamente estabelecido, norteado pela consolidação das hierarquias sociais. Jamais na história se havia observado uma divisão de classes tão claramente definida sócio e espacialmente, orientadas num eixo centrifugo de discrepância. Desta forma, nota-se uma considerável alteração das estruturas espaciais urbanos, notadamente, a forma como se definiu a circulação interna na cidade. Pela primeira vez na história a grande maioria das pessoas teria que percorrer certa distancia em movimentos pendulares entre suas residências e o trabalho, dentro ou fora da cidade. Este movimento é de grande importância para o desenvolvimento do planejamento urbano, bem como para a criação de instituições cívicas e obras públicas , que de certa forma funcionam como instrumentos de controle, das classes dominantes, """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 3 Na década de 1840, a metade das crianças nascido nas áreas mas pobres de Manchester faleciam antes de completarem seis anos e a expectativa de vida era de dezessete anos. Soja (2000) 31" " uma vez que estas medidas apresentavam diretas relações com os impactos dos custos gerados pelo deslocamento. Soja, cita Engels, que, de maneira brilhante, apresenta um raio x da estrutura sócio espacial da cidade durante este período: La separación entre las diferentes clases y la consecuente ignorancia acerca de los hábitos y condiciones de las demás, son mucho más profundas en este lugar que en ningún otro país […] Hay mucha menos comunicación entre el hilador de algodón […] y su trabajador […] que la que hay entre el Duque de Wellington y el trabajador más humilde de su estado. (Engels, 1969 in Soja, 2000 p.14) e continua: Los barrios de la gente trabajadora están […] separados de las secciones de la ciudad reservadas a la clase media […] Manchester tiene, en su corazón, un distrito comercial bastante extendido, tal vez de media milla de largo y casi tan ancho, que consiste casi en su totalidad de oficinas y depósitos. Casi todo el distrito es abandonado por sus habitantes, y se vuelve solitario y desértico de noche […] [A su alrededor] hay barrios de gente trabajadora […], extendiéndose como un cinturón, de dos kilómetros y medio de ancho de promedio […] Fuera, más allá del cinturón, vive la alta y media burguesía, la media burguesía en calles trazadas de forma regular ubicadas en las inmediaciones de los barrios obreros […] la alta burguesía en villas y jardines más remotos […] en el aire libre y puro del campo, en casas magníficas y confortables, con autobuses que van a la ciudad cada cuarto de hora o cada media hora. Y la mejor parte del asunto es la siguiente, que los miembros de esta adinerada aristocracia pueden tomar el camino más corto a través de todos los distritos obreros […] sin ver en ningún momento que se encuentran en medio de la sucia miseria […] Dado que los concienzudos pasajeros son alineados, a ambos lados, con una serie casi perfecta de tiendas […] [que] son suficientes para ocultar de los ojos de los ricos […] la miseria y la suciedad que forman el complemento de su riqueza. (Engels, 1969 in Soja, 2000 p.79-80) Este cenário serve de base para a fundamentação de uma das variáveis que seriam a base dos estudos da economia urbana: a definição da renda fundiária diretamente ligada ao custo de transporte e distância ao centro da cidade. As dinâmicas na cidade foram, então alteradas. Os espaços se transformaram em mercadorias, 38" " arrastou durante os anos de 1920 – a Grande Depressão e o fim da Segunda Guerra Mundial. O terceiro começou na década de 1960 e começo de 1970 ( Soja, 2000). No livro de Edward Soja (2000), o autor nos apresenta um panorama histórico sobre os processos de urbanização que ocorreram nos Estados Unidos, o qual apresentaremos brevemente: estamos em 1820, com a pequena e compacta Cidade Mercantil, caracterizada por uma densa mistura de residentes com distintas receitas e classes sociais, agrupados em volta de um centro de troca e comércio, como porto ou estação. A indústria ainda alocada na periferia da cidade, Mill town, onde existe condições mínimas de infra-estrutura e eletricidade para movimentar o maquinário. Também na periferia, mas relativamente menos afastados do centro, se encontram as áreas residenciais mais pobres. Com a progressão do desenvolvimento desigual entre produtores e compradores é possível perceber que esta desigualdade estava se configurando também espacialmente, alcançado o seu pico nos anos de 1830, junto com a intensificação dos protestos populares. Nota-se, portanto, a criação de um novo espaço geográfico destinado a mascarar as formas de acumulação capitalista, como pode ser claramente observado em Chicago e Manchester. De acordo com David Gordon (1978), a cidade Mercantil ou Comercial continha as sementes da própria reestruturação espacial desigual mesmo antes do seu processo de industrialização. Durante o período da era do capital entre 1840-1870, surge um modelo mais opaco do que o da cidade industrial centralizada e segregada por zonas. Mas, assim como a estrutura anterior, este tipo de rearranjo carregava também formas de tensões internas e perturbações políticas e sociais. Durante as três últimas décadas do século dezenove, as cidades americanas passam por um processo de recomposição do clássico modelo de espaço industrial urbano competitivo, tentando definir um novo spatial fix para responder aos problemas do capitalismo urbano-industrial. Este é, portanto, o cenário que define não uma quarta revolução urbana, mas a primeira de uma série de processos reestruturadores do espaço urbano capitalista industrial caracteristicamente mascarado sobre a forma de modernização e re-desenvolvimento. O clássico espaço urbano observado pela escola de Chicago e Engels passa, portanto por um processo de adaptação, se redefinindo de várias formas distintas, mas 39" " caracteristicamente marcadas pela descentralização de parques industriais, zonas residenciais, escritórios, depósitos, lojas de varejo, serviços públicos e outras atividades urbanas. Forma-se, assim, um alongamento dos círculos concêntricos como movimento de crescimento cada vez mais em direção à periferia, tornando essas zonas mais heterogêneas e, consequentemente, tornando o espaço e a vida urbana gradativamente fragmentada em todos os sentidos. Em sentido contrario a este movimento podemos observar o processo de recentralização entre os anos de 1870-1920 em cidades com Nova Iorque e Chicago, onde a criação dos Central Business District e centros cívicos foram as ferramentas utilizadas por profissionais do planejamento urbano, bem como por diretrizes regulatórias, para controlar a expansão e reestruturar o espaço urbano. Este movimento foi acompanhado de um significativo número de famílias de classes sociais altas ao centro das cidades. Durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, o formato do espaço urbano sofre mais uma alteração conduzida pela crise. O que estava por vir, era agora um modelo fordista de metrópoles regionais com uma clara divisão entre o urbano e o suburbano, acompanhado tanto pela quebra na forma física quanto do pensamento social. Constatou-se, neste período, um alargamento da criação de municipalidades independentes, surgidas nas periferias dos grandes centros. Todas elas oferecendo diferentes propostas na tentativa de fugirem dos crescentes problemas advindos do urbanismo, mas que não conseguiam, entretanto, se “libertarem” da influência e dependência dos grandes centros metropolitanos. Castells define o período dos anos 1960, período da explosão das municipalidades, como La Ville Sauvage ou A Cidade Selvagem, para descrever as novas formas urbanas consolidadas no período pós guerra na Europa e nos Estados Unidos. Já para Edward Soja, diante da confusão terminológica do processo, este período que se estende até a contemporaneidade denomina-se como Postmetropolis. Fazendo referência ao que talvez seja um dos autores com mais propriedade para discutir o assunto de economia geopolítica nos tempos das postmetropolis, Allen J. Scott, em seu livro Metropolis: From the Division of Labor to Urban Form (1988), lança a perspectiva das cidades inseridas em um “processo urbano” com cerne no 40" " impacto geográfico específico na produção industrial diante da mudança do “ambiente da sociedade capitalista”. O “aparato básico de produção” manifestou na produção do espaço da cidade-região é de fato o que determina a geografia específica do capitalismo no urbanismo industrial, caracterizado, segundo ele, pela tendência de produzir e reproduzir o desenvolvimento geograficamente desigual. Todo este contexto forma a base da discussão dos estudos urbanos. Conforme este capítulo pretendeu demonstrar os processos de urbanização, por mais distintos e peculiares que possam parecer, não se dissociam da realidade física e temporal a que estão alocados, eles refletem a história econômica, política e social do período e espaço em que estão inseridos. Assim como os problemas urbanos o planejamento urbano é uma expressão da contemporaneidade, uma forma estrutural de solução dos problemas daquela época e região, não podendo, portanto, serem dissociados do espaço e do tempo. “ (...)para compreender uma cidade seria necessário relaciona-la ao processo de urbanização da região ou do pais em que ela se encontra. Tal postura analítica pretende à consideração de que a cidade surge, se desenvolve, assume funções dependendo do processo social que lhe é subjacente.” (Castells, 1994 in Ferreita1979, p.94) “ (...)a estrutura urbana assim criada influirá num determinado sentido sobre os novos processos que tem origem no seu seio” (Castells, 1994) Desta forma, terminamos aqui este capítulo teórico, sumarizando que a formação das cidades se dá através do processo dialético entre o emaranhado de relações sociais de caráter político, histórico, ético, demográfico, de poder, religioso, étnico e cultural do processo de aglomeração que se consolidam na estruturação do espaço urbano, bem como este é fundamental na gênese desta trama de relações. Tanto a interação destas relações quanto a formação do espaço urbano não são processos estáticos, estão em constante adaptação e readaptação. As especificidades espaciais são de suma importância no processo de desenvolvimento do urbanismo, capaz de gerar e sustentar as mudanças inovadoras na 41" " sociedade humana e seus modos de produção. Como pudemos analisar da leitura deste capítulo desde o início da história das cidades, estas sempre foram centros de inovação, de mudança e criação. O processo de aglomeração possibilita dentre inúmeras outras vantagens (e não seremos irresponsáveis ao assumir a surgimento de problemas) a proximidade e interdependência, de extrema importância na definição das características da vida cotidiana do desenvolvimento humano e da continuidade social. As cidades apresentam uma forma muito particular de habitat e assentamento humano no qual a vida social se encontra estruturada e é materialmente manifestada através do contínuo processo de produção de espacialidade urbana. No próximo capítulo, apresentaremos o estudo de dois casos, como anteriormente mencionados, na tentativa de demonstrar como os processos sociais inerentes à construção destas cidades impactaram diretamente sobre a forma que a cidade adquiriu, bem como, posteriormente poderemos analisar os impactos que estas estruturas apresentam na definição das relações sociais ali estruturadas. 3*A**Apresentação*dos*casos*–*Brasília*e*PlanIt*Valley* * As cidades aqui escolhidas como ilustração de nosso trabalho apresentam, em uma das várias características que têm em comum, a capacidade de romperem e transformarem os conceitos prévios de planejamento urbano. Nos dois casos apresentados, observamos que o planejamento se apresenta de forma pragmática em respostas às alterações estruturais da sociedade. Em ambos os casos estas transformações se motivaram, em ultima instância e de forma simplória de análise, pela preocupação com a melhoria da eficiência, redução dos gastos e movimento de sinergia que estes empreendimentos trariam, além de terem como força de aceleração as condições e conjunturas políticas e econômicas ou, para sermos mais coerentes com o marco teórico deste trabalho, o sinequismo propiciado. Vale também tratar aqui, que as duas cidades apresentam condições diferenciadas de grande parte das cidades ordinárias do mundo. Nas duas situações, existiu um planejamento prévio ao nascimento das 42" " formas urbanas, ou seja, são estruturas planejadas que “brotam” do solo virgem, fazendo com estas não tragam qualquer herança do passado.6 Estes dois casos das chamadas “cidade do futuro” e “cidade inteligente” apresentam entre si situações muito próximas e semelhantes, cabida as proporções das épocas, realidades e contextos em que estão inseridas, mas que pela diferença intrínseca de suas naturezas, demonstram também situações muito díspares. O que torna este estudo de caso ainda mais interessante e possibilitando de certa forma, como pretendido na conclusão deste trabalho, inferir diretrizes e formas mais apropriadas para o crescimento urbano das (possíveis) novas gerações das cidades, as cidades inteligentes. * 3.1 - O Paralelo entre Brasília e o PlanIT Valley? No primeiro caso apresentaremos a cidade de Brasília, construída na década de 1950 para ser a nova capital do Brasil. Um empreendimento integralmente financiado pelo Estado brasileiro, capaz, nesta época, de fornecer aportes que não só eram necessários, mas fundamentais para o desenvolvimento econômico do país, caracterizado por um industrialismo tardio. Concebida, entre outras explicações, como forma de catalisar a integração dos mercados ainda incipientes e a diminuição das disparidades regionais secularmente instauradas pelo modelo colonialista de exploração, o desenvolvimento do Planalto Central brasileiro é apontando, nesta época como o movimento pioneiro do desenvolvimento do capitalismo e da nova divisão do trabalho dentro do processo produtivo no Brasil. Brasília com seu o planejamento futurístico e arrojado do Plano Piloto, avançando na era pós-industrial foi a primeira grande cidade brasileira da era científica """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 6 Edward Soja (2000) trata em seu livro casos de expressões urbanas que que não correspondem à realidade onde estão instaladas, de forma interessante o autor se fundamenta nos princípios da hiper – realidade para tratar este assunto. Consultar o capítulo Sim Cities. 43" " técnica, que se desenvolve, entretanto, de forma completamente contraditória à forma de desenvolvimento do restante da Nação. De maneira análoga, também em ritmo contraditório de desenvolvimento à atual conjuntura do resto da Nação, apresentaremos o nosso segundo caso, o PlanIT Valley, uma cidade de investimento bilionário de capital privado que promete nascer ao norte de um pais extremamente afetado pela ultima grande crise do capital. A smart city quase integralmente planejada, mas ainda não construída, concebida para ser a primeira cidade inteligente (em dimensão e complexidade) do mundo está situada na região de Paredes, ao Norte de Portugal. O projeto, diferentemente do caso de Brasília é uma iniciativa atual e teve seu processo embrionário em 2005, quando empreendedores do campo da Tecnologia da Informação e Relações Governamentais se articularam na concepção da ideia. A criação empresa Living PlanIT, fundada na Suíça foi de fato a data que marcou o início a projeto no ano de 2006. O projeto é concebido na tentativa de responder um novo paradigma do século 21: a preocupação ambiental aplicada ao planejamento urbano, através do uso massivo de tecnologias de ultima geração. “A cidade com cérebro” (Imobiliária, 2010) é um projeto de investimento privado comandado pela empresa Living PlanIT em parceria com grandes multinacionais, universidades e como de se esperar parceria público privada entre a empresa e os governos municipais e regionais. Como um novo paradigma do século atual, também podemos apontar esta nova realidade do interesse do capital privado em áreas dantes financiadas quase que exclusivamente pelo capital público. No caso que apresentaremos, poderemos notar que o investimento na construção das estruturas urbanas é realizado como forma de empreendimento, através de uma empresa que visa obviamente como qualquer empreendimento capitalista, obtenção do lucro. 44" " 3.2 – Brasília, a Cidade do Futuro " A ideia da transferência da capital do Brasil, localizada no Rio de Janeiro, começa a ser pensada muito tempo antes da sua construção em 1960. O nome Brasília foi sugerido em 1822 por autor desconhecido, neste mesmo ano José Hipólito da Costa, fundador do primeiro jornal brasileiro publicado, o Correio Braziliense, retoma as discussões de transferência da capital que, ainda no ano de 1813, já havia sido sugeria para a cidade de Pirapora em Minas Gerais. José Bonifácio, em 1824 sugere à Assembléia constituinte a criação de uma nova capital com o nome Brasília ou Petrópole. (Holston, 1993) E várias foram as menções ao nome e a localização de onde nasceria a nova capital do país, que carregava consigo o emblema de desenvolvimento, eficiência segurança, integração econômica e social do país. A nova capital já havia sido incorporada em várias versões da constituição brasileira. Na elaboração da constituição de 1891 fica reservado para a construção da cidade um território de 14.400 km2. Diante de uma extensa pesquisa bibliográfica sobre as estruturas econômicas, políticas e sociais que motivaram a construção da nova capital no coração do território brasileiro, verifica-se uma grande infinidade de argumentos que legitimavam esta ousada iniciativa encabeçada pelo presidente brasileiro. De caráter inovador e empreendedor Juscelino Kubistchek apresentava como slogan de mandato “cinqüenta anos em cinco”. Dentre as motivações levantadas podemos listar: tentativa de apagar os vestígios deixados pela colonização portuguesa; proposta de unificação econômica do país; pretensão defesa do território nacional e localização geoestratégica; Hinterland vital à soberania e desenvolvimento nacional; promoção de uma maior eficiência no serviço público; desenvolvimento de um instrumento ideológico, capaz de criar junto as massas um espírito de identidade nacional; criação de um centro de desenvolvimento, capaz de desenvolver a parte Centro Oeste do país; criação de um mercado consumidor significativo e introdução de novas tecnologias econômicas e sociais; e concepção de uma porta de entrada da ocupação econômica das fronteiras oeste e norte do país. 45" " Optamos, entretanto, por uma motivação mais abrangente que considera várias das razões supracitadas. Neste trabalho veremos a construção de Brasília, assim como visto pelos ilustres autores da coleção que compõem o livro Brasília, ideologia em questão, como a “construção de centro político nacional” onde “as relações intrassocietais e intergrupais no tratamento dos chamados problemas de integração derivada da divisão do trabalho social”. Dessa forma, poderemos avaliar o desenvolvimento do plano urbanístico de Brasília a partir de várias perspectivas social. A construção deste mencionado “centro político nacional” só foi possível devido à conjuntura social e econômica que o país apresentava naquela época, dada a uma conjugação de forças sociais então existentes e que, por sua vez, exercem o efeito cumulativo de todo o processo de desenvolvimento do Capitalismo no Brasil. Brasília resulta da ação deliberada do Estado sobre o território, com a intenção de eliminar obstáculos à plena socialização do espaço, estes, decorrentes de ações (ou omissões) anteriores ao próprio Estado. Para que possamos explorar o contexto em que a Brasília se insere faz-se necessário compreender um pouco do arranjo econômico, político e social do Brasil antes e durante o período de construção da nova capital do país. Com este intuito passaremos a uma descrição breve deste contexto. 3.2.1*A*A*Conjuntura*Nacional*e*o*Surgimento*da*Nova*Capital* * A história de um capitalismo tardio, define e traça as estruturas territoriais brasileiras. A economia de exploração colonial e de exportação de açúcar, café, algodão e ouro definem, desde o princípio histórico da estrutura territorial do Brasil, os seus consequentes desníveis regionais. As cidades que mantinham no período colonial, e que 46" " continuaram a manter relação direta com a Europa, desenvolveram-se isoladamente do restante das outras regiões. Aquelas apresentavam uma ligação concreta com o mundo globalizado e o capitalismo, enquanto estas adormeciam no antigo sistema. (Schindt, 1978) O Estado brasileiro, até a década de 1930, podia ser caracterizado como um Estado de compromisso oligárquico, o qual agia como o intermediário financeiro para a economia agroexportadora, mantendo um balanço político entre as estruturas regionais geradas por esta economia. Assim, o desequilíbrio inter-regional era uma decorrência da ação do próprio Estado. ( Farret, 1978) A inexistência explícita de políticas territoriais não impedia, contudo, o Estado de reforçar esta tendência através de políticas de subsídios à agricultura e à infraestrutura física e econômica. Este período é marcado pelo caos econômico e político conforme quadro demonstrado abaixo: Tabela I – Quadro político – econômico do Brasil na década de 1930. Economia Política Alta do dólar e consequente valorização de produtos com valor agregado trazidos do exterior Revolução de 30, definindo o fim da república velha e “Revolução da Burguesia” Extinguindo os privilégios das oligarquias rurais. Desvalorização das commodities no mercado internacional A indústria se forma como a principal forma de acumulação e divisão social do trabalho. Politica de Substituição das Importações. Redefinição das classes sociais e rearticulação dos setores da economia 47" " Fonte: Autor A nova burguesia industrial passou a apoiar-se no governo, fazendo com que este criasse agências que protegessem o interesse nacional. A respeito da industrialização, como mencionado previamente, pouca ou quase nenhuma atenção foi dada à questão de alocação espacial e seu crescimento. Ficando particularmente concentrada no triangulo São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. O crescimento do sudeste foi parcialmente financiado pelo resto do país, principalmente pelo Nordeste, uma vez que a política de substituição das importações “obrigava” o resto do país a consumir do sudeste mercadorias que no final das contas chegavam ainda mais caras do que as importadas. O capitalismo começa de fato a adentrar as regiões rurais do país. Este período é caracterizado pela rápida urbanização das regiões brasileiras. Na década de 50, o país assume o importante papel de investidor nas infraestruturas e bens intermediários através dos pactos populistas que chegam ao seu fim no ano de 1956 com a entrada dos planos de metas. Programa suportado por iniciativas públicas e privadas nas áreas de infraestrutura, indústria básica e de bens de consumo duráveis, recursos humanos e a construção de Brasília. Desde a sua concepção o plano produziu diversos impactos socioeconômicos e espaciais sobre o território nacional. Tais como: ‐ Desequilíbrios setoriais - enfatizavam o setor manufatureiro; ‐ Desequilíbrios sociais - concentração de renda resultante da compressão salarial; ‐ Alinhamento da burguesia nacional ao capital internacional - tecnoburocracia estatal. ‐ Desequilíbrio espacial - concentração de população e renda no sudeste. Segundo Farret (1978), só a partir dos desequilíbrios causados, a política nacional começa a perceber a importância do impacto das questões territoriais no desenvolvimento econômico, político e social do país. Esta preocupação passa então a compor a agenda do governo brasileiro. Em 15 de novembro de 1959 foi criada a SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) que tinha como intuito 54" " Nas quadras, além de residências, seriam instalados estabelecimentos que se adequassem e fossem convenientes à realidade cotidiana daquela área, como padarias, cabeleireiros, escolas primárias, etc. Ao fundo delas, uma parte do terreno foi reservada para vias de transporte de cargas e construção de depósitos de armazenamento. Outro terço desta parte, reservado para floricultura, horta e pomar. “Entaladas entre essa via de serviço e as vias do eixo rodoviário, intercalavam-se, então, largas e extensas faixas, com acesso alternado, hora por uma, hora por outra, e onde se localizavam a igreja, as escolas secundarias, o cinema e o varejo do bairro, disposto conforme sua classe ou natureza”(Costa, 1957). Diante dessa flexibilidade arquitetônica, tornou-se possível a gradação social, atribuindo-se maior valor a determinadas quadras em função das características ali expressas, ainda sobre esta questão Costa enuncia: (...) as diferenças de padrão de uma quadra a outra serão neutralizados pelo próprio agenciamento urbanístico proposto, e não serão de natureza a afetar o conforto social a que todos têm direito. Elas decorreram apena de uma maior ou menor densidade, do maior ou menor espaço atribuído a cada individuo e a cada família, da escolha dos materiais, e do grau e requinte do acabamento. Cabe à Companhia Urbanizadora prover dentro do esquema proposto acomodações decentes e econômicas para a totalidade da população. Outros estabelecimentos e considerações À parte dos dois grandes eixos que orientavam a cidade foi também previsto, entre outras, a localização da Cidade Universitária próxima ao setor das embaixadas. Na orla do lago Paranoá uma zona de recreação e esportes, onde foi permitida a instalação de clubes náuticos, balneários, restaurantes e núcleos de pesca. Por fim, de maneira que os cortejos não precisassem cruzar o centro da cidade, os cemitérios foram alocados nos dois extremos do eixo rodoviário-residencial. Relativamente ao mercado imobiliário, Lucio Costa apresentou ainda algumas considerações. Ele recomendava que fossem vendidas cotas ao invés de lotes, de forma a tornar os terrenos acessíveis ao capital particular. 55" " Para a circulação, foi previsto, em todos os setores, uma trama independente direcionada à circulação de pedestres, com trevos e passagens de nível sem cruzamento. Conclui-se, portanto, que, para Lucio Costa, a Nova Capital seria uma cidade-parque, resultado de uma solução de fácil apreensão: (...) pois se caracteriza pela simplicidade e clareza do risco original, o que não exclui, conforme se viu, a variedade no tratamento das partes, cada qual concebida segundo a natureza peculiar da respectiva função, resultando daí a harmonia de exigências de aparecia contraditórias. É assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficiente, acolhedora e intima. É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional. [...] De uma parte técnica rodoviária; de outra, técnica paisagística de parques e jardins. (Costa, 1995) Embora o Plano Piloto tenha sido inteiramente elaborado por Lucio Costa, foi pelas mãos de Oscar Niemeyer que a cidade tomou suas formas, o chefe do departamento de urbanismo da Novacap teve uma grande importância na consolidação e desenvolvimento do projetos executivo do Plano Piloto. O projeto inicial apresentouse de forma muitíssimo coerente e consistente, entretanto, conforme posto pelo próprio Lucio Costa em sua proposta, tratou-se apenas do tendo sua inauguração no dia 21 de abril8 de 1960. 3.2.3*–*O*Ambiente*Social*da*Cidade*do*Futuro** " Podemos identificar três momentos no processo de produção do espaço urbano da cidade de Brasília: a implantação, a consolidação e a expansão. Na urbanização brasileira, os processos migratórios representam um papel de extrema importância para as condições atuais da urbanização. As cidades se moldam, surgem, ressurgem como pontos de afluxos de correntes migratórias. """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 8 Esta data foi escolhida por Juscelino em homenagem ao alferes Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier), mártir da Inconfidência Mineira um dos primeiro dos processos de independência do Brasil e herói nacional. 56" " No caso de Brasília, o contingente migratório apresentava a característica de ser, em grande massa, proveniente do Nordeste, tendo chegado desde o início da construção da cidade, sendo absorvido na construção civil. O número de habitantes nos primeiros anos da criação de Brasília - de 1957 a 1960 - passa de 12.700 para 127.000, o que representa uma taxa média de crescimento de 109,88% ao ano (Barbosa Ferreira,1976). Este rápido crescimento populacional não acompanhou, entretanto, os limites dos planos da cidade, fazendo com que fossem criados núcleos periféricos ao Plano Piloto como solução para impedir o crescimento desordenado no centro. Concomitantemente a este movimento, formavam-se também os núcleos dormitórios periféricos, iniciando-se então o processo de segregação e seletividade espacial. No ano de 1970, 66% da população urbana do Distrito Federal residia nas periferias e dependia diretamente da centralidade para desempenhar as atividades profissionais e atender às suas necessidades básicas. Aproximadamente 60.000 mil pessoas deslocavam-se cerca de 130 km (ida e volta) nos movimentos pendulares do centro para a periferia (Paviani, 1978). As previsões da extensão do centro urbano para a periferia deram-se, portanto, muito antes do planejado. As periferias surgem num processo de organização do espaço, que se produz diferenciadamente para abrigar as diferentes classes sociais e permitir a reprodução das relações sociais, as quais estão na base do próprio processo de urbanização. O espaço urbano se estende no território, quando nem sequer a construção do Plano Piloto estava concluída. O caso de Brasília é uma situação um pouco diferente dos processos de urbanização convencionais, os quais normalmente são levados pelo próprio processo desenvolvimento da indústria. Em Brasília, não foi a industrialização o cimento da urbanização, mas sua função de capital e posição fulcral de interconexão com os mercados em desenvolvimento no Brasil, garantindo assim um potencial mercado urbano, devido a seu porte e ao elevado poder aquisitivo dos servidores públicos. O Estado exerce fundamental importância para a consolidação do processo de urbanização de Brasília. Primeiramente, pela estruturação da cidade como capital, com a 57" " transferência dos órgãos e de empresas do governo, intensificando a ocupação do plano piloto, o funcionalismo e a representação diplomática. Segundo, pelo papel que o Estado passa a assumir na economia do país, reforçando as empresas estatais e paraestatais que se instalam em Brasília, e pela centralização das funções administrativas em nível federal. Terceiro, pelos esforços empreendidos para implementação e equipamento urbano, alocados com ênfase no Plano Piloto (Ferreira, 1977). Depois do período da construção, a cidade deixa de ser um canteiro de obras e passa a atrair mão-de-obra de vários e diferentes níveis e categorias, trazendo novas levas migratórias de todo o país, agora também com altos níveis de especialização e qualificação, que serão absorvidas no serviço público, no comércio e no setor de serviços. Segundo Ferreira (1976), no período de 1970 a 1974, a cidade recebe 246.153 novos imigrantes, sendo, no entanto o peso deles no total populacional 70% inferior ao que era anteriormente. Brasília se confirma como metrópole terciária pelo efeito indutor do próprio desenvolvimento industrial do país. No inicio da década de 70, o terciário era responsável por 76% dos empregos (Ferreira, 1976), não se limitando aos serviços públicos e aos serviços privados especializados, mas principalmente à prestação de serviços pessoais e serviços não especializados, englobando toda a diversificada gama de atividades do setor informal com suas formas de subemprego e desemprego disfarçado. A tendência ao decréscimo do ritmo da construção civil e a não previsão da industrialização permitem admitir a ampliação do setor. Ao mesmo tempo em que o processo de segregação social do espaço do centro e da periferia se consolida, as relações sociais advindas dessa segregação se adensam. No centro, localizam-se as atividades ligadas ao urbanismo moderno, concentrando os empregos de um modo geral. Na periferia, concentram-se as funções mantenedoras da reprodução da força de trabalho: moradia da população de menor poder aquisitivo e comércio e serviços rudimentares. Abriga a periferia o “setor informal” que atende as necessidades dessa população e também em partes as do centro. 58" " Sem receber a devida atenção no desenvolvimento de infraestrutura e equipamentos de urbanização, as regiões periféricas, chamadas “cidades satélites”, se adensam com o passar do tempo. Já em 1976, abrigava dois terços da população do aglomerado. Este número passa para 75% em 1980. Este aglomerado começa, portanto, a atrair o grande capital e estabelecimentos comerciais ligados a ele. Por outro lado, os empreendimentos que não conseguem pagar pelo preço do solo no plano piloto migram para os núcleos periféricos. (Gonzáles, 1978). Decorridos trinta anos de sua implantação e consolidação de Brasília como cidade, já se tornou o maior aglomerado urbano do centro oeste e se caracteriza por um importante mercado consumidor. Diferentemente dos modelos centralizadores, onde a urbanização é caracterizada pela tendência a aumentar a concentração urbana nesse ponto do território pelo seu efeito cumulativo, no caso de Brasília o adensamento da área central é bloqueado pela preservação dos limites de densidade do plano. Por outro lado, a valorização das áreas centrais, tendência comum dos aglomerados urbanos, apresenta, neste caso, um elemento da delimitação do Plano Piloto que potencializa ainda mais esta tendência. Os núcleos periféricos, caracterizados como dormitórios na década de 70, apresentam hoje melhorias de infraestrutura e são mais bem equipados, sendo que recebem os excedentes da população de classe média do centro e desenvolvem também algumas atividades especializadas. A classe média vem sendo gradualmente deslocada para as cidades satélites e, juntamente com ela, ou neste processo que a leva neste sentido, a instalação de grandes empreendimentos capitalistas de comércio varejista e serviços especializados atinge um mercado bem superior ao que era categorizado na década de 70. Ainda que insipientes, a periferia próxima apresenta sinais de melhorias, transformadas pela reprodução do espaço do centro, advindo mais em função da alta mobilidade intra-urbana do que propriamente de uma melhoria do nível de vida das suas populações iniciais. Este movimento vem ligado à valorização da terra, com alta dos aluguéis e preços dos terrenos. A periferia inicial, espaços das camadas segregadas da população, vai se reproduzir agora fora dos limites do Distrito Federal. A população de baixa renda e as 59" " atividades ligadas à sua reprodução vão povoar os municípios vizinhos, o entorno de Brasília. Tomando como exemplo o município de Luziânia, a população urbana atingiu, em 1980, 80.000 habitantes, um crescimento de mais de 600% na última década (Oliveira, 1983, p.145). Podemos perceber, portanto, que as estruturas da cidade planejada, apresentaram intensos processos de segregação que segundo Catalão (2010) são frutos das descontinuidades dos tecidos metropolitanos, que se dão em função de dois fatores: O primeiro diz respeito à segregação planejada que dispôs um centro com população de médio-alto a alto poder aquisitivo, dotado de excelentes infraestruturas e equipamentos coletivos, circundado por núcleos urbanos ocupados por segmentos de alta a muita alta renda. Esses núcleos, por sua vez, são rodeados por uma periferia dispersa no tecido urbano, destinada principalmente à moradia das classes socioeconomicamente menos favorecidas e largamente dependentes no que se refere às funções urbanas. O segundo (...) concerne sua repartição entre duas unidades federativas, uma com terras de ocupação proibitiva concentradas nas mãos do Estado e outra com terras de ocupação permissiva pela falta de políticas sérias de implantação de loteamentos e ordenamento do território na porção limítrofe à primeira, respectivamente o Distrito Federal e o estado de Goiás. (2010,p.23) Esta formatação configura um grupo de pessoas que por apresentarem uma renda mais baixa, são “obrigados” a se alocarem onde o custo de vida é compatível às suas receitas, e por outro lado, segregados pelos limites do quadrilátero do Distrito Federal, restringidas pelos limites não somente do espaço físico do mapa arquitetônico do plano urbanístico, mas também pelos mapas mentais que se constroem à medida que a vida se reproduz quotidianamente. (Lefebvre, 2000 Soja, 1996). Por fim, percebe-se que Brasília apresenta uma distribuição social “maquiada”. O desenho do Plano Piloto proporcionou de fato equipamentos coletivos, que melhoram a qualidade de vida de certa população. Entretanto, esta não é a realidade da metrópole. Nas cidades satélites, onde reside a maioria da população de Brasília, as condições de vida não seguem diretamente as linhas do futuro. 60" " " 3.2.4*A*Brasília*50*anos*depois*da*construção* " É incontestável a importância que a construção de Brasília teve na definição e consolidação do cenário político, econômico e social do Brasil no século XX, período este que é indubitavelmente é separado no período antes e outro período depois da nova capital. A coragem de Juscelino Kubitschek ao criar mais do que uma capital moderna, referência internacional em arquitetura, rompeu a tradição litorânea e urbana do país e interiorizou o progresso. O centro-oeste, com toda a pujança agrícola atual, não seria o mesmo sem Brasília. Sua inauguração possibilitou unir Norte, Nordeste e Centro-Oeste com o Sul e Sudeste desenvolvidos. Ela funcionou como eixo de convergência destes “Brasis”. Mas também não podemos de deixar de apontar aqui que, apesar de ter sido integralmente planejada, o desenvolvimento de Brasília se dá de forma desordenada, que escaparam ao controle dos tomadores de decisão, sendo obrigados, de certa forma , implementar políticas coibitivas para impedir e controlar o crescimento das favelas e os consecutivos fatores sociais e políticos que isto implica. Cinquenta anos decorridos da sua implantação, Brasília tem bem delineada a sua área metropolitana, de acordo com o último censo de 2011 sua população é de 2.609.997 habitantes sendo a quarta cidade mais populosa do país, possui o segundo maior PIB per capita entre as capitais brasileiras (R$40.696,00) (IBGE,2011). Não obstante aqui a ordenação do uso do solo tenha proporcionado uma considerável eficiência funcional de acordo com padrões de racionalidade adotados pela planificação, isto não foi suficiente para fazer reverter as tendências do próprio processo de urbanização, que assume formas concretas no interior do aglomerado da cidade criada. Por ser uma cidade que surge com a definição a priori do seu papel dentro da divisão do trabalho urbano, isto passa a ser um elemento acelerador do processo de formação de grande aglomerado, o que se da então de forma prematura, antes mesmo da cidade central estar concluída e totalmente ocupada. 61" " No caso de Brasília, foi possível perceber que o processo de urbanização da forma como foi implementado, gerou um grande impacto de segregação da população. Conforme apresentados nos dados anteriores o Plano Piloto não foi ainda totalmente ocupado, enquanto as cidades satélites são densamente povoadas. As formas de planejamento do Plano Piloto se restringiram à área as questões e à época em que foram desenvolvidos. Conseguiu-se através do desenho proposto que a nova capital transforma-se de fato no centro político e administrativo do país, além disso, aspectos de eficiência e redução dos gastos e tempo, na concentração do poder administrativo também foram alcançados. Entretanto, a cidade apresenta sérios problemas estruturais quanto à mobilidade e acessibilidade. "Quando Lúcio Costa apresentou seu plano, os automóveis eram importados e pouquíssimas pessoas tinham um. Não é à toa que as quadras têm poucos estacionamentos" (Ferreira, 1983) 3.3. PlanIT Valley – A Cidade Inteligente (….) to be the leading enterprise addressing world urbanization by delivering the business model for sustainable development, enabling technologies and knowledge economy innovation, in collaboration and partnership with world’s leading companies, research and governmental institutions. Living PlanIT Mission Statement, 2009. PlanIT Valley é um projeto, em estágio embrionário, de cidade inteligente, idealizado e desenvolvido pela empresa privada Living PlanIT. Neste capítulo, analisaremos, primeiramente, a história, a estruturação e o modelo de governança da Living PlanIT, uma empresa que tenta criar mais do que uma forma revolucionária, um conceito revolucionário de estilo e de vida urbana em um país que tem sido fortemente atingido pela crise, que possui uma taxa de desemprego de 15,7% e que tem uma situação de forte intervenção econômica pelo FMI. Assim, busca-se entender quais são as ambições do PlanIT Valey, a cidade inteligente que promete nascer dentro dos limites da cidade de Paredes, ao norte de Portugal. 62" " A Living PlanIT SA foi fundada em 2006, como uma empresa privada. Sua visão é oferecer uma solução aos processos improdutivos de urbanização, agindo como um "ecossistema integrador", combinando a inteligência da empresa ao conhecimento e know-how de uma rede de parceiros, a fim de fornecer soluções inovadoras e eficientes, replicáveis para os problemas de desenvolvimento urbano sustentável. Diferentemente do caso apresentado no capítulo anterior, o PlanIT Valley não surge como resposta aos problemas e anseios exclusivamente nacionais, mas, diante da abrangência que o projeto se propõe, tenta responder aos questionamentos mundiais. Por isso, antes de compreender o arranjo da empresa, apresentaremos a conjuntura mundial e os principais "fatos" da história da Living PlanIT, afim de entendermos a forma como todas as "coincidências" convergiram para situar o audacioso projeto em Paredes. 3.3.1*A*A*Conjuntura*Mundial*e*o*Surgimento*da*Living*PlanIT* " O mundo passa pela maior onda de crescimento urbano da história. Em 2008, pela primeira vez, mais da metade da população mundial passou a viver em centros urbanos. Em 2050 este número chegará a quase 9 bilhões, se concentrando principalmente na África e Ásia. Enquanto megalópoles conquistaram a atenção do público, a maioria do novo crescimento ocorrerá em cidades menores e vilarejos, que apresentam ainda menos recursos estruturais para responder à magnitude destas mudanças. A população mundial cresce em escala exponencial. Com a aspiração de melhoraria de qualidade de vida, maiores possibilidades de emprego, educação e saúde, os fluxos migratórios e êxodo rural também acompanham esta tendência. Que é claramente notada no mundo em desenvolvimento (China, Índia e áreas-chave da África). As novas dinâmicas do mundo globalizado, associadas ao desenvolvimento da tecnologia de informação, não só encurtam as distâncias, como também redefinem os 63" " limites espaciais. Desta forma, a cristalização do espaço físico urbano da cidade inteligente surge como tentativa de resposta não somente aos questionamentos locais, mas globais, sob a premissa do desenvolvimento de forma sustentável e preservação dos recursos naturais, aliado à visão de uma oportunidade de negócio bastante lucrativo. De maneira distinta do caso de Brasília, que teve seu desenvolvimento amparado pelo seio do Estado, as estruturas que fundamentam o desenvolvimento desta cidade inteligente amparam-se, assim como as razões que explicam sua cristalização espacial, em uma empresa privada, situada num ambiente de economia globalizada. A exemplo disso, a Living PlanIT, empresa base do PlanIT Valley, tem sua sede na suíça, escritórios em Londres e Estados Unidos, parceiros espalhados por diversos países e opera suas atividades em Portugal A história da Living PlanIT começa quando Steve Lewis, co-fundador da empresa, depois de deixar a Microsoft no ano de 2005, envolveu-se com a DestiNY, uma empresa de desenvolvimento de projetos de varejo que atua na área de tecnologias em construção e soluções de energia renováveis. Por razões político ambientais, o projeto não prosperou. Entretanto, foi este o ponto de sinergia entre o conhecimento de TI's, adquiridos na carreira de Lewis durante sua experiência em grandes empresas como Microsoft, Lotus e IBM, e uma nova experiência de frente para a indústria da construção. Também envolvido no projeto DestiNY, Malcolm Hutchinson, o outro cofundador da PlanIT, compartilha com Lewis a mesma opinião quanto à ineficiência da indústria da construção: "(...) é um fato que a indústria de construção não domina as vantagens de design, não entendem a capacidade de maximização deste design, não entendem a capacidade de maximizar as vantagens da pré-fabricação da construção e não usam a tecnologia de forma eficiente nas operações de longo prazo e de manutenção"(Carvalho et al, 2012) Além de Lewis e Hutchinson, três outras pessoas têm papéis fundamentais para a continuação desta história: Manuel Simas, diretor administrativo da Microsoft Automotive Mundial em Stuttgart, Alemanha, Miguel Rodrigues, empresário Português interessado no setor de veículos elétricos com tecnologia inteligente e Celso Ferreira, presidente da municipalidade de Paredes. 70" " Através dos SOU (Sistema de Operação Urbano), um sistema operacional que irá fornecer linguagem e protocolos para o funcionamento da cidade, operando pela integração da tecnologia de sensores através do tecido dos espaços construídos (edifícios, infraestruturas, espaços públicos), transportes e serviços em uma nuvem, Living PlanIT será medida capaz de quantificar a todos os tipos de fluxo dentro da cidade (energia, tráfego e consumo de água e produção, deslocamentos, produção de resíduos, coleta e tratamento, hábitos de consumo, etc). Fazendo isso, o centro de dados tem todos as informações que permite a otimização dos serviços e recursos para usar uma ampla gama de desenvolvimentos urbanos - de edifícios individuais e de infraestrutura para a cidade escala ambiente. Aplicações com interface com os telefones, terminais de computador Doted em torno da cidade ou até mesmo através de paredes inteligentes irão ajudar os "cidadãos da cidade inteligente" lidar com as suas rotinas diárias, como compras interativas e entregas, estacionamento e a identificação espaços, reserva de transportes públicos e de programação, sistema de iluminação controle, encontrar pessoas, problemas de trânsito e de prevenção da criminalidade. A cidade espera receber uma população de 200,00 pessoas, 110mil deles funcionários das empresas parceiras, P&D e respectivas famílias que vão determinar, através de seu feedback como as soluções propostas pela cidade serão aplicados em termos de qualidade de vida. A ideia é criar uma lista de "indicadores urbanos" que efetivamente medem o metabolismo, econômica, social, ecológica e ambiental do Vale. Pequenas empresas concordaram em abrir e operar seu negócio de varejo lá. Os edifícios estão planejados para ser de usos mistos, casas de agrupamento, estabelecimentos de varejo, hotéis e restaurantes. A ideia de viver em um espaço mais verde é uma obrigação no projeto da cidade, além da criação de comunidades de equipamentos, tais como parques, centros de entretenimento, a maioria dos edifícios terá telhado verde, que tanto manter o ambiente mais verde e ajuda nas tecnologias de água e coleta de energia da chuva e do sol, respectivamente. Somos apaixonados por usar a tecnologia para realizar soluções para a sustentabilidade social, econômica e ambiental, criando um ambiente de 71" " colaboração, onde a criatividade humana e inovação podem florescer. (Living PlanIT, 2011) 3.3.3*A*Governabilidade*,*Governança*e**o*Contexto*Social* " O PlanIT Valley será a 1a iniciativa privada de caráter urbano em escala de uma cidade a no mundo. Operando em Portugal e no âmbito do sistema jurídico Português, a cidade leva em consideração a manutenção dos costumes e cultura locais. A população do PlanIT Valley será uma composição de multinacionalidades e multiculturalismo, com uma quantidade considerável de portugueses incluídos, para integrar o cenário globalizado de inovação, responsabilidade ambiental, tolerância e pensamentos. Apesar de não haver ainda muitas informações a respeito do sistema de governabilidade aplicada ao Vale, em uma entrevista para a Revista Imobiliária (2011), Steve Lewis diz que os moradores da cidade inteligente, vão escolher seus representantes e a administração da cidade trabalhará de forma muito próxima á administração do município de Paredes. Embora este capítulo se proponha ao reconhecimento das principais partes interessadas da empresa, a identificação de todos os envolvidos em um projeto de um tão grande que conta com uma grande quantidade de parceiros, como descrito em seção anterior, não é um trabalho fácil. Estruturaremos então este processo mencionando somente os parceiros mais evidentes. Iniciando pelo poder público, dividiremos em três categorias: nacional, regional e local, logo mencionará os principais parceiros privados e na última parte apresentamos o Conselho Administrativo da empresa. De forma inovadora, o governo português através do PIN (Projeto de Interesse Nacional), uma iniciativa exclusiva da política pública do governo português, (nenhum outro país europeu tem outra designação para grandes programas de investimento, especialmente em relação "a legislação e política inteligentes"), concedeu ao projeto em setembro de 2009 o investimento de € 550 milhões (para o primeiro das 25 ondas a serem concluídas). Esta medida representa grande interesse do governo português no campo da inovação. 72" " A Agência para o Investimento e Comércio Exterior de Portugal (AICEP) e a Comissão de Avaliação e Supervisão de Projetos de Potencial Interesse Nacional (CAAPIN) são apontados por Lewis como instituições muito importantes para o apoio e acompanhamento no processo do desenvolvimento do PIN. O objetivo da agência é promover grandes investimentos relevantes, normalmente já existentes empresas de pequeno e médio porte ou no desenvolvimento das pessoas. Embora a legislação português contemplada no projeto PIN não comporta um projeto tão grande como o da Living PlanIT, a comissão conseguiu , com sucesso, encaixar o projeto dentro de seu escopo, o que veio a ser um dos marcos mais importantes na história da empresa até agora. A inclusão no projeto PIN também significou uma considerável economia, diante da vultosa redução de impostos concedida à projetos aceitos na pela comissão. A CCDR-N (Comissão de Coordenação e Desenvolvimeto Regional Norte) tem papel importante no desenvolvimento de medidas regulatórias de caráter ambiental e de uso do solo na Região Norte de Portugal. A relação da Living PlanIT com este orgão tem sido muito próximo, uma vez que houve e ainda haverá muito a ser discutido em termos de planejamento e crescimento inteligente, em uma perspectiva de cidade inteligente, o que nunca foi contemplado da jurisdição portuguesa nem mesmo regional. Quanto ao desenvolvimento regional este será provavelmente o tópico com relação mais próximo entre a Living PlanIT e o setor público, o que pode ser percebido pela receptividade do município de Paredesem acolher o projeto de inovação. Além disso, em 2008 o município concedeu à Living PlanIT os direitos exclusivos para a compra do terreno no novo zoneamento à preços bem competitivos e os direitos até mesmo a expropriação, se for o caso. Essa medida possibilita à empresa uma maior margem de manobra evitando assim a especulação setor imobiliário. A cidade criaria, direta e indiretamente, um total de 115.000 postos de trabalho no período de cinco anos a partir do início da construção. Muitos destes cargos designado à população local. De acordo com Eccledes (2010), seria criado um número de aproximadamente 20,00 empregos em construção e manutenção, 75.000 postos de trabalho gerados pelas pequenas e médias empresas, incluindo as instituições de ensino que atuam no Vale. 73" " Como medida de curto prazo, a Living PlanIT e o governo local chegaram ao consenso da criação de um Centro de Expiriencias, que deveria ser concluída até março de 2010, mas que todavia ainda nem começou. O Centro, localizado em Paredes, funcionaria como um centro de formação para o público local a respeito das tecnologias, metodologias aplicadas no desenvolvimento do Vale. Na seara privada, a LivingPlanIT trabalha com um número restrito de parceiros internacionais, os quais seguem o projeto desde o começo e possuem uma parcela dele. Cisco: empresa líder mundial em TI, a Cisco é um parceiro de ouro9 da PlanIT e assinou uma carta de intenção para cooperação técnica. A empresa irá fornecer todos os sistemas ubíquos, redes e soluções; McLaren: atualmente diversificando do automóvel para a indústria de sensores, a McLaren será responsável por estabelecer que todos os sistemas e redes, no Vale sejam racionalizados sob uma arquitetura unificada. McLaren é um parceiro de ouro e já participa do conselho diretor da Living PlanIT; Quintain Estates: como uma agência de consultoria imobiliária, o seu núcleo de negócios bastante singular é o desenvolvimento de bairros totalmente novos; assinou recentemente um acordo com Living PlanIT SA com esse propósito. A taxa de Quintain será de 3,5% dos custos de construção, com um pagamento mínimo de 12 milhões de euros para cada um dos dois primeiros anos, a partir de 1 de janeiro de 2011; Buro Happold: estabelecido como uma consultoria de engenharia internacional multidisciplinar, que oferece todos os tipos de apoio técnico relacionado com a concepção e construção das novas cidades inteligentes. Buro Happold é também um parceiro de ouro e membro do conselho. (Living PLanIT, 2011). Em linhas gerais das expectativas para a governança corporativa, a empresa criou um conselho composto por pessoas de cargos não executivos, separando o papel de presidente e executivo-chefe e estabelecer procedimentos para a revisão de remuneração dos executivos e aprovação de nomeações de executivos. A empresa operadora da Living PlanIT é a Living PlanIT SA, uma entidade portuguesa responsável por operações globais, licenciamento de IP , joint ventures, bem como a entrega do projeto PlanIT Valley. """"""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""""" 9 Original no inglês: “platinum partner”. Optou-se pela tradução “parceiro de ouro” por ser a expressão em português mais usual para expressar o mesmo sentido. 74" " Ninguém do Conselho poderá ser funcionário em tempo integral na Living PlanIT SA. Essa medida garantirá a independência de pontos de vista diversos de um grupo de pessoas comprometidas a ouvir e equilibrar as necessidades e desejos das partes interessadas na empresa. O Chefe Executivo e sua equipe executiva apresentará um relatório ao conselho. Diante de todo o cenário do Valley aqui exposto nos restam algumas perguntas em relação ao contexto social da cidade inteligente, tais quais: Qual será a relação entre o piloto da cidade inteligente e sua vizinhança, nomeadamente, com a cidade de Paredes e seus arredores? E quão funcional e socialmente diversificado será o piloto por dentro? Como mencionado anteriormente, essas são questões importantes a serem trazidas, em uma estrutura de planejamento para os pilotos da cidade inteligente em grande escala. Na maioria dos press releases e materiais de comunicação, a Living PlanIT salienta a sua responsabilidade social, e mostra-se ciente de que o sucesso de um projeto como este depende da harmonia entre o piloto e a área envolvente, nomeadamente para assegurar o apoio político e social de seu desenvolvimento. Do ponto de vista corporativo, o Vale da Living PlanIT segue a política de comunicação integrada e transparência conhecido como "Relatório Um", instrumento usado para refletir o impacto social e ambiental das ações da empresa, a fim de garantir o alinhamento dos interesses econômicos privados com o meio ambiente e sociedade. Além dessas declarações expressas da empresa, a Living PlanIT tem previsto a realização de um "Centro de Experiência" para a cidade de Paredes, para servir como um centro de treinamento e educação, onde os moradores poderiam conhecer tecnologias limpas que estão previstos para permear o Vale no futuro. Além disso, o Centro iria funcionar como uma âncora estratégica para comunicação e atividades de marketing relacionadas com o piloto (uma prática comum para semelhantes pilotos em grande escala). Além disso, o Vale vai produzir mais energia do que consome o que permite a comercialização de energia limpa para a população local. Obviamente, e, de longe, a maior ligação e benefícios sociais esperados com o desenvolvimento do PlanIT Vale estão associados com as expectativas de criação de emprego. A Living PlanIT espera a criação de 12.000 cargos durante o período de 75" " construção e mais 6,000 posições para apoiar o "funcionamento" do Vale depois (horeca, entretenimento, escolas, etc.). Além disso, existe um forte interesse das empresas locais no estabelecimento de lojas de varejo e comércio no interior. Ainda de acordo com a empresa, 20.000 novos postos de trabalho serão criados em posições de alta tecnologia além de outras dezenas de milhares de pessoas em posições de médiaalta. Ao olhar para a habilidade e base econômica da população local em Paredes e imediações - principalmente de baixa para média qualificações, desemprego estrutural e domínio das indústrias tradicionais e de baixa tecnologia - torna-se claro que muitos dos trabalhos que irão beneficiar a população local, pelo menos em médio prazo, são provavelmente aqueles com ocupação de baixa remuneração. No outro extremo, os empregos mais "criativos" e tecnologicamente orientados serão mais bem remunerados, e quando criados, serão suscetíveis de absorver as pessoas da região (graduados das universidades locais), mas também muitos deles se destinarão à mão de obra internacional e à funcionários de empresas estrangeiras. No entanto, existem outras questões cuja evolução ainda está por ser definida. Como será o benefício para a população local das instalações de alto nível e espaço público de PlanIT Valley? A cidade será acessível a todos ou funcionará numa lógica de condomínios de acesso restrito, que pode ser comparado as muralhas de Ur? A Living PlanIT vai oferecer novas oportunidades de aprendizagem para a população e comunidade local? Poderão as empresas locais (por exemplo, no campo dos negócios de design de mobiliário interiores, segmento forte na região de Paredes) beneficiarem-se de alguma forma com o projeto, ou será que serão beneficiadas principalmente indústrias de largo e intensivo conhecimento localizadas no Porto e outras cidades dinâmicas? Será que a interação entre a comunidade local e a comunidade esperada para ocupar o Vale se dará de forma harmoniosa? Outra questão importante refere-se ao planejamento da diversidade social e funções urbanas dentro do piloto. Os edifícios estão planejados para serem de usos mistos, abrangendo habitação, estabelecimentos comerciais, hotéis e restaurantes. Além disso, a abundância de espaços verdes, de lazer e amenidades de topo são planejadas. O piloto espera receber uma população de 200.000 pessoas, 110.000 deles funcionários 76" " das empresas parceiras, P & D e da respectiva família, que irá determinar, por meio de seus comentários e interação, como as soluções propostas irão atender suas necessidades. Living PlanIT estimativa que os habitantes serão compostos por diversas nacionalidades e culturas, a fim de criar um cenário de inovação, de responsabilidades ambientais, tolerância e criatividade (Carvalho et al, 2012). De acordo com o mencionado anteriormente, bem como com o funcionamento dos mercados imobiliários, é provável que os abastados (cientistas, engenheiros, criativos, etc) e suas famílias constituirão a maior parte dos habitantes do piloto. Esta composição social levanta a questão sobre se este é o clima mais adequado para interações inovadoras e se as soluções desenvolvidas estarão aptas para "reais" cidades (nomeadamente nas economias em desenvolvimento), onde esta composição e um conjunto de atributos serão dificilmente encontrados. Deveria o piloto ser planejado como um ambiente mais diversificado, permitindo que as classes sociais diferenciadas pode se estabelecer? Será que as tipologias habitacionais e preços permitem isso? Uma última pergunta, talvez uma das mais importantes, refere-se a governabilidade do piloto, que se desenvolve em direção a uma cidade de pleno direito. O CEO da Living PlanIT disse, recentemente, que o Vale teria seus próprios representantes políticos no futuro (Imobiliária, 2010). Mas como isso funcionaria? Como eles vão ser escolhido, e como a relação com a Câmara Municipal de Paredes desenrolar-se-á no futuro? Em relação as tributações, o “cidadãos cybernéticos” pagariam duplamente ? Ou estaria um dos entes (Paredes e o PlanIT Valley) dispostos a abrirem mão da arrecadação? Estes desenvolvimentos, nomeadamente a representação política, democrática e de participação do público nesses grandes e protegidos pilotos são, certamente, uma questão que merece muito mais atenção cuidadosa, já que outras iniciativas semelhantes começam a se revelar no mundo. 77" " * 3.3.4*A*Expectativas*da*Living*PlanIT* " De acordo com a estratégia da Living PlanIT, a empresa pretende atacar problemas em diversas áreas, como no impacto ambiental, na racionalidade econômica e na melhoria da sociedade propriamente dita. A LP diz se comprometer com a preservação, restauração das condições originais e valorização os recursos naturais e da biodiversidade nacional e internacional de maneira que transpõem as exigências regulatórias. A LP quer demonstrar ao mundo que não é apenas possível, mas um imperativo comercial, para minimizar (e em alguns casos reverter) o impacto ambiental negativo da atividade humana sobre os recursos da terra. Sensibilizando para os desafios ambientais, a LP pretende tornar-se o ponto de referência de desenvolvimento sustentável e estabelecer novos padrões ambientais a serem aplicados em todo o mundo. Como ilustração, Indicadores Chave de Desempenho (KPIs) e métricas de sustentabilidade serão projetados e monitorados, a fim de alcançar a meta da sustentabilidade. Além disso, um relatório de impacto ambiental inclui uma infinidade de aspectos no âmbito de um processo de consulta pública. De outra banda, a LP e seus parceiros pretendem criar um ambiente econômico que permita que os parceiros locais e globais cooperem, inovem e maximizem a criação de valor em situações vantajosas. Os componentes que integram este ambiente sustentável (edifícios, sistemas de infraestrutura, transporte, água, energia e resíduos, etc) tornam-se produtos (no todo ou em parte) para a implementação de nova construção ou reabilitação ambientes, realizando assim esta filosofia fundamental para qualquer região que se esforça para acomodar aceleração do crescimento urbano. Isto representa os princípios de escalabilidade e modularidade. Isso representa uma oportunidade de negócio enorme global emergente. Por exemplo, 9.200 novas cidades acomodando 500.000 habitantes serão construídas até 2050. Comunicação transparente integrado conhecido como "Relatório Um" serão empregadas para refletir o impacto social e ambiental sobre as declarações da empresa, a fim de garantir o alinhamento de interesses econômicos com o meio ambiente e a sociedade 78" " Ademais, a LP promete promover a criatividade, integridade, abertura e diversidade, bem como o trabalho em estreita cooperação com as comunidades locais. Viver PlanIT quer melhorar a qualidade de vida das pessoas e permitir-lhes, através da educação e formação ao longo da vida, de buscar e atingir a excelência pessoal. “Em cooperação com os nossos parceiros, a Living PlanIT desenvolve uma solução eficiente e soluções economicamente viáveis para a concepção do projeto, construção e gestão de operações de ambientes urbanos. Nosso modelo conecta pessoas, espaços e tecnologia em conjunto, a fim de aumentar a eficiência, produtividade e qualidade de vida nos espaços urbanos (Living PlanIT, 2011)” 3.4 – Considerações Finais Antes de concluirmos este capítulo, vale colocarmos aqui algumas questões de grande importância na discussão deste assunto. Primeiramente é importante levantar que o papel de investimento em estruturas urbanas foi historicamente um papel de exclusividade do Estado, numa análise bem simplória, a fundo perdido. Vivenciamos hoje uma nova realidade, onde a iniciativa privada se vê atraída em explorar comercialmente este tipo de investimento, que colocando em outras palavras, se tornou um negócio com uma alta carga de investimento e os retornos se não nas mesmas proporções, maiores. O movimento das smart cities é uma questão ainda prematura, mas uma realidade concreta. Imersa na efervescência das transformações sociais do cotidiano, que passa por reflexões profundas de suas estruturas, estas cidades encontram-se no estágio de busca da consolidação e cristalização de suas formas urbanas ainda incipientes e que deixam muitas questões no ar. Este trabalho não seria tão pretensioso a ponto de tentar responder todos os questionamentos que se coloca às novas formas e estruturas do planejamento urbano diante das mudanças estruturais por eles encadeadas. Vemos mais oportuno, porém, 79" " prestar nossa contribuição com a ciência através do levantamento de outras questões. Dessa forma a suscitar enquietamentos na sociedade acadêmica a respeito de uma temática tão atual que envolve em sua discussão inúmeras variáveis e diversas esferas de poder. Em que fase do desenvolvimento do planejamento urbanismo nos encontramos atualmente? Não estaríamos neste momento, se não já inseridos, ao menos, no rumo de numa nova fase das dinâmicas urbanas? Estas perguntas nos levam, em certo ponto, a refletir de forma crítica sobre as palavras colocadas por um dos mais renomados autores das questões urbanas, Edward Soja, quando em seu prefácio aponta: Es seguramente demasiado pronto para concluir con certeza que lo que le ha ocurrido a las ciudades desde finales del siglo XX es el comienzo de un cambio revolucionario o sólo otro pequeño giro en una vieja historia de la vida urbana.(2010, p.27) Em seu livro, Postmetropolis: critical studies of cities and regions, estruturado em 1996 e editado no ano 2000, Soja transparece pelo próprio nome de seu trabalho, que tende mais a pensar que se trata somente de mais um ajuste na “história da vida urbana”. Apesar de apontar, no decorrer de seus textos, sobre a velocidade dada aos processos diante das novas dinâmicas urbanas apoiadas na tecnologia da informação, possivelmente não previa que tais mudanças dos processos urbanos fossem ocorrer assim de forma tão rápida e radical. E nos leva ainda a outra pergunta; até que quando esta virada, se é que podemos colocar desta forma, irá responder aos nossos questionamentos e as dificuldades dos estudos e planejamentos urbanos? 4*–*Conclusão* * Neste trabalho tentamos demonstrar que as formas urbanas apresentam direta relação com os processos sociais contidos no tempo e no espaço, se construindo através de uma relação dialética de produção e reprodução. 86" " SOJA, Edward W. Thirdspace: Expanding the Scope of the Geographical Imagination, Cambridge, 1999. SOJA, Edward W. ; Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 324 p, 1993. SOJA, Postmetropolis: critical studies of cities and regions, Los Ángeles, Blackwell Publishing, 2000. TAVARES, Jeferson Cristiano. Projetos para Brasília e a cultura urbanística nacional. Dissertação de mestrado. São Carlos: EESC-USP, 2004. THE ECONOMIST , Living on a platform. Vol 11, p78, 4 de novembro, 2010. UNITED NATIONS, World Urbanization Prospects, the 2011 Revision, 2011, http://esa.un.org/unup/, acessado em 24 de agosto, 2012 VIDAL, Laurent. De Nova Lisboa a Brasília: a invenção de uma capital (séculos XIXXX). Brasília: Editora da UNB, 2009 "