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Tradicional contemporâneo

Tiago Simão Neto dos Santos

Abstract

Estará a palavra tradicional, nas concepções actuais, associada ao passado, separada do conceito de presente e futuro? Será que pode a tradição ser uma ferramenta contemporânea na produção da arquitectura? E de que forma pode ela entrar no vocabulário arquitectónico recente? Entenda-se por tradição um conjunto de heranças transmitidas ao longo do tempo e traduzidas em valores, normas, princípios, padrões. Assumindo isto, podemos aceitar que todos os momentos que de alguma forma romperam com a "tradição" criaram também eles novas "tradições". Vejamos o exemplo do Movimento Moderno, que quis romper com todos os "dogmas" do passado e que, ao criar novos princípios, torna-se também ele hoje, uma referência "tradicional", à qual podemos ir beber o passado para construir o presente, rompendo novamente com alguns destes "legados" e assim sucessivamente. Podemos deduzir que este processo de "criar tradição" gera-se pela rutura da própria tradição, como um percurso que é constantemente quebrado para se avançar (sempre somando novos elementos) sendo ele no final, uma linha cumulativa de ruturas e continuidades. Esta dissertação pretende clarificar os conceitos de tradicional e contemporâneo, face um tempo de continuidade e ruturas, analisando o processo que os separa, envolve e relaciona.

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Tradicional Contemporâneo Entre a continuidade e a ruptura Tiago Simão Neto dos Santos FAUP | 2015 Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Orientador: Arquitecto Francisco Vieira de Campos 2 Estilos arquitetónicas locais reconheciveis O que resta atualmente dos estilos locais? Abstract In today’s conceptions, is the word traditional, associated with the past, separated from present and future concept? Can the tradition be a contemporary tool for architecture’s production? And in what way can it fit in recent architectural vocabulary? By tradition it refers to a sum of heritages transmitted through time and translated into values, norms, principals, standards. Taking this into account, we can assume moments that some way broke with “tradition” came up with new “tradition” themselves. Just take a look at Modern Movement that wanted to break with all the past “dogmas” and by creating new principals it also became today a “tradition” reference, in each we can “drink” from the past in order to build the present, breaching again with certain “legacies” and so on. We can imply this process of “tradition creating” is generated by disrupt in tradition itself, the same way a trail is constantly broke allowing us to move forward (always adding new elements) being itself a cumulative line of disrupts and continuities. This thesis aims to clarify the traditional and contemporary concepts, in a context of continuity and rupture, analysing the process that involves and connects themselves. 5 Sinopse Estará a palavra tradicional, nas concepções actuais, associada ao passado, separada do conceito de presente e futuro? Será que pode a tradição ser uma ferramenta contemporânea na produção da arquitectura? E de que forma pode ela entrar no vocabulário arquitectónico recente? Entenda-se por tradição um conjunto de heranças transmitidas ao longo do tempo e traduzidas em valores, normas, princípios, padrões. Assumindo isto, podemos aceitar que todos os momentos que de alguma forma romperam com a “tradição” criaram também eles novas “tradições”. Vejamos o exemplo do Movimento Moderno, que quis romper com todos os “dogmas” do passado e que, ao criar novos princípios, torna-se também ele hoje, uma referência “tradicional”, à qual podemos ir beber o passado para construir o presente, rompendo novamente com alguns destes “legados” e assim sucessivamente. Podemos deduzir que este processo de “criar tradição” gera-se pela rutura da própria tradição, como um percurso que é constantemente quebrado para se avançar (sempre somando novos elementos) sendo ele no final, uma linha cumulativa de ruturas e continuidades. Esta dissertação pretende clarificar os conceitos de tradicional e contemporâneo, face um tempo de continuidade e ruturas, analisando o processo que os separa, envolve e relaciona. 7 Índice A tradição já não é o que era 1 Possíveis definições 1.1 Tradição 1.2 Contemporâneo e novidade 1.3 Tradição e radicalidade – continuidade e rutura 2 Conteúdos e problemáticas da tradição face à contemporaneidade 2.1 Identidade cultural 2.1.1 Uma crise de identidade 2.1.2 O pluralismo cultural 2.1.3 Construir cultura 2.2 Memória 2.2.1 Memória coletiva 2.2.2 Rutura e esquecimento 2.2.3 Construir memória 2.3 Lugar 2.3.1 Genius loci num mundo globalizado 2.3.2 Erosão do lugar – globalização VS Locus 2.3.3 Regionalismo (menos) crítico 2.3.4 Construir lugar 3 O passado como matéria da arquitetura 3.1 A lição do passado 3.2 Atitudes frente ao passado 3.2.1 Continuidade 3.2.2 Rutura 3.2.3 Movimento moderno 3.3 Continuidade pela rutura 4 Possibilidade de tradição 4.1 Tradição e invenção 4.1.1 Tradição e talento individual 4.2 Inovação e tradição 4.3 Material como testemunha 4.4 Cumplicidade: tradição e analogia Tradicional contemporâneo Bibliografia Índice de imagens 7 9 17 23 25 38 37 41 43 51 53 55 57 61 63 71 75 83 93 101 101 105 107 111 117 125 129 133 139 147 153 156 8 Per Line, Noruega, 2011 por Rasmus Norlander - 001 9 A trAdição já não é o que erA Tudo começa de novo, tudo continua - Georges Perec “Falar de tradição (…) é entrar nos múltiplos significados da historia, abordar o progresso e o conceito de evolução – o que se perde e o que se ganha para uma sociedade – falar do sentimento de uma cultura, da traição às tradições herdadas, da moral e da ética, do pudor do individuo, da nostalgia, do medo á entrega e aos disfarces que adota a sobrevivência, do autentico e do falso, das suas imposturas, das relações com o passado e da volta às origens. Falar de tradição é faze-lo de síntese e criação, de regressão e modernidade, de preexistências e de um património que nos explica de donde vimos e para onde intuímos ir. É também da interpretação através da qual no chegam as obras do passado e transcende no tempo, da consciência da continuidade, das ruturas e da mudança, o que significa transgredir ritos e costumes, de desobediência, rebeldia e arrependimento. Falar de tradição é ser consciente da fidelidade e da deslealdade á historia, da cultura do novo e da moda numa sociedade que necessita de renovar-se em todo o momento e onde as coisas sobrevivem e se transformam, do que permanece e do que não volta mais, das contiguidades e das transmissões, das relações e intercâmbios, do que significa ser moderno e ser conservador. Falar de tradição é compreender a complicada convivência entre a arte e seu tempo, o desenraizamento cultural e o desemparado do individuo, da consciência histórica como forma de progresso numa sociedade cada dia mais amnésica. É compreender os sentimentos das pessoas sobre as coisas que envolvem a nossa existência e que se repetem de geração em geração. Falar de tradição é falar de controvérsias e desencontros, de feridas e erros que se arrastam, da perda e recuperação da memória, de melancolia e recordação, das dúvidas ante o curso que tomam os acontecimentos, das encruzilhadas e os anacronismos, da supressa de certos atos regressivos que presumem a renovação da nossa cultura: á das artes e da ciência. Tem algo que afeta a nossa própria existência esta agridoce tradição.”1 Precisamente! Quer queiramos quer não somos constituídos, produto e 1 SANTOS, Juan Domingo; La tradición innovada:escritos sobre regresión y modernidad,Barcelona,Fundación Caja de Arquitectos,2013, p 59 Arquitetura Popular em Portugal, Fernão Ferro - 004 17 1 Possíveis definições 1.1 Tradição A tradição é a única garantia de que os mortos deixaram de ser mortos, de que permanecerão vivos para sempre - Walter Benjamin A tradição não é mais que a presença unificada das experiências dos povos - Ernesto Nathan Rogers Um conjunto de conceitos gira em silêncio em torno do que designamos por tradicional: passado, memória, cultura, origem, legado, signos, mitos, utopias, transmissão e continuidade. Estes movem-se de forma entrelaçada e omnipresente dando forma à nossa identidade. A tradição funciona como um sistema de convenções e códigos que explica, dá sentido e confere legitimidade a atos e construções ao longo do tempo. Carateriza-se por estar consciente ou inconscientemente gravada na memória coletiva de uma sociedade que através da observação, repetição e reprodução garante durante gerações a sua continuidade. Abarca um conjunto de valores, regras, formas e atitudes que se manifestam desde a vida quotidiana até ao pensamento científico e filosófico. É algo vivo e em constante mutação, um processo evolutivo que ocorre através de mudanças subtis, lentas e contínuas. Fortemente enraizada na sociedade e constituída por muitas camadas, a “tradição é uma sedimentação de imagens e experiencias que não podem ser inventadas, apenas vividas”1, “não pode ser herdada [mas,] obtida com árduo labor”2 Quando falamos de tradição referente à arquitetura, não nos referimos à representação de caprichos decorativos ou manifestações barrocas3, nem a uma leitura pós-modernista, que procura significados ou se refugia 1 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 1 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, p 138 2 T.S. ELIOT; “Tradição e Talento Individual” (1920) in Ensaios, São Paulo, Art Editora, 19 89, p 37 – embora o autor referira-se sempre ao contexto da poesia, penso que pode ser aplicado ao domínio da arquitetura 3 TÁVORA, Fernando; Fernando Távora, editado por Luiz Trigueiros, Lisboa. Blau, 1993, p 12 - “A arquitetura tradicional não representa capricho decorativo ou manifestação barroca. De inico, e aí com o seu verdadeiro sentido, as formas arquitetónicas resultam das condições impostas ao material, pela função que é obrigado a desempenhar, e ainda de um espirito próprio daquele que age sobre o mesmo material. Daí que em toda a boa arquitetura exista uma logica dominante, uma profunda razão em todas as suas partes, uma íntima e constante força que unifica e prende entre si todas as suas formas, fazendo de cada edifico um corpo vivo, uma organismo com alma e linguagem própria.” 18 Abrigos ‘Ställe’, Christoph Engel - 005 19 na ambiguidade, no simbolismo ou no vernacular, nem é uma interpretação neorracionalista do passado que nos remete para uma simples coerência entre as formas. A tradição na arquitetura portuguesa, por exemplo, está muito vinculada com a arquitetura popular, com o universo social, estético e construtivo das arquiteturas regionais, muitas delas feitas por ‘não arquitetos’ mas conduzidas por uma necessidade e produzidas pelo saber empírico de gerações. Apresentada como um corpo de conhecimento objetivo que abrange os seus aspetos formais, compositivos e construtivos, a “arquitetura tradicional é uma invenção do espirito; ela possui uma universalidade maior que as línguas, pois os seus elementos são compreensíveis sem tradução”4 A tradição não é algo confinado, hermético e obsoleto mas um estímulo, um percurso, “um vetor cuja trajetória se inicia num ponto do passado, e por um instante, toca o presente e perde-se no futuro.”5 Esta “garante o futuro, a continuidade da cultura e o encontro permanente com outros equilíbrios.”6 A tradição, os símbolos e os mitos por vezes não se explicam ou não se conseguem explicar. É uma espécie de conhecimento popular, por vezes verdadeiro, e que representa uma parte absolutamente central da nossa sociedade. “A arquitetura é cúmplice de fazer mitos porque é o lugar onde todos encenamos as nossas vidas, tornamo-las significativas acreditando em coisas, acreditando em mitos. (…) Isto serve de pano de fundo a toda a arquitetura.”7 De natureza conservadora e resistente, a tradição é a base de uma sociedade. Manifesta-se na organização e orientação dos aglomerados populacionais, nos hábitos, nos rituais, nos tipos construtivos, nas técnicas e tecnologia de construção, nas formas e funções dos espaços, nos elementos decorativos e valores simbólicos que vão passando de geração em geração. É nessa cadeia de transmissão e de partilha dessa sabedoria e valores através das gerações que se mantém a identidade e a coesão, tanto individual como coletiva, no seio da comunidade de pertença. Mais que um processo de transmissão limitado cronologicamente a tradição deve ser considerada como um reportório á disposição para poder ser ativado e manipulado com o fim de criar e acrescentar valor ao que se pretende produzir. A tradição, mutante e em constante evolução, é legado e não uma so- 4 KRIER Leon; Arquitectura: escolha ou fatalidade, Lisboa, Estar, 1999, p 183 5 SANTOS, Juan Domingo; La tradición innovada: escritos sobre regresión y modernidad, Barcelona, Fundación Caja de Arquitectos, 2013, p 7 6 Idem, p 8 7 FRETTON, Tony; entrevista em Revista NU #40, fevereiro 2013, Coimbra, Edições NUDA, p 38 20 Fundação Centro de Arte Prada, Milão 2015 por OMA - 006 21 brevivência do passado.8 Mais do que repetida, copiada ou rejeitada como um objeto usado, deverá ser alvo de análise e crítica, combinando o melhor do ‘antigo’ e do ‘novo’9 de modo a gerar novas formas e questões, ou como diria Adolf Loos “uma mudança no que respeita ao tradicional (…) só é permitida se essa mudança representar uma melhoria.”10 Porém na era contemporânea, onde o sentimento da globalização e da homogeneização se instala e onde o culto da imagem e do high-tech é preferido, a tradição tem sido alvo de transformações gerando o desaparecimento e surgimento de novos hábitos, novas atitudes e novos objetos cada vez mais sujeitos a uma lógica económica, mercantil e de espetáculo. O mesmo aconteceu com as formas de transmissão. Hoje são realizadas cada vez mais pelo multi-toque num ecrã e pela internet que rapidamente nos liga a qualquer parte do mundo. A tradição por vezes confundida com historicismo, atualmente vista como nostálgica e conservadora, é cada vez mais rejeitada ou esquecida da nova formulação de um projeto, imperando outras preferências estilísticas e artísticas, e onde por vezes a novidade e o único aparecem destacados como último reduto de qualidade. Como aponta Juhani Pallasmaa de forma radical, hoje só é aceite “a última proposta da moda, em particular qualquer proposta capaz de vender um disfarce formalista e fútil, que favorece apenas a redundância e a excitação, como diferença genuína.”11 De facto, o que se publica hoje demonstra que a coerência e harmonia da paisagem urbana e os seus estratos históricos são cada vez menos considerados objetivos da produção arquitetónica. A singularidade artística e a invenção formal tendem, nesta época em que os olhos estão fixados no presente e no futuro, a substituir a busca de um significado existencial arreigado por algo de consumo rápido, adaptado a estratégias de imagens e persuasão comercial. Contudo, há também quem defenda que as forças homogeneizadoras da era global mais do que equalizarem e levarem a perda dos valores, fortalecem as tradições existentes, proporcionando, tal como um produto, mais seguidores com o objetivo de a manter viva, sendo por vezes copiadas para outros pontos geográficos. 8 COSTA, Alexandre Alves; Textos datados, Coimbra, Edarq, 2007, p 86 9 AALTO, Alvar, “The architet’s conscince” em Architecture Culture 1943-1968: a documentary anthology, New York, Columbia Books of Architecture, 2000, p 250 10 LOOS, Adolf; Escritos I - 1897-1909, 2ª ed, Madrid, El Croquis, 2004 11 PALLASMAA, Juhani; Os olhos da pele: a arquitetura e os seus sentidos, São Paulo, Bookman, 2011, p 29 22 Heydar Aliyev Center 2013 por por Zaha Hadid - 007 23 1.2 Contemporâneo e novidade O que ou quem é do mesmo tempo ou da mesma época; coetâneo; coevo; que ou quem é do tempo actual. 12 É considerada contemporânea toda arquitectura produzida depois da pós-modernidade nos anos 80 e início de 90 até os dias atuais. Pressupõe-se que actualmente toda a intervenção arquitectónica, deve adequar-se ao conhecimento estruturado das ciências humanas. Não se consegue imprimir uma visão prospectiva e de futuro para a arquitetura, sem o conhecimento histórico das experiências formais e espaciais do passado, intimamente ligadas à lenta evolução das técnicas no tempo. Contudo, assiste-se também a alguma perda do sentido de historicidade, pertença e identidade que parece emergir cada vez mais em locais de rápido desenvolvimento económico hegemónico tornando-se visível na produção de arquitetura fashion, isolada e adaptada à retina de uma câmara, onde o novo é procurado apenas por causa da sua novidade13 como se a novidade e as novas formas fossem em si mesmas um fim. Esta novidade, do ‘nunca antes visto’ onde o êxtase nunca é suficiente, encontra-se na maior parte das vezes relacionada com novas formas, materiais e técnicas, tautológicas, produzidos por avanços tecnológicos que com relativa facilidade permitem a criação e manipulação das mais variadas superfícies complexas. Normalmente sem conectividade com a história, corpo e o lugar, estes objetos arquitetónicos tornam-se distantes e isolados no espetacular do reino da visão. A perda da plasticidade torna-as simplistas e lisas, mecânicas e processadas, sem idade ou tempo, longe do que se considera a verdadeira matéria de arte tornando-a habitável aos olhos e não ao corpo.14 Da novidade é esperada que evoque interesse e excitação enquanto que qualquer referência ao mundo tradicional, com o objetivo de tentar fortalecer o contínuo da tradição, é visto com reacionismo, como uma fonte de tédio. Substituída pelo aspeto visual, a cultura contemporânea parece ter perdido a capacidade de se identificar com os valores essenciais. Usando uma expressão do Ítalo Calvino, hoje vemo-nos cada vez mais “inundados pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas“15 numa busca obsessiva, entediante e repetitiva de 12 in Dicionário Universal Milénio de Língua Portuguesa, Lisboa, Texto Editora, 2003 13 SVENDSEN, Lars, citado em PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 2 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, pág. 136 - “as the new is searched only because of its newness, everything becomes identical, because it has no other properties but its newness” 14 PALLASMAA, Juhani; Os olhos da pele: a arquitetura e os seus sentidos, São Paulo, Bookman, 2011, p 25 15 CALVINO, Italo; Seis propostas para o próximo milénio, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p 107 24 Museu das confluências em Lyon, 2014 por Coop Himmelb(l)au - 008 25 novidade. Será a novidade uma relevante aspiração da qualidade arquitetónica? Face ao pressuposto do início deste capítulo, será possível gerar um futuro sem o passado que o concebeu? Acredito que a verdadeira arquitetura faz-nos conscientes de toda a história e estrutura a nossa leitura de continuidade no tempo. Por exemplo, um carro Porsche que tenha sido contruído após a Segunda Guerra Mundial tem uma maior semelhança com o novo Porsche ‘mas mais contemporâneo’ comparado com os corpos angulares de carros desportivos dos anos setenta. Da mesma maneira que se efetuarmos uma pequena análise da história, verificamos que toda a arquitetura ou movimento volta aos seus motivos originais: ao lugar, ao passado, ao homem, e ao que demais importante existiu. A novidade é geralmente associada ao individual, à autoexpressão e à radicalidade – do novo é esperado surpresa e espanto – por vezes envolta de gestos arbitrários e vazios e de formas complicadas. “O significado da arquitetura não é só a forma, mas a sua capacidade de revelar profundidade. (…) Aqui vemos a distinção da arquitetura da forma, da arquitetura da essência.”16 O novo faz-nos crer que é sempre melhor que o antecedente. Graças às novas tecnologias, ao excesso de informação e à vasta gama de soluções e produtos que a industrialização nos oferece e permite criar, a novidade é cada vez mais banal, efémera e virtual. A condição de novidade, por vezes, como uma ‘tabula rasa’, contamina a continuidade cultural e nega o local como ação coletiva. Contudo “a estratégia formal mais radical é aquela que considera e representa o existente e o conhecido.Desta forma, a produção artística pode-se envolver criticamente com uma situação existente e contribuir para um discurso cultural permanente e progressivo.”17 1.3 Tradição e radicalidade – continuidade e rutura Toda a rutura influente advém da continuidade - Javier Aparicio Maydeu Só é concebível rutura á luz da tradição - Francis Bacon Toda a tradição foi também ela inovação e rutura, que com mais ou menos relutância foi sendo consolidada e convertida em lugar comum. 16 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 1 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, p 317 17 CARUSO, Adam; Caruso em “The tyranny of the new” em The Feeling of Things, London, Ediciones Plígrafa, 2008, p 35 32 Tara house, 2005 por Studio Mumbai - 012 33 2 Conteúdos e ProblemátiCAs dA trAdição fACe à ContemPorAneidAde 2.1 Identidade cultural O sentimento de enraizamento e de pertença é a insubstituível base da humanidade e da tradição. A identidade tanto cultural como individual é uma construção constante e mutante. Crescemos sendo membros de um contexto, cultura, sociedade, língua, geografia, em constante relacionamento com objetos e práticas, expostos às várias influências que nos vão moldando a personalidade ou caráter “A identidade não é um facto oferecido nem algo fechado. É uma troca; como se relaciona com um lugar e como o lugar se relaciona comigo.”24 A identidade cultural representa valores de permanência, de resistência, que expressam as qualidades específicas de cada comunidade. Com a noção de que a palavra ‘comunidade’ está ligada à palavra ‘cultura’, que por sua vez tem a sua origem na palavra ‘cultivo’ – quase como vários conceitos agrários ligados ao fator de enraizamento. De forma lata, a identidade é o que nos define, carateriza, distingue dos demais e está relacionada com o que somos e com a forma como vemos o mundo. Está em movimento e é constantemente reconstruída e reorganizada pelo presente. A diferença impera como critério formador da identidade de um individuo, de uma cidade ou de um país mas, no entanto também esta é feita de semelhanças. As nossas estruturas em rede, hiperconcentradas e globais, facilitam o acesso a uma vasta informação que partilhamos. Com esta, a nossa identidade também se constrói de forma semelhante (cultural) e distinta (individual). “A identidade é sentir-se alguém de algum lugar”25 disse Eduardo Souto Moura. Esta é também um jogo complexo, entre referentes globais massificados e memórias, símbolos, hábitos e contextos. A identidade é, com efeito, um atributo essencial da arquitetura 24 PALLASMAA, Juhani; em “Newness, tradition and identity: existential cotent and meanig in architecture” em Architectural Design n 220, London, Wiley, nov/dez 2012, p 18 25 SOUTO DE MOURA, Eduardo; em entrevista ao jornal El Pais, 26 de maio de 2007, Madrid, [consultado via online 19/01/2015] 34 ‘Portas’ por Jorma Hautala - 013 35 autêntica, e não dos sucedâneos modernos que pensavam que a obra deveria responder a uma ideia ou conceito, convertendo-a num veículo de comunicação, de algo distante da sua própria natureza. Aliada à memória, a identidade dá testemunho de locais, conhecimentos e culturas. Cada cultura possui uma história própria que nasce e vai crescendo lentamente com o tempo e em contato com o passado. O conceito de identidade não é fixo. A identidade é mutante e transitória ao longo do tempo. Não se trata de uma representação só do espaço, mas tal como nos refere Mies van Der Rohe, deve representar o tempo em que vivemos porque, cada época ou geração tem as suas próprias caraterísticas, necessidades e questões que vão alterando as ideias, as conceções e as formas que consagram uma identidade. É exatamente aí que a História desempenha um papel importante, explicando os meios e os modos pelos quais aquele tempo pode ser identificado e compreendido. Dever-se-á compreender a identidade como um mosaico, ou mesmo como umacollagede infinitos elementos distintos, conexos e desconexos, em que quando unidos não definem uma identidade única e estática mas, um conglomerado de fragmentos dinâmicos que aglutinam-se e reforçam-se mutuamente enquanto significado no tempo e no espaço, passando para além de nós próprios, do ’eu’, e abrindo-se para a alteridade. Muitas da práticas culturais estão ligadas rapidamente não a um conhecimento e estilo universal, mas às condições dos locais, clima, topografia, vegetação, materiais e saberes – como a arquitetura vernacular que parecendo ter crescido do solo, adapta-se ao específico contexto, gerando identidade local. “Tudo isto me conduziu à ideia de identidade (…) A identidade é algo singular, típico mas é também uma eleição.”26 Uma outra dimensão da identidade e da tradição é o ornamento que, mais do que elementos estéticos de função retórica, é um conjunto de elementos que representam uma cultura e por isso, “inseparável de uma dimensão social ligada às formas de produção”27 e aos significados que acarretam. Uma das melhores definições de ornamento, no contexto da tradição, é sem dúvida a que arquiteto José Miguel Rodrigues oferece acerca da análise sobre a obra escrita de Adolf Loos: “O ornamento é o trabalho, não de um homem, mas de uma cultura no seu todo. A evolução do ornamento ocorre por aperfeiçoamentos sucessivos a partir dos conhecimentos herdados, constituindo o resultado de uma tradição herdada.”28 26 ROSSI, Aldo; Autobiografía científica, 2ª ed, Barcelona, Gustavo Gili, 1998, p 27 27 RODRIGUES, José Miguel; O mundo ordenado e acessível das formas da arquitectura: tradição clássica e movimento moderno na arquitectura portuguesa: dois exemplos, Porto, Afrontamento, 2013, p 166 28 Idem, p 169 36 Haus Gugalun, Versam, 1990, Perter Zumthor - 014 37 O ornamento seria algo que identificava, expressava e relacionava-se com uma cultura e que devia ser desenvolvido afim de não ser esquecido ou criado um novo “ornamento moderno (ou contemporâneo), pois redundaria em falsidade.” 29 O desenvolvimento da identidade cultural requer uma atitude autorreflexiva face ao existente, uma capacidade de separar o bom do mau, consolidando o bom e descartando ou corrigindo o mau. Nos últimos anos assistimos a um interesse crescente pela procura de identidade no meio dos fenómenos da globalização, existindo quem defenda que essa identidade está patente, no meio rural, na arquitetura vernacular onde as soluções propostas são o resultado de séculos de empirismo. A arquitetura tem aqui um papel fundamental. Ela é essencialmente uma forma de reconciliação e mediação. Para além de nos estabelecer e reconhecer num lugar (espaço, praças e edifícios) faz a ligação entre passado e futuro, constituindo-se como um dos mais importantes redutos da memória. “Nós compreendemos e lembramos quem somos através das nossas construções, tanto materiais como mentais. Também analisamos as culturas passadas através das evidências fornecidas pelas estruturas que a arquitetura produziu. Os edifícios projetam as narrativas épicas das culturas e tradições.”30 No entanto, como acontece com a arquitetura, o rural ainda é remetido como repositório da tradição, da cultura e de progresso lento, já o urbanismo é entendido como sinónimo de desenvolvimento, progresso e rapidez. Contudo, com a revolução das tecnologias de informação, transversal a todas as sociedades, fez com que o rural já não seja visto como um objeto isolado e estático. A contaminação global da internet deixou de ser um fenómeno técnico e passou a ser um fenómenos social, económico e cultural. 2.1.1 Crise de identidade ou crise de ideias Terá a cultura esquecido as questões culturais e sociais? Estaremos a passar por uma crise de identidade? O que estamos a assistir não é a uma perda ou desinteresse mas talvez a uma ‘evolução’. Hoje, devido à globalização, a nossa cultura é de mudança, 29 LOOS, Adolf; “Ornamento y delito”, Escritos I - 1897-1909, 2ª ed, Madrid, El Croquis, 2004, p 351 30 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 2 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, p 23 38 Wohnhaus Schlesisches Tor, ‘bonjour tristesse’ 1983 por Álvaro Siza - 015 39 transformação e metamorfose31 e afeta todos os acontecimento da vida. Exemplo disso é o nosso quotidiano e o que nos envolve, executado cada vez mais segundo modelos da economia global.32 De facto, a universalização da cultura, prorrogada pela ideia de progresso implícita desde o humanismo, ganhou mais força através das novas tecnologias de comunicações que, em parte, fazem com que os lugares se pareçam cada vez mais uns com os outros, incrementando-se a necessidade de reforçar a identidade, alimentando posições e arquiteturas de resistência. Sendo a arquitetura construtora da nossa identidade e um veículo que expressa essencialmente o lugar e a cultura de uma sociedade, a globalização tem, aos poucos, erradicado esse enraizamento dando origem a uma arquitetura efémera e frívola, sem relação com o lugar e o contexto social. Como nos lembra Álvaro Siza “um edifício em Berlim deve explicar sua localização.” O medo da perda ou diluição da identidade devido à globalização levou a que, de alguma forma, nos últimos tempos se tenha investido muito com a preservação dos centros históricos e com património disperso, como um encapsulamento de referências identitárias.33 A arquitectura compreendida como arte social de uma cultura tem vindo a ser esquecida enquanto a ideia de arquitetura como forma de atelier e laboratório se tem intensificado: “obras neo-avant-gard são apresentadas como um produto de génios individuais. Paradoxalmente, a autenticidade artística e a autonomia da arquitetura são hoje rebaixadas por três tendências culturais: a mercantilização dos edifícios, a busca autodestrutiva da novidade, e a hegemonia da imagem comercial (sendo) suportadas pelo jornalismo comercial da arquitetura e a voracidade do entretimento global e da indústria do turismo.”34 Curiosamente, estamos mais informados e temos mais informação do que nunca, mas cada vez mais distanciados dos elementos e signos que formam a nossa identidade cultural de raiz, desconhecedores da própria história e pelo contrário, mais próximos e integrados nos fundamentos globais. Ao “abandonar as nossas velhas histórias de sempre supõe o início de uma ‘nova’ cultura desprovida de referências próprias.”35 Afigura-se que o destino do homem contemporâneo seja o desenraizamento, uma 31 SANTOS, Juan Domingo; La tradición innovada: escritos sobre regresión y modernidad, Barcelona, Fundación Caja de Arquitectos, 2013, p 69 32 CENICACELAYA, Javier; Revista NU #03, junho 2002, Coimbra, Edições NUDA, p 21 33 DOMINGUES, Alvaro; entrevista em Revista NU #40, fevereiro 2013, Coimbra, Edições NUDA, p 87 34 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 1 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, pág. 192 35 SANTOS, Juan Domingo; La tradición innovada: escritos sobre regresión y modernidad, Barcelona, Fundación Caja de Arquitectos, 2013, p 55 40 Le Touquet, 1985, Gabriel Basílico - 016 41 condição que leva progressivamente à perda da sua origem. Provocado pelo crescimento de velocidade “tornando-nos personagem sem sitio, nómadas, de nenhuma terra e de todas de uma vez,”36 onde cada vez mais estar em transito é condição universal,37 levando-nos a um desaparecimento da tradição como a conhecemos hoje. O que também parece existir é um discurso que nos remete para argumentos de mero formalismo. Eduardo Lourenço, refere que sofremos um excesso de identidade, no sentido que somos confrontados com várias, um paradoxo que nos estará a afastar de uma reflexão sobre a nossa verdadeira identidade, visto que esta também se constrói e adapta. 2.1.2 – Pluralismo cultural As tradições dissolvem-se, já não existem identidades culturais fechadas - Peter Zumthor Frente à antiga tradição, (…) a tradição moderna está condenada à pluralidade - Juan Domingo Santos Os territórios ao longo dos tempos foram sempre alvo de fluxos migratórios e mestiçagem originando distintas configurações culturais. Outros fatores mais recentes como a inserção de sistemas internacionais mercantis e industriais também contribuem para esta mescla de culturas que combina desde a linguagem á alimentação, do folclore á criação artística, dos hábitos á religião, demonstrando uma permeabilidade a influenças externas. Este pluralismo e permeabilidade são caraterísticas da cultura contemporânea e não são indiferentes á arquitetura. Perceber de onde chegam estas influências, como se enraízam e combinam são aspetos que devemos ter em atenção na produção arquitetónica. Tal como Rem Koolhaas aponta, para fazer arquitetura é necessária essa permeabilidade e globalização, para que exista uma “cross-fertilzation beetween cultures.”38 Exemplo disso é o Seagram Building de Mies van Der Rohe que só foi possível combinando a inteligência da cultura americana e alemã.39 36 Idem, p 49 37 KOOLHAAS, Rem, e MAU, Bruce; S, M, L, XL, Office for Metropolitan Architecture, 2ª ed, New York, The Monacelli Press, 1998, p 1252 38 KOOLHAAS, Rem, e MAU, Bruce; em “Globalization” in S, M, L, XL, Office for Metropolitan Architecture, 2ª ed, New York, The Monacelli Press, 1998, p 363 39 Idem, p 363 48 Mercado municipal de Santa Maria da Feira, 1953 por Fernando Távora - 020 49 uma certa desconfiança por alguns dos caminhos da arquitetura moderna, que reconhecia a incapacidade dessa arquitetura para resolver alguns problemas, não só em termos de construção; por sua vez, uma repugnância por aquilo que se chamava de arquitetura oficial (…)”50 Não existe na obra deste arquiteto moderno e admirador de Le Corbusier e por toda a aventura modernista do seculo XX, uma modernidade que não esteja comprometida com os valores da identidade cultural, “sempre ombreado, nostalgicamente, com os da tradição,”51 nem um enraizamento que não seja assumido numa absoluta modernidade. Um dos exemplos que carateriza esta relação dialética, de passado e presente, integração e rutura, modernidade e tradição, é sem duvida o Mercado da Vila da Feira onde a “tensão que vem da dialética entre integração e rutura, entre espaço interno (que é exterior e semi-exterior) e sítio; entre percurso e pausa, entre tecnologia nova e construção comum, estando sempre estes termos – e outros – assumidos como opostos mas resolvidos em formas simples. Obra que transcende o panorama português para se classificar entre as obras-primas da arquitetura europeia dos anos cinquenta.”52 De desenho moderno, o mercado não esconde mas assume a arquitetura popular, no uso dos materiais tradicionais, como o azulejo, associados aos novos materiais e aos planos inclinados das coberturas, que se relacionam com os projetos Corbusianos. Fernando Távora ensina-nos como através dessa tensão e dialética se atinge também a reconciliação, uma posição de síntese, atenta e perspetiva da realidade, encontrando a verdadeira raiz e génese da identidade. Verificamos também nas obras de Marques da Silva ou Ventura Terra a construção com referências claras aos locais ou referências recolhidas em viagens. Também as obras de Raul Lino demonstram uma conjugação de forma eficaz aspetos da vida doméstica com a tradição local. Obras plenas de modernidade que atribuíam ao mesmo tempo continuidade à historia e tradição,53 contaminando Álvaro Siza e Távora já influenciados pelas correntes regionalistas que começavam a surgir nos países nórdicos. 50 FRECHILLA, Javier, “La quinta da conceição:opus con amore”, em Távora, DPA 14, Edicions UPC, Barcelona, 1998, p 27 51 COSTA, Alexandre Alves; em Fernando Távora, editado por Luiz Trigueiros, Lisboa. Blau, 1993, p 17 52 PORTAS, Nuno; em Organização do Espaço de Fernando Távora, 6º ed, Porto, FAUP publicações, 2006, p VIII e IX 53 CENICACELYA Javier e BAGANHA José; Arquitetura Ibérica - Tradição e Sustentabilidade, n 7, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2005, p 65 50 Aproximação da sombra, 1954, por Fan No - 021 51 2.1 Memória A arquitetura glorifica e eterniza alguma coisa. Quando não há nada a glorificar não há mais arquitetura, cultura e memória - Juhani Pallasmaa A memória, de mãos dadas com a tradição, enquanto caixa que coleciona, guarda e recicla referências passadas, está constantemente a reorganizar o presente. É o que nos permite falar do passado, interpretar o presente e projetar o futuro. Sem memória não há pensamento, identidade, cultura ou arquitetura porque “uma pessoa amnésica não consegue produzir arquitetura”54 Elemento cognitivo de primeira ordem, esta é um processo mental e a faculdade de reter ideias, imagens, metáforas, experiências e acontecimentos, sobrepondo-se por camadas que nos fazem compreender e construir algo. Trata-se de um complexo sistema de relações que faz parte da vida humana e da cultura, com reflexos na arquitetura. Como Paul Auster refere, na memória é onde as coisas acontecem pela segunda vez.55 A memória tem a tarefa de atribuir significado ao presente. Ela seleciona inconscientemente, peneira as recordações, e não reside nos edifícios ou objetos mas na nossa relação com eles, através do afeto, reconhecimento e conhecimento. Sem memória não existe tradição. Esta situa-nos, fundamenta edifícios e objetos, ações e rituais, intermedeia-nos e dá sentido ao tempo passado conferindo-lhe significado. É através de estruturas arquitetónicas, como por exemplo as pirâmides do Egito, que é possível de entender a profundidade do tempo. A ideia das pirâmides sustenta, arca e concretiza um tempo. “A memória questiona a autoridade da obra de arquitetura como objeto autónomo ou como objeto de importância isolada. A memória traça as conceções com tudo o acontece no mundo.”56 A arquitectura, por sua vez, deve ser entendida como um produto e suporte físico da memória57 que além de materializar, conservar e situar a passagem do tempo, tem a capacidade de gerar e preservar memoria e inspira-nos a relembrar e a imaginar. “Quem não consegue lembrar, consegue dificilmente imaginar, porque a memória é a base da imaginação.”58 54 SOUTO DE MOURA; Eduardo; entrevista por Miguel Vieira em A importância do passado na procura da contemporaneidade – Dissertação, Prof. responsável João Álvaro Rocha, Porto, Faup, 2003, p 30 55 AUSTER, Paul; A Invenção da Solidão, São Paulo, Companhia de Letras, 1999 56 JIMENEZ, Carlos; 2G: Revista Internacional de Arquitectura, n 13, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2000, p 130 57 FERNÁNDEZ-GALIANO, Luis; Fire and memory: on architecture and energy, Cambridge, The Mit Press, 2000, p 70 58 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 2 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, p 24 52 Praça de São Marcos com Basílica, 1730, Canaletto - 022 53 2.1.1 Memória coletiva A memória coletiva encontra o seu lugar na tradição e na cultura tendo como suporte as imagens de lugares e espaços num enquadramento temporal. Segundo Maurice Halbwachas, é o fruto de um processo coletivo num determinado contexto social.59 Viva e em constante atualização, a memória coletiva tende a estabelecer uma continuidade entre o passado e o presente, preservando o valor do passado. Se a memória está ligada a factos e a lugares, o exemplo do locus da memória coletiva dos povos é a própria cidade. Esta relação entre locus e cidadãos torna-se imagem proeminente através da arquitetura e dos objetos que com a passagem dos tempos acrescentam novos factos à cidade. Trata-se de um conjunto de contributos individuais idênticos ou homogéneos que se formam num todo. Locus da comunidade, a cidade encarna a memória cultural e coletiva e ao mesmo tempo, é o lugar de renovação, adaptação e mutação contínua da cultura. As cidades são elementos vivos e como tal são submetidas a uma constante mudança. São o túnel do tempo através do qual chegamos a diversas épocas do passado e onde cada geração tem direito a deixar a sua marca. O que tem vindo a acontecer, e como ocorre na cidade genérica, é que parte dos edifícios recentes oscilam entre gestos orientados para o mercado e um desejo de autenticidade e artisticidade60, fazendo jus a novas situações. Em virtude óbvia da sua longevidade, os edifícios podem e devem reforçar significativamente a presença e a continuidade da cultura mas, na corrida pela atenção parece que a arquitetura se deixou tentar pela extravagância das marcas. A memória é o fio condutor da complexa estrutura urbana que liga o passado e o futuro61 e como tal deve ser devidamente analisado de modo a calçar a criação do projeto novo. É através das formas, monumentos arquitetónicos e da paisagem construída, que os povos falam e falaram ao longo dos tempos e construíram as suas civilizações. É por esse fio que nos liga ao passado, que nos é possível conhecer o seu tempo, cultura e circunstâncias, a relação da coletividade com o lugar e com a ideia deste. “Em suma, a memória coletiva assume a forma da própria transformação do espaço por obra 59 SCHMIDT, Maria Luisa e MAHFOUD, Miguel; Halbwachs: memória coletiva e experiência, São Paulo, USP, 1993, 288, disponível em www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/34481 [consultado dia 19/01/2015] 60 GRASSI, Giorgio, em entrevista ao jornal Público, dia 18/02/2015 – Grassi lamenta que agora todas as cidades europeias pareçam iguais. “Esta situação de os arquitetos quererem todos tornar-se artistas está a destruir as nossas cidades. Eu já não sei se estou em Milão, ou em Berlim, ou em Londres – é tudo igual.” 61 ROSSI, Aldo; La arquitectura de la ciudad, 10ª ed. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1999, p 226 54 Escher Terrace High-Rise Apartments, Zurich, 2007-2013 por E2A - 023 55 da coletividade; uma transformação que é sempre condicionada por aqueles dados materiais que se opõem a esta ação.”62 2.1.2 Rutura e esquecimento Sempre seletiva e com oportunas amnésias tácticas, a memória é tao importante como o esquecimento. Para Marc Augé “o esquecimento é tao necessário à sociedade como ao individuo. É preciso saber esquecer para saborear o gosto do presente, do instante e da espera, mas a própria memória tem necessidade do esquecimento: é preciso esquecer o passado recente para reencontrar o passado antigo.63 (…) É preciso esquecer para continuar presente, esquecer para não morrer, esquecer para permanecer fiel.”64 O esquecimento é também uma perda da nossa identidade, raízes e dos valores das coisas que observamos. Não é exclusivamente fruto de nossa natureza mas também da vertiginosa aceleração do tempo e da constante aceleração da realidade que apenas nos faz perceber e não lembrar. Na sociedade do espetáculo e da sedução, onde uma espécie de amnesia social dança com a produção de imagens e ficções, existe pouco tempo para recordar. Essa perda ou rutura com a continuidade da história e da memória é sem dúvida mais visível com o movimento moderno que zelosamente condenou o que existia previamente contruído para um estado de ‘tabula rasa’ enquanto engenhosa e esplendidamente enfatiza a rutura com tudo o que vem de trás, ao ponto da expulsar a disciplina de história de todos o critérios arquiteturais, levando a apologias e títulos como este: “se perco a memória, que pureza!”65 “É o desejo do pensamento puramente amnésico que melhor carateriza o clima emocional dos arquitetos do movimento moderno. Neste contexto, a recuperação da memória e da história constitui (…) a extinção da esperança de um novo homem e de uma nova cidade.”66 No entanto, a memória sempre esteve presente nas obras mais notáveis. Edifícios como a Assembleia Nacional de Dhaka de Louis Kahn ou as obras de Alvar Aalto, crescem em diálogo com o passado e a partir da memória e não de uma invenção desenraizada intelectualmente. “Grandes edifícios são 62 ROSSI, Aldo; La arquitectura de la ciudad, 10ª ed. Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1999, p 192 63 AUGÉ, Marc; As formas do esquecimento, Almada, Íman Edições, 2001, p 7 64 Idem, p 105 e 106 65 FERNÁNDEZ-GALIANO, Luis; citando o poema de Pedro Gimferrer em Fire and memory: on architecture and energy, Cambridge, The Mit Press, 2000, p 67 66 FERNÁNDEZ-GALIANO, Luis; Fire and memory: on architecture and energy, Cambridge, The Mit Press, 2000, p 67 e 69 56 Book of Copies - Lighthouses, 2013, Pedro Bandeira - 024 57 frutos da sabedoria da arquitetura, são produtos de uma colaboração, muitas vezes inconsciente, com os nossos grandes antecessores, tanto quanto são obras dos seus criadores individuais. Obras únicas, artísticas e arquitetónicas que estão em diálogo vital e respeitoso com o seu passado, possuem a força e profundidade para sobreviver ao tempo e estimular os espectadores, ouvintes, leitores e ocupantes no futuro.”67 Cabe a nós enquanto arquitetos, pertencentes e construtores da memória coletiva, encontrar o equilíbrio entre um esquecimento justo e necessário a fim de formar a base de uma boa memória. 2.1.3 Construir memória Todas as vivências ficam gravadas na memória e fazem parte da nossa identidade. Somos o que lembramos! A memória é uma construção contínua e seletiva, pessoal ou coletiva, que não segue regras e recorda um passado absorvido. Sob a forma de fragmentos, a memória é uma biblioteca, um inventário de factos, um arquivo de interpretações gerada pela nossa visão do mundo, das coisas e dos lugares através das nossas próprias experiências. “É uma espécie de repositório e catálogo onde tudo pode ser e é continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis.”68 As memórias informam-nos ou condicionam a nossa ação e formas de intervir.69 Peter Zumthor conta como recorda a importância do som dos espaços – através dos ruídos da sua cozinha quando era criança – ou as coisas que o rodeiam – como os cravos, violas, instrumentos e principalmente os livros das duas casas visitadas de Bienenfeld – e que o condicionam na produção das suas casas,70 mostrando que a arquitetura mais do que uma invenção na continuidade ou na rutura é uma atividade que se descobre através as recordações e experiências. São essas vivências que constituem a base de ambientes e imagens arquitetónicas que tenta explorar no seu trabalho enquanto arquiteto. No entanto, hoje, fruto da globalização que nos invade com imagens e outros símbolos sobretudo ligados ao consumo, estamos a perder as nossas referências e a ficar desconhecedores das nossas tradições e histórias. “Que 67 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 2 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, pág. 33 68 CALVINO, Italo; Seis propostas para o próximo milénio, São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p 138 69 SANTOS, Juan Domingo; La tradición innovada: escritos sobre regresión y modernidad, Barcelona, Fundación Caja de Arquitectos, 2013, p 27 70 ZUMTHOR, Peter; ver Atmosferas e Pensar Arquitetura, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2006 e 2005 resp. 64 Bruder Klaus Kapelle, 2007 por Peter Zumthor - 028 65 O espirito do lugar, muito mais amplo do que um pedaço de cidade ou terreno sobre onde assenta arquitetura, é uma construção social e um tanto invisível e intangível que, embora difícil de mapear e documentar, se estende numa rede de vínculos ou ligações, secretas ou percetíveis, que constroem a dimensão cultural. O contexto de um lugar contribui para a nossa cultura, crescimento e identidade, reconhecimento, sentimento de pertença e para a nossa tomada de consciência do mundo. Criado pela ação humana, é uma espécie de sobreposição cumulativa de conhecimento, memórias, passado, experiencia e significados que devem ser considerados como elementos do projeto. “Todo lugar é único justamente na medida em que se geram determinadas afinidades ou analogias com outros (…) Cada lugar é recordado porque se converte num lugar de afetos ou porque chegamos a identificarmos com ele.”80 Desde da área da filosofia, pela mão Husserl e o seu denominado ‘lugar fenomelogico’ e ecoando na cabana de Martin Heidegger onde o habitar está intimamente ligado com o local e que tem certas conotações com o tradicional e conservador, a compreensão do lugar sempre esteve presente nas investigações dos mais diversos pensadores. Ao longo da história, a escolha do lugar para a construção tinha um valor proeminente. Governado pelo ‘genius loci’ ou divindade mítica local.81 A atmosfera do lugar manifestava-se tanto na configuração espacial e na caracterização da articulação dos locais como fazia adivinhar a posição, orientação e os materiais dos edifícios. No entanto, esta noção de contexto não tem tido a mesma consideração ao longo da história da arquitetura nem na própria contemporaneidade. Muito do que assistimos hoje possui uma ambiguidade e indiferença em relação ao lugar e ao passado, por estratégia ou vontade, que fragiliza, transforma e fragmenta o território. De igual forma com o passado, cada época e cada geração constrói a sua ideia de lugar82. Este não é estático e vai-se modificando e evoluindo consoante o desenvolvimento cultural do homem e o progresso da sociedade. Os lugares tal como os conhecemos hoje já não são palco de acontecimentos locais mas globais. Diferentes lugares e paisagens têm diferentes identidades. Tais diferenças deveriam ser suficientemente fortes para identificar as propriedades básicas de cada lugar como algo unitário ou singular. Contudo, as cidades e os lugares contemporâneos, cada vez mais genéricos 80 ROSSI, Aldo; Autobiografía científica, 2ª ed, Barcelona, Gustavo Gili, 1998, p 52 81 SOLA-MORALES, Ignasi de; Diferencias: topografia de la arquitectura contemporânea, Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p 117 82 MONEO; Rafael; “Inmovilidad substancial” in Circo 24, edição: Mansilla, Rojoy, Tuñón; Madrid, 1995, p 5 66 National Assembly Building de Dhaka em Bangladesh, 1965 – 1969 por Louis Kahn - 029 67 e atravessados por múltiplos movimentos simultâneos de pessoas, matérias, mercadorias e informação, são hoje palcos de intensos e difusos acontecimentos, concentração de dinamismo, mediatismo, energia e contraste onde redes virtuais substituem as relações presenciais. Porém, sendo este o contexto que possuímos é com ele que temos de trabalhar. É nesta multiplicidade de contextos com realidade mais complexas e plurais que hoje existem, que a herança das correntes fenomenológicas são necessárias e determinantes, incitando a uma intensificação dos vínculos que ligam os arquitetos aos lugares a fim de encontrarem novas estratégias que potenciem o habitar em vez de residir. Trata-se de interpretar o local através de uma compreensão do mundo, em termos de relação entre as coisas, e não uma aplicação de um modelo que vá contra o real. Mais do que um processo de adaptação á historia, tradição e contexto, a arquitetura deve proceder no sentido de entender, ativar e reinterpretar o próprio lugar, de propor algo novo num processo de continuidade, relacionando factos e crenças, passado e presente, realidade material palpável e intangível, que de algum modo transforme e modifique o lugar,83 afim de estabelecer novos vínculos com o contexto através da atualização da tradição local. A tarefa da arquitetura, ancorada em algo previamente existente tem o lugar como ponto de partida mas também sua meta.84 Tal como nos diz Ignasio Sola-Moralles “os arquitetos têm de fazer das condicionantes dadas de cada lugar palavras que signifiquem as qualidades da sua existência e, que desvelem a riqueza de conteúdos que elas contém.”85 De mãos dadas com a geografia e a história, com o espaço e tempo, a arquitetura deve estabelecer relações, descobrir e iluminar as raízes e significados e, aportar energia aos lugares através de edifícios que se integrem, não pela simples aparência, mas que reclamem um lugar na história e que reconheçam quando e porquê foram criados,86 porque cada projeto é uma resposta a um dialogo com um contexto único, num momento no tempo. Da mesma maneira que Louis Kahn perguntava ao material o que queria ser, analogicamente, “se pode questionar o lugar com a arquitetura, no sentido em que todo o lugar tem a sua própria arquitetura mesmo antes da 83 HERNÁNDEZ LEÓN, Juan Miguel; Arquitectura y Ciudad: La tradidión moderna entre la continuidad y la ruptura, Madrid, Circulo de Bellas Artes, 2007, p 17 84 NORBERG-SCHULZ, Christian; Los principios de la arquitectura moderna: sobre la nueva tradición del siglo XX, Barcelona, Reverté, 2005, p 188 85 SOLA-MORALES, Ignasi de; Diferencias: topografia de la arquitectura contemporânea, Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p 115 86 GAUSA, Manuel; Diccionario Metapolis arquitectura avanzada, Barcelona, Actar, 2001, p 379 68 Stortorget em Kalmar, Suécia, 1999 - 2003 por Caruso St John Architects - 030 69 ação do homem.”87 Como charneira do projeto, o contexto é um sistema de relações que quando apropriadas pela arquitetura supera a própria obra, adquirindo estabilidade e integridade, como se ali pertencesse desde sempre. Acima de tudo, é uma atitude que coloca o ‘genius loci’ desenvolvido por Norberg-Schulz, no centro do processo de projeto, que pretende que a arquitetura volte a situar-se entre os bens culturais do homem e seja entendida como criação de lugares significativos, no sentido concreto e fenomelogico da palavra.”88 Dar importância ao lugar não quer dizer aceitá-lo passivamente mas, fazer sobre ele uma leitura crítica, tornando visível a sua forma e relação com o que o rodeia porque, tal como nos diz Aldo Rossi, “os lugares são mais fortes que as pessoas, o cenário mais que o acontecimento. Esta é a base teórica não só da minha arquitetura, mas também da arquitetura em geral”89 Para Aldo Rossi a produção arquitectónica assentaria na combinação correta dos elementos da memória e da ideia dolocus. O conceito de lugar é central na sua teoria sobre a arquitetura da cidade onde o define para além das sua caraterísticas topográficas e físicas. “…convém pôr em evidência aqueles aspetos singulares, emergentes, aquelas relações que podemos ver nas respetivas e reciprocas fronteiras. Talvez nos possamos aperceber melhor de qualquer coisa deste lugar, que por vezes nos parece só silêncio, observando-o de outro angulo, através dos aspetos que nele penetram com contornos por certo já não racionais mas mais familiares, mais conhecidos; (...) Estes contornos dizem respeito à individualidade dos monumentos, da cidade, das construções e, por conseguinte, à individualidade e aos seus limites, onde começa e onde acaba; referem-se á relação local da arquitetura, com o lugar de uma arte e, portanto, às relações e à própria precisão do locus como um facto singular determinado pelo espaço e pelo tempo, pela sua dimensão topográfica e pela sua forma, por ser sede de vicissitudes antigas e novas, pela sua memória. Mas estes problemas são em grande parte de natureza coletiva; eles obrigam a determo-nos brevemente sobre o estudo das relações entre o lugar e o homem;”90 Esta relação com o lugar teve também impacto nas obras de outros grandes mestres, como Jørn Utzon, Josep Antoni Coderch, Louis Kahn, Luis Barragán, Fernando Távora, Álvaro Siza ou Alvar Aalto. Anterior a estes, 87 PIÑON, Elio; em www.helio-pinon.org [consultado em 01//03/2015] 88 MONTANER, Josep Maria; Depois do movimento moderno : arquitetura da segunda metade do século XX, Barcelona, Gustavo Gili, 2001 89 ROSSI, Aldo; Autobiografía científica, 2ª ed, Barcelona, Gustavo Gili, 1998, p 63 90 ROSSI, Aldo; A arquitectura de cidade, trad. José Charters Monteiro, Lisboa, Cosmos, 2001, p 156e 157 70 Casa em Paderne, 2010 em Serra de O Courel por Carlos Quintans - 031 71 vale a pena destacar as obras do sueco Erik Gunnar que desenvolveu uma arquitetura sintética onde a relação com o contexto é essencial, conciliando a tradição clássica com o espaço moderno na tentativa de uma integração sensível com lugar. A capela, o cemitério e crematório no bosque em Estocolmo são exemplos desta relação empírica e delicada da paisagem nórdica e um perfeito entendimento entre o tradicional, clássico e moderno, industria e natureza.91 Embora mais recente, serve também de exemplo a casa unifamiliar de Carlos Quintans na Serra do Courel, Espanha, pela sua uma capacidade de integração na arquitetura vernacular partindo de um conhecimento decantado do sítio, do seu clima e da arquitetura tradicional, sem copiar o superficial, mas compreendendo o essencial para poder evoluir. Pretendendo estabelecer novos vínculos com o contexto, este edifício demostra que é possível propor novas soluções através da atualização da tradição local. Tratou-se de respeitar o lugar com o objetivo de o conseguir manter vivo; de ler o contexto, de propor algo novo dentro de um processo continuidade que gerou esse ambiente. “Penso que os edifícios que, a pouco e pouco, são aceites pelo seu espaço envolvente devem possuir a capacidade de atrair, de diversas formas, a emoção e o raciocínio. O nosso sentimento e compreensão estão, no entanto, enraizados no passado. É por isso que o significado que criamos com o edifício deve respeitar a memória.”92 2.3.2 Erosão do lugar – globalização vs locus Arbitrariedade é a palavra de ordem. – Peter Zumthor A essência da globalização é imaterial e virtual ao contrário da arquitetura que deve ser real. – Josep Lluis Mateo O significado de lugar está no seu uso. Por contraste ou afinidade, a importância do lugar, enquanto contexto, parece-nos cada vez mais arredado do panorama da arquitetura contemporâneo, onde outras forças parecem tomar conta do ‘genius loci’ que inspirava a busca de um equilíbrio entre o homem e o meio e o dotava do sentimento de pertença. 91 MONTANER, Josep Maria; Depois do movimento moderno : arquitetura da segunda metade do século XX, Barcelona, Gustavo Gili, 2001, p 84 92 ZUMTHOR, Peter; Pensar a arquitetura, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2005, p 17 72 Rotterdam por OMA - 032 73 Essas forças, não diferindo muito de uma espécie colonização anónima ou multinacional, têm gerado muitos intercâmbios e influências que cada vez mais encontram nas especificidades locais, elementos uteis às suas próprias dinâmicas.93 O melhor exemplo disso são as marcas como a Coca-Cola que, através das várias técnicas de marketing, consegue instituir-se nas mais variadas culturas do mundo. A globalização trouxe-nos consequências positivas e negativas. Segundo Rem Koolhaas, no seu texto ‘Bigness,’ a globalização para além de nos expor a uma vasta multiplicidade cultural, criou novas urbanidades “libertadas da clausura do centro e do espartilho da identidade (…) como os aeroportos, grandes cadeias de hotéis que vivem o triunfo do prosaico”94 sob o subtexto de ‘que se lixe’ o contexto.95 Embora a globalização não signifique necessariamente a perda da ideia de lugar, podendo pelo contrario acentuar o seu significado e valor, as suas consequências como a crescente mobilidade e a velocidade dos transportes, excesso de informação e comunicação, a alineação e instabilidade entre outras forças, têm vindo a criar a ausência e erosão do sentido de lugar, a criar locais semelhantes e sem estatuto de lugares e, a romper com as convenções e acordos sociais qua antes marcavam a vida social. Em contraponto a Heidegger, estamos com mais frequência apenas residir em vez de habitar. Atualmente, estamos perante uma cultura mediática, na qual as distâncias se encurtam até se converterem em instantâneas e em que a criação e reprodução de imagens já não se circunscrevem a um lugar preciso mas deambulam erráticas por todo planeta. Na arquitetura, a universalização de valores e estéticas, combinada com os avanços das aplicações tecnológicas e materiais, tem fortemente corroído as culturas, identidades e tradições locais em prol do mediatismo e da novidade, por vezes reforçada pela celebração da criatividade individual. Estes efeitos têm provocado um enfraquecimento das referências coletivas e um contexto e sociedade ubíqua e genérica, desencadeada por experiencias e estímulos múltiplos e simultâneos, ao mesmo tempo que provoca sentimentos profundos de estranheza e desconfiança.96 Cada obra surge sobre um cruzamento de várias forças e energias fragmentárias procedentes de lugares diversos, cuja deflagração do momentâneo e da novidade, explicam uma situação, uma ação, uma produção arquitetónica concreta marcada em situações por uma desconexão entre o que se 93 GAUSA, Manuel; Diccionario Metapolis arquitectura avanzada, Barcelona, Actar, 2001, p 258 94 KOOLHAAS, Rem, e MAU, Bruce; S, M, L, XL, Office for Metropolitan Architecture, 2ª ed, New York, The Monacelli Press, 1998, p 500 95 Idem, p 502 96 SOLA-MORALES, Ignasi de; Diferencias: topografia de la arquitectura contemporânea, Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p 119 80 Capela na quinta de St. Ovídio, 2002, Lousada por Álvaro Siza - 036 81 em Xiangshan (2008) foram realizados com o objetivo de “re-conectar com as invisíveis correntes intemporais da tradição chinesa.”109 Embora não ecoem as formas ricas do passado, as suas construções, que parecem remeter-nos para um tempo passado, pré-tecnológico, evocam atmosferas que os parece dotar de sentido de enraizamento na história, no local e no tempo. Fazendo uso de materiais reciclados de outros edifícios demolidos, como telhas e os tijolos das paredes, coloca em relevo os ofícios artesanais herdados e as referências coletivas, partilhando a identidade do passado com as próximas gerações. Estes arquitetos demonstram que levar em conta o tradicional “não implica uma regressão ao tradicionalismo ou ao vernacular mas, o reconhecimento como uma fonte de significado inspiração e enraizamento emocional.”110 - Este conflito entre o moderno e o tradicional, entre o global e o regional, tem moldado e dominado todos os aspetos e debates sociais, políticos, económicos e culturais. O que assistimos é a uma agenda que suporta e reforça os valores globais, dando preferência a projetos que sigam tendências que expressem um ‘não conformismo’. 111 Em contrário á posição inicial descrita em 1982 por Kenneth Frampton, não podemos nem devemos, por diversas razões, encarar que o regionalismo critico tivesse o objetivo de encerrar a arquitetura numa redoma cultural local, como um enclave, porque além de ser ingénua, hoje o local é maior em escala e limites e cada vez mais virtual e próximo. Não podemos ignorar que hoje vivemos numa rede de relações globais e já não ignorámos o que acontece do outro lado do mundo. Somos constantemente contaminados e influenciados por diversos aspetos exteriores e cada vez mais as nossas referências são internacionais e universais. São os efeitos da globalização que, queiramos quer não, nos fez render a ela e sem a qual não podemos viver. A evolução, a necessidade e o anseio pelo futuro fazem-nos ser dependentes dela, sem muitas vezes apercebemo-nos do seu impacto sobre a cultura. Por isso, talvez devêssemos substituir a designação de regionalismo por internacionalismo critico112. “Trata-se, de deixar de ‘resistir’ defensivamente 109 PALLASMAA, Juhani; em “Newness, tradition and identity: existential cotent and meanig in architecture” em Architectural Design n 220, London, Wiley, 06/2012, p 15 110 Idem, p 15 111 TZONIS, Alexander e LEFAIVRE, Liane; Tropical Architecture: critical regionalism in the age of globalization; Chichester, Wiley-Academic, 2001, p 2 112 Termo usado pelo francês Jean-Louis Cohen (fonte desconhecida) 82 Escola Ponte em Pinghe 2008 – 2009 por Li Xiaodong - 037 83 contra a ‘banalização’ do mercado internacional da arquitetura; (…) trata-se de investigar e perceber como atua esse mesmo mercado global, para refletir sobre a sua ‘adaptabilidade’ local”113. Isto é, tal como Álvaro Siza, transformar o universal em local – fazer cruzar as contingências específicas do local com uma leitura universalista do mundo. Porque senão, de que nos serviriam as viagens e lições da arquitetura internacional? 2.3.4 Construir lugar A natureza nasceu para ser manipulada. - Herberto Hélder Arquitetura não é natureza. A arquitetura tem suas próprias formas herdadas da tradição. - Antonio Armesto Lança-se uma pedra na água. A areia agita-se e volta a assentar. O distúrbio foi necessário. A pedra encontrou o seu lugar. Mas o lago já não é o mesmo. - Peter Zumthor “Um lugar reconhece-se porque é construído.”114 Isto é, existe algo que o identifica, uma construção, natural ou artificial, um sinal que indique um fragmento de território. Esse sinal normalmente surge da mão do homem e do gesto do arquiteto. Esta ação, mais que transformadora, é antes manipuladora das possibilidades que já existiam e que apenas foram colocadas em evidência ou reforçadas através da arquitetura. Como se estivessem camufladas até à altura e postas a descoberto. No entanto, acontece também o contrário, por vezes, o projeto surge como um objeto novo, como uma metamorfose, que constrói um lugar no sentido de multiplica-lo, dar e nunca subtrair, a fim de o potenciar, fixar e de o tornar singular – exemplo do Estádio Municipal de Braga. O projeto explora as ‘forças’ que existem no lugar resultando numa síntese sinergética. A arquitetura deve integrar-se e respeitar o lugar ‘ouvindo o seu genius loci.’ No entanto, não quer dizer que só exista uma possível solução arquitetónica ou uma estratégia mas, que o que se gera deva sempre ser coerente com onde se constrói. Sempre que projetamos para um lugar, desenhamos também o contexto onde o projeto entra para formar parte, rescrevendo a própria história do lugar. 113 GRANDE, Nuno; Revista NU #18, março 2004, Coimbra, Edições NUDA, p 12 114 MILHEIRO; Ana Vaz; Revista NU #02, maio 2002 , Coimbra, Edições NUDA, p 8 84 Arquipélago – Contemporary Arts Centre, 2014 por Menos é Mais e João Mendes Ribeiro - 038 85 Contruir lugar é transformar o lugar e a geografia, construir símbolos e identidade, acrescentar história e cultura. Cada projeto é um novo lugar. O desenho tende a cimentar relações com os objetos á sua volta e torna-se significativo quando representa e nos diz algo, quando nos ajuda na orientação e na identificação com o mundo onde vivemos. “Uma imagem não é só um signo; (…) mais que comunicar, revela, ilustra e explica.”115 “Construir lugares é reforçar diferenças” refere-nos Gion Caminada. Normalmente associada à produção de acontecimentos e/ou suprimento de necessidades, a construção do lugar carateriza-se por mobilizar a cultura, a história e a identidade própria através da sua interpretação transformando-se em figuras e formas – em projeto.116 “Desde mil lugares distintos ainda é possível a produção de lugar. Não como a revelação de algo permanentemente existente mas como a produção de um acontecimento. Não se trata de propor uma arquitetura efémera, instantânea, frágil ou passageira. O que se defende (…) é o valor dos lugares produzidos pelo encontro das energias atuais, graças à força de dispositivos projetuais capazes de provocar a extensão de suas oscilações e a intensidade do choque que a sua presença produz.”117 Contudo, existem duas visões que contribuem para a construção de lugar: a primeira, clássica e analítica de que a solução está no lugar; a segunda, a identidade do arquiteto, do indivíduo. O património de ideias que ele transporta, a forma como cada um aborda o lugar depende basicamente da acumulação de saber ao longo do tempo. A forma como o arquiteto observa e lê o que lhe interessa no lugar com os olhos e o cérebro que a sua história pessoal produziu são também importantes. Por exemplo, se o seu interesse recair sobre a luz ou um fio de água que atravessa o local, este pode ser o mote de todo o projeto. O lugar pode ser fantástico e com uma força enorme que condicione o arquiteto ou podem existir ideias tão fortes que o lugar se molda a essas intenções. No entanto e independentemente das mais variadas propostas que possam existir, a qualidade que identifica a construção do lugar será sempre a integração com o seu contexto. Da mesma maneira de que o lugar é uma matéria em bruto à espera do efeito da arquitetura, também a arquitetura é algo frágil que necessita de se relacionar com o contexto quando posta à prova – como uma caixa de ressonâncias – porque, mais que projetar arquitetura, é 115 NORBERG-SCHULZ, Christian; Los principios de la arquitectura moderna: sobre la nueva tradición del siglo XX, Barcelona, Reverté, 2005, p 230 116 GOMES, Paulo Varela; Revista NU #02, maio 2002 , Coimbra, Edições NUDA, p 9 117 SOLA-MORALES, Ignasi de; Diferencias: topografia de la arquitectura contemporânea, Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p 114 86 Influencia e concretização / Estádio Municipal de Braga de Eduardo Souto de Moura e Epidauro na Grécia - 039 87 necessário pensar e projetar o lugar.118 Exemplo disso é o extinto Mercado Caranda de Eduardo Souto Moura onde a matéria, o artefacto de arquitetura, escala e relação com o lugar adquirem uma complexidade mútua criando texto e cidade, através da articulação e costura do existente. Este é um exemplo de como a leitura sobre o lugar pode ativar os valores da arquitetura, da cidade, da matéria e as preexistências de um modo complexo e rico, capaz de redefinir de forma contemporânea o locus. O mesmo acontece com o Estádio Municipal de Braga, com claras referências aos teatros gregos, em especial Epidaurus, onde a construção do lugar faz-se de forma mútua entre o artificial e o natural. “O que deve acontecer é perceber-se o yang da natureza para depois o betão funcionar com o ying e fazerem um jogo complementar. Um não dominar o outro (…) O máximo da ambição é olharmos para os sítios depois de existir a arquitetura, e acharmos que aquilo esteve sempre ali e que se o tirássemos o sítio ficava pior.”119 Outro exemplo paradigmático é a Casa da Musica no Porto de Rem Koolhaas, que afirma no seu texto “Bigness – Fuck the context” não existirem lugares ou contextos, somente locais oportunos para edifícios onde se podem encaixar determinados programas.120 Este edifico, enquadrado nas filosofias identitárias do seu autor, carateriza-se por ser um objeto abstrato e de forte presença e autonomia, cuja sua historia se ignora mas que é referência da cidade. Contudo, este edifico resulta como lugar pela necessidade que a cidade nutria de um edifico que a marcasse, como um ícone – podemos dizer que se trata de uma rutura com a malha urbana da cidade, mas necessária como acontecimento. Porém, analisando a postura, e não querendo fazer juízos de valor, não significa que o arquiteto holandês não tenha consciência do significado do contexto onde intervém mas, simplesmente limita-se a selecionar de outra maneira e outros materiais com que pretende trabalhar, optando por outras estratégias. “Criar lugares que permitem habitar é a tarefa última da arquitetura.”121 Lugares que provoquem o sentimento de pertença e identidade 118 RODRIGUEZ, Santiago de Molina; “La nostalgia del lugar” em Zarch #1 - Las trazas del lugar, Zaragoza, Unizar, 2013, p 241 119 SOUTO DE MOURA, Eduardo; em entrevista ao jornal Público por Isabel Salema, edição impressa de dia 28/03/2011 120 KOOLHAAS, Rem, e MAU, Bruce; “Bigness” em S, M, L, XL, Office for Metropolitan Architecture, 2ª ed, New York, The Monacelli Press, 1998, p 495 -516 121 NORBERG-SCHULZ, Christian; Los principios de la arquitectura moderna: sobre la nueva tradición del siglo XX, Barcelona, Reverté, 2005, p 234 88 Piscinas do Atlântico, 2004, Camara de Lobos, Madeira, por Paulo David - 040 89 – alguém de algum lugar. Para Gregotti, criar um lugar é ato primordial da arquitetura; assentar uma pedra no terreno é o início de modificações que transformam o lugar em arquitetura.122 Da mesma maneira que não existem em arquitetura verdades universais mas existências históricas, particulares e concretas, tão pouco existem lugares construídos in vitro, experiencias de tipo geral.123 122 FRAMPTON, Kenneth; cit Vittori Gregotti; em Estudios sobre cultura tectónica: poéticas de la construcción en la arquitectura de los siglos XIX y XX, Madrid, Akal, 1999, p 36 123 SOLA-MORALES, Ignasi de; Diferencias: topografia de la arquitectura contemporânea, Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p 106 96 Restauro do Palácio Prannerstraße, Munique, 2015 por Diener & Diener Architekten - 044 97 Esses conteúdos transferidos da história devem ser deformáveis à luz do presente, e escolhidos de forma consciente em função de nós próprios e da resposta que pretendemos transferir. “A história que se lê e projeta, carregada de invenção, cria uma estrutura relacional mas não inibe necessariamente a formulação do novo.”134 Contudo, se existe um passado, esse passado clarifica. Permite compreender e evitar erros. É matéria-prima que relembramos, consciente ou inconscientemente, na tentativa de faze-la avançar. Essa matéria no processo de criação considera o passado como um elemento vivo, integrante e sempre renovado, legitimando a solução apresentada. Porém, a história só é válida na medida em que “pode resolver os problemas do presente e na medida em que se torna uma auxiliar e não uma obsessão.”135 Procuramos no passado a intelecção das coisas e no presente a forma de agir sobre elas de modo a criar uma síntese entre os valores do passado e os novos de acordo com a vontade e as circunstâncias da nossa época.136 “Sou um artesão que deve servir os homens do seu tempo”137 refere-nos Adolf Loos. “Os novos tempos são um facto, existem quer queiramos quer não, mas não são nem piores nem melhores que qualquer outra época. São um facto em si e valor indiferente.”138 “Os arquitetos não inventam nada, transformam a realidade” lembranos Álvaro Siza. Esta afirmação pressupõe que reconhecemos e entendemos a história porque a fazemos, pertencemos-lhe, no sentido que herdamos a sua experiencia, e projetamos o futuro com base na situação que o passado nos criou,139 agindo á luz da nossa compreensão, explicita ou não, do presente, da realidade. Refere-nos Alves Costa, que a história, pelo menos a ensinada, não é necessária para nada, embora “todos os arquitetos a usam sem dar por isso: não se pode projetar sem memória, tal como não se pode projetar sem a existência de uma relação com a vida (…) A posição que se assume sob este complexo passado de sedimentos vários e todos significativos é tao importante como o desejo de construir o futuro. Assim, de forma obrigatoriamente cultivada, se constrói o conceito/desenho e se decide sobre a linguagem. O que queremos com a História é tornar este processo de conceptualização 134 FIGUEIRA, Jorge; Escola do Porto: um mapa crítico, Coimbra, Edições DARQ, 2002, p 127 135 TÁVORA, Fernando; Fernando Távora, editado por Luiz Trigueiros, Lisboa. Blau, 1993, p 12 136 ROHE, Mies van Der; “Arquitetura y voluntad de época!” em La palabra sin artificio, n 5, Madrid, El Croquis Editorial, p 371 a 375 137 LOOS, Adolf; “Arte e arquitectura”, Escritos I - 1897-1909, 2ª ed, Madrid, El Croquis, 2004, p 161 138 ROHE, Mies van Der; “Los nuevos tiempos” em La palabra sin artificio, n 5, Madrid, El Croquis Editorial, p 468 139 FRAMPTON, Kenneth; cit “Tradition and Reason” de Hans Georg Gadamer em Estudios sobre cultura tectónica: poéticas de la construcción en la arquitectura de los siglos XIX y XX, Madrid, Akal, 1999, p 35 98 Edifício na Michaelerplatz, Viena, 1909 – 1911 por Adolf Loos - 045 99 consciente e responsável.”140 “A arquitetura nasce de uma ideia precisa que está nas profundezas de nós mesmos, e se traduz no desenho, na construção”141 diz-nos Aldo Rossi, consciente de que o passado e a história são a base fundamental onde a personalidade de cada arquiteto se desenvolve, isto é “um arquiteto pode desenvolver a sua linguagem individual justamente depois de haver aprendido o princípio da base da arquitetura.”142 Todos os arquitetos que fizeram e marcaram a história e que com regularidade ousamos estudar e referenciar, independentemente das suas posturas, estudaram sempre o passado e a história. Por exemplo, Le Corbusier, uma das principais figuras do movimento moderno, reconhece o passado como sendo o seu único mestre e um valor presente na sua obra arquitetónica. “A mim rotulam-me de revolucionário. Vou confessar-lhes que nunca tive mais que um mestre: o passado; uma só formação: o estudo do passado. Todo o passado durante muito tempo, ainda hoje: os museus, as viagens, a arte popular. Não valerá a pena explicar-vos certo? Já me compreenderam: fui onde existiam obras puras – obras do camponês ou do génio – sempre com a mesma questão: ‘Como? Porquê?”143 Também Adolf Loos vê na história, na tradição e nos antigos os valores para poder enfrentar os problemas da modernidade. “A nossa educação baseia-se na cultura clássica. (…) Pensem: como eu tenho construído, devem ter construído também os romanos. Sabemos que se enganam (…) mas cada vez que a arquitetura se afasta, como os medíocres e os decoradores, de seu modelo, volta a aparecer o grande arquiteto para referi-la de novo à Antiguidade.”144 Em nenhum dos casos não foi objetivo reutilizar a tradição e o passado de forma mimética mas, procurar entender a atitude dos anteriores fazedores, relacionando e transportando para uma situação concreta do presente com os meios e materiais atuais, segundo o espirito da época porque, como nos diz Fernando Távora, “Não é justo nem razoável que nos fechemos, numa ignorância procurada às obras dos grandes mestres de hoje, aos novos processos de construção, a toda uma arquitetura que surge plena de vitalidade e força.”145 140 COSTA, Alexandre Alves; “O lugar da histori” em Textos datados, Coimbra, Edarq, 2007, p 254 141 ROSSI, Aldo; Diálogos de arquitectura de Emilio Faroldi e Maria Pilar Vettori; São Paulo, Ed. Siciliano, 1997, p 120 142 Idem, p 121 143 LE CORBUSIER; Precisiones, Respecto a un estado actual de la Arqutectura y el Urbanism, Barcelona, Edi. Apostrofe, 1999, p 49 144 ROSSI, Aldo; “Adolf Loos, 1870-1933” em Para una Arqutectura de Tendencia, Escritos: 1956-1972, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1977, p 55 e 56 145 TÁVORA, Fernando; Fernando Távora, editado por Luiz Trigueiros, Lisboa. Blau, 1993, p 13 100 Ampliação do Museu de História Natural, Berlim, 2005-2010 por Diener & Diener Architekten- 046 101 3.2 – Atitudes frente ao passado Cada sociedade e cada arquiteto analisa, elege e faz com o passado o que pretender pois, “toda a época corta e cola a história para satisfazer seus próprios propósitos; a arte sempre teve interesses particulares a defender. A Roma clássica tornou-se o renascimento aos olhos do seculo XV. (…) Nenhuma ‘reconstrução histórica’ é sempre realmente verdadeira ao original; não há nem o desejo nem coragem de abraçar o gosto de outra época. Mantemos o que gostamos e descartamos o que não gostamos.”146 Acredito que cada um de nós, enquanto arquitetos, temos uma ideia da história ou de uma manipulação da história que nos interessa, a partir do nosso gosto e da nossa parcialidade, e julgo ser a partir daí que encontramos as diversas formas de como nos relacionamos com o passado. No entanto, o que observamos em algumas obras que nos são apresentadas, por vezes, não tem qualquer tipo de relação com o passado, considerando-o uma coisa morta ou inexistente, separável da nossa existência. Porém são atitudes válidas para a história porque “o único ato que se qualifica como histórico é o que introduz de alguma maneira algo adicional, um novo elemento no mundo.”147 Contudo, vários são os arquitetos que vêm uma necessidade de voltar ao passado. Alguns contra, outros seguindo e enquadrando-se com a história. Todas as posturas são essenciais no sentido em que validam ou negam, evocam ou esquecem, resolvem ou provocam mais questões e novas necessidades. Por esta perspetiva, podemos dizer que atualmente vivemos tempos fervorosos pautados por atitudes diversas frente ao presente e ao passado, que tentam encontrar o seu lugar na história mas a história, tal como nós, saberá selecionar o que interessa. Tudo depende de como se considera o passado, que corre continuamente com o futuro. 3.2.1 Continuidade Para mim a arquitetura é continuidade e transformação. - Álvaro Siza Nós não nascemos para morrer, nascemos para continuar (…) Uma espectativa de uma eterna existência do Homem no Universo. - Paulo Mendes da Rocha 146 HUXABLE, Ada Louise; ”The Joy of Architecture” New York Times, February 5, 1978 [consultado através de www.quaderns.coac.net dia 19/10/2014] 147 CARUSO, Adam; cit “Das architektonische Lehrbuch” de K.F. Schinkel, em “Tradicion”, The Feeling of Things, London, Ediciones Polígrafa, 2008 p 25 102 Esquissos dos anos de 1970 de Eduardo Souto de Moura - 047 103 Falar de continuidade na arquitetura não se trata de reproduzir o legado histórico mas, à luz dos problemas atuais, oferecer uma resposta assente no passado e na cultura de um local sem que esta pareça estranha aos seus utilizadores – como um processo de evolução, uma atualização adaptada, na continuidade do tempo da sua identidade. Entre muitos arquitetos e pensadores a questão da continuidade é um tema pertinente, atual e fulcral para o desenvolvimento de uma arquitetura verdadeiramente moderna. O modernista Ernesto Nathan Rogers, num texto escrito de 1955, defende o tema da ‘continuidade’ da história. Esta deveria ser interpretada e analisada num sentido progressivo tendo como elemento importante o contexto, não nostálgico mas, que reinterpretasse as tradições, gostos, necessidades e fatores ambientais específicos do local e da cultura. “Acreditamos no fecundo ciclo homem – arquitetura – homem (…) Continuidade significa consciência histórica como esperança de ver a tradição numa precisa tendência adversa ao formalismo passado e presente. Dinâmica continuação e não uma cópia passiva: nada de dogmas mas, com liberdade de pesquisa sem preconceitos de método; [porque] a obra moderna não possui a autenticidade fundamentada na tradição, e por esta razão a obra antiga tem até hoje significado, capaz de ressoar para a nosso trabalho.”148 Também, para K. Frampton e S. Giedion, seria através do reencontro de uma relação com o passado que se tornaria possível criar uma arquitetura realmente moderna e humana, para que assim fosse possível encontrar uma base segura e sólida sobre a qual se pudessem apoiar as novas ideias e pesquisas, invenções e descobertas, experiências e tentativas. Já para Eduardo Souto Moura, como para Loos, a arquitetura moderna é uma continuação do classicismo: “sempre entendi o movimento moderno como uma continuidade do classicismo (…) no fundo é um discurso de continuidade com meios técnicos e intenções diferentes, mas com um campo comum: as proporções, a relação da estrutura com a forma, a linguagem depurada.”149 Também Aldo Rossi observa no passado a matéria para construir a sua própria história e o futuro, sendo essa uma condição para quem pretende trabalhar em arquitetura. “Buscava na história e traduzia na minha história. (…) Tudo isto permite a representação do passado com o desejo do presente; o que mais me assusta é o passado de um homem para quem o desejo do presente está morto: por isso paradoxalmente, o passado tem as cores do futuro e da esperança. Nenhum dos meus projetos se fasta do passado, quiçá porque 148 ROGERS, Ernesto Nathan, Esperienza dell’Architecttura, Milano, Skira, 1997, p 93 e 94 149 SOUTO DE MOURA, Eduardo; em entrevista, Eduardo Souto de Moura, 2ª ed, Lisboa, Blau, 1996, p 28 e 30 104 Catedral de Siracusa, Sicília, 1552 – 1618 por Andrea Palma - 048 105 nunca expressei toda a alegria do futuro que um projeto, objeto, pessoa, viagem tem em mim. Não sei até que ponto pode isto significar alegria ou melancolia, mas creio que é uma condição para viver e trabalhar no próprio ofício.”150 Como podemos ver, este sentido de continuidade não deve ser confundido com historicismo ou com um revival tradicional mas, em “continuar o que os outros fizeram”151 de modo a encontrar uma forma de reconciliar o passado e o presente, aprendendo com os mil anos de experiência que a humanidade leva construindo. Pois, a nossa história é uma continuidade, como um fio condutor que se corta por vezes por orientações estranhas senão inesperadas mas, essenciais de modo a manter vivo o passado. 3.2.2 Rutura Todos os movimentos foram no início momentos de rutura com o antecedente pelas mais diversas questões. No renascimento italiano onde as obras de Alberti apresentam uma rutura e introdução da novidade na antiguidade clássica; ou com a revolução industrial e o aparecimento da máquina que permitiu um crescimento económico e acelerado tendo repercussões em toda a sociedade, ou o movimento moderno que sempre se manteve contra a história, a tradição e o vernacular fazendo apologia da industrialização e construção mecânica standardizada substituído o conhecimento empírico e manual do homem, causando o que Françoise Choay considera uma “rutura traumática no tempo”152 A rutura é tao necessária como a continuidade. Para continuar a herança do passado, por vezes torna-se necessário romper com ele: como romper o molde. Assim se tem vindo a construir a história da cultura. Figuras como Duchamp, Einstein, Picasso, Le Corbusier ou F. L. Wright desafiaram as regras, cada um na sua área, para manter viva a tradição artística e científica do seu tempo. Contudo, a rutura na arquitetura não se faz isoladamente e normalmente é das últimas áreas da sociedade a ser afetada: enquanto os artistas, filósofos, escritores dependendo mais deles próprios do que patronos para produzir o seu trabalho, os arquitetos, que ao longo da história estiveram 150 ROSSI, Aldo; Autobiografía científica, 2ª ed, Barcelona, Gustavo Gili, 1998, p 27 e 88 151 SOUTO DE MOURA, Eduardo; em entrevista ao jornal El País, 24/07/2011 [www.elpais.com/diario/2011/07/24/eps/1311488814_850215.html consultado em 30/01/2014] 152 CHOAY, Françoise; A alegoria do património, 2ª ed, Lisboa, Edições 70, 2000, p 118 112 SESC Pompeia em São Paulo, 1986 por Lina Bo Bardi - 052 113 Um dos arquitetos que mais contribuiu para esse estado de alerta foi sem dúvida Roberto Venturi com livro ‘Complexidade e Contradição em Arquitetura’ que, não assumindo uma posição de rutura, faz uma análise de sucessivas obras mostrando sobretudo a realidade e a diversidade da arquitetura, “abrindo novos caminhos”162. Mais próximo das teorias de conexão com tradição e do passado de Kahn e T.S. Eliot, da obra rica e flexivel de Alvar Aalto, Le Corbusier e Aldo Van Eyck pela sua defesa da capacidade de permanência e riqueza do saber tradicional dos diversos povos e culturas, o autor faz-nos ver de novo o passado contra a linguagem puritana moral da arquitetura moderna163 e a tecnologia homogéneadora que vigorava, a fim de se conseguir uma obra rica de significados. Já anteriormente Ernest N. Rogers, seguindo os passos de Sigfried Giedion, defendia a necessidade de uma revisão na tentativa de estabelecer um grau de continuidade entre o movimento moderno, as experiências da arquitetura do passado e as condições pré-existentes, recuperando a história e a tradição como materiais para o processo de projeto. Para este seria possível fazer evoluir a arquitetura através da revisão da linguagem moderna e da realidade contemporânea em continuidade com a herança dos arquitetos da primeira tradição. Exemplo disso são as obras de Lina Bo Bardi. Embora radical em algumas obras como o MASP ou a Casa de Vidro que representam o espirito global, esta arquiteta italiana conseguiu conjugar os ideais da arquitetura moderna com a arte popular, negra e indigna, sem cair no populismo. O processo traduzia-se “em superar as limitações da própria modernidade que consistia em harmonizar a base cultural do passado, a riqueza e a vitalidade da cultura popular com o projeto moderno de criar novas formas para uma nova sociedade.”164 Em sintonia com Rogers, a sua obra baseia-se na continuidade, valorizando a história como uma realidade eminentemente criadora, onde o moderno e a tradição não são antagónicas.165 Sem cair em atitudes arbitrárias e gratuitas mas, resgatando o fio da história, a sua arquitetura apresenta-se autêntica e sem mimetismos, expressando a riqueza dos valores regionais e a necessidade de espaços poéticos e criativos como princípio gerador de uma comunidade. A sua arquitetura caracteriza-se por uma tensão entre moderno e tradicional, conjugando a 162 SIZA, Alvaro, em entrevista FIGUEIRA, Jorge; Reescrever o pós-moderno: sete entrevistas, Porto, Dafne, 2011, p 24 163 VENTURI, Robert; Complejidad y contradicción en la arquitectura, 2ª ed, 8ª edição, Barcelona, Gustavo Gili, 2003, p 25 164 MONTANER, Josep Maria; Depois do movimento moderno : arquitetura da segunda metade do século XX, Barcelona, Gustavo Gili, 2001, p 13 165 Idem, p 13 114 Teatro Gregório de Mattos, Salvador por Lina Bo Bardi - 053 115 modernidade universal com a valorização de fatores culturais específicos, numa “síntese entre modernidade e cultura do lugar.”166 Conscientes de que os ideais do movimento moderno trouxeram novos valores á sociedade, estes arquitetos não tentaram romper com a arquitetura moderna, mas combinaram os melhores aspetos e caraterísticas com a tradição e o passado com o objetivo de produzirem uma arquitetura verdadeiramente enraizada e contemporânea. Como diria o filósofo José Ferrater Mora “não são as pessoas que vivem querendo apagar o passado e olhando apenas ao futuro, as que nos trazem as grande invenções. Os que modificam substancialmente o futuro são aquelas que vivem enraizados no passado e são plenamente conscientes das implicações da história, daquilo que as ações passadas podem trazer como consequência no futuro.”167 166 Idem, p 21 167 MONTANER, Josep Maria; cit José Ferrater Mora em Depois do movimento moderno : arquitetura da segunda metade do século XX, Barcelona, Gustavo Gili, 2001, p 14 116 Un nuovo inizio, 2014 por Luca Galofaro - 054 117 4 PossibilidAde de trAdição Hoje, construímos a tradição de amanhã, mas será possível inventar tradição? Será a tradição possível na era contemporânea? Toda a tradição que conhecemos teve um início. Criada sobre histórias, mitos ou por mero acaso, a tradição só é confirmada quando inscrita numa espécie de lógica que a valida, quando é possível um consenso e aceitação generalizada sobre um determinado modelo ou maneira de atuar que, por processos de repetição, habituação e reprodução a mantém ativa durante o tempo. Isto é, sempre que existe uma reutilização, uma cópia ou repetição de uma solução ou linguagem por vários agentes, poderemos dizer que trata-se de um fenómeno de tradição. Depois se com essa solução se relaciona e constrói bem ou mal, já é um problema do talento pessoal. No entanto, se recuarmos alguns tempos atrás, verificamos que, o que atualmente consideramos de tradição, era feito não por ‘consensos’ mas por cânones e limitações impostos que eram seguidos, existindo pouca liberdade para criação e talento individual, como por exemplo nas escolas de arquitetura em que os modelos de ensino eram baseados na cópia, ou os movimento nacionalistas que impunham uma determinada linguagem e formas de executar. Atualmente devido à quantidade de informação com que somos bombardeados, às influências que podem vir de todos lados do mundo, às distâncias cada vez mais curtas, às múltiplas consequências da globalização e às mais variadas formas, materiais e técnicas de construção que estão disponíveis, torna-se difícil a criação de uma tradição, pelo que será mais fácil formar parte de uma ‘tradição’, com o objectivo de oferecer sentido a uma nova interpretação de certos objetos e caraterísticas de uma identidade cultural. 4.1 Tradição e invenção Arquitetura é uma mistura de nostalgia e antecipação, a coexistência de história e vanguarda. - Jean Baudrillard Tudo o que não é tradição é plágio. - Eugénio d’Ors A desilusão parece impulsar a inovação – Donald Kuspit 118 French Art of the 18th Century, 1957, Connaissance des Arts - 055 119 Normalmente, a imagem correta não é a da tradição perseguida por um artista, mas a de um artista perseguido pela tradição. Embora nos pareça termos contraditórios, o que é facto é que a tradição e invenção não podem existir uma sem a outra. Se a tradição se refere ao arquétipo, mítico, atemporal, e outorga continuidade às conexões culturais, a invenção oferece novidade, vitalidade e protagonismo. Para que possa existir tradição é necessário que esta consiga renovar-se, reinventar-se e reinterpretar-se á luz das questões contemporâneas, a fim de poder ser atual e não estática e congelada no passado. Nada se cria, tudo se transforma. Por isso, a arquitetura não é uma questão de invenções mas de interpretações que pode e deve conter inovações e novidades tecnológicas168 sem esquecer a história, a tradição e o contexto onde se insere o novo objeto. “A arquitetura de uma cultura específica depende de uma dialética entre forças históricas e contemporâneas – entre arquitetura como afirmação da cultura existente e a arquitetura como arte inventiva.”169 Inventar pode ser assim interpretar. A interpretação é um ato criativo, um processo mental, que mantem viva a tradição – com se nunca estivesse terminada – e que proporciona um renascimento das obras, um voltar a ver a luz. Interpretar é assim adquirir novos significados. No entanto, regularmente comparamos a invenção à espontaneidade, à imprevisibilidade e originalidade da criatividade individual, a algo novo e abstrato, a novas formas com novos significados, por vezes até vagos. No entanto, é discutível e duvidoso que possam existir formas completamente novas, sem ligação ao passado e á memória, como prenúncio de um futuro. O que possivelmente existe, não são formas novas mas, novos métodos de produzir formas. Estas podem induzir ou resultar em novas estratégias formais e conceptuais. Porém, acredito que a estratégia formal mais radical é aquela que considera, crítica e reapresenta o existente e o conhecido, contribuindo para um discurso cultural e social contínuo e progressivo, permitindo significados alternativos. A novidade está em criar visões, perceções e diálogos com o existente dependendo do conhecimento do lugar.170 Se somos constituídos por memórias, conhecimentos e experiências assimiladas ao longo da vida, quer queiramos quer não, a invenção a partir do zero é utópica. A invenção está sempre associada a algo que já existente. “Os arquitetos não inventam nada, transformamos a realidade”, lembra-nos Álvaro Siza. Também Eduardo Souto Moura nos refere que “o problema de 168 PALLASMAA, Juhani; The embodied image: imagination and imagery in architecture, Chichester, John Wiley & Sons, 1982, p 101 169 HOLL, Steven; “Teeter totter architecture” em Perpecta n. 21, Cambridge MA: MIT Press, 1984, p 32 170 DIEDRICH, Lisa; Paisagem e património: aproximações pluridisciplinares, Porto, Dafne, 2013, p 96 120 Viipuri Library, Vyborg, Rússia, 1927 – 1935 Alvar Aalto - 056 121 desenho (do novo) não existe: existe o problema de redesenho. Desenhar deve ser um fenómeno de inteligência, e desenhar do zero é um fenómeno de estupidez, porque é perder um legado de informação disponível.”171 Dito de outro modo, “toda a tradição que não reconheça a suas dividas com o legado histórico está condenada a apresentar como próprias muitas coisas que, consciente o inconscientemente, foram tomadas de obras precedentes”172 A transformação constitui também uma atitude de criatividade. A invenção constitui uma faculdade do homem surgida graças ao trabalho e expêriencias, que lhe permitem reformular uma nova realidade com o material que dispõe, com vista a satisfazer uma necessidade ou desejo. Como nos diz David Chipperfield, “a nossa responsabilidade é experimentar e definir. Devemos resolver o potencial de um futuro carente de forma, mediante o significado e o sentido das formas e experiências já aceites. (…) O arquiteto deve situar-se à frente e ao mesmo tempo atrás da realidade presente. À frente para dar forma às possibilidades, fazer sugestões que estejam suficientemente fixadas na realidade, como ter um objetivo. Atrás, para entender que o contínuo das ideias criativas garante um sentido. No mundo contemporâneo, o significado obriga-nos a assegurar a importância do nosso trabalho numa realidade sociológica em contínuo desenvolvimento e sentido, numa enraizada tradição de formas e linguagem. Enquanto, a tradição exige um desenvolvimento continuo e a linguagem continua expandindo-se, temos a responsabilidade de dar ordem ou otimizar este processo, de selecionar os frutos do progresso. (…) Temos de habitar um presente em constante evolução motivado pelas possibilidades de mudança e limitado pela bagagem da memória e experiência.” 173 Embora a tradição possa condicionar a invenção, o processo de invenção pressupõe a aceitação do antecedente debatendo-se entre o passado, presente e o futuro. Trata-se essencialmente de uma atividade hermenêutica, um questionamento da realidade, um processo de análise, reinterpretação e síntese do existente, para ser devolvido ao mundo numa forma nova – “um produto do confronto, sem prejuízo, entre memória e presente, como condição de uma hipótese de futuro.”174 A criatividade, imaginação, fantasia, transformação, analogia, inovação, intuição, são algumas palavras que podem ser associadas à invenção. Atualmente, o que vemos é que essa criatividade tem sido introduzida pela 171 SOUTO DE MOURA, Eduardo; em entrevista por Paulo Pais, “A ambição da obra anonima”, Eduardo Souto de Moura, 2ª ed, Lisboa, Blau, 1996, p 30 172 MARTÍ ARÍS, Carlos; La cimbra y el arco, Barcelona, Fundación Caja de Arquitectos, 2005, p 51 173 CHIPPERFIELD, David; 2G: Revista Internacional de Arquitectura, n 1, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 1997, p 130 174 FERRANDO, Davide Tommaso; em “Imagine” [www.zeroundicipiu.it – consultado 07/04/2015] 128 Carpinteiro do Studio Mumbai - 060 129 arquiteto e artista possui uma cultura e referencias, uma importante bagagem pessoal de experiências resultantes de uma construção concetual e subjetiva permanente e uma visão sobre o mundo diferente dos demais. É através destas memórias pessoais em conjunto com a herança cultural e o ‘sentimen- to’ de toda a arquitetura que deve ser encontrada uma ‘síntese feliz’ com o objetivo de construir um presente novo em continuum com o passado. 4.2 Inovação e tradição A forma em que antecipamos o futuro define o significado que concedemos ao passado, da mesma forma em que nossos antepassados projetaram o futuro também determinou nosso próprio espetro de possibilidades. - Georgia Warnke A tradição é um desafio á inovação. É feita de enxertos sucessivos. Sou conservador e tradicionalista, isto é, movo-me entre conflitos, compromissos, mestiçagem, transformação. - Alvaro Siza A desilusão parece impulsar a inovação - Donald Kuspit Assim como a inovação precisa da tradição, também a tradição precisa da inovação para se manter atual. Só através do conhecimento e consciência da história e do existente é que se torna possível o progresso, da mesma forma que a tradição, para não se tornar obsoleta, necessita obrigatoriamente de se renovar. No entanto, Fampthon diz-nos que, ao contrário das ciências humanas que apreciam o passado, ”a inovação e as ciências técnicas vêm o passado como uma serie de momentos obsoletos e contrários á evolução.”186 A ideia de inovação coloca em cima da mesa a velha polémica entre arte e a técnica. Enquanto uma prossupõe a realização de peças únicas para a satisfação de uma determinado cliente, a outra é mais direcionada para as massas para “utilizadores cujas exigências são manipuladas por sofisticados sistemas de comunicação e produção.”187 A inovação e a invenção, que podem dar-se pelo desenvolvimento tecnológico como por um regresso ao passado – de um material ou instrumento, – costumam trazer consigo, talvez em menor grau, uma rutura. Da mesma 186 FRAMPTON, Kenneth; Estudios sobre cultura tectónica: poéticas de la construcción en la arquitectura de los siglos XIX y XX, Madrid, Akal, 1999, p 34 e 35 187 CANNATÀ, Michele e FERNANDES, Fátima; A tecnologia na arquitectura contemporânea, 1ª ed, Lisboa, Estar, 2000, p 13 130 Digital fabricação no estúdio helvético Gramazio Kohler - 061 131 forma que a inovação nos oferece novos materiais e técnicas, esta tende a substituir e a superar, através de processos cada vez mais mecanizados, digitais e radicais, outras ferramentas e substâncias similares que podem ser encontradas na tradição. Todavia, acredito que somente o encorajamento da utilização de processos tecnológicos em conjunto com a reutilização de técnicas tradicionais podem dinamizar a alternância continuidade-rutura e em consequência enriquecerem a tradição. Por mais tecnológicos, informados e informatizados que estejamos, é notável como a inovação pouco afetou o desenvolvimento das tipologias arquitetónicas – as habitações, os auditórios, pontes, continuam a se manifestar da mesma forma – ao contrário de outras áreas como as ciências e a medicina. O panteão continua ainda hoje a ser exemplo e modelo bem como a casa transparente de Mies Van der Rohe como ponto alto entre natureza e o construído. Porém, é sem sombra de dúvida que a tecnologia enriquece as possibilidades expressivas dos edifícios mas, também é verdade, que esta por si só não é garantia de um bom resultado. A inovação, cada vez mais aliada da tecnologia e do computacional, não pode passar por uma relação unicamente formal de sujeito e máquina, de ações repetitivas e mecanizadas. Qualquer sistema em evolução requer constantes mudanças e mutações, ajustes e ruturas em prol de soluções mais eficazes. Existe a necessidade de criar elos entre várias disciplinas e circunstâncias de forma a criar uma promiscuidade saudável capaz de gerar novas soluções que possam ser ajustadas aos diferentes contextos e culturas, sem que represente um prejuízo, mas uma melhoria. Tal como a tradição, a arquitetura é marcada pela interceção de várias áreas e pela tensão entre tradição e inovação, entre passado e futuro, implicando um contínuo discurso entre as duas, porque, tal como Kenneth Frampton refere, “entendemos a história não simplesmente porque nós a fazemos mas também porque ela nos fez; pertencemos a ela no sentido que herdamos a sua experiencia, projetando um futuro sobre conceitos básicos de situações do passado.”188 A arquitetura herda a consequência das inovações da tecnologia, da ciência, dos materiais e métodos. Conseguir um equilíbrio entre estes, entre estimulação e a resistência, entre a invenção e a inovação, aliando o passado e tradição, talvez possa ser um caminho para a construção de uma nova ou renovada tradição da arquitetura contemporânea. Uma tradição capaz de possuir permanência na mudança, sem perder o contacto com os aspetos essenciais. As capacidades tecnológicas e a vontade de transformação e invenção 188 FRAMPTON, Kenneth; Labour, work and architecture, collected essays, New York, Phaidon, 2002, p 17 132 Pavilhão Sepertine, 2014 por Smiljan Radic - 062 133 do homem deveram ser assim conjugadas com a reflexão da pesada herança histórica, a consciência da tradição e a consideração pelo contexto, a fim de “saber progredir sem esquecer o enorme esforço humano acumulado.”189 4.3 Material como testemunha A experiência se orienta para o conhecimento. A perceção para o saber. (…) Devemos sempre revisitar os nossos pontos de referência, já que em torno deles gira o conhecimento. - Eduardo Chilida A beleza do que se cria vem da maneira de como se honra o material. - Louis Kahn “Os materiais naturais (…) deixam que a nossa visão atravesse as suas superfícies e permitem que nos convençamos da veracidade da matéria. Os materiais naturais expressam a sua idade e história, além do nos contar as suas origens e o seu histórico de uso pelos humanos. Toda a matéria existe num continuum temporal; a patine do desgaste leva a experiência enriquecedora do tempo aos materiais de construção. Já os materiais industrializados atuais, (…) tendem a apresentar as suas superfícies inflexíveis aos nossos olhos sem transmitir a sua essência material ou a sua idade.”190 Esta afirmação parece fazer eco nas obras arquiteto chileno Smiljan Radićque, no passado, descreveu o seu trabalho como “arquitetura de pedregulhos!” Para este arquiteto não interessa tanto o material em si mas o conceito que o mesmo representa. “Uma pedra não serve só para que o edifício se sustente (…) mas atribui ao edifício uma certa história, geologia, tempo, uma certa relação com os seus elementos naturais. É como usar algo encontrado que vem com a sua história. Como manipulamos essa história é como ela se reflete no resto do edifício.”191 Essa manipulação dos materiais com a tradição e a arquitetura é complexa e imemorial. Por ordem natural, os materiais por vezes foram escravos da forma e aliados da estrutura constituindo elevada relevância para a história da arquitetura. Descobrir novos materiais e técnicas, o seu manejo e combinação, marcaram vários pontos na evolução da arquitetura sugerindo 189 MONTANER, Josep Maria; Depois do movimento moderno : arquitetura da segunda metade do século XX, Barcelona, Gustavo Gili, 2001, p 258 190 PALLASMAA, Juhani; Os olhos da pele: a arquitetura e os seus sentidos, São Paulo, Bookman, 2011, p 30 191 RADIĆ, Smiljan; em entrevista ao jonal Público 22/01/2015 134 Indian Institute of Management, 1974, Vastrapur, Índia por Louis Kahn - 063 135 novas possibilidade e gerando novas formas. São os materiais que tornam a arquitetura única, sendo tão importantes como a forma e a estrutura do projeto. A escolha do material é um processo criterioso que vem junto ao processo de conceção, algo que nasce com o projeto, respondendo a uma logica própria de expressão e construção. Todos os materiais, naturais, artificiais ou tecnológicos, são produtos e reflexo de uma época, de uma condição e contexto que os produz e utiliza como resposta às mais diversas necessidades. No passado o leque de opções era a pedra, a madeira, a terra e pouco mais que os materiais em abundância na proximidade local ou que estariam à disposição, sustentando o sentimento umbilical de relação com o lugar; hoje somos confrontados com um conjunto maior de possibilidades e escolhas sendo que a distância e a origem dos produtos já não importam. “A tradição que considerava lógico trabalhar com o material local desapareceu. Hoje a pedra local pode custar o dobro do que um material similar importado da China. E a atmosfera local pode ser conseguida através de materiais não-nativos semelhantes. A questão dos materiais locais foi desmistificada.”192 Atualmente, com a tecnologia e um maior número de experiências e soluções que esta possibilita, os materiais conseguem transcender muitas vezes as formas e as suas propriedades inatas. Também, com o avanço da investigação da biologia, engenharia, aeroespacial e a consequente demanda de novos materiais digitais, inteligentes, ‘bios e greens’, os edifícios já não são apenas objetos estáticos mas, tentam competir com os organismos vivos. Se antes os materiais dos edifícios afirmavam-se pelo caráter mais telúrico, táctil e objetivo em relação ao contexto, atualmente essa relação é cada vez mais distante graças à crescente influência das ferramentas digitais e da virtualidade. O que nos parece certo, é que o progresso, a investigação, a curiosidade e o desejo crescente de ‘mais e melhor’ vai continuar a procurar novos aplicações e materiais com melhores qualidade técnicas. Contudo, independentemente do material e dos problemas que se consigam solucionar, a relação que estes estabelecem com o Homem terá sempre importância. Para além das capacidades físicas, os materiais ‘lembram’193 e armazenam vários tipos de informação. Da mesma forma que as camadas da terra lembram as idades geológicas, os anéis das árvores recordam as primaveras e outonos passados e a montanha lembra a paisagem cultural, os materiais são testemunhas de significados, memórias e identidades podendo 192 SOUTO DE MOURA, Eduardo; em entrevista ao diário El Pais 30/07/2007 193 FERNÁNDEZ-GALIANO, Luis; Fire and memory: on architecture and energy, Cambridge, The Mit Press, 2000, p 66 136 Haus Gugalun, Versam, 1990, Perter Zumthor - 064 137 evocar sentimentos e emoções, Os materiais têm qualidades particulares que levam tempo a construir e que são necessárias para a evocação do sentimento de enraizamento e pertença do ser humano. São estes materiais e formas, o toque e os cheiros, a cor e a estética que fazem parte da identidade do lugar que nos permite reconhecer os locais. No entanto, vivemos num mundo saturado de sentidos e informação e, num tempo em que parece que o impacto do envelhecimento, o desgaste e vestígios de uso são considerados inerentemente negativos. Segundo o arquiteto Carlos Quintans, o arquiteto deve ajudar a conservar esse contacto com a matéria sendo possivelmente mais fácil quando se conservam os ofícios. “O prazer que nos dá a visão de certos materiais e formas de construírem, acompanhados de uma carga cultural gigantesca que herdamos e cuja valorização temos responsabilidade de passar aos nossos filhos. O tato, o olfato, acompanham o nosso olhar. Todos os nossos sentidos podem ficar mais aguçados. Porquê renunciar a isso? As falsas economias que abundam este momento apontam na busca do distante para abandonar o próximo, e essa dicotomia não deve existir.”194 Os materiais evocam os sentidos e agradavelmente a passagem do tempo. Exemplo disso são as obras de Peter Zumthor para quem as origens artesanais nutrem um profundo entendimento da natureza e linguagem dos materiais. Para este arquiteto, que com quinze anos de idade se tornou aprendiz de carpinteiro, um dos mais importantes elementos dos materiais são as sensações que estes provocam através da visão, do toque e do cheiro. “Eu vejo a ferrugem do metal da porta, o azul desenhado pelas colinas ao fundo, o reflexo do ar sobre o asfalto (…) eu vejo tudo, as lajes de cimento que seguram a terra, os fios de treliça, os balaústres cinzelados no terraço, o arco estucado sobre a passagem – todos eles mostram sinais de desgaste, de utilização e de habitação. E quando eu olho mais cuidadosamente, as coisas que vejo começam a dizer-me algo sobre o porquê, como e para que finalidade elas foram feitas. Tudo isso vem à luz, ou está oculto, dentro da sua forma ou presença… Eu gosto da ideia de que a casa que construo contribua para a densidade atmosférica do lugar, um lugar de que os seus habitantes e usuários se vão lembrar com prazer.”195 Os materiais e as peças usadas nas construções antigas herdam este ‘fazer lembrar’, esta densidade, estas coisas invisíveis que nos tocam196, com os quais podemos aprender a fim de enriquecer as construções produzidas atualmente – conhecer as técnicas e materiais tradicionais; observar o 194 QUINTANS, Carlos; em entrevista Revista ARQ/A n 101,mar/abril 2012, Lisboa, p 39 195 ZUMTHOR, Peter; Peter Zumthor works, Badden, Lars Muller publishers , 1998, p8 196 ZUMTHOR, Peter; Atmosferas, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2006, p 11 144 Der Wanderer über dem Nebelmeer, 1818 por Caspar David Friedrich Jeune homme à sa fenêtre, 1875 por Gustave Caillebotte 146 Casa em Balsthal, Suíça, 2013 por Pascal Flammer - 068 147 trAdiCionAl ContemPorâneo Depois de tudo o que foi dito e perante as diferentes visões que detemos atualmente, que de um lado apelam à rutura e à diferença e que do outro nos aconselham a seguir um caminho em continuidade com o precedente, como se pode ser tradicional e contemporâneo ao mesmo tempo? Talvez a resposta mais simples seja o ‘bom senso’ e uma adequada relação com todos os intervenientes do projeto, desde o cliente ao contexto, da tradição à inovação, do passado ao contemporâneo, afim de se conseguir encontrar uma ‘síntese feliz’ com o objetivo de construir um presente novo em continuum com o passado. Nesta era digital que parece estar a esquecer o passado, denota-se cada vez mais essa necessidade de síntese. O passado oferece, como um livro aberto, um reportório de recursos e experiências, um património provado. É no seu conhecimento que podem estar muitas respostas e chaves que, através do processo de observação, compreensão e crítica, atualizam a herança histórica e constroem o presente. “Para descobrir algo novo, devemos estudar o que é mais antigo.”211 Todavia, devemos também saber filtrar as experiências do passado para benefício dos planos do futuro. Por mais que modifiquemos os nossos cenários e existam ruturas, permanecerá sempre a nossa afinidade com o passado, mais pela sensibilidade do que pelo seu profundo estudo, sendo o seu conhecimento motivado sobretudo mais pela empatia ou necessidade do que pela via do ensino, com o objetivo de destacar da história o que pretendemos para materializar na prática porque senão, nenhum passado teria sentido. Por isso, acredito que, tal como o arquiteto José Miguel Rodrigues apontou, “a tradição será talvez o único território onde, quem estiver interessado (…) na progressão da arquitetura se pode e deve hoje situar.”212 Não se trata de renunciár o talento individual, mas colocá-lo ao serviço da tradição, embora o acto de criação de uma obra vá para além da sabedoria histórica e manual, pois é apenas entre a realidade das coisas e a imaginação que ocorre uma solução. Contudo, não é intenção mimetizar as formas do passado ou da 211 PALLASMAA, Juhani; Encounters: architectural essays - 1 vol, 2nd ed. Helsinki, Rakennustieto, 2012, p 138 212 RODRIGUES, José Miguel; O mundo ordenado e acessível das formas da arquitectura: tradição clássica e movimento moderno na arquitectura portuguesa: dois exemplos, Porto, Afrontamento, 2013, p 353 148 Atelier Peter Zumthor 1986, Haldenstein, Peter Zumthor - 069 149 tradição, mas através de diversos processos – de analogia, invenção e interpretação – conseguir uma tradição renovada e atual; da mesma maneira que não devemos rejeitar as inovações, avanços tecnológicos e técnicos atualmente disponíveis, mas encontrar um equilibro entre os meios e os modos de fazer tradicionais e os mais recentes, com a finalidade de não perdermos o saber empírico das ‘mãos dos outros,’ testemunhas de longas continuidades técnicas e culturais – para que os extraordinários muros feitos pelos pedreiros possam continuar a sustentar as coberturas impermeabilizantes feitas pelos mais recentes sistemas.213 Um dos processos mais interessantes e que permite a constante renovação da tradição é sem dúvida o da analogia. Como uma metamorfose, este processo permite que os mais variados motivos pertencentes ao passado e á cultura, ganhem forma e significado novo, sem deixar de nos parecer familiar pois, sempre que contruímos é em busca de significados. Tão importante como o passado, a relação com o contexto demonstrase como uma das caraterísticas mais importantes para o sentimento de pertença e reconhecimento de um lugar. Palcos das manifestações de cultura, tradição e identidade das sociedades, os lugares são mais importantes enquanto contexto que, através da ação da arquitetura, deve ser ampliado no sentido de conceder novos significados e qualidades. Contudo, hoje os contextos são atravessados por diversas formas e redes de intercâmbios que criam novas realidades e os tornam cada vez mais globais do que locais. A arquitetura deve conseguir mediar essas forças. Partindo de uma reflexão sobre as circunstâncias dos locais e estendendo-a para além dos limites do próprio lugar, a arquitetura em conjunto com a tradição, deve procurar inscreve-se numa consciência universal, global, como que invertendo o slogan ecológico para think locally, act globally. Esta reflexão sobre o contexto onde se insere a obra arquitetónica é indivisível da matéria, da construção e da forma que a compõe. É através da manipulação das formas e dos materiais que torna-se possível a criação de uma obra significativa, poética e integrada, como se fosse parte do lugar, capaz de evocar sensações e memórias e, de resistir à passagem do tempo. De alguma maneira, para que seja possível a evolução da tradição é necessário que enquanto arquitetos sejamos mais humanos do que técnicos desenhadores. Isto é, a tradição não surgiu como um projeto mas, através de um processo lento e longo composto por vários elementos, por vezes banais ou ambíguos, que ‘nos tocam’ e que a arquitetura deve refletir. Deverá assim a arquitetura, embora reconheça que seja difícil, ser 213 MACHADO, Carlos; em Eduardo Souto de Moura : concursos, 1979-2010: Porto: FAUP, 2011, p 42 150 Mosteiro de São Bento, Vaals, 1961 por Dom Hans van der Laan - 070 151 como aqueles locais que revisitamos ou livros que relemos inúmeras vezes sem nos cansarmos, e que em todas a vezes, como se fosse a primeira vez, encontrasse-mos sempre algo novo e dotado de frescura. Talvez seja este o verdadeiro poder da tradição e da arquitetura – conseguir parar o tempo e através da reformulação ou reintrodução dos elementos já conhecidos obter uma nova e sedutora frescura e vitalidade. Por mais que tenhamos uma necessidade de sentirmo-nos ligados a uma continuidade do tempo, não podemos olhar somente para o passado como último reduto para conseguir ir em frente mas, é também necessário arriscar, experimentar, inventar, tentar e descobrir, e por vezes falhar, porque, acredito que projetar arquitetura é como fazer uma viagem exploratória. Um projeto que somente se alimente da tradição, do lugar, falta-lhe o debate com o mundo, a irradiação do contemporâneo. Torna-se necessário saber oscilar todos elementos na medida certa. “A prática da arquitetura precisa de uma certa leviandade, precisa de uma certa falta de rigor, não se pode ter a informação toda, precisamos de arriscar, ficar coxos para depois ir buscar um pau e andar melhor.”214 No entanto, este arriscar deve ser consciente de que existe um passado e uma tradição que ainda nos diz algo; longe de ser estranha, ainda continua a ser-nos útil, mostrando-nos as suas mensagens essenciais. Continua a ser uma linguagem viva, apesar de muitos arquitetos terem perdido a vontade de a ouvir. Todavia, a tradição já não é nem será o que era! 214 SOUTO DE MOURA, Eduardo; entrevista a André Tavares e Pedro Bandeira em Eduardo Souto Moura Atlas de parede Imagens de método, Porto, Dafne, 2011, p 11 152 153 Bibliografia AUGÉ, Marc; As formas do esquecimento, Almada, Íman Edições, 2001 AUSTER, Paul; A Invenção da Solidão, São Paulo, Companhia de Letras, 1999 BRAGHIERI, Nicola; Charles Pictet, Luzern, Quart Verlag, 2012 CALVINO, Italo; Seis propostas para o próximo milénio, São Paulo, Companhia das Letras, 1990 CANNATÀ Michele, FERNANDES Fátima; Construir no Tempo, 1ª ed, Lisboa, Estar, 1999 CANNATÀ, Michele e FERNANDES, Fátima; A tecnologia na arquitectura contemporânea, 1ª ed, Lisboa, Estar, 2000 CARUSO, Adam; The feeling of things, Barcelona, Polígrafa, 2008 CHOAY, Françoise; A alegoria do património, 2ª ed, Lisboa, Edições 70, 2010 COSTA, Alexandre Alves; Textos datados, Coimbra, Edarq, 2007 DIEDRICH, Lisa; Paisagem e património: aproximações pluridisciplinares, coord. 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