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O Cartaz é uma Arma! Um estudo da produção cartazística do MRPP entre 1974 e 1976

Anna Carolina Nogueira Coutinho Carneiro

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O CARTAZ É UMA ARMA! UM ESTUDO DA PRODUÇÃO CARTAZÍSTICA DO MRPP ENTRE 1974 E 1976 ANNA COUTINHO Dissertação apresentada à Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Design Gráfico e Projectos Editoriais, realizada sob orientação científica do Prof. Doutor Mário Abel dos Santos Moura, professor auxiliar da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e designer Jorge Silva, do Atelier Silva Designers. 2015 Anna Carolina Nogueira Coutinho Mestranda em Design Gráfico e Projectos Editoriais, na Faculdade de Belas Artes da universidade do Porto [Proponente] Prof. Doutor Mário Abel dos Santos Moura Professor Auxiliar da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto [Orientador] Designer Jorge Silva Personalidade de reconhecido mérito, do Atelier Silvadesigners [Co-Orientador] ____________________________________________________ [Presidente do Júri] ____________________________________________________ [Arguente] Nota Introdutória: › O presente documento não se encontra escrito segundo as normas do Novo Acordo Ortográfico. › Esta dissertação não reflecte a opinião pessoal dos seus autores sobre o tema, nem a sua posição ideológica. Neste estudo propõe-se uma abordagem teórico-prática da propaganda pós-revolucionária em Portugal, no período imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, com base em pesquisas de diferentes autores sobre este assunto. O CARTAZ É UMA ARMA! UM ESTUDO DA PRODUÇÃO CARTAZÍSTICA DO MRPP, ENTRE 1974 E 1976 III RESUMO | ABSTRACT Resumo O Cartaz é uma Arma! propõe um processo de análise da produção cartazística do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), no período entre a pós-revolução portuguesa do 25 de Abril de 1974 e o I Congresso do Partido, em Dezembro de 1976. Para tal, o estudo investigou os cartazes existentes e criou uma base de dados, que compilasse toda a informação recolhida, permitindo uma análise mais detalhada de cada exemplar. Esta investigação de campo culminou numa dissertação teórica sobre as intenções do cartaz do MRPP na sociedade política pós-revolucionária. Abstract O Cartaz é uma Arma! (The Poster is a Weapon!) proposes a rationalization about the creation process of the Movement Reorganization of the Proletarian Party’s poster (MRPP), after the portuguese revolution on 25th April, 1974 and the 1st Party Congress, on December, 1976. The study investigated the existing posters and created a database to compile all the information, allowing a more detailed analysis of each copy. This field of research culminated in a theoretical dissertation on MRPP poster’s intentions in post-revolutionary political society. iv Ao General, um profundo obrigada por todos os momentos que partilhamos, e que despertaram o meu interesse pela política. À arquitecta e ao negociante, pois sem eles nada disto era possível. Ao músico, que pacientemente me acompanhou ao longo de todo o percurso. À designer e amiga, que aconselhou, criticou, entusiasmou de forma incansável. À família e amigos, por contribuírem indirectamente para esta dissertação. Agradeço aos meus orientadores, Mário Moura e Jorge Silva, por apostarem neste projecto. É devido um agradecimento ao PCTP/MRPP, em particular a Luís Franco e João Pinto, por me receberem na Sede Nacional e Sede do Porto, respectivamente, onde partilharam histórias e factos sobre o partido. Também a Gualberto Freitas, por todo o tempo que dispensou, para consulta da sua colecção pessoal de cartazes políticos. A Rosário Félix, pela interessante conversa e pelos cartazes facultados. Aos entrevistados, Joel Hasse Ferreira e Seixas do Carmo, pela sua partilha e disponibilidade. Resta-me referir algumas das instituições que contactei e contribuíram para este projecto: Centro de Documentação 25 de Abril, Biblioteca Nacional de Portugal, Comissão Nacional de Eleições, Universidade de Aveiro e Fundação Mário Soares. AGRADECIMENTOS V vi Índice Geral de Conteúdos Índice de Acrónimos e Siglas Índice de Figuras, Gráficos e Tabelas Índice de Anexos INTRODUÇÃO Uma Abordagem Preliminar ao Estudo Ferramentas para a Análise da Amostra Objectivos da Análise I. O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO I.1 A Propaganda e a Sociedade de Massas O Conceito de Propaganda O Processo de Comunicação As Formas Ideológicas As Categorias e Técnicas da Propaganda I.2 Um Contexto Da Ditadura à Revolução Dos Governos Provisórios ao Governo Constitucional I.3 O Emissor da Mensagem Massa Revolucionária De Movimento a Partido (1970-1976) I.4 O Cartaz enquanto Canal Uma Definição Funções, Características e Tipologia O Cartaz Político em Contexto O Cartaz Político Português ÍNDICES VII ÍNDICE GERAL DE CONTEÚDOS VII IX XI XIII 25 34 45 63 75 VIII II. A PRODUÇÃO CARTAZÍSTICA DO MRPP (1974-1976) II.1 Uma Análise da Mensagem Político-Partidária A Base de Dados: Processo de Estruturação Do Significante ao Significado II.2 Variáveis de Institucionalização e os Géneros de Cartaz Finalidade de Tradução Papel de Agenda Função de Estratégia Representatividade dos Géneros III. SÍNTESE CONCLUSIVA BIBLIOGRAFIA ANEXOS 105 121 133 ÍNDICE DE ACRÓNIMOS E SIGLAS IX AAPC AFAP AOC BNP CAP CDS CD25A CEE CML CMLP CNE COPCON CPL CR CT EDE EP EUA EPH FEML FMS FREP FSP GF JC JS JSN RF SN TAM TLP MCI MDP/CDE MES MFA ML Associação da Amizade Portugal-China Associação das Famílias dos Anti-Fascistas Presos Aliança Operário-Camponesa Biblioteca Nacional de Portugal Confederação dos Agricultores de Portugal Centro Democrático Social Centro de Documentação 25 de Abril Comunidade Económica Europeia Câmara Municipal de Lisboa Comité Marxista-Leninista Português Comissão Nacional de Eleições Comando Operacional do Continente Cooperativa Popular Livreira Karl Marx Conselho de Revolução Comissão de Trabalhadores Esquerda Democrática Estudantil Estudantes Portugueses Estados Unidos da América Ephemera - Biblioteca e Arquivo J.Pacheco Pereira Federação Estudantes Marxistas-Leninistas Fundação Mário Soares Federação Revolucionária dos Estudantes Portugueses Frente Socialista Popular Colecção Pessoal Gualberto Freitas Juventude Centrista Colecção Pessoal Jorge Silva Junta de Salvação Nacional Colecção Pessoal Rosário Félix Sede Nacional PCTP/MRPP Textos Arnaldo Matos Telefones de Lisboa e Porto Movimento Comunista Internacional Movimento Democrático Português/ Comissão Democrática Eleitoral Movimento Esquerda Socialista Movimento das Forças Armadas Marxistas-Leninistas XVI Fig. 23 Fig. 24/25 26/27 Fig.1 Fig. 2 Fig. 3 Fig. 4 Fig. 5 Fig. 6 Fig. 7 Fig. 8 Fig. 9 Fig. 10 Fig. 11 Fig. 12 Cartaz: Todos à Feira do livro, Todos à Vento de Leste. Dep. Propaganda MRPP, [s.d.]. Arquivo Centro Documentação 25 Abril. [O-CD25A-MRPP-0002]. Publicações (capas): Glória Eterna à Memória do Grande Dirigente e Grande Educador O Presidente Mao Tsé-Tung, Sobre a Linha Geral para o Movimento Comunista Internacional, Estaline - Obras I (1901-1907), O que é o Marxismo?, Sobre o Estado e as Eleições. Disponível [online] na ww em <ephemerajpp.com/2012/02/27/ editora-vento-de-leste-varios>. I.4 O Cartaz Enquanto Canal Cartaz político (multi-módulos): Comício Nacional: Viva o Partido, Viva o 18 Setembro. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1975.4 x (68 x 98 cm), Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Cortesia Gualberto Freitas. Cartaz/Mural/Pintura: Não Votar. Manifestação.1975. Cortesia Gualberto Freitas. Fotografia: Cartazes MRPP nas ruas de Lisboa. 1976. Disponível [online] na www em <ephemerajpp.com/2014/02/15/entradas-diapositivos-com-fotografias- de-murais-fachadas-e-paineis-de-partidos-e-movimentos-politicos>. Cartaz político: A Vida Feliz que o líder nos dá. Xin Liliang, Março 1954. 78 x 53 cm. (Hurd, 2009, 63). Cartaz político/guerra: BritonsWantsYou. Alfred Leete, 1914. (Hollis, 1994, 34). Cartaz político/guerra: I Want You for U.S. Army. Montgomery Flagg, 1917. Disponível [online] na www em <propagandaposterstore.com/product/iwant-you-for-u-s-army.jpg>. Cartaz político/guerra: Este é o Caminho para a Paz - o Inimigo pediu por isso! Subscreva o Empréstimo de Guerra. Lucian Bernhard, 1917. (Hollis, 1994, 30). Cartaz: Abaixo o Fascismo!. Viktor Deni, 1929. 52,5 x 68,5 cm. (Hurd, 2007, 56). Cartaz: Inscreveste-te para ser voluntário?. Dmitri Moor, 1920. (Hurd, 2007, 31) Cartaz:Vence os Brancos com a Cunha Vermelha. El Lissitzy, 1920. (Meggs, 1983, 376). Cartaz soviético: Levantem alto a bandeira de Marx, Engels, Lenine e Estaline. Gustav Klutsis, Moscovo, 1936. 47 x 95 cm. (Hurd, 2007, 74-75). Cartaz soviético: Vida longa ao operário e camponês no Exército Vermelho - A Guarda Fiel na Fronteira Soviética!. Gustav Klutsis, 1935. (Hurd, 2007, 70). XVII Fig. 13 Fig. 14 Fig. 15 Fig. 16 Fig. 17 Fig. 18 Fig. 19 Fig. 20 Fig. 21 Fig. 22 Fig. 23 Fig. 24 Fig. 25 Fig. 26 Fig. 27 Cartaz soviético: Sempre na linha da frente!. Viktor Koretsky, 1947. 89 x 60 cm. (Hurd, 2007, 115). Fotografia: As Crianças Congratulam a Comitiva de Hitler com Flores. Alemanha, [1933- 1945]. Disponível [online] na www em <jettandjahn.com/2013/04/day-seven- of-novena-to-saint-adolf-hitler-nuremberg-rallies>. Cartaz nazi: O Estudante Alemão Luta pelo Führer e pelas Pessoas. Alemanha, 1933- 1945]. Disponível [online] na www em <artres.com/C.aspx?VP3=ViewBox_VP age&VBID=2UN3650NFY6S&IT=ZoomImageTemplate01_VForm&IID=2UN TWAIWIO2I&PN=25&CT=Search&SF=0>. Cartaz nazi: Und du? [E tu?]. Ludwig Hohlwein, 1940. (Meggs, 1983, 358). Cartaz britânico: Join The A.T.S. Grã-Bretanha, Ministério da Guerra, 1942. Disponível [online] na ww em <vintageposterblog.com/2011/12/14/wargames/#.VZmXQO1Viko>. Cartaz americano: Keep ‘em Rolling. Leo Lionni, 1941. (Hollis, 1994, 113). Cartaz chinês: Para as vilas, nós vamos! Para as fronteiras, nós vamos! Para as terras onde somos mais precisos, nós vamos! Fevereiro 1970. 77 x 53 cm. (Hurd, 2009, 161). Cartaz chinês: Derrubar Peng Dehuai, Luo Ruiqing, Chen Zaidao, Liao Laotan! (Oposição a Mao Tsé Tung). 1967. 78,5 x 53,5 cm. (Hurd, 2009, 144). Cartaz chinês: No que diz respeito ao grande presidente e professor Mao, devemos valorizar a palavra Lealdade. Abril 1968. 77 x 106 cm. (hurd, 2009, 149). Cartaz chinês: Nós devemos confiar na auto-suficiência. Gab. de Alfabetização - Comité Revolucionários da Província Shanxi, 1972. 53,5 x 76,5 cm. (Hurd, 2009, 173). Cartaz chinês: O país aprende com o Exército Libertador do Povo. Maio 1971. 53 x 77 cm.(Hurd, 2009, 170). Cartaz Estado Novo: Portugueses, Votai no Estado Novo. 1933. Disponível [online] na www em <blackfernando.blogspot.pt/2011/06/portugueses-votai.html>. Cartaz Estado Novo: Nós Queremos um Estado Forte! Votai a Nova Constituição. Almada Negreiros, Março 1933. Disponível [online] na www em <www.casacomum. org/cc/visualizador?pasta=06278.04416>. Cartaz Estado Novo: A Lição de Salazar. 1938. Disponível [online] na www em <casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06278.00001>. Cartaz político: Queremos Responder. CDS, 1975. Neogravura - Lisboa, 98 x 67 cm. Colecção Ephemera. [O-EPH-CDS-0040]. XVIII Fig. 28 Fig. 29 Fig. 30 Fig. 31 Fig. 32 Fig.33 Fig. 34 Fig. 35 Fig. 36 Fig. 37 Fig. 38 Fig. 39 Fig. 40 CAP. II Fig. 1/2 Cartaz político: Abaixo o Governo dos traidores!. 1917. 33,5 x 22,5 cm. (Samara; Baptista, 2010, 43). Cartaz político: MFA, Sentinela do Povo. João Abel Manta, 1975. Disponível [online] na ww em <imaginarythinking.wordpress.com/tag/25-de-abril/>. Cartaz político: Comício Juventude Centrista. JC, 1974. Arquivo CDS-PP. Cartaz político: Portugal com Sá Carneiro. Partido Popular Democrático, 1974. 60,5 x 41cm. (Freitas, 2009, 84). Cartaz político: Em luta por um Portugal Livre. Partido Popular Democrático, 1974. 58,5 x 39 cm. (Freitas, 2009, 84). Cartaz político: Condições Justas de Trabalho e Vida Digna para Quem Trabalha a Terra. União Democrática Popular, Abril 1976. Casa Portuguesa - Lisboa, 68 x 47 cm. (Freitas, 2009, 75). Cartaz político: Democratizar, Socializar, Desenvolver. Partido Socialista, 1974. Oficinas Gráficas M.A. Pacheco - Lisboa, 67 x 45 cm. (Freitas, 2009, 92). Cartaz político: Mário Soares - Vota PS. Partido Socialista, Abril 1975. Peres Artes Gráficas, 90 x 62,5 cm. (Freitas, 2009, 93). Cartaz político: 1º Comício na Póvoa do Varzim. Partido Comunista Português, Janeiro 1975. 1000 ex., 47 x 31,5 cm e 98,5 x 65 cm. (Freitas, 2009, 56). Cartaz político: Grande Comício. 48 x 68 cm. Fotografia da Exposição Álvaro Cunhal - Centenário, Porto 2013. Cartaz político (pormenor): ...O tempo é de Guerra, mas o Horizonte é Vermelho!. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1975. 68 x 48 cm, Offset. Arquivo Centro Documentação 25 de Abril. [CD25A-MRPP-0024]. Cartaz político: Morte ao Fascimo. Dep. Propaganda MRPP, Outubro 1974. Tipografia e Linólio, 42 x 30 cm. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMSMRPP-0050]. Cartaz político: 18 Setembro. Comício MRPP. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1974. 69 x 49 cm, Serigrafia. Colecção Pessoal Rosário Félix. [RF-MRPP-0120]. A PRODUÇÃO CARTAZISTA DO MRPP II.1 Uma Análise da Mensagem Político-Partidária Fotografia: Cartazes MRPP. Registo fotográfico efectuado na Sede Nacional do PCTP/MRPP, a 13 de Dezembro de 2012. Tabela: Número de Cartazes Recolhidos do PCTP/MRPP, por Instituição. Base de Dados O Cartaz do PCTP/MRPP. Tabela: Número de Peças Auxiliares Recolhidas, por Instituição. Base de Dados Outras Peças Auxiliares. Fotografias: Painel Auxiliar, para melhor percepção da recolha e da amostra de cartazes do MRPP, entre os anos 1970 e 2012. Gráfico: Número de Exemplares de Cartazes Recolhidos, por ano. MRPP e PCTP/ MRPP no período entre 1970 e 2012. Cartaz político: Fogo sobre o Capitulicionismo. Dep. Propaganda MRPP, Julho 1976.48 x 75 cm, Offset. Distribuição Nacional. Arquivo Centro Documentação 25 de Abril. [CD25A-MRPP-0025] Cartaz político: Viva o Controlo Operário/ Viva a Semana das 40 Horas. Dep. Propaganda MRPP, Março 1976. 61 x 86 cm, Offset. Arquivo Biblioteca Nacional de Portugal. [BNP-MRPP-0013]. Cartaz político: Grande Comício - A Classe Operária deve ousar avançar na Revolução!. Dep. Propaganda MRPP, Julho 1975. 70 x 100 cm, Offset, Distribuição Nacional, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Bib. Nacional P. [BNP-MRPP-0017]. Símbolo: MRPP - Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado. Cartaz político: MRPP (bandeira do partido). Dep. Propaganda MRPP, 1976. 48 x 68 cm, Offset. Arquivo Fundação Mário Soares.[FMS-MRPP-0084]. Cartaz político: Morte ao Revisionismo. Dep. Propaganda MRPP, Maio 1975. 97,5 x 67,5 cm, Offset. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0003]. Cartaz político: Em frente na Grande Via da Revolução Democrática Popular. Dep. Propaganda MRPP, Março 1975. 96 x 63 cm, Offset. Arquivo Fundação Mário Soares [FMS-MRPP-0063]. Cartaz político: Comício Amadora . Nenhum Apoio ao Governo Provisório. Dep. Propaganda MRPP, Agosto 1975. 68 x 48 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Universidade de Aveiro. [UA-MRPP-0036]. Cartaz político: Niguém há-de Calar a Voz da Classe Operária. Dep. Propaganda MRPP, Novembro 1975. Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0081]. Cartaz político: Comício Algés: A Classe Operária tem um Partido. Dep. Propaganda MRPP, Abril 1976. 68 x 48 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Universidade de Aveiro. [UA-MRPP-0034]. Tab. 1 Tab. 2 Fig. 3/4/5/6 Graf. 1 Fig. 7 Fig. 8 Fig. 9 Fig. 10 Fig. 11 Fig. 12 Fig. 13 Fig. 14 Fig. 15 Fig. 16 XIX Fig. 17 Fig. 18 Fig. 19 Fig. 20 Fig. 21 Fig. 22 Fig. 23 Fig. 24 Fig. 25 Graf. 1 Fig. 1 Fig. 2 Fig. 3 Cartaz político: Levantemo-nos Contra a Fome e a Miséria!. Dep. Propaganda MRPP, Janeiro 1976. 68 x 48 cm, Offset. Arquivo CD25A. [CD25A-MRPP-0027]. Cartaz político: Comício S. Vicente. Dep. Propaganda MRPP, Janeiro 1975. 49 x 35 cm, Serigrafia (p. cenário). Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0059]. Cartaz político: Comício do MRPP sobre a situação política actual. Dep. Propaganda MRPP, Agosto 1975. Tipografia e Linólio. Arquivo FMS. [FMS-MRPP-0144]. Cartaz político (pormenor): Contra as Desocupações! Contra a Traição Revisionista!. Dep. Propaganda MRPP, 1976. 77 x 51 cm, Serigrafia. Arquivo BNP. [BNPMRPP-0030]. Cartaz político (pormenor): Comício Moscavide. Dep. Propaganda MRPP, Julho 1975. 70 x 100 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Biblioteca Nacional de Portugal. [BNP-MRPP-0016]. Cartaz político (pormenor): Comício Setúbal - A Revolução tem de Avançar a Todo o Vapor. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1975. 68 x 49 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa.Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0061]. Cartaz político: O Fim do Faétn. Dep. Propaganda MRPP, Agosto 1975. 71 x 51 cm, Offset. Artigo Biblioteca Nacional de Portugal. [BNP-MRPP-0019]. Cartaz político (pormenor): O 1.º de Maio é Vermelho. Dep. Propaganda MRPP, Maio 1975. 67 x 47 cm, Tipografia e Linólio. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0042]. Cartaz político (pormenor): Comício Nacional: Viva o Partido, Viva o 18 Setembro. Dep. Propaganda, Setembro 1975. 98,5 x 68,5 cm e 197 x 137 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo PCTP/MRPP. [SN-MRPP-0007]. II.2 Os Géneros de Cartaz e Variáveis de Institucionalização Gráfico: Representatividade das Variáveis Institucionais e Géneros de Cartaz, na amostra entre os anos 1974 e 1976 (unidades). Cartaz político: Apelo à Esquerda. Comité Martins Soares, Setembro 1975. 50 x 35 cm, Offset. Arquivo Universidade de Aveiro.[UA-MRPP-0082]. Cartaz político: Morte ao Revisionismo. Dep. Propaganda MRPP, Maio 1975. 97,5 x 67,5 cm, Offset. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0003]. Cartaz político: Viva a Grande Revolução Socialista de Outubro. Dep. Propaganda, Novembro 1976. 69,5 x 49 cm, Serigrafia. Arquivo Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0093]. XX Cartaz político: Viva o Maoísmo!. Dep. Propaganda, 1976. 48 x 32 cm, Serigrafia. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0097]. Cartaz político: Vivam os Orgãos da Vontade Popular. Dep. Propaganda, Dezembro 1975. Offset. Arquivo PCTP/MRPP. [SN-MRPP-0149]. Cartaz político: ...O tempo é de Guerra, mas o Horizonte é Vermelho!. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1975. 68 x 48 cm, Offset. Arquivo Centro Documentação 25 de Abril. [CD25A-MRPP-0024]. Cartaz político: Manifestação Popular. Dep. Propaganda MRPP, 1975. 97 x 64 cm, Offset. Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0065]. Cartaz político: Grande Comício: A Classe Operária deve ousar avançar na Revolução!. Dep. Propaganda MRPP, Agosto 1975. 98, 5 x 71 cm, Offset, Litomaia - Porto. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0004]. Cartaz político: Comício Moscavide. Dep. Propaganda MRPP, Novembro 1975. Offset. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0145]. Cartaz político: Comício com o Camarada Secretário Geral Arnaldo Matos. Dep. Propaganda, Dezembro 1975. 42 x 59, 4 cm, Offset, Distribuição Nacional, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo PCTP/MRPP. [SN-MRPP-0069]. Cartaz político: Grande Comício - Que Caminho se Abre à Classe Operária?. Dep. Propaganda, Abril 1975. 65 x49 cm, Offset, Dstribuição Nacional. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0064]. Cartaz político: Camarada Mao Tsé Tung. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1976. 49 x 57 cm, Offset, Distribuição Nacional, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0044]. Cartaz político (pormenor): Organizar o Congresso de Dezembro. Dep. Propaganda MRPP, Dezembro 1976. Distribuição Nacional, Offset. Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0060]. Cartaz político: O 1º de Maio é Vermelho. Dep. Propaganda MRPP, Maio 1975. 96 x67 cm, 30 000 exemplares, Offset, Empresa Jornal do Comércio, SARL. Arquivo Fundação Mário Soares. [FMS-MRPP-0010]. Cartaz político: 1º Maio Vermelho. Dep. Propaganda, maio 1976. 97,5 x 67,5 cm, Offset. Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0011]. Cartaz político: 18 Setembro - 4 anos de Luta pela Fundação do Partido. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1974. 59,5 x 42,5 cm, Offset, Beira Douro - Porto. Arquivo Centro de Documentação 25 de Abril. [CD25A-MRPP-0012]. Fig. 4 Fig. 5 Fig. 6 Fig. 7 Fig. 8 Fig. 9 Fig. 10 Fig. 11 Fig. 12 Fig. 13 Fig. 14 Fig. 15 Fig. 16 XXI Fig. 17 Fig. 18 Fig. 19 Fig. 20 Fig.21 Fig. 22 Fig. 23 Fig. 24 Fig. 25 Fig. 26 Cartaz político: O Povo jamais esquecerá Ribeiro Santos e Alexandrino de Sousa!.Dep. Propaganda MRPP, Outubro 1976. 57 x 40 cm, Distribuição Nacional, Offset. Arquivo Centro de Documentação 25 de Abril. [CD25A-MRPP-0022]. Cartaz político: Comício Nacional de Homenagem Ribeiro Santos. Dep. Propaganda MRPP, Outubro 1974. 42 x 58,5 cm, Offset, Beira Douro - Porto. Arquivo Centro de Documentação 25 de Abril. [CD25A-MRPP-0001]. Cartaz político: Viva a Candidatura Operária. Dep. Propaganda MRPP, Abril 1976. 98 x 68 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo BNP. [BNP-MRPP-0029]. Cartaz político: Viva a Escola de Quadros “18 de Julho”. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1976. 77 x 51 cm, Serigrafia. Arquivo BNP. [BNP-MRPP-0014]. Cartaz político: Vota MRPP: O Voto do Povo, nos Candidatos do Povo e no Mandato Popular. Dep. Propaganda MRPP, Abril 1976. 68 x 48 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Biblioteca Nacional de Portugal. [BNP-MRPP-0021]. Cartaz político: Vota Eanes. Dep. Propaganda MRPP, Junho 1976. 84 x 58, 5cm, Offset. Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0057]. Cartaz político: Por uma Ampla Autonomia ao Serviço do Povo e Dirigida pelo Povo. Dep. Propaganda MRPP, 1976. 68 x 48 cm, Offset, Casa Portuguesa - Lisboa. Arquivo Biblioteca Nacional de Portugal. [FMS-MRPP-0048]. Cartaz político: A Classe Operária tem um Programa (...) A Classe Operária tem um Partido. Dep. Propaganda MRPP, Abril 1976. Arquivo FMS. [FMS-MRPP-0085]. Cartaz político: Libertemos o Camarada Arnaldo Matos. Dep. Propaganda MRPP, Junho 1975. 43 x 31 cm. Colecção Pessoal Gualberto Freitas. [GF-MRPP-0096]. Cartaz político: Comíco MRPP. A Terra a Quem a Trabalha. Dep. Propaganda MRPP, Setembro 1974.Tipografia e Linólio. Arquivo FMS. [FMS-MRPP-0091]. XXII A. CONVERSAS INFORMAIS Joel Hasse Ferreira Ex- Director da Empresa Jornal do Comércio Luís Franco Secretário-Geral do PCTP/MRPP Rosário Félix Departamento de Propaganda do MRPP. Seixas do Carmo Departamento de Propaganda do MRPP. B. GRÁFICOS E TABELAS AUXILIARES B.1 Cronologia de Eleições/Referendos (1974-2012) B.2 Cronologia/Tabela de Mandatos dos Governos Provisórios (1974-1975) B.3 Ficha de Identificação do Cartaz (Base de Dados - O Cartaz do PCTP/MRPP) B4. Representatividade das Variáveis Institucionais, entre 1970 e 2012, nos Cartazes Recolhidos B5. Representatividade das Variáveis Institucionais, no Cartaz do MRPP, em 1974. B6. Representatividade das Variáveis Institucionais, no Cartaz do MRPP, em 1975. B7. Representatividade das Variáveis Institucionais, no Cartaz do MRPP, em 1976. ÍNDICE DE ANEXOS XXIII A cantiga é uma arma eu não sabia Tudo depende da bala e da pontaria Tudo depende da raiva e da alegria A cantiga é uma arma de pontaria José Mário Branco, A Cantiga é uma Arma, tema composto em 1973 para os I Jogos Florais, organizados em França pelo jornal O Salto e pelo Movimento dos Trabalhadores Portugueses Emigrados INTRODUÇÃO Uma Abordagem Preliminar ao Estudo A comunicação assumiu um papel fundamental na sociedade do século XX, de tal forma que se tornou corrente a expressão sociedade da comunicação. Os historiadores retratam este século salientando os acontecimentos extremos no panorama político-económico e social (Hobsbawn, 2002),1 como também na transformação da comunicação visual no campo das artes. Nas guerras e revoluções, a comunicação através da imagem protagonizou a evolução do modo de transmissão de mensagens a um grande número de indivíduos, por este motivo ficou conhecido como o século das imagens (Vieira, 1999-2001, 5). O desenvolvimento de novos suportes, principalmente os portadores de informação visual, como o cartaz e a imprensa periódica, multiplicaram e massificaram a comunicação pela imagem, tornando-se um recurso imprescindível na construção da cultura visual, em especial na acção da propaganda política.2 A propaganda política,3 como ‘arma’, é em si mesma um discurso de poder,4 capaz de sustentar ditaduras e simbolizar a condição intrínseca das democracias. Este fenómeno é a linguagem dedicada à sociedade de massas, influenciando atitudes e formando opiniões. Portugal não ficou indiferente a este veículo de propagação de ideias e persuasor da esfera pública, capaz de contemplar uma pluralidade de discursos, quer através da imagem, quer da palavra, carregando mensagens explícitas e implícitas. Ao longo da história portuguesa do século XX, são visíveis, no cartaz, os vestígios do enquadramento cultural e político, o progresso tecnológico e influências do estrangeiro (Fragoso, 2012, 17). Por exemplo, o Estado Novo5 1 Para a apresentação das referências bibliográficas, aplicou-se o seguinte critério: (nome, ano, página). No caso em que o autor é referido no texto ou citado imediatamente antes, utilizou-se a norma: (ano, página). 2 O termo política tem origem na palavra grega Pólis, a Cidade-Estado, e defini-se pela “actividade de tipo competitivo que tem por objectivo a luta pelo poder, bem como a actividade de tipo directivo que consiste em governar” (Amaral, 2012, 17). “A política diz respeito à luta pelo poder e à maneira de o exercer, governando” (Amaral, 2014, 51). 3 Sugere-se a leitura do ponto I.1 A Propaganda e a Sociedade de Massas, para esclarecimentos sobre o conceito de propaganda, propaganda política, comunicação em massa e sociedade de massas. 4 Em contexto, o poder ou tomada do poder, “é a faculdade de mandar e a capacidade de se fazer obedecer”, pela Constituição, lei ou estatutos de uma organização (Amaral, 2014, 50). A pretensão do exercício de poder político ou de autoridade política podem ser de tipo eleitoral ou de tipo revolucionário. No caso da propaganda produzida pelo MRPP, no pós-25 de Abril, considerou-se o intuito de tomada de poder pela via eleitoral, visto que estava em processo a via democratizante do país. 5 A expressão Estado Novo designou o regime político autoritário, governado por Salazar. 32 Por último, o estudo, sob o ponto de vista gráfico, incide na percepção e análise dos parâmetros específicos da comunicação do cartaz. Elementos que desempenham papel fundamental na optimização e adaptação dos recursos, para a transmissão de uma mensagem político-ideológica. A conjugação destes signos13 é suspeita de comprometimento ideológico, pois a linguística nunca é neutra, conscientemente escolhe o seu campo (Calvet, 1973, 24). Na combinação de elementos gráficos e estética particular pode eventualmente concretizar a mensagem ideológica, que desempenha um papel essencial no grau de inteligibilidade do discurso do MRPP. O Cartaz é uma Arma! pretende ser um estudo da relação entre o discurso da produção cartazística do MRPP e os seus objectivos de pretensão tomada de poder e divulgação nas massas, no período pós 25 de Abril de 1974. 13 Sucintamente, um signo é algo que se refere ou toma lugar de outra coisa. Um signo pode ser representado pela língua, imagem ou cinesia. Segundo Moles (1969, 87), o que caracteriza um signo é a sua arbitrariedade, por “não ser fruto de um consenso da massa social, mas de uma minoria de pessoas, cuja tarefa consiste, precisamente, em criar uma linguagem”. Por exemplo, a foice e o martelo são ferramentas de trabalho operário ou os mesmos objectos, mas combinados de forma específica, representam um partido. | INTRODUÇÃO Fig. 2 No cartaz (pormenor) salienta-se a actividade promovida pelo MRPP: a 1ª Conferência Nacional sobre o Trabalho de Propaganda, Janeiro 1975. Fig. 1 Cartaz Político (pormenor): Vota MRPP. O Voto do Povo nos Candidatos do Povo e no Mandato Popular, 1976. O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO CAPÍTULO I I.1 A PROPAGANDA E A SOCIEDADE DE MASSAS O século XX, ostenta o título d’O Século da Propaganda (Quintero, 2011, I), termo presente no quotidiano da sociedade moderna e amplamente aceite pelos partidos políticos, na sua comunicação com as massas. A sua origem mais remota encontra-se, em 1622, na Sacra Congregatio de Propaganda Fide (ou Sacra Congregatio Christiano Nomini Propaganda), atribuída na bula Inscrutabili Divine, emitida pelo papa Gregório XV (1554-1623),1 como instrumento de luta da Contra-Reforma (2011, 19).2 A acção da propaganda é um fenómeno mais abrangente e mais antigo que a sua denominação com data precisa.3 O seu uso espelha a pretensão de tomada de poder, por parte do seu emissor, quer nas primeiras religiões e formas primitivas de Estado (2011, II)4, quer no conceito partidário do presente. O Conceito de Propaganda Em 1927, no período entre guerras, Harold D. Lasswell (1902-1978) publicou Propaganda Technique in the World War, tornando-se uma obra de referência no estudo de “um dos mais poderosos instrumentos no mundo moderno” (1927, 220) - a propaganda. Assim, surgiram novas perspectivas sobre a influência da comunicação social na sociedade de massas. Esta considerava-se ser uma das consequências da industrialização (Wolf, 1985, 24), subvertendo “tudo o que é diferente, singular, individual, tudo o que é classificado e seleccionado” (Ortega Y. Gasset, 1930), ou seja, alienando a exclusividade das elites em prol de uma massificação de objectos, ideias e estilos. Este conceito pressupõe um: (...) conjunto homogéneo de indivíduos que, enquanto seus membros, são essencialmente iguais, indiferenciáveis, mesmo que provenham de ambientes diferentes, heterogéneos, e de todos os grupos sociais (Wolf, 1985, 25). Deste modo, a comunicação propagandista é elaborada e direccionada às massas, procurando atingir directamente um objectivo, por um meio curto e mensagem 1 Esta organização já funcionava desde 1572, com reuniões sugeridas pelo Papa Gregório XIII (1502- 1585) (Quintero, 2011, 19). 2 A Contra-Reforma surge em resposta à reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero (1483- 1546), em 1517. 3 Após o Primeiro Conflito Mundial (1914-1918), o termo assumiu um carácter pejorativo, causado pelas notícias falseadas. No entanto, o seu uso manteve-se na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e noutros regimes ditatoriais, com uma conotação positiva. 4 Hoje, o conceito de Estado pressupõe a existência de um povo organizado, território delimitado e instituição de um poder político (Amaral, 2014, 63). 35 dominante simples (Simmel, 1917, 68), e acredita que a massa é um todo, indefesa e passiva e sem regras de comportamento ou estrutura organizativa (Blumer, 1936 e 1946). A propaganda e a publicidade partilham a problemática e os recursos na busca de uma maior eficácia na transmissão de mensagens. Ambas vivem em contínua simbiose e usufruem do poder da repetição das imagens apelativas e atraentes, mas divergem no seu conteúdo. Domenach (1922-1997), no seu livro A Propaganda Política, descreve a acção da publicidade como uma procura preferencial em “impressionar mais do que convencer, sugestionar antes de explicar” (1973, 20). Enquanto que a propaganda se preocupa com fins políticos, a publicidade incide num meio comercial, com o objectivo último de venda e lucro. A propaganda pretende influenciar a atitude fundamental do ser humano (1973, 10), participando de forma omnipresente no quotidiano das massas. Domenach reconhece dois tipos de propaganda, uma amplamente ligada a um padrão de campanha eleitoral de carácter esporádico - a propaganda de tipo publicitário [Fig. 1], e outra, de expressão concreta e permanente, com o intuito de uma nova tomada de posição por parte das massas - a propaganda totalitária -, que conjuga ideologia e política. Esta última, data da Revolução Francesa (1789- 1799),5 com os primeiros discursos e comícios revolucionários, para expandir a mensagem por todo o território. Revolução pioneira, empreendendo a “primeira guerra de propaganda e a primeira propaganda de guerra”, na mobilização de todas as forças nacionais, até ao “estado de guerra total” (1973, 21-23). A propaganda tornou-se auxiliar da estratégia, para a coesão interna e provocar o caos no campo inimigo. O marxismo-leninismo aperfeiçoou a ligação entre a propaganda totalitária e de guerra, construindo uma “estratégia revolucionária de massas” (1973, 24).6 As grandes campanhas de propaganda política alimentaram-se nestas fontes e elevaram para outro patamar a comunicação massiva com o público. Em consequência deste processo de comunicação, que desfruta de técnicas específicas, pressupõe-se uma persuasão e manipulação dos ideais individuais, recorrendo ao cartaz enquanto canal de transmissão ideológica [Fig. 2]. No presente estudo salienta-se a importância da comunicação propagandística, no período imediatamente anterior ao 25 de Abril de 1974, ainda de carácter clandestino, e no momento crítico após a revolução, em que é extremamente 5 Marca a queda da Monarquia Absolutista, em França, e a instauração de ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. 6 Linha de pensamento político, influenciado por Karl Marx (1818-1883) e Lenine (1870-1954), numa concepção do mundo sem desigualdades e um sistema económico sem exploração. Fig. 1 Cartaz Político: Vota PCTP/MRPP, Dez. 1982. Fig. 2 Cartaz Político, com carácter totalitário: Adoramos o Presidente Mao, Maio 1955. 36 necessário manter a via do canal aberta e instigar novos objectivos à massa já conquistada. Esta comunicação, na fase pós-revolucionária, é imprescindível para a legitimação do exercício do poder. O Processo de Comunicação A prática da propaganda em liberdade considera-se uma condição essencial num regime democrático, tal como as liberdades de expressão, reunião, associação e contrapropaganda. A orquestração das formas de comunicação produz discursos emparelhados de convicção ideológica, numa tentativa de formação da opinião pública. Deste modo, a propaganda e a política convertem-se num “fenómeno sistemático e de massas” (Quintero, 1990, IV). Este sistema de representação simplifica e distorce a mensagem em palavras de ordem com fácil memorização, “repetitiva ao nível do conteúdo e diversificada ao nível dos seus canais de expressão” (1990, III), revelando-se pelo texto e imagem nos jornais, panfletos, fotografias, postais, autocolantes, pinturas, esculturas, arquitectura, rádio, cinema ou televisão. Assim, segundo a Teoria Hipodérmica ou Bullet Theory, supõe-se que a mensagem enviada por um ou mais destes canais, afecta a massa do mesmo modo para todos os indivíduos, ou seja, uma massa de indivíduos-receptores homogénea, “desconsiderando qualquer particularidade social, política, religiosa ou histórica” (Wolf, 1985, 27). A observação do comportamento humano presente nesta teoria, deu o primeiro passo no estudo das comunicações de cariz behaviorista (1985, 27). Este sistema de acção enquadrava-se na teorização sobre as massas, decompondo-se em variáveis compreensíveis de estímulos e resposta. “Estímulos que não produzem resposta, não são estímulos. E uma resposta tem necessidade de ter sido estimulada. Uma resposta não estimulada é como um efeito sem causa” (Lund, 1933, 35). Neste sentido, acreditava-se que os resultados da comunicação eram certos e precisos, e a iniciativa seria “exclusivamente do comunicador e os efeitos recaíam exclusivamente sobre o público” (Wolf, 1985, 30). Lasswell desenvolveu o seu modelo a partir destas premissas. Porém, tomou a análise do conteúdo como uma variável indispensável para um estudo sistemático e rigoroso da propaganda, que permitiria revelar a sua eficácia. Assumiu a comunicação segundo um processo assimétrico, em que o resultado do estímulo estaria estritamente relacionado com o conteúdo da mensagem. Deste modo, seria possível uma melhor manipulação dos emissores e uma resposta mais precisa e observável (1985, 30). O Modelo de Lasswell organizou | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 37 a Communication Research7 e manteve estreita a ligação com a Teoria da Informação.8 Ao descrever um processo de comunicação torna-se necessário definir o emissor, o canal, a mensagem e o receptor. Esta comunicação pode revelar um carácter informativo ou persuasivo, mediante o seu público e objectivo final. Uma mensagem é informativa, quando existe um “entendimento mútuo entre emissor e receptor” (Quintero, 1990, 16), na tentativa de transmitir dados exactos, partilhar ou instruir. Inversamente, quando o objectivo é a persuasão, a eficácia da comunicação depende da resposta do receptor, isto é, “a conduta expressa pelo emissor [é] adoptada voluntariamente pelo receptor” (1990, 16). À partida, poderia-se equiparar propaganda e persuasão, mas na realidade, a propaganda insere-se num fenómeno mais complexo, em que as técnicas de comunicação informativa e persuasiva são fundamentais para o fluxo da massa. No momento de seduzir e estabelecer uma relação directa com o receptor, a propaganda recorre à dimensão psicológica como elemento de persuasão e empatia, usufruindo da multiplicidade de canais. O canal mais directo, e provavelmente mais antigo, é a palavra falada, dirigida a um indivíduo ou multidão [Fig. 3]. Esta oralidade de discurso era acompanhada de arquitectura monumental e estátuas dos líderes de opinião. O desenvolvimento tecnológico permitiu uma massificação da imprensa e mais rapidamente a divulgação de ideais políticos, numa combinação de texto e imagem. A palavra impressa converteu os jornais, panfletos, revistas e cartazes em canais de eleição para a comunicação com as massas, cristalizando os seus ideais. Também a fotografia, o cinema e a televisão “potenciaram o efeito propagandístico da imagem” (1990, 21), assim como os espectáculos públicos, as manifestações9 e a música, atingindo o seu auge no século XX. 7 Conjunto de estudos sobre a Comunicação (Wolf, 1985, 31). 8 Este tema será aprofundado no ponto I.4 O Cartaz enquanto Canal — Funções, Características e Tipologia. 9 As manifestações, desde a Revolução Francesa, passaram da “categoria de “tumultos” para acções de propaganda perfeitamente premeditadas (Quintero, 1990, 21). A PROPAGANDA E A SOCIEDADE DE MASSAS | Fig. 3 Fotografia: Vladimir Ilitch Lenine, líder da Revolução Russa, dirige-se às massas, 1917. 38 As Formas Ideológicas de Propaganda A propaganda, enquanto “linguagem destinada às massas”,10 propõe uma tentativa de influenciar a opinião e conduta da sociedade. Assim, se se considerar a propaganda um “processo de disseminação de ideais através de múltiplos canais com a finalidade de promover” (1990, 18) os objectivos do emissor, impondo- -se, deste modo um processo de persuasão e informação. Bernays (1891- 1995) define este processo propagandístico como a “persuasão organizada ou organização do consenso” e o seu estudo “can never be an exact science for the reason that its subject-matter deals with human being” (1928,49).11 Neste sentido, o autor via a propaganda como “a expressão de uma opinião ou uma acção por indivíduos ou grupos, deliberadamente orientada a incutir opiniões ou acções a outros indivíduos ou grupos com fins predeterminados” (1938). A comunicação propagandística exprime-se pela “manipulação de símbolos representativos” (Lasswell, 1939), quer nas manifestações de rua, quer pela imagem reproduzida no cartaz, numa pretensão de tomada de poder, por parte do emissor. Quando o emissor da mensagem é claro quanto à sua identidade, e preciso no conteúdo, considera-se propaganda branca. Em antítese, na propaganda negra a origem da mensagem é camuflada e falseada, pondo em causa a veracidade do conteúdo (Quintero, 1990, 19-20). Na recolha da comunicação gráfica do MRPP, para a concretização desta investigação, houve a necessidade de mapear os diferentes emissores com estreita relação com o partido, como a FEML [Fig. 4], MPAC [Fig. 5], Associação da Amizade Portugal-China [Fig. 8], entre outros. Para análise d’A Produção Cartazística do MRPP (cap. II), a amostra foi reduzida ao emissor central, o Departamento de Propaganda [Fig. 6], pela sua identificação explícita ou implícita (através da utilização dos mesmos códigos de cor ou cabeçalhos). Em relação ao conteúdo da mensagem, verificam-se inúmeras campanhas de mobilização das massas para comícios, sessões de esclarecimento e manifestações, numa tentativa de educação ideológica,12 ou seja, a necessidade de formar e instruir um grande número de indivíduos a longo prazo. 10 CASEY, Ralph Droz; LASSWELL, Harold D. E SMITH, Bruce Lannes (1946). Propaganda, Communication and Public Opinion. Princeton University, 1946. 435 P. Cit. Domenach, 1973, 10. [A fonte não dispunha de dados bibliográficos mais completos.] 11 Cit. Quintero, 1990, 18. 12 Neste estudo, a aplicação do termo educação tomou o sentido mais lato da expressão, isto é, de instruir algumas normas e práticas. Não se pretende explorar o conceito como forma de propaganda, nem formular nenhum juízo moral. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 39 O problema de identificar ou dissociar educação e propaganda expande-se para além dos interesses deste estudo. Contudo, reconhece-se que a escola foi utilizada por muito regimes políticos, como campos de instrução de futuros militantes, por exemplo, em Itália com Mussolini (1880-1945), na Alemanha com Hitler (1889-1945), e mesmo em Portugal, com Salazar. A escola foi utilizada como “manipulação da consciência humana” (1990, 23). Por este motivo, Lasswell reserva o termo educação para “inculcação de técnicas” (aritmética, gramática, ciências) e propaganda para a “criação de disposições e atitudes axiológicas”, apesar de mais tarde relativizar a questão, considerando a primeira “atitudes aceites” e a segunda “actividades controversas” (1927).13 Esta instrução de indivíduos explorada pela propaganda, por um longo período, pretende uma resposta contínua por parte do receptor da mensagem e uma mudança de comportamento e opinião. Ao contrário, quando o fenómeno propagandístico se revela num curto espaço de tempo, como numa campanha eleitoral, onde o objectivo imediato é o apelo ao voto, aplica-se o termo agitação. Esta acção de massas consegue mobilizar a opinião num determinado momento, mas só a acção da propaganda consegue modificar atitudes permanentemente (Quintero, 1990, 23). As Categorias e Técnicas da Propaganda Na comunicação com as massas, o emissor define estrategicamente a finalidade 13 LASSWELL, Harold D. (1927). The Theory of Political Propaganda. Cit. QUINTERO, Alejandro (1990). História da Propaganda Política. Lisboa: Planeta Editora, 2011. 446 p. ISBN 9789727312863. P. 23. [A fonte não dispunha de dados bibliográficos mais completos.] A PROPAGANDA E A SOCIEDADE DE MASSAS | Fig. 4 Cartaz FEML (1975). Fig. 5 Cartaz Movimento Popular Anti-Colonial (1973). Fig. 6 Cartaz Associação da Amizade Portugal-China. 40 da propaganda, isto é, está ciente dos seus objectivos últimos e da adaptação da linguagem ao seu público. Por este motivo, Thomson sugere uma divisão em sete categorias de propaganda: política, económica, diplomática, didáctica, ideológica, de diversão e militar (1977, 11-13). A propaganda económica está orientada para manter a confiança num dado período económico de um país. Neste conceito, rejeita-se a publicidade meramente comercial e as campanhas instigando o consumo de produtos nacionais, pois estes são propaganda política. O conceito de propaganda diplomática é um outro aspecto da propaganda política. Por exemplo, numa situação económica ou militar delicada, o emissor preocupa-se em transmitir uma certa amizade ou hostilidade a um aliado ou inimigo. Ambas, propaganda didáctica e ideológica, são propaganda política e uma não existira sem a outra, no sentido que promovem uma identidade ou organização pública, com o objectivo de disseminar uma prática ou ideia, ou seja, artificialmente manipulam a linguagem simbólica, tornando-se um instrumento de coesão social ou de conversão da opinião pública.14 Thomson classifica a propaganda de diversão quando o seu conteúdo está claramente orientado para inibir a contrapropaganda. Por último, a propaganda militar ou de guerra define-se pela mudança de cenário da propaganda política. Por outras palavras, “um acto de violência dirigido a forçar o adversário a submeter-se” (Clausewitz, 1972, 9) aos objectivos do emissor. Porém, a mensagem da propaganda de guerra dirige-se tanto para o exterior, numa tentativa de intimidar o inimigo, exagerando a força militar existente, como para a população civil, que sustenta o esforço de um país em guerra, ou militar, para manter a moral das tropas. Nesta abordagem teórica ao conceito de propaganda, é fundamental enumerar algumas técnicas propagandísticas descritas por Domenach, como simplificação, ampliação, orquestração, transfusão e unanimidade (1973). A propaganda dispõe de recursos quase ilimitados e o propagandista consegue convencer as massas através do seu discurso e fé pessoal. Todo o esforço de comunicação massiva seria insignificante se não sustentado por propaganda individual, directa, pela distribuição de brochuras porta-a-porta ou conversa simples (1973, 55). Assim, Gueorgui Plekhanov (1856-1918)15 distingue o conteúdo da mensagem emitido pelo propagandista e pelo agitador. O primeiro 14 No ponto As Formas Ideológicas, neste texto, foi referido alguns aspecto da propaganda enquanto educação ideológica. 15 Cit. Domenach, 1973, 32. Sem dados bibliográficos. Plekhanov foi um revolucionário e teórico marxista russo. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 41 partilha várias ideias a um único indivíduo ou grupo restrito, enquanto que o segundo converte multidões, com uma única ideia. Para Lenine (1870-1954), o agitador instiga uma reacção na multidão, utilizando como recurso principal a voz, e cabe ao propagandista explicar a restante informação, através de conversa mais pessoal ou da escrita (Cit. Domenach, 1973, 32). Na comunicação propagandística, em qualquer canal, é essencial uma mensagem breve e clara, para mais rapidamente captar a atenção do receptor. Esta divisão da argumentação e a sua redução a uma palavra de ordem é táctica: limita o objectivo e apela às emoções, ao que Domenach denominou de lei da simplificação e do inimigo único. Assim sendo, tomando o MRPP como exemplo, resume-se um partido a: um símbolo [tipo]gráfico ou iconográfico, MRPP; um símbolo-imagem, a foice e o martelo [Fig. 7]; um símbolo-cinestésico, o punho cerrado [Fig. 8]; e um símbolo-música, o hino. Reduz-se também “a luta política à rivalidade entre pessoas, [substituindo] a difícil confrontação de teses” (1973, 64), individualizando deste modo o adversário, numa pessoa singular, como o líder de um partido ou chefe de governo [Fig. 9 e 10]. Na lei da amplificação exageram-se as notícias e salientam-se as informações favoráveis ao objectivo final, a tomada ou exercício de poder. Isto significa que, na comunicação com as massas, o nível intelectual da mensagem é mais obtuso, e quanto maior for a massa, menor será a exposição à informação (1973, 67-68). Uma vez simplificada a mensagem, a sua linguagem adapta-se à massa- -receptora, exagerando o conteúdo, e, para isso, é fundamental a sua repetição incansável. A designada lei da orquestração deve utilizar os diferentes canais para transmitir a mesma mensagem, introduzindo pontualmente algumas alterações, A PROPAGANDA E A SOCIEDADE DE MASSAS | Fig. 7 Símbolo [tipo]gráfico do MRPP (1976). Fig. 8 Ilustração de indivíduo com o punho cerrado, (1976). Fig. 9 Exemplo de simplificação do conteúdo (1976). Fig. 10 Exemplo de simplificação do conteúdo (1976). 48 | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO linguagem, que propôs elevar a imagem do povo trabalhador e anónimo, era “uma arte do Povo, pelo Povo e para o Povo”,13 arte útil e humanista com leitura directa e objectiva. O povo era o principal destinatário deste movimento e a verdadeira fonte de inspiração, tornando visível as situações do quotidiano, num retrato pintado do povo português, dos trabalhadores agrários, dos homens do mar e as suas mulheres que esperavam em terra, os homens das indústrias e construção civil, o retrato menos visível da opressão do Estado Novo, a prisão e a tortura [Fig. 9]. Em 1939, a Alemanha voltou a colocar o mundo ocidental em guerra. Adolf Hitler invadiu países europeus em busca de um novo império — o III Reich. A devastação das invasões, o massacre dos judeus e as bombas atómicas, largadas pelos EUA no Japão, deixaram marcas que se sentem até ao presente. Nesta altura, a comunicação gráfica já ocupava um lugar de destaque na transmissão de mensagens às massas. A ideologia dos grandes líderes era exaltada por uma imagem imponente, fascinante. Esta forma de comunicar consolidou os grandes regimes (Rússia, Itália, Alemanha), mas também contribuiu para as campanhas de alistamento para a guerra, na Grã-Bretanha e Estados Unidos da América, com trabalho gráfico e de ilustração inovador e slogans agressivos. Os portugueses escaparam à Segunda Guerra Mundial.14 O fim da Guerra, em 1945, trouxe mudanças políticas na maioria dos países. A democracia instalava-se na Europa, enquanto Portugal se mantinha em ditadura. Por questões políticas, a Secretaria de Propaganda Nacional, dirigida por Ferro, transformara-se no Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI) com o grande objectivo de “melhorar a imagem do regime” (Azevedo, 1999, 170).15 E, por receio de uma possível queda do regime, a Assembleia Nacional foi dissolvida e são convocadas eleições livres (Gonçalves, 1980, 32). Em sequência, surge o Movimento de Unidade Democrática (MUD), com proposta de uma oposição democrática.16 13 Pomar, “O Pintor e o Presente” in Seara Nova, 11 de Janeiro de 1947. Cit. Rosinha; Santos, 2007, 8. 14 Contudo, houve alguma colaboração do Estado Português com as potências fascistas, através da exportação de matérias-prima e bens alimentares. Os portugueses, em protesto pelo agravamento da situação, participaram, sob alçada do PCP, em movimentos grevistas nos anos de 1942, 1943 e 1944, em vários pontos do país, com maior incidência na zona industrial de Lisboa. [Fonte: Exposição Centenário Álvaro Cunhal, Dezembro de 2013, Alfândega do Porto] 15 Sob a orientação do SNI, os artistas continuavam a participar nas obras públicas (Portela, 1982, 106). 16 Nesta oposição iniciada pelo MUD, apenas o PCP detinha uma estrutura clandestina organizada, que concedia alguma manobra ao movimento, para preparação das eleições. Porém, exigiram o seu um adiamento, de modo a conseguirem uma reformulação dos cadernos eleitorais, liberdade de opinião, reunião e informação. As exigências não foram cumpridas, o MUD desistiu das eleições, e os seus membros interrogados e presos. As eleições tinham ganho uma nova força de oposição e um novo rosto, Norton de Matos (1867-1955), que acabaria por desistir. Fig. 9 Situação quotidiana dos trabalhadores. Salientase a expressão do traço e as formas contrastantes. 49 Em 1946, os artistas modernos e tradicionais juntaram-se na I Exposição Geral de Artes Plásticas da SNBA, num sentido estético díspar (França, 1974, 244). A exposição acolheu artistas republicanos e jovens artistas do MUD, que se manifestaram ideologicamente. Pomar foi convidado a realizar pinturas murais no Cinema Batalha do Porto. No neo-realismo, a pintura mural é valorizada por ser uma arte para as massas, de grande divulgação, ao contrário da pintura de cavalete (Rosinha; Santos; Santos, 2007, 9). Pomar teve a oportunidade de exprimir o conceito de arte para o povo. A concretização da pintura mural, bem como do neo-realismo em geral, enfrentou entraves não só pela situação política do país e da censura do regime, como pelo escasso número de artistas intervenientes, acabando por ter reduzida a acção social e política (2007, 10). Em 1949, o clima de Guerra Fria instalava-se. As democracias ocidentais propunham-se a um novo objectivo, a contenção do comunismo. Neste caso, o regime salazarista cumpria em pleno esse propósito, tornando-se Portugal membro fundador da NATO, juntamente com outros parceiros. No início dos anos 50, a acção política oposicionista exigiu aos artistas neorealistas uma intervenção mais empenhada a nível social, buscando o conteúdo e a consciência política. Artistas como Júlio Pomar, José Dias Coelho (1923- 1961) [Fig. 11],17 Marcelino Vespeira (1925-2002),18 Querubim Lapa (1925- ), Alice Jorge (1924-2008) ou Álvaro Cunhal [Fig. 12] traduziram nas suas obras a esperança de uma liberdade, solidariedade social e transformação política do país. Este movimento debateu-se com a problemática da forma versus conteúdo. Num período de consciencialização do povo, a necessidade de transmitir conteúdo era fundamental. Álvaro Cunhal defendia o conteúdo como agente primordial da intervenção artística. Uma táctica posta em prática pelo PCP, através da propaganda no local de trabalho, com panfletos ou imprensa clandestina [Fig. 13 e 14], para formação de militantes comunistas, promovendo a leitura crítica das entrelinhas (Samara; Henriques, 2013, 215). António Ferro, elo entre o Estado e artistas modernistas, foi afastado do seu 17 Sacrificou da sua vida artística em prol de uma acção política mais presente, entrando nos quadros de funcionários do PCP e mais tarde silenciado pela PIDE. 18 A par de Pomar, foi considerado por José-Augusto França o mais bem sucedido neo-realista do pósguerra (1974, 251). UM CONTEXTO | Fig. 10 Pormenor do fresco de Júlio Pomar, que foi mandado cobrir, por ser considerado subversivo e comunista. Fig. 11 Ilustração com formas e texturas contrastantes. Fig. 12 Várias situações do dia-a-dia nos campos. Fig. 13 e 14 Carimbos e material de impressão clandestino do PCP. 50 cargo de director do SNI. Porque a sua máquina de propaganda já não reflectia as preocupações de Salazar. As exposições gerais continuaram a realizar-se e a persistência da oposição manteve-se. Em 1958, Humberto Delgado (1906- 1965) apresentou a sua candidatura à Presidência da República. O “general sem medo” mobilizou a população [Fig. 15], mas rapidamente se viu repreendido pelo regime, que lhe limitara os movimentos. A esmagadora maioria dos eleitores indicou o almirante Américo Tomás (1894-1987) como vencedor. A credibilidade dos resultados foi posta em causa e, por consequência, a do próprio regime. Pressentindo a aproximação de um golpe de estado, Salazar decretou que o Chefe de Estado era eleito por um colégio eleitoral restrito. Durante este clima de instabilidade e paz forçada, dois golpes de força tentaram derrubar o regime: a Conspiração da Sé, em Março de 1959 e a Revolta de Beja [Fig, 16], já em Dezembro de 1961, mas sem sucesso. Cronologicamente, na China, Mao Tsé Tung colocou em prática reformas sociais e políticas, que ficaram conhecidas como a Revolução Cultural do Proletariado (Lopes, 2013, 29). Desde 1966 até à sua morte, promoveu o partido único, o Partido Comunista Chinês e o culto ao líder, numa “rigorosa política de propaganda” (2013, 30). Para benefício e modernização da nação, reuniu o proletariado, ou seja, os camponeses, os operários e os militares, diluindo a organização da sociedade por classes, logo a destruição da classe burguesa. A propaganda maoísta foi além fronteiras, chegando a Portugal,19 na última década do Estado Novo, com a criação de alguns movimentos, como o Comité Marxista- Leninista Português (CMLP) e o próprio MRPP [Fig. 17], expressando-se contra a passividade do PCP, em relação às colónias e ao regime (ibidem).20 Em 1961, as potências europeias começaram a aceitar a descolonização. Portugal manteve a sua posição, dissimulando-a, chamando as colónias de Províncias Ultramarinas. Governo e oposição estavam de acordo na defesa da integridade do território. Todavia, a unanimidade não durou. A resistência à independência económica das províncias africanas desencadeou uma luta armada em Angola.21 Em 1963, o conflito alastrou à Guiné e, em 1964, a Moçambique. 19 A estética chinesa é abordada no ponto I.4 O Cartaz enquanto Canal - O Cartaz Político em Contexto. 20 A crítica ao regime de Salazar, ganhou voz com a revista O Tempo e o Modo, criada por António Alçada Baptista (1927-2008), em 1963. 21 O país dividiu-se. Por um lado, os integralistas defendiam o Ultramar integrado no Estado Português, por outro, os federalistas consideravam, devido a pressões externas e ao custo da guerra, não ser possível manter a situação.Por falta de posicionamento concreto do governo português, a situação foi-se agravando. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 15 General sem medo. Fig. 16 A Revolta de Beja foi notícias em vários jornais nacionais. Fig. 17 A influência da Revolução Cultural Chinesa veio a reflectir-se graficamente nos cartazes da AAPC, instituição ligada ao MRPP (1974). 51 Militares e civis portugueses foram enviados para a guerra e muitas famílias ficaram fragmentadas. Em 1968, o professor Marcelo Caetano (1906-1980) foi nomeado para substituir Salazar na Presidência do Conselho. Uma onda de optimismo invadiu Portugal, motivada pelas acções mais liberais do professor. Esta fase do regime, ficou conhecida como Primavera Marcelista.22 Mas o regime foi incapaz de evoluir para um sistema mais democrático. As três frentes de guerra em África começavam a provocar um crescente desgaste nas Forças Armadas Portuguesas e o governo continuava a debater-se com a problemática da descolonização, sem tomar posição alguma. Esta agonia leva ao aparecimento, em 1973, de um movimento de conspiração de alguns oficiais do Exército, o Movimento das Forças Armadas (MFA). O isolamento de Portugal tornou-se cada vez mais evidente, e o fim do regime iminente. A partir de Janeiro de 1974, o Movimento adquire novo fôlego e dimensão. A concretização do golpe de Estado parecia mais possível. A 24 de Abril de 1974, um grupo de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho, instalou-se secretamente no quartel da Pontinha, em Lisboa. Às 22h55, a rádio Emissores Associados de Lisboa transmitiu a canção E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho (1947- ), dando o primeiro sinal. E o segundo sinal, às 00h20, transmitido pela rádio Renascença, com a canção Grândola Vila Morena, de José Afonso (1929-1987), marcou o início das operações. O MFA preparou minuciosamente a operação militar que se desencadeou na madrugada do dia 25 de Abril de 1974. Marcelo Caetano só viria a render-se no final do dia, condicionando a entrega do poder ao General António de Spínola (1910-1996). Os ecos da revolução passavaram fronteiras, realçando a forma pacífica com que os militares tomaram o poder [Fig. 18]. 22 Nesta fase, floriram novas ideias, como a moderação da actuação da polícia, abrandamento da censura, permissão para escolarizar as mulheres e maior liberdade de campanha para a oposição. Contudo, em 1969, ano de eleições, novamente os atropelos a princípios democráticos vingaram, embora tenham sido consideradas as eleições menos manipuladas. Sem esperanças, a Ala Liberal da Assembleia Nacional deixou de apoiar o governo de Marcelo Caetano, o que acabou por isolá-lo e inflectir a política inicial do regime. UM CONTEXTO | Fig. 18 Soldados nas ruas de Lisboa, após a revolução. 52 Na concretização do golpe de Estado estavam envolvidas patentes de militares, abrangendo as mais variadas tendências políticas, monárquicas, comunistas, social-democratas, cristãs, republicanas, entre outras. No dia seguinte, formou-se a Junta de Salvação Nacional (JSN), com objectivo de implementar, baseada no plano do MFA, a democracia política, desmantelando as estruturas e orgãos do regime deposto.23 A formação de partidos foi autorizada e os partidos clandestinos tornam públicas as suas ideias. Assim, surgem as primeiras manifestações gráficas partidárias, nomeadamente do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), com bastante afluência e entusiasmo popular. As paredes das cidades foram invadidas por cartazes que davam voz a mensagens contra a guerra nas colónias, ao regresso dos soldados e à intervenção do povo na situação política do país. Os Capitães de Abril propuseram-se democratizar, descolonizar e desenvolver Portugal. Nesse sentido, comprometeram-se a passar o poder para as mãos dos civis, num prazo de doze meses, com a realização de eleições livres para a Assembleia Constituinte. O rumo da história de Portugal mudou decisivamente e o golpe de Estado deu lugar a um processo revolucionário, que agitou o país nos anos seguintes. Sucessivos governos puseram em causa a estabilidade político-económica e social do país. Dos Governos Provisórios ao Governo Constitucional24 O I Governo Provisório tomou posse a 15 de Maio de 1974, sendo o professor de Direito Adelino da Palma Carlos (1905-1992) indicado para Primeiro- Ministro e Spínola tomou o cargo de Presidente da República. Em pouco tempo, o país submergiu na agitação social e em violentos confrontos políticos, com reivindicações laborais, greves e constantes manifestações. O Primeiro- Ministro Palma Carlos pede a demissão, após uma tentativa falhada de introduzir modificações ao programa do MFA e à estrutura constitucional vigente. O Presidente Spínola fica isolado, face às medidas esquerdistas do Movimento, adeptas da independência “pura e simples” dos territórios ultramarinos e da revolução social. A 18 de Julho de 1974, o II Governo Provisório toma posse, com a nomeação de Vasco Gonçalves para Primeiro-Ministro. O discurso de Spínola, nesse evento, reflecte o seu sentimento em relação à situação do país: 23 Nomeadamente, a PIDE, a Legião Portuguesa e as organizações de juventude foram extintas, bem como a censura. Os presos políticos foram libertados e as personalidades no exílio puderam regressar. 24 Ao longo da leitura deste sub-capítulo, sugere-se a consulta da tabela B.2 Cronologia/Tabela de Mandatos dos Governos Provisórios (1974-1975), disponível na secção Anexos. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 53 “Não se fez uma revolução para que o poder passasse de um extremo a outro à custa do povo português” (Spínola, 1974).25 Spínola viu-se forçado a adoptar novas estratégias para um possível golpe de Estado, tentando captar apoio no interior das Forças Armadas. A fragilidade da sua posição tornava-se cada vez mais evidente. Os partidos políticos moderados ignoraram o seu apelo. Restava-lhe apelar à maioria silenciosa, a direita civil (Rezola, 2007, 105-110). Contudo, o clima de tensão era constante. Spínola menosprezou dois factores determinantes para o sucesso deste golpe, a força das massas e a capacidade do Partido Comunista Português (PCP) em mobilizá-las rapidamente. O PCP e o MFA, duas forças presentes no seio da população, partilhavam as directrizes para a continuação da revolução social e regulamentação do capitalismo. Assim, com um fim comum, na madrugada do dia previsto para a manifestação, bloquearam-se e controlaram-se os acessos a Lisboa, para a eventual entrada de armas. Suspeitos são detidos pela intenção de um golpe contra-revolucionário. O Presidente da República vê-se incapaz de afastar o MFA do processo político e, por esse motivo, pede a demissão, tomando o seu lugar o General Costa Gomes. Em sequência, ministros afectos a Spínola demitem-se, causando uma alteração no executivo. Nesta situação tomou posse o III Governo Provisório, a 30 de Setembro de 1974. Vasco Gonçalves liderava um grupo com forte presença militar nos centros de poder. No final de 1974, a presença do PCP no seio das massas era notória. As manifestações espontâneas nas zonas urbanas e rurais continuavam a aumentar, esta situação colocava o país no que Vasco Gonçalves denominou caos económico . A partir de 1975, a bandeira da agitação social, incutida pelos partidos, passava pelas nacionalizações26 e reforma agrária. Estas medidas, saudadas pela esquerda, determinam o fim de alguns grupos económicos considerados o expoente do capitalismo e permitem ao Estado um maior controlo da economia [Fig. 19]. A ocupação de fábricas e terras, por parte dos trabalhadores, aumentaram. A situação social descontrolou-se, acompanhando a instabilidade económica. 25 Há muito que Spínola defendia a tese de que o processo de descolonização deveria ser feito com alguma prudência, permitindo até uma consulta popular nas colónias sobre o assunto, mas negava a imediata concessão da independência. A crescente pressão quer nas colónias, quer na metrópole, apressaram a promulgação da Lei das Colónias (Lei 7/74). A 27 de Julho de 1974, onde foi reconhecido o direito dos povos à autodeterminação e à concessão imediata da independência aos territórios. Os movimentos de libertação conseguiram uma vitória memorável para todos os que defendiam a independência (Rezola, 2007, 96-100). 26 Entenda-se nacionalização por apropriação pelo Estado de uma unidade de produção privada ou sector produtivo. UM CONTEXTO | Fig. 19 Nas fábricas, o MRPP manteve uma frente activa na conquista da classe operária, quer nas reivindicações, quer na organização de greves. 54 Devido ao crescente número de desempregados, foi decretado a atribuição de subsídios a empresas em dificuldades, proibição dos despedimentos sem justa causa, subsídio de desemprego e salário mínimo (Varela, 2011, 133). Este ambiente proporcionou rumores, quanto a um possível golpe de Estado. Esta suspeita foi aproveitada por “spinolistas”, ainda em cargos importantes, para coagir algumas forças militares. A adesão foi significativa, gerando uma onda de optimismo, que logo se viu ameaçada por uma ampla operação das esquerdas para neutralizar os militares afectos a Spínola. Em poucas horas, no dia 11 de Março, a tentativa de golpe das direitas, mal planeada ficou sem efeito, o general refugiou-se em Espanha e os responsáveis presos. Argumentos, vindos do exterior, procuraram explicações para os acontecimentos nacionais. Na realidade, as internacionais afectas à URSS ou EUA pouco se relacionavam com os problemas internos de Portugal. Todas as forças políticas condenaram o golpe de Estado, inclusive o Primeiro-Ministro e o Presidente da República. Em consequência da situação política, numa reunião do MFA, determinouse a criação do Conselho de Revolução. Assim, foram extintos dois órgãos da estrutura constitucional revolucionária, a Junta de Salvação Nacional e o Conselho de Estado, pela Lei Constitucional 5/75 (Rezola, 2007, 133). A tentativa de golpe de Estado foi um momento emblemático na história da revolução, encadeando uma série de outros acontecimentos na política e no país. Serviu também de pretexto para o Conselho da Revolução, com o apoio do PCP, tentar ilegalizar um punhado de partidos, nomeadamente, o Partido Democrático Cristão (PDC) e duas frentes de esquerda, a Aliança Operário-Camponesa (AOC), com forte influência no Sindicato dos Químicos e o MRPP, com relevante actividade junto dos estudantes. O MRPP não só foi impedido de participar nas eleições para a Constituinte, como também de realizar manifestações públicas durante a campanha. Apesar desta tentativa de ilegalização dos partidos não ter seguido em frente, as sedes do MRPP foram alvo de assaltos e saques, e os seus militantes detidos, incluindo Arnaldo Matos (1939- ) e Fernando Rosas (1946-) [Fig 20 e 21]. O Conselho da Revolução, principal centro do poder político, teve os poderes reduzidos. O Governo, como órgão soberano, procedeu a uma remodelação, reforçando as pastas com a inclusão de independentes e militares, próximos das esquerdas. Vasco Gonçalves manteve o cargo de Primeiro-ministro, no IV Governo Provisório, que tomou posse a 26 de Março de 1975. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 55 A 2 de Abril, iniciou-se a campanha eleitoral em liberdade. Os partidos correram para as ruas, aliciando ao eleitorado [Fig. 22, 23 e 24]. Este seria um passo importante para a democratização do país. Assim, a 25 de Abril de 1975, as populações foram às urnas, votando 91% dos eleitores inscritos (fonte: Comissão nacional de Eleições). O Partido Socialista (PS) consagra-se vencedor, com 37,9% dos votos, seguido o Partido Popular Democrático (PPD), com 26,4%. O PCP e o Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE) ficam aquém das expectativas. O PS demonstrou ser o partido de mudança e confiança dos portugueses.27 27 Contudo, o 1º de Maio de 1975 ficou marcado pela tensão entre o PCP e PS. O PCP, no comício realizado para festejar o Dia do Trabalhador, quis que os partidos que não elegeram deputados falassem em público, contrariamente à opinião do PS, que não concordou com a convocatória. Mário Soares (1924- ), líder do partido, foi impedido de discursar e os militantes que o acompanhavam foram proibidos de entrar no estádio 1º de Maio. O Verão Quente de 1975, reflectiu uma turbulência social sem igual, orientandose por uma filosofia igualitária e pela miragem do poder popular. Este ambiente anárquico gerou um clima de opressão e medo nas classes média e alta, levando muitos portugueses a abandonarem o país. A 19 de Maio é tomado de assalto o jornal República, por trabalhadores afectos ao PCP e à extremaesquerda: “uma enorme movimentação, quando aconteceu a ocupação do jornal República. Uma série de trabalhadores, uns tantos de extremaesquerda, com alguns comunistas pelo meio, invadiram o jornal República, para passar a ser controlado pelos tipógrafos e não pelos jornalistas” (Cf. Entrevista Joel Hasse Ferreira, 2012). O PS protestou contra este atentado à liberdade de imprensa. O Conselho da Revolução lançou um comunicado afirmando que nenhum partido é o único intermediário entre o MFA e o Povo. Outros incidentes aconteceram no mesmo mês, como o apropriação da rádio Renascença por parte de jornalistas pró-revolucionários, passando a transmitir notícias com conotações comunistas. Fig. 20 e 21 Aquando da prisão de Arnaldo Matos, surgiram vários cartazes de apoio ao camarada e exigiam a sua libertação imediatada. O Dep. de Propaganda do MRPP emitiu alguns exemplares, bem como as instituições ligadas ao partido. Nas imagens salientam-se os pormenores da prisão de Caxias, onde Arnaldo Matos estava preso (esq.) e a utilização da sua fotografia em contacto com as massas (dir.). UM CONTEXTO | 56 Greves, prisões e apropriações continuaram a espelhar o panorama nacional. O MFA confrontava-se com enormes dificuldades programáticas, na esperança de um novo rumo para Portugal. A 21 de Junho, lançou o boletim intitulado Plano de Acção Política, onde foi defendida a Aliança Povo-MFA [Fig. 25], como motor do Processo Revolucionário Em Curso (PREC). Colocou-se em questão as hipóteses de instauração de uma democracia popular, semelhante à União Soviética ou uma via socialista pura. O percurso político do país continuava a inflectir à esquerda. Socialmente, as ruas tornaram-se um campo de batalha entre a via eleitoral e a revolucionária (Rezola, 2007, 173-176). No início de Julho, Ministros e Secretário de Estado do PS demitiram-se, justificando-se pela falta de acção do Presidente da República e do Conselho da Revolução. Seguidos, demitiram-se os do PPD, caindo assim o Governo. A 8 de Agosto, o V Governo Provisório tomou posse e Vasco Gonçalves manteve o seu cargo de Primeiro-Ministro. A estabilidade do Conselho da Revolução estava em causa, pelas divergências de opinião em relação ao rumo de Portugal. Na Assembleia de 25 de Julho, conselheiros como Melo Antunes (1933-1999), Vasco Lourenço (1942- ), Sousa e Castro (1944- ), Vítor Alves (1935-2001), José Bernardo Canto e Castro, Franco Charais (1931- ), Vítor Crespo (1932- ), Costa Neves (1940- ) e Pezarat Correia (1932-), quebraram a união superficial do MFA. Estes militares manifestaram publicamente, através do Documento do Grupo dos Nove, um novo caminho para o país: | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 22, 23 e 24 Cartazes políticos de Abril de 1975. Da esquerda à direita, a cor vermelha, a cor da revolução, foi utilizada pela maioria das instituições político-partidárias, em Portugal. Repare-se no uso frequente da ilustração ou fotografia a preto e branco. 57 O Movimento das Forças Armadas nasceu do espírito e do coração de um punhado de oficiais democratas, patriotas e antifascistas que decidiram (...) iniciar com todo o povo português, uma nova caminhada de paz, progresso e democracia, na base de um Programa Político universalmente aceite e respeitado. (...) Infelizmente, porém, (...) foi-se assistindo à desagregação muito rápida das formas de organização social e económica (...). Formas selvagens e anarquizantes de exercício do poder foram-se instalando um pouco por toda a parte (...). É necessário repelir energicamente o anarquismo e o populismo que conduzem inevitavelmente à catastrófica dissolução do Estado (...). É necessário reconquistar a confiança dos portugueses, acabando os apelos ao ódio e as incitações à violência e ao ressentimento. Trata-se de construir uma sociedade de tolerância e de paz e não uma sociedade sujeita a novos mecanismos de opressão e exploração (...). Os Nove protagonizaram uma transição para a via socialista em Portugal, opondo-se às propostas de Vasco Gonçalves e ao populismo de Otelo. A reacção ao movimento foi positiva, acima das expectativas e uma nova esperança nasceu com aquele documento. Nesta conjuntura, o Primeiro-Ministro foi inevitavelmente derrubado. Os Ministros “gonçalvistas” deixaram as suas pastas e reentraram os elementos do Grupo dos Nove. A 19 de Setembro de 1975, tomou posse VI Governo Provisório, com coligação partidária entre PS, PPD e PCP. A vitória do Grupo dos Nove não se viu reflectida nos centros de poder, nas unidades militares, nem nas ruas. As ocupações e a agitação social colocavam o país a um passo da guerra civil, colocando o Governo numa crise de autoridade, a que nem o COPCON (Comando Operacional do Continente, estrutura de comando militar de Otelo Saraiva de Carvalho) era capaz de reagir.28 O processo revolucionário deveria terminar, Portugal estava em ponto de ebulição. O desfecho era inevitável, independentemente do resultado final, isto é, uma mudança no Estado por via dos camponeses e operários (impulsionada por um partido, como na revolução russa, ou por um partido-exército, como na revolução cultural chinesa) ou um golpe contra-revolucionário da direita burguesa (Varela, 2011, 302-303). Os dias imediatamente anteriores ao 25 de Novembro são ocupados por provocações e manifestações. Uma série de episódios deixaram registo no 28 Esta crise agravou-se com o ataque do Consulado de Espanha, em Lisboa. Pinheiro de Azevedo, temeu um assalto ao poder pela via popular, ordenando, por este motivo, uma ocupação das emissoras de rádio e televisão. UM CONTEXTO | Fig. 25 Cartaz político da autoria de João Abel Manta. Alguns artistas nacionais assinavam as suas criações, assumindo uma participação activa e visível no pós-revolução. Outros assumiram um papel de militância, deixando as suas ilustrações e cartazes no anonimato. 64 pelo que acreditavam ser melhor para Portugal. José Pacheco Pereira (2013, 24-25), no seu livro As Armas de Papel - Publicações Periódicas Clandestinas e do Exílio Ligadas a Movimentos de Esquerda Cultural e Política (1963-1974), enuncia uma série de critérios políticos, culturais e sociológicos que definem as esquerdas, como tal. O posicionamento destas apela ao derrube do regime e assalto ao poder, pela via revolucionária, com luta armada ou guerrilha.2 O assalto ao poder, com base na concepção leninista clássica, foi organizado numa acumulação de forças armadas e criação das condições de ruptura, aprofundando a crise institucional. A crítica ao sistema implementado e à ditadura, bem como as relações internacionais com outras correntes ideológicas (maoista, trotskista, anarquista, comunista) propunham uma profunda revisão da cultura e da política. A nível social, a faixa etária era homogénea, com uma maioria de intelectuais e uma minoria de operários, e uma escolaridade acima da média (ensino secundário e universitário).3 Massa Revolucionária O discurso da propaganda não é neutro ou inocente (D’Alleva, 2004, 8), este expressa a cultura e dinâmica social de uma sociedade. Deste modo, o discurso do MRPP, emissor da mensagem propagandista dos cartazes pós-revolucionários recolhidos para este estudo, transmite uma ideologia na competição pelo poder político (Aguiar, 1990, 28). “Esta competitividade não se limita ao confronto entre programas e posições ideológicas, mas inclui o modo como respondem às novas condições de acção” (1990, 292). Para compreensão do campo simbólico do emissor da mensagem, é necessária uma abordagem histórica da criação do partido e da sua ideologia, claramente com base teórica no Marxismo-Leninismo-Maoísmo,4 como guia de pensamento e acção (PCTP/MRPP, 1977, 10). O Marxismo, ao longo do último século, foi a base das teorias socialistas e sistemas de governação comunista. Marx (1818-1883) e o seu colaborador Friedrich Engels (1820-1995) descreveram o sistema capitalista de exploração 2 Entenda-se luta armada ou guerrilha como um conjunto de acções organizadas sob orientação política de esquerda, com objectivo de tomada de poder ou derrube de um governo repressor. 3 A conjugação de alguns destes critérios, segundo José Pacheco Pereira, é suficiente para identificar um grupo de esquerda ou extrema-esquerda. 4 Nesta dissertação não se pretende um estudo exaustivo da ideologia política marxista-leninista- maoísta, contudo considera-se pertinente esboçar em linhas gerais o seu conceito, pois está estreitamente ligado ao partido em análise. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 65 do proletariado e promoveram a luta de classes. Este pensamento político, “caracterizado pelo seu poder de difusão, é uma filosofia capaz de se propagar às massas” (Domenach, 1973, 27), logo inevitavelmente dá uso às ferramentas da propaganda.5 Para Marx, “a consciência de classe é a base da consciência política” (1973, 27), porém esta ideia traduz-se na luta económica e actividade sindical e não atinge consciência política. Lenine determinou essa tarefa à elite revolucionária, de ser a vanguarda do proletariado e considerou o Partido Comunista como instrumento fundamental na relação entre a “elite e a massa, entre a vanguarda e a classe” (1973, 27). Nesta perspectiva, as formas de arte seriam uma meio de propaganda ideológica, que a classe dominante poderia usufruir para perpetuar relações de classe em seu benefício ou que os revolucionários poderiam usar para minar o poder das classes dominantes (D’Alleva, 2004, 50). Em 1960, Mao Tsé Tung viria a dar um novo impulso ao Marxismo-Leninismo. Tornando visíveis algumas divergências com a URSS, na publicação do manifesto Viva o Leninismo!, no Jornal Hongqui (Bandeira Vermelha), que questionava “o caminho pacífico para o socialismo” (Cardina, 2011, 15). O eco deste manifesto viria ocorrer no ano de 1966, com a Grande Revolução Cultural Proletária, numa tentativa de recuperar a pureza revolucionária (2011, 17), neutralizando alguns pensadores com opinião contrária ao maoísmo, por vezes pela violência dos guardas vermelhos. Em 1917, Lenine tinha provado ser um “genial propagandista e agitador” (Domenach, 1973, 36), com palavras de ordem ritmadas dirigidas às “massas sofredoras” (1973, 36). Porém, Mao Tsé Tung eleva a propaganda a outra dimensão. Partindo da ideia que a massa revolucionária deveria combater a par do exército, fomentou a estética colectiva, numa manipulação psicológica em busca dos modelos heróicos fixados pela literatura e pintura (1973, 37). Esta obsessão e idolatria do líder caracteriza a propaganda de tipo leninista e maoísta, transformando-a num instrumento de exploração totalitária. Em consequência da expansão do Movimento Comunista Internacional (MCI), as esquerdas portuguesas, na década de 70, tomaram como referência os acontecimentos na União Soviética e na China, quer no campo ideológico, quer na acção da propaganda. 5 O termo Marxismo deriva do nome Karl Marx (1818-1883), filósofo, teórico de economia e activista revolucionário (D’Alleva, 2004, 48). Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista, em 1848, convertendo-o numa obra de referência no meio político. O EMISSOR DA MENSAGEM | 66 De Movimento a Partido (1970-1976) O Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), fundado a 18 de Setembro de 1970, teve a sua origem na Esquerda Democrática Estudantil (EDE) e nos sectores mais jovens da classe operária. Estes jovens rapidamente se destacaram como o grupo mais activo de Portugal pelo estilo arrojado da sua intervenção. A EDE surge em 1968, com princípios claros de uma organização em torno da luta contra o poder da burguesia e da ditadura, a repressão e a guerra colonial. A contestação destes jovens era visível e acontecia à margem do PCP. Arnaldo Matos (1939- ), na Faculdade de Direito de Lisboa, ganhou a Associação de Estudantes, numa lista apoiada pela EDE. Em 1970, com o crescente número de simpatizantes e militantes, entre os quais estudantes e operários (em particular, da zona de Vila Franca de Xira e Alverca), emergiram, com o impulso de um punhado de jovens, as bases para um novo movimento — o MRPP. Nomes como Fernando Rosas (1946- ), Arnaldo Matos, João Machado e Vidaúl Ferreira constituíram o primeiro comité central — Comité Lenine. Para combater em todas as frentes, dando resposta à necessidade de passar a palavra rapidamente, o partido desenvolveu uma estrutura organizativa de tipo leninista, como se verifica na tabela 3 (Pereira, 2013, 33). O partido segmentou as suas áreas de actuação, criou núcleos específicos e publicações com temáticas e linguagem adaptadas ao seu público. O próprio órgão central era constituído pelo secretariado-geral, comités e departamentos. Do órgão teórico central e como forma de doutrinar a população, saiu, nesse mesmo ano, o primeiro número impresso do Bandeira Vermelha [Fig. 1]. O acto de tornar público e impresso uma linha de pensamento teórico-político dava às instituições, ainda na | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Jornal Central MRPP LUTA POPULAR Órgão teórico Órgão para a juventude Jornais “Frentristas” e “Unitários” Órgão de “frente militar” Órgão de “frente” anticolonial Órgão de “frente” Cultural Órgão de “frente” Cultural MRPP BANDEIRA VERMELHA FEML GUARDA VERMELHA FREP 12 DE OUTUBRO RPAC RESISTÊNCIA MPAC O ANTI-COLONIALISTA Círculos Democracia Popular YENAN Grupos Informativos-Culturais A EMANCIPAÇÃO Tab. 1 Estrutura Organizativa do MRPP. Fig. 1 Publicação do Orgão Teórico Central do MRPP. Não foi encontrada qualquer indicação da edição ou ano. Fig. 2 Este cartaz faz prova da estreita ligação do MRPP com a célula dos trabalhadores dos TLP. Não foram encontrados exemplars anteriores. Fig. 3 Graficamente, esta presença também é visível, pelo uso da cor, formas e ilustração semelhantes às utilizadas Dep. Propaganda. 67 clandestinidade, visibilidade e prestígio. Neste ponto sensível, o recrutamento juvenil era fundamental, pois os partidos contavam com a ajuda de estudantes universitários que, por participarem nas associações de estudantes, tinham acesso facilitado a máquinas de reprodução e conheciam em detalhe os métodos e processos de impressão. A estrutura do Comité Central era reproduzida nacionalmente de forma mais ou menos fiel, pelas diferentes zonas de actuação. Essas zonas eram: Zona Ribeiro dos Santos, a norte do Douro; Zona Engels, distritos das Beiras; Zona Estaline, distrito de Santarém; Zona Karl Marx, área metropolitana de Lisboa; Zona Mao Tsé Tung, Setúbal; Zona Ho Chi Minh, Alentejo; e as restantes zonas do país, Algarve, Açores e Madeira, sem denominação particular. Estas zonas eram subdivididas em células locais, menores, que emergiam actuando nas fábricas, quartéis e sindicatos. Tratava-se, indiscutivelmente, de um partido das massas, que procurou captar militantes ou simpatizantes que o ajudassem a manter a sua viabilidade financeira e objectivos de tomada de poder. Assim, continuaram a alargar a sua área de intervenção, com núcleos nos TLP (Telefones de Lisboa e Porto) [Fig. 2], nas OGMA (Oficinas Gerais de Material Aeronáutico) e mais algumas zonas da Beira Litoral, em empresas como Soda Póvoa, Previdente, TAP, Mague, Gris, Messa, Abelheira e Automática. Apesar desta crescente presença nos centros fabris [Fig. 3], o MRPP assumia a sua maior força no núcleo estudantil lisboeta. Por este motivo, em 1971 foi criada a FEML, uma organização de estudantes comunistas-maoístas portugueses, cujo responsável era Danilo Matos [Fig. 4]. Nesse mesmo ano, saiu o primeiro número do jornal dos estudantes Guarda Vermelha, onde se posicionavam como um grupo social aliado da classe operária [Fig. 5]. O MRPP manteve-se fiel ao compromisso anti-colonial, assumido nos tempos da EDE. Como partido de todas as frentes populares, o MRPP tinha o órgão de frente militar, RPAC (Resistência Popular Anti-Colonial), com foco nos soldados e nos marinheiros, que participavam na guerra. Os comunicados direccionados para este público saíam no jornal Resistência, com o primeiro número publicado em Agosto de 1971 [Fig. 6]. Ao contarmos a história do MRPP, é inevitável referir os seus mártires: Ribeiro dos Santos (1946-1972) e Alexandrino de Sousa ( -1975). Num período imediatamente antes do 25 de Abril, as tensões e os confrontos entre a PIDE e partidos eram frequentes. A 12 de Outubro de 1972, “numa reunião de estudantes, houve um elemento ligado ao PCP que denunciou os estudantes O EMISSOR DA MENSAGEM | Fig. 5 Formulário para controlo de vendas do jornal Guarda Vermelha. Fig. 6 Jornal da Resistência Popular Anti-Colonial, 1973. Fig. 4 Graficamente, a FEML utilizava os mesmos recursos que o Dep. Prop. MRPP. 68 mais combativos, neste caso, nessa sala, seria o Ribeiro Santos. O PIDE rapou da pistola, disparou e atingiu[-o] mortalmente” (Cf. Entrevista Luís Franco). O funeral de Ribeiro dos Santos moveu uma multidão, transformando-se numa manifestação silenciosa contra o regime [Fig. 7 e 8]. Os estudantes tencionavam levar o caixão às costas, num desfile a pé até ao cemitério da Ajuda, mas a polícia interveio e os agentes tomaram-no à força. O assassinato de Ribeiro dos Santos foi considerado pelo regime um acidente, mas esta tese nunca foi aceite pelo MRPP e pela FEML. Na realidade, episódios sangrentos, semelhantes a este, aconteceram por todo o país. Em homenagem, mais tarde, um militante identificado como Alexandre, descreveu heroicamente o carácter de Ribeiro dos Santos e o comité da FEML passou a denominar-se Estrela Vermelha — Ribeiro dos Santos: Com o seu sacrifício heróico, o nosso querido camarada fazia com que passasse a existir entre nós o glorioso exemplo daqueles que morreram pelo povo aplicando uma linha política revolucionária, tornando a sua morte numa escola de comunistas e regando com o seu sangue generoso o chão de onde virão a brotar futuras vitórias. (Cit. Cardina, 2011, 83) O primeiro mártir do MRPP deixaria marcas irreversíveis nos militantes e simpatizantes do movimento, reforçando a necessidade de combater mais activamente, pelo derrube do regime. Este grupo de jovens destacava-se também por um acentuado moralismo, onde a arma de combate às ideologias liberais da burguesia e do revisionismo deveria ser “uma vasta e enérgica campanha de crítica e autocrítica” (2011, 91). O Comité Lenine, numa altura em que Fernando Rosas estava preso, aprovou uma directriz onde não referia qualquer crítica ao modelo tradicional do casamento, pois, de forma prática e racional, o MRPP precisava de casa para o normal funcionamento de todos os órgãos. Tal como noutros grupos maoístas, havia algum purismo moral. Deste modo, o movimento não se distanciava demasiado do padrão de comportamento da sociedade: A condenação do adultério, a aceitação do casamento ou o uso de um vestuário sóbrio e alinhado eram as faces visíveis da difusão de um modelo de militância baseado na pureza, na abnegação e na ideia de comunhão com o que se entendia serem os sentimentos das massas (2011, 91). Este confronto, entre o conservadorismo e práticas mais modernas, era visível em relação à mulher. Do ponto de vista cultural e ideológico das esquerdas | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 7 e 8 Ao funeral de Ribeiro dos Santos assistiram militantes e simpatizantes do MRPP: Houve confrontos entre os estudantes e a PIDE. 69 radicais, a emancipação da mulher chocava com as funções de mãe, esposa, e dona de casa [Fig. 9, 10 e 11]. Esta situação reflectia-se por todo o mundo ocidental e delineava os novos padrões de vida em sociedade. Ainda na clandestinidade, o MRPP também se caracterizou um activismo pouco cauteloso, que Lima Rego (1945- ), da revista O Tempo e O Modo [Fig. 12], explica numa entrevista a Miguel Cardina (1978- ), como o motivo das várias prisões: O MRPP era muito afirmativo, acusando os outros todos de serem cobardes, de serem excessivamente tacticistas, de não quererem arriscar. Aliás, essa cultura levava a terríveis erros na clandestinidade. As pessoas expunham-se sem o cuidado necessário. Avançávamos de peito aberto para a frente porque, se mostrássemos alguma prudência, éramos logo acusados de recuados, de “revisas”. Era uma organização extremamente voluntarista (2011, 92). Este modelo arrojado de militância valoriza a coragem, a luta corpo a corpo, num nível heróico. O território juvenil e estudantil, como aqui já foi dito, era o mais fértil para a construção de um campo teórico e práticas políticas deste género. O que permitia promover uma maior identidade do colectivo, com maior resistência a ataques exteriores. Esta resistência verificava-se também por alguma endogamia, ou seja, um número significativo de relacionamentos familiares e amorosos entre membros do mesmo partido. Também a afirmação de gostos e posturas estéticas, num processo de adopção contracultural, contribuiu para um posicionamento sólido do movimento. Os anos imediatamente antes de Abril de 1974, caracterizaram-se por inúmeras manifestações, num constante e crescente desejo de mudança. Os militantes e simpatizantes do MRPP presenciaram todos estes episódios, com muita entrega pessoal. A 9 de Fevereiro de 1973, o partido participou na Fig. 9 Na ilustração, a mulher revolucionária acompanha a luta armada (1975). Fig. 12 Nesta edição da revista são abordados temas como Ano da vitória do povo vietnamita e A política externa chinesa - China dia-a-dia. Curiosamente, a maioria das edições são impressas na Casa Portuguesa - Lisboa, o mesmo local onde foram impressos alguns cartazes do MRPP. Fig. 10 e 11 Após o período revolucionário, o MRPP (actual PCTP/MRPP) continuou a utilizar a mulher como bandeira do partido, recebendo lugar de destaque em ilustrações para cartazes. O EMISSOR DA MENSAGEM | 70 primeira manifestação das Jornadas Anti-Coloniais. Insatisfeito, incentivou uma série de acontecimentos durante esse ano. A 28 de Novembro de 1973, dá-se mais uma manifestação dirigida pelo MRPP, com o intuito de boicote à ‘farsa eleitoral’, sob a palavra de ordem “O Povo Vota na Rua!”. Pouco antes do Golpe de Estado, mais uma manifestação anti-colonialista, na Praça do Chile, a 21 de Fevereiro de 1974, acompanhada de violência contra as forças de repressão da PIDE, polícia de choque e legião.6 Mesmo com as constantes prisões e clima de instabilidade, o jornal do movimento, o Luta Popular, desde o primeiro número, em Fevereiro de 1971, continuava a aumentar a tiragem, dando provas da sua influência. A 25 de Abril de 1974, deu-se o golpe de Estado, ficando a comando do país na mão dos militares. A população experienciou um ambiente de liberdade e alegria nos dias que se seguiram, retomando a liberdade de expressão e opinião. A partir de então, a estética uniu-se à função de uma mensagem ainda mais exaltante, valorizando o povo como agente de transformação, o que se traduziu numa imensa produção cartazística do movimento, da qual conseguimos recolher uma amostra significativa. O triunfalismo da mensagem veiculada pelo cartaz garantia a continuação do trabalho desenvolvido na clandestinidade, consolidando o prestígio, dinâmica e dimensão ao movimento. Ao longo dos meses que se seguiram, o MRPP colocou nas ruas cartazes memoráveis, com uma coerência estética que o diferenciava de outros partidos. A sua importância criou a necessidade de dedicar um núcleo específico para essas actividades, o Comité dos Gráficos, que mais tarde viria a denominar-se Departamento de Propaganda. O uso frequente do vermelho e do amarelo, definiam o campo ideológico do partido, numa propaganda de cariz leninistamarxista-maoista.7 O vermelho, a cor da Internacional Comunista e da revolução, e o amarelo, a cor do proletariado. O MRPP inspirou-se numa linguagem estereotipada, utilizada pelo Partido Comunista Chinês, elogiando os líderes nacionais e internacionais, como Arnaldo Matos, Mao Tsé Tung, Lenine e Estaline. Esta afirmação de carácter heróico também se reflectia na representação das massas na construção do partido na luta [Fig. 14, 15 e 16]. 6 No ponto I.2 Um Contexto, foi aprofundado os acontecimentos políticos que antecederam a revolução. 7 O conceito de propaganda foi abordado no ponto I.1 A Propaganda e a Sociedade de Massas. Fig. 13 Este estudo não teve acesso a edições do período de clandestinidade. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 71 O trabalho colectivo de partilha e entreajuda foram uma das marcas deixadas por todas as pessoas que participaram nos órgãos do partido. Os cartazes afixados na altura, marcaram um território ideológico, mas também famosas ficaram as pinturas murais do partido, algumas com a participação de Seixas do Carmo (1944- ) (Cf. Entrevista, 2013). O jornal Luta Popular reafirmava as mensagens veiculadas pelos cartazes e murais, sendo o principal órgão de agitação e divulgação do pensamento teórico — o instrumento aglutinador do partido (Quintero, 1990, 237), sendo uma arma essencial na propaganda de tipo leninista. O seu primeiro número legal saiu a 23 de Maio de 1974. Em Agosto de 1975, o jornal passou a diário, confirmando a força da revolução [Fig. 17]. Apesar de uma atmosfera mais leve, as tensões políticas mantinham-se, e a rivalidade partidária invadiu a maioria dos locais de trabalho e as ruas. Os plenários fabris eram autênticas assembleias, com o intuito da tomada de poder por um partido. Tal aconteceu na Empresa do Jornal do Comércio, em 1975, como conta Joel Hasse Ferreira (1944- ): [Em Junho de 1975,] sou nomeado como administrador por parte do Estado e estavam lá dois administradores privados (vinham do Grupo Borges). (...) esta[va] a haver uma daquelas coisas, que são destes tempos, o plenário dos trabalhadores em laboração. Chego lá, vejo uma impressionante plateia de tipógrafos. O responsável da produção, que estava a dirigir o plenário, apresenta-me como administrador por parte do Estado e pergunta-me se quero falar. Nisto ouço um dos trabalhadores a clamar “Estamos em revolução! Não é administrador por parte do O EMISSOR DA MENSAGEM | Fig. 14, 15 e 16 (da dir. para esq.) Os cartazes do MRPP exploravam a mesma imagética dos cartazes chineses e soviéticos. O uso recorrente da bandeira em punho ou hasteada, posição heróica e imponente, as armas em punho e as cores contrastantes traduziam a comunicação dos partidos à esquerda. O MRPP manteve-se fiel a essa linguagem até aos anos 80, quando substituiu as ilustrações por fotografias a cores. Fig. 17 Apelo à participação activa e monetária de todos os militantes. 72 Estado, é comissário do povo!” (...) A comissão de trabalhadores tinha militantes do MRPP, com algumas divergências internas, pois ainda haveria indivíduos próximo do Saldanha Sanches, que nessa altura estava a ser expulso do partido, como traidor. (...) Em pleno Verão Quente, a comissão de trabalhadores resolve organizar um plenário (...) [onde] apareceram uma série de propostas para boicotar a produção gráfica de outros jornais (Cf. Entrevista, 2012). O movimento acompanhou as transformações do país, lado a lado com o povo. Principalmente, os jovens defendiam o seu futuro, numa guerrilha partidária em domínio público. A 9 de Outubro de 1975, mais uma morte trágica assombra o seio do MRPP. Alexandrino de Sousa, militante activo e corajoso, que já tinha sido espancado no interior da Faculdade de Direito de Lisboa e torturado pelos “gorilas” da PIDE. Aquando da afixação de uns cartazes, para convocação de um comício a realizar no dia 12 de Outubro, em homenagem ao camarada Ribeiro dos Santos [Fig. 18], um grupo de “militantes da UDP (hoje fazem parte do Bloco de Esquerda) cercaram (...) os estudantes da FEM-L e atiraram-nos ao rio Tejo, na zona do Terreiro do Paço” (Cf. Entrevista Luís Franco, 2012). Alexandrino de Sousa alertou para o facto de não saber nadar, mas foi em vão. Morreu afogado nas águas do rio, tornando-se o segundo mártir do movimento. Um clima de instabilidade crescente invadia o país e os partidos. Estava eminente um novo golpe, que aconteceu a 25 de Novembro de 1975. No ano de 1976, a agitação social e política manteve-se. Aproximavam-se as eleições para a Presidência da República, para a Assembleia da República e as Autárquicas. O MRPP continuou na frente da acção, participando em todas as actividades. Os comícios e sessões de esclarecimento eram regulares em várias zonas do país, divulgadas pelos núcleos locais. A produção gráfica aumentou, postais, autocolantes e cartazes eram distribuídos, com tiragens elevadas. A criação de cartazes era diária, às vezes, com mais do que um cartaz produzido por dia. Alguns exemplares que conseguimos recolher foram feitos por núcleos locais, com alguma deficiência estética, mas mantendo a linguagem geral do partido. Este frenesim gráfico caracterizou principalmente os centros urbanos. Neste mesmo ano, o MRPP convocou o I Congresso Nacional, para reafirmar as bases do partido. A breve história do partido era fundamento suficiente para a necessidade de se manter activo. A luta contra o fascismo, a luta contra a polícia nas ruas ou nas prisões, a presença nas fábricas e universidades provava a sua dimensão e posicionamento. Não podemos esquecer a importante luta contra a guerra colonial e pela independência das colónias. Fig. 18 Na ilustração, imagem da massa militante em homenagem a Ribeiro dos Santos. Novamente, o uso de bandeiras, distribuídas pela multidão. Fig. 19 e 20 Centenas de pessoas homenagearam Alexandrino de Sousa, após a sua morte. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 73 Em Dezembro de 1976, iniciou-se uma nova fase do partido. Os objectivos eram a defesa do proletariado, e a instauração de uma sociedade sem classes, com a realização do comunismo. Deste modo, adoptou um novo nome e uma nova sigla: PCTP/MRPP, Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/ Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado. * Os primeiros anos do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado reflectem alguma influência da propaganda de tipo leninista e maoísta, socorrendo-se de suportes técnicos da propaganda de massas. O Departamento de Propaganda nasceu da necessidade de comunicar mais rápido e eficazmente com a população. Esta secção específica do partido detinha a missão de envolver activamente militantes e simpatizantes do Movimento, para transmitir mensagens ideológicas, através de meio escrito/gráfico ou oral. A oralidade do discurso ideológico do MRPP foi elaborada, no pós 25 de Abril de 1974, por inúmeros eventos culturais (dança, coros, teatro, poesia e música popular) e manifestações de rua, bem como a presença assídua em comissão de trabalhadores em ambientas fabris e rurais [Fig. 22]. O livro permaneceu como elemento base de divulgação dos ideais dos líderes. Por este motivo, encontramos, a partir de 1975, publicações da editora Vento de Leste [Fig. 23], estreitamente ligada ao MRPP, com obras clássicas do marxismoleninismo ou textos de glorificação aos líderes comunistas, como Glória Eterna à Memória do Grande Dirigente e Grande Educador O Presidente Mao Tsé-Tung [Fig. 24], Sobre a Linha Geral para o Movimento Comunista Internacional [Fig. 25], Estaline Obras I (1901-1907) [Fig. 26], O que é o Marxismo?, Sobre o Estado e as Eleições [Fig.27], entre muitas outras. Como principal instrumento de propaganda impressa, o jornal permitia noticiar feitos heróicos dos militantes e dos líderes, bem como anunciar novas acções de propaganda.8 O cartaz, objecto de análise desta dissertação, alimentava-se da imagem, fotografia ou ilustração, para enriquecer graficamente o seu conteúdo e permitir uma percepção imediata da mensagem. O seu objectivo último seria submeter a massa indecisa à influência de um grupo activo revolucionário (Domenach, 1973, 137). 8 Em algumas edições do jornal Luta Popular verificou-se a reprodução em miniatura de cartazes ou panfletos. Esta pesquisa permitiu datar com mais rigor algumas das peças gráficas recolhidas para esta dissertação. O EMISSOR DA MENSAGEM | Fig. 21 Em 1976, a linguagem gráfica do MRPP detinha bases sólidas e bastante reconhecidas pela massa receptora. Este cartaz cumpre com as directrizes básicas de cor, moldura vermelha e fundo amarelo. Deste exemplar foram também produzidos postais e autocalantes. Fig. 22 Culturalmente, militantes e simpatizantes foram incentivados pelas actividades promovidas pelo Movimento. 80 fortemente influenciadas pela introdução das novas tecnologias de produção e reprodução (2011, 269). O cartaz conquistou lugar nos espaços públicos, mas também no interior das casas, principalmente na década de 70/80, os cartazes políticos [Fig. 3]. Prova desta conquista, são os cartazes do MRPP, distribuídos em conjunto com o jornal Luta Popular, numa inteligente manobra de propaganda política, para utilização pessoal ou doméstica, tal como acontecia na China [Fig.4]. No espaço público, o cartaz é uma fonte de estímulos — forte, pela utilização da imagem e fraco, pelo texto. O objectivo é captar o olhar do indivíduo pela cor e dinamismo da composição; e, pela repetição, tornar-se uma arma fundamental na persuasão das massas (Enel, 1971, 22). A cor transporta em si informação, sendo considerada a experiência visual mais penetrante, de valor incalculável para os comunicadores (Dondi, 1991, 16). O cartaz propõe muito mais do que a simples descrição e apresentação do objecto ou acção que publicita. A sua força vital deve “alcançar as profundezas do inconsciente e modificar os quadros de percepção e imaginação” (1971, 28). Assim, um cartaz inteligentemente concebido influenciará o comportamento de compra (ou a acção que se propõe), motivando o consumo ou reforçando uma ideia previamente estabelecida (1971, 27), num procedimento que McLuhan designou como “uma imagem colectiva em profundidade, da comunidade em acção” (1971, 28). O papel social do cartaz, enquanto motivação na vida quotidiana, é preponderante no ritmo dos países desenvolvidos (Moles, 1969, 67). O fenómeno da repetição, e assimilação da informação (1969, 69), não permite negar a sua função económica (Enel, 1971, 28), para alimentar o processo de compra e venda. Deste modo, verificou-se um estudo mais aprofundado sobre as questões das funções do cartaz nos livros de Moles (1969) e Enel (1971), onde identificaram as funções de informação, persuasão, económica, seguradora, educadora, estética e criativa. A função informativa conecta o emissor (marca, partido ou agência de publicidade) ao receptor (indivíduo, público), criando uma relação de proximidade ilusória, com o intuito de alterar o comportamento do indivíduo. Esta função rege-se essencialmente por texto publicitário, pois a imagem, apesar de visualmente rica, é polissémica e precisa de ser associada a informação precisa, para a perfeita compreensão do cartaz (1971, 30). Ao contrário, na função de persuasão, a imagem é o elemento em destaque, condensando o máximo de capital simbólico, numa superfície reduzida. A imagem deve atrair, enaltecer o objecto ou acção e explicar (1971, 31). O sucesso destas funções é comprovado na função económica, ou seja, na | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 3 Colagem massiva de cartazes do MRPP. Fig. 4 Na propaganda de tipo maoísta, verifica-se frequentemente a imagem do líder Mao Tsé Tung, numa fotografia emoldurada ou num cartaz, junto do povo. 81 eficácia da venda do produto ou na tomada de decisão de um povo (no caso do apelo às eleições). Satisfeitas as necessidades básicas do indivíduo, ele dirige a sua atenção para as necessidade psicológicas (1971, 35), assim sendo, o cartaz deve transmitir uma visão sedutora e utópica, propondo um complemento à sua vida quotidiana — função de segurança (1971, 40). A função educadora, fortemente implementada no panorama político, instrui o espectador a novos hábitos perceptivos e de tomada de posição.4 Para Enel, de um ponto de vista mais objectivo da função, o cartaz deve ensinar ao receptor novos ícones e signos, de forma que, gradualmente, seja diminuída a informação tipográfica, isto é, a inteligibilidade da mensagem depende do receptor e da estruturação dos seus hábitos sensoriais e cognitivos (1971, 43). A mensagem atinge a plenitude com o reforço de outros media, actuando em simultâneo no espaço público, numa saturação por repetição infatigável e em grande escala. Por consequência, o indivíduo absorve no seu quotidiano a informação transportada pelo cartaz e valoriza-se pelo seu conhecimento dentro da sociedade (ibidem). Esta saturação da mancha urbana, causa problemas estéticos no espaço público e na conquista da atenção do transeunte — função estética e criativa. Deste modo, o cartaz deverá fazer valer o seu potencial sintético e deslumbrar o indivíduo pela evocação da imagem, “atraindo uma série de conotações que lhe constituem um campo estético sobreposto ao campo semântico” (Moles, 1969, 53). Pelo desgaste e habituação progressiva do receptor, o cartaz deverá realçar o seu estímulo pela diversidade, em busca de uma expressão gráfica mais forte, dependendo da criatividade do artista/cartazista/designer ou agência (Enel, 1971, 47). Esta função criativa revela o domínio da elaboração de uma nova cultura gráfica, num jogo de acções e reacções (Moles, 1969, 53). A eficácia do cartaz, enquanto imagem fixa no espaço público, baseia-se no impacto que tem sob o indivíduo e na sua atenção. O cartaz deverá condicionar o seu olhar, no curto espaço de tempo que lhe é dedicado, ficando registado na sua memória (Enel, 1971, 18). Por este motivo, o cartaz não deverá ser apenas argumentativo, mas “especialmente sugestivo e insinuante” (1971, 16), dependendo de dois sistemas distintos, o plano da denotação ou semântica, um sistema de significados precisos, que representa do produto/ideia, as suas funções e qualidades, e o plano da conotação ou estética, com significados abertos, ou seja, fluem à medida que constituem a sua representação, gerando dados culturais ou gosto estético, que provocam ao receptor reacções afectivas (1971, 4 Sugere-se a consulta do ponto I. A Propaganda e a Sociedade de Massas - As Formas ideológicas de Propaganda. O CARTAZ ENQUANTO CANAL | 82 16-17). A simplificação do sistema semântico para estético permite a construção de um novo quadro de símbolos, numa valorização da dimensão estética e empobrecimento do conteúdo (Moles, 1969, 24-27). Por outras palavras, este processo traduz-se na abstracção do objecto representado, ou seja, a sua redução a traços essenciais. (Dondi, 1991, 90). No cartaz, a mensagem semântica, explicitada ou traduzível, baseia-se num sistema de signos já reconhecido pelo receptor, antes do acto da comunicação. Em contraste, a dimensão estética é instável, pela infinita capacidade de agrupamento de imagem, para comunicação de uma determinada mensagem, trabalhando no campo simbólico do receptor. Por isso, o cartaz tornou-se um elemento do mecanismo social da comunicação em massa e construção de uma cultura colectiva (1969, 45-50). Neste processo de relacionamento entre o cartaz e o seu receptor, a dimensão estética migra para o campo semântico, pelo reconhecimento da sua linguagem, isto é, no cartaz, o receptor compreende melhor a mensagem se reconhecer a linguagem. A criação da linguagem de um cartaz, remete para a teoria da informação — redundância versus informação. Ora, o emissor da mensagem utiliza os conhecimentos definidos anteriormente e a linguagem reconhecida pelo receptor, para melhor controlar o grau de eficácia da recepção da mesma (1969, 70). Uma mensagem composta essencialmente por elementos estéticos ou tipográficos originais (elementos que o indivíduo-receptor desconheça) é totalmente incompreensível e o objectivo da comunicação não é alcançado. Por outro lado, uma mensagem redundante, que não traz informação nova, não capta a atenção do transeunte no espaço público, nem compete com outros cartazes à sua volta. No cartaz político-partidário, o partido, enquanto emissor da mensagem, cria uma linguagem gráfica e escrita particular, distanciando-se dos restantes. O partido deve manter a coerência de comunicação, de forma a evitar confusões, aquando da afixação pública. Um compromisso entre novidade e inteligibilidade provará a eficácia da transmissão da mensagem. O objectivo da comunicação é atingido, quando o receptor estabelece uma economia de signos, incorporando os novos no repertório já existente (1969, 76) e modifica comportamentos e atitudes. No culminar do seu tempo de vida útil, o cartaz deve ser submetido a um processo de esquecimento por parte do receptor. Após esta fase, poderá existir um processo de reimpregnação do estímulo, activando os signos conservados no cérebro e criando novas ligações (lei de Foster) (1969, 143). A retenção da mensagem global é tão mais eficaz quanto a densidade de repetição, com curtos intervalos de tempo, pois não se pretende um esquecimento definitivo. Na | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 83 prática, a concentração de estímulos, por diferentes canais, amplia o potencial da mensagem e consequente acção por parte do receptor, ou seja, o resíduo esquecido de cada mensagem cria ligações com as novas informações, podendo inscrever-se permanentemente na memória do indivíduo (1969, 146): Um cartaz devidamente repetido, renovando o seu estímulo, influencia em profundidade o indivíduo criando a motivação e mudando a natureza do fenómeno memorizador em causa (1969, 163). Visualmente, a mensagem do cartaz desvalorizou o seu sentido mais objectivo em prol do enquadramento social e cultural do indivíduo (Fragoso, 2012, 40), definindo o ambiente artificial que o homem criou para si próprio (Moles, 1969, 14). No espaço urbano, o transeunte depara-se com diferentes emissores de estímulos gráficos, caracterizando diferentes tipologias de cartaz, comercial, cultural e político. No quotidiano, o indivíduo depara-se mais frequentemente com o cartaz comercial, devido à sua repetição em diferentes suportes. A sua função prevê um aceleraramento do processo socio-económico e enfraquece a resistência da compra (Enel, 1971, 117). No cartaz comercial, não se pretende apenas transmitir informações sobre o produto, este deve ser envolvido num ambiente socio-cultural, que promove atitudes e factores psicológicos (desejo de segurança, comodidade) e económicos a fim de persuadir o acto de compra. A eficácia da campanha publicitária mede-se após os resultados da venda. Logo, o cartaz deve ser acessível a um grande número de indivíduos, utilizando formas simples e directas, com cores vivas e um texto muito breve. O argumento principal deve ser dotado de forte impacto no espaço público, destacando-se dos restantes cartazes (ibidem). Diferente do antigo reclamo das primeiras décadas do século XX, o cartaz comercial moderno e as publicações periódicas renderam-se ao argumento visual, com uma utilização estudada, hábil e eficaz da imagem (Fragoso, 2012, 41). O desenvolvimento dos processos de impressão, em particular a litografia, possibilitaram uma massificação da imagem a cores na malha urbana. Em 1910, Raul Caldevilla (1877-1951), fundou a Empresa Técnica de Publicidade - ETP (e mais tarde, Empresa do Bolhão) —, com a visão de que a publicidade seria uma mais-valia para o progresso industrial de Portugal. A ETP foi percursora da utilização do espaços urbanos, na aplicação de publicidade em outdoors, tabuletas e cartazes de grande dimensão (2012, 42), transformando a “expressão visual num instrumento essencial à actividade económica e comercial” (2012, 43). A O CARTAZ ENQUANTO CANAL | 84 presença destes cartazes no espaço público indicam o grau de cada sociedade ao nível da economia e estabilidade política (Sontag, 1970, 202). Assim, o cartaz comercial desenvolveu uma linguagem gráfica específica, distanciando-se dos demais, e na competição pela atenção do transeunte (Samara, Baptista, 2010, 10). Distinto da tipologia anterior, o cartaz cultural está particularmente “orientado para actividades intelectuais e artísticas” (Enel, 1971, 126) e para um público com interesse pela cultura das artes. O emissor desta tipologia de cartaz procura a divulgação eficaz de acontecimentos culturais como concertos, exposições, congressos, e deste modo, a sua função informativa prevalece à função económica (1971, 129). Também, no cartaz cultural, a expressão visual é reveladora de um conjunto de valores, hábitos, memórias e tradições, que identificam determinada sociedade, logo um elemento poderoso na comunicação (Fragoso, 2012, 71). Todavia, nem todos os cartazes presentes no espaço público têm fins comerciais ou publicitários (Moles, 1969, 20). O cartaz político caracteriza-se pela transmissão de mensagens às massas, não tendo “por objectivo a aquisição de bens de consumo, mas de ideias”, sendo o seu emissor um organismo de instituição social (Estado, partido político, associações partidárias) (Enel, 1971, 119). Geralmente, esta tipologia de cartaz tem carácter excepcional, aparecendo apenas por consequência de algum acontecimento na vida política do país - eleições, revoluções, crise, desemprego, ou seja, indica o estado de emergência de uma sociedade, sendo indicador de transformação (Sontag, 1970, 202). Por contrário, nos países com governos totalitários “constituem uma arma de permanente poder, e também nos países recém-nascidos, por se debaterem com o problema de educação política dos cidadãos (Enel, 1971,119).5 Porém, considera-se o cartaz “politicamente inocente” (Sontag, 1970, 201) até ao início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Os governos europeus reconheceram a eficácia da comunicação em massa dos cartazes comerciais e transportaram-nos para propósitos políticos tendo como tema primeiro e principal o patriotismo, numa espécie de culto ao país (ibidem). Em França, apelaram aos cidadãos, pedindo fundos monetários para a guerra. Em Inglaterra, pediam a participação dos homens, para se juntarem ao exército na luta contra o inimigo. Após a guerra, os cartazes continuaram a invadir o espaço urbano, no seguimento das revoluções.6 De um modo geral, os métodos de acção do cartaz político não se distanciam do cartaz comercial, pois ambos dão preferência à imagem, em detrimento do 5 Sugere-se a consulta do ponto I.1 A Propaganda e a Sociedade de Massas. 6 Sugere-se a leitura do ponto seguinte O Cartaz Político em Contexto. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 85 texto. Enquanto o segundo procura um estímulo a gostos e apetites, o cartaz político estimula (e simplifica) a moral e a ética (1970, 203). A utilização da imagem deve caracterizar-se pelo poder de impacto e a palavra escrita, um slogan convincente e de fácil memorização (Enel, 1971, 119), em ambas as tipologias. A diferença reside não nos meios de expressão, mas ao nível do sentimento provocado no receptor e possível acção. O choque comunicacional reside na escolha de termos “susceptíveis de provocar reacções imediatas no receptor” (ibidem). Clyde Miller, no seu livro The Process of Persuasion,7 propõe uma classificação dos procedimentos verbais, virtue device (mecanismo de adesão), poison device (mecanismo de rejeição), testimonial device (mecanismo baseado no testemunho e na autoridade da testemunha) e together device (mecanismo de conformismo). No cartaz político aplica-se a virtue device na “construção de mitos altamente valorizados como a liberdade, a honra ou a pátria” (ibidem), com o objectivo de associar uma personagem a uma luta ou ideia com carga positiva. Na desvalorização do adversário, esta tipologia de cartaz salienta o poison device, com ligações a temas menos apreciados pelo público, como a morte, desonra ou injustiça. O mecanismo baseado na testemunha ou testimonial device apela a questões reais da história, inspirando um pensamento positivo ou criando o ódio. Por último, o together device salienta as questões de solidariedade, fraternidade ou causa comum (ibidem).8 Em síntese, o cartaz político aborda de forma diferenciada os temas, consoante o objectivo final, isto é, o conteúdo e as especificidades da mensagem identifica os géneros de cartaz, tal como Eduardo Camilo categorizou na sua tese de doutoramento O Cartaz Partidário em Portugal (1974-1975), pela “estrutura discursiva comum” (2004, 83), nunca podendo entender estas categorias como verdade absoluta (Muller-Brockmann). O Cartaz Político em Contexto A comunicação visual veicula mensagens explícitas e implícitas capazes de moldar a percepção, interpretação e opinião das massas. A propagação destas mensagens domina a acção pública, cívica e política (Fragoso, 2012, 21), sendo importante perceber o enquadramento temporal de cada uma e o seu objectivo concreto. Em 1914, o mundo vivenciou o primeiro conflito bélico a nível mundial. Este acontecimento implicou significantes transformações nos padrões 7 Este autor é referido no livro de Françoise Enel (1970). 8 Além das técnicas de comunicação aplicadas ao cartaz, a propaganda política recorre a outras técnicas de persuasão como a ameaça, denúncia ou sátira. O CARTAZ ENQUANTO CANAL | 86 social9 e artístico.10 A comunicação através de mensagens visuais comprovou eficazmente a sua versatilidade, quer nas trincheiras, mantendo a moral das tropas combatentes, quer na propaganda dirigida ao inimigo (Quintero, 1990, 209-210). Durante a Primeira Guerra Mundial, a propaganda e o controlo da informação tiveram uma influência determinante no modo como a construção da linguagem cartazística, no campo político e de guerra, se desenvolveu nos anos que se seguiram.11 O erro cometido pela atrocity propaganda não viria a ter repercussão no futuro, isto é, a comunicação com as massas pelo abuso de conteúdos, censura e controlo da informação (1990, 210). A imprensa publicou não só histórias patrióticas e nacionalistas, como também inventou atrocidades cometidas pelo inimigo durante a guerra, para o desacreditar.12 A Grã-Bretanha era a única grande potência europeia sem serviço militar obrigatório. Assim, a mobilização de população dependia do cartaz de propaganda como meio de comunicação (Samara e Baptista, 2010, 11).13 As composições gráficas enfatizavam o patriotismo e sentimentalismo, pelo uso das cores nacionais ou de referências locais. Em 1914, o cartaz Britons Wants You [Fig. 5], para o recrutamento de tropas, do artista Alfred Leete (1882- 1933), influenciou as gerações futuras. Representado na imagem encontravase o Ministro da Guerra, Lorde Kitchener (1850-1916), com uma associação tipográfica de diferentes pesos, dirigindo-se directamente ao observador, com um olhar autoritário e assertivo. Esta irreverência gráfica inspirou o artista norte-americano James Montgomery Flagg (1877-1960), na criação do cartaz I Want You for US Army [Fig. 6], com a recriação do Tio Sam (Hollis, 1994, 30).14 9 Nomeadamente, a presença activa da mulher, indispensável para os abastecimentos da guerra. 10 No termo padrões artísticos, considera-se a transformação da comunicação gráfica dirigida às massas, através do cartaz. Nesta breve abordagem sobre O Cartaz político em Contexto, considerou-se também o cartaz de guerra, pois este define-se pela mudança de cenário do cartaz político, como foi explicado no ponto I.1 A Propaganda e a Sociedade de Massas - As Categorias da Propaganda. 11 Neste ponto, considerou-se como referência a propaganda emitida pelos Aliados. 12 A propaganda, durante a Primeira Grande Guerra, descreveu em exagero e de forma cruel os acontecimentos. Esta forma de comunicação, embora considerada eficaz, trouxe alguma descrença na propaganda. Por este motivo, ao longo da Segunda Grande Guerra, as mensagens transmitidas foram estrategicamente contidas (Santos, 2004, 29). Graficamente, traduziu-se na massificação do uso da fotografia, substituindo aos poucos a ilustração desenhada e pintada. 13 Sugere-se a consulta da Colecção de Cartazes da BNP - I Guerra Mundial, disponível na www em <http://purl.pt/398/1/index.html> 14 Uncle Sam ou, em português, Tio Sam, é um dos símbolos nacionais dos EUA. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 5 Na imagem, o indivíduo em pose altiva, aponta para o transeunte. Este gesto garante a eficácia da comunicação. O receptor questionará a sua participação na guerra. Fig. 6 Revela-se a mesma situação neste cartaz. Ambos evocaram o patriotismo na utilização de cores como o azul, branco e vermelho. 87 Na França, o cuidado gráfico reflectia-se nos cartazes com ilustrações pormenorizadas, acompanhadas de longos textos, pela mão de artistas como Jean Louis Forain (1852-1931) e Steinlen (1859-1923). Em geral, os cartazes dos Aliados utilizavam imagens de compreensão directa, sem retórica, para ilustrar uma ideia simples (1994, 29). Por seu turno, na Alemanha as campanhas de propaganda promoviam a recolha de fundos, para os suplementos e munições que escasseavam no decorrer da guerra (Santos, 2004, 28). Gráfica e ideologicamente distanciados dos Aliados, os cartazes apresentavam um tom sério e assertivo, com caligrafia pesada, como comprova o exemplar de Lucian Bernhard (1882-1972), Este é o Caminho para a Paz - o Inimigo pediu por isso! Subscreva o Empréstimo de Guerra (trad.Hollis, 1994, 30) [Fig. 7]. Em suma, esta experimentação gráfica “não introduziu nenhuma inovação técnica substancial”, se for excluída a utilização, pela primeira vez, do cinema, para divulgação informativa da guerra (Quintero, 1990, 233). Embora tenha cumprido plenamente com o seu propósito de fazer chegar a mensagem aos locais, onde as tecnologias da comunicação eram rudimentares e o seu uso não estava generalizado (Meggs, 1983, 351). A propaganda usufruiu essencialmente da palavra impressa, numa nova abordagem quantitativa de ideias e demonstrou a sua eficácia no papel que desempenhou, quer no campo inimigo, quer ao nível de coesão interna, ou na capacidade de mudar a opinião pública internamente (1990, 234). Os Bolcheviques, liderados por Lenine, tiveram uma participação mínima na queda do czarismo, porém, a sua propaganda estabeleceu uma relação próxima com a maioria do povo russo (1990, 235). Esta relação viria a culminar com a tomada de poder por parte dos Bolcheviques, na Revolução de Outubro de 1917. Nos primeiros anos após a revolução, o cartaz mostrou-se indispensável na “arte de persuadir pessoas” (Lafont, 2007, 8), na sua maioria analfabeta, pelas imagens com forte carácter e textos facilmente compreensíveis. A temática ideológica e revolucionária, por vezes com representação do líder, centrava-se na denúncia do inimigo, na necessidade de literacia, cultura e no trabalho. Estas peças gráficas eram afixadas em espaços com grande fluxo populacional, como ruas, comboios, fábricas, cafés ou escolas. Viktor Deni (1893-1946) [Fig. 8] e D.S. Moor (1883-1946) [Fig. 9] criaram inúmeros cartazes e ilustrações políticas para o Agit-Prop, com fortes alegorias entre o passado e presente, imperialismo e a luta operária, acompanhados O CARTAZ ENQUANTO CANAL | Fig. 7 A propaganda alemã manteve heranças tipográficas. Fig. 9 Figura com formas constrastantes. Salienta-se o fundo, com uma fábrica em produção, em representação da classe operária e uso da cor da revolução - vermelho. Fig. 9 Cartaz com formas agressivas e cores contrastantes. 88 de slogans simples.15 A combinação de cores simples, vermelho e preto, foi explorada com máximos resultados. O vermelho identificava os elementos revolucionários, como os operários ou camponeses, e, o preto, os capitalistas e clérigos (Hollis, 1994,42-43). Os cartazes soviéticos experimentaram a composição de texto e imagem, com variações tipográficas, cores e formas geométricas. Pioneiro, o artista El Lissitzy publicou, em 1920, o cartaz Vence os Brancos com a Cunha Vermelha [Fig. 10], com traços e formas construtivistas. Entre 1923 e 1925, Vladimir Mayakovsky e Alexander Rodchenko contribuíram para o desenvolvimento da imagética do cartaz político construtivista, numa linguagem estética inovadora capaz de unir arte e política ao serviço da revolução (Samara e Baptista, 2010, 11). Todavia, a obra gráfica deveria responder aos padrões estéticos aprovados pelo partido e apenas atender a objectivos concretos propagandísticos (Quintero, 1990, 257). Assim, o gosto soviético ficaria limitado ao realismo socialista, isolando a URSS da evolução da arte contemporânea, denunciada como “arte da burguesia” (1990, 257).16 A reprodução mecânica de imagens através da fotografia rejeitava a ideia da obra de arte única, teoria que se adequava à sua ideologia, para a construção conjunta do socialismo (Hollis, 1994, 45). A fotomontagem, técnica introduzida por Gustav Klutsis (1895-1938), unia a arte e a realidade numa mesma imagem, cumprindo o requisito de maior acessibilidade da linguagem gráfica (Lafont, 2007, 8). O significado das imagens heróicas justapostas, sobrepostas, combinadas de diferentes pontos de vista, com cortes e recortes, poderiam ser compreendidas sem a leitura dos slogans ou legendas. Palavras e os números transmitem uma mensagens mais específica, mas o seu papel torna-se secundário em relação ao impacto das imagens metafóricas, fortemente ampliadas (Hollis, 1994, 47). “Todo o partido Bolchevique era uma organização de agitação e propaganda” (Quintero, 1990, 240), isto é, existiam vários sectores dentro do partido que emitiam mensagens às massas. Apenas em 1921, o departamento Agit-Prop foi fixado com finalidades específicas, de informação, agitação, organização, direcção das filiais e e administração geral (1990, 241). Neste novo conceito, a informação estaria a par da propaganda, dando-lhe conteúdo educativo e 15 Agit-Prop é a abreviatura de agitação e propaganda, termo utilizado pelos marxista-leninistas para designar a ferramenta de disseminação dos seus ideais e princípios, entre os trabalhadores, camponeses, estudantes e operários. 16 Embora os artistas fossem influenciados por movimentos abstractos ocidentais, estavam conscientes da “necessidade de manter uma referência figurativa” nos cartazes (Meggs, 1983, 343), para comunicar mais directamente com o público. Este tema foi abordado no ponto I.2 Um Contexto. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 10 De forma abstracta, El Lissitzy comunicou os ideais da Russia Soviética. 89 censurando tudo o que fosse contra o regime. O trabalho propagandístico estava direccionado internamente, para os membros do partido, sindicatos e outras organizações, e externamente, na educação das massas revolucionárias.17 A morte de Lenine, em 1924, trouxe a necessidade de consolidar a liderança por parte de Estaline. Neste processo, o recurso à fotografia e à fotomontagem provou novamente a sua eficácia na comunicação. Ao lado de Lenine, posicionaram Estaline, o seu seguidor. Porém, com a declaração da Segunda Guerra Mundial em 1939, os retratos de Estaline passaram a ser menos frequentes e foram substituídos por armamento e representações de vitória, bem como incentivos aos soldados, na frente de batalha (Lafont, 2007, 10) [Fig. 11, 12, e 13]. No segundo conflito mundial, a comunicação gráfica começava a desempenhar um papel fundamental na vida política dos países e crucial em época de eleições (Hollis, 1994, 109). A imagem dos líderes, como Hitler, Mussolini, Estaline e Salazar espelhavam a força, o poder e ideologia de cada país e invadiam jornais, revistas, selos postais e cartazes. Hitler e Goebbels (1897-1945) deram uma grande contribuição à propaganda, com técnicas e processos, que induziam as massas ao delírio (Domenach, 1973, 41): O hitlerismo corrompeu a concepção leninista de propaganda. Transformou-a numa arma em si, utilizada indiferentemente para todos os fins. As palavras de ordem leninistas, mesmo ligando-se em definitivo aos instintos e a mitos fundamentais, apresentam base racional. Quando, porém, ao dirigir-se às multidões fanáticas, que lhe respondiam gritando o “Sieg Heil”, Hitler invocava o sangue a raça, importava-lhe apenas sobre-excitá-las, incutindo profundamente nelas ódio e o desejo de poder. Essa propaganda atinge o ser humano num nível de exaltação em que a resposta é irreflectida. (...) a propaganda deixa de estar vinculada 17 Estaline, no poder, dividiu o Agit-Prop em dois: um Departamento de Agitação e Campanha de Massas e um Departamento de Cultura e Propaganda, mantendo-se com a mesma estrutura até 1939. O CARTAZ ENQUANTO CANAL | Fig. 11, 12 e 13 Nos cartazes soviéticos é frequente o uso da fotomontagem, com sobreposição de imagens de armamento ou multidão. Os personagens estão sempre em posição altiva e firme. 96 produção e afixação de cartazes ficou mais evidente aquando da revolução de 25 de Abril de 1974, que derruba o regime de Salazar. Face à agitação política e social: O cartaz foi-se tornando um dos meios de comunicação mais presente na sociedade portuguesa, pela sua proliferação nas ruas onde, eram colocados indiscriminadamente, ao mesmo tempo que eram afixados novos cartazes, com uma frequência bastante regular” (Barbosa, 2011, 364).27 De facto, as repercussões do processo de democratização (Rocha, 2004, 40) e a abolição da censura abriram caminho para a produção de cartazes, que surpreenderam pela técnica, humor ou comovente ingenuidade (Gonçalves, 1986, 45). A revolução de Abril permitiu a associação livre de pessoas, o que possibilitou a formação e saída da clandestinidade de várias partidos, como o caso do MRPP, que foi fundado em 1970, ainda no regime salazarista. Assim, o cartaz político-partidário tomou forma e definiu-se no espaço público. Para a sua composição, os cartazistas recorreram a referências internacionais de movimentos políticos e artísticos e a sua produção ultrapassou períodos anteriores (Barbosa, 2011, 370).28 Todavia, existiram alguns constrangimentos ao nível da reprodução cartazística: as tiragens eram limitadas, com qualidade de impressão inferior, pois a informação a transmitir era urgente e em constante mutação. Na maioria dos cartazes, era atribuída maior importância à informação do que à qualidade gráfica da reprodução (2011, 370). A instabilidade política vivida entre 1974 e 1976 e o surgimento de diferentes ideologias políticas proporcionou uma experimentação gráfica sem precedentes. Os novos partidos utilizaram o cartaz como uma ferramenta fundamental, para darem a conhecer os seus ideais e propostas revolucionárias aos portugueses. Da esquerda à direita, todos os partidos comunicaram visualmente a sua mensagem, quer pelo recurso à ilustração e desenho (mais frequente nos partidos de Esquerda, como o PCP, PS ou MRPP), quer pela fotografia (mais frequente em partidos moderados, como o CDS) [Fig. 27]. Contudo, havia valores transversais a todas as mensagens — liberdade, igualdade e fraternidade — que se tornaram palavras-chave de mudança, presentes não só nos cartazes, como em murais, jornais, postais e discursos políticos (Barbosa; Calvera; Branco, 2011): 27 “A distribuição caótica e abusiva de cartazes abranda nos anos 80” (Barbosa, 2011, 365). 28 Alguns limitavam-se a cópias, mais ou menos óbvias (Rocha, 2004, 51). | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO Fig. 27 Em 1975, o CDS lançou esta série de cartazes, onde alterava apenas a cor e a fotografia. Graficamente, manteve sempre as composições simples, com forte destaque para a cor e tipografia não serifada. Fig. 28 A maioria dos cartazes políticos, anteriores à revisão da Constituição eram compostos apenas em tipografia, a expressão da mensagem manifestavase pelos diferentes pesos tipográficos. 97 Nesta época, privilegiou-se um discurso livre na mensagem e nas representações, nas quais se valorizou sobretudo uma retórica visual simbólico-estética e a presença da figura humana. Interessou às diferentes classes políticas comunicar a importância da esfera pública e valorizála, ou seja, os cartazes mostraram estar em igualdade de circunstância com os interesses do povo (ibidem). Se, nas primeiras décadas do século XX até à revisão da constituição de 1933, o cartazes político apenas se preocupava em transmitir informações relativas a manifestações ou avisos [Fig. 28], o cartaz pós-revolucionário pretendia uma organização activa dos cidadão, alertando-o para questões sociais. Neste período particular da história de Portugal, o cartaz foi consequência dos acontecimentos políticos, com uma mensagem de texto curta e provocatória (Barbosa, 2011, 415-416). Deste modo, no panorama nacional, salientam-se os cartazes do MFA, CDS, PPD, UDP, PS, PCP e MRPP pelo desenvolvimento gráfico e pela capacidade de massificação da mensagem29. No período imediantamente após a revolução, o Movimento das Forças Armadas, tal como a maioria dos partidos, colocou no espaço público uma série de cartazes, que acompanhavam os últimos acontecimentos nacionais, numa tentativa de aproximação com o povo30. Esses cartazes detinham poucos elementos gráficos, com ilustrações e simples e personagem com humor [Fig. 29]. Por contrário, o CDS manteve uma linguagem mais geométrica, maioritariamente tipográfica, recorrendo pontualmente à fotografia. Apenas a Juventude Centrista, permitiu uma experimentação gráfica maior, utilizando a técnica do stencil [Fig. 30], como outras juventudes partidárias. No cartaz, o PPD permitiu a exploração de diferentes técnicas, como a fotografia e ilustração, na tentativa de delimitação do campo gráfico [Fig. 31 e 32]. A União Democrática Popular destacou-se pelos fortes slogans, em tipográfica regular, asociando frequentmente imagens do povo [Fig. 33]. O Partido Socialista manteve uma linguagem gráfica mais abrangente, explorando a ilustração, fotografia, combinando diferentes famílias tipográfias e grupos de cor. A utilização do símbolo cinésico - o punho cerrado - identificava o partido e o seu campo 29 A selecção destes partidos não corresponde a nenhum critério estatístico ou moral, servindo apenas de exemplo da produção cartazística no panorama nacional. Este estudo não desvaloriza os restantes partidos, associações e organizações político-partidárias que se mantiveram graficamente activas no período pós-revolucionário. 30 Este termo aparece frequentemente nos cartazes do MFA, devido à aliança MFA-Povo. Durante este período, João Abel Manta ilustrou os cartazes do MFA, numa linguagem inconfundível. O CARTAZ ENQUANTO CANAL | 98 simbólico, bem como acompanhava os elementos mais ilustrativos [Fig. 34 e 35]. Quanto ao Partido Comunista Português, graficamente, assemelhava-se mais à linguagem estabelecida pela restante esquerda, quer no uso recorrente da cor vermelha e amarela, quer pelas ilustrações em alto contraste do povo camponês e operário, quer pelas manchas planas de cor, que invadiam os cartazes [Fig. 36 e 37]. Estas combinações permitiam uma maior coerência na comunicação gráfica e identificação mais rápida, por parte do público. Os cartazes do MRPP, objecto de estudo desta investigação, distinguiramse pela sua composição audaz, e pelo metódico uso da cor, simbolicamente escolhida. Na maioria dos cartazes, a tipografia realçava a mensagem da ilustração, com um corpo pesado e não serifado, numa coluna de texto bem delineada, gritando palavras de ordem. Por sua vez, a ilustração, com formas estereotipadas e idealizadas, representava os camponeses, operários e soldados, num cenário idílico de união entre o povo, que luta por um novo rumo para o país (Santos, 2004, 55). Os cartazes e murais do MRPP inspiravam-se mutuamente, coexistindo nos muros da cidade, incitando ao protesto e a participação activa | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO (dir. para esq. - cima para baixo) Fig. 29 Cartaz do MFA. Fig. 30 Cartaz da Juventude Centrista. Fig. 31 e 32 Cartaz do Partido Popular Democrático. Fig. 33 Cartaz da União Democrática Popular. Fig. 34 e 35 Cartaz do Partido Socialista. Fig. 36 e 37 Cartaz do Partido Comunista Português. 99 da população, figurada com “armas, punhos cerrados e dedos apontados” (2004, 57). O alto contraste das figuras era acentuado por um contorno negro, sem tons intermédios, onde as manchas delimitavam os volumes e as sombras. Sem dúvida, a técnica do contraste era fundamental, não apenas na ilustração como nos jogos tipográficos, tornando as estratégias de composição mais visíveis (Dondi, 1991, 137). O significado destas formas emerge pelas reacções psicofisiológicas humanas, na sua tendência de organizar por semelhança ou equilíbrio (ibidem). Estas técnicas e composições gráficas detinham reminiscências do desenho propagandístico da URSS e da China, tanto ao nível estético, como pela influência ideológica dos partidos estrangeiros semelhantes (Santos, 2013, 83). A singularidade deste discurso estilístico e temático era assegurada por artistas anónimos do Departamento de Propaganda, que contavam com orientação de Guilherme Lopes Alves, como testemunhou Rosário Félix: No grupo de gráficos haviam pessoas muito qualificadas, a nível de design gráfico, nomeadamente, o Lopes Alves. Na altura, toda a gente achava que as letras estavam muito bem feitas... as cores que nós utilizávamos nos cartazes, que eram o vermelho e o amarelo, foram uma marca nossa. Nós não deixávamos as coisas por mãos alheias. Quando ia uma maqueta para a tipografia, escolhíamos o papel, o tamanho que queríamos e, além disso, se às quatro da manhã, começava a sair o cartaz, nós estávamos lá para verificar se a cor era aquela. (...) Nos cartazes, nós tentávamos passar aquela imagem de que havia uma classe operária dirigente [Fig. 38]. Achava-se que a classe operária deveria dirigir a tal revolução, que nós achávamos que ainda não tinha acontecido com o 25 de Abril. (...) É a tal classe operária. Isso é verdade. Nos cartazes, o tema, a não ser que fosse muito específico, era a classe operária, a mulher trabalhadora (não era uma mulher qualquer, da burguesia), por vezes, até aparecia de avental, os intelectuais, os camponeses, havia uma hierarquia. [ No fundo, havia um cenário fabril ou rural... ] Tudo isso era intencional. (...) A influência no cartaz não está só relacionada com Mao Tsé Tung. Nós víamos muitos cartazes russos. A influência da propaganda chinesa, via-se mais nos murais. Nos cartazes, via-se mais influência russa (Cf. Entrevista, 2013). Fig. 38 Cartaz do MRPP (pormenor): ilustração da classe operária e camponesa com ferramentas de trabalho e armas. Uma mancha forte de vermelho acompanha toda a imagem dos corpos em alto contraste, com expressões de rosto vincadas. O CARTAZ ENQUANTO CANAL | 100 De facto, a autoria no cartaz político português padece de pouca informação, principalmente, neste período pós-revolucionário, em que os artistas estavam envolvidos em trabalho de militância.31 Porém, foi possível mapear três grupos, os artistas plásticos, os cartazistas32 e um vasto grupo anónimo (Santos, 2004, 74). Desde o regime autoritário de Salazar, os artistas plásticos foram convidados a actuar no campo político e social do país. No pós-revolução, incentivados pela Secretaria de Estado e Cultura ou facções ligadas a partidos, encontram-se nomes como os de Maria Keil, Maria Velez (1935- ), Marcelino Vespeira (1925- 2002), João Abel Manta (1928- ), Artur Bual (1926-1999), Justino Alves (1940- ), Gil Teixeira Lopes (1936- ), Artur Rosa (1926- ), Augusto Cid (1941- ), entre outros. Quanto aos cartazistas, salienta-se o desenvolvimento do estudo da disciplina do Design33 e a criação de agências de publicidade (Santos, 2004, 74- 78), bem como dos gabinetes ou departamentos de propaganda dos partidos, onde intervinham nomes como os de Armando Alves (1935- ), no MDP/CDE e PCP, João Nunes (1951- ), no CDS, Hermínio Bastos, Fernando Dias e Jorge Afonso (1940- ), no PCP (Santos, 2013, 91-104), Guilherme Lopes Alves, Rosário Félix e Seixas do Carmo, no MRPP. Anónimos ficaram os assistentes de produção nas gráficas, reprografias ou tipografias, assim como estudantes. No período imediatamente antes e após a revolução, os estudantes, recrutados para o serviço de militância, desempenharam um papel fundamental na comunicação dos partidos, pois nas universidades tinham disponíveis máquinas de escrever, prelos, stencil e material de serigrafia, para impressão de cartazes e comunicados (Pacheco, 2013, 40) [Fig. 39 e 40]. A grande produção cartazística, após a revolução de abril, segundo Robin Fior (1935-2012), não constituiu uma aprendizagem segura da composição gráfica e do gosto, trazendo a ideia de que qualquer indivíduo podia e sabia produzir um bom cartaz (Cit. Santos, 2004, 73). Inclusive, embora em pequeno número, existiram cópias integrais e parciais de cartazes já existentes, tornando-se um 31 No início desta investigação de mestrado, um dos principais obstáculos a contornar foi a busca pelos intervenientes activos no MRPP, em particular no Departamento de Propaganda. A sua participação neste estudo é, sem dúvida, uma mais-valia, para a compreensão de todo o processo de comunicação gráfica desta instituição político-partidária. Apesar da autoria do cartaz não dever ser ignorada, e foi um ponto a ter em consideração na catalogação da recolha, optou-se por não se aprofundar este assunto, visto não ser um objectivo principal da investigação. 32 Cartazistas que, mais tarde, viriam a ser chamados de designers gráficos, já com alguma formação académica específica. 33 Sugere-se a consulta das páginas 48 a 59, da dissertação de mestrado O Design Político no Porto (Santos, 2013), onde foi aprofundado o tema sobre a disciplina do Design em Portugal. | CAPÍTULO I : O EXERCÍCIO DA COMUNICAÇÃO NO RITUAL POLÍTICO 101 factor inibidor da autoria (Santos, 2004, 79). À medida que a década de 70 avançou, o cartaz pós-revolucionário, que apresentava uma maior liberdade estética e conceptual, foi perdendo vitalidade e desejo de luta (2004, 55). Assim, na década de 80, pela modificação do discurso político, deu-se uma perda de identidade, quer da sua autoria, quer dos partidos (Barbosa, 2011, 416). As organizações políticas converteram a sua luta à conquista do eleitorado, ou seja, a tomada de poder pela via pacífica ou eleitoral, e deixaram de estar orientadas para a guerrilha ou revolução (Quintero, 1990, 236). Fig. 39 e 40 Recurso a técnicas alternativas ao offset, para impressão. Os cartazes do MRPP impressos em tipográfia ou serigrafia são raros de encontrar. Por norma eram impressos em papel craft ou de cenário. O CARTAZ ENQUANTO CANAL | A PRODUÇÃO CARTAZÍSTICA DO MRPP (1974-1976) CAPÍTULO II 1974 1975 1976 II.1 UMA ANÁLISE DA MENSAGEM POLÍTICO-PARTIDÁRIA Em Portugal, a revolução de 25 de Abril de 1974 expandiu os horizontes da comunicação gráfica e da sua percepção por parte do público, tornando-a uma arma política e social. O desenvolvimento de um estudo e pensamento sobre o artefacto do cartaz revelou-se essencial para o entendimento da história política, social e visual, distanciando a experiência pessoal, por vezes, tendenciosa, em prol de uma análise isenta. Este período da história de Portugal, revelou-se fértil no campo das artes gráficas, em particular na construção da imagética do MRPP, de inspiração marxista-leninista-maoista. Nesta linha de pensamento, a sociedade vive em permanente estado de luta de classes, traduzindo-se numa propaganda política fundamental e inseparável do movimento operário e da revolução (Quintero, 1990, 236). Neste sentido, a propaganda é uma “necessidade de tipo militar” e tem de adquirir “carácter permanente” (ibidem). O primeiro passo da propaganda revolucionária consiste na tomada de consciência da situação real, isto é, uma propaganda de carácter informativo. Depois deste primeiro processo de sensibilização das massas, segue-se uma campanha de agitação, com duas ideias simples, transcritas por palavras de ordem. Após a tomada de poder, é imprescindível a intensificação da propaganda, de forma a combater a ameaça da contra-propaganda (ibidem). Esta eficácia da propaganda depende de um único centro emissor, capaz de controlar todos os aspectos. O Departamento de Propaganda do MRRP adoptou este modelo, com sucesso na comunicação e mobilização das massas, mas sem resultados eleitorais satisfatórios. Neste período pós-revolução, os cartazes políticos do MRPP, a par do nascimento de uma nova consciência estética global (Fragoso, 2012, 125), ficaram marcados pelo tom satírico, saturação das cores e contrastes acentuados. A Base de Dados: Processo de Estruturação A análise da produção gráfica do Departamento de Propaganda apenas foi possível após uma pesquisa e catalogação, segundo os mesmos critérios, dos cartazes do MRPP, actual PCTP/MRPP, numa base de dados única e criada à medida das necessidades deste estudo. Assim, numa primeira fase, para a criação desta base de dados, nomeada O cartaz do PCTP/MRPP, foi contactado o partido, na sua Sede Nacional, em Lisboa. Este mostrou-se disponível para colaborar, permitindo a consulta do seu espólio. O PCTP/MRPP está sensibilizado e percebe a importância da criação de um arquivo físico e digital, que preserve o espólio, mantendo vivo o seu património gráfico. Através da Biblioteca Vermelha,1 partilham com o público, 1 Biblioteca Vermelha disponível online na www em <www.bibliotecavermelha.org>. 112 de objectos reais, onde se verifica uma representação fidedigna do objecto que representa; do sistema de linguagem, fulcral na delimitação do campo simbólico criado pela imagem; e do sistema da imagem, penetrando inconscientemente no psicológico do receptor (ibidem). O texto e a imagem funcionam em simbiose na construção de um cenário ideal, capaz de captar a atenção do receptor. A função de partilha da informação apenas é completa na presença de um texto inteligível e preciso, indicando um único fim à imagem com múltiplos e incertos sentidos (ibidem): A mensagem estética só se pode apoderar dos elementos significantes, para ampliar o significado literal e liquidá-lo a fim de elaborar um significado simbólico (Moles, 1969, 99). O cartaz, em particular com mensagem política, joga com ambiguidade e ambivalência dos estereótipos criados pela massa social, para introduzir novos significados na campo da denotação (Enel, 1971, 99). Neste processo, o cartaz político dá uso a signos de carácter verbal e iconográfico, incluindo substância cinésica, gestos ou movimentos, proxémica, os cenários, e objectal, adereços específicos da linguagem política (Camilo, 2004, 169) (Fig. 7]. Independentemente dos diferentes sistemas de significação, “o discurso político-partidário existe porque é enunciado linguisticamente” (2004, 175). Este sistema literal, não ambíguo ou subjectivo, articula-se com gestos e imagens, que determinam a sua dimensão significante (ibidem). Por exemplo, no cartaz ao lado [Fig.8], o símbolo do MRPP transmite um sentido explicitamente político. Em termos de composição, enquadramento e técnica, a imagem poderia ser associada a outro enunciado, adquirindo novos sentidos. Por outras palavras, o cartaz político apropria-se de signos sem mensagem política, para serem articulados com outros de natureza política na composição de uma mensagem global (2004, 177), pois a mensagem transmitida pelo cartaz não é inocente (Enel, 1971, 99). No cartaz [Fig. 9] são necessários dois géneros de signos: um relativo à divulgação da iniciativa (Grande Comício), outro ligado à divulgação da identidade da instituição (MRPP), local (Campo Pequeno) e data (Sexta 18 Julho 21h). Estes signos formam, o que Eduardo Camilo classificou de núcleo significante (2004, 180) e mantêm-se no mesmo sistema de enunciado. Ao acrescentar o interveniente na acção (Arnaldo Matos), enriquece a expressão política, mas a sua omissão não afectaria a significação. Os significados de expressão política (revolução, povo, libertou) servem para consolidar o posicionamento de uma instituição política, numa singularidade simbólica, distinguindo-a de outras instituições | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) Fig. 8 A ilustração poderia tomar qualquer sentido. Pelo uso de iconografia própria das instituições político-partidárias, é possível delimitar o campo semântico. Fig. 9 Exemplo de signos frequentemente utilizados no cartaz do MRPP. Fig. 7 No cartaz do MRPP, é frequente a representação de personagens em pose altiva, indicando o caminho ou direcção à multidão, sempre segurando uma bandeira ou arma. 113 de forma clara e duradoura. Estes signos são complexos de significado e a sua especificidade constrói-se progressivamente. O posicionamento e singularidade da mensagem político-institucional é transmitida não só pelo cartaz, como por outros meios de comunicação política, como os jornais ou murais. Este facto torna o significado ideológico ainda mais complicado de delimitar, pois torna-o mais ambíguo e plural por referir signos transmitidos por outros meios (2004, 183-185). A análise do sistema de expressão política e significação ideológica é susceptível ao risco, pois os significados ambíguos podem confundir o investigador e o receptor. A selecção de um sistema semiológico de análise recorre a dois critérios, evocados por Eduardo Camilo (2004): a especificidade do código, em que a relação do significante e significado não é só de origem institucional; e a dimensão funcional do signo, isto é, quando um signo se liberta da sua função do sistema de enunciado e pela apropriação significante dos outros sistemas, este perde o sentido original e ganha um sentido de natureza política. Nesta transição reside a função do discurso político-partidário. Por uma questão de metodologia, e de forma a evitar confusão entre denotativos e conotativos, a análise é restringida aos sistema de expressão política e significação ideológica. Na análise de um cartaz de mensagem política é inevitável a presença de signos de identidade institucional, ou seja, uma presença irrevogável no discurso político. Um signo verbal (a sigla ou o nome do partido por extenso) e um signo iconográfico (imagem geométrica, cor e gesto) são elementos que quando compostos identificam um instituição política, em particular (2004, 192). A presença destes signos, no cartaz, permite relacionar o posicionamento plural da mensagem com um partido político. Apesar do direccionamento de posição, estes signos não nos explicam o significado político-ideológicos patentes no cartaz. Para melhor compreensão do universo singular e ideológico de determinada instituição, é necessário associar outros signos que afirmem essa especificidade. Deste modo, entende-se a composição cartazística como complexa e racional, impulsionada por um conjunto de razões, interesses e motivações (2004, 194). A identidade institucional verbal, por extenso, insere-se no sistema do enunciado, pois a sua significação não é ambígua (2004, 197). No caso da sigla, o seu significado é apenas explícito por convenção. A particularidade dos signos de identidade institucional emerge da substância de expressão, através da imagem ou cinesia. O símbolo do MRPP [Fig. 10 ] é constituído por imagem e sigla. A imagem inclui três objectos distintos, com significados ímpares: uma foice, martelo e estrela de cinco pontas. A composição destes elementos, em posição Fig. 10 Símbolo MRPP, entre 1970 e 1976. UMA ANÁLISE DA MENSAGEM POLÍTICO-PARTIDÁRIA | 114 particular, processa uma desvalorização dos significados anteriores, para formar um novo significado, de carácter político-institucional, criando a identidade do partido. Esta nova significação torna-se clara e inequívoca quando associado a sigla - MRPP. Segundo Barthes, neste momento acontece uma “função de conhecimento”, em que a imagem veicula uma mensagem não original, ou seja, uma apropriação de uma imagem sem carácter político (2004, 198). Porém, estes signos de identidade não explicam o sentido político ou ideológica da produção cartazística de uma instituição político-partidária (2004, 194). Apenas a sua ominipresença determina o campo de acção política e especificidade institucional do discurso. “A existência de signos de identidade no manifesto cartazístico institui um determinado nível de inteligibilidade, baseado num fenómeno de redução” (ibidem), ou seja, uma simplificação da mensagem verbal e visual: desde a mensagem política, as características da imagem, as cores e as personagens.O receptor, após assimiliar as características essenciais da comunicação de uma determinada instituição, formula a problemática da seguinte forma: Tudo o que lês, tudo o que vês, ou te apercebes e inferes, é somente a instituição X (ibidem), numa espécie de património simbólico de natureza política, estética e ideológica. Por norma, os signos de identidade não são suficientes para delimitar o imaginário político-ideológico de uma institução. Por este motivo, na produção cartazística são acompanhados de ilustrações e palavras de ordem que complementam o seu significado, evitando alterações na recepção da mensagem. Os signos de identidade circulam autonomamente no espaço público, somente para manter um estímulo e receptividade da mensagem [Fig. 11]. Fig. 11 Este cartaz do MRPP foi um dos muitos exemplares distribuído gratuitamente, junto com o Jornal do partido Luta Popular. Desta forma, os militantes e simpatizantes poderiam ter em suas casas um símbolo do partido, a bandeira da luta operária e camponesa, tal como acontecia na China de Mao Tsé Tung, com os cartazes do líder e o Livro Vermelho. | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) 115 Este grau de abstracção é determinante no universo das imagens e na sua capacidade de se repetir e transformar (Moles, 1969, 97), pois a receptividade do cartaz político-partidário não depende da pertinência da mensagem, mas da instituição política que a emite (Camilo, 2004, 202). Assim, a importância da criação de um sistema simbólico de identificação militar ou partidário torna-se fundamental em períodos de guerra ou revolução. O MRPP, organização mais significativa do maoismo português, priveligiou a imagem, numa recriação da iconografia da Revolução Cultural Chinesa (Pacheco, 2012, 81). Na comunicação externa e interna do partido foram utilizadas gravuras e desenhos chineses adaptados, com “operários e camponeses altos, bem-aparecidos e limpos, enquanto os inimigos do povos eram feios, baixos e sórdidos” (ibidem), “quase numa obessão genética do esquerdismo português em reconstruir o verdadeiro partido comunista” (2013, 90). Cada pormenor do cartaz deveria transmitir uma posição de grupo unido, com um léxico rígido e encantatório de vivas e mortes, num tom violento e assertivo [Fig. 12]. Neste sentido, o cartaz do MRPP reflecte três pilares fundamentais da propaganda de esquerda: a denúncia ou revelação política, a palavra de ordem e a participação na acção (Quintero, 1990, 237). A denúncia propõe o esclarecer ou indicar os interesses escondidos das classes dominantes: Ergamo-nos Contra as Medidas Fascistas que Visam Calar a Voz Operária [Fig. 13] ou Nenhum apoio ao Governo Provisório [Fig.14]. Após esta identificação do inimigo a abater, é indispensável a chamada de atenção para os problemas do povo. Aqui, intervém a palavra de ordem proclamada pelos cartazes, panfletos, jornais, murais, propagandistas e agitadores: Ninguém Há-de Calar a Voz Operária [Fig. 15] ou A Classe Operária tem um Partido [Fig. 16]. A palavra de ordem deve apresentar uma solução verbal e concreta para a problemática apresentada anteriormente e simultaneamente à psicologia das massas a que se dirige, sintetizando também um determinado posicionamento político (Camilo, 2004, 366). Estas palavras expressam-se pela rima, ritmo, cadência, repetição, equívoco sentido, paradoxo ou perturbações sintáctico-semânticas (ibidem), tornando-se, por vezes, um signo da identidade do partido. O Departamento de Propaganda do MRPP, numa estratégia programada, jogou com as mesmas palavras, criando vários sentidos: A Voz Operária deve Ousar Avançar na Revolução, A Classe Operária tem Um Programa - A Classe Operária tem Um Partido, Ao Serviço do Povo - Dirigida pelo Povo, O Voto do Povo, Viva a Reforma Agrária - Viva a Aliança Operária Camponesa, O Voto do Povo nos Candidatos do Povo e no Mandato Popular. A repetição constante da palavra de ordem ganha significado prático, a partir do momento que convida UMA ANÁLISE DA MENSAGEM POLÍTICO-PARTIDÁRIA | Fig. 12 O inimigo do povo. 116 o receptor a participar da acção: Levantemo-nos Contra a Fome e a Miséria [Fig. 17]. A utilização da conjugação do verbo na terceira pessoa do plural, instiga sentimentos ao indivíduo, que imediatamente passa à acção (Quintero, 1990, 238), contagia com o seu exemplo os demais e contribui para a construção da massa revolucionária (Bernays, 1928, 50). A representação desta massa revolucionária invade os cartazes do MRPP, que cumprem com normas mais ou menos rígidas de composição: a moldura vermelha é constante, o fundo amarelo, ilustração a preto, com pormenores a cores. A excepção a estas normas, reside nos cartazes desenvolvidos fora do seio do Departamento de Propaganda, isto é, cartazes distribuidos a nível local, na maioria elaborados pelos próprios militantes e impressos a serigrafia [Fig. 18] ou encomendados a reprografias [Fig. 19]. Na sua maioria, as composições tipográficas ocupam grande parte da área útil, com letras em caixa alta, organizada metodicamente em caixas de texto, obedecendo a uma hierarquia da informação e dos objectivos concretos do cartaz, com o objectivo de transmitir significados e atitudes da instituição político-partidária. Esta hierarquia ou evocações vocais das palavras de ordem são visíveis pelo tamanho da letra ou da caixa de texto e não do ponto de vista da dicotomia entre maiúsculas e minúsculas ou diferença de tipos de letra. Tendencialmente, a ilustração (construções gráficas provenientes do desenho ou da pintura) e, ocasionalmente, a fotografia surgem como complemento simbólico à mensagem verbal (Santos, 2013, 126), numa tentativa de atracção do olhar do receptor e familiaridade com as personagens representadas. Quanto à sua forma, as imagens do MRPP respondiam fielmente aos padrões estabelecidos, dos corpos estereotipados e masculinizados, multidões em | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) Fig. 13, 14, 15, 16 e 17 Exemplos da comunicação externa do MRPP, numa linguagem gráfica coesa, quer ao nível da cor, composição ou ilustração e, um texto cuidado, com termos escolhidos ao pormenores e repetidos, para facilitar a memorização e identificação da instituição político-partidária. Fig. 18 Variação de cor, mas os standards de composição e tipografia mantêm-se. Fig. 19 Cópia quase infantil do cabeçalho do jornal Luta Popular (utilizado frequentemente em cartazes) e símbolo do partido invertido. 117 alvoroço, de armas, bandeiras e ferramentas de trabalho em punho. No âmbito dos sistemas de significação da instituição político-partidária os adereços na composição da imagem assumem como expressões iconográficas das populações e locais (Camilo, 2004, 227). No imaginário da comunicação gráfica de esquerda, a roupa e os instrumentos de trabalho representam metonímias de classes socio-profissionais: o camponês, o pescador e o operário [Fig. 20 e 21]. Simbolicamente, resumem uma classe operária e camponesa integrada na luta político-revolucionária.Esta luta ou guerrilha está representada essencialmente pelas armas (metralhadora ou espingarda) porém, os adereços de trabalho também se transformam em estandartes da luta ou armas: ancinhos, enchadas, tractores, chaves de fenda ou martelos. Para caracterízar os espaços representados no cartaz político, Edward Hall (1914-2009) defendia a sua inerência na delimitação de campos da imagem do cartaz, assumindo que esta estruturação representa “consequências na forma como os indivíduos se apercebem do mundo, intervêm nele, se apercebem do outro e se relacionam com ele” (2004, 250). Esta é uma realidade omnipresente no cartaz, no que refere ao enquadramento das cidades, dos espaços interiores, ornamentos, utensílios e dos intervenientes.O espaço físico, frequentemente designado de cenário, toma o lugar de palco para as encenações políticas, representando uma configuração semelhante nos cartazes do MRPP. Esta encenação e adereços é invariável, obsessiva e repetida, no que toca ao mundo do trabalho operário, tomando em si uma natureza político-ideológica. As imagens dos cartazes do MRPP revelam adereços que permitem um melhor enquadramento das classes e da luta: camponesa, com campos cultivados, casas de recolha de material ou cercas para animais; e, operária, com a representação de fábricas, chaminés, rodas dentadas, e máquinas. Além destes adereços, em casos mais concretos de greves [fig. 22], prisão de militantes (Prisão de Caxias) ou governos provisórios, é possível encontrar elementos geográficos, que identificam sem margem para dúvida o local e data exacta a que se refere o cartaz. Esta proximidade na representação dos espaços e adereços corresponde ao espaço informal, na criação de uma relação mais próxima entre o cartaz, imagem representada, e o indivíduo-receptor, que se identifica consciente ou inconscientemente naquela situação (2004, 255). A criação de uma relação de proximidade entre o cartaz e o indivíduo é ominipresente na maioria dos cartazes políticos e utilizados pelas instituições políticas. UMA ANÁLISE DA MENSAGEM POLÍTICO-PARTIDÁRIA | 118 No desfile das massas, encenado no cartaz do MRPP, é possível verificar uma configuração ordenada da multidão, numa espécie de marcha.Esta gestualidade representa uma acção colectiva: caminhar, atacar, defender na luta da classe operária e camponesa. Graficamente, nesta espécie de coreografia devidamente ensaiada e representada, existem três padrões distintos: a disposição em coluna, em linha e em forma de V (2004, 259). Na composição da imagem, em que os indívidos estão representados em coluna [Fig. 20], a primeira fila é encabeçada por um ou mais líderes, que guiam a multidão, normalmente armados e com traços individuais significativos. Esta particularidade dos traços individuais foi revelada por Rosário Félix, aquando da partilha do seu método de trabalho no Departamento de Propaganda do MRPP: Gosto particularmente do cartaz Fim do Faéton [Fig. 23]. Fui ao Jardim Zoológico, para desenhar a cobra. Era feita a grafite. E a pessoa que aparece lá era um camarada nosso. Eles tinham alguma paciência para posarem (Cf. Entrevista, Rosário Félix). No cartaz de composição em linha [Fig. 24] existe uma enfatização dos indivíduos que encabeçam a multidão, mas os indivíduos em segundo plano são indistintamente representados e, por vezes, misturam-se com o cenário. A representação dos intervenientes reduz-se ao essencial para a sua identificação, mas a sua dimensão expande-se até ao infinito. A disposição em V acentua as duas situações anteriormente descritas, isto é, a multidão pode estender-se infinitamente e, simultaneamente, destaca-se a intervenção de um líder [Fig. 25]. Por norma, o líder (por vezes, Arnaldo Matos) situa-se no vértice da pirâmide como Dirigente do Proletariado e do Povo Português e, em seguida, são representados os seu seguidores. Fig. 20, 21 e 22 Ilustrações da classe operária e camponesa: destacam-se os adereços rurais, como os ancinhos, enxadas e tractores; e os adereços operários, como a roda dentada, capacete de protecção e farda. Fig. 23 Ilustração de Rosário Félix. Composição da multidão, em V invertido. Fig. 24 Exemplo da fusão entre indivíduos e cenário. | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) 119 A imagem fixa desta representação das massas é acompanhada por expressões faciais e gestuais em demonstração de movimento, transmitindo e criando uma mensagem de carácter político e expressão cinésica (2004, 261). A ilustração de um gesto, através da imagem fixa, combina em si a continuidade do movimento que exprime e a sua instantaneidade e redução ao movimento cinésico mais simples. No cartaz do MRRP, a ilustração em espaço exterior será a mais representada, sempre numa perspectiva de guerrilha e luta do povo. Os rostos e expressão corporal são agressivos, com punhos cerrados, armas em punho, braços no ar, boca aberta e sobrancelhas franzidas. Estas expressões convencionalmente utilizadas nos cartazes revolucionários de esquerda transmitem o “grito de guerra”, da palavra de ordem [Fig. 25]. A gestualidade de guerrilha caracteriza-se pela postura inclinada para a frente, sem medo, com os membros superiores erguidos, ligeiramente flectidos, num gesto de agressão [Fig. 23]. Na maioria das situações, salienta-se o facto de que a intenção agressiva não esta representada na imagem, sendo reflectida na palavra de ordem. Usualmente, as ilustrações do cartaz do MRPP garantem o seu poder de sedução pelo impacto da cor, num fenómeno de ordem psico-fisiológica. A cor funciona como um suporte de conotações, que constitui um dos componentes essenciais da composição cartazística, pelos valores que lhe acrescenta (Enel, 1971, 57). A combinação de formas específicas e cores confere uma rede de tensões, que geram o dinamismo da composição, constituindo uma organização rítmica dos componentes (1971, 61). No cartaz, a força de atracção e o impacto sobre a memória do receptor é fortemente influenciada pelo espaço cromático. No caso do MRPP, este é composto por cores puras do espectro luminoso e a sua ligação a cores opostas permitem um choque cromático, em intensidade máxima na combinação: preto-amarelo; branco-vermelho; amarelo-preto; e, vermelho-amarelo (Moles, 1969,94). O vermelho é uma cor dinâmica, entusiástica, sangrenta e violenta. Simbolicamente, é a cor mais utilizada no panorama político, principalmente nas esquerdas revolucionárias. Na Revolução Russa de 1907, a bandeira vermelha tornou-se o símbolo do socialismo e comunismo. Os vermelhos eram os bons, o Exército Vermelho.Também a China, no período da Revolução Cultural, foi denominada de China Vermelha (Heller, 2000, 70). O amarelo é tónico, luminoso e optimista. A cor do movimento da classe operária e camponesa. No cartaz do MRPP, o amarelo, vermelho e preto eram as cores que dominavam toda a composição do cartaz. Predominantemente, averiguou-se a preferência pelo uso de fundo amarelo, cor clara e expansiva, delimitado por uma espécie de UMA ANÁLISE DA MENSAGEM POLÍTICO-PARTIDÁRIA | 120 moldura vermelha. Nos cartazes recolhidos, as margens excedentes do processo de impressão não eram aparadas, criando uma segunda moldura branca. Não foi possível confirmar a sua intenção, mas deduz-se a opção pela redução dos custos na gráfica. A ilustração em formas contrastantes, assumia duas cores: a cor do fundo e uma segunda vermelho ou preto, por vezes, com apontamentos de cor branca. A combinação de uma composição estruturada, uma ilustração simbolicamente representada, com uma paleta cromática própria, permitia ao MRPP uma rápida identificação da instituição político-partidária e do seu campo ideológico. Fig. 25 Exemplo de composição em V invertido e pormenores da ilustração. | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) II.2 VARIÁVEIS DE INSTITUCIONALIZAÇÃO E OS GÉNEROS DE CARTAZ A delimitação do campo de estudo a uma instituição político-partidária - o MRPP-, respondeu a um conjunto de parâmetros que Joaquim Aguiar designou por finalidades e papéis da instituição partidária (1990, 229-301) e, que Eduardo Camilo desenvolveu no seu projecto de investigação O Cartaz Partidário em Portugal (1974-1975) (2004, 59), acrescentando a função de estratégia, também já referida no artigo de J. Aguiar. A comunicação gráfica da instituição políticopartidária, através do cartaz, deverá apresentar regularidade no discurso, cumprindo pelo menos um dos critérios. A legitimidade da vocação partidária de uma instituição política cumpre-se na actuação da comunicação entre partido e massa pública, tornando visível os seus papéis sociais, ou seja, características suficientes para o distinguir de outros partidos, e as suas finalidades, na emissão de mensagens com os seus objectivos concretos e ideológicos (Aguiar, 1990, 299). Os partidos políticos seleccionam a classe dirigente, assim como estabelecem as relações políticas e os temas de acção (agenda), numa processo de modernização com efeito de orientação da sociedade, possibilidades sociais, comportamentos de grupos e estratégias nacionais (ibidem). Estes papéis sociais são operacionalizados por três variáveis de comunicação, em particular, por três géneros de cartaz, que num todo contribuem para a concretização do objectivo final - a tomada de poder: a finalidade de tradução, o papel de agenda e a função de estratégia. Estes géneros são, ao que Eduardo Camilo considerou, “uma classe formal de cartazes que apresentam uma determinada estrutura discursiva comum” (2004, 83), podendo, porventura, relacionar-se entre si, para a contrução de uma mensagem mais completa ou com mais do que um objectivo. A finalidade de tradução engloba os géneros de cartaz de doutrina, de esclarecimento e sátira. O papel de agenda, consagra em si uma maior variedade de mensagens, com o objectivo de molibilização e empatia das massas: anúncio, culto ideológico, celebração, homenagem e institucionalização. A função de estratégia agrega em si a “função fim”, isto é, o exercício do poder político-partidário, pelo apelo à participação das massas e ao voto: exortação e reivindicação. Nesta perspectiva, a produção cartazística do MRPP, no período imediamente após o 25 de Abril de 1974, conseguiu conquistar uma fatia da esfera pública, pela especificidade gráfica e verbal das suas mensagens, porém, sem equivalência na conquista imediata do poder legislativo. Após, a primeira fase processual de catalogação e organização dos cartazes, por data, houve uma necessidade de compreender melhor os seus objectivos concretos e ir além da análise da estruturação gráfica coerente e de uma mancha 128 detém uma identidade gráfica forte e individual. Na amostra de cartazes do MRPP verifica-se o cuidado do Departamento de Propaganda em construir ilustrações com composições e tipografia semelhantes, para a criação de uma forte identidade gráfica, reconhecível no espaço público. As imagens de memorização são imagens de origens instituicional que funcionam como identificação da instituição político-partidária, não deixando margem para dúvidas quanto à origem da mensagem. A foice, o martelo e a estrela compõem o símbolo do MRPP que se encontra-se omnipresente em todos os cartazes do partido, garantindo a consciencialização do receptor (2004, 137). No cartaz de anúncio, o partido tem a possibilidade de se apresentar ao público, convidando-o a participar nas suas actividades, assumindo notoriedade na sociedade política: (...) enuncia-se e organiza-se uma iniciativa política que tem por referência o regime regular e estratégico de funcionamento da instituição político-partidária. (2004, 139). Na agenda de uma instituição político-partidária devem constar os cartazes de culto ideológico, celebração e homenagem, reunidos por uma especificidade institucional e simbólica. Respectivamente, consagram três passos importantes na consagração de um partido: pretende-se uma filiação, um momento (de celebração) e uma personagem (para homenagear) (ibidem). O cartaz de culto ideológico [Fig. 12] serve de sustento à base teóricoideológica do partido, isto é, transmite explicitamente um grau de parentesco com determinada doutrina ou valores. No caso do MRPP, verifica-se uma estreita ligação com o líder Mao Tsé Tung, bem como com Marx, Lenine e Estaline [Fig. 13], recorrendo a retratos ilustrados dos mesmos, sempre acompanhados do símbolo de identificação do partido e uma frase/palavra de ordem evocativa Camarada Mao Tsé Tung [Fig.12]: (...) tanto a palavra como a imagem do cartaz de culto ideológico assumem-se como formas discursivas intimamente relacionadas com as circunstâncias da institucionalização partidária de uma experiência política (....) (2004, 144). O cartaz de celebração transmite uma momento específico da história do partido ou da sociedade de extrema importância na afirmação da identidade ideológica da instituição. Desde 1974, o Departamento de Propaganda do | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) Fig. 12 Cartaz de culto ideológico. Fig. 13 ilustração dos líderes da Internacional Comunista. 129 MRPP teve a preocupação de evocar todos os 1ºs de Maio, dia do trabalhador, da classe operária e camponesa [Fig.14 e 15], tal como o dia da fundação do partido, a 18 de Setembro [Fig. 16]. Na concretização deste género cartazístico, o MRPP procurou não só relembrar uma data, mas associar um evento institucional no mesmo dia, contribuindo, mais uma vez, para a conquista de espaço ideológico na sociedade política, procurando envolver militantes e simpatizantes, num momento de celebração e, por vezes, de manifestação. Graficamente, este género cumpre os padrões estéticos criados pelo Departamento de Propaganda, adaptando as ilustrações aos temas retratados. Nos cartazes do 1º Maio estão representados indivíduos em roupa de trabalho, com ferramentas e armas na mão. Na figura 15, destaca-se o pormenor do cenário da ilustração ser fabril, mas é possível identificar camponeses na multidão: um gestão de inter-ajudar e solidariedade do proletariado. Na celebração dos 4 anos de Luta pela Fundação do Partido [Fig. 16] valoriza-se o esforço do trabalho de militância e, novamente, a ideia de grupo, de união, para concretização de um projecto. Desta forma, simbolicamente, o receptor da mensagem consegue identificarse nas personagens representadas no cartaz, estabelecendo uma relação cada vez mais próxima com a instituição política. O cartaz de homenagem reporta a um momento e personagem primordial no percuso da consolidação da instituição político-partidária, ou seja, evidencia- -se a experiência de um indivíduo que teve um papel decisivo na história do partido (ibidem). A história do indivíduo é mistificada e enaltecida ao ponto de se tornar herói político, sustentando a tese de uma personagem ídolo.Tal Fig. 14 e 15 Cartaz de Celebração. Fig. 16 Cartaz de Celebração. Fig. 17 e 18 Cartaz de Homenagem. VARIÁVEIS DE INSTITUCIONALIZAÇÃO E OS GÉNEROS DE CARTAZ | 130 como se idolatram os grandes líderes da Internacional Comunista, o militante e simpatizante deve ter em consideração o grande esforço e a grande obra dos mártires do MRPP: Ribeiro Santos e Alexandrino de Sousa. O cartaz de homenagem O Povo Jamais Esquecerá Ribeiro Santos e Alexandrino de Sousa! [Fig. 17] coloca os dois mártires num patamar de subjectividade simbólica e especificidade mística, através da palavra de ordem, das bandeiras com os retratos ilustrados e o proletariado junto, num gesto de empatia. Neste exemplar, verifica-se um uso extraordinário da cor, em tons suaves, mas com um traço e sombra preta marcantes. Elaborado dois anos antes, o cartaz Comício Nacional de Homenagem [Fig. 18] tem uma ilustração mais simples, com linhas e mancha de cor, para criar o retrato de Ribeiro Santos. Na recolha efectuada, não se verificou uma produção significativa deste género, sendo apenas lembradas as mortes de Ribeiro Santos e Alexandrino de Sousa, com recurso às mesmas ilustrações, inspiradas em retratos fotográficos dos militantes. O reconhecimento da identidade gráfica e ideológica de uma instituição político-partidária depende dos padrões estabelecidos no momento da criação do cartaz e da sua ligação com o receptor da mensagem. Um cartaz com deficiência estrutural pode colocar em dúvida a origem da mensagem. Porém, no cartaz de institucionalização esta questão não se coloca, pois este género definese pela exposição explícita de elementos identificativos, sendo a forma como a instituição pretende ser reconhecida enquanto partido político (2004, 149). A composição do cartaz deste género, compreende uma dependência entre a imagem e o texto [Fig. 19], utilizando essencialmente elementos identificativos do partido, como o símbolo, e uma frase ou palavra de ordem que resuma as suas convicções e pretensões, enquanto instituição política: Viva a Candidatura Operária. Este género visa familiarizar o receptor da mensagem, interna ou externamente, com elementos gráficos e verbais próprios do partido. A Escola de Quadros [Fig. 20] reúne numa ilustração complexa o corpo teórico do MRPP, num espaço totalmente decorado com elementos gráficos do partido, com os cartaz-mural, frases e cartazes, bem como um líder (em pé) orientando os restantes militantes, que têm em cima da mesa inúmeros panfletos e material de distruibuição. Destes géneros, o Departamento de Propaganda elaborou alguns cartazes, mas devido à emergência da situação política do pós-25 de Abril outros géneros tiveram mais protagonismo. | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) Fig. 19 e 20 Cartaz de Institucionalização. 131 Função de Estratégia Na composição da mensagem de propaganda, através do cartaz, existe ainda a função de estratégia, que se prende directamente com a expectativa do exercício do poder político. Tal premissa não invalida a pertinência das restantes variáveis, anteriormente apresentadas. A função de estratégia comunica expressamente a pretensão de autoridade, com a intenção de apelar a uma conduta ou acção política por parte do receptor, numa linguagem atractiva e exortativa (2004, 151). Nesta variável, o objectivo principal não é a transmissão de uma doutrina ou iniciativa, fixa-se no apelo explícito, cujo sucesso ou insucesso pode ser mensurado e analisado, pela conduta (ou falta dela) do receptor. No cartaz, a função estratégica apresenta-se sob os géneros de exortação e reivindicação. No cartaz de exortação a mensagem de pretensão de autoridade político- -partidária é transmitida pela via verbal, com declarações explícitas, em modo imperativo: Vota MRPP [Fig. 21], Vota Eanes [Fig. 22], apoia, defende ou luta. Por vezes, este mesmo discurso de exortação toma contornos menos visíveis, com a utilização de uma espécie de eufemismo: Por uma Ampla Autonomia [Fig.23], A Classe Operária tem um Programa [Fig. 24], Fazer do Luta Popular Diário, Por uma Política Nova, Em Frente na Grande Via da Revolução Democrática Popular, Ergamos o Luta Popular ou Nem-Fascismo, Nem Social-fascismo. No cartaz do MRPP, a ilustração recorre frequentemente a uma posição vocativa das personagens, em enquadramentos já habituais do MRPP: as fábricas, os campos e, excepcionalmente, na figura 21, a Assembleia da República. Quando representada uma multidão, o povo, surgem alguns indivíduos numa postura frontal, com olhar direccionado e interpelativo ou, em casos mais específicos, o retrato ilustrado ou fotografia do candidato [Fig.22], seja ele Ramanho Eanes Fig. 21, 22, 23 e 24 Cartaz de Exortação. VARIÁVEIS DE INSTITUCIONALIZAÇÃO E OS GÉNEROS DE CARTAZ | 132 ou Arnaldo Matos. Predominantemente, a tipografia mantém-se em caixa alta, hierarquizada pelo tamanho do bloco de texto ou cor, sendo que no género de exortação tende a ser mais focado na palavra vota, sempre acompanhada do símbolo do partido. A quantidade de informação é menor, comparativamente aos géneros anteriores, apresentando informações essenciais para a motivação do público-massa. Estas situações de apelo são resultado de uma necessidade da instituição político-partidária e propõem ao receptor da mensagem uma acção no momento do voto, para se juntar à voz do povo, na consagração dos valores políticos do MRPP. A satisfação desta necessidade partidária, ou seja, uma boa margem na votação ou tomada de poder, passa a depender do receptor. Exemplificando com o cartaz Vota Eanes [Fig. 22], o género de exortação transmite uma situação política futura — as eleições para a Presidência da República —, que só se concretiza — tomada do poder por parte do candidato Ramalho Eanes, caso o receptor participe da actividade. Neste ponto, o receptor ganha um estatuto político de eleitor, quando lhe é solicitado o voto (2004, 155). Estas acções propostas pelo cartaz de exortação, tal como o cartaz de culto ideológico, celebração ou homenagem, transmite uma certa temporalidade, sendo o acção proposta essencial para o futuro, para a concretização real da tomada de poder. Ainda do ponto de vista estratégico, o cartaz de reivindicação propõe ao receptor da mensagem uma acção impossível de se concretizar individualmente: Libertemos o Camarada Arnaldo Matos [Fig. 25]. Este género de cartaz é dirigido não ao indivíduo, mas à massa social, que o partido se propõe a liderar, num dicurso imperativo de pretensão política. Por norma, a reivindicação exposta no cartaz é proclamada em nome de alguém: A Terra a Quem a Trabalha [Fig. 26], em representação da classe nomeada. Esta dinâmica permite, ao partida, estabelecer uma ligação com a massa receptora, pela identificação estratégica dos seus problemas quotidianos. Representatividade dos Géneros A produção cartazística do Departamento de Propaganda do MRPP, entre 1974 e 1976, permitiu construir uma base teórica acerca dos critérios e funções do cartaz de propaganda. Porém, este processo de racionalização da comunicação pode não ter sido considerado pelos cartazistas na concretização dos exemplares apresentados anteriormente, ou a estruturação teórica da comunicação foi elaborada noutros moldes. | CAPÍTULO II : A PRODUÇÃO CARTAZÍSTA DO MRPP (1974-1976) Fig. 25 e 26 Cartaz de Reivindicação. 133 Com base na amostra, este estudo reflecte uma forte aposta no contacto directo com as massas, convocando-as a participar activamente nas ruas. A maioria dos cartazes produzidos em 1974 ficou perdida e sem registo e, por este motivo, os dados mostraram-se inconclusivos quanto aos objectivos da mensagem cartazista [Graf. 2]. Pela evolução da comunicação do Departamento de Propaganda, verifica-se, já desde 1974, uma preferência pelo cartaz de anúncio. Neste ano, não se realizaram eleições, pelo que não se encontra nenhum exemplar com função de estratégia. A composição gráfica introduz códigos estéticos de comunicação, mas limitados por questões técnicas e orçamentais. Em 1975, o MRPP consolidou o Departamento de Propaganda, onde foram produzidos dezenas de cartazes, divulgados por todo o país.O papel de agenda permanece como principal objectivo na comunicação com as massas, pela utilização do cartaz de anúncio [Graf. 3], numa forte proximidade com as classes sociais, que o partido pretendia representar. A finalidade de tradução, ainda pouco significativa, começou a traçar um percurso, para assegurar o pensamento ideológico das massas. Graficamente, percebe-se uma consolidação da identidade gráfica, quer ao nível dos padrões de cor e ilustração, quer como da técnica de impressão. Alguns exemplares, que se constantou serem de produção local, ainda utilizaram técnicas como serigrafia, tipografia e linólio. No ano de 1976, a comunicação através do cartaz intensificou-se, muito devido às eleições e à necessidade de afirmação de espaço político na sociedade, por parte da instituição político-partidária. Esta situação comprova-se pela crescente produção do cartaz de exortação, acompanhando o cartaz de anúncio, sendo que alguns exemplares apresentam as duas variáveis [Graf. 4]. Por seu turno, a finalidade de tradução, ligeiramente mais explorada, completou os restantes cartazes, com informação mais teórica e completa. A linha de pensamento gráfico e estético manteve-se, num compromisso com a identidade criada nos anos anteriores. VARIÁVEIS DE INSTITUCIONALIZAÇÃO E OS GÉNEROS DE CARTAZ | SÍNTESE CONCLUSIVA CAPÍTULO III 135 No período pós-revolucionário português, as instituições político-partidárias não ficaram indiferentes ao cartaz, como veículo de propagação de ideias e persuasor da esfera pública. O cartaz contempla em si uma pluralidade de discursos verbais e visuais, capaz de satisfazer as necessidade de comunicação de um partido político. A 25 de Abril de 1974, os portugueses protagonizaram a luta para um futuro mais democrático no país, com a queda do Estado Novo. Na conquista de novas liberdades, o cartaz político-partidário invadiu e adornou os centros urbanos do país, num papel preponderante na comunicação com as massas. O Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), tal como inúmeros partidos e associações, emergiu da clandestinidade e procurou dominar o espaço e a opinião pública. Para tal, o MRPP recorreu a artistas e cartazistas para integrarem o Comité dos Gráficos, mais tarde Departamento de Propaganda, e criarem uma identidade gráfica do partido. A questão da autoria do cartaz político pós-revolucionário suscita interrogações, devido ao trabalho de militância e anonimato dos envolvidos. Esta problemática, não aprofundada na dissertação, poderá incentivar projectos de investigação futuros. Neste estudo, a pesquisa e recolha dos trabalhos desenvolvidos pelo Departamento de Propaganda foi fundamental, para a construção de uma base teórica sobre o cartaz político-partidário pós-revolucionário. Na tentativa de aprofundar os conhecimentos sobre os sistemas de comunicação gráfica (cartaz) de um partido político de esquerda e toda a sua envolvência no que respeita ao processo de comunicação, esta investigação procurou perceber a relação dos partidos com as massas, explorando o processo de propaganda política e as suas técnicas, bem como o contexto em que se insere o cartaz do MRPP. Deste modo, a percepção de enquadramento histórico-político do cartaz do MRPP, permitiu compreender melhor os seus objectivos de comunicação, bem como todo o processo de estruturação de uma identidade gráfica, através do cartaz, enquanto canal. Numa análise sobre a produção cartazística do MRPP foi essencial a compreensão das questões inerentes ao cartaz: definição, função, características e tipologia, assim como, o desenvolvimento gráfico do cartaz político do século XX. Neste contexto, no cartaz pós-revolucionário do MRPP foram encontradas semelhanças claramente ideológicas e de inspiração gráfica, com os cartazes soviéticos e da revolução cultural chinesa. Este ponto, mesma não sendo uma proposta de análise desta dissertação, mereceu alguma atenção, pela questão da delimitação do campo teórico-ideológico da instituição política, isto é, através SÍNTESE CONCLUSIVA | 136 do cartaz, o MRPP prentendia demarcar uma posição política, conquistanto um espaço na sociedade política do pós-25 de Abril de 1974. Esta problemática relacionada com as influências estéticas do MRPP, poderá ser mais explorada, num possível estudo mais detalhado e numa perspectiva de comparação com os partidos análogos estrangeiros. A proposta de análise à produção cartazística do MRPP pretendeu compreender as variáveis no discurso, que desempenharam um papel importante na concretização da identidade da instituição político-partidária, ou seja, um discurso revelador de um processo de racionalização dos pilares ideológicos, que o partido propunha estabelecer na relação com as massas. Assim, os cartazes catalogados na base de dados foram organizados segundo os critérios de finalidade de tradução, papel de agenda e função de estratégia. No período da amostra, entre o 25 de Abril de 1974 e o I Congresso Nacional do MRPP, em Dezembro de 1976, o cartaz de finalidade de tradução não se revelou muito frequente. Esta finalidade visava dotar de sentido políticoinstitucional temáticas e problemas da actualidade, cuja emergência pósrevolucionária não dependia do MRPP. Por seu turno, foi possível certificar uma forte presença junto das massas, com uma massiva produção de cartazes com papel de agenda. Esta proximidade pretendia envolver os militantes e simpatizantes na luta da classe operária, numa perspectiva de contributo à concretização de objectivos colectivos e partidários. A função de estratégia revelou um carácter promissor no apelo ao voto, em 1976, numa aplicação de técnicas discursivas para a especificidade intrínseca de um partido: a conquista do exercício do poder político. Estas observações são passíveis de correcção, num possível estudo mais alargado da produção cartazística do MRPP. Contudo, esta abordagem permitiu constatar uma estreita relação entre a produção discursiva do cartaz e os objectivos de consagração da identidade político-partidário do MRPP, numa linguagem gráfica e verbal específica do partido. O MRPP procurou transmitir claramente ao receptor o seu posicionamento político, no que respeita à sua singularidade partidária. Desde 1974, o partido procurou progressivamente consolidar a identidade da instituição, ao longo da globalidade da produção cartazística, não menosprezando todo o trabalho desenvolvido pelo Departamento de Propaganda, na composição de murais, nos panfletos ou edições do jornal Luta Popular. Graficamente, esta singularidade da identidade partidária era visível pela coerência da composição dos cartazes: pela criação de uma paleta cromática | CAPÍTULO III: SÍNTESE CONCLUSIVA 137 simbólica, contrastante e audaz; pelo uso regrado de uma tipografia em caixa alta, hierarquizada; pelas palavras de ordem, repetidas incansavelmente em todos os cartazes; e, pela ilustração com forte carga simbólica, dos rostos, armas e ferramentas de trabalho, numa referência directa às classes socias, que o partido pretendia representar. A existência de objectivos e intenções por parte da instituição políticopartidária influencia decididamente a especificidade do discurso a veicular pelo cartaz. Cada imagem, cada palavra, cada cor eram suspeitos de comprometimento ideológico, num processo de optimização da transmissão da mensagem. O cartaz é uma arma pela manipulação intencional dos vários elementos gráficos, iconográficos e tipográficos que participam na sua composição. CAPÍTULO III: SÍNTESE CONCLUSIVA 144 MARQUES, A. H. de Oliveira (1975). 300 Anos do Cartaz em Portugal. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 1975. 186 p. ISBN 0134000124813. MATOS, Miguel Moore (1999). Propaganda Soviética, O Cartaz ao Serviço da Revolução. In Revista Page, nº 10, P. 25-26 Cit. FRAGOSO, Margarida (2012). Design Gráfico em Portugal - Formas e Expressões da Cultura Visual do Século XX. Lisboa: Livros Horizonte, 2012. 327p. ISBN 9789722417167. P. 17. MEGGS, Philip B. (1983). História do Design Gráfico. 4º Edição. Revisão PURVIS, Alston W. São Paulo: Cosac Naify, 2009. 717 p. ISBN 9788575037751. MOLES, Abraham (1969). O Cartaz. 1ª Edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2005. 255 p. 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DOCUMENTOS ELECTRÓNICOS ANEXOS Todos os elementos desta secção contribuíram de forma directa ou indirecta para a concretização da presente dissertação, configurando-se como parte de um processo de investigação académica. A ordem pela qual os anexos são apresentados não obedece a nenhum critério cronológio ou grau de relevância. 151 A. CONVERSAS INFORMAIS1 1Joel Hasse Ferreira › 12 Dezembro 2012. › Hotel Tivoli, Lisboa Alguns minutos de conversa casual. Anna Coutinho (AC) No início desta conversa, o principal propósito é que nos apresente um pouco do seu percurso político. Joel Hasse Ferreira (JHF) [Em 197?] os patrões portugueses não me davam emprego porque não tinha feito a tropa. Para além disso, tinha sido expulso de todas as escolas nacionais. Processei o Estado e vim a ganhar o processo mais tarde, para meu espanto. Entretanto, trabalhei numa empresa espanhola, de estudos de mercado. Estive na filial portuguesa, dessa empresa espanhola, tive que aprender castelhano, ia frequentemente a Madrid. A empresa portuguesa era a Eco (Lusitana), filial da Eco, Centro de Investigaciones del Mercado, em Madrid. O meu patrão rompeu com os espanhóis e criou o Instituto Português de Opinião Pública e Estudos de Mercado (IPOPE). Sacou alguns inquéritos interessantes, nomeadamente sobre a eventual extensão da Previdência Social aos rurais. Depois saí do IPOPE e entrei no Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), onde fazia análises empresariais, estive lá vários anos. Em simultâneo, pude voltar a frequentar o Instituto Superior Técnico. Como trabalhava à hora, não tinha contrato, permitia-me conciliar o INII com as aulas. Comecei a interessar-me mais por economia, para além da engenharia, tendo terminado o curso. Entretanto, no Instituto Nacional de Investigação Industrial só me contratam efectivamente depois do 25 de Abril. Descubro um documento da PIDE/DGS, a dizer que eu não devia sequer ser prestador de serviços, “porque tinha ideias contrárias à existência de Portugal como Estado Independente”. Eu tinha trabalhado em acções anti-coloniais, escrevia em jornais estudantis... [Assinava esses artigos?] Muitas vezes sim. Só não assinei um, mas também não fui eu que escrevi, dei algumas ideias e o lead, para um boletim da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa, em que pedíamos a demissão do reitor Paulo Cunha. Eu dei o lead, mas depois o artigo é escrito por outro colega, dirigente da AE. Eu ia sugerindo algumas ideias e ele escrevia e completava com o seu 1 Todos os comentários são de responsabilidade do entrevistado e não expressam a opinião dos autores da dissertação. Estas conversas foram gravadas e transcritas com autorização dos intervenientes. 152 estilo muito próprio. No gabinete ao lado, separados por um tabique, estava um tipo, informador da Legião. A Legião era muito mais poderosa dentro de algumas Faculdades do que a PIDE. Os serviços secretos da Legião Portuguesa controlavam alguns alunos denunciantes. A PIDE contratava alguns funcionários para seus informadores. Entretanto, já com o curso (de Engenharia do I.S.T.) convidam-me, após concurso, para estagiar na Dinamarca; no final do estágio sugerem-me voltar a Portugal, pedir o diploma e depois ir para lá, trabalhar em projectos. Era uma empresa de engenharia e construções, em Copenhaga, com capitais suecos e dinamarqueses. Eu iria colaborar no desenvolvimento de projectos, não só na Escandinávia, como especialmente para a América Latina. Chego cá, os meus colegas tinham organizado uma greve aos estágios, por causa do regulamento então em vigor, por isso demorei algum tempo e fui ficando em Portugal, pensando (nos finais de 71) que o governo deveria estar a acabar. Sou chamado para a recruta e pensei: se me chamarem para um território perigoso, vou-me embora. Em 24 de Abril de 1972 (ainda a trabalhar no INII e numa empresa de projectos de Arquitectura e Engenharia), ingresso então na tropa. Terminada a recruta (em Mafra e Tancos), havia uma escala de mobilização que tinha a ver com aptidões físicas e qualificações intelectuais. Nas físicas não fiquei em grande lugar, mas nas intelectuais, felizmente, fiquei bem, mesmo muito bem. Portanto, fiquei a meio da tabela e de repente, inventam uma vaga para a Guiné, no Estado Maior, em Lisboa. Ia nascer o meu filho Filipe, pedi o adiamento para o ver nascer, em 28 de Maio de 1973. Entretanto, convidamme, (na própria Arma de Engenharia) para participar na organização do que veio a ser o 25 de Abril (o que aceitei). (Em 1974), voltei para cá, regressei para o INII, e depois convidam-me para a Direcção Geral do Comércio Interno, nomeadamente para organizar a liquidação de alguns organismos corporativos. Quando lá estava há alguns meses, em 1975, convidam-me para a Empresa do Jornal do Comércio. Fiquei um bocado surpreendido. Sou nomeado em Junho de ’75, tomo posse em princípio de Julho e sou demitido a seguir ao 25 de Novembro. [Tenho uma informação de Dezembro de 1975.] Essa é a segunda nomeação, já pelo Ministro Almeida Santos. No primeiro momento, sou nomeado como administrador por parte do Estado e estavam lá dois administradores privados (vinham do Grupo Borges). Antes de tomar posse, vou lá e o porteiro pergunta: - É o novo administrador? É o senhor que vai mandar nisto! Ao que respondo: - Sou. sou. Vim ver as instalações. Ele | CONVERSAS INFORMAIS 153 responde: - Agora está a haver uma daquelas coisas, que são destes tempos, o Plenário dos Trabalhadores em Laboração. Chego lá, vejo uma impressionante plateia de tipógrafos. O responsável da produção, que estava a dirigir o plenário, apresenta-me como administrador por parte do Estado e pergunta-me se quero falar. Nisto ouço um dos trabalhadores a clamar “Estamos em Revolução! Não é administrador por parte do Estado, é Comissário do Povo!” Eu disse: “Chamemme o que quiserem, desde que façam o que eu mando”, com um ar muito determinado. Outro trabalhador diz, alto e bom som: “temos homem”. Neste período, o MRPP tinha lá o Luta Popular, a ser impresso (como semanário). Quando estávamos a entrar numa fase mais aguda da Revolução, quiseram passar o Luta Popular para diário. Pensei que era um pouco perigoso, pois podiam vir a não ter recursos para pagar. Tinha havido, entretanto, uma enorme movimentação, quando aconteceu a ocupação do jornal República. Uma série de trabalhadores, uns tantos de extrema-esquerda, com alguns comunistas pelo meio, invadiram o jornal República, para passar a ser controlado pelos tipógrafos e não pelos jornalistas. E o Dr. Raúl Rego e oVitor Direito saem do República e criam A Luta. Mário Soares facilmente arranja fornecimento de papel na Escandinávia e eles falam comigo (essencialmente através do dr. Gustavo Soromenho). Acharam que eu era o administrador por parte do Estado, que iria aceitar lá A Luta. A Luta era um jornal diário; o Raúl Rego era director e o chefe de redacção era o Vítor Direito. Na maquetagem, uma vez substituíram o editorial do Dr. Raúl Rego, por um relato de um desafio de futebol. E eu fazia sempre o circuito...tinha duas revisões: uma tipográfica, e uma de maqueta, depois da montagem. AC Em 1975, é nomeado pelo Conselho de Ministros administrador da Empresa Jornal do Comércio (um dos jornais estatizados, com o Diário de Notícias, O Século, A Capital, etc.). O que nos pode contar acerca desta empresa, visto que há pouca informação disponível online? JHF A altura em que mais se ouviu falar do Jornal do Comércio foi quando houve uma greve de cerca de três meses. Havia cantigas com o refrão “Oh Machado vai-te embora!”, entre outras. O Jornal do Comércio pertencia ao Grupo Borges, tal como o Comércio do Porto e o Diário Popular. O Grupo Borges era o que tinha mais jornais (e o seu homem forte no Jornal do Comércio chamava-se justamente Machado). O Diário Popular era mais vendido em Lisboa e o Jornal do Comércio era o único jornal diário económico que existia. Quando surge o 25 de Abril, a bolsa fecha. Com as nacionalizações, a seguir ao 11 de Março (de 1975), o Estado recebe JOEL HASSE FERREIRA |