Efeito da Dimensão do Campo e da Perícia no Comportamento Tático de Jovens Futebolistas em Jogos Reduzidos e Condicionados.
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EFEITO DA DIMENSÃO DO CAMPO E DA PERÍCIA NO COMPORTAMENTO TÁTICO DE JOVENS FUTEBOLISTAS EM JOGOS REDUZIDOS E CONDICIONADOS Orientador: Professor Doutor Filipe Luís Martins Casanova Co-Orientador: Mestre Pedro Miguel Moreira Oliveira e Silva Thiago de Amorim Carvalho Porto, Setembro, 2014 Dissertação apresentada à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, no âmbito do 2º Ciclo de Estudos conducente ao grau de Mestre em Treino de Alto Rendimento Desportivo, ao abrigo do Decreto de Lei nº.74/2006 de 24 de Março
II Carvalho, T. A. (2014). Efeito da dimensão do campo e da perícia no comportamento tático de jovens futebolistas em jogos reduzidos e condicionados. Porto: T. Carvalho Dissertação de Mestrado em Treino de Alto Rendimento Desportivo apresentada à Faculdade de Deporto da Universidade do Porto. Palavras-Chave: FUTEBOL, JOGOS REDUZIDOS E CONDICIONADOS, DIMENSÃO DO CAMPO, REPRESENTATIVIDADE, FIDELIDADE DE AÇÃO.
III Á minha família! Alicerce no constructo deste sonho.
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V “… Toda a evolução é fruto de um desvio vitorioso, cujo desenvolvimento transforma o sistema, no seio do qual nasceu: desorganiza-o e organiza-o, transformando-o.” Edgar Morin, 2003
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VII Agradecimentos Ao refletir sobre esta jornada, chego a uma conclusão que realizar um trabalho deste âmbito requer escolha, paralelamente, com a renúncia de outros projetos, metas e sonhos exigindo assim, dedicação, esforço e persistência. Entretanto, nada será possível sem o acolhimento, amparo e contributo de um conjunto de pessoas que disponibilizam-se á doar, parte de seu tempo para que, este se concretize. Expresso então, minha eterna gratidão e apreço, primeiramente à Deus pelo dom da vida, pelo seu eterno amor para comigo, pela oportunidade dada a cada dia de poder começar, e/ou recomeçar, e/ou continuar qualquer tarefa/decisão, por me guiar, por ter-me proporcionado saúde e força para superar as dificuldades e por colocar verdadeiros seres humanos em minha trajetória. À Minha FAMÍLIA, amor incondicional, em especial à Minha Mãe Loide Ribeiro, Meus Avós Joaquim Amorim e Amélia Amorim e aos meus irmãos Regina Carvalho, Michelle Carvalho, César Carvalho e Hugo Solla, pelo modelo de coragem, pelo exemplo de caráter e dedicação, por todo o apoio durante essa estadia cá em Portugal, por incontáveis vezes que abdicaram dos seus objetivos para que eu pudesse realizar o meu, por me adiantarem que essa jornada seria árdua. Mas qual seriam os valores se não existisse os medos e os desafios!? À Dante Yntsan, um irmão que a vida me concedeu, pela força, paciência, parceria, amizade e aprendizagem, por simplesmente caminhar comigo e ser parte essencial para que todo esse processo realiza-se. À FADEUP, por disponibilizar esta oportunidade e mostrar-me que o desporto, fundamentalmente o futebol, também é refletido, tal como Manoel Sérgio 2012 indagou: “…não aceitar como óbvias e evidentes todas as coisas, todas a ideias, todas as atitudes, sem uma atitude crítica, problematizadora”. Aos meus orientadores, Professor Filipe Casanova e Professor Pedro Silva, pela relação dialética com ambos nesse processo de construção e crescimento intelectual, por proporcionar-me o conhecimento necessário para redigir essa dissertação, pela dedicação para comigo ao atentar-me aos mínimos
VIII detalhes, pela incansável revisão crítica do texto, pelos proficientes comentários, elucidações, opiniões e sugestões, pela cedência e indicação de algumas referências relevante para a temática em análise, por suas recomendações e cordialidade com que sempre me recebeu, pela amizade construída e pela confiança depositada em mim. À Adolfo Moraes, Ruan Schiestl e Patrícia Moreira, os agradeço pela amizade, companheirismo, carinho e cuidado que sempre me disponibilizaram, pela ajuda sem medição de esforços sempre que os solicitei. Aos amigos e colegas de turma do mestrado em especial à, Dante Yntsan, Pedro Brito, José Maia, Augusto Pedretti e Eduardo Oliveira pelas inúmeras discussões sobre o futebol, pela divergência e convergência de pensamentos acerca desta complexa modalidade, enfim por compartilharem comigo diversos momentos de estudos e aprendizagem. Aos professores da FADEUP em especial ao Professor António Natal, Professor Júlio Garganta, Professor André Seabra, Professor João Brito, Professor Daniel Barreira e Professor José Guilherme por transmitir vossos conhecimentos, pelos ensinamentos, por me ajudar a captar diferentes olhares sobre a mesma realidade (futebol), por me facultar a participação em seus projetos e pesquizas. Sinto-me honrado em ter sido aluno desses professores, terei todos como exemplo e fonte de inspiração. Aos funcionários da FADEUP, em particular os da secretaria e os da biblioteca, especialmente, Maria de Lurdes e Patrícia Martins respetivamente, pela amizade, pelos esclarecimentos prestado de caráter mais formal e ajuda técnica personalizada. A todos amigos que conviveram comigo no Covelo, na FADEUP e no Boa Vista Futebol Clube, que não ouso citar com receio de esquecer algum nome, mas meus sinceros agradecimentos pelos diversos momentos compartilhados, por tornar essa estadia em Porto-Portugal inesquecível. Á estas pessoas, que fizeram parte desta construção serei grato, eternamente!
IX Índice Geral Agradecimentos ............................................................................................. VII Índice Geral ...................................................................................................... IX Índice de Figuras ............................................................................................. XI Índice de Tabelas .......................................................................................... XIII Índice de Anexos ........................................................................................... XV Resumo ........................................................................................................ XVII Abstract ......................................................................................................... XIX Abreviaturas e Símbolos ............................................................................. XXI Capítulo 1: Introdução ................................................................................... 23 1.1. Enquadramento e pertinência do estudo ............................................. 25 1.2. Objetivos ............................................................................................. 29 1.2.1. Objetivo geral ...................................................................................... 29 1.2.2. Objetivos específicos .......................................................................... 29 1.3. Hipóteses ............................................................................................ 29 1.4. Estrutura da dissertação ..................................................................... 30 Capítulo 2: Revisão da Literatura ................................................................. 31 2.1. Conceito e pertinência dos jogos reduzidos e condicionados (JRCs). 33 2.2. Perspetiva centrada na abordagem da psicologia ecológica. ............. 36 2.3. A importância da manipulação dos constrangimentos na emergência de possibilidades de ação. ................................................................................. 39 2.4. Representatividade ............................................................................. 41 2.5. Fidelidade de ação .............................................................................. 42 2.6. Processo ofensivo e defensivo inerente a dinâmica da perspetiva ecológica. ...................................................................................................... 43 Capítulo 3: Materiais e Métodos .................................................................... 47 3.1. Amostra ............................................................................................... 49 3.2. Recolha de Dados ............................................................................... 49 3.3. Variáveis do estudo ............................................................................. 50 3.4. Procedimentos estatísticos ................................................................. 51 Capítulo 4: Resultados .................................................................................. 53
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XVII Resumo A presente dissertação teve como objetivo analisar o efeito da dimensão do campo e da perícia na coordenação intra-equipa durante a aplicação dos princípios específicos do ataque e da defesa (espaço e concentração, respetivamente), em JRCs. Para o efeito dez jogadores de nível regional (M±DP=15.6±0.4 anos) e dez de nível nacional (M±DP=16.0±0.34) participaram neste estudo. A tarefa experimental consistiu na realização de três JRCs (4v4 + GR) em campos de diferentes dimensões: pequeno, médio e grande. Os jogos foram filmados e cada jogador transportou um dispositivo GPS (Qstarz BT- Q1000eX) que registou as coordenadas posicionais 2D a 10Hz. A coordenação intra-equipa durante a aplicação dos princípios espaço e concentração foram medidos através de duas variáveis que capturaram a dispersão das equipas (largura e comprimento) durante seis sequências em ofensivas e seis defensivas nos três formatos de jogos. Verificou-se um efeito significativo da dimensão do campo no comprimento das equipas nas fases ofensiva (p= 0.001, η2 =0.19) e defensiva (p <0.001, η2=0.48). Na fase ofensiva, o comprimento das equipas no campo pequeno foi significativamente inferior ao do médio (p=0.018) e ao do campo grande (p=0.001). Na fase defensiva, encontraram-se diferenças estatisticamente significativas entre os três formatos de campo. Ou seja, o comprimento das equipas no campo pequeno foi significativamente inferior ao do registado no campo médio (p= 0.006) e no grande (p <0.001) e o comprimento das equipas no campo médio foi significativamente inferior ao do campo grande (p <0.001).Quanto à largura das equipas, verificaram-se efeitos significativos da dimensão do campo e do nível de perícia para a fase ofensiva e defensiva, respetivamente (p <0.05, em todas as análises). Na fase ofensiva, a largura no campo grande foi significativamente superior às dos campos pequeno (p=0.019) e médio (p=0.015), não apresentando diferenças estatísticas entre os campos pequeno e médio. Na fase defensiva, a largura no campo pequeno foi apenas significativamente inferior às dos campos médio (p=0.001) e grande (p <0.001). Contudo, as equipas de nível nacional apresentaram uma largura superior na fase ofensiva (p=0.007) e inferior na fase defensiva (p <0.001) quando comparadas com as equipas de nível regional. A partir dos resultados obtidos, podemos concluir que os princípios específicos do jogo de futebol espaço e concentração na fase ofensiva e defensiva respetivamente permaneceram inalterados independentemente da dimensão do campo utilizado e do nível de perícia. Desta forma, os JRCs parecem ser tarefas de treino representativas que permitem exponenciar os comportamentos táticos coletivos, garantindo a fidelidade de ação do jogo formal. Os jogadores de melhor nível parecem ser mais sensíveis às alterações das dimensões do campo e à aplicação dos princípios do ataque e da defesa. PALAVRAS-CHAVE: FUTEBOL; JOGOS REDUZIDOS E CONDICIONADOS; DIMENSÃO DO CAMPO; PERÍCIA; REPRESENTATIVIDADE E FIDELIDADE DE AÇÃO
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XIX Abstract This dissertation aimed to analyse the effect of the field dimension and skill level on intra-teams’ coordination during attack and defense specific principles (space and concentration, respectively) application in small-sided and conditioned games (SSCGs). For these propose, ten players competed at regional level (M ± SD = 15.6 ± 0.4 years) and ten competed at national level (M ± SD = 16.0 ± 0.34 years) had participated. The experimental task consisted of three SSCGs (4vs4 + GK) in fields of different dimensions: small, intermediate and large. The games were video recorded and each player carried an unobtrusive-global positioning measure tracking device (Qstarz BT-Q1000eX) device that recorded the positional coordinates 2D at 10Hz frequency. The intrateam coordination during the specific principles of space and concentration were measured through two variables that captured the dispersion of teams (width and length) for six sequences in the offensive and six defensive phases in the three game formats. There was a significant effect to field dimension of the teams’ length in offensive (p= 0.001, η2 =0.19) and defensive (p < 0.001, η2=0.48) phases. In offensive phase length of teams on small field was significantly lower compared to intermediate (p = 0.018) and large (p = 0.001). Were found statistically significant differences between the three formats of the field in defensive phase. That is, the length of teams on small field was lower compared to intermediate field (p = 0.006) and large (p <0.001) and the length of the teams intermediate field was significantly lower compared to large field (p <0.001). As the width of teams, were found significant effects of field dimension and skill level in offensive and defensive phase respectively (p <0.05 in all analyzes). In offensive phase the width on large field was significantly higher compared to small (p = 0.019) and intermediate (p = 0.015) fields, showing no statistical differences between the small and intermediate fields. In defensive phase teams width on small field was significantly lower compared to intermediate (p = 0.001) and large (p <0.001) fields. However, the national team presented higher width in offensive phase (p = 0.007) and lower defensive phase (p <0.001) when compared with the regional teams. From the results obtained, we can conclude that due to constraints of field dimensions’ the specific principles of the game, space and concentration, on offensive and defensive phase respectively, remained unchanged. Thus, SSCGs seem to be environments to train tactical collective behaviors of way representative, ensuring the action fidelity of match play. KEYWORDS: FOOTBALL; SMALL-SIDED AND CONDITIONED GAMES; FIELD DIMENSION; SKILL LEVEL; REPRESENTATIVENESS; ACTION FIDELITY.
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XXI Abreviaturas e Símbolos JRs JRCs AJI CNN CNR GR PE DC GL v FC %FCmax La GPS m m² cm M Dp Jogos Reduzidos Jogos Reduzidos e Condicionados Área de jogo Individual Campeonato de Nível Nacional Campeonato de Nível Regional Guarda-redes Perícia Dimensão do campo Graus de Liberdade Versus Frequência Cardíaca Porcentagem da Frequência cardíaca máxima Concentração sanguínea de lactato Sistema de posicionamento global Metro Metro quadrado Centímetro Média Desvio padrão
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23 Capítulo 1 Introdução
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25 1. Introdução 1.1. Enquadramento e pertinência do estudo Os Jogos Reduzidos e Condicionados (JRCs) são comumente utilizados em contexto de treino e ensino do futebol, com o objetivo de melhorar, simultaneamente, a condição física dos jogadores, as habilidades técnicas e táticas (Aguiar et al., 2012; Davids et al., 2013; Dellal et al., 2012; Folgado et al., 2014; Hill-Haas et al., 2011; Rampinini et al., 2007). Importa também referir que os diferentes comportamentos técnicos, físicos e táticos podem ser moldados nas situações de JRCs manipulando vários constrangimentos, tais como: dimensão de campo, número de jogadores, modificação de regras e incentivo do treinador. Embora os JRCs tenham sido recomendados para otimizar as capacidades e as habilidades dos jogadores de futebol (Owen et al., 2012), há uma carência de estudos que analisem a influência de variáveis táticas, relacionadas com a interação dos jogadores de futebol, num comportamento coletivo (Folgado et al., 2014; Fradua et al., 2013). Contudo, em JRCs verificase um incremento de estudos relacionados com a melhoria da capacidade física (Hill-Haas et al., 2011; Koklu et al., 2013; Owen et al., 2012). Isso justifica a necessidade de se analisar as abordagens mais táticas. A abordagem eco-dinâmica enfatiza que as ações coletivas emergentes de grupos de jogadores dependem da informação criada por cada um dos membros da equipa no ambiente em que estão inseridos (Passos et al., 2008a) através, por exemplo, das suas trajetórias de movimento, da velocidade e das ações técnicas (Silva et al., 2013). Essa grande quantidade de graus de liberdade (GL) (diversas formas de movimentar o corpo, bem como as várias funções que um sujeito pode assumir num sistema) possuído por cada jogador “As partes são padrões de uma rede de relações. E cada estrutura é vista como uma manifestação de um processo implícito.” Fritjof Capra, 1996
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33 2. Revisão da Literatura “…o ser humano é um complexo organizacional aberto, em permanente simbiose com o meio, num ininterrupto fluxo dinâmico.” Manuel Sérgio, 2012 2.1. Conceito e pertinência dos jogos reduzidos e condicionados (JRCs). O futebol, ao longo do tempo, tem evoluído em diversos aspetos que compõem esse sistema dinâmico complexo, não linear (Garganta, 1997; McGarry et al., 2002) caracterizado pela contínua alternância de estados de ordem e desordem, estabilidade e instabilidade, uniformidade e variedade (Garganta, 2001). Na tentativa de suprir as exigências do futebol contemporâneo, tal como a elevada capacidade em termos tático, técnico, físico e psíco-cognitivo que o jogo solicita, profissionais da área estão, constantemente, a buscar alternativas para auxilia-los na prescrição e controle do treino de forma a poderem alcançar um nível ótimo de desenvolvimento dos seus jogadores e da equipa. De acordo com Davids e colaboradores (2013), a metodologia de treino tradicional, caracterizado pela restrição específica do indivíduo, divisão de tarefas em pequenas partes, pouca ou nenhuma manipulação do contexto, reduzida carga de processamento de informação dos jogadores limitando os mesmos na procura de soluções, o que torna jogadores previsíveis e com pouca margens para a criatividade, já não consegue proporcionar o desenvolvimento necessário às equipas, uma vez que, esse método limita a variabilidade de ações dos jogadores. Dessa forma, os autores sugerem que o treino seja orientado no contexto específico, estimulando os sistemas cognitivos, motor e percetivo simultaneamente, no aumento do aperfeiçoamento percetivo e da capacidade de interagir com o meio o qual esta inserido (Araújo, 2005). Neste sentido, os jogos reduzidos e condicionados (JRCs) surgem com o propósito de abordar, no processo ensino-aprendizagem, exercícios específicos a partir da utilização de adequadas condicionantes, que compõem as variáveis do jogo formal, assegurando a preservação das propriedades básicas de
34 variabilidade do jogo (Aguiar et al., 2012). Segundo Castelo (2003), os JRCs são meios de ensino/treino que instituem situações contextualizadas das fases ofensiva e defensiva, através das quais se manipulam as condicionantes estruturais do exercício, à compatibilizar a complexidade emergente da lógica interna do jogo em função das capacidades dos jogadores. Por conseguinte, os treinadores têm inserido os JRCs nos seus programas de treino/formação, continuamente, uma vez que esses tipos de exercícios recorrem a uma menor dimensão de campo, menor quantidade de atletas, otimiza o tempo de treino, oferece um maior contato com a bola e aumenta a possibilidade de participação nas ações de ataque e de defesa (Little, 2009). Para além da condição física os diferentes comportamentos técnicostáticos dos jogadores podem ser moldados, integradamente, durante os JRCs (Aguiar et al., 2012; Davids et al., 2013; Hill-Haas et al., 2011) a partir da manipulação de vários constrangimentos, como por exemplo, dimensão de campo (Aguiar et al., 2012; Davids et al., 2013; Dellal et al., 2012; Folgado et al., 2014; Frencken et al., 2013; Koklu et al., 2013), o número de jogadores (Abrantes et al., 2012; Owen et al., 2004; Owen et al., 2011), a modificação de regras (Sampaio et al.,2007, Montoya et al., 2010), o incentivo ou não do treinador (Rampinini et al., 2007), o tamanho, a quantidade, a presença ou não de balizas (Costa et al., 2010; Duarte et al., 2010) entre outros. Face a esta vasta possibilidade de constrangimentos da tarefa mencionada anteriormente, a comunidade científica tem aumentado o interesse nesta temática, tornando-se uns dos tópicos do futebol mais abordados na pesquisa contemporânea. Os resultados de estudos recentes demostram que os JRCs possibilitam a emergência de diferentes respostas do futebolista e, consequentemente, diferentes adaptações. No que concerne às respostas físicas e fisiológicas e a requisição de habilidades técnicas e táticas, alguns estudos têm mostrado que a condição física dos jogadores nos JRCs, pode ser modificada de acordo com o constrangimento inserido (Aguiar et al., 2012; Clemente et al., 2012; Hill-Haas et al., 2011). Köklü e colaboradores (2013), por exemplo, observaram o efeito de diferentes dimensões do campo (pequeno, médio e grande) e números de jogadores (3 v 3 e 4 v 4) sobre as respostas fisiológicas dos jogadores. Os autores observaram que, jovens jogadores de futebol podem mudar suas
35 respostas fisiológicas, de acordo com tamanho do campo e acréscimo ou não de um atleta. Köklü e Colaboradores (2012) examinaram as respostas fisiológicas (Frequência cardíaca - FC, %FCmáx e concentração sanguínea de lactato - La) de futebolistas nos JRCs em regimes intermitente e contínuo, nos formatos 2 v 2, 3 v 3 e 4 v 4. Eles observaram que tanto os JRCs em regime intermitente, como os JRCs em regime contínuo podem ser utilizados para provocar adaptações fisiológicas necessárias para a resistência aeróbia específica do futebol. Também, Casamicha e colaboradores (2012) examinaram as respostas físicas e a FC de jogadores de futebol utilizando como formato de JR (5 v 5), em três diferentes regimes de treino: um contínuo (16 minutos de treino) e dois intermitentes (4 períodos de 4 minutos e 2 períodos de 8 minutos). Os autores observaram que, as respostas físicas durante o treino, através dos JRs, podem ser afetadas de acordo com o esquema adotado. Uma vez que, o formato de JR contínuo induziu maiores cargas físicas sobre os jogadores quando comparado com os formatos de JR intermitente. A partir dos resultados destes estudos, os autores concluíram que os treinadores, devem prestar especial atenção ao escolher o tipo e formato de JRCs, para direcionar e/ou melhorar a condição física dos jogadores no treino. Em relação ao requerimento das habilidades técnicas, Kelly e Drust (2009) analisaram o efeito de três diferentes dimensões de campo sobre os requisitos técnicos. Eles observaram que as ações técnicas mudam de acordo com a variação no tamanho do campo, pois o número de desarmes e remates aumentaram significativamente, quando foram utilizados os campos de menor tamanho. No estudo de Owen e colaboradores (2004), ficou demostrado que o aumento no número de jogadores acarretou um aumento do número total de ações técnicas realizadas. Entretanto, a adição de um jogador extra levou a uma diminuição no número total de ações técnicas realizadas por cada jogador. Os autores também denotaram, que num campo com menor dimensão os jogadores passavam mais a bola, comparativamente com qualquer outra ação técnica. No que diz respeito aos efeitos dos JRCs na interação do comportamento tático coletivo dos jogadores, verificamos um déficit de estudos relacionados com essa abordagem, embora nos últimos anos, inúmeros cientistas da área tenham focado a atenção nas ciências exatas e naturais bem como na perspectiva da
36 psicologia ecológica, para tentar compreender os comportamentos adaptativos inerentes às sinergias interpessoais no contexto desportivo (Araujo et al., 2006; Riley et al., 2011). Deste modo, os JRCs apresentam-se como uma excelente metodologia de treino, para melhorar a qualidade de jogo da equipa, entretanto a sua aplicação necessita de uma atenção cuidadosa por parte dos treinadores, ao escolher o formato e/ou constrangimento apropriado para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da performance dos jogadores, isto é, precisam ser adaptados ao contexto, considerando os objetivos da equipa e os diversos aspetos do futebol (Clemente et al., 2012). 2.2. Perspetiva centrada na abordagem da psicologia ecológica. De acordo com Todorov (2007), a Psicologia vê o homem como parte da natureza, vítima das pressões do ambiente, logo o comportamento do indivíduo não pode ser entendido isolado do contexto o qual se insere, isto é, os homens agem sobre o contexto, modificam-no e, por sua vez, são modificados pelas consequências da sua ação. Ao transferirmos esse pensamento para o desporto e atentarmo-nos a uma partida de futebol, por exemplo, percebemos de fato que os comportamentos dos jogadores provocam os problemas ambientais (problemas de jogo) e que as alterações no ambiente, consequentemente, irão interferir nas particularidades do jogo das equipas. Partindo do pressuposto que o futebol é um sistema dinâmico complexo, em virtude de inúmeras fontes de informações que podem ser percecionadas, como por exemplo, as movimentações dos companheiros, dos adversários e da bola, induzindo assim múltiplas decisões, ações e interações (Castelo, 2009; Passos et al., 2008a) a perspetiva ecológica tenta explicar, como emerge o comportamento dos jogadores e da equipa a partir da sua interação em ambientes imprevisíveis e dinâmicos (Davids et al., 2006; Duarte et al., 2012a). Diversos autores (Araújo, 2005; Araujo et al., 2006; Passos et al., 2008a; Pinder et al., 2011b), contrapondo-se a perspetiva cognitivista, tem-se baseado na perspetiva ecológica a partir da teoria de perceção direta formulada por
37 Gibson (1979) o qual enfatiza que é dentro do contexto que todas as informações estão disponíveis, logo não existe dualismo entre individuo e ambiente, isto é, a informação para a perceção do individuo é a mesma para a perceção do espaço envolvente e, uma não existe sem a outra (Morato, 1995). A perspetiva cognitiva, por sua vez, preconiza que a tomada de decisão e ação, no desporto coletivo, são mediadas por representações mentais armazenadas em memórias (Machado et al., 2005). Entretanto, segundo Araújo (2005), essa vertente defronta-se, com o problema do espaço no armazenamento da memória e tempo para o processamento de informação. Além do mais, Passos e colaboradores (2008a) ressaltam, que essa perspetiva apresenta dificuldades em explicar a criatividade e a adaptabilidade, exigida pela dinâmica e variabilidade do desporto coletivo. Em contrapartida, a abordagem ecológica tem indicado e comprovado que a informação disponível no contexto, não só a que está armazenada em memória, constrange as ações dos praticantes durante o processo de aprendizagem/treino ou da competição (Passos et. al., 2008b). Passos e colaboradores (2008b), por exemplo, demonstraram empiricamente a influência dos constrangimentos específicos do futebol na tomada de decisão e na coordenação interpessoal. Para tal analisaram uma sub-fase de jogo em situação de um-contra-um. Os autores constataram que, a decisão do atacante de quando e onde ultrapassar o defensor é um processo auto-organizado que depende da interação de ambos, logo o comportamento do defensor e do atacante é conduzido pela informação, que é gerada na interação entre um jogador e o contexto específico onde está a ser realizada a tarefa. Duarte e colaboradores (2012b) estudaram os centros geométricos e a área efetiva do jogo de equipas, em situações de jogo 3 v 3, com o intuito de compreender como emergem os padrões de coordenação na prevenção e criação de oportunidades para remates. Eles observaram que as sub-unidades movimentavam-se de forma emparelhada quando se aproximam de zonas favoráveis de marcação de golos. Entretanto, a área efetiva de jogo demostrou um padrão instável de coordenação entre as equipas, apresentando um aumento na diferença para esta variável, no ataque e na defesa ao longo do tempo. Ainda ressalvaram, que as maiores mudanças no comportamento das equipas ocorreram pouco antes do passe final.
38 Em ambiente competitivo, Duarte e colaboradores (2013) verificaram o comportamento coletivo das equipas, num jogo da primeira liga do campeonato de futebol Inglês, através da sua magnitude e estrutura de variabilidade. Os autores identificaram que a co-adaptação funcional entre as equipas tendem deixar os comportamentos das mesmas mais regulares e previsíveis, como também, as mudanças no resultado do jogo influenciaram significativamente, os comportamentos coletivos de ambas equipas. Estes estudos mostram-nos que os comportamentos individuais e coletivos dos jogadores emergiram sob a informação que o adversário, os companheiros, a tarefa e o contexto no qual estavam inseridos lhes proporcionaram. Assim, Duarte e colaboradores (2012a) conceituam as equipas de desporto coletivo, como “super-organismos”, pois os jogadores operam em conjunto como uma única unidade social, logo o processo da aprendizagem/treino, deve focar nas interações dos jogadores, levando em consideração as características da abordagem ecológica, que está incutida neste sistema dinâmico complexo. Nesse sentido, segundo Duarte (2006), os modelos concetometodológicos tradicionais de preparação das equipas já não alcançam as exigências que o contexto ambiental do jogo na atualidade tem imposto, porquanto a conceção analítica preconiza, que os fatores de rendimentos sejam treinados parcelarmente e, posteriormente, integrados em situação de jogo. Em contrapartida, a conceção do modelo de treino integrado preconiza a presença da bola de forma a assegurar uma relação entre todos fatores de rendimento, sendo uma especificidade de treino da modalidade em questão (Duarte, 2006). Entretanto, segundo o mesmo autor, o modelo de treino mais apropriado é o sistémico, pois para além da bola estar sempre presente, tem como principal meta, modelar os jogadores dentro da especificidade relativa do modelo de jogo adotado pelo treinador e não a uma especificidade concernente à modalidade. Logo, dá-se importância a todos os fatores, mas quem coordena todo o trabalho é a dimensão tática. Desta forma, os jogadores desenvolvem-se no contexto específico que contém toda a informação necessária e, à medida que vão interagindo diretamente com este, inter-relacionam-se e influenciam igualmente emergência de novas fontes de informação, e voltarão a percecionar num ciclo contínuo de percepção-ação (Araujo et al., 2006).
39 2.3. A importância da manipulação dos constrangimentos na emergência de possibilidades de ação. De acordo com Newell (1986), para alcançar um padrão ótimo de coordenação do comportamento motor humano, deve-se levar em consideração a interação de três categorias de constrangimentos, o organismo, o ambiente e a tarefa. Especificamente, os constrangimentos do (i) indivíduo referem-se às características individuais no que concerne aos aspectos maturacionais, estados psicológicos, respostas fisiológicas e habilidades técnicas e táticas; quanto os constrangimentos (ii) ambientais incorporaram as variáveis físicas de natureza global, como por exemplo o clima, a altitude, e o ambiente sócio-cultural tais como, as expectativas da sociedade, os meios de comunicação, a presença e características de uma platéia; os constrangimentos da (iii) tarefa referem-se às regras e aos objetivos do jogo, aos equipamentos, ao número de adversários envolvidos , às dimensão do campo, entre outras (Casanova, 2012; Passos et al., 2008a). Os padrões que emergem a partir da interação destes constrangimentos têm implicações importantes na compreensão de como os praticantes adquirem comportamentos coordenados (Araújo, 2005). Segundo a abordagem ecológica, a manipulação dos constrangimentos visa que os atletas consigam, um padrão comportamental apropriado, perante uma determinada situação, no contexto específico de jogo (Araujo et al., 2006). Dado que, em sistemas dinâmicos, como os jogos desportivos, existem uma grande variedade de GL, Bernstein (1967) destacou a importância de formação de sinergias a partir do acoplamento dos GL disponíveis. Numa equipa de futebol, por exemplo, as diversas possibilidades de movimento de cada jogador no sistema pode corresponder aos GL, por conseguinte, os padrões de jogo das equipas emergem a partir dos acoplamentos desses GL (Duarte et al., 2012a), que formam sinergias de compensação recíproca. Isto é, os movimentos dos jogadores não são independentes, estão em constante interação com os companheiros e adversários (Riley et. al., 2011). Assim, os padrões de jogo de uma equipa correspondem a uma interação comportamental intra e inter-equipa (McGarry et al., 2002). Dessa forma, a perspetiva ecológica procura esclarecer,
40 com base na perceção das affordances partilhadas pelos jogadores, estes padrões. Nesse sentindo, os constrangimentos podem atuar sobre os GL do sistema motor, residente em cada jogador, na formação de sinergias interpessoais, como por exemplo, a coordenação coletiva da equipa e sinergias intrapessoais, à qual se refere ao controle de um dado movimento, por exemplo um remate à baliza (Riley, 2011). Essas mesmas sinergias podem fazer com que, os jogadores entrem em sintonia e consigam percecionar as informações do ambiente, utilizando-as, adequadamente, através de ações coordenadas para atingirem os objetivos comuns à equipa (Silva et. al., 2013). A perceção é constituída pela deteção das informações existentes no contexto específico, constituindo a fonte inicial no controlo de futuras ações (Shaw et al., 1992), logo as informações são sustentadas pelas propriedades do envolvimento que conduzem às diversas possibilidades de ação designadas por Gibson (1979), affordances. Ou seja, a perceção é a captação direta das possibilidades de ação construídas na relação entre indivíduo e ambiente (Gibson, 1979). Passos e colaboradores (2008) demonstraram que as oportunidades de ação são influenciadas pelos objetivos dos jogadores, pelas suas intenções, pelas suas características morfológicas e capacidades técnico-táticas, assim como pelos limites do campo e pelas ações do adversário. Por conseguinte, Vilar e colaboradores (2014a) propuseram-se a verificar como os jogadores se coordenam ao criar ou prevenir as oportunidades de golo em futsal. Os autores observaram que as oportunidades para o remate dependem do ângulo do defensor em relação ao atacante e a baliza, da distância relativa dos jogadores à baliza, da distância entre os jogadores e da velocidade relativa entre o atacante e o defensor. Assim, uma das formas de maximizar a aquisição das competências e propiciar o desenvolvimento dos jogadores no desporto é alterar durante o processo de ensino e treino a estrutura formal e funcional do jogo (Lee & Ward, 2009). Os constrangimentos são caracterizados como condicionantes que limita a ação de um organismo, eliminando certas configurações biodinâmica da resposta, fazendo com que as coordenações ou padrões resultantes, reflitam na
41 tendência para otimização auto-organizacional em sistemas biológicos. (Barreiros et al., 1995). Deste modo, a pedagogia não-linear tem enfatizado a importância da manipulação dos constrangimentos, no contexto de aprendizagem, uma vez que possibilita aos atletas explorar e encontrar diversas soluções percetivo-motoras, moldando assim, os comportamentos emergentes que surgem durante a prática (Chow et al., 2006; Chow et al., 2007; Davids et al., 2005). Assim, diversos estudos baseados na teoria de Newell (1986), sugerem a manipulação dos constrangimentos na coordenação e controle de sistemas dinâmicos não lineares, focando-se, o treino, na relação jogador-ambiente, visto que disponibiliza uma adaptabilidade e variabilidade nos padrões de movimentos, o que pode de facto, proporcionar aos jogadores informações críticas para encontrarem soluções mais adequadas a diversos problemas que venham a surgir em jogo (Barreiros et al., 1995; Passos et al., 2008a). 2.4. Representatividade Diversos autores (Crow,1957; Davids et al., 2006; Araújo et. al., 2007; Pinder et.al., 2011; Vilar et al., 2013) têm alertado pesquisadores, professores e/ou treinadores sobre a importância do desenho representativo em estudos e/ou tarefas práticas relacionados com a perceção interpessoal (Brunswki, 1956). O investigador Brunswki (1956) enfatizou, que para generalizar os resultados de um determinado estudo, as variáveis de perceção devem ser recolhidas num contexto natural, na qual a amostra se insere (Davids et al.,2006). Atualmente, essa ideia tem sido aceita e utilizada em estudos das ciências do deporto, na tentativa de explicar como as informações disponíveis no ambiente competitivo interfere nos comportamentos dos atletas. Dessa forma, o contexto específico da tarefa deve ser projetado para garantir a generalização da aquisição de competências e habilidades dos jogadores de forma a explorarem o ambiente de desempenho, como se estivessem num ambiente competitivo (Araújo et al., 2007; Pinder et al, 2011, Vilar et al., 2012). Recentemente, Russel e colaboradores (2010) apresentaram um teste de habilidade, composto por três diferentes tarefas para avaliar o passe, o drible e o remate de jogadores de futebol. Entretanto, este protocolo foi analisado por
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49 3. Materiais e Métodos 3.1. Amostra A amostra foi constituída por vinte jogadores de futebol sub-17 do sexo masculino. Dez jogadores com idade (15,9 ± 0,45 anos) do Clube X competiam em campeonato de nível nacional (CNN) e dez jogadores com idade (16,02 ± 0,42 anos) do Clube Y competiam em campeonato de nível regional (CNR) de desempenho. Todos os participantes tinham mais de três anos de experiência de jogo em seus respetivos níveis. Jogadores e responsáveis legais foram informados sobre os procedimentos do estudo e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. O Comitê de Ética da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (03/2013 CEFADE) aprovou o estudo. 3.2. Recolha de Dados Os jogadores de cada clube foram divididos em duas equipas de cinco jogadores constituídas por: um guarda-redes (GRs), um defesa, dois médios e um avançado. Esta organização foi levada a cabo pelos respetivos treinadores de cada uma das equipas, garantindo assim um equilíbrio competitivo nos jogos. A tarefa experimental consistiu na realização de jogos reduzidos e condicionados (JRCs) de 4 v 4 + GR, com balizas de futebol de 7, onde ambos os grupos jogaram em três diferentes dimensões do campo (largura x comprimento), a saber: campo pequeno (23,8 x 36,8 m), campo médio (30,6 x 47,3 m) e campo grande (37,4 x 57,8 m). A área dos GRs foi marcada a cinco metros da linha de baliza e a toda a largura do campo em todos os JRCs. Várias bolas foram colocadas à volta dos campos de forma a minimizar as paragens do jogo sempre que a bola saía. Todos os jogos e períodos de recuperação tinham a duração de 7 minutos (rácio de 1:1). Consideramos que este rácio ajuda a minimizar a “…Mas é a incerteza que estimula a pesquisa, ao mesmo tempo que rejeita todas as falsas certezas.” Manuel Sérgio, 2012
50 influência da fadiga nos jogadores. Durante o período de recuperação os jogadores reidratavam-se e era permitido que recuperassem ativamente, como por exemplo, passes curtos entre eles. Todos os JRCs foram jogados em conformidade com as regras oficiais do futebol designadas pela FIFA (Fédération Internationale de Football Association), exceto a regra do fora de jogo, a qual não foi aplicada. Todos os JRCs foram filmados e durante os mesmos, cada jogador transportou um dispositivo GPS (Global Positioning System - Qstarz BT - Q1000eX), que capturava as coordenadas de posicionais dos mesmos em x- e ycom uma taxa de frequência de 10Hz. As coordenadas do campo foram calibradas utilizando quatro dispositivos GPS colocados em cada um dos cantos do campo, por um período de dois minutos. As posições absolutas de cada canto foram utilizadas para calcular o eixo cartesiano das coordenadas. A fórmula de Haversine (Sinnott, 1984) foi utilizada para converter as coordenadas longitudinais e latitudinais (esféricas) em coordenadas Euclidianas (planares). 3.3. Variáveis do estudo Para analisar os princípios de jogo “Espaço” e “Concentração”, foram utilizadas variáveis de dispersão como o comprimento e a largura de cada equipa. Nas fases de ataque e defesa foram selecionadas as seis mais longas sequências da posse de bola, para cada equipa e formato dos JRCs, totalizando assim, doze sequências por cada condição. Para cada sequência foram calculadas a largura e o comprimento (em metros) para o ataque e para a defesa da equipa, ao longo do tempo. A largura e o comprimento foram calculados ao segundo (10 Hz), como a diferença entre os valores máximos e mínimos das coordenadas y e x, respetivamente (ou seja, a distância entre o jogador mais à direita e mais à esquerda para a largura, e a distância entre o jogador mais avançado e mais recuado para o comprimento) (ver figura 1). Posteriormente, a média da largura e do comprimento de cada sequência foi extraída para fins
51 estatísticos. Para realização destes cálculos foi utilizado o software MATLAB® R2011b (The Mathworks Inc, Natick, MA, USA). Figura 1 Representação gráfica das variáveis coletivas largura (y) e comprimento (x). 3.4. Procedimentos estatísticos Os efeitos da dimensão do campo e da perícia na largura e no comprimento das equipas em fase ofensiva e defensiva foram analisados através do teste Split-plot ANOVA com medidas repetidas nos JRCs (3 níveis: campo pequeno, médio e grande) e um factor “between – subjects” no nível de perícia (2 níveis: nacional e regional). Sempre que foram encontradas diferenças em relação aos efeitos da dimensão do campo, análises post-hoc foram realizadas com o ajustamento de Bonferroni. O nível de significância foi mantido em 5% (p <0,05). Utilizou-se o software SPSS® 20,0 (SPSS Inc., Chicago, EUA) para a análise estatística.
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53 Capítulo 4 Resultados
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55 4. Resultados 4.1. Fase Ofensiva 4.1.1. Comprimento A Figura 2 revela um aumento uniforme dos valores médios das equipas de CNN com aumento da dimensão de campo (pequeno: 12.0 ± 1.8; intermédio: 15.3 ± 2.8 e grande: 19.3 ± 4.9) enquanto, para as equipas de CNR o campo intermédio registra o valor médio mais elevado (pequeno: 11.4 ± 3.5; intermédio: 15.4 ± 6.0 e grande 13.9 ± 5.8). Figura 2 Média ± Desvio padrão do comprimento das equipas de acordo com a dimensão do campo (pequeno, intermédio e grande) e nível de perícia (CNR e CNN). “…A descoberta e o conhecimento podem ser compartilhados e até mesmo replicados, possibilitando a continuidade da eterna busca do saber e de suas aplicações…” Silvia Koller, 2004
56 A partir dos dados obtidos verificou-se um efeito significativo da dimensão campo no comprimento das equipas, F (2, 66) = 7.8, p = 0,001, η² = 0,19. Comparações múltiplas de Bonferroni revelaram que o comprimento das equipas no campo pequeno (M = 11,7, SE = 0,91) foi significativamente inferior ao do intermédio (M = 15,4, SE = 0,91, p = 0,018) e ao do grande (M = 16,7, SE = 0,91, p = 0,001), porém não houve diferença estatisticamente significativa entre os campos intermédio e grande (p = 0,99). Não foram encontrados efeitos significativo referente à perícia, nem qualquer efeito de interação entre a dimensão do campo e a perícia como demonstrado na tabela 1. Tabela 1 Efeitos principais da dimensão do campo (pequeno, médio e grande), perícia (CNN e CNR) e interação nível x habilidade dimensão campo em comprimento e largura da equipa durante a fase ofensiva. df1 df2 F p Partial η2 Dimensão do campo (DC) 2 66 7.803 0.001* 0.191 Comprimento Perícia (PE) 1 66 3.535 0.064 0.051 DC x PE 2 66 2.812 0.067 0.079 Dimensão do campo (DC) 2 66 5.468 0.006* 0.142 Largura Perícia (PE) 1 66 7.882 0.007* 0.107 DC X PE 2 66 0.786 0.460 0.023 df1 = graus de liberdade entre os grupos; df2 = graus de Liberdade intra-grupos; F = resultado do teste ANOVA; Partial η2 = Tamanho do efeito. *p <0.05
57 4.1.2. Largura Os valores médios das equipas de CNN (pequeno: 13.8 ± 2.3; intermédio: 14.6 ± 2.4 e grande: 17.2 ± 4.0) aumentaram com a ampliação do campo, enquanto que para as equipas de CNR o campo intermédio regista o valor médio mais baixo (pequeno: 13.0 ± 3.2; intermédio: 12.0 ± 1.5 e grande: 14.5 ± 3.5) como demonstrado na Figura 3. Figura 3 Média ± Desvio padrão da Largura das equipas de acordo com a dimensão do campo (pequeno, intermédio e grande) e nível de perícia (CNR e CNN). Quanto à largura das equipas os valores encontrados permitiram verificar efeitos significativos da dimensão campo, F (2, 66) = 5,4, p = 0,006, η² = 0,14 e de perícia, F (1, 66) = 7.8, p = 0,007 η² = 0,10. A partir da análise post hoc observouse que a largura no campo grande (M = 15,8, SE = 0,60) foi significativamente superior às dos campos pequeno (M = 13,4, SE = 0,60 p = 0,019) e intermédio (M = 13,3, SE = 0,60, p = 0,015), não apresentando diferenças estatisticamente significativas entre os campos pequeno e intermédio. As equipas de CNN
64 através da análise da área de cobertura e da amplitude de equipas. As equipas analisadas aumentaram sua área efetiva de jogo durante o ataque exibindo o comportamento inverso durante a fase defensiva. Tendo em conta estes resultados, parece existir uma congruência entre os princípios aplicados em jogo formal e em JRCs, logo, sendo plausível concluir que os mesmos não são afetados pelas manipulações do espaço de jogo, desde que a lógica interna do jogo se mantenha inalterada. Durante a prática dos JRCs, à medida que a dimensão do campo aumentava, os valores de comprimento e da largura das equipas ampliavam-se tanto na fase ofensiva quanto na defensiva. A partir dos dados obtidos observouse que na fase ofensiva as equipas apresentaram um comprimento significativamente menor no campo pequeno, quando comparado com os campos intermédio e grande. Todavia, a largura das equipas no campo grande foi significativamente superior às dos campos pequeno e intermédio. Estes resultados sugerem que os campos de maior dimensão dos JRCs, utilizados neste estudo podem ser manipulados, em uma fase inicial de aprendizagem, para desenvolver situações ofensivas, uma vez que as equipas encontram condições adequadas e favoráveis no campo com dimensões maiores, isto é espaço e, consequentemente, tempo para realizarem as suas ações táticatécnicas. Costa e colaboradores (2011), por exemplo, observaram que os comportamentos desempenhados pelos jogadores também foram influenciados pelas alterações nas dimensões do campo de jogo, principalmente no que concerne à organização defensiva das equipas, pois no campo grande as equipas apresentaram dificuldade para gerir o espaço de jogo e realizar com sucesso as ações táticas relacionadas com os princípios defensivos. Já em fase defensiva, no que se refere à largura das equipas o campo pequeno foi apenas significativamente inferior ao dos campos médio e grande. Isto é, as equipas compactaram-se para ocupar e restringir os espaços efetivos de jogo, de forma a tentarem impedir o progresso do ataque adversário, de acordo com o formato do campo. O estudo realizado por Costa e colaboradores (2011) demonstrou que, em JRCs um campo de menor dimensão quando comparado com um campo de maior dimensão, permite que os jogadores em fase defensiva tenham oportunidade de realizarem mais ações de apoio ao marcador do portador da bola e de obstrução de linhas de passe do adversário.
65 Neste sentido, parece-nos que a aplicação de um campo com menor dimensão será uma ferramenta adequada para a aquisição de comportamentos defensivos. Porém, não quer dizer, que situações ofensivas não possam ser treinadas em campos menores, pois no estudo de Kelly e Drust (2009), o qual verificaram a ocorrência de ações técnicas em JRCs com diferentes dimensões, eles observaram que, para além de acontecer mais desarmes em campos com dimensões menores, os jogadores também realizaram mais ações de remates, sendo este fundamento primordial em fase ofensiva. Face aos resultados obtidos, podemos inferir que ao variarmos a área de jogo individual (AJI) pela manipulação da dimensão do campo induz-se as equipas a explorarem o terreno de jogo disponível de forma a ajustarem os princípios de jogo ofensivos e defensivos. Desta forma, as equipas adaptam o comportamento tático coletivo de acordo com o tamanho do campo, assim como a interação contínua dos jogadores, que parecem ter sido reguladas por informações do posicionamento relativo e tempo de movimento dos companheiros e adversários em função dos constrangimentos da tarefa (Davids et al., 2013; Passos et al., 2013) Os resultados do presente estudo são similares aos de outros estudos em que se demonstraram que as distâncias interpessoais dos jogadores influenciam o padrão de auto-organização e co-adaptação aos constrangimentos da tarefa. Os autores Frencken e colaboradores (2013), verificaram a distância inter-equipa em quatro diferentes condições de JRCs manipulando apenas a dimensão do campo. Os resultados obtidos evidenciaram que a distância inter-equipa diferiu significativamente entre todas condições, levando em consideração que as equipas de futebol parecem adaptar o seu comportamento interativo de acordo com o tamanho dos JRCs. Também, Passos e colaboradores (2008b) analisaram uma sub-fase do jogo, numa situação de um-contra-um para identificar o comportamento dos jogadores na transição ataque-defesa. Os resultados revelaram que, os comportamentos de ambos os jogadores envolvidos na díade ataque-defesa emergem a partir de um processo exploratório dos constrangimentos ambientais. Sugere-se, assim, que a tomada de decisão de jogadores num jogo coletivo pode ser caracterizada por acoplamentos de percepção-ação dependentes de interações dos jogadores.
66 Assim sendo, ao alterar-se a AJI, através da manipulação da dimensão do campo e/ou número de jogadores (ver Abrantes et al., 2012), permite-se que os atletas utilizem diferentes informações contextuais possibilitando a deteção de novas affordances (oportunidades para ação) auxiliando-os no processo da tomada de decisão (Araújo, 2009) proporcionando assim, novos comportamentos co-adaptativos na coordenação da equipa (Silva et al., 2013) Em relação à análise da perícia, as equipas de nível nacional apresentaram um valor de largura superior na fase ofensiva e um valor inferior na fase defensiva quando comparadas com as equipas de nível regional. Ou seja, as equipas de nível nacional apresentaram melhores padrões de comportamento coletivo ofensivo e defensivo relacionado com os princípios específicos do futebol (espaço e concentração), quando comparados com as equipas de nível regional em todos formatos de campo dos JRCs. Estes resultados estão em concordância com estudos anteriores relacionado a capacidades fisiológicas, físicas e técnicas (Dellal et al., 2011) e da capacidade tática (Silva, et al., in press), durante a realização de JRCs. Castellano e colaboradores (2013), também identificaram comportamentos similares em uma equipa de futebol de alto nível, durante seis partidas oficiais, contra adversários de nível superior e inferior. Os autores verificaram que na fase ofensiva a equipa apresentava, com mais frequência, valores elevados de comprimento, largura e superfície da área, quando confrontavam as equipas mais fracas. Em contrapartida, na fase defensiva a equipa apresentava comprimento, largura e superfície da área mais elevada quando defrontavam adversários mais fortes. Desta forma, os resultados obtidos sugerem que os melhores jogadores quando comparados com os jogadores de nível inferior possuem uma visão mais apurada do jogo, permitindo-lhes assim uma adaptação, auto-organização e ajustamento dos comportamentos mais fluentes na presença de diferentes tipos de constrangimentos, em relação aos jogadores do nível de perícia inferior. Assim, e a partir dos resultados observados no presente estudo, pode-se afirmar que os jogadores de ambos os níveis de perícia possuem, a capacidade para se co-adaptarem em função dos constrangimentos da tarefa, mantendo os princípios específicos do futebol, espaço e concentração, tanto em fase ofensiva como na defensiva, sendo invioláveis nos três formatos de JRCs (campos
67 pequeno, intermédio e grande). Desta forma, os JRCs parecem ser ambientes de treino para aprender e/ou desenvolver comportamentos táticos coletivos de forma representativa (Davids et al., 2013), garantindo a funcionalidade e a fidelidade de ação (Stoffregen et al., 2003), em relação ao jogo formal.
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69 Capítulo 6 Conclusões
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71 6. Conclusões A partir dos resultados obtidos neste estudo podemos concluir que os princípios específicos do jogo de Futebol (espaço e concentração) permanecem inalterados nos JRCs, de diferentes dimensões. As fases de jogo ofensiva e defensiva implicaram diferentes comportamentos táticos, ou seja na fase ofensiva verificaram-se valores de dispersão (comprimento e largura) mais elevados, o aumento dos valores destas variáveis incidiram com o aumento da dimensão do campo. Logo a manipulação da AJI através da manipulação na dimensão do campo, mantendo o mesmo número de jogadores, influencia a emergência dos processos de coordenação tática nos JRCs. Jogadores com diferentes níveis de perícia respondem de forma diferente aos mesmos constrangimentos da tarefa, embora apresentando as mesmas tendências. Os jogadores das equipas de CNN parecem ser mais sensíveis às alterações das dimensões do campo e à aplicação dos princípios de ataque e da defesa. Do ponto de vista pedagógico/metodológico, estes resultados sugerem que estes formatos de JRCs constituem contextos representativos do jogo formal e que a manipulação da dimensão do campo nos JRCs estimula os jogadores para se co-adaptarem, na medida em que aumenta ou diminui o espaço de jogo, fazendo com que os jogadores, reajustem as distâncias entre si de forma a manter, em ambas fases, os processos de coordenação tática eficiente e funcionalmente. Os presentes resultados, também, sugerem que os campos de menor dimensão são uma boa ferramenta para incorporar o planeamento de exercícios dos treinadores, com o propósito de aperfeiçoar o princípio defensivo (concentração), enquanto os campos maiores pode ser utilizados para melhorar o princípio ofensivo, especificamente o espaço. Importa salientar, que ao jogar em campos maiores não se compromete a necessidade de ajustar os espaços quando se defende e ao jogar em campo de menor dimensão, também, não se compromete a fase ofensiva. Desta forma, apela-se aos treinadores que tenham “O futebol é… é físico, é tático e é técnico, mas essencialmente, é o todo que não se resume à soma das partes, é o HUMANO que nunca estará completamente inventado e terá sempre, todos os dias, de ser reinventado …” José Mourinho, 2007
72 a sensibilidade em organizar o seu plano de treino/ensino utilizando estes diferentes formatos de campo, de acordo com o objetivo necessário da sua equipa e/ou jogadores. Isto é, os treinadores devem estar consciente de quais os fatores que pretende treinar e quais os resultados que pretende alcançar em cada etapa. Dado que os JRCs constituem tarefas representativas do jogo formal, estes podem ser utilizados para treinar o comportamento tático e proporcionar aos jogadores, uma participação mais ativa no jogo, em relação a configurações de jogo com maior espaço e número de jogadores. Por consequência, também promove um envolvimento superior dos praticantes na constante aplicação dos princípios ofensivos e defensivos. Portanto, os JRCs parecem ser o melhor instrumento que o treinador/professor tem à sua disposição para ensinar/treinar os princípios específicos aqui analisados no presente estudo.
73 Capítulo 7 Referências
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LXXXII
LXXXIII Capítulo 8 Anexo
LXXXIV
LXXXV 8. Anexo Anexo 1. Estudo suplementar – Resumo em conferência Carvalho, T., Chung, D., Silva, P., & Casanova, F. (2014). Efeito da dimensão e da perícia no comportamento táctico de jovens futebolistas em jogos reduzidos e condicionados. Comunicação apresentada em Livro de Atas da I Conferência Internacional de Ciências no Treino de Futebol. 28-30. Coimbra, Portugal.
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LXXXVII Livro de Atas da I Conferência Internacional de Ciências no Treino de Futebol _____________________________________________________________________ EFEITOS DA DIMENSÃO DO CAMPO E DA PERÍCIA NO COMPORTAMENTO TÁCTICO DE JOVENS FUTEBOLISTAS EM JOGOS REDUZIDOS E CONDICIONADOS Thiago Carvalho; Dante Chung; Pedro Silva; Filipe Casanova 28 Escola Superior de Educação de Coimbra
LXXXVIII Livro de Atas da I Conferência Internacional de Ciências no Treino de Futebol EFEITOS DA DIMENSÃO DO CAMPO E DA PERÍCIA NO COMPORTAMENTO TÁCTICO DE JOVENS FUTEBOLISTAS EM JOGOS REDUZIDOS E CONDICIONADOS Thiago Carvalho1; Dante Chung1; Pedro Silva1; Filipe Casanova1 1 CIFI²D – Centro de Investigação, Formação, Intervenção e Inovação em Desporto, Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, Porto, Portugal; e-mail: [email protected]; [email protected]; [email protected]; [email protected] Resumo Enquadramento: A manipulação do espaço de jogo em jogos reduzidos e condicionados (JRC) é uma forma de propiciar aos praticantes a exploração de diferentes problemas de jogo favorecendo, assim, adaptações funcionais em termos coletivos e individuais. Porém, pouco se sabe sobre a forma como este tipo de constrangimento influencia o comportamento tático de praticantes com distintos níveis de perícia. Objetivo: Analisar o comportamento tático coletivo em JRC durante as fases ofensiva e defensiva de acordo com a dimensão do campo e nível de perícia. Métodos: Neste estudo participaram dez jogadores de nível regional (M±DP=15.6±0.4 anos) e dez de nível nacional (M±DP=16.0±0.34). A tarefa experimental consistiu na realização de três JRC (4v4 com guarda-redes) em campos de diferentes dimensões (largura x comprimento): pequeno (23.8 x 36.8 m), médio (30.6 x 47.3m) e grande (37.4 x 57.8m). Para a recolha dos dados os jogos foram filmados e cada jogador transportou um dispositivo GPS (Qstarz BT-Q1000eX) que registaram as coordenadas posicionais 2D a 10Hz. O comportamento tático coletivo foi analisado a partir do comprimento e da largura de cada equipa nas fases ofensiva e defensiva considerando as seis maiores sequências da posse de bola de cada equipa nos três formatos de jogos. Os dados foram, posteriormente, analisados através de uma ANOVA tipo II (fatores: perícia e dimensão do campo). Resultados: Verificou-se um efeito significativo da dimensão do campo no comprimento das equipas nas fases ofensiva (p= 0.001, η2 =0.19) e defensiva (p<0.001, η2=0.48). Na fase ofensiva comprimento das equipas no campo pequeno foi significativamente inferior ao do médio (p=0.018) e ao do grande (p=0.001). Na fase defensiva encontraram-se diferenças estatisticamente significativas entre os três formatos de campo. Ou seja, o comprimento das equipas no campo pequeno foi inferior ao do registado no campo médio (p= 0.006) e no grande (p<0.001) e o 29 Escola Superior de Educação de Coimbra
LXXXIX Livro de Atas da I Conferência Internacional de Ciências no Treino de Futebol comprimento das equipas no campo médio foi significativamente inferior ao do campo grande (p<0.001).Quanto a largura das equipas, verificou-se efeitos significativos da dimensão do campo e do nível de perícia para a fase ofensiva e defensiva, respetivamente (p<0.05 em todas as análises). Na fase ofensiva a largura no campo grande foi significativamente superior às dos campos pequeno (p=0.019) e médio (p=0.015), não apresentando diferenças estatísticas entre os campos pequeno e médio. Na fase defensiva a largura no campo pequeno foi apenas significativamente inferior às dos campos médio (p=0.001) e grande (p<0.001). Contudo, as equipas de nível nacional apresentaram uma largura superior na fase ofensiva (p=0.007) e inferior na fase defensiva (p<0.001) quando comparadas com as equipas de nível regional. Conclusão: Os princípios fundamentais do jogo de Futebol (fazer campo grande a atacar e campo pequeno a defender) permanecem inalterados em JRC jogados em campos de diferentes dimensões. Neste sentido, os JRC constituem tarefas representativas do jogo formal que podem ser usadas para treinar comportamento tático. Os jogadores de melhor nível parecem ser mais sensíveis às alterações das dimensões do campo e à aplicação dos princípios do ataque e da defesa. Palavras-chave: Futebol, Comportamento Tático, Jogos reduzidos e Condicionados, Constrangimentos. 30 Escola Superior de Educação de Coimbra