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A transição do impresso ao digital no setor editorial: o caso da editora Publindústria

Pedro Rafael da Silva Coutinho

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1 Pedro da Silva Coutinho A TRANSIÇÃO DO IMPRESSO AO DIGITAL NO SETOR EDITORIAL: o caso da editora Publindústria Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Ciência da Informação, orientada pela Professora Doutora Olívia Manuela Marques Pestana Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Universidade do Porto Julho de 2014 2 3 A TRANSIÇÃO DO IMPRESSO AO DIGITAL NO SECTOR EDITORIAL: o caso da editora Publindústria Pedro da Silva Coutinho Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Ciência da Informação, orientada pela Professora Doutora Olívia Manuela Marques Pestana Membros do Júri Presidente: Professor Doutor António Manuel Lucas Soares (Professor Associado da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto) Arguente: Professora Doutora Maria Beatriz Pinto de Sá Moscoso Marques (Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) Orientador: Professora Doutora Olívia Manuela Marques Pestana (Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade do Porto) Julho de 2014 4 A Ti, por todo o carácter e verticalidade inatacáveis que me transmitiste todos os dias. Adorava que visses. 5 6 Agradecimentos Na elaboração deste trabalho foram vários os que contribuíram para que fosse possível atingir o fim desta dissertação.´ Em primeiro lugar, quero deixar um profundo agradecimento à minha orientadora, Professora Doutora Olívia Pestana, pela disponibilidade que sempre demonstrou e pelas palavras de incentivo quando tudo parecia mais difícil. Mesmo num ano de grandes mudanças também para si mais uma vez demonstrou ser um exemplo de docência universitária e não podia estar mais satisfeito com a minha escolha. À Publindústria, na pessoa do Eng.º António Malheiro, uma das pessoas mais dedicadas que já encontrei. É notável a sua incessante busca pela perfeição e o seu inconformismo perante o conservadorismo que povoa o setor editorial nos dias de hoje. A toda a Publindústria, em especial ao Samuel Silva por ter-me deixado invadir o seu espaço de trabalho e pelos conselhos valiosos que me deu durante os últimos seis meses. Aos meus pais e à minha irmã pelo carinho e interesse demonstrados durante o ano e por me apoiarem incondicionalmente como só a Família sabe fazer. É reconfortante encontrar essa paz em nossa casa. Ao André por não deixar que me dispersasse quando não o deveria fazer. Aos que se cruzaram comigo durante este ano em momentos de partilha de tradições e de brincadeiras que jamais irei esquecer. Que o Academismo continue a dar-nos a oportunidade de viver intensamente estes curtos anos. Aos de sempre: aos Comparsas, aos 15, à Suazo e ao Rui por serem amigos como muitos nunca terão a felicidade de encontrar. Um agradecimento especial ao Vítor por ser o amigo de todas as horas e mais algumas. À Susana, que num ano particularmente difícil conseguiu dar todo o apoio que eu precisava. Quando tudo estava nublado apareceste sempre tu para me dar uma visão diferente das coisas. E olha, parece que conseguimos! 7 8 Resumo Todos percebem que têm vindo a ocorrer mudanças importantes que atravessam todo o setor editorial, começando nas próprias editoras e acabando na restante cadeia de valor, incluindo o consumidor final. A presente dissertação pretende identificar essas mesmas mudanças, que são muitas vezes desconhecidas, e tentar perceber de que forma a editora Publindústria pode adaptar-se a esta nova realidade, que se manifesta como sendo inevitável. Mais do que uma editora, a Publindústria é uma produtora de conteúdos técnicos que abrangem as áreas de Engenharia, Indústria Transformadora, Manutenção Industrial, Higiene e Segurança, Gestão Ambiental, Energia e Agronomia. Além disso, a Publindústria é uma agregadora de outras três empresas (CIE, Engenho e Média e Agrotec), responsáveis por editar publicações periódicas de referência e uma outra que faz a gestão das vendas e publica todos os livros do grupo (Engebook). A proposta para a dissertação partiu da Publindústria e do seu diretor-geral, Eng.º António Malheiro, pois consideram essencial a adaptação a novas técnicas e ferramentas decorrentes do digital. Como uma produtora e editora de conteúdos de média dimensão mas ainda com processos algo arcaicos e não compatíveis com a realidade que se vive hoje, tornou-se importante fazer um estudo que abrangesse toda a história do e-book (livro eletrónico), a explicação detalhada dos tipos de formato de um e-book e, mais importante, a situação atual em alguns dos principais mercados atuais no que diz respeito a este novo produto. Serão, também, enumerados alguns desafios que as editoras têm estado a enfrentar com esta mudança drástica, com as vantagens e as desvantagens de cada um deles, bem como a realidade da Publindústria face àquele desafio. A dissertação culmina com a descrição dos principais requisitos necessários para a construção de uma plataforma de venda de conteúdos digitais que seja segura, confiável e userfriendly, algo que, certamente, irá impulsionar ainda mais a Publindústria no mercado livreiro. Palavras-chave: e-book; Paradigma digital; Setor Editorial; Publindústria; Modelo de negócio. 9 16 Lista de Gráficos Gráfico 1 - Quantidade de e-books em português no portal WOOK, em 15 de janeiro de 2014 ................................................................................................................................ 46 Gráfico 2 - Número de e-books vendidos em alguns dos principais mercados mundiais em 2012 (Fonte: Carrenho, 2012) .................................................................................. 48 Gráfico 3 - Número de e-books vendidos no Reino Unido em 2013 pelas principais editoras (Fonte: ABRAM, 2014) ..................................................................................... 49 Gráfico 4 - Atividades preferidas dos utilizadores de tablets no Reino Unido em 2013 (Fonte: eMarketer, 2013a) .............................................................................................. 50 Gráfico 5 - Utilizadores de e-readers no Reino Unido (Fonte: eMarketer, 2013b) ........ 51 Gráfico 6 - Vendas de e-books em comparação com o mercado global livreiro (%) (Fonte: Enders Analysis, 2012) ...................................................................................... 53 Gráfico 7 - Venda de e-books no Brasil em 2012 (Fonte: Melo, 2013) ........................... 56 17 18 Sumário Lista de figuras ................................................................................................................ 12 Lista de tabelas ................................................................................................................ 14 Lista de Gráficos .............................................................................................................. 16 1. Introdução ................................................................................................................ 21 1.1. Contextualização do tema ................................................................................. 21 1.2. Problemática .................................................................................................... 23 1.3. Contribuições do trabalho ............................................................................... 24 2. Revisão da Literatura .............................................................................................. 26 2.1. História do e-book ........................................................................................... 26 2.1.1. O começo .................................................................................................. 26 2.1.2. Pós-Projeto Gutenberg: percurso do e-book e do e-reader ..................... 28 2.2. Tipos de formatos ............................................................................................ 33 2.2.1. ePUB ............................................................................................................. 33 2.2.2. PDF ............................................................................................................... 35 2.2.3. Comparação entre ePUB e PDF ................................................................... 36 2.3. Vantagens do e-book ........................................................................................ 38 2.3.1. Para o editor ............................................................................................. 38 2.3.2. Para o leitor .............................................................................................. 40 2.4. Desvantagens do e-book .................................................................................. 43 2.4.1. Para o editor ............................................................................................. 43 2.4.2. Para o leitor .............................................................................................. 43 2.5. Mercado do e-book ...........................................................................................47 2.5.1. Reino Unido .............................................................................................. 48 2.5.2. Espanha ..................................................................................................... 51 2.5.3. EUA........................................................................................................... 52 2.5.4. Portugal .................................................................................................... 54 2.5.5. Brasil .......................................................................................................... 55 3. Método de investigação ............................................................................................ 57 3.1. Recolha de dados ............................................................................................. 58 3.1.1. O questionário .......................................................................................... 59 4. Estudo de caso: a Publindústria .............................................................................. 60 5. Desafios atuais e mudança na indústria ................................................................. 64 19 5.1. Imposto ............................................................................................................ 64 5.2. Alteração da cadeia de valor .............................................................................67 5.3. Alteração do tipo de impressão......................................................................... 71 5.4. Problema da fixação do preço do e-book .......................................................... 73 5.4.1. Análise dos preços em várias editoras .......................................................76 5.5. Auto-publicação ............................................................................................... 86 5.5.1. Vantagens: ................................................................................................ 87 5.5.2. Desvantagens: ........................................................................................... 87 5.5.3. O caso da Publindústria ............................................................................ 90 5.6. Pirataria ............................................................................................................ 91 5.6.1. Protecção DRM ......................................................................................... 93 6. Modelo de negócio .................................................................................................. 96 6.1. Análise dos questionários ................................................................................ 96 6.2. Modelo Canvas ................................................................................................ 101 7. Levantamento de requisitos para o sistema ........................................................... 103 7.1. Visão geral do sistema .................................................................................... 103 7.2. Requisitos funcionais ...................................................................................... 104 7.3. Requisitos não-funcionais .............................................................................. 114 7.4. Modelação UML do sistema ........................................................................... 115 8. Conclusões e perspetivas de desenvolvimento futuro ........................................... 118 9. Referências bibliográficas ...................................................................................... 122 10. Anexos ................................................................................................................ 134 10.1. Anexo 1 - Questionário ................................................................................ 135 10.2. Anexo 2 – Análise dos preços praticados pelo grupo Wook ....................... 138 10.3. Anexo 3 – Análise dos preços praticados pelo grupo Leya ......................... 145 10.4. Anexo 4 – Preços praticados pela editora Livraria Almedina .................... 182 10.5. Anexo 5 – Preços praticados pela editora Bloomsbury Publishing ............ 195 10.6. Anexo 6 – Preços praticados pela Publindústria ....................................... 208 20 21 1. Introdução 1.1. Contextualização do tema O mundo de hoje, no ano de 2014, é completamente diferente do que era há 20 anos atrás. Arrisco dizer que ano após ano surgem alterações drásticas no mundo e parte dessa “culpa” é da tecnologia. Ela atinge toda a sociedade e temos que nos adaptar a ela (e não ela a nós) para que a nossa qualidade de vida melhore. Certamente que já todos ouvimos falar do termo “Sociedade da Informação”, que se caracteriza precisamente pela constante troca de informação (e consequente conhecimento) que se regista nos dias de hoje. Está relacionada com o boom tecnológico ocorrido essencialmente na década de 90 do século passado e que ainda atravessa os dias de hoje. A informação é o ativo mais importante para a criação do conhecimento e a avalanche da mesma é uma consequência da perceção de que, com ela, a sociedade evolui. Embora traga algumas consequências negativas, como a extinção de algumas profissões mais tradicionais, a verdade é que a tecnologia traz inúmeras oportunidades e uma melhoria de qualidade de vida inquestionável. No setor editorial propriamente dito surgiram grandes mudanças que colocaram em causa todo o modelo de negócio da indústria. Onde havia uma estrutura de participantes bem definida, hoje há um a rede flexível de entidades que podem ou não colaborar no processo de edição; o único interveniente garantido é apenas o autor, porque os restantes (editor, distribuidor, retalhista) têm vindo a tornar-se cada vez mais facultativos. Para além disso, a caneta e o papel parecem um pouco ultrapassados, mesmo neste panorama, dando lugar ao computador e a outros aparelhos/dispositivos informáticos. Como já se disse, a tecnologia tem hoje um grande protagonismo no panorama social, profissional, familiar, etc. Somos quase tecno-dependentes, é a tecnologia que nos guia no dia-a-dia e já não sabemos viver sem ela. E se a utilizamos para todas as tarefas do quotidiano, da mais trivial à mais importante, porque não usá-la na leitura de livros? Com a evolução do e-book e dos e-readers (leitores de e-books) tem-se assistido a um aumento, todos os anos, do número de pessoas que lê neste formato, deixando de lado o formato impresso ou então lendo em ambos. Para se ter uma noção mais clara do mercado atual e da sua evolução pode partirse da análise geral do mercado editorial musical. Este serve de comparação, ainda que 22 registe números um pouco diferentes, pelo simples facto de que foi atingido pela mudança mais cedo. No início deste século surgiu a partilha de ficheiros digitais em MP3, recorrendo a serviços como o Napster ou o Kazaa. A partir daí muitas empresas perceberam que, só reformulando o modelo de negócio, é que poderiam capitalizar as vantagens trazidas pelas novas tecnologias. O boom deu-se com o lançamento da loja de música online iTunes, da Apple Inc., em 2003. Passou a ser possível comprar ficheiros singulares, todos a 99 cêntimos, independentemente do artista e da editora. A aposta revelou-se acertada, com as vendas em formato digital a ultrapassarem (50,3%) as vendas físicas, no ano de 2011. No mercado de livros e e-books isso ainda está longe de acontecer, porque estes últimos ainda ocupam uma quota muito reduzida do mercado editorial global. Ainda assim, o seu crescimento é assinalável principalmente em países de língua inglesa, como os Estados Unidos da América (EUA) ou o Reino Unido, mas também em alguns países da Ásia Oriental. Por exemplo, nos EUA, nos primeiros 11 meses de 2011 as vendas de e-books aumentaram 123,4% comparado com o mesmo período de 2010, representando uma quota de mercado de 17%, muito mais do que os anteriores 7%. De acordo com a consultora londrina PricewaterhouseCoopers (PwC), o mercado da América do Norte atingiria os 4 biliões de dólares 1 em 2012 e valor do mercado mundial de e-books aumentaria 300% para 9.941 milhões de dólares em 2012 (Kim et. al., 2011). No Brasil os números são razoáveis: o país disponibiliza mais de 16 mil obras. A primeira análise feita no país acerca da venda de e-books abrange o período entre 2011 e 2012 e diz que foram vendidos 227.292 de e-books nesses 2 anos, correspondente a uma faturação de 3.500 milhões de reais. A tendência é para aumentar largamente estes números, até porque a Apple só começou a vender e-books brasileiros em Outubro de 2012 e a Google, a Amazon e a Kobo só chegaram ao mercado brasileiro em dezembro desse ano (Melo, 2012). Já na Coreia do Sul, os números não são tão animadores: na maior editora do país as vendas de e-books representam menos de 2% do total de vendas e só se venderam 50 mil leitores de ebooks em 2010. Na China, o número de leitores de e-books aumentou para 101 milhões, tendo as receitas em 2009 sido de 49 milhões de dólares, correspondentes a 53,7 milhões de e-books vendidos (Lee, 2012). Apesar de parecerem números gigantescos, se compararmos o número de habitantes destes países da Ásia com outros que apresentam maior volume de vendas, vemos que ainda têm um longo caminho a percorrer. 1 Ao longo do trabalho serão sempre respeitadas as fontes consultadas e a moeda assinalada corresponde à vontade do autor de não querer alterar a informação apresentada nessas fontes. O câmbio para Euro poderia ser desvirtuado pela taxa de inflação. 23 1.2. Problemática Apesar de todos os dados fornecidos acima, uns mais animadores do que outros, a verdade é que Portugal se encontra bastante atrasado no que ao e-book diz respeito. Mais importante do que o número de títulos disponíveis ser praticamente residual, não há estatísticas nem estudos de grande relevo sobre a área, daí a maior parte da bibliografia ser baseada em artigos científicos em língua inglesa ou então em dados estatísticos sobre o mercado internacional. Este trabalho tem um objetivo principal: realização de um benchmarking relativo às práticas e problemas editoriais atuais. A partir deste grande objetivo surgem outros três secundários: 1) determinar as diferenças entre o modelo de negócio tradicional de uma editora e o actual; 2) melhorar os processos editoriais na Publindústria; e 3) implementar as melhores práticas de venda de conteúdos eletrónicos. Para atingir estes objetivos é necessária a realização das seguintes tarefas: 1) avaliar e caracterizar a evolução do processo digital, onde se irá caracterizar o e-book e o e-reader, comparar os diferentes formatos e apontar vantagens e desvantagens de cada um; 2) comparar o modelo de negócio atual com o modelo de negócio com o modelo de negócio tradicional de uma editora, onde se tentará perceber e criticar as mudanças na cadeia de valor e os problemas e os desafios decorrentes do digital; 3) analisar o mercado editorial atual, em que se irá abordar o volume de mercado dos e-books em alguns países; e 4) determinar as mudanças ocorridas na Publindústria, onde será feita a caracterização da editora e os vários processos realizados pela mesma na produção, edição e venda de e-books. A editora Publindústria será o caso de estudo. Foi fundada em 1986 e assume-se como uma produtora de conteúdos especializados de Engenharia. Neste momento, a Publindústria é uma empresa-âncora de outras marcas, que têm como missão a produção, distribuição e comercialização de conteúdos especializados, entre os quais se encontram revistas científicas e livros técnicos. Sendo uma editora, ainda que muito voltada para o digital, a Publindústria enfrenta novos problemas associados ao novo paradigma editorial. O modelo de negócio mudou, a cadeia de valor já não é a mesma e, consequentemente, a estrutura da editora terá que ser repensada. E o objetivo final do trabalho passa por identificar o que realmente mudou na indústria editorial e avaliar de que forma é que a Publindústria pode adaptar-se a essas mudanças. Surgem, desde logo, alguns problemas relacionados com a prática digital, que serão minuciosamente 24 identificados e caracterizados ao longo da dissertação, como questões legais (direitos de autor e imposto sobre o livro eletrónico/impresso), questões técnicas relacionadas com a produção (custo de produção, formato mais adequado a utilizar na edição, possibilidade de venda em fascículos/integral, etc.) ou questões de segurança, como a forma de pagamento mais utilizada e mais eficaz em compras online. É levantada uma questão de investigação, que irá guiar a dissertação e cuja resposta será o resultado mais importante a retirar da mesma: 1) Qual a evolução no panorama digital que melhor se adequa ao modelo de negócio da editora Publindústria? Tendo esta questão como premissa, o trabalho irá desenvolver-se no sentido de obter uma resposta válida e o mais correta possível para a mesma. 1.3. Contribuições do trabalho Como podemos verificar no ponto anterior, esta dissertação trará alguns contributos importantes e em vários sentidos: em primeiro lugar, para a comunidade editorial e para os interessados nas transformações que o mercado livreiro sofreu com o aparecimento do digital e, consequentemente, de novas ferramentas que permitiram ainda uma maior democratização do livro e da leitura; também para esta comunidade de pessoas este trabalho é importante para perceberem em que ponto está o mercado do e-book em Portugal e no resto do Mundo: uma das maiores dificuldades encontradas na realização da dissertação foi o facto de os dados sobre o desenvolvimento deste produto e da sua constante evolução ao longo dos anos estarem muito dispersos. O trabalho será, assim, também um aglutinador de informação que até agora está um pouco “perdida”. Além disso irei fazer comparações estruturadas entre vários portais de venda de conteúdos electrónicos em Portugal, o que também julgo ser inédito. Por outro lado, para a editora Publindústria será um passo enorme, visto ainda estarem numa fase embrionária no processo de adoção destas novas práticas e atitudes perante o mercado. É o meu grande objetivo: tentar que esta editora, líder no seu segmento de mercado, se torne líder também na oferta de conteúdos eletrónicos, pois o seu público-alvo encaixa-se perfeitamente nesta nova forma de venda, como iremos ver posteriormente. A inevitabilidade do e-book é inegável nos dias de hoje, logo só resta às editoras adaptarem-se a esta nova realidade o mais rapidamente possível. A nível 25 pessoal espero enriquecer os meus conhecimentos nesta área, sempre conjugados com a Ciência da Informação. Será um desafio, por exemplo, tentar fazer uma proposta de classificação dos conteúdos, bem como definir os requisitos do portal de venda. Estou convicto de que será um desafio a ser ultrapassado. 32 No ano seguinte é lançado o Kindle. Poder-se-ia dizer muita coisa acerca deste lançamento mas talvez a mais elucidativa seja ao mesmo tempo a mais simples: o lançamento do Kindle, da Amazon, em 2007, mudou para sempre a indústria livreira, assim como alguns hábitos de milhões de consumidores de livros. Isto porque, para além de ser o e-reader mais falado mundialmente, é provavelmente o mais visível ao público geral (Chiou, Ling, Huang, 2013). No entanto, o sucesso enorme do Kindle deve-se não só à tecnologia inovadora mas pelo abundante conteúdo digital da Amazon. A empresa conseguiu integrar com sucessos aparelhos para leitura (e-readers), conteúdo (e-books) e serviço (o site da Amazon). Os utilizadores cedo perceberam as potencialidades deste produto e esgotaram a primeira encomenda de Kindles para as lojas em 5 horas e meia e o aparelho permaneceu esgotado até abril do ano seguinte (Mashable, 2014). Esta é, aliás, já uma tradição para a Amazon e o Kindle, pois o público esgota rapidamente os novos modelos. Posteriormente, e tendo em conta o impacto que o Kindle criou na indústria dos livros, falarei mais aprofundadamente sobre este produto e sobre o criador, a Amazon, que revolucionou verdadeiramente o mercado. O Nook, da editora norte-americana Barnes & Noble, foi lançado em Novembro de 2009. Apesar de ter começado a publicar tardiamente, já na década de 80, a Barnes & Noble afigura-se nos dias de hoje como uma das maiores e mais lucrativas editoras do mundo, mais ainda quando falamos no segmento de e-book: com 40 milhões de consumidores, tem 27% da quota do mercado de e-books (Barnes&Noble, 2012). Foi o primeiro e-reader a funcionar com base no sistema operativo desenvolvido pela Google, o Android, que é utilizado 80% dos smartphones mundiais (G1, 2013). Tem características muito semelhantes às dos antecessores, com destaque para a ligação Wi- Fi e a tecnologia e-ink. Tem ainda ligação às redes sociais de forma a que os leitores possam partilhar impressões ou passagens favoritas. O Nook vai já no sexto modelo, o Nook GlowLight, lançado em Outubro de 2013. Apesar de os primeiros modelos terem vendido bem, os últimos perderam algum fulgor, especialmente pelos preços mais baixos da concorrente Amazon (Alawadi; Shrivastava, 2013). É atualmente vendido a 129 dólares e tem capacidade para armazenar cerca de 2 mil livros. O último e-reader a ser posto o mercado a ser lançado no mercado foi o Kobo, um produto canadiano, sendo assim o único dos principais e-readers do mercado mundial fora dos Estados Unidos da América. A empresa, com o mesmo nome, produziu-o e lançou-o em Maio de 2010. Tem capacidade para quase mil livros ou 30 mil com um cartão de memória. Em janeiro de 2012 a Rakuten, uma empresa japonesa, comprou parte da Kobo, e isso deu ainda mais projeção ao e-reader, tanto que em 2012 foi o e- 33 reader mais vendido, com uma quota de 20%, bem à frente do Nook e do Sony Reader (Hsiao, 2012). 2.2. Tipos de formatos Como vimos, há uma grande variedade de formatos de e-books. O problema para as editoras (nada incómodo, diga-se) é que todos eles são perfeitamente válidos e convenientes de serem usados, dependendo do tipo de documento que se deseja criar (e também do gosto pessoal do editor), para além, obviamente, do tipo de aparelho que se possui, visto que alguns formatos são exclusivos de determinados dispositivos. Comecemos pelo MOBI, que se afigura como um dos formatos mais utilizados mundialmente. Desenvolvido para ser visualizado no leitor MobiPocket e para ser suportado pelo dispositivo Kindle, ambos da Amazon, o seu nome mais curto é também um diminutivo de mobile, o que significa que ele foi desenhado para dispositivos móveis mas, atualmente, é multi-plataformas. É, ainda assim, mais adequado para pequenos ecrãs porque o limite de tamanho da imagem é de 64K. Isso aliado ao facto de o formato da imagem ser GIF torna difícil a sua visualização em dispositivos maiores, como tablets (GuidingTech, 2014). Tem a vantagem de permitir fazer anotações e possui um dicionário incorporado, uma ferramenta bastante útil e valorizada na leitura de e-books. Esta aparente contradição de o formato MOBI ser concebido para Kindle mas não ter capacidade para ser visualizado em dispositivos maiores do que os smartphones explica-se pelo facto de a Amazon ter desenvolvido, posteriormente, outro formato baseado no MOBI, o Kindle AZW, que é essencialmente uma cópia do MOBI mas com uma opção de alta compressão, que permite a leitura não só em smartphones, mas também em computadores e tablets. Difere ainda no esquema de DRM, um aspeto que iremos explicar mais à frente. Apesar de ser um formato muito utilizado no Mundo inteiro, a grande vantagem do MOBI é mesmo estar associado à Amazon e ao Kindle, o que lhe permite ter grande visibilidade. Contudo, como este dispositivo permite a leitura de outros formatos, o mercado começa a inclinar-se para outros dois formatos de e-book que iremos analisar de seguida. 2.2.1. ePUB 34 ePUB é uma abreviação de electronic publication, que se traduz por publicação eletrónica. Foi desenvolvido pelo IDPF – International Digital Publishing Forum – e assumida como padrão de uso dessa organização em 2007. A última versão do ePUB foi lançada em 11 de Outubro de 2011 e é chamada de EPUB 3.0 Recommended Specification. Combina, de acordo com o IDPF (2011) essencialmente 4 especificações:  EPUB Publications 3.0, que define a publicação ao nível da semântica e requisitos de conformidade para as publicações ePUB;  EPUB Content Documents 3.0, que define perfis de XHTML, SVG e CSS para uso no contexto de publicações ePUB;  EPUB Open Container Format (OCF) 3.0, que define um formato para o ficheiro e um modelo de processamento para encapsular um conjunto de recursos relacionados num único ficheiro (ZIP) EPUB Container;  EPUB Media Overlays 3.0, que define um formato e um modelo de processamento para sincronização de texto e áudio. Estas novas especificações aumentam significativamente as capacidades do ePUB de suportar um maior número de requisitos das publicações, como layouts complexos, media avançada e interatividade. O objetivo é que o EPUB 3 seja utilizado numa vasta gama de conteúdos, como livros, revistas e publicações educacionais, profissionais e científicas (IDPF, 2011). O ePUB não é mais do que um formato para armazenamento e uso de publicações eletrónicas ou e-books. Tem compatibilidade com vários leitores e, talvez por isso, se tenha assumido como a norma universal no setor dos leitores de e-books. Ainda assim, o Kindle, da Amazon, que revolucionou o mercado digital de livros, não suporta o formato ePUB, sendo o único dos principais leitores de e-books a não fazê-lo (Hidalgo, 2013). O ePUB surgiu porque havia uma preocupação em relação à proliferação de formatos que eram incompatíveis e dificultavam a leitura de e-books em dispositivos diferentes. Assim, quase toda a indústria americana criou e está a utilizar o ePUB. Está construído em 3 partes: conteúdos de endereçamento, metadados do pacote e arquivo (Ferrara, 2013). 35 Este formato trabalha com tecnologias utilizadas mundialmente e conhecidas de todos, como o XHTML, o CSS e o XML, o que é uma vantagem. O conteúdo é quase sempre escrito em XHTML e é formatado através de uma folha de estilo, o CSS. 2.2.2. PDF O formato PDF, sigla de Portable Document Format [formato de documento portátil], começou a ser desenvolvido pela Adobe Systems em 1993. O objetivo do cofundador da Adobe, John Warnock, ao criar o sistema “Camelot”, que evoluiu para PDF mais tarde, era o de conceber um formato de ficheiro que representasse documentos independentemente da aplicação do software, do hardware e do sistema operativo. O processo revelou-se bem-sucedido e o formato passou a descrever documentos com texto, gráficos e imagens. A adoção do PDF no começo foi feita de forma lenta e isto aconteceu por vários motivos: 1) os documentos em formato PDF eram muito maiores do que os documentos de texto e isso levava a mais tempo de download, quando a velocidade da Internet era muito menor do que é nos dias de hoje; 2) o Adobe Acrobat, produto da Adobe para ler e criar ficheiros em PDF, não estava distribuído de forma gratuita; 3) as primeiras versões não possuíam suporte para hiperlink, o que tornava inútil a sua utilização na Internet; e 4) a apresentação de arquivos PDF era lenta nas máquinas lentas dessa altura (Prepressure, 2013). A 1 de j ulho de 2008, o PDF passou a ser lançado como uma norma gratuita, publicado pelo International Organization for Standardization, ficando com o nome de ISO 32000-1:2008. A Adobe é um dos únicos membros do comité técnico da ISO e continua a produzir especificações novas e alterações aos modelos mais recentes. A última foi lançada em Maio de 2013 e tem o nome de Acrobat XI Pro. Atualmente os ficheiros em formato PDF podem incluir etiquetas, texto equivalente, subtítulos, descrições em áudio, etc. Podem ter contidas restrições DRM, que limitam a cópia, a edição e a impressão, que depende do software de leitura. A partir de outros formatos, como os populares ODF (do LibreOffice, destinado à utilização pessoal e profissional com assuntos relacionados com o escritório, oferecendo funções como editor de texto, editor de apresentações e base de dados), o DOC (da Microsoft Word e que é o processador de texto mais conhecido e utilizado do mundo (Tolomelli, 2012), ou JPEG e PNG 36 (formatos de imagem) é possível convertê-los para PDF com alta qualidade assegurada. Quando se converte esse tipo de documentos para PDF eles tomam a aparência de como se tivessem sido imprimidos, mas ao contrário dos documentos impressos, os ficheiros em PDF podem conter links e botões, campos de formulário, vídeo e áudio (Adobe, 2013). Em suma, e segundo Bear (2013), o formato PDF pode ser utilizado, entre outras coisas, para:  Partilhar ficheiros com outros que não tenham o mesmo software, hardware ou sistema operativo;  Partilhar ficheiros que podem ser protegidos contra visualização, impressão, cópia e edição não-autorizada;  Editar documentos eletrónicos;  Criar ficheiros com anotações, hyperlinks e marcadores que poderão ser partilhados através de e-mail e na Web;  Criar formulários interativos. 2.2.3. Comparação entre ePUB e PDF A principal diferença entre os dois formatos descritos é, essencialmente, o modo como apresentam a informação para o leitor. Se virmos o exemplo de uma página impressa com 500 caracteres e se ela for transformada para PDF e ePUB para ser lido num computador as diferenças não serão muitas. Pelo contrário, num tablet ou num smartphone a leitura altera-se drasticamente: se com o formato ePUB o texto se adapta ao dispositivo, alterando o tamanho da letra e a disposição do texto, com o PDF este mantém-se inalterado, o que tornará muito difícil a leitura de tantos caracteres num ecrã de dimensões reduzidas. Esta e outras características em que os formatos diferem um do outro podem ser resumidos na tabela abaixo: PDF ePUB 37 Texto A apresentação do texto é estática. Preserva o layout original com qualquer tipo de dados (texto, imagem, etc.). Ideal para textos curtos ou com várias tabelas, gráficos, imagens, mapas, etc. O texto molda-se ao dispositivo onde é lido. Ideal para documentos longos ou com grande quantidade de texto. Dispositivo mais adequado Computador e-readers, smartphones e tablets Tamanho do ficheiro Grande Pequeno Leitura O virar de página é feito de forma horizontal. O leitor muda de página fazendo scroll na vertical. Devido às margens no topo da página o espaço entre o texto pode ser grande. Segurança A segurança DRM é obrigatória A segurança DRM pode ser um complemento adicionado, não sendo no entanto obrigatória. Tabela 1 - Comparação entre os formatos ePub e PDF Ambos os formatos têm disponíveis funcionalidades importantes que tornam a leitura mais agradável: pesquisa, anotação, cópia de texto, áudio e vídeo. Analisando as características de cada um deles, surge a ideia de que o formato PDF foi bastante importante no começo do e-book, sendo pioneiro na apresentação de conteúdo. Contudo, e apesar de ser um formato muito popular, utilizado por milhões de pessoas em todo o mundo, no que diz respeito ao e-book não se conseguiu adaptar convenientemente e começa a ser ultrapassado pelo ePUB. Este último é mais voltado para o dinamismo do conteúdo, o que dá uma experiência de leitura bastante mais agradável. De mais a mais, a leitura de e-books faz-se recorrendo não só ao computador mas também (e sobretudo) a e-readers, tablets e smartphones, dispositivos em que a leitura em PDF se torna muito difícil e aborrecida. Numa discussão em janeiro deste ano que envolveu todo o território brasileiro o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) decidiu que todos os livros 38 escolares em formato digital nas áreas de Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Ciências e Arte (para alunos dos 6 aos 10 anos) passariam a estar disponíveis em PDF. Esta decisão gerou uma enorme discussão, tendo sido considerada “um retrocesso”. No entanto, Gabriela Dias, especialista em edição digital, resumiu a situação de forma a confirmar exactamente o que discutimos acima: “(…) O fato de o governo ter estipulado uma configuração mínima já pode ser considerado um avanço e o PDF, apesar de não ser o formato mais avançado, é o mais universal e portátil” (Publishnews, 2014). Ou seja, coloca-se aqui em perspetiva a questão da popularidade vs funcionalidade. Na minha opinião o Brasil deu um passo muito importante nesta matéria. É importante que nesta primeira fase haja diretrizes na adoção do livro eletrónico. Mesmo registando um crescimento considerável nos últimos anos, o Brasil ainda se mostra um pouco relutante na leitura de e-books, portanto, o objetivo imediato é propagar este produto e garantir que o maior número de pessoas o utiliza. Não podemos esquecer que o Brasil ainda é um país com uma grande desigualdade económica e social, o que faz com que milhões de pessoas tenham acesso à melhor tecnologia e outras tantas não tenham mais do que um computador antigo, utilizado por todo o agregado familiar. Neste sentido, é uma boa ideia optar-se pelo PDF, que permite uma maior universalidade, pois pode ser lido em todos os dispositivos de leitura. 2.3. Vantagens do e-book Ao longo do trabalho foi-se percebendo o que o e-book trouxe de novo e, especialmente, a forma como revolucionou o mercado editorial de forma bastante sustentável, encontrando-se a crescer de ano para ano, principalmente no mundo ocidental. Milhões de pessoas já leram ou lêem habitualmente e-books e preferem este formato ao tradicional impresso. O que as levará a abandonar o formato que sempre conheceram para se aventurarem num mundo novo, ainda a dar os primeiros passos? Destacarei a seguir algumas vantagens do formato digital em relação ao impresso que me pareceram as mais significativas. 2.3.1. Para o editor a) Poupança de custos de produção e de distribuição 39 Apesar do elevadíssimo custo inicial, tanto tecnológico como humano (uma das principais razões que inibe as editoras de entrar no mercado digital), após essa primeira fase os custos irão reduzir substancialmente, até mesmo acabar, nomeadamente na impressão, encadernação e distribuição dos livros. Apenas a título de exemplo e falando dos jornais, que também estão a aderir com bastante sucesso ao digital, Nicholas Carlson (2009) refere que imprimir o New York Times custa o dobro do que custaria enviar um Kindle para todos os subscritores do jornal. Por aqui se percebe a enormidade dos custos de impressão, que podem ser facilmente anulados com versões digitais. De notar que esta declaração foi proferida há já quatro anos e, sendo que a tendência é para o constante crescimento do mercado e descida dos preços dos e-readers, essas diferenças de custo são hoje, provavelmente, ainda mais acentuadas. Mesmo assim, pode haver casos em que a produção de um e-book seja mais cara do que a sua versão impressa (principalmente quando o texto inclui hiperlinks multimédia ou um trabalho muito demorado de paginação feito pelo designer), sendo que somente na distribuição temos a certeza de que o custo baixa realmente. b) Eliminação dos custos com excesso de stock Como não existe inventariação física não há o perigo de haver excesso de livros em stock que depois não seriam escoados para o mercado ou então seriam vendidos a preços muito reduzidos, o que causaria prejuízos ao editor. Segundo José Fernando Gonçalves (2010) há três tipos de custos associados a um sistema de stocks: 1) custo dos aprovisionamentos (valor pago ao fornecedor e custo associado ao processamento das encomendas, como papel, telefone, transporte, controle de qualidade, etc.); 2) custos associados à existência de stocks (armazenamento, seguro, perda de qualidade e custos de capital); e 3) custos associados à ruptura dos stocks (que pode originar perda de clientes, um custo muito difícil de calcular). Com o e-book há, obviamente custos de stock, começando por um sistema de bases de dados, no entanto, o armazenamento e a ruptura dos stocks são eliminados, criando uma vantagem para o editor. c) Facilmente editados Uma das grandes vantagens dos e-books para os editores é a facilidade com que eles podem ser editados, para correção de erros, para acrescentar informação ou simplesmente para lançamento de uma nova edição. Já no livro impresso acontece o 40 contrário, onde um erro ortográfico pode demorar meses a ser corrigido, tendo em conta que o processo de edição é mais lento (e também mais dispendioso). 2.3.2. Para o leitor a) Maior comodidade Imaginemos o processo de compra de um livro impresso por parte de um leitor: tem que sair de casa, dirigir-se a uma livraria, feira do livro ou qualquer outro local que venda o livro que pretende e voltar para casa. Essa deslocação pode ser feita a pé, mas também de automóvel ou em transportes públicos onde o autor gastaria algum dinheiro e poderia ser feita num dia com más condições meteorológicas, o que traz sempre inconvenientes. Acima de tudo, o leitor ou comprador, neste caso, iria sempre perder algum tempo, fossem uns minutos, fossem umas horas. Quando compra um e-book o leitor apenas tem que ligar o computador ou outro dispositivo que tenha essa funcionalidade, como tablets ou smartphones, escolher o livro que pretende e efetuar o pagamento, um processo que pode demorar menos de um minuto. A partir desse momento poderá ler o livro e neste processo o leitor não teve que abandonar o conforto de sua casa. b) Poupança de dinheiro Este é, talvez, o argumento que leva mais pessoas a adoptarem o digital como principal formato de leitura de um livro. A perceção geral é a de que um e-book é entre 30% a 70% mais barato do que a sua versão impressa, embora vejamos mais à frente que não é assim tão linear. Como é óbvio essa percentagem depende do género a que o livro pertence, bem como o local onde se compra. Veja-se um exemplo de um bestseller recente (lançado em Maio de 2013), “Inferno”, de Dan Brown, em duas realidades distintas: na Amazon, líder mundial de venda de e-books, a versão impressa custa 9€, enquanto o e-book do mesmo livro custa 2,40€ (Amazon, 2014a); já no portal Wook, propriedade da Porto Editora, editora líder em Portugal, a versão impressa deste livro tem o preço de 19,98€ (Wook, 2014b) e o e-book de 17,99€ (Wook, 2014c). Ou seja, se no primeiro caso temos uma diferença de 6,40€, que corresponde a uma descida de preço de 375%, no segundo caso a descida é de apenas 2€, correspondentes a 11% menos. Esta diferença explica-se pela lei do mercado da oferta e da procura, em que o do nosso país é muito reduzido. De qualquer forma, o e-book é, regra geral, mais barato do que a versão impressa, havendo casos em que é mesmo gratuito. Isto acontece pela redução de custos descrita acima. Poder-se-ia utilizar o argumento da necessidade de se 41 possuir um aparelho para ler o e-book. Não sendo o argumento inválido, a verdade é que grande parte da população dos países desenvolvidos é tecnologicamente avançada e autónoma e já possui computador e ligação à Internet mesmo que não leia e-books. Quando aos e-readers usados especialmente com esta finalidade trata-se de um investimento, é certo, mas que é feito esporadicamente, talvez uma vez de cinco em cinco anos, se for um leitor exigente e que goste de estar a par das novas tecnologias. O preço do Kindle em Portugal em 2013 varia entre 67 euros (a versão mais antiga), 104 euros (Kindle Paperwhite) e 149 euros (Kindle Paperwhite 3G) (iPhil, 2013). c) Grande interatividade Os modelos mais recentes dos e-readers incluem ligação Wi-Fi que permite ligação às redes sociais. Com esta funcionalidade os leitores podem mostrar aos seus amigos o que estão a ler e partilhar com eles as suas passagens favoritas do livro. Podem ainda avaliar e comentar o livro, ajudando, indiretamente, a promovê-lo. Possuem ainda uma ligação a dicionários online e, quando o leitor não souber o significado de uma palavra, basta que coloque o dedo sobre a palavra para que a sua definição apareça imediatamente. d) Poupança de espaço físico Quantos metros quadrados teríamos que reservar em nossa casa para armazenar 3 mil livros? Várias prateleiras, certamente. Com as últimas versões de e-readers podemos ter essa quantidade de livros num dispositivo do tamanho de um livro apenas. E, numa altura em que, em Portugal, o arrendamento já se encontra a par da compra quando se procura uma casa (Idealista, 2014), esta questão torna-se ainda mais importante: quando se muda de residência habitualmente, a mudança de livros tornase muito mais fácil quando se armazena todos num e-reader. e) Pode ser lido no escuro Pode não parecer a característica mais fundamental de um e-book ou, neste caso, de um e-reader, mas é sempre uma vantagem quando podemos ler em qualquer tipo de espaço, quer seja escuro ou iluminado. E isso não acontece com o livro tradicional, em 48 E mais do que isso, não há nenhum relatório anual com fiabilidade para se assumir como uma referência de análise ao mercado português de e-books, como tantos outros países têm. Também por este facto esta dissertação é tão importante. Gráfico 2 - Número de e-books vendidos em alguns dos principais mercados mundiais em 2012 (Fonte: Carrenho, 2012) 2.5.1. Reino Unido Foram várias as mudanças que ocorreram no Reino Unido por causa da ascensão do e-book, sendo este um dos mercados mais fortes a nível mundial. Muitos consideram que o e-book tem sido prejudicial para as pequenas editoras e que tem o efeito de “secar tudo à sua volta”. Alguns números interessantes podem ajudar a sustentar essa ideia: o e-book forçou ao encerramento de 98 editoras no Reino Unido (mais 42% do que no ano anterior), noticiou o jornal ingês The Guardian em novembro passado (Bury, 2013). Isto acontece devido ao decréscimo acentuado que o e-book e as grandes empresas, como a Amazon, provocam no preço dos livros e na consequente pressão sobre as editoras para também baixarem os valores por elas praticados. Muitas delas, obviamente, não conseguem acompanhar esta tendência. Liz Bury, no mesmo artigo, refere que o nicho académico é particularmente vulnerável porque está bastante exposto ao fenómeno da pirataria digital e da “venda online de livros em segunda mão”. Em 2012 as vendas do e-book no Reino Unido subiram 134%, passando a valer 7,4% do mercado livreiro. A venda de livros impressos, por oposição, decresceu 1%. Já no ano de 2013 as vendas de e-books aumentaram 20% em relação a 2012, alcançando um valor próximo dos 250 milhões de libras, enquanto o mercado impresso, embora tenha 1000 950 200 115 100 60 35 18 16 11 10 0 250 500 750 1000 1250 Reino Unido EUA China Alemanha França Rússia Itália Polónia Holanda Brasil Espanha Número de ebooks vendidos (em milhares) 49 registado uma descida de 4%, ainda domina claramente, com vendas de 2,2 mil milhões de libras (Hoffelder, 2014). Gráfico 3 - Número de e-books vendidos no Reino Unido em 2013 pelas principais editoras (Fonte: Abram, 2014) A realidade do Reino Unido é a que mais se aproxima da dos Estados Unidos da América, em volume e crescimento, sendo uma das prováveis causas o idioma. No entanto há outros motivos válidos para tal: a presença de grandes editoras que se conseguiram adaptar aos novos tempos, como a Penguin, a Springer e a Simon & Schuster, é também um motivo óbvio para o crescimento deste mercado. Também o facto de ser uma região próspera da Europa tem algum peso, claro. A tabela seguinte mostra como o número de tablets no Reino Unido está a aumentar (e prevê que a subida continue, pelo menos, até 2017): Utilizadores de Tablets, 2011-2017 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 Utilizadores de Tablets (milhões) 5,3 14,1 19,7 24,4 28,1 31,6 34,6 % de aumento 221% 165% 39% 24% 15% 13% 9% % da população total 8,5% 22,3% 30,9% 37,9% 43,3% 48,3% 52,4% % dos utilizadores de internet 11,8% 30,4% 41,1% 49,7% 56,1% 62,0% 66,9% Tabela 2 - Utilizadores de Tablets no Reino Unido (Fonte: eMarketer, 2013a) 13.645.881 13.210.071 7.440.907 5.437.000 2.607.000 0 2.000.000 4.000.000 6.000.000 8.000.000 10.000.000 12.000.000 14.000.000 16.000.000 Hachette Penguin Random House HarperCollins Pan Macmillan Simon & Schuster Número de ebooks vendidos 50 O aumento de e-books registar-se ao mesmo tempo que se vê um aumento de tablets não é coincidência. É necessário ter um dispositivo de leitura e, hoje em dia, o computador começa a não ter tanto peso no mercado, com o tablet e os smartphones a assumirem muito protagonismo. E para quem possui um tablet é relativamente fácil adquirir e ler um livro eletrónico em pouco tempo. A Fig. 4 mostra que, neste ano de 2014, há 24,4 milhões de tablets no Reino Unido, sendo que perto de 38% da população possui algum. A barreira dos 50% será ultrapassada precisamente em 2017, segundo estas previsões. No entanto, é óbvio que nem todas as pessoas que possuem um tablet o utilizam para ler e-books. Ainda assim, o gráfico seguinte mostra um número bastante razoável, nesta matéria, dizendo que 47% dos inquiridos (com idades entre os 18 e os 80 anos) utilizam o tablet para ler e-books: Gráfico 4 - Atividades preferidas dos utilizadores de tablets no Reino Unido em 2013 (Fonte: eMarketer, 2013a) Não nos podemos esquecer que aqui não estão representados os e-readers, que também contam com milhares de utilizadores. Em 2012, por exemplo, a eMarketer estima que houvesse 9.5 milhões de utilizadores de e-readers no Reino Unido. A previsão para 2016 é de 14,6 milhões de utilizadores, correspondentes a 22,7% da população: 2% 27% 47% 55% 65% 66% 68% 69% 80% 89% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Outros Ler revistas Ler e-books Consumir entretenimento Aceder a uma rede social Fazer compras online Ler notícias Jogar Utilizar o e-mail Procurar informação Percentagem de respostas 51 Gráfico 5 - Utilizadores de e-readers no Reino Unido (Fonte: eMarketer, 2013b) A Amazon está muito presente no mercado britânico: nos primeiros três meses de 2013, 79% das pessoas que fizeram download ou partilharam um e-book utilizaram a plataforma da Amazon. A iBookstore da Apple foi a segunda plataforma mais utilizada, com 9% de acessos, e a Google a terceira, com 8% (Campbell, 2013). 2.5.2. Espanha Espanha, apesar de ser um país de média dimensão tendo em conta a área total e o número de habitantes, tem uma característica muito importante, o idioma. Com 650 milhões de pessoas a terem o castelhano como primeira língua, toda a cultura do país é dirigida e exportada para a América Latina. Isto faz com que seja dos mercados livreiros mais fortes do mundo: em 2010, por exemplo, Espanha registava 88 mil novos títulos por ano, tinha 48 mil e-books disponibilizados e gerava um volume total de 2.772 milhões de euros em vendas de formato impresso e digital. Espanha é visto como um país de segunda linha, digamos assim, no que ao e-book diz respeito (a par de França, Alemanha, Brasil ou Japão), mas ainda um pouco longe dos líderes, EUA e Reino Unido (Wischenbart, 2013a). O ano de 2011 foi bastante importante para o mercado espanhol: a entrada em força no país das lojas da Apple, em outubro, e da Amazon, em Dezembro, bem como o 1,8 4,6 11,2 12,5 13,2 14,0 14,6 2,8% 7,3% 17,8% 19,7% 20,8% 21,8% 22,7% 4,0% 10,0% 24,0% 26,0% 27,0% 28,0% 29,0% 0,0% 10,0% 20,0% 30,0% 40,0% 50,0% 0,0 3,0 6,0 9,0 12,0 15,0 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 Utilizadores de e-readers (milhões) % da população total % dos utilizadores de Internet 52 lançamento de uma plataforma espanhola por parte da Kobo e do aparecimento do Google Editions foram uma grande alavanca para a ascensão dos e-books naquele território. Segundo David Pemán, o ano seguinte não ficou nada atrás: diz o autor que em 2012 “o mercado cresceu mais e aconteceram mais coisas que em toda a sua história” (Pemán, 2013). A subida galopante do mercado do e-book contrasta com a descida dos preços praticados: se em 2010 havia muitos e-books com preço de lançamento de 14 euros, em 2011 o preço médio rondava os 8,5 euros e em 2012 os 7,8 euros. Quanto a mim reflete uma maturação interessante do mercado, pois os preços iniciais eram pensados numa lógica de continuidade ao que se fazia no impresso; atualmente os preços praticados são ajustados aos custos de produção do e-book e também ajudam a que o cliente se familiarize com o produto, pois o valor a pagar é muito mais baixo do de há uns anos atrás. A faturação do e-book reflete esse sucesso: se em 2011 Espanha registava 2 milhões de euros de faturação neste produto (materializadas em 1,5 milhões de downloads), no ano seguinte o valor era de 12 milhões, 6 vezes mais (Pemán 2013). A Federação de Grémios de Editores de Espanha (2011), na sua análise de 2011 aponta para uma evolução drástica desse ano em relação a 2010: 2010 2011 Aumento de Títulos editados em 2011 11.748 40.328 243,3% Títulos digitalizados do fundo do catálogo 25.927 81.169 213,1% Títulos comercializados em formato digital 25.567 52.005 103,4% Faturação em venda de livros em formato digital (em milhões de euros) 70,50 72,58 2,9% Tabela 3 - Edição Digital em Espanha (Fonte: Federação de Grémios de Editores de Espanha, 2012) 2.5.3. EUA Não poderíamos abordar o mercado mundial de e-books sem mencionarmos o líder nesta matéria. Os Estados Unidos da América contam com um mercado firme e com sustentabilidade suficiente para se assumir como mais poderoso do que o tradicional já na próxima década. 53 Para se ter uma ideia, nos primeiros 11 meses de 2011 as vendas de e-books nos EUA aumentaram 123,4% comparado com o mesmo período do ano anterior, representando uma quota de mercado de quase 20%, muito mais do que os anteriores 9%. Nesse ano o país tinha cerca de 1,7 milhões de e-books disponíveis ao público. Em 2012 voltou a registar-se um aumento acentuado, com o e-book a atingir uma quota de 31% do mercado livreiro. No gráfico seguinte poderemos verificar isso mesmo, além de reforçar o domínio dos EUA sobre todos os outros países: Gráfico 6 - Vendas de e-books em comparação com o mercado global livreiro (%) (Fonte: Enders Analysis, 2012) Poder-se-ia dizer muito acerca do mercado digital neste país, mas tudo o que se escreveu atrás sobre a evolução do e-book, desde o projecto Gutenberg até aos dias de hoje, incluindo a chegada da Amazon e dos e-readers (e, posteriormente, os tablets), aplica-se apenas e só aos Estados Unidos da América, pois foi lá que tudo se iniciou e deu os primeiros passos. Desde o início que registaram progressos significativos e constantes e, mesmo hoje, os números continuam a ser muito animadores. A Simon & Schuster, uma das maiores editoras norte-americanas, refere que no segundo trimestre de 2013 29% das receitas dizem respeito à venda de e-books. Mas foi também em 2013 que se viram os primeiros sinais de abrandamento do mercado, recuo até: nos primeiros seis meses do ano os 731,4 milhões de dólares em volume de vendas mostram uma queda nas receitas de 3,6% (Hoffelder, 2013). Contudo venderam-se mais e-books do que no mesmo período de 2012, com uma subida de 3% (Wischenbart, 2013b). 0,3% 0,3% 1% 2% 11% 20% 0,5% 0,3% 2% 3% 15% 31% 0% 10% 20% 30% 40% Espanha Outros países da EU Alemanha França Reino Unido EUA 2012 2011 54 Quanto a mim estes números não são alarmantes. É natural que numa evolução meteórica e abrupta haja sempre um ponto de quebra e, a partir desse momento, a subida é feita de forma mais lenta. Julgo que estamos a chegar a esse ponto, pois é incomportável vários países registarem aumentos na ordem dos 130%, ano após ano, durante cinco, seis ou mais anos seguidos. Há até um relatório que prevê que em 2016, no Reino Unido, o mercado de e-books irá atingir uma quota de 35% de todo o mercado livreiro, mas, a partir dessa data, o crescimento continuará será muito mais lento (Schaffi, 2014). O mesmo deverá acontecer nos restantes países onde este produto tenha uma quota de mercado elevada. No entanto, só o facto de a Amazon vender, desde 2012, mais e-books para o Kindle do que livros impressos dá a entender que este produto está bem consolidado e em pouco tempo vai dominar o mercado livreiro no país. A consultora PwC previu que em 2017 o mercado dos e-books nos Estados Unidos será maior do que o mercado de livros impressos (Owen, 2013). 2.5.4. Portugal Como dissemos atrás, o mercado de e-books em Portugal ainda é tão reduzido não há ainda dados concretos sobre ele, o que em muito dificulta uma análise objetiva e fiável. A situação atual será tratada no capítulo referente aos principais portais de venda de e-book em Portugal, portanto, o que interessa tratar aqui é o percurso do ebook até ao momento. O estudo de José Soares Neves e Jorge Alves dos Santos “Edição e comercialização de livros em Portugal: empresas, volume de negócios e emprego (2000-2008)”, de 2010, é muito interessante mas apresenta resultados que poderão estar desatualizados no presente momento (os mais recentes são de 2008) e, além disso, não se concentra no livro eletrónico, que é o que nos interessa nesta dissertação. Seria interessante que fosse feito um estudo semelhante pelas entidades competentes e que abordasse os dois tipos de formato do livro, para se ter uma ideia da evolução da edição e das vendas do e-book. Segundo a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, a editora Centro Atlântico foi a primeira, em Portugal a editar e-books, em 1999 (DGLAB, 2014). Como se pode ver na reportagem de Cruz (2011), em 2011 as editoras portuguesas ainda estavam receosas com o e-book e poucas eram as que tinham algum publicado no seu catálogo. Isto revela o grande atraso de Portugal a este nível porque, nos países digitalmente mais avançados, esse foi já um ano de confirmação do formato. A reportagem mostra que o grupo Leya, que integrava 17 editoras, era o player mais 55 destacado na venda de e-books, mas que contava apenas com cerca de 200 obras. Isto é muito pouco quando comparado com editoras internacionais, mas felizmente hoje o panorama é bem mais animador. Como já foi dito, não há dados estatísticos do presente que nos permitam tirar conclusões acerca da evolução do mercado ao longo dos anos. Num capítulo posterior focar-nos-emos em comparar alguns portais de venda de e-books e aí sim poderemos verificar a quantidade de e-books disponibilizados por cada editora. 2.5.5. Brasil O mercado brasileiro começou a desenvolver-se muito lentamente, mas tem vindo a registar resultados bastante interessantes. Apesar de ser um país com quase 200 milhões de pessoas, a taxa de alfabetização ainda é preocupante e milhões de pessoas não podem ter acesso a um computador ou a um tablet, como vimos atrás. Isso dificultou um aparecimento repentino mas a evolução está a ser feita de forma inteligente e consistente. Por exemplo, estima-se que em 2013 havia já cerca de 9,5 milhões de tablets neste país (Santi, 2013). Para as editoras, no início, era um risco muito grande e elas não estavam interessadas em vender para pequenas livrarias. Apenas a Xeriph, a primeira distribuidora e agregadora de livros digitais no Brasil, o fazia. Essas pequenas livrarias não conseguem suportar os custos elevados que um serviço de e-commerce exige (técnicos e tecnologia). Para se ligarem ao sistema da Xeriph as livrarias teriam que pagar à distribuidora 750 reais por mês, sendo que ficavam com uma fatia de 45% a 50% das vendas. Isto significa que uma livraria teria que faturar 1500 reais por mês, o equivalente a 50 e-books a 30 reais cada um, apenas para pagar o custo de ligação. Para quem tem uma base de clientes pequena o risco é muito grande (Melo; Tavares, 2013). No ano de 2012 deu-se o boom do mercado brasileiro: de fevereiro a agosto de 2012 foram colocados à venda mais de 5 mil novos e-books no Brasil, chegando aos 16 mil títulos (um aumento de quase 50%). As 10 maiores editoras ofereciam 1/3 dos ebooks em português; quase 30 ofereciam mais de 100 e-books para venda (60% do total); por outro lado, mais de 150 editoras oferecem menos de 15 e-books (6,7% do total).Quase uma centena delas oferecia menos de 5 e-books, o que significa que havia ainda um longo caminho a percorrer. Em número de compradores o Brasil alcançou o 3º lugar a nível mundial, com 15 milhões de compradores até fevereiro de 2012, apenas atrás dos Estados Unidos da América (57 milhões) e da Índia (25 milhões). Mercados 56 aparentemente mais fortes, como o britânico ou o coreano foram ultrapassados pelo brasileiro. No gráfico abaixo poderá ver-se a evolução da venda dos e-books no Brasil durante todo o ano de 2012: Gráfico 7 - Venda de e-books no Brasil em 2012 (Fonte: Melo, 2013) A razão mais plausível para o crescimento abrupto da venda de e-books em dezembro de 2012 é o facto de este ter sido o primeiro mês em que a Amazon começou a vender no Brasil, com uma oferta inicial de 1,4 milhão de livros digitais, 13 mil deles em português. O crescimento continuou ainda no ano seguinte, tendo o Brasil alcançado o 10º lugar mundial dos maiores catálogos de livros digitais, com 11 mil publicações em português. Prevê-se ainda mais evolução a curto-prazo, tendo em conta que o mercado neste país não está minimamente esgotado. 57 3. Método de investigação Em primeiro lugar é importante saber o que é uma metodologia, que pode ser definida como “um conjunto de diretrizes que orientam a investigação científica” (Boutin; Goyette; Lessard-Hébert, 1994). Sendo que, por definição, uma metodologia é uma sucessão de métodos, é fácil perceber que o método é uma diretriz que orienta a investigação. Aliás, a palavra tem origem no grego (methodos) e significa, literalmente, “caminho para chegar a um fim”. Coutinho (2013) resume a investigação científica em duas questões simples: “Qual é o meu problema?” e “O que devo fazer?”. Mas, continua, se a base da investigação é a procura, mais questões se levantam: “Procurar o quê?”, “Procurar como?”, “Com que objetivos?”. O método de investigação escolhido na abordagem desta dissertação é o estudo de caso, fazendo parte do método qualitativo. Coutinho (2013) decompõe a construção deste método em 5 etapas: De acordo com Shaw (1999), (citado em Coutinho, 2013), neste tipo de método o mais importante é a relevância dos significados, tendo o investigador o propósito de particularizar, ao invés de generalizar. A avaliação qualitativa é descritiva e indutiva (Ignácio; Pesce, 2009). Para a obtenção e análise de dados costuma recorrer-se a técnicas de observação, seja ela naturalista (no meio natural em que ocorrem), participante (com a participação ativa do investigador) ou participativa (mediatizada) Construção da Teoria Busca de padrões (Teoria) Formar categorias de dados Levantamento de questões Investigador recolhe dados 64 5. Desafios atuais e mudança na indústria 5.1. Imposto Habitualmente uma das queixas recorrentes aos livros físicos é o seu preço. A verdade é que a sua produção tem um custo elevado, com a impressão a ocupar uma fatia importante nos custos. Sendo que um e-book não tem impressão será que os preços são mais agradáveis aos leitores? Um dos pontos fracos do e-book, principalmente em Portugal, é o facto de o preço ainda ser pouco apelativo. A questão do preço dos e-books é um pouco enganadora, na medida em que há uma opinião generalizada de que o produto é barato. Esta afirmação não é totalmente falsa, pois a grande maioria dos e-books são mais baratos do que a sua versão impressa e muitos deles são substancialmente mais baratos. A Amazon foi pioneira também na fixação dos preços reduzidos e são milhões os livros que custam entre 0,99 dólares e 1,99 dólares. Outros vão até à barreira dos 5 ou 6 dólares e só uma pequena parte é que vai além dos 10 dólares. Isto acontece nos EUA, mas noutros mercados a situação não é semelhante. Na Europa, por exemplo, as leis que regulam o IVA dos livros ainda são muito restritivas relativamente aos produtos digitais, nomeadamente ao e-book. O Parlamento francês, por exemplo, aprovou uma decisão, em Novembro de 2011, que aumentava a taxa mínima de IVA de 5,5% para 7% mas que incluía os livros eletrónicos nesse patamar (Bethencourt, 2012). A taxa mínima regula bens alimentares de primeira necessidade (como água, pão, arroz, massa, azeite, leite e derivados, algumas carnes, etc.) ou outros bens considerados essenciais ao ser humano, como medicamentos, transportes públicos ou eventos culturais que sejam considerados de elevada importância para nós. Em vários países da Europa a taxa aplicada nos livros é a mínima e em alguns o livro nem sequer tem IVA associado, como o Reino Unido (Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais, 2013). Assim, os livros impressos são desde há muitos anos considerados um bem essencial para o Homem, mas a sua versão eletrónica já não o é. Isto pode acontecer porque ninguém está ainda muito bem preparado e consciente dos avanços tecnológicos e das suas repercussões, incluindo os legisladores. O Luxemburgo (onde têm sede a Amazon, Kobo e Nook) acompanhou a França nesta decisão, também em janeiro de 2012, sendo que a taxa mínima nesse país é de 3% e é aí que se situa o livro impresso desde 1992 (Bethencourt, 2012). A lei entrou em vigor em ambos os países em abril de 2012 e adivinhava-se assim uma grande viragem sobretudo na perceção deste novo formato como algo 65 sustentável e de futuro. Tal não aconteceu: poucos meses depois, a União Europeia multou os dois países por estes terem aplicado taxas reduzidas sobre a venda de ebooks, o que é considerado pelo órgão “incompatível com as regras da UE”. Continuando com a justificação para esta decisão, a UE afirmou que “essa decisão [de baixar o IVA sobre os e-books] cria sérias distorções de competição para o detrimento de operadores nos outros 25 países-membros, já que livros eletrónicos podem ser facilmente adquiridos num país-membro que não é o país de residência do consumidor” (Reuters, 2012). Não me parece uma justificação de todo plausível, pois há várias desigualdades entre os países da UE e as taxas de IVA são mais um exemplo disso. Aliás, como foi dito acima, o Reino Unido não aplica imposto aos livros físicos, ao contrário de vários países que aplicam o valor mínimo, como Portugal, e este caso a UE não considera que isso seja “incompatível com as regras da UE”. Ainda assim, a justificação de que o organismo não aceita a decisão da França e do Luxemburgo por uma questão de desigualdade entre todos os estados-membros pode servir como um incentivo aos outros 25 países para reverem as suas tabelas de imposto e atualizaremna de acordo com as inovações tecnológicas, que vão conquistando cada vez mais espaço na vida das pessoas. Esta questão da igualdade foi levantada anteriormente, em 2009, numa diretiva europeia que recomendava uma equiparação do IVA a todos os formatos de livros e em todos os estados-membros e que a taxa aplicada fosse reduzida (Conselho da União Europeia, 2009). Apesar de ter sido uma recomendação e não uma imposição o rumo natural do mercado será a redução do IVA nos e-books a níveis mínimos à medida que se for compreendendo o produto e a sua importância na vida das pessoas. No resto da Europa o cenário atual comprova esta ideia de mudança, ainda que haja ainda muitos entraves ao progresso. A Ministra da Cultura de Espanha anunciou em dezembro de 2009, a pedido de várias editoras, que o imposto sobre os e-books iria baixar e ficaria igual ao cobrado nos livros impressos, o que correspondia a uma redução de 16% para 4%. A Comissão Europeia negou essa intenção, afirmando que o livro digital é considerado um serviço e não um produto, daí ser impossível à luz da lei baixar a taxa de IVA (Casa dos Bits, 2010). Em 2012, os espanhóis não só não baixaram o IVA do e-book como o colocaram no patamar mais elevado, neste caso correspondente a 21%. Os livros impressos e os jornais mantiveram-se no nível mais reduzido, conhecida como “taxa super-reduzida”, de 4% (TVI24, 2012). Itália e Alemanha também ainda não conseguiram baixar o IVA, apesar dos esforços, estando a taxa em 20% no primeiro e 19% no segundo. O Governo português deixou bem explícito no Orçamento de Estado de 2013 que “é urgente preparar a indústria do livro para o fim da discriminação fiscal do livro eletrónico”, mas ainda nada foi feito porque tudo 66 depende da vontade das principais instâncias políticas europeias (Ministério das Finanças, 2012). Recorde-se que no nosso país os e-books estão situados na taxa máxima de 23% enquanto os livros impressos são taxados em 6%. A Comissão Europeia considerou em 2012 incluir os e-books na lista de produtos com IVA reduzido mas não o fez até ao fim do último mandato, que cessou em maio último. Países IVA Livro impresso Livro digital Alemanha 7% 19% Áustria 10% 20% Bélgica 6% 21% Brasil 0% 0% Dinamarca 25% 25% Eslovénia 8,5% 20% Espanha 4% 21% EUA 0% 0% França 7% 7% Holanda 6% 19% Itália 4% 21% Polónia 5% 23% Portugal 6% 23% Reino Unido 0% 20% Rússia 10% 10% Suécia 6% 25% Tabela 6 - Diferença do IVA nos formatos impresso e digital em vários países No Brasil a situação atual é um pouco diferente. Como se pode ver na figura acima, os e-books não têm qualquer valor de IVA associado, tal como já acontecia com 67 os livros impressos. O projecto de lei que estipulava essa mudança foi aprovado em setembro de 2012 e, apesar de alguns ceticismos e hesitações, entrou em vigor em 2013. Nos EUA a isenção para os dois formatos já é uma realidade há alguns anos. A decisão do Parlamento (ou Senado) destes países é soberana, já que não têm nenhum organismo externo que legisle sobre estes assuntos, como Portugal tem a União Europeia, por exemplo. 5.2. Alteração da cadeia de valor Uma das grandes mudanças que surgem nas editoras literárias com o aparecimento do negócio digital é, obviamente, a cadeia de valor. Se antes havia uma grande diversidade de intervenientes no processo de venda dos conteúdos, com o digital esse número dilui-se ao menor número possível, para que a editora consiga atingir o seu objetivo primordial: a obtenção de lucro (aliada à satisfação do cliente, naturalmente). Podemos verificar na figura abaixo que o elenco de participantes e o circuito da informação por estes no modelo tradicional de uma editora era (e é) de tamanho considerável: Figura 1 - Cadeia de valor do mercado livreiro tradicional (Fonte: Faustino, 2011) 68 O processo editorial começa na fase de produção, que é demorada e sujeita, muitas vezes, a vários imprevistos. O autor escreve um texto e submete-o ao editor tendo em vista a sua publicação e disponibilização aos leitores. O editor (ou a equipa de editores) faz a triagem dos textos que recebe e decide(m) se o livro será publicado ou não, tendo em conta o mercado e os objetivos da editora. Para ajudar nessa importante tomada de decisão, a Publindústria envia um formulário para que o autor preencha detalhadamente com a sua proposta de edição. A maioria das propostas submetidas são feitas por professores, formadores, investigadores, técnicos ou quadros superiores de empresas que já conhecem o trabalho da Publindústria e o público a que se dirige, havendo ainda assim obras que não se enquadram no que a editora pretende. Se avançar, o editor pode sugerir alterações ao nível da organização do texto, por exemplo, e é ele quem discute com o autor as questões contratuais. Nesse contrato de edição, definido como “uma formalidade jurídica através da qual o autor de uma obra intelectual do domínio literário, científico ou artístico concede a outrem, nas condições nela estipuladas ou previstas na lei, o direito que possui sobre a sua obra, nomeadamente a autorização para ele produzir por conta própria um determinado número de uma obra ou conjunto delas, assumindo essa parte a obrigação de os distribuir e vender” (Faria; Pericão, 2008), ficam explícitos os valores referentes aos direitos de autor, que oscilam normalmente entre os 8% e os 15% do valor de venda do livro, e também o volume da tiragem. Após o acordo entre as partes é feita a revisão textual. Partimos do pressuposto que o autor faz sempre uma revisão da obra antes de entregá-la ao editor, contudo, devido à sua proximidade com a obra, é natural que alguns erros que não tenham sido detetados. É, assim, importante que um revisor com um certo distanciamento da obra proceda à sua correcção. Normalmente o que é feito na Publindústria por um revisor interno é uma primeira análise para verificar erros de ortografia, muito frequentes com a entrada em vigor do Novo Acordo Ortográfico de 1990, e uma segunda análise de toda a obra, mais exaustiva, para analisar a semântica, a construção frásica e a coerência das ideias. A etapa seguinte é a paginação do livro, feita por um designer. É nesta fase que se define a formatação do texto, o tamanho que irá ter o livro, o tipo de capa, os tipos de letra a serem aplicados, etc. É também aqui que é feito o tratamento das imagens (se for o caso) e se procede à sua disposição pelo livro. O designer tem em mãos uma das principais tarefas referentes à produção de um livro: a construção da capa. A sua importância advém do facto de este ser o primeiro aspeto com que os leitores têm contacto e que pode influenciar de sobremaneira na sua intenção de comprar a obra. Geralmente são feitas algumas propostas para a capa, sendo que a última escolha é feita pelo autor. Em simultâneo, é o número de ISBN (International Standard Book 69 Number), que se pode definir simplesmente como o número identificativo de cada livro e que é controlado pela Agência Internacional do ISBN, sediada em Londres. A representante portuguesa é desde 1988 a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) e é a ela que tem que ser pedido o ISBN. É responsável pela “atribuição de números de identificação a monografias, i.e., a publicações não periódicas editadas em Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor Leste, pela atribuição de prefixos de editores, pelo fornecimento do Manual ISBN aos editores e pela promoção da utilização do sistema a nível nacional” (APEL, 2010). No caso de a obra ser impressa no estrangeiro (como é, aliás, frequente na Publindústria) é necessário também fazer o pedido do número de depósito legal à Biblioteca Nacional. Ambos os pedidos são feitos através de formulários estandardizados. Após concluídas estas etapas, o que pode ser demorado, o trabalho é enviado para o autor e, se não levantar objeções, o texto pode ser enviado (em formato PDF) para a gráfica. Aqui o responsável pela produção recebe o documento, faz a montagem do livro e dá ordem de impressão. Estando o livro impresso é necessário encaderná-lo e cortá-lo numa guilhotina para que todos os exemplares fiquem exactamente com o mesmo tamanho. Por fim, o livro está pronto para ser distribuído pelos pontos de venda. Fica assim explicado todo o processo de criação/produção de um livro, a primeira etapa no circuito tradicional do mesmo. A segunda fase começa ainda antes de acabar a primeira: durante a impressão do livro na gráfica, a equipa editorial começa a preparar a divulgação e a distribuição do livro, que só será consumada quando ele chegar efetivamente à editora. Quando isso acontece são fornecidos exemplares aos grossistas/distribuidores ou também a retalhistas que vendem nos seus pontos de venda (lojas físicas, lojas online, etc.). A Publindústria tem por hábito publicitar os seus livros em diversos canais e por diversos meios: 1) É elaborado um documento, a que se chama “Ficha técnica de divulgação”, que é disponibilizado no site da Engebook e enviada por e-mail aos utilizadores registados no site e a editoras e distribuidores parceiras. O documento é bastante completo, contém um pequeno resumo da obra, um texto sobre o autor e outro sobre a editora. Tem ainda o sumário detalhado, como forma de fazer uma exposição dos assuntos tratados ao leitor; 2) É enviado um e-mail igualmente para associações profissionais, faculdades, escolas superiores ou empresas que estejam relacionadas com a temática do 70 livro. Esses contactos constam na base de dados interna de clientes e que é constantemente atualizada; 3) A informação do lançamento do livro é disponibilizada nas páginas de internet do grupo Publindústria para que todos possam vê-la, através de um banner comercial; 4) Nas newsletters semanais que o grupo Publindústria envia aos seus clientes e assinantes das suas revistas é incluída esta informação; 5) É incluído nas páginas de Facebook que estão sob domínio da Publindústria; 6) É possível que haja ações de lançamento oficial da obra, com a presença do autor. Normalmente aproveitam-se conferências, seminários ou eventos académicos para incluir uma apresentação do livro. Feiras do livro também são bastante interessantes, sendo que em todas estas ações há a vantagem natural para o autor e para o editor (muito público e custos reduzidos) e também para o cliente (descontos). Seja por meio destes parceiros ou através de uma livraria própria o produto chega ao consumidor final, que é o último elemento desta cadeia de valor. Com o aparecimento do digital este ciclo alterou-se de forma significativa e irreversível. Neste momento só a fase de produção se mantém quase inalterada, todas as outras sofreram algumas modificações ou foram mesmo eliminadas. Começando por essa primeira etapa há alguns pontos que é necessário referir. Em primeiro lugar todos os contactos com o autor, toda a fase de revisão textual e de paginação mantêm-se inalterados. Apenas na paginação há um ligeiro desvio do que era feito até aqui, pois o designer tem adaptar o seu trabalho ao formato final (as marcas de corte, por exemplo, que funcionam como uma diretriz para que na gráfica se proceda ao corte no local preciso, desaparecem). É na impressão que há a grande diferença entre o impresso e o digital. Correspondendo, normalmente, a cerca de 30% do total dos custos de produção de um livro, esta tarefa encarece bastante o preço final do mesmo, pelo que se afigura como um dos grandes obstáculos à redução dos preços para o cliente. Um e-book não tem impressão e esta é uma das suas mais-valias, como já vimos atrás. O contacto com os distribuidores e retalhistas também se torna diferente. Se antes tudo se fazia recorrendo a empresas de transporte que levavam milhares de exemplares da editora até às livrarias, hoje o conteúdo é transmitido pela Internet, o que poupa custos e tempo. Estes também não precisam de se preocupar com falta de 71 espaço para stock ou a perder tempo com a contagem do mesmo porque existe apenas um ficheiro que é armazenado no servidor e, a partir daí, os clientes fazem o download. Os distribuidores e retalhistas são diferentes do que eram, na medida em que os livros já não podem ser revendidos em pequenas livrarias ou em livrarias físicas universitárias, como a Publindústria está acostumada a fazer. Além disso a figura do editor já não é tão importante como era antes do aparecimento do digital, como iremos ver no ponto 5.5. Figura 2 - Cadeia de valor na publicação de um e-book 5.3. Alteração do tipo de impressão Estamos errados quando pensamos que o aparecimento digital apenas se reflete em conteúdos eletrónicos que substituem os físicos. A mudança para um paradigma digital vai muito além do formato do produto final; altera também as técnicas que levam à construção do produto. Neste caso, a impressão sofreu também uma mudança igualmente radical a que as editoras e todos os stakeholders da indústria livreira terão que se adaptar o mais rapidamente possível se quiserem manter a sua posição no mercado. Os últimos desenvolvimentos na melhoria da impressão levaram ao aparecimento de novas técnicas que beneficiem tanto a gráfica que imprime como a editora que publica. Um dos últimos sistemas de impressão criado e de maior sucesso é o offset. É 72 com ele que as grandes editoras trabalham, incluindo a Publindústria, pois a sua tecnologia permite a impressão de grandes quantidades de exemplares a um preço reduzido e com uma maior qualidade. As impressoras podem imprimir várias cores em simultâneo, a partir do ciano, do magenta, do amarelo e do preto, e usam uma chapa metálica (as chamadas matrizes). Cada uma delas é usada para transferir uma cor da máquina para o papel. O baixo custo unitário da impressão explica-se pela alta velocidade a que a impressão acontece, chegando a ser de milhares de folhas por hora. No entanto, o processo desde o começo até ao produto acabado é bastante demorado e a produção das matrizes é dispendiosa (Crecio, 2009). No entanto, a impressão digital veio revolucionar ainda mais a indústria e traz consigo várias vantagens. Ela é feita diretamente de um computador para uma impressora, sem a interferência de qualquer matriz. Com o aprimorar das técnicas, a impressão digital foi ganhando espaço no mercado, conseguindo alcançar uma qualidade quase semelhante ao processo offset. Ultimamente tem sido até testada uma técnica que combina os dois tipos, chamada de impressão híbrida. Como se disse, há vantagens associadas à impressão digital, das quais destacamos as duas mais importantes: 1. É mais barato em pequenas tiragens, pois o processo, como vimos, é menos demorado, não havendo grandes diferenças de preço entre imprimir 10 ou 1000 exemplares. Isto não acontece na impressão offset devido à existência de custos fixos, como as matrizes, e não variam consoante o número de impressões, pelo que o custo unitário vai ficando mais baixo à medida que a quantidade aumenta; 2. É uma técnica muito rápida de impressão, o que beneficia as editoras que precisam de resultados quase imediatos. No entanto há ainda alguns inconvenientes, como a qualidade do produto final que, apesar dos esforços, ainda é menos satisfatória do que o apresentado pela impressão offset. Para além disso não compensa para tiragens grandes, normais nas maiores editoras. Relacionado com o digital está também uma nova tendência, o print-on-demand, numa tradução livre “impressão por pedido”. Não obriga a que haja tiragens mínimas, permitindo imprimir apenas um exemplar de um livro, se for essa a vontade do cliente. 73 Com outro tipo de tecnologias não seria viável imprimir apenas um exemplar, daí esta tendência ter aparecido somente depois da impressão digital. Beneficia sobretudo as pequenas editoras e que estão direcionadas para um nicho de mercado, que não podem arriscar fazer grandes encomendas porque podem não conseguir escoar o stock. É adequado para produtos com alto valor de mercado mas que não se vendem em grandes quantidades. Já para os grupos editoriais maiores o printon-demand faz algum sentido na reimpressão de alguns títulos mais antigos. Ambos os tipos de impressão têm as suas vantagens, dependendo do que o cliente pretende. Ainda assim a impressão offset ainda é a que apresenta uma maior qualidade no produto final. Contudo, por se tratar de uma editora de pequena/média dimensão a impressão digital traz grandes vantagens, como a tiragem de poucos exemplares. Associado a isso há o fator do tempo de impressão, que diminui consideravelmente com o digital, podendo fazer-se todo o processo em menos de um dia. Acontece frequentemente na Publindústria que um livro tenha que ser lançado num curto espaço de tempo, principalmente os académicos, que têm que estar disponíveis aos alunos no início do ano letivo. Também por isto a editora já tenha começado a pedir às gráficas algum trabalho feito em impressão digital. Prevê-se que haja uma aposta cada vez mais consolidada na impressão digital por parte da Publindústria, acompanhando a tendência mundial. 5.4. Problema da fixação do preço do e-book A decisão do estabelecimento do preço para um e-book nem sempre é pacífica. Isto resulta numa disparidade de preços entre quem vende que poderá fazer alguma confusão a quem compra. Normalmente pensa-se que o preço de um e-book deve ser o mais baixo possível, pelo facto de a produção e de a distribuição terem um custo, em geral, bastante mais baixo do que no livro impresso. Para além disso, numa primeira fase, seria importante cativar os leitores praticando preços atrativos. No entanto, há quem discorde, defendendo que o preço final deveria refletir a complexidade e a duração da produção de um e-book. No entanto, é sempre expectável pelos leitores que o preço do e-book seja mais baixo do que do seu correspondente impresso, porque não há custos com impressão, papel, armazenamento e transporte. Mas será um preço demasiado baixo o mais justo e atrativo para os leitores? 80 grupo, foram analisados 294 livros, que correspondem a cerca de metade dos 591 possíveis. Assim sendo, é uma análise satisfatória dos resultados, pois seria impossível verificar todos os 1646 livros, para além de estas três categorias não serem de elevada importância tendo em conta a realidade da Publindústria. Teve que ser feita uma selecção pelas editoras que fazem parte do grupo Leya. São elas Academia do Livro, ASA, BIS, Caderno, Caminho, Casa das Letras, D. Quixote, Estrela Polar, Gailivro, Livros d’Hoje, Lua de Papel, Novagaia, Oficina do Livro, Quinta Essência, Sebenta, Teorema e Texto. Género Quantidade Média Arte 7 17% Auto-ajuda 29 20% Banda-desenhada 2 7% Biografias/Memórias 34 10% Ciências da Educação 4 32% Ciências Exatas 1 14% Ciências Sociais e Humanas 32 10% Culinária e Gastronomia 13 22% Divulgação Científica 3 -2% Esoterismo e Espiritualidade 15 6% Família 8 12% Fantástico 20 12% Ficção Científica 4 -19% História e Política 36 15% História/Crítica Literária 9 15% Humor/Sátira 8 -10% Infantil e Juvenil 33 14% Literatura 51 17% 81 Género Quantidade Média Nutricionismo 10 12% Poesia 22 37% Religião 5 8% Romance 73 34% Saúde 12 90% Terceira Idade 1 55% Turismo e Lazer 19 89% Tabela 10 - Preços praticados pela Leya, por género Analisando os resultados temos várias perceções. Em primeiro lugar a média na variação do preço foi de 23% a menos no e-book em relação ao impresso, ou seja, bastante semelhante aos 24% registados na Wook. Isto comprova mais uma vez e inequivocamente a semelhança entre os dois portais, apesar de este ser bem extenso em número de títulos e de géneros. Verificamos também que dos 451 resultados em apenas 30 a variação é negativa, mas não há nenhum género em que isso seja tomado como norma. Dentro dos géneros há 3 com média de aumento no preço entre os formatos. Em comparação com a Wook de notar que a Leya tem, principalmente na Literatura, alguns títulos em que o impresso é mais barato do que o e-book correspondente, mas que, em geral, a diminuição no preço entre os dois formatos é bem mais acentuada, equilibrando os valores para os 23% já referidos. Livraria Almedina Grupo líder no mercado jurídico, o grupo Almedina integra 4 editoras de dimensões distintas: a Edições Almedina (a principal do grupo e vocacionada para o Direito), a Edições 70 (voltada para as Ciências Sociais e Humanas), a Actual Editora (importante nas áreas de Economia e Gestão) e a Minotauro (dedicada à narrativa espanhola). O estudo deste portal foi bastante interessante e pertinente pelo facto de os conteúdos serem de áreas muito técnicas (tem apenas 5 categorias), tal como a Publindústria. Depois de selecionadas estas editoras foram analisados 155 livros, exactamente o número total de resultados presente no portal, disponibilizando menos títulos do que a Wook e muito menos do que a Leya. No entanto, e por se tratar de 82 outro tipo de conteúdos, neste caso tudo foi diferente: apenas 35 livros (cerca de 23% do total) apresentaram uma redução de preço para o digital. De resto, em 22 casos o preço manteve-se e o aumento aconteceu em 98 livros. Apesar disso, média geral situase num aumento de 2% da versão impressa para a digital, o que nem é muito elevado dado a quantidade de casos em que o preço sobe. Em todos os géneros de livros a tendência foi sempre de aumento e a média de variação foi relativamente uniforme, como podemos ver no quadro: Género Quantidade Média Ciências 1 -4% Ciências Económicas 33 -2% Ciências Sociais e Humanas 38 -1% Direito 79 -3% Diversos 4 -1% Tabela 11 - Preços praticados pela Livraria Almedina, por género Os três temas destacados em cima como sendo os principais de cada editora são exatamente aqueles que oferecem um maior número de títulos, tendo apenas mais um de “Ciências” e 4 catalogados como “Diversos”. O número reduzido de géneros indica uma maior especificação dos conteúdos, mas os poucos títulos existentes fazem crer que a editora ainda não há uma grande aposta pelo grupo nos e-books. Bloomsbury Publishing Conhecida em grande parte pelos romances que edita e pela literatura de massas (foi responsável pela edição da série “Harry Potter”, um dos maiores sucessos a nível mundial da História da indústria), são centenas os livros e e-books técnicos que a Bloomsbury Publishing edita. Não foi feita uma contagem do número total de e-books disponibilizados, pois teria que ser um estudo exaustivo (o portal não apresenta os totais para cada género e repete algumas vezes os títulos em mais do que um género) mas acredita-se que seja a maior editora estudada. De forma a não tornar a análise muito exaustiva, foram verificados 155 títulos (o mesmo número da Livraria Almeida) de todos os 25 géneros disponíveis. Nenhum dos 83 géneros está relacionado com os grandes temas presentes nos portais portugueses generalistas, como “Literatura” e “Infanto-Juvenil”, por exemplo, portanto podemos considera-los temas técnicos. Com isso, teremos uma visão global aproximada dos preços que esta grande editora pratica nestes temas para nichos de mercado, que é o nosso grande ponto de interesse. A média de variação de preço foi um aumento de 5% da versão impressa para o digital. Apresenta-se, de seguida, o quadro de análise por géneros: Género Quantidade Média Antropology 13 -6% Art & Visual Culture 4 -10% Biblical Studies 3 -14% Business & Management 5 -10% Classical Studies & Archaeology 6 -8% Design 6 -10% Drama & Performance Studies 7 -10% Economics 6 -7% Education 9 -2% Fashion 6 -7% Film & Media Studies 7 6% Food 6 -5% Geography 5 3% History 11 -4% Interior Design and Architecture 7 -3% Linguistics 5 -10% Literary Studies 6 -4% Music and Sound Studies 6 6% Philosophy 5 6% 84 Género Quantidade Média Politics and Internacional Relations 7 -1% Psichology 7 -9% Religious Studies 6 -10% Sociology 5 -8% Textiles 3 -10% Teology 4 -8% Tabela 12 - Preços praticados pela Bloomsbury Publishing, por género Daqui retiramos que apenas 4 géneros apresentam, em média, uma descida de preço, o que significa uma certa coerência na estratégia. No geral poderemos ver que, dos 155 títulos analisados, o preço manteve-se igual em 7, desceu em 25 e subiu em 123. De salientar que, na maioria dos casos em que houve uma descida de preço, o valor ronda os 10% devido a descontos do portal nos livros físicos, caso contrário, os preços seriam iguais na maioria dos livros. Comparação entre os portais Após vermos estes quatro portais é importante retirarmos algumas conclusões do que foi analisado: 1. Há uma diferença clara de preço entre os portais de venda generalistas e as que apresentam um conteúdo mais técnico e especializado. Enquanto que os primeiros, Wook e Leya, apresentam, em média, preços mais baixos nos ebooks em comparação com os correspondentes impressos (24% e 23%, respectivamente), os portais que oferecem mais conteúdo de nicho têm, em média, e-books mais caros que os livros físicos, apesar de a diferença não ser muito substancial (aumento de 2% na Livraria Almedina e de 5% na Bloomsbury Publishing). Talvez seja um indicador de que os conteúdos com mais procura, habitualmente romances e literatura ficcionada, sejam alvo de uma redução de preço no e-book. É por este tipo de livros que o mercado tem a perceção do valor dos e-books e talvez por isso seja habitual termos uma noção errada do preço de um e-book, que pensamos corresponder a cerca de 20% ou 25% do valor de um livro tradicional; 85 2. A oferta de e-books em portais nacionais tem crescido ano após ano e os números já não são tão residuais como há alguns anos atrás. Se juntarmos a Wook e a Leya temos mais de 2 mil títulos diferentes disponibilizados em formato eletrónico, sendo natural que o número aumente gradualmente. Obviamente que em comparação com outros mercados mais fortes, como o britânico aqui estudado, não há comparação possível, nem em número nem em diversidade, muito devido às características de cada mercado, como uma população cerca de 6 vezes superior à portuguesa, excluindo o número de falantes de inglês pelo mundo, também ele superior ao português; 3. Dividindo os portais de venda em género (os mais generalistas e os mais especializados) a diferença na variação de preço é grande. Enquanto que as primeiras apostam num preço bem mais apelativo, as segundas colocam muitas vezes o preço igual ao impresso ou até mesmo mais caro, como se comprova nas médias finais. Poderá ter várias explicações, embora me pareça que a mais lógica seja o facto de, como foi dito na Revisão da Literatura, os livros técnicos terem um trabalho de paginação em formato ePUB muito mais complexo do que os livros constituídos quase exclusivamente por texto. Ora, esse trabalho de paginação traduz-se num custo maior para uma editora que irá reflectir-se no preço final do produto; 4. Os géneros de e-books são diferentes nos quatro portais de venda. Se o da Livraria Almedina é o mais pequeno, apenas com 5 géneros diferentes, a Leya e a Bloomsbury Publishing são os mais extensos, com 25 cada uma. Mas as semelhanças entre estas esgotam-se na quantidade: por exemplo, a britânica tem 3 géneros relacionados com a religião (“Biblical Studies”, “Religious Studies” e “Teology”), o que pode ser negativo para o utilizador, pois pode não saber em que categoria está o livro que pretende e poderá perder muito tempo na pesquisa. Apesar de terem o mesmo número de géneros de e-books, dificilmente encontramos o mesmo nos dois grupos editoriais. Já a Wook tem 12 géneros, com uma estrutura e nome parecidos aos que a Leya apresenta. Note-se que, com excepção da Livraria Almedina, todos apresentam inúmeros subgéneros dentro de cada género, mas que não foram diferenciados. Publindústria A Publindústria foi aqui destacada por se tratar do objeto principal de estudo, mas também por se tratar de uma realidade completamente diferente dos outros quatro 86 casos estudados. O primeiro aspeto diferenciador é o facto de o grupo Publindústria não possuir um portal próprio de venda de e-books. A venda é feita através de um parceiro espanhol, a BookiBook, que por sua vez vende no portal Todoebook, o que aumenta os atores da cadeia de valor, diminuindo os lucros da editora. Em segundo lugar, o portal apresenta géneros muito confusos e muito específicos, o que leva a que haja quase um género para cada título. Com uma pesquisa pelos livros no site da Engebook, que comercializa os livros físicos da Publindústria, também não se percebe qual o género do livro procurado (uma grave falha, portanto). Daí não ter havido um estudo que incidisse sobre a quantidade, diversidade e diferença de preços entre os géneros. Mas o aspeto que contrasta mais com as restantes editoras ou grupos editoriais é o facto de todos os e-books serem mais baratos do que os respetivos livros, sendo que a média é de uma descida de 85%, elevadíssima tendo em conta os outros portais. Isso pode dever-se a uma tentativa de fixar leitores para este novo formato, já que a comercialização de e-books da Publindústria é recente, ou então pode dever-se simplesmente ao desconhecimento dos preços praticados pelos concorrentes ou por um cálculo incorreto dos custos de produção de um e-book em relação a um livro físico. Em qualquer dos casos quem beneficia é o leitor, que pode usufruir do mesmo conteúdo mas 85% mais barato no formato eletrónico. Foram analisados todos os e-books disponíveis para venda, 29. Este número mostra a ainda fraca aposta do grupo na publicação de e-books mas a intenção é que este número suba, de forma prudente mas acelerada, pois já se percebeu as inúmeras vantagens associadas ao e-book. 5.5. Auto-publicação A auto-publicação é um fenómeno que atravessa nos dias de hoje um crescimento abrupto. Consiste, essencialmente, num autor publicar a sua obra e assumir os encargos e riscos inerentes a isso. A Smashwords, uma distribuidora de e-books, previu no início deste ano que em 2020 as auto-publicações irão representar 50% de todo o mercado de e-books (Coker, 2014). De seguida enumera-se as vantagens e desvantagens desta forma de publicação, quer para os autores, quer para os leitores (Pereira, 2014): 87 5.5.1. Vantagens: 1. O autor tem o controlo total sobre a publicação, sabendo exatamente tudo o que está a acontecer durante o processo, controlando também o conteúdo e o aspeto gráfico. Sabe também os dados das vendas em tempo real e pode analisá-los como entender; 2. Tendo o total controlo sobre a publicação da obra também irá colocá-la no mercado antes que qualquer editora pudesse fazê-la. Obviamente o sentido de comprometimento de uma pessoa com o seu próprio livro leva a que se agilizem alguns processos. Para além disso uma editora pode não ter a disponibilidade que os autores querem e precisam; 3. As royalties pelos direitos de autor são bem mais elevadas do que se o processo estivesse nas mãos de uma editora. Se normalmente os direitos de autor estão entre 7% e 20% (em raríssimos casos), na auto-publicação os valores rondam os 30%, 50% e, em alguns casos, até mais. A Amazon, por exemplo, paga até 70% ao autor, caso este queira inserir o e-book no serviço KDP Select, que permite que o livro esteja apenas na Kindle Store (Amazon, 2014); 4. O autor pode escolher livremente o preço que quer dar ao livro. Mais importante, pode mudar sempre que sentir que o deve fazer, sem esperar pelas burocracias de uma editora. Isto traz algum risco, pois, como vimos acima, determinar o preço de um livro é uma tarefa muito complexa, mas, se for bem executada, traz muitas vantagens ao autor; 5.5.2. Desvantagens: 1. Pode haver uma despreocupação do autor em corrigir possíveis falhas textuais ou em criar uma capa apelativa (e todas as questões visuais, como as ilustrações), pois pode não dominar essas áreas. Por outro lado, caso faça modificações pelo feedback recebido dos leitores, pode chegar ao ponto de mudar tanto a obra que chegue a desvirtuá-la por completo, o que também não seria justo para os compradores iniciais; 88 2. A divulgação é uma das grandes desvantagens deste modelo de publicação. Uma editora está muito bem preparada para esta situação, fazendo uso da sua experiência e da sua rede de contactos que possui para poder chegar ao maior número de pessoas. Apesar de o autor poder utilizar a Internet para se promover e de este ser um meio que permite chegar a milhões de pessoas, muitas vezes falta o know-how necessário para se auto-promover. Mais uma vez, ninguém vai comprar algo que não conhece; 3. Sem um apoio adequado por parte de profissionais competentes, o autor pode não negociar os contratos da melhor forma, podendo perder dinheiro com isso. Muitas vezes as políticas de exclusividades de algumas distribuidoras não são detetadas porque o autor está apenas preocupado nas royalties que irá receber. Mas em que é que a auto-publicação se relaciona com a transição para o digital nas editoras? Afinal, desde que se editam livros que há autores que preferem publicar as próprias obras, seja porque se sentem mais confortáveis tendo o controlo de todo o processo, seja porque nenhuma editora se mostrou interessada na obra, ou várias outras razões. Contudo, e como é fácil de perceber, a Internet trouxe muito mais facilidade a que este fenómeno se propague. Publicando um livro eletrónico, o autor tem apenas de fazer uma paginação, uma revisão textual e uma promoção ao livro para que o maior número de pessoas o conheça. Antes, para além destas tarefas, ele teria que contactar com uma gráfica ou com um serviço de impressão que pudesse fazer a impressão do mesmo. A acrescentar ao tempo gasto nesta tarefa, de relembrar que ficaria substancialmente mais caro desta forma mais tradicional. O e-book veio encorajar ainda mais estes autores independentes (ou indies, em inglês), que assim podem ver o seu trabalho publicado em pouco tempo na Web, disponível para todas as pessoas. Para que haja uma evolução ainda maior neste mercado em específico é fundamental que se quebre o estigma, tal como diz Coker (2014) que aponta as autopublicações como obras com pouca qualidade e sem o nível exigido para ser publicado por uma editora. Julgo que esse estigma está parcialmente ultrapassado, pois o mercado está a crescer. Ainda assim, estes autores sentem alguma dificuldade em conseguir um lugar neste mercado já saturado como é o livreiro, onde a concorrência é muito grande. Alison Flood (2012), num artigo para o jornal inglês “The Guardian” refere, a partir de um questionário a 1007 autores independentes, que a média de rendimentos destes autores foi de 10 mil dólares, no ano de 2011. Estes valores 89 parecem manifestamente reduzidos quando vemos que há autores que desequilibram a balança ao auferirem milhões com os seus livros publicados por eles mesmos. Flood continua, dizendo que “menos de 10% dos autores auto-publicados ganham cerca de 75% do total da receita e metade destes autores ganham menos de 500 dólares”. Duas histórias são sobejamente conhecidas no mundo inteiro e são importantes para se perceber como funciona a auto-publicação digital e também para encorajar possíveis autores a publicarem os seus textos: a primeira, Amanda Hocking, uma autora norteamericana que acabou o seu primeiro romance aos 17 anos e, uns anos mais tarde, tentou vender este e outros textos a cerca de 50 editoras, sendo que todas recusaram publicar. Até que decidiu ser ela a publicá-los na Internet, em formato eletrónico, em plataformas como a Amazon. Acabou por vender a sua trilogia por 2 milhões de dólares e também os direitos dos livros para uma produção cinematográfica (Wook, 2014). O outro caso, talvez o mais conhecido, é o de E. L. James. De origem britânica, esta autora começou por escrever na Internet histórias sobre outros livros (as chamadas fanfictions), ganhando uma enorme popularidade. Essas histórias evoluíram para uma trilogia que ainda faz um enorme sucesso: o primeiro, “50 Tons de Cinza”, vendeu mais de 10 milhões de exemplares nas primeiras 6 semanas e fez com que a Time considerasse E. L. James uma das 100 personalidades mais influentes do Mundo em 2012. É certo que esta trilogia teve um enorme sucesso no formato impresso e já com uma editora a servir de suporte à publicação, mas é inegável a notoriedade que granjeou quando ainda publicava os seus próprios textos online. Em Portugal, os dois maiores grupos editoriais – Porto Editora e Leya – possuem já marcas independentes que permitem que os autores publiquem os seus textos em formato digital. A Leya lançou a plataforma Escrytos em 2012, tornando-se pioneira em Portugal, quando internacionalmente era já uma realidade bem presente. A Porto Editora apresentou a Coolbooks apenas em 2014 depois de perceber que o mercado reagiu bem internacionalmente a esta nova forma de produzir conteúdos. Esses dois anos de diferença na criação das marcas fazem-se notar na realidade atual das mesmas: enquanto que a Coolbooks tem 14 títulos editados, na maioria romances, a Escrytos possui uma colecção de 322 obras. É natural, à medida que os anos forem passando e a aceitação do mercado português à auto-publicação se for consolidando, que a diferença entre as duas marcas diminua, pois os 14 títulos da Porto Editora correspondem aos primeiros meses do ano apenas. Falando da Escrytos, pois é a que tem uma dimensão razoável, ela permite que os livros publicados pelos autores possam ser distribuídos em vários pontos de venda, nomeadamente nas livrarias LeyaOnline, Amazon, Apple Store, Barnes & Noble, Fnac, Gato Sabido, Google, IBA, Kobo, Livraria Cultura, Submarino e Wook (Escrytos, 2014). 96 6. Modelo de negócio Como vimos anteriormente no ponto 5.2., o modelo de negócio das editoras alterou-se por completo, pela entrada de novos atores no sistema e pela saída de outros que estavam presentes quase desde sempre, levando a uma mudança na cadeia de valor. Paulo Faustino (2011) afirma que uma das principais mudanças é na tomada de decisão do editor, pois “há alguns anos atrás a primeira decisão que um editor devia tomar era identificar qual o produto a lançar no mercado e qual o catálogo a construir e a oferecer; e agora a decisão dos editores é determinada pelo que o mercado quer”. No fundo, com a quantidade enorme de oferta que existe hoje, quem oferece deve pensar se o seu produto será relevante ou não para o mercado e se ele está disposto a pagar por isso. O modelo de negócio pode ser entendido muito simplesmente como a descrição de todo o plano de ação, de todas as atividades que a empresa tem que executar para entregar valor ao cliente. Nele, os gestores terão que responder a várias perguntas e descrever vários parâmetros, de forma a conhecerem o mais possível o negócio pelo qual são responsáveis. Para ajudar a conceber algumas directrizes para este novo modelo de negócio que a Publindústria pretende implementar, a produção, a gestão e a venda de conteúdos digitais, foi elaborado o questionário presente em anexo, onde os participantes responderam a algumas questões relacionadas com este modelo futuro da editora. 6.1. Análise dos questionários Passemos então a analisar os questionários. Eles foram respondidos por 6 colaboradores da Publindústria, aqueles que foram indicados como sendo os mais conhecedores do mercado e de como ele está a evoluir. Foi feita uma análise de conteúdo para todas as respostas, onde se procurou saber se elas correspondiam ao que era pedido, se eram pertinentes e se houve um padrão de resposta em todos os participantes para cada questão. Questão 1 - Para que segmentos de clientes a Publindústria cria valor e quais são as suas características? O que era pedido nesta questão era que os inquiridos identificassem o públicoalvo dos produtos da Publindústria, etapa essencial para qualquer definição de negócio. 97 Embora não haja um padrão de resposta, todas elas são pertinentes, acabando por se complementar umas às outras. Um dos inquiridos levantou uma questão pertinente relativamente aos conteúdos da área da Agronomia que poderão ter um público que não era inicialmente previsto (os desempregados). Questão 2 - Quais são os diferenciais da proposta de valor oferecida pela Publindústria em relação à dos concorrentes? Tenha em atenção características como a novidade, o desempenho, o preço, a usabilidade, a personalização do produto ou outros. Aqui procurava-se perceber em que é que a Publindústria se distingue dos restantes na oferta do produto. Caso as pessoas cheguem à conclusão de que não há nenhum aspeto inovador na proposta de valor é sinal de que as coisas não estão bem estruturadas e que o mais provável será o insucesso do negócio. Nesta questão um dos participantes levanta um dado interessante e que me parece de todo adequado: quanto a mim, a Publindústria não tem concorrência, pois não há ninguém em território nacional que edite este tipo de conteúdos, sejam eles em formato de livro ou de periódico, embora haja algumas editoras que se ocupam de conteúdo técnico. Os restantes cinco não referiram esse aspeto. Outro ponto referido é o da antecipação: como em Portugal ainda são poucos os que se aventuram na produção e venda de conteúdos digitais, a antecipação face aos possíveis concorrentes poderá ser uma enorme vantagem. As respostas mais vezes referidas foram especificidade, integridade e inovação. Questão 3 - Através de que canais os clientes podem/querem ser abordados? Outra das questões fundamentais na idealização de um novo modelo de negócio: a forma como comunicamos com os clientes. Na verdade, não vale a pena construir um produto fantástico se ninguém o conhece, por ineficácia da comunicação da empresa. Foi dado aos inquiridos a indicação da existência de canais próprios e canais parceiros, sendo que dois deles fizeram essa distinção. Entre os canais parceiros foi destacado uma vez a Wook e a rede FNAC. Mais uma vez a diversidade das respostas foi grande mas considero isso um aspeto positivo, pois foram apontados vários canais que podem funcionar muito bem no caso da Publindústria. A Internet, com o e-mail, as redes sociais e as newsletters, e a publicidade nas revistas do grupo foram os canais mais vezes referidos. 98 Questão 4 - Como é que a Publindústria pode aumentar a atenção das pessoas para o produto/serviço? A promoção do produto junto de todo o público-alvo é o assunto tratado nesta questão. Para além das pessoas que já conhecem o produto, é importante chegarmos a quem desconhece o que comercializamos, de forma a aumentar a lista de clientes. Presença em eventos especializados, como seminários ou workshops, e a uma maior representação na Internet, através da melhoria do site e de uma maior atualização das páginas institucionais nas redes sociais foram apontadas mais do que uma vez. Questão 5 - Que tipo de relacionamento pode ser estabelecido com o cliente? Pretendendo saber-se qual o tipo de relacionamento que a Publindústria terá com os clientes. Duas das respostas foram mal-interpretadas pois não correspondem ao que é pedido na pergunta. As restantes foram muito uniformes: o relacionamento deverá ser de proximidade e personalizado, o ideal para uma editora de média dimensão, vocacionada para um nicho de mercado. Questão 6 - Qual é a infraestrutura existente e qual a desejável para o produto/serviço a oferecer? Que transformações teriam que ocorrer? Encare tanto os recursos físicos (instalações, máquinas, etc.), como intelectuais (marcas, direitos de autor, propriedade intelectual, bases de dados, etc.), humanos e financeiros. Esta questão, apesar de me parecer clara e bem formulada, suscitou várias dúvidas, tantas que nenhum inquirido conseguiu atingir o objetivo pretendido, que seria enumerar todos os recursos já existentes e os necessários à implementação de um modelo de negócio que assente na produção, gestão e venda de conteúdos digitais. Apenas uma pessoa respondeu com objetividade, embora de forma resumida, referindo que será necessário uma reformulação das bases de dados existentes, que são limitativas. Estas poderão ser um instrumento na comunicação com os clientes, pois irão auxiliar na perceção do perfil do cliente e quais as suas necessidades e preferências. 99 Questão 7 - Quais são as principais atividades que a proposta de valor e a comunicação com os clientes exigem da Publindústria? Tendo em conta a proposta de valor (ou produto) identificada pelos participantes, pretende-se saber o que é que a Publindústria terá que fazer para a desenvolver e para comunicá-la aos clientes. Nenhuma resposta se mostrou adequada, mas poderá ter a ver com a confusão gerada por uma questão um pouco vaga. Questão 8 - Quais são os principais parceiros da Publindústria neste modelo de negócio? Para além da infra-estrutura da própria editora é desejável que haja parceiros envolvidos que ajudem a Publindústria a alcançar a melhor qualidade possível no serviço a comercializar. Podem ser alianças estratégicas entre empresas concorrentes ou redes de cooperação entre não-concorrentes. Aqui as respostas, estranhamente, voltaram a não ser satisfatórias. Em dois dos casos a resposta foi “não sei” e apenas em três se consegue retirar um pouco do pretendido com a pergunta: autores, outras editoras e instituições de ensino foram alguns dos parceiros apontados. Questão 9 - Quais são os principais fornecedores da Publindústria? Aqui foi muitas vezes referido as gráficas, quem faz a impressão do produto. Ora, no caso de um modelo digital isso iria desaparecer, pelo que não se enquadra neste contexto. Empresas do sector tecnológico, como fornecedores de soluções de alojamento e visualização de conteúdos foi uma das respostas dadas e talvez a mais adequada. Questão 10 - Qual a melhor solução para disponibilizar o produto ao cliente (portal de venda próprio, podendo ser apenas para desktop ou para dispositivos móveis, ou ambos; backoffice interno ou externo, etc.)? Resolveu-se dar alguns esclarecimentos nesta questão porque sem eles poderia tornar-se demasiado vago e pouco claro. A editora disponibiliza o conteúdo, mas como? A realidade atual é que a Publindústria vende os e-books através de um portal localizado em Espanha, sendo que não controla nenhum aspecto relacionado com o backoffice da plataforma. Isso poderia ajudar a ter em tempo real as estatísticas necessárias para tomar decisões rápidas. Nas respostas que incidiram no objeto da 100 pergunta, todos concordaram que o ideal seria o desenvolvimento de um portal próprio da editora e que o backoffice fosse, preferencialmente, interno, embora não seja uma questão imprescindível. Metade dos inquiridos refere que o portal de venda deve estar disponível tanto para computador como para aplicativos móveis (smartphones, tablets, etc.). Questão 11 - Como deverá ser realizado o serviço de apoio pós-venda? Relacionado com o relacionamento com os clientes (questão 5) está o apoio pósvenda, importante principalmente para empresas de pequena/média dimensão, para fidelizar os clientes. Dois inquiridos não souberam responder e os outros quatro apresentaram respostas muito uniformes: apoio através de telefone (preferencial) email foram os únicos apontados por todos, fazendo todo o sentido pois a relação tem que ser o mais próxima possível. Questão 12 - Quais os aspetos que mais valoriza num portal online de venda de conteúdos digitais? Esta questão é clara e objetiva. Pede-se aos inquiridos que imaginem um portal de vendas que seja do seu completo agrado e que refiram as características mais prementes a incorporar. A simplicidade foi apontada por quatro dos seis participantes, mas a segurança, a facilidade em encontrar a informação pretendida e o layout agradável também foram referidas. Questão 13 - Quais são, na sua opinião, os maiores desafios que a Publindústria enfrenta neste novo modelo de negócio (alguns são conhecidos, como a segurança dos documentos, os métodos de pagamento, a visualização online vs download para o dispositivo, etc.)? Explique, por favor, as suas preocupações e convicções a este nível. Nesta última pergunta, o que se pedia era que fossem enumerados os problemas decorrentes da aposta no digital, tendo sido dados alguns exemplos de possíveis problemas. Uma das respostas diferenciou dois problemas: um geracional, pois muitas pessoas ainda não estão preparadas para receber o digital e os colaboradores podem também ainda não estar conscientes desta mudança, e um tecnológico, já que é preciso dotar a editora de meios tecnológicos para oferecer o produto devidamente ao cliente. Metade das pessoas respondeu que a segurança dos documentos contra 101 cópia/adulteração é um grande problema mas a organização dos conteúdos que estão dispersos mostrou-se igualmente como uma das grandes preocupações. 6.2. Modelo Canvas O resultado da leitura dos questionários e da posterior análise de conteúdo é um pequeno esquema, onde são descritos nove parâmetros-chave para quem pretende conhecer o seu próprio negócio. Esse método chama-se Modelo Canvas e é uma ferramenta de gestão estratégica, proposta por Alexander Osterwalder, e que analisa detalhadamente alguns aspetos, que vão desde o público-alvo do produto/serviço, até à proposta de valor e aos canais pelos quais o produto/serviço chega ao cliente. O modelo Canvas para a Publindústria será seguidamente apresentado: Figura 3 - Análise do novo modelo de negócio da Publindústria 102 103 7. Levantamento de requisitos para o sistema 7.1. Visão geral do sistema O portal online da Publindústria consiste na venda de conteúdos físicos e digitais. O sistema permite, entre outras coisas, ter um controlo do stock, fazer a classificação dos livros por temas, o registo dos clientes, dos seus dados e do seu histórico de compras ou monitorizar as vendas. Os utilizadores do sistema poderão ser clientes singulares, coletivos (empresas, associações, estabelecimentos de ensino, etc.) ou parceiros (fornecedores, distribuidores). O cliente singular médio terá entre 18 e 70 anos e poderá ser um estudante ou um professor do ensino superior, um quadro superior de uma empresa, um engenheiro ou um agricultor qualificado. Normalmente são indivíduos de classe média-alta e que não têm disponibilidade para realizar compras numa loja física. O seu nível educacional é elevado e já têm experiência no uso das novas tecnologias e na compra online. Os requisitos dos sistemas dividem-se, tipicamente, em requisitos funcionais e não-funcionais (ou de qualidade). Os primeiros definem as acções fundamentais que o software executa. Já os segundos referem-se às qualidades do sistema ou os comportamentos que ele deve ter para ter o desempenho desejado. Segundo a Norma IEEE Recommended Practice for Software Requirements Specifications 830-1998, a especificação dos requisitos deverá ser: a) Correta; b) Não ambígua; c) Completa; d) Consistente; e) Com ordenação por importância e/ou estabilidade; f) Verificável; g) Modificável; h) Rastreável. 104 7.2. Requisitos funcionais Apresentamos agora a identificação dos requisitos funcionais que o portal precisa de possuir para um funcionamento em pleno: Categoria ID Requisito Descrição Prioridade Ator Dependências 1. Controlo de acesso RF#1 Registo no sistema O utilizador regista-se no sistema quando pretender efetuar uma compra. Ele deverá preencher o formulário com os seguintes dados: nome de utilizador (neste caso, o email), a palavra-passe, o tipo de utilizador (cliente particular, docente, estudante, livreiro, membro da Ordem dos Engenheiros ou de alguma associação, etc.), o título (Sr., Dr., Arq., Eng.º), o nome completo, o país de residência, o NIF (opcional), a morada, o contacto telefónico e as áreas de interesse. De seguida, deve aceitar os termos e as condições propostas. Essencial Utilizador RF#2 Confirmação do registo O sistema deverá enviar um e-mail ao utilizador a informá-lo de que o registo foi efetuado. O e-mail irá conter um link no qual o utilizador deve clicar para finalizar o processo com sucesso. Essencial Sistema RF#1 RF#3 Iniciar sessão no O utilizador deverá inserir o e-mail e a Essencial Utilizador RF#1 105 Categoria ID Requisito Descrição Prioridade Ator Dependências sistema palavra-passe escolhidos por si no ato de registo. RF#4 Encerrar sessão no sistema O utilizador deverá poder encerrar a sessão fazendo logout do sistema. Essencial Utilizador RF#1 RF#3 2. Gestão do perfil de utilizador RF#5 Alterar os dados de registo O utilizador poderá alterar os seus dados de registo. Essencial Utilizador RF#1 RF#3 RF#6 Alterar a palavrapasse O utilizador poderá alterar a sua palavrapasse. Depois de fazer o login no sistema, deverá inserir a palavra-passe antiga e criar uma nova, escrevendo-a duas vezes. Essencial Utilizador RF#1 RF#3 RF#7 Aceder à área de cliente O utilizador poderá ver o seu histórico de atividades (livros consultados, compras efetuadas e comentários redigidos). Importante Utilizador 3. Painel de Administração RF#8 Registo no sistema O administrador pode registar-se no sistema, preenchendo o formulário com o nome, o e-mail, a palavra-passe e o contacto telefónico. Essencial Administrador RF#9 Confirmação do registo do administrador O sistema deverá enviar um e-mail ao administrador a informá-lo de que o registo foi efetuado. O e-mail irá conter um link no qual o administrador deve clicar para finalizar o processo com sucesso. Essencial Sistema RF#8 112 Categoria ID Requisito Descrição Prioridade Ator Dependências (revistas) RF#39 Eliminar revistas do cesto de compras O utilizador deverá poder eliminar revistas que tenha selecionado para o cesto de compras. Essencial Utilizador RF#3 RF#38 RF#40 Visualizar cesto de compras O utilizador com sessão iniciada deverá poder visualizar a lista de revistas que está no seu cesto de compras. Essencial Utilizador RF#3 RF#38 RF#41 Finalizar a compra O utilizador deverá finalizar a compra em 5 passos: 1) Selecciona o livro; 2) Altera a quantidade e o sistema actualiza o preço final; 3) Confirma os dados de cliente; 4) Escolhe o método de pagamento; 5) Confirma a compra. Essencial Utilizador RF#3 RF#38 RF#42 Envio de comprovativo de compra O sistema deverá enviar um e-mail ao utilizador com um comprovativo de compra que irá conter os dados da compra (título do livro, quantidade comprada, valor total gasto, morada de envio e a forma de envio). No caso de ser em versão digital deverá ser enviado apenas um link para download do ficheiro. Essencial Sistema RF#3 RF#41 RF#43 Calcular portes de O sistema deverá calcular o valor dos portes Essencial Sistema RF41 113 Categoria ID Requisito Descrição Prioridade Ator Dependências envio de envio consoante a morada de envio, o peso da encomenda e o seu valor. 6. Apoio pós-venda RF#44 Monitorização do estado da encomenda O utilizador deverá poder ver o estado da sua encomenda e uma previsão de data de entrega. Desejável Utilizador RF#3 RF#30/RF#36/RF#41 RF#45 Inquérito de satifação O sistema deverá enviar um e-mail ao utilizador a inquirir acerca do processo de venda e dos livros comprados. Desejável Sistema RF#30/RF#36/RF#41 Tabela 14 - Requisitos funcionais do sistema 114 7.3. Requisitos não-funcionais ID Requisito Descrição Prioridade RNF#1 Compatibilidade entre browsers O sistema deve ser compatível com a última versão dos browsers Internet Explorer, Google Chrome, Mozilla Firefox, Opera e Safari Essencial RNF#2 Níveis de acesso O sistema deve permitir diferentes níveis de acesso (utilizador e administrador) Essencial RNF#3 Hardware O sistema deverá apresentar um bom desempenho em dispositivos com baixos recursos hardware. Essencial RNF#4 Login/Registo A homepage do sistema deve conter um formulário de login com os campos de e-mail e password e de registo com um formulário de registo Essencial RNF#5 Pesquisa A homepage do sistema deverá permitir a pesquisa de conteúdos a utilizadores com e sem sessão iniciada Essencial RNF#6 Desempenho O sistema não deve exceder os 4 segundos a executar uma pesquisa no catálogo Essencial RNF#7 Backup O sistema deve realizar backups de forma automática duas vezes por dia Essencial RNF#8 Restrição a áreas de interesse O sistema deve restringir o número de áreas de interesse escolhidas pelo utilizador no ato de registo em 5 Essencial RNF#9 Logout automático O sistema deve realizar um logout automaticamente aos utilizadores que estejam inativos durante um tempo superior a 10 minutos Essencial RNF#10 Robustez da palavrapasse A palavra-passe escolhida pelo utilizador e pelo administrador no ato de registo deve ser composta por oito ou mais caracteres Essencial RNF#11 Sensibilidade à acentuação O campo de pesquisa do sistema não deverá ser sensível a falta de acentuação ou erros de digitação, obtendo todos os resultados previstos caso a(s) palavra(s) estivesse(m) escrita(s) corretamente Essencial RNF#12 Sensibilidade às stopwords O campo de pesquisa do sistema não deve ser sensível à utilização de stopwords Essencial Tabela 15 - Requisitos não-funcionais do sistema 115 7.4. Modelação UML do sistema A Unified Modeling Language (linguagem UML) foi criada em 1995 para permitir que houvesse uma padronização na descrição dos sistemas de informação, de forma a evitar ambiguidades e para que os utilizadores seguissem todos as mesmas directrizes. Os diagramas que esta linguagem oferece são bastante utilizados internacionalmente e estão divididos em dois tipos, segundo Alturas (2013): os estruturais (diagrama de classes, componentes, estrutura composta, instalação, objeto, pacotes e de perfil) e os comportamentais (diagrama de atividade, comunicação, colaboração, sequência, estados, tempo e de casos de uso). Os diagramas utilizados para descrever o funcionamento do sistema serão casos de uso. Eles descrevem uma sequência de acções executadas por um actor do sistema para completar um processo. Apresenta associações de interação e relações de dependência (de extensão ou de inclusão). De seguida apresentamos o caso de uso referente ao sistema que se pretende criar: Figura 4- Diagrama de caso de uso relativo ao sistema Como podemos verificar, este caso de uso apresenta dois atores, o utilizador comum e o administrador. Este último realiza todas as atividades destinadas ao utilizador e ainda outras que apenas lhe competem em exclusivo. 116 O utilizador terá que se registar no sistema para, posteriormente, sempre que assim o desejar, poder entrar no sistema, efectuando login. As principais atividades que exigem que o utilizador esteja com sessão iniciada no sistema são gerir a sua própria conta e comprar um produto. Na gestão de conta uma das acções mais importantes, para além da alteração dos dados pessoais, é a monitorização do estado da encomenda, depois de comprada. Na compra do produto o utilizador poderá avaliar o serviço, respondendo a um inquérito de satisfação enviado automaticamente pelo sistema. A pesquisa de produtos no catálogo pode ser realizada independentemente da sessão iniciada ou não, podendo o utilizador permanecer “anónimo” nesta ação. Após pesquisar os produtos o utilizador poderá comentá-los ou avaliá-los quantitativamente, de 1 a 5. O administrador, para além de poder realizar todas estas tarefas pode também verificar os acessos dos utilizadores, onde será visível o histórico de todos os clientes e todo o registo da sua atividade no portal. Para além disso poderão gerir os produtos no catálogo, adicionando ou eliminando itens do sistema. Temos abaixo outro caso de uso de uma acção em concreto: a compra de produtos no portal: Figura 5 - Diagrama de caso de uso correspondente à compra no portal 117 Neste caso o utilizador do sistema é o único ator contemplado. Podemos ver que todas as atividades dependem do login feito pelo utilizador (e, consequentemente, do registo prévio no sistema). A compra é posterior à pesquisa, ou seja, é obrigatório que o utilizador pesquisa algum produto no catálogo para poder efetuar a compra. Para que ela se concretize é necessário efetuar o pagamento, que depende da seleção do modo de pagamento pelo utilizador. Após efectuado o pagamento este pode extrair o comprovativo de compra enviado pelo sistema para o e-mail do utilizador. 118 8. Conclusões e perspetivas de desenvolvimento futuro As incertezas acerca do futuro do livro e do seu mercado são ainda muitas. Esta dissertação contribui, em grande parte, para se ter uma perceção o mais aproximada possível da realidade atual que as editoras livreiras têm que enfrentar. Permite-nos tirar conclusões interessantes, algumas delas já esperadas, outras constituíram uma surpresa: 1. A Internet foi o grande catalisador da mudança de paradigma neste setor. Segundo Faustino (2011) ela trouxe uma capacidade maior de estabelecer uma relação de proximidade com o consumidor, para além de ter facilitado a entrada de novos players no negócio, reduzindo significativamente os custos de distribuição; 2. O e-book é o futuro da indústria livreira. É certo que a evolução para um modelo de negócio digital nos livros surgiu muito depois de outras indústrias, como a fonográfica ou a cinematográfica, mas hoje pode dizer-se que crescimento do e-book é inevitável, será impossível que ele não ocupe uma larga fatia do mercado nos próximos anos. Hoje, nos mercados mais fortes como são o britânico e o norte-americano, assiste-se já a uma presença bem vincada do digital, com cerca de 20% dos adultos em cada país a ter feito já o download de pelo menos um e-book. Uma previsão da PwC diz mesmo, como vimos atrás, que em 2017, nos Estados Unidos, o mercado de e-books irá ultrapassar o de livros impressos (Owen, 2013); 3. Apesar de as inúmeras vantagens elencadas ao longo do texto, a verdade é que os sucessivos avanços tecnológicos podem prejudicar a fixação plena do e-book nos tempos mais próximos em alguns mercados. Enquanto que o livro impresso teve (e tem) uma durabilidade como formato de vários séculos, com a tecnologia não sabemos com o que podemos contar: as ferramentas que usamos hoje amanhã poderão estar obsoletas; 4. O mercado português revela ainda uma certa desconfiança em relação ao ebook. Se podemos considerar este aspecto como algo normal resultante de sermos um mercado reduzido e de a grande parte das editoras serem de pequena/média dimensão, a verdade é que torna-se um pouco preocupante quando todos os outros países semelhantes ao nosso têm já uma aposta consolidada e uma estratégia delineada para o digital. Calcula-se que a 119 partir de 2014 tanto os catálogos das editoras como as vendas de e-books irão aumentar significativamente; 5. Fenómenos como a auto-publicação terão um impacto bastante grande no setor livreiro. O facto de os autores poderem publicar as suas obras sem a necessidade do trabalho permanente a que as editoras estão acostumadas a realizar (paginação gráfica, revisão textual, etc.) demonstra a facilidade com que se pode encarar o processo de publicação daqui em diante. O print-on- demand será igualmente fundamental na eliminação de algumas barreiras existentes, como o tempo de impressão e a necessidade de se produzir em grandes quantidades, originando, por vezes, excesso de stock. No que se refere à Publindústria que é o principal objeto e que se pretende que seja o grande beneficiário desta dissertação, podemos dizer que ela está alinhada com a generalidade das editoras nacionais. Existe a convicta perceção de que o negócio não se resume mais à venda do papel, mas sim do conteúdo, independentemente do suporte em que ele esteja presente, tentando chegar ao maior número possível de leitores. Tudo se resume a isso. O mais difícil torna-se compreender todo o modelo de negócio que é necessário colocar em prática, perceber todos os intervenientes no processo e aplicar as ferramentas mais adequadas para disponibilizar o conteúdo ao consumidor final. A Publindústria terá que adaptar as suas técnicas atuais para uma nova realidade, expressa no modelo Canvas construído no ponto 6.2., que se traduz numa nova abordagem ao cliente e numa nova proposta de valor. Com todas as vantagens provenientes do digital, como os baixos custos de impressão e de distribuição é fundamental que as editoras transmitam também essa mensagem aos leitores, pois eles também beneficiam destas mudanças, começando desde logo no facto de a compra e de a receção serem quase imediatas, podendo ser realizadas a partir de qualquer ponto, desde que haja ligação segura à Internet. No que se refere ao modelo para um portal de venda online de conteúdos a Publindústria deverá seguir todas as diretrizes propostas, tendo especial atenção à segurança de todos os ficheiros que terão que possuir uma protecção DRM, caso contrário, a editora corre o sério risco de permitir a distribuição gratuita de conteúdos com um alto valor de mercado. Por último, uma das conclusões mais vincadas após a leitura da bibliografia apresentada responde à seguinte questão: “irá o paradigma digital, nomeadamente o ebook, pôr fim ao livro impresso?”. Depois de concluída a dissertação julgo estar em condições de afirmar que isso seria muito improvável nos tempos mais próximos. É certo que devido à evolução tecnológica galopante a que temos assistido, o mercado 120 livreiro está neste momento em busca de novos públicos e modelos de negócio, parecendo apostar cada vez mais na valorização do conteúdo através de um suporte eletrónico; contudo estou convicto que não fará desaparecer o suporte físico, pois, como diz Faustino (2011), “uma tecnologia nova nem sempre substitui uma tecnologia menos recente; a página impressa ainda não está a ponto de desaparecer”. 121 128 http://pt.slideshare.net/lucilapesce/caractersticas-da-investigao-qualitativa. Instituto de Patologia da Coluna. 2014. “Na Infância.” Instituto de Patologia Da Coluna. Acedido a 3 de janeiro de 2014. http://www.patologiadacoluna.com.br/saiba-mais/cuide-da-sua-coluna/na-infancia/. iPhil. 2013. “Kindle Paperwhite Disponível Em Portugal.” iPhil. Acedido a 3 de janeiro de 2014. http://iphil.blogs.sapo.pt/470557.html. Izzundu, Chi Chi. 2013. “Students ‘Worst’ at E-book Piracy, Says Data Monitor.” BBC. 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Este questionário é, assim, fundamental não só para a minha dissertação de mestrado mas também na melhoria dos processos e serviços da Publindústria. Tendo em conta o modelo de negócio que a Publindústria pretende adotar – produção, gestão e venda de conteúdos digitais – responda às seguintes questões da forma mais completa possível. 1 Questionário respondido por: Nome: Cargo: Ano de entrada na Publindústria: Objetivo: esta pergunta visa identificar o inquirido Modelo de negócio: produção e venda de conteúdos eletrónicos 2 Para que segmentos de clientes a Publindústria cria valor? Quais as características desse segmento? 3 Quais são os diferenciais da proposta de valor oferecida pela Publindústria em relação à dos concorrentes? Tenha em atenção características como a novidade, o desempenho, o preço, a usabilidade, a personalização do produto ou outros. 4 Através de que canais os clientes querem/podem ser abordados? Lembre-se da existência de canais próprios e de canais parceiros. 136 5 Como pode a Publindústria aumentar a atenção das pessoas para o produto/serviço a comercializar? 6 Que tipo de relacionamento pode ser estabelecido com o cliente? 7 Qual é a infra-estrutura existente e qual a desejável para o produto/serviço a oferecer? Que transformações teriam que ocorrer? Encare tanto os recursos físicos (instalações, máquinas, etc.), como intelectuais (marcas, direitos de autor, propriedade intelectual, bases de dados, etc.), humanos e financeiros. 8 Quais são as principais atividades que a proposta de valor e a comunicação com os clientes exigem da Publindústria? 9 Quais são os principais parceiros da Publindústria neste modelo de negócio? 10 Quais são os principais fornecedores da Publindústria? Venda dos conteúdos eletrónicos 11 Qual a melhor solução para disponibilizar o produto ao cliente (portal de venda próprio, podendo ser apenas para desktop ou para dispositivos móveis, ou ambos; backoffice interno ou externo, etc.)? 137 12 Como deverá ser realizado o serviço de apoio pós-venda? 13 Quais os aspetos que mais valoriza num portal online de venda de conteúdos digitais? 14 Quais são, na sua opinião, os maiores desafios que a Publindústria enfrenta neste novo modelo de negócio (alguns são conhecidos, como a segurança dos documentos, os métodos de pagamento, a visualização online vs download para o dispositivo, etc.)? Explique, por favor, as suas preocupações e convicções a este nível. 144 Digital 12,99 € 74 Delírio Literatura erótica Impressa 14,94 € Redução 15% Digital 12,99 € 75 Casado até Quarta Literatura erótica Impressa 13,95 € Redução 7% Digital 12,99 € 76 Na Cama com um Highlander Literatura erótica Impressa 14,94 € Redução 15% Digital 12,99 € 77 1822 História Impressa 15,04 € Redução 16% Digital 12,99 € 78 15 Portugueses Ilustres História Impressa 14,94 € Redução 15% Digital 12,99 € 79 A Maçonaria Universal História Impressa 19,90 € Redução 33% Digital 14,99 € 80 Revolução ou Transição História Impressa 12,00 € Aumento -8% Digital 12,99 € 81 Uma Breve História de África História Impressa 12,96 € Redução 31% Digital 9,90 € 82 Paris Após a Libertação 1944-1949 História Impressa 15,50 € Redução 19% Digital 12,99 € Média 24% 145 10.3. Anexo 3 – Análise dos preços praticados pelo grupo Leya Livro Género Versão Preço Tendência Valor 1 Design et al Arte Impressa 12,00 € Redução 9% Digital 10,98 € 2 Vontades Arte Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 3 Dicionário do Cinema Português 1895-1961 Arte Impressa 31,92 € Redução 14% Digital 27,99 € 4 Kodakização Arte Impressa 12,90 € Aumento -1% Digital 12,99 € 5 100 filmes que podem mudar a sua vida Arte Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 6 O alfaiate lisboeta Arte Impressa 13,28 € Redução 11% Digital 11,99 € 7 Toda a música que eu conheço vol. 2 Arte Impressa 20,40 € Redução 57% Digital 12,99 € 8 Escreve a sua Própria História Auto-ajuda Impressa 11,60 € Redução 6% Digital 10,98 € 9 Conversas com o meu Pai Auto-ajuda Impressa 9,99 € Redução 12% Digital 8,90 € 10 Sem Ti, Inês Auto-ajuda Impressa 9,99 € Redução 233% Digital 3,00 € 146 11 As sete chaves da Cura Auto-ajuda Impressa 4,90 € Aumento -30% Digital 6,99 € 12 Diário dos Tempos de Crise Auto-ajuda Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 13 Labirinto de Mágoas Auto-ajuda Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 14 Não Faz Diferença Nenhuma! Auto-ajuda Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 15 O Meu Ano Mágico Auto-ajuda Impressa 15,92 € Redução 14% Digital 13,99 € 16 Viva com Energia Auto-ajuda Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 17 Atalhos do amor Auto-ajuda Impressa 11,51 € Redução 15% Digital 9,99 € 18 O Livro Mágico Auto-ajuda Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 19 O Óbvio que Ignoramos Auto-ajuda Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 20 Descubra o líder que há em si Auto-ajuda Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 21 O Mestre do Amor Auto-ajuda Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 22 Eu Mileurista, Me Confesso Auto-ajuda Impressa 9,76 € Redução 9% Digital 8,99 € 23 O Voo da Borboleta Auto-ajuda Impressa 11,12 € Redução 11% 147 Digital 9,99 € 24 Manual de Sobrevivência para Donas de Casa Desesperadas Auto-ajuda Impressa 8,88 € Redução 11% Digital 8,00 € 25 O Meu Segredo Auto-ajuda Impressa 10,40 € Redução 4% Digital 9,99 € 26 O Meta Segredo Auto-ajuda Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 27 Com quem não casar Auto-ajuda Impressa 3,00 € Aumento -71% Digital 10,49 € 28 Receba com Glamour Auto-ajuda Impressa 10,00 € Redução 100% Digital 4,99 € 29 Mentes Brilhantes, Mentes Treinadas Auto-ajuda Impressa 9,76 € Redução 9% Digital 8,99 € 30 Os Homens (Às vezes, Infelizmente) Voltam Sempre Auto-ajuda Impressa 9,76 € Redução 9% Digital 8,99 € 31 As Mensagens de Jesus para Ti Auto-ajuda Impressa 11,96 € Redução 9% Digital 10,98 € 32 O Livro da Tua Vida Auto-ajuda Impressa 11,92 € Redução 9% Digital 10,98 € 33 Conversas com Animais Auto-ajuda Impressa 11,92 € Redução 9% Digital 10,98 € 34 Como Criar um novo Eu Auto-ajuda Impressa 12,72 € Redução 6% Digital 11,99 € 35 A Carta Auto-ajuda Impressa 11,92 € Redução 9% Digital 10,98 € 148 36 O Grito de Guerra da Mãe Tigre Auto-ajuda Impressa 8,90 € Redução 98% Digital 4,49 € 37 Os Piratas do Deserto Banda-desenhada Impressa 10,00 € Redução 11% Digital 8,99 € 38 Provérbios…Com Gatos Banda-desenhada Impressa 7,12 € Redução 2% Digital 6,99 € 39 Grace de Mónaco Biografias/Memórias Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 40 Escolhi Viver Biografias/Memórias Impressa 12,40 € Redução 13% Digital 10,98 € 41 Mick Jagger Biografias/Memórias Impressa 17,60 € Redução 10% Digital 15,99 € 42 Relatório do Interior Biografias/Memórias Impressa 13,20 € Redução 10% Digital 11,99 € 43 Coração Sem Limites Biografias/Memórias Impressa 12,40 € Redução 13% Digital 10,98 € 44 Memórias de Anne Frank Biografias/Memórias Impressa 8,90 € Aumento -11% Digital 9,99 € 45 Agatha Christie - Autobiografia Biografias/Memórias Impressa 15,20 € Redução 9% Digital 13,99 46 Condenada Biografias/Memórias Impressa 12,40 € Redução 18% Digital 10,49 € 47 Diário de Inverno Biografias/Memórias Impressa 14,00 € Redução 17% Digital 11,99 € 48 O Fio do Destino Biografias/Memórias Impressa 11,12 € Redução 11% 149 Digital 9,99 € 49 Safira Biografias/Memórias Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 50 Comprada Biografias/Memórias Impressa 11,20 € Redução 7% Digital 10,49 € 51 Vida Roubada Biografias/Memórias Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 52 A Menina Sem Nome Biografias/Memórias Impressa 11,92 € Redução 9% Digital 10,98 € 53 Uma Mulher em Berlim Biografias/Memórias Impressa 11,92 € Redução 9% Digital 10,98 € 54 Casei com um Beduíno Biografias/Memórias Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 55 Nasci num Harém Biografias/Memórias Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 56 Escravas Biografias/Memórias Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 57 Anjo Emprestado Biografias/Memórias Impressa 12,72 € Redução 6% Digital 11,99 € 58 O Fim do Império Biografias/Memórias Impressa 15,12 € Redução 8% Digital 13,99 € 59 Tudo Tem o Seu Tempo Biografias/Memórias Impressa 15,12 € Redução 8% Digital 13,99 € 60 Pensageiro Frequente Biografias/Memórias Impressa 9,52 € Redução 6% Digital 8,99 € 150 61 E Se Obama Fosse Africano? E Outras Interinvenções Biografias/Memórias Impressa 7,92 € Aumento -1% Digital 8,00 € 62 Cronicando Biografias/Memórias Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 63 Deste Mundo e Do Outro Biografias/Memórias Impressa 10,32 € Redução 48% Digital 6,99 € 64 Pensatempos Biografias/Memórias Impressa 7,12 € Redução 19% Digital 5,99 € 65 Alex Ferguson Biografias/Memórias Impressa 18,32 € Redução 8% Digital 16,99 € 66 Os Factos Biografias/Memórias Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 67 A Felicidade em Albert Camus Biografias/Memórias Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 68 Viagens e Outras Viagens Biografias/Memórias Impressa 12,72 € Redução 6% Digital 11,99 € 69 O Livro do Silêncio Biografias/Memórias Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 70 O Padre Motard Biografias/Memórias Impressa 4,90 € Aumento -51% Digital 9,99 € 71 A Guerra de Mourinho Biografias/Memórias Impressa 11,92 € Redução 33% Digital 8,99 € 72 Diário de Uma Viagem à Rússia - 1867 Biografias/Memórias Impressa 7,92 € Redução 13% Digital 6,99 € 73 O Romance Português Contemporâneo Ciências da Educação Impressa 13,52 € Redução 13% 151 Digital 11,99 € 74 Sintaxe do Português Ciências da Educação Impressa 3,99 € Redução 33% Digital 2,99 € 75 ABC da Crítica Ciências da Educação Impressa 9,60 € Redução 7% Digital 8,99 € 76 Dicionário de Nomes Próprios Ciências da Educação Impressa 5,28 € Redução 77% Digital 2,99 € 77 Leituras ao Luar Ciências Exatas Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 78 O Homem Sonae Ciências Sociais e Humanas Impressa 8,90 € Redução 27% Digital 6,99 € 79 Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro Ciências Sociais e Humanas Impressa 10,90 € Redução 9% Digital 9,99 € 80 10 Passos para Chegar ao Topo Ciências Sociais e Humanas Impressa 8,90 € Redução 11% Digital 8,00 € 81 O Amor é uma Carta Fechada Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,60 € Redução 16% Digital 9,99 € 82 Conversas com Pais Ciências Sociais e Humanas Impressa 13,20 € Redução 10% Digital 11,99 € 83 Vagabundos de Nós Ciências Sociais e Humanas Impressa 7,92 € Redução 59% Digital 4,99 € 84 Voltei à Escola Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,92 € Redução 49% Digital 8,00 € 85 A Queda do Euro Ciências Sociais e Humanas Impressa 15,12 € Redução 38% Digital 10,98 € 152 86 Defilhar Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 87 Leve as Pessoas Consigo Ciências Sociais e Humanas Impressa 14,00 € Redução 8% Digital 12,99 € 88 As Melhores Ideias São Estúpidas Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,92 € Redução 14% Digital 10,49 € 89 Nova Teoria do Sebastianismo Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,92 € Redução 19% Digital 9,99 € 90 Novos Horizontes do Marketing Ciências Sociais e Humanas Impressa 19,92 € Redução 11% Digital 17,99 € 91 Nova Teoria da Felicidade Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 92 Nova Teoria do Mal Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 93 Sempre que o Amor me Quiser Ciências Sociais e Humanas Impressa 12,72 € Redução 16% Digital 10,98 € 94 Click! Ciências Sociais e Humanas Impressa 12,72 € Redução 6% Digital 11,99 € 95 A Sabedoria das Nossas Fúrias Ciências Sociais e Humanas Impressa 13,52 € Redução 13% Digital 11,99 € 96 O Corpo Não Mente Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,92 € Redução 19% Digital 9,99 € 97 Método Emocional Ciências Sociais e Humanas Impressa 12,72 € Redução 6% Digital 11,99 € 98 Os 7 Segredos da Sincronicidade Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,92 € Redução 14% 153 Digital 10,49 € 99 Independência Financeira Para Mulheres Ciências Sociais e Humanas Impressa 10,32 € Redução 3% Digital 9,99 € 100 Crash Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,51 € Redução 15% Digital 9,99 € 101 O Método de Steve Jobs Ciências Sociais e Humanas Impressa 12,72 € Redução 16% Digital 10,98 € 102 Milionários Acidentais Ciências Sociais e Humanas Impressa 2,00 € Aumento -83% Digital 11,99 € 103 Aqui Entre Nós Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 104 Ideias Xis Ciências Sociais e Humanas Impressa 3,92 € Aumento -2% Digital 3,99 € 105 Mais e Melhor Ciências Sociais e Humanas Impressa 2,90 € Aumento -68% Digital 8,99 € 106 Levante-se o Véu! Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,12 € Redução 11% Digital 9,99 € 107 Organizem-se! Ciências Sociais e Humanas Impressa 3,92 € Redução 31% Digital 2,99 € 108 A Economia Lá de Casa Ciências Sociais e Humanas Impressa 11,92 € Redução 9% Digital 10,98 € 109 Quanto é Suficiente? Ciências Sociais e Humanas Impressa 14,32 € Redução 10% Digital 12,99 € 110 Cozinahr em Casa é Fácil Culinária e Gastronomia Impressa 17,60 € Redução 10% Digital 15,99 €