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Biologia, ecologia e pesca desportiva da truta, Salmo trutta morpha fario L., no rio Vez

Diogo Sottomayor Pires de Abreu Novais

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Biologia, ecologia e pesca desportiva da truta, Salmo trutta morpha fario L., no rio Vez Diogo Sottomayor Pires de Abreu Novais Dissertação de Mestrado em Ciências do Mar – Recursos Marinhos Especialização em Aquacultura e Pescas 2012 Diogo Sottomayor Pires de Abreu Novais Biologia, ecologia e pesca desportiva da truta, Salmo trutta morpha fario L., no rio Vez Dissertação de Candidatura ao grau de Mestre em Ciências do Mar – Recursos Marinhos submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto Orientador – Professor Doutor José Carlos Fernandes Antunes Categoria – Professor Auxiliar Afiliação – Escola Superior Gallaecia Co-orientador – Professor Doutor António Manuel dos Santos Afonso Categoria – Professor Associado Afiliação – Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto i Agradecimentos Ao Prof. Dr. Carlos Antunes por ter aceite ser orientador desta tese, por todo o acompanhamento e indicações essenciais e por me ter proporcionado todas as condições para a realização da mesma. Ao Prof. Dr. António Afonso por ter aceite ser meu co-orientador, pelas observações e conselhos fundamentais. Ao Jorge Araújo pela disponibilidade para ajudar, em especial pelas respostas prontas às minhas constantes perguntas e também pela colaboração na pesca eléctrica À Catarina Braga por todo apoio essencial na estruturação da tese, na identificação de conteúdos estomacais e também pela grande ajuda na pesca eléctrica. À Micaela Mota pela grande ajuda na parte laboratorial. Ao Rodrigo Lopez pelos mapas excelentes. Ao Patrício Bouça pela ajuda nas pesquisas mais difíceis. À Sílvia Marinho e à Catarina Antunes pela colaboração na pesca eléctrica. À Cláudia Ferreira pela ajuda na estruturação da tese. A todos os colaboradores do Aquamuseu pela forma como me acolheram e pelo excelente ambiente de trabalho. A todos os pescadores desportivos que gentilmente me forneceram informações e dados relevantes, nomeadamente aos meus amigos Paulo Sampaio, José Carmo, Jorge Gonzalez, Horácio Araújo e José Marinho. Ao meu amigo Miguel Calhau que me acompanhou nestas e em muitas outras jornadas de pesca. À instituição Aquamuseu do rio Minho por todas as condições proporcionadas. Aos pescadores dos Arcos de Valdevez, que me ensinaram a pescar. ii iii Resumo A truta fário (Salmo trutta morpha fario) é frequentemente usada como atracção turística e é o alvo mais importante e popular da pesca desportiva na Europa. Em Portugal o número de licenças de pesca desportiva emitidas nos últimos anos, para pesca nas águas interiores, tem ultrapassado as 200 mil por ano. A pesca têm assim uma elevada importância socio-económica e normalmente o benefício económico para as regiões aumenta com o número de pescadores. O rio Vez (rio da região norte de portugal) tem sido palco de alguns campeonatos do mundo de pesca à truta e de várias provas de âmbito nacional. No rio existe uma zona de pesca reservada (ZPR) com um regime de pesca específico e uma zona livre sujeita ao regime geral da pesca. Em cinco dias de seis meses diferentes, o rio apresentou parâmetros da água, na generalidade, dentro dos limites recomendáveis apesar de algumas amostras mais a jusante ultrapassarem os valores máximos admissíveis. Em relação à truta, o período de postura numa zona do rio Vez parece ter ocorrido entre 5 de Dezembro de 2011 e pelo menos 16 de Janeiro de 2012, com temperaturas da água a variar entre 7 e os 11,4 ºC . O aumento do número de trutas no local de postura ocorreu em dias de precipitação em que o caudal do rio aumentou. Durante a migração para a postura, a percentagem de saltos de trutas que tiveram sucesso, conseguindo as trutas transpor uma represa que existe no troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez, foi de apenas 0,6 %. Este estudo aborda fundamentalmente a pesca com isco artificial especificamente com colher nº2 dourada. Nas jornadas de pesca desportiva capturou-se em média uma truta por hora e em média a cada dois ataques ao isco apenas uma truta foi capturada. A truta aparenta ser um peixe crepuscular com máxima actividade ao amanhecer e ao anoitecer. Nas jornadas de pesca com isco artificial existiu uma diferença significativa entre as capturas por unidade de esforço (CPUE - truta/hora) na zona livre e as CPUE na zona de pesca reservada do rio Vez. Igualmente foram significativas as diferenças entre as capturas por unidade de esforço em dias de aguaceiros e em dias sem precipitação. Pela análise dos resultados da pesca eléctrica, é significativa a diferença entre os pesos e comprimentos entre as trutas da ZPR e da zona livre verificando-se um aumento do comprimento e do peso médio das trutas de jusante para montante. iv O número de trutas nos locais amostrados por pesca eléctrica aumentou de jusante para montante. O comprimento mínimo de captura parece determinar a estrutura da população de trutas do rio Vez. Palavraschave: Truta, Salmo trutta, rio Vez, pesca desportiva v Abstract The brown trout (Salmo trutta morpha fario) is often used as tourist attraction and is the most important and popular target of recreational fishing in Europe. In Portugal the number of licenses issued for fishing in recent years, for inland fishing has exceed the 200.000 per year. Thus fishing has a high socio-economic importance and generally the economic benefit to the regions increases with the number of fishermen. The River Vez (River in Northern Portugal) has been the scene of some world and national trout fishing championships. In the river there is a reserved fishing zone with particular fishing rules and a free zone, subject to the general rules of fishing. In five days of six months, the river had water parameters, in general, within the limits recommended, although some samples further downstream exceed the maximum permissible values. The period of trout posture in an area of the River Vez seems to have occurred between 5 December 2011 and at least 16 January 2012, with water temperatures range between 7 and 11,4°C. The Increasing the number of trout in the site of posture occurred in days of precipitation when flow increased. During migration to posture the percentage of jumps of trout that managed to cross a dam that exists in the stretch of the river that runs through village of Arcos de Valdevez was only 0,6%. This study is essentially about fishing with artificial bait. In the days of sport fishing, trouts were caught at an average of one trout per hour and, in average, in two attacks to the bait just one trout was caught. The trout seems to be a crepuscular fish with maximum activity at dawn and dusk. In days of fishing with artificial bait, there was significant difference between the catch per unit effort (trout/hour) in the free zone and in the reserved fishing zone of river Vez. Equally significant were the differences between the catch per unit effort in days of downpours and days without precipitation. By analysis of the results of electric fishing there was a significant difference between the weights and lengths between trout caught in the reserved fishing zone and in the free zone, an increase in the length and weight of trout from downstream to upstream was verify. The number of trout sampled clearly increased from downstream to upstream. The minimum length of capture seems to determine the population structure of trout river Vez. Keywords: Trout, Salmo trutta, River Vez, fishing xii Índice de Figuras Figura 1 - Troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez ............................ 1 Figura 2 - Localização do rio Vez. ..................................................................................... 2 Figura 3 - Diferença de cor entre truta juvenil e adulta, trutas capturadas no rio Vez. ....... 4 Figura 4 - Exemplo de coloração do flanco de uma truta fário. Truta nº 118, comp: 20,1 cm, peso: 98 g. ................................................................................................................. 4 Figura 5 - Número total de licenças (Nacionais + regionais + concelhias) e regionais para a zona Norte emitidas por ano (Fonte: ICNF)...................................................................24 Figura 6 - Número de licenças nacionais, regionais e concelhias emitidas por ano (Fonte: ICNF). ..............................................................................................................................24 Figura 7 - Número de licenças especias diárias emitidas para a zona reservada do rio Vez (lotes) por ano (Fonte: ICNF). ..........................................................................................25 Figura 8 - Lote 8, local mais a montante atingido nas jornadas de pesca. .......................26 Figura 9 - Local de postura (lp1) (zona e/vila). .................................................................27 Figura 10 - Represa que existe na zona e/vila. ................................................................28 Figura 11 - Perfil da represa ............................................................................................28 Figura 12 - Amostras ou colheres utilizadas (marca mepps e mosca) .............................30 Figura 13 - Divisão das 20 zonas definidas para a pesca desportiva e eléctrica. .............32 Figura 14 - Valores de temperatura da água em 5 dias de 5 meses diferentes, em 3 locais, um na parte alta do rio (lote 6), outro na zona média (zona m) e outro perto de foz (zona a). ..........................................................................................................................36 Figura 15 – Concentração de cloro livre...........................................................................37 Figura 16 – Concentração de amoníaco. .........................................................................37 Figura 17 - Concentração de nitritos. ...............................................................................37 Figura 18 - Concentração de nitrato. ................................................................................37 Figura 19 - Concentração de fosfatos. .............................................................................37 Figura 20 - Variação da temperatura do ar e da água no local de postura lp1 no rio Vez e variação do número de trutas observadas no local lp1. ...................................................38 Figura 21 - Nivel hidrométrico instantâneo no pontilhão de celeiros (INAG 2012) (estação de medição 3000 m a montante da zona de postura situada no limite entre a zona f e a zona g: 41º52’06’’ N 8º25’13’’) e número de trutas observadas na zona de postura. .......39 Figura 22 - Truta a escavar o “ninho” no local de postura lp1, ano 2007. ........................40 Figura 23 - Trutas num "ninho" no local lp1, ano 2011. ...................................................41 xiii Figura 24 - Trutas no local lp1, ano 2007. ........................................................................40 Figura 25 - Número de trutas presentes no local de postura e número de saltos, durante 15 minutos, numa represa 500 m a montante do local lp1. ..............................................41 Figura 26 - Número de saltos, sem sucesso, a cada meia hora ao longo de 4 dias. ........42 Figura 27 - Cardume de trutas em migração na base da represa (2011). ........................43 Figura 28 - Esquema da represa existente no troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez. ..........................................................................................................43 Figura 29 - Locais onde foram capturadas trutas (n=209) no rio Vez, nas jornadas de pesca e respectivo comprimento furcal (CF). ...................................................................45 Figura 30 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas, e capturas por unidade de esforço (CPUE) (± desvio padrão), por zona do rio Vez. ...............................46 Figura 31 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço (±desvio padrão), nos 4 troços. .........................................................47 Figura 32 - Truta nº 57, CF: 46 cm, peso: 820 g, local: zona j. .........................................48 Figura 33 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas, capturas por unidade de esforço, por mês, em todo o curso do rio Vez. ..............................................48 Figura 34 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas, e capturas por unidade de esforço, por mês, para todos lotes.................................................................49 Figura 35 – Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, por mês, para a zona livre. ...............................................................49 Figura 36 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço (±erro padrão), de hora em hora, para todo o curso do rio Vez. ........51 Figura 37 – Dendrograma da percentagem de similaridade de CPUE entre intervalos de tempo (hora) (nº de horas de pesca = 192). .....................................................................52 Figura 38 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, de hora em hora, para o troço dos lotes. ..........................................52 Figura 39 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, de hora em hora, para o troço a montante da vila. ...........................53 Figura 40 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, de hora em hora, para a zona e/ vila. ...............................................54 Figura 41 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, de hora em hora, para o troço a jusante da vila. ..............................54 Figura 42 - Número de horas de pesca, número de capturas e capturas por unidade de esforço face a diferentes intervalos de temperatura do rio. ..............................................55 Figura 43 - Número de horas de pesca e número de capturas em cada troço face a diferentes intervalos de temperatura. ...............................................................................56 xiv Figura 44 - Número de ataques ao isco, com captura de truta e número de ataques ao isco, sem captura de truta. ...............................................................................................57 Figura 45 - Número de capturas de truta em água parada e água corrente. ....................58 Figura 46 - Número de ataques ao isco, sem captura de truta, em águas paradas e correntes. .........................................................................................................................59 Figura 47 - Percentagens de trutas capturadas com 1, 2 ou 3 anzois cravados, na zona dos lotes (n=97). ..............................................................................................................59 Figura 48 - Percentagens de trutas capturadas com 1, 2 ou 3 anzois cravados, na zona livre (n=112). ....................................................................................................................60 Figura 49 - Classes de comprimentos das trutas capturadas nos 4 troços amostrados por pesca desportiva (n=209). ...............................................................................................60 Figura 50 - Média (± erro padrão) dos comprimentos das trutas nas várias zonas. .........63 Figura 51 - Média dos comprimentos (± erro padrão) das trutas nos quatro troços. .........64 Figura 52 – Média (± erro padrão) dos pesos das trutas capturadas nas várias zonas. ...65 Figura 53 – Média (± erro padrão) dos pesos das trutas nos quatro troços. ....................65 Figura 54 – Média do coeficientes de condição K (± desvio padrão) em cada zona. .......66 Figura 55 - Coeficientes k médios (± desvio padrão) em cada troço. ...............................67 Figura 56 - Conteúdo estomacal regurgitado por uma truta do lote 3, truta nº116, comp: 23 cm, peso: 132 g. .........................................................................................................68 Figura 57 - Número de trutas com idades 0+, 1+, 2+, 3+, 4+ e 5+ em cada classe de comprimento (n=163), determinada pela análise de escamas. ........................................70 Figura 58 - Escama da truta nº 216, idade 1+, CF: 12,4 cm, peso: 22 g, local de captura: lote1. ................................................................................................................................71 Figura 59 - Escama da truta nº 111, idade: 2+, CF: 18 cm, Peso: 73 g, local de captura: lote 3. ...............................................................................................................................71 Figura 60 - Escama nº 129, idade 3+, CF: 18 cm, peso: 68 g, local de captura: lote 1. ....71 Figura 61– Escama da truta nº 150, idade 5+, CF: 26 cm, peso: 212 g, local de captura: lote 2. ...............................................................................................................................71 Figura 62 -Otólito da truta nº90, idade 2+, CF: 19 cm, peso: 77 g, local de captura: zona L.(Luz transmitida). ..........................................................................................................72 Figura 63 - Otólito da truta nº46, idade 3+, CF: 22,2 cm, peso: 114 g, local de captura: zona d (Luz transmitida). .................................................................................................72 Figura 64 - Número de trutas capturadas por pesca eléctrica com idades de 0+, 1+, 2+, 3+, determinadas por leitura de escamas, para cada classe de comprimento (n= 25). ....74 Figura 65 - Número de capturas por unidade de esforço (truta/hora) da pesca eléctrica (n=108) e nas jornadas de pesca desportiva (n=209), em 4 zonas. .................................75 xv Figura 66 - Lote 6 (41º58’28’’N, 8º22´93’’ W). ..................................................................76 Figura 67 - Zona i (41º5’ 87’’N, 8º25’61’’ W). ...................................................................76 Figura 68 - Zona a (41º48’93’’ 8º24’57’’). .........................................................................76 Figura 69 - Comprimento médio (± erro padrão) das trutas capturadas por pesca eléctrica (108) e por pesca desportiva (n=249), por zona. .............................................................77 Figura 70 - Classes de comprimento das trutas capturadas por pesca eléctrica em 4 zonas, de 3 troços. ..........................................................................................................78 Figura 71 - Percentagens de trutas de cada classe, capturadas nas jornadas de pesca desportiva (n=209) e por pesca eléctrica (n=108). ...........................................................79 Figura 72 - Classes de comprimento das trutas capturadas pela pesca desportiva (249) e na pesca eléctrica (108). ..................................................................................................81 Figura 73 - Média (± erro padrão) dos pesos das trutas capturadas por pesca eléctrica (n=108) e por pesca desportiva (n=249), por zona. .........................................................82 Figura 74 - Coeficiente de condição K médio (± desvio padrão) das trutas capturadas por pesca eléctrica e por pesca desportiva, por zona. ...........................................................83 Figura 75 - Relação comprimento furcal vs peso de 249 trutas capturadas por pesca desportiva e 108 trutas capturadas com recurso a pesca eléctrica, no rio Vez. ...............84 Figura 76 - Relação comprimento total vs peso de 207 trutas capturadas por pesca desportiva e 108 trutas capturadas com recurso a pesca eléctrica, no rio Vez. ...............85 Figura 77 - Juvenil de truta de pequenas dimensões capturado na zona e (2008) ...........87 Figura 78 - Truta nº 40, CF: 22,8 cm, peso: 124g ............................................................90 Figura 79 - Truta atacada (truta nº 42) comp: 17,4 cm, peso: 57 g, local: zona j. ........... 114 Figura 80 - Truta nº 162 comp: 22,4 peso:122 g local: lote 3. ....................................... 115 Figura 81 - Truta nº 123 comp: 20,9 peso 105 g local: lote 4. ........................................ 115 Figura 82 - Truta nº 73 comp:17,5 peso: 54 g local: zona a. .......................................... 115 Figura 83 - Truta nº 84 comp: 34,5 peso: 342 g local: zona i. ........................................ 115 Figura 84 - Troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez (zona e), local de captura 41º50’91’’ N 8º25’16’’ W - Fotografia aérea da zona (Google Earth). ................ 116 Figura 85 - Salmão (Salmo salar) capturado no rio Vez no ano 2010. ........................... 116 Figura 86 - Categoria de idades dos pescadores inquiridos. .......................................... 117 Figura 87 - Residência dos pescadores inquiridos (percentagem). ................................ 117 Figura 88 - Técnicas de pesca praticadas pelos pescadores no rio Vez (percentagem). ...................................................................................................................................... 118 Figura 89 - Ano da maior captura de cada pescador (percentagem). ............................. 118 Figura 90 - Ano com maior número de capturas num dia (percentagem). ...................... 119 Figura 91 - Destino do peixe capturado (percentagem). ................................................ 119 xvi Figura 92 - Concorda com o repovoamento do rio? ...................................................... 120 Figura 93 - Estaria disposto a pagar mais para ter melhores condições de pesca? ....... 120 Figura 94 - Que condições gostaria de ver melhoradas? ............................................... 121 Figura 95 - O que mudaria na Gestão do rio Vez? ......................................................... 122 Figura 96 - Costuma pescar nos lotes do rio Vez? ......................................................... 122 Figura 97 - Licença de pesca diária, notar que no verso existe uma declaração de capturas por espécie de entrega obrigatória. ................................................................. 123 1 1. Introdução geral A truta é um recurso importante das massas de água interiores do Centro-Norte do País, alvo de pesca desportiva pela, qualidade da sua carne, combatividade, dificuldade de captura e beleza. É um peixe que necessita de níveis de qualidade da água elevados. Perante a crescente pressão de pesca, degradação da qualidade das águas dos rios e possíveis alterações climáticas, o futuro da espécie pode ficar em risco. Torna-se assim crucial a tomada de medidas que salvaguardem a espécie e que ao mesmo tempo vão de encontro ao desejo dos pescadores desportivos que, têm um papel importante a desempenhar e que cada vez mais se preocupam com a sua conservação. 1.1. Caracterização da área de estudo O rio Vez é um afluente do rio Lima, é um rio amplo, destino de pesca de muitos pescadores desportivos. Na freguesia de Vilela é atravessado por uma ponte medieval que marca o limite jusante da zona de pesca reservada (ZPR), mais para jusante o rio atravessa a vila de Arcos de Valdevez (figura 1). Figura 1 - Troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez 2 Figura 2 - Localização do rio Vez. Comprimento do rio Vez – 36 km Nascente – Lamas do Vez, Serra do Soajo, nas proximidades do Santuário de N. Senhora da Peneda. Altitude da nascente – 1250 m Foz – Milhundos - Souto (rio Lima) Principais afluentes – Rio Ázere, rio Cabreiro, rio Frio, ribeira de S. Mamede e ribeira de Frades Área da bacia - 263,3 km2 3 1.2. A truta 1.2.1. Posição sistemática Reino: Animalia Filo: Chordata Subfilo: Vertebrata Classe: Osteichthyes Subclasse: Actinopterygii Ordem: Salmoniformes Subordem: Salmonoidei Familia: Salmonidae Género: Salmo Espécie: Salmo trutta morpha fario L. 1758 Nomes vulgares: Truta fário, truta comum, truta-de-rio, truta dos regatos, truta sapeira, truta pinta (Portugal) Brown trout (Inglaterra) Truite de rivière (França) Trota fario ou trota di fiume (Itália) 1.2.2. Características gerais A boca está armada com dentes cónicos e fortes, havendo dentes nos maxilares, sobre os palatinos e no vómer. Os olhos são grandes e situados por cima do maxilar superior, a íris é amarelada. Barbatana: Dorsal - 12 a 14 raios ramificados. Caudal - 18 a 21 raios. Anal - 10 a 12 raios. Ventrais - 9 raios. Peitorais - 13 a 15 raios. Adiposa – sem raios. A barbatana caudal homocerca é chanfrada nos jovens, mas à medida que a idade avança, a concavidade do bordo posterior da barbatana atenua-se, até se converter 4 numa linha recta ou mesmo arredondada. A barbatana adiposa é avermelhada ou alaranjada e apresenta manchas negras. A cor das trutas altera-se com a idade, qualidade da água, habitat e com a estação do ano. O tipo de coloração mais usual das trutas adultas é o dorso castanho a cinzento esverdeado, flancos acastanhados ou acinzentados (com manchas negras e vermelhas) e ventre amarelado ou esbranquiçado (figura 3 e 4) (anexo II). As trutas pequenas jovens são sempre mais escuras que as adultas (figura 3) (Pereira 1994). Dependendo do seu habitat a truta de montanha pode atingir tamanhos de 20 cm, a de rio 70 cm e a de lago 100 cm com pesos respectivamente de 200 g, 4 a 5 kg e 15 kg. Nas nossas águas as dimensões mais frequentes situam-se entre os 20 e os 40 cm. Embora já tenham sido capturadas trutas com 20 anos de idade a maioria vive menos tempo. Em populações anádromas poucos peixes vivem mais que 10 anos (Jonsson 1991). Figura 4 - Exemplo de coloração do flanco de uma truta fário. Truta nº 118, comp: 20,1 cm, peso: 98 g. Figura 3 - Diferença de cor entre truta juvenil e adulta, trutas capturadas no rio Vez. 5 1.2.3. Distribuição e habitat A truta fário (Salmo trutta morpha fario L. 1758) é indígena da Eurásia, sendo a sua distribuição essencialmente restrita à Europa. A Este, estende-se até à Asia enquanto o limite Sul são os Montes Atlas no Norte de Africa (Elliott 1994). O seu interesse social e económico está no seu valor como alvo de pesca desportiva que incentivou a sua cultura extensiva em muitos países europeus (Laikre et al. 1999). Consequentemente, a truta fário também foi introduzida em pelo menos 24 paises fora da Europa, incluindo EUA, Canadá e Austrália, bem como em vários países da América do Sul, Africa e Asia. A maior parte destas introduções foram feitas no final no séc. XIX e primeira metade do séc. XX, antes do conhecimento dos riscos biológicos da introdução de espécies exóticas (MacCrimmon e Marshall 1968; MacCrimmon et al. 1970; Laikre et al. 1999). A truta fário é exigente em termos de habitat e qualidade da água, como resultado este peixe é um relevante bioindicador da qualidade das massas de água doce mundiais (Lagadic et al. 1998; Wood 2007). Este salmonídeo está actualmente dividido em morfotipos de acordo com a sua presença em diferentes ambientes. Assim, pode crescer, no mar e migrar para água doce para reprodução (S. trutta morpha truta – truta marisca), viver em lagos (S. trutta morpha lacustris) ou viver exclusivamente em água doce (S. trutta Morpha fario – truta fário) (Laikre et al. 1999). Como resultado dessas capacidades de adaptação, a truta fário tem colonizado com sucesso diversas massas de água (Elliott 1994; Klemetsen et al. 2003). Existe controvérsia quanto à classificação taxonómica da espécie Salmo trutta tendo em atenção os diferentes grupos morfológicos e genéticos identificados. A truta é selectiva relativamente ao habitat que escolhe, essa preferência é particularmente determinada pelas condições hidrodinâmicas. A ocupação do habitat pelos peixes depende da sua espécie e tamanho. A truta prefere zonas com corrente e profundas, áreas com corrente moderada a fraca e substratos rochosos. A profundidade da água é considerada a variável de habitat mais importante para a truta (Heggenes 1996, 1999). Com o aumento do tamanho a truta habita sucessivamente zonas de correntes mais profundas que proporcionam áreas de melhor abrigo e espaço (Wesche et al. 1987) existindo um forte correlação entre o tamanho da truta e o uso dessas zonas mas profundas. Trutas maiores em pequenas correntes evitam águas pouco profundas, grandes gradientes de temperatura e correntes fortes (Heggenes 1996). Numa zona do rio mais larga, é reportado que as trutas também são encontradas em zonas de corrente mais 12 A alimentação oportunistica sobre um leque variado de invertebrados de vários tamanhos e taxa é considerada a norma para a truta adulta em rios de corrente livre (Elliott 1973; Ringler 1979; Bachman 1984). A truta em muitos sistemas aquáticos necessita de ”inputs” externos de invertebrados terrestres, particularmente durante o verão, para satisfazer as suas necessidades energéticas (Nakano et al. 1999; Kawaguchi e Nakano 2001). Foi demonstrado que a truta fário piscívora tem um crescimento maior que a truta não piscívora tanto em laboratório (Elliott e Hurley 2000) como em estudos de campo (Grey 2001). Os regimes de temperatura e fluxo dos rios exercem um grande controlo sobre a distribuição e abundância dos invertebrados disponíveis para os salmonídeos (Waters 1969; Benke et al. 1988; Richardson 1993) bem como sobre o balanço energético dos salmonídeos (Smith e Li 1983). Pequenas trutas alimentam-se principalmente de larvas de insectos, quironomídeos (Díptera) em particular mas também podem alimentar-se de outors artrópodes. Com o aumento de peso estas alimentam-se gradualmente de presas maiores como larvas de insectos pertencentes aos grupos Ephemeroptera, Plecoptera, Simuliidae e Trichoptera (Jonsson e Gravem 1985; Haraldstad et al. 1987; Neveu 1999; Rincón e Lobón-Cerviá 1999; Steingrimsson e Gislason 2002). Num estudo em dois rios do Nordeste de Portugal, durante o Verão, nos anos 2000, 2001 e 2002 as trutas do ano alimentaram-se predominantemente das presas aquáticas mais disponíveis pertencentes às ordens Díptera e Ephemeroptera não sendo encontrados insectos da ordem Trichoptera nos conteúdos estomacais (Teixeira 2006). Num estudo em Espanha no rio Tormes as presas aquáticas constituíram 87,99 % do total do conteúdo estomacal sendo 56,01 % da família Baetidae, 9,09 % Simuliidae, e 6,17 % Ephemeroptera. Por outro lado a selecção do alimento esteve mais relacionada com a acessibilidade às presas do que com a abundância e tamanho do alimento no meio (Hernández 2010). Os hábitos alimentares e composição nutricional da dieta da truta fário nas zonas mais altas dos rios Ceyhan e Euphrates na Turquia foram investigados durante um ano, pela análise dos conteúdos estomacais de 611 espécimes. A análise das variações mensais do conteúdo estomacal indicou que a actividade alimentar foi mais alta entre Fevereiro e Junho do que entre a época de postura de Novembro a Janeiro. Um total de 42 taxa foram identificados na dieta, sendo organismos representativos dos grupos de Coleoptera, Trichoptera, Ephemeroptera, Plecoptera, Malacostraca, Díptera, Araneidae, Odonata, Gastropoda, Acridae, Acarii, Heteroptera, peixes e ovos de peixe. O índice de importância relativa revelou que 5 tipos de alimento em conjunto constituíram mais de 90 13 % da dieta, sendo as mais importantes Gammarus sp. (49,72%), Hydropsychidae (14,61%), uma espécie não identificada de Díptera (9,21%), Nemoura sp. (8,98%) e Isoperla sp. (6,90%) (Kara e Alp 2005). Outros estudos sobre a dieta dos salmonídeos demonstraram que durante o Verão os invertebrados terrestres podem constituir mais que 50% do total da biomassa da dieta (Zadorina 1988; Bridcut e Giller 1995; Wipfli 1997; Nakano et al. 1999 a,b; Webster & Hartman 2005). Segundo alguns estudos, devido aos salmonídeos serem predominantemente predadores visuais, estes detectam as presas melhor e têm taxas de consumo maiores durante o dia do que durante a noite (Mcintosh e Townsend 1995; Fraser e Metcalfe 1997), assim espera-se que os salmonídeos sejam predominantemente activos durante o dia no Verão (Bisson 1978; Allan 1981; Walsh et al. 1988; Angradi e Griffith 1990; Young et al. 1997). Outros estudos têm demonstrado que os salmonídeos são crepusculares (Eriksson 1978; Sagar e Glova 1988; Riehle e Griffith 1993) ou mesmo nocturnos no Verão (Elliott 1973; Adams et al. 1988; Gries et al. 1997). Segundo Eriksson (1978) a truta é um peixe crepuscular, com a máxima actividade ocorrendo ao amanhecer e ao anoitecer. A atividade no crepúsculo é provavelmente benéfica em termos de recompensa alimentar pois a densidade de deriva de insectos tipicamente aumenta neste período do dia mantendo-se elevada durante a noite (Waters 1972; Brittain e Eikeland 1988). A alimentação de trutas de idade 1+ num rio de terceira ordem no norte da Finlândia foi geralmente maior no crepúsculo e nas horas à volta do meio-dia (Kreivi et al. 1999). 1.2.5.1. Tamanho das presas Para peixes predadores de qualquer tamanho, uma tamanho óptimo de captura é assumido existir, acima do qual as presas se tornam mais difíceis de capturar e abaixo do qual a captura se torna menos rentável (Hart e Connelan 1984; Nilsson e Bronmark 2000; Turesson et al., 2002; Dorner e Wagner 2003). O tamanho do peixe predador e o tamanho da sua boca aberta estabelece o limite para o tamanho máximo das presas (Wankowski 1979; Hambright et al. 1991), mas muitos predadores preferem presas menores do que o tamanho máximo estabelecido pela abertura da boca (Damsgard 1995; Olson 1996; Nilsson e Bronmark 2000) para maximizar a energia ingerida por unidade de tempo (Wankowski e Thorpe 1979; Townsend e Winfield 1985; Turesson et al. 2002). Keeley e Grant (2001) concluíram que 30 cm é tamanho a partir do qual as trutas se tornam predominantemente piscívoras, e este facto não difere significativamente entre 14 habitats. Em pequenos rios e lagos (áreas<10 km2) a truta raramente atinge comprimentos totais de 30 cm e são principalmente insectívoras (Hunt e Jones 1972; Campbell 1979; L’Abee-Lund et al. 1992; Kreivi et al. 1999). Ao contrário, em grandes áreas (500-1500 km2) na Escandinávia e na Russia as trutas podem atingir tamanhos entre os 50 e os 90 cm (Toivonen 1972; Huusko et al. 1990; Vehanen 1995). Como a truta piscivora é capaz de se alimentar de uma grande variedade de espécies de peixe (Campbell et al. 1979; L’Abee-Lund 1992; Naesje et al. 1998) pode provavelmente mudar a espécie alvo, quando a disponibilidade e estrutura de tamanhos das populações de peixes alvo flutua. 1.2.6. Crescimento Os salmonídeos demonstram uma grande variabilidade de crescimento e tamanhos entre as populações, principalmente como resposta a diferentes condições ambientais (L’Abée-Lund et al. 1989; Elliott 1994; Lobón-Cerviá 2000; Nislow 2001; Jonsson et al. 2001; Klemetsen et al. 2003; Nicola e Almodóvar 2004). As condições de alimentação em rios podem mudar rapidamente devido a flutuações em factores abióticos como o caudal, turbulência e luz, bem como devido a factores bióticos como por exemplo a eclosão de invertebrados aquáticos ou terrestres (Sweeney e Vannote 1982). O crescimento de trutas pequenas é influenciado por muitos factores ambientais incluindo o estatuto social (Elliott 1994). Estudos em laboratório sugerem que as pequenas trutas dominantes têm acesso prioritário a recursos limitados (Johnsson et al. 2006). Na natureza estas pequenas trutas dominantes também demonstram crescer mais que as subordinadas (Höjesjö et al. 2002). A variação espacial de crescimento em trutas fário foi estudada em 13 populações de 1993 a 2004 em rios da baia do Golfo da Biscaia. A grande variabilidade no comprimento furcal (CF) na área de estudo foi semelhante ao intervalo de tamanho encontrado em toda a distribuição Europeia. O CF variou: para 0+ entre 57,4-100,7 mm; para 1+ entre 111,6-176,0 mm; para 2+ entre 155,6-248,4 mm e para 3+ entre 194,3-290,9 mm. A média do CF por idade foi maior nos cursos principais e ribeiros mais a montante quando comparado com pequenos afluentes e ribeiros mais a jusante. Modelos de regressão mostraram que a temperatura da água e a altitude foram os factores mais determinantes do CF por idade na área de estudo (Parra 2009). A idade e o crescimento de 509 trutas fário foram analisados no rio Çoruh, na Turquia entre Janeiro de 2001 e Dezembro 2001. A idade variou entre os 0 e os 7 anos e o ratio 15 macho:fêmea foi 1:1,05. O comprimento furcal e o peso das trutas variou entre 6,9 e 22,1 cm e entre 4,9 e 158,5 g para os machos, e entre 6,8 e 26,1 cm e entre 4,3 e 211,9 g para as fêmeas, respectivamente. A maior taxa de crescimento específico ocorreu entre a idade de 1 e 2 anos para ambos os sexos (Yilririm e Arslan 2007). 1.2.6.1.Temperatura Uma variável fundamental do ciclo de vida da truta é a temperatura (Jonsson e Jonsson 2009) sendo consequentemente a truta um bioindicador das alterações climáticas. A temperatura da água é considerada o factor ambiental mais relevante no crescimento da truta (Elliott 1994) afectando tanto o crescimento como o período de tempo de cada fase de vida (Webb e Mclay 1996). Embora tenham sido feitas varias tentativas para estabelecer a temperatura óptima de crescimento, os autores têm encontrado diversos valores para diversas latitudes (Elliott 1975a,b; Jensen 1990; Forseth e Jonsson 1994; Elliott et al. 1995). Igualmente a amplitude térmica que permite o crescimento parece variar entre populações (Elliott et al. 1995; Ojanguren et al. 2001; Vøllestad et al. 2002). Para o crescimento a temperatura mínima crítica situa-se entre os 3-6ºC e a temperatura máxima crítica está entre os 25- 26ºC. A temperatura óptima para crescimento está entre os 13 e os 18ºC aumentando com o aumento da ingestão de alimento (Elliott e Hurley 2000; Ojanguren et al. 2001) 1.2.7. Estatuto e conservação da espécie Barragens hidroelétricas e represas reduzem os fluxos de água nos rios, interrompendo os movimentos longitudinais, verticais e transversais dos peixes e afectando consequentemente a reprodução natural e as deslocações entre habitats (Jungwirth et al. 1998; Peter 1996; Kubecka et al. 1997; Rivinojaa et al. 2001). Nas trutas fário as populações muitas vezes consistem em pequenas trutas residentes e indivíduos migrantes maiores (Jonsson 1989; Hindar et al. 1991; Northcote 1992; Jonsson and Jonsson 1993b). Se as áreas críticas (habitat de postura, habitat de Inverno, habitat de alimentação) ficarem separadas por barreiras artificiais, as populações de peixe locais podem diminuir rapidamente (Hauser et al. 1991; Hindar et al. 1991; Northcote 1992; Peter 1996). 16 A decisão entre anadromismo e sedentarismo em água doce é um exemplo da plasticidade fenotípica e comportamental e é influenciada por factores genéticos e ambientais (Jonsson e Jonsson 1993b; Klemetsen et al. 2003). Esta espécie é importante para a pesca desportiva em Espanha, e está atualmente ameaçada pela poluição, destruição de habitats, introdução de espécies exóticas, sobrepesca e introdução de genes não autóctones causada por repovoamentos (Elvira 1995; Almodóvar e Nicola 1998, 1999, 2004; Machordom et al. 1999; Almodóvar et al. 2001, 2002, 2006; Elvira e Almodóvar 2001). A preocupação com a conservação e reabilitação de populações de salmonídeos está a crescer (Dodoson et al 1998; Crivelli 2000; Hallerman 2003; Caudron 2006). Truta marisca - Forma migradora anádroma, considerada em Portugal como rara e pouco abundante apresentando um estatuto de conservação de criticamente em perigo. Encontra-se em Portugal nas bacias hidrográficas do Minho, Âncora e Lima. Truta fário - É frequente em Portugal nas bacias hidrográficas dos Rios Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro, Vouga e Mondego e na região Noroeste da bacia do rio Tejo. Apresenta um estatuto de conservação de pouco preocupante (Cabral et al 2006, Aquariport 2007, AFN 2012). 1.2.8. Determinação da idade de peixes em populações selvagens 1.2.8.1. Escamas As escamas são frequentemente usadas para estimar a idade de peixes (Jearld 1983; Baglinière e Le Louarn 1987). Em espécies de salmão e truta, a leitura de escamas é considerada um método fiável e útil para estimar a idade (Baglinière 1985; Richard e Baglinière 1990). Num estudo em França a idade estimada através da análise das escamas foi comparada com a idade real de peixes recapturados e etiquetados na idade 0+. Um total de 375 peixes foram analisados e a percentagem média de erro na análise das escamas foi de 6,4 %. A taxa de erro subiu com o aumento da idade. Não foi encontrada diferença estatística entre a idade real e a idade estimada através das escamas, confirmando a fiabilidade da leitura de escamas para estimar a idade (Rifflart 2006). As escamas são elementos de fácil obtenção, basta uma ligeira raspagem com um bisturi e é possível retirarem-se escamas sem causar lesões no peixe. É conveniente a colheita de um número suficiente destas estruturas porque, por vezes, muitas são de 17 regeneração. Estas últimas apresentam um núcleo amorfo, resultante dum rápido crescimento pois vieram ocupar o lugar de outras escamas que por razões diversas acabaram por soltar-se. As escamas devem ser obtidas ligeiramente acima da linha lateral e próximo da região média do corpo. A identificação da idade é feita através da observação de alguns aspectos: 1 - O método mais utilizado é o distinguir as zonas formadas por um conjunto de estrias (circuli) mais próximas entre si, formando um anel de Inverno ou anel de abrandamento de crescimento das zonas com círculos mais afastados devido a um crescimento mais rápido (anel de Verão). No caso da truta, é importante ter em conta a ocorrência dum erro frequente devido à pouca evidência do primeiro “annulus” que é delimitado pelos primeiros 7 “circuli” (Abad 1982). 2 - Por vezes os “circuli” tornam-se descontínuos, fundem-se entre si ou encontram-se erodidos. Como este tipo de “annulus” ocorre todos os anos, e é evidente quando se observam as escamas, é pois um indicador da idade do peixe. 3 – A existência de um “annulus” pode ser evidenciada por deformações específicas, como curvaturas, com características próprias de cada espécie, de algum ou alguns “circuli” (Cortes e Ferreira 1993). 1.2.8.2. Otólitos Os otólitos são estruturas calcificadas localizadas na cabeça, no interior do ouvido interno que, embora envolvendo técnicas de preparação mais elaboradas, são também utilizados para a determinação da idade. Dos três otólitos existentes em cada lado, apenas o maior (geralmente o sagitta) é usado. Estas estruturas permitem a determinação da idade por serem constituídas por sucessivas camadas de material opaco (anéis), formados durante a época em que a temperatura é mais elevada, separados por outras de material translúcido correspondente ao período do Inverno, quando vistas com luz transmitida (Cortes e Ferreira 2003). 1.2.9. Outros estudos 1.2.9.1. Rio Lima Todos os afluentes do rio Lima são considerados rios de salmonídeos. Como resultado de pesca intensiva alguns dos afluentes estão sujeitos a regulamentação especial. Num estudo as populações de 6 afluentes (Vade, Estorãos, Trovela, Labruja Tamente e 18 Froufe) foram caracterizadas. A partir Setembro de 1995 foram realizadas pescas elétricas todos os 3 meses no rio Vade (4 locais), Estorãos (2 locais) e Trovela (1 local) e uma amostra anual dos rios Labruja, Tamente e Froufe. A truta fário foi a única espécie de peixe presente em todos os pontos de amostragem, representando mais de 50% do total de capturas. As densidades de trutas variaram ao longo dos rios e entre os rios amostrados. Os valores médios foram sempre superiores a 10 ind/100 m2 mas em alguns locais densidades de 20 ind/100 m2 foram encontradas. A média da biomassa foi 285,5 gFW/100 m2 sendo a sua amplitude de 23,04 a 727,04 gFW/100 m2. A estrutura da população encontrada foi na sua maioria de trutas 0+ e 1+, embora trutas 5+ a 7+ fossem capturadas (Maia 1999). A população de truta do rio Estorãos caracteriza-se por apresentar uma população com densidades variáveis (Maia e Valente 2002), elevadas nas zonas a montante e muito baixas nas zonas a jusante, e exibindo um crescimento geralmente fraco, principalmente constituída por indivíduos de idades 0+, 1+, 2+ e 3+, sendo as duas primeiras classes de idade mais representativas (Valente 1993, Maia e Valente 2002). Noutro estudo sobre o rio Lima em 2001 e 2002 foi analisado o comportamento reprodutor de trutas no rio Estorãos. O período reprodutor iniciou-se a 4 de Janeiro de 2002 e prolongou-se até 3 de Fevereiro. O aumento de caudal nos dias anteriores a 4 de Janeiro parece ter sido o factor desencadeador das actividades reprodutoras (Pires 2003). 1.2.9.2. Rio Vez O leito do rio Vez é constituído por substratos predominantemente grosseiros e nas margens são comuns os amieiros, freixos e salgueiros. Num estudo realizado em duas fases (Março e Abril, e Junho) no rio Vez foram amostrados 16 troços do rio sendo feita pesca eléctrica para caracterização das populações piscícolas. A truta fário (33,7 %), boga (20,6 %) e a enguia (18,6 %) foram as espécies mais encontradas nos vários troços amostrados. Em relação ao factor de condição K (médio), este valor aumentou em média da nascente até à foz. O índice K médio calculado foi 0,845 (0.65/1,20), o valor do comprimento médio das trutas foi de 12,3 cm e o valor do peso médio foi 22,4 g. A truta apresentou uma ligeira falta de robustez. Das 253 trutas amostradas, 98 trutas tinham a idade 0+ (7,52 cm), 62 a idade 1+ (12,75 cm), 82 a idade 2+ (16,59 cm) e 9 trutas a idade 3+ (20,81 cm) (Vieira 2011) 19 1.3. Pesca desportiva/lúdica A pesca de caracter recreativo constitui uma área importante de utilização de recursos biológicos naturais e da gestão dos recursos aquáticos. Como utilizadores esclarecidos destes recursos, os pescadores recreativos têm um papel preponderante na sua defesa e conservação, desempenhando uma função importante na sensibilização de toda a comunidade para a necessidade de protecção e utilização racional do património aquícola. Como tal, devem adoptar códigos de conduta consistentes com uma ética de conservação dos recursos, assumindo a educação um papel de grande importância, pois actua como motor para mudança de atitudes (Ferreira 2010) A importância socio-económica da pesca desportiva está bem documentada (Linlokken 1995; Peirson et al. 2001; Ross e Loomis 2001; Wedekind 2001; Arlinghaus e Mehner 2002; Cooke e Cowx 2006) e normalmente o benefício económico para as regiões locais aumenta com o aumento do número de pescadores (Wedekind et al. 2001), mas este aumento do esforço de pesca pode causar uma menor densidade de peixes ou alterações na sua abundância. Nestas áreas sujeitas a pesca intensiva, a gestão da pesca, especialmente o repovoamento tem um importante papel a desempenhar (Arlinghaus et al. 2002). Contudo, o repovoamento também tem impacto em stocks selvagens (Cowx 1994; Ham e Pearsons 2001). A truta fário tem uma grande importância socio-económica, tanto na pesca comercial ?como na desportiva e é frequentemente usada como atracção turística (Aas et al. 2000; Butler et al. 2009), sendo o alvo mais importante e popular da pesca desportiva na Europa (Almodóvar e Nicola 1998). Num estudo na Alemanha verificou-se que o esforço de pesca aumentou após o repovoamento, aumentando assim o impacto da pesca desportiva nos stocks selvagens. O repovoamento com trutas fário adultas só diminui o impacto da pesca sobre trutas selvagens se o tempo despendido na pesca por todos os pescadores se mantiver estável (Baer et al. 2007). Em Espanha o número de licenças tem vindo gradualmente a aumentar de 27.000 em 1950 para 850.000 em 2004, aumentando cada vez mais a procura por mais peixe. (Almodóvar e Nicola 1998; Almodóvar et al. 2002). As populações de truta estudadas num estudo em Espanha apresentaram uma dominância das idades entre os 0+ e o 2+ e um máximo de longevidade entre 4 e 5 anos. As populações da truta fário estão sobre exploradas como resultado de actividades de gestão ineficazes e a sua singularidade genética está ameaçada pela intromissão de genes não autóctones devido ao repovoamento. A pesca desportiva intensa tem 20 diminuído a idade média, a diversidade de idades e o número de trutas que excedem o tamanho mínimo de captura. Muitas áreas exploradas demonstram um decréscimo geral na abundância e na produção bem como uma diminuição no stock produtivo e fecundidade da população. O tamanho mínimo de captura reduz as hipóteses de sucesso na postura de populações de crescimento rápido devido à suscetibilidade à pesca desportiva. Os efeitos da gestão da pesca desportiva na dinâmica da população, produção e características dos ciclos de vida exibem diferentes efeitos nos rios em Espanha e parecem depender das características ambientais e biológicas das populações. O actual declínio da truta fário pode ser reduzido com um regulamento específico para cada rio e por normas de pesca alternativas (Almodóvar e Nicola 2004). Muitos indícios têm sugerido que as populações de truta fário na Suíça estão em risco. Os registos dos pescadores indicam uma diminuição das capturas em cerca de 50% desde 1980 (Friedl 1999). Estudos na Galiza apresentaram dados de densidade, biomassa e produtividade de 1182 trutas/ha; 68,3 kg/ha e 37,2 kg/ha.ano para zonas de pesca desportiva com extracção e 3135,1 trutas/ha; 208,2 kg/ha; 144,2 kg/ha.ano para zonas vedadas à pesca (Almodôvar 2001). Contudo estudos realizados noutros rios do Norte de Espanha não detectaram uma redução na abundância nas populações devido ao efeito da pesca desportiva (Brana et al 1992). A pesca é designada desportiva ou lúdica quando é praticada como distração e profissional quando é praticada com fins lucrativos (ARH 2012) 1.3.1. Potencialidades da pesca desportiva em Portugal - Boas condições de pesca na maioria dos rios. - Grande percentagem de rios salmonídeos ainda pouco poluídos. - Existência de um grande número de Associações e Clubes. - Crescente apetência dos agentes locais e regionais (públicos e privados) para um melhor desenvolvimento do sector. - Grande número de sucessos desportivos a nível de clubes e nações em provas internacionais. - Investimento económico em materiais de pesca desenvolvidos com recurso a novas tecnologias. - Integração de uma percentagem significativa de pescadores oriundos das zonas mais urbanas da região em modelos de ordenamento piscícola. - Aproveitamento de incentivos financeiros para investimento no sector. 21 - Progressiva formação e profissionalização de pescadores e agentes do sector. - Maior participação na organização de eventos desportivos de alta competição nacionais e internacionais estabelecendo ligações com outros sectores económicos. 1.3.2. Caracterização da pesca desportiva dirigida à truta 1.3.2.1. Pesca com iscos naturais A utilização de iscos naturais na pesca aos salmonídeos é a mais praticada pelos pescadores desportivos, apesar de nos últimos anos ter sido progressivamente abandonada. Hoje em dia é principalmente utilizada por pescadores ribeirinhos. Nesta técnica o isco mais utilizado é a minhoca de terra, nos meses mais frios, e os insectos terrestres nos meses de maior calor. A pesca com minhocas tem maior eficácia no início da temporada de pesca (Março a Junho) quando os rios estão turvos, logo após as chuvas. A legislação portuguesa proíbe a utilização de larvas naturais nas águas salmonídeas, pois esta prática impede muitas vezes que as trutas pequenas sejam devolvidas à água em boas condições de sobrevivência. Os pescadores utilizam normalmente canas de dimensão variável que muitas vezes chegam aos 4 ou 5 metros, utilizam uma ou mais minhocas no anzol e lastram a linha com pequenos chumbos, em função da profundidade e velocidade da água. Deve-se pescar perto do fundo com uma linha de 24/100, uma base de linha 16/100 e um anzol nº5. Não se deve ferrar bruscamente, para não partir a base da linha, bem útil dada a desconfiança da truta. Esta por vezes não atacará imediatamente mesmo se tiver visto bem o isco: deve-se recomeçar a manobra, que consiste em deixar a minhoca descer a corrente tantas vezes quantas as necessárias para a decidir. 1.3.2.2. Pesca com iscos artificiais Um grande número de pescadores desportivos utiliza a técnica de pesca com iscos artificiais. Esta forma de capturar trutas, pela sua aparente simplicidade, tem um grande número de adeptos. Nesta pesca são utilizadas colheres rotativas (amostras) ou imitações de pequenos peixes (vulgarmente designadas por rapalas) nas quais são incorporadas uma ou duas fateixas com o máximo de três anzóis. As colheres rotativas, com várias cores e brilhos, ao serem recuperadas têm um movimento giratório bastante atractivo para as trutas. 28 Estas medições foram realizadas diariamente entre as 11:15 e as 15:45 de cada dia (cerca de metade das medições entre as 14:00 e as 15:00) com um termómetro digital. Nesse troço de rio de aproximadamente 200 m de comprimento e 6 m de largura (1200 m2), também foram contabilizadas as trutas avistadas em cada dia. A partir do dia 9 de Dezembro de 2011 as trutas visualizadas foram discriminadas por tamanhos em pequenas (aproximadamente 25 cm), médias (aproximadamente 35 cm) e grandes (aproximadamente 45 cm), esta avaliação embora tenha pouco rigor científico, dado o valor ser calculado apenas com base na avaliação visual, pretendeu dar uma ideia geral dos tamanhos das trutas observadas. O número de casais também foi contabilizado. 2.2.2. Migração para montante - saltos Desde o dia 10 de Novembro de 2011 até ao dia 13 de Janeiro de 2012, entre as 11:25 e as 15:45, foi contabilizado em 47 dias, durante 15 minutos diários, o número de saltos de trutas que tentaram ultrapassar uma represa que existe no troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez e que fica cerca de 500 m a montante da zona de postura Foi anotada a hora de cada salto. Em três dias de três semanas consecutivas o tempo de contagem, por dia, foi de 6 horas. A represa construída em betão de perfil côncavo de 60 m de comprimento e 1,2 m altura, tem três pilares que a dividem em quatro zonas iguais, foi também anotada a zona onde cada truta saltou. Em cada salto as trutas além de terem de transpor a altura da represa, tiveram de ultrapassar 3,5 m de represa nadando por uma lâmina de água que escoava pelo obstáculo (figura 10 e 11). Figura 10 - Represa que existe na zona e/vila. Figura 11 - Perfil da represa 29 2.2.3. Análises da água do rio Vez Uma vez por mês, entre Fevereiro e Julho foram feitas recolhas de amostras de água em três locais do rio Vez: Ponto 1 - Sistelo – Latitude 41º58’53’’N Longitude 8º22’41’’W (ponto mais a montante). Ponto 2 - Vilela – Latitude 41º55’03’’N Longitude 8º26’82’’W (ponto médio). Ponto 3 - Ponte de Santar – Latitude 41º48’93’’N Longitude 8º24’57’’W (ponto mais a jusante) (figura 13). Através de um fotómetro (HANNA c200 Multiparameter Ion Specific Meter) foram medidos os valores de pH, amoníaco, cloro livre, nitrato, nitrito e fosfato. Para calcular o peso dos sólidos em suspensão foi também filtrado 1 litro de amostra de cada zona e pesado o precipitado. A temperatura da água também foi medida. Tabela 1 - Qualidade de águas doces para fins aquícolas – águas piscícolas (águas de salmonídeos). Parâmetros VMR VMA Expressão de resultados Amoníaco 0,005 0,025 mg/l NH3 Nitritos 0,01 mg/ NO2 Cloro residual disponível 0,005 mg/l HOCl Sólidos suspensos totais 25 mg/l VMR – Valor máximo recomendado VMA – Valor máximo admissível (Decreto-Lei nº 236/98) Tabela 2 - Limiares máximos para os parâmetros físico-químicos gerais para o estabelecimento do Bom Estado Ecológico em Rios. Parâmetros Limite para o Bom Estado Agrupamento Norte Oxigénio dissolvido > 5 mg O2/l Taxa de saturação em oxigénio Entre 60 e 120 % pH Entre 6 e 9 Azoto amoniacal < 1 mg NH4/l Nitratos < 24 mg NO3/l Fosforo total < 0,1 mg P/l (INAG 2009) 30 2.2.4. Pesca desportiva Entre os dias 1 de Março de 2012 e 21 de julho de 2012 foram realizadas 56 jornadas de pesca (50 dias), a pesca foi mais intensa nos meses de Março, Abril e Maio (90 %), desde a foz do rio Vez até ao lote 8, abrangendo a quase totalidade do comprimento do rio Vez (3 passagens). A pesca foi efectuada tanto na zona livre como na zona de pesca reservada quase sempre de jusante para montante. Foi utilizada uma cana de 2,70 m (Michell Spin Premium 15-45g), um carreto (Shimano Exage 3000 MRB 6:2:1) duas linhas de nylon (Spro Math) de espessura 0,14 mm e resistência até 2,8 Kg e 70 amostras nº 2 douradas com pintas pretas, das marcas mapso, mepps e mosca (5,6 × 1,5 cm e 5 × 1,3 cm) (figura 12). Figura 12 - Amostras ou colheres utilizadas (marca mepps e mosca) Em cada dia de pesca foi anotado: o número de pescadores observados; a hora de início e fim da actividade; a temperatura da água; a transparência do rio (limpo, ligeiramente turvo, turvo – observação visual); o estado do tempo (limpo, pouco nebulado, nebulado) e a ocorrência de aguaceiros ou chuva. Foi anotado o comprimento de cada truta capturada (comprimento furcal (CF) e total (CT)), o seu peso (balança digital Soehnle e=1g), a hora da captura, o isco utilizado, as coordenadas GPS do local de captura, o número de anzois cravados e apontado se o rio tinha corrente no local de captura (observação visual). Quando no texto é referido comprimento este refere-se ao comprimento furcal. Foi fotografado cada exemplar capturado e foram retiradas várias escamas para posterior análise da idade. Ao longo de cada dia de pesca foram também registadas as horas em que ocorriam ataques ao isco, se os ataques eram simples “toques” ou se a truta chegava a ficar cravada num dos anzois por alguns segundos e se estes ataques ocorriam em zonas de corrente ou em águas paradas (observação visual). Para as jornadas de pesca desportiva o rio foi dividido em 20 zonas de pesca contiguas, agrupadas em 4 troços (lotes, troço a montante da vila, vila e troço a jusante da vila). O 31 troço do rio mais a montante está sujeito a um regime especial, sendo uma zona de pesca reservada (ZPR) que é constituída por 8 lotes. Adoptou-se as delimitações dos lotes existentes e denominou-se este troço de “lotes”. Entre o lote 1 (último a contar de montante) e a vila de Arcos de Valdevez foram consideradas 7 zonas (f, g, h, i, j, L, m), troço denominado “troço a montante da vila”. Na vila foi considerada uma zona de pesca que foi alvo de um grande esforço de pesca e que foi denominada “zona e/vila”. O troço constituído pelas zonas mais a jusante (a,b,c,d) foi denominado “troço a jusante da vila” (figura 13). Na zona livre (zona “a” a “m”) foram dispendidos 3 dias de pesca em cada secção (zona) à excepção da zona e/vila onde se pescou durante treze dias e da zona L onde só se pescou durante 2 dias. Nos lotes os dias de pesca variaram entre 1 e 3 dias em cada lote. Nos lotes 5 a 8 devido ao seu isolamento, à perigosidade das suas margens e à impossibilidade de comunicações móveis (risco em caso de emergência) apenas foi possível pescar na companhia de outro pescador podendo este facto ser potenciador de um menor número de capturas devido à pesca partilhada. Face a estas dificuldades o número de horas de pesca foi menor nestes lotes. Em relação à zona e/vila devido à facilidade de deslocação e ao maior número de pescadores que frequentam o local, foi dispendido um maior esforço de pesca nesta zona por forma a obter dados do número de capturas e dados dos espécimes capturados pelos pescadores. O termo jornadas de pesca é referido quando a pesca foi efectuada por um pescador utilizando a técnica de pesca com amostra artificial. 2.2.5. Pesca eléctrica No dia 6 de Outubro foram feitas 4 amostragens com recurso a aparelhos de pesca eléctrica nas zonas a, i, m e no lote 6. Foram utilizados 2 aparelhos um (EL62ll GI 400- 750 V Hans Grassel Gmbh) manuseado por dois operadores (zonas a, i e lote 6) e outro aparelho individual portátil a bateria (corrente contínua [DC], 200-400 V; 1-3 A; Electracatch International), utilizado na zona m devido à dificuldade de aproximação ao rio. Nas 4 zonas o comprimento de amostragem foi de cerca de 50 m. Foi utilizada uma balança digital AND EK 610 i (e=0,1g) para pesar as trutas e uma sonda (YSI 6920 v2) para medir a temperatura, o oxigénio dissolvido e a condutividade. 32 2.2.6. Escamas e otólitos Em laboratório as escamas das trutas obtidas, nas jornadas de pesca (209 amostras), de exemplares capturados por outros pescadores desportivos (40 amostras) e de exemplares capturados com recurso a pesca eléctrica (40 amostras), foram introduzidas num frasco com hidróxido de potássio colocado de seguida num aparelho de ultrassons (Elma Transsonic 700) durante cerca de 1 minuto, para limpeza. As escamas foram de Figura 13 - Divisão das 20 zonas definidas para a pesca desportiva e eléctrica. 33 seguida lavadas em água destilada e as que apresentavam um melhor estado de conservação e leitura foram colocadas entre duas lamelas para posterior análise. As 289 preparações de escamas foram analisadas por dois observadores. Quando as leituras do primeiro e do segundo observadores foram coincidentes adoptou-se essa leitura como válida, quando as leituras não foram coincidentes ou existiu alguma dúvida por parte de um dos observadores um terceiro observador fez outra leitura. Finalmente estabeleceu-se como válidas as escamas com 2 ou 3 leituras coincidentes. Os otólitos recolhidos de 15 exemplares de truta foram colados numa lâmina e depois polidos com uma folha abrasiva (lixa). A mesma metodologia de leitura das escamas foi aplicada na leitura da idade dos otólitos. 2.2.7. Conteúdo estomacal De entre as trutas pescadas, 15 foram guardadas, uma de cada uma das 20 zonas do rio Vez previamente estabelecidas (Não foi possível obter trutas de todas as zonas devido ao tamanho mínimo de captura ser de 19 cm). O conteúdo estomacal e as gónadas destas trutas foram analisados e o fígado foi pesado. - A frequência de ocorrência (F) é a percentagem de ocorrência de uma presa na dieta de uma espécie, calcula-se através do número de estômagos que contêm um ou mais indivíduos da espécie presa em relação com o total de estômagos estudados ou em relação ao total de estômagos cheios. - A abundância relativa (Pi) é a percentagem do quociente entre o número de determinadas presas (i) sobre o número de presas totais. - O índice de enchimento do estomago é igual ao peso do conteúdo estomacal a dividir pelo peso total do peixe*10000 (Kara e Alp 2005). 34 2.2.8. Factor de condição K Em 1902, Fulton propôs o uso de uma fórmula matemática que quantifica a condição física de um peixe: K = (100 × W)/ L3 K – Factor de condição ou coeficiente de condição W - Peso do peixe em gramas (g) L - Comprimento do peixe em centimetros (cm), comprimento furcal Para os salmonídeos os valores de K variam usualmente entre 0,8 e 2. O factor K é influenciado pela idade do peixe, sexo, estação do ano, grau de maturação da gónada, estado de replecção do estômago/intestino, tipo de alimento consumido, quantidade de reservas de gordura e grau de desenvolvimento muscular (Froese 2006). Com base na comparação dos valores de K com a aparência geral e reservas de gordura as seguintes avaliações podem ser feitas: Valor de K Observação 1.60 Excelente condição 1.40 Bom, peixe bem proporcionado 1.20 Normal 1,00 Peixe magro 0.80 Peixe muito magro (Barman e Baxter 1998) 35 2.2.9. Inquérito Entre o dia 19 de Maio de 2012 e o dia 17 de Junho de 2012 foi realizado um inquérito a 38 pescadores desportivos que se encontravam na zona do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez (zona e). Inquérito efectuado a pescadores desportivos: Sexo, idade, residência 1 - Há quantos anos é pescador desportivo? 2 - Que técnica de pesca mais utiliza? 3 - Quantos dias pesca por ano? 3.1 – Quantos dias pesca por ano no rio Vez? 4 - Quantas trutas pesca por ano? 4.1 - Quantas trutas pesca por ano no rio Vez? 5 - Quantas trutas pescou este ano? 5.1 – Quantas trutas pescou no rio Vez? 6 – Que comprimento ou peso tinha a maior truta que capturou no rio Vez? 6.1 - Quando? 7 - Qual o número máximo de trutas capturadas num dia no rio Vez? 7.1 - Quando? 8 - Leva o peixe para casa ou devolve-o? 9 – Concorda com o repovoamento do rio? 10 - Estaria disposto a pagar mais para ter melhores condições de pesca? 10.1 - Se sim, Que condições gostaria de ver melhoradas? 11 - O que mudaria na Gestão do rio Vez? 12 - Costuma pescar nos lotes do rio Vez? 13 – Comentários 2.3. Análise e tratamento de resultados A análise estatistica foi feita com o software Minitab Release 14 12 (Minitab Inc. Pennsylvania State University, PA, USA) e software PRIMER 6. Foram efectuados os testes Mann-Whitney e Kruskall-Wallis para dados não paramétricos e os testes t-test e ANOVA para dados de distribuição normal. Consideraram-se diferenças significativas quando p<0,05. 36 3. Resultados e discussão 3.1. Parâmetros fisico-químicos da água O pH nos 3 locais de amostragem em todas as medições apresentou sempre valores entre 6,5 e 6,6 apresentando valores dentro do intervalo de referência para a água doce. não indiciando perturbação a este nível. Em geral a temperatura da água aumentou, nas três zonas, de Fevereiro até Julho apesar de se ter verificado uma descida (que pode ser pontual) da temperatura de Março a Maio. Em todas as zonas a subida da temperatura foi semelhante e em seis meses a temperatura subiu mais de 11 ºc em todos os locais (figura 14). Figura 14 - Valores de temperatura da água em 5 dias de 5 meses diferentes, em 3 locais, um na parte alta do rio (lote 6), outro na zona média (zona m) e outro perto de foz (zona a). Em relação à concentração de amoníaco nas 15 amostras de água, 11 amostras apresentaram valores abaixo do valor máximo recomendado (0,005 mg/l NH3), 3 amostras apresentavam valores abaixo do máximo admissível (0,025 mg/l NH3) enquanto que uma das amostras na zona “a”, em Junho, apresentou um valor (0,146 mg/l NH3) muito acima do máximo admissível (figura 16). No que se refere à concentração de nitritos, em 14 amostras não se verificou a sua presença mas uma amostra também da zona “a” revelou um nível muito acima do VMR (figura 17). A concentração de nitratos esteve sempre abaixo do valor máximo (24 mg/l) para consideração de um bom estado do rio (figura 18). Em todos os dias de análise da água do rio Vez esta apresentou poucos sólidos em suspensão sendo o valor mais elevado de 1,5 mg/l, muito abaixo dos 25 mg/l (VMR). 0 5 10 15 20 25 Temperatura (ºC) Data Lote 6 Zona m Zona a 37 LBE – Limite para consideração de um Bom Estado VMR – Valor máximo recomendado VMA – Valor máximo admissível 0 0,5 1 1,5 2 [Cl] (mg/l) Data Cloro livre Lote 6 Zona m Zona a 0 0,05 0,1 0,15 0,2 [ NH3] (mg/l) Data Amoníaco Lote 6 Zona m Zona a VMA VMR 0 0,005 0,01 0,015 0,02 0,025 0,03 0,035 [NO2-] (mg/l) Data Nitrito Lote 6 Zona m Zona a VMR 0 5 10 15 20 25 30 [NO3-] (mg/l) Data Nitrato Lote 6 Zona m Zona a LBE 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 [PO43-] (mg/l) Data Fosfato Lote 6 Zona m Zona a Figura 17 - Concentração de nitritos. Figura 16 – Concentração de amoníaco. Figura 15 – Concentração de cloro livre. Figura 18 - Concentração de nitrato. Figura 19 - Concentração de fosfatos. 44 Este local, durante o período de pesca, foi o local de todo o rio Vez onde foram observados mais pescadores desportivos em acção de pesca, sendo relatados dias com a presença de mais de 15 pescadores. Como referem Jungwirth (1998), Peter (1996) Kubecka (1997) e Rivinojaa (2001) as represas reduzem os fluxos de água nos rios, interrompendo os movimentos longitudinais, verticais e transversais dos peixes e afectando consequentemente a reprodução natural e as deslocações entre habitats. A represa que pode ter influência no número de trutas que aparece todos os anos na zona de postura situada 500 m a jusante. 3.4. Pesca desportiva 3.4.1. Jornadas de pesca As capturas de trutas com comprimentos (CF) entre os 10 e os 20 cm ocorreram em todo o percurso do rio Vez. Na zona mais a montante, a partir do lote 5, foi difícil a captura de exemplares com mais de 20 cm, na zona média do rio foi onde se capturaram as trutas de maior dimensão (> 30 cm) (figura 29). 45 Figura 29 - Locais onde foram capturadas trutas (n=209) no rio Vez, nas jornadas de pesca e respectivo comprimento furcal (CF). 3.4.1.1. Análise de captura por zonas Das trutas capturadas nas jornadas de pesca desportiva, 206 foram capturadas com o mesmo tipo de colher (tamanho nº2, cor dourada com pintas pretas) duas foram capturadas com anzol iscado com pão e uma com asticot. 46 Os resultados das capturas são apresentados em: Capturas por unidade de esforço (CPUE) = número de indivíduos capturados / total de horas de pesca. Os lotes 1, 2 e 4 foram as zonas com mais capturas por unidade de esforço (truta/hora) com valores acima de 2 trutas por hora. Para trutas com mais de 19 cm (tamanho mínimo de captura) a captura por unidade de esforço foi maior no lote 2 (superior a 1,5 trutas/hora) e no lote 3 e nas zonas j e L (superior a 0,5 truta/hora) (figura 30). Contudo as capturas no lote 2 têm menor valor estatístico pois correspondem apenas a um dia de pesca. Do lote 5 ao lote 8 não foi capturada nenhuma truta com mais de 19 cm de comprimento, mas também foram dispendidas poucas horas de pesca nestas zonas e a pesca foi partilhada. Figura 30 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas, e capturas por unidade de esforço (CPUE) (± desvio padrão), por zona do rio Vez. A diferença entre as CPUE no troço dos lotes e na zona livre (troço a montante da vila + zona e + troço a jusante) é muito significativa (ANOVA F[1,18] = 12,7; p = 0,003). Estes resultados determinam que compensa pescar nos lotes pois capturam-se mais trutas por unidade de esforço. Contudo não existiu diferença significativa entre as capturas com mais de 19 cm nos lotes e na zona livre (ANOVA F[1,18] = 0,08; p = 0,782). Assim em relação a trutas com o comprimento mínimo legal de captura (CMLC) a diferença já não é significativa não compensando para este caso a pesca nos lotes. -0,5 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5 0 10 20 30 40 50 60 Lote 8 Lote 7 Lote 6 Lote 5 Lote 4 Lote 3 Lote 2 Lote 1 Zona m Zona L Zona J Zona i Zona h Zona g Zona f Zona e/ vila Zona d Zona c Zona b Zona a Truta/hora N Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - Truta>19cm Lotes Troço a montante Troço a jusante da vila 47 Os melhores locais para praticar pesca desportiva são então os lotes se o interesse for a captura do maior número de exemplares de truta (2 trutas/hora). Se o interesse do pescador for a pesca de exemplares com comprimentos superiores ao CMLC então os lotes, podem não justificar a opção, devido ao pagamento da licença diária (3 ou 6 €) e à não existência de diferenças significativas entre as CPUE para trutas com mais de 19 cm. As duas CPUE (figura 31) diminuem de montante para jusante, o principal motivo das diferenças pode ser a presença de mais trutas nas zonas mais a montante ou a melhor eficiência do método de pesca (amostra) nestas zonas (zonas de maior corrente). Figura 31 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço (±desvio padrão), nos 4 troços. Quando avaliadas as CPUE nos 4 troços, existem diferenças significativas (ANOVA F[3,16] = 5,58 p = 0,008) nomeadamente entre as CPUE do troço dos lotes e do troço a jusante da vila (Comparações emparelhadas de Tukey). Contudo não existiram diferenças significativas entre as CPUE de trutas com mais de 19 cm, nos quatro troços (ANOVA F[3,16] = 0,06 p = 0,981)(Comparações emparelhadas de Tukey). Estes dados são o reflexo da pesca de um pescador, assim embora os resultados sejam significativos matemáticamente podem eventualmente não se verifivar com outros pescadores e outras técnicas. -0,5 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 0 20 40 60 80 100 120 Lotes Troço a montante da vila Zona e/ vila Troço a jusante da vila Trutas/hora N Local Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - truta>19cm 48 Figura 32 - Truta nº 57, CF: 46 cm, peso: 820 g, local: zona j. 3.4.1.2. Análise das capturas ao longo dos meses Nos meses de Junho e Julho, além do esforço de pesca ter sido baixo, a pesca foi realizada quase na totalidade em lotes, pelo que o seu valor não foi considerado para cálculo do melhor mês de pesca. Em termos gerais o melhor mês de pesca foi Abril influenciado pela abertura dos lotes e diferenciando-se um pouco de Maio pelo número de trutas, com mais de 19 cm, capturadas por hora (figura 33). Em termos de CPUE o pior mês foi Março, salientando-se o facto de grande parte das jornadas de pesca ter-se realizado na zona “e” /vila (zona com baixo valor de CPUE). A partir de Abril embora a pesca tenha apresentado valores de CPUE sempre acima de uma truta por hora, a captura de trutas com tamanhos superiores a 19 cm foi mais difícil. Figura 33 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas, capturas por unidade de esforço, por mês, em todo o curso do rio Vez. 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 1,4 1,6 1,8 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 Março Abril Maio Junho Julho Truta/hora N Mês Horas de pesca Trutas pescadas CPUE CPUE truta>19cm 49 Para analisar melhor os dados analisou-se em separado a evolução da pesca ao longo dos meses para o troço dos lotes e para a zona livre (troço a montante da vila + vila + troço a jusante da vila). No troço dos lotes nos meses de Abril, Maio e Junho obtiveram-se níveis de captura bastante idênticos, acima de duas trutas por hora. No que respeita à pesca de exemplares com mais de 19 cm ao longo dos meses foi cada vez mais difícil a sua captura (figura 34). Figura 34 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas, e capturas por unidade de esforço, por mês, para todos lotes. Os melhores meses de pesca para a zona livre foram Abril e Maio com capturas acima de um exemplar por hora. Para o mesmo número de horas, em Maio capturaram-se mais trutas mas em Abril o número de capturas de trutas com mais de 19 cm foi maior (figura 35). Figura 35 – Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, por mês, para a zona livre. 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 0 10 20 30 40 50 60 Abril Maio Junho Julho Truta/hora N Mês Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - truta>19cm 0 0,2 0,4 0,6 0,8 1 1,2 1,4 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 Mar Abril Maio Junho Truta/hora N Mês Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - truta>19 cm 50 Tabela 3 - Comparação entre dados de pesca da zona reservada (lotes) e da zona livre. Nº horas Nº trutas Nº trutas >19 cm CPUE trutas/hora CPUE trutas com > 19 cm/hora Comprimento médio (cm) Desvio padrão (cm) Lotes 48,5 97 24 2 0,49 17,45 5,24 Zona livre 143,5 112 43 0,78 0,23 17,8 5,39 Total 192 209 67 1,09 0,35 17,64 5,31 No total, nas jornadas de pesca capturaram-se 209 trutas com uma média de comprimentos de 17,6 cm, tendo-se capturado cerca de uma truta por hora. A CPUE para os lotes foi aproximadamente o dobro da CPUE para a zona livre, tanto para as capturas totais como para trutas com mais de 19 cm. 51 3.4.1.3. Análise das capturas ao longo do dia Os intervalos de horas mais "produtivas” para pesca pareceram ser os intervalos das [9:00-10:00[, das [10:00-11:00[ e das [19:00-20:00[ com CPUE de 1,5; 1,4 e 1,9 trutas/hora respectivamente. Para trutas com mais de 19 cm as CPUE mais elevadas registaram-se aparentemente no intervalo de horas [8:00-11:00[ com valores acima de 0,5 trutas/hora (figura 36). Figura 36 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço (±erro padrão), de hora em hora, para todo o curso do rio Vez. Contudo quanto efectuado o teste similaridade de Bray Curtis (transformação raiz quadrada), no que respeita aos intervalos com maior CPUE, apenas se verificou uma semelhança elevada (cerca de 90%) entre os intervalos [9:00-10:00[ e das [10:00-11:00[. Das 15:00 às 19:00 a similaridade também foi elevada (figura 37). Estes dados apresentam algum paralelismo com a observação de Eriksson (1978) que refere que a truta é um peixe crepuscular, com a máxima actividade ocorrendo ao amanhecer e ao anoitecer. Em outros estudos Sagar (1988) e Riehle (1993) também salientaram que os salmonideos são crepusculares. 0 0,5 1 1,5 2 2,5 0 5 10 15 20 25 30 35 40 Truta/hora N Intervalos de horas Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - trutas>19 cm 52 Figura 37 – Dendrograma da percentagem de similaridade de CPUE entre intervalos de tempo (hora) (nº de horas de pesca = 192). Nos lotes, nos intervalos das [14:00-15:00[ e das [18:00-19:00[ registaram-se capturas médias de 3 trutas/hora. Para trutas com mais de 19 cm verificaram-se mais capturas entre no intervalo [8:00-9:00[ e no das [19:00-20:00[ com valores de 1,5 e 1 truta/hora respectivamente (figura 38). Existe alguma semelhança com o estudo de Kreivi (1999) que refere que a alimentação de trutas com idade 1+, num rio na Finlândia, foi geralmente maior no crepúsculo e nas horas à volta do meio-dia. Figura 38 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, de hora em hora, para o troço dos lotes. 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 0 2 4 6 8 10 12 14 Truta/hora N Intervalos de horas Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - truta >19 cm 53 No troço a montante da vila capturaram-se mais trutas no intervalo das [9:00-10:00[ e no intervalo das [19:00-20.00[, cerca de 2,5 trutas/hora. Para trutas maiores que o tamanho mínimo de captura os melhores intervalos foram os das [9:00-10:00[ e das [18:00-19:00[ com capturas de 0,75 trutas/hora e 1 truta/hora respectivamente (figura 39). Figura 39 - Número de horas de pesca, número de trutas capturadas e capturas por unidade de esforço, de hora em hora, para o troço a montante da vila. Na zona “e”/vila as CPUE apresentaram valores mais elevados nos intervalos [9:00- 10:00[ e [19:00-20:00[ com 1 truta/hora e 2 truta/hora respectivamente. O periodo das [9:00-10:00[ revelou-se também um bom momento para captura de trutas com mais de 19 cm bem como o intervalo das [16:00-17:00[ com CPUE de 1 truta/hora e 0,5 truta/hora respectivamente (figura 40). 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 0 2 4 6 8 10 12 14 Truta/hora N Intervalos dehoras Horas de pesca Trutas capturadas CPUE CPUE - truta >19 cm 60 Figura 48 - Percentagens de trutas capturadas com 1, 2 ou 3 anzois cravados, na zona livre (n=112). Analisando os dados de anzois cravados de todas as trutas em ambas as zonas as percentagens são muito semelhantes: 35,5 % para um anzol cravado; 33,3 % para dois anzois cravados e 31,2 % para três anzois cravados. 3.4.1.8. Comprimento médio das trutas capturadas nas jornadas de pesca A classe de comprimentos com maior número de capturas foi a dos 10 aos 15 cm. Cerca de 94 % das trutas pescadas apresentaram comprimentos entre os 10 e os 25 cm enquanto que apenas 6 % apresentava comprimentos entre os 25 e os 50 cm. Como se pode ver na figura 49 a maior parte das capturas foi feita no troço dos lotes e no troço a montante da vila (82%) o que pode ser justificado pelo maior comprimento da soma destes dois troços e pelo possivel maior número de trutas. Figura 49 - Classes de comprimentos das trutas capturadas nos 4 troços amostrados por pesca desportiva (n=209). 28,1 33,3 38,6 % 1 anzol cravado % 2 anzois cravados % 3 anzois cravados 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 N Classe de comprimento (cm) Trutas capturadas nos lotes Trutas capturadas no troço a montante da vila Trutas capturadas na zona da vila Trutas capturadas no troço a jusante da vila 61 O facto de se capturarem poucas trutas com comprimentos superiores a 25 cm poderá estar relacionado com a estrutura real da população, com a eficácia da colher para trutas maiores ou com o comprimento mínimo legal de captura (CMLC). Como referem Keeley e Grant (2001) o tamanho a partir do qual as trutas se tornam predominantemente piscívoras é 30 cm (ver anexo I), logo a colher pode não ser uma boa imitação de um peixe, sendo apenas um estimulador do instinto predatório da truta ou uma imitação de um insecto. Quanto maior for o CMLC, em principio, mais protegida será a truta pois mais exemplares terão mais oportunidades de reprodução. O CMLC parece determinar a estrutura da população. Se visualizarmos a figura 49 foram capturadas cerca de 40 trutas da classe [20-25[ mas o número decresceu muito para a classe seguinte (5 trutas). O facto de existir um número relevante de trutas da classe [20-25[ poderá dever-se ao facto de terem sido protegidas pelo CMLC no ano anterior, mas como a pesca desportiva extrativa parece incidir predominantemente sobre esta classe no ano seguinte a classe [25-30[ apresenta poucos indivíduos. Esta hipótese explicaria os poucos indivíduos capturados das classes de comprimentos mais altas. Como referem Almodóvar e Nicola (2004) a pesca desportiva intensa tem diminuído a idade média, a diversidade de idades e o número de trutas que excedem o tamanho mínimo de captura. O tamanho mínimo de captura reduz as hipóteses de sucesso na postura de populações de crescimento rápido devido à suscetibilidade à pesca desportiva. O actual declínio da truta fário pode ser reduzido com um regulamento específico para cada rio e por normas de pesca alternativas Tabela 6 - Número de trutas, percentagem do total de capturas com CMLC e número de trutas que, nestas jornadas, poderiam ser retidas ou que teriam de ser obrigatoriamente libertadas, caso o comprimento mínimo legal de captura (CMLC) aumentasse ou diminuísse. CMLC Nº trutas com CMLC % de capturas com CMLC Nº de trutas que poderiam ser retidas (+) ou nº que teriam que teriam de ser libertadas (-) caso o CMLC fosse diferente 21 cm 38 18,2 - 27 20 cm 54 25,8 - 11 19 cm* 67 32,1 0 18 cm 83 39,7 + 18 17 cm 96 45,9 + 31 *CMLC em vigor 62 Com um do comprimento mínimo de captura maior ou com zonas de pesca sem morte o número de trutas de classes de comprimento mais altas poderia teoricamente aumentar apesar da maior predação e competição que existiria. Estudos de Almodôvar (2001) na Galiza apresentaram dados de densidade, biomassa e produtividade nas zonas de pesca desportiva inferiores aos valores das zonas vedadas à pesca. Contudo estudos realizados por Braña (1992) noutros rios do Norte de Espanha não detectaram uma redução na abundância nas populações devido ao efeito da pesca desportiva. Jonsson (2001) verificou em 17 rios da Noruega que os comprimentos médios de machos (residentes) maduros situaram-se entre os 16 e os 24 cm, se em Portugal se verificar um intervalo de maturidade semelhante quer dizer que algumas trutas podem ser retidas sem terem efectuado a reprodução pelo menos uma vez, o que coloca a espécie em risco. 3.4.1.9. Melhor zona de pesca Para avaliar a melhor zona de pesca estabeleceram-se como 4 critérios de avaliação o valor das CPUE (truta/hora e truta>19 cm/hora) e as médias dos comprimentos e pesos das trutas capturadas. A cada critério atribuiu-se o peso de 25 pontos sendo assim a pontuação máxima de 100 pontos. As melhores zonas para pesca foram o lote 2 (90,9 pontos), o lote 3 (75,8 pontos) e a zona j (64 pontos). Como já foi referido anteriormente, no lote 2 só se pescou num dia, sendo este valor menos consistente. 3.4.1.10. Melhor troço de pesca Para calcular o melhor troço de pesca, aplicaram-se os mesmos critérios do cálculo da melhor zona. O melhor troço de pesca foi o troço dos lotes (95 pontos) seguido pelo troço acima da vila (82 pontos) e pela zona da vila e troço abaixo da vila, ambos com 67 pontos. 63 3.4.2. Dados das trutas capturadas nas jornadas de pesca e das trutas capturadas por vários pescadores desportivos no rio Vez 3.4.2.1. Comprimento médio das trutas capturadas (n=209 + 40) Tendo em atenção que a pesca desportiva é uma pesca selectiva a média dos comprimentos para as várias zonas situou-se entre os 12,9 cm e os 20,9 cm. Em cinco zonas as trutas apresentaram comprimentos médios de cerca de 20 cm (Zona c, d, g, lote 2 e lote 3) (figura 50). Em relação ao comprimento individual de cada truta os valores variaram entre 10,5 e 46 cm. Figura 50 - Média (± erro padrão) dos comprimentos das trutas nas várias zonas. Nota: no lote 7 e 8 apenas foi capturada uma truta. No troço dos lotes a média dos comprimentos foi de 17,5 cm (n=104), no troço a montante da vila a média foi de 18 cm (n=78), na zona da vila a média foi de 19,1 cm (n=48) e no troço a jusante da vila a média dos comprimentos foi de 19 cm (n=19) (figura 51). 10 12 14 16 18 20 22 24 26 Lote 8 Lote 7 Lote 6 Lote 5 Lote 4 Lote 3 Lote 2 Lote 1 Zona m Zona l Zona j Zona i Zona h Zona g Zona f Zona e/vila Zona d Zona c Zona b Zona a Comprimento médio (cm) Zona 64 Figura 51 - Média dos comprimentos (± erro padrão) das trutas nos quatro troços. Não existiram diferenças significativas entre os comprimentos das trutas capturadas nos 4 troços (Kruskal-Wallis H (3, N=249) = 7,63 p=0,054) e também não existiram diferenças significativas entre comprimentos das trutas nos lotes e na zona livre. 3.4.2.2. Peso médio das trutas capturadas (n=249) A média dos pesos em cada zona variou entre os 25 g (lote 6) e os 149 g (lote 3). O lote 3 (lote de pesca sem morte) apresentou uma média de pesos elevada influenciado pelo dia de pesca na abertura do lote, em que se capturaram três trutas com pesos de 440 g, 721 g e 910 g. O lote 6 apresentou um valor de peso médio bastante baixo mas assente apenas na média de pesos de 3 trutas. Em relação ao peso individual de cada truta os valores variaram entre 12 e 910 g (figura 52). 10 12 14 16 18 20 22 Lotes Troço a montante da vila Zona e/ vila Troço a jusante da vila Comprimento médio (cm) 65 Figura 52 – Média (± erro padrão) dos pesos das trutas capturadas nas várias zonas. A média do peso das trutas nos lotes foi de 80,2 g, na vila foi de 90 g e no troço a jusante da vila a média so peso das trutas capturadas foi de 80,5g. Contudo não existiram diferenças significativas entre os pesos das trutas nos 4 troços (Kruskal-Wallis H (3, N=248) = 6,11 p = 0,106) e também não existiram diferenças significativas entre o peso das trutas dos lotes e da zona livre (figura 53). Figura 53 – Média (± erro padrão) dos pesos das trutas nos quatro troços. 0 25 50 75 100 125 150 175 200 225 Peso médio (g) Zona 60 65 70 75 80 85 90 95 100 105 110 Lotes Troço a montante da vila Zona e/ vila Troço a jusante da vila Peso médio (g) 66 3.4.2.3. Comprimento e peso médios das trutas capturadas (n=249) Tabela 7 - Média do comprimento furcal e do peso de trutas do rio Vez e respectivo desvio padrão, nos lotes e na zona livre. Comprimento (cm) Peso (g) Média Desvio padrão Média Desvio padrão Lotes 17,45 5,244 80,23 118,13 Zona livre 18,46 5,80 85,11 95,9 Total 18,04 5,59 83,08 105,5 Existiu uma diferença de 1 cm entre a média dos comprimentos das trutas nas duas zonas e uma diferença de cerca 5 g entre a média dos pesos. 3.4.2.4. Coeficientes de condição K médios das trutas capturadas (n=249) A média dos coeficientes de condição K para cada zona situou-se entre o valor 1,03 (zona g) e 1,19 (lote 5) (figura 54). Analisando os coeficientes individuais de todas as trutas capturadas o coeficiente menor foi de 0,75 (peixe muito magro) e o coeficiente maior foi de 1,41 (peixe bem proporcionado). Figura 54 – Média do coeficientes de condição K (± desvio padrão) em cada zona. 0,8 0,85 0,9 0,95 1 1,05 1,1 1,15 1,2 1,25 1,3 Coeficiente de condição K médio Zona 67 O troço dos lotes foi aquele que apresentou um coeficiente de condição K médio maior (1,16) enquanto que o troço mais a jusante da vila apresentou um coeficiente K médio menor (1,07). A zona livre apresentou uma média do coeficiente K de 1,09. A diferença entre os coeficientes de condição K entre os lotes e zona livre não foi significativa (t-test t=1,46 p=0,12). Contudo pela análise ANOVA F[3,244] = 10,33 p<0,01 é muito significativa a diferença entre o coeficiente de condição K médio nos lotes e cada uma das outras 3 zonas (figura 55). Figura 55 - Coeficientes k médios (± desvio padrão) em cada troço. 3.4.3. Pescadores desportivos Durante as jornadas de pesca no rio Vez foram avistados 122 pescadores em açcão de pesca, tendo em atenção que alguns pescadores foram vistos mais de que uma vez o número total real de pescadores foi mais baixo. Desses pescadores, 57 foram inquiridos (alguns mais de que uma vez) sobre o número de trutas capturadas no dia. Não foi possível inquirir todos os pescadores porque alguns encontravam-se na margem contrária ao observador. As respostas para o número de trutas capturadas por dia variaram entre 0 e 15 trutas (n=125) sendo a média de 2,2 trutas/pescador.dia. De uma amostra de 40 trutas pescadas pelos pescadores desportivos e cujos dados foram analisados (Comprimento furcal e total, peso e isco utilizado) 17 foram capturadas com colher, 15 com “asticot” e 8 com minhoca. 0,8 0,85 0,9 0,95 1 1,05 1,1 1,15 1,2 1,25 1,3 Lotes Troço a montante da vila Zona e/vila Troço a jusante da vila coeficiente de condição K médio Lotes Troço a montante da vila Zona e/vila Troço a jusante da vila 68 Tabela 8 - Pescadores observados em acção de pesca no rio Vez (50 dias). Zona Nº pescadores Nº horas de observação Lotes 6* 48,5 Troço a montante da vila 8 60 Zona e/vila 92 50,5 Troço a jusante da vila 16 33 Total 122 192 *Pescador que acompanhou as jornadas de pesca (6 vezes) 3.4.4. Análise de conteúdos estomacais As trutas analisadas, pescadas em 15 zonas diferentes, foram capturadas entre Março e Maio e apresentaram comprimentos entre os 12,5 (truta que morreu) e 26,5 cm e pesos entre os 20 e os 172 g. Embora a amostra seja pequena, nestas trutas a proporção de sexos encontrada foi de 1:1,3 (fêmea:macho) As ordens mais abundantes nos conteúdos estomacais foram a Ephemeroptera e Díptera tendo esta última uma frequência de ocorrência bastante mais elevada. A ordem Trichoptera embora tenha apresentado uma abundância relativa baixa apresentou uma frequência de ocorrência muito elevada (tabela 9). O índice de replecção dos estômagos variou entre 36 e 327. Figura 56 - Conteúdo estomacal regurgitado por uma truta do lote 3, truta nº116, comp: 23 cm, peso: 132 g. 69 Tabela 9 - Abundância relativa e frequência de ocorrência de várias ordens e classes de artrópodes e moluscos. Pi ≡Abundância relativa (%) F ≡Frequência de ocorrência (%) O número de identificações de organismos variou com o grau de digestão dos conteúdos estomacais, podendo ser um factor de erro na análise das abundâncias e ocorrências. Não foram encontrados estômagos vazios contudo numa das trutas não foi identificada nenhuma ordem. A partir de uma observação inicial considerou-se que cerca de metade das trutas apresentava o estômago cheio e a outra metade apresentava o estômago pouco cheio, posteriormente através do índice de replecção dos estômagos verificou-se que os estômagos considerados cheios apresentavam os valores do índice mais elevados com valores quase sempre acima de 100. Estes dados sugerem que o ataque ao isco poderá não estar directamente ligado com a necessidade alimentar das trutas. No estudo de Teixeira (2006) nos rios Baceiro e Sabos as trutas do ano alimentaram-se predominantemente das presas aquáticas mais disponíveis pertencentes às ordens Díptera e Ephemeroptera não sendo encontrados insectos da ordem Trichoptera nos conteúdos estomacais. Ordem Pi F Ephemeroptera 67,6 64,3 Díptera 20,4 92,9 Trichoptera 6,9 85,7 Coleoptera 2,2 35,7 Plecoptera 1,4 35,7 Hemiptera 0,2 14,3 Odonata 0,1 7,1 Lepidoptera 0,1 7,1 Isopoda 0,1 7,1 Classe Arachnida 0,6 21,4 Gastropoda 0,1 7,1 76 Locais onde foram realizadas as pescas eléctricas: Figura 66 - Lote 6 (41º58’28’’N, 8º22´93’’ W). Figura 67 - Zona i (41º5’ 87’’N, 8º25’61’’ W). Figura 68 - Zona a (41º48’93’’ 8º24’57’’). 3.6.2. Comprimento médio Exceptuando o lote 6, o comprimento médio das trutas capturadas por pesca desportiva foi superior ao comprimento médio das trutas capturadas por pesca eléctrica confirmando a selectividade do método. As capturas por pesca desportiva no lote 6 foram apenas 3, facto que influencia a proximidade dos comprimentos médios de captura pelos dois tipos de pesca (figura 69). 77 Figura 69 - Comprimento médio (± erro padrão) das trutas capturadas por pesca eléctrica (108) e por pesca desportiva (n=249), por zona. Existem diferenças significativas entre os comprimentos das trutas capturadas por pesca eléctrica nos 3 troços (Kruskal-Wallis H (2, n=108) = 8,43 p=0,0148). A média dos comprimentos das trutas no troço dos lotes foi de 13,6 (±3,7) cm, no troço a montante da vila a média foi de 11,7(± 5,3) cm e no troço a jusante da vila a média foi de 10,2 (±2,4) cm. Verificou-se assim um aumento do comprimento médio das trutas de jusante para montante. Existem também diferenças significativas entre os comprimentos das trutas capturadas por pesca eléctrica nos lotes e na zona livre (Mann-Whitney U = 978 p = 0,0039). Como já foi referido o comprimento médio das trutas capturadas nos lotes foi de 13,6 cm enquanto que na zona livre o comprimento médio foi de 11,5 (±5,1) cm. Tabela 11 – Comprimento e peso médios das trutas, perante os tipos pesca. Média comprimento (cm) Desvio padrão (cm) Média peso (g) Desvio padrão (g) Pesca eléctrica 12,66 4,46 33,33 40,19 Pesca desportiva (n=249) 18,04 5,59 83,08 105,5 Pesca pescadores (n=40) 20,782 6,07 113,4 95,34 Jornadas de pesca (n=209) 17,64 5,31 77,1 106,61 2 24 trutas com mais de 19 cm restantes trutas libertadas Em relação à média do comprimento das trutas amostradas por pesca eléctrica o valor foi semelhante ao valor do estudo de Vieira (12,3 cm) (2011), em relação ao peso médio 6 8 10 12 14 16 18 20 22 Comprimento médio (cm) Amostragem por pesca eléctrica Amostragem por pesca desportiva Amostragem por pesca desportiva em todo o troço 78 (22,4 g) os valores foram um pouco diferentes, facto que poderá estar relacionado com a diferença dos meses em que foram feitas as amostragens nesse estudo (Março, Abril e Junho) e Outubro para este estudo (tabela 10). À medida que a classe de comprimentos aumentou o número de exemplares capturados foi diminuindo. A grande parte das capturas da classe [10-15] ocorreu no lote 6, capturando-se poucas trutas desta classe nas outras zonas, facto que é um pouco estranho. É de salientar que, em Outubro, não foi capturada nenhuma truta com menos de 5 cm, dado o grande número de indivíduos de classes mais baixas, este facto aponta, com grande probabilidade, para o comprimento de indivíduos de idade 0+ começar, para este mês, por volta dos 5 cm (figura 70). Figura 70 - Classes de comprimento das trutas capturadas por pesca eléctrica em 4 zonas, de 3 troços. A pesca eléctrica é muito mais eficaz como método de captura, tendo-se neste trabalho capturado cerca de 31 trutas/hora. No que se refere à captura de espécimes com mais de 19 cm a pesca elétrica também apresentou melhores resultados, embora a diferença seja menor, 2 trutas/hora contra 0,35 trutas/hora de pesca desportiva (tabela 11). Tabela 12 - Quantidades e percentagens de trutas capturadas com recurso à pesca eléctrica e nas jornadas de pesca desportiva. Nº trutas N º Trutas > 19 cm % trutas > 19 cm CPUE (trutas/hora) Truta > 19 cm/hora Pesca eléctrica 108 7 6,5 30,9 2 Jornadas de pesca 209 65 31,1 1,1 0,35 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 [5-10[ [10-15[ [15-20[ [20-25[ [25-30[ Nº trutas Classe de comprimento (cm) Lote 6 Zona m Zona i Zona a 79 Como a pesca eléctrica foi realizada em Outubro, a pequena percentagem de captura de espécimes com mais de 19 cm (6,5 %) poderá estar relacionada com: a estrutura real da população; a menor quantidade de trutas com tamanho mínimo legal presentes no rio, face ao grande esforço de pesca que tem lugar de Março a Agosto; as poucas amostragens efectuadas; a dificuldade de aproximar o campo eléctrico às trutas de maior dimensão que se encontram em zonas mais profundas ou mesmo devido ao comportamento territorial das trutas, estas estarão mais distribuídas pelo rio não sendo capturadas com comprimentos de amostragem tão curtos e não limitados por redes. Wesche (1987) refere que com o aumento do tamanho a truta habita sucessivamente zonas de correntes mais profundas e Keeley (2001) afirma que o comportamento territorial é muitas vezes considerado como o principal mecanismo que regula as populações de salmonídeos. Figura 71 - Percentagens de trutas de cada classe, capturadas nas jornadas de pesca desportiva (n=209) e por pesca eléctrica (n=108). A figura 71 visa fornecer informação de modo a se poder compreender de que forma é que a pesca eléctrica e a pesca desportiva com colher fazem a amostragem da população e de como será a estrutura da população real. Na classe de comprimentos [10-15[ a percentagem de trutas capturadas por pesca desportiva foi menor do que a percentagem de trutas capturadas por pesca eléctrica. O tamanho do isco poderá ter influenciado esta diferença pois trutas pequenas embora existam em maior quantidade como têm uma boca pequena mais dificilmente são cravadas pelos anzóis. 0 10 20 30 40 50 60 Percentagem (%) Classe de comprimento (cm) Pesca eléctrica sem a classe [5-10[ Jornadas de pesca desportiva 80 Existe uma diferença elevada, para a classe [20-25[, entre as duas percentagens, este facto pode ter duas explicações: a classe foi sub-amostrada pela pesca eléctrica pelas razões descritas anteriormente ou a pesca desportiva é muito eficaz para trutas dentro desta classe de comprimentos limitando a população real nesta classe. A hipótese abordada do capitulo 3.4.1.8 de o CMLC determinar a estrutura da população, parece ser válida dado o decréscimo acentuado do número de indivíduos capturados a partir dos 20 cm. Neste estudo, nas jornadas de pesca desportiva com amostra não se capturam trutas com menos de 10 cm enquanto na pesca eléctrica foi possível capturar muitos exemplares da classe [5-10[ (classe com mais capturas). No que se refere a trutas com comprimentos superiores a 30 cm só foram capturadas trutas com estas dimensões com recurso à pesca desportiva mas esta última também teve um comprimento de amostragem e número de horas de pesca muito superiores (tabela 12). Tabela 13 - Comprimento de amostragem e tempo de amostragem da pesca eléctrica e desportiva. Comprimento de amostragem (km) Tempo de amostragem (h) Pesca eléctrica ≈ 0,22 3,5 Pesca desportiva ≈30 (3 passagens) 192 O recurso à pesca eléctrica para definição da estrutura populacional das trutas parece ser uma boa opção, mas é necessário ter em atenção que pode subestimar classes de comprimentos maiores, quando os comprimentos de amostragem são curtos ou quando as amostragens são poucas. Como a frequência de trutas maiores nesta população no rio Vez parece ser baixa a probabilidade de em poucos metros capturar um destes exemplares também é baixa (figura 72) 81 Figura 72 - Classes de comprimento das trutas capturadas pela pesca desportiva (249) e na pesca eléctrica (108). No trabalho de Vieira (2011) em Março, Abril e Junho, em 16 pontos de amostragem ao longo de todo o troço do rio Vez com utilização de pesca eléctrica não foram capturadas trutas com mais de 25 cm de comprimento. 3.6.3. Peso médio Na pesca eléctica a média dos pesos variou ao longo das zonas, existindo diferença significativa entre os pesos das capturas nos 3 troços (Kruskal-Wallis H (2, N=107) = 9,77 p=0,0148). A média dos pesos das trutas capturadas por pesca eléctrica nos lotes foi de 36,2 (±29) g, a média dos pesos no troço a montante da vila foi de 31,6 (±53,3) g, a média dos pesos no troço a jusante da vila foi 14,4 (±11,9) g, enquanto que a média dos pesos na zona livre foi de 29,8 (±50,8) g. Existiram também diferenças significativas entre os pesos das trutas capturadas nos lotes e na zona livre (Mann-Whitney U = 918,5 p = 0,0019). Pela análise dos dados de pesca eléctica o peso médio das trutas aumentou signifivativamente de jusante para montante (figura 73). 0 5 10 15 20 25 30 35 Nº trutas Classe de comprimento Pesca eléctrica Pesca desportiva 82 Figura 73 - Média (± erro padrão) dos pesos das trutas capturadas por pesca eléctrica (n=108) e por pesca desportiva (n=249), por zona. 3.6.4. Coeficiente de condição K A diferença entre a média do factor de condição das trutas capturadas por pesca eléctica nos lotes e na zona livre não foi significativa Kruskal-Wallis H (2, N=107) = 2,37 p=0,306). Também não foi significativa a diferença entre a média do factor de condição nos 3 troços (Mann-Whitney U=1170.5 p=0,12). 0 20 40 60 80 100 120 Peso médio (g) Amostragem por pesca eléctrica Amostragem por pesca desportiva Amostragem por pesca desportiva em todo o troço 83 Figura 74 - Coeficiente de condição K médio (± desvio padrão) das trutas capturadas por pesca eléctrica e por pesca desportiva, por zona. O coeficiente de condição K médio amostrado (Outubro) foi de 1,18 o que corresponde, em média, a peixes com uma condição normal, este valor difere do estudo de Vieira (2011) em que o valor referido foi de 0,85 esta diferença, como já foi referido, é provávelmente resultado da diferença entre os meses em que foram realizadas as amostragens por pesca eléctrica (tabela 13). Tabela 14 - Média e desvio padrão do coeficiente de condição K na pesca eléctrica e desportiva. Média do Coeficiente de condição K Desvio padrão Pesca eléctrica 1,18 0,09 Pesca desportiva 1,12 0,1 0,8 0,9 1 1,1 1,2 1,3 1,4 Coeficiente de condição K Amostragem por pesca eléctrica Amostragem por pesca desportiva Amostragem por pesca desportiva em todo o troço 84 3.7. Relações peso vs comprimento Com base em dados de 357 trutas, foram feitas duas relações entre o comprimento furcal e o peso (figura 75). Figura 75 - Relação comprimento furcal vs peso de 249 trutas capturadas por pesca desportiva e 108 trutas capturadas com recurso a pesca eléctrica, no rio Vez. As trutas capturadas por pesca desportiva apresentaram comprimentos (CF) entre os 10,5 e os 46 cm e comprimentos entre os 12 e os 910 g. A pesca eléctrica capturou trutas com comprimentos entre os 6,3 e os 27,3 cm e pesos entre os 2,5 e os 260 g (figura 73) Como na pesca desportiva para as primeiras 42 trutas pescadas não foi medido o comprimento total, para a seguinte relação a amostra de trutas da pesca desportiva é de 207 trutas (figura 76) y = 0,0183x2,8264 R² = 0,9886 y = 0,011x3,0266 R² = 0,995 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Peso (g) Comprimento (cm) Pesca desportiva Pesca eléctrica Potencial (Pesca desportiva) Potencial (Pesca eléctrica) 85 Figura 76 - Relação comprimento total vs peso de 207 trutas capturadas por pesca desportiva e 108 trutas capturadas com recurso a pesca eléctrica, no rio Vez. Na pesca elétrica, realizada em Outubro, as trutas como já foi referido anteriormente apresentavam maior peso para o mesmo comprimento embora a diferença seja ligeira. 3.8. Inquérito No que respeita ao inquérito efectuado na zona da vila dos Arcos de Valdevez a 38 pescadores desportivos, todos os inquiridos eram do sexo masculino. A idade média dos pescadores abordados foi de 45 anos e em média estes praticavam pesca desportiva há mais de 26 anos. Dos inquiridos 71 % era residente no concelho de Arcos de Valdevez. Em média cada pescador pratica este desporto cerca de 45 dias por ano em vários rios, cerca de metade dos dias (22) pratica a pesca no rio Vez. O número médio de trutas capturadas pelos pescadores, por ano, em todos os rios é de cerca de 100 exemplares, no rio Vez é de cerca de 28 trutas. Estes dados resultam numa captura média geral de 2,2 trutas capturadas por dia em vários rios e de 1,3 trutas capturadas por dia no rio Vez. À data do inquérito (Maio e Junho) o número médio de capturas, por pescador, no ano corrente (2012) era de cerca de 28 exemplares para vários rios e 9 trutas para o rio Vez. y = 0,0132x2,8915 R² = 0,987 y = 0,0085x3,0497 R² = 0,9938 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Peso (g) Comprimento (cm) Pesca desportiva Pesca eléctrica Potencial (Pesca desportiva) Potencial (Pesca eléctrica) 92 Almodóvar A, Suárez J, Nicola GG, Nuevo M, 2001. Genetic introgression between wild and stocked brown trout in the Douro River basin, Spain. Journal of Fish Biology, 59: 68- 74. Almodóvar A, Nicola GG, Suárez J, 2002. Effects of fishery management on populations of brown trout, Salmo trutta, in central Spain. In Collares-Pereira MJ, Cowx IG, Coelho MM, eds. Conservation of Freshwater Fishes: Options for the Future Oxford: Blackwell Science Publications, 337-345. Almodóvar A & Nicola GG, 2004. 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Este comportamento é demonstrativo da voracidade deste peixe mesmo para com indivíduos da mesma espécie. Figura 79 - Truta atacada (truta nº 42) comp: 17,4 cm, peso: 57 g, local: zona j. 115 Anexo II Figura 80 - Truta nº 162 comp: 22,4 peso:122 g local: lote 3. Figura 81 - Truta nº 123 comp: 20,9 peso 105 g local: lote 4. Figura 82 - Truta nº 73 comp:17,5 peso: 54 g local: zona a. Figura 83 - Truta nº 84 comp: 34,5 peso: 342 g local: zona i. Como é possivel constactar pela figuras 80 a 83 a Salmo trutta no rio Vez apresenta diferente morfologias sendo dificil quer para os pescadores desportivos quer para um investigador a distinção entre truta fário e truta marisca. Enquanto as figuras 80 e 81 são claramente de Salmo trutta morpho fário as figuras 82 e 83 levantam algumas dúvidas. 116 Anexo III Salmão (Salmo salar) No rio Lima é consensual a existência de salmões e quase todos os anos são relatadas capturas à linha. Este ano observei dois salmões provenientes do rio Lima, um de 91 cm de comprimento e 4,6 kg de peso que um pescador desportivo encontrou morto na margem do rio, no dia 22/1/2012 e outro de 81 cm de comprimento que foi capturado por um pescador desportivo no dia 1/3/2012. Dado que não foi encontrada pelo autor nenhuma referência científica à sua existência no rio Vez, embora tenham ocorrido repovoamentos neste rio e apesar deste trabalho ser sobre a truta, achei relevante apresentar uma prova do aparecimento de um exemplar no rio Vez capturado por um pescador do concelho. Figura 84 - Troço do rio Vez que atravessa a vila de Arcos de Valdevez (zona e), local de captura 41º50’91’’ N 8º25’16’’ W - Fotografia aérea da zona (Google Earth). Data e hora da captura: 2/3/2010 cerca das 10:00 horas Isco: Minhoca Comprimento furcal: 59 cm Peso: 1.3 Kg (Medido pelo pescador) Figura 85 - Salmão (Salmo salar) capturado no rio Vez no ano 2010. Local de captura 41 50,91 41 50,91 8 25,16 41 50,91 8 25,16 Represa Zona de postura 117 Anexo IV Dados do inquérito: Figura 86 - Categoria de idades dos pescadores inquiridos. Figura 87 - Residência dos pescadores inquiridos (percentagem). 0 2 4 6 8 10 12 14 16 [20-30[ [30-40[ [40-50[ [50-60[ [60-70[ [70-80[ Numero de individuos (n) Categoria de idades 71,1 7,9 5,3 5,3 2,6 2,6 2,6 2,6 Arcos de Valdevez Vila verde Prado Ponte da barca Guimarães Lisboa Braga Pico dos regalados 124 Anexo VI 125 126 127 Anexo VII