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O Turismo brasileiro no Porto: proposta roteiros histórico-culturais representativos da ligação entre o Porto e o Brasil

Tânia Filipa Pinto de Sousa

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Tânia Filipa Pinto de Sousa O Turismo brasileiro no Porto: proposta de roteiros históricoculturais representativos da ligação entre o Porto e o Brasil Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Turismo, orientada pela Professora Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015 O Turismo brasileiro no Porto: proposta de roteiros históricoculturais representativos da ligação entre o Porto e o Brasil Tânia Filipa Pinto de Sousa Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Turismo, orientada pela Professora Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Membros do Júri Professor Doutor Luís Paulo Saldanha Martins Faculdade de Letras – Universidade do Porto Professora Doutora Sofia Ferreira Administradora Delegada – Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal Professora Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Faculdade de Letras – Universidade do Porto Classificação obtida: 17 valores 4 Aos meus pais. Os portuenses não são amigos do Brasil só de palavras, só dos lábios para fora, mas cá bem de dentro, do fundo bem fundo do coração (Basto, 1943:3) 5 Agradecimentos Na elaboração de uma dissertação académica, existe um inerente processo individual que se abre com o contributo de várias pessoas que, direta e indiretamente, me motivaram para a árdua tarefa a ser realizada. Pode-se, assim, referir que a presente investigação resultou do apoio de inúmeras pessoas que se revelaram indispensáveis para a sua concretização. Primeiramente, agradeço o apoio fornecido pela Prof. Doutora Inês Amorim, orientadora da dissertação, que contribuiu com o seu saber, os seus valiosos conhecimentos, para o trabalho. Acima de tudo, muito obrigada por ter estado sempre presente durante o surgimento de dúvidas, pela ajuda preciosa disponibilizada e por me ter acompanhado nesta jornada difícil, mas, intelectualmente, estimulante. Não posso deixar de agradecer a colaboração e a disponibilidade prestada pela Diretora do Arquivo Distrital do Porto, a Doutora Maria João Pires de Lima, assim como pelo Doutor Artur Ferreira Coimbra, Técnico-Superior da Câmara Municipal de Fafe e Chefe da divisão de Cultura, Desporto e Juventude. Agradeço igualmente a todos os meus familiares, com especial relevância aos meus pais que, nos últimos cinco anos, despenderam mundos e fundos para a minha formação académica, acreditando sempre no meu valor e incentivando-me a alcançar todos os meus objetivos pessoais. Este trabalho também é vosso. Por último, o meu agradecimento a todos os meus amigos que estiveram presentes nos momentos mais difíceis e, por vezes, de desânimo, e à minha cara-metade por me ter apoiado face às minhas constantes inquietações, colocando-me sempre um sorriso nos lábios. O meu profundo agradecimento a todos os que me apoiaram. A vós dedico este trabalho. 6 Resumo A presente investigação centrou-se no estudo da dimensão do mercado turístico brasileiro em Portugal, com ênfase na cidade do Porto, e possuiu como principal intuito o delineamento do perfil e comportamento do turista brasileiro que visita a “Invicta”, apresentando propostas de roteiros patrimoniais e culturais que atraiam e cultivem as ligações Brasil-Portugal. Ou seja, que apresentem as raízes culturais de interseção histórico-cultural. Dada a sua crescente relevância no quadro do turismo português, o Brasil constitui, segundo o Plano Estratégico Nacional do Turismo, um mercado estratégico e de aposta principal. Precisamente, nos últimos dez anos, denota-se um contínuo crescimento dos fluxos turísticos do Brasil para Portugal que surge, desde 2010, na região central de investigação, como o terceiro mercado internacional emissor de turistas, unicamente ultrapassado por Espanha e França. A partir do perfil traçado – obtido mediante a aplicação de um inquérito por questionário aos turistas brasileiros (maioritariamente, indivíduos do sexo feminino, com faixas etárias dos 18 aos 25 anos e dos 46 aos 65 anos, e provenientes dos Estados brasileiros mais populosos e abastados), entre Março e Junho de 2015 –, procedeu-se ao desenvolvimento de quatro roteiros histórico-culturais assentes na ligação existente, desde o século XVI, entre o Porto e o Brasil, tendo-se considerando, na sua construção, as preferências e os interesses expostos pelos turistas brasileiros neste destino português. Palavras-chave: Brasil; Turismo Cultural Urbano; Património; Roteiros histórico-culturais; Raízes 7 Abstract The present investigation focus on the study of the dimensions of the brazilian tourist market in Portugal, with special emphasis on Oporto, and aims primarily to delineate the profile and the behavior of the brazilian tourist that visits “Invicta”, presenting proposals of patrimonial and cultural itineraries, that can be attractive and can cultivate the connection Brazil-Portugal. In other words, that reveal the cultural links and its historical roots. Because of its growing weight on Portuguese tourism, Brazil constitutes, as the National Strategy Plan for Tourism puts it, a strategic market and a crucial investment. In the last ten years, we can see a continuously increasing touristic flow from Brazil to Portugal, which stands, since 2010, as the third biggest international market of tourists, only overcome by France and Spain. Having finished defining the profile – collected in an inquiry filled by Brazilian tourists (mostly, by women, with ages between 18 and 25 or 46 and 65, whom came from the richest and most populous states) –, we proceeded to the making of four historical and cultural itineraries, based on the existing connections between Brazil and Portugal, since the XVI century, having in mind, in its construction, the preferences and interests showed by the brazilian tourists, in this portuguese destination. Keywords: Brazil; Urban Cultural Tourism; Heritage; Cultural and Historical Itineraries; Roots 8 Sumário Agradecimentos……………………………………………………………………....… 5 Resumo…………………………………………………………………………………. 6 Abstract………………………………………………….………………………………7 Índice de Figuras..………………………………………………………………….......11 Índice de Tabelas……………………………………………………………………….12 Índice de Gráficos………………………………………………………………………13 Lista de Siglas…………………………………………………………………..……....14 Introdução……………………………………………………………………………....15 Capítulo I – Património e Turismo Cultural…………………………………………....27 1.1. Património: um conceito "nómada"………………………………………………27 1.2. Turismo Cultural em espaço urbano………………………………………….......29 1.2.1. Perfil do turista cultural………………………………………………………33 1.3. Turismo no Porto: enfoque no Centro Histórico…………………………………36 1.3.1. Perfil do turista do Porto e Norte de Portugal……………………………......41 1.4. Relação entre Diáspora, Transnacionalismo e Turismo………………………….45 1.4.1. O Turismo de raízes: reviver o passado para compreender o presente………47 Capítulo II – O mercado emissor brasileiro: do contexto mundial para o caso português……………………………………………………………………………….50 2.1. Fluxos turísticos a partir do Brasil e respetivas tendências no mercado mundial…………………………………………………………………………………50 2.1.1. O perfil e comportamento do turista brasileiro nos destinos internacionais…………………………………………………………………………...55 2.2. O mercado emissor brasileiro em Portugal………………………………………60 2.2.1. A posição do Brasil no quadro do turismo português………………………..60 2.2.2. Perfil e motivações da procura……………………………………………….63 2.3. Operação turística do Brasil para a Europa e Portugal……………………..….....67 2.3.1. A divulgação de Portugal pelos operadores turísticos: de 2000 à atualidade……………………………………………………………………………….70 9 2.4. Imagem turística da Europa e de Portugal pelos brasileiros……………………...73 2.5. O perfil do turista brasileiro na cidade do Porto: exposição e análise dos resultados da investigação empírica……………………………………………………………….82 2.5.1. Dados sociodemográficos dos turistas brasileiros que visitam a "Invicta"…..83 2.5.2. Ligação étnica………………………………………………………………...87 2.5.3. Visita à cidade do Porto e frequência………………………………………...89 2.5.4. Com quem viajam e principais motivações da visita ao Porto……………….90 2.5.5.Identificação dos atributos que definem, para o turista brasileiro, o Porto……………………………………………………………………………………92 2.5.6. Locais e monumentos portuenses de maior atração………………………….94 2.5.7. Grau de satisfação e intenção de recomendar o destino turístico………….....95 2.5.8. Interesses e conhecimentos histórico-culturais………………………………96 2.5.9. A atratividade da frequência de um roteiro histórico-cultural direcionado para o turista brasileiro …………………………………………………………………….100 Capítulo III - Estudo de caso – O Porto para os brasileiros: o património portuense de ligação ao Brasil ……………………………………………………………………...102 3.1. Análise das potencialidades do turismo brasileiro na cidade do Porto………...102 3.2. O Norte de Portugal: possível destino de turismo de raízes para os brasileiros?.....................................................................................................................106 3.3. Proposta de Roteiros histórico-culturais representativos da ligação entre o Porto e o Brasil………………………………………………………………………………...109 3.3.1. Objetivos…………………………………………………………………….109 3.3.2. Análise SWOT do produto………………………………………………….110 3.3.3. Definição e descrição dos itinerários………………………………………..114 3.3.3.1. "Do "achamento" do Brasil ao Mártir e Percursor da Independência brasileira" (séculos XV a XVIII)……………………………………………………...115 3.3.3.2. "O Porto através de D. Pedro IV (I do Brasil) e D. Pedro II, Imperador do Brasil" (século XIX)…………………………………………………………………..117 3.3.3.3. "Cafés portuenses de ligação ao Brasil"………………………………118 16 que permitiu alterações nos hábitos de consumo internos e externos dos cidadãos: exemplo das viagens do Brasil para os destinos internacionais que apresenta, atualmente, uma média anual de crescimento de 13,3% e dos elevados gastos efetuados pelo mercado durante as deslocações ao exterior (Observatório Turístico de la Comunitat Valenciana, 2010:2; GVA, 2013:11-12; ETOA, 2013:5). Nos últimos anos, o Brasil apresenta um notável crescimento na procura por Portugal, tendo-se estabelecido, no ano transato, um recorde de 1,4 milhões de dormidas provenientes deste mercado no território nacional (Turismo de Portugal, 2015d). Especificamente no Porto, as recentes atribuições – Best European Destination, em 2012 e 2014 2 –, e a classificação de “Património Mundial”, desde 1996, ao seu centro histórico pela UNESCO, proporcionaram a afirmação da cidade no panorama turístico internacional, sendo que, desde 2010, o Brasil constitui o 3º mercado internacional emissor de turistas para a região, unicamente ultrapassado pela Espanha e França (Turismo de Portugal, 2014b). Uma tendência de crescimento que é igualmente sentida nos postos de informação turística e nos iPoints da cidade. Pela leitura das informações presentes no documento “Caraterização do mercado brasileiro”, realizado pelo Departamento de Turismo da Câmara Municipal do Porto (2015b:4), possui-se uma ideia da evolução no atendimento ao mercado brasileiro – no período entre 2009 e 2014, ou seja, um total de 389, 95 mil turistas foram atendidos, detetando-se uma subida da procura em torno dos 41%. Afirmando-se cada vez mais como um mercado estratégico na «política turística portuguesa» 3 , no passado mês de Junho, a Associação dos Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes (AETUR) promoveu, no Rio de Janeiro, uma exposição intitulada “Há um rio que começa no Douro e termina no Brasil”, que possuiu como objetivo primordial a divulgação da região do Alto Douro Vinhateiro e de três elementos fulcrais: o vinho, a cultura e o turismo. Segundo os responsáveis pela iniciativa, os turistas brasileiros que viajam cada vez mais para Portugal procuram, grosso modo, as suas raízes no país, frisando o potencial das ligações históricas com o Brasil como um possível elemento impulsionador da procura pela região 4 . Formando «a principal energia lusitana que colonizou, povoou e organizou» (Freyre, 2 Santos, L.J. (2014). Porto eleito melhor destino europeu do ano [em linha]. Público. [Consultado a 15 de Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.publico.pt/local/noticia/porto-eleito-melhor-destino-europeu-doano-1623555>. 3 Agência Lusa (2015). Brasileiros estão no “top 3” de turistas em Portugal [em linha]. Porto Canal. [Consultado a 12 de Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://portocanal.sapo.pt/noticia/61560/>. 4 Diário de Notícias (2015). Turistas brasileiros procuram as suas raízes em Portugal [em linha]. Diário de Notícias. [Consultado a 12 de Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=4618874>. 17 1947, citado por Alves, 1994:40) o território brasileiro, o Norte de Portugal com um forte impulso de emigração para o Brasil e a cidade do Porto com um abastado caudal de figuras marcantes na história do Brasil 5 forneceriam fortes contingentes que marcaram a fisionomia do Brasil e que, em contrapartida, haveriam, em grande medida (como se verá mais à frente) regressar através dos seus sucessores, sob uma identidade que lhes confere a designação de “brasileiros”. A par da ligação social que persistiria ao longo de diversas centúrias, também no panorama comercial portuense, o mercado brasileiro desempenhara um importante polo de atividade, compreendendo, em pleno século XIX, mais de 20% das exportações da cidade, com destaque para a comercialização do Vinho do Porto (Alves, 1994:71). A questão que se coloca é saber, entretanto, como é que o turismo portuense pode usufruir do património passível de ligação ao Brasil. Relembrando a citação inicial, nomeadamente sobre a importância de desenvolver e recuperar esse legado que ainda perdura no Porto e, regra geral, no Norte de Portugal, fica patente a motivação deste projeto de investigação de recorrer a esse património e de enaltecê-lo no sector do turismo. O turismo pode, efetivamente, constituir um meio para atribuição de valor aos bens culturais, para a sua preservação e proporcionar uma aproximação a esses lugares de memória que ficaram, vagamente, na memória de alguns, e que se poderá relembrar a partir da definição de roteiros do património cultural. 2. Objetivos O presente trabalho possui, assim, como objetivo global, conceber um quadro teórico abrangente sobre a expressão do turismo brasileiro no panorama turístico português, e, mais concretamente, no Porto. Por conseguinte, a seleção da cidade do Porto como local central de investigação deveu-se não só ao seu reconhecido potencial turístico, mas também à crescente dimensão adquirida pelo mercado brasileiro, em particular, desde 2010, no Norte de Portugal. Pretende-se, assim, nesta investigação, reunir conhecimento sobre aquele que é apontado, nos últimos anos, como um dos mercados emissores de maior crescimento nos destinos internacionais. Para esse fim, explorar-se-á a dimensão do turismo brasileiro no exterior, refletindo-se acerca da sua importância e potencialidades em Portugal e procurando contribuir para um maior conhecimento do comportamento deste mercado no território 5 Figuras como Brás Cubas, Pêro Vaz de Caminha, Tomás António Gonzaga (nascido na Rua dos Cobertos, em Miragaia), Padre Inácio de Azevedo. Não obstante, a cidade do Porto também acolheria brasileiros, como o Padre Ângelo de Siqueira, natural de São Paulo e responsável pela fundação da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, em 1757 (Silva, 2000:144). 18 português, através do delineamento do perfil e comportamento do turista brasileiro que visita a cidade do Porto, obtido pela aplicação de um inquérito por questionário. A nível da competitividade dos destinos, revela-se crucial o desenvolvimento de estudos focados no perfil e comportamento dos turistas, dado que o conhecimento prévio das caraterísticas sociodemográficas, das motivações, dos interesses e das intenções de futuro regresso/recomendação dos destinos, possibilita que estes desenvolvam estratégias de marketing e estruturem a sua oferta consoante os públicos-alvo. Cientes, também, da longínqua ligação histórica entre o Porto e o Brasil, percorrer-se-ão os lugares de memória que invoquem esse passado em comum, datado desde o preciso momento do “achamento” das Terras de Santa Cruz. Deste modo, através da elaboração de quatro roteiros representativos da ligação entre o Porto e o Brasil, em distintas épocas, pretendese implementar um novo produto na oferta turística cultural do Porto e, sobretudo, estabelecer um contacto distinto entre o turista brasileiro e a cidade, estimulando a sua imaginação a vivências passadas. Enfim, uma ligação que pode também ser indireta, ou seja, baseada nos locais por onde passaram, permaneceram figuras portuguesas e/ou, concretamente, portuenses de relevância histórica no Brasil, ou brasileiros, emigrantes portugueses que, após o seu retorno, do país sul-americano, se destacariam no desenvolvimento da cidade do Porto. 3. Fontes e Metodologia No início do percurso de investigação, a preocupação incidiu sobretudo na identificação de estudos relacionados com a caraterização do turismo brasileiro no contexto internacional e nacional, assim como no aprofundamento dos conhecimentos sobre o turismo portuense. Assim, enveredou-se, num primeiro momento, pela consulta de sítios eletrónicos de entidades de turismo nacionais (Turismo de Portugal, IP., Turismo do Porto e o Turismo do Porto e Norte de Portugal) e pela leitura de notícias ligadas ao sector do turismo na cidade do Porto. Seria no portal do Turismo do Porto, dentro da opção “Cidade do Porto” que se depararia com o item “Estrangeiros no Porto”, particularmente, com a ligação histórica dos portuenses ao Brasil 6 . Para a construção do enquadramento teórico e conceptual, a pesquisa documental foi realizada nos motores de busca online – Google (Google.pt) – através das seguintes expressões: “património”, “património e turismo”, “turismo cultural”, “ lugares e memória”, “turismo cultural e Porto”, “turismo de raízes”, que potenciou a consulta de diversos artigos científicos 6 Turismo do Porto (2013). Os Brasileiros [em linha]. Visit Porto. [Consultado em Setembro de 2014]. Disponível na internet: <URL: http://www.visitporto.travel/MaisPorto/Paginas/Cidade/artigo.aspx?artigo=169>. 19 relacionados com essas temáticas e auxiliou na elaboração do primeiro capítulo, que reflete acerca da importância da utilização dos recursos patrimoniais pelo sector do turismo e da crescente importância do turismo de raízes, um subsegmento do Turismo cultural. Num segundo momento, e ainda com base nas palavras anteriormente selecionadas, recolheu-se informações de artigos científicos presentes nos repositórios eletrónicos (Dialnet, Science Direct, Google Académico) e procedeu-se à consulta dos catálogos das biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e das bibliotecas Municipais do Porto, onde se deparou com monografias cruciais para o entendimento do vasto conceito de património. Repetir-se-iam estes mesmos passos para a obtenção de estudos focados no mercado emissor brasileiro, utilizando-se, novamente, os mesmos motores de busca e as mesmas bases de dados online, através do recurso a palavras-chave diretamente relacionados com o objeto de estudo: “turismo brasileiro”, “turismo brasileiro e Portugal”, “mercado emissor brasileiro”. Desta pesquisa inicial, surgiram dissertações de mestrado centradas na imagem turística de Portugal no Brasil. No entanto, a escassez de documentação em língua portuguesa sobre o tema do turismo brasileiro no exterior, levou a que se orientasse a pesquisa pela utilização de expressões em inglês: “Brazil outbound tourism”, “brazilian tourism”, que culminaria com o aparecimento de estudos desenvolvidos pela OMT, ETC e ETOA, dos quais se obteriam informações relevantes que auxiliaram na delimitação do objeto de estudo e na constituição da problemática da investigação. Por último, para o entendimento a fundo da ligação histórica entre o Porto e o Brasil e respetiva colheita bibliográfica, foi imprescindível a pesquisa efetuada nos catálogos das bibliotecas acima indicadas, onde, através da utilização das expressões “Porto e Brasil”, “história Porto e Brasil”, surgiriam monografias, teses de doutoramento e artigos debruçados na temática. Além das expressões atrás referenciadas, nesses mesmos catálogos, optou-se pela pesquisa de autores e obras – presentes em documentos extraídos numa fase prévia –, que se revelou, grosso modo, mais profícua. Com o intuito de se descrever a relação estabelecida, desde o século XVI, entre o Porto e o Brasil (ver Anexo I) e já pensando num futuro elemento enquadrador do turista, no tempo e no espaço, elaborou-se uma tabela cronológica, onde se destacou os acontecimentos mais relevantes nesta ligação histórica (ver Anexo II), reunindo-se também algumas notas biográficas sobre alguns dos portuenses de “nascimento ou de adoção” ilustres no Brasil (ver Anexo III). Desta feita, procurou-se sintetizar as informações contidas nos diversos estudos que abrangem desde fontes primárias (obras da época) a estudos secundários. Concretamente, as fontes da época utilizadas foram a obra Viagem dos Imperadores do Brasil 20 em Portugal, de 1872, e o livro O Snr. Rabello e o Grand Hotel du Louvre: exposição, também do mesmo ano, e que descreve a estadia de D. Pedro II, Imperador do Brasil, no Porto. Além disso, recorreu-se a periódicos como O Primeiro de Janeiro e à Revista O Tripeiro. Nesta, os dois artigos que foram consultados abordavam a estreita ligação do Porto ao Brasil – “Um Tripeiro fundou o primeiro hospital do Brasil e uma das suas mais progressivas cidades” (Andrade, 1963) e “Literatos portuenses no Brasil” (Lima, 1962). Constituindo uma fonte primordial para o entendimento da dimensão do mercado emissor brasileiro no exterior, o documento The Brazil Outbound Travel Market: a blogosphere analysis, da OMT & ETC (2013b), fornece informações completas acerca dos fluxos turísticos provenientes do Brasil, das principais tendências e motivações para as viagens ao exterior, bem como da imagem turística da Europa pelos brasileiros. Das abundantes fontes bibliográficas que se revelaram essenciais no rumo da investigação, sublinha-se quatro estudos. Primeiro, destaca-se o Dossier de Mercado: Brasil, uma publicação desenvolvida pelo Turismo de Portugal (2013a), onde se realça o crescente papel do mercado brasileiro no contexto do turismo internacional e português. Foca não só a evolução dos fluxos turísticos, como dá a conhecer o perfil e comportamento da procura, os investimentos turísticos portugueses no Brasil e a operação turística realizada daquele país para os aeroportos portugueses. Uma segunda fonte que auxiliou na concretização do inquérito por questionário, foi a dissertação de mestrado de Melo (2013), na qual a autora investiga exaustivamente a componente sociodemográfica do turista brasileiro que viajou para Portugal no ano de 2013. Além disso, ao introduzir uma questão aberta aos turistas brasileiros sobre os elementos culturais e históricos que, individualmente, associam a Portugal, ela possibilitou que se deslindassem alguns dos interesses deste mercado, aquando da deslocação ao país. Em terceiro lugar, saliento “Coimbra Brasileira: Proposta de um Itinerário”, da autoria de Nunes (2011:7). Ao orientar-se para o turismo brasileiro na cidade de Coimbra, Nunes (2011) concebe um itinerário «através do qual possam contactar com locais onde estiveram alguns dos seus principais intelectuais e políticos», ligando, assim, a cidade portuguesa ao Brasil que, desde o século XVI até meados do século XIX, seria responsável pelo acolhimento das elites do país irmão. Por último, outro elemento estruturante da minha análise foi a monografia Porto e Brasil, de Artur de Magalhães Basto (1946), um estudo que, apesar de ser de 1946, salienta a contribuição do Norte de Portugal na colonização, povoamento e estruturação do território 21 brasileiro, desde o século XVI, com a redação da célebre Carta do achamento do Brasil pela mão do portuense Pêro Vaz de Caminha, até aos finais do século XIX, já em pleno exílio de Pedro II. Em paralelo com a pesquisa documental, realizou-se um planeamento dos locais e monumentos a integrarem os roteiros, efetuando-se, previamente, um levantamento de todos os locais a visitar (ver Anexo IV). Metodologicamente, selecionaram-se lugares que representassem uma ligação com o Brasil, locais por onde passaram, permaneceram figuras portuguesas e/ou, concretamente, portuenses de relevância histórica no Brasil, ou simples brasileiros que, após o seu retorno do Brasil, se destacariam no desenvolvimento da cidade. A partir desta elaboração base, em trabalho de campo, avançou-se para o reconhecimento do terreno, crucial para o desenho dos percursos turísticos (mapeamento dos locais), uma vez que permite aprofundar os nossos conhecimentos sobre as caraterísticas dos sítios e a sua subsequente necessidade ou não de recuperação e possibilita uma atenção redobrada a outros aspetos que complementam o roteiro (infraestruturas de acesso, o tempo dos itinerários e as ofertas complementares). Tendo em linha de conta que, numa pesquisa científica, a aproximação ao objeto de estudo carece de determinados passos e procedimentos, outra etapa fundamental no percurso metodológico desenvolvido seria a aplicação de um inquérito por questionário aos turistas brasileiros em visita à cidade do Porto (ver Anexo V). Com efeito, além de ter permitido o delineamento do perfil e comportamento do turista brasileiro no Porto, revelou-se fundamental para a construção do corpo teórico do estudo de caso e para a perceção das potencialidades e eventuais fraquezas do produto turístico a propor – os Roteiros histórico-culturais representativos da ligação entre o Porto e o Brasil. A impossibilidade de acesso à única investigação debruçada na definição do perfil do turista brasileiro no Porto, nomeadamente o estudo do IPDT (2011) denominado O Perfil do Turista brasileiro no Porto e Norte de Portugal, condicionado a um avultado pagamento, impulsionou a seleção de uma abordagem metodológica que identificasse as caraterísticas sociodemográficas dos turistas brasileiros que viajam para o Porto, as suas motivações, a averiguação das atrações preferenciais, assim como dos seus níveis de satisfação, interesses e conhecimentos histórico-culturais. Atendendo aos objetivos enunciados, elegeu-se o inquérito por questionário como a técnica de recolha de dados que se revelaria mais eficaz para o entendimento dos modos de vida, comportamentos, níveis de conhecimento e opiniões (Quivy e Campenhoudt, 1992:191) 22 dos turistas brasileiros que se deslocam à cidade do Porto. O inquérito possui questões fechadas (de escolha múltipla, de resposta direta), abertas e semiabertas, sobre as caraterísticas sociodemográficas e comportamentais dos turistas, os atributos e atrações de interesse no destino, o grau de satisfação decorrente da visita à cidade, os conhecimentos histórico-culturais e as expetativas dos respondentes face a uma possível implementação de um roteiro centrado nas ligações históricas do Porto com o Brasil. Para a sua elaboração, inspirámo-nos no quadro teórico desenvolvido no capítulo referente ao turismo emissor brasileiro, concretamente nas dissertações de Melo (2013) e Rodrigues (2008), nos Estudos de satisfação de turistas, do Turismo de Portugal (2011; 2012a; 2013b) e no Perfil dos turistas do Porto e Norte de Portugal, 1º trimestre de 2014, realizado pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal, em conjunto com o IPDT (2014), tendo sempre como preocupações a objetividade e a clareza das questões. Destaca-se ainda a realização de um pré-teste a uma amostra constituída por 4 elementos, estudantes em Erasmus na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e provenientes do Brasil, em que se verificou que a estrutura do inquérito se encontrava demasiado extensa, exigindo, assim, o encurtamento do número de questões. Com vista à recolha de uma amostra expressiva do objeto de estudo, constituída, pelo menos, por uma centena de indivíduos, resolveu-se proceder à aplicação dos inquéritos em locais da cidade habitualmente frequentados pelos turistas – Centro Histórico do Porto, nas imediações de monumentos e locais considerados emblemáticos, como a Ribeira, a Estação de São Bento e a Igreja e Torre dos Clérigos –, na zona do check in do Aeroporto Francisco Sá Carneiro e também disponibilizando-os via online aos turistas brasileiros contactados através do Tripadvisor. Nesta célebre plataforma de viagens, e, mais precisamente, através da visualização das páginas referentes a monumentos portuenses, contactaram-se os indivíduos de nacionalidade brasileira que, no final dos comentários, indicavam ter visitado a cidade do Porto durante o período correspondente à aplicação do inquérito (antes da submissão de um comentário referente a um monumento/local de uma determinada cidade, o Tripadvisor questiona o utilizador acerca da data em que se processou essa visita). Depois de explicado o âmbito do estudo e a sua finalidade, remeter-se-ia aos indivíduos interessados em colaborar no estudo para a página online do inquérito. Posteriormente, estendeu-se a aplicação a uma unidade hoteleira da cidade, ao Hotel da Bolsa (4 estrelas), e às Caves do Vinho do Porto (Porto Cruz e Taylor’s). Frisa-se, assim, que a escolha de distintos locais de abordagem teve como principal propósito a obtenção de uma amostra precisa e diversificada no que diz respeito às caraterísticas sociodemográficas, considerando-se como potenciais inquiridos todos os turistas brasileiros em 23 visita à cidade, com idades iguais ou superiores a 18 anos. No que concerne à escala temporal, a aplicação do inquérito realizou-se desde 13 de Março a 13 de Junho de 2015, abrangendo, desta forma, o período pós-Carnaval, uma festividade que concentra, no Brasil, grande parte da população, e a reta final do ano académico, antes da partida dos estudantes brasileiros para o seu país de origem. A disponibilidade online do inquérito compreendeu, igualmente, o período enunciado. Com efeito, obter-se-ia uma amostra composta por 122 inquiridos, 75 do sexo feminino e 47 do sexo masculino, suplantando-se, assim, o número previamente definido. Realça-se o significativo contributo do Hotel da Bolsa e das Caves Porto Cruz e Taylor’s que, ao disponibilizarem os inquéritos aos turistas brasileiros que usufruíssem dos seus serviços, entre o período de Abril a Junho de 2015, possibilitaram, no seu conjunto, a obtenção de 19 respostas. Contudo, a recolha de dados via online através do contacto estabelecido no tripadvisor, revelar-se-ia a mais profícua, obtendo a autora, por este meio, 82 inquéritos, sendo que os restantes derivaram, como já se referiu, das deslocações ao aeroporto e das visitas ao centro da cidade. Apesar de cientes de que a época alta turística constituiria o período mais propício à aplicação dos inquéritos, o receio de uma eventual falta de tempo para a compilação, organização e tratamentos dos dados, conduziu à realização da abordagem durante os meses de Março, Abril, Maio e Junho. Formando uma das técnicas mais emblemáticas e das mais recorrentes na investigação em Ciências Sociais, o inquérito por questionário consiste «numa interrogação sistemática de um conjunto de indivíduos, normalmente representativos de uma população global, com o objetivo de proceder a inferências e generalizações» (Gonçalves, 2004:78), podendo recair as questões em factos ou opiniões. Com efeito, a utilização do inquérito por questionário detém como principais vantagens para o presente estudo: a possibilidade de acesso a um vasto leque de informações sobre os indivíduos (Gonçalves, 2004:78); a facilidade e rapidez decorrentes da sua administração; a garantia de anonimato dos inquiridos e a possibilidade de quantificação de uma variedade de dados e, consequentemente, de abundantes análises de correlação (Quivy e Campenhoudt, 1992:191). Porém, se, por um lado, a aplicação de um inquérito por questionário possui diversas vantagens, por outro também acarreta algumas limitações que podem, inclusivamente, afetar a própria credibilidade do estudo (Quivy e Campenhoudt, 1992:192). Primeiramente, não se pode garantir a total veracidade das respostas fornecidas, dado que o inquérito depende das opiniões, atitudes e valores dos inquiridos (Gonçalves, 2004:79); além disso, pressupõe-se que os inquiridos não possuem o mesmo grau de instrução ou as mesmas 24 «competências linguísticas» e procurar que todos entendam, da mesma forma, as questões levantadas revela-se, na prática, extremamente difícil. Uma fragilidade que acarreta, tanto no caso do inquérito como de outras técnicas, muitas cautelas a nível da formulação das perguntas para não resultar numa disparidade expressiva nos resultados (Gonçalves, 2004:80). Assim, privilegiou-se uma linguagem acessível e concisa, tirando-se proveito da existência de uma língua em comum com os atores sociais inquiridos. Não obstante, a par desta técnica de recolha de dados, recorreu-se, durante o mesmo período de aplicação do inquérito, à observação direta, no local, do perfil e do comportamento exprimido pelo turista brasileiro. De facto, embora se tenha persistido na divulgação dos inquéritos, surgiriam alguns entraves que se repercutiram na recolha de dados efetuada, como o desinteresse e, subsequente, falta de cooperação de alguns turistas, a escassa disponibilidade da autora para a deslocação assídua ao centro da cidade do Porto e ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a recusa de diversos estabelecimentos hoteleiros em colaborarem no estudo e a exigência de alguns hotéis de presença durante o ato de preenchimento dos inquéritos. Assim, a pertinência desta técnica inseriu-se na possibilidade de observar o comportamento do turista brasileiro, nomeadamente com quem se deslocavam (sozinhos ou acompanhados) e que interesses possuíam. Ainda para uma aproximação ao objeto em análise, procedeu-se ao envio, com recurso à internet, de um questionário a agências de viagens e turismo nacionais centradas na elaboração de roteiros personalizados e de city tours por todo o território nacional, de modo a entender a real dimensão do mercado brasileiro nas operações das agências e, mais especificamente, a procura pela cidade, local central de investigação, o Porto (ver Anexo VI). A par disso, estabeleceram-se contactos com agências de viagens e operadores turísticos brasileiros, tendo-se obtido resposta da Vida Boa Viagens e da Shultz, recentemente instalada em Portugal, frisandose também o envio do questionário utilizado para a interpelação às agências de viagens nacionais a Pedro Elias, Diretor comercial do Guia Brasil Portugal, empresa brasileira que presta serviços de turismo em Portugal e que se destina, em exclusivo, à receção de turistas brasileiros no país. Na verdade, embora não tenham sido sejam utilizadas para a verificação de hipóteses ou para a recolha de dados específicos, as informações fornecidas pelas agências de viagens e operadores de turismo abriram pistas de reflexão e permitiram uma maior consciência da dimensão e das principais caraterísticas do mercado emissor brasileiro em Portugal. Numa tentativa de adquirir uma perspetiva distinta, ou seja, de contactar com 25 brasileiros, residentes em Portugal, que fornecem serviços de guias turísticos aos seus conterrâneos por todo o território nacional, efetuou-se uma entrevista, via online, neste caso, aos dinamizadores e criadores do blog de viagens “Cultuga”, Priscila Roque e Rafael Boro que recebem, frequentemente, turistas brasileiros e que os auxiliam na descoberta pelo país (ver Anexo VII). Realizou-se ainda uma entrevista ao investigador Artur Ferreira Coimbra, do Museu das Migrações e das Comunidades (Fafe), que testemunha a afluência de visitantes brasileiros que aproveitam a visita a Portugal e ao Norte de Portugal para conhecerem as suas raízes e os sítios de onde são oriundos os seus antepassados (ver Anexo VIII) 7 . Por último, destaca-se a entrevista realizada à diretora do Arquivo Distrital do Porto, a Doutora Maria João Pires de Lima (ver Anexo IX). Assim, nesta investigação, o percurso metodológico enveredado demonstra um cruzamento evidente entre métodos de caráter extensivo/quantitativo com métodos intensivos/qualitativos. Porém, predominou a abordagem extensiva, fundamental para traçar o perfil e comportamento do turista brasileiro que visita a cidade do Porto. 4. Estrutura do trabalho O presente estudo encontra-se dividido em três capítulos, sendo que, no primeiro, desenvolve-se o enquadramento teórico através da realização de uma abordagem à relação de património e turismo cultural em espaço urbano e com alusão ao perfil exposto pelo turista cultural. Ainda, neste capítulo, articula-se o conceito de diáspora, transnacionalismo com o turismo de raízes e efetua-se uma reflexão acerca das atividades turísticas desenvolvidas no Centro Histórico do Porto e do perfil do turista que visita o Porto e Norte de Portugal. Num segundo capítulo intitulado “O Mercado emissor brasileiro: do contexto mundial para o caso português”, começa-se por avaliar a extensão do mercado emissor brasileiro nos destinos internacionais e as atuais tendências das viagens para o exterior, que permitirá, como se observará, compreender os fluxos crescentes do Brasil para Portugal. Revela-se também fulcral uma análise ao perfil e comportamento do mercado no exterior e, em especial, em Portugal, de forma a apurar as principais motivações da deslocação ao país. Além disso, abordar-se-á a 7 Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Mestre em História das Instituições e Cultura Moderna e Contemporânea pela Universidade do Minho, Artur Ferreira Coimbra é também colaborador na Revista cultural Dom Fafes, possuindo também diversas obras, como O Prisma do Poeta, Máquina da Liberdade, Cais do Olhar, Fafe, Meu amor: textos e imagens sobre o concelho, entre muitas outras. In Jornal diário online de Trás-Os-Montes e Alto Douro. Transmontanos/Durienses [em linha]. PressNet do Douro. [Consultado a 14 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=555&id=2517&action=noticia>. 32 década de 70 do século XX que o turismo começaria a desempenhar um papel crucial no desenvolvimento urbano, deixando as cidades de serem vistas somente como polos emissores de fluxos turísticos e passando a exercer um efeito de atração sobre os turistas (Henriques, 2003:164; Pérez, 2009:288). Para Peixoto (2003:218), na expansão do turismo cultural urbano, além do crescente fascínio despertado pela temporalidade materializada nos monumentos e na arquitetura das cidades, contribuiriam também os estilos de vida, o quotidiano dos indivíduos e a promoção e comercialização que a indústria turística tem empreendido aos espaços urbanos. Particularmente, nas cidades portuguesas, a transformação ocorrida nos espaços urbanos e relacionada com o fenómeno turístico, resultou num «processo de estetização das paisagens urbanas» (Peixoto, 2003:318). Ao refletirmos sobre o turismo cultural associamo-lo, atualmente, quase, de forma inevitável, à sua prática nas cidades com uma vasta e rica herança cultural, no qual os centros históricos «constituem o elemento central (…) do espaço urbano» (Peixoto, 2003:211). Numa tendência de desenvolvimento do turismo cultural, as cidades com densas espessuras históricas “apropriaram-se” do seu património e transformaram-no em produtos turísticos (Serra et.al., 2012:43; Marujo et.al., 2013:2). Com efeito, nas cidades históricas – espaços urbanos que refletem o contraste entre a dimensão do presente e do passado – o património cultural (tangível e intangível) forma o núcleo identitário e a base principal de atração turística, proporcionado a conceção e o desenvolvimento, cada vez mais frequentes, de itinerários culturais (Serra et.al., 2012:45). Frisa-se que, todas as cidades, independentemente, da espontaneidade ou não do seu desenvolvimento, «são expressões materiais da diversidade das sociedades através da História e, por esse facto, todas elas são históricas» 8 . Possuidoras de caraterísticas singulares, a visita a cidades históricas, no continente europeu, constitui, atualmente, uma das opções de maior atratividade para as deslocações, visto que, cada vez mais, os turistas anseiam por experimentar, contactar e «vivenciar (…) a «identidade cultural de outras cidades (…)» (Serra et.al., 2012:46). Assim, nos últimos anos, presencia-se um “redescobrimento das cidades históricas” (Vaquero, 2001:116), tendo o desenvolvimento do turismo cultural, não só desencadeado o incremento do consumo, como 8 Direção-Geral do Património Cultural (2009). Carta Internacional para a salvaguarda das Cidades Históricas [em linha]. Património Cultural-Direção Geral do Património Cultural. [Consultado a 31 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/cc/CARTAINTERNACIONALPARASALVAGUARDDAS CIDADESHISTORICAS.pdf>. 33 impelido as cidades com profundas heranças históricas a adaptarem-se aos fins turísticos (Marujo et.al., 2013:2-3). Verifica-se que o turismo cultural, dada à quantidade de conteúdos e de recursos culturais que pode abranger (tangíveis ou intangíveis), contribui, atualmente, para o desenvolvimento turístico de muitas regiões e países. Concretamente, na Europa, forma um mercado altamente competitivo e em contínua expansão (Richards,1996:10), sendo que, nas cidades, além de revalorizar e recuperar os seus «elementos culturais e históricos» (Marujo et.al., 2013:8), gera uma nova consciência patente na necessidade de preservação dos recursos patrimoniais. 1.2.1. Perfil do turista cultural Depois de analisado o turismo cultural, realçando o seu papel nos espaços urbanos, a abordagem às distintas tipologias de turistas culturais merece reflexão atendendo ao públicoalvo que se pretende atingir: os turistas brasileiros com motivações culturais. Estas tipologias revelam-se fundamentais a nível da segmentação do mercado, no qual o conhecimento prévio das motivações e dos distintos perfis da procura possibilita a definição de segmentos-alvo (Madeira, 2010:46). Atualmente, o consumo da cultura é determinado, cada vez mais, pelo processo de decisão e escolha, por parte dos turistas, mas também por outros fatores, como as imagens difundidas pelos distintos meios de comunicação e pelo fenómeno da globalização (Marujo, 2014:6). Neste sentido, a inclusão crescente de atrações na oferta cultural dos destinos, conduziu, em várias partes do mundo, ao aumento das visitas com propósitos culturais (Richards, 2001:3), e, por outro lado, o alargamento dos tempos livres possibilitou também que os indivíduos dedicassem mais tempo a atividades de lazer (Ferreira et.al., 2012:116; Marujo, 2014:6). De acordo com Marujo (2014:6) baseando-se em Vaquero (2006), a componente cultural é intrínseca a todas as deslocações turísticas, dado que, na génese do fenómeno turístico, esteve a curiosidade despertada por outros lugares e outras formas de vida. Além disso, acrescenta que existem diferentes graus de motivação cultural que variam consoante a finalidade da visita, realçando que o turista cultural quando se desloca para outros lugares, procura elementos distintos, peculiaridades com os quais não contacta no seu local de origem, constituindo um «atrativo diferencial» (Marujo, 2014:6), para estes visitantes, os destinos possuidores de marcas singulares. Todavia, o comportamento turístico manifestado pelos 34 indivíduos depende do conhecimento prévio ou não do destino, sendo que o desconhecimento do local estimula a exploração e a descoberta de atrações culturais e naturais (McKercher e Lew, 2004, citado por Ferreira et.al.,2012:116). É o relacionamento com a comunidade e a valorização e compreensão da cultura em toda a sua plenitude que faz com que o turista passe por uma experiência autêntica e profunda do local. Assim, o turista cultural é aquele que encara a cultura como um elemento preponderante na seleção do destino, bem como no tipo de atividades que este realiza durante o tempo de permanência nesse local (Marujo, 2014:6). No entanto, Henriques (2003, citado por Marujo, 2014:6) sublinha que, o conceito de turista cultural requere uma clarificação que se ajuste ao motivo principal da deslocação, ou seja, em averiguar se, nos encontramos perante um indivíduo que viaja por motivações de turismo cultural, ou perante um indivíduo que busca por experiências culturais profundas. A motivação nas atividades de turismo cultural reveste-se de um caráter multidimensional, uma vez que o próprio turista cultural procura, não uma única, mas distintas experiências (Marujo, 2014:6). Por conseguinte, a motivação cultural consiste na vontade e/ou necessidade do turista em envolver-se em sociedades e ambientes distintos dos que lhes são habituais, expondo disponibilidade em integrar um «processo cultural» (Andrade, 2002, citado por Marujo, 2014:6). Desta feita, este envolvimento varia consoante a importância que os indivíduos atribuem às questões culturais, tendo distinguido Ashworth e Turnbridge (1990, citado por Pérez, 2009:125), dois tipos de turistas culturais – «o turista cultural de intenção» e o «turista cultural incidental». No que concerne ao «turista cultural de intenção», é o turista que possui como propósito primordial de deslocação a visita a atrações culturais. Por sua vez, o «turista cultural incidental» é o turista que não apresenta motivações culturais primárias em relação às atrações culturais do destino. Já, segundo McKercher e Cros (2002, citado por Marujo, 2014:7), existem turistas culturais motivados predominantemente pela visita a atrações culturais, tendo, assim, uma profunda experiência cultural, turistas que encaram a visita a atrações patrimoniais e culturais como uma atividade secundária, outros, no qual o turismo cultural detém um peso diminuto na decisão de viagem e, ainda, turistas que, apesar de motivados pelo consumo de atividades de turismo cultural, passam por uma experiência menos profunda. De seguida, apresenta-se um esquema elaborado por Marujo (2014:7), no qual se encontram os cinco tipos de turistas culturais identificados por McKercher e Cros (2002) que se basearam, para a sua distinção, na centralidade da motivação cultural e no nível de profundidade da experiência. 35 Figura 1 – As distintas tipologias de turistas culturais Fonte: Marujo (2014:5), baseada em McKercher e Cros (2012) Assim, existe o turista cultural motivado (“purposeful”), cuja motivação cultural é preponderante na decisão de visita a um destino, sendo que este turista também procura uma experiência cultural de elevada profundidade, envolvendo-se com as atrações culturais do destino; o turista cultural inspirado (“sighseeing”) viaja, essencialmente, também devido a motivos culturais, porém a experiência possui um caráter mais superficial, pois visita somente as atrações culturais mais relevantes; o turista cultural esporádico (“serendipitous”) que não viaja impulsionado por motivações culturais, mas, no destino, acaba por participar em atividades culturais, beneficiando, assim, de uma experiência profunda; o turista cultural casual, em que, apesar da cultura formar um «motivo fraco» (Marujo, 2014:8) para a sua deslocação, este acaba por visitar atrações culturais, tendo uma experiência superficial e, por último, o turista cultural acidental, que não expõe qualquer motivação cultural, podendo enquadrar-se, neste caso, o turista motivado pela visita a destinos com predominância do turismo de sol e mar, mas que, no local, visita atrações culturais, passando por uma experiência cultural superficial (Pérez, 2009:126; Marujo, 2014:7-8). Ainda na definição dos distintos tipos de turistas culturais, o estudo de Richards (2004:1) distingue entre os «turistas culturais abutres» (os turistas que se deslocam motivados pelos produtos culturais existentes num destino) e os «turistas culturais acidentais» – aqueles que visitam, casualmente, uma atração cultural. À semelhança dos estudos anteriormente enunciados, o que Richards (2004) define como «turistas culturais abutres» é, segundo Ashworth e Turnbridge (1990) «o turista cultural de intenção» e para McKercher e Cros (2002), os «turistas culturais motivados». Em suma, verifica-se que o turista cultural ao relacionar-se com a identidade das sociedades e com as suas distintas componentes culturais, demonstra uma evidente procura pelo conhecimento e uma curiosidade relativamente ao contacto com o património cultural, material e imaterial, dos destinos. A par deste aspeto, vários autores propõem distintas tipologias de turista cultural que variam consoante as motivações expostas, podendo, como se constatou, o 36 turista viajar motivado primariamente por questões culturais ou conciliar, durante a sua permanência num destino, a visita a atrações culturais com a motivação primordial da viagem. No entanto, entende-se que o indivíduo, na visita a um destino, pode assumir distintas personalidades, adotando caraterísticas que o inserem tanto num tipo de turista cultural como noutro. 1.3. Turismo no Porto: enfoque no Centro Histórico Atualmente, o turismo urbano constitui uma prática que se generalizou pelas grandes cidades, contribuindo, em grande medida, para a sua afirmação, o crescente interesse por espaços antigos, assim como o surgimento e proliferação das companhias de low-cost (Fernandes, 2010:2). Com vista à fruição turística, as cidades sofreriam variadas intervenções na sua malha urbana, de forma a agradarem e corresponderem aos interesses dos seus visitantes, culminando-se numa transformação das paisagens urbanas (Fortuna e Peixoto, 2002:2; Fernandes, 2010:1-2). Principalmente, a partir dos finais da década de 70, diversas cidades europeias começaram a incrementar estratégias para o desenvolvimento do turismo através da concretização de projetos nas áreas mais antigas ou abandonadas dos espaços urbanos, surgindo, assim, o turismo cultural urbano (Gomes Domingues, 2000, citado por Pérez, 2009:295). No caso da cidade do Porto, cujo Centro Histórico é considerado “Património da Humanidade” pela Unesco, desde 1996, a «abordagem urbanística aos tecidos» de maior antiguidade seria desenvolvida ao longo do século XX, através da proteção, demolição e edificação de novos imóveis (Fernandes, 2010:1; Leite, 2014:60) que abrangeu as áreas envolventes de alguns dos monumentos mais emblemáticos, como a Ponte Luís I, o terreiro da Sé Catedral e o seu Paço Episcopal. Esta nova abordagem refletida num conjunto de alterações, tanto a nível da requalificação de áreas consideradas centrais, como de áreas degradadas, portuárias e ribeirinhas, resultou da crescente importância do turismo nos meios urbanos – «O turismo justificou múltiplas intervenções urbanísticas – com mais e melhores projetos urbanos – , patrimoniais (…)» (Martins, 2006:284). De uma grave decadência do Centro Histórico, nas décadas de 80 e 90, o Porto tornarse-ia, dadas as múltiplas intervenções posteriores, num destino turístico reconhecido internacionalmente, tendo funcionado o turismo como motor de desenvolvimento e como impulsionador de «estratégias de revitalização urbana» (Martins, 2006:284). Opinião, aliás, 37 partilhada por Pérez (2009:294) que cita Smith (2003) para frisar que, o turismo pode ser encarado como uma ponte para a regeneração urbana face a situações de crise económica ou, inclusive, de desindustrialização. Assim, a política implementada, no Centro Histórico, preocupou-se com a manutenção da imagem e da estrutura urbana da cidade, na ampliação do alojamento e no fortalecimento de atividades de lazer e turismo (Martins, 2006:288), permitindo a consolidação de uma área turística (Marques, 2011:60). Desta transformação profunda empreendida na área antiga da urbe, culminar-se-ia, em 1996, com a integração do Centro Histórico na lista do “Património Mundial”, pela Unesco que veio reconhecer os vastos esforços concebidos desde a década de 70, concretamente no pós 25 de Abril (Falcão, 1999:72; Martins, 2006:293). Paralelamente, à atribuição de “Património da Humanidade” à zona histórica da cidade, os contínuos investimentos no centro (Mercado Ferreira Borges, Casa do Infante), a renovação/recuperação da zona ribeirinha, a candidatura da cidade a “Capital Europeia da Cultura”, no ano de 2001, a requalificação da baixa (Falcão, 1999:73; Martins, 2006:290-292), permitiram o desenvolvimento do turismo na área mais antiga da cidade. Por outro lado, o próprio turismo desempenhou um papel crucial na configuração física adquirida pela cidade e na manutenção/fortalecimento da sua identidade histórica (Leite, 2014:61). Deste modo, a imagem turística constituiu um elemento decisivo no desenvolvimento da cidade, sendo que o seu grau de desenvolvimento também se revelou fundamental para que pudessem existir condições propícias às práticas turísticas (Marques, 2011:11). Aliado a estes fatores, acrescentam-se as grandes tendências do turismo internacional, definidas ao longo da década de 90, nomeadamente o aumento e facilidade das deslocações, a renovação do sistema de transportes aéreos (surgimento das companhias aéreas de baixo custo), a opção por férias repartidas, o aumento dos rendimentos disponíveis, a difusão das novas tecnologias de informação e comunicação e a diminuição do tempo de permanência nos destinos que impeliu ao incremento das estadias de curta duração (Martins, 2006:282-283). Tendências também apontadas por Ferreira et.al. (2012:114), que acrescenta às acima enunciadas, o «crescimento e desenvolvimento do turismo urbano» resultante do aumento das motivações de índole cultural, predominantemente, nos meios citadinos. Mediante a aplicação de questionários, entre 2010 e 2014, aos turistas que recorriam aos postos de turismo municipais, o Departamento de Turismo da CMP (2014a:4) averiguou que, durante a permanência no destino, o Centro Histórico constituía a primeira opção de visitação, seguindo-se as preferências por sítios gastronómicos, as Caves do Vinho do Porto e os Museus. Quanto aos principais atrativos, os visitantes destacaram o selo de “Património Mundial” 38 atribuído ao Centro Histórico, o Vinho do Porto, os Museus e o Património, elegendo também o Vinho do Porto, a Ponte Luís I, a Ribeira e a Sé Catedral como os ícones da cidade do Porto. Realça-se, assim, que os bens culturais integrantes do Centro Histórico, área classificada pela Unesco como “Património da Humanidade”, convertem-se em elementos atrativos para os visitantes. No que concerne ao número de visitantes nos museus municipais, entre 2009 e 2013 (veja-se gráfico 1), assinala-se um notório crescimento, sendo que, entre 2012 e 2013, verificarse-ia um «aumento de 6,33% nos visitantes» (Departamento de Turismo da CMP, 2014b:3), embora parte possa ser atribuído à política de abertura às escolas e ao ensino. Gráfico 1 – Número total de visitantes nos Museus Municipais (2009-2013) Fonte: Departamento de Turismo da Câmara Municipal do Porto (2014b:3) Tendo em linha de conta as atuais tendências do turismo, como o aumento do número de deslocações através das companhias aéreas de baixo custo, a tabela seguinte refere-se ao número total de passageiros chegados ao aeroporto do Porto, divididos por voos domésticos e internacionais. Por conseguinte, elaborou-se o quadro com base nos números fornecidos pela Ana-Aeroportos de Portugal e divulgados pelo Turismo de Portugal (2015f). Evidencia-se, assim, um crescimento ocorrido, de 2013 para 2014, tanto a nível dos fluxos domésticos como internacionais. Porém, sobressai, em larga escala, o elevado número de passageiros desembarcados através de voos internacionais que aumentou entre os anos em análise. Tabela 1 – Número de passageiros desembarcados no Aeroporto do Porto (milhares) Fonte: Elaboração própria, mediante os dados estatísticos divulgados pelo Turismo de Portugal (2015f) e baseados na Ana-Aeroportos de Portugal Ano Fluxos no Aeroporto do Porto (valores totais) 2013 Internacionais Domésticos Total 2.720,5 429,2 3.149,7 2014 2.960,1 457,2 3.417,6 39 No que diz respeito à proliferação dos transportes aéreos de baixo custo que permitiram uma maior mobilidade e facilidade de deslocação, denota-se, na seguinte tabela, que, no conjunto dos tipos de voos existentes, o segmento low cost tem adquirido gradual importância nas viagens, registando-se, no aeroporto do Porto, entre 2005 e 2012 (Turismo de Portugal, 2012c), um notório crescimento a nível do número de passageiros desembarcados através deste tipo de voo. Precisamente a partir de 2010 até, pelo menos, 2012, as companhias aéreas low cost foram as que mais passageiros fizeram desembarcar no Aeroporto Sá Carneiro (veja-se tabela). Uma tendência que vai ao encontro das informações fornecidas pelos turistas que visitaram os Postos de Turismo da CMP, entre 2010 e 2014, que indicaram como principal meio de deslocação as companhias aéreas de low cost (Departamento de Turismo CMP, 2014a:4). Igualmente, se atentarmos ao perfil traçado, pelo IPDT, do turista que visita o Porto e Norte de Portugal, no 1º e 2º trimestre de 2014 verificamos que a Ryanair (companhia aérea de low cost), forma a principal companhia aérea de transporte utilizada pelos turistas, seguindo-se a TAP. Tabela 2 – Número de passageiros desembarcados por tipologia de voo (Aeroporto do Porto) Fonte: Elaboração própria, mediante os dados estatísticos divulgados pelo Turismo de Portugal (2012c) e baseados na AnaAeroportos de Portugal Reconhecendo o potencial turístico da cidade do Porto, o Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT:2012:27) recomenda, para o desenvolvimento da região do Porto e Norte de Portugal, a aposta em cinco produtos estratégicos. Assim, torna-se pertinente uma análise a dois dos produtos considerados mais expressivos pelo PENT (2012) e alvos prioritários de atuação do Turismo do Porto e Norte de Portugal: o Touring cultural e paisagístico e o City & Short breaks que, de acordo com Dias, constituem «duas formas específicas através das quais se consubstancia a motivação do turismo cultural» (Dias, 2010:183). Expondo um enorme potencial, o mercado de touring, em crescimento na Europa, representa «44 milhões de viagens internacionais ao ano na Europa», crescendo a um ritmo de 5 a 7% por ano (Turismo de Portugal, 2006b:9), estimando-se, para o segmento de city breaks, Tipo de Voo Anos 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Tradicionais 1.234.231 1.195.891 1.195.054 1.202.073 1.175.688 1.213.732 1.294.201 1.281.792 Low Cost 162.711 350.816 647.881 939.047 988.679 1.311.100 1.613.675 1.664.079 Charters 107.661 99.901 101.226 91.263 65.156 86.048 55.600 41.204 40 «um crescimento anual entre 12-15% das viagens (…)» (Turismo de Portugal, 2006a:9). Iniciando-se pela abordagem ao Touring Cultural e Paisagístico que compreende a realização de «tours, rotas ou circuitos», pode-se distinguir entre o «touring genérico» (representa 90% do total das viagens de touring) e o «touring temático» (Turismo de Portugal, 2006b:9). Segundo o inquérito realizado pelo European Travel Monitor (2004, citado pelo Turismo de Portugal, 2006b:39), as principais atividades realizadas pelos viajantes de touring compreenderam a «visita a atrativos de interesse», a cidades, a observação de paisagens, a visita a museus, o descanso, o contacto com as populações e a fruição da gastronomia local. Tendo, justamente, em atenção este produto, o PENT (2012:63-64) preconiza a estruturação de uma oferta turística assente nos elementos históricos, na identidade e nos fatores diferenciais, culturais e naturais, dos destinos portugueses. Neste sentido, o desenvolvimento de rotas e itinerários temáticos que enalteçam as áreas urbanas, os monumentos, a arquitetura, os museus devem ser adequados à oferta complementar existente, promovendo a qualificação das atrações, dos serviços turísticos e das infraestruturas a nível da acessibilidade. Por conseguinte, dada a possibilidade de dinamizar e diferenciar os destinos, tem-se assistido, nos últimos anos, nos espaços urbanos, ao incremento de itinerários temáticos, sendo exemplo disso a cidade do Porto. Veja-se a inúmera oferta de percursos, circuitos e roteiros divulgados no portal oficial do Turismo do Porto. Relativamente ao City & Short breaks – «estadias de curta duração para visitar várias atrações de uma cidade» (Turismo de Portugal, 2006a:9) –, segmento em crescimento e outro dos produtos estratégicos a serem desenvolvidos na região do Porto Norte de Portugal pelo facto de constituir um mercado com diminuta sazonalidade (Turismo de Portugal, 2006a:37), o PENT menciona a necessidade de se dinamizar as estadias de curta duração através da realização de itinerários temáticos, atividades culturais e de lazer e do melhoramento das infraestruturas (PENT, 2012:64). Assim, atualmente, no Porto, na época baixa, são levadas a cabo ações de promoção da cidade a nível interno e externo que compreende, entre várias iniciativas, a divulgação de eventos culturais, o que tem permitido combater a sazonalidade 9 . De facto, o Touring e o Short break encontram-se nas principais motivações apontadas pelos turistas que visitaram o Porto e Norte de Portugal em lazer/férias, no 1º trimestre de 2014 (veja-se gráfico 2), frisando o próprio Departamento de Turismo da Câmara Municipal do Porto (2015a:4) que, para o aumento do número de visitantes e turistas, encontra-se, a par da 9 Tavares, S. (2014). 2014 está a ser um ano recorde para o turismo no Porto [em linha]. Porto 24.[Consultado a 2 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.porto24.pt/cidade/2014-esta-a-ser-um-ano-recordepara-o-turismo-no-porto/>. 41 diversidade dos serviços de restauração, a oferta abrangente e diversificada dos operadores turísticos que centram os seus produtos no segmento de City-breaks. Precisamente, para o Norte de Portugal, verifica-se, através da análise do número de dormidas disponibilizado pelo Turismo de Portugal entre 2004 e 2014, um aumento sucessivo, com o estabelecimento de um recorde, em 2014, de 5,4 milhões de dormidas provenientes dos mercados interno e externo (Turismo de Portugal, 2015a), acrescentando-se a subida sentida, no 1º trimestre do presente ano, do número de dormidas de turistas estrangeiros. Além disso, entre 2010 e 2014, através do perfil elaborado pelo Departamento de Turismo da C.M.P (2014a:4), constata-se que o tempo de permanência média dos turistas, no destino, situa-se entre 2 a 3 dias, ou seja, o correspondente a uma estadia de curta duração. Gráfico 2 – Principais motivações dos turistas em lazer/férias, no 1º trimestre de 2014, no Porto e Norte de Portugal Fonte: IPDT (2014:3) A crescente aposta nos produtos estratégicos enunciados – o Touring e o City Break –, aliado às linhas de ação recomendadas pelo PENT, além de ter potenciado a afirmação do Porto, enquanto destino de Turismo Cultural, constitui um chamariz para a conceção de uma oferta turística focada na divulgação do património e cultura, nomeadamente através do desenvolvimento de itinerários turísticos que explorem e enalteçam os recursos patrimoniais deste núcleo urbano e que se articulem com uma oferta hoteleira de qualidade, boas acessibilidade e com o sistema de transportes. 1.3.1. Perfil do turista do Porto e Norte de Portugal Para a compreensão do fenómeno do turismo em espaço urbano, diversas cidades efetuam compilações estatísticas para a identificação de eventuais tendências, para a averiguação do real peso das atividades turísticas no contexto local e nacional, bem como para a 48 cultura dos antepassados e pela procura da identidade e das raízes. Por conseguinte, as viagens são definidas como se fossem uma rota, no sentido contrário às rotas diaspóricas, referindo Basu (2004:27-28) que este fenómeno crescente da busca pelas raízes e da pretensão de visita aos locais de origem dos seus antepassados, pode ser explicado pelo «estado transnacional de diáspora» que, atualmente, abrange cada vez mais populações. Na abordagem à diáspora escocesa, Basu (2005:145-146) refere que a predominância de um estatuto implícito de minoria étnica despertou o desejo dos descendentes de escoceses de se virarem para a história da família, constituindo estas práticas de turismo de raízes, uma forma do individuo ligar-se temporal, espacial e socialmente a si mesmo e à história de um determinado povo e lugar. Em muitos casos, já em plena quarta geração, os descendentes de imigrantes escoceses na América do Norte, revelam experienciar momentos de instabilidade que originam, por vezes, uma sensação de não pertença aquele local, ansiando pela procura do seu «verdadeiro lar» que lhes transmita segurança (Basu, 2004:33). McCain e Ray (2003:713) ao efetuarem uma análise ao mercado do turismo de património, estabeleceram um subsegmento centrado nas ligações dos indivíduos às suas raízes ancestrais – o turismo de herança (legacy tourism/heritage tourism), outra das designações para o turismo de raízes que tem, como se constata, sido alvo de distintas interpretações contextuais na literatura do turismo (Leite, 2005:280; Higginbotham, 2012:189). Durante as deslocações, os denominados “turistas de legado” realizam atividades de caráter genealógico, a fim de reunirem informações sobre as suas raízes, ou simplesmente, para se sentirem mais próximos aos seus antepassados, sendo que, para estes turistas, a visita aos lugares ligados à sua «herança pessoal» e aos seus antepassados, constitui um fator determinante para a realização da viagem (McCain e Ray, 2003:713). Dentro das motivações destes turistas que procuram os locais de onde provém os seus antepassados, Ray e McCain (2012:986-987) destacam o papel preponderante da nostalgia, em que o interesse nessa busca vai mais além do que contacto físico com os lugares. Constitui, sim, uma experiência pessoal. Na sociedade contemporânea, a relevância patrimonial dos objetos e lugares, resulta do valor conferido pelos consumidores do turismo que procuram nesses vestígios do passado as suas raízes identitárias (Fortuna, 2012:26-28). Neste âmbito, as emoções manifestadas pelos sujeitos face a um determinado lugar ou objeto, não são geradas unicamente pelas experiências vividas, mas sim pela interpretação que os mesmos fazem e que depende da maior ou menor ligação afetiva à comunidade (Fortuna, 2012:29-30). Com efeito, os lugares de memória são, para os que buscam neles as suas raízes identitárias, uma fonte para colmatar a perda de uma 49 identidade cultural, nacional (Fortuna, 2012:32). Num mundo globalizado, a noção de “lar” surge como sinónimo de identidade, repercutindo-se nas viagens de regresso à pátria (Basu, 2004:27; Iorio e Corsale, 2013:202) caraterizadas por uma «complexa e, por vezes, mística interação entre o passado e o presente (..)» (Leite, 2005:297). Dado o aumento dos fluxos migratórios, cada vez mais pessoas sentem a necessidade de procurarem as suas raízes, parte da sua história individual, devendo a indústria do turismo de intervir no melhoramento das experiências deste «mercado único» (Huang et.al. 2011:11). Concretamente, os países com longo historial de fluxos migratórios devem encarar o «migrante nostálgico» como um importante segmento turístico (Rodrigues, 2012:2; Preto, 2014:37). 50 Capítulo II – O mercado emissor brasileiro: do contexto mundial para o caso português O presente capítulo procura diagnosticar as potencialidades do turismo que parte do Brasil para vários destinos, para, de seguida, aproximar essa movimentação para o mercado português, de receção crescente de turistas provenientes do Brasil. 2.1. Fluxos turísticos a partir do Brasil e respetivas tendências no mercado mundial Formando o país mais desenvolvido economicamente da América Latina e o 2º da extensão americana, a República Federativa do Brasil possui 204,5 milhões de habitantes 13 (Turismo de Portugal, 2015d:3) – o quinto país com maior população no mundo –, revelando-se, assim, o Estado com maior densidade demográfica no continente sul-americano (ETOA, 2013:2). Mediante a contagem da população, efetuada em 2011, no conjunto de 26 Estados e 1 Distrito Federal, domina São Paulo (41,9 milhões de pessoas, sendo que só na área metropolitana residem 20 milhões de pessoas), o Estado de Minas Gerais com 19,9 milhões (a cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, possui 5,7 milhões de habitantes), o Rio de Janeiro (16,2 milhões), a Bahia (14,2 milhões) e o Rio Grande do Sul, aproximadamente, com 10,8 milhões (Turismo de Portugal, 2013a:5). Por sua vez, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná formam os Estados que mais contribuem economicamente para o desenvolvimento do país, constituindo a capital paulista o núcleo cultural, financeiro, tecnológico e cultural da América Latina (GVA, 2013:7; ETOA, 2013:2; Turismo de Portugal, 2013a:5). Sendo o único país da América em que o português é língua oficial, numa sociedade multiétnica, 55% da população possui raízes europeias (essencialmente portuguesas, italianas e alemãs), «39% descende de mistura de raças, 5% tem origens africanas e 0,5% é japonesa» (ETC, 2009:2). O domínio de, pelo menos, dois idiomas é uma apetência comum para muitos brasileiros. Ao integrarem terceiras e quartas gerações de imigrantes, é frequente deparar-se com brasileiros que dominam, razoavelmente bem, o inglês, italiano, espanhol e francês (ETC, 2009:3). A par disso, o Brasil detém ainda a maior população católica do mundo – 61% – 13 Previsão da população brasileira para 2015. 51 constituindo a religião, como se verificará, um elemento importante nos interesses e preferências apresentados pelos turistas brasileiros nos destinos internacionais 14 . Depois da crise económica, em 2009, e com previsões que anunciam um visível progresso económico do mercado – aumento do produto interno bruto e redução da taxa de inflação a partir de 2015 (Turismo de Portugal, 2015d:2) –, o Brasil destaca-se, atualmente, por desempenhar um papel de relevo na economia sul-americana, por integrar a sétima maior economia mundial e pelo crescimento acentuado de uma “nova” classe média durante os últimos dez anos (GVA, 2013:3). Segundo a opinião do International Monetary Fund, citado pela Global Vision Access (2013:5), num curto período de tempo, o Brasil tornar-se-á «a 5ª maior economia mundial», somente ultrapassado por outras 4 potências: Estados Unidos da América, China, Japão e Alemanha. Na continuação deste estímulo económico, realça-se a ocorrência de dois relevantes eventos desportivos, o Fifa World Cup (2014) e os Jogos Olímpicos assegurados para 2016, que permitiram uma vasta concentração de investimentos, infraestruturas e a criação de postos de trabalho (GVA, 2013:5). Também no quadro do turismo internacional salienta-se a forte afirmação do Brasil que, dos países da América do Sul, é o principal mercado turístico para os Estados Unidos da América, Argentina e Europa (GVA, 2013:6). Especificamente nos Estados Unidos da América – o destino internacional preferencial do Brasil –, entre 2004 e 2011, o total de chegadas do mercado passou de 385 milhares para 1,5 milhões de chegadas, com Nova Iorque a constituir o Estado/cidade americana de eleição (Office of Travel and Tourism Industries, 2011:5) realçando-se, ainda, no mesmo continente, as deslocações de brasileiros para o Canadá que duplicaram e impeliram o turismo canadiano a tomar iniciativas para o melhoramento da receção deste mercado (Canadian Tourism Commission, 2013:3). De facto, durante a última década, as viagens dos turistas brasileiros para o exterior triplicaram e para o continente sul-americano quadruplicaram – registou-se unicamente uma diminuição em 2009, embora a revalorização do real face ao euro e ao dólar americano, tenha potenciado, ainda no 2º semestre desse ano, uma retoma dos fluxos para o exterior –, resultado alcançado pela crescente expansão da classe média (integração de 40 milhões de pessoas na classe desde 2003) e da sua esfera de influência (Observatório Turístico de la Comunitat Valenciana, 2010:1; Canadian Tourism Commission, 2013:3; ETOA, 2013:5). Ao conseguirem aparentemente suplantar a crise económica mundial, estima-se que, no ano precedente, 113 14 Costa, Camilla (2014). Aprovação do Papa é alta, mas católicos continuam deixando religião, diz estudo [em linha]. BBC Brasil. [Consultado em Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141113_religiao_estudo_pew_cc>. 52 milhões de pessoas compunham a classe média brasileira (classe C), ou seja, o correspondente a 56% da população do país, e que, nos próximos 5 anos, o número de milionários cresça com a inclusão de 270 mil pessoas neste segmento, uma profunda transformação social que permitiu alterações nos hábitos de consumo internos e externos: exemplo dos gastos efetuados nas viagens para o exterior, onde, em muitos países europeus, o Brasil realiza consumos superiores a outros mercados (Observatório Turístico de la Comunitat Valenciana, 2010:2; GVA, 2013:1112; ETOA, 2013:5). Outras tendências marcam as viagens dos turistas brasileiros para o exterior, como o «turismo de compras»; a crescente prática do turismo de cruzeiros nos destinos em visita; as visitas marcadas pelo recuso frequente ao telemóvel por parte dos viajantes (registo de fotos da estadia, partilha nas redes sociais dos melhores momentos das viagens, recurso a aplicações no smartphone); a «crescente diáspora» dos cidadãos brasileiros pelo mundo (a visita a familiares na Europa e outros continentes torna-se uma prática recorrente); as viagens com intuito de interação social (estabelecimento de laços de amizade durante as viagens) e as alterações nos padrões habituais das viagens (ETC & UNWTO, 2013b:13). De forma gradual, entre o período de 2006 e 2010, os principais destinos de viagem do mercado brasileiro para o continente europeu foram sofrendo algumas alterações com Portugal a assumir a preferência dos turistas e a ultrapassar 10 pontos percentuais o país vizinho, a Espanha, como se pode observar no gráfico 3. Gráfico 3 – As alterações nos padrões das viagens do Brasil para a Europa, entre 2006 e 2010 Fonte: ETC & UNWTO (2013b:19) Para esta subida de posições, parece estar a estratégia portuguesa de alargamento da linha aérea em solo brasileiro e a crescente promoção do Turismo de Portugal no exterior que constituíram fatores preponderantes para o aumento das chegadas do Brasil ao país (Observatório Turístico de la Comunitat Valenciana, 2010:1), uma eleição igualmente 53 anunciada pela European Travel Comission & World Tourism Organization (2013b:18) que posicionam Lisboa no topo dos destinos europeus preferenciais dos turistas brasileiros. Em consonância com as tendências descritas, em 2011, o mercado brasileiro foi responsável pela emissão de 7 milhões de turistas – mais 1,5 milhões que em 2010 –, recebendo a América 3,5 milhões e o continente europeu 1,9 milhões de visitantes provenientes do Brasil. Face a 2010, verificou-se um acréscimo em todos os indicadores, despendendo o mercado, nos destinos internacionais, 21,3 mil milhões de dólares e formando a França e Portugal os principais destinos turísticos europeus com 439,6 e 331,6 milhares de chegadas, respetivamente. A “terra mãe” surgiu, assim, na 4ª posição a nível mundial, atrás da França, Argentina e dos Estados Unidos da América (Turismo de Portugal, 2013a:8). Posteriormente, no ano de 2012, ao ultrapassar as 100 milhões de viagens de avião (número recorde oriundo do total de voos domésticos e internacionais), o Brasil caraterizar-se-ia pela emissão, de acordo com o Turismo de Portugal (2014g:2), de 7,5 milhões de turistas (o correspondente a 0,7% da porção mundial) que concentrariam as suas viagens para os Estados Unidos da América (24%), Argentina (16%), Portugal (6%), Espanha (6%) e Uruguai (5%). Porém, detetam-se algumas divergências em relação ao número efetivo de turistas emitidos pelo Brasil em 2012 e dos destinos europeus mais visitados nesse mesmo ano. A European Tourism Association (ETOA) (2013:10) aponta para um total de 7,9 milhões de brasileiros que viajaram para o exterior, a ETC & UNWTO (2013a:5) para 8,6 milhões de turistas emitidos pelo país sulamericano e ambos indicam França, Portugal e Espanha como os países da Europa mais visitados pelo mercado brasileiro, ao usufruírem de uma quota mundial comum de 5%. Indo ao encontro dos fluxos explanados, só no continente europeu chegaram 3 milhões de turistas brasileiros, caraterizando-se também o mercado pelos elevados gastos dos turistas nos destinos: a Organização Mundial de Turismo atribuiu ao Brasil a 12ª posição relativa aos «países cujos habitantes mais despendem em viagens internacionais» (GVA, 2013:4) com um total de 22,2 mil milhões de dólares (17 biliões de euros) em 2012, uma opinião unânime de um recorde não atingido desde 1947. Alcançando números superiores aos anos anteriores, o mercado brasileiro emitiu, segundo o Turismo de Portugal (2015c:1), 7,9 milhões de turistas em 2013. Todavia, mais uma vez, o número apontado não obteve unanimidade, tendo o Euromonitor International (2014) 15 anunciado um total de 9,1 milhões de viagens do Brasil para o exterior. Novamente, os Estados 15 Euromonitor International (2014). Tourism flows outbound in Brazil [em linha]. Euromonitor. [Consultado em Maio de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.euromonitor.com/tourism-flows-outbound-inbrazil/report>. 54 Unidos da América surgiram no cume das preferências dos turistas brasileiros – nesse ano, o Brasil ascenderia ao 3º principal mercado do exterior para os EUA, com 2 milhões de chegadas –, tal como a Argentina, Portugal, Itália e Espanha, elevando-se os gastos nos destinos internacionais para os 25 mil milhões de dólares (Turismo de Portugal, 2015c:2). Se atentarmos ao seguinte gráfico extraído do mais recente estudo do turismo de Portugal (2015d:4) acerca do mercado emissor brasileiro, verificamos que os destinos localizados na Europa do Sul e Mediterrânica e na Europa Ocidental concentram, respetivamente, 19% e 7 % dos fluxos do Brasil para o exterior. Gráfico 4 – Fluxos do mercado brasileiro para o exterior: principais regiões de chegada em 2013 Fonte: Turismo de Portugal (2015d:4), baseado nos dados da UNWTO Sustentados pelas informações do Turismo de Portugal (2013a; 2014g; 2015c) e desprendidos de outros dados estatísticos anteriormente enunciados, apresentam-se, de seguida, 2 tabelas referentes à evolução dos fluxos turísticos do mercado brasileiro e dos gastos efetuados nos destinos internacionais, assim como dos principais destinos de chegada. Numa curta escala temporal de 2010 a 2013 testemunhou-se um notório crescimento a nível da emissão de turistas e dos consumos nos destinos. Tabela 4 – O mercado emissor brasileiro a nível mundial: os fluxos turísticos e os gastos efetuados nos destinos Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados do Turismo de Portugal, baseados no número de chegadas nos destinos divulgados pela OMT Parâmetros: 2010 2011 2012 2013 Turistas (milhões) 5,7 7,0 7,5 7,9 Gastos turísticos (mil milhões de dólares) 16,4 21,3 22,2 25,1 55 Tabela 5 – Os 5 principais países de destino do Brasil entre 2011 e 2013 (milhares de pessoas) Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados do Turismo de Portugal, baseados no número de chegadas nos destinos divulgados pela OMT 2.1.1. O perfil e comportamento do turista brasileiro nos destinos internacionais 16 De célere crescimento a nível mundial, a indústria do turismo depende, para o melhoramento ou manutenção do seu presente estatuto, das escolhas de viagens tomadas pelos turistas que, consequentemente, se refletem na sua conduta durante a permanência no destino (Vuuren e Slabbert, 2011:295). Desta feita, os turistas encontram-se submetidos a um determinado comportamento nas três fases que compõem a viagem – antes, durante e após a sua realização –, um resultado alcançado pela interação contínua entre «certas variáveis pessoais e ambientais» (Vuuren e Slabbert, 2011:296). Na literatura do turismo, Papatheodorou (2006), citado por Vuuren e Slabbert (2011:295) frisou a importância do estudo dos distintos fatores que determinam as preferências de viagem, como «a cultura, as motivações, as finanças e as experiências anteriores» e que, no seu conjunto, acabam por influenciar o desenvolvimento de estratégias, de políticas de incremento e a própria distribuição do sector. Largamente investigadas, as motivações constituem uma componente psicológica diretamente relacionadas ao comportamento exprimido pelos viajantes, além de integrarem o princípio do processo de tomada de decisão. Deste modo, hoje em dia, para se estimular a procura e auxiliar os turistas nas suas decisões, o conhecimento prévio das motivações e do comportamento dos viajantes nos destinos detém um caráter preponderante no marketing do turismo (Vuuren e Slabbert, 2011:295-296). Conforme o crescimento evidenciado, nos últimos anos, pelo mercado brasileiro, também começaram a surgir estudos que analisam e exploram detalhadamente o perfil e as motivações das deslocações dos turistas brasileiros para o exterior, com especial relevância para 16 Encontra-se, no Anexo X, uma tabela com o perfil exposto pelo turista brasileiro nos destinos internacionais entre 2000 e 2012. 2011 2012 2013 1 EUA (1.028,5) EUA (1.791,0) EUA (2.060,3) 2 Argentina (965,7) Argentina (1.217,1) Argentina (1.083,3) 3 França (439,6) Portugal (479,1) Portugal (504,5) 4 Portugal (331,6) Espanha (408,9) Itália (394,7) 5 Itália (321,3) Uruguai (396,8) Espanha (394,4) 56 o continente europeu. Assim, nos inícios de 2000, a European Travel Commission (2000) dedicou um relatório pormenorizado ao comportamento do mercado turístico brasileiro no exterior, onde se extraem as principais motivações das viagens efetuadas para a Europa, bem como outras caraterísticas comportamentais e também organizacionais. Na esmagadora maioria, o lazer ocupava 55% das intenções de viagem dos brasileiros (a cultura e a história formavam, em 74% dos casos, o principal propósito das viagens de lazer para a Europa, sobressaindo, neste âmbito, a procura por sítios religiosos, bem como em 8% a procura pelas raízes familiares), seguido do turismo de negócios (30%), restando 15 % à visita a familiares (ETC, 2000:76-82). Vindos, maioritariamente, do Sudeste do Brasil – São Paulo e Rio de Janeiro – e acompanhados pelo companheiro/a (43%) ou sozinhos (32%), 40% dos brasileiros realizavam uma passagem por um conjunto de países europeus, 17 % optavam por conhecer unicamente um país e 8 % aproveitava as férias para visitar os familiares e amigos, permanecendo em média 15 dias nos destinos (ETC, 2000:79). Maioritariamente concentradas, em 2000, nos meses entre Abril e Junho (72%) e Julho e Setembro (48%), a opção por viagens que compreendam a visita a vários países europeus encontra-se diretamente relacionado com os padrões de distância dos turistas brasileiros, uma vez que estes consideram diminutas as distâncias entre os diversos destinos europeus (ETC, 2000:86). Passada quase uma década, novamente a European Travel Commission (2009:6-7) estudou a natureza e o propósito das viagens do mercado brasileiro para o continente europeu. Com efeito, em 2008, as faixas etárias compreendidas entre os 30 e 59 anos abrangeram um maior número de turistas brasileiros em visita à Europa, integrando um segundo grupo os viajantes entre os 60 a 65 anos e existindo, ainda, um terceiro formado por turistas com idades entre os 19 e 30 anos que procuram essencialmente a Europa com intuitos fundamentais de aprendizagem e estudo. Segundo o Embratur (2008), citado por ETC (2009:6), nesse ano, grosso modo, sozinhos ou em casal (raramente em grupo), «35% dos viajantes brasileiros provinha de São Paulo, 24% do Rio de Janeiro, 8% do Rio Grande do Sul, 7% de Minas Gerais, 5% do Paraná e 21% de outros Estados», destacando-se a primazia das classes sociais mais ricas e instruídas na realização de viagens para a Europa e de longo curso (ETC, 2009:6). No que concerne ao propósito das viagens à Europa, o lazer permaneceu como a motivação principal das deslocações (54%), não deixando de apresentar importância a execução de negócios (24%) e a visita a familiares e amigos (22%). Contudo, o padrão exposto variou de país para país, como o caso do Reino Unido, em que 11% das viagens dos brasileiros encontraram-se relacionadas diretamente com propósitos de estudo (dados superiores a outros 57 países europeus, nesse ano), ou de Portugal, Espanha, Itália e Alemanha que apresentaram médias superiores nas motivações relacionadas com a visita a familiares e amigos. Com uma duração média de permanência na Europa em torno dos 15 dias, as viagens centraram-se de Dezembro a Fevereiro e a meio do ano (Junho, Julho) e envolveram, regra geral, a deslocação a vários destinos europeus, ficando, por vezes, menos de 3 noites num país (ETC, 2009:4-5). Circunscrevendo-se a estudos ibéricos, o perfil do visitante brasileiro em Espanha em 2008 e 2009, foi analisado pelo Observatório Turístico de la Comunitat Valenciana (2010). Com idades compreendidas, maioritariamente, entre os 25 e os 44 anos (56,7% dos turistas brasileiros), em 2009, os visitantes brasileiros deslocaram-se para três grandes destinos espanhóis: Madrid (44,4%), a região da Catalunha (25,7%) e a Andaluzia (7,7%). No topo das motivações das deslocações do mercado para Espanha foi, de especial relevância, nas viagens de lazer, a componente cultural, o turismo gastronómico e enológico, o turismo idiomático, a religião (exemplo dos Caminhos de Santiago amplamente divulgados pelo popular escritor brasileiro, Paulo Coelho) e o estudo, onde 33 % dos estudantes brasileiros preferem o território espanhol para a sua instrução superior (Observatório Turístico de la Comunitat Valenciana, 2010:2-3). Posteriormente para o ano de 2011, ao recorrer a dados estatísticos do Euromonitor International e ao IPK International, o Turismo de Portugal (2013a:10-12) expôs um perfil detalhado do turista brasileiro no exterior, as principais motivações das viagens realizadas e a duração das estadas médias nos destinos, para o período de 2011. Com efeito, em 2011, as faixas etárias situadas entre os 25 e os 34 anos (26,9%), os 35 e os 44 anos (23,1%) e os 45-54 anos (19,6%) compreenderam um maior número de turistas brasileiros, que viajaram em 29,8% dos casos acompanhados pelo seu cônjuge, e deslocaram-se preponderantemente em lazer (61,1%), seguido dos negócios (18,8%) e da visita a familiares e amigos (14,8%) – estatística algo similar à apresentada pelo Office of Travel and Tourism Industries (2011:3) para os Estados Unidos da América no mesmo ano (os visitantes brasileiros deslocaram-se para os EUA maioritariamente em lazer (66%), negócios (16%) e para a visita a familiares e amigos (9%). Novamente e correspondendo ao verificado em estudos anteriores, os principais Estados emissores de turistas foram São Paulo (32,4%), Rio de Janeiro (20,2%), Rio Grande do Sul (8,2%) e Minas Gerais (6,4%), ou seja, as regiões do sudoeste e do sul, sendo que a permanência dos viajantes nos destinos internacionais, no ano de 2011, localizou-se durante os meses mais quentes no Brasil (Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março) e em 50,8% dos casos, entre 4 a 14 dias, e em 27,8% até 3 dias. Destaca-se, assim, a forte adesão às estadas 64 fluxo proveniente do Brasil se encontram durante os meses de Abril, Maio, Junho e Outubro (época média), com 40,3 %, seguindo-se a preferência pela época alta (Julho, Agosto e Setembro) e baixa com 30,8% e 28,9%, respetivamente, uma alteração evidente em relação a 2011 com um aumento percentual da época média (Turismo de Portugal, 2013a:22-23). Entre os principais destinos turísticos portugueses, a abundância de ligações aéreas e o prestígio da capital, internacionalmente, fizeram de Lisboa, em 2012, a região de eleição dos turistas brasileiros (63,7%), seguida do Norte e Centro do país que registaram acréscimos na procura (Turismo de Portugal, 2013a:22) A par da síntese de informações “oficiais” explanadas, a nível académico Serra et.al. (2012) desenvolveram uma investigação centrada nas experiências e motivações dos turistas brasileiros em visita à cidade de Évora na época de Verão de 2011 e, apesar da escassa amostragem utilizada (25 inquiridos), o perfil sociodemográfico delineado revelou-se pertinente para um melhor entendimento do comportamento do mercado nas cidades históricas portuguesas. Dos 25 inquiridos, que viajaram 43,5% com a família e 34,8% em casal, 69,8% possuíam habilitações académicas superiores e permaneceram somente até 2 noites na cidade (Serra et.al, 2012:50). A visita à cidade histórica de Évora centrou-se, essencialmente, na prática de atividades de lazer (36,4%), na possibilidade de usufruírem e contactarem com novas experiências culturais (31,8%), pelo património edificado e monumental (27,3%), bem como pelos elementos gastronómicos e vinícolas caraterísticos da região (4,5%). Espaços como a Sé e o Templo Romano foram indicados pelos turistas como as principais atrações históricoculturais, frisando 74% o contributo da visita para «o seu enriquecimento cultural» (Serra et.al., 2012:51). Quando confrontados com um possível regresso à cidade, 95,5% dos turistas não hesitou em afirmar que pretendia voltar e recomendavam, sem dúvida, o destino e 50% revelou que a categorização de Évora como “Património Mundial” constituiu um fator para a escolha do destino. Ainda em relação aos anos de 2011 e 2012, os Estudos de satisfação dos turistas (Turismo de Portugal, 2011; 2012a), dão-nos a conhecer caraterísticas adicionais sobre o comportamento dos turistas de nacionalidade brasileira no território português durantes as épocas de Verão. Além de formarem os turistas que apresentaram níveis de satisfação mais altos em relação a outras nacionalidades, a recomendação de familiares ou amigos constituiu, em ambos os anos, um importante critério na fase de planificação da viagem (Turismo de Portugal, 2011; 2012a). Em 2011, no Verão, ao viajarem acompanhados maioritariamente por outros adultos, os brasileiros constituíram o mercado que mais noites passou em Portugal (14,6 noites), 65 hospedando-se, em 40% dos casos, em distintas localidades – o denominado “circuito” (Turismo de Portugal, 2011:21-29). Embora o número de noites tenha decrescido no ano de 2012, nomeadamente para uma média de 12,6 (Turismo de Portugal, 2012a:31), os brasileiros continuaram, nesse ano, no topo dos que mais noites permaneceram no país e, inclusive, 54% afirmou ter realizado uma estadia por diferentes localidades (“circuito”). Quanto aos locais/regiões preferenciais, nesta época do ano, em 2011, 90 % dos brasileiros deslocou-se para conhecer a capital portuguesa – uma tendência que seria confirmada no ano seguinte: «Lisboa tende a ser mais visitada por espanhóis e brasileiros» (Turismo de Portugal, 2012a:15) –, vindo depois o Porto e o centro de Portugal nas escolhas dos turistas, quer em 2011 e 2012. Mais recentemente, do estudo de Melo (2013), extraem-se informações relevantes sobre a componente sociodemográfica do turista brasileiro que viajou para Portugal em 2013, das suas motivações, do seu nível de satisfação e dos atributos e caraterísticas que associa, inevitavelmente, ao destino turístico Portugal. Ao viajarem para Portugal em 49,3% dos casos acompanhados pela família, 23% pelos amigos e 21,3% pelo companheiro(a), as faixas etárias dominantes dos turistas abordados situaram-se entre os 26 e 40 anos (53,3% dos turistas) e os 41 e 60 anos (21,3% do total) e, tal como se verificou no estudo de Serra et.al. (2012), na sua maioria, possuíam habilitações ao nível do Ensino Superior, nomeadamente Bacharelato ou Licenciatura (44%) e 13,3% mestrado (Melo, 2013:59-63). Oriundos dos Estados de Pernambuco (22,7% dos turistas), Minas Gerais (14,7%) e São Paulo (14,7%), antes da viagem, de forma a conhecerem melhor Portugal e os destinos a visitar, 76 % dos turistas recorreu à internet para aquisição de informações, enquanto 68 % às sugestões de amigos e familiares (Melo, 2013:60-62). Por sua vez, as motivações da visita à “terra-mãe” concentraram-se, predominantemente, no lazer (57,3%), apresentando também alguma relevância para a viagem ao país a visita a familiares e amigos (16 %), o estudo (10,7%), a existência de uma língua comum (7%), as raízes familiares (Melo, 2013:64), encontrando-se nos destinos com mais aderência, Lisboa com 97%, as cidades adjacentes da capital (63%) e o Norte de Portugal com 60% (Melo, 2013:76). Concretamente para a época de Verão de 2013, o Estudo de satisfação dos turistas divulga caraterísticas e preferências do mercado brasileiro que se assemelham a alguns dos resultados da investigação de Melo (2013). Com efeito, ao viajarem, grosso modo, acompanhados por outros adultos (Turismo de Portugal, 2013b:21), os turistas brasileiros efetuaram uma passagem em circuito pelo país (39% dos casos), sobretudo por Lisboa e Porto (Turismo de Portugal, 2013b:29). Dominando as visitas a Lisboa (71%), seguidas do Porto 66 (33%) e Centro de Portugal (32%), 37% dos turistas de nacionalidade brasileira revelou ter sido influenciado a viajar para Portugal devido a sugestões dos seus familiares e amigos (Turismo de Portugal, 2013b:33). Quanto ao balanço da viagem, 73% declarou que a deslocação situou-se acima das expetativas, projetando esta opinião os turistas brasileiros para «os que registam níveis de satisfação mais elevados», em 2013 (Turismo de Portugal, 2013b:8). Ao distinguir-se pelo recorde histórico de 1,4 milhões de dormidas do mercado brasileiro em Portugal (Turismo de Portugal, 2015d), 2014 marcou para 64% dos turistas brasileiros a primeira visita ao país (Turismo de Portugal, 2014d:18). Em relação ao já constatado em anos anteriores, as recomendações de amigos e familiares pesaram na decisão de considerarem a viagem a Portugal, manifestando, novamente, os níveis de satisfação mais elevados – 97% dos turistas de nacionalidade brasileira classificou o destino com avaliações máximas (Turismo de Portugal, 2014e:22). Ao contrário do Inverno de 2014 em que 38% dos brasileiros permaneceu entre as 8 a 13 noites no país, no Verão do mesmo ano, a estada média nos destinos portugueses seria marcada por uma subida para as 14 noites passadas, regra geral, em diferentes localidades (“circuito”) – «os brasileiros são os que mais noites passam no nosso país» (Turismo de Portugal, 2014e:16) –, constituindo o património histórico e os museus portugueses o propósito principal das deslocações. Segundo o Estudo de satisfação (Turismo de Portugal, 2014e:9) alusivo à época de Verão de 2014, os turistas brasileiros compreendiam, na sua maioria, as faixas etárias entre «os 55 e mais anos» e, semelhantemente ao verificado noutros anos, Lisboa continuou a ser a região mais visitada, sendo também o Porto escolhido, a par dos espanhóis, pelos brasileiros (Turismo de Portugal, 2014e:17). Do cenário acima narrado, nas viagens para Portugal, o lazer afigura-se como a motivação dominante do mercado brasileiro que atribui importância ao contacto com a cultura e património histórico portugueses, ocupando um papel relevante também a visita a familiares e amigos. Dadas as ligações culturais e étnicas com Portugal, muitos turistas brasileiros aproveitam a deslocação ao país para restabelecerem laços com os seus parentes ou, inclusive, visitarem os locais onde habitaram os seus antepassados. Atualmente, um outro motivo para as viagens do Brasil para Portugal são os intercâmbios académicos desenvolvidos pelas parcerias entre as universidades portuguesas e brasileiras. Embora somente presente na investigação de Melo (2013), o estudo constitui um propósito importante de deslocação ao país, onde, nos últimos anos, programas como o “Ciência sem fronteiras” possibilitaram a chegada de centenas de estudantes brasileiros a Portugal, principalmente às Universidades de Coimbra e do Porto: na Universidade do Porto, «os 67 brasileiros constituem a maior comunidade de estudantes internacionais» 19 , encontrando-se a frequentá-la, neste 2º semestre de 2014/2015, 348 estudantes procedentes do Brasil 20 . Pela junção dos resultados dos estudos citados, verifica-se que, para grande parte dos turistas, o fator decisivo na escolha de Portugal como destino turístico foram as recomendações de amigos e familiares. Na sua maioria detentores de habilitações ao nível do Ensino Superior e acompanhados por outros adultos (exemplo, companheiro(a)) ou em família, os turistas brasileiros demonstram uma clara preferência pela visita a Lisboa, seguindo-se a região do Norte de Portugal como o 2º destino mais procurado. Regra geral, os viajantes brasileiros deslocam-se em circuitos pelo país – hospedagens realizadas em diferentes localidades –, formam o mercado emissor que mais noites permanece no território português na época de Verão e encaram Portugal como um ponto de passagem para outros países europeus. 2.3. Operação turística do Brasil para a Europa e Portugal Nos inícios dos anos 90 do século XX, a implementação da medida denominada “Plano Real” (1994) e, a consequente, estabilização da moeda brasileira, possibilitou um notório crescimento das companhias de aviação brasileiras que, em 1998, atingiriam indicadores favoráveis quando comparadas com os padrões internacionais, registando «uma taxa média de ocupação dos aviões (…) de cerca de 66% nas linhas internacionais» (ETC, 2000:40). Porém, a forte competitividade existente entre as companhias aéreas internacionais, a política de liberalização de preços e as transformações ocorridas na política cambial mundial, forçaram a que, no ano de 1999, o setor aéreo brasileiro procedesse à realização de mudanças estruturais (ETC, 2000). Desta feita, em 2000, os voos internacionais do Brasil compreendiam 35 companhias aéreas (englobava 4 nacionais: TAM, VASP, TRANSBRAIL e VARIG), que, no seu conjunto, emitiam 52% dos fluxos de passageiros do Brasil; a nível nacional, a VARIG, companhia aérea de Rio Grande do Sul, destaca-se com a maior operação no país, com um total de 37% dos fluxos internacionais de passageiros procedentes do Brasil, enquanto, de entre as outras companhias estrangeiras, a American Airlines possuía 9% da quota do mercado para o exterior, a Aerolineas 5% e a Alitalia 2%. À exceção da Aerolíneas Argentinas e Lan Chile que disponibilizavam voos para distintas partes do continente europeu, a maioria das companhias 19 Santarosa, C. (2014). Consulado brasileiro promoveu encontro de estudantes na U. Porto [em linha]. Notícias Universidade do Porto. [Consultado a 18 de Julho de 2015].Disponível na internet: <URL: http://noticias.up.pt/consulado-brasileiro-promoveu-encontro-de-estudantes-na-u-porto>. 20 Meireles, I. (2015). U. Porto dá as boas vindas aos estudantes internacionais” [em linha]. Notícias Universidade do Porto. [Consultado a 18 de Julho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://noticias.up.pt/u-porto-da-as-boasvindas-aos-estudantes-estrangeiros/>. 68 aéreas internacionais com bases operacionais no Brasil só estabeleciam ligações deste país para os destinos de origem das empresas (ETC, 2000:40-41). Por conseguinte, nos princípios de 2000, contabilizavam-se 14 companhias aéreas nacionais e internacionais que operavam do Brasil para países da Europa, sobretudo para a Europa Central e do Sul (Reino Unido, França, Alemanha, Áustria, Suíça, Bélgica, Holanda, Espanha, Portugal, Itália e Grécia), e cujas partidas eram efetuadas pelos aeroportos de São Paulo, Rio de Janeiro – dos dois, saíam sensivelmente 79% dos voos para a Europa –, Recife, Porto Alegre, Curitiba e Salvador (ETC, 2000:126). Por outro lado, na chegada ao continente europeu, Madrid, Frankfurt, Paris, Londres e Lisboa constituíam os principais aeroportos de desembarque, bem como as ligações preferenciais dos viajantes brasileiros para a Europa (ETC, 2000:126-128). No gráfico abaixo exposto, representaram-se as posições das companhias aéreas nacionais e internacionais que operavam do Brasil para a Europa nos inícios de 2000. A companhia aérea portuguesa TAP surgia na liderança das empresas de aviação internacionais com uma quota de 9% do total dos voos do mercado brasileiro para o continente europeu. Gráfico 6 – Companhias aéreas nacionais e internacionais que operavam no Brasil e estabeleciam ligações à Europa, nos princípios de 2000 Fonte: ETC (2000:41) Mais de uma década passada, em 2011, as companhias aéreas brasileiras e internacionais que concentravam a maior parte dos fluxos de tráfego internacional proveniente do Brasil eram a TAM (com 25,1% dos voos internacionais), a GOL (um total de 9,6% dos voos internacionais) e a TAP (a companhia aérea portuguesa deteve uma quota de 8,4% do total dos fluxos de passageiros do Brasil para os destinos internacionais, constituindo a companhia europeia líder no mercado outbound brasileiro), sobressaindo o número de passageiros que embarcaram nos aeroportos de São Paulo (Guarulhos e Congonhas), Brasília e Rio de Janeiro 69 (Galeão) (Turismo de Portugal, 2013a:14-15). Nesse mesmo ano, para o destino europeu, a TAP caraterizou-se por uma quota de 29,1%, ocupando uma posição privilegiada no tráfego de passageiros do mercado brasileiro para a Europa que concentrou 32,9% das viagens de avião do Brasil para o exterior, seguindo-se a TAM, Air France, Iberia, Lufthtansa, Alitalia, British Airways, KLM e Swiss Air (Turismo de Portugal, 2013a:15). Especificamente para Portugal, em 2012, a TAP realizou uma média de 67 ligações semanais do Brasil para Portugal – originários, principalmente, dos aeroportos do Rio de Janeiro e São Paulo (Guarulhos) –, ressaltando-se a discrepância semanal dos voos diretos que tinham como destino Lisboa e o Porto, com 63 e 4 frequências, respetivamente. Por conseguinte, dado o maior número de frequências semanais disponibilizadas para Portugal, em 2012, a TAP deteve «uma quota de 99,5% do mercado brasileiro em termos de capacidade aérea» (Turismo de Portugal, 2013a:26). Passados quase três anos, as frequências das ligações aéreas semanais pela TAP continuaram nas 63 para Lisboa, durante o inverno de 2014/2015, e nas 4 para o Porto (Turismo de Portugal, 2015d:9). Deste modo, para além de constituir atualmente o principal «destino de tráfego aéreo» do Brasil para Portugal, Lisboa desempenha um importante elo de ligação aérea entre as cidades brasileiras e cerca de 50 destinos da Europa (Turismo de Portugal, 2013a:26). Comparativamente a 2012, em 2014, a TAP continuou a constituir a principal companhia aérea a operar entre o Brasil e Portugal, com uma quota de 99% (Turismo de Portuga, 2015d:10). Tal como sucedeu favoravelmente nas companhias aéreas, também o sector das agências de viagens e os operadores turísticos brasileiros sofreram uma reorganização derivada do “Plano Real”, com a estabilização da moeda brasileira, a partir de 1994, e da liberalização cambial ocorrida em 1999. Quanto às agências de viagens, os impactos culminaram com o aparecimento de fiscalizações regulares e, como consequência, com a seleção das melhores empresas do mercado, ou, pelo menos, das que aguentaram a competitividade. Com efeito, de 16,000 agências, reduziu-se, em 1998, para as 8,000, e em 2000, para 2,700, segundo a Associação Brasileira das Agências de Viagens, a entidade expoente do sector (ETC, 2000:42). Fundada no ano de 1953, a ABAV representa na atualidade uma força impulsionadora do turismo brasileiro, contando, pelo menos, em 2012, com 3,245 agências de viagens associadas que concentram «73% da faturação do mercado, incluindo emissão de passagens aéreas, reservas de hospedagens (…) operação de pacotes, cruzeiros marítimos, entre outros» (Turismo de Portugal, 2013a:17). No que concerne aos operadores turísticos – conjunto de empresas, tais como as 70 agências de viagens e turismo que detêm um papel de intermediários em todos os serviços do sector do turismo –, depois da crise sentida em 1999, registou-se, no Brasil, um aumento do número de empresas focadas diretamente no atendimento aos passageiros, integrando, em 2000, a BRAZTOA (Associação Brasileira dos Operadores de Turismo) 59 associados «responsáveis por mais de 95% das vendas de pacotes de turismo no Brasil» (ETC, 2000:49). Todavia, em 2000, da BRAZTOA, apenas 20 dos 59 membros comercializavam os destinos europeus, como, por exemplo, a “Abreu Tour Viagens e Turismo”, a “Agaxtur Turismo”, a “Qualitours Agência de Viagens e Turismo” e a “Queensberry Viagens e Turismo” (ETC, 2000:49). Atualmente, a indústria de viagens e turismo brasileira estrutura-se em três grandes pilares: nos operadores turísticos, nas agências de viagens e nas agências de viagens que comercializam os produtos via online (Embrace, 2013:26). Por conseguinte, 88 membros integram a BRAZTOA e comercializam, no Brasil, 85% dos pacotes de viagens e 18% dos bilhetes aéreos (Turismo de Portugal, 2013a:16), sendo, que desses, 45 disponibilizam programas para Portugal, como se constata pela tabela extraída do Turismo de Portugal (2013a:29). Figura 2 – Operadores de turismo que atuam do mercado brasileiro para Portugal Fonte: Turismo de Portugal (2013a:29) baseado no Embratur (2011) 2.3.1. A divulgação de Portugal pelos operadores turísticos: de 2000 à atualidade Fundamentando-se nos catálogos dos mais importantes operadores de turismo nacionais e internacionais representados no Brasil, a ETC (2000:146), nos inícios de 2000, de um conjunto de 631 pacotes, averiguou que cerca de 72% focava-se na comercialização somente de destinos europeus, enquanto os restantes 28% centravam-se na divulgação de destinos internacionais exteriores à Europa ou na promoção de ambos (dos destinos europeus e de outros 71 fora da Europa). Para isto contribuía o domínio dos operadores de turismo internacionais no mercado de viagens brasileiro, principalmente de americanos e europeus que, devido a possuírem estruturas representativas no país, apostavam na distribuição de catálogos comuns aos da Europa em vez de destinados exclusivamente ao público brasileiro (ETC, 2000:146-147). Na sua maioria, os catálogos incidiam na promoção da Europa ou de certas regiões em particular no continente, como a Escandinávia e o Mediterrâneo, apresentado períodos de comercialização dos pacotes que variavam entre os 6 meses e 1 ano – 42% abrangiam a época alta e baixa, 33% só eram válidos para o Verão e 25% para a época de Inverno. Dos pacotes divulgados para a época de Inverno, denotava-se uma restrição clara aos desportos de inverno, ao passo que para o Verão apresentava-se um maior número de atrações relacionadas com a cultura, história, incidindo poucos no habitual turismo de sol e mar (ETC, 2000: 148). De uma forma geral, a cultura e a história estavam presentes em 73 % dos pacotes, evidenciando-se o rico e vasto património histórico-cultural das cidades europeias que era complementado com outros produtos, deixando-se de lado as atrações ligadas ao sol e mar (ETC, 2000:154). Na liderança dos destinos europeus mais indicados pelos catálogos, encontrava-se a França e a Itália (presentes em 92% dos catálogos que abordavam a Europa), surgindo posteriormente Alemanha, Espanha, Reino Unido e Suíça (ETC, 2000:149). Coincidência ou não, os destinos mais focados nos catálogos – França, Itália e Espanha –, correspondiam também aos sítios originários dos operadores de turismo internacionais dominantes no mercado brasileiro (ETC, 2000:149). Além da presença nos catálogos das principais capitais europeias, Paris, Roma, Madrid, Londres e Berlim, Portugal surgia juntamente com a Áustria na 3ª posição referente aos países mais frequentemente promovidos, ambos com 75% do total da amostra, destacando a Abreutur pequenas cidades do território português: Albufeira, Tomar e Horta (ETC, 2000:150-151). No entanto, as cidades/regiões portuguesas mais expostas nos pacotes referentes a Portugal eram Lisboa (surgia em 47 pacotes) e Fátima, divulgada em 24 pacotes de operadores turísticos (ETC, 2000:152-153). Atualmente, os operadores turísticos destacam a procura dos brasileiros por produtos turísticos focalizados na gastronomia, cultura e religião europeias, sendo que os que atuam em Portugal propõem, nos seus catálogos, a realização de circuitos pelo país, «os fly and drive», o Turismo de Habitação ou estadas em pousadas e o produto religioso/cultural, nomeadamente pela região de Lisboa, Norte e Centro (Turismo de Portugal, 2013a:29). 72 Tabela 8 – Os produtos promovidos nos catálogos dos operadores turísticos que atuam do mercado brasileiro para Portugal Fonte: (Turismo de Portugal, 2013a:29) Ao desfolhar-se os catálogos de alguns dos operadores turísticos que oferecem programas para Portugal, surge-nos uma divulgação do país distinta da ocorrida em inícios de 2000. Se anteriormente se apostava na promoção a Lisboa e ao sítio religioso de Fátima, agora a oferta abrange outras cidades e regiões portuguesas, igualmente ricas em cultura e história. Todavia, continua a ser a alta temporada o período em que se regista um maior número de ofertas de pacotes presentes nos catálogos brasileiros, que iniciam, por norma, a sua promoção à Europa a partir de Abril (época média em Portugal) estendendo-a até ao mês de Outubro. Na leitura do catálogo “Roteiros Europeus com guia brasileiro: Alta temporada e Baixa Temporada, Maio de 2015-Abril de 2016”, do operador turístico brasileiro Designer Tours (2015), conhecido por executar serviços de alta qualidade, Portugal juntamente com Espanha são destacados em dois pacotes designados – «Portugal e Santiago de Compostela» e «Portugal e Espanha» (Designer Tours, 2015:4). Na passagem por Portugal, o turista brasileiro pode desfrutar de cidades em que se “respira” cultura, história e gastronomia – Lisboa, Sintra, Óbidos, Batalha, Alcobaça, Fátima, Coimbra, Aveiro, Porto, Guimarães, Braga, Viana do Castelo – existindo viagens, para ambos os pacotes, durante a época alta (Julho, Agosto, Setembro) e na época baixa (Março). Operando de maneira semelhante, a Queensberry Viagens (2015) no folheto intitulado “Grupos Brasileiros no Mundo (Europa 2015)”, divulga Portugal num único pacote – «Grande viagem pela Península Ibérica» –, disponível a partir de Maio até Outubro de 2015 e com pontos de paragem obrigatórios em Lisboa, Óbidos, Fátima, Coimbra, Porto, Guimarães e Braga. Recentemente instaurada em Portugal, desde o ano transato, e operadora integrante da BRAZTOA, a Schultz (2015:4) dedica na totalidade um catálogo ao país: “Roteiros Internacionais Portugal 2015-2016”. Propondo aos brasileiros conhecerem «o país dos descobridores», com circuitos por Lisboa e arredores (“circuito do Oeste: Torres Vedras e Óbidos”; “circuito de Azeitão e da Arrábida”), Algarve, Alentejo e Beira Baixa, Estremadura, Ribatejo, Douro Litoral e Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro, Açores e Madeira, a Schultz 73 enumera algumas das razões para visitar Portugal: «um dos destinos mais completos da Europa (…) o mais barato, tem os melhores hotéis e ainda três vantagens adicionais para brasileiros: mesmo idioma, não precisa de visto, e é logo ali» (Schultz, 2015:4). Reconhecendo o potencial de Portugal no mercado brasileiro, o catálogo constitui o primeiro da empresa focado inteiramente na promoção do país, tendo, inclusive, Aroldo Schultz (presidente do grupo) dedicado 2 semanas à sua apresentação, no Brasil, em convenções e distribuindo-o por agentes de viagem brasileiros 21 . Dado ser impossível abordar todos os operadores turísticos que operam em Portugal e os seus respetivos catálogos, focar-se-á no “Catálogo 2015/16 – Portugal e Espanha”, da Lusanova Tours (2015:2) que, apesar de ter sido fundada em Portugal, possui escritórios no Brasil e integra a BRAZTOA e a ABAV. No catálogo acima mencionado, Portugal surge caraterizado como um país que «combina com cultura, história e tradição. Tem uma deliciosa gastronomia, um clima perfeito e extraordinárias paisagens de norte a sul», atribuindo-se importância a Lisboa, Fátima, Sintra, Alentejo, Porto e Norte de Portugal, assim como às ilhas da Madeira e dos Açores; da abundância de circuitos propostos, destaca-se o “Portugal religioso”, “Rota dos Vinhos de Portugal”, “Shopping em Lisboa”, “Portugal Gourmet”, “À descoberta de Portugal” (Lusanova, 2015:2). Em suma, as numerosas distinções internacionais arrecadas pelo país e a classificação de Património da Humanidade pela Unesco a paisagens e monumentos portugueses, possibilitou a afirmação de Portugal como destino turístico internacional e impulsionou os operadores brasileiros/internacionais com representação no Brasil, a apostarem não só na divulgação de Lisboa, mas na oferta de pacotes que abrangessem outras cidades e regiões nacionais. Embora alguns operadores turísticos comercializem pacotes de visita conjunta a Portugal e Espanha, outros encaram, especificamente, o mercado português como um potencial para o turista brasileiro (exemplo da Schultz), sobressaindo pela elaboração de catálogos exclusivos de promoção a Portugal e centrados na cultura, história, gastronomia e religião – produtos preferenciais dos brasileiros na Europa, em detrimento do habitual turismo de sol e mar. 2.4. Imagem turística da Europa e de Portugal pelos brasileiros Face às necessidades atuais do mercado, à forte competitividade entre os produtos e destinos turísticos, ao alargamento e diversidade do campo da oferta e às mudanças no perfil do 21 Afonso, P. (2015). Schultz apresenta catálogo de Portugal [em linha]. Publituris. [Consultado a 6 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.publituris.pt/2015/02/26/schultz-apresenta-catalogo-de-portugal/>. 80 que os turistas retém alguma informação positiva e, depois da visita a Portugal, as muitas informações positivas aumentam consideravelmente. Aqui, novamente, podem-se enquadrar algumas das palavras mais proferidas, como a “História” e a “cultura”, adequadas ao rico património histórico-cultural existente no país e o património imaterial da humanidade – o “fado”); a beleza/património natural (a beleza natural é o 3º atributo com melhor média e o 4º aspeto positivo mencionado pelos turistas brasileiros em Rodrigues e Brito (2009). Ao distinguirem a beleza natural do património, depreende-se que Rodrigues e Brito (2009) se estejam a referir indiretamente ao património natural português. Por conseguinte, dentro desta dedução, não se enquadrou o património natural referido por Melo (2013) no outro ponto, mas sim, como se constatou, só o património construído. De facto, no estudo de Melo (2013) o património natural é o principal atributo que, antes da viagem, os turistas possuíam algumas informações positivas (50,7%), sendo que, depois da visita ao país, as opiniões subiram positivamente); a hospitalidade (embora surja nos aspetos positivos e na 5ª posição a nível dos atributos melhor classificados na alusão a Portugal no estudo de Rodrigues e Brito (2009), a hospitalidade, ainda que não de forma muito expressiva, é, na investigação de Melo (2013), o atributo que origina respostas mais oscilantes nos turistas: antes da viagem, aparece como o atributo que os turistas mais possuem informações pouco favoráveis. Porém, estas opiniões decrescem depois da passagem pelo país, verificando-se que os turistas passam a ter muitas ou algumas informações positivas) e Portugal visto pelo turista brasileiro como um destino de compras (forma o 6º atributo com melhor média para os turistas brasileiros no estudo de Rodrigues e Brito, encontrando-se, também, no inquérito de Melo (2013), como um dos alvos de algumas informações positivas antes da viagem a Portugal. Apesar de poucos reconhecerem ter muitas informações positivas na fase precedente à viagem, somente 13,3%, após a deslocação, a mesma opinião aumentou substancialmente para 30,7%). 81 Tabela 10 – Síntese dos atributos, aspetos positivos e palavras que o turista brasileiro mais associa à imagem turística de Portugal Fonte: Elaboração própria, a partir da junção dos resultados das investigações de Rodrigues e Brito (2009) e Melo (2013) Reuniram-se, assim, alguns dos aspetos e atributos que os turistas brasileiros possuem mais conhecimentos e que, na sua visão, melhor caraterizam positivamente o destino Portugal. A agregação destes elementos influencia vincadamente a construção da imagem do país que se revelou dependente da passagem efetiva pelo destino português. Influenciados, atualmente, pelas telenovelas, pelos websites e blogs de viagem – «Conexão Paris», «A janela laranja», «Uma mala pelo mundo», «Viaje na viagem», «Matraqueando», «Ke viagem», «Photo travel», «Rapha no mundo», «De uns tempos para cá» – (ETC & UNWTO, 2013b:29), pelas redes sociais e pelas crescentes promoções das agências de viagens, os turistas brasileiros, durante as deslocações para o “velho continente”, pretendem, sobretudo, contactar de perto com as múltiplas culturas, o património histórico-cultural (destaque para os sítios religiosos), a natureza e a gastronomia (ETOA, 2013:14). A acrescentar a essa visão, apesar de distante e de, inclusive, “albergar” destinos com práticas de preços dispendiosos, a Europa representa, sem dúvida, para muitos brasileiros, o contactar com os seus antepassados culturais e étnicos, assim como a possibilidade de usufruir de novas experiências e sensações, como a oportunidade para a realização de compras. Estas perceções podem, em nosso entender, ser encorajadas, pelo reforço de conhecimento prévio acerca das afinidades culturais entre os dois países, usando, aqui, a língua como veículo transmissor e condutor de proximidades. Imagem turística de Portugal pelo turista brasileiro Gastronomia (“Bacalhau”, “Pastel de Belém”, “Vinhos”) Segurança Cultura (“História”, “Fado”, “Vinhos” e “Gastronomia”) Património (património histórico-cultural e imaterial: o “Fado”) Beleza natural Hospitalidade Destino de compras 82 Turistas brasileiros: Caraterísticas sociodemográficas; Raízes familiares; Frequência e motivações da visita; Com quem se deslocam; Níveis de satisfação; Conhecimentos e interesses históricoculturais. 2.5. O perfil do turista brasileiro na cidade do Porto: exposição e análise dos resultados da investigação empírica Depois da abordagem teórica realizada – fundamental para a compreensão da dimensão e das especificidades do mercado brasileiro nos destinos internacionais e, particularmente, em Portugal, bem como para o entendimento do perfil exposto pelos turistas –, focamo-nos, agora, no estudo empírico desenvolvido, entre os meses de Março e Junho, que consistiu na aplicação de um inquérito por questionário aos turistas brasileiros que visitavam a cidade do Porto. Na figura seguinte, expõe-se o modelo de análise elaborado antes das denominadas etapas de observação e da análise das informações que, segundo Quivy e Campenhoudt (1992:151), articula «os marcos e as pistas» e permite a aglomeração dos dados mais úteis e pertinentes ao trabalho empírico (Quivy e Campenhoudt,1992:159). Figura 4 – Modelo de análise Fonte: Elaboração própria Com efeito, neste estudo empírico, o universo-alvo corresponde aos turistas brasileiros que visitam a cidade do Porto, segundo as condições apresentadas na introdução. Apesar da amostra alcançada se “restringir” a 122 indivíduos, quando comparado com os números mensais referentes às dormidas do mercado brasileiro no Norte do país, considera-se que os dados obtidos possibilitam um retrato aproximado ao perfil do turista brasileiro que visitou a cidade do Porto entre os meses de Março e Junho de 2015. Mercados emissores Brasil Turismo Mercado brasileiro no Porto Território: Património portuense (natural, construído e monumental) preferencial Imagem turística: Atributos que associam ao destino 83 61,5% 38,5% Género Feminino Masculino De seguida, expõem-se os dados qualitativos e quantitativos obtidos da aplicação dos inquéritos, enfatizando-se os elementos mais pertinentes e tendo sempre em atenção a organização e os objetivos do mesmo. Efetua-se, igualmente, um cruzamento entre os resultados obtidos com os estudos anteriormente descritos e com a observação direta. 2.5.1. Dados sociodemográficos dos turistas brasileiros que visitam a “Invicta” Dos 122 inquiridos, denota-se um visível predomínio de indivíduos do sexo feminino – 61,5% (75 turistas) –, abrangendo o sexo masculino os restantes 38,5% (47 inquiridos) da amostra (ver gráfico 7). Para a averiguação das faixas etárias foi realizada, no questionário, uma questão aberta, tendo sido, posteriormente, transformada em grupos, de forma a facilitar o cálculo da média de idades. Embora os inquéritos tenham sido realizados a turistas brasileiros de distintas faixas etárias, sobressaem as idades compreendidas entre os 46 a 65 anos (39,3%), no qual se encontram 48 inquiridos, seguindo-se o grupo etário dos 18 a 25 anos, que representa 20,5% da totalidade (25 inquiridos) e a faixa de idades dos 36 a 45 anos (19,7%), com 24 turistas. Por conseguinte, obteve-se uma média de idades em torno dos 41 anos (41,4). Constatam-se algumas semelhanças à investigação de Melo (2013:59), no qual se obteve uma média geral de idades de 40 anos. Igualmente vai ao encontro das informações fornecidas pelo Estudo de satisfação alusivo à época de verão de 2014 (Turismo de Portugal, 2014e:9) que refere a predominância de turistas brasileiros com idades acima dos 55 anos, bem como às idades dominantes dos turistas que visitaram o Porto e Norte de Portugal, no 1º trimestre de 2014, que compreendiam a faixa etária entre os 26 e os 50 anos, com uma média geral de 40,1 e de 41,3 nos segmentos em lazer/férias e no de visita a familiares/amigos, respetivamente (IPDT, 2014:6). Gráfico 7 – Género dos inquiridos Fonte: Elaboração própria 84 20,5% 18,9 19,7% 39,3% 1,6% Faixas etárias 18-25 anos 26-35 anos 36-45 anos 46-65 anos Mais de 65 anos 39,3% 40,2% 12,3% 7,4% 0,8% Estado civil (%) Solteiro (a) Casado (a) União de facto Divorciado (a) Viúvo (a) Gráfico 8 – Faixas etárias dominantes Fonte: Elaboração própria Relativamente ao estado civil – uma variável determinante na seleção do destino e nas atrações a visitar –, a maioria dos inquiridos encontra-se casado (40,2%) ou solteiro (39,3%), existindo uma similaridade de distribuição entre as duas categorias. Também relevante ainda que 12,3% das respostas são de pessoas que se encontram a viver em união de facto. Ainda se considerarmos uma análise à relação do estado civil com o fator idade, detetamos que a faixa etária que compreende as camadas mais jovens é também a que inclui um maior número de solteiros. Novamente, detetam-se semelhanças com o perfil do turista do Porto e Norte de Portugal que, no 1º trimestre de 2015, era, na sua maioria, casado ou encontrava-se a viver em união de facto, seguindo-se os solteiros (IPDT, 2014:42), assim como com a investigação de Melo (2013:59), onde prevalecem os turistas brasileiros casados (44%) e os solteiros (42,7%). Gráfico 9 – Estado civil dos inquiridos Fonte: Elaboração própria 85 36,9% 15,6% 10,7% 8,2% 6,6% 5,7% 4,1% 2,5%9,6% Estados de residência São Paulo Rio de Janeiro Paraná Minas Gerais Distrito Federal Rio Grande do Sul Santa Catarina Bahia Outros: Alagoas (1,6%), Pernambuco (1,6%), Ceará (1,6%), Pará (1,6%), Amapá (1,6%), Rio Grande do Norte (0,8%), Paraíba (0,8%) Em relação aos Estados de proveniência dos turistas brasileiros em visita à cidade, São Paulo salienta-se por constituir a região emissora de 36,9% dos respondentes, ou seja, 45 dos turistas, seguindo-se o Rio de Janeiro (15,6%), Paraná (10,7%), Minas Gerais (8,2%), Brasília (6,6%) e Rio Grande do Sul (5,7%). Apura-se, assim, que os principais Estados emissores de turistas para o Porto são também as regiões referenciadas pelos estudos da European Travel Commission (2009) e do Turismo de Portugal (2013a) como as maioritariamente geradoras de turistas para o exterior, as mais populosas e as que mais contribuem economicamente para o desenvolvimento do Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná. Por norma, a nível da emissão de turistas para o exterior, o Rio Grande do Sul e Minas Gerais situam-se à frente do Paraná. Todavia, no caso em estudo, o Paraná ocupa a 3ª posição relativa às principais regiões emissoras de turistas para a cidade do Porto, suplantando o habitual segundo e terceiro «Estados emissores de outbound» (Turismo de Portugal, 2013a:11). Gráfico 10 – Estados de residência Fonte: Elaboração própria Outras variáveis sociodemográficas revelam-se igualmente importantes para o entendimento do perfil e comportamento do turista brasileiro em visita à cidade do Porto, como 86 0% 20% 40% 60% 80% 100% Doutoramento Mestrado Pós Graduação/Especialização Bacharelato/Licenciatura Curso Técnico 2º Grau (12º ano) 1º Grau (9º ano) Outro: Pós-doutoramento 5,7% 15,6% 32,8% 28,7% 5,7% 9,8% 0,8% 0,8% Habilitações literárias (%) o nível de escolaridade e a ocupação profissional dos respondentes. Assim, tal como a idade e o estado civil, a formação e ocupação profissional constituem também fatores determinantes a nível da escolha do destino e dos interesses e atrações preferenciais. Por conseguinte, no que diz respeito ao nível de escolaridade, realça-se que a grande maioria dos inquiridos possui habilitações superiores: 32,8 % (40 turistas) detêm Pós-Graduação ou Especialização, 28,7% (35 dos respondentes) Bacharelato ou Licenciatura, 15,6% (19 inquiridos) Mestrado e 5,7% (7 indivíduos) Doutoramento, reiterando-se as informações das investigações da European Travel Commission (2009), de Melo (2013) e de Serra et.al. (2012) que ressalvam a primazia, na deslocação ao país, dos turistas brasileiros provenientes das classes sociais mais instruídas. Tal como se pode observar no gráfico seguinte, o 2º Grau (equivalente ao 12º ano em Portugal) e o 1º Grau (equivalente ao 9ºano) abrange apenas uma parca parcela da amostra, 9,8% e 0,8%, respetivamente, exibindo, assim, o turista brasileiro em visita à cidade do Porto um nível de instrução superior. Gráfico 11 – Habilitações literárias dos inquiridos Fonte: Elaboração própria Ainda dentro do ponto de visita sociodemográfico, na ocupação profissional, constata-se que uma fatia considerável dos turistas encontram-se empregados, integrando os estudantes uma parte pertinente da amostra e os reformados 8,2% do total dos inquiridos. Atendendo ao largo número de brasileiros em Erasmus na Universidade do Porto, aplicou-se alguns inquéritos junto a estudantes universitários provenientes do Brasil, tendo-se tido em atenção o tempo de permanência (se era inferior a um ano consecutivo) até à data e se não exerciam, na cidade, qualquer tipo de trabalho remunerado, de forma a poderem ser considerados turistas. Assim, no gráfico que se segue, o índice considerável de estudantes representa a realidade para o período 87 8,2% 0,8% 30,3% 32,8% 7,4% 20,5% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Reformado Desempregado Trabalhador por conta própria Trabalhador por conta de outrem Trabalhador e Estudante Estudante Condição perante o trabalho (%) de realização do inquérito, ou seja, desde Março a meados de Junho, uma tendência que é alterada com o final do 2º semestre e, consequente, regresso da grande maioria ao Brasil. Todavia, frisa-se que nem todos os turistas estudantes inquiridos se encontravam em Erasmus, existindo, na amostragem, turistas, estudantes no Brasil, que visitavam a cidade sem ser ao abrigo de programas de intercâmbio. Esta caraterização também se encontra, em parte, presente no estudo do turista do Porto e Norte de Portugal, uma vez que, maioritariamente, os turistas inquiridos são trabalhadores por conta de outrem, destacando-se ainda os estudantes e os reformados. Gráfico 12 – Condição perante o trabalho Fonte: Elaboração própria 2.5.2. Ligação étnica De forma a averiguar-se as origens familiares dos turistas, procedeu-se à elaboração de uma questão aberta com o intuito de descobrir possíveis ligações à Europa e, concretamente, à “terra mãe”, Portugal. Embora a maioria dos inquiridos tenha obedecido ao modelo de resposta proposto (exemplo, “país do pai/país da avó paterna/país do avô paterno), alguns colocaram, a título de exemplo, “Todos Brasil”, tendo-se assumido, na análise dos dados, essas respostas como válidas. Com efeito, verificou-se que mais de 70% dos inquiridos descende de pais brasileiros, detetando-se uma maior presença de raízes portuguesas e de outros países europeus na geração antecedente (ver tabelas 11, 12, 13, 14, 15,16). 88 Tabelas 11, 12, 13 – País de origem do pai, do avô paterno e da avó paterna Fonte: Elaboração própria Tabelas 14, 15, 16 – País de origem da mãe, do avô materno e da avó materna Fonte: Elaboração própria Denota-se que o DNA português encontra-se ainda fortemente enraizado na população brasileira, mesmo num país caraterizado por múltiplas etnias que compõem a sua nacionalidade. Os intercâmbios migratórios ao longo de centúrias possibilitaram o estreitar de relações entre Portugal e o Brasil, como testemunha Mário Vivalda, embaixador do Brasil em Portugal: «a maior caraterística das relações é o traço familiar. Não há, da parte do Brasil, relação com qualquer outro país que tenha esse traço tão forte» (Expresso, 2015:6). Não obstante, destacamPaís de origem da avó paterna % Brasil 56,6% Portugal 18% Itália 9,8% Espanha 2,5% Suíça 0,8% Japão 4,1% Alemanha 3,3% China 0,8% Perú 0,8% Polónia 0,8% França 0,8% Uruguai 0,8% Sem resposta 0,8% País de origem do pai % Brasil 73% Portugal 13,1% Itália 4,1% Espanha 1,6% Suíça 0,8% Japão 3,3% Alemanha 0,8% China 0,8% Perú 0,8% Polónia 0,8% Sem resposta 0,8% País de origem do avô paterno % Brasil 54,9% Portugal 19,7% Itália 9,8% Espanha 3,3% Suíça 0,8% Japão 4,1% Alemanha 2,5% China 0,8% Hungria 0,8% Líbano 0,8% Síria 0,8% Polónia 0,8% Sem resposta 0,8% País de origem da mãe % Brasil 70,5% Portugal 15,6% Itália 4,1% Espanha 2,5% Japão 4,1% Líbano 0,8% Alemanha 0,8% Angola 0,8% Sem resposta 0,8% País de origem do avô materno % Brasil 54,9% Portugal 22,1% Itália 5,7% Espanha 4,1% Japão 4,9% Líbano 0,8% Alemanha 2,5% Angola 0,8% França 1,6% Rússia 0,8% Síria 0,8% Sem resposta 0,8% País de origem da avó materna % Brasil 60,6% Portugal 18% Itália 7,4% Espanha 1,6% Japão 4,9% Suíça 0,8% Alemanha 1,6% Líbano 0,8% Angola 0,8% Rússia 0,8% França 0,8% Síria 0,8% Sem resposta 0,8% 89 0% 50% 100% Sim Não 35,2% 64,8% "Já conhecia a cidade do Porto?" 010 20 30 40 Não conseguem precisar Mais de 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 3 3 3 4 3 7 17 3 Número de visitas ao Porto se também as referências às origens italianas, espanholas, alemãs e, fora do continente europeu, aos antepassados originários do Japão. 2.5.3. Visita à cidade do Porto e frequência Quando abordados sobre uma anterior visita (s) ao Porto, a grande maioria dos inquiridos, 64,8% da amostra, revelou ser a primeira vez que se encontrava na cidade, sendo que apenas 35,2% afirmou já conhecer este destino português (ver gráfico 13). Dos 35,2%, ou seja, 43 inquiridos, 17 declarou ter visitado a cidade já por 2 vezes, manifestando 3 inquiridos dificuldades na precisão do número de visitas ao Porto (ver gráfico 14). Gráfico 13 – Primeira visita dos turistas à cidade do Porto Fonte: Elaboração própria Gráfico 14 – Frequência da visita Fonte: Elaboração própria 96 020 40 60 80 100 120 7 6 5 4 3 2 1 55 36 20 7 4 0 0 Grau de satisfação Gráfico 19 – Grau de satisfação dos turistas brasileiros na visita à cidade do Porto Fonte: Elaboração própria Posteriormente e ainda dentro da parte referente à satisfação, procurou-se averiguar se os inquiridos aconselhavam a visita à cidade do Porto. Apresentando uma discrepância abrupta, 99,2% dos turistas sublinhou que recomendava o destino, enquanto 0,8% (1 turista) respondeu de forma negativa à questão. Números não surpreendentes se atentarmos a outros estudos refenciados anteriormente: na investigação de Serra et.al. (2012:51) para Évora, todos os turistas brasileiros quando questionados sobre a intenção de recomendar a cidade, responderam de forma favorável e, em Melo (2013:66), após a viagem, 97,3% manifestou vontade em sugerir o destino turístico Portugal. 2.5.8. Interesses e conhecimentos histórico-culturais Ainda no mesmo inquérito, pretendeu-se deslindar o real interesse dos turistas brasileiros pela História em comum entre os dois países. Face à questão “A História entre o Brasil e Portugal suscita-lhe interesse?”, 91,8%, ou seja, 112 dos inquiridos respondeu “sim”, e ainda 8,2% (10 indivíduos) manifestou algum interesse. Não se obtiveram quaisquer respostas negativas, verificando-se que o turista brasileiro atribui importância às relações históricas e culturais do Brasil com o país colonizador. 97 0% 50% 100% Sim Algum Não 91,8% 8,2% 0% "A História entre o Brasil e Portugal suscita-lhe interesse?" Gráfico 20 – Interesse dos inquiridos pela História entre o Brasil e Portugal Fonte: Elaboração própria Diversas figuras portuguesas marcariam, de forma direta, o desenvolvimento da história brasileira. No cerne desta teia de ligações, o Porto e, de um modo geral, o Norte português estabeleceria, desde o início, uma vincada relação com as Terras de Santa Cruz. Ao ocupar um lugar de relevo na história política, económico-social e cultural do país sul-americano, o Porto, além de fornecedor de um grande caudal de homens e mulheres povoadores e colonizadores, potenciou uma regular corrente migratória que se fixaria nas terras do outro lado do Atlântico. Com a precisa intenção de se verificar que figuras portuguesas com ligação ao Brasil e ao Porto são reconhecidas pelos inquiridos, bem como de compreender os seus conhecimentos sobre o fenómeno migratório português para o país sul-americano, colocaram-se quatro questões temáticas no âmbito da História. Segundo os dados recolhidos através do inquérito, denota-se que D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), D. Pedro II, Imperador do Brasil, Pêro Vaz de Caminha, Brás Cubas e Tomás António Gonzaga são largamente identificados, enquanto que o Padre Inácio de Azevedo, Rodolfo do Couto, Faustino Xavier de Novais e Ricardo Severo constituiram as figuras menos reconhecidas pelos turistas brasileiros (ver gráfico 21). Dada a oportunidade de apontarem outras individualidades para além das integrantes nas opções, alguns inquiridos mencionaram a ligação ao Brasil de D. João VI, do Padre António Vieira, do Marquês de Pombal e da Rainha D. Amélia. 98 23,1% 74,4% 2,5% Conhecimento da ligação Sim Não Sem resposta 020 40 60 80 100 120 Pêro Vaz de Caminha D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil) Brás Cubas D. Pedro II, Imperador do Brasil Tomás António Gonzaga Rodolfo Pinto Couto Faustino Xavier de Novais Padre Inácio de Azevedo Ricardo Severo da Fonseca e Costa Nenhum Outras: 111 116 93 115 60 2 2 18 2 1 8 "Quais das figuras portuguesas com ligação ao Brasil conhece?" Gráfico 21 – Conhecimento por figuras portuguesas de relevância na História do Brasil Fonte: Elaboração própria Quando questionados sobre a ligação destas figuras históricas à cidade do Porto, dos 121 inquiridos (não se considerou o inquirido que colocou, na questão anterior, “nenhuma”) que reconheceram algumas ou todas as individualidades apresentadas, 90 (74,4%) revelaram desconhecer tal relação existente, 3 (2,5%) não se pronunciaram e, obviamente, os restantes 28 (23,1%) afirmaram já ter conhecimento. Gráfico 22 – Conhecimento da ligação das figuras indicadas ao Porto Fonte: Elaboração própria 99 24 135 46 29 29 31 020 40 60 80 100 120 Não sei Século XXI Século XX Século XIX Século XVIII Século XVII Século XVI Séculos de maior fluxo migratório português para o Brasil Posteriormente, numa questão aberta (caráter qualitativo), pediu-se aos respondentes que afirmaram possuir conhecimento da relação à cidade do Porto de, pelo menos, algumas das figuras apresentadas, que identificassem as personalidades que reconheciam uma ligação. Com efeito, 2 dos 28 turistas não responderam e 3 demonstraram dificuldades no entendimento da questão, uma vez que não indicaram as figuras que sabiam ter efetivamente uma ligação à cidade, mas sim aludiram à importância das mesmas no tempo do Brasil Colonial. No entanto, D. Pedro IV foi indicado pelos restantes 20 vezes, D. Pedro II, Imperador do Brasil, referido 12 vezes, Pêro Vaz de Caminha com 7 menções, Brás Cubas com 5 indicações e Tomás António Gonzaga e o Padre Inácio de Azevedo com 3 e 2 referências, respetivamente. Tabela 18 – Personalidades com ligação ao Porto e reconhecidas pelos turistas Fonte: Elaboração própria Por último e para completar a análise relativa aos conhecimentos histórico-culturais, o fluxo migratório português para o Brasil seria alvo de abordagem. Para o efeito, foi colocada uma questão fechada relacionada com a diáspora portuguesa rumo ao Brasil, mais concretamente sobre as épocas em que a emigração lusa atingiria proporções “maciças”. Reparando no gráfico 23, constata-se que um número expressivo de turistas desconhece que os séculos XIX e XX constituíram o período de mais intenso fenómeno migratório português para o Brasil, sobressaindo 24 inquiridos que não conseguem apontar qualquer centúria (s). Gráfico 23 – Conhecimento dos inquiridos pelos fenómenos migratórios de Portugal para o Brasil Personalidades Frequência D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil) 20 D. Pedro II, Imperador do Brasil 12 Pêro Vaz de Caminha 7 Brás Cubas 5 Tomás António Gonzaga 3 Padre Inácio de Azevedo 2 100 Fonte: Elaboração própria 2.5.9. A atratividade da frequência de um roteiro histórico-cultural direcionado para o turista brasileiro O último grupo de questões que finalizam o presente inquérito por questionário focaram-se na averiguação da atratividade da realização de um roteiro histórico-cultural centrado na ligação existente entre a cidade do Porto e o Brasil. Neste sentido, perguntou-se aos inquiridos se já haviam participado num roteiro direcionado especificamente para o turista brasileiro, tendo 120 respondido “não” e apenas 1 afirmado que já tinha usufruído de um produto turístico desse género, porém sem especificar quando e onde. A esta pergunta, a resposta de um inquirido não foi considerada válida, dado que assinalou ambas as opções – “sim” e “não”. Por sua vez, levantaram-se outras duas questões com o intuito de compreender o interesse dos turistas, nomeadamente na participação de um roteiro histórico-cultural pela cidade do Porto que contemplasse a integração de locais e monumentos com ligação ao Brasil. Largamente se obtiveram um rol de respostas positivas, 94,3% (o correspondente a 115 inquiridos), demonstrando, assim, as opiniões dos turistas brasileiros que a realização de roteiro histórico-cultural centrado na ligação explanada poderá vir a constituir um produto turístico atrativo para o turismo portuense. Pelo contacto informal estabelecido com vários turistas brasileiros, a autora deparou-se com opinião favoráveis e entusiasmantes em relação à possibilidade de futuramente se implementar, na cidade do Porto, um roteiro que alie a história e cultura entre as duas Nações. Tentando compreender, de forma mais profunda, as razões pelas quais consideram ou não atrativa a participação neste roteiro específico, solicitou-se aos turistas através de uma questão aberta que explanassem os motivos por detrás do seu interesse/desinteresse na atividade. De forma resumida, os que não demonstraram qualquer interesse defenderam que conhecem bem a cidade do Porto, não existindo a necessidade de participação neste roteiro, já outros alegaram que não apreciam “tours” guiados, preferindo encontrar os locais e monumentos de forma independente. Em contrapartida, os inquiridos que se revelaram interessados na frequência de um roteiro centrado na ligação do Brasil com o Porto argumentaram em linhas gerais: a) A possibilidade de alargamento dos seus conhecimentos históricos e de uma maior aprendizagem sobre os vínculos culturais que unem os dois países; 101 b) Apesar da História entre o Brasil e Portugal integrar os conteúdos lecionados no ensino fundamental brasileiro, vários turistas frisaram que os conhecimentos que detém restringem-se às informações contidas nos manuais escolares. Com efeito, acreditam, a partir do roteiro, compreender mais acerca do grau de influência dos portugueses na cultura brasileira e, grosso modo, sobre a História do Brasil com a História do país colonizador; c) Ampliação dos conhecimentos histórico-culturais da cidade através da aprendizagem das ligações existentes entre o Porto e o Brasil; d) Oportunidade de observação dos monumentos para lá da componente estética; e) Melhor compreensão dos laços de fraternidade e de aproximação entre as duas nações, assim como um maior conhecimento das suas raízes; f) Ligações afetivas e familiares à cidade e/ou região do Norte de Portugal; g) Existência de um maior acesso à cultura brasileira em Portugal do que no Brasil à cultura portuguesa, resultando num desconhecimento das ligações históricas da cidade ao Brasil. Assim, sublinham a necessidade de conhecer a visão portuguesa desses laços, de forma a compreender a herança que lhes foi legada. 102 Capítulo III - Estudo de caso – O Porto para os brasileiros: o património portuense de ligação ao Brasil 3.1. Análise das potencialidades do turismo brasileiro na cidade do Porto O Brasil deverá ser alvo de nova abordagem de promoção visando garantir uma maior penetração nos fluxos de turistas para a Europa, garantindo que Portugal passe a fazer parte da rota turística dos brasileiros (PENT, 2011:30) Como já foi abordado, em capítulo próprio, durante a última década, as viagens dos turistas brasileiros para o exterior triplicaram, e, de forma gradual, Portugal passou a integrar um dos destinos internacionais preferenciais do mercado brasileiro, tendo-se fixado, em 2014, um recorde do número de dormidas – 1,4 milhões, ou seja, um acréscimo de 12,7% face a 2013 –, assim como do número de hóspedes provenientes deste mercado, 580 mil hóspedes, mais 10,7% do que em 2013 (Turismo de Portugal, 2015d:5). Igualmente no Norte de Portugal, a procura do mercado brasileiro apresenta um notório crescimento de ano para ano, somente ultrapassado, ao nível do número de dormidas, pelos mercados português, espanhol e francês. Por conseguinte, nos últimos 5 anos, o Brasil constitui, a par com a França, um dos mercados que expõe um crescimento mais linear (Departamento de Turismo da CMP, 2014a:4). Uma procura também sentida nos Postos de Turismo e iPoints da CMP, onde, entre 2009 e 2014, a afluência de turistas brasileiros registou um aumento de 41%, o correspondente «a um crescimento médio de 6,7% ao ano» (Departamento de Turismo da CMP, 2015b:4), destacandose, em 2014, como o mercado mais representativo de fora da Europa (Departamento de Turismo da CMP, 2015a:4). Sobressaindo, em relação aos outros mercados, pela sua preferência na deslocação por diferentes cidades portuguesas – o denominado “circuito” –, no 2º trimestre deste ano, os turistas brasileiros formaram o mercado emissor que mais tempo permaneceu no Porto e Norte de Portugal, bem como, os que mais despenderam na região, com uma média de consumo individual em torno dos 98 euros por noite 26 . Além disso, em 2014, representaram o quinto mercado emissor que mais visitantes forneceu ao Palácio da Bolsa (cerca de 12 mil) 27 , sentindo26 Agência Lusa (2015). Turistas de visita à região no 2º trimestre gastaram mais [em linha]. Porto 24. [Consultado a 12 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.porto24.pt/cidade/turistas-de-visita-regiao-2-otrimestre-gastaram-762-euros/>. 27 Agência Lusa (2015). Porto. Palácio da Bolsa com recorde de 250 mil visitantes em 2014 [em linha]. Jornal i. [Consultado a 12 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.ionline.pt/267818>. 103 se também uma crescente afluência de turistas brasileiros no Mosteiro da Serra do Pilar, onde, de 1357 visitantes provenientes do Brasil, em 2013, passar-se-ia para 1698, em 2014 (ver Anexo XII). Num curto espaço de tempo, concretamente, desde 2010, o Brasil subiu de quinto para o terceiro mercado internacional emissor de turistas para o Norte de Portugal (Turismo de Portugal, 2014b), tendo permanecido, no 1º semestre do presente ano, atrás do mercado espanhol e francês 28 . Ao apresentar-se como um mercado estratégico na ação política do turismo português, com um crescimento de 135%, não existem quaisquer dúvidas do potencial do mercado que, segundo Alberto Tapa, secretário-geral da AETUR, «ainda representa uma fatia muito reduzida do mercado», existindo, assim, uma «grande margem de progressão» 29 . Uma política estratégica que, em 2013, fora anunciada, em São Paulo, pelo secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, o qual enumerou duas ações preponderantes: o estabelecimento de contactos diretos com operadores de turismo brasileiros e uma maior divulgação da imagem de Portugal como um país moderno, sublinhando que «essa imagem deve ser trabalhada não só do ponto de vista turístico, mas também social e cultural» 30 . No entanto, já, em 2009, face ao potencial ostentado pelo mercado emissor brasileiro, o Turismo de Portugal desenvolveria fortes campanhas de divulgação da imagem do país no Brasil, intensificando-as no ano de 2010 31 . Indo ao encontro destas opiniões, o Plano Estratégico Nacional do Turismo: propostas para revisão no horizonte 2015 (2011:34) insere o mercado brasileiro no grupo denominado «mercados em crescimento», sublinhando que o Brasil constitui o principal mercado de aposta. «Mercado de aposta principal dentro deste grupo pelo potencial de crescimento, posição forte de Portugal no mercado, acessibilidades aéreas privilegiadas, elevada despesa média e 28 Jornal de Notícias (2015). Porto recebe cada vez mais estrangeiros [em linha]. Jornal de Notícias. [Consultado a 03 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=47 56823&page=-1>. 29 Agência Lusa (2015). Brasileiros estão no “top 3” de turistas em Portugal [em linha]. Porto Canal. [Consultado a 12 de Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://portocanal.sapo.pt/noticia/61560/>. 30 Jornal i (2013). Estratégia para atrair turistas brasileiros envolve contacto direto com operadoras, diz Mesquita Nunes. Ionline. [Consultado em 5 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.ionline.pt/363197>. 31 Turismo de Portugal, I.P. (2010, outubro). Turismo de Portugal renova aposta em campanha de imagem no Brasil. Comunicação à Imprensa, Lisboa. [Consultado em Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.turismodeportugal.pt/Portugu%C3%AAs/turismodeportugal/media/Documents/PR2010/24102010%20Tu rismo%20de%20Portugal%20renova%20aposta%20em%20campanha%20de%20imagem%20no%20Brasil.pdf>. 104 reduzida sazonalidade – deverá ser alvo de nova abordagem de promoção visando garantir uma maior penetração nos fluxos de turistas para a Europa» (PENT, 2011:38). Na cidade do Porto, a atribuição, desde 1996, pela Unesco, de Património Mundial ao seu centro histórico, juntamente com as recentes premiações de “European Best Destination”, em 2012 e 2014 32 , proporcionaram a afirmação do Porto como um destino turístico de excelência a nível internacional e, consequentemente, estimularam o incremento do número de turistas. Justamente com o intento de qualificar e melhorar a oferta turística do destino e de ajustá-la ao perfil dos turistas que visitam a cidade, o Departamento de Turismo da CMP aplicou, entre 2010 e 2014, inquéritos nos Postos de Turismo da Câmara Municipal do Porto que permitiram o delineamento de um perfil e comportamento dos turistas que se deslocam ao Porto. Na sua grande maioria do género feminino e com idades situadas acima dos 30 anos, os turistas que visitam a cidade do Porto deslocam-se, sobretudo, em lazer/férias, e permanecem em média 2 a 3 dias nos estabelecimentos hoteleiros de 4 * ou em hostels (Departamento de Turismo da CMP, 2014a:4). Atribuem também relevância às visitas de fim-de-semana e à visita a familiares e amigos, e viajam, principalmente, acompanhados por outro elemento, de avião, em companhias low cost (Departamento de Turismo da CMP, 2014a:4). Durante a sua permanência no destino, optam pela visita ao centro histórico, pelo usufruto da gastronomia, pela visita à Caves do Vinho do Porto e aos Museus e consideram como principais atrativos da cidade o selo de Património Mundial, o Vinho do Porto, os Museus e o Património. No que diz respeito aos ícones da cidade, a escolha dos turistas inquiridos recaí no Vinho do Porto, na Ponte Luís I, na Ribeira e na Sé Catedral (Departamento de Turismo da CMP, 2014a:4). Pela leitura dos principais atrativos identificados pelos turistas na visita Porto, assim como das suas preferências neste destino português, afere-se que o turista que se desloca à cidade possui motivações culturais, cujos interesses compreendem a História, a Cultura, o Património, a Gastronomia e os Vinhos. Enquadrando-se no perfil descrito, o turista de nacionalidade brasileira, nas suas viagens a Portugal, também concentra os seus interesses na pretensão de contacto com a História, a Cultura, a Gastronomia, os Vinhos, o Património, e, cada vez mais, no caso específico do território português, na procura pelas suas raízes 33 . 32 Santos, L.J. (2014). Porto eleito melhor destino europeu do ano [em linha]. Público. [Consultado a 15 de Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.publico.pt/local/noticia/porto-eleito-melhor-destino-europeu-doano-1623555>. 33 Diário de Notícias (2015). Turistas brasileiros procuram as suas raízes em Portugal [em linha]. Diário de Notícias. [Consultado a 12 de Junho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=4618874&page=-1>. 105 «O turismo do Brasil tem um grande potencial de crescimento para a nossa região. É fundamentalmente um turismo cultural, muito ligado ao vinho e o vinho representa a nossa cultura» 34 . Tendo em vista o incremento da atratividade dos destinos portugueses, o Plano Estratégico Nacional do Turismo (2012) preconiza o desenvolvimento de ofertas, como rotas e itinerários assentes no património histórico-cultural, natural e religioso e baseados em temas da história portuguesa – «Portugal dispõe de um vasto património histórico, cultural, religioso, natural e paisagístico que potencia a oferta, pelo que se entende fundamental o desenvolvimento de itinerários experienciais (…)», nomeadamente «baseados em temas âncora da identidade portuguesa e dos fatores distintivos (naturais e culturais) que caraterizam o país (…)» (PENT, 2012:63). Assim, entende-se que a nível das estadias de curta duração, em Lisboa e no Porto, o aumento da atratividade desses destinos passe por iniciativas culturais e eventos, infraestruturas de lazer e culturais e por itinerários temáticos (PENT, 2012:64). Atendendo à crescente expressão do mercado brasileiro no Norte de Portugal, às raízes familiares que unem muitos brasileiros ao país, ao interesse e curiosidade que demonstram pela História entre Portugal e o Brasil – patente na análise dos resultados da aplicação do inquérito por questionário – e à vasta quantidade de elementos patrimoniais na cidade relacionados, direta e indiretamente, com o país sul-americano, o desenvolvimento de novas experiências turísticas através da conceção de um produto centrado no património portuense passível de ligação ao Brasil, pode constituir uma opção diferenciadora a nível da oferta turística. A abordagem, inevitável, ao papel preponderante do Porto no “achamento” do Brasil e no, posterior, processo de colonização e povoamento do país, assim como aos maciços fluxos migratórios das gentes do Norte de Portugal para o Brasil, entre a 2ª metade do século XIX e inícios da centúria seguinte, possibilita a “aproximação” do turista brasileiro às suas origens históricas e apela à nostalgia dos que possuem raízes familiares ao país e, concretamente, à região do norte. 34 RTP (2015). Museu do Douro expõe no Brasil “o mais belo” do Património Mundial [em linha]. Rtp Notícias. [Consultado a 12 de Junho de 2015]. Disponível na internet: URL: <http://www.rtp.pt/noticias/cultura/museu-dodouro-expoe-no-brasil-o-mais-belo-do-patrimonio-mundial_n835866>. 112 para esclarecimentos e informações aos turistas na grande maioria dos monumentos;  Alguns dos pontos de interesse dos itinerários constituem os locais e monumentos mais visitados da cidade: Palácio da Bolsa, Igreja de São Francisco, Ribeira, Igreja e Torre dos Clérigos, entre outros. Respostas: Respostas:  Mais do que se expor, de forma teórica, a ligação existente entre o Porto e o Brasil, pretende-se “aproximar” o turista brasileiro à cidade através da promoção do passado e da memória;  Devem ser criadas parcerias com empresas, como, por exemplo, o Tuk Tuk e o Riquitó, cujos veículos de pequenas dimensões possibilitam segurança e conforto aos seus clientes, ao mesmo tempo, que transitam pelas ruas estreitas da área antiga da cidade;  Elaboração de atividades culturais em redor dos monumentos e locais (exemplo: recriações históricas);  De forma a simplificar a prática dos percursos, existe uma vasta gama de serviços complementares (transportes, estabelecimentos de restauração, como restaurantes e cafés);  A par da função pedagógica e social dos roteiros, visa-se proporcionar uma experiência lúdica;  Planeamento de obras de restauração a edifícios e ruas localizadas na zona histórica da cidade.  Inserção dos itinerários em roteiros internacionais, de forma a impulsionar a criações de percursos noutras cidades portuguesas e, porventura, de uma rota transatlântica entre Portugal e o Brasil. Oportunidades Ameaças  Dimensão e forte potencial do mercado;  Recente crise política no Brasil e instabilidade cambial;  Crescente interesse dos brasileiros pelo continente europeu, com Portugal a constituir, atualmente, o 2º país da Europa mais visitado pelo mercado brasileiro;  Concorrência dos destinos europeus de maior popularidade a nível internacional (França, Espanha, Itália, Reino Unido) e do mercado norte-americano e argentino;  Portugal é encarado, pelos brasileiros, como a “porta de entrada” para o continente europeu;  Existência de uma única companhia aérea com voos regulares e diretos do Brasil para Portugal – a TAP;  Inserção do Porto nos destinos europeus preferenciais dos turistas brasileiros, através do reforço da imagem da cidade no mercado brasileiro;  Presença de escassos operadores de turismo portugueses no mercado brasileiro (Lusanova, Abreu, Lusotur)  Crescimento dos fluxos do Brasil para o Norte de Portugal e do segmento city break, desencadeia uma consequente necessidade de alargamento da oferta cultural existente;  Concentração ainda notória da procura em Lisboa.  Existência de uma vasta oferta complementar, como estabelecimentos hoteleiros, sistema de transportes, cafés/restaurantes de gastronomia tipicamente brasileira e outros monumentos;  A TAP constitui a companhia aérea mais utilizada pelos brasileiros nas deslocações à Europa;  Propagação e contínuo aparecimento de tecnologias de informação e comunicação. Respostas: Respostas:  Criação de parcerias e acordos de promoção  Os acordos e as parcerias desenvolvias, nos 113 com operadores turísticos brasileiros e portugueses que atuam no Brasil; últimos anos, pelo Turismo de Portugal junto dos operadores brasileiros, devem ser aproveitados no sentido de desenvolver uma maior divulgação de outros destinos portugueses, como o Porto;  Cooperação entre distintas entidades e instituições associadas ao turismo (Departamento de Turismo da C.M.P e o Turismo do Porto e Norte de Portugal) e à proteção, conservação e gestão do património;  Dado que ainda a maior parte dos operadores turísticos vendem Portugal como um destino opcional, ou promovem-no juntamente com a Espanha, outra linha de ação passa pela criação de pacotes concentrados em exclusivo no país e nas suas qualidades e atributos. Exemplo desta aposta é a Shultz que elaborou um catálogo concentrado, exclusivamente, em Portugal.  Sistema de transporte aéreo para Portugal já consolidado no mercado brasileiro, sendo que a importância e influência da TAP no mercado, propicia o estabelecimento parcerias;  Criação de uma aplicação para tablet e smartphone que descreva pormenorizadamente os itinerários e as curiosidades históricas por detrás de cada percurso. Fonte: Elaboração própria Centrando-se, agora, na questão da viabilidade do produto em análise, relembra-se que, quando questionados sobre a possibilidade de, no futuro, existir um itinerário histórico-cultural representativo da ligação entre o Porto e o Brasil, a esmagadora maioria dos turistas brasileiros inquiridos demonstrou interesse na frequência do percurso. Se, atentarmos à evolução do marketing e à sua aplicação à indústria do turismo, verificamos que, atualmente, sobressai uma crescente necessidade de conceber uma oferta adaptada às novas preferências e aos desejos cada vez mais exigentes dos consumidores (Madeira, 2010:17). Tendo em linha de conta este desígnio fundamental, tenta-se fornecer uma nova abordagem a um dos principais mercados de crescimento para Portugal – o Brasil –, preconizada, aliás, pelo próprio Plano Nacional Estratégico do Turismo que, ao frisar a sua relevância no quadro do turismo nacional, alerta para a necessidade da execução de uma estratégia assente numa abordagem específica para este mercado (PENT, 2011:10). Conforme apontam Ferreira et.al. (2012:118), a realização de itinerários culturais sob uma forma temática, contribui para o desenvolvimento do destino e acrescenta a possibilidade do turista encontrar diversas motivações culturais ao longo do percurso. Assim, a criação de um itinerário temático, além de fornecer algo único e de contribuir para o alargamento dos conhecimentos culturais do visitante, funciona como um elemento de atração de turistas e desenvolve o destino através da dinamização de várias esferas da cidade – no âmbito social, económico e cultural (Ferreira et.al, 2012:118-119). Por outro lado, ao valorizar-se o património tangível e intangível, constitui-se uma oferta do destino assente em produtos de caráter 114 inovador, capazes de potenciar uma maior competitividade e atratividade ao destino (Ferreira et.al., 2012:124). 3.3.3. Definição e descrição dos itinerários Antes da passagem para a definição e descrição dos itinerários integrantes dos roteiros, revela-se pertinente efetuar, primeiramente, uma distinção entre os conceitos de rotas, itinerários, circuitos e roteiros turísticos, dado que, por vezes, existe uma aplicação errada destes termos. De acordo com Maia e Baptista (2011:673), as rotas constituem, na vertente de Turismo Cultural, as práticas turísticas de maior procura pois possibilitam, ao turista, o contacto com temáticas de interesse e, paralelamente, o acesso a outros lugares e atrações. No cerne do processo de criação de rotas turísticas encontra-se o roteiro que funciona como uma base de dados: «o Roteiro é o repositório que, com a função de base de dados aloja, processa e disponibiliza as informações necessárias à criação de Rotas» (Figueira, 2010:52). Nesta perspetiva também Reis (2011:167) refere que o roteiro constitui, efetivamente, a descrição por escrito de um itinerário que, por sua vez, deve ser reproduzido a partir desse mesmo roteiro. Entende-se por Itinerário, a «descrição de um caminho especificando os lugares de passagem e propondo uma série de atividades e serviços durante a sua duração» (Turismo do Porto e Norte, 2012:5), ou seja, é um percurso que une pontos de interesse turístico – “circuitos” – (Figueira, 2010:83-85) e que se encontra, muitas vezes, subordinado a um tema específico. A par disso, carateriza-se, segundo Figueira (2010:83-84), por ser uma componente estruturante da Rota e que, apesar de apresentar um percurso menor, mantém a temática subjacente à rota que integra, podendo-se incluir «diferentes itinerários dentro da mesma rota» (Reis, 2011:166). Todavia, os itinerários também podem funcionar de forma autónoma, sem se encontrarem associados a uma Rota (Figueira, 2010:85). Em sentido restrito, o termo “rota” é um sinónimo de itinerário, um percurso dirigido em que os pontos de saída e chegada não são coincidentes. Além da Rota estar «sujeita a um tema ou a uma delimitação geográfica» (Turismo do Porto e Norte, 2012:6), é um termo utilizado preferencialmente para fins institucionais e promocionais. Os itinerários propostos situam-se na cidade do Porto e seguem uma linha cronológica que, ao acompanhar paralelamente o desenvolvimento do espaço urbano da cidade, descrevem as relações estabelecidas com o Brasil desde o preciso momento do seu “achamento”. Iniciando- 115 se no século XV, no período antecedente à descoberta do território brasileiro, e terminando no século XX, já na presença das marcas físicas deixadas pelos “brasileiros de torna-viagem”, o turista toma conhecimento do lugar privilegiado ocupado pelo Brasil no panorama portuense. Ao longo desta narrativa, transita-se de um Porto voltado para o rio Douro para uma cidade que, nos finais do século XIX e inícios da centúria seguinte, sofreria variadas intervenções que moldaram parte do tecido urbano da cidade. Dada a quantidade de elementos existentes na cidade intimamente relacionados com o Brasil, seja de forma direta ou indireta – baseada nos locais por onde passaram, permaneceram figuras portuguesas e/ou, concretamente, portuenses de relevância histórica no Brasil, ou simples brasileiros, emigrantes portugueses que, após o seu retorno do país sul-americano, se destacariam no desenvolvimento da cidade do Porto – propõe-se quatro itinerários denominados: “Do “achamento” do Brasil ao Mártir e Percursor da Independência brasileira”, “O Porto através de D. Pedro IV (I do Brasil) e D. Pedro II, Imperador do Brasil”, “Os brasileiros de “torna-viagem” e a cidade do Porto” e “Os cafés portuenses de ligação ao Brasil”. Ressalva-se que, embora a estrutura dos itinerários siga uma temática central, a ligação histórico-cultural do Porto ao Brasil, teve-se em linha de conta, na sua execução, os interesses e preferências dos turistas brasileiros nos destinos europeus – o Património natural e edificado, a Cultura, a História, a Gastronomia e os Vinhos. Além disso, considerando-se os resultados da aplicação do inquérito por questionário, resolveu-se incluir os monumentos portuenses mais atrativos para os visitantes brasileiros. Assim, a passagem por outros pontos relevantes da cidade acrescenta valor à experiência turística e possibilita o contacto do turista com lugares de beleza paisagística ímpar, bem como com elementos patrimoniais de avultado valor. 3.3.3.1. “Do “achamento” do Brasil ao Mártir e Percursor da Independência brasileira” (séculos XV a XVIII) 41 O 1º percurso parte dos finais do século XV, numa cidade do Porto limitada pelas muralhas fernandinas que incluíam «os morros da Sé e da Vitória» e «extramuros», o arrabalde de Miragaia, e que se caraterizava por estreitas ruelas que se estendiam até ao rio Douro (Basto, 1946:11). O início do trajeto na Casa do Infante (o Almazém de el-rei) prende-se com a sua importância a partir do século XIV, à qual frequentemente se associa o nascimento do Infante D. Henrique – responsável por lançar, a partir da Barra do Douro, Portugal nos Descobrimentos 41 Ver Anexo XIII para a visualização do roteiro. Posteriormente, no Anexo XIV, encontra-se a descrição dos locais e monumentos integrantes desta primeira proposta. 116 Referências geográficas: ACasa do Infante D – Igreja de São Pedro de Miragaia BRibeira E – Local de nascimento de Tomás António Gonzaga CIgreja de S. Francisco F – Antigos Armazéns do Cais Novo e na expansão ultramarina (Basto, 1946:14; Cardoso, 2006:184) – mas também por representar o local em que o célebre autor da carta do “achamento do Brasil”, Pêro Vaz de Caminha desempenhou a função de «mestre da balança da moeda» (Basto, 1946:3). Ao longo do percurso avança-se no tempo, passando-se de um Porto centrado na construção naval nos areais de Miragaia (Cardoso, 2006:184) para uma cidade que, no decurso de setecentos, se desenvolvia “fora de muros” através do comércio do vinho do Porto com o Brasil e da crescente industrialização (Oliveira, 2007:282; Barros, 2010:48). Depois da passagem pela Rua de Miragaia, finaliza-se o percurso, nos finais do século XVIII, em plena margem do Douro, nomeadamente nos Antigos Armazéns do Cais Novo, atual Museu do Vinho do Porto. Figura 5 – Mapa do 1º percurso Fonte: Elaboração própria, a partir do programa ArcGis (https://www.arcgis.com/home) Figura 6 – Legenda do 1º percurso: monumentos e locais Fonte: Elaboração própria 117 3.3.3.2. “O Porto através de D. Pedro IV (I do Brasil) e D. Pedro II, Imperador do Brasil” (século XIX) 42 O 2º percurso proposto inicia-se no século XIX, numa cidade do Porto em brusca expansão, mais moderna, mais ampla, fruto de uma notável renovação urbanística e arquitetónica iniciada na 2ª metade do século XVIII sob o impulso dos Almadas e que coincide, como se constatará, com os locais de fixação de D. Pedro IV e Pedro II, Imperador do Brasil na cidade (Oliveira, 2007:265; Barros, 2010:105). Porém, realça-se a inclusão, neste itinerário, de um edifício fora do presente contexto temático, mas com uma ligação particular ao Brasil. Na Rua de D. Manuel II, antiga Rua dos Quartéis, parte-se do Palácio dos Carrancas, edificado em 1795, em plena fase de crescimento urbanístico da cidade – e que serviria de quartel-general a D. Pedro IV (I do Brasil), no início do Cerco do Porto. Nesta linha do tempo, já na Rua de Santa Catarina, cujo prolongamento urbanístico possibilitou o desenvolvimento, a partir da 2ª metade do século XIX, desta artéria (Freitas, 1999:98), avista-se o Grande Hotel do Porto, de avultada importância para Pedro II, na reta final da sua vida, e convida-se o visitante a terminar este segundo périplo na Igreja de Nossa Senhora da Lapa que alberga uma valiosa doação de D. Pedro IV. Figura 7 - Mapa do 2º percurso Fonte: Elaboração própria, a partir do programa ArcGis (https://www.arcgis.com/home) 42 Ver Anexo XIII para a visualização do roteiro. Posteriormente, no Anexo XIV, encontra-se a descrição dos locais e monumentos integrantes desta segunda proposta. 118 Referências geográficas: APalácio dos Carrancas EGrande Hotel do Porto BAntigo Hotel do Louvre FIgreja da Lapa CAntigo local do Colégio dos Meninos Órfãos (Atual Reitoria da U.P) DEstátua equestre de D. Pedro IV Duração do percurso: Figura 8 – Legenda do 2º percurso: monumentos e locais Fonte: Elaboração própria 3.3.3.3. “Cafés portuenses de ligação ao Brasil” 43 O presente percurso, embora se desenvolva em torno de uma temática central – a ligação simbólica de alguns cafés históricos portuenses ao Brasil –, engloba outros locais e monumentos próximos que, por conseguinte, foram considerados pelos turistas brasileiros inquiridos dos mais atrativos na cidade do Porto: a Igreja e Torre dos Clérigos, a Avenida dos Aliados e a Estação de S. Bento. Na segunda metade do século XIX, à semelhança de outras cidades europeias influenciadas pelo progresso industrial, operou-se, no centro urbano do Porto, uma transformação que se repercutiu no aparecimento de uma vasta rede de infraestruturas (caminhos-de-ferro, novos arruamentos, estradas e avenidas) e na afirmação do comércio de caráter fixo (Fernandes, 2005:7). Além do progresso económico, surgiu uma «nova mentalidade burguesa» que criou novos costumes, novos hábitos e que incutiu, nos portuenses, o gosto pelo convívio (Peixoto, 2013:33-34), desempenhado os cafés verdadeiros locais de sociabilidade, de proliferação de ideais políticos e de formação de correntes artísticas e literárias (Mendes, 2012:72). Figura 9 – Mapa do 3º percurso 43 Ver Anexo XIII para a visualização do roteiro. Posteriormente, no Anexo XIV, encontra-se a descrição dos locais e monumentos integrantes desta terceira proposta. 119 Referências geográficas: AIgreja e Torre dos Clérigos E – Café Brasil BCafé Guarany F – Estação de São Bento CAvenida dos Aliados DCafé “A Brasileira” Duração do percurso: Fonte: Elaboração própria, a partir do programa ArcGis (https://www.arcgis.com/home) Figura 10 - Legenda do 3º percurso: monumentos e locais Fonte: Elaboração própria 3.3.3.4. “Os brasileiros de “torna-viagem” e a cidade do Porto” (séculos XIX e XX) 44 O último percurso, divido em duas partes, aborda as “marcas” físicas deixadas, na cidade do Porto, pelos brasileiros de “torna-viagem”. Novamente, contempla-se, no seu final, um monumento, exterior ao presente contexto temático, mas enaltecedor da ligação lusobrasileira, assim como outro local, considerado o 2º mais atrativo para o turista brasileiro: as Caves do Vinho do Porto. Formando uma parte fundamental da história da emigração portuguesa, entre o século XIX e a primeira metade do século XX, muitos emigrantes portugueses retornariam a Portugal, sendo apelidados de «brasileiros de torna-viagem», ou simplesmente, em Portugal, de brasileiros (Machado, 2005:47). Alguns, após alcançarem sucesso e amealhado vasta fortuna no outro lado do Atlântico, no Brasil, destacar-se-iam, no retorno ao Porto, pelos fortes investimentos e pelas modificações efetuadas no tecido urbano e social da cidade (Peixoto, 2013: 30). Com efeito, parte-se de Vila Nova de Gaia, concretamente das Caves do Vinho do Porto, da outra margem do Douro, finalizando-se o percurso, na zona ocidental do Porto, na Praça de Gonçalves Zarco, na presença do monumento escultórico de D. João VI. 44 Ver Anexo XIII para a visualização do roteiro. Posteriormente, no Anexo XIV, encontra-se a descrição dos locais e monumentos integrantes desta quarta proposta. 120 Referências geográficas: ACaves do Vinho do Porto BPalácio da Bolsa CBreve paragem em frente ao Instituto dos Vinhos do Douro e Porto DSanta Casa da Misericórdia Duração do percurso: Referências geográficas: EPalacete de Silva Monteiro (sede da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes) F – Jardins do Palácio de Cristal G – Estátua equestre de D. João VI Figura 11 – Mapa da 1ª parte do 4º percurso Fonte: Elaboração própria, a partir do programa ArcGis (https://www.arcgis.com/home) Figura 12 – Legenda da 1º parte do 4º percurso: monumentos e locais Fonte: Elaboração própria Figura 13 – Mapas da 2ª parte do 4º percurso Fonte: Elaboração própria, a partir do programa ArcGis (https://www.arcgis.com/home) Figura 14 – Legenda da 2ª parte do 4º percurso: monumentos e locais 121 3.4. Política Operacional de Marketing (Marketing Mix) Perante uma economia globalizada, o turismo necessita de atender a novas necessidades, desejos e, de forma a compreender a mente dos consumidores, o marketing revela-se importante para descobrir-se com eficácia e eficiência o que os clientes valorizam. Mediante um equilíbrio dos elementos que compõem o marketing – produto, preço, distribuição e promoção –, o mercado pode satisfazer os consumidores, fornecendo respostas às suas expetativas iniciais (Lopes, 2011:16). 3.4.1. Política de produto A estratégia de formulação e apresentação de um produto turístico envolve distintos fatores, como a qualidade, o serviço, a marca e a abrangência e que, no seu todo, são elementos determinantes a nível da satisfação dos clientes (Lopes, 2011:17). Neste caso, a política do produto apresentado passa pela valorização do seu conjunto de atributos, de avultado valor histórico-cultural, e que se distingue pela sua conceção da restante oferta do mercado. Igualmente o enaltecimento da história comum entre o Porto e o Brasil pretende ir ao encontro de um público-alvo – os turistas brasileiros de interesse especial –, assim como ao sector turístico portuense que se alicerça cada vez mais no segmento do turismo cultural. Pretende-se demonstrar que a cidade do Porto possui uma herança cultural propicia à implementação e comercialização de novas ofertas turísticas, sendo que outros dos passos inerentes é o estabelecimento de uma marca que identifique e distinga o produto da restante concorrência e que seja associada à imagem do destino. Assim, a designação da marca é “Porto brasileiro”. 3.4.2. Políticas de preço e distribuição As rotas podem e devem levar ao estabelecimento de parcerias entre os diferentes agentes locais subordinados ao mesmo fim, onde devem prevalecer os mecanismos de solidariedade (Cravidão, 2011:40) Na grande maioria dos casos, a política de preços definida depende diretamente do desempenho do produto turístico no mercado, ou seja, dos níveis de procura registados. Não obstante, o estabelecimento inicial de um preço certo revela-se uma componente crucial para a obtenção de lucro, para o volume de negócios e para fazer frente à concorrência do mercado 128 Referências bibliográficas Acosta, E. Z. (2011). Sobre património y desarrollo. Aproximación al concepto de património cultural y su utilizácion en procesos de desarrollo territorial. Pasos Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, 9 (1), 101-113. [Consultado em Julho de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.pasosonline.org/Publicados/9111/PS0111_09.pdf>. Afonso, P. (2015). 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Concretamente, na visita à Europa, verifica-se a primazia de turistas brasileiros provenientes das classes mais instruídas Estados de proveniência Predominância de turistas vindos da Região Sudeste do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais Forma de organização da viagem para o exterior Métodos de reserva mais frequentemente utilizados são o telefone/fax (58%) e as agências de viagens (26%) Aproximadamente 38% das viagens para o exterior são planificadas com o auxílio das agências de viagens 58,1% recorreu a reservas prévias nas agências e viagens, no entanto 41,9% dos turistas não efetuaram reserva Apesar de ainda se deslocarem às agências de viagens tradicionais, as vendas online são um recurso cada vez mais utilizado pelos turistas brasileiros Tipo de alojamento Estabelecimentos hoteleiros mais económicos (hotéis de 3*) são escolhidos por 48% dos turistas, já a preferência por hotéis de 4/5* abrange 16% 66% permaneceu em unidades hoteleiras, sendo que 35% preferiu a estada em hotéis económicos e 20% em estabelecimentos de primeira classe A hotelaria foi escolhida por 64,2%, seguindose a casa de familiares/amigos (19,8%) Os estabelecimentos hoteleiros, em 2012, constituíram o tipo de alojamento preferencial Com quem viajam Em casal (43%) ou sozinhos (32%) Geralmente acompanhados ou sozinhos, raramente deslocam-se em grupos 29,8% viajou acompanhado pelo cônjuge e 24,3% sozinhos Nas viagens de lazer, 42% sozinhos; 23% pelo cônjuge e 15% em família Motivação da visita Lazer (55%) Lazer (54%) Lazer (61,1%) Lazer (70,1%) Negócios (30%) Negócios (24%) Negócios (18,8%) 258 Fonte: Elaboração própria, baseada nos estudos do Turismo de Portugal (2013a); ETC (2000; 2009; 2013) e ETOA (2013) Visita a familiares e amigos (15%) VFA (22%) VFA (14,8%) Negócios (29,9%) Motivação em lazer Cultura e História (74%) Diversidade de destinos europeus (10%) Procura pelas raízes (8%) Na Europa: - Visita a familiares e amigos; - Busca pelas raízes; - Cultura; -Experiências religiosas; -Descanso; -Gastronomia Estada média nos destinos A estada média situou-se nos 15 dias (53%), uma vez que os brasileiros realizam, por norma, uma passagem por vários países europeus Em torno dos 15 dias, com uma permanência, por vezes, inferior a 3 noites por destino Em 50,8% dos casos entre 4 a 14 dias e 21,4% opta por permanecer mais de 15 dias nos destinos internacionais Permanência média em torno dos 15 dias (14,7) Época de maior concentração de viagens para o exterior Para a Europa, em 2000, concentraram-se, maioritariamente, entre Abril e Junho (72%) e Julho e Setembro (48%) No ano de 2008, os meses de maior concentração de turistas brasileiros, na Europa, foram entre Dezembro e Fevereiro e a meio do ano (Junho, Julho) Preferência dos brasileiros por férias durante os meses mais quentes do ano, no Brasil, ou seja, Janeiro, Fevereiro, Março, Novembro e Dezembro. Viagens de longa distância para o exterior ocorreram, principalmente, entre Janeiro e Julho 259 Anexo XI O perfil do turista brasileiro em Portugal 260 Parâmetros: 2011 2011 (cidade de Évora) 2013 2014 (época de Verão) Género 68,42% do sexo masculino e 31,58% do sexo feminino 60% dos turistas eram mulheres e 37% homens Faixas etárias Faixas etárias entre os 26 e 40 anos (53,3% dos turistas) e entre 41 e 60 anos (21,3%). No Verão, compreendiam os 55 e mais anos Habilitações académicas 69,8% possuía habilitações ao nível do Ensino Superior 44,0% detinha Licenciatura/Bacharelato Estados provenientes Pernambuco, Minas Gerais e São Paulo Forma de organização da viagem para o exterior Em 2011, 75% dos turistas não efetuou reservas através dos O.T e das agências de viagens 33% dos turistas afirmou ter recorrido a agências de viagens e 32% a serviços existentes na internet Tipo de alojamento 86,8% dos brasileiros optou pela hotelaria tradicional. Realça-se a estada em hotéis de 4* Com quem viajam No Verão de 2011, deslocaram-se acompanhados maioritariamente por outros adultos Acompanhados pela família (43,5% dos turistas) e 34,8% pelo (a) companheiro (a) 49,3 % dos turistas viajou com a família. Na época de Verão, acompanhados por outros adultos Motivação da visita Lazer (84,8%) Lazer Lazer (57,3%) Lazer Visita a familiares e amigos (8,0%) VFA (16,0%) Negócios (6,2%) Estudo (10,7%) Motivação em lazer -Contactar e usufruir de novas experiências culturais; -Património edificado e - Património histórico; -Museus 261 Fonte: Elaboração própria, a partir dos estudos desenvolvidos pelo Turismo de Portugal (2011 a 2014); Serra et.al. (2012) e Melo (2013). monumental; -Gastronomia e vinhos Fatores impulsionadores para a escolha de Portugal 66% afirmou ter escolhido Portugal devido às recomendações de amigos e familiares 65,2 % revelou que a categorização de Évora como “Património Mundial” influenciou a seleção do destino No Verão, grande parte dos turistas brasileiros sublinha a importância dos amigos e familiares na decisão de viagem As sugestões de amigos e familiares é sublinhada pelos turistas de nacionalidade brasileira Estada média nos destinos 2011 Permaneceram entre 1 a 2 noites na cidade 79% dos turistas brasileiros Permanência média de 14 noites em Portugal na época de verão e no Inverno de 8 a 13 noites No Verão, os brasileiros permaneceram em média 14, 6 noites em Portugal. 2012 Em 2012, em torno dos 2,3 dias por destino português. Preferência pela época média – Abril, Maio, Junho e Outubro (40,3%). Destinos portugueses + visitados 2011 e 2012 Lisboa na liderança, seguido o Norte do país e o Centro. No Verão e Inverno, Lisboa continua a dominar, no entanto o Porto regista subidas contínuas nas escolhas dos turistas Maioritariamente para Lisboa, seguido o Norte e o Centro 262 Anexo XII Número anual de visitantes brasileiros no Mosteiro da Serra do Pilar, entre 2013 e os primeiros sete meses de 2015 263 Meses Anos 2013 2014 2015 Janeiro 98 146 168 Fevereiro 40 79 162 Março 80 85 93 Abril 102 155 142 Maio 123 184 177 Junho 72 115 122 Julho 146 210 134 Agosto 120 141 Setembro 206 174 Outubro 191 197 Novembro 90 94 Dezembro 89 118 Total 1357 1698 998 Fonte: Dados fornecidos pela Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN) 264 Anexo XIII Roteiros histórico-culturais representativos da ligação entre o Porto e o Brasil 265 Roteiro – “Do “achamento” do Brasil ao Mártir e Percursor da Independência brasileira” (séculos XV a XVIII) Casa do Infante Preço de acesso nos dias úteis – 2.20 euros (bilhete geral). Gratuito a adultos com idades superiores a 65 anos, a estudantes e crianças até aos 14 anos e a portadores do “PortoCard” Ao fim-de-semana é gratuito. Descida pela Rua da Alfândega em direção à zona ribeirinha. Breve paragem e possibilidade de contemplação da Ponte Luís I. Zona Ribeirinha Subida pela Rua da Reboleira para a visita ao templo de S. Francisco. Igreja de S. Francisco Preço de acesso: 3.50 euros. Com PortoCard beneficia de desconto: 2.50 euros. Estudantes pagam 3 euros e crianças até aos 10 anos têm entrada grátis. Seguir para poente pela Rua Nova da Alfândega em direção a Miragaia. Após a descida das escadas que dão acesso à Rua de Miragaia, efetua-se uma viragem à direita, no Largo de São Pedro de Miragaia. Igreja de São Pedro de Miragaia Acesso gratuito Nota: A visita de manhã só pode ser realizada ao domingo. De Terça a Sexta, a igreja apenas abre entre as 15:30 e as 19:00h. Segunda encontra-se encerrada. Retroceder caminho até encontrar, novamente, a Rua de Miragaia, a escassos metros. Vire à direita e efetue paragem, em frente à casa nº 104/105, mesmo ao lado do Museu Local de nascimento de Tomás António Gonzaga (Rua de Miragaia, casa nº104/105) Nota: Impossibilidade de acesso ao interior do local, dado que, atualmente, se encontra habitado. Museu do Vinho do Porto (Antigos Armazéns do Cais Novo) Preço de acesso: aplicam-se, praticamente, as mesmas condições de entrada da Casa do infante. Apenas ao fim-desemana não é gratuito, ao contrário da Casa do Infante. Retornando à Rua Nova da Alfândega, continue para poente até alcançar a Rua de Monchique e, o último local de visita, o Museu do Vinho do Porto. 272 Réplica do manuscrito de Caminha Neste espaço, existem distintos corredores ligados ao Brasil, realçando-se a reprodução do célebre manuscrito de Pêro Vaz de Caminha – a carta do «achamento» da Terra de Vera Cruz – e uma cópia de grandes dimensões do primeiro Atlas do Brasil – Rezão de Estado do Brasil no governo do Norte somete asi como o teve dõ Diogo de Menseses até o anno de 1612 – 67 , cujo apógrafo do original perdido pode ser encontrado na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Reprodução do Atlas do Brasil de 1612 Fonte: Tânia Sousa, 2015 Além disso, existe uma breve abordagem à ligação do Brasil ao Porto, dando a conhecer pormenores da vida de Pêro Vaz de Caminha e o trágico massacre do mártir portuense, o padre Inácio de Azevedo. Zona Ribeirinha Nas proximidades da Rua Nova e da Rua da Alfândega, então importantes artérias portuenses, situava-se a Ribeira, local onde se concentravam pequenos barcos dedicados à pesca e grandes navios de comércio para o exterior (Barros, 1997:174). Das cidades do Reino, no século XV, o Porto constituía a segunda maior urbe do país, tendo-se desenvolvido, desde cedo, no estuário do Douro, atividades comerciais, não só com outros portos do Reino, mas igualmente com o exterior (Basto, 1946:12; Cardoso, 2006:183-184). Com o intenso movimento 67 Carvalho, P. (2015). Casa do Infante no Porto inaugura “corredor complexo” sobre o Navegador [em linha]. Público. [Consultado a 12 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.publico.pt/local/noticia/casa-do-infante-no-porto-inaugura-corredor-complexo-sobre-o-navegador-e-osdescobrimentos-1690563>. Fonte: Tânia Sousa, 2015 273 comercial marítimo, construir-se-ia o Cais da Ribeira, no ano de 1449, no entanto outros locais seriam igualmente importantes para a paragem e carregamentos dos navios – o «Postigo das Tábuas, Postigo do Pereira, Postigo da Arrecadação (…) e porto da cidade, no arrabalde de Miragaia» (Barros, 1997:175). Dada a privilegiada posição geográfica da cidade e a prosperidade da sua indústria naval, seria no Porto que se construiria a armada comandada pelo Infante D. Henrique que, em 1415, ao sair da Barra do Douro, lançaria Portugal nas descobertas e na expansão ultramarina (Basto, 1946:14; Cardoso, 2006:184). Depois do “achamento do Brasil”, as Terras de Santa Cruz captariam os interesses de um amplo número de cidadãos portuenses, e já em 1530, nos inícios do processo de colonização, a armada de Martim Afonso de Sousa, transportaria consigo famílias portuenses – «homens, mulheres e crianças» – para povoarem a Capitania de S. Vicente (Basto, 1946:18).Com efeito, desde o século XVI, o pendor marítimo da cidade, além de ter proporcionado a partida, do seu cais, de «grande parte dos homens e das mulheres que povoaram os novos e vastos espaços» (Cardoso, 2006:184), estimulou um comércio ativo com a colónia, que, em finais do século XVI, representava cerca de 25% a 35% dos lucros da Alfândega do Porto (Silva, 2000:136). Zona ribeirinha do Porto Uma relação comercial que se fortaleceu nas seguintes centúrias, ocupando o Brasil um lugar primordial no desenvolvimento económico do burgo portuense, não só através da importação do açúcar, do «pau-Brasil (…), madeiras, o tabaco e os couros», mas também da exportação de vinhos do Porto para o Brasil (Cardoso, 2006:185). Em pleno século XIX, o Porto continuaria a reconhecer nas terras de Santa Cruz um importante polo da sua atividade comercial, compreendendo, pelo menos, mais de 20% das suas exportações e continuando também a constituir o mercado principal para a compra de «algodão em rama», produtos colonias (açúcar, cacau e café), madeiras e espólios de animais (Alves, 1994:71). Fonte: Tânia Sousa, 2015 Igreja de S. Francisco Situada em pleno centro histórico da cidade do Porto, a Igreja do Convento de S. Francisco constitui um exemplar único do «gótico médio português» (Rosas, 2009:144), datada dos inícios do século XIV. Na Época Moderna, a estrutura interior do templo sofreria uma vasta 274 atividade artística, construindo-se, no século XVIII, os retábulos de talha dourada existentes (Alves, 1993:366). De forma semelhante, o interior de muitas outras igrejas portuenses, seria enriquecido pela «talha de madeira brasileira», dourada devido à aplicação do ouro originário também da colónia portuguesa (Fernandes e Vasconcelos, 2002:232). Assim, a partir de 1700, no seguimento da descoberta o ouro brasileiro, passar-se-ia a empregar, de forma abundante, a técnica de talha dourada nas igrejas portuguesas, sendo exemplo disso a Igreja de São Francisco, no Porto (Botelho, 1998:14-16). Interior da Igreja de S. Francisco (Porto) Ao exibir uma deslumbrante talha dourada, a Igreja de S. Francisco inspirou a ornamentação de outro templo, em Salvador da Baía, nomeadamente a Igreja de São Francisco do convento de Salvador que possui um claustro ricamente preenchido por «talha dourada» e, no seu exterior, azulejos semelhantes aos que revestem alguns templos portuenses (Fernandes, 2002:7). Semelhança também anotada por outro autor que menciona que, no conjunto dos edifícios religiosos de Salvador, a Igreja e Convento de S. Francisco revela parecenças, no seu interior, à Igreja de S. Francisco, no Porto – «(…) o seu interior é inteiramente recoberto por deslumbrante talha dourada e pinturas, cuja inspiração é a Igreja de S. Francisco, no Porto» (Campello, 2001:40). Fonte: Tânia Sousa, 2015 No cerne destas similaridades, encontra-se a influência da Venerável Ordem de S. Francisco do Porto que, desde o século XVII, desempenhou um papel de relevo na vida religiosa e social das regiões integrantes do Império Português, como o Brasil. Na «América portuguesa», os franciscanos, em franca expansão nos finais do século XVII, estabeleceriam, assim, relações privilegiadas com Salvador e o Rio de Janeiro. Igreja de S. Pedro de Miragaia Formando uma das igrejas mais antigas da cidade do Porto, a atual Igreja de São Pedro de Miragaia é fruto da reedificação ocorrida em 1740, sobressaindo, no seu interior, os elementos de rococó e a talha dourada semelhante à Igreja de São Francisco e à Igreja de Santa 275 Clara 68 . Desde longa data que a comunidade marítima se concentrava, maioritariamente, no arrabalde de Miragaia, sendo que junto do templo funcionaria, nos séculos XV e XVI, a Confraria dos mareantes de S. Pedro de Miragaia, constituída por marinheiros, mesteres, mercadores, pilotos, mestres de navio, cordoeiros, calafates e carpinteiros (Barros, 1993:123; Barros, 1997:168-169). Na festa do Corpus Christi do Porto – festa maior da cidade e realizada desde o reinado de D. Afonso III – a confraria dos mareantes de S. Pedro de Miragaia seria a primeira associação do género a participar, em Portugal, na procissão em louvor do Santíssimo Sacramento (Barros, 1993:123). A participação pioneira dos devotos mareantes da Confraria de São Pedro no Corpo de Deus explica-se pela importância adquirida ao longo do século XV dos ofícios ligados ao mar, bem como pela ligação de muitos pilotos, mestres, marinheiros, mercadores aos ricos homens que controlavam a administração municipal (Barros, 1993:124). Por conseguinte, a procissão do Corpus Christi funcionava como um espelho social do burgo, dada a hierarquização e a distinção efetuada aos seus participantes, conferindo aos mercadores ligados ao Brasil um lugar de relevância entre os homens de negócios da cidade (Barros, 1993:126-127; Cardoso, 2006:184-185). Fachada da Igreja de S. Pedro de Miragaia Já em pleno século XVIII, passados quatro anos da sua reedificação, na Igreja de São Pedro de Miragaia seria batizado a 2 de Setembro de 1744, Tomás António Gonzaga (Basto, 1946:179). Ainda durante a mesma centúria, através dos livros de contas existentes no Arquivo Paroquial da Igreja de São Pedro de Miragaia, surge a referência a Pedro Nunes Simões, um negociante do Porto, pertencente à Confraria de S. Pedro de Miragaia, cuja atividade comercial se desenvolveu, maioritariamente, com o Brasil, destacando-se como um dos comerciantes do século XVIII com maior importância nas relações comerciais estabelecidas entre o Porto e o Brasil (Alves, 1994:53; Fontoura, 2010:17). Fonte: Tânia Sousa, 2015 68 Direção-Geral do Património Cultural. Igreja de São Pedro de Miragaia [em linha]. Património Cultural: DireçãoGeral do Património Cultural. [Consultado a 29 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ouem-vias-de-classificacao/geral/view/73009/>. 276 Local de nascimento de Tomás António Gonzaga Casa onde nasceu Tomás Gonzaga Na atual Rua de Miragaia, em tempos anteriores denominada de Rua dos Cobertos, nascia a 11 de Agosto de 1744, Tomás António Gonzaga, conhecido como o «percursor e mártir da independência brasileira» (Basto, 1946:178) pela sua implicação na “Conjuração Mineira” – a primeira tentativa de tornar o Brasil num Estado livre (Basto, 1946:181). Filho de João Bernardo Gonzaga (brasileiro) e de Thomazia Izabel Gonzaga, a certeza relativa à sua naturalidade surge no “Livro de Registos Paroquiais” de 1744 da Freguesia de S. Pedro de Miragaia, presente no Arquivo Distrital do Porto. Fonte: Tânia Sousa, 2015 Depois de passado a sua infância em Miragaia, partiria com o seu pai para o Brasil, fixando-se em Vila Rica (Minas Gerais), onde sacrificaria a sua vida em prol da autonomia política da colónia (Basto, 1946:186). Placa que assinala o nascimento, no local, de Tomás Gonzaga, e colocada pela CMP, em 1944 Fonte: Tânia Sousa, 2015 Antigos Armazéns da Casa do Cais Novo Pertencente a uma influente e abastada família de Provesende, os Pintos da Cunha, associados à direção da Companhia Geral da Agricultura e Vinhos do Alto Douro, os Armazéns da Casa do Cais Novo foram construídos expressamente para o armazenamento dos vinhos provenientes do Alto Douro (Graça e Pereira, 2008:3).Concluídos em 1798, o seu desenvolvimento e a sua vasta utilização deveram-se à sua proximidade à Alfândega do Porto – na altura localizada na atual Casa do Infante –, à presença de um cais adjacente para o desembarque e embarque de navios (Cais Novo), à ligação direta dos seus proprietários à direção da Companhia Geral da Agricultura e Vinhos do Alto Douro e, acima de tudo, ao 277 crescente desenvolvimento do comércio do Vinho do Porto, nos séculos XVIII e XIX (Graça e Pereira, 2008:4). Face ao intenso movimento comercial, em 1822, os armazéns da Alfândega tornaram-se diminutos para o abastecimento dos produtos, levando a Companhia Geral da Agricultura e dos Vinhos do Alto Douro a pressionar os Pinto da Cunha a cederem os armazéns. Passando a albergar «géneros coloniais e do Brasil» (Graça e Pereira, 2008:4), os seus serviços permaneceram até 1872, quando se transitou para o Edifício da Alfândega Nova. Edifício dos Antigos Armazéns do Cais Novo Depois das obras de requalificação dos espaços do edifício entre 1999 e 2001, a implementação do Museu do Vinho do Porto, no local, motivou novas obras que se estenderam de 2001 a 2004. Instalado num local a poente do Edifício da Alfândega Nova, junto ao rio Douro – via estruturante do transporte do Vinho do Porto –, a sua inauguração dar-se-ia a 15 de Janeiro de 2004 (Graça e Pereira, 2008:5). Fonte: Tânia Sousa, 2015 2º Itinerário: “O Porto através de D. Pedro IV (I do Brasil) e D. Pedro II, Imperador do Brasil” (século XIX) Museu Nacional de Soares dos Reis Instalado no antigo Palácio dos Carrancas, edificado no século XVIII pelos irmãos Morais e Castro, é considerado «uma das casas apalaçadas mais harmoniosas desta época, na cidade do Porto» (Couto, 1989:147). Apelidado de “carrancas” pelo povo portuense devido ao mau humor dos proprietários, durante a segunda invasão francesa o palácio funcionaria como quartel-general a Soult, tendo sido das poucas casas portuenses que não sofreriam pilhagens (Barros, 2010:89). Posteriormente, durante o Cerco do Porto, D. Pedro IV permaneceu no Palácio dos Carrancas até que a artilharia absolutista o forçou a retirar-se do local (Basto, 1946:210; Couto, 1989:147). Ainda durante a mesma centúria, no ano de 1861, o palácio passaria a residência régia quando D. Pedro V adquire o edifício pela quantia de trinta contos; com o falecimento no 278 exílio do último rei português D. Manuel II, o Palácio seria legado à Misericórdia da cidade do Porto que, mais tarde, em 1937, venderia o imóvel ao Estado. Fachada do Palácio dos Carrancas Fonte: Tânia Sousa, 2015 No que concerne às caraterísticas do edifício, Couto (1989:147) descreve-o como detentor de «bonitas varandas de ferro e uma frontaria que engana o transeunte desprevenido (…) visto de frente, apresenta um andar e, visto lateralmente, tem três andares». Ao ter como primeiro obreiro, o Dr. José de Figueiredo, o Museu Nacional de Soares dos Reis veio substituir o Museu Portuense, procedendo-se, assim, à continuação da vontade de D. Pedro IV que, durante o cerco do Porto, fundou a Real Biblioteca Pública do Porto e o Museu Portuense (fundado em Abril de 1833). Com o intuito de salvaguardar objetos de valor e no contexto das lutas liberais e absolutistas, D. Pedro emitiu diversos decretos – Decreto de 5 de Dezembro de 1832; Decreto de 19 de Dezembro de 1932; 12 de Dezembro de 1932 e 15 de Maio de 1933. Além de autorizar a recolha de bens pertencentes a «indivíduos implicados no crime de Alta Traição» (Silva, 2009:13) e a sua instauração num depósito público criado para o efeito, procedeu à criação de uma comissão encarregue de gerir os bens dos conventos e mosteiros abandonados e extintos. Por conseguinte, o espólio mais antigo do Museu encontra-se, intrinsecamente, associado às expropriações e sequestros praticados durante o famoso Cerco do Porto. Apesar de ter exprimido o desejo de inaugurar um “Museu de Pinturas e Estampas no Porto”, somente no reinado de D. Maria II é confirmado a sua abertura, nomeadamente através do decreto subscrito por Passos Manuel – o decreto de 12 de Setembro de 1836 (Silva, 2009:14); no entanto, só em Julho de 1840 o museu abria as portas ao público e aos restantes artistas. Nos seus inícios, o museu e a biblioteca encontravam-se juntamente instalados, até que 279 o município no ano de 1850 adquire a coleção. Seria João Baptista Ribeira o responsável entre 1833 e 1839 pela inventariação dos objetos e pelo Museu localizado no Convento de Santo António da Cidade. Somente já em plena República, a instituição passaria a ser designada de Museu Nacional de Soares dos Reis, sendo que em 1932, quase uma centúria após a sua fundação e em plena Ditadura, é apelidado de “Nacional” (Lira, 2002: 283). A mudança de instalações nomeadamente para o Palácio dos Carrancas, deu-se nos finais dos anos 30, quando o Estado Novo decidiu deslocar o museu para um novo edifício em 1937. Antigo Hotel do Louvre Fundado em 1865, a abertura do Antigo Hotel do Louvre coincidiria com a primeira exposição do Palácio de Cristal (Fernandes e Martins, 1989:13). Localizado na Rua do Rosário, em meados do século XIX, além de ter constituído o mais aristocrático e requintado da cidade, hospedaria, em Março de 1872, D. Pedro II, Imperador do Brasil (Couto, 1989:146). Esta célebre hospedagem seria mediatizada na imprensa portuense e descrita pormenorizadamente por Maria Henriqueta de Melo Lemos Alvelos e Silva, proprietária do hotel, no livro O Snr. Rabello e o Grand Hotel du Louvre:exposição, que expõe a polémica falta de pagamento de D. Pedro II: «(…) era dever seu, quer como soberano d’ uma grande nação, quer como homem honrado, pagar religiosamente o preço da sua hospedagem com relação a essa magnificiencia e a esse luxo» (Silva, 1872:9). Edifício do extinto Hotel do Louvre, Rua do Rosário Placa comemorativa da hospedagem Fonte: Tânia Sousa, 2015 Fonte: Tânia Sousa, 2015 280 Assim, desde o dia 18 de Fevereiro de 1872, realizavam-se os preparativos para a hospedagem de D. Pedro II, sendo que «no dia 29 de fevereiro (…), o Grand Hotel du Louvre estava convenientemente preparado para receber não um viajante economico e vulgar (…) mas o próprio Imperador do Brazil (…)» (Silva, 1872:8). Na descrição dos preparativos para a visita de Sua Majestade, D. Pedro II, pode-se tomar conhecimento que o 1ºandar do hotel estava destinado para a família real e o 2º para a restante comitiva. Embora fosse de caráter luxuoso, os aposentos destinados à família real seriam expressamente alterados, tendo, inclusive, a 29 de Fevereiro, vários criados do Imperador se deslocado ao hotel para procederem a essa modificação – «vários creados de Sua Magestade que me obrigaram a fazer alterações importantes em alguns dos aposentos mais ricamente adornados» (Silva, 1872:13). Atualmente, o hotel já não existe, porém encontra-se no local uma placa comemorativa do episódio acima descrito (ver imagem anterior). Realça-se ainda que, neste edifício, funcionou uma importante instituição cultural da cidade: o Cineclube do Porto. Antigo local do Real Colégio dos Meninos Órfãos Fundado pelo Padre Baltazar Guedes, em Janeiro de 1650, o Real Colégio de Nossa Senhora da Graça dos Meninos Órfãos da Cidade do Porto, nasceu da vontade de um homem que ambicionava criar um colégio que acolhesse todas as crianças órfãs e desfavorecidas do bispado do Porto e da cidade. Juntando às esmolas que pedira por todo o território português – prática comum naquela época –, a herança recebida da parte do tio e os ganhos das missas celebradas, dos livros impressos e dos objetos de arte sacra por si concebidos, o padre conseguiria aglomerar o suficiente para que se procedesse à criação do colégio 69 . Estabelecido junto à ermida de Nossa Senhora da Graça, o colégio seria fundado 30 de Janeiro de 1650 pelo alvará régio concedido por D. João IV, tendo ocorrido a sua inauguração a 25 de Março de 1651. Porém, os seus estatutos só foram reconhecidos pela Câmara do Porto, a 20 de Agosto de 1653, e pela Igreja Católica em 1712 70 . A partir da sua fundação e correspondendo às solicitações dos bispos do Rio de Janeiro, Pernambuco e Baía, o Colégio dos Órfãos enviaria para o Brasil, praticamente todos os anos até meados do século XIX, crianças para o seguimento da vida secular. Todavia, também se procederia ao envio de crianças que 69 Universidade do Porto (2012). Baltasar Guedes (1620-1693) e o Colégio dos Meninos Órfãos de Nossa Senhora da Graça [em linha]. Sigarra U. Porto. [Consultado a 29 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL: https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?p_pagina=edif%C3%ADcio%20da%20reitoria%20- %20baltazar%20guedes%20e%20o%20col%C3%A9gio%20dos%20meninos%20%C3%B3rf%C3%A3os%20de%20 nossa%20senhora%20da%20gra%C3%A7a>. 70 Idem 281 pretendiam seguir a vida civil (Alves, 1994:42-43). Para a chegada dos órfãos à colónia, apelava-se, com frequência, aos comerciantes e os comandantes dos navios que aceitavam levar, de forma gratuita, as crianças nas suas embarcações, além de contribuírem, após a chegada dos navios do Brasil, com esmolas para a instituição (Alves, 1994:42). Pelo edifício do colégio passaria a Aula Náutica, a Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto, a Academia Politécnica, encontrando-se, atualmente, instalada a Reitoria da Universidade do Porto (Barros, 2010:45). Local de fundação do colégio em 1650 Placa colocada na Reitoria em homenagem a Baltasar Guedes Fonte: Tânia Sousa, 2015 Fonte: Tânia Sousa, 2015 Estátua equestre de D. Pedro IV Estátua equestre D. Pedro IV, Praça da Liberdade Localizada no centro da Praça da Liberdade inaugurada no século XVIII e outrora chamada “Praça Nova” e “Praça D. Pedro IV”, a Estátua Equestre de D. Pedro IV com 10 metros de altura, foi projetada pelo francês Calmels, em Bruxelas. Em 1862, seria lançada a primeira pedra da obra que seria, posteriormente, inaugurada a 19 de Outubro de 1866 por D. Luís I. Com um custo total de trinta contos provenientes de fins públicos, o monumento constituiria a segunda estátua equestre mais valiosa em Portugal, com um pedestal «de mármore ordenado por dois baixos relevos (…) e cinzelados em mármore de Carrara por Joaquim Antunes da Silva» (Couto, 1989:80). Fonte: Tânia Sousa, 2015 288 (Mendes, 2012:111; Peixoto, 2013:188). Entrada principal e fachada do Café “A Brasileira” Fonte: Tânia Sousa, 2015 Fonte: Tânia Sousa, 2015 Detentor de propriedades, engenhos de café e fundador da Casa Telles em Visconde do Rio Branco, Minas Gerais, no regresso a Portugal, o brasileiro de “torna-viagem” seria responsável pela introdução do «hábito de tomar café em espaços públicos» (Peixoto, 2013:188), inexistente até então na cidade. Mediante a compra do grão de café, importado do Brasil, em lotes ou a peso, Adriano Telles oferecia, de forma gratuita, uma chávena de café a esse cliente (Mendes, 2012:198). Assim, na compra de um saco de café que possuía um folheto explicativo acerca da sua preparação, o cliente usufruía de um café, já preparado, no estabelecimento (Mendes, 2012:198). Paralelamente a esta iniciativa, Adriano Telles em conjunto com os seus sócios, espalhou pela cidade cartazes de divulgação e pintou painéis em estradas (exemplo do painel existente na Rua Dr. Ricardo Jorge e recuperado pela Câmara Municipal do Porto, em 2013) e ao longo de estações ferroviárias, com a frase «O melhor café é o da brasileira», criando também, logo no ano da abertura, a imagem de marca do café: o “Velhote d’A Brasileira” (Mendes, 2012:198; Peixoto, 2013:188). Às originais iniciativas publicitárias descritas associam-se ainda a moagem do café à vista do público e a conceção de um periódico que ofereceu, gratuitamente, aos seus clientes por mais de três décadas (Mendes, 2012:199; Peixoto, 2013:188). Com a colaboração de Gualdino de Campos e outros intelectuais da época, o jornal, além do cariz publicitário ao estabelecimento, contava também com artigos literários e poemas 289 (Mendes, 2012:199; Peixoto, 2013:188). Dado o sucesso do estabelecimento, Adriano Telles fundaria outras “Brasileiras”, em Lisboa (no Chiado, 1905, e no Rossio, 1911), em Coimbra (1928), e desempenhou um papel preponderante na abertura do “Café A Brasileira” de Braga, em 1907, sob o impulso de Adolpho de Azevedo (Mendes, 2012:199). Após a remodelação e ampliação do estabelecimento, em 1916, na década de 30, novamente, o café sofreria novas transformações, adquirindo uma luxuosa decoração interior (espelhos franceses, baixos-relevos em mármore e cristais nas portas) e passando a compreender todo o prédio situado entre o gaveto da Rua do Bonjardim e a Rua Sá da Bandeira, à exceção de uma pequena loja (Mendes, 2012:199-201). Inscrição existente na entrada: “15 de Nov. de 1889, Estados Unidos do Brazil” Fonte: Tânia Sousa, 2015 Nos inícios da década de 70, começam a surgir com frequência rumores sobre um possível encerramento do emblemático café, sendo que, na década de 90, o estabelecimento necessitava de urgentes obras de recuperação e restauração. Não só se evidenciava a degradação do “alpendre de vidro e ferro forjado”, bem como a alteração à decoração original realizada num dos salões. Mais tarde, em 2003, depois do seu fechamento, reabre, incluindo um restaurante, uma cafetaria e um café explorado pelo Caffé di Roma (Mendes, 2012:203-204), encontrandose, desde 2013, encerrado e tendo como proprietário António Oliveira que pretende transformar o edifício num hotel e manter o emblemático café 77 . 77 Simões, P. (2013) – A “Brasileira” vai renascer como hotel de quatro estrelas [em linha]. Jornal de Notícias. [Consultado a 29 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=35 99888>. 290 Ao revolucionar o comércio do café e os costumes da época, rapidamente, no seio da sociedade portuense, o estabelecimento adquirira uma grande notoriedade, sendo um ponto de encontro de jornalistas, intelectuais, homens de negócios e um local preferencial para a realização de tertúlias culturais (Peixoto, 2013:188). Café Brasil Café Brasil, foto da 2ª metade do século XIX Localizado na Rua da Madeira – na época denominada Calçada da Teresa (Freitas, 1999: 221) – junto à Estação de S. Bento, o Café Brasil, fundado em 1859, constitui o segundo mais antigo café da cidade do Porto no ativo. Antes do seu aparecimento e precisamente no mesmo sítio, funcionaria, anos antes, a célebre mercearia “Casa Prud d’homme”, pertencente a um cidadão francês que comercializava queijos franceses e champanhes da melhor qualidade 78 . Fonte: http://portoarc.blogspot.pt Depois da demolição do edifício de 3 andares da mercearia, construiu-se um novo imóvel de 5 pisos, onde seria instalado, no piso térreo, o Café Brasil. Durante a ocorrência da “Feira da Madeira”, realizada semanalmente, no largo frontal, e que viria a originar o atual nome da artéria, o estabelecimento tinha muita afluência. Neste afamado botequim portuense do século XIX, um dos pontos de encontro da cidade, existiam duas mesas exclusivas aos apreciadores do jogo do dominó – a “mesa dos cardeais” e a “mesa dos indígenas” –, ambas assiduamente frequentadas por Guilherme Braga, Paulo Falcão, Ramalho Ortigão, Sampaio Bruno e Arnaldo Leite (Mendes, 2012:101). Inicialmente o café começou por pertencer ao senhor Costinha, também fundador dos extintos cafés “Café Avenida” e “Café Vitória”, na Avenida dos Aliados, que, posteriormente, passaria o estabelecimento a Alberto Arguelhes. Já nos finais da década de 30 do século XX, Alberto Arguelhes trespassá-lo-ia ao seu empregado de longa data, António Silveira (Mendes, 2012:101). 78 Café Brasil. History since 1859 [em linha]. Café Brasil. [Consultado a 29 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://brasilcafe.weebly.com/history.html>. 291 Infelizmente, hoje em dia, o café não possui a notoriedade que alcançou a partir da segunda metade do século XIX até aos primeiros decénios do século XX. Café Brasil na atualidade Fonte: Tânia Sousa, 2015 Estação Ferroviária de S. Bento Localizada no coração da cidade do Porto, concretamente, na Praça de Almeida Garrett, a Estação Ferroviária de S. Bento seria erguida no edifício que acolhera o Convento das freiras beneditinas de S. Bento de Ave-Maria, desde o século XVI até aos finais do século XIX (Fernandes, 2010:4-5). Fundado por D. Manuel I, em 1518, o edifício do convento sofreria variadas intervenções ao longo da sua existência, tendo sido com D. Carlos I, a 22 de Outubro de 1900, que se lançaria a primeira pedra para a construção do atual imóvel (Fernandes, 2010:31). Dada a degradação do edifício – acentuada devido à ocorrência de um incêndio em 1783 –, a inauguração da Ponte D. Maria Pia e, consequentemente, a abertura de novos caminhos-deferro, construir-se-ia a Estação de S. Bento para albergar os recentes serviços de transporte 79 . Inaugurada a 5 de Outubro de 1916, com «oitos linhas terminais e cinco de embarque» 80 , a autoria da edificação da Estação de S. Bento deveu-se ao arquiteto Portuense José Marques da Silva que transpôs o estilo «neoclássico tardio» 81 para as linhas exteriores do 79 Direção-Geral do Património Cultural. Estação dos Caminhos de Ferro de São Bento, também denominada «Estação de São Bento», incluindo a gare metálica, os painéis de azulejos e a boca de entrada no túnel [em linha]. Património Cultural: Direção-Geral do Património Cultural. [Consultado a 26 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-dopatrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/72342>. 80 Idem 81 Idem 292 edifício. Ao ter como referência a Gare da Estação ferroviária de Paris, no seu interior, sobressaem os vidros que cobrem o edifício, assim como o ferro fundido. Ainda, no átrio principal, pode-se observar os cerca de vinte mil azulejos, maioritariamente, brancos e azuis, da autoria do pintor Jorge Colaço, que representam episódios marcantes da história portuguesa, destacando-se os elementos folclóricos e paisagísticos 82 . Fachada da Estação de S. Bento Fonte: http://patrimoniocultural.pt O azulejo – material decorativo e caraterístico da arquitetura portuguesa e da cultura nacional – seria transposto para a arquitetura brasileira, com as mesmas técnicas, sendo que, já no século XVII, no Brasil, o revestimento através de azulejos tornava-se uma prática comum, principalmente, em Pernambuco e na Baía. Nos finais do século XVII, começou-se a reproduzir os azulejos em tons de azul e branco, estendendo-se, novamente, este novo gosto, ao Brasil, mas seria, na centúria seguinte, que a presença da azulejaria portuguesa se tornaria mais significativa (Wanderley, 2006:17-28). Em pleno século XIX, os emigrantes portugueses regressados do Brasil – os denominados brasileiros – introduziriam as caraterísticas dos azulejos da ex-colónia nas suas casas («casas de brasileiros») existindo, no Porto, vários edifícios demonstrativos dos detalhes exóticos e adornados por azulejos de «cores nítidas» (Machado, 2005:55; Peixoto, 2013:25). Responsável por outras importantes obras artísticas, Jorge Colaço também destacar-seia, pela sua atividade, no Brasil, tendo utilizado uma «técnica mais pictórica», com o intuito de retratar o típico azulejo português – no Rio de Janeiro, em Teresopólis, realça-se o Mirante da Granja Guarani (Wanderley, 2006:28). 82 Turismo do Porto. Estação de São Bento [em linha] Visit Porto. [Consultado a 26 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.visitporto.travel/visitar/paginas/viagem/DetalhesPOI.aspx?POI=1805>. 293 Por último, existe uma importante ligação ao Brasil e presente no átrio da Estação de S. Bento, nomeadamente a lápide comemorativa do feito de Gago Coutinho e Sacadura Cabral – a pioneira travessia aérea pelo Atlântico Sul, ligando, em 1922, Lisboa ao país sul-americano 83 . Lápide que recorda o feito realizado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 1922 Fonte: Tânia Sousa, 2015 4º Itinerário: “Os brasileiros de “torna-viagem” e a cidade do Porto” 1ª Parte Caves do Vinho do Porto Nas ligações comerciais entre o Porto e o Brasil nos séculos XVI e XVIII, o vinho deteve um papel de destaque, tal como os produtos agrícolas e industriais provenientes do Norte português. Perante a concorrência do açúcar produzido nas colónias inglesas da América e com a «falência do trato do açúcar brasileiro» (Cardoso, 2006:186), a comercialização de vinho passou a constituir uma alternativa. Deste comércio de exportação de vinhos do Porto, seria a partir do século XVIII, na 83 Arquivo Municipal do Porto. Algumas inscrições existentes na cidade do porto [em linha]. GISAweb. [Consultado a 15 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL:http://gisaweb.cm-porto.pt/units-ofdescription/documents/316249/?>. 294 margem direita do rio, que os armazéns passariam a ocupar, de forma mais intensa, a zona ribeirinha de Gaia devido às crescentes exportações que exigiram, assim, o alargamento dos espaços de armazenamento (Pereira, 2008: 170). Interior das Caves do vinho do Porto - Calém Fonte: http://visitportandnorth.travel Nas relações comerciais da cidade do Porto com o Brasil, durante a primeira metade do século XVIII, entrariam, cerca de duas vezes por ano, embarcações na Barra do Douro provenientes da Baía e Pernambuco. Os ingleses, embora maioritariamente ligados ao comércio do vinho – produto que exportavam para o Brasil –, continuaram presentes no negócio de produtos brasileiros; porém, seriam os mercadores portugueses que se destacavam na comercialização do vinho do Porto para o mercado vitivinícola brasileiro e, segundo, António Barros Cardoso, desde o início de Oitocentos que partiram para o Brasil, vinhos produzidos no Douro, vinhos verdes, vinagres e aguardentes (Cardoso, 2006:187). Entre 1708 e 1723, constatou-se um período de crescimento na exportação dos vinhos rumo ao Brasil, tendo, inclusive, se atingido as 4000 pipas no ano de 1750, no entanto, na regência de D. José I, a exploração dos recursos brasileiros e a exportação de vinho do Porto atravessariam uma fase de decadência. Pela mão de Sebastião José de Carvalho e Melo, nascia no ano de 1756 a Companhia Geral da Agricultura das vinhas de Alto Douro, onde, atempadamente, se mostrou grande preocupação com o mercado do Brasil. Procurando preservar os negócios com o mercado brasileiro nas mãos dos mercadores portugueses, D. José atribuiu à Companhia «o comércio exclusivo de vinhos, aguardentes, vinagres, carregados no Porto com destino às quatro Capitanias do Estado do Brasil (…)» (Cardoso, 2006:188). 295 Em pleno século XIX, o comércio portuense continuava a depender do câmbio brasileiro (Machado, 2005:55), ocupando o Brasil um importante lugar no panorama comercial relativamente às importações e exportações, registando-se, por volta de 1880, um crescimento acentuado das exportações de vinho do Porto (Alves, 1994:74). Ainda, nessa centúria, nas relações comerciais desenvolvidas com o Brasil, encontravam-se muitos negociantes portugueses que, após o retorno das Terras de Santa Cruz, se destacaram como proprietários de veleiros – «a grande maioria dos proprietários de veleiros do Porto (…) eram, necessariamente, pessoas intimamente ligadas ao Brasil, mas um número considerável era mesmo constituído por "brasileiros", isto é, por indivíduos que tendo iniciado a sua vida comercial no Brasil se instalaram depois no Porto e se dedicavam a animar esse tráfico veleiro» (Alves, 1994:356). Palácio da Bolsa Edifício de estilo neoclássico, o Palácio da Bolsa começaria a ser construído em Outubro de 1842, na sequência do fechamento da Casa da Bolsa do Comércio. Durante o Cerco do Porto, em Julho de 1832, um incêndio de largas dimensões devastaria por completo o convento de S. Francisco, à exceção da igreja, tendo, posteriormente, a 19 de Junho de 1842, D. Maria II doado esses terrenos através da “Lei da Concessão” à Associação Comercial do Porto, surgida em 1834 (Alves, 2000a:1). Assim, sobre as ruínas do antigo convento, construir-se-ia o Palácio da Bolsa para o estabelecimento de importantes instituições da cidade – «a praça ou bolsa do comércio e o tribunal de primeira instância» 84 . Fachada do Palácio da Bolsa Fonte: Tânia Sousa, 2015 Precavendo possíveis entraves financeiros à concretização da obra, D. Maria II, concedeu à Associação Comercial do Porto, durante uma década, o usufruto de uma «receita 84 Palácio da Bolsa & Associação Comercial do Porto (2014). Apresentação institucional [em linha]. Palácio da Bolsa. [Consultado a 29 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.palaciodabolsa.com/apresentacao-institucional>. 296 extraordinária» sobre os produtos que circulavam na Alfândega do Porto 85 . Por este órgão representativo dos comerciantes da Praça do Porto, destacar-se-ia, entre os seus associados, a presença de vários negociantes regressados do Brasil. Além de presença assídua nas direções da associação, tiveram um papel preponderante na sua organização, remetendo Alves (2000a:13) para os meados da década de 70 do século XIX, o apogeu do poder “brasileiro” na Associação Comercial do Porto, com o Conde de Silva Monteiro que substituiu, na presidência, outro brasileiro de “torna-viagem”, Francisco Pinto Bessa. Prolongando-se por um período de 70 anos, a construção do Palácio da Bolsa resultaria da mestria dos seus seis principais arquitetos – Joaquim da Costa Lima Júnior (responsável pela realização do projeto), Gustavo Adolfo Gonçalves de Sousa, Tomás Augusto Soller, José Macedo Araújo Júnior, Joel da Silva Pereira e, por último, José Marques da Silva –, assim como, do trabalho árduo de centenas de operários e dezenas de pintores, pedreiros, estucadores, douradores 86 . Numa estrutura assente numa planta retangular, o edifício emana um gosto revivalista, sobressaindo, no seu interior, o “Pátio das Nações”, com cobertura envidraçada, no seu segundo piso, a “Sala das Assembleias Gerais”, a “Sala da Direção”, o “Gabinete da Presidência” e o “Salão Árabe” 87 . Pátio das Nações Fonte: Tânia Sousa, 2015 85 Idem 86 Idem 87 Direção-Geral do Património Cultural. Palácio da Bolsa [em linha]. Património Cultural: Direção-Geral do Património Cultural. [Consultado a 29 de Agosto de 2015]. Disponível na internet: <URl: http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-viasde-classificacao/geral/view/70402/>. 297 Com mais de 170 de existência, o Palácio da Bolsa recebe, todos os anos, cerca de 300 mil visitantes, constituindo um dos monumentos mais visitados da região Norte de Portugal e integrante da Rota Urbana do Vinho 88 . Edifício do extinto Banco Comercial do Porto (atual Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto) Envolvidos fortemente em todas as esferas económico-sociais e culturais da cidade, também na história da banca portuense, os brasileiros desempenhariam um papel preponderante, integrando, a formação de importantes bancos, como o Banco Comercial do Porto, fundado em 1835, e que durante vinte anos seria o único banco comercial existente na cidade. Nos seus inícios, contava com 21 subscritores brasileiros que, no seu conjunto, possuíam 543 ações da instituição (Alves, 1994:356-357). Tendo iniciado as suas funções, no edifício da Associação Comercial, na primeira eleição para os cargos da direção do Banco Comercial do Porto, o peso dos brasileiros seria notório, concorrendo Joaquim Ferreira dos Santos (futuro Conde de Ferreira e brasileiro) contra João Ferreira dos Santos Silva (negociante portuense com negócios no Brasil) que lhe ganharia por escassos votos (Alves, 1994:357). Não obstante, os brasileiros estariam, novamente, em peso na fundação de outros bancos – Banco Mercantil Portuense (1855), Banco União (1862) – que, em 1894, se fundem com outros bancos e passam a incorporar o Banco Comercial do Porto. Edifício do extinto Banco Comercial do Porto Fonte: http://visitporto.travel 88 Turismo do Porto. Palácio da Bolsa [em linha]. Visit Porto. [Consultado a 1 de Setembro de 2015]. Disponível na internet: <URL: http://www.visitporto.travel/visitar/paginas/viagem/DetalhesPOI.aspx?POI=1781>.