Individuação e coping em adolescentes de famílias tradicionais e divorciadas
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ISSN 1413-389X Trends in Psychology / Temas em Psicologia – 2016, Vol. 24, nº 3, 1115-1128 DOI: 10.9788/TP2016.3-16 Individuação e Coping em Adolescentes de Famílias Tradicionais e Divorciadas Catarina Pinheiro Mota1 Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal Centro de Psicologia da Universidade do Porto, Porto, Portugal Resumo O divórcio é marcado por mudanças e a necessidade de reorganização familiar. A literatura tem abordado as implicações deste processo no desenvolvimento dos adolescentes, nomeadamente a existência de aspetos como a qualidade da vinculação aos pais que potenciam o desenvolvimento de coping e protegem face a fatores de risco. O presente estudo tem como objetivo analisar o processo de individuação face às fi guras parentais, bem como o seu papel no desenvolvimento de estratégias de coping em adolescentes de diferentes confi gurações familiares (tradicionais e divorciadas). A amostra foi composta por 399 participantes, com idades entre 15 e 18 anos, de ambos os gêneros, e provenientes de famílias tradicionais e divorciadas/separadas. Os resultados obtidos demonstraram associações entre a individuação parental e o coping. Verifi cou-se ainda que a confi guração familiar não apresenta um efeito moderador na associação entre a individuação parental e o coping, sendo que o divórcio parece não se constituir per si um fator que infl uencia necessariamente de forma negativa o desenvolvimento do coping em adolescentes, destacando-se a importância da individuação parental neste processo. Palavras-chave: Individuação, coping, adolescência, confi guração familiar. Individuation and Coping in Adolescents from Traditional and Divorced Families Abstract Divorce is marked by change and the need of family reorganization. The literature has addressed the implications of this process in the development of adolescents, namely the existence of aspects like quality of attachment with parents that improve the development of coping and protect from risk factors. This study aims to analyse the process of individuation to parental fi gures, as well as, its role in the development of coping strategies in adolescents from different family confi gurations (traditional and divorced). The sample comprised 399 participants aged 15 to 18 from both genders and from intact and divorced/separated families. The results showed associations between parental individuation and coping. It has been found that familiar confi guration doesn´t have a moderating effect on the association between parental individuation and coping, and that divorce doesn´t seem itself a negatively infl uences the development of coping in adolescents, highlighting the importance of parental individuation in this process. Keywords: Individuation, coping, adolescence, family confi guration. 1 Endereço para correspondência: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Departamento de Educação e Psicologia, Quinta dos Prados, Edifício das Ciências Humanas e Sociais – Polo I, Vila Real, 5000-801. E mail: [email protected] Estudo fi nanciado parcialmente pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) ao abrigo do projeto PEst-C/PSI/UI0050/2011 e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) com fundos do programa COMPETE ao abrigo do projeto FCOMP-01-0124-FEDER-022714.
Mota, C. P. 1116 Individuación y Coping en Adolescentes de Familias Tradicionales y Divorciadas Resumen El divorcio está marcado por el cambio y la necesidad de una reorganización familiar. La literatura ha considerado las consecuencias de este proceso en el desarrollo de los adolescentes, a saber, la existencia de aspectos tales como la calidad del apego a los padres que mejoran o desarrollo del coping y protegen contra los factores de riesgo. Este estudio tiene como objetivo analizar el proceso de individuación en lo que concirne a las fi guras parentales, así como su papel en el desarrollo de estrategias de coping en adolescentes de diferentes confi guraciones familiares (tradicionales y divorciadas). La muestra consistió en 399 participantes, de edades comprendidas entre 15 y 18 años, de ambos gêneros, y de familias tradicionales y divorciadas/separadas. Los resultados mostraron asociaciones entre la individuación de los padres y el coping. También se observó que la confi guración de la familia no tiene un efecto moderador sobre la asociación entre la individuación de los padres y el coping, por lo que el divorcio no parece constituir per se un factor que necesariamente infl uye negativamente en el desarrollo del coping en adolescentes, destacando la importancia de la individuación de los padres en este proceso. Palabras clave: Individuación, coping, adolescencia, confi guración familiar. A Individuação e a Confi guração Familiar no Desenvolvimento do Coping A vinculação constitui uma tendência inata do ser humano para se ligar a fi guras signifi cativas de afeto, desenvolvendo laços afetivos fortes que têm continuidade ao longo do ciclo vital (Ainsworth, 1969; Bowlby, 1988). Esta ligação afetiva caracteriza-se pela sua permanência no tempo, facilitando a procura de proximidade, quer física quer emocional, sendo especialmente relevante em situações geradoras de stress. Ainsworth (1969) desenvolveu o conceito de base segura, com o intuito de explicar a importância da qualidade da ligação estabelecida num ambiente de proteção, que garante ao indivíduo uma estabilidade emocional capaz de criar uma imagem positiva de si e do outro, facultando-lhe maior segurança na exploração do mundo que o rodeia. Fleming (2005) sublinha a importância da criança e mais tarde do adolescente de desenvolver o sentimento de segurança e confi ança no outro, no sentido de facilitar a relação com o exterior, nomeadamente no desenvolvimento de comportamentos de exploração. A adolescência constitui uma etapa desenvolvimental pautada pelas mudanças e reorganizações da relação com as fi guras parentais, denotando-se uma necessidade de proximidade com o exterior, nomeadamente com os pares e outras fi guras signifi cativas como o par amoroso (e.g. Cohen, Kasen, Chen, Hartmark, & Gordon, 2003; Eccles, Templeton, Barber, & Stone, 2003; Lansu & Cillessen, 2012). Nesta medida assiste-se a uma procura de integração e aceitação fora do contexto parental, o que refl ete um sentimento de pertencimento e valorização pessoal. Por outro lado, persiste a necessidade de manutenção do laço parental, fonte impreterível de segurança, mesmo que fi sicamente mais tênue na relação direta. Assim, a qualidade da vinculação está subjacente ao processo de individuação, pelo que adolescentes seguros são caracterizados pela capacidade de se autonomizarem, embora avaliando as suas relações com as fi guras parentais enquanto bases seguras (Buhl, 2008a; Komidar, Zupančič, Sočan, & Puklek Levpušček, 2013). A individuação é caracterizada pela independência do jovem à autoridade parental, marcada pela mudança de autoridade unilateral para uma autoridade de cooperação e de reciprocidade, com tendência à progressão durante a adolescência e a jovem adultez (Mota & Rocha, 2012). Scabini e Manzi (2011) acrescentam que um contexto familiar favorável, com relacionamentos de qualidade, propicia a manutenção dos laços emocionais e um processo de
Individuação e Coping em Adolescentes de Famílias Tradicionais e Divorciadas 1117 individuação bem sucedido. Não se trata de uma tarefa desenvolvimental que se coloca apenas num dado ponto do ciclo vital, mas que se desenrola num contínuo de mudanças sustentadas ao longo das etapas da vida que se vão sucedendo. Assim, percebe-se que as fi guras parentais, cada vez mais presentes na vida dos adolescentes, parecem ser um fator facilitador do processo de autonomia. Van Petegem, Beyers, Brenning e Vansteenkiste (2013), num estudo longitudinal realizado com 327 adolescentes, sublinham que uma vinculação evitante e ansiosa aos pais parece assumir relevância na predição da autonomia dos jovens. Os autores apontam que a tomada de decisão pessoal parece estar comprometida recriando jovens mais dependentes e pouco capazes de encontrar estratégias de resolução positivas. Acresce a esta questão que algumas difi culdades podem colocar-se quando existe resistência por parte das fi guras parentais no que respeita à separação, permitindo a existência de consequências desadaptativas relativas ao processo de separação-individuação (Mota & Rocha, 2012). Mayseless e Scharf (2009) sublinham esta ideia, na medida em que ligações desajustadas (pautadas por um elevado controle, triangulação e desvalorização), parecem predizer menores níveis de coping adaptativo, como o evitamento, a fuga e a negação das necessidades de vinculação aos pais. Os adolescentes caracterizados por este tipo de relação com os pais tendem a revelar maiores níveis de ansiedade de controle e confl ito no processo de independência emocional (Larkin, Frazer, & Wheat, 2011). Também Kruse e Walper (2008), observaram num estudo com 649 adolescentes e jovens adultos de diferentes confi gurações familiares, que jovens de famílias tradicionais com níveis signifi cativos de desajuste relacional na família, sentem-se mais controlados e inibidos, apresentam mais desordens emocionais, mais negação das necessidades e vinculação e tendem a recriar relações inseguras ambivalentes com os demais. Um fenômeno que retrata esta realidade, o estilo parental de envolvimento contínuo e intrusivo, é designado por “pais helicópteros” cuja dinâmica relacional é pautada pela hiperprotecção e o controle, de tal modo que os pais estão incessantemente presentes não permitindo que os adolescentes resolvam as suas próprias questões pessoais (e.g. Coburn, 2006; Rocha & Rocha, 2012). Esta questão torna-se particularmente relevante quando das transições familiares, nomeadamente em situações de divórcio parental. O estudo das transições familiares, como o divórcio e a separação dos cônjuges torna- -se cada vez mais relevante na compreensão do processo desenvolvimental dos adolescentes (Cano, Gabarra, Moré, & Crepaldi, 2009). A fase inicial do processo de divórcio é caracterizada por grande sofrimento por parte das crianças e adolescentes, provocando sentimentos de culpa e facilitando o desenvolvimento de processos depressivos, que se poderão manter durante um certo período de tempo após a separação (e.g. Costa & Mota, 2012). Assim, embora perante um contexto familiar problemático, o processo de divórcio possa ser benéfi co para os fi lhos, grande parte dos adolescentes percebe esta transição familiar como dolorosa (e.g. Amato, 2010; Amato & Cheadle, 2008; Hack & Ramires, 2010; Melo & Mota, 2014). Neste sentido, e partindo das difi culdades que pais e fi lhos atravessam no decurso das transições familiares, torna-se pertinente perceber o tipo de estratégias de coping que os adolescentes são capazes de desenvolver. O processo de coping refere-se a respostas adaptativas dadas pelo indivíduo perante a avaliação de situações, as quais sente como ameaça, com o intuito de atingir uma adaptação bem sucedida (Folkman & Moskowitz, 2004). Assim, perante acontecimentos que desencadeiam sentimentos negativos, como poderá ser a dinâmica do processo de divórcio, o indivíduo tende a adotar estratégias que lhe permitam a minimização desse sofrimento (e.g. Amato, 2010; Mathew, Gayman, Turner, Cislo, & Eliassen, 2011). Num estudo longitudinal realizado com adolescentes durante 7 anos, Seiffge-Krenke e Beyers (2005), verifi caram que as estratégias de coping, bem como o impacto de fatores desenvolvimentais são diferentes para adolescentes com estilos de vinculação segura e insegura.
Mota, C. P. 1118 Isto porque tanto o estilo de vinculação, como as estratégias de coping desenvolvidas implicam interpretações cognitivas dos eventos geradores de stress. Assim, os adolescentes adotam estratégias de coping mais adaptativas consoante as representações mentais criadas com base nas experiências precoces de vinculação. Os autores sublinham ainda que os adolescentes seguros revelaram um decréscimo do coping retrativo e maior tendência para o uso de coping activo, comparativamente com adolescentes inseguros. No que diz respeito à capacidade de lidar com eventos geradores de stress, as crianças têm apresentado menos recursos do que adolescentes e adultos, principalmente quando esses eventos implicam as fi guras parentais, situações familiares ou domínio escolar (Lisboa et al., 2002). De acordo com Ramires (2004), os adolescentes enfrentam melhor as transições familiares, pois se encontram mais desenvolvidos em termos afetivos, cognitivos e sociais comparativamente com as crianças. Moura e Matos (2008) num estudo realizado com adolescentes sugerem que devido ao seu desenvolvimento cognitivo, os adolescentes são capazes de perceber melhor as mudanças inerentes ao processo de divórcio, encontrando mais facilmente um suporte alternativo comparativamente com crianças mais novas. Note-se que durante esta descontinuidade familiar, os adolescentes atravessam ainda difi culdades características do período de desenvolvimento da adolescência, o que pode comprometer o processo de separação-individuação. Especialmente quando os pais se mostram menos disponíveis e responsivos, os adolescentes tendem a fechar-se em si ou procurar formas de ajustamento menos adaptativas. Um estudo realizado com 387 adolescentes demonstra a ligação entre o desenvolvimento de vinculação segura e de estratégias de coping adaptativas (Cabral & Matos, 2007). As autoras apontam que a qualidade do laço emocional estabelecido com as fi guras parentais apresentava efeito positivo nas estratégias de coping utilizadas. Por outro lado, constataram que a inibição na exploração e individuação parental se encontrava ligada ao aumento de estratégias de coping desadaptativas, como a retração e a negação das necessidades de vinculação. Assim, o desenvolvimento de estratégias de coping adaptativas por parte dos jovens, durante as transições familiares, poderá relacionar-se com a qualidade das relações com as fi guras signifi cativas, uma vez que perante sentimentos de ameaça, a procura de suporte auxilia na forma como gerem as suas angústias (Holmes, 2001). Assim, uma consideração positiva de si, fruto de relações pautadas por proximidade e afeto por parte dos pais, parece potenciar jovens com mais confi ança, e por isso mais capazes de se voltarem para o exterior, pedir ajuda de forma ativa e evitar a negação das adversidades (e.g. Assor & Tal, 2012). Nesta medida, adolescentes com uma vinculação segura parecem ser mais confi antes, pelo que o seu desenvolvimento sugere a escolha de estratégias de coping mais adaptativas (DiFilippo & Overholser, 2000). O ajustamento dos adolescentes em situações ansiogénicas e de transição, poderá assim, espelhar-se na forma como gerem as difi culdades (e.g. Mota & Matos, 2013), muito embora a literatura tenha vindo a suportar a ideia de que outros fatores pessoais, como a personalidade ou o género, possam fazer a diferença no que concerne ao desenvolvimento dos estilos de coping (Seiffge-Krenke, 2011). Estudo Empírico Objetivos Este estudo objetiva analisar em que medida o processo de individuação se encontra associado ao desenvolvimento de estratégias de coping em adolescentes de famílias tradicionais e divorciadas. Assim como o contributo da individuação na utilização de diferentes estratégias de coping. Pretende-se ainda compreender o papel moderador da qualidade da confi guração familiar na associação entre a individuação e o coping. Método Participantes Este estudo foi composto por uma amostra de 389 participantes com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos (M=16,33; DP=1,02),
Individuação e Coping em Adolescentes de Famílias Tradicionais e Divorciadas 1119 243 do gênero feminino (62,5%) e 146 (37,5%) do gênero masculino. No que se refere ao nível de escolaridade dos participantes, estava compreendida entre o 9º e o 12º ano de escolaridade (M=10,47; DP=0,86). A idade do pai variou entre os 34 e os 75 anos (M=47,14; DP=5,5), enquanto a idade da mãe variou entre os 32 e os 64 anos (M=44,28; DP=4,7). No que diz respeito à escolaridade dos pais, em ambas as fi guras paterna e materna a média de escolaridade aproximou-se do 9º ano de escolaridade, (M=8,56; DP=3,83) e (M=9,51; DP=3,8), respetivamente. A maioria dos participantes vive em famílias tradicionais com 295 adolescentes (75,8%), 29 (7,5%) de cônjuges separados e 65 (16,7%) de famílias divorciadas. As últimas duas categorias serão constituídas numa mesma dimensão, uma vez que se assumem famílias onde o adolescente coabita apenas com uma das fi guras parentais. Instrumentos O Munich Inventory Test of Adolescence – MITA (Walper, Schwarz, & Jurasic, 1996; Saraiva, Brandão, & Matos, 2010) permite a avaliação da individuação bem sucedida em relação à mãe e ao pai, separadamente. É uma escala do tipo Likert de 4 pontos, originalmente com 27 itens. Este instrumento apresenta seis dimensões. No presente estudo foram usadas três dimensões, designadas pelo autor como Relatedness: Manutenção do Laço (3 itens), Negação das Necessidades de Vinculação (5 itens) e Individuação Bem Sucedida (4 itens). Perante a amostra recolhida, foram observados alfas de Cronbach com valores moderadamente altos para ambas as versões (mãe e pai): Manutenção do Laço o valor de alfa de Cronbach é de 0,655 e de 0,795; Negação das Necessidades de Vinculação os valores de alfa são de 0,651 e 0,608; e Individuação Bem Sucedida o valor de alfa é 0,691 e de 0,787. Estes valores revelam níveis de confi abilidade em cada uma das dimensões permitindo garantir a replicação das medidas dos constructos teóricos. Na execução da análise fatorial confi rmatória, na versão mãe, verifi cam-se índices de ajustamento adequados com CFI =0,986, RMESA = 0,042 e SRMR = 0,045; χ2(12) = 20,20; p = 0,06. A versão do pai, apresenta igualmente índices de ajustamento adequados: CFI = 0,983, RMESA = 0,062 e SRMR = 0,053; χ2 (12)=29,78; p=0,003. O COPE Inventory (Carver, Scheier, & Kumari Weintraub, 1989; adaptação de Cabral & Matos, 2004) trata-se de um questionário usado para medir o coping em adolescentes. O COPE é composto por uma escala tipo Likert de 6 pontos. Foi administrada a versão reduzida deste instrumento, constituído por 28 itens e distribuídos por 11 dimensões. Para a análise dos dados foram utilizadas apenas as dimensões Coping Ativo (2 itens), Negação (3 itens) e Uso de Suporte Social e Emocional (2 itens). O alfa de Cronbach na amostra recolhida apresenta valores esperados, com uma oscilação de consistência interna semelhante aos valores originais obtidos pelos autores: Coping Ativo - α = 0,583, Negação - α = 0,630 e Uso de Suporte Social e Emocional - α = 0,760. O instrumento apresenta bons índices de ajustamento nas análises fatoriais confi rmatórias: CFI = 0,933, RMESA = 0,072, SRMR = 0,079; χ2 (37) = 113,2; p=0,001. Para a recolha dos dados, foi ainda aplicado um questionário demográfi co composto pela identifi cação do adolescente e identifi cação escolar, assim como identifi cação familiar e estado civil dos pais. Procedimento e Estratégia de Análise de Dados Tratando-se de um estudo transversal, os dados foram recolhidos num único momento, recorrendo-se a sete escolas secundárias das regiões norte e centro de Portugal, em ensino regular e profi ssional. Após a autorização dos respectivos encarregados de educação, e obtenção do termo de consentimento livre e esclarecido, a aplicação do protocolo de investigação foi coletiva, sendo que todos os procedimentos éticos da pesquisa foram salvaguardados. O estudo faz parte de um projeto de investigação aprovado pelo Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Portugal. As repostas aos questionários ocorreram de uma forma anônima e autônoma,
Mota, C. P. 1120 ressalvando a confi dencialidade e salvaguardando o cariz voluntário da participação. Quando da aplicação dos questionários, explicou-se com clareza os objetivos do estudo, esclarecendo-se dúvidas e outros aspetos pertinentes. O tratamento dos dados foi realizado com o programa estatístico SPSS – Statistical Package for Social Sciences – na sua versão 20.0 para o sistema Windows. No sentido de identifi car e excluir missings e eventuais outliers realizou-se, de forma preliminar, uma limpeza da amostra. Para verifi car se os dados da amostra seguiam os pressupostos de normalidade foram analisados os valores de skeweness (assimetria) e kurtosis (achatamento), procedendo-se, concomitantemente, à realização de uma série de análises estatísticas que fornecem informação acerca da distribuição dos dados: teste de Kolmogorov-Smirnov, os gráfi cos de Histogramas, Q-QPlots, Scatterplots e Boxplots (Maroco, 2007; Pallant, 2001). Os valores calculados confi rmaram que a amostra em estudo cumpria os critérios de normalidade procedendo-se, neste sentido, a análises estatísticas mediante testes paramétricos. Na sequência dos objetivos propostos foram levadas a cabo análises de acordo valores de signifi cância de p < 0,05 para a interpretação dos dados. Destaca-se o recurso a análises correlacionais de Pearson, análises descritivas de médias e desvio padrão das variáveis em estudo, a análises de covariância multivariada (Mancova) para testagem de efeitos moderadores, e por último, pretendeu-se testar a presença de um efeito preditor entre as variáveis em estudo, recorrendo-se ao Modelo de Regressões Múltiplas Hierárquicas. Resultados Associação entre o Coping e a Individuação aos Pais No que se refere às associações entre as dimensões do coping e a individuação à mãe, as análises destacam que o Coping Ativo e o Uso de Suporte Social e Emocional se correlacionam de forma positiva, embora fraca, com a Individuação Bem Sucedida e negativamente com a Negação das Necessidades de Vinculação. Por outro lado, o estilo de coping Negação apresenta correlação positiva moderada com a Negação das Necessidades de Vinculação e uma correlação negativa com a Individuação Bem Sucedida (Tabela 1). No que diz respeito às associações entre as dimensões do coping e a individuação ao pai, destaca-se igualmente que o Coping Ativo e o Uso de Suporte Social e Emocional se correlacionam de forma positiva com a Manutenção do Laço e com a Individuação Bem Sucedida, denotando também uma correlação negativa, embora baixa, com a Negação das Necessidades de Vinculação. A dimensão de coping Negação revela associação signifi cativa positiva moderada com a Negação das Necessidades de Vinculação e uma correlação negativa fraca com a Individuação Bem Sucedida (Tabela 1). Tabela 1 Correlações de Pearson entre as Dimensões do Coping e a Individuação à Mãe e ao Pai MITA (Mãe) MITA (Pai) Manutenção do laço Negação das necessidades de vinculação Individuação bem sucedida Manutenção do laço Negação das necessidades de vinculação Individuação bem sucedida COPE Coping Ativo 0,070 -0,194** 0,150** 0,141** -0,221** 0,230** Negação -0,046 0,269** -0,185** -0,041 0,358** -0,110* Uso de suporte social e emocional 0,201** -0,280** 0,166** 0,249** -0,228** 0,258** *p< 0,05; **p< 0,01.
Individuação e Coping em Adolescentes de Famílias Tradicionais e Divorciadas 1121 Efeito Preditor da Individuação aos Pais no Coping Procedeu-se ainda à realização de análises de regressão múltipla hierárquica com o intuito de analisar o contributo da individuação no coping. Neste sentido, foram introduzidos vários blocos adicionando à análise o efeito preditor das variáveis: gênero, confi guração familiar, individuação à mãe e ao pai que foram sendo controladas na análise de regressão. No caso das variáveis gênero e confi guração familiar procedeu-se à criação de variáveis dummy para analisar efeitos das categorias (sendo as codifi cações zero para o gênero masculino e um para o gênero feminino; zero para famílias divorciadas/separadas e um para famílias tradicionais). Na análise de predição da dimensão do Coping Activo, duas variáveis apresentam contribuição signifi cativa, nomeadamente a Individuação Bem Sucedida (β = 0,241) e a Negação das Necessidades de Vinculação (β = -0,193) ao pai (Tabela 2). Na análise para a dimensão de coping Negação, apenas a variável Negação das Necessidades de Vinculação ao pai (β = 0,353) apresenta um contributo signifi cativo (Tabela 2). Por último, a análise para a dimensão do coping através do Uso de Suporte Social e Emocional, sugere a predição através do contributo signifi cativo das variáveis: género feminino (β = 0,165) e Negação das Necessidades de Vinculação à mãe (β = -0,196; Tabela 2). Efeito Moderador da Confi guração Familiar na Associação entre a Individuação aos Pais e o Coping De encontro aos objetivos do estudo, foram ainda realizadas análises de covariância multivariada (MANCOVAS) para verifi car o efeito moderador da confi guração familiar na associação entre a individuação e o coping. Para a realização desta análise, procedeu-se ao cálculo da média das dimensões da individuação à mãe e ao pai (MITA) e do coping (COPE), com o intuito de poder categorizar cada uma das dimensões em alto e baixo nível. No que se refere à individuação à mãe obteve-se uma média das dimensões Relatedness de M = 2,9, enquanto que para o pai a média foi de M = 2,7. Assim, os participantes que apresentam um elevado nível de individuação bem sucedida revelam uma média acima desses valores, enquanto os participantes que têm um baixo nível de individuação revelam média inferior ou igual aos respectivos valores. No COPE obteve-se uma média de Adaptação Social de M = 3,9, sendo que os participantes que apresentarem média superior a M = 3,9 desenvolvem estratégias mais adaptadas de coping, encontrando-se melhor adaptados socialmente, enquanto que aqueles que apresentem média menor ou igual a 3,9 revelam maiores difi culdades de adaptação psicossocial. Nesta análise verifi - cou-se a inexistência de um efeito moderador da Confi guração Familiar, Fmãe(5,294) = 0,406; p = 0,845; Fpai(5,363) = 0,759; p = 0,580, para mãe e pai respectivamente. Portanto verifi cou-se que a individuação é melhor preditora do coping independentemente da confi guração familiar nesta associação. Discussão De acordo com os objetivos do presente estudo analisou-se a existência de associações entre a individuação e o coping, assim como o contributo da individuação no desenvolvimento do coping, sendo testado ainda o efeito moderador da confi guração familiar na associação anterior. Neste sentido, verifi cou-se a existência de associações entre a individuação à mãe e ao pai com as dimensões relativas ao coping. No que se refere à dimensão Manutenção do Laço tanto na versão mãe como para o pai encontra-se associada de forma positiva ao Uso de Suporte Social e Emocional. Sendo que na versão pai a Manutenção do Laço encontra-se também associada de forma positiva com o Coping Ativo. A manutenção do laço diz respeito ao desejo de proximidade física e emocional, bem como procura de apoio (Kruse & Walper, 2008), indo de encontro à estratégia de coping que apela à necessidade de obter apoio moral. Assim, a existência de ligações signifi cativas e estáveis com os pais leva o adolescente a se sentir mais seguro (Amato & Sobolewski, 2001) e que se sinta confi ante para procurar esse apoio. De acordo com Ainsworth (1969) e Bowlby (1988), a proximidade física e
Mota, C. P. 1122 Tabela 2 Análise de Regressão Múltipla Hierárquica para o Coping R2R2Change BSEβp COPING ACTIVO Bloco 1 Gênero (dummy) 0,007 0,007 Bloco 2 Confi guração Familiar (dummy) 0,011 0,004 Bloco 3 – MITA (mãe) 0,054 0,043 Individuação Bem Sucedida Neg. Necessidades de Vinculação Manutenção do Laço Bloco 4 – MITA (pai) 0,083 0,029 Individuação Bem Sucedida 0,297 0,119 0,241 0,013 Neg. Necessidades de Vinculação -0,281 0,128 -0,193 0,029 Manutenção do Laço NEGAÇÃO Bloco 1 Gênero (dummy) 0,008 0,008 Bloco 2 Confi guração Familiar (dummy) 0,008 0,000 Bloco 3 – MITA (mãe) 0,095 0,087 Individuação Bem Sucedida Neg. Necessidades de Vinculação Manutenção do Laço Bloco 4 – MITA (pai) 0,138 0,042 Individuação Bem Sucedida Neg. Necessidades de Vinculação 0,633 0,153 0,353 0,001 Manutenção do Laço SUPORTE SOCIAL E EMOCIONAL Bloco 1 Gênero (dummy) 0,039 0,039 0,402 0,120 0,165 0,001 Bloco 2 Confi guração Familiar (dummy) 0,040 0,001 Bloco 3 – MITA (mãe) 0,126 0,086 Individuação Bem Sucedida Neg. Necessidades de Vinculação -0,372 0,164 -0,196 0,024 Manutenção do Laço Bloco 4 – MITA (pai) 0,142 0,016 Individuação Bem Sucedida Neg. Necessidades de Vinculação Manutenção do Laço
Individuação e Coping em Adolescentes de Famílias Tradicionais e Divorciadas 1123 emocional criada entre a fi gura cuidadora poderá facultar sentimentos de segurança traduzindo-se também na consciencialização de que perante as angústias sentidas poderá socorrer-se dessa fi gura signifi cativa, permitindo-lhe uma exploração do meio menos inibida, desenvolvendo a sua autonomia. Assim, experiências de qualidade num contexto familiar favorável proporciona uma individuação bem sucedida, sendo que a segurança desenvolvida no seio da relação materna pode estar associada ao desenvolvimento de estratégias de coping mais adaptativas e funcionais. Buhl (2008b) enfatiza esta ideia de que a qualidade das ligações com as fi guras parentais conduz a sentimentos de afeição e estabilidade que levam ao processo de individuação. A relação inicial estabelecida com os cuidadores primários parece, assim, ligar-se fortemente com o desenvolvimento emocional e relacional dos adolescentes, fornecendo-lhe recursos para fazer face aos eventos geradores de stress. A dimensão Individuação Bem Sucedida refere-se à capacidade do indivíduo manter o equilíbrio nas suas relações signifi cativas em termos de autonomia e proximidade (Kruse & Walper, 2008). Tanto na versão mãe como para o pai, esta dimensão surge associada de forma positiva com todas as dimensões positivas do coping (Coping Ativo e Uso de Suporte Social e Emocional) e de forma negativa com a dimensão negativa do coping (Negação). A individuação bem sucedida apresenta-se estreitamente relacionada com a qualidade da vinculação estabelecida com as fi guras signifi cativas de afeto. Assim, na contingência de um evento stressor essas fi guras poderão constituir uma fonte de apoio moral, compreensão, verifi cando-se nesta medida uma associação entre todas as dimensões, assim como, dependendo da relação estabelecida com essas fi guras signifi cativas poderá desenvolver ou não estratégias de coping mais adaptativas e funcionais. A partir da perceção que os adolescentes têm das suas fi guras parentais, como sendo modelos de vinculação disponíveis e responsivos vão criando uma imagem de si como sendo fi guras queridas e amadas conduzindo a um processo de separação-individuação mais bem sucedido. Por outra parte, se os jovens não se sentem seguros poderão desenvolver estratégias menos adaptativas como evitar encarar ou rejeitar os acontecimentos. A existência de interações negativas e indisponibilidade parental pode conduzir à não perceção das necessidades emocionais dos adolescentes, podendo recriar nos mesmos uma insegurança interna (Harold et al., 2013). De acordo com Marcelli e Braconnier (2005) o processo de individuação parece modifi car o equilíbrio entre a vinculação e a autonomia, o qual se encontra associado ao sentimento de segurança desenvolvido pelos adolescentes e da forma como se encontram preparados para a tarefa de individuação. Os laços emocionais criados precocemente irão assim facultar ao adolescente maior confi ança e segurança permitindo-lhe uma individuação bem sucedida (van Wel, ter Bogt, & Raaijmakers, 2001), facilitando o desenvolvimento de melhores estratégias na resolução de situações geradoras de stress (Arndt & Goldenberg, 2002). É durante a adolescência que se desenvolvem habilidades de coping (construídas a partir de experiências precoces) que serão aplicadas na interpretação e gestão das situações de stress no futuro (Seiffge- -Krenke & Beyers, 2005). Assim, os adolescentes adotam estratégias de coping mais adaptativas consoante as representações mentais criadas com base nas experiências precoces de vinculação. A capacidade dos adolescentes para lidarem com o processo de divórcio pode depender da relação estabelecida dos pais enquanto cônjuges e pais (Mota & Matos, 2013). Assim, a forma como os adolescentes encaram o divórcio está associado à forma como os pais gerem os confl itos na sua própria relação conjugal e com a disponibilidade pessoal que assumem na relação como fi lhos (Hack & Ramires, 2010). Ainda nos resultados observados, a Negação das Necessidades de Vinculação traduz certa retratividade na procura de apoio por parte dos adolescentes (Kruse & Walper, 2008), sendo que no presente estudo, a versão mãe e pai se encontram associados de forma negativa com as dimensões positivas do coping (Coping Ativo e Uso de Suporte Social e Emocional); enquanto que com a dimensão Negação do coping apresenta uma associação positiva. Desta forma, su-