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Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada

Cátia Sofia Pastor da Costa

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I Agradecimentos Aos meus orientadores, Professora Doutora Maria Daniel Vaz de Almeida e Mestre Rui Poínhos pelo apoio e orientação ao longo deste estudo. À minha família por estar sempre presente, por todo o apoio e incentivo. Aos meus amigos pelo companheirismo e força ao longo deste projeto e dos anos. II Índice Página Agradecimentos …………………………………………………………………….I Lista de abreviaturas……………………………………………………………….V Resumo ……………………………………………………………………………VI Abstract…………………………………………………………………………..VIII Introdução ................................................................................................................. 1 Doenças crónicas não transmissíveis ...................................................................... 2 Nutrição personalizada ............................................................................................ 5 Metodologia ............................................................................................................. 12 Amostra ................................................................................................................. 13 Questionário .......................................................................................................... 15 Análise de dados ................................................................................................... 17 Resultados................................................................................................................ 18 Discussão.................................................................................................................. 25 Bibliografia .............................................................................................................. 30 III Índice de tabelas Página Tabela 1: Frequência de participantes de acordo com o sexo………………………... 13 Tabela 2: Frequência de participantes de acordo com o grupo etário………………... 14 Tabela 3: Frequência de participantes de acordo com a escolaridade………………... 14 Tabela 4: Frequência de participantes de acordo com o rendimento familiar anual total de todas as fontes de renda do domicílio………………………………………..……. 14 Tabela 5: Frequência de participantes de acordo com a região de residência………... 15 Tabela 6: Comparação das variáveis relacionadas com a NP entre sexos….………... 19 Tabela 7: Associação entre as variáveis relacionadas com o NP e o rendimento.…… 20 Tabela 8: Associação entre as variáveis relacionadas com a NP e a idade e escolaridade……………………………………………………………………...……. 21 Tabela 9: Comparação das variáveis relacionadas com a NP entre regiões.……….… 22 Tabela 10: Comparação entre pares de regiões para a atratividade dos níveis 2 e 3 de NP (diferenças de médias apresentadas em módulo) ………………………………... 24 IV Índice de figuras Página Figura 1: Gráfico da mortalidade em Portugal no ano de 2008 (WHO) ….…….…… 4 Figura 2: Gráficos das médias da evolução da pressão arterial, do índice de massa corporal, dos níveis de glicose no sangue e do colesterol (WHO) …………………... 4 Figura 3: Disposição de certas doenças relativamente às suas relações com genética e nutrição (Sizer et al., 2012)……………………………………………………….…. 6 V Lista de abreviaturas DP Desvio Padrão IMC Índice de Massa Corporal WHO World Health Organization DCNT Doenças Crónicas Não Transmissíveis NP Nutrição personalizada VI Resumo Introdução: O excesso de peso é o quinto risco global de mortes. Pelo menos 2,8 milhões de adultos morrem todos os anos como resultado do excesso de peso. Destes, 44% são devidos a diabetes, 23% a doenças cardiovasculares e entre 7% e 41% de determinados tipos de cancro, ou seja, de doenças crónicas não transmissíveis. Sendo que o risco para essas doenças aumenta com o aumento do Índice de Massa Corporal é crucial o conhecimento do consumidor sobre quais alimentos escolher. Uma das soluções futuras a investir é a nutrição personalizada. Objetivos: O principal objetivo deste estudo é identificar as necessidades dos consumidores portugueses, intenção e preferências destes relativamente à informação da nutrição personalizada, assim como perceção de riscos e benefícios e as atitudes face aos diferentes tipos de serviços. Metodologia: Desenvolveu-se e aplicou-se um questionário quantitativo a uma amostra de 1148 participantes. Deste questionário foram selecionadas variáveis de maneira a obter informação sobre as atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada. As variáveis escolhidas para o presente estudo foram os riscos, benefícios, atitudes, intenção e os tipos que a nutrição personalizada pode tomar. Resultados e Discussão: Portugueses do sexo feminino concordam mais com os benefícios relativos à nutrição personalizada do que os do sexo masculino, sendo estes últimos os que mais concordam com os riscos associados a esta nutrição. Portugueses com um maior rendimento anual consideram haver poucos riscos de nutrição personalizada e por consequente acham esta nutrição mais interessante e valiosa. Maior escolaridade significa maior conhecimento sobre os benefícios e uma maior intenção de adotar esta nutrição. A única região em Portugal que se destaca relativamente a dois dos tipos de nutrição personalizada é os Açores, onde se encontram os habitantes que consideram mais apelativa a nutrição personalizada. VII Considerando que nos últimos anos Portugal registou um aumento da média do índice de massa corporal, a adoção de uma nutrição personalizada pela população portuguesa seria uma mais-valia para a prevenção das doenças crónicas não transmissíveis, assim como para a prevenção da obesidade infantil e consequente obesidade em adultos. Este projeto estudou as atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada, tanto para se saber a posição destes relativamente a esta nutrição como para ajudar em pesquisas futuras. As conclusões a tirar deste estudo passam por saber que os consumidores portugueses consideram apelativa a nutrição personalizada e estariam dispostos a adota-la. Palavras-chave: Doenças crónicas não transmissíveis, nutrição personalizada, nutrigenómica, nutrigenética, alimentação Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 5 Através da Figura 2 podemos concluir que a evolução da população portuguesa para a pressão arterial diminuiu ao longo dos anos, notando-se uma maior evolução para o sexo feminino. Já os níveis de glicose no sangue assim como o índice de massa corporal tendeu a subir ao longo dos anos, tanto para o sexo masculino como para o sexo feminino, havendo uma diminuição dos níveis de colesterol para ambos os sexos. Assim, apesar de alguns fatores de risco das DCNT terem diminuído favoravelmente ao longo dos últimos anos, este tipo de doenças ainda continua a ser a grande causa de mortes em Portugal e alguns desses fatores de risco tenderam a evoluir de forma negativa. Sendo assim, é necessário encontrar soluções para a diminuição destes riscos e consequente prevenção deste tipo de doenças. Sabendo que a relação entre a alimentação e saúde depende, em grande parte, do conhecimento do consumidor sobre quais alimentos escolher (Sizer et al., 2012) uma das soluções futuras a investir é a nutrição personalizada (NP) (Alwan et al., 2011). Nutrição personalizada Todos os alimentos que consumimos e todos os nutrientes que absorvemos a partir do nosso trato gastrointestinal têm benefícios ou riscos potenciais. O nosso estado nutricional pode ajudar a combater uma doença ou, inversamente, tornar-nos mais suscetíveis a ela. A nutrição tem-se centrado na análise desses benefícios e riscos, e os nutricionistas estão continuamente à procura da alimentação que irá proporcionar à população uma saúde ótima (Hesketh et al., 2006). Ao longo dos últimos 25 anos, tem havido um aumento da aplicação de conceitos de biologia molecular em estudos de componentes alimentares e nutrientes essenciais como fatores no controlo da expressão dos genes. Por exemplo, aproximadamente 20 genes diferentes têm sido identificados em causas monogénicas de obesidade; contudo, eles representam menos de 5% de todos os casos graves de obesidade. Este resultado sugere que a base genética para a obesidade humana é muito heterogénea, com uma baixa contribuição de inúmeros genes, que atuam em muitos mecanismos moleculares (Martínez et al, 2008). Outro exemplo é o caso do ácido fólico. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 6 Vários estudos epidemiológicos têm demonstrado uma correlação entre a deficiência de ácido fólico e um aumento de risco de cancro, em especial o cancro colo - retal. Há muito que se conhece a ação do ácido fólico na prevenção dos defeitos do tubo neural assim como, mais recentemente, na regulação dos níveis séricos de homocisteína e consequentemente de diminuição do risco de doenças cardiovasculares. Os folatos não são sintetizados pelos seres humanos, e portanto, a alimentação assume um papel fulcral no aporte e manutenção dos níveis séricos de folatos no organismo, que, por sua vez, depende de interações gene - nutriente (Logan et al., 2008; Figueiredo et al., 2009). Ou seja, existe uma relação entre nutrição/alimentação e os genes relativamente a doenças. Através da Figura 3 podemos ver que existem doenças exclusivamente hereditárias, doenças que apenas dependem da nutrição, isto é, da alimentação do individuo, e doenças cuja causa pode ser determinada por alimentação, pela constituição genética do individuo ou mesmo por estes dois fatores em conjunto (Sizer et al., 2012). A síndrome de Down, hemofilia e anemia falciforme são doenças exclusivamente hereditárias, e por exemplo, a anemia, deficiência de vitaminas e certos minerais, toxicidade e uma fraca resistência a doenças têm uma maior relação com a alimentação do individuo. Mas certas doenças como certos tipos de cancro, diabetes e doenças cardiovasculares, ou seja, DCNT, dependem tanto da genética como da alimentação, isto é, da interação nutrição - gene. Assim sendo, uma dieta baseada em informação sobre o que comer de acordo com a composição genética do individuo seria uma vantagem para a prevenção deste tipo de doenças (Sizer et al., 2012). O desenvolvimento humano é claramente definido por influências ambientais (por exemplo, alimentação, tabagismo, atividade física) e da hereditariedade, indicando que ambos devem ser considerados quando se pretende otimizar a saúde. No entanto, apesar Figura 3. Disposição de certas doenças relativamente às suas relações com genética e nutrição (Sizer et al., 2012). Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 7 dessa aceitação, os projetos experimentais são muitas vezes específicos para um fator, isto é, são analisados ou genes ou ambiente , mas não ambos simultaneamente (Kaput, 2008). Em termos científicos, a compreensão dos processos moleculares e metabólicos afetados por alimentos, não só contribui para a compreensão dos mecanismos de saúde e doença, mas também pode aumentar a validade preditiva de avaliar a composição genética para a suscetibilidade à saúde e à doença (Mutch et al., 2005). Estima-se que os fatores genéticos podem contribuir para entre 40 a 70% da variação na adiposidade humana, o que significa que a NP com base na genética é uma mais-valia para uma redução de peso e consequente melhoria do estado de saúde. (Chung e Leibel, 2008). A genómica estuda a interação dos genes com fatores ambientais como alimentação, tabagismo e inatividade física (Conti et al., 2010). A genómica nutricional estuda a interação dos genes com a alimentação, utilizando, no seu conceito global, dois termos: nutrigenética e nutrigenómica (Steemburgo et al., 2009). A nutrigenética compreende o modo como a composição genética de um certo individuo coordena a sua resposta à alimentação e consequente receção de nutrientes, ou seja, nutrigenética identifica e caracteriza os genes associados a diferentes respostas ao mesmo nutriente. Tornando, desta maneira, possível gerar recomendações nutricionais ao individuo de acordo com os riscos ou benefícios de certa alimentação segundo as suas características genéticas. Por outro lado, a nutrigenómica estuda a influência dos nutrientes, provenientes de ingredientes alimentares, sobre a expressão dos genes (Mutch et al., 2005; Steemburgo et al., 2009; Gaboon, 2011). Esta estabelece os efeitos dos nutrientes ingeridos e outros componentes alimentares na expressão do gene e regulação do gene, isto é, para estudar a interação alimentaçãogene, a fim de identificar os componentes alimentares que tenham efeitos benéficos ou prejudiciais para a saúde. Também irá determinar as necessidades nutricionais individuais com base na composição genética individual, ou seja, permite uma alimentação personalizada (German, 2005). Do ponto de vista da nutrigenómica, o alimento é, em primeiro lugar, explicado em termos de prevenção da doença, em segundo lugar, a saúde é vista como uma interação entre nutrientes e genes, e em terceiro lugar, supõe-se que os indivíduos precisam e são capazes de minimizar os seus riscos pessoais de saúde por terem conhecimento e agirem sobre todos os efeitos complexos que os alimentos possam ter no organismo. Juntas, Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 8 essas hipóteses sugerem que o viver saudável, minimizando os riscos à saúde, deve ser uma prioridade importante na vida de todos os seres humanos (Komduur et al., 2009). Apesar de esta ser uma área relativamente nova de pesquisa, também é reconhecido que o genótipo determina a escolha dos alimentos, apetite e saciedade, e, portanto, a ingestão de nutrientes. Além de fornecer uma visão da etiologia da doença e a influência da nutrição sobre os processos metabólicos, o objetivo da investigação em nutrigenética é, usar perfis genéticos para a deteção precoce do risco de doença e a personalização de recomendações dietéticas prestadas a pessoas ou subgrupos populacionais. Não menos importante é referir que para se realizarem testes genéticos os indivíduos têm de disponibilizar uma amostra de sangue (Mizuta et al., 2008; Wardle et al., 2008). Desde a introdução de técnicas de genómica, têm sido realizados diversos estudos em humanos para examinar as diferenças fenotípicas entre doença e saúde, com o objetivo de melhorar o diagnóstico precoce e aumentar a compreensão dos mecanismos subjacentes à doença ou mesmo investigar a eficácia farmacológica na modulação da progressão da doença. Recentemente, essas técnicas têm sido também aplicadas para obter mais conhecimento sobre alterações metabólicas, fisiológicas ou dietéticas na regulação dos genes de transcrição em seres humanos (Kleemann et al., 2010; Centis et al., 2010; Yki-Järvinen, 2010). As pesquisas de NP estavam, até recentemente, ainda muito focadas em questões relacionadas com a deficiência de nutrientes e estados de saúde e de doença devido a hábitos alimentares inadequados. As novas tecnologias relativas à investigação nutrigenómica criaram oportunidades para aumentar a compreensão dos consumidores sobre nutrientes e como estes modulam a expressão genética (Feero e Guttmacher, 2010). A opinião dos consumidores ajuda a compreender até que ponto a NP é e poderia vir a ser aceite pela sociedade e o nível de conhecimento dos consumidores sobre o assunto. É de realçar que a aceitação é parte fundamental nas atitudes dos consumidores sobre este tema (Su e Lu, 2012). Para os consumidores a nutrigenómica só será aceite se estes considerarem importantes para si ou para o avanço da ciência nutricional, mas também fatores como o preço, a facilidade de implementação, benefícios e, principalmente, que possuem opção de escolha face ao uso desta tecnologia (Ronteltap et al., 2009). Um exemplo de uma boa aceitação é o povo asiático, que se mostrou muito recetivo a aceitar a Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 9 nutrigenómica, mas confiam mais nos profissionais das clinicas ou hospitais para obtenção da amostra de sangue do que neles próprios em casa. No entanto, não se demonstra que os consumidores com maior acesso à internet tenham maior predisposição a realizar os testes genéticos via internet. Os indivíduos com maior poder económico são os mais propensos a aceitar e adotar este tipo de serviço, sendo também os que possuem maior conhecimento sobre o tema (McBride et al., 2009; Su e Lu 2012). Apesar de a NP ser ainda um tema em investigação, várias pesquisas já foram publicadas nesta área. O estudo de Nielsen e El-Sohemy (2012) verificou que mais de metade dos participantes nunca tinham ouvido falar de testes genéticos ou de nutrigenómica. Ainda assim, a maioria estava interessada na relação entre alimentação e genes e considerava que beneficiaria em saber mais sobre o tema. Apesar da boa adesão à obtenção de mais conhecimentos da sua composição genética através de testes genéticos, uma pequena percentagem dos participantes acredita que ficaria desconfortável em saber esse tipo de informação. Estas opiniões devem ser valorizadas considerando a influência da necessidade de disponibilização de amostras de sangue pelos consumidores (Nielsen e El-Sohemy 2012). Um dos objetivos da aplicação da NP é a prevenção de DCNT ou a diminuição dos fatores agravantes deste tipo de doenças. Um estudo em consumidores holandeses com doenças crónicas mostrou que grande maioria (70-80%) aprova os testes genéticos e considera a investigação destes favoráveis para o tratamento de doenças no futuro. Apesar de um quarto dos participantes no estudo se mostrarem receosos face a este tipo de testes grande parte manteve-se interessada em realizá-los. Este estudo mostrou ainda que maiores níveis de conhecimento sobre testes genéticos estão associados a uma atitude mais favorável face a estes (Morren et al., 2007). As mulheres com um nível de educação alto são as mais recetivas a aceitar os testes genéticos com o intuito de ficar a conhecer os riscos de possíveis doenças. Isto é demostrado, por exemplo, num estudo russo onde se verifica, também, que 88,5% dos participantes se prontificam a mudar os maus hábitos para um estilo de vida mais saudável segundo uma alimentação recomendada caso os resultados dos testes genéticos mostrem um elevado risco de doença. Os russos revelam-se uma das populações mais otimistas relativamente à nutrigenómica ao acreditarem que o conhecimento genético Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 10 vai ajudar as pessoas a viver mais tempo, a controlar com maior facilidade um estilo de vida mais saudável e acreditam ser essencial atribuir mais fundos monetários à investigação genética para um futuro mais evoluído (Makeeva et al., 2009). Uma outra perspetiva importante é a dos profissionais de saúde. Os profissionais holandeses concordam que a definição de nutrigenómica é a relação entre genes e alimentação. A maioria destes acredita que a nutrigenómica se baseia na compreensão do funcionamento do genoma humano por si só, enquanto os restantes são da opinião que se trata do estudo dos alimentos em interação com os genes. Como já referido, a aplicação mais comum desta tecnologia é a NP, mas outras são consideradas igualmente importantes como, por exemplo, aconselhamento sobre o estilo de vida a adotar. Ao comparar a opinião dos profissionais de saúde com a da população verificam-se algumas diferenças. Para os consumidores a nutrigenómica passa pelo estudo dos alimentos e da nutrição de modo a melhorar a saúde, alimentos biológicos, alimentos geneticamente modificados ou mesmo prevenção de deficiência de nutrientes no organismo. Os profissionais de saúde definem nutrigenómica mais especificamente dizendo que se trata da ligação entre genes e alimentação e como cada um destes influencia o outro, também como estes melhoram o estado de saúde e previnem as doenças (Ronteltap et al., 2007; Morin, 2009). Entre os profissionais de saúde do Canadá não houve concenso relativamente a qual é mais adequado para receber um paciente para serviços de genómica nutricional. Com a exceção de alguns dietistas a maioria desconhecia este tema e não se sentia confortável no aconselhamento de um paciente aquando necessário interpretar os resultados de um teste genético. Grande parte acredita que é necessário mais formação nesta área para melhor desempenho profissional (Weir et al., 2010). A NP, como referido, é um tema recente, sendo poucas as pesquisas realizadas nesta área. As investigações realizadas em Portugal proveem essencialmente do projeto Lipgene (Nugent, 2005). O Lipgene é um projeto europeu que efetuou, entre 2004 e 2009, entre outros aspetos, uma análise quantitativa e qualitativa das atitudes dos consumidores face ao síndrome metabólico, à nova tecnologia agro - alimentar e ao uso da nutrigenómica na NP (Nugent, 2005). Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 11 Um dos estudos deste projeto mostrou que os alimentos que os portugueses mais aceitariam geneticamente modificados são o leite, as carnes vermelhas e a manteiga, sendo que nos restantes alimentos Portugal manteve uma percentagem muito próxima das mais altas (O’Brien et al., 2012). Do total de participantes do Lipgene, dois terços estariam dispostos a fazer um teste genético para saber o risco relativo às doenças cardiovasculares e diabetes tipo II. Destes, 37% faria o teste apenas por interesse genético e 28% para poder seguir uma alimentação mais adequada às suas necessidades (de Almeida et al., 2006). O presente estudo enquadra-se no projeto europeu Food4Me, financiado pela União Europeia, que envolve vários países entre os quais: Portugal, Polónia, Noruega, Grécia, Holanda, Espanha, Alemanha, Irlanda e Reino Unido (Fodd4Me, 2011). É constituído por um grupo internacional de especialistas com o objetivo de examinar o conhecimento atual da nutrição personalizada em cada país, e explorar a aplicação de aconselhamento nutricional individualizado. O projeto Food4Me investiga, também, as atitudes dos consumidores face à nutrição personalizada, o que constitui o objeto do presente estudo. O principal objetivo deste estudo é identificar as opiniões, atitudes e perceções de riscos e benefícios dos consumidores portugueses relativamente à NP. Pretende-se igualmente relacionar esses fatores com variáveis sociodemográficas, nomeadamente com o sexo, idade, escolaridade, rendimento e região de residência dos inquiridos. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 12 Capítulo 2 Metodologia Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 13 Metodologia Amostra Compõem a amostra 1148 participantes selecionados através de uma empresa de estudos de mercado. A escolha foi feita de modo a obter uma amostra representativa da população portuguesa quanto a sexo, idade, escolaridade, rendimento e região de acordo com os dados dos Censos de 2011, sendo para esse efeito utilizados também fatores de ponderação. Os resultados serão apresentados para a amostra ponderada pelo que não se apresentam frequências absolutas, mas apenas relativas. Do total de participantes quinhentos e sessenta e oito são do sexo masculino e quinhentos e oitenta do sexo feminino (Tabela 1), divididos em quatro grupos etários (Tabela 2). Nas tabelas 3 a 5 encontram-se descritas as restantes características da amostra (escolaridade, rendimento e região de residência). É de referir que não existem dados de comparação com a população portuguesa relativamente ao rendimento e que que as percentagens da população portuguesa estão calculadas em função do total da população entre os 18 e 65 anos para o grupo etário. Sexo n % População portuguesa % Masculino 568 49,5 47,8 Feminino 580 50,5 52,2 Total 1148 100 100 Tabela 1:Frequência de participantes de acordo com o sexo. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 14 A escolaridade foi caracterizada em baixa, média e alta (Tabela 3). Escolaridade n % População portuguesa % Baixa 286 24,9 66,9 Média 435 37,9 16,8 Alta 427 37,2 16,3 Total 1148 100 100 Rendimento n % 0€ – 2.000€ 131 11,4 2.001€ – 4.000€ 48 4,2 4.001€ – 6.000€ 39 3,4 6.001€ – 8.000€ 49 4,3 8.001€ – 10.000€ 71 6,2 10.001€ – 12.000€ 92 8,0 Grupo etário n % População portuguesa % 18 – 29 anos 273 23,8 21,7 30 – 39 anos 295 25,7 23,6 40 – 54 anos 400 34,8 33,5 55 – 65 anos 180 15,7 21,2 Total 1148 100 100 Tabela 2:Frequência de participantes de acordo com o grupo etário. Tabela 3:Frequência de participantes de acordo com a escolaridade. Tabela 4: Frequência de participantes de acordo com o rendimento familiar anual total de todas as fontes de renda do domicílio. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 21 Idade Escolaridade Riscos ρ - 0,057 - 0,137 p 0,036 <0,001 Benefícios ρ - 0,075 0,168 p 0,006 <0,001 Atitudes ρ 0,018 0,109 p 0,502 <0,001 Intenção ρ - 0,003 0,059 p 0,921 0,031 Nível 1Atratividade da NP baseada em: informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz ρ - 0,040 0,097 p 0,144 <0,001 Nível 2Atratividade da NP baseada em: uma análise ao sangue para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz ρ - 0,038 - 0,001 p 0,165 0,983 Nível 3Atratividade da NP baseada em: uma análise ao ADN para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz ρ - 0,101 0,049 p <0,001 0,072 Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 22 Tabela 9: Comparação das variáveis relacionadas com a NP entre regiões. A comparação das variáveis relacionadas com NP entre regiões é apresentada na tabela 9. Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Alentejo Algarve Madeira Açores p Riscos Média 2,47 2,52 2,38 2,32 2,31 2,46 2,09 0,100 DP 0,90 0,87 0,84 0,96 0,73 0,56 0,97 Benefícios Média 3,60 3,52 3,59 3,54 3,73 3,57 3,69 0,531 DP 0,71 0,75 0,73 0,78 0,65 0,59 0,73 Atitudes Média 3,56 3,51 3,58 3,67 3,72 3,55 3,61 0,257 DP 0,61 0,64 0,59 0,60 0,68 0,55 0,77 Intenção Média 3,16 3,11 3,15 3,11 3,30 3,19 3,43 0,377 DP 0,74 0,71 0,81 0,82 0,66 0,68 0,75 Nível 1Atratividade da NP baseada em: informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz Média 3,37 3,40 3,50 3,36 3,50 3,41 3,68 0,237 DP 0,84 0,81 0,86 0,90 0,86 0,63 0,96 Nível 2Atratividade da NP baseada em: uma análise ao sangue para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz Média 3,35 3,35 3,42 3,20 3,43 3,26 3,96 0,015 DP 0,89 0,91 0,94 0,98 0,90 0,93 0,71 Nível 3Atratividade da NP baseada em: uma análise ao ADN para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz Média 3,11 3,04 3,13 2,96 3,48 3,05 3,81 0,003 DP 1,04 1,02 1,09 1,07 1,18 1,11 1,20 Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 23 Não se verificam diferenças significativas entre os riscos, benefícios, escalas, intenção e nutrição baseada apenas em informação entre as regiões de Portugal. Já quanto ao interesse dos consumidores nos níveis 2 e 3 de NP existem diferenças significativas. A tabela 10 apresenta os testes post-hoc para comparação de pares de regiões para estas duas variáveis. Verifica-se que tanto para o nível baseado numa amostra ao sangue como para o baseado numa amostra ao ADN a única região que se diferenciou foram os Açores, região que apresenta maior aceitação destes níveis. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 24 Tabela 10: Comparação entre pares de regiões para a atratividade dos níveis 2 e 3 de NP (diferenças de médias apresentadas em módulo). Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Alentejo Algarve Madeira Açores Nível 2Atratividade da NP baseada em: uma análise ao sangue para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz Diferença entre médias Norte Centro 0,00 Lisboa e Vale do Tejo 0,08 0,07 Alentejo 0,15 0,15 0,22 Algarve 0,08 0,08 0,01 0,23 Madeira 0,09 0,09 0,16 0,06 0,17 Açores 0,61 0,61 0,54 0,76 0,53 0,70 Nível 3Atratividade da NP baseada em: uma análise ao ADN para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz Diferença entre médias Norte Centro 0,06 Lisboa e Vale do Tejo 0,03 0,09 Alentejo 0,15 0,08 0,17 Algarve 0,37 0,44 0,35 0,52 Madeira 0,06 0,01 0,09 0,09 0,43 Açores 0,70 0,77 0,67 0,85 0,33 0,76 Nota: Assinalam-se a negrito as diferenças estatisticamente significativas. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 25 Capítulo 4 Discussão Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 26 Discussão Os conhecimentos científicos atuais revelam que a NP, isto é, a adequação da alimentação/nutrição, às características genéticas dos indivíduos, pode desempenhar um papel importante na prevenção de inúmeras doenças e no tratamentos, nomeadamente as crónicas não transmissíveis. No entanto, a adoção de novas abordagens preventivas e/ou terapêuticas depende da sua aceitação pelos cidadãos. Neste estudo verifica-se que os consumidores portugueses, mostraram-se interessados em adotar a nutrição personalizada, havendo um maior entusiasmo por parte das mulheres do que dos homens. As mulheres consideram existir mais benefícios e apresentam atitudes mais favoráveis face à NP do que os homens, tendo elas uma maior intenção de adotar esta nutrição. A população com um maior rendimento e escolaridade foi a que mostrou atitudes mais favoráveis face a NP, concordando menos com os riscos associados a esta nutrição e tendo uma maior intenção de a adotar. Em contrapartida os consumidores com menor idade consideram existir mais riscos e menos benefícios. Os Açores foi a única região que se diferenciou das outras, mostrando um maior interesse na nutrição personalizada. Relativamente aos três níveis que a nutrição personalizada pode tomar verificou-se haver diferenças entre sexos, idade, escolaridade e região. Ao comparar os resultados do presente estudo com estudos já realizados na área verificaram-se várias concordâncias assim como algumas discrepâncias. Um estudo em consumidores europeus mostrou que os potenciais utilizadores de uma nutrição personalizada são motivados por uma gestão da saúde, tanto em prevenção de doenças como diminuição dos sintomas associados a uma doença pré-existente; pela aparência pessoal, ou seja, ganho ou perda de peso ou músculo; e pela melhoria do desempenho atlético. Também concluiu que, para os consumidores, a qualidade do serviço da nutrição personalizada está relacionado com o preço a pagar pelo mesmo, para eles pagar por este serviço está associado a uma maior probabilidade de alcançar os benefícios pretendidos assim como uma maior segurança na proteção dos dados (Stewart-Knox et al., 2013) Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 27 Também o presente estudo mostrou que os consumidores com um maior rendimento consideram existir menos riscos associados a NP e consequentemente apresentam atitudes mais favoráveis face à NP. Assim como Makeeva et al., também os resultados deste trabalho sugeriram que o sexo feminino está mais disposto a adotar uma nutrição personalizada e tem intenção de o fazer, e que mulheres com um nível de educação superior consideram existir mais benefícios desta nutrição e têm uma maior intenção em adotar este serviço. Quanto maior a escolaridade dos consumidores mais favoráveis atitudes apresentam. Assim como a população russa (Makeeva et al., 2009), também os portugueses se revelam otimistas relativamente aos serviços da nutrição personalizada pois estão cientes dos respetivos benefícios. Relativamente a esses benefícios, como a prevenção de DCNT, um estudo em consumidores holandeses mostrou que cerca de 80% dos participantes aprova a realização de testes genéticos com o fim de ajudar a prevenir doenças no futuro (Morre n et al., 2007). Um estudo de Nielsen e El-Sohemy (2012) verificou que a maioria dos participantes estava interessada na relação entre alimentação e genética e considerava que beneficiaria em saber mais sobre o tema. A população portuguesa com mais escolaridade, a maioria sexo feminino, tem um maior conhecimento sobre os benefícios da nutrição personalizada. Apesar de ser a população com um maior nível educacional a considerar haver mais benefícios, os consumidores com mais idade são os que menos consideram. Um estudo em consumidores Europeus mostrou, dos países participantes (Portugal, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e Polonia) que Portugal é o país com maior percentagem de interesse em fazer um teste genético (48,5%), e maior percentagem quando se trata de saber se está geneticamente em risco, considerando bom saber esta informação (66,1%). O estudo mostrou também que a população portuguesa não é das mais interessadas em fazer um teste genético com o intuito de seguir uma nutrição personalizada mas apenas saber se está em risco, sendo também a população que menos acredita que mudando apenas o estilo de vida é suficiente para obter benefícios (2,9%) (Stewart-Knox et al., 2009). Ao comparar com os resultados do presente estudo verificamos uma concordância relativa ao interesse em comer com base no seu perfil genético. Consumidores com maior idade consideram menos apelativa uma análise ao ADN para além de informação Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 28 sobre o que a pessoa come e o exercício que faz, e os consumidores com menos idade estão mais interessados neste serviço. É de realçar que as idades dos participantes neste estudo estão compreendidas entre os 18 e os 65 anos. Um questionário aplicado na Suécia revelou que 65% dos entrevistados estariam dispostos a submeter os seus filhos menores de idade a um teste genético, e que os participantes mais jovens, com idades entre os 16 e 45 anos, estavam interessados num aconselhamento de nutrição personalizada com base em testes genéticos do que os participantes com mais idade, entre os 46 e 79 anos (Ahlgren et al., 2013). Mais uma vez verifica-se concordância de resultados entre este estudo e o presente estudo, isto é, os participantes com menos idade são os que consideram existir mais benefícios relativos à nutrição personalizada e consequentemente são os que consideram mais apelativa uma análise ao ADN para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz. Por outro lado, são esses mesmos participantes com menos idade que consideram haver mais riscos referentes à nutrição personalizada, ou seja, pode-se concluir que existe uma discrepância entre resultados relacionados com a idade, pois os participantes com uma idade menor são os que consideram existir mais benefícios mas também os que consideram existir mais riscos e apesar disso são esses que acham mais apelativo um teste genético, isto é, uma análise ao ADN. Um dos objetivos futuros de vários projetos e estudos em desenvolvimento é uma melhor compreensão sobre a posição dos consumidores relativamente aos três tipos que a nutrição personalizada pode tomar: informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz; uma análise ao sangue para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz; e uma análise ao ADN para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz. Os resultados deste estudo permitem-nos concluir, através das características sociodemográficas, quais os consumidores que acham mais apelativo cada um dos tipos individualmente, de maneira a ser mais eficaz analisar o efeito e benefícios de cada tipo de nutrição e consequentemente orientar futuros estudos e métodos relativos à nutrição personalizada. Assim sendo, os resultados mostraram que os participantes que consideram mais apelativo o tipo de apenas informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz foram os consumidores portugueses do sexo feminino com um maior nível de Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 29 escolaridade. O tipo de nutrição relativo à análise de sangue para além de informação sobre o que a pessoa come e o exercício que faz é mais apreciado também por consumidores portugueses do sexo feminino mas com um menor rendimento anual. Verificou-se também que para este tipo houve diferenças significativas entre regiões, os Açores foram a região que mais apelativa acha este tipo de nutrição comparativamente ao Norte e Centro do país e Alentejo. Por fim, os resultados mostraram que não há diferenças entre sexos relativamente ao tipo referente à análise ao ADN para além de informação sobre o que comer e o exercício a fazer. Neste caso os consumidores que consideram este tipo mais apelativo são os que possuem também um menor rendimento anual e são residentes dos Açores. A região dos Açores considera mais apelativa este tipo de nutrição do que o Norte e Centro de Portugal, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. Os resultados observados, neste estudo, juntamente com os resultados da literatura mostram que a população em geral está muito recetiva a este novo tipo de nutrição, e que, no caso da população portuguesa, sempre que houve relação entre as atitudes da nutrição e as características sociodemográficas dos consumidores foi sempre uma associação positiva. Mulheres portuguesas com um maior rendimento e uma maior escolaridade apresentam atitudes mais favoráveis face à NP. Analisando os objetivos pretendidos para o presente estudo com os resultados obtidos conclui-se que foram atingidos. Os resultados demonstraram a intenção e preferência dos consumidores relativamente à informação da nutrição personalizada, assim como a posição dos consumidores face aos riscos e benefícios desta nutrição. Conseguiu-se também perceber qual o tipo de consumidores que estão mais informados sobre o tema e as suas características sociodemográficas. Em geral os consumidores portugueses mostram-se interessados na adoção de uma NP que indica o conhecimento do seu perfil genético. Atitudes dos consumidores portugueses face à nutrição personalizada FCUP/FCNAUP | 30 Capítulo 5 Bibliografia